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Direito Penal. Parte Geral. Prof. Gabriel Habib. 2018

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Portanto, trata-se de um meio necessário. O agente responde pelo crime-fim e o crime-
meio fica absorvido. É aqui que se estuda a expressão ante factum impunível. 
Outro exemplo fornecido pela doutrina é quando quero matar Lucas, então desferi 5 
facadas em sua barriga. Quando dou as facadas, estou executando o crime de homicídio 
(dolo), mas a execução configura crime de lesão corporal. 
Não há como matar sem lesionar neste caso, então o homicídio é o crime-fim e a lesão 
corporal é o crime-meio. Responderei pelo crime-fim e o crime-meio ficará absorvido. 
 
Que crime eu pratico se falsificar um documento? Falsificação de documento público ou 
particular (art. 297 e 298). Mas se o agente quer sonegar ISS (tributo municipal – 
alíquota do Município onde a PJ presta serviço) e coloca no contrato social que presta 
serviço no Município X, quando na verdade prestava serviço no Município Y, só porque 
em X a alíquota é menor, com fim de pagar menos imposto, que crime é esse? Inserir 
informação falsa em documento particular configura crime do art. 299, todavia o dolo 
do sujeito é praticar o crime do art. 1º, I, Lei 8.137 (sonegação fiscal). 
O MP não conseguiu reunir provas suficientes quanto à sonegação fiscal, então 
denunciou pelo art. 299 CP. 
 
 
 
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DIREITO PENAL | Teoria da Norma, Teoria do Crime e Teoria da Pena 
O dolo é de sonegar, o art. 299 foi o crime-meio, então a responsabilidade criminal é 
por sonegação fiscal. Não havendo provas suficientes, a solução é o trancamento da 
ação penal. A falsificação seria um ante factum impunível, pelo p. da consunção. 
Se não houver prova do crime-fim, não haverá denúncia por nada (o MP não pode 
denunciar pelo crime-meio). 
 
A pessoa desembarca no aeroporto do RJ cheia de muambas na mala e, na hora de 
preencher o formulário, declara que não está trazendo bens, apenas retornou com seus 
pertences. Depois o fiscal descobre os produtos. Você prestou declaração falsa para não 
pagar imposto de importação. A falsidade foi meio necessário para descaminho, é um 
ante factum impunível. Aplica-se aqui o p. da consunção. 
 
Progressão Criminosa 
Aqui também há dois tipos que aparentemente conflitam para incidir sobre um mesmo 
fato. 
O agente tem o dolo de praticar uma primeira infração penal (A). Cogita, prepara e 
executa essa ação penal (ingressa no ato executório da primeira infração penal, A). 
Durante a execução, o seu dolo muda e passa a ser o dolo da segunda infração penal 
(B). 
Cogita, prepara e executa um crime -> o dolo muda durante os atos executórios -> passa 
a ter dolo da 2ª infração penal -> executa e consuma a 2ª infração penal. 
Ex.: começo a torturar Fulano, com intuito de obter dele uma confissão (art. 1º, I, Lei 
9.455/97). Como ele não confessa, digo que ele resolve morrer e, com a mesma gilete 
que usava para torturá-lo, resolvo rasgar o pescoço dele. O dolo mudou, já que a morte 
não foi culposa. 
O agente responde pelo 2º crime. 
O crime pretendido não é meio necessário para o crime que acabou sendo praticado ao 
final. Aqui, há dois dolos: o inicial e outro que se desenvolve depois, ao longo da 
execução do primeiro crime. 
 
Pt. 04 
 
 
 
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DIREITO PENAL | Teoria da Norma, Teoria do Crime e Teoria da Pena 
 
 
Post Factum Impunível 
Os dois tipos penais potencialmente incidentes protegem o mesmo bem jurídico. 
A finalidade do Direito Penal é justamente proteger o bem jurídico, o que se faz 
mediante ameaça de uma sanção penal. 
Quando o agente pratica a 1ª infração penal, já causa uma lesão ao bem jurídico. O 
Direito Penal intervirá. Quando o agente pratica a 2ª infração penal, não causa nova 
lesão ao bem jurídico, porque o bem jurídico já foi lesionado quando foi praticado o 1º 
delito. 
Na prática do 2º delito, não há nova lesão ao bem jurídico, que já foi atingido na 1ª 
ação. 
Se não há lesão no 2º crime, o Direito Penal não intervirá, justamente porque não houve 
lesão ao bem jurídico. 
Para o Direito Penal, o 2º delito é um fato posterior impunível, ou seja, um post factum 
impunível, de forma que o agente responderá só pelo 1º crime. 
Ex.: agente que quebra um relógio depois de furtá-lo. 
 
Ex.: o agente falsifica documento público (art. 297) e depois o utiliza (art. 304). Ambos 
os crimes tutelam a fé pública. Nesse caso, o agente responde pelo falso e o uso será 
post factum impunível. 
Cogitação 
do crime 1 
Preparação 
do crime 1 
Execução do 
crime 1 
O agente 
muda de ideia 
O agente 
passa a 
executar e 
consuma o 
crime 2 
 
 
 
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DIREITO PENAL | Teoria da Norma, Teoria do Crime e Teoria da Pena 
Todavia, deve ser o mesmo bem jurídico. 
S. 17 STJ – os bens são diversos, porque o falso protege a fé pública e o estelionato 
protege o patrimônio. Se eu colocar bens jurídicos diferentes, saio do post factum 
impunível, podendo ser caso de ante factum impunível. 
 
 
Tipos mistos alternativos -> são os tipos que trazem vários verbos típicos. É um tipo 
penal com diversos verbos, como o tráfico de drogas (art. 33, Lei 11.343). Nesse caso, 
não ocorrem dois tipos conflitando, mas um único tipo com vários verbos. Não 
podemos falar que há conflito aparente de armas, porque não existem 2 tipos 
conflitando, mas um único tipo com vários verbos. 
O mesmo no tipo de induzir, instigar ou auxiliar alguém ao suicídio, que é um tipo 
misto alternativo (não há conflito aparente de normas). 
 
Aula 04 – 06/02/2015 – Pt. 01 
 
 
 
Princípio da 
Especialidade 
•Comparação 
abstrata dos tipos 
•Tipo especial 
(com elemento 
especializante) x 
tipo geral 
•Prevalece o tipo 
especial 
Princípio da 
subsidiariedade 
•Comparação no 
plano concreto 
•Tipo mais grave x 
tipo menos grave 
•Tipo menos grave 
(subsidiário) está 
contido no mais 
grave (principal) 
•Prevalece o tipo 
principal (+ grave) 
Crime Progressivo 
(Consunção) 
•Um único dolo, de 
praticar um crime. 
•Para praticar 
esse crime, é 
preciso passar 
por outro crime 
(que é ato 
preparatório) 
•Crime-meio x 
crime-fim 
•O crime-meio fica 
absorvido pelo 
crime-fim (fala-se 
em ante factum 
impunível) 
Progressão 
Criminosa 
(Consunção) 
•Dolo de praticar 
uma infração 
penal. 
•No meio da 
execução desse 
crime, o agente 
muda o seu dolo, 
passando a 
querer crime 
diverso. 
• Inicia a execução 
do novo crime e o 
consuma. 
•São dois dolos 
diversos. 
•Só responde pelo 
2º crime. 
Post Factum 
Impunível 
(Consunção) 
•Os tipos 
protegem o 
mesmo bem 
jurídico. 
•A 1ª infração já 
lesa o bem 
jurídico. 
•A 2ª infração não 
enseja uma nova 
lesão, porque o 
bem já foi violado, 
sendo 
considerado 
irrelevante para o 
Dto. Penal. 
•O 2º crime é post 
factum impunível. 
 
 
 
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DIREITO PENAL | Teoria da Norma, Teoria do Crime e Teoria da Pena 
Lei Penal no Espaço 
Lugar do Crime 
Onde o crime se considera praticado? Se a conduta e o resultado ocorrem no mesmo 
local, não há maiores dificuldades. O problema surge quando a conduta ocorre num 
lugar e o resultado ocorre noutro. Ex.: o agente realiza a conduta aqui no Brasil, mas o 
resultado só é gerado no Uruguai. 
Para solucionar tais hipóteses, existem algumas Teorias: 
I. TEORIA DA ATIVIDADE -> local onde a conduta típica foi realizada. 
 
II. TEORIA DO RESULTADO -> o lugar do crime é onde ocorreu o resultado 
delituoso. 
 
III. TEORIA DA INTENÇÃO -> local onde o resultado deveria ocorrer de acordo 
com a intenção do agente. Essa teoria é muito criticada por não explicar os 
crimes culposos e nem os preterdolosos. 
 
IV. TEORIA DO EFEITO INTERMEDIÁRIO -> o lugar do crime é aquele onde 
a energia movimentada pela ação do agente alcança o bem jurídico ou a vítima. 
 
V. TEORIA DA UBIQUIDADE -> o local