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CAP.5 – TEORIA GERAL DOS CONTRATOS

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CC adota a dimensão concreta da boa-fé, como já fazia o CDC.
A boa-fé objetiva, conceituada como sendo a exigência de conduta leal dos contratantes, está relacionada com os deveres anexos ou laterais de conduta, que são ínsitos a qualquer negócio jurídico, não havendo sequer a necessidade de previsão no instrumento negocial. 
São considerados deveres anexos, entre outros: dever de cuidado em relação à outra parte negocial; dever de respeito; dever de informar a outra parte sobre o conteúdo do negócio; dever de agir confirme a confiança depositada; dever de lealdade e probidade; dever de colaboração ou cooperação; dever de agir com honestidade; dever de agir conforme a razoabilidade, a equidade e a boa razão.
A quebra desses deveres anexos gera a violação positiva do contrato, com responsabilidade civil objetiva daquele que desrespeita a boa-fé objetiva (enunciados 24 e 363).
O CC/02, em três dos seus dispositivos, apresenta três funções importantes da boa-fé objetiva:
1ª) função de interpretação (art. 113) – os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar de sua celebração.
2ª) função de controle (art. 187) – aquele que contraria a boa-fé objetiva comete abuso de direito. Lembrando que a quebra ou desrespeito à boa-fé objetiva conduz ao caminho sem volta da responsabilidade independentemente de culpa (enunciado 37). Não se olvide que o abuso de direito também pode estar configurado em sede da autonomia privada, pela presença das cláusulas abusivas.
3ª) função de integração – os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé. Trata-se da aplicação da boa-fé em todas as fases negociais (pré contratual, contratual e pós contratual) (enunciados 23 e 170).
Ainda quanto à função integrativa da boa-fé, é preciso estudar os conceitos de parcelares de boa-fé objetiva: supressio, surrectio, tu quoque, exceptio doli, venire contra factum proprium non potest, duty to mitigate the loss.
Tais construções teorias servem como uma luva para aplicação do enunciado 26: “a cláusula geral contida no art. 42 do novo código civil impõe ao juiz interpretar e, quando necessário, suprir e corrigir o contrato segundo a boa-fé objetiva, entendida como a exigência de comportamento leal dos contratantes”.
a) Supressio e surrectio
A supressio (verwirkung) significa a supressão, por renúncia tácita, de um direito ou de uma posição jurídica, pelo seu não exercício com o passar do tempo (seu sentido pode ser notado pelo art. 330).
Ao mesmo tempo em que o credor perde um direito por essa supressão, surge um direito a favor do devedor, por meio da surrectio (erwirkung), direito este que não existia juridicamente ate então, mas que decorre da efetividade social, de acordo com os costumes. A surrectio é o surgimento de um direito diante de praticas, usos e costumes.
Ambos são faces da mesma moeda, e representam forte mitigação da força obrigatória do contrato, em prol da boa-fé objetiva, da atuação concreta das partes.
b) Tu quoque
Significa que um contratante que violou uma norma jurídica não poderá, sem a caracterização do abuso de direito, aproveitar-se dessa situação anteriormente criada pelo desrespeito. 
Está vedado que alguém faça contra o outro o que não faria contra si mesmo (regra de ouro). Evita-se que uma pessoa que viole uma norma jurídica possa exercer direito dessa mesma norma inferido ou, especialmente, que possa recorrer, em defesa, a normas que ela própria violou.
c) Exceptio doli
Trata-se da defesa do réu contra ações dolosas, contrarias à boa-fé. A boa-fé objetiva é utilizada como defesa, tendo uma função reativa.
A exceção mais conhecida do direito civil brasileiro é a exceptio non adimpleti contractus, pela qual ninguém pode exigir que uma parte cumpra com a sua obrigação se primeiro não cumprir com a própria. A exceptio doli pode ser encontrada em outros dispositivos do CC, tais como arts. 175, 190, 273, 274, 281, 294, 302, 837, 906, 914 e 916.
d) Venire contra factum proprium
Significa que determinada pessoa não pode exercer um direito próprio contrariando um comportamento anterior, devendo ser mantida a confiança e o dever de lealdade, decorrentes da boa-fé objetiva. Relação com a tese dos atos próprios.
São apontados quatro pressupostos para a aplicação da proibição do comportamento contraditório: 1) um fato próprio, uma conduta inicial; 2) a legítima confiança de outrem na conservação do sentido objetivo dessa conduta; 3) um comportamento contraditório no sentido objetivo; 4) um dano ou um potencial de dano decorrente da contradição.
A jurisprudência brasileira vem aplicando amplamente a vedação do comportamento contraditório em demandas envolvendo o direito civil e o o direito do consumidor.
Ex: marido celebrou negócio sem outorga uxória, o que era motivo de nulidade absoluta na vigência do CC/16. A esposa, entretanto, informou em uma ação que concordou tacitamente com a venda. Dezessete anos após a sua celebração pretendeu a nulidade, o que foi afastado justamente pela presença de comportamento contraditório.
e) Duty to mitigate the loss
Trata-se do dever imposto ao credor de mitigar suas perdas, ou seja, seu próprio prejuízo. Diz o enunciado 169: “o princípio da boa-fé objetiva deve levar o credor a evitar o agravamento do próprio prejuízo”.
Decorre do dever de colaboração, que está presente em todas as fases contratuais. Há uma relação direta com o princípio da boa-fé objetiva, eis que a mitigação do próprio prejuízo constitui um dever de natureza acessória, um dever anexo, derivado da boa conduta que deve existir entre os negociantes.
“Os contratantes devem tomar as medidas necessárias e possíveis para que o dano não seja agravado. A parte a que a perda aproveita não pode permanecer deliberadamente inerte diante do dano”. (Informativo 439, STJ. Resp 758.518/PR, 3ª turma).
5. Princípio da relatividade dos efeitos contratuais
O contrato, como típico instituto de direito pessoal, gera efeitos inter partes, em regra. Contrapõe-se tal regramento, inerente ao direito obrigacional, à eficácia erga omnes dos direitos reais.
No entanto, é possível afirmar que o contrato também gera efeitos perante terceiros:
1ª exceção – a estipulação em favor de terceiro, hipótese em que um terceiro que não é parte do contrato, é beneficiado por seus efeitos, podendo exigir o seu adimplemento (arts. 436 a 438). 
2ª exceção – a promessa por fato de terceiro (arts. 439 e 440), em que determinada pessoa promete que uma determinada conduta seja praticada por outrem, sob pena de responsabilização civil. Se o terceiro pelo qual o contratante se obrigou comprometer-se pessoalmente, estará o outro exonerado de responsabilidade. A promessa pessoal substitui a promessa feita por um terceiro, havendo cessão da posição contratual, pois o próprio terceiro é quem terá a responsabilidade contratual.
3ª exceção – o contrato com pessoa a declarar ou com cláusula pro amico eligendo (arts. 467 a 471), em que pode uma das partes reservar-se à faculdade de indicar a pessoa que deve adquirir os direitos e assumir as obrigações dele decorrentes.
4ª exceção – a tutela externa do crédito ou eficácia externa da função social do contrato (art. 421).
A formação do contrato pelo código civil
É possível identificar quatro fases na formação do contrato civil: fase de negociações preliminares ou de puntuação; fase de proposta, policitação ou oblação; fase de contrato preliminar; fase de contrato definitivo ou de conclusão de contrato.
1. Fase de negociações preliminares ou de puntuação
É a fase em que ocorrem debates prévios, entendimentos, tratativas ou conversações sobre o contrato preliminar ou definitivo. 
Esta fase não está prevista no CC/02, sendo anterior à formalização da proposta. Também é denominada de fase de proposta não formalizada. Ex: cara de intenções assinada pelas partes, em que elas apenas manifestam sua vontade de celebrar um contrato no futuro.
Por não estar regulamentado

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