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4Políticas Sociais e de Saúde (1)

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municípios buscam formas alternativas 
de contratação de pessoal, via cooperativas de trabalho ou 
através de empresas formadas especialmente a este fim. Esse 
processo está em curso no Brasil e tem gerado conflitos na 
gestão do trabalho e influenciado a qualidade dos serviços 
prestados à população. 
Conclusão
Um dos problemas mais importantes do sistema público 
de saúde hoje no Brasil é o subfinanciamento. O quadro 
dominante no grupo de países da OECD mostra o pro-
tagonismo acentuado do financiamento governamental na 
área da saúde. Para 2005, a média do gasto em proporção 
ao PIB foi de 9%, sendo a participação governamental de 
74% (OECD, 2007). O gasto brasileiro como proporção 
do PIB se aproxima ao desses países (8,4%). Mas a parti-
cipação governamental no total de gastos é de cerca 48%. 
Isso faz com que o Brasil seja talvez o único país no mundo 
ocidental com um sistema público universal e gastos públi-
cos inferiores aos do setor privado. Hoje, a lei garante que 
um percentual mínimo dos orçamentos dos três níveis de 
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governo seja obrigatoriamente aplicado em saúde. Contu-
do, esse percentual não tem sido suficiente para garantir as 
necessidades do sistema. 
A universalização do acesso pelo SUS se baseia na 
extensão da titularidade dos cidadãos aos serviços de saúde 
por meio do financiamento por impostos. O objetivo da 
inclusão social deveria ser consolidado por meio da cober-
tura universal e do acesso equitativo. A garantia do acesso 
é o elemento-chave para a realização dos direitos definidos 
constitucionalmente. Contudo, o processo de universali-
zação não se completou como previsto na Constituição, 
devido ao efeito conjugado de dois principais mecanismos: 
(i) a saída de camadas de renda altas e médias para o seguro 
privado; e (ii) o racionamento da oferta de serviços no sis-
tema público (RIBEIRO, 2004).
O setor privado de planos pré–pagos apresenta maior 
acessibilidade que o SUS, mas é bastante inequânime na 
utilização, já que esta depende do plano disponível – e, 
portanto, da capacidade de compra – e não da necessida-
de. A regulação desse setor, embora tenha avançado em 
relação à situação anterior, se restringe a preços e cesta de 
serviços e não incorpora aspectos da atenção à saúde nem 
mecanismos de integração com o sistema público. Como 
o setor atende a parcela importante da população, há uma 
fragmentação entre usuários do SUS e usuários de planos 
privados, que pode ter consequências futuras nos indica-
dores de saúde.
Do ponto de vista da gestão do sistema, as inovações 
na pactuação de recursos e serviços e na participação social 
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são marcantes. O SUS possui uma ampla e dinâmica rede 
de instâncias de gestão com participação de usuários, pres-
tadores de serviços e autoridades governamentais. Esses 
mecanismos foram replicados para diversas outras áreas da 
administração estatal e estão hoje consolidados no país. O 
sistema de saúde hoje é mais transparente e democrático; 
alcançou romper a dicotomia institucional e a centralização 
excessiva do sistema anterior à Constituição, incorporando 
os níveis subnacionais na arena decisória e de implementa-
ção de políticas. 
A descentralização possibilitou a ampliação da par-
ticipação estatal no controle e oferta dos serviços de saúde 
ao incluir os subníveis de governo, prefeituras em especial, 
como corresponsáveis pela saúde. Os municípios aumen-
taram os investimentos em saúde e, apesar das limitações 
técnicas, incrementaram sua capacidade de gestão. 
Apesar das restrições, o SUS representa uma ampla 
política de inclusão social. A abrangência de serviços é sig-
nificativa e em algumas áreas, como na atenção à AIDS, 
transplantes e hemodiálise, por exemplo, o SUS apresenta 
resultados superiores aos da maior parte dos países da Amé-
rica Latina. 
Apesar da potência das mudanças levadas a cabo 
nos últimos anos no sistema de saúde brasileiro, a políti-
ca de saúde ainda tem que avançar. Como apontamos no 
início da apostila, a política social não diz respeito apenas 
aos pobres, mas ao conjunto de cidadãos de uma dada co-
munidade ou país. A política de saúde demonstra isso, na 
medida em que deve se responsabilizar por um direito hu-
mano básico, que é ter condições de viver com saúde e ter 
atendimento garantido em situação de adoecimento. E essa 
é uma responsabilidade de todos, governo, setor privado, 
profissionais e população. 
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