Prévia do material em texto
A existencia de meios de comunica<;ao capazes de colocar uma mensagem ao alcance de grande numero de individuos nao basta para caracterizar a existencia de uma Industria Cultural e de uma cultura de massa. A Industria Cultural e fruto da sociedade industrializada, de tipo capitalista liberal. Mais especificamente, porem, a industria cultural concretiza-se apenas numa segunda fase dessa sociedade, a que pode ser descrita como a do capitalismo de organiza<;ao(ou monopolista) ou, ainda, como sendo a sociedade dita de consumo. Considerada ainda como condi<;aopara a existencia dessa Industria uma oposi<;ao entre a cultura dita superior e a de massa, apesar dos equivocos envolvidos nessa divisao. Admitida essa divisao, pode-se falar na existencia de uma cultura superior, outra media (midcult) e uma terceira, de massa (masscult, inferior). A segunda distingue-se da terceira, basicamente, por sua pretensao de apresentar produtos que se querem superiores mas que sao, de fato, formas desbastadas daqueles. Ao pas so que a masscult se contenta com 0 fornecer produtos sem qualquer pretensao ou alibi cultural. :It possivel ainda, estabelecer-se uma oposi<;aoentre a cultura popular, entendida como soma dos valores ancestrais de urn povo, e a cultura dita pop, outra designa<;aode cultura de massa. Os mesmos excessos de valoriza<;aoda cultura superior, diante da de massa, tambem saDencontrados na defesa da popular diante da pop. Com seus produtos, a Industria Cultural pratica 0 refor<;odas normas sociais, repetidas ate a exaustao sem discussao. Em consequencia, uma outra fun<;ao: a de promover 0 conformismo funcional. Ela fabrica seus produtos cuja finalidade e a de serem trocados por moeda; promove a deturpa<;ao e a degrada<;aodo gosto popular; simplifica ao maximo seus produtos, a obter uma atitude sempre passiva do consumidor; assume uma atitude paternalista, dirigindo 0 consumidor ao inves de colocar-se a sua disposi<;ao. Ao lado da defesa da Industria Cultural esta a tese de que nao e fator de aliena<;ao na medida em que sua propria dinamica interior a leva a produ<;6es que acabam por beneficiar 0 desenvolvimento do homem. A favor desta ideia lembra-se, por exemplo que as crian<;as hoje dominam muito mais cedo a linguagem gra<;asa veiculos como a TV. 0 acumulo de informa<;aoacaba por transformar-se em forma<;aodos individuos, isto e, a quantidade provocando altera<;6es na qualidade. Ou que a Industria Cultural acaba por unificar nao apenas as nacionalidades mas tambem as proprias massas. Nao se sabe bem 0 que e massa. Ora e 0 povo, excluindo-se a classe dominante. Ora sao todos. Ou urn conjunto amorfo de individuos sem vontade. Pode surgir como urn aglomerado heterogeneo de individuos, ou como entidade absolutamente homogenea para outros. 0 resultado e que 0 termo "massa" acaba sendo utilizado quase sempre conotativamente (isto e, com urn segundo sentido) quando deveria se-lo denotativamente com urn sentido fixado, normalizado. Na verdade esta e uma questao urn tanto bizantina: essa cultura de ou para ou sobre a massa existe para quem se der ao trabalho de abrir os olhos. Havendo preconceito de classe diante das reais dificuldades metodol6gicas de delimita<;aodo conceito de massa, talvez seja melhor falar-se numa cultura industrial ou industrializada, particularmente quando se pretende atribuir a essa entidade urn valor negativo. Entao, podemos dizer que, industria cultural e tudo 0 que e produzido pelo sistema industrializado de produ<;aocultural (TV,radio, jornal, revistas, etc.) elaborado de forma a influenciar, aumentar 0 consumo, transformar habitos, educar, informar, pretendendo-se ainda, em alguns casos ser capaz de atingir a sociedade como todo. Assim, cada vez mais, a maquina da Industria Cultural, ao preferir a eficacia dos seus produtos, determina 0 consumo dos mesmos e exclui tudo 0 que e novo, tudo 0 que ela configura como risco. A identidade do dominio que a industria cultural exerce sobre os individuos, aquilo que ela oferece de continuamente novo nao e mais do que a representa<;ao, sob formas diferentes, de algo que e sempre igual; a mudan<;a oculta urn esqueleto, no qual muda tao pouco como no pr6prio conceito de lucro, deste que este adquiriu 0 predominio sobre a cultura. Urn desses tra<;os e relativo a homogeneiza<;aoda cultura atraves da industria cultural. No Brasil, porem, a cultura formada pela industria cultural esta longe de ser homogenea. As desigualdades gritantes na divisao da renda nacional impedem que se fale na existencia, de uma sociedade de consumo; ha bols6es de consumo, em certas regi6es, ao lado de grupos voltados para 0 subconsumo e de outros entregues ao desespero da simples sobrevivencia. Assim, mesmo que a industria cultural tenda a veicular uma cultura s6 para toda a sua audiencia, a disparidade entre os receptores e tamanha que essa cultura, embora tendendo para a uniformidade, nao pode deixar de apresentar vertentes diversas. A industria cultural apresenta, assim, fatias mais populares, ou "popularescas", e fatias mais eruditas, ou "erudicizantes". De urn lado, na TV, saDprogramas como os do "Silvio Santos, - Raul Gil; e outr~/os Concertos Internacionais e os raros programas de entrevistas ou debates, alem dos sempre abordados e eternamente retomados "Teatros na TV" . Urn outro tra<;o da industria cultura brasileira a ser destacado e 0 relativo a permea<;aoda cultura dela resultante por elementos de culturas e 0 conseqiiente fato de essa cultura da industria cultural nao tratar, como se afirma, de temas do cotidiano. Em rela<;ao a este ultimo ponto, diz-se que a industria cultural brasileira e, basicamente, a industria do divertimento, da distra<;ao, e nao da reflexao sobre 0 que acontece na vida diaria. Deve-se observar ainda que nao estamos distante assim dos temas do dia-a-dia e que ela se apresenta mesmo, guardadas as propor<;6es, como instrumento de combate contra aquela parte dela mesma voltada para a cultura estrangeira. Na verdade, e necessario reconhecer que, par mais bobos que possam ser, programas como os das novelas tern tudo para atrair grandes parcelas da popula<;ao (mesmo as que, nominalmente pelo menos, possuem forma<;ao universitaria) quando comparados com 0 cinema, particularmente 0 estrangeiro. E muito mais interessante, de fato saber se Renata vai ficar com Paulo ou com Joao, e se seu ex- marido vai ou nao conseguir tirar-Ihe a tutela da filha do que acompanhar as aventuras de urn John Wayne num distante Vietna E isto nao pur idealismo mas porqUt ela precisa vender seus produtos e, para tanto, precisa usar como chamariz algo que chegue mais perto das pessoas . Sabemos que a ideia de cultura evoca uma multiplicidade de caracteristicas, sendo impraticavel urn conceito univoco. Genericamente, podemos conceituar cultura como uma forma de manifesta98.0 da existencia humana enquanto criadora de bens, artefatos, mercadorias, formas de organiza98.0 coletiva, etc., alem de ser uma maneira de expressar, interpretar a "realidade". Para isso concorrem processos de simboliza90es de experiencias acumuladas a fim de que estas sejam transmitidas e reelaboradas. Neste sentido, cultura sinaliza uma dimens8.o universal e particular da especie humana: universal porque todo 0 ser humane pode potencialmente simbolizar, isto e, substituir urn objeto, uma vis8.o,urn fato, etc., par sentimentos, descri90es, significa90es, etc.; particular, porque cada sociedade human a elabora suas manifesta90es simb6licas a partir de experiencias objetivas, locais, regionais. De qualquer forma, cultura expressa sempre urn carater de processualidade hist6rica, criadora, transformadora, enfim, dinarnica dos processos globais das mais variadas sociedades humanas e do conjunto destas. Embora este conceito de cultura nao deixe de ser verdadeiro e se esforce em resguardar a ideia de uma universalidade fundante do ser humano como ser , elecorre 0 risco de desaguar num certo romantismo iluminista. Neste sentido, tambem corre 0 risco de legitimar formas culturais hegemanicas, totalizantes e diluir as diversas formas de manifesta90es culturais como subprodutos de culturas dominantes, como e 0 caso da polariza98.0 entre cultura erudita e cultura popular. Pois e born que se diga que esta separa98.0 entre 0 erudito e 0 popular foi obra das elites dominantes e espelha claramente 0 cerceamento ao povo, ao operario, ao agricultor, enfim, aos oprimidos, a cultura estabelecida. Espelha a sociedade de classes com a arrogancia dos poderosos e 0 desdem pelos que oprimem. Portanto, 0 conceito de cultura sempre esteve associado ao embate das rela90es entre as classes sociais e suas deriva90es S8.0de orienta98.0politica. Par outro lade, 0 conceito de cultura popular foi recodificado pelas classes dominadas e assumido como urn projeto de enfrentamento a inculca98.0 de valores perpetrados pelas classes dominantes. Assumindo agora como urn projeto revolucionario, 0 conceito de cultura popular passa a ter uma dimensao propositiva de transforma98.0 da realidade em contraposi98.0 a cultura erudita de manuten98.0 da "ordem" social. Se 0 projeto burgues e 0 da manipula98.0 e COOpta98.0par via de uma arte que considera universal, etnocentrica, legitima e superior, 0 projeto frutificado a partir da consciencia de classe dos oprimidos desagua em uma arte engajada nas lutas diarias para a sUpera98.0da opressao. Em nome de uma cultura superior muitas civiliza90es foram destruidas. Muitos povos foram sacrificados, escravizados, submetidos aos mais vis padecimentos; explorados e rebaixados a condi90es sub· humanas.