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AULA 5 COMPORTAMENTO HUMANO NAS ORGANIZAÇÕES Prof. Dori Luiz Tibre Santos 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula, abordaremos um tema de relevada importância no meio organizacional (e também social): a liderança. Os líderes são natos ou formados? Como sabemos que estamos na presença de um líder? Quais são as diferenças, se é que existem? Algumas características são natas, porém precisam ser trabalhadas. Um líder tem uma opinião destacada e qualificações, que podem ser de seu perfil ou desenvolvidas. Como afirma Schiochet (2017): A liderança é, na falta de uma palavra melhor, uma característica que pertence a um ser e não resulta de uma aprendizagem? Os líderes nascem como tais ou são feitos? Qualquer um pode ser um líder? Há um truque especial para isso ou um estilo particular? Existe algo que se pudéssemos aprender transformaria nossas vidas? Como se pode observar, o tema é altamente sugestivo. CONTEXTUALIZANDO Você alguma vez já parou para definir o que é liderança? A expressão se tornou comum nos dias de hoje, mas na verdade pouquíssimas pessoas conseguem defini-la. Parece que virou moda falar em liderança. Seja no ambiente empreendedor, corporativo, político ou mesmo pessoal, a palavra vem coberta de uma aura de valor que deixa a todos encantados. Saiba mais Há inúmeros vídeos na internet que retratam bem o que é uma liderança. Mas separamos um em específico. Acesse o link a seguir para conhecer um vídeo que mostra um belo exemplo de liderança e trabalho de equipe: <https://www.youtube.com/watch?v=gkSaWcmF2Y4> Mas, afinal de contas, o que é liderança de verdade? Será que existe apenas um tipo de liderança ou ela se manifesta de maneiras diferentes em função de determinadas situações com as quais as pessoas se deparam? TEMA 1 – O QUE É LIDERANÇA? De acordo com Robbins (2010, p. 358-359), a “liderança e administração são dois termos que costumam ser confundidos.” Qual é a diferença entre eles? 3 Robbins (2010, p. 358-359) cita o seguinte caso: John Kotter, professor da Harvard Business School, argumenta que a administração diz respeito ao gerenciamento da complexidade. A boa administração traz ordem e consistência por meio da elaboração de planos formais, do projeto de estruturas organizacionais rígidas e da monitoração dos resultados. A liderança, por sua vez, diz respeito ao gerenciamento da mudança. Os líderes estabelecem direções por meio do desenvolvimento de uma visão do futuro, depois, engajam as pessoas, comunicando-lhes essa visão e inspirando-as a superar os obstáculos. Podemos entender liderança como a capacidade de influenciar um conjunto de pessoas para alcançar metas e objetivos. Para Wagner III e Hollenbeck (2012, p. 307), liderança “é entendida como o uso de influência simbólica e não coercitiva para dirigir e coordenar as atividades dos membros de um grupo organizado para a realização de objetivos deste grupo.” Corroborando essa ideia, Fiorelli (2000) entende que liderança é a capacidade que algumas pessoas possuem de conseguir que outras, de modo espontâneo, ultrapassem o estabelecido formalmente. É a capacidade de tomar iniciativas em situações sociais de planejar, organizar a ação e de suscitar colaboração. Aqui convém, de acordo com Fiorelli (2000, p. 45), distinguir líder e chefe: um grupo, sem alguém que o conduza, torna-se fonte de anarquia, de desunião e dificilmente chegará a qualquer lugar ou concluirá com êxito qualquer trabalho. Sem um chefe, o grupo é um corpo sem cabeça, que independente da boa vontade de cada integrante, cujo esforço, inclusive poderá ser oposto ao de outrem, queima esforços desnecessariamente, esforços que poderiam ser empregados proveitosamente em benefício do conjunto, bastando que alguém do grupo adotasse a iniciativa de coordenar o empenho comum na direção desejada É evidente que, quanto maior o desafio no grupo, quanto mais específico for, maiores serão as exigências para os seus componentes e, portanto, maiores e melhores qualificações serão requeridas do seu chefe. Quando abordamos a figura do chefe como aquele que deve interpretar, defender e realizar uma tarefa à frente de um grupo, devemos entender a autoridade daquele que é o portador do direito de exercer um papel proeminente na condução do seu grupo. Contudo, se o exercício coloca uma pessoa em destaque, tal honra é acompanhada pelo ônus da responsabilidade, o que exige da autoridade um nível de compreensão quanto aos seus direitos e deveres. 4 Fiorelli (2000, p.46) enfatiza que “o exercício da chefia é uma prerrogativa de um cargo, muitas vezes independe da capacidade de seu detentor, visto que o direito de comandar é um mandato recebido legalmente”. Porém, é claro que um chefe não cumprirá bem o seu papel a não ser que desenvolva em si próprio as qualidades que o tornarão um indivíduo digno do seu título, que o tornarão um líder. Em resumo, como afirma Faria (1991, p. 15), “chefiar é simplesmente fazer um grupo funcionar para que sejam atingidos determinados objetivos. Enquanto que liderar é mais do que isso, é a habilidade exercer influência e ser influenciado pelo grupo, através de um processo de relações interpessoais adequadas para a consecução de um ou mais objetivos comuns a todos os participantes. Liderar é engajar-se em um ato que inicia uma estrutura nas interações como parte do processo de solucionar um problema mútuo.” TEMA 2 – TRAÇOS DO LÍDER Ao longo da história da humanidade, grandes líderes como Churchill, Buda, Gandhi, Moisés, Lincoln, Luther King, Mandela, Jobs, Napoleão, entre outros, foram descritos com base em seus traços de personalidade. Em outras palavras, os traços de liderança focam essas qualidades e características pessoais. De acordo com Wagner III e Hollenbeck (2012, p. 309), as habilidades técnicas e específicas e o conhecimento das tarefas também mostram modesta relação com o sucesso na liderança, especialmente nos níveis mais baixos da organização. Saber como conseguir a tarefa feita, e talvez ser a pessoa mais qualificada com respeito a ela, ajuda na emergência da liderança no começo. Para Robbins (2010, p. 361), “ao contrário da amabilidade e da estabilidade emocional, a conscienciosidade e a abertura a novas experiências também se mostraram fortemente associadas à liderança, mas essa relação não era tão forte quanto com a extroversão”. Em outras palavras, a necessidade de se entender os traços dos líderes, também chamada de Teoria dos Traços, ressalta a importância de identificar os líderes através dos traços da personalidade. Ainda em Robbins (2010, p. 361), outro traço que pode indicar uma liderança eficaz é a inteligência emocional (IE). Aqueles que defendem a IE dizem que, sem ela, uma pessoa pode ter uma educação notável, um pensamento bastante analítico, uma visão convincente e uma fonte inesgotável de ideias 5 geniais, mas mesmo assim, ainda não ser necessariamente um grande líder. A questão levantada pelo autor pode ser compreendida mais facilmente se entendermos que, para que exista uma IE, um componente essencial é a empatia, conforme ressalta Robbins (2010, p. 361), “os líderes que têm empatia podem perceber as necessidades e sentimentos dos outros, ouvir o que os liderados têm a dizer (e o que não dizem) e compreender suas reações”. Afinal, o mero fato de alguém se importar com você costuma ser frequentemente recompensado com a lealdade. Para Hanashiro (2008, p.281), podemos chegar a duas conclusões: A primeira é que os traços de personalidade podem auxiliar na identificação da liderança. A segunda conclusão é que os traçosfuncionam melhor para prever o surgimento da liderança do que para distinguir entre líderes eficazes e ineficazes. O fato de um indivíduo apresentar determinados traços e ser considerado um líder pelos demais não significa, necessariamente, que será bem-sucedido em liderar seu grupo no alcance dos objetivos. TEMA 3 – ESTILO DE DECISÃO DOS LÍDERES Embora o assunto discutido anteriormente estivesse voltado para os traços pessoais do líder, também existem outros trabalhos na área de liderança concentrada mais especificamente no modo como os líderes tomam decisões e o efeito que isso produz nos índices de produtividade e satisfação geral dos subordinados. Convém, antes, diferenciar líderes ressoantes de líderes dissonantes. De acordo com Faria (1991, p.155), o líder ressonante é empático e expressa esse sentimento ao grupo. Esse tipo de ressonância reforça a sincronia da equipe fazendo com que as pessoas sintam-se compreendidas (valorizadas) e compromissadas com suas atividades profissionais compartilhando ideias, aprendendo uns com os outros, tomando decisões de maneira colaborativa. A seguir, no quadro, temos exemplos de líderes ressoantes. 6 Quadro 1 – Exemplos de líderes RESSOANTES DISSONANTES Visionário Agressivo Conselheiro Despótico Agregador Autocrático Empreendedor Arrogante Democrático Carismático Servidor Fonte: Elaborado pelo autor com base em Faria (1991, p. 156). Pode-se observar que, nos itens ressoantes, o autor enfatiza características de líderes que enfatizam o lado agregador da equipe, que estão preocupados com o outro, enfatizando uma relação de empatia. Já nos itens dissonantes, não vemos, como características, essas preocupações. Ao contrário do ressonante, Faria (1991, p. 155) ensina que o líder dissonante não só é desprovido de empatia, como não transmite confiança nos atos e nas palavras que professa, visa benefício próprio e não coletivo. Pode parecer eficaz em curto prazo, mas suas atitudes desmentem seu aparente sucesso. Esse líder ressoa exclusivamente o lado negativo do aspecto emocional, estimulando o lado negativo do conflito e, mais cedo ou mais tarde, acaba por contagiar e exaurir as pessoas, gerando conflitos ingerenciáveis. Um exemplo de líderes dissonantes são os chefes com os quais todos têm horror de trabalhar e resistem em trocar ideias ou “despachar” o expediente. Podemos ver exemplos no Quadro 1. Mas voltemos aos estilos de liderança. O primeiro a ser visto é o líder liberal. Segundo Wagner III e Hollenbeck (2012, p. 310), “o líder liberal deixa que o grupo por si só faça o que quiser, e muita gente considera isso uma abdicação da liderança”. Esse modelo de liderança falha em conseguir resultados positivos para o grupo em termos de desempenho ou satisfação. O segundo modelo é o líder autoritário. Segundo Faria (1991, p.155), a liderança autoritária “baseia-se na força direta ou em alguma forma de coação, sendo o medo o principal componente que mantém o controle dos liderados. O subordinado é dominado por suas fraquezas.” 7 Já Wagner III e Hollenbeck (2012, p.310) afirmam que o líder autoritário é quase o oposto do líder liberal e toma praticamente todas as decisões por si mesmo. Os membros de grupos de liderados por líderes autoritários podem ser altamente produtivos. Quando deixados sozinhos, esses grupos tendem a desacelerar ou param de trabalhar juntos. Em contraste, temos o líder democrático. Este trabalha com o grupo para ajudar seus membros a tomarem suas próprias decisões, conforme afirmam Wagner III e Hollenbeck (2012, p. 310): “Resultados de estudos sobre estilos de decisão dos líderes sugerem que a maioria dos grupos prefere o líder democrático àqueles que empregam estilos alternativos.” Schiochet (2017) destaca o seguinte: “Resulta do consenso dos companheiros, representa o grupo através de uma opção livre, em que o líder configura o direito de escolher, a confiança e as esperanças do grupo ou da equipe, sendo o elemento mais qualificado para levá-los à realização.” Para Faria (1991, p. 153), a liderança democrática baseia-se na capacidade de representar o grupo através de uma opção livre, em que o líder configura o direito de escolher, também a confiança e as esperanças do grupo ou da equipe, como sendo elemento mais qualificado para levá-la à realização de seus objetivos. Esta liderança resulta do consenso dos companheiros que, depois de avaliarem a potencialidade dos membros do grupo para enfrentar o principal problema que mantém os elementos participantes unidos, elege o seu condutor e passa a apoiá-lo com a verdadeira esperança de melhoria. Digno de nota, Faria (1991, p. 155) faz uma consideração sobre outro tipo de liderança, a carismática. Ele afirma que: Fundamenta-se na atuação de um líder com uma personalidade marcante, capaz de levar o grupo a supor que ele tem poderes excepcionais. Induz os seus seguidores a terem uma confiança sem lógica na sua capacidade de enfrentar e resolver certos problemas. O carisma parte da própria pessoa do líder, de seu comportamento configurando qualidades reais ou representadas, que são admiradas e seguidas por muitos; tendo em contraposição a capacidade de criar inimigos, que não acreditam em seus poderes e o julgam um farsante perigoso e mistificador. Por fim, Faria (1991, p. 156) também chama a atenção para a liderança situacional. Segundo ele, É aquela que sai de uma situação normal, exigindo assim, determinado padrão do líder para enfrentar os novos problemas que surgiram diante de uma situação difícil, diferente da anterior, para a qual os líderes existentes não podem apresentar solução viável aparecendo a necessidade de um novo, capaz de enfrentar a situação. 8 Veja o resumo no quadro a seguir. Quadro 2 – Tipos de liderança TIPO CARACTERÍSTICA Liberal Deixa que o grupo por si só faça o que quiser, e muita gente considera isso uma abdicação da liderança Autoritário Baseia-se na força direta ou em alguma forma de coação, sendo o medo o principal componente que mantém o controle dos liderados. O subordinado é dominado por suas fraquezas Democrático Trabalha com o grupo para ajudar seus membros a tomarem suas próprias decisões, Carismático Fundamenta-se na atuação de um líder com uma personalidade marcante, capaz de levar o grupo a supor que ele tem poderes excepcionais. Situacional É aquela que sai de uma situação normal, exigindo assim, determinado padrão do novo líder, capaz de enfrentar a situação. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Faria (1991, p. 157). Os tipos citados no quadro acima enfatizam os mais diferentes modelos de liderança. Esses modelos encontram-se em gestores, políticos e em qualquer pessoa que tenha a responsabilidade de gerir grupos. TEMA 4 – LIDERANÇA TRANSACIONAL E LIDERANÇA TRANSFORMACIONAL Os líderes transformacionais podem ser caracterizados por seus traços, comportamentos e estilos decisórios. De acordo com Wagner III e Hollenbeck (2012, p. 313): Em termos de traços, os líderes transformacionais são chamados líderes carismáticos por causa da centralidade desse traço para sua eficácia e também pela tendência de confiarem em apelos emocionais moralistas, mais do que em apelos financeiros, instrumentais ou calculistas, que tender a ser aplicados mais pelos líderes transacionais. Em relação a comportamentos, de acordo com Wagner III e Hollenbeck (2012, p. 313): os líderes transformacionais também despertam a consciência dos seguidores para a importância das metas do grupo e aumentam o grauem que os colaboradores se identificam com essas metas. Eles ainda 9 ‘aumentam as apostas’ para o desempenho organizacional ao convencerem os subordinados da importância dos valores e da visão do líder e também dos perigos do desvio dessa visão. Já os líderes transacionais estão menos interessados em inspirar seguidores do que em garantir que suas organizações operem de forma eficiente e eficaz. Para Fiorelli, (2000, p. 74), Os líderes transacionais típicos estão sempre preocupados com o aumento de vendas, com a participação de mercado e lucros, em vez de se concentrar em “transformar a organização”. Continuam a operar suas organizações no compasso da tradição histórica, o que resulta em melhorias cada vez maiores (sem drama). Isso não quer dizer que a organização não precise dos líderes transacionais. Para Schiochet (2017), a liderança transacional é: Diferente dos demais tipos de gestão organizacional, seu foco constante é apenas nos resultados. Para isso, usa da estratégia de recompensar ou punir os profissionais por seus acertos e falhas. Com tal, a liderança transacional empenha-se apenas em fazer com que as metas sejam alcançadas, mas não se preocupa em motivar, inspirar, desenvolver ou engajar sua equipe. Podemos dizer que se fosse uma estrada, este modelo seria um caminho em linha reta, pois não permite que os profissionais saiam da caixa, apenas que cumpram especificamente as tarefas que lhe foram demandadas e mantenham seu foco no que o líder decreta como o objetivo principal. Nos momentos de crise e de grandes desafios para a empresa, é considerada uma excelente alternativa para resolver os problemas como mais rapidez e efetividade. Podemos visualizar, resumidamente, as diferenças no quadro a seguir: Quadro 3 – Liderança transacional e transformacional Tipo Característica Liderança transacional Os administradores utilizam a autoridade de seu cargo para trocar recompensas como pagamento e status pelos esforços de trabalho dos funcionários. Liderança transformacional Os administradores inspiram o envolvimento em uma missão, oferecendo aos seguidores um “sonho” ou “visão” de uma ordem mais alta que a realidade presente desses seguidores. Os membros da organização são “transformados”, ficando mais cientes da importância de suas tarefas e sendo ajudados a transcender seus interesses próprios pelo bem da missão organizacional. Fonte: Elaborado pelo autor com base em Fiorelli (2000, p. 75). 10 Essa visão e a ênfase na mudança distinguem os líderes transformacionais dos transacionais. Os primeiros fazem isso criando uma forte identificação entre o líder e o seguidor, aumentando a força da ligação entre os próprios seguidores, melhorando assim a coesão do grupo e a autoeficácia coletiva. Ou seja, conduzindo suas organizações para um futuro que pode resultar em processos e níveis de desempenho significativamente diferentes. Marques (2016) afirma que: O líder transformacional compreende a importância do seu papel como agente de mudanças organizacionais e sociais. Por isso, não foge de suas responsabilidades e procura oferecer a seus liderados conhecimentos e experiências profissionais e pessoais, instruindo e fazendo com que todos sejam pessoas e colaboradores melhores. Esse tipo de líder é aquele que sabe a hora de botar a mão na massa e o momento em que deve delegar as tarefas. Isso não significa apenas distribuir os afazeres, mas encontrar quem é a pessoa ideal para realizar cada tarefa, compreendendo as habilidades e competências de cada colaborador. O líder transformacional também estimula o sentimento de propósito nas pessoas, para que se sintam pertencentes ao processo de construção de resultados, sejam motivadas pela visão e os valores da empresa a dar o seu melhor e irem além. Contudo, Robbins (2010, p. 376) nos chama a atenção sobre esse tipo de liderança: a liderança transformacional não é igualmente eficaz em todas as situações. Ela possui um impacto maior quando exercida em níveis hierárquicos inferiores de pequenas empresas privadas do que em organizações maiores e mais complexas. A natureza pessoal da liderança transformacional parece ser mais eficaz quando os líderes interagem diretamente com os trabalhadores do que quando se limitam a relatar suas ações a um conselho de diretores externos ou lidam com uma estrutura burocrática complexa. TEMA 5 – ÉTICA E CONFIANÇA Apenas muito recentemente os pesquisadores começaram a considerar as implicações éticas da liderança. Por que agora? Segundo Robbins (2010, p. 378), uma razão pode ser o crescente interesse pela ética em todas as áreas da administração, como pode ser confirmada por uma pesquisa realizada com estudantes de administração e gestores no Brasil. As conclusões desse estudo sugerem uma tendência de maior valorização do papel da ética e da responsabilidade social por parte dos atuais e futuros executivos. A verdade é que ética e liderança cruzam-se em diversas conjunturas. De acordo com Robbins (2010, p.378), “Alguns líderes transformacionais foram 11 acusados de enaltecer a virtude moral ao mesmo tempo que tentam manipular as atitudes e o comportamento de seus liderados.” Os líderes carismáticos sem ética têm maior probabilidade de utilizar o carisma para aumentar seu poder sobre os liderados em proveito próprio. De acordo com Robbins, “os lideres éticos devem utilizar seu carisma de maneira socialmente construtiva, para servir aos outros. Os líderes que tratam seus liderados com imparcialidade, principalmente fornecendo informações honestas, regulares e corretas, são vistos como mais eficazes.” Nas organizações modernas, essa tarefa emocional e ética continua sendo a principal das muitas funções da liderança. trata-se da competência relativa à ética, ou seja, como os líderes lidam consigo próprios e com seus relacionamentos. Em consequência, uma das tarefas do líder é canalizar as emoções do grupo numa direção positiva e fiel aos objetivos comuns de seus membros, fazendo com que os meios utilizados para atingir suas metas sejam íntegros, que é quando se insere a questão da confiança. Segundo Fiorelli, (2000, p. 90): “a confiança é um estado psicológico que existe quando você concorda em se tornar vulnerável ao outro porque possui expectativas com relação ao modo como a situação vai se desenrolar”. Em outras palavras, ainda que o indivíduo não tenha controle total da situação, ele está disposto a se arriscar para que a outra pessoa lhe proporcione bons resultados. Conforme indica Robbins 2010, p.379): “a confiança é um atributo primário associado à liderança; trair a confiança pode ter efeitos adversos sérios sobre o desempenho do grupo”. Até porque os liderados que confiam em seu líder estão dispostos a se colocarem em vulnerabilidade em virtude das ações dele, certos de que seus direitos e interesses não serão prejudicados. No ambiente corporativo atual, como diz Robbins (2010, p. 380), “é caracterizado por rápidas reestruturações, por uma responsabilidade difusa e compartilhada e pela colaboração e pelo trabalho em grupo como paradigmas dominantes, [...] o que significa que estão fundamentalmente baseadas em relações de confiança”. Contudo é importante salientar que a confiança não está relacionada apenas ao líder, uma vez que as características dos liderados também influenciam o desenvolvimento da confiança. Autores anteriormente citados como Robbins (2010), Fiorelli (2000), Marques (2016) e Schiochet (2017) estão em sintonia ao afirmar que o tempo é o último ingrediente na “receita” de confiança; esta não é instantânea, pois 12começamos a confiar nas pessoas com base na observação de seu comportamento ao longo do tempo. Newstron (2008, p. 173) afirma que “os líderes precisam demonstrar que têm integridade, benevolência e capacidade em situações em que a confiança é importante, ou seja, situações em que poderiam se comportar de maneira oportunista ou desapontar os funcionários, mas não o fizeram”. Podemos visualizar o quadro a seguir, que trata de dimensões que fundamentam a confiança: Quadro 4 – Dimensões que fundamentam a confiança Integridade Refere-se à honestidade e à confiabilidade Consistência Está relacionada à segurança, previsibilidade, capacidade de julgamento que uma pessoa demonstra nas situações. Competência Engloba as habilidades e conhecimentos técnicos e interpessoais do indivíduo. Lealdade Disposição de proteger e defender uma outra pessoa. Abertura Você acredita que a outra pessoa tem total confiança em você? Fonte: Elaborado pelo autor com base em Robbins (2010, p. 380-381). Como dito anteriormente, é importante ressaltar que a confiança não está relacionada apenas ao líder, pois as características dos liderados também influenciam o desenvolvimento da confiança. FINALIZANDO Esta aula tratou de um tema amplo e complexo: a liderança. A partir da definição sobre o tema, discutimos de que forma ela é percebida na atualidade, principalmente no mundo corporativo e sob o aspecto do empreendedorismo. Em um mundo extremamente competitivo como o que vivemos hoje, a definição de liderança pode ser simplificada e traduzida apenas como resultados. Como afirma Newstron (2008, p.173): Isso até pode parecer uma definição simplista, mas na verdade o resultado engloba todos os conceitos anteriores. Independentemente do tipo de liderança exercida, Autocrática, Democrática ou Liberal, no final das contas somos sempre cobrados em função de resultados pois é isso que as empresas e sociedade buscam, e por isso mesmo é difícil encontrar bons líderes. 13 Dessa forma, precisamos estender o conceito de resultados para uma dimensão maior do que simplesmente números ou lucro. Entender o que é liderança é também entender o que são resultados para podermos trabalhar com uma dimensão bem maior do que simplesmente números. Como enfatiza Newstron (2008, p.173), “a Liderança Liberal seria o estado mais avançado desse processo, mas é muito raro conseguirmos atingir este patamar, pois ele exige um amadurecimento extremo do grupo envolvido, líder e liderados”. Neste estágio, os liderados já estão em um nível tal que o papel do líder é meramente de planejamento estratégico. Nesse momento é que surge o aspecto curioso do processo. Para atingir esse estado de amadurecimento, é preciso que os participantes também sejam, de certa forma líderes, só que em uma escala mais restrita. Newstron (2008, p. 174) afirma que os benefícios de uma Liderança Liberal ou até mesmo a Liderança Democrática, vão muito além dos resultados para a empresa ou sociedade. Esses benefícios incluem a satisfação dos elementos envolvidos nas ações, por poderem participar de forma ativa e contribuir de maneira estratégica para o resultado final. Foi-se o tempo em que, quando éramos perguntados sobre o que é liderança, a resposta imediata era “saber mandar”. Hoje, liderar é saber construir uma equipe, que é uma das principais características de um líder moderno. Por isso, o coaching de liderança ganha cada vez mais força entre os executivos. Por fim, a título de reflexão, atentemos aos seguintes princípios: Desconfiança destrói a confiança Confiança gera confiança O crescimento muitas vezes mascara a desconfiança A redução de pessoal testa o mais alto grau de confiança A desconfiança destrói o grupo A desconfiança geralmente reduz a produtividade 14 REFERÊNCIAS BOHLANDER, G.; SNELL, S. Administração de recursos humanos. São Paulo: Cengage Learning, 2010. BITENCOURT, C. Gestão contemporânea de pessoas: novas práticas, conceitos tradicionais. São Paulo: Artmed, 2005. CHIAVENATO, I. Gestão de pessoas: e o novo papel dos recursos humanos nas organizações. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. DEJOURS. C. O fator humano. Rio de Janeiro: FGV, 2007. _____. A loucura no trabalho. Rio de Janeiro: FGV, 2010. DRUCKER, P. O líder do futuro. São Paulo:Futura, 1997. DUBRIN, A. J. Fundamentos do comportamento organizacional. São Paulo: Pioneira, 2003. FARIA, A. N. de. Chefia e liderança. 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