Prévia do material em texto
70 Robert S. Weinberg o Daniel Gould
D··_ an é co-capitão e meio-campista no time de futebol de uma escola de ensino médio. Seu time não tem . um talento excepcional, mas quando todos se es-
forçam ao máximo e jogam unidos, o time consegue acabar
a temporada bem posicionado. Entretanto, quando o recor-
de do time cai para menos de 0,500, Dan fica frustrado com
alguns de seus colegas que não parecem se esforçar tanto
quanto ele. Embora sejam mais talentosos do que ele, esses
jogadores não buscam desafios, não são tão motivados e,
na presença de adversidades, freqüentemente desistem. Dan
se questiona sobre o que pode fazer para motivar alguns de
seus colegas de time.
Como Dan, professores, técnicos e instrutores com
freqüência se perguntam por que alguns indivíduos são
altamente motivados e lutam constantemente por sucesso,
enquanto outros parecem não ter motivação e evitar ava-
liação e competição. De fato, os técnicos freqüentemente
tentam motivar atletas com slogans inspirativos: "Vence-
dores nunca desistem!" "Dê tudo ou vá para casa'" "Dê
110%!".
Os professores de educação lisica também querem mo-
tivar crianças pouco ativas -que, com freqüência, parecem
mais interessadas em videogames do que em voleibol. Os
instrutores e fisioterapeutas rotineiramente enfrentam o de-
safio de motivar os clientes a continuarem praticando um
exercício ou programa de reabilitação.
Embora a motivação seja fundamental para o sucesso de
todos esses profissionais, muitos não entendem bem a ques-
tão. Ter sucesso corno professor, técnico ou instrutor requer
um entendimento completo sobre a motivação, incluindo os
fatores que a afetam c os métodos para intensificá-la em
indivíduos e em grupos. Em geral, a capacidade de motivar
pessoas, mais do que o conhecimento técnico de um esporte
ou de uma atividade física, é o que separa os instrutores
muito bons dos instrutores médios.
Neste capítulo, você será apresentado ao tema "mo-
tivação".
DEFININDO MOTIVAÇÃO
A motivação pode ser definida simplesmente como a di-
reção e a intensidade de nossos esforços (Sage, 1977). Os
psicólogos do esporte e do exercício podem considerar a
motivação a partir de diversos pontos de vista específi-
cos, incluindo a motivação para realização, motivação na
forma de estresse competitivo (ver Cap. 4) e motivações
intrínseca e extrínseca (ver Cap. 6). Todas essas diver-
sas formas de motivação são elementos da definição mais
geral de motivação. Conseqüentemente, entendemos as
especificidades da mo ti v ação por meio desse contexto
mais amplo, holístico, muito como um técnico de futebol
observa jogos específicos do ponto de vista de um plano
mais amplo ou de uma filosofia ofensiva ou defensiva.
Mas o que exatamente estes componentes de motivação
- direção do esforço e intensidade do esforço - signi-
ficam'~
• A direção do esforço refere-se ao fato de um in-
divíduo procurar, se aproximar ou ser atraído por
certas situações. Por exemplo, um aluno de ensino
médio pode ser motivado a entrar na equipe de tê-
nis; um técnico, a freqüentar uma clínica de trei-
namento; uma executiva, a entrar em uma aula de
aeróbica ou um atleta lesionado, a procurar trata-
mento médico.
• A intensidade do esforço refere-se a quanto esfor-
ço uma pessoa coloca em determinada situação.
Por exemplo, um aluno pode comparecer à aula
de educação física (se aproxima de uma situação),
mas pode não se esforçar muito durante a aula. Por
outro lado, um golfista pode querer tanto dar uma
tacada certeira que se toma excessivamente motiva-
do, fica tenso e se sai muito mal. Finalmente, uma
levantadora de peso pode treinar quatro dias por
semana como suas amigas e, contudo, diferir delas
em termos do tremendo esforço ou intensidade que
ela coloca em cada treino.
>- Motivação consiste na direção e na intensidade do
esforço.
RELAÇÃO ENTRE DIREÇÃO E
INTENSIDADE
Embora para fins de discussão seja conveniente separar a di-
reção da intensidade do esforço, para a maioria das pessoas
direção e intensidade do esforço estão estreitamente rela-
cionadas. Por exemplo, os alunos ou atletas que raramente
perdem uma aula ou um treino e que sempre chegam cedo
em geral despendem grande esforço durante a participação.
Ao contrário, aqueles que freqüentemente chegam atrasa-
dos e perdem ~rmitas aulas ou treinos em geral demonstram
pouco esforço quando estão presentes.
PROBLEMAS COM
DEFINIÇÕES AMBÍGUAS DE
MOTIVAÇÃO
Embora tenhamos definido motivaÇão usando os termos de
intensidade e direção de Sage, o termo motivação é usado
das mais variadas formas na vida cotidiana. O termo é fre-
qüentemente definido de maneira muito vaga ou mesmo
não definido. Ele é usado livremente em qualquer uma das
seguintes circunstâncias:
s
)
I.
11
e
o
o
s
•
j
~
l
I
I
• Como uma característica de personalidade interna
(p. ex., Ela é uma pessoa altamente motivada- uma
verdadeira "pegadora").
• Como uma influência externa (p. ex., Preciso de
algo para me motivar, para me fazer continuar no
programa de corrida).
• Como uma conseqüência ou explicação para nos-
so comportamento (p. ex., Eu simplesmente queria
muito aquilo c estava muito motivado).
Definições vagas de motivação e o uso do termo de tan-
tas maneiras diferentes têm duas desvantagens. Primeiro,
se os técnicos e professores dizem aos alunos ou atletas
que eles precisam de mais motivação sem explicar o que
especificamente significa o termo, o aluno ou atleta terá que
deduzir o significado. Isso pode facilmente levar a mal-en-
tendidos e conflitos. Um instrutor, por exemplo, pode dizer
a seus alunos que eles precisam ficar "mais motivados" se
quiserem alcançar os níveis desejados de condicionamento
físico, querendo dizer que os alunos precisam estabelecer
metas e se esforçar mais para atingi-las. Entretanto, um alu-
no com baixa auto-estima poderia erroneamente interpretar
as observações do instrutor como uma descrição de sua per-
sonalidade (p. ex., Eu sou preguiçoso e não me importo), o
que pode afetar negativamente o envolvimento do aluno.
Segundo, como profissionais, criamos estratégias ou
técnicas específicas para motivar os indivíduos, mas po-
demos não entender como essas várias estratégias intera-
gem. No Capítulo 6, você aprenderá como recompensas
extrínsecas, tais como troféus e dinheiro, podem, às vezes,
ter efeitos positivos muito fortes na motivação de indiví-
duos; essas estratégias, porém, podem freqüentemente ter
o resultado oposto e produzir efeitos negativos sobre a
motivação, dependendo de como as recompensas externas
são usadas.
REVISANDO TRÊS
ABORDAGENS SOBRE
MOTIVAÇÃO
Cada um de nós desenvolve uma visão pessoal de como a
motivação funciona, uma teoria sobre o que motiva as pes-
soas. Provavelmente, fazemos isso descobrindo o que nos
motiva e observando como outras pessoas são motivadas.
Por exemplo, se uma pessoa tem um professor de educação
física de quem gosta c acha que ele é bem-sucedido, ela
provavelmente tentará usar ou imitar muitas das mesmas
estratégias motivacionais que o professor usa.
Além disso, as pessoas freqüentemente representam
suas visões pessoais de motivação, tanto de modo cons-
ciente como subconsciente. Um técnico, por exemplo, pode
Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício 71
fazer um esforço consciente para motivar os alunos dando-
lhes feedback positivo e encorajamento. Um outro técnico,
acreditando que as pessoas são as principais responsáveis
por seus próprios comportamentos, pode passar pouco tem-
po criando situações que aumentem a motivação.
Embora haja milhares de visões individuais, a maioria
das pessoas encaixa seu conceito de motivação em uma das
três orientações gerais que fazem parte das abordagens à
personalidade discutidas no Capítulo 2.Estas incluem a
orientação de motivação centrada no traço, a orientação
centrada na situação e a orientação interacional.
VISÃO CENTRADA NO TRAÇO
A visão centrada no traço (também chamada de visão
centrada no participante) afirma que o comportamento
motivado se dá principalmente em função de característi-
cas individuais. Ou seja, a personalidade, as necessidades
e os objetivos de um aluno, atleta ou praticante de exer-
cícios são os determinantes principais do comportamento
motivado. Portanto, os técnicos freqüentemente descrevem
um atleta como um "verdadeiro vencedor", querendo dizer
que esse indivíduo tem uma constituição pessoal que lhe
permite sobressair-se nos espmtes. Do mesmo modo, outro
atleta pode ser descrito como um "perdedor" sem energia
e entusiasmo.
Algumas pessoas têm atributos pessoais que parecem
torná-las mais predispostas ao sucesso e a altos níveis de
motivação, enquanto outras parecem não ter motivação, ob-
jetivos pessoais e desejo. Entretanto, a maioria de nós con-
cordaria que somos em parte afetados pelas situações nas
quais somos colocados. Por exemplo, se um professor não
criar um ambiente de aprendizagem motivador, a motivação
do aluno, em conseqüência disso, diminuirá. Inversamente,
um excelente líder, que cria um ambiente positivo, aumenta
enormemente a motivação. Portanto, ignorar as intluências
ambientais sobre a motivação é irreal, sendo uma das ra-
zões pelas quais os psicólogos do esporte e do exercício não
têm adotado a visão centrada no traço para orientar a prática
profissional.
VISÃO CENTRADA NA
SITUAÇÃO
Em contraste direto com a visão centrada no traço, a visão
centrada na situação afirma que o nível de motivação é
determinado principalmente pela situação. Por exemplo,
Brittany poderia se sentir realmente motivada em sua aula
de aeróbica, mas desmotivada em uma situação esportiva
competitiva.
Provavelmente você concorda que a situação inJluen-
cia a motivação, mas pode lembrar também de situações
7 2 Robert S. Weinberg • Daniel Gould
nas quais permaneceu motivado apesar do ambiente ne-
gativo? Por exemplo, talvez tivesse um técnico de quem
não gostasse, que constantemente gritava com você e o
criticava, mas, ainda assim, não abandonou o time nem
perdeu a motivação. Nesse caso, a situação evidentemente
não era o fator principal que estava influenciando seu nível
de motivação. Por isso, os especialistas em psicologia do
esporte e do exercício não recomendam a visão de motiva-
ção centrada na situação como a mais eficaz para orientar
a prática.
VISÃO INTERACIONAL
A visão de motivação mais aceita por psicólogos do espor-
te e do exercício hoje em dia é a visão interacional entre
indivíduo-situação. Os "interacionistas" afirmam que a mo-
tivação resulta não apenas de fatores relacionados aos in di-
víduos, tais como personalidade, necessidades, interesses e
objetivos, nem somente de fatores situacionais, tais como o
estilo do técnico ou do professor ou o registro de ganhos e
perdas de um time. Antes, a melhor maneira de entender a
motivação é examinar o modo como esses dois conjuntos de
fatores interagem (ver Fig. 3.1).
>- A melhor maneira de entender motivação é conside-
rar tanto a pessoa como a situação e o modo como
elas interagem.
Sorrentino e Sheppard (1978) estudaram 44 nada-
dores e 33 nadadoras em três universidades canadenses,
testando-os duas vezes enquanto nadavam 200 metros em
estilo livre individualmente e, depois, como parte de uma
equipe de revezamento. O fator situacional que eles ava-
liaram era se cada nadador fazia um tempo mais rápido
nadando sozinho ou nadando como parte de uma equipe
de revezamento. Os pesquisadores também avaliaram uma
característica de personalidade nos nadadores, ou seja,
sua motivação de associação, ou o grau em que a pessoa
vê o envolvimento no grupo como uma oportunidade para
aprovação social versus rejeição social. O objetivo does-
tudo foi observar se cada nadador era orientado mais à
aprovação social (ou seja, considerava a competição com
outros como algo positivo) ou à rejeição (ou seja, sentia-
se ameaçado( a) por uma atividade orientada à associação,
tal como um revezamento, no qual ele( a) poderia deixar
os outros na mão).
Conforme previram os pesquisadores, os nadadores
orientados à aprovação apresentraram tempos mais rápidos
nadando nu revezamento do que nadando sozinhos (ver Fig.
3.2). Afinal, eles tinham uma orientação positiva ao buscar
aprovação de outros- seus colegas de equipe. Ao contrário,
os nadadores que temiam a rejeição e eram excessivamen-
te preocupados em decepcionar seus colegas nadaram mais
rápido sozinhos do que no revezamento.
Do ponto de vista de um técnico, esses resultados mos-
tram que os quatro nadadores individuais mais rápidos
não comporiam necessariamente o melhor time de reveza-
mento. Dependendo das personalidades dos atletas, alguns
apresentariam melhor desempenho em um revezamento, e
outros teriam melhor desempenho individualmente. Muitos
técnicos de equipes experientes concordam que escalar os
atletas mais altamente qualificados não garante que se tenha
o melhor time no jogo.
Os resultados do estudo da natação demonstram clara-
mente a importância do modelo interacional de motivação.
Conhecer apenas as características pessoais de um nada-
dor (orientação motivacional) não foi a melhor maneira de
prever o comportamento (o tempo individual), porque o
desempenho dependia da situação (atuar individualmen-
te ou em um revezamento). Do mesmo modo, seria um
erro considerar apenas a situação como a fonte principal
de motivação, porque a melhor velocidade dependia de um
nadador ser mais orientado à aprovação ou temeroso de
rejeiç:Lo. O essencial, então, era entender a interação entre
a constituição pessoal dos atletas e a situação.
Fatores
pessoais ......
Interação
individuo-situação +-
Fatores
situacionais
• Personalidade
• Necessidades
• Interesses
• Objetivos 1
Motivação do
participante
Figura 3_1 Modelo de motivação interacional de indivíduo-situação.
• Estilo do líder-técnico
• Condições das instalações
• Registro de vitórias e
derrotas do time
Situação competitiva
Orientado Pior Melhor
desempenho à aprovação d~e111penbo.
g
:;::;
o
E
Cll
-o
o
c.
i=
Ameaçado
de rejeição
MeMlor
des~penhó
Pior
desempenho
Figura 3.2 A interação do estilo motivacional de um técnico e uma situação competitiva no desempenho.
A Atividade 3.1 no guia de estudo online
(em inglês) o ajudará a avaliar melhor moti-
vação e principais visões de motivação.
www.HumanKinetics.com/
FoundationsOfSportAndExercisePsychology
CINCO DIRETRIZES PARA
DESENVOLVER A MOTIVAÇÃO
O modelo interacional de motivação tem importantes impli-
cações para professores, técnicos, instrutores e administra-
dores de programas. De fato, algumas diretrizes fundamen-
tais para a prática profissional podem ser derivadas desse
modelo.
DIRETRIZ 1: TANTO AS
SITUAÇÕES COMO OS
TRAÇOS MOTIVAM AS
PESSOAS
Ao tentar aumentar a motivação, considere tanto os fatores
situacionais quanto os pessoais. Com freqüência, profes-
sores, técnicos ou instrutores, ao trabalharem com alunos,
atletas ou clientes que parecem não ter motivação, imedia-
tamente atribuem o problema às características pessoais do
participante. "Esses alunos não se preocupam em aprender",
"Esse time não se esforça o bastante" ou "Exercício sim-
plesmente não é uma prioridade nas vidas dessas pessoas" -
tais afirmações atribuem qualidades pessoais à pessoa e, na
verdade, servem para descartar a pouca motivação ou para
evitar a responsabilidade de ajudar os participantes a desen-
volverem motivação. Outras vezes, os instrutores deixam de
considerar as qualidades pessoais de seus alunos ou clientese, em vez disso, colocam toda a culpa na situação (p. ex.,
"Esse material deve ser tedioso"; "O que há no meu estilo de
ensino que inibe o nível de motivação do participante?").
Na realidade, a baixa motivação do participante geral-
mente resulta de uma combinação de fatores pessoais e si-
tuacionais. Os fatores pessoais realmente levam as pessoas
a perderem a motivação, mas os ambientes dos quais elas
participam também o fazem. E, freqüentemente, pode ser
mais fácil para o instrutor mudar a situação do que mudar as
necessidades e as personalidades dos participantes. O segre-
do, portanto, é não focalizar a atenção apenas nos atributos
pessoais dos participantes ou apenas na situação presente,
mas considerar a interação desses fatores.
>- Para aumentar a motivação, você deve analisar e
responder não apenas à personalidade do jogador,
mas também à interação de características pessoais
e situacionais. Visto que as motivações podem mu-
74 Robert S. Weinberg • Daniel Gould
dar com o tempo, deve-se continuar monitorando a
motivação das pessoas para participarem até meses
após elas terem começado.
DIRETRIZ 2: AS PESSOAS
TEM VÁRIOS MOTIVOS PARA
PARTICIPAR
É preciso estar sempre atento para identificar e entender os
motivos das pessoas para participarem em atividades de es-
porte, de exercício ou de educação. Há diversas formas de
entender isso.
Use suas próprias experiências para identificar
os principais motivos para participação em
esporte e exercício completando a Atividade
3.2 no guia de estudo online (em inglês).
www.HumanKinetics.com/
F ou ndationsOfS portAnd ExercisePsychology
ENTENDA POR QUE AS
PESSOAS PARTICIPAM DE
ATIVIDADES FÍSICAS
Os pesquisadores sabem por que a maioria das pessoas
participa de atividades esportivas e exercícios, e isso é im-
portante porque os profissionais consideram a motivação
uma influência fundamental no desempenho individual e
de equipe (Theodorakis e Gargalianos, 2003). Os motivos
também são considerados influências críticas na participa-
ção em exercícios e na adesão a protocolos de reabilitação
de lesões (ver Caps. 18 e 19). Após revisar a literatura, Gil!
(2000) concluiu que as crianças têm inúmeros motivos para
participar de esportes, incluindo desenvolvimento de habi-
lidades e demonstração de competência, bem como desa-
fio, ativação e divertimento. Wankel (1980) verificou que
os adultos citavam fatores de saúde, perda de peso, condi-
cionamento, autodesafio e bem-estar como motivos para
participar de um programa de exercícios. Seus motivos para
continuar no programa de exercícios incluíam divertimento,
liderança da organização (p. ex., o instrutor), tipo de ativi-
dade (p. ex., corrida, aeróbica) e fatores sociais. Também
verificou-se que os motivos mudam de acordo com a ida-
de dos grupos, pois os motivos de adultos mais velhos são
menos orientados ao ego do que os de adultos mais jovens
(Steinberg, Grieve e Glass, 2000). O que o motiva a partici-
par de atividades esportivas e físicas? Enquanto você pensa
sobre o que o motiva e aos outros, relembre esses pontos:
• As pessoas participam. por mais de uma razão. A
maioria das pessoas tem diversos motivos para parti-
cipação. Por exemplo, você pode levantar pesos por-
que quer modelar seu corpo. Contudo, levantar pesos
também o faz sentir-se bem, e você também aprecia
a camaradagem de seus companheiros de exercícios.
Portanto, levanta pesos por mais de uma razão.
• As pessoas têm motivos conflitantes para a partici-
pação. Às vezes, as pessoas têm motivos conflitan-
tes. Por exemplo, uma pessoa pode querer exercitar-
se no clube após o trabalho e também querer ficar
com a família. Como técnico, professor ou instru-
tor, você deve estar ciente desses interesses conlli-
tantes, porque eles podem afetar a participação.
• As pessoas têm motivos tanto compartilhados como
únicos. Embora seja possível identificar por que as
pessoas geralmente participam de atividades espor-
tivas e exercícios, os motivos para a panicipação
variam enormemente e podem ser exclusivos de
cada indivíduo. Por exemplo, Dwyer (1992) ava-
liou a motivação de estudantes universitários para
participar c obteve resultados semelhantes aos de
atletas jovens: os motivos mais importantes eram
condicionamento físico, divertimento, ativação e
desafio e melhora de habilidades. Entretanto, os
estudantes universitários avaliaram amizade, ob-
tenção de status e fatores de equipe como menos
importantes- dados que diferem daqueles encon-
trados na literatura esportiva do jovem. Portanto,
muitos de nós citaríamos condicionamento físi-
co, diversão c amizade como principais motivos
para participar de um esporte. Entretanto, alguns
de nós poderíamos ter motivos mais particulares,
tais como pressão dos pais ou necessidade de fazer
algo. Outros ainda poderiam ter motivos bastante
idiossincrásicos, tais como a necessidade de domi-
nar fisicamente outras pessoas ou porque realmente
se sentem tranqüilos ao competir. Portanto, as pes-
soas têm motivações tanto compartilhadas quanto
exclusivas para participação.
• A ênfase cultural afeta os motivos. Embora muitos
motivos para a participação em atividades esporti-
vas e físicas sejam comuns entre culturas, alguns
recebem mais ênfase. Kim, Williams e Gill (2003),
por exemplo, verificaram que alunos de ensino mé-
dio norte-americanos e coreanos diferiam em suas
motivações, sendo os jovens norte-americanos mais
intrinsecamente motivados do que seus pares corea-
nos. Também foi sugerido que participantes de paí-
ses asiáticos são mais orientados à interdependência,
enquanto os norte-americanos são mais orientados à
independência. Em outro estudo recente, Yan e Mc-
Cullagh (2004) verificaram que jovens norte-ameri-
canos, chineses e sino-americanos diferiam em seus
Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício 75
Um bom técnico reconhece quais membros da equipe têm motivos compartilhados e particulares para participar
de uma atividade. As motivações dessas crianças para participar poderiam incluir estar com os amigos, agradar
aos pais ou aprender um esporte.
motivos para participação em atividade espot1iva e
física. Especificamente, os jovens norte-americanos
eram motivados principalmente pela competição e
pela necessidade de melhorar, os jovens chineses
eram mais motivados pela associação e pelo bem-
estar, e os jovens sino-americanos participavam por
causa das viagens, do uso de equipamentos e do di-
vertimento. Devido à crescente diversidade cultural
da maioria das sociedades contemporâneas, técnicos,
instrutores e professores de educação física devem se
familiarizar e saber identificar as diferenças culturais
importantes na motivação dos participantes.
OBSERVE OS PARTICIPANTES
E CONTINUE A MONITORAR
OS MOTIVOS
Visto que as pessoas têm uma gama tão diversa de motivos
para praticar esportes e exercícios, você precisa estar ciente
dos motivos de seus alunos, atletas ou clientes. A observação
das seguintes diretrizes pode melhorar a sua percepção:
1. Observe os participantes e veja o que eles apreciam
e não apreciam na atividade.
2. Fale informalmente com outras pessoas (p. ex., pro-
fessores, amigos e membros da família) que conheçam o
aluno, atleta ou cliente e solicite informações sobre seus
motivos para participar da atividade.
3. Peça periodicamente aos participantes para escreve-
rem ou contarem suas razões para participação em esportes
c exercício.
Continue a monitorar os motivos para participação: a
pesquisa tem mostrado que os motivos mudam com o passar
do tempo. Por exemplo, os motivos que alguns indivíduos
citaram para começar um programa de exercÍI.:io (p. ex.,
benefícios de saúde e condicionamento) não eram neces-
sariamente os mesmos citados para continuarem no progra-
ma (p. ex., atmosferasocial do programa; Wankel. 1980).
Conseqüentemente, continuar enfatizando os benefícios do
condicionamento e ignorar o aspecto social depois que as
pessoas começaram o programa de exercícios provavelmen-
te não é a estratégia motivacional mais efetiva.
76 Robert S. Weinberg • Daniel Gould
DIRETRIZ 3: MUDE O
AMBIENTE PARA AUMENTAR
A MOTIVAÇÃO
Saber por que as pessoas se engajam em esportes e exercí-
cios é importante, mas essa informação por si só é insufi-
ciente para aumentar a motivação. Você precisa usar o que
sabe sobre os participantes para estruturar o ambiente es-
portivo e de exercício a fim de satisfazer suas necessidades.
PROPORCIONE COMPETIÇÃO
E RECREAÇÃO
Nem todos os participantes têm o mesmo desejo por com-
petição e recreação. É preciso oferecer as duas coisas. Por
exemplo, muitos diretores de clubes sabem que, embora
algumas atletas adultas prefiram a competição, outras não.
Portanto, eles dividem as tradicionais ligas de softball em
divisões "competitivas" e "recreativas". Essa possibilidade
de escolha aumenta a taxa de participação, oferecendo às
pessoas aquilo que querem.
~ Para aumentar a motivação, estruture ambientes de
ensino e treinamento que satisfaçam as necessida-
des de todos os participantes.
OFEREÇA OPORTUNIDADES
MÚLTIPLAS
Satisfazer as necessidades dos participantes nem sempre é
simples. Estruturar uma situação para aumentar a motiva-
ção pode significar a criação de um ambiente para atender
várias necessidades. Por exemplo, atletas de elite exigem
treinamento rigoroso e trabalho em um nível muito intenso.
Alguns técnicos, equivocadamente, acham que os atletas de
alto nível necessitam apenas de treinamento físico rigoroso,
mas a verdade é que os atletas de elite muitas vezes que-
rem se divertir e desfrutar da companhia de seus colegas.
Quando os técnicos prestam mais atenção aos objetivos de
diversão e companheirismo, juntamente com um treinamen-
to físico ideal, eles aumentam a motivação e melhoram o
desempenho de seus atletas.
FAÇA AJUSTES INDIVIDUAIS
DENTRO DO GRUPO
O componente mais difícil, mas mais importante na estru-
turação de atividades esportivas e de atividades físicas, é
individualizar o treinamento e o ensino. Ou seja, cada pra-
ticante de exercício, atleta e aluno tem seus motivos úni-
cos para participação, e os bons instrutores devem oferecer
um ambiente que satisfaça essas diferentes necessidades.
Técnicos experientes sabem disso há anos. O legendário
técnico de futebol americano Vince Lombardi (que dá seu
nome ao troféu do Super Bowl), por exemplo, estruturava
seu ambiente de treinamento para satisfazer as necessidades
individuais dos atletas (Kramer e Shaap, 1968). Lombardi
tinha a reputação de ser um técnico propenso à irritação e
insensível, que estava constantemente "em cima" de seus
jogadores. O zagueiro Jerry Kramer, por exemplo, dizia que
Lombardi sempre grilava com ele. (Mas o técnico Lombardi
também era inteligente: Justamente quando Kramer estava
desencorajado a ponto de desistir devido às críticas, Lom-
bardi lhe dava o reforço positivo tão necessário.) Ao con-
trário do mais "casca grossa" Kramer, seu colega de time, o
atacante Bart Starr, era extremamente autocrítico. O técnico
reconhecia isso e tratava Starr de uma forma muito mais
positiva do que fazia com Kramer. Lombardi entendia que
esses dois jogadores tinham personalidades e necessidades
diferentes, o que requeria um ambiente de treinamento sufi-
cientemente flexível para ambos.
A individualização nem sempre é fácil. Professores de
educação física podem estar lecionando, ao mesmo tempo,
em seis classes diferentes de 35 alunos cada, e instrutores de
aeróbica têm classes com até cem alunos. Sem assistentes, é
impossível estruturar o ambiente de instrução da forma que
Lombardi fazia. isso significa que os professores de edu-
cação física de hoje devem ser tanto imaginativos quanto
realistas ao individualizar seus ambientes.
Naturalmente, um professor de educação física das sé-
ries finais do ensino fundamental não pode conhecer seus
alunos tão bem quanto um personal trainer com um clien-
te ou um técnico de basquetebol com 15 jogadores em seu
time. Entretanto, o professor de educação física pode, por
exemplo, pedir que os alunos identifiquem em fichas de ar-
quivo seu~ motivos para comparecer às atividades ("O que
você gosta na aula de educação física? Por que você parti-
cipa?"), avaliar a freqüência com que os diversos motivos
são mencionados c estruturar o ambiente da aula para sa-
tisfazer os motivos mais freqüentemente mencionados. Se
mais alunos indicarem preferir atividades não-competitivas
às tradicionais atividades competitivas, o instrutor poderá
optar por estrutura_r a aula de acordo com a preferência dos
alunos. Você pode oferecer opções dentro da mesma classe
e pode ter metade dos alunos jogando voleibol competitivo
em uma quadra e a outra metade jogando voleibol não-com-
petitivo em uma segunda quadra.
DIRETRIZ 4: INCENTIVO À
MOTIVAÇÃO ,
Como instrutor, professor de educação física ou técnico,
você está em uma posição fundamental para influenciar a
motivação do participante. De fato, um levantamento recen-
te de professores de educação física, que eram todos técni-
cos, mostrou que 73% deles consideravam que eles mesmos
e as suas ações eram fatores motivacionais muito importan-
tes
VCl
ÍIIIJ
de
SU<
o a
pol
e,<
nã1
no~
alg
seu
alu
-
~
Fig
est
que
pril
nes
,·ez
sen
que
mal
DI
M1
c~
AJ
IN
pj
Ta~
.,.
tia
trol
tes para seus atletas 1 Theodorakis e Gargalianos. 20031. Às
\·ezes. sua influência pode ser indireta. e você sequer nota a
importância de suas atitudes. Por exemplo, uma professora
de educação física ativa e entusiasmada é, simplesmente por
sua personalidade, um reforço positivo aos alunos. Durante
o ano escolar, seus alunos passam a esperar por seu com-
portamento otimista. Entretanto, ela pode ter um dia ruim
e. embora não se comporte negativamente em aula, talvez
não demonstre sua animação habitual. Uma vez que os alu-
nos desconhecem a sua situação, podem pensar que fizeram
alguma coisa errada e. conseqüentemente, sentirem-se de-
sencorajados. Sem se daLconta, a professora influenciou os
alunos com seu humor (ver Fig. 3.3). ·
Figura 3.3 "Ela estava bastante aborrecida conosco
esta noite. O que será que fizemos errado?"
Você também terá dias ruins como profissional e terá
que lidar com isso, fazendo o melhor trabalho possível. O
principal é estar consciente de que suas ações (e inação)
nesses dias podem influenciar o ambiente motivacional. Às
vezes você pode ter que parecer mais otimista do que está se
sentindo. Se isso não for possível, informe aos seus alunos
que você não se sente bem, para que eles não interpretem
mal seu comportamento.
DIRETRIZ 5: USE
MODIFICAÇÃO DO
COMPORTAMENTO PARA
ALTERAR MOTIVOS
INDESEJÁVEIS DO
PARTICIPANTE
Temos enfatizado a necessidade de estruturar o ambiente
para facilitar a motivação do participante porque o instrutor,
técnico, preparador físico ou professor geralmente têm con-
trole mais direto sobre o ambiente do que sobre os motivos
dos indiüduos. Entretanto. isso não significa que seja ina-
dequado tentar alterar os motivos da participação.
Um jovem jogador de futebol, por exemplo, pode estar
jogando com o intuito de machucar os demais jogadores.
Seu técnico certamente usará técnicas de modificação de
comportamento (ver Cap. 6) para alterar essa motivação in-
desejável. Ou seja, o técnico reforçará o jogo limpo, punirá
o jogo agressivo com intenção de machucar e, ao mesmo
tempo, discutirá o comportamento adequado com o jogador.
Da mesma forma, uma paciente em reabilitação cardíaca
que esteja começando a fazer exercícios por ordem médi-
ca podenecessitar de uma modificação de comportamento
para ganhat motivação intrínseca para realizar o exercício.
As técnicas de modificação de comportamento para alterar
motivos indesejáveis são certamente apropriadas em algu-
mas situações.
> Use técnicas de modificação de comportamento
para alterar motivos indesejáveis e fortalecer uma
motivação fraca.
DESENVOLVENDO
UMA VISÃO REALÍSTICA
DE MOTIVAÇÃO
A motivação é a variável-chave tanto na aprendizagem
como no desempenho em contextos esportivos e de exercí-
cio. Entretanto, às vezes as pessoas esquecem que a motiva-
ção não é a única variável que influencia o comportamento.
Cronistas esportivos, por exemplo, normalmente atribuem
o desempenho de um time a atributos motivacionais - os
esforços extraordinários dos jogadores; a indolência; a fal-
ta de incentivos que resulta de contratos profissionais de
milhões de dólares; ou a capacidade (ou incapacidade) de
um jogador de jogar em situações difíceis. Entretanto, o de-
sempenho de um time freqüentemente depende de fatores
não-motivacionais, tais como lesões, jogar contra um time
melhor, excesso de treinamento ou falha em aprender novas
habilidades (Gould, Guinan, Grecnleaf, Medbery e Pcter-
son, 1999). Além dos fatores motivacionais, que são nossa
preocupação central, fatores bioquímicas, psicológicos, so-
ciológicos, médicos e técnico-táticos também são signifi-
cativos para o esporte e para o exercício, e eles merecem
consideração em qualquer análise de desempenho.
> Como líder, reconheça que você é fundamental ao
ambiente motivacional e que influencia a motiva-
ção, direta ou indiretamente.
Alguns fatores motivacionais são mais fáceis de influen-
ciar do que outros. É mais fácil para um instrutor mudar seu
padrão de reforço, por exemplo, do que mudar a atrativida-
de do ambiente. (Isso não quer dizer que fazer uma limpe-
78 Robert S. Weinberg • Daniel Gould
[lJ.um: so~ro de· vid-a dentro do ginásio~ o plano de uma professora de
· . :educação física para aumenta r. a motivação dos alunos
~dois. anos, Kime professora de ed<Kaçãedísica da Kennedy Junior High School, a construção mais. antiga
da. regi.ão. A escola, que está bastànte destruída. deverá ser fechada nos próximos cinco anos, de modo que
o. município não ·quer investir nenhum dinheiro em sua recuperação. Durante as primeiras semanas de aula,
Kim percebeu que seus alunos não estavam muito motivados a partícipar da aula.
PaFa <!let.erminar como motivá-los, Kim examina minuóosamehte seu prór:nio programa. Ela percebe que
está usando um. programa bastante padronizado, wm base no currículo .exigido, .e começa a pensar em for-
mas de modernizar à rotinà. Primeiro, observa que o ginásio em si é aproveitável, mas está deteriorado pelo
uso e ;pelo tempo.
Kim percebe.que a motivação dos a.lunos provavelmente melhoraria s.e o prédio .fosse. reformado, mas
também sabe que isso é improvável: Então, decide assumir a tarefa de melhorar as coisas. Primeiro, faz uma
limpeza oo ginásio e consegue permissão para .rétirar as cortinas velha.s. Em s.eguida, alegra o ambiente
escrevendo nos quadros de aviso com canetas coloridas e pendurando pôsteres de cenas de exercícios nas
paredes. Ela conversa com o zelador, agradecendo sua ajuda para se livrar das cortinas velhas e Ih~ pede para
mudar seu horário de limpeza, de modo que o ginásio seja varrido logo depois do almoço.
Naturalmente, Kim• percebe que melhoràr o ambiente físico não.~ o suficiente para motivar seus alunos
a participarem da aula. Ela própria também tem um papel importante. Kim não pode se esquecer de fazer
observações positivas e encorajadoras durante a aula e de ser ánimada. e otimista. Talvez a atitude mais im-
portante que tenha tomadq pi=Jra aumentar a motivação de seus alunos tenha sido _lhes perguntar o que eles
gost.avam e nao gostavam na aula de ginástica. Os alunos responderam gue os testes de condicionamento
e os exercícios no;iníéio da aula não erám muito divertidos. Entretanto, eles são obrigatórios no currículo e
devem ser realizad0s. ·
Kim esforça-~e par~ transformaf: o teste çle condicionamento em uma parte .divertida de um programa
de estàbelecimento de metas, em que cada classe ganha pontos por suas conquistas. E lá registra os resul-
tados em um ql]adro de. avisos. O prêmio "aluno da semana" é dado ao jovem que faz :o maior ·esforço e
demonstra o. maior progresso em suá meta de. condicionamento. Exercitar-se ao som de rap também passa
a ser popular entre os alunos. .
Conversando com os álunos, Kim fica surpresa.ao saber que eles se interessam por outros esportes além
dos "tradidohais" voleibol é basqúetéboCEies drzem que gostariam. de nadar, jogar tênis e golfe. Infelizmen-
te,· a natação e o golfé não sã à possíveis devido à falta de instalações, mas Kim consegue introduzir o tênis
no currículo, obtendo raquetés e bolas mediante um programa da U.S. Tennis Association no qual jogadores
· · aniàdóres doam sei.J equipamento usado às escolas públicas.
· :Ao finá! do an(}, olhando para trás, Kim fica satisfeita cóm as. mudanças. na motivação de seus alunos.
Naturalmente, alguHfainda n"ão estão interessados, mas a maioria parece genuinamente empolgada como
que estã apréndendo. Além disso, os escores de· condicionamento de seus. alunos melhoraram em relação
aos de anos anteriores. Finalmente, seu programa •i aluno da semana" foi um grande sucesso- especialmen-
te para os alunos esforÇados com habilidáéles médias que se destacaram por seu aprimoramento e por seu
esforço pessoal. · · ·
za nas instalações seja tão cansativo que não valha a pena.
Considere, p.ex., o quanto as instalações são importantes
para os negócios da academia.) Os profissionais precisam
considerar quais os fatores motivacionais que eles podem
influenciar e quanto tempo (e dinheiro) será preciso para
mudá-los. Enquanto lê o estudo de caso apresentado neste
capítulo, reflita sobre como desenvolver estratégias efetivas
para aumentar a motivação dos participantes.
ENTENDENDO A MOTIVAÇÃO
PARA REALIZAÇÃO E
COMPETITIVIDADE
Durante toda a primeira parte deste capítulo, enfatizamos a
importância das diferenças individuais na motivação. Basi-
camente, os indivíduos não apenas participam de atividades
esportivas e de atividades físicas por razões diferentes; eles
também são motivados por diferentes métodos e situações.
Portanto, é importante entender por que algumas pessoas
parecem tão motivadas a atingir seus objetivos (como Dan
no exemplo no início do capítulo) e por que outros parecem
apenas acompanhar a corrida. Começaremos discutindo
dois motivos relacionados que influenciam o desempenho
e a participação no esporte- a motivação para a realização
e a competitividade.
O QUE É MOTIVAÇÃO
PARA REALIZAÇÃO?
A motivação para realização refere-se ao esforço de uma
pessoa para dominar uma tarefa, alcançar excelência, supe-
rar obstáculos, ter melhor desempenho do qu'e os outros e
orgulhar-se de seu talento (Murray. 1938). E a orientação de
uma pessoa para lutar por sucesso, persistir ante o fracasso
e ter orgulho por suas realizações (Gil!, 1986).
Não é surpreendente que técnicos, instmtores e profes-
sores tenham interesse na motivação para realização: essas
são as características exatas que permitem que os atletas
atinjam seus limites, que os praticantes de exercícios alcan-
cem altos níveis de condicionamento e que os alunos inten-
sifiquem a aprendizagem.
Como as visões gerais de motivação e personalidade, a
concepção de motivação para realização em particular pro-
grediu de uma visão orientada ao traço da "necessidade" de
conquista de uma pessoa para uma visão interacional que
enfatiza metas de conquista mais variáveis e o modo como
tais metas afetam e são afetadas pela situação. A motiva-
ção para realização no esporte é popularmente chamada de
competitividade.
OQUE É COMPETITIVIDADE?
A competitividade é definida como "uma disposição para
lutar por satisfação ao se comparar com algum padrão de
superioridade na presença de avaliadores" (Martens, 1976,
p. 3). Basicamente, Martens considera competitividade um
comportamento voltado à realização em um contexto com-
petitivo, com a avaliação social como componente-chave. É
importante observar uma orientação de realização específi-
ca à situação: algumas pessoas altamente orientadas à con-
quista em uma situação (p. ex., esportes competitivos) não o
são em outras situações (p. ex., aula de matemática).
A definição de Martens de competitividade limita-se a
situações em que a pessoa é avaliada ou tem potencial para
ser avaliada por especialistas. Contudo, muitas pessoas com-
petem consigo mesmas (p. ex., tentando superar seu próprio
tempo de corrida do dia anterior) mesmo quando ninguém
está avaliando seu desempenho. O nível de motivação para
realização revelaria a autocompetição, enquanto o nível de
Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício 79
competitividade influenciaria o comportamento em situações
avaliadas socialmente. Por isso, neste capítulo discutimos a
motivação para realização e a competitividade juntas.
EFEITOS DA MOTIVAÇÃO
A motivação para realização e a competitividade lidam não
apenas com o resultado final da busca por superioridade,
mas também com a jornada psicológica para alcançá-la. Se
entendermos por que ocorrem diferenças de motivação nas
pessoas, poderemos intervir positivamente. Portanto, esta-
mos interessados em como a competitividade e a motiva-
ção para realização de uma pessoa influenciam uma ampla
variedade de comportamentos, pensamentos e sentimentos,
incluindo os seguintes:
• Escolha da atividade (p. ex., buscar adversários de
igual capacidade para competir contra eles ou pro-
curar jogadores de maior ou menor capacidade para
jogar)
• Esforço na busca de objetivos (p. ex., a freqüência
com que você pratica)
• Intensidade do esforço na busca de objetivos (p.
·ex., a intensidade com que você se dedica a um trei-
namento)
• Persistência em face de fracasso e adversidade (p.
ex., quando os procedimentos se tornam árduos,
você se esforça mais ou relaxa?)
IDENTIFICANDO QUATRO
TEORIAS DE MOTIVAÇÃO
PARA REALIZAÇÃO
Quatro teorias surgiram com o passar dos anos para explicar
o que motiva as pessoas a agir: teoria da necessidade de rea-
lização, teoria da atribuição, teoria das metas de realização
e teoria da motivação para competência. Consideraremos
uma de cada vez.
TEORIA DA NECESSIDADE
DE REALIZAÇÃO
A teoria da necessidade de realização (Atkinson, 1974;
McClelland, 1961) é uma visão interacional que considera
os fatores pessoais e situacionais como prognosticadores
importantes de comportamento. Cinco componentes consti-
tuem essa teoria, incluindo fatores de personalidade ou mo-
tivos, fatores situacionais, tendências resultantes, reações
emocionais e comportamentos relacionados à realização
(ver Fig. 3.4).
80 Robert S. Weinberg • Daniel Gould
Fatores da
personalidade
Fatores
situacionais
Tendência
resultante
Reações
emocionais
Comportamento
de realização
Procura situações
de realização
Motivo para
I
I Probabilidade
alcançar de Aborda o .....
Foco no
orgulho pelo
Busca
desafios
- sucesso o sucesso sucesso sucesso
X
Motivo para Valor de
ou
Evita o
Desempenho
melhorado
Evita situações
de realização
evitar o incentivo fracasso
fracasso
liro"' ..... ergonha
o fracasso
Evita riscos
(desafios) do sucesso
Figura 3.4 Teoria da necessidade de realização.
FATORES DA
PERSONALIDADE
De acordo com a visão da necessidade de realização, cada
um de nós tem dois motivos de conquista subjacentes:
alcançar o sucesso e evitar o fracasso (ver Fig. 3.4). O
motivo para alcançar o sucesso é definido como "a capa-
cidade de experimentar orgulho ou satisfação nas realiza-
ções", enquanto o motivo para evitar o fracasso é "a ca-
pacidade de experimentar vergonha ou humilhação como
conseqüência do fracasso" (Gill, 2000, p. 104 ). A teoria
sustenta que o comportamento será inftuénciado pelo
equilíbrio desses motivos. Em particular, atletas com altos
níveis de realização demonstram alta motivação para al-
cançar o sucesso e baixa motivação para evitar fracassos.
Eles apreciam a avaliação de suas capacidades e não estão
preocupados com pensamentos de fracasso. Ao contrá-
rio, atletas com baixos níveis de realização demonstram
pouca motivação para alcançar o sucesso e alta motivação
para evitar o fracasso. Eles se angustiam e preocupam-se
com idéias de fracasso. A teoria não faz previsões claras
para os que apresentam níveis moderados de cada motivo
(Gil!, 2000).
FATORES S/TUAC/ONA/S
Como vimos no Capítulo 2, a informação sobre os traços
não é suficiente para prever corretamente os comportamen-
tos. As situações também devem ser consideradas. Há duas
considerações primárias que devem ser reconhecidas na
teoria da necessidade de realização: a probabilidade de su-
cesso na situação ou nas tarefas c o valor de incentivo do
sucesso. Basicamente, a probabilidade de sucesso depende
de contra quem você compete e da dificuldade da tarefa.
Desempenho
fraco
Ou seja, sua chance de vencer uma partida de tênis seria
menor contra Venus Williams do que contra uma novata.
Entretanto, o valor que você daria ao sucesso seria maior,
pois é mais gratificante vencer um adversário qualificado
do que vencer um principiante. Situações que oferecem
uma chance de sucesso de 50% (p. ex., um desafio difícil,
mas alcançável) dá aos atletas com alto nível de realização
maior incentivo para envolverem-se em comportamentos
voltados à realização. Entretanto, os atletas com baixos ní-
veis de realização não vêem dessa forma, porque, para eles,
perder para um adversário à sua altura pode aumentar seus
sentimento de vergonha.
TENDÊNCIAS RESULTANTES
O terceiro componente na Figura 3.4 é a tendência resul-
tante ou comportamental, derivada da consideração dos
níveis de motivação para realização de um indivíduo em re-
lação a fatores situacionais (p. ex., probabilidade de sucesso
ou valor de incentivo do sucesso). Essa teoria é melhor para
prever situações nas quais exista uma chance de sucesso de
50%. Ou seja, atletas com altos níveis de realização buscam
desafios nessa situação porque gostam de competir contra
outros de igual capacidade ou de realizar tarefas que não
sejam muito fáceis nem muito difíceis.
No entanto, atletas com baixos níveis de realização evi-
tam tais desafios, optando, em vez disso, por tarefa fáceis,
em que o sucesso é garantidÔ, ou por tarefas absurdamente
difíceis, em que o fracasso é quase certo. Os atletas com
baixos níveis de realização preferem tarefas muito difíceis,
porque ninguém espera que eles vençam. Por exemplo, per-
der para Michael Jordan em um jogo de basquetebol certa-
mente não causaria vergonha ou embaraço. Atletas com bai-
xos níveis de realização não temem o fracasso- eles temem
a avaliação negativa associada ao fracasso. Uma chance de
sucesso de 50% provoca grande incerteza e preocupação
e, portanto, aumenta a possibilidade de demonstrar baixa
capacidade ou competência. Quando os atletas com baixos
níveis de realização não podem evitar tal situação, eles fi-
cam preocupados e perturbados devido à alta necessidade
de evitar fracassos.
REAÇÕES EMOCIONAIS
O quarto componente da teoria da necessidade de realiza-
cão são as reações emocionais da pessoa, especificamente
o orgulho e a vergonha que ela experimenta. Tanto atletas
com altos níveis de realização como atletas com baixos
níveis de realização querem sentir orgulho e· minimizar a
vergonha, mas suas características de personalidade intera-
gemdiferentemente com a situação, fazendo com que eles
se focalizem mais no orgulho ou na vergonha. Atletas com
altos níveis de realização focalizam-se mais no orgulho, en-
quanto atletas com baixos níveis de realização se focalizam
mais na vergonha e na preocupação.
COMPORTAMENTO DE
REALIZAÇÃO
O quinto componente da teoria da necessidade de reali-
zação indica o modo como os quatro componentes ante-
riores interagem para influenciar o comportamento. Atle-
tas com altos níveis de realização escolhem tarefas mais
desafiadoras, preferem riscos intermediários e têm melhor
desempenho em situações de avaliação. Alletas com bai-
xos níveis de realização evitam riscos intermediários, têm
pior desempenho em situações de avaliação e evitam tare-
fas desafiadoras, escolhendo tarefas difíceis, na certeza de
que fracassarão, ou tarefas tão fáceis que lhes garantam o
sucesso.
>- Motivação para a realização é a tendência de lutar
pelo sucesso, persistir em face ao fracasso e experi-
Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício 81
mentar orgulho nas realizações. Tal motivação em
situações esportivas e de exercício focaliza-se na au-
tocompetição, enquanto a competitividade influen-
cia o comportamento em situações de avaliação so-
cial. A teoria da atribuição estuda como as pessoas
explicam seus sucessos e fracassos.
>- Atletas com altos níveis de realização escolhem ta-
refas desafiadoras, preferem riscos intermediários
e têm melhor desempenho quando são avaliados.
Atletas com baixos níveis de realização evitam tare-
fas desafiadoras, evitam riscos intermediários e têm
pior desempenho quando estão sendo avaliados.
IMPORTÂNCIA DA TEORIA
DA NECESSIDADE DE
REALIZAÇÃO
As previsões de desempenho da teoria da necessidade de
realização servem como estrutura para todas as atuais ex-
plicações da motivação para realização. Ou seja, embora
teorias mais recentes ofereçam diferentes explicações para
os processos de pensamento subjacentes às diferenças no
processo de conquista, as previsões comportamentais en-
tre atletas com altos níveis de realização e atletas com bai-
xos níveis de realização são basicamente as mesmas. As
contribuições mais importantes da teoria da necessidade
de realização são a preferência da tarefa e as previsões de
desempenho.
TEORIA DA ATRIBUIÇÃO
A teoria da atribuição estuda como as pessoas explicam
seus sucessos e fracassos. Essa visão, criada por Heider
(1958) c ampliada e popularizada por Weiner (1985, 1986),
sustenta que literalmente milhares de possíveis explicações
para se obter sucesso e fracasso podem ser classificadas em
algumas poucas categorias (ver Fig. 3.5). As categorias de
atribuição mais básicas são estabilidade (um fator ao qual
Categorias de
atribuição básicas
1 t 1
Estabilidade local de causalidade Local de controle
• • • Estável Instável Interno Externo Sob o controle Fora do controle da pessoa da pessoa
Figura 3.5 Categorias de atribuição básicas de Weiner.
82 Robert S. Weinberg • Daniel Gould
se atribui sucesso ou fracasso é razoavelmente permanente
ou instável), loçal de causalidade (um fator ou é externo ou
é interno ao indivíduo) e local de controle (um fator está ou
não sob nosso controle).
ATRIBUIÇÕES COMO CAUSAS
DE SUCESSO E FRACASSO
O sucesso ou o fracasso de uma pessoa pode ser atribuído
a uma variedade de razões possíveis. Essas causas percebi-
das de sucesso ou fracasso são chamadas de atribuições. Por
exemplo, você pode vencer uma prova de natação e atribuir
seu sucesso a:
• um fator estável (p. ex., seu talento ou boa capaci-
dade) ou um fator instável (p. ex., sorte),
• uma causa interna (p. ex., seu tremendo esforço nos
últimos 50 metros) ou uma causa externa (p. ex.,
adversários fáceis) e
• um fator que você pode controlar (p. ex., seu plano
de corrida) ou um fator fora de seu controle (p. ex.,
o condicionamento físico de seus adversários).
Ou você pode abandonar um programa de exercícios e
atribuir seu fracasso a:
• um fator estável (p. ex., sua falta de talento) ou um
fator instável (p. ex .. o péssimo instrutor),
• uma causa interna (p. ex., seu problema de coluna)
ou uma causa externa (p. ex., a academia é muito
distante de sua casa) e
• um fator que você pode controlar (p. ex., sua falta
de esforço) ou um fator fora de seu controle (p. ex.,
o custo do programa).
POR QUE AS ATRIBUIÇÕES
SÃO IMPORTANTES
As atribuições afetam as expectativas de sucesso ou fra-
casso futuro e as reações emocionais (Biddle, Hanrahan e
Sellars, 2001; McAuley, 1993b ). A atribuição de desempe-
nho a certos tipos de fatores estáveis foi relacionada à ex-
pectativa de sucesso no futuro. Por exemplo, se Susie, uma
aluna de educação física do ensino fundamental, atribuir
seu sucesso na ginástica a uma causa estável (p. ex., sua alta
capacidade), ela esperará que o resultado ocorra novamente
no futuro e ficará mais motivada e confiante. Ela pode até
pedir aos pais para inscrever-se em uma aula de ginástica
após a escola. Em contraste, se Zachary atribuir o sucesso
de seu desempenho em acrobacia a uma causa instável (p.
ex., sorte), ele não esperará que isso ocorra regularmente, e
sua motivação e confiança não aumentarão. É provável que
ele não queira participar de aulas de ginástica após a esco-
la. Naturalmente, um fracasso também pode ser atribuído a
uma causa estável, tal como baixa capacidade, o que dimi-
nuiria a confiança e a motivação, ou a uma causa instável (p.
ex., falta de sorte), que não o faria.
~ A forma como a pessoa explica ou atribui seu de-
sempenho afeta suas expectativas e reações emocio-
nais, que, por sua vez, influenciam a futura motiva-
ção para realização.
Atribuições a fatores internos e a fatores sob nosso
controle (p. ex., capacidade, esforço) mais do que a fatores
externos ou a fatores fora de nosso wntrole (p. ex., sorte,
dificuldade da tarefa) freqüentemente resultam em reações
emocionais como orgulho ou vergonha. Por exemplo, um
jogador de hóquei experimentará mais orgulho (se bem-su-
cedido) ou vergonha (se malsucedido) se atribuir o desem-
penho a fatores internos do que experimentaria se o atribu-
ísse à sorte ou à habilidade do adversário (ver Tab. 3.1).
Tabela 3.1 Atribuições e motivação para
realização
Atribuições Resultado psicológico
Fatores de estabilidade
Estável
Instável
Fatores de causalidade
Causa interna
Causa externa
Fatores de controle
Sob o controle da pessoa
Fora do controle da pessoa
Expectativa de sucesso
futuro
Expectativa aumentada de
sucesso
Expectativa diminuída de
sucesso
Influências emocionais
Orgulho ou vergonha
aumentados
Orgulho ou vergonha
diminuídos
Influências emocionais
Motivação aumentada
Motivação diminuída
Teste seu entendimento da teoria da atri-
buição realizando a Atividade 3.3 no guia
de estudo online (em inglês).
www.HumanKinetics.com/
Fou ndationsOfSportAnd ExercisePsychology
TEORIA DAS METAS DE
REALIZAÇÃO
Tanto os psicólogos quanto os psicólogos do esporte e do
exercício têm estudado as metas de realização para entender
as diferenças de desempenho (Duda e Hall, 2001; Dweck,
~
1
~
I
•
I
I
I
•
I
I
•
I
•
c
I
ti
I
I
I
•
•
I
•
Cl
s
c
li
f
1986; Maehr e Nicholis, 1980; Nicholls, 1984; Roberts,
1993). De acordo com a teoria das metas de realização,
três fatores interagem para determinar a motivação de uma
pessoa: metas de realização, percepção de capacidade e
comportamento de realização (ver Fig. 3.6). Para entender-
mos a motivação de wna pessoa, devemos entender o que o
sucesso e o fracasso significam para ela. E a melhor manei-
ra de fazê-lo é examinar as metas de realização da pessoa e
o modo como elas interagem com suas percepções de com-
petência,autoconceito c capacidade.
ORIENTAÇÃO AO RESULTADO
EÀ TAREFA
Holly compete em fisiculturismo porque deseja garthar tro-
féus e ter o melhor físico dentre todos na área. Ela adotou
uma orientação à meta de resultado (também chamada de
orientação à meta competitiva), na qual o foco está em
comparar-se com os outros e derrotá-los. Holly sente-se
bem em relação a si mesma (tem alta percepção de capaci-
dade) quando vence, mas não se sente tão bem (tem baixa
percepção de capacidade) quando perde.
Sarah também gosta de vencer competições, mas ela
pratica fisiculturismo principalmente para ver o quanto
pode melhorar fisicamente. Ela adotou uma orientação à
meta de tarefa (também chamada de orientação à meta
de domínio), cujo foco está em melhorar em relação a seus
próprios desempenhos passados. Sua percepção de capaci-
dade não está baseada em uma comparação com os outros.
Para determinada situação, algumas pessoas podem ser
orientadas à tarefa ou ao resultado. Por exemplo, uma pes-
soa poderia querer vencer a maratona local, mas também
estabelecer um melhor tempo pessoal para a corrida. Entre-
tanto, de acordo com pesquisadores em orientação a metas
Objetivos de realização
• Objetivos orientados
ao resultado
• Objetivos orientados
à tarefa
Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício 83
de realização, a maioria das pessoas tende a favorerer uma
das duas orientações.
VALOR DA ORIENTAÇÃO À
TAREFA
Os psicólogos do esporte argumentam que uma orienta-
ção à tarefa, mais freqüentemente do que uma orientação
ao resultado, poderá levar a uma forte ética de trabalho, à
persistência em face de fracasso e a ótimos desempenhos.
Essa orientação pode proteger a pessoa contra desaponta-
mentos, frustrações e falta de motivação quando os outros
superarem seu desempenho (algo que freqüentemente não
pode ser controlado). Visto que focalizar-se no desempe-
nho pessoal oferece maior controle, os indivíduos se tor-
nam mais motivados e persistem por mais tempo em face
de fracassos.
>- Uma orientação ao resultado focaliza-se em compa-
rar o desempenho com os dos outros e derrotá-los,
enquanto uma orientação à tarefa focaliza-se em
comparar o desempenho com padrões e aperfeiçoa-
mento pessoais. O melhor é adotar uma orientação
à tarefa, que enfatiza a comparação mais com seus
próprios padrões de desempenho do que com o de-
sempenho dos outros.
Pessoas orientadas à tarefa também escolhem tarefas e
adversários moderadamente difíceis ou reais. Elas não te-
mem o fracasso. E, uma vez que suas percepções de capa-
cidade se baseiam em seus próprios padrões de referência,
é mais fácil para elas sentirem-se bem em relação a si mes-
mas e demonstrarem alta percepção de competência do que
acontece com os indivíduos orientados ao resultado.
Percepção de capacidade
• Alta percepção de capaci-
dade ou competência
• Baixa percepção de capa-
cidade ou competência
Comportamento de realização
• Desempenho
• Esforço
• Persistência
• Escolha da tarefa
L tarefas ou adversários reais
L tarefas ou adversários irreais
Figura 3.6 Três fatores-chave na abordagem das metas de realização.
84 Robert S. Weinberg • Daniel Gould
PROBLEMAS COM A
ORIENTAÇÃO AO RESULTADO
Em comparação com indivíduos orientados à tarefa, as
pessoas orientadas ao resultado têm mais dificuldade em
manter uma alta percepção de competência. Elas julgam o
sucesso comparando-se aos outros, mas não podem neces-
sariamente controlar o desempenho dos outros. Afinal, pelo
menos metade dos competidores deve perder, o que pode
diminuir ainda mais uma percepção de competência já frá-
gil. Pessoas orientadas ao resultado e com baixa percepção
de competência demonstram um padrão comportamental
de realização baixo ou mal-adaptado (Duda e Hall, 2001).
Ou seja, elas têm probabilidade de reduzir seus esforços,
de parar de tentar ou de dar desculpas. Para proteger seu
autoconceito, elas têm mais probabilidade de escolher tare-
fas em que tenham sucesso garantido ou em que sejam tão
inferiores que ninguém espera que elas se saiam bem. Elas
tendem a ter desempenhos piores em situações de avaliação
(ver o estudo de caso "O Estabelecimento de Metas de Re-
sultado e o Fracasso de um Esquiador").
ORIENTAÇÓES AO OBJETIVO
SOCIAL
A maior parte da pesquisa sobre orientação ao objetivo tem
se focalizado nas orientações à tarefa ou a metas de resul-
tados. Entretanto, pesquisadores contemporâneos também
identificaram a orientação ao objetivo social como outro de-
terminante de comportamento (Allen, 2003; Stuntz e Weiss,
2003). Indivíduos com alta orientação ao·objctivo social
julgam sua competência em termos de associação com o
grupo e reconhecimento por seu companheirismo. Canse-
Para ouvir a dra. Joan Duda, professora da
U niversity o f Birmingham no Reino Unido
e professora adjunta na Purdue University,
falar sobre orientações ao objetivo em rela-
ção à motivação, acesse ao guia de estudo
online (em inglês).
www. H umanKi netics.com/
FoundationsOfSportAndExercisePsychology
qüentemente, além de julgarem sua capacidade em relação
a seu próprio desempenho e ao desempenho de outros, eles
também seriam motivados pelo desejo por ligações sociais
e pela necessidade de pertencer ao grupo.
PERSPECTIVAS DE OBJETIVO
INSTITUCIONAL VERSUS
INCREMENTAL
Elliot e Dweck (1988) propuseram que, de forma seme-
lhante às metas de tarefa e resultado, os padrões de com-
portamento de realização são explicados pelo modo como
os participantes julgam sua capacidade. De acordo com
esses pesquisadores, os participantes que se caracterizam
por uma visão institucional adotam um foco de meta de
resultado em que consideram sua capacidade como fixa
e impossível de ser mudada pelo esforço, ou por um foco
incrementai, em que adotam uma perspectiva de meta de
tarefa e acreditam que podem mudar sua capacidade por
meio do trabalho e do esforço. A pesquisa mostra que os
participantes de atividade física que adotam um foco insti-
rn o estabelecimento de metas de resultado e
o fracasso de um esquiador
Após anos de trabalho árduo, Dave tornou-se membro da ~quipe norte-americana de esqui. Ele costumava
estabelecer objetivos de resultado para si mesmo: tornar-se o esquiador mais rápido em seu clube local, ven-
cer corridas regionais, superar seus arqui-rivais e chegar ao campeonato nacional. Infelizmente, sua largada
no circuito da Copa do Mundo foi péssima. Ele qLJeria sero esquiador americano mais rápido e estar entre
os três primeiros em cada competição da Copa do Mundo, mas, com tantos competidores bons, tornou-
se impossível superá-los consistentemente. Para piorar as coisas, devido à sua baixa colocação no rankíng
mundial, Dave foi um dos últimos a esquiar (quando o percurso já tinha sido destruído pelos competidores
anteriores), o que tornou praticamente impossível sua colocação entre os três primeiros.
À medida que Dave fica mais frustrado com seu fracasso, mais sua motivação diminui. Já não aguarda
ansiosamente as competições; esquia fora de controle, focalizando-se inteiramente em terminar primeiro, ou
esquia em uma linha tão segura durante todo o percurso que termina bem atrás dos outros competidores.
Dave atribui suas más colocações a escolhas erradas do equipamento e da parafina para esqui. Ele não perce-
be que sua orientação ao resultado, que era adequada nos níveis inferiores de competição, nos quais ele po-
dia vencer mais facilmente, agora o está levando a sentir-se mais inseguro e menos confiante e motivado.
rucional são caracterizados por padrões de motivação mal-
adaptativos (p. ex., pensamentos e sentimentos negativos
sobre si mesmos [Li e Lcc, 2004]).
A IMPORTÂNCIA DO CLIMA
MOTIVACIONAL
:-los últimos anos, os psicólogos do esporte não apenas
estudaram como a orientação voltada ao objetivoe à per-
cepção de capacidade funcionam juntas para influenciar a
motivação dos participantes de atividades físicas, mas tam-
bém como o clima social influencia a orientação voltada ao
objetivo e ao nível de motivação de uma pessoa (N.toumanis
e Biddle, 1999). Alguns psicólogos afirmam, por exemplo,
que os climas sociais de situações de conquista podem va-
riar significativamente em várias dimensões. Tais dimensões
incluem as tarefas que os alunos devem realizar, os padrões
de autoridade aluno-professor, os sistemas de reconheci-
mento, os agrupamentos por capacidade, os procedimentos
de avaliação e o tempo oferecido para a execução das ativi-
dades (Ames, 1992).
As pesquisas têm revelado que, em um clima motiva-
cional orientado ao domínio ou à tarefa, há padrões moti-
vacionais mais adaptativos, tais como atitudes positivas,
esforço aumentado e estratégias de aprendizagem efetivas.
Em comparação, um clima motivacional de orientação ao
resultado foi relacionado com padrões motivacionais menos
adaptativos, tais como baixa persistência, baixo esforço e
atribuição de fracassos à (baixa) capacidade (N toumanis e
Biddle, 1999).
O mais importante é que os pesquisadores acreditam
que a atmosfera motivacional influencia os tipos de metas
Feedback
e
reforço 1
------,
Auto-estima/
percepção de
competência/
percepção de
controle
Orientações 1
motivacionais
• intrínsecas/extrínsecas _____ _.
• tarefa/resultado
• traço de ansiedade
Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício 85
de realização adotados pelos participantes: Atmosferas de
orientação à tarefa estão associadas com metas de tarefas, e
atmosferas de orientação a resultados com metas de resulta-
do (Duda e Hall, 2001 ). Técnicos, professores c instrutores
desempenham um importante papel na motivação por meio
dos climas psicológicos que criam.
TEORIA DA MOTIVAÇÃO PARA
COMPETENCIA
Uma última teoria que tem sido usada para explicar as dife-
renças no comportamento de realização, especialmente com
crianças. é a teoria da motivação para competência (Weiss
c Chaumeton, 1992). Com base no trabalho da psicóloga do
desenvolvimento Susan Harter (1988), essa teoria sustenta
que as pessoas são motivadas a se sentirem dignas ou com-
petentes e que, além disso, esses sentimentos são os prin-
cipais determinantes da motivação (ver Fig. 3.7). A teoria
da motivação para competência também afirma que as
percepções de controle dos atletas (sentir-se no controle so-
bre sua capacidade de aprender e desempenhar habilidades)
trabalham junto com avaliações de autoconceito e compe-
tência pará influenciar suas motivações. Entretanto, esses
sentimentos não influenciam diretamente a motivação. An-
tes, influenciam estados afetivos ou emocionais (tais como
satisfação, ansiedade, orgulho e vergonha), que, por sua
vez, influenciam a motivação.
Se um jovem jogador de futebol, por exemplo, tiver alta
auto-estima, sentir-se competente e perceber que tem con-
trole sobre a aprendizagem e o desempenho de habilidades
do futebol, então o esforço para aprender o jogo aumentará
sua satisfação, orgulho e felicidade. Tais estados afetivos
Afeto ~~L ____ M_o_t_iv_a_ç_ã_o __ ~
• satisfação
• ansiedade
• orgulho
• felicidade
• vergonha
Figura 3.7 Teoria da motivação para competência.
Adaptada, com permissão, de M. Weiss e N. Chaumeton, 1992. Motivational orientations in sport. Em Advances in sport psychology, editado
por T. S. Horn (Champaign. I L: Human Kinetics), 90.
I ~
.,...
i
86 Robert S. Weinberg • Daniel Gould
positivos, por sua vez, levarão a uma motivação maior. Ao
contrário, se um praticante de exercício apresentar baixa
auto-estima, sentir-se incompetente e achar que as atitudes
pessoais têm pouco a ver com aumento do condicionamen-
to, haverá respostas afetivas negativas, como ansiedade,
vergonha e tristeza. Esses sentimentos levarão à diminuição
da motivação.
Uma considerável quantidade de pesquisas tem de-
monstrado a relação entre competência e motivação
(Weiss, 1993). O lado esquerdo do modelo (ver Fig. 3.7)
também mostra que feedback e reforço de outros e várias
orientações motivacionais (como orientações voltadas ao
objetivo e ao traço de ansiedade) influenciam sentimen-
tos de auto-estima, de competência e de controle. Wong
e Bridges (1995) testaram esse modelo com 108 jovens
jogadores de futebol e seus técnicos. Mediram a percep-
ção de competência, a percepção de controle, o traço de
ansiedade e a motivação, bem como vários comportamen-
tos dos técnicos. Como se poderia esperar, eles verificaram
que o traço de ansiedade e o comportamento dos técnicos
prognosticaram percepções de competência e de controle,
que, por sua vez, estavam relacionadas aos níveis de moti-
vação do jogador. Portanto, as percepções de competência
e de controle que os atletas jovens têm são determinantes
críticos para saber se eles se esforçarão na direção da con-
quista. Portanto, aumentar a as percepções de competência
e controle deveria ser o objetivo primário de profissionais
da ciência do esporte e do exercício.
O QUE NOS DIZEM AS
TEORIAS DA MOTIVAÇÃO
PARA REALIZAÇÃO
Para comparar o modo como as quatro teorias explicam a
motivação para a realização, a Tabela 3.2 resume as princi-
pais previsões de cada uma delas, mostrando como os atle-
tas com altos e baixos níveis de realização se diferenciam
em termos de suas orientações e atribuições motivacionais,
dos objetivos que adotam, de suas escolhas de tarefas, de
suas percepções de competência e controle e em termos de
seus desempenhos. A seguir, discutiremos como se desen-
volvem a motivação para realização e a competitividadc.
DESENVOLVENDO
A MOTIVAÇÃO PARA
REALIZAÇÃO E
COMPETITIVIDADE
A motivação para realização pode ser aprendida? Com que
idade as crianças desenvolvem tendências para realização?
Profissionais do esporte e do exercício podem influenciar c
motivar as crianças a certos tipos de conquista'?
Acredita-se que a motivação para realização e a compc-
titividade se desenvolvem em três estágios (Scanlan, 1988;
Veroff, 1969). Esses estágios são seqüenciais -ou seja, é
preciso atravessar um estágio antes de progredir para o pró-
ximo (ver Fig. 3.8). Nem todos chegam ao estágio final, c a
Tabela 3.2 O que nos dizem as teorias da motivação para realização
Atletas com altos níveis de Atletas com baixos níveis de
realização realização
Orientação motivacional Alta motivação para conquistar sucesso Baixa motivação para conquistar sucesso
Baixa motivação para evitar fracasso Alta motivação para evitar fracasso
Focaliza-se no orgulho do sucesso Focaliza-se na vergonha e na preocupação
que podem resultar do fracasso
Atribuições Atribui o sucesso a fatores estáveis e Atribui o sucesso a fatores instáveis e
internos sob seu controle externos fora de seu controle
Atribui o fracasso a fatores instáveis e Atribui o fracasso a fatores estáveis e
externos fora de seu controle internos sob seu controle
Objetivos adotados Geralmente adota objetivos voltados à Geralmente adota objetivos de resultado
tarefa
Percepção de competência e Tem alta percepção de competência e Tem baixa percepção de competência e
controle sente que a conquista está sob seu sente que a conquista está fora de seu
controle controle
Escolha da tarefa Busca desafios, adversários e tarefas Evita desafios; busca tarefas/adversários
qualificados muito difíceis ou muito fáceis
Condições de desempenho Bom desempenho em condições de Mau desempenho em condições de
avaliação avaliação
Estágio de competência autônoma
(autocomparação)
Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício 87
Estágio integrado
(autocomparação e comparação social)
Comparação social
Figura 3.8 Três estágios no desenvolvimento da motivação pararealização.
idade na qual cada estágio é alcançado varia consideravel-
mente. Estes são os três estágios:
I. Estágio de competência autônoma. Neste estágio,
que deve ocorrer provavelmente antes dos quatro anos de
idade, a criança se concentra em dominar seu ambiente e
testar a si própria. Por exemplo, Brandon é um pré-escolar
altamente motivado a aprender a andar em seu triciclo e não
se preocupa que sua irmã Eileen possa andar melhor do que
ele. Ele raramente se compara com outras pessoas.
2. Estágio de comparação social. Neste estágio, que
começa por volta dos cinco anos de idade, a criança se
concentra na comparação direta de seu desempenho com o
de outras crianças, ao contrário do estágio autônomo, com
seus padrões de auto-referência. Esse é o estágio do "quem
é mais rápido, maior, mais esperto e mais forte?", em que
as crianças parecem preocupadas em comparar-se com os
outros.
3. Estágio integrado. O estágio integrado envolve es-
tratégias de comparação social c de conquista autônoma. A
pessoa que domina totalmente essa integração sabe quando
é apropriado competir e comparar-se com os outros e quan-
do é apropriado adotar padrões de auto-referência. Este es-
tágio, que integra componentes dos dois estágios anteriores,
é o mais desejável. Não há idade predeterminada para in-
gressar neste estágio.
A IMPORTÂNCIA DE
DIFERENCIAR OS ESTÁGIOS
O reconhecimento dos estágios do desenvolvimento da
motivação para realização e da competitividade ajuda-
nos a entender melhor o comportamento das pessoas com
quem trabalhamos, especialmente o das crianças. Portan-
to, não ficaremos surpresos quando um pré-escolar não es-
tiver interessado em competir ou quando alunos de quarta
ou quinta séries parecerem preocupados com isso. Entre-
tanto, uma abordagem integrada de orientação à motivação
deve ser desenvolvida, sendo importante ensinar às crian-
ças o momento adequado ou inadequado de competir e de
comparar-se socialmente.
A Atividade 3 4 no guia de estudo online
(em inglês) o ajudará a entender melhor
termos e teorias sobre motivação par a
realização e competitividade.
www.HumanKinetics.com/
F ou ndationsOfSportAnd ExercisePsychology
INFLUENCIANDO OS
ESTÁGIOS DE MOTIVAÇÃO
PARA REALIZAÇÃO
O ambiente social no qual uma pessoa vive tem importantes
implicações para a motivação para realização e a compe-
titividade. Pessoas significativas podem desempenhar um
papel essencial na criação de uma atmosfera positiva ou
negativa.
Pais, professores e técnicos desempenham papéis espe-
cialmente importantes. Por sua vez, professores e técnicos
criam atmosferas motivacionais direta ou indiretamente.
88 Robert S. Weinberg o Daniel Gould
Dicas para guiar a orientação à realização
• Considere a interação de fatores pes~oais e situacionais na influência de comportamentos de realização.
• Enfatize objetivos voltados à tarefa ou orientados ao domínio e diminua a importância de objetivos
voltados ao resultado.
• Monitore e altere seu feedback de atribuição.
• Avalie e corrija atribuições inadequadas dos participantes.
• Ajude os participantes a determinarem quando devem competir e quando devem se focar no aprimo-
ramento individual.
• Aumente a percepção de competência e controle.
Eles definem tarefas e jogos corno competitivos ou coope-
rativos, agrupam crianças de maneiras diferentes (p. ex.,
escalando times por meio de uma seleção pública, na qual
a comparação social ocorre abertamente) e enfatizam de
modo distinto objetivos voltados à tarefa ou ao resultado
(Ames, 1987; Roberts, 1993).
Corno profissionais, podemos desempenhar papéis sig-
nificativos ao criarmos atmosferas que aumentem a moti-
vação para realização dos participantes. Por exemplo, Tre-
asure e Roberts (1995) criaram atmosferas motivacionais
voltadas tanto à tarefa corno ao resultado em um estudo
de uma aula de educação física com futebol com crianças.
Eles verificaram que, após 10 sessões nas quais os joga-
dores participaram de cada atmosfera, os jogadores que
atuaram na atmosfera voltada ao domínio focalizavam-se
mais no esforço, estavam mais satisfeitos e preferiam ta-
refas mais desafiadoras que os participantes da atmosfera
voltada ao resultado. Do mesmo modo, Pensgaard e Ro-
berts (2000) examinaram a relação entre atmosfera moti-
vacional e estresse em jogadores olímpicos de futebol e
verificaram que a percepção de uma atmosfera de domínio
estava relacionada a estresse reduzido. Portanto, a atmosfe-
ra rnotivacional criada por professores e técnicos influencia
a motivação para realização e outros estados psicológicos
importantes (estresse).
USANDO A MOTIVAÇÃO PARA
REALIZAÇÃO NA PRÁTICA
PROFISSIONAL
Agora que entende melhor o que está envolvido na motiva-
ção para realização e a competitividade e o modo como elas
se desenvolvem e influenciam os estados psicológicos, você
pode inferir implicações para a prática profissional. Para
ajudá-lo a consolidar seu entendimento, discutiremos agora
alguns métodos que pode usar para ajudar as pessoas com
quem trabalha.
RECONHEÇA FATORES
INTERACIONAIS NA
MOTIVAÇÃO DE REALIZAÇÃO
Agora você sabe que a interação de fatores pessoais e si-
tuacionais influencia a motivação que determinados alunos,
atletas e praticantes de exercícios têm que alcançar. A que
deve estar atento para orientar sna prática? Basicamente
você avalia:
• o estágio de motivação para realização dos partici-
pantes
• sua orientação voltada ao objetivo
• as atribuições que eles em geral definem para seus
desempenhos, e
• as situações que eles tendem a abordar ou evitar.
Tomemos dois exemplos. José tem um bom desempe-
nho em competições, busca desafios, estabelece objetivos
voltados ao domínio e atribui o sucesso a fatores internos
estáveis, tais corno sua capacidade. Esses são comporta-
mentos desejáveis, e ele é provavelmente um grande re-
alizador. Observamos, entretanto, que Felix evita adver-
sários de igual capacidade, é atraído para situações com-
petitivas extremas (nos quais o sucesso ou o fracasso são
quase certos), focaliza-se em objetivos voltados ao resul-
tado, fica tenso em competições e atribui o fracasso à sua
baixa capacidade (ou atribui o sucesso a fatores externos,
instáveis, como a sorte). Ele demonstra comportamento
de realização mal-adaptativo e precisará de sua ajuda e
orientação.'
Felix pode muito bem ser um caso de impotência
aprendida, uma condição adquirida na qual urna pessoa
percebe que suas ações não têm efeito sohre o resultado
desejado de urna tarefa ou habilidade (Dweck, 1980). Em
outras palavras, a pessoa sente-se fadada ao fracasso c acha
que nada pode ser feito em relação a isso. Ele provavelmen-
Feed
ccnc
Ir.
--.. -..
~
~
si-
os,
tu e
nte
ici-
eus
pe-
vos
nos
rta-
re-
rer-
>m-
são
sul-
sua
lOS,
:nto
la e
1cia
;soa
ta do
Em
~eha
11en-
Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício 89
Feedback de atribuição de técnicos, instrutores e professores de educação física é uma forte influência sobre o
conceito de sucesso de uma pessoa.
te define atribuições inúteis para o fracasso e, em geral, se
sente incompetente (ver "Um Caso de Impotência Aprendi-
da", na página 90).
ENFATIZE OS OBJETIVOS
VOLTADOS À TAREFA
Há várias formas de ajudar a prevenir tendências de reali-
zação mal-adaptativas ou retificar estados de impotência
aprendida. Uma das estratégias mais importantes é ajudar
as pessoas a estabelecerem objetivos voltados à tarefa e
diminuir a importância dos objetivos voltados ao resulta-
do. A sociedade enfatiza resultados esportivos, e os alunos
variam tanto, que diminuir a importância dos objetivos
voltados ao resultado nem sempre é uma tarefa fácil. Feliz-
mente, entretanto, os psicólogos do esporte e do exercícioaprenderam muito sobre o estabelecimento de metas (mais
detalhes no Cap. 15).
MONITORE E ALTERE O
FEEDBACK DE ATRIBUIÇÃO
Além de diminuir a importância dos objetivos voltados ao
resultado e enfatizar objetivos voltados à tarefa ou domí-
nio específicos, é fundamental que se tenha consciência
das atribuições que você define enquanto fornece feedhack.
Com freqüência, professores, técnicos ou instrutores trans-
mitem inconscientemente mensagens sutis, mas poderosas,
por meio das atribuições que acompanham seusfeedbacks.
Os adultos influenciam as interpretações de uma criança de
sucesso do desempenho - e motivação futura - pela ma-
neira como fornecemfeedback (Biddle et ai., 2001; Horn,
1987). Por exemplo, observe como este professor de educa-
ção física fornece .feedback a uma criança em um contexto
de ensino de voleibol:
VOCÊ NÃO BATEU NA BOLA CORRETAMENTE. FLE-
XIONE SEUS JOELHOS UM POUCO MAIS E REBATA
~Q Robert S. Weinberg • Daniel Gould
JJ Um caso d~ impotência •prendtda
Johnny é aluno da quinta série na áula.çle educaÇão fí»i~ dá.srq. Roalston, no segundo período. Ele não é
um aluno mltito talentoso, mas.pod~ melhorar cbm.esforçps c.onsistentes. Entretanto, após observar e passar
a conhecer J()hnny; a sra. Roalston foi ficàndo cada vez mais preocupada. Ele demonstra muitas das caracte-
rísticas de inipótênda ~prendida, as quais ela estudou nas aul(ls de psicologia do esporte e de pedagogia do
esporte na uniyersidaQ-e.
• Johnnyratamente tenta novas habilidádes, preferindo, em vez disso, ser o último da fila.
~ ' ' '
• QuandoJohnnytenta uma-nova. habilidade e fracassa emsoa primeira tentativa, ele pergunta por que
deveria tehtar:novament€, já que não é bom nos esportes.
• Sua reaÇão ao frac,as'sio ínici~l é de constrangimento e d.e diminwição do esforço.
• Ele se sente tão_ mal em relaç~o à sua competência física que só pensa em sair do ginásio o mais rápido
possível. -
Johnny tem todas as carpcterístícasoe impotência aprendida. A sra. Roa1ston lembra que a impotência
aprendida não é uma f~t\"ia de personalidade n~ culpil do menino: Antes, resulta de uma orientação vol-
tada ao resultado, tençl_ências cje realizç:~ção mal-adaptadas, experiências anteriores negativas com atividade
física e atribt;Jição do :desempenho a fatores está\teis, incontroláveis, especialmente baixa capacidade. Igual-
mente imporfát1te, a impotêncià aprendidé! pode.\álílàr cje espedfka a determinada atividade (p. ex., apren-
der a chutar wma bola) ama[s geral (p. ex., apr~nderqualquer habilidade esportiva) .. A sra. Roa1ston sabe que
isso pode $er swperadó se Johríny receber alguma atençao individUiili, se forem enfatizados repetidamente
os objetií!6s voltados ao domlnío e diminuída a importância de objetivos voltados ao resultado. Retreinar
atribuicÇ-ões ou faz.er; Johnny mudar suasatfi[>Ui:ções de baixa capaCidade para o fracasso também o ajudará.
Será neéessâfio milito i:.i:!mpo e trabalho, m~s ela pretende ajudá-lo a sair de seo abismo de impotência, e
essa será suà principal târéfa do: ano.
A BOLA USANDO OS SEUS ANTEBRAÇOS. TENTE
COM MAIS EMPENHO- VOCÊ VAI CONSEGUIR COM
A PRÁTICA.
O técnico não apenas transmite informação instrutiva ao
jovem atleta, mas também informa à criança que ela pode
realizar a tarefa. O instrutor também inclui a mensagem de
que persistência e esforço valem a pena.
Em comparação, consideremos os efeitos de dizer à
mesma criança o seguinte:
VocÊ NÃO BATEU NA BOLA CORRETAMENTE! SEUS
JOELHOS NÃO ESTÃO FLEXIONADOS E VOCÊ NÃO
USOU OS ANTEBRAÇOS. MAS NÃO SE PREOCUPE
-SEI QUE VOCÊ É MELHOR NO BEISEBOL, E NÃO
NO VOLEIBOL.
Embora bem intencionada, essa mensagem informa
ao jovem atleta que ele nunca será bom no voleibol, então
ele não deve se dar ao trabalho de tentar. Naturalmente,
você não deve definir atribuições irrealistas (p. ex .. di-
zer a uma praticante de exercícios que, com trabalho e
esforço contínuo, ela ficará igual a uma modelo, quando
de fato isso é improvável devido ao seu tipo físico). Pelo
contrário, o fundamental é enfatizar objetivos de domínio,
focalizando-se na melhora individual e, então, ligar atri-
buições àqueles objetivos individuais (p. ex., "Vou ser ho-
nesto. Você nunca terá o corpo da Gisele Bündchen, mas,
com trabalho e esforço, pode parecer e sentir-se muito
melhor do que agora").
Quando se trabalha com crianças, atribuir fracasso de
desempenho a seu baixo esforço pode ser efetivo apenas se
elas acreditam que têm as habilidades necessárias para, fi-
nalmente, realizar a tarefa (Horn, 1987). Se Jimmy acredita
que é totalmente i':lepto no basquetebol, dizer-lhe que ele
não aprendeu a driblar porque não se esforçou não aumen-
tará sua motivação para realização- pode apenas reforçar
sua baixa percepção de capacidade. Não defina atribuições
de baixo esforço com crianças com menos de nove anos a
menos que você também as tranqüilize de que elas têm ca-
pacidade para realizar a tarefa. A criança deve acreditar que
pode realizá-la.
AVALIE E CORRIJA
ATRIBUIÇÕES INADEQUADAS
É importante monitorar e corrigir atribuições inadequadas
ou mal-adaptadas que os participantes fazem de si mesmos.
Muitol
impoli
cidade
eu aio
nac as
suas a
falta d
após~
SUCCSi!
de atri
tati\'3!
atribui
ser efi
ddle e
finind
bem-!
corrij:
tomru
menu
tcs qt
após~
uma~
para.
que(]
portai
usem
parai
~ E
s
[
(
~
Muitos participantes que fracassam (sobretudo aqueles com
impotência aprendida) atribuem seu fracasso à baixa capa-
cidade, dizendo coisas como "Sou uma droga" ou "Por que
eu ainda tento? Eu simplesmente não tenho talento". Ensi-
nar as crianças no contexto da sala de aula a substituírem
suas atribuições de falta de capacidade por atribuições de
falta de esforço ajuda a aliviar decréscimos no desempenho
após o fracasso - essa estfatégia foi até mais efetiva que o
sucesso real (Dweck, 1975)! Além disso, o retreinamento
de atribuição centrado em criar estados emocionais e expec-
tativas positivas após o sucesso, e especialmente em evitar
atribuições de baixa capacidade após fracasso, demonstrou
ser efetivo em contextos de esporte e educação física (Bi-
ddle et ai., 2001). Se você ouvir os alunos ou clientes de-
finindo incorretamente suas atribuições para desempenhos
bem-sm:edidos, tais como "Foi um arremesso de sorte",
corrija-os e indique que foi o trabalho duro e a prática que
tomaram o arremesso bem-sucedido, não a sorte. Especial-
mente importante é a necessidade de corrigir os participan-
tes quando eles definem atribuições de baixa capacidade
após o fracasso (faça-os mudar as afirmaçües como "Eu sou
uma droga, porque ainda tento'! Eu nunca vou conseguir"
para "Eu vou conseguir se eu persistir e me concentrar no
que o meu treinador disse para eu fazer") Você tem a im-
portante responsabilidade de assegurar que os participantes
usem atribuições que facilitem a motivação e os esforços
para realização.
~ Ensinar as crianças em situações de sala de aula a
substituírem atribuições relacionadas à falta de ca-
Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício 91
pacidade por atribuições relacionadas à falta de es-
forço aJuda a aliviar decréscimos de desempenho
após o fracasso.
DETERMINE QUANDO OS
OBJETIVOS COMPETITIVOS
SÃO ADEQUADOS
Você também é responsável por ajudar os participantes
a determinarem quando é adequado competir c quando.é
adequado se concentrar na melhora individual. Às vezes,
a competição é uma necessidade na sociedade (p. ex., in-
tegrar uma equipe de atletismo ou ser admitido em uma
faculdade. Mas outras vezes competir é contraprodutivo.
Você não encorajaria um jogador de basquetebol a não
passar a bola para seus colegas que têm melhores arremes-
sos ou um paciente de reabilitação cardíaca a exceder a
zona de treinamento seguropara ser o corredor mais rápi-
do no grupo.
O essencial, então, é desenvolver o julgamento. Con-
versando, você pode ajudar alunos, atletas e praticantes
de exercícios a tomarem decisões nessa área. A sociedade
enfatiza tanto a avaliação social e os resultados competi-
tivos que você terá que contrabalançar, enfatizando uma
orientação à tarefa (se comparada com uma orientação de
resultado) (ver Cap. 5 para mais orientações). Conversar
com a pessoa uma ou duas vezes sobre essa questão não é
suficiente: esforços repetidos e consistentes são necessá-
rios para promover um bom julgamento sobre competição
adequada.
Diretrizes de atrjbuição para feedback do instrutor
O que fazer
• No caso de falha do aluno ou diente, enfatize a necessidade de esforçar-se e tentar mais. Porém, vincu-
le tais atribuições às metas ê às capacidades do indivíduo.
• No caso de sucesso do aluno ou cliente, atribua o sucesso à capacidade.
• No caso de sucesso do aluno ou cliente, atribua o sucesso ao grande esforço.
O que não fazer
• No caso de falha do aluno ou cliente, não estabeleça atríbtJiÇõ.es de baixa ca·pacidade que signifiquem
que a melhora pessoal é impossível.
• No caso de sucesso do aluno ou cliente, não atribua o sucesso à sorte.
• No caso de sucesso do aluno ou cliente, não atribua o sucesso à facilidade da tarefa.
• Em geral, não estabeiE;>ça atribuições dissimuladas ou falsas de nenhum tipo.
Adaptado do American College of Sports Medicine, 1997. ACSM's healthffitness facifff:y standards and guidelines, 2" ed. (Champaign,
IL: Human Kinetics).
92 Robert S. Weinberg • Daniel Gould
> Faça uso consistente e repetido de estratégias de
motivação para realização.
INTENSIFIQUE OS
SENTIMENTOS DE
COMPETÊNCIA E CONTROLE
Intensificar a percepção de competência e sentimentos de
controle são formas fundamentais de encorajar a motiva-
ção para realização em participantes de atividades físicas,
especialmente crianças (Weiss, 1993).Você pode fazê-lo
tornando as práticas c as competições divertidas e focali-
zadas na realização e nivelando as habilidades e as capa-
cidades do participante. Os instrutores podem aumentar a
competência usando feedback e reforço apropriados e aju-
AUXÍLIO AO APRENDIZADO
RESUMO
l. Defina motivação e seus componentes.
dando a criar desafios e objetivos individualizados para os
participantes (ver Caps. 6 e 15 respectivamente). Intensi-
ficar ao máximo o envolvimento de todos os participantes
é fundamental para aumentar a competência. Você pode
encontrar outros meios de intensificar a competência no
Capítulo 14.
Aplique seu conhecimento de motivação
completando o estudo de caso de recupe-
ração da motivação na Atividade 3.5 no
guia de estudo online (em inglês).
wwvv.HumanKinetics.com/
FoundationsOfSportAndExercisePsychology
A motivação pode ser definida como a direção e a intensidade do esforço. A direção do esforço refere-se ao
fato de um indivíduo buscar, aproximar-se ou ser atraído por certas situações. A intensidade do esforço refere-
se à intensidade do esforço que uma pessoa investe em determinada situação.
2. Descreva visões típica~ de motivação e sua utilidade.
Três visões de motivação incluem a visão centrada no traço, a visão centrada na situação e a visão interacional.
Entre esses modelos de motivação, a visão interacional, de participante-situação, é a mais útil para orientar a
prática profissional.
3. Detalhe as diretrizes úteis para desenvolver a motivação.
Cinco observações fundamentais, derivadas da visão interacional de motivação, fornecem boas diretrizes para
a prática. Primeiro, os participantes são motivados tanto por seus traços internos quanto pelas situações; se-
gundo, é importante entender seus motivos para a participação. Terceiro, você deve estruturar as situações para
satisfazer as necessidades dos participantes. Quarto, reconheça que, como professor, técnico ou instrutor, você
desempenha um papel fundamental no ambiente motivacional; e, quinto, use a modificação de comportamento
para mudar motivações indesejáveis do participante. Além disso, você também deve ter uma visão realista da
motivação: reconheça que outros fatores não-motivacionais influenciam o desempenho e o comportamento no
esporte e aprenda a avaliar se os fatores motivacionais podem ser facilmente mudados.
4. Defina motivação para realização e competitividade e indique sua importância.
A motivação para realização refere-se aos esforços de uma pessoa para dominar uma tarefa, alcançar excelência,
superar obstáculos, apresentar melhor desempenho em relação aos outros e ter orgulho em exercer seu talento.
Competitividade é uma disposição de lutar por satisfação ao fazer comparações com algum padrão de superio-
ridade na presença de avaliadores. Essas noções são importantes pelo fato de nos ajudarem a entender por que
algumas pessoas parecem tão motivadas à realização e outras parecem simplesmente "acqmpanhar a corrida".
5. Compare e diferencie as teorias sobre motivação para realização.
As teorias da motivação para realização incluem "(a) a teoria de necessidade de realização, (b) a teoria da atri-
buição, (c) a teoria das metas de realização e (d) a teoria de motivação de competência. Juntas, essas teorias
sugerem que atletas com altos e baixos níveis de realização podem ser diferenciados por seus motivos, pelas
tarefas que escolhem para serem avaliados, pelo esforço que exercem durante competição, por sua persistência
e por seu desempenho. Os atletas com altos níveis de realização geralmente adotam objetivos voltados ao do-
mínio (tarefa) e têm alta percepção de sua capacidade e controle. Eles atribuem o sucesso a fatores estáveis e
Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício 93
internos, como alta capacidade, e atribuem o fracasso a fatores instáveis e controláveis, como baixo esforço. Os
atletas com baixos níveis de realização, por sua vez, geralmente têm baixa percepção de capacidade e controle,
julgam-se mais em objetivos voltados ao resultado e atribuem o sucesso à sorte ou à facilidade da tarefa (fato-
res externos, incontroláveis); eles atribuem o fracasso à baixa capacidade (um atributo interno, estável).
6. Explique como se desenvolve a motivação para realização.
A motivação para realização e a competitividade desenvolvem-se por estágios que incluem (a) um estágio
autônomo, em que o indivíduo se focaliza no domínio de seu ambiente, (b) um estágio de comparação social,
em que o indivíduo se compara com outros e (c) um estágio integrado, em que o indivíduo tanto se concentra
na própria melhora como usa a comparação social. O objetivo do indivíduo é alcançar um estágio autônomo,
integrado e saber quando é apropriado competir e comparar-se socialmente e quando adotar um foco de com-
paração auto-referenciado.
7. Utilize princípios da motivação para realização a fim de orientar a prática.
Pais, professores e técnicos influenciam significativamente a motivação para realização das crianças e podem
criar atmosferas que intensifiquei]} essa realização e neutralizem a impotência aprendida. Eles podem fazê-lo
melhor (a) reconhecendo influências interacionais sobre a motivação para realização. (b) enfatizando objetivos
de tarefa individuais e diminuindo a importância de objetivos de resultado, (c) monitorando e fornecendofeed-
back atribucional apropriado, (d) ensinando os participantes a fazerem atribuições adequadas, (e) explicando-
lhes quando é adequado competir e comparar-se socialmente e quando é apropriado adotar um foco auto-
referenciado e (f) facilitando as percepções de competência c controle.
TERMOS-CHAVE
motivação
direção do esforço
intensidade do esforço
visão centrada no traço (visão centrada no
participante)
orientação centrada na situação
visão interacional
motivação para realização
competitividade
teoria da necessidade de realizaçãoprobabilidade de sucesso
valor de incentivo do sucesso
tendência resultante (tendência comportamental)
QUESTÕES DE REVISÃO
1. Explique os aspectos de direção e intensidade da motivação.
teoria da atribuição
estabilidade
local de causalidade
local de controle
teoria das metas de realização
orientação à meta de resultado (orientação à
meta competitiva)
orientação à meta de tarefa (orientação à meta
de domínio)
visão institucional
foco incrementai
teoria da motivação para competência
impotência aprendida
2. Identifique três visões gerais de motivação. Qual delas deveria ser usada para orientar a prática?
3. Como o estudo do revezamento na natação (por Sorrentino e Sheppard) apóia o modelo interacional de moti-
vação?
4. Descreva cinco diretrizes fundamentais de motivação para a prática profissional.
5. Quais os principais motivos que as pessoas têm para praticar esportes? Quais seus principais motivos para
praticar atividades físicas?
6. Quando é apropriado usar técnicas de modificação de comportaniento a fim de alterar a motivação para o en-
volvimento em esporte e exercício?
7. Que fatores importantes, além da motivação, você deve considerar para entender o desempenho e o comporta-
mento em situações esportivas e de exercício?
i
L
94 Robert S. Weinberg • Daniel Gould
8. Dê exemplos de fatores motivacionais facilmente influenciáveis.
9. Qnal a diferença entre motivação para realização e competitividade?
10. De que forma a motivação para realização influencia o comportamento?
11. Explique e diferencie quatw teorias para explicar a motivação para realiL:ação.
12. De que maneira atletas com altos e baixos níveis de realização diferem nos tipos de desafios e tarefas que es-
colhem?
13. O que são atribuições? Por que ela~ são importantes para ajudar a entender a motivação para realização em
situações esportivas e de exercício?
14. Diferencie entre uma orientação de objetivo de resultado (competitiva) e uma orientação de objetivo de tare-
fa (domínio). Qual delas deve ser mais enfatizada em situações esportivas. de educação física e de exercício?
Porquê?
15. Identifique os três estágios de motivação para realização e de competitividade. Por que eles são importantes?
ló. Discuta como ojeedback atribucional de um professor ou técnico influencia o desempenho do participante.
Quais os componentes fundamentais do retreinamcnto da atribuição?
17. O que é impotência aprendida? Por que ela é importante?
QUESTÕES DE PENSAMENTO CRÍTICO
l. Liste pelo menos três fomms de entender melhor os motivos de uma pessoa para a participação em esportes e
em atividade física.
2. Crie um programa para eliminar a impotência aprendida em participantes. Indique de que forma você incenti-
varia uma atmosfera motivacional adequada.