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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE LETRAS CENTRO DE ESTUDOS GERAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS DENISE BARROS WEISS Conversação em aula de português para estrangeiros Tese submetida à banca de Doutorado, na área de concentração de Estudos de Linguagem, linha de pesquisa Discurso e Interação. Orientador: Prof. Dr. FERNANDO AFONSO DE ALMEIDA Niterói 2007 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. 2 Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central do Gragoatá W429 Weiss, Denise Barros. Conversação em aula de português para estrangeiros / Denise Barros Weiss. – 2007. 232 f. Orientador: Fernando Afonso de Almeida. Tese (Doutorado) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Letras, 2007. Bibliografia: f. 164-167. 1. Língua portuguesa – Estudo e ensino – Falantes estrangeiros. 2. Conversação. 3. Interação. I. Almeida, Fernando Afonso. II. Universidade Federal Fluminense. Instituto de Letras. III. Título. CDD 469.0202 3 DENISE BARROS WEISS Conversação em aula de português para estrangeiros Tese submetida à banca de Doutorado, na área de concentração de Estudos de Linguagem, linha de pesquisa Discurso e Interação. BANCA EXAMINADORA _______________________________________________________________ Prof. Dr. Fernando Afonso de Almeida – Orientador Universidade Federal Fluminense – UFF _______________________________________________________________ Profa. Dra. Letícia Rebollo Couto Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ ______________________________________________________________ Prof. Dr. Décio Orlando Soares da Rocha Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ _______________________________________________________________ Prof. Dr. José Carlos Gonçalves Universidade Federal Fluminense – UFF _______________________________________________________________ Profa. Dra. Solange Coelho Vereza Universidade Federal Fluminense – UFF Suplentes: _______________________________________________________________ Profa. Dra. Cláudia Nivea Roncaratti Universidade Federal Fluminense – UFF _______________________________________________________________ Profa. Dra. Kátia Ferreira Fraga Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ Data da defesa: 29 de agosto de 2007 4 AGRADECIMENTOS Ao professor doutor Fernando Afonso de Almeida, orientador deste trabalho, pela tranqüilidade com que me ajudou durante o processo de elaboração da tese. Aos professores doutores Letícia Rebollo Couto, Décio Orlando Soares da Rocha, José Carlos Gonçalves e Solange Coelho Vereza, pela gentileza de se disporem a compor a banca de avaliação desta tese. Aos professores doutores Paulo Gago e Solange Vereza, pelas orientações preciosas quando da apresentação do projeto de qualificação. À Universidade Federal de Juiz de Fora, por ter me concedido um ano de afastamento integral durante a elaboração da tese e aos professores do Departamento de Letras, por me incentivarem a participar do programa de qualificação e por viabilizarem meu afastamento total das atividades docentes. Às professoras doutoras Verônica Lage e Marta Cristina da Silva, pela verificação da acuidade das traduções da língua inglesa. Ao professor doutor Fernando Afonso de Almeida, pela verificação da acuidade das traduções da língua francesa. Aos alunos do curso de português para estrangeiros da Universidade Federal de Juiz de Fora, por me permitirem gravar suas aulas. Às queridas amigas Ana e Luiza, pela ajuda na transcrição inicial dos dados e pelo apoio nas horas de dificuldade. Aos professores Igor Porsetti e Lyvia Gomes, companheiros que doaram seu tempo e sua habilidade técnica se revezando na gravação dos dados em vídeo. À professora doutora Norimar Júdice, por ceder parte de seu material de pesquisa para compor a base de dados. À secretaria da Universidade Federal Fluminense, pelo tratamento sempre gentil e eficiente durante todas as fases de participação no programa de doutorado. Aos amigos que, mesmo quando não compreendiam muito do que eu falava, me ouviam com paciência. À minha família, que entendeu minhas ausências. Ao Emídio, que suportou com tranqüilidade minhas muitas horas à frente do computador e que me deu o incentivo necessário para eu ir até o fim do trabalho. Obrigada! 5 RESUMO O objetivo desta tese é reconhecer padrões de comportamento dos participantes de atividades de conversação em aulas de português para estrangeiros ministradas no Brasil. Apresentamos a atividade de conversação como uma composição de duas camadas: a didática e a relacional. Na camada didática, na qual os participantes têm como objetivo estudar a língua-alvo, observamos como as informações são negociadas e como os participantes proporcionam uns aos outros oportunidades de desenvolvimento das habilidades de compreensão e produção oral. Na camada relacional, na qual os participantes empregam a língua de estudo para se comunicarem e mostrarem a si mesmos, expondo suas visões de mundo, observamos como são negociados os traços identitários apresentados pelos indivíduos ou atribuídos a eles. PALAVRAS-CHAVE: Interação, conversação, ensino, língua estrangeira, português para estrangeiros. 6 ABSTRACT The aim of this thesis is to recognize standards of behavior of the participants of conversational activities in lessons of Portuguese for foreigners in Brazilian classes. We present the conversational activity as a composition of two layers: the didactic and the relational ones. In the didactic layer, in which participants aim to observe and to practise aspects of the target language, we analyze how they negotiate information and provide each other chances of development of oral comprehension and production abilities. In the relational layer, in which the participants use the language they are studying to communicate and present themselves displaying their own world views, we observe how the identity features shown by individuals or assigned to them are negotiated. KEY WORDS: Interaction, conversation, teaching, foreign language, Portuguese for foreigners 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO........................................................................................................................................................................9 1. ASPECTOS METODOLÓ GICOS DO TRABALHO ........................................................................................... 12 1.1. OS DADOS .....................................................................................................................................................................13 1.2. O MATERIAL ANALISADO............................................................................................................................................15 1.2.1. O registro em vídeo ..........................................................................................................................................17 1.2.2. O registro em áudio.......................................................................................................................................... 19 1.3. SER PESQUISADOR E PESQUISADO.............................................................................................................................19 1.4. IDENTIFICAÇÃO DAS AULAS ANALISADAS................................................................................................................21 1.4.1. Aula 1 .................................................................................................................................................................. 21 1.4.2. Aula 2 .................................................................................................................................................................. 23 1.4.3. Aula 4 .................................................................................................................................................................. 24 1.4.4. Aula 5 .................................................................................................................................................................. 25 2. CONSIDERAÇÕES DE ORDEM TEÓRICA......................................................................................................... 28 2.1. FILIAÇÃO TEÓRICA......................................................................................................................................................28 2.2. CONVERSA E SITUAÇÃO SOCIAL ................................................................................................................................30 2.3. ENQUADRES..................................................................................................................................................................32 2.4. ENQUADRES E ALINHAMENTOS .................................................................................................................................33 2.5. AQUISIÇÃO E APRENDIZAGEM....................................................................................................................................34 2.6. FACE ..............................................................................................................................................................................36 3. O ESPAÇO INTERACIONAL DA SALA DE AULA........................................................................................... 38 3.1. O QUE É UMA SALA DE AULA?....................................................................................................................................38 3.1.1. A sala de aula como ambiente institucional................................................................................................. 39 3.1.2. Esquemas participativos na sala de aula...................................................................................................... 41 3.1.3. As configurações de participação na sala de aula...................................................................................... 42 3.1.3.1. A configuração em leque ...............................................................................................................................42 3.1.3.2. A configuração em rede.................................................................................................................................43 3.2. A AULA DE LÍNGUA ESTRANGEIRA............................................................................................................................44 3.2.1. Contratos que regem a aula de língua estrangeira..................................................................................... 45 3.2.1.1. Contrato principal e contratos menores .........................................................................................................45 3.2.1.2. O papel da língua-alvo ...................................................................................................................................46 3.2.2. Os participantes da aula de língua estrangeira .......................................................................................... 47 3.2.2.1. O papel do professor......................................................................................................................................48 3.2.2.2. O papel dos alunos.........................................................................................................................................51 4. A CONVERSAÇÃO – UMA ATIVIDADE DA AULA DE LÍNGUA ESTRANGEIRA ............................. 53 4.1. A CONVERSAÇÃO E OUTROS TIPOS DE INTERAÇÃO.................................................................................................55 4.1.1. A conversação e a conversa............................................................................................................................ 55 4.1.2. A conversação e a entrevista........................................................................................................................... 60 4.2. OS CONTEXTOS EXTERNOS E A CONVERSAÇÃO: CONTEXTOS ALOGLOTA E HOMOGLOTA.................................64 8 4.2.1. O contexto aloglota........................................................................................................................................... 65 4.2.2. O contexto homoglota...................................................................................................................................... 65 4.3. AS REGRAS DA CONVERSAÇÃO..................................................................................................................................67 4.3.1. A modificação de características da conversa............................................................................................. 67 4.3.2. A modificação de características da sala de aula....................................................................................... 69 4.4. A CONVERSAÇÃO COMO UM COMPLEXO DE CAMADAS..........................................................................................76 5. A CAMADA DIDÁTICA............................................................................................................................................... 81 5.1. A FUNÇÃO DE INFORMAR............................................................................................................................................82 5.1.1. Tarefa: fornecer informações sobre aspectos externos à língua.............................................................. 83 5.1.1.1. O professor como informador ........................................................................................................................83 5.1.1.2. O aluno como informador ..............................................................................................................................85 5.1.2. Tarefa: dar explicações sobre itens de vocabulário................................................................................... 87 5.1.2.1. O professor como explicador .........................................................................................................................87 5.1.2.2. O aluno como explicador ...............................................................................................................................89 5.1.3. Tarefa: fornecer dados sobre estruturas lingüísticas................................................................................. 92 5.2. A FUNÇÃO DE ANIMAR................................................................................................................................................93 5.2.1. Tarefa: Pontuar as trocas................................................................................................................................ 945.2.1.1 O professor como pontuador das trocas..........................................................................................................94 5.2.1.2. O aluno como pontuador das trocas...............................................................................................................98 5.2.2. Tarefa: Fornecer comandos de atividades................................................................................................... 99 5.2.3. Tarefa: Chamar à atenção............................................................................................................................101 5.3. A FUNÇÃO DE AVALIAR.............................................................................................................................................103 5.3.1. A tarefa de fazer uma apreciação................................................................................................................103 5.3.2. A tarefa de fazer uma correção ....................................................................................................................104 5.3.3. A tarefa de fazer uma avaliação indireta....................................................................................................107 5.3.4. A autocorreção................................................................................................................................................108 6. A CAMADA RELACIONAL .....................................................................................................................................110 6.1. MOBILIZAÇÃO DE TRAÇOS DA IDENTIDADE PELO PRÓPRIO PARTICIPANTE.......................................................113 6.1.1. Aluno portador de cultura específica..........................................................................................................113 6.1.2. Professor portador de cultura específica....................................................................................................115 6.2. MOBILIZAÇÃO DA IDENTIDADE POR OUTRO PARTICIPANTE ...............................................................................116 6.2.1. Aluno como aprendiz......................................................................................................................................116 6.2.2. Aluno portador de cultura específica..........................................................................................................117 6.2.3. Professor portador de cultura específica....................................................................................................121 6.3. MOBILIZAÇÃO DE CARACT ERÍSTICAS PESSOAIS....................................................................................................125 6.3.1. Exposição de características pessoais dos alunos....................................................................................125 6.3.2. Exposição de características pessoais do professor.................................................................................130 6.3.3. Atribuição de características pessoais a outro participante...................................................................131 6.4. EFEITOS DA NEGOCIAÇÃO DE IDENTIDADES NA CONVERSAÇÃO.........................................................................134 6.4.1. Atos de ameaça da face..................................................................................................................................134 6.4.2. Redução do potencial de dano à face..........................................................................................................142 6.4.3. Redução do potencial de dano pelo humor................................................................................................146 7. RELAÇÕES ENTRE AS CAMADAS DIDÁTICA E RELACIONAL...........................................................151 7.1. COLAPSO ENTRE AS CAMADAS.................................................................................................................................151 7.2. CONFLITOS ENTRE AS CAMADAS.............................................................................................................................155 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...........................................................................................................................................159 BIBLIOGRAFIA EMPREGADA..................................................................................................................................164 ANEXOS ...............................................................................................................................................................................168 ANEXO 1.............................................................................................................................................................................168 ANEXO 2.............................................................................................................................................................................179 ANEXO 3.............................................................................................................................................................................192 ANEXO 4.............................................................................................................................................................................224 9 Introdução Este projeto nasceu de uma angústia antiga. Como professora de português para estrangeiros desde 1988, lecionando em turmas que congregam alunos de diferentes nacionalidades em uma universidade federal, sempre observamos que as situações vividas por mim em sala de aula eram diferentes das que viviam meus colegas que trabalhavam com o ensino de outras línguas estrangeiras. Nessas aulas freqüentemente ocorriam situações em que os alunos, ao ouvirem ou lerem uma frase, uma expressão presente no material didático, ou ainda diante de alguma informação apresentada em sala ou mesmo fora dela, passavam a discutir um tema diferente daquele proposto por mim, e o faziam de um modo tal que parecia uma conversa informal. A dúvida era: seria aquela interação incompatível com o objetivo daquele encontro? Qual seria a diferença entre aquela interação na sala de aula e, por exemplo, uma conversa entre professor e alunos na cantina? O que me pareceu inicialmente uma idiossincrasia da minha prática em sala de aula acabou se afigurando como uma situação característica das aulas de português para estrangeiros. Professores da área, em encontros, seminários e congressos, sublinhavam o caráter imprevisível das aulas e costumavam demonstrar a mesma preocupação que eu tinha. O projeto inicialmente tinha como objetivo compreender como se dava a interação entre os alunos, já que me parecia que eram unicamente eles os responsáveis pela modificação das interações na sala. A observação foi 10 demonstrando, porém, que a professora tinha um papel importante nesse movimento. Assim, houve uma alteração substancial no objetivo da pesquisa e chegou-se progressivamente a um conjunto de questões que nortearam o trabalho aqui apresentado. A pergunta que consiste no objetivo deste trabalho é: como se caracteriza a conversação em uma sala de aula de português como língua estrangeira em contexto homoglota, em termos da interação entre os participantes? A conversação será aqui analisada em dois aspectos. O primeiro é o do uso da conversação como estratégia de exposição do aluno a estruturas da língua-alvo e a aspectos sócio-culturais da cultura-alvo. O segundo aspecto analisado é o da conversação enquanto espaço de negociações de identidade, negociações essas que a caracterizamcomo lugar no qual os participantes organizam e reorganizam constantemente as relações que têm uns com os outros, seja assumindo, seja atribuindo identidades sociais. O trabalho foi dividido em sete capítulos. No primeiro, são apresentadas considerações de caráter metodológico que guiaram a elaboração da pesquisa. No segundo, indicam-se os elementos básicos de caráter teórico empregados no trabalho. Inicialmente, apresenta-se sucintamente a corrente teórica a que se filia a pesquisa. A seguir, serão elucidados conceitos- chave que serão empregados posteriormente na análise dos dados. Os capítulos seguintes são dedicados à análise propriamente dita. No capítulo 3 o objetivo é apresentar as características da sala de aula, mostrando como esse contexto estabelece uma hierarquia de posições entre os participantes da interação pedagógica. Depois de se mostrar as características da interação na sala de aula, tal como se apresentam nas representações de professores e alunos, trata-se das estruturas de participação, ressaltando o contrato entre professores e alunos e os modelos de participação aí encontrados. No capítulo 4, centra-se o foco na conversação, observada como uma atividade dentro do complexo que constitui a aula de língua estrangeira. Nesse capítulo, são destacadas as características específicas dessa atividade que a diferenciam tanto da conversa quanto da entrevista. Ao final dele, propõe-se a idéia de que a conversação pode ser analisada como um complexo de camadas:a didática e a relacional. Cada uma dessas camadas merecerá um capítulo, respectivamente o quinto e o sexto. No quinto, são analisadas as características da camada relacional, 11 empregando-se como teoria de fundo as informações coletadas em Vion e Dabène. No sexto, são observadas as relações interpessoais e seus processos de negociação. Nessa seção, são empregados em especial o conceito de face (de Goffman) e seus desdobramentos. Destacamos aqui a formulação apresentada por Katherine Kerbrat-Orecchioni, que serviu de base à análise. Finalmente, no sétimo capítulo, destacamos as situações em que as camadas se colapsam (observando em especial a técnica de revozeamento, empregada por uma das professoras) e aquelas em que os participantes demonstram dificuldade em transitar entre as camadas. Em relação aos trechos citados nesta tese, fizemos uma opção, em prol da legibilidade, de manter a versão em português no corpo do texto e, no rodapé da página, o trecho no original. Embora tenhamos contado com a ajuda de especialistas na revisão dessas traduções, assumimos a responsabilidade pelos eventuais erros de interpretação. 12 1. Aspectos metodológicos do trabalho Este trabalho foi estruturado a partir da observação dos dados da pesquisa. Eles foram analisados inicialmente a partir de uma observação não técnica de uma situação cotidiana da vida profissional da pesquisadora. A partir dessas observações, devidamente enriquecidas por leituras de cunho teórico, chegou-se aos conceitos necessários para a análise. Foi um processo dialético: dos dados, passou-se à procura de elementos de caráter teórico que os explicassem. O estudo desses aspectos teóricos abriu caminho para uma nova leitura dos dados, o que exigia novas investidas na teoria. Nesse processo, foram-se modificando tanto os objetivos do trabalho como o modo de se observar os dados. Procurou-se reconhecer padrões interacionais que caracterizassem a atividade de conversação, padrões esses que a distinguissem de outras atividades decorrentes de um encontro social de caráter institucional. Foi feita uma distinção entre a conversação e a conversa – tanto pelo fato de essa última ser considerada a interação social básica quanto por ser essa uma distinção extremamente relevante para se obter respostas à questão proposta neste trabalho. Além disso, descobriu-se durante a análise dos dados uma relação entre a conversação e a entrevista, o que mereceu também um olhar mais atento. A partir da perspectiva discursiva, que ressalta a natureza dialógica e interpretativa da comunicação humana, foi estudado os comportamentos verbal e não-verbal no contexto da sala de aula de português para estrangeiros, observando- se a co-construção discursiva entre professor e alunos. No processo de análise, foram sendo destacados elementos que apontavam para algumas características 13 fulcrais, ao nosso ver, da conversação: as negociações de identidades dos participantes, alguns efeitos dessas negociações e processos de minimização dos possíveis efeitos indesejados de determinadas atribuições de identidade (processos esses que objetivam à reparação de ameaças à face positiva ou negativa de um participante). 1.1. Os dados O material coletado e analisado neste trabalho consiste em quatro aulas de português para estrangeiros gravadas em vídeo na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) e uma aula gravada em áudio na Universidade Federal Fluminense (RJ). A principal característica dos grupos analisados é a extrema heterogeneidade dos alunos que formam sua clientela. No caso da Universidade Federal de Juiz de Fora, o grupo a que poderíamos chamar “principal”, por ser o mais previsível a cada ano, é formado por alunos de instituições de ensino japonesa, alemã e americana. Esse grupo, que forma a base das turmas, tem como único elemento nivelador o fato de estarem todos cursando o equivalente ao “terceiro grau”. Não há homogeneidade quanto aos interesses, já que os cursos de origem são muito variados. É comum que, além desse grupo, cursem as disciplinas outros alunos, já que a universidade permite a matrícula de quaisquer estrangeiros que tenham terminando o equivalente ao ensino médio. Assim, a origem dos demais alunos é não somente diversa como imprevisível. Já houve alunos que eram professores visitantes da instituição, outros que eram refugiados políticos, esposas de funcionários de uma companhia estrangeira que se instalava na cidade, padres e pregadores de diferentes religiões e seitas. O curso de Juiz de Fora é ministrado na forma de duas disciplinas (português para estrangeiros I e II) que se alternam na grade. Assim, no primeiro semestre do ano temos português estrangeiros I e no segundo semestre, o II. Esse sistema teve repercussões para a coleta de dados, já que o objetivo era gravar as aulas de alunos que tivessem aproximadamente quatro meses de convívio na sala de aula. Por conta disso, só foram gravadas as aulas de final de primeiro semestre ou de início de segundo semestre. 14 O curso de português para estrangeiros oferecido pela UFF consiste em um total de 60 horas de atividades, oferecido em sistema de estudos intensivos. Na página da instituição lê-se que A UFF oferece um programa específico de Português para Estrangeiros que preconiza o método comunicativo, com ênfase na produção oral e no contato do aluno estrangeiro com a comunidade de Niterói, estimulando-se visitas de campo a lugares públicos (campus universitário, museus, locais históricos e turísticos etc.), que permitem maior aproximação com a cultura brasileira. Os alunos a quem são oferecidos esses cursos se encontram em uma das duas situações: · alunos de intercâmbio temporariamente freqüentando cursos de graduação ou pós-graduação na UFF; · estrangeiros não vinculados à UFF que desejem aperfeiçoar seus conhecimentos de português. A universidade tem convênios com instituições dos seguintes países: Uruguai, Suécia, Romênia, Portugal, Namíbia, Japão, Itália, França, Estados Unidos, Espanha, Dinamarca, Cuba, Chile, Canadá, Bolívia,Bélgica, Argentina, Angola e Alemanha. O tratamento dos dados começou com a transcrição (inicialmente parcial, depois integral) das fitas de vídeo e de áudio. Primeiramente foi feita uma transcrição não-detalhada, contemplando apenas o que foi dito pelos participantes e, quando considerado relevante, também informações relativas a elementos não- verbais e proxêmicos. A partir dos dados brutos aí obtidos, foram selecionados trechos de maior relevância para a pesquisa, que se converteram em um banco de dados. Foi feito um refinamento da transcrição desse conjunto e os dados já analisados foram então revistos à luz desse refinamento. Assim chegou-se ao conjunto de trechos analisados no decorrer deste trabalho. O emprego de uma fonte de dados mista (feita parcialmente em vídeo e parcialmente em áudio) pode não ser a melhor forma de se efetuar a análise proposta. Cremos que o material ideal seria formado por transcrições de material apenas em vídeo. Entretanto, depois de fazer a gravação das aulas na UFJF, percebeu-se que faltava um conjunto de dados que funcionasse como um 15 contraponto. Em uma pesquisa sobre as relações professor-aluno, ter aulas apenas de uma professora poderia gerar uma análise extremamente restrita. Assim, obtivemos o material a que nos referimos como aula 5, gravada em áudio na Universidade Federal Fluminense. A análise dessa aula suscitou um conjunto de observações extremamente enriquecedor. Assim, os dados foram incorporados ao conjunto do material oriundo da UFJF. 1.2. O material analisado Como já foi dito no item anterior, o material é constituído de uma fita cassete e de quatro fitas de vídeo. A gravação em fita cassete, embora menos invasiva, trouxe alguma dificuldade para a análise, pois tornou difícil a identificação dos alunos e impediu observações de elementos não-verbais da interação. Esses problemas não ocorreram quando da análise da gravação em vídeo. Entretanto, permanece a questão da presença ostensiva da câmera durante a gravação, que deve ser considerada um aspecto relevante na análise. Segundo Rose (2002), Não há um modo de coletar, transcrever e codificar um conjunto de dados que seja “verdadeiro” com referência ao texto original. A questão, então, é ser o mais explícito possível a respeito dos recursos que foram empregados pelos vários modos de translação e simplificação. (ROSE, 2002:344) É fato que a transcrição indica um modo de olhar o objeto de pesquisa. No caso específico de dados transcritos de vídeo, é inevitável que sejam feitas certas escolhas. A partir do ângulo tomado pela câmera, passando pelas escolhas do que é ou não relevante para a pesquisa (o que inclui o recorte dos trechos considerados importantes) até a decisão sobre o nível de detalhamento da transcrição, tudo pode interferir no material final a ser efetivamente trabalhado. As convenções de transcrição empregadas neste trabalho são adaptadas daquelas descritas em Sachs, Schegloff e Jefferson (1974), conforme apresentadas por Gago em palestra proferida na UFF, em julho de 2004 e em Gago (2004). 16 [colchetes] fala sobreposta (0.5) pausa medida em segundos (.) micropausa de menos de dois décimos de segundo = contigüidade entre a fala de um mesmo falante ou de dois falantes. . descida de entonação / subida de entonação , entonação contínua : alongamento de som - auto-interrupção sublinhado acento ou ênfase de volume MAIÚSCULA ênfase acentuada º fala mais baixa imediatamente após o sinal ºpalavras trecho falado mais baixo >palavras< fala comprimida ou acelerada <palavras> fala desacelerada <palavras início acelerado hhh aspirações audíveis (riso) (h) aspirações audíveis durante a fala .hhh inspiração audível (suspiro) (( )) comentário do analista (palavras) transcrição duvidosa ( ) transcrição impossível Th estalar de língua “ “ palavra em emprego metalingüístico ou em citação Além das convenções adotadas na transcrição, apresentadas na tabela acima, empregamos, em alguns exemplos, a estratégia de colocar em negrito elementos para os quais estamos chamando a atenção na análise Essa medida visa a facilitar a leitura, especialmente quando os trechos recortados são longos. Durante o processo de transcrição das fitas procuramos registrar a fala dos participantes tal como se apresentava, evitando fazer modificações ou correções 17 para que ela se adequasse à língua padrão, ou mesmo ao padrão da língua portuguesa. A fala da professora, que pode parecer mais próxima da língua padrão do que seria de se esperar em uma transcrição de fala, pode ser explicada pelo fato de ela estar tentando conscientemente manter-se o mais próximo possível de uma forma considerada correta do ponto de vista gramatical. Assim, tanto a velocidade de fala – um pouco reduzida, para que os alunos pudessem entendê-la mais facilmente – quanto a pronúncia de plurais, por exemplo, são aspectos desse cuidado com a pronúncia. A fala dos alunos, por sua vez, apresenta maior número de incorreções, o que é absolutamente previsível, já que eles são aprendizes de língua portuguesa, embora alguns estejam em nível avançado. Não se trata, nesse caso, de registrar alguma forma de preconceito lingüístico, mas simplesmente de manter-se tão fiel quanto possível ao que de fato ocorreu nas aulas. Além disso, é importante notar que muitas vezes as incorreções ou inadequações na pronúncia dos alunos são objetos de negociação e provocam o início de módulos importantes para a análise. 1.2.1. O registro em vídeo Em Bauer e Gaskell (2002) são abordadas diversas questões relativas ao trabalho do pesquisador que utiliza dados de textos, imagens e som. Entre elas é de especial interesse para este trabalho o que ensina Loizos, em seu texto sobre o uso da videografia. O autor apresenta as vantagens de se trabalhar com esse tipo de registro, salientando o fato de que a análise desses dados oferece um material muito mais rico em informações do que o registro, por exemplo, apenas em áudio, bastante comum nas pesquisas lingüísticas. Utilizando a videografia, podemos observar situações bem mais complexas, nas quais elementos não-verbais são, às vezes, determinantes para um entendimento adequado do que se passa. A imagem, com ou sem acompanhamento de som, oferece um registro restrito, mas poderoso das ações temporais e dos acontecimentos reais – concretos, materiais. (...) Embora a pesquisa social esteja tipicamente a serviço de complexas questões teóricas e abstratas, ela pode empregar, como dados 18 primários, informação visual que não necessita ser nem em forma de palavras escritas, nem em forma de números. (LOIZOS, 2002:137) O registro feito pela câmera é um olhar sobre o objeto, pouco diferente de qualquer outro. É uma representação da cena, tomada de um ângulo específico. A câmera é manejada por alguém que afasta ou focaliza segundo seus próprios critérios. Assim, pode-se dizer que esses registros não estão isentos de problemas, ou acima de manipulação, e eles não são nada mais que representações, ou traços, de um complexo maior de ações passadas. (Id. ib:138) A tarefa do pesquisador que se dispõe a trabalhar com videografia pressupõe que se lide com aspectos técnicos que são específicos dessa situação e que nem sempre esse pesquisador domina. Em primeiro lugar, deve-se considerar questões relativas ao manejo da câmera e sua inserção no local em que serão feitas as gravações. É preciso observar, em primeiro lugar, aspectos técnicos da gravação: número de pessoas presentes (se formuito grande, provocará problemas com o som); adequação do equipamento utilizado no que diz respeito à capacidade de captar a imagem em situações de relativamente pouca luz; a localização do espaço físico em que se fará a gravação, já que muitas vezes os sons do ambiente externo à sala são extremamente prejudiciais à compreensão do que se diz; finalmente, o que talvez seja o mais complicado dos problemas: tornar a presença da câmera o menos invasiva possível. No caso deste trabalho, o manejo da câmera não apresentou maiores dificuldades, mas o local em que as aulas ocorriam tinha interferência de barulho proveniente da circulação de carros na rua em frente. Em certos momentos, isso dificultou a compreensão do que foi dito. A principal vantagem de se trabalhar com o vídeo foi a oportunidade de se observar como os gestos e a postura física de cada participante interferiram no prosseguimento da interação verbal. A variedade das posturas dos participantes (com o corpo totalmente encostado na cadeira, em atitude de passividade, com o corpo inclinado para frente, em atitude de ouvinte interessado), assim como os movimentos em direção uns aos outros foram empregados como dados que 19 permitiam identificar o envolvimento maior ou menor de cada participante na interação. Esse aspecto da comunicação não-verbal ajudou a entender sobretudo aspectos da atribuição de turno, o que foi importante para a análise do comportamento da professora. É evidente que a presença da câmera na sala de aula foi um fator de inibição para os participantes. É provável, portanto, que esse processo de coleta de dados tenha interferido na espontaneidade das intervenções. Tal fato torna-se mais perceptível quando a professora Diane faz interrupções para dar orientações sobre o uso da câmera, registradas no primeiro dia de gravação (aula 1) e quando alguns participantes, especialmente daqueles já naturalmente menos propensos a falar ou menos proficientes em português, se mantêm em silêncio. Esses problemas foram minimizados pelo fato de os participantes que manejaram a câmera serem já presenças constantes na sala de aula, já que eram alunos do curso de Letras da UFJF interessados no ensino de português para estrangeiros, portanto pessoas não estranhas àquele grupo. 1.2.2. O registro em áudio O uso de fitas de áudio é a forma mais comum de registro de interações orais, onipresente nos estudos realizados antes do advento das técnicas de registro em vídeo. A principal característica do registro em áudio utilizado neste trabalho foi a não-interferência de ninguém além dos próprios participantes da aula (professora e alunos). Como eles mesmos manipularam o gravador (que era passado de um para o outro), não havia a presença potencialmente inibidora de um estranho ao grupo. Essa passagem do gravador de mão em mão foi registrada em alguns pontos pela professora que indicava (possivelmente em uma tentativa de explicar a quem fosse manipular a fita futuramente) quando isso acontecia. 1.3. Ser pesquisador e pesquisado Uma das questões que provocou discussão no que se refere à coleta dos dados foi se seria adequado trabalhar com as gravações feitas em aulas ministradas 20 pela própria pesquisadora (identificada, nas transcrições com o nome de Diane). Embora, em nome da isenção do tratamento dos dados, fosse talvez mais confortável trabalhar estudando a atuação de outro profissional, várias circunstâncias acabaram por nos fazer optar pela outra solução. Já comentamos no item anterior que a câmera de vídeo é um elemento de intimidação em qualquer ambiente. A sala de aula não é exceção. O professor se sente desconfortável, por se saber observado, não só por si mesmo, já na situação de pesquisador, mas também provavelmente por pessoas que ele sequer conhece. Saber-se avaliado em seu trabalho é sempre desafiador, e poucos estão dispostos a passar pela experiência. Uma outra dificuldade para se conseguir dados deve-se ao fato de não haver muitos cursos de português para estrangeiros no Brasil em que se trabalhe em condições semelhantes às que se pretendia observar, já que turmas heterogêneas quanto à origem são comparativamente raras (há uma tendência a se congregar grupos de alunos de mesma origem). Como resultado, encontramo-nos na situação de não poder contar, naquele momento, com outras pessoas dispostas a participar dessa empreitada. Embora de modo geral se possa dizer que o fato de o professor saber de antemão os objetivos da gravação tenha o poder de interferir em seu desempenho, acreditamos que nesta situação em especial tal interferência seja minimizada. Em primeiro lugar, os objetivos da pesquisa mudaram um pouco no decorrer da mesma. O que se pretendia inicialmente era observar apenas a atuação dos alunos – postura algo ingênua, já que não se pode, em uma dada situação, ignorar a atuação de uma das partes. Assim, à época da gravação a professora julgava não estar no centro das atenções. Em segundo lugar, houve um considerável período de tempo entre a gravação das aulas e sua análise, o que permitiu que a pesquisadora conseguisse observar o desempenho da professora sem tanta interferência do aspecto emocional (críticas à sua atuação, irritação por certas condutas...). Se por um lado esse processo de distanciamento atrasou a análise, por outro permitiu que não houvesse tanta interferência da memória da pesquisadora a respeito do que ela pensava estar fazendo ao falar (ou calar). Isso colaborou para um olhar menos marcado por certas crenças sobre o próprio trabalho que, de outra forma, poderiam influenciar os julgamentos. 21 1.4. Identificação das aulas analisadas O objetivo desta seção é apresentar uma visão mais geral das aulas analisadas, de modo a que se possa compreender mais adequadamente o contexto geral em que se inserem os trechos transcritos neste trabalho. Considerando que a transcrição integral das fitas formou um material longo demais para ser apresentado integramente em anexo, optamos por apresentar apenas uma seleção dos momentos dos quais foram recortados os trechos analisados. Para a melhor compreensão da seqüência total de situações das aulas gravadas, apresentamos um resumo de cada uma, de modo a que se possa compreender o “enredo do drama” vivido pelos participantes. Convém ainda observar que o nome dos participantes foi modificado, como é praxe. Por uma questão de legibilidade do material, optamos por atribuir nomes fictícios e não códigos tais como Al1, Al2. Também para ajudar a compreender determinadas configurações de participação nas aulas, selecionamos nomes característicos de pessoas das culturas a que pertence cada participante. As aulas foram numeradas de 1 a 5, de acordo com a ordem cronológica em que ocorreram. Das cinco aulas gravadas originalmente, em quatro obtivemos trechos nos quais houve efetivamente conversação. Na aula aqui denominada 3, toda a interação girou exclusivamente em torno do material apresentado pela professora – uma crônica. As intervenções dos alunos foram unicamente respostas às perguntas formuladas pela professora, cuja intenção comunicativa era principalmente o treino de estruturas ou a resolução de uma dúvida pontual sobre o texto. Nenhum ponto dessa aula originou uma situação de interação do tipo que estamos analisando. Assim, a referida aula não apresenta trecho passível de ser analisado nos termos propostos neste trabalho. As demais aulas serão aqui descritas de modo mais detalhado. 1.4.1. Aula 1 Participantes: Professora : Diane Alunos do curso: 22 Kaori, Kanji, Aiko, Yukoe Naomi alunos provenientes do Japão. Todos pertencentes à mesma universidade. Nível de proficiência intermediário. Ade aluno proveniente de Gana – falante nativo de inglês. Nível de proficiência intermediário > avançado. Roy aluno proveniente da Nova Zelândia – falante nativo de inglês. Nível de proficiência intermediário. Donald aluno proveniente dos Estados Unidos. Nível de proficiência intermediário. Demais participantes: Laís e Flávio alunos do curso de Letras, participantes habituais das aulas, como observadores. Responsáveis pela gravação em vídeo. Resumo dos eventos da aula Na aula 1, o objetivo da professora era apresentar aos alunos um texto (um diálogo fabricado com propósito didático) e através dele explicar os usos do pretérito imperfeito. Antes, porém, de efetivamente começar a trabalhar com o texto, ela fez um exercício de sensibilização dos alunos para o tema a ser trabalhado: uma situação de assalto na casa dos personagens. Essa atividade de conversação teve como tema geral a violência e se desenvolveu em três tópicos: o medo da violência, comparação entre a violência no Brasil e nos países de origem dos alunos; episódios de violência vividos pelos alunos. Em cada tópico, foram desenvolvidos diversos módulos. Nesse exercício inicial, que acabou por tomar aproximadamente quinze minutos da aula, mantém-se um enquadre característico da conversação, próximo ao de uma situação de entrevista, durante o qual a professora conduz as intervenções dos alunos de modo a mantê-las em um nível mais igualitário de participação (de modo semelhante ao que faz o mediador em um debate formal). Esse modo de a professora conduzir a conversação suscitou diferentes reações dos alunos, que interpretaram a oportunidade de fala de maneiras diferentes: alguns utilizando a abertura em termos de oportunidade de fala para exporem mais minuciosamente seus pontos de vista sobre o tema; outros, agindo 23 segundo as regras tácitas da situação professor/ aluno, simplesmente respondendo ao que foi perguntado, sem maior delonga. Como foi indicado acima, além dos participantes, estavam presentes na sala dois estudantes brasileiros, responsáveis pela gravação em vídeo. A sala teve suas cadeiras dispostas em semicírculo. Todos podiam, sem muito esforço, virar-se para olhar os outros participantes, mas a postura padrão dos alunos foi permanecer com o corpo reto, na posição em que a visão predominante era o centro da sala – local em que estava a professora. 1.4.2. Aula 2 Participantes Professora : Diane Alunos do curso: Ade aluno proveniente de Gana – falante nativo de inglês. Nível de proficiência intermediário > avançado. Roy aluno proveniente da Nova Zelândia – falante nativo de inglês. Nível de proficiência intermediário. Donald aluno proveniente dos Estados Unidos. Nível de proficiência intermediário. Pepper aluna proveniente dos Estados Unidos. Nível de proficiência iniciante > intermediário. Hazel aluna proveniente da Austrália. Nível de proficiência iniciante > intermediário. Demais participantes: Laís e Flávio alunos do curso de Letras, participantes habituais das aulas, como observadores. Responsáveis pela gravação em vídeo. Resumo dos eventos da aula Na aula 2, o objetivo da professora era fazer com que os alunos falassem de um tema que exigisse domínio de um vocabulário relativo a viagens e diversão. A professora forneceu-lhes uma tarefa específica, projetada como parte de uma 24 avaliação do desempenho oral, a ser completada posteriormente pelos alunos em performances individuais (que não foram gravadas). A tarefa se compunha de dois exercícios a serem executados em grupo. No primeiro, os alunos deveriam imaginar um roteiro de férias e propô-lo aos demais alunos. Esse exercício tinha aspecto de jogo, já que os alunos deveriam tentar convencer os demais de que seu passeio era o melhor. O objetivo era observar a capacidade de argumentação dos alunos. No segundo, os alunos deveriam apresentar um plano de elaboração de uma festa. Esse exercício foi executado por pares de alunos, que negociaram as características da festa e depois a apresentaram aos demais. De modo geral, observou-se nessa aula uma estrutura de participação semelhante à descrita na aula 1, com a professora mantendo um enquadre característico da conversação, próximo ao de uma situação de entrevista, conduzindo as intervenções dos alunos de modo a mantê-las em um nível mais igualitário de participação. Nessa aula, porém, essa condição foi levada a efeito de maneira mais firme pelo fato de os alunos estarem um uma situação de avaliação. Como resultado, temos, na aula 2, menos digressões que nas demais aulas observadas. 1.4.3. Aula 4 Participantes Professora : Diane Alunos do curso: Eric aluno proveniente dos Estados Unidos. Nível de proficiência intermediário. Gretel aluna proveniente da Alemanha. Nível de proficiência iniciante > intermediário. Hans aluno proveniente da Alemanha. Nível de proficiência intermediário > avançado. Takeo aluno proveniente do Japão. Nível de proficiência intermediário. Demais participantes: Laís e alunos do curso de Letras, participantes habituais das aulas, como 25 Flávio observadores. Responsáveis pela gravação em vídeo. Resumo dos eventos da aula A aula 4 é a mais rica em situações diferentes. Ela pode ser decomposta em blocos. O primeiro, iniciado momentos antes do início da gravação, consistiu em uma conversação entre a professora e os alunos sobre o tópico “casamento e relações familiares”. Esse tópico gerou um conjunto de subtópicos que foram construídos coletivamente pelos participantes: o casamento da professora, preço de um casamento, casamento e gravidez. A seguir, a professora propôs um jogo de simulação de cenário, no qual os alunos deveriam explicar como agiriam a partir de uma situação hipotética. Nesse ponto houve uma intervenção de uma aluna que deu origem ao terceiro bloco da aula, cujo tema, inicialmente a própria pesquisa da professora, derivou para uma comparação entre os sistemas educacionais brasileiro e dos países de origem dos alunos. Depois desse momento, voltou-se à situação de jogo, último bloco da aula. Uma característica dessa aula é o fato de se ter registrado interações menos marcadas pelo ambiente institucional em que ocorreram. Isso é observado mais fortemente na primeira parte da aula (discussão sobre casamento), já que nessa caso a discussão começou fora do ambiente da sala de aula e foi incorporada à aula propriamente dita, de maneira a não haver nenhuma quebra de continuidade no tópico discutido, mas com a estrutura de participação de alterando para a característica da conversação. 1.4.4. Aula 5 Participantes Professora Rita Alunos: Maria, Paulo, Sarah, A1 e A2 alunos provenientes do Senegal - francófonos. Maria e Paulo são irmãos. Nível de proficiência intermediário. Wilson aluno proveniente da Espanha. Gilda aluna proveniente da Alemanha. 26 Resumo dos eventos da aula A aula 5 é a única gravada apenas em áudio. A aula transcrita corresponde a um trecho de aproximadamente 25 minutos de duração, registrado em fita cassete pelos próprios participantes. O grupo era composto de quatro alunos do Senegal, mais dois alunos de outras nacionalidades. A maior parte da conversação se desenvolve entre a professora e os participantes senegaleses. O mote para a conversação foi a apresentação de uma imagem representativa de uma cena do Brasil colonial. Inicialmentea professora perguntou a cada aluno o que ele pensava sobre a imagem apresentada a eles e sobre como eram as relações familiares em seu próprio país. O primeiro a responder é Wilson, que faz a descrição. A professora provavelmente iria manter a rotina de perguntar a cada aluno, mas uma intervenção de uma aluna aqui identificada como Maria muda esse quadro, já que ela, ao explicar a situação da mulher em seu país, acaba por promover uma modificação na dinâmica da discussão. Enquanto a professora mantém a estratégia de repetir ou parafrasear todas as informações dadas pelos alunos, de modo a poder corrigir eventuais inadequações e dar aos alunos o crédito de sua participação – processo conhecido como revozeamento1, os alunos vão encaminhar a discussão no sentido de uma disputa pessoal: como dois dos alunos são irmãos (Maria e Paulo), as falas de Maria começam a gerar uma situação de possível agressividade, devidamente controlada pela professora. Notou-se na fala da professora uma prosódia característica do discurso pedagógico. Ela empregou entonações bastante específicas para marcar as frases interrogativas, e falou muitas vezes escandindo as sílabas, de modo a tornar sua pronúncia absolutamente compreensível para os alunos. Como esse efeito ocorreu em todas as suas intervenções, optou-se por não marcar a escansão, registrando-se apenas os momentos em que ela dava uma ênfase ainda maior a essa separação. Nessa aula, o ponto mais interessante a ser observado é o movimento de identidades que ocorre por parte dos alunos. A professora mantém-se durante toda a seqüência em uma posição característica de sua função institucional, envolvida 1 No item 7.1 apresentamos e analisamos essa técnica. 27 nas atividades de animadora e de mantenedora da conversação. Os alunos, por sua vez, transitam entre várias identidades – aquela oriunda de sua função naquela situação (aluno) cede espaço à de cidadão de um país e à de indivíduo. As relações sociais preexistentes serão colocadas em jogo, assim como as imagens de si, interferindo decisivamente nos rumos tomados na conversação. 28 2. Considerações de ordem teórica Neste capítulo indicam-se elementos básicos empregados no trabalho. Inicialmente, será apresentada sucintamente a corrente teórica a que se filia este trabalho. A seguir, serão elucidados conceitos-chave que serão empregados posteriormente na análise dos dados. 2.1. Filiação teórica O presente trabalho se filia teoricamente à sociolingüística interacional, valendo-se de princípios da etnometodologia. Fortemente ancorada na pesquisa qualitativa empírica e interpretativa, a sociolingüística interacional propõe o estudo da língua na interação social (...) As análises que caracterizam essa tradição são necessariamente uma interpretação ex post facto dos fenômenos (lingüísticos, não-verbais, sociais, entre outros) que co-operam na construção do evento comunicativo. (RIBEIRO e GARCEZ, 2002: 8) O presente trabalho se inscreve dentro da proposta de análise da interação. Um dos ramos da sociolingüística, a análise da interação consiste na observação não apenas de aspectos verbais de um dado encontro social, mas de sua correlação com aspectos não-verbais (entre eles a proxêmica) que interferem na negociação dos sentidos. Segundo Bronckart, 29 A expressão interacionismo social designa uma posição epistemológica geral, na qual podem ser reconhecidas diversas correntes da filosofia e das ciências humanas. Mesmo com a especificidade dos questionamentos disciplinares particulares e com as variantes de ênfase teórica ou de orientação metodológica, essas correntes têm em comum o fato de aderir à tese de que as propriedades específicas das condutas humanas são o resultado de um processo histórico de socialização, possibilitado especialmente pela emergência e pelo desenvolvimento dos instrumentos semióticos. (BRONCKART, 1991:21) Bronckart situa a linguagem como prática fundamental da conduta e do desenvolvimento humano. Em suas palavras: “as práticas de linguagem situadas (quer dizer, os textos-discursos) são os instrumentos maiores do desenvolvimento humano, não somente sob o ângulo dos conhecimentos e dos saberes, mas, sobretudo, sob o das capacidades de agir e da identidade das pessoas”. (BRONCKART, 2006) O objetivo da pesquisa na linha da sociolingüística interacional é descobrir “o que está acontecendo aqui e agora nesta situação de uso da linguagem” (RIBEIRO e GARCEZ, 2002:7). Essa frase sublinha dois aspectos da sociolingüística. Em primeiro lugar, trata-se de lidar com dados de uso da língua, coletados a partir de situações de interação entre indivíduos. Em segundo lugar, existe a preocupação do pesquisador em identificar as características daquilo que efetivamente se passa no momento. Isso significa identificar as forças sociais e discursivas que agem naquela situação em especial. É o que os autores explicam: uma análise da organização do discurso e da interação social demonstra a complexidade inerente a qualquer tipo de encontro face a face, pois, na condição de participantes, estamos a todo momento introduzindo ou sustentando mensagens que organizam o encontro social, mensagens essas que orientam a conduta dos participantes e atribuem significado à atividade em desenvolvimento ao mesmo tempo que ratificam ou contestam os significados atribuídos pelos demais participantes. (RIBEIRO e GARCEZ, 2002:7) 30 A análise da interação pressupõe a observação minuciosa de aspectos verbais e não-verbais de uma dada relação social mediada pela linguagem. Seu objetivo não é prever, mas entender o que ocorre a cada passo da interação. Tannen e Wallat explicam: Quando as pessoas estão na presença umas das outras, todos os seus comportamentos verbais e não-verbais são fontes potenciais de comunicação, e suas ações e intenções de significados podem ser entendidas somente em relação ao contexto imediato, incluindo o que o antecede e o que pode sucedê-lo. Logo, a interação só pode ser entendida em contexto específico. (TANNEN e WALLAT, 2002:186) 2.2. Conversa e situação social O material básico com que lida o sociolingüista interacional é a conversa. Ataliba Castilho (1998) explica que a conversa é uma atividade lingüística básica, que integra as práticas diárias de qualquer cidadão, independentemente de seu nível sócio-cultural. Ela pode ser reconhecida como o intercurso verbal durante o qual dois ou mais participantes se alternam, discorrendo livremente sobre tópicos propiciados pela vida cotidiana, fora de ambientes institucionais. Conversa, para aquele pesquisador, é, portanto, uma atividade que não está presa a padrões institucionalmente marcados, daí servir como termo de comparação quando se pretende analisar interações socialmente mais marcadas, que ocorrem em situações mais formais – sejam entrevistas na televisão, discussões em órgãos de defesa do consumidor, ou ainda, como é o caso deste trabalho, as relações em sala de aula. Goffman insere a conversa no contexto da situação social. Ele define a situação social como um ambiente que proporciona possibilidades mútuas de monitoramento, qualquer lugar em que um indivíduo se encontra acessível aos sentidos nus de todos os outros que estão presentes, e para quem os outros indivíduos são acessíveis de forma semelhante. De acordo com essa definição, uma situação social emerge a qualquer momento em que dois ou mais indivíduos se encontram na presença 31 imediata um do outro e dura até que a penúltimapessoa tenha se retirado. (GOFFMAN, 2002:17) Segundo ele, ao participarem de uma situação social, os indivíduos agem de acordo com uma determinada imagem, definida quer a partir das características institucionais da situação, quer a partir do que apresentam sobre si mesmos e do que os outros participantes da interação estabelecem como sendo seu papel naquele momento, naquele lugar. Essa imagem é externalizada por um conjunto de sinais ou elementos pertencentes a diferentes ordens: o que se fala (ou pelo que se cala), pelo que se faz, pelo modo como alguém se movimenta, pelas suas expressões faciais. Portanto, o indivíduo desempenha papéis que variam conforme a situação social em que se encontra. Esses papéis constituem o que Goffman chama de fachadas pessoais: um conjunto de traços entre aqueles que uma pessoa efetivamente possui e que ela mobiliza em determinada situação porque são os que ela crê que se coadunam com o ambiente. Há pontos dessa fachada que são menos sensíveis a mudança. Elementos como a idade, a aparência física e o sexo tendem a ser menos mutáveis que outros, tais como os distintivos de função ou categoria (uso de uniformes, por exemplo) e os padrões de linguagem. Outros, porém, serão altamente influenciados pelo contexto imediato em que se encontram os participantes. Uma determinada fachada social tende a se tornar institucionalizada em termos das expectativas estereotipadas às quais dá lugar e tende a receber um sentido e uma estabilidade à parte das tarefas específicas que no momento são realizadas. (GOFFMAN, 1992: 34) Na medida em que uma representação ressalta os valores oficiais comuns da sociedade em que se processa, podemos considerá-la (...) como uma cerimônia, um rejuvenescimento e afirmação expressivos dos valores morais da comunidade. (...) O mundo, na verdade, é uma reunião. (id. ib.: 41) Uma conversa seria, então, para esse autor, um processo complexo de negociação de significados criados a partir da posição assumida por cada participante na interação. Assim, 32 a fala é socialmente organizada, não apenas em termos de quem fala para quem em que língua, mas também como um pequeno sistema de ações face a face que são mutuamente ratificadas e ritualmente governadas, em suma, um encontro social. (GOFFMAN, 2002:19) 2.3. Enquadres Goffman mostra que o significado das ações sociais – entre as quais se destaca a conversa – é definido em função dos enquadres que organizam e governam esses eventos. Os enquadres são “macro-representações sociais expressas na organização das interações” (Martins, 2005). Segundo Tannen e Wallat, a noção interativa de enquadre se refere à definição do que está acontecendo em uma interação, sem a qual nenhuma elocução (ou movimento ou gesto) poderia ser interpretado. (...) Para compreender qualquer elocução, um ouvinte (e um falante) deve saber dentro de qual enquadre ela foi composta. (TANNEN e WALLAT, 2002:188) O enquadre é uma estrutura dinâmica, sujeita a modificações provenientes da negociação de sentido entre os participantes da interação. Cada enquadre é identificado por pistas lingüísticas e paralingüís ticas, e sua definição está condicionada tanto ao conhecimento compartilhado pelos participantes em relação ao contexto em que estão inseridos quanto aos objetivos de cada participante naquele momento específico. A noção de enquadre interacional presente no estudo de Tannen e Wallat (1987) reflete a noção de atividade de fala, que é onde o falante sinaliza mudanças nas relações interpessoais através de traços contextuais (Gumperz, 1982), princípios de organização comportamental que servem para que os participantes saibam interpretar que atividade está ocorrendo e como devem se comportar ou interagir para serem entendidos (Ribeiro, 1994). As aulas deste estudo serão analisadas sob dois tipos de enquadres interacionais: os enquadres institucionais, que dizem respeito às atividades voltadas ao objetivo central da interação em contexto escolar; e os enquadres pessoais, que correspondem aos tópicos pessoais ou experiências que os participantes compartilham entre si favorecendo um 33 relacionamento de natureza não institucional. Pretende-se mostrar, neste estudo, como se dá a interdependência entre esses enquadres. 2.4. Enquadres e alinhamentos Para a análise da interação em sala de aula, utilizamos os conceitos de Goffman (1998) referentes aos papéis que falantes e ouvintes podem assumir em uma dada situação social, bem como aos alinhamentos projetados pelos interlocutores. Ao utilizar esses conceitos, pretendemos focalizar as “estruturas de participação”, já que elas estão intimamente associadas ao processo dinâmico de construção de significados pelos participantes (Goffman, 1967). Enquanto os enquadres são, nas situações sociais, as cenas das quais participam falantes e ouvintes, os alinhamentos podem ser entendidos como os movimentos feitos pelos participantes durante essas cenas, de modo a se posicionarem frente às condições que se lhes apresentam naquele momento. Segundo Goffman (1992:70), o footing representa o alinhamento, o porte, a postura, a posição/o posicionamento, a projeção do ‘eu’/a projeção pessoal do participante, de um participante na sua relação com o outro, consigo próprio e com o discurso em construção. A estrutura de participação envolve os participantes da interação (falante, ouvinte ratificado e, no caso das entrevistas, ouvinte não ratificado ou expectadores), isto é, diz respeito às diversas maneiras como eles se inter- relacionam. Para criar essa estrutura, Schiffrin baseia-se em Goffman (1981), apresentando uma distinção entre a estrutura de participação e o formato da produção, ou seja, entre os papéis dos participantes durante um evento discursivo e o alinhamento adotado para a situação de representatividade. O formato de produção só pode ser explicado se atentarmos para a função dos encaixamentos na fala (mudanças de entonação ou qualidade de voz) produzidos pelo falante quando, por exemplo, lê algo em voz alta, recita um texto ou fala por outro, ou seja, através das palavras do outro. Nesse caso, o participante deixa de ser um falante no sentido característico da palavra e torna-se um animador: fala o discurso, mas não é o seu autor, nem seu protagonista. Verificamos, portanto, que o formato de produção evidencia como os participantes se relacionam com o que é dito ou feito, isto é, a 34 sua posição diante de seus turnos, atos de fala e enunciados. (Fávero, Andrade e Aquino, 1998) Na observação da interação é necessário atentar para as marcas deixadas pelas operações discursivas, imprescindíveis para que os participantes produzam inferências, as contextualizem e, assim, interpretem o que está acontecendo na interação. Gumperz (1998) chama a isso pistas de contextualização. Elas incluem aspectos lingüísticos, de natureza lexical ou sintática, ou paralingüísticos, que podem ser de caráter prosódico, como o tempo da fala, a acentuação e a altura da voz, o ritmo, a hesitação, risos, entre outros. Nos dados, observamos que os diferentes alinhamentos assumidos pelos participantes foram cruciais para lidar com os eventos relativos à relação entre identidades (assumidas ou atribuídas). 2.5. Aquisição e aprendizagem A palavra aquisição é usada por diversas correntes lingüísticas com significados nem sempre iguais. Aquisição pode ser, segundo Almeida Filho e Lombello, a construção progressiva de um sistema que vai se configurando na direção do sistema da língua-alvo através da formulação e testagem de hipóteses. (ALMEIDA FILHO eLOMBELLO, 1989:44) Krashen distingue assim aquisição de aprendizagem: a aquisição é um processo subconsciente de construção criativa usado por crianças e adultos ao adquirirem a primeira e segunda línguas. A aquisição é natural e por isso muito se assemelha à maneira pela qual a criança adquire a primeira língua, enfatizando-se a necessidade de comunicação e não a forma lingüística. A aprendizagem de uma língua, por outro lado, é um processo consciente através do qual regras são assimiladas e observadas. (KRASHEN, 1982:10) Neste trabalho, aquisição será considerada como o processo parcialmente inconsciente, não obrigatoriamente formal, através do qual se consegue adquirir certa habilidade ou determinado conhecimento. Aprendizagem será, por sua vez, 35 considerada o processo formal de estudo que leva o aluno a conseguir essa habilidade ou conhecimento. Os alunos que formam o público-alvo desta pesquisa passam ao mesmo tempo pelos processos de aquisição e de aprendizagem da língua portuguesa. Del’Isolla, tratando do ensino de português para alunos estrangeiros no Brasil, explica que o objetivo mais geral (...) independentemente da abordagem adotada, é propiciar ao aprendiz o conhecimento dessa língua para fins de comunicação principalmente pelo fato de o mesmo encontrar-se em contexto de imersão: ele está exposto à língua no país que a utiliza enquanto código comunicativo. Assim, como o português é o meio de instrução e interação pessoal, dentro e fora de sala de aula, será considerado a segunda língua do aluno. (DEL’ISOLLA, 1997: 100) Ou seja, ao mesmo tempo em que o aluno está vivendo em um ambiente no qual a língua de comunicação dominante é o português, o que constitui uma situação adequada à aquisição da língua, freqüenta um curso regular de português, no qual há reflexão sistemática sobre aspectos dessa língua, o que constitui situação de aprendizagem. Forma-se, assim, uma condição específica que configurará formas diferentes de contato com a língua, as quais podem variar de indivíduo para indivíduo conforme, entre outros fatores, sua inserção em maior ou menor grau no ambiente em que convive, seu grau de interesse em aprender a língua, seu contato maior ou menor com falantes de sua língua materna. Para efeito deste trabalho, empregaremos a expressão ensino de língua estrangeira para nos referirmos às situações aqui analisadas. Tal nomenclatura coincide com a que, de maneira geral, é empregada nesses casos e evita uma distinção algo problemática entre ensino de língua estrangeira e ensino de segunda língua. Ademais essa distinção não teria efeito prático algum sobre as análises aqui apresentadas. 36 2.6. Face Goffman (1967) afirma que cada indivíduo está imbuído de uma face, ou seja, de um valor social positivo que requisita para si quando em interação face-a-face com outros indivíduos. A interação e a troca não colocam simplesmente o indivíduo em contato com outros modelos identitários (...) todo indivíduo faz, de um modo mais explícito ou menos, um julgamento sobre a identidade do outro e é objeto, por sua vez, de julgamento análogo. Essa dinâmica pode afetar profundamente os personagens na interação e provocar alteração de identidades. (SEMPRINI, 1999:104) A face pode ser identificada como o valor social que alguém reivindica para si. Todo ser social tem duas faces: a positiva e a negativa. A face negativa se refere aos territórios, às reservas pessoais e aos direitos do indivíduo, ou seja, à sua liberdade de ação. É o desejo de não ser impedido em suas ações; assim, a preservação da face negativa implica a não-imposição do outro. A face positiva, por sua vez, representa a auto-imagem definida ou personalidade do indivíduo, incluindo o desejo de aprovação dessa auto-imagem pelos interlocutores. Goffman explica que em toda situação social existe sempre a necessidade de haver um acordo quanto à definição geral da situação pelos participantes. Os participantes, em conjunto, contribuem para uma única definição geral da situação, que implica não tanto num acordo real sobre o que existe, mas, antes, num acordo real quanto às pretensões de qual pessoa, referentes a quais questões, serão acatadas. Haverá também um acordo real quanto à conveniência de se evitar um conflito aberto de definições da situação. Referir-me-ei a este nível de acordo como um “consenso operacional”. (GOFFMAN, 1992 :19) Quando esse acordo deixa de funcionar, ocorre uma ameaça à face daquele participante cuja definição da situação é questionada. Os atos de ameaça à face consistem em situações nas quais se coloca em xeque a situação de outro participante de uma interação. Tanto se pode ameaçar a face negativa do outro (em atos que violam o direito ao território e à intimidade, por exemplo) quanto se pode 37 ameaçar a face positiva (críticas, sarcasmo são violações desse tipo). É o que explica Kerbrat-Orecchioni: Atos que ameaçam a face negativa do receptor: as violações territoriais de natureza não-verbal são numerosas (...) mas as ameaças territoriais podem também ser de natureza verbal: é isso que ocorre nas chamadas perguntas “indiscretas”; e no conjunto dos atos que são, em alguma medida, inoportunos ou diretivos, como ordem, a interpelação, a proibição ou o conselho. (...) Atos que ameaçam a face positiva do receptor: são todos aqueles que colocam em risco o narcisismo do outro, como a crítica, a refutação, a reprovação, o insulto e a injúria, a chacota e o sarcasmo. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006:79) Kerbrat chama a atenção para uma outra característica da interação, com a qual os participantes procuram equilibrar a constante possibilidade de ameaça à face. Trata- se dos trabalhos de “face want” ou preservação das faces. Por um lado, portanto, os atos efetuados de ambas as partes ao longo da interação são potencialmente ameaçadores para os interactantes. Mas, por outro lado, eles devem obedecer ao comando supremo: Uns e outros, sejam cuidadosos, Porque a perda da face é uma falha simbólica que tentamos evitar, na medida do possível, a nós mesmos e aos outros. À noção de face sobrepõe-se não somente a noção de FTA, mas também a de face want ou o desejo de preservação das faces – sendo essas últimas, ao mesmo tempo e contraditoriamente, o alvo de ameaças permanentes e o objeto de desejo de preservação. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006: 80) 38 3. O espaço interacional da sala de aula Neste capítulo nosso objetivo é apresentar as características da sala de aula, mostrando como esse contexto estabelece uma hierarquia de posições entre os participantes da interação pedagógica. Inicialmente mostraremos as características dessa interação, tal como se apresentam nas representações de professores e alunos. A seguir, tratamos das estruturas de participação na sala de aula, ressaltando o contrato entre professores e alunos e os modelos de participação aí encontrados. 3.1. O que é uma sala de aula? A sala de aula pode ser pensada sob vários pontos de vista: como espaço físico, como locus de aprendizagem, como espaço de convivência. É um espaço físico estabelecido, de modo geral, dentro de um ambiente institucional característico (a escola). Sua estrutura padrão compreende uma ordenação espacial que separa professor e alunos. O primeiro assume uma posição central, na qual ao mesmo tempo fica visível e tem possibilidade de ver todos os demais participantes. Os alunos, por sua vez, têm um espaço padronizado, proporcionalmente menor, ordenado de modo tal que todos estejam voltados para a frente,para o ponto onde está o professor. Embora haja, evidentemente , outras configurações possíveis para a situação de sala de aula, incluindo aquelas em que professor e alunos compartilham espaços semelhantes (uma sala com uma grande mesa ao redor da qual se assentam 39 professor e alunos), a descrita acima, além de ser extremamente comum, representa um padrão para qualquer interação pedagógica,e está presente tanto no imaginário dos alunos como no dos professores como o modelo de como deve ser uma aula. O objetivo da reunião de pessoas em uma sala de aula é conhecido: alunos querem aprender, e contam com os professores para ajudá-los nessa tarefa. Almeida (2005) assim explica: Em primeiro lugar, a sala de aula é um contexto interacional específico e, enquanto tal, possui uma vocação claramente definida: é um lugar de aprendizagem. O fato de ser, reconhecidamente, um espaço destinado à transmissão de conhecimentos imprime um caráter francamente pedagógico à relação e tende a restringir o aparecimento de trocas de outra natureza. Em segundo lugar, em virtude do contrato pedagógico assim estabelecido e reconhecido por ambas as partes (professor e aluno), a sala de aula se apresenta como um contexto exíguo do ponto de vista não apenas físico, mas também sócio- interacional. O estatuto dos participantes dessa relação assimétrica é delimitado previamente e de forma bastante rigorosa; o que tenderia a imobilizá-los em suas posições específicas, inibindo seu investimento em outras posições sociais. (ALMEIDA, 2005:61) Destacamos, no excerto acima, duas características assumidas por Almeida como sendo definidoras da sala de aula enquanto contexto interacional. A primeira é a oposição de funções, que ele assume ser muito rígida, entre professor e aluno. A segunda é o fato de a relação professor–aluno inibir o investimento dos participantes em outros papéis. Neste trabalho, veremos que a interação resultante da conversação é um ponto em que há uma redução da distância entre professor e aluno e isso propicia uma maior flexibilidade de posições sociais passíveis de serem assumidas pelos participantes. Entretanto, frisamos que a relação aí presente continua sendo prioritariamente didática. 3.1.1. A sala de aula como ambiente institucional Em Pereira (2005), lemos que o discurso institucional pode ser caracterizado pela racionalidade, pelas regras que governam uma dada instituição, entidade ou organização. A instituição confere aos seus agentes um determinado conjunto de 40 direitos e deveres comunicativos que ele pode e deve invocar quando de suas interações naquele contexto. Encontros de caráter institucional tendem a engendrar interações complexas. Coupland explica que Encontros geralmente definidos como transacionais ou instrumentalmente motivados, assim como, certamente, a conversa no mundo comercial e profissional, são interacionalmente constituídos em parte a partir da fala social. Mais especificamente, o discurso envolve, de modo geral, uma dialética entre enquadres institucionais (por exemplo, enquadres médicos, legais, pedagógicos ou comerciais) e enquadres de conversa. (COUPLAND, 2000:6) 2 A sala de aula, em sua dimensão discursiva, é um espaço em que convivem, em uma relação institucionalizada, professor e alunos. Trata-se de uma relação que tem regras específicas, estabelecidas em função da tarefa que justifica aquela relação: o fazer didático. Esse ambiente pode ser entendido como um espaço social próprio, ordenado em uma dupla dimensão. Institucionalmente, a sala de aula é estabelecida segundo um conjunto de normas e regras, que buscam unificar e delimitar a ação dos seus participantes. É a essa dimensão que se refere Almeida, no excerto citado acima. Cotidianamente, porém, o ambiente escolar enseja interações em que são colocadas em jogo uma trama de relações entre os envolvidos (professor/aluno, aluno/aluno), que incluem alianças e conflitos, imposição de normas e estratégias, individuais ou coletivas, de transgressão e de acordos. Trata-se de um processo de apropriação constante dos espaços, das normas, das práticas e dos saberes que dão forma à vida escolar. Fruto da ação recíproca entre o sujeito e a instituição, esse processo, como tal, é heterogêneo. Nessa perspectiva, a realidade escolar aparece mediada, no cotidiano, pela apropriação, elaboração, reelaboração ou repulsa expressas pelos sujeitos sociais. (DAYRELL, 1998). 2 Encounters we normally define as transactional or instrumentally motivated, as well as the commercial and professional worlds of talk at work, are interactively constituted partly on the basis of social talk. More particularly, a discourse typically involves a dialectic between institutional frames (e.g. medical, legal, pedagogic or commercial) and social-relational talk frames . 41 3.1.2. Esquemas participativos na sala de aula O esquema participativo é a estruturação das trocas lingüísticas em uma dada situação. Na sala de aula, o esquema participativo de modo geral é coordenado pelo professor. É seu papel estabelecer quem fala, quando e quanto. É, portanto, ele quem ratifica os interlocutores, indicando ou sugerindo, em cada momento, quem tem o direito de tomar a palavra. É freqüente que professores tenham direito à maior parte dos turnos de fala. Aos alunos reserva-se o direito de perguntar, inquirir, discutir, mas principalmente o dever de responder ao que for perguntado. De modo geral, pode-se dizer que o professor é o introdutor e o condutor dos tópicos, enquanto os alunos são os “receptores” das informações. Essa visão da relação professor – aluno marcada pela “metáfora do conduto”, tão veementemente criticada por Garcez (2006) ainda funciona bastante no ambiente escolar. Philips (2002), seguindo a classificação proposta por Goffman, mostra que a divisão dos participantes de um encontro em ouvintes ratificados (aqueles a quem a palavra está sendo dirigida) e não-ratificados (aqueles a quem a palavra não está sendo dirigida) é um processo comum na conversa. No caso da aula, essa divisão é um dos aspectos caracterizadores da relação professor-aluno. Segundo Philips, a identificação dos interlocutores ratificados pelo falante se dá, em parte, de maneira não-verbal. Nas discussões em aula, nas quais professores costumam fazer distinção entre locutores ratificados e não-ratificados, a cabeça e o corpo do professor geralmente se voltam para a pessoa para a qual se dirigiu, e o seu alinhamento corporal muda de acordo com o foco de sua atenção. Interlocutores ratificados também podem ser identificados através do olhar do falante. Os professores, por exemplo, olham para os interlocutores ratificados com mais freqüência e por mais tempo do que encaram os interlocutores não- ratificados. É mais provável, portanto, que o próximo falante seja o aluno a quem o professor dirigiu a palavra e não o aluno que é um interlocutor não-ratificado. (PHILIPS, 2002:28- 9) 42 O processo de ratificação dos interlocutores comumente empregado na sala de aula tende a estabelecer uma escala. Os alunos selecionados como próximos falantes tendem a assumir postura mais atenta. Os demais relaxam e tendem a desviar sua atenção para outros focos, fazendo muitas vezes surgir no curso da interação a conversa em conluio. Essa é uma situação característica, por exemplo, das interações que têm como objetivo tarefas de correção de exercícios, nas quais o professor estabelece previamente uma ordem para a participação dos alunos. O próximo a falar fica atento; os outros muitas vezes se distraem. A relação éde um para um: cada aluno fala por sua vez ao professor, que lhe dá, em resposta, expressões avaliadoras como “certo”, “ok” ou faz uma correção se algo foi dito inadequadamente. Entretanto, tal estrutura de participação tende a se modificar, conforme se alteram as condições e regras de participação na sala. Se o professor opta por uma atividade tal que permita aos alunos selecionarem-se mutuamente como próximos a falar, é possível que esse efeito de dispersão da atenção dos alunos seja minimizado. O processo de ratificação do ouvinte na sala de aula tem relação estreita com a forma como se estrutura essa participação. É o que veremos a seguir. 3.1.3. As configurações de participação na sala de aula São duas as principais formas de se organizar a participação em sala de aula. À primeira forma, que ocorre mais freqüentemente e que tende a ser o esquema definidor dessa situação social, é o que chamamos de configuração em leque. À segunda, característica de interações na sala que propiciam uma organização mais semelhante a outros enquadres (a conversa, por exemplo), é que chamamos configuração em rede. 3.1.3.1. A configuração em leque No formato de participação em leque, o professor, fonte de informação e centro das atenções, é o ponto de partida e de chegada de todas as interações. Esse formato, o mais comum na sala, advém sobretudo da hierarquia estabelecida pela interação de caráter didático. 43 Modelo de participação em leque Observa-se que nesse modelo de participação a figura central é o professor. Os alunos, que podem estar em semicírculo (formato bastante comum nas aulas de língua estrangeira) ou em formação mais tradicional, em carteiras dispostas em filas, têm a atenção voltada para ele. Se há conversas entre os alunos, elas ocorrem de modo furtivo, não chegando a interromper o fluxo principal de informações. Nesse modelo as interações ocorrem de modo geral entre dois participantes, sendo um deles o professor. Essa estrutura gera um tipo de organização da interação mais próximo da entrevista. 3.1.3.2. A configuração em rede A configuração em rede resulta da flexibilização das regras de interação entre professor e aluno. O professor, que em geral é o distribuidor dos turnos e aquele que introduz tópicos e subtópicos, pode permitir que essa função seja assumida momentaneamente por um aluno. Nesse caso, o professor passa a ter condição de participação semelhante aos demais da sala. 44 Modelo de participação em rede O foco das atenções se desloca da figura do professor para a de um outro participante que esteja com a palavra no momento. Nesse modelo, flexibilizam-se certas regras do contrato didático, mais especificamente aquelas que regem o direito de tomada da palavra e a relação se torna mais próxima daquela encontrada em uma conversa em um pequeno grupo. Ao se variar o foco das atenções, cada participante mantém-se atento à fala dos demais, sem se sentir desobrigado de participar quando o outro está falando, já que existe sempre a possibilidade de que ele seja convidado a intervir. Os direitos de fala se tornam mais próximos da participação igualitária. Como toda a participação é considerada parte da discussão principal, tende a não haver a fala furtiva, que é incorporada à atividade como participação desejada e de interesse dos demais participantes. Esse modelo é o que se pretende atingir nas atividades de conversação. 3.2. A aula de língua estrangeira O objetivo de um aluno ao freqüentar aulas de língua estrangeira é adquirir o domínio da compreensão e produção das modalidades oral e escrita da língua-alvo e praticar as habilidades necessárias à comunicação. Para tanto, recorre a uma estrutura de caráter institucional (um colégio, um curso) ou a alguém que considere habilitado para ajudá-lo (um professor particular). Almeida mostra que 45 dois pontos merecem ser observados numa sala de aula de LE. O primeiro é que o conteúdo a ser transmitido / adquirido é a própria língua. O segundo é a existência de um consenso em torno da idéia de que a aquisição de uma língua se faz através da exposição do sujeito a situações de comunicação nessa língua. (ALMEIDA, 2000:94) Gil (2001?) ressalta como característica norteadora dessa interação o fato de “o discurso da aula de língua estrangeira ser altamente complexo e ter uma natureza metalingüística, já que, nessa situação de comunicação, a língua-alvo é ao mesmo tempo o objeto e o meio de comunicação.” Na mesma linha de pensamento, Malamah-Thomas (1987:18) afirma que “na aula de línguas, na qual o objetivo pedagógico da comunicação é de natureza inerentemente lingüística, os propósitos sociais e pedagógicos estão freqüentemente fundidos”.3 3.2.1. Contratos que regem a aula de língua estrangeira Toda situação social é regida por um contrato. Trata-se de um conjunto de regras, estabelecidas informal ou formalmente, que situam aquela interação em termos do objetivo a que se destina, do estatuto de cada participante, das possibilidades de quebra de algum regulamento, etc. Quanto mais formal é a situação, mais rígidas são essas regras e mais específicos são os papéis exercidos pelos participantes. No limite da formalidade, temos as situações ritualizadas – uma sessão solene, uma celebração religiosa, por exemplo. No limite oposto, temos a conversa informal ou espontânea, na qual não há regras além daquelas características do convívio social. Nesta seção, o nosso objetivo é pensar sobre que contratos regem a interação na aula de língua estrangeira. 3.2.1.1. Contrato principal e contratos menores Já vimos em seção anterior (3.1) que o contrato que prevalece na sala de aula é o didático. Entretanto, na situação na sala de aula de língua estrangeira o que se pretende é fazer com que o aluno adquira uma língua, o que exige 3 In the language classroom, where the pedagogic purpose of communication is inherently linguistic in nature, the social and pedagogic purposes are often fused. 46 um remanejamento ou redimensionamento do universo da sala de aula enquanto espaço interacional, para que nele possam emergir papéis sociais e práticas discursivas características de outras posições sociais e de outros contextos interacionais.(ALMEIDA, 2005: 62) Tal movimento enseja o aparecimento de contratos menores. Vion, em verbete escrito para o Dicionário de Análise do Discurso, explica a existência desses contratos: O tipo de uma interação se define a partir de seu quadro interativo, que corresponde, em grande parte, à relação dominante de lugares (complementaridade / simetria, lugares não-igualitários / igualitários, intitucionalizados / ocasionais) No interior de uma interação que decorre de um certo tipo, podem aparecer momentos decorrentes de outro tipo: “módulos”, como, por exemplo, um módulo conversacional no interior de uma transação comercial. Nessa concepção, é a permanência do quadro interativo que permite distinguir o aparecimento de um módulo da transformação completa do tipo da interação. (CHARAUDEAU, P. & MAINGUENEAU, D., 2006:338-9) Os contratos menores a que se referem o autor consistem na evocação de vários outros gêneros de discurso que serão convenientes para o objetivo proposto pelo professor em determinado momento de sua aula. Dessa maneira, um professor pode improvisar uma peça de teatro, propor um jogo em que os alunos são comerciantes e fregueses, bancários e clientes. Enfim, pode-se mobilizar todo tipo de imitação de interação com o objetivo de proporcionar aos alunos a chance detreinar o uso de expressões, itens de vocabulário, gestos e demais elementos da língua. Nesses módulos, dá-se, de fato, a encenação da língua na sala de aula. 3.2.1.2. O papel da língua-alvo Segundo Almeida, a língua-alvo é o centro das atenções na aula de língua estrangeira. O protagonista da cena “aula de LE” não é o professor tampouco o aluno, mas a língua em sentido amplo. Dar a conhecer suas características torna-se o objetivo de um trabalho de encenação da língua. (ALMEIDA, 2000:62) 47 O autor explica que esse papel central decorre da complexidade do estatuto da língua-alvo dentro da sala: Sendo ela própria o conhecimento a ser adquirido e estando irremediavelmente vinculada a um fazer, a língua é investida de três dimensões: é ao mesmo tempo o meio de comunicação no seio da classe, o conteúdo da aprendizagem, que se manipula, escreve, corrige, repete, e a competência, que se vai testando e adquirindo gradativamente em interações (fictícias ou reais) ao longo do caminho. (idem, ibidem) Essa tríplice função confere à língua na aula de língua estrangeira um estatuto específico, que não apenas a torna elemento central da aula, mas também enseja situações em que a própria interação entre os participantes se torna diferente daquelas que ocorrem em aulas com outros objetivos. 3.2.2. Os participantes da aula de língua estrangeira As relações entre os participantes da interação da aula de língua estrangeira podem ser consideradas híbridas. Embora a relação institucional estabeleça uma diferença fundamental entre professor e alunos, sempre há espaço para a criação de relações identitárias diferentes, que permitem que tanto o professor quanto os alunos assumam posições decorrentes de sua inserção em várias esferas da vida, não apenas aquela estabelecida pela estrutura “escola”. Assim, professor e alunos podem ser também representantes de um determinado modo de vida, de uma determinada ideologia, de valores e conceitos que, às vezes sem que se perceba, entram em jogo na sala de aula. Uma descrição das relações entre professor e aluno pode ser encontrada em Aquino (2000): A sala de aula é um campo de poder, onde cada participante da interação se posiciona para iniciar uma partida. É um lugar onde o técnico (professor) mobiliza estratégias de ação e instiga seus jogadores (alunos) a disputar, negociar e redefinir as regras na construção do sentido. Esse jogo se dá num processo de indução, incitação e sedução, a partir do qual o educador precisa reavivar, continuamente, a chama do desejo de ensinar, com intervenções explícitas. Ele precisa dispor de condições para que o educando se 48 determine a construir, em parceria, o sentido. Essa construção só é possível na concepção de interação como um conjunto de ações sobre ações produtoras de efeitos positivos. (...) As condições de produção, trazidas pelo interlocutor- professor para a interação, vão permitir que o professor e o aluno construam, conjuntamente, o sentido em sala de aula. (AQUINO, 2000: 29). Embora não estejamos, neste trabalho, tratando especificamente de relações de poder entre os participantes na interação em sala de aula, concordamos com a posição assumida pelo autor, que mostra professor e alunos em movimentos constantes visando à negociação de sentidos. Salientamos o fato de que a atividade de conversação é um momento privilegiado de trocas, no qual as negociações são mais freqüentes e intensas. 3.2.2.1. O papel do professor A relação estabelecida entre professor e aluno caracteriza -se por ser assimétrica: alguém mais competente guia outro, menos competente. A essa relação os pesquisadores que seguem linha de pensamento proposta por Vygotsky chamaram andaimagem (scaffolding). Segundo essa teoria, corolário da teoria mais ampla da zona de desenvolvimento proximal, proposta pelo autor, o membro mais competente do par oferece apoio ao menos competente, de modo a lhe permitir avançar em seu processo de aprendizagem. Esse apoio vai variar conforme o nível alcançado pelo aprendiz, e será sempre proporcional à necessidade apresentada naquele momento. Silva assim conceitua andaimagem: Embora Vygotsky não tenha usado o termo andaimagem, essa expressão tem sido usada por pesquisadores, psicólogos e estudiosos da área de educação que trabalham com a SCT [Teoria Sociocultural]. (...) O termo andaimagem se refere ao processo dialógico que ocorre quando falantes ajudam-se mutuamente para desempenhar funções ou atividades que de outra forma não poderiam desempenhar individualmente. (SILVA, 2006:15)4 4 Although Vygotsky himself did not use the term scaffolding, it has been used by researchers, psychologists and educators in the Education field that work upon the SCT ( Social-cultural Theory) tradition. (…) The term scaffolding refers to the dialogic process 49 Segundo Riddle e Dabbagh, andaimagem e ensino recíproco são estratégias eficientes para se chegar à zona de desenvolvimento proximal. O processo de andaimagem exige que o professor dê aos alunos oportunidade de ampliar suas habilidades e conhecimentos. O professor deve se engajar nos interesses dos alunos, simplificar as tarefas de modo a torná-las exeqüíveis, e motivar os alunos a perseguirem um objetivo instrucional. Além disso, o professor deve observar discrepâncias entre os esforços dos alunos e a solução, e ainda controlar frustração e riscos. (RIDDLE & DABBAGH, 1999)5 De modo geral, na interação que ocorre na aula de língua estrangeira o professor é o participante mais competente, seja no que se refere às características gramaticais da língua (informando significado de palavras, fornecendo uma expressão apropriada na língua-alvo, indicando uma forma verbal apropriada, por exemplo), seja no que refere a aspectos da cultura-alvo. Nesse contexto, a andaimagem ocorre em dois níveis: no da aquisição das estruturas da língua e no da compreensão das características culturais do povo que fala aquela língua. A função do professor na sala de aula deve contemplar ambas as tarefas: além de atuar como apoio para o aluno, sanando dúvidas, propondo atividades e desafios, ele é um informante privilegiado de aspectos da cultura-alvo. Se ele for um falante nativo daquela língua, crescem as suas chances de poder ser visto como um “legítimo” representante da cultura que o aluno pretende conhecer. É inegável que o material didático, em suas múltiplas vozes, terá igualmente papel extremamente relevante no contato do aluno com língua e cultura-alvo. O que which occurs when speakers support each other to perform a function or activity which, otherwise, could not be performed individually. 5 Scaffolding and reciprocal learning are efficient strategies in order to reach the proximal development zone. The scaffolding process demands that the teacher provide students with the opportunity to get along with their natural skills and knowledge. The teacher must engage with students' interests, simplify tasks so that they can be feasible, and incentivate students to pursue an instructive goal. In addition, the teacher must look into discrepancies between students' efforts and the solution, not counting the control of frustration and risk, modeling an idealized version of the action., if necessary. 50 se pretende ressaltar, aqui, porém, é o fato de que o professor nessa situação terá também esse papel, e de que isso tem conseqüências relevantes para o andamento e a estruturaçãoda conversação nas aulas, como se verá a seguir. Neste trabalho o papel do professor e sua relação com os alunos na sala de aula serão analisados conforme os princípios propostos, entre outros, por Dabène (1984). Ao examinar o trabalho do professor na sala de aula, ela destaca três grandes funções: informar, animar e avaliar. A primeira função do professor é informar (ele é um “vetor de informação”). Ele pode realizar essa tarefa através de três operações. O professor pode empregar o discurso informativo – que corresponde a toda atualização autonímica de um elemento da língua estrangeira; o discurso explicativo (chamado “glosa metalingüística”), que é o discurso empregado para elucidar, por exemplo, o sentido de uma palavra; e ainda o discurso descritivo - que procura dar conta da constituição e do funcionamento da língua estrangeira enquanto sistema. A segunda função do professor é a de animar a interação; é ele quem “conduz o jogo” e propõe atividades. Nesse papel o professor é o regulador das trocas lingüísticas. Fazem parte dessa função as operações de pontuação das trocas, de incitação para a tomada de turno, e as observações para chamar a atenção dos alunos, de modo a fazê-los participar da interação. Essa função pode ser exercida por diferentes estratégias, algumas mais, outras menos explícitas. A escolha das estratégias determinará, em parte, se a interação resultante será mais semelhante à interação didática tradicional (com a estrutura iniciação-resposta- avaliação) ou mais próxima da conversa informal. A terceira função do professor é avaliar a produção dos alunos. Ele pode exercê-la através de operações apreciativas, corretivas, assim como de operações indiretas de avaliação, tais como as repetições de enunciados corretos formulados por um aluno. Esse papel também pode ser exercido com maior ou menor formalidade. No decorrer da análise dos dados, observamos que os professores assumiram, em diferentes momentos da conversação, quase todos os papéis acima descritos. 51 3.2.2.2. O papel dos alunos Revuz assim resume os desafios enfrentados por quem aprende uma língua estrangeira: Objeto de conhecimento intelectual, a língua é também objeto de uma prática. Essa prática é, ela própria, complexa. Prática de expressão, mais ou menos criativa, ela solicita o sujeito, seu modo de relacionar-se com os outros e com o mundo; prática corporal, ela põe em jogo todo o aparelho fonador. Sem dúvida temos aí uma das pistas que permitem compreender por que é tão difícil aprender uma língua estrangeira. Com efeito, essa aprendizagem mobiliza, em uma interação necessária, dimensões da pessoa que geralmente não colaboram, nem mesmo convivem, em harmonia. O sujeito deve pôr a serviço da expressão do seu eu um vaivém que requer muita flexibilidade psíquica entre um trabalho de corpo sobre os ritmos, os sons, as curvas entoacionais, e um trabalho de análise e de memorização das estruturas lingüísticas. (REVUZ, 1998: 216-7) Na sala de aula, as posições institucionais são bastante marcadas. De modo geral, a tendência dos alunos é se manterem em posição passiva, respondendo ao que é perguntado, cumprindo as tarefas propostas, escutando o que é dito. Na aula de língua estrangeira, porém, em que a atividade do aluno é crucial para o sucesso da interação, essa postura passiva pode ser substituída, especialmente em certas atividades, como na conversação, por uma atitude que revela um interesse maior em buscar informações. Se essas aulas são mnistradas em contexto homoglota, essa atitude se torna ainda mais evidente, já que os alunos aí irão empregar a língua-alvo como meio de comunicação, tanto com o professor quanto com os outros alunos, especialmente quando a sala é multicultural. Nesse caso, nem sempre alunos e professor permanecem presos a esses papéis. É o que lembra a autora: “Se cada tipo de discurso comporta uma distribuição pré-estabelecida de papéis, o locutor pode escolher sua cenografia”. (idem, ibidem) Na sala de aula, o aluno pode falar simplesmente como aluno, ao responder mecanicamente a questões propostas pelo 52 professor, ou ao fazer exercícios de pronúncia. Mas quando se trata de atividades de conversação, cada participante pode falar como o mais velho da sala, como o único representante de seu país presente, como o filho de seus pais, o amigo de seus amigos... Dependendo da situação, as possibilidades são inúmeras. Portanto, os alunos têm na sala de aula de língua estrangeira um papel bem menos passivo do que aquele tradicionalmente exigido deles em outras situações de ensino-aprendizagem. Cabe a eles não apenas a função de ouvir o professor, mas de ouvir, igualmente, seus colegas de sala – fontes também importantes de informação sobre a língua e a cultura em estudo. Cabe também a cada um contribuir para a construção dos tópicos. Sem essa participação, seu aproveitamento daquela oportunidade de aprendizagem será bastante restrito. É importante salientar que filtros afetivos podem atuar nesse processo. Assim, alunos mais motivados pessoalmente para aprender terão mais sucesso que outros, com menor interesse. No caso de alunos em contexto homoglota, tal efeito é bastante visível. 53 4. A conversação – uma atividade da aula de língua estrangeira Parece consensual na literatura considerar a conversação como uma atividade de linguagem característica da aula de língua estrangeira (e talvez específica desse contexto), marcada pela complexidade da interação que a produz. A conversação em sala de aula se revela possuidora de um objetivo externo a ela própria, o que faz com que sua construção apresente um grau elevado de complexidade. É bastante comum, numa mesma troca verbal no contexto de uma atividade, passar, por exemplo, de um enunciado de caráter descritivo a um comentário metalingüístico, e desse a um relato ficcional através do qual se mistura um fato de língua e, em seguida, uma reformulação corretiva. (ALMEIDA, 2000: 100) Segundo Pekarek Doehler (2002:199), a conversação é um “dispositivo escolar explicitamente destinado à prática interacional”6. Descrevendo a conversação, a autora demonstra que essa atividade tem um estatuto próprio, que não se confunde com o das demais atividades na sala de aula. As atividades de conversação delimitam um espaço interacional muito heterogêneo. As formas de interação constitutivas deste espaço mostram estruturas interacionais 6 « dispositif scolaire explicitement destiné à la pratique interactive » 54 recorrentes, modos de funcionamento típicos e lógicas comunicativas específicas.7 (Idem. Ibidem) Gil (2001) discute as complexas relações nas salas de língua estrangeira. Mostra que a interação na sala de aula se caracteriza como uma gama de situações que se situam entre dois pólos – os modos natural e pedagógico - formando um continuum entre esses extremos. A autora apresenta as principais características de cada um desses modos. Sobre o modo natural, informa que esse é o princípio que rege o método comunicativo, freqüentemente adotado nas salas de aula de línguas. Ela aponta características dessa atividade que estão ligadas aos preceitos do método comunicativo: a formulação de questões cujas respostas o falante desconhece; a correção de erros dos alunos focada em situações em que a compreensão do que ele disse foi prejudicada, apenas quando esses erros impedem a compreensão do que está sendo dito; o uso de modificações do modo de se falar, de hesitações e de reformulações para facilitar a compreensão dosalunos. A autora caracteriza o modo pedagógico como um conjunto de situações de sala de aula cujo foco está na forma (“focus-on-form”). Basicamente são momentos da aula que não estão ligados à representação de situações que podem efetivamente acontecer no cotidiano do aluno. Entre as características desse modo, ela cita o uso excessivo ou exclusivo de perguntas retóricas, as interferências do professor na fala no aluno com o intuito de corrigir elementos formais e o uso do eco à resposta do aluno, repetições estas cujo objetivo é dar à classe condições de entender o que se disse. Ainda nesse artigo, a autora apresenta um panorama do que seria uma aula mais eficiente, no que diz respeito às relações entre os participantes daquela interação. Devido ao fato de que a sala de aula é um evento de fala institucionalizado, o professor é a pessoa institucionalmente investida da maioria dos direitos de fala, fato já demonstrado por uma miríade de estudos (Ver, por exemplo, Cazden, 1988). Entretanto, apesar desse desequilíbrio, o discurso de sala de aula é um empreendimento construído coletivamente, no qual significados de diferentes tipos são construídos passo a passo. 7 Les activités de conversation délimitent un espace interactionnel trés hétérogène. Les formes d’interaction constitutives de cet espace montrent des structures interactives récurrentes, des modes de functionement typiques et des logiques communicatives spécifiques. 55 Idealmente, para que se estabeleça uma relação social mais simétrica entre os participantes das salas de aula, é necessário garantir aos alunos mais direitos de fala. Aulas que ofereçam essas possibilidades constituem provavelmente um ambiente mais adequado para a aprendizagem, já que dessa maneira se reduz a distância entre professor e alunos. 8 4.1. A conversação e outros tipos de interação A conversação é um tipo de interação que guarda semelhanças importantes com dois outros tipos de interação: a conversa e a entrevista. Neste bloco pretende- se observar as características que aproximam a conversação de cada um dos dois outros tipos de atividade lingüística. Assim, pretende-se mapear o lugar ocupado pela conversação dentro de um continuum que vai da desestruturação da conversa à estruturação da entrevista. 4.1.1. A conversação e a conversa Os termos conversação e conversa serão empregados neste trabalho com sentidos específicos, nem sempre coincidentes com aqueles consagrados pelo senso comum. Chamaremos conversa àquela interação que se desenvolve de forma espontânea e na qual o único objetivo dos participantes é a socialização. Já a conversação será considerada a interação que tem, além do objetivo socializador, um caráter de treino de língua. Souza, apoiado no trabalho de Sacks, Jefferson e Schegloff, destaca as seguintes características da conversa: 1- A troca de falantes recorre, ou pelo menos ocorre. 2- Na maioria das vezes, um falante fala por vez. 3- Ocorrências de mais de um falante por vez são comuns, mas breves. 8 Due to the fact that the classroom is an institutional speech event, the teacher is the person institutionally invested with the most talking rights, a fact which has been demonstrated by a myriad of studies (See, for example, Cazden, 1988). However, in spite of this imbalance, classroom discourse is a collectively built enterprise where meanings of different types are constructed moment by moment. Ideally, for classrooms to establish more symmetrical social relationships among participants, opportunities for students having more talking rights should be guaranteed. Classrooms that offer these possibilities are probably a better environment for learning, as the distance between teacher and learners is reduced. 56 4- As transições de um turno ao outro sem lacunas e sobreposições são comuns, e formam a maior parte das ocorrências desse tipo juntamente com aquelas em que ocorrem pequenas lacunas e sobreposições. 5- A ordem dos turnos é variável. 6- O tamanho dos turnos é variável. 7- A duração de uma conversação não é especificada a priori. 8- O que cada participante diz não é especificado a priori. 9- A distribuição relativa de turnos não é especificada a priori. 10- O número de participantes é variável. 11- A fala pode ser contínua ou descontínua. 12- Existem técnicas de alocação de turnos. O falante atual poderá selecionar o próximo falante (como quando uma pergunta é feita ao próximo falante), ou os participantes podem se auto-selecionar. 13- Várias “unidades de construção de turnos” são empregadas. Assim, os turnos podem variar de um lexema a uma sentença. 14- Existem mecanismos de reparação para erros e violações do sistema de tomada de turnos. Assim, se dois participantes iniciam suas falas ao mesmo tempo, um deles parará prematuramente, portanto reparando o problema. (SOUZA, 2000) A conversação é uma oportunidade oferecida pelo professor para os alunos praticarem aquilo que sistematizaram em outros momentos da aula: tempos verbais específicos, vocabulário relativo a determinada área de conhecimento ou qualquer outro elemento lingüístico. A tensão se dá pelo fato de que, por um lado, o treino da língua a ser estudada é o objetivo da relação estabelecida na sala de aula. Por outro lado, as técnicas de ensino/aprendizagem de língua estrangeira preconizam a exposição do aluno a mostras de uso da língua em situação não-planejada. Disso decorre uma situação híbrida, em que a imprevisibilidade da conversa sofre as restrições de uma estrutura voltada a um objetivo específico. Freitas, 2006, aponta para a dificuldade em se estabelecer os limites entre a conversa e a conversação: há momentos em que os participantes se orientam para conversa e há momentos revestidos de um caráter mais formal em que a institucionalidade se sobrepõe. O que determina a distinção, por sua vez, são as maneiras como os participantes prestam contas uns aos outros de suas condutas mútuas face à 57 situação de fala em que se encontram. Desse modo, ao tratarmos de sala de aula, esse fórum só irá se configurar como legítimo de papéis institucionais se professores e alunos assim o explicitarem através de identidades assumidas que se façam relevantes para o trabalho interacional em que estejam engajados. De mais a mais, à medida que o foco pedagógico varia, a organização da interação também se modifica, de modo que não é possível se conceber uma única organização de fala na sala de aula de LE. Por vezes, a conversa pode emergir no ambiente de aprendizagem sem relação direta com o objetivo maior que se estabelece para a lição, assim como, por vezes, a conversa se mistura ao foco de aprendizagem, o que torna a diferença ainda mais sutil. Bigot (1996) fez uma análise das características da conversação em aula de língua estrangeira. A autora parte do princípio de que o estudo de uma língua pressupõe contato com amostras dessa língua da maneira mais próxima possível à das interações naturais. O conceito de interação natural, usado por Bigot, deve ser entendido em oposição ao de interações forjadas, que são características de determinadas situações de sala de aula nas quais os parâmetros da conversa são manipulados com vistas, por exemplo, a se produzir uma encenação da língua-alvo, para se empregar determinadas expressões ou estruturas gramaticais. Segundo ela, uma das tarefas do professor é reproduzir em aula condições parecidas com as que engendram a chamada interação natural. Essa tentativa esbarra, porém, nas condições mais gerais da aula, onde, segundo a autora,o quadro social interativo, marcado sobretudo pelas características didáticas da situação de comunicação, impõe um certo número de barreiras, que podem atrapalhar o desenvolvimento de uma verdadeira conversação e das quais o participantes dificilmente conseguem escapar. (BIGOT, 1996:33)9 Distinguindo a conversa da conversação, a autora assim apresenta as características da primeira: 9 le cadre social interactif, marqué avant tout par le caractère didactique de la situation de communication, impose un certain nombre de contraintes, susceptibles de contrarier le développement d’une véritable conversation et auxquelles les participants parviennent difficilement à echapper 58 Pode-se resumir como características [da conversa]: o número de participantes é reduzido (em caso contrário, estamos na presença de várias conversas cruzadas); a relação entre os participantes é considerada igualitária, ou seja, as diferenças que poderiam surgir entre um ou mais participantes que estejam em posição alta são apagadas; seus papéis interacionais são indiferenciados: os temas abordados são, em princípio, em número ilimitado; o encontro, sua duração, os temas abordados não são, em princípio, previamente fixados. (Idem, p.34)10 Bigot destaca dois aspectos da ocorrência de uma conversa dificultados pela conformação tradicional de uma aula . O primeiro aspecto, chamado externo, diz respeito à configuração do espaço físico no qual ocorre a conversação e ao número de participantes nessa atividade. Como exemplo, cita a disposição das carteiras na sala de aula tradicional, e ao número de participantes na sala – geralmente maior do que o que seria natural em uma situação de conversa. O segundo aspecto, chamado interno, diz respeito ao contrato assimétrico entre professor e alunos. Desse último decorrem características do comportamento dos alunos nessas interações: a timidez, que costuma se traduzir em respostas monossilábicas, os hábitos arraigados de formas de participação, como falar sempre para o professor, olhando para ele, mesmo quando o destinatário primário da fala é outro aluno, conversar com o colega cochichando. Essas condições podem ser parcialmente controladas. Os fatores externos podem ser modificados, com a disposição diferente das carteiras na sala e com a formação de grupos menores de alunos. Tais providências podem ter como conseqüência alterações de certos parâmetros internos da interação. Ao sair da posição tradicional, sentado à mesa, ou de pé à frente dos alunos, e utilizar uma carteira, o professor sinaliza para os alunos uma mudança no quadro interativo. Ao abrir mão de sua posição privilegiada, ele assume uma situação mais igualitária. O 10 On peut résumer comme suit ces caractéristiques: le nombre des participants est réduit (dans le cas contraire, nous sommes en présence de plusieurs conversations croisées); la relation entre ces participants est dite égalitaire, c’est-à-dire que les différences qui pourraient donner à l’un ou à plusieurs d’entre eux une position haute sont gommées ; leurs rôles interactionnels sont indifférenciés : les thèmes abordables sont, en principe, en nombre illimité ; la rencontre, sa durée, les thèmes abordés ne sont a priori pas fixés à l’avance. 59 resultado desse movimento se traduz em mudanças na freqüência de mudanças de turno, no maior comprimento dos turnos alocados pelos alunos e no número menor de intervenções do professor. Bigot mostra que quando essas modificações foram introduzidas na sala de aula alterou-se a forma de tratamento empregada entre professor e alunos. Na língua francesa há duas formas de tratamento empregadas para se dirigir a um interlocutor. Uma, mais formal, utiliza o pronome VOUS com o verbo na segunda pessoa do plural, para emprego em situações de pouco conhecimento entre os participantes e em qualquer relação que envolva assimetria de posição. Outra, mais informal, ocorre com o uso do pronome TU e é reservada para situações em que a relação entre os participantes é mais próxima e as posições mais simétricas. A pesquisadora observou que, depois das modificações, todos os participantes da interação na sala de aula passaram a se tratar por TU, o que sugere mudança nos padrões de formalidade: “Por fim, como último parâmetro capaz de favorecer a informalidade de uma interação, todos os participantes (professor e alunos) passaram a se tratar por tu” (Idem, p.35)11. Considerando que os dados analisados pela pesquisadora foram colhidos em um curso de francês para estrangeiros em um centro universitário, local de interações tipicamente marcadas pela formalidade, essa é uma modificação que indica um alto grau de alteração no nível de formalidade da interação. Ao dizer que a conversação na aula de língua estrangeira é “uma interação antes de tudo e apesar de tudo didática”(idem, p. 36)12 Bigot nos apresenta o paradoxo dessa atividade de sala de aula. O objetivo da aula, especialmente aquela que ocorre em contexto homoglota, é treinar o aluno para lhe dar condições de agir no mundo social utilizando a língua-alvo para resolver seus problemas e suprir suas necessidades. Assim, a conversação é um momento em que se pode expandir essas capacidades através de uma situação monitorada, mas ainda assim próxima daquelas que se tem na vida cotidiana, fora do ambiente educativo – portanto, apesar de tudo, didática. Nesse monitoramento, porém, reside o que poderia ser um conflito. 11 enfin, dernier paramètre susceptible de favoriser l’informalité d’une interaction, tous les participants (professeur et apprenants) se tutoient . 12une interaction avant tout et malgré tout didactique. 60 A conversa não é monitorada; a heterocorreção, índice de monitoramento, é considerada um procedimento inadequado, muitas vezes rude; daí o emprego constante de técnicas de mitigação do desconforto causado quando a heterocorreção é necessária. Mas como a conversação tem um objetivo externo – o treino – que permanece latente mesmo nos momentos mais calorosos de uma discussão, a heterocorreção passa a ser aceita como procedimento legítimo quando efetuada pelo professor e, às vezes, até mesmo por um outro aluno. A conversação possui antes de tudo um caráter didático. Em resumo, podem-se destacar as seguintes características da conversação na aula de língua estrangeira que a distinguem de uma conversa. · a função da conversação é diferente daquela da conversa natural: trata-se de um momento de confluência entre um objetivo didático - já que ela é um evento estabelecido pelo professor dentro da estrutura maior da aula - e um objetivo social, porém com a prevalência do primeiro sobre o segundo. · os temas da conversação tendem a ser determinados pelo professor, seja com base no material didático empregado, seja com base em tema que seja considerado do interesse dos alunos. · a relação professor–alunos se mantém presente na interação. Os alunos passam a deter maior poder sobre a alocação de tópicos, mas o professor permanece como baliza quanto à pertinência e a inteligibilidade das informações veiculadas, do mesmo modo que coordena a interação, o que não acontece em uma conversa. 4.1.2. A conversação e a entrevista Silveira (2000:80) explica que uma das propriedades constitutivas da entrevista é a utilização de um sistema de trocas verbais no qual um dos participantes tem o papel institucionalizado de fazer perguntas, enquanto a outra parte deve esperar, para assumir o turno de fala, que uma pergunta ou questãolhe seja colocada. A interação na sala de aula, mormente aquela característica de conversação, tem, em parte, essa característica. A função do professor na conversação é, antes de mais nada, a de fazer com que o aluno fale. Para tanto, ele gerencia os turnos de modo a fornecer 61 oportunidades iguais de participação entre os alunos. Interfere o menos possível na elaboração do pensamento do interlocutor, fornecendo, entretanto, insumo para essa interação, sempre que considera relevante. Tal modo de agir é bastante semelhante àquele adotado pelo entrevistador. Vion apresenta a entrevista, contrastando-a com uma consulta. Entrevistar é, antes de tudo, procurar formas de reunir elementos para se conhecer um objeto. [Na entrevista] é o especialista que procura informações e dados e que, contrariamente à consulta, toma a iniciativa da interação. Ao solicitar as pessoas interrogadas, torna-se, sob certos aspectos, seu devedor. Por isso o investigador manifesta geralmente mais atenção e consideração em relação ao seu parceiro do que se a relação fosse uma consulta. Certamente o especialista conduz a troca, mas este papel de solicitador pode interferir com a complementaridade dos papéis e aliviar singularmente o caráter não-igualitário dessa troca. (VION, 2000:131)13 Sobre a entrevista, Sampaio explica que se trata de um tipo de interação que guarda especificidades em relação às formas convencionais de interação, por se tratar de uma situação na qual entrevistador(es) e entrevistado(s) interagem, mas na qual nem um nem outro fala prioritariamente um para o outro. A entrevista traz a especificidade de ser uma conversação cuja razão de existir é alguém que não participa dela - o público do veículo jornalístico. Quando pergunta, não é para si que o entrevistador quer a resposta, nem é a ele que responde o entrevistado. É com o público que a interação se completa. (SAMPAIO, 2004) Gaskell (2002), falando sobre técnicas de entrevistas com grupos focais, descreve o procedimento da seguinte maneira: 13 Enquêter c’est d’abord se donner les moyens de réunir des éléments d’information et de connaissance sur des objets. C’est le spécialiste qui recherche des informations et des éléments de connaissances et qui, contrairement à la consultation, prend l’initiative de l’interaction. Sollicitant les enquêtés, il se trouve, à certains égards, leur obligé. D’où le fait que l’enquêteur maniffeste généralement plus de prévenance et de considération en direction de son partenaire que s’il agissait d’une consultation. Certes, le spécialiste conduit l’échange, mais ce rapport de sollicitation peut interférer avec la complementarité des rôles et adoucir singuliérement le caractère inégalitaire de l’échange. 62 Para começar este processo, o moderador pede a cada participante que se apresente dizendo o nome, e pode acrescentar um pedido para que adicionem alguma informação pessoal que não cause polêmica. Cada contribuição termina com o moderador dizendo “obrigado”, usando o primeiro nome da pessoa. Feito isso, o moderador toma nota dos nomes e das posições na sala. Como na pesquisa em profundidade, o moderador tem um tópico guia que sintetiza as questões e assuntos da discussão. O moderador encoraja ativamente todos os participantes a falar e a responder os comentários e observações dos outros membros do grupo. Quando a pessoa A diz algo, o moderador pode agradecer, dizendo de novo seu nome, e se volta à pessoa C, perguntando alguma coisa como: ”Eu estava muito interessado no ponto de vista de Pedro, isso está de acordo com sua experiência?” O objetivo é avançar a partir de uma discussão liderada pelo moderador, para uma discussão onde os participantes reagem uns aos outros. (GASKELL, 2002:79) No trecho a seguir, retirado do corpus analisado, vemos como a conversação pode se estruturar de modo análogo àquele empregado por entrevistadores, em especial aqueles que têm como tarefa a entrevista de um grupo (como ocorre, por exemplo, em programas de entrevista tais como o Sem Censura, veiculado pela emissora de televisão TVE-Brasil). Trecho 1 541 Diane eu não encontro evidência nenhuma de que tem outras pessoas estudando a mesma coisa. adoraria que tivesse pra trocar conversa:: pra trocar impressões. eu tenho informações mais genéricas, mas o que eu estou estudando é a forma como vocês ajudam uns aos outros na sala de aula. como é que vocês fazem isso/ de que maneira vocês= 542 John não sei 543 Diane =ajudam uns aos outros na sala de aula. pois é ninguém sabe por isso não é comum, em outras, em outras circunstâncias. vocês acham que vocês falam mais aqui do que falariam em outras aulas/ 544 Takeo mais/ 545 John sim com certeza 546 Diane vocês acham que falam mais aqui do que falariam em outras aulas/ 547 John com certeza eu: 548 Takeo eu/ sim 549 John eu, dentro da aula, fora dessa aula eu não falo nas aulas. 550 Diane não fala. 63 551 Gretel eu também não. 552 Diane também não/ 553 Gretel ah sim, em literatura inglesa eu sim, falo. 554 Diane fala / 555 Gretel mas falo em inglês então não tem problema 556 Diane problema é ótimo 557 John literatura o quê/ 558 Gretel inglesa. 559 Takeo eu fico ouvindo. 560 Diane ahã 561 Takeo ( ) 562 Diane e por que aqui vocês falam mais/ 563 Takeo aqui/ 564 Diane é. 565 Takeo porque aqui a gente tem tempo pra conversar mais. 566 Gretel normalmente é assim, o professor fala e ninguém fala mais. 567 Diane é. 568 Gretel alguma pergunta/ 569 Diane isso 570 Gretel eu não pergunto porque eu não entendo. 571 John incompreensível 572 Gretel então eu não posso perguntar nada. é muito difícil entender professor é horrível pra sim é muito difícil 573 Takeo eu sempre pergunto para a, para as colegas. 574 Diane hum, hum. 575 Takeo para os colegas que fica ao lado de mim. 576 Diane ahã e consegue as respostas de que precisa/ 577 Takeo de vez em quando. 578 Takeo hhhhh 579 John depende das pessoas, né/ 580 Takeo depende. depende da companhia. 581 Diane e você/ 582 Hans depende muito da aula e do professor. tem umas, tem umas matérias que exigem que o professor fale bastante, aí é difícil que os alunos falem. mas, tem outras matérias, onde tem muito trabalho de grupo, e lá, entre os alunos, dentro do grupo eu falo bastante. mas, normalmente, se tem um ensino, tipo assim, que tem um professor na frente que fala para os alunos, aí é difícil os alunos comunicarem e participarem ativamente. se eu tenho interesse em saber mais profundamente, normalmente eu pergunto depois da aula, porque muitas vezes não é especificamente o tema da aula mesmo, então eu não quero atrapalhar. tem outros alunos que perguntam qualquer coisa. tive aula de geografia que o professor conversou com uma, ou duas meninas, sobre um trabalho, uma hora inteira, a aula tem duas horas, e não tem nada com a matéria. isso eu acho isso muito chato 583 Diane é muito chato Aula 4, turnos 541 a 583 64 Nesse trecho percebe-se a semelhança na estruturação da conversação em relação à entrevista. As intervenções da professora têm como objetivo obter informações – estimular a fala dos alunos. Para tanto, ou ela emprega a pergunta direta (turnos 543, 546, 562, 576) para incitar os alunos a falarem, ou faz intervenções de apoio à fala (turnos 550, 552, 554, 560, 564, 567, 569). Note-se que as informações vão sendo construídas pelos alunos – quer individualmente, quer em conjunto. Finalmente, ela faz o fechamento da intervenção daqueles alunos, elegendo outro para participar (Hans). Assim, ela procura atribuir turnos a quem,espontaneamente, não pretendia dar contribuição para a construção do tópico. Entrevista e conversação têm em comum um objetivo externo. Enquanto na primeira esse objetivo é a informação a um terceiro elemento, não presente, para o qual afinal se destinam as informações ali veiculadas/ construídas, na conversação esse objetivo externo é a aprendizagem, o treino. 4.2. Os contextos externos e a conversação: contextos aloglota e homoglota Uma situação de comunicação compõe-se de um quadro espacial e temporal (onde e quando ocorre a interação), de um propósito que a justifique e um determinado grupo de participantes. Nessa seção pretendemos verificar que condições específicas relativas ao quadro espacial em que se insere a situação de comunicação têm interferência no modo como ela se desenrola. Segundo Kerbrat-Orecchioni, em verbete no dicionário de Charaudeau e Maingueneau, “a atividade linguageira é um fenômeno social em dois sentidos: ela é determinada pelo contexto social e é em si uma prática social”. (CHARAUDEAU e MAINGUENEAU, 2006:128). A aprendizagem de língua estrangeira pode ocorrer em dois contextos diferentes. O primeiro é aquele em que professor e alunos estão em um ambiente no qual a língua predominante é diferente daquela que é o objeto de ensino/aprendizagem. É o caso, por exemplo, do ensino de outras línguas que ocorre em instituições no Brasil. A esse contexto chamamos aloglota. O segundo é aquele em que a aula de LE ocorre em um contexto maior no qual a língua predominante é aquela que constitui o objeto de ensino/aprendizagem. É o que ocorre, por exemplo, no ensino de língua portuguesa para alunos estrangeiros em 65 instituições no Brasil. A esse segundo contexto chamamos homoglota. Cada um desses contextos dá origem a conformações um pouco diferentes, especialmente no que diz respeito a questões identitárias. É o que veremos nas próximas seções. 4.2.1. O contexto aloglota No caso de aprendizagem de língua estrangeira em contexto aloglota, as aulas se tornam, muitas vezes, a fonte mais relevante, senão a única, de contato do aluno com a língua e a cultura que pretende estudar. Essa situação é ainda mais extrema quando se trata de aprendizagem de língua de pouca penetração naquela comunidade, caso em que se inserem, por exemplo, os estudos da língua portuguesa fora dos contextos lusófonos ou hispânicos (como seria o caso de estudos de língua portuguesa no Japão). Nessas condições o professor tende a se tornar a única fonte disponível de informações, seja sobre a língua, seja sobre a cultura, à exceção daquelas fornecidas pelo material didático, malgrado as possibilidades hoje fornecidas por meios eletrônicos de comunicação. É o professor quem estabelece, em última análise, quando, como e se determinada informação vai ser apresentada ao aluno, cabendo geralmente ao aluno uma participação muito discreta, que se efetua sobretudo em termos de expressão de dúvidas, de verificação de entendimento, de busca de (re)formulações e de tentativas de reemprego. Em termos interacionais, observa-se que esse profissional é, na maior parte do tempo, o controlador de quase todas as atividades pertinentes ao contrato didático, já que os alunos, dado seu pouco conhecimento, sequer terão condições de sugerir alguma mudança ou de fazer perguntas fora do padrão estabelecido pelo professor. O que ocorre, então, é uma prevalência quase absoluta do professor sobre a alocação de turnos, sobre o direito e o momento de participação dos alunos, sobre as formas que essa participação pode assumir. 4.2.2. O contexto homoglota Na conversação em contexto homoglota, o fato de o aluno estar vivendo no país do qual não apenas a língua, mas também a cultura é o seu objeto de estudo, tende a tornar a atividade de conversação mais próxima da conversa, mesmo 66 quando o aprendiz está em níveis de proficiência na língua-alvo pouco avançados. As diferenças entre a conversação nas aulas em contexto homoglota e as que ocorrem em contexto aloglota decorrem de ao menos três fatores. O primeiro fator de diferenciação está relacionado ao acesso às informações sobre o objeto de estudo por parte dos alunos. Estando em um contexto homoglota, há inúmeras possibilidades de se ter acesso a informações sobre aspectos culturais, sociais, políticos – assim como de se ter contato com estruturas lingüísticas, itens de vocabulário, usos diferentes de uma mesma expressão, por exemplo. A aula é apenas uma dessas fontes. O segundo fator, ligado ao primeiro, é a possibilidade de os alunos conseguirem essas informações de modo independente do professor; por causa dessa independência, há a possibilidade de que os alunos detenham uma informação que não está ao alcance do professor. Por exemplo, em uma discussão cujo tema seja “lugares apropriados para o lazer”, é possível que os alunos tenham conhecimento de lugares em que o professor nunca esteve. Nesse caso, um ou mais alunos podem assumir o papel de informadores, função característica do professor. Embora possível, evidentemente, em aulas que ocorrem em contexto aloglota, esse tipo de situação tende a ser muito mais freqüente em contexto homoglota. O terceiro fator, crucial quanto ao modo como os alunos irão tratar a aprendizagem da língua, decorre da importância dessas informações para a vida do indivíduo fora da sala de aula. Muitas vezes o aluno recorre ao professor para conseguir meios de se expressar de modo mais adequado com vistas a resolver problemas de seu cotidiano. Assim, freqüentemente os alunos propõem temas de discussão, geralmente através de turnos nos quais expressam dúvidas. Tais indagações são às vezes compartilhadas com outros alunos, o que gera situações não-previstas pelo professor e para as quais ele não tem nada planejado. Nessas condições a relação professor/aluno tem uma feição específica. Por um lado, o aluno está na aula interessado em obter informações que lhe permitam resolver situações cotidianas, que lhe facilitarão a lida com aspectos prosaicos – mas vitais – tais como telefonar para alguém em outra cidade, ser atendido em um bar, saber dar informações a um médico. Essa necessidade premente faz com que ele recorra ao professor como um guia para a compreensão dos aspectos envolvidos nessas situações. Por outro lado, ele é portador de uma cultura, que pode vir a ser 67 tema das discussões em aula. Nessa situação ele se torna o informador – aquele que detém as informações e que vai transmiti-las aos colegas e ao professor. Em ambos os casos, a discussão deixa de ter como objetivo apenas o treino ou a prática para se centrar na troca de informações podendo ser mobilizadas na vida cotidiana dos alunos. Assim, muitas vezes o que foi proposto como uma conversação de caráter didático, objetivando o treino de determinadas expressões ou estruturas, assume a feição de conversa, tornando difícil estabelecer analiticamente a fronteira entre um e outro enquadre da interação. 4.3. As regras da conversação Embora não se pretenda aqui apresentar uma lista exaustiva de regras da conversação baseada somente nos dados colhidos para este trabalho, determinadas características dessa atividade em termos das relações entre os participantes ficaram bastante evidentes nos dados analisados. A conversação pode ser considerada como estando em um ponto de um continuum que vai, dentro das práticas discursivas características da sala de aula, da interação espontânea à institucionalizada. Nas próximas seções faremos uma tentativa de, por contraste, observar em que ponto se encontra esse tipo de atividade didática.4.3.1. A modificação de características da conversa Retomamos nessa seção as características da conversa, tal como apresentadas em Souza (2000) e já referidas em seção anterior. Pretendemos verificar quais dessas características são preservadas na conversação e quais sofrem modificações. Características da conversa Características da conversação A troca de falantes recorre, ou pelo menos ocorre. As trocas de falante constituem a base da conversação. 68 Na maioria das vezes, um falante fala por vez. Essa característica não apenas é mantida na conversação, como possivelmente até exacerbada nessa atividade. Pode-se pensar aqui em uma marca do caráter didático da interação, já que nessa o ordenamento das falas é condição básica para o seu funcionamento. Ocorrências de mais de um falante por vez são comuns, mas breves. Essas ocorrências são menos comuns que na conversa, já que o sistema da atribuição de turno de modo geral inibe esse tipo de situação. As transições de um turno ao outro sem lacunas e sobreposições são comuns, e formam a maior parte das ocorrências desse tipo juntamente com aquelas em que ocorrem pequenas lacunas e sobreposições. Essa característica também está presente na conversação. A ordem e o tamanho dos turnos são variáveis. Essa característica também está presente na conversação. A duração de uma conversa não é especificada a priori. Essa característica pode ser modificada na conversação, já que o professor tem a possibilidade de estabelecer quando se vai encerrar a conversação, estabelecendo, portanto limites que sua duração. É possível fazer-se uma combinação prévia da duração da atividade e, mesmo que isso não ocorra, há um limite óbvio para ela, que é a duração da aula. O que cada participante diz não é especificado a priori. Essa característica pode ser relativizada na conversação. Embora não possa controlar o que os participantes vão dizer, turno a turno, o professor pode, sim, controlar o tema sobre o qual se vai falar, e de fato o faz quando estabelece o tema da conversação. A distribuição relativa de turnos não é especificada a priori. Embora não seja especificada a priori, há na conversação uma tendência forte a haver um controle dos turnos pelo professor. O número de participantes é variável. De modo geral, em uma mesma conversação o número de participantes se mantém estável. A fala pode ser contínua ou descontínua. Observou-se que na conversação a fala tende a ser mais contínua – evita-se fazer interrupções no turno do interlocutor. Existem técnicas de alocação de turnos. O falante atual poderá selecionar o próximo falante (como quando uma pergunta é feita ao próximo falante), ou os participantes podem se auto- selecionar. O professor tem primazia sobre a alocação de turnos (selecionando o próximo falante), mas os alunos têm possibilidade de auto-seleção. Várias “unidades de construção de turnos” são empregadas. Assim, os turnos podem variar de um lexema a uma sentença. Essa característica é mantida na conversação. 69 Existem mecanismos de reparação para erros e violações do sistema de tomada de turnos. Assim, se dois participantes iniciam suas falas ao mesmo tempo, um deles parará prematuramente, portanto reparando o problema. Essa característica é mantida na conversação. 4.3.2. A modificação de características da sala de aula Garcez propõe as seguintes características da fala em interação na sala de aula tradicional: [Na sala de aula, há] um sistema de troca de falas modificado em relação à conversa cotidiana: •Gerenciamento de turnos pelo professor, com restrições impostas 1) à auto-seleção pelos alunos (cf. levantar a mão para ter a vez) e 2) a seleção de aluno por aluno •Garantia de manutenção de turno pelo professor (cf. TTT) e enfraquecimento da garantia de escuta e entendimento •Tendência a maximizar intervalos e diminuir sobreposição •Alunos alinhados em self coletivo •Elocuções propositadamente incompletas •Iniciação-Resposta-Avaliação (Feedback) – [Padrão conhecido pela sigla IRA] •Preferência por auto-reparo na ausência de preferência por auto-iniciação de reparo •Espaço privilegiado para prática da correção como domínio organizacional próprio (GARCEZ, 2006b) A conversação em sala de português para estrangeiros em contexto homoglota parece ser um espaço em que essas características são parcialmente subvertidas. Acompanhando item por item as afirmações de Garcez, podemos observar as seguintes modificações de padrões interacionais: a) Na conversação, há possibilidade de auto-seleção dos alunos sem desaprovação do professor, assim como de seleção de um aluno por outro aluno. É o que se observa no trecho a seguir: Trecho 2 28 Wilson não, da classe média média alta, que é donde mais se vê porque o resto da população eles quase não: dá para marginar assim as outras pessoas. Aqui em Brasil também eu tenho visto isso onde eu moro eu 70 vejo que sai que sai uma uma ama de leite e aí perto da praia levando no: no coche uma criança e lá vai vestida com jaleco branco para diferenciar do dono de casa 29 Rita então você vê uma babá não é/ que ela vai empurrando uma criança num carrinho e que ela vai com um uniforme, essa é uma cena que você vê hoje aqui no Brasil= 30 Wilson =vejo= 31 Rita =não é/ e no seu país, você pode fazer uma comparação/ 32 Maria antes eu quero falar sobre uma coisa. eu acho aqui que: não é: eles não vão numa festa mas na igreja. 33 Rita ah você acha que eles estão indo à igreja, e não à festa. tá. por quê/ 34 Maria porque os negros colocaram os roupas de domingo porque se ahn seria uma festa ahn os: filhos dos negros não (.) se- não (.) 35 Rita não poderiam ir/ é isso/ 36 Maria é Fita 5, turnos 28 a 36 No trecho acima, a aluna Maria não apenas se auto-seleciona para falar como interrompe uma troca, impedindo seu colega de responder à pergunta feita pela professora (turno 32). A professora não faz nenhum comentário desaprovador: pelo contrário, passa a interagir com a aluna e não insiste na pergunta feita a Wilson. b) Embora haja um privilégio do professor no que diz respeito à manutenção do turno, há preocupação deste em escutar os alunos. Como se trata de uma atividade imprevisível em termos de seqüência temática, o professor precisa ouvir, de fato, o que os alunos dizem, atentando tanto para o conteúdo do que é dito quanto para a forma como isso é feito. No trecho abaixo, temos a seqüência inicial da aula 1. Nela, professora e alunos interagem, construindo coletivamente o tópico. Observe-se que a professora tem de estar atenta a todas as intervenções dos alunos, já que o tópico flui sem que ela possa ter controle sobre ele. Assim, ninguém sabe de antemão qual vai ser a próxima intervenção, nem quem o fará. Trecho 3 11 Diane bom. a primeira parte da aula, nós vamos ver esse textozinho aqui (.) depois nós vamos experimentar >recontar< essa história, certo/ é uma história sobre um ladrão (.) um casal e uma filha, certo/>primeira coisa que eu queria saber de vocês antes de começar a ler o texto ((a aula)) é<(0.5).no Brasil, vocês têm (.) 71 preocupação (.) com assalto, com(.) violência/ 12 Kanji tenho. 13 Kaori ºtenhoº. 14 Diane ((olhando para Kanji)) fala. 15 Kanji eu (.) tenho. 16 Diane por quê/ (1.0) qual que é o maior medo que você tem/ 17 Kanji (0.5) medo de morrer. 18 ((risos na sala)) 19 Kanji é ( ) tenho. tenho medo de morrer. 20 Diane mas: por quê/ 21 Kanji ahn: 22 Diane que tipo de coisa você acha que preocupa/ 23 Kanji por que anh eu ouvemuitas coisa (.) muitas coisa sobre as assalto no Ri:o ahn nas (.) nas escolas ((seis horas)) todos dias tem programa de 24 Diane ronda policial 25 Kanji isso 26 Ade [cidade alerta 27 Diane [cidade alerta. anh ahn ((concordância)) 28 Kanji é. 29 Diane aí tá assustado. 30 Kanji ahn ahn Fita 1 – turnos 11 a 30 Observe-se no trecho acima que a professora manifesta surpresa com a afirmativa de Kanji (turnos 17 e 19). Sua hesitação (turno 20) demonstra uma necessidade de tempo para reformular sua fala diante do que foi apresentado pelo aluno. Pouco depois, ela tem de perceber a ligação feita pelo aluno Ade entre o programa a que ela se refere no turno 24 com a referência feita por ele no turno 26. Convém explicar que a professora se refere a um programa de rádio (ronda Policial), muito conhecido na cidade de Juiz de Fora e que tem o mesmo tema de Cidade Alerta, referência feita por Ade. c) A maximização dos intervalos não foi observada; o número de sobreposições entre falas foi reduzido. Durante as aulas observadas, houve poucas situações de silêncio longo (de mais de 5 segundos). Há pouca sobreposição de falas; há ainda algumas ocorrências de falas encaixadas – um participante começa, outro segue, o primeiro completa. Trecho 4 159 Naomi mas só no caso de emergência [aí 160 Diane [aí chega 161 Naomi Chefe= 162 Diane =permite= 72 163 Naomi =para= 164 Diane =atirar= 165 Naomi =levar (.) a arma (..) 166 Diane [hum hum 167 Naomi e (.) pra sair (.) na (.) a:qui (.) ladrão (.) alguma crime acontece (..) se não = 168 Diane =ºisso, no lugarº= 169 Naomi =se não acontece como aqui (.) chefe não acha que perigoso (.) não pode. Fita 1 – turnos 159 a 169 No trecho acima, temos uma situação pouco comum nos dados: a fala encaixada. Trata-se de uma troca em que aluna e professora vão se revezando. A aluna tem dificuldades em se expressar e a professora, na tentativa de ajudar, vai fornecendo as palavras que ela pensa serem adequadas à situação. O resultado é uma frase algo desconexa, que, ao que parece deixa as duas satisfeitas quanto ao resultado (embora, ao se ler a transcrição, não se tenha a mesma percepção). A pouca freqüência desse tipo de troca indica que o professor, durante essa atividade, evita interromper o aluno, contribuindo, dessa forma para que este se expresse do modo mais próximo passível ao que ele faria em uma situação não controlada. Assim, evita-se que a conversação deixe de funcionar como troca de informações para se tornar uma atividade em que o aluno fala exclusivamente para ter sua produção testada pelo professor. d) O alinhamento dos alunos em self coletivo é substituído por variações nesse alinhamento. Self coletivo ou identidade social ocorre na sala de aula quando os alunos se organizam, se percebem ou são percebidos simplesmente como grupo, sem distinção de cada um como indivíduo, grupo esse que, de certa forma, se opõe à posição do professor. Em uma sala de aula, o alinhamento em self coletivo é freqüente. Nas aulas analisadas, observou-se que o alinhamento dos alunos (e mesmo o da professora) vai variar segundo as situações específicas criadas em cada momento da aula. Tal análise será objeto de estudo em capítulo subseqüente. A guisa de exemplo de alinhamento, verificamos o trecho a seguir: Trecho 5 1218 Hans qual teria sido a sua sugestão com essas pessoas/ 1219 Diane vocês vão rir de mim, mas, eu ficaria com o assassino. 73 1220 Hans por quê/ 1221 Diane porque ele é mais jovem que esse homem de sessenta anos:: e eu ficaria com mais uma mulher. eu acho que eu não ficaria com o padre. gostaria de ter duas opções de mulher:: provavelmente a viciada em drogas, por causa da geração de filhos. eu pensei mais na hipótese, eu pensei mais na questão da sobrevivência da espécie, do que na questão do trabalho. 1222 Gretel eu também 1223 Laís eu também acho 1224 Gretel eu acho que as mulheres todos pensam assim. 1225 John sempre mais mulheres. Fita 4 – turnos 1218 a 1225 No trecho recortado, observamos o final de uma aula em que houve um exercício de criação de um cenário. Nessa tarefa os alunos discutiram, a partir de dados fornecidos pela professora, sobre quem levariam em uma espaçonave caso a Terra fosse destruída. No final houve um impasse e a professora foi convidada a opinar. Em sua resposta, dividida em dois turnos de fala (1219 e 1221), ela se posiciona a favor de que haja mais mulheres devido à necessidade de se gerar filhos para povoar o planeta. Tal afirmativa provoca nas demais mulheres da turma uma reação de solidariedade, o que provoca o comentário da aluna Gretel: “eu acho que as mulheres todos pensam assim” (turno 1224). Nesse comentário, evidencia-se que a sala foi, nesse momento reorganizada para se dividir entre homens e mulheres, não entre professor e alunos. e) Não houve registro de elocuções propositadamente incompletas. As professoras não empregaram a técnica de começar uma frase e deixar a um aluno a tarefa de terminá-la. As elocuções incompletas ocorreram sempre devido à dificuldade do locutor em completar sua fala (no caso dos alunos). É o que se pode observar no trecho tirado da fita 1, turnos 159 a 169, reproduzido acima. f) No que diz respeito ao padrão iniciação-resposta-avaliação, observou-se que embora seja esse o sistema que, em grandes linhas, estrutura a conversação, já que é o professor quem geralmente estabelece os falantes primários em cada tópico abordado, o desenvolvimento do tópico não ficou preso a esse formato. Embora a professora tenha dado o comando que inicia o módulo e tenha sido também ela quem faz o fechamento, na estrutura interna acontece uma série de 74 trocas que se estabelecem em cadeias de interação abertas (sem avaliação final do professor), nas quais temos uma iniciação do professor, seguida de pares formados por respostas dos alunos e feedback do professor, respostas dos alunos, novo feedback do professor, gerando uma seqüência do tipo I-R-F-R-F-R-F-R-F-R. Também podem ocorrer as chamadas cadeias fechadas, nas quais haverá a avaliação final por parte do professor, formando seqüências do tipo Iniciação – resposta – avaliação (que se conhece como IRA) (conf. Aguiar e Mortimer, 2005) Trecho 6 25 Rita e no seu país, Wilson, como é essa questão da: família/ 26 Wilson bueno, bom eu acho que que: o que eu falava anteriormente, ainda essas situacione se vêem. De repente não se vêem em nossa população, duma classe média, média baixa não sei bem mas eu tenho visto é: famílias de classe alta donde é: o dono da casa vai na frente com sua mulher e além disso ah tem as amas de leite ou a aquelas amas da casa que elas é eles dão para elas um uniforme ou um jaleco de determinada cor e elas é: vão na rua levando o filho deles e aí você dá para perceber a diferencia, hein/ eles vão com roupa da rua, bem charmosos, e: os empregados vão vestindo diferente. ainda se tem aquelas diferenças 27 Rita eles vão com uniformes, os empregados. a babá não é/ que hoje seria a substituta da ama iria para o parque por exemplo com os patrões então essa seria uma cena da classe média e alta/ do seu país, ou apenas da classe alta/ 28 Wilson não, da classe média média alta, que é donde mais se vê porque o resto da população eles quase não: dá para marginar assim as outras pessoas. Aqui em Brasil também eu tenho visto isso onde eu moro eu vejo que sai que sai uma uma ama de leite e aí perto da praia levando no: no coche uma criança e lá vai vestida com jaleco branco para diferenciar do dono de casa29 Rita então você vê uma babá não é/ que ela vai empurrando uma criança num carrinho e que ela vai com um uniforme, essa é uma cena que você vê hoje aqui no Brasil= 30 Wilson =vejo= 31 Rita =não é/ e no seu país, você pode fazer uma comparação/ Fita 5, turnos 25 a 31 75 No trecho acima, o padrão foi: Iniciação (turno 25), feita pela professora, seguida da seqüência Resposta–Feedback–Resposta–Feedback–Resposta (turnos 26 a 30). No turno 29, a expressão “não é”, que finaliza a intervenção de Rita, pode ser considerada uma tentativa de fechamento com avaliação, mas não bem sucedida, já que o aluno interpretou a expressão como uma pergunta, e a respondeu. No turno 31, Rita repete essa finalização e inicia outro módulo. A iniciação pode partir de um aluno. É o que ocorre no trecho que se segue: Trecho 7 237 Gretel e como é aqui/ tem muitas mulheres, muitas mulheres na Alemanha querem fazer as dois. querem ter filhos e também querem trabalhar. e aqui como é/ também querem fazer os dois ou quando quis: 238 John (tem tempo para trabalhar) 239 Gretel quando eu tenho filhos quero ter tempo para eles, não quero trabalhar, ou como é/ 240 John tem que ter um berço, basicamente, uma coisa pra crianças com três anos para deixar e os pais saírem para trabalhar, e depois voltam para pegar a criança. 241 Diane hum, hum. tem. isso se chama “creche”. 242 John creche. 243 Diane creche. as crianças a partir de um ano, eu acho, acho que um ano, já podem ir para a creche. não é, Laís/ 244 Laís hum, hum. 245 John também podem ser dois 246 Diane é possível. é possível. aliás, é bem comum as mulheres conciliarem o trabalho e a= 247 John e a família 248 Diane =a maternidade, e a família. mas tem uma ajuda muito grande da mãe, geralmente. hoje, muitas avós ajudam a cuidar dos netos. Fita 4, turnos 237 a 248 Nesse trecho, a iniciação do módulo é feita por Gretel, que pergunta à professora sobre o que acontece em Brasil em relação à dupla jornada feminina; maternidade e carreira. Para fazer essa abertura, ela apresenta o contraponto, que é a situação na Alemanha, e então pede a informação. Essa iniciação é completada em mais dois turnos, em dueto, por ela e John. É John quem dá a resposta (turno 240). A professora só vai interferir depois, no turno seguinte, para fornecer apoio de caráter metalingüístico – uma palavra mais adequada para a situação. Depois da manifestação de compreensão da palavra por John, ela segue prestando 76 informações sobre o que foi perguntado (turnos 243, 246 e 248). Não é possível identificar, nessas trocas, semelhança com a estrutura Iniciação – Resposta - Avaliação. Veremos, em seção a seguir, que o controle dos turnos também pode ser compartilhado por professor e alunos, assim como as demais funções geralmente estabelecidas como prerrogativa do professor 4.4. A conversação como um complexo de camadas Pode-se dizer que a conversação em aula de língua estrangeira funciona em camadas. Essa terminologia foi empregada por Clark (2000) que define as camadas como palcos de teatro construídos uns sobre os outros. Para ele, há uma primeira camada, no nível do solo, que representa o mundo “de fato”, e uma segunda camada ou camadas superiores construídas por recursividade, que são um palco temporário, construído sobre a primeira camada para representar outros domínios. Dabène (1984) ensina que “no interior das trocas lingüísticas, há um duplo nível de comunicação. De fato, à troca banal entre professor e alunos – ou entre os alunos – subjaz de alguma forma uma segunda troca cujo tema é exatamente a primeira [troca]14. Propomos que essas camadas sejam compreendidas como partes de um mesmo desenho, registradas em papéis diferentes, todos transparentes; se observarmos cada papel, veremos apenas partes do desenho, às vezes pouco significativas. Entretanto, quando superpomos todos os papéis, encontramos o desenho completo. Na conversação, essas camadas correspondem aos diferentes enquadres que se intercalam na construção do discurso. Essas camadas referem-se a um aspecto do discurso que Vion (1978) tenta apreender propondo inicialmente uma distinção entre relação social e relação interlocutiva. Segundo ele, essas relações não são nem mutuamente exclusivas nem totalmente independentes, co-existindo em toda interação. A relação social 14 ...à l’interieur des échanges langagiers, um double niveau de communication. En effet, l´échange banal entre enseignant et apprenant – ou entre apprenants – est en quelque sorte doublé d’un second échange dont le thème est précisément le premier. 77 encontra-se refle tida no reconhecimento, pelos participantes da interação, do enquadre em que se desenvolve a troca verbal. Em uma aula, por exemplo, a relação social diz respeito ao tipo de relação (ou vínculo) existente entre os interagentes, assim como ao seu propósito, e é dentro do reconhecimento dessas características que se definem os papéis que eles atribuem a si próprios e ao outro. Já a relação interlocutiva, embora apoiada na relação social, é construída ao longo da atividade lingüística e através dela. É uma atividade que atualiza a relação social, mas que pode construir um ordenamento potencialmente diferente daquele previsto pela relação social de que é exemplo. Essas relações funcionam como duas camadas interdependentes, entre as quais os participantes transitam de acordo com as necessidades e interesses do momento. A interpenetração desses dois níveis de relação forma como que um tecido, em que os fios da relação social professor-aluno, fixa e com regras mais rígidas de estruturação, se entrelaçam com os das relações interlocutivas estabelecidas ad hoc pelos participantes, relações estas caracterizadas por uma variedade maior de papéis, por um lado, e pela efemeridade desses mesmos papéis, por outro. A relação estável é a institucional (ou social), por isso ela subjaz à interlocutiva, mais frágil e sujeita a variações de contexto. Para tornar mais clara essa distinção, recorremos à recriação de um exemplo já citado na literatura (cf. Vion, 1996). Ele explica que o script da consulta médica possui uma estrutura marcada pela presença de módulos constitutivos tais como a anamnese (na qual o médico faz perguntas cujo objetivo é descobrir os sintomas do paciente, assim como detalhes de sua vida que possam ser importantes para o diagnóstico da doença) ou a prescrição de medicamentos (com a devida leitura da receita). Esses módulos, ou seqüências de interação, são fundamentais para o balizamento e o reconhecimento da atividade “consulta médica”. Por outro lado, porem surgir, durante uma consulta, eventuais módulos nos quais o médico faz comentários de ordem geral (sobre o clima, sobre algum acontecimento na comunidade que esteja mobilizando as atenções, por exemplo). Tais módulos, que podem ser igualmente iniciados pelo paciente, não são parte da estrutura da consulta em si, mas integram a relação interlocutiva entre os participantes, funcionando muitas vezes como um processo de redução da distância social entre pessoas que, institucionalmente, estão colocadas em posição assimétrica. A ocorrência desses módulos não é obrigatória e está condicionada a vários fatores, 78 tais como: características individuais do profissional, tipo de relação (de maior ou menor grau de formalidade) que mantém com o paciente; o mesmo se pode dizer do paciente. Assim, a relação social, de caráter virtual, prevê componentes estáveis e rotinizados, que se estruturam tendo em vista o objetivo principal daqueleencontro. Já a relação interlocutiva, de caráter efetivo, corresponde ao modo como os participantes, de fato, intervêm durante a interação. Os módulos constitutivos são aqueles considerados essenciais para a definição, o reconhecimento da atividade desenvolvida, ao passo que os módulos secundários – introduzidos eventualmente pelos participantes – podem ser vistos como acréscimos acessórios introduzidos no correr da interação. Estes surgem no contexto específico de uma interação, e podem funcionar como um sistema de amenização dos efeitos de distanciamento da relação institucional. Há, contudo, uma diferença fundamental entre o trecho acima apresentado e o tipo de atividade que estudamos. No âmbito da aula de língua estrangeira, a conversação parece encontrar-se em uma situação intermediária entre as duas categorias de módulos. Por um lado, enquanto relação social, acha-se marcada pelo contrato didático, mas enquanto relação interlocutiva, está mais sujeita à variações características do gênero “conversa”, do qual se aproxima. A camada do contrato didático corresponde à situação comunicativa que deu origem à conversação, e que se define em função do seu objetivo básico: a relação de ensino / aprendizagem envolvendo professor e alunos. Nessa camada, está preservada a hierarquia, assim como a discrepância entre as posições, os direitos e deveres, distinguindo-se claramente, portanto, o papel de um e de outros. A camada relacional é aquela em que são atualizadas (e negociadas) as regras, os direitos e os deveres dos participantes. Essa camada permite uma forma um pouco mais homogênea de participação, em que professor e alunos podem competir pela posse do turno sem que a hierarquia própria da situação didática interfira de modo decisivo nesse processo. É nessa camada que são propostas e/ou assumidas diferentes identidades dos participantes da interação, além daquela estabelecida pelo contrato didático (professor e aluno). Não parece haver uma hierarquia entre as camadas, mas um entrelaçamento. Os participantes, conscientes das regras que presidem aquela interação em especial, mobilizam as duas camadas, evocando os direitos de uma ou de outra, 79 conforme seus interesses e necessidades. Isso não quer dizer, contudo, que não haja momentos de tensão entre as duas formas de participação, como se poderá ver nos trechos do corpus, apresentados na próxima seção. A proposta de se analisar a conversação em camadas parece responder a algumas das perguntas que nos intrigaram durante a observação do corpus. A primeira questão é entender como os participantes fazem fluir de modo tão simples, sem um uso muito evidente de marcadores específicos, a passagem de um momento da conversação para a explicação de uma dúvida, e desse momento, de volta para o fluxo do tópico em discussão. Cicurel e Véronique (1999) se referem a esse movimento: Um curso de língua tem a particularidade de fazer emergir simultaneamente um duplo quadro. Há primeiramente o contexto didático da instituição – escola, centro universitário, curso de língua, etc. - que comporta suas rotinas, sua programação e suas normas interpretativas. As rotinas lingüísticas ou comportamentais têm para os sujeitos participantes uma função de ancoragem. A maneira pela qual professores abordam e verbalizam as condições de comunicação - anúncio da atividade, a informação precisa sobre a maneira como ela vai se desenrolar, a construção prévia do esquema participativo - mostra a importância das rotinas. Uma forma de simplificação consiste em “exibir” balizas interacionais. (...) ali onde, numa conversação comum, seria desnecessário informar aos demais sua intenção de falar e por quanto tempo o fará, ou de dizer quem vai tomar a palavra, numa interação assimétrica, aquilo que geralmente era implicitado é lembrado explicitamente. (...) Sobre este primeiro quadro vem transplantar-se um segundo, que é o da palavra em representação. “Impresso sobre” o quadro primário, o quadro secundário mimetiza o mundo real. Recorre-se a contextos imaginários para explicar, situar, provocar o reemprego de termos, especialmente nas atividades didáticas que fazem intervir simulações do tipo dramatúrgicas. A demarcação entre os dois mundos que não se referem a um mesmo “exterior” não é simples de estabelecer, porque as transições fazem-se rápida e muito freqüentemente. 15 (CICUREL, 2002:185-6) 15 Un cours de langue possède la particularitè de faire émerger de façon simultanée un double cadre. Il y a d’abord le contexte didactique de l’instituition – école, centre universitaire, cours de langue, etc. – qui comporte ses routines, sa programmation et ses normes interprétatives. Les routines langagières ou comportamentales ont pour les sujets participants une fonction 80 Os participantes recorrem a uma camada ou a outra de acordo com as necessidades daquele momento. Ambas estão disponíveis o tempo todo, mas a camada didática preexiste à relacional construída na / durante a interação. A segunda questão é a possibilidade de manutenção de diferentes papéis decorrentes da relação interpessoal dos participantes, tal como acontece em qualquer conversa e, ao mesmo tempo, a manutenção das regras específicas da relação professor-aluno. Essa duplicidade parece evidente nas formas de intervenção assumidas pela professora, que pode tanto fornecer opiniões a respeito do tema quanto monitorar a discussão, fazendo correções e controlando a participação dos demais. d’ancrage. La façon dont les enseignants abordent et verbalisent les conditions de communication – annonce de l’activité, précision sur la manière dont elle va se dérouler, construction préalable du schéma participatif – montre l’importance des routines. Une forme de facilitation consiste à « exiber » les balises interactionelles. (...) là où, dans une conversation ordinaire, il n’est nul besoin de désigner explicitemente qui va parler et combien de temps, ou de dire avec qui se fera la prise de parole, dans une interaction en milieu scoalaire, ce qui reste généralement implicite est explicitement rappelé. (...) Sur ce premier cadre vient se greffer un second cadre, qui est celui d’une parole en représentation. En « surimpression » du cadre primaire, le cadre secondaire mime le monde réel. Que l’on songe aux contextes imaginaires auxquels il est fait appel pour expliquer, situer, provoquer le réemploi de termes, notamment dans les activités didactiques qui font intervenir des attitudes de simulations de type dramaturgique. La démarcation entre les deux mondes qui ne réferent pas à un même « exterieur » n’est pas simple à établir, car les décrochements se font rapidement, et à haute fréquence. 81 5. A camada didática A camada didática da interação se caracteriza pela existência da hierarquia professor-aluno como parâmetro de comportamento. Essa camada se justifica pela função precípua da conversação em aula de LE – tornar possível o reconhecimento, a compreensão e a aquisição de padrões (do uso) de uma língua estrangeira. Durante a conversação, essa camada pode ser acionada tanto pelo professor quanto pelo aluno. O primeiro caso é mais comum e, às vezes, mais dificilmente detectável, já que pode fazer parte da forma de participação do profissional durante todo o correr da interação. O segundo caso, menos comum na situação de sala de aula, também ocorre: um aluno pode assumir momentaneamente uma função atribuída geralmente ao professor. Asituação mais freqüente encontrada no corpus foi um aluno assumir a função de informar (geralmente atribuída ao professor). Observamos que a menor assimetria de posições entre professor e aluno durante a conversação permite que isso aconteça sem que nenhum dos participantes dê mostras de estranhar o fato. Como já vimos em seção anterior, Dabène mostra que o professor desempenha três funções na aula: informar, animar e avaliar. Verificamos que essas funções são exercidas nos episódios de conversação, porém não apenas pelo professor. Retomando a nomenclatura proposta pela autora, coletamos no corpus analisado seqüências em que a camada didática está aparente e examinamos como as funções características dessa camada são exercidas pelo professor e pelos alunos. 82 Segundo Dàbene (1984) são essencialmente três as funções desempenhadas pelo professor na sala de aula: informar, animar e avaliar. A função de informar inclui as tarefas de fornecer informações sobre: o temas externos à língua: dados sobre a cultura, sobre aspectos da sociedade ou informações sobre quaisquer que sejam os temas que estão sendo discutidos. o aspectos relacionados ao uso da língua. De modo geral isso se traduz em fornecer palavras ou expressões, ou indicar seu significado. Não se trata aqui de discutir aspectos lingüísticos, mas simplesmente de suprir faltas que interferem na capacidade de se expressar do outro. o aspectos relacionados à estrutura da língua-alvo: descrever estruturas, explicar usos, treinar pronúncia, por exemplo, incluem-se entre essas tarefas. A função de animar inclui tarefas ligadas ao estabelecimento do direito ao turno, entre as quais destacamos neste trabalho as tarefas de pontuar as trocas, de fornecer comandos de atividades (recorrendo ao discurso didascálico) e de chamar a atenção do aluno (convidando-o ou exortando-o a participar da interação). A função de avaliar inclui tarefas relacionadas à análise “externa” do encaminhamento da discussão, assim como à adequação ou não do que é dito pelos alunos. Das tarefas características do professor, essa é a única que se mantém como sua prerrogativa na atividade de conversação. Nesta seção pretende-se observar como, na conversação, essas funções são exercidas pelo professor e o que ocorre quando alunos tomam a si algumas delas. 5.1. A função de informar Como informador, o participante pode realizar três tarefas: fornecer informações sobre temas externos à língua, fornecer explicações sobre aspectos específicos da língua-alvo e descrever padrões de uso da língua. Dar informações é uma tarefa que de modo geral compete ao professor. Faz parte do contrato pedagógico: o professor ensina; o aluno aprende. Entretanto, observou-se que os alunos também podem exercer esse papel. Inicialmente 83 veremos como se dão as trocas quando o professor é o informador. Mais tarde, veremos o que acontece quando é um aluno que assume tal função. 5.1.1. Tarefa: fornecer informações sobre aspectos externos à língua Nessa tarefa, um participante irá fornecer informações sobre temas externos à língua aos demais. Essa tarefa tende a ser compartilhada por professor e alunos, ao contrário das demais (fornecer explicações sobre sentidos de palavras e de expressões da língua-alvo e descrever aspectos de sua gramática). A quase exclusividade do professor como fornecedor de insumos a respeito de aspectos da língua é reflexo de uma característica importante do contrato pedagógico: o professor continua sendo o detentor do conhecimento específico sobre a língua que ensina; os alunos podem compartilhar seus próprios conhecimentos sobre o mundo exterior, mas não têm ainda condições de arcar com a função de explicadores da língua. 5.1.1.1. O professor como informador Essa é a situação padrão do contrato pedagógico, na qual se espera que as informações sejam pedidas pelos alunos e fornecidas pelo professor. O trecho a seguir ilustra essa situação: Trecho 8 165 John normalmente, no Brasil, a que idade uma pessoa que vai a casar/ 166 Diane aqui está acontecendo um fenômeno muito estranho que tem a ver com a:: como é que eu vou dizer/ as características, daquilo que a gente tava discutindo na aula de ontem, aquela coisa do sexo. já está: 167 John na televisão, também. 168 Diane é, em tudo 169 John em tudo.. 170 Diane tem uma influência grande. um terço, entendem “um terço”/ 171 John trinta e três por cento/ 172 Diane um terço dos nascimentos de crianças, no Brasil, são de mães adolescentes. 173 John moças solteiras/ 174 Diane meninas de dezesseis, dezessete, ou solteiras, ou se casaram depois. mas a primeira fase em que acontece muito isso, acabam se casando, muitas vezes, porque estão grávidas= 84 175 John ah 176 Diane =é aos dezesseis anos. quinze, dezesseis, dezessete. muita, muita, muita, muita, muita. 177 Gretel isso é horrível. 178 Diane pois é. quanto mais, é:: isso, isso, inclusive, é um problema, além de ser um problema de saúde pública, é um problema econômico, porque você cria crianças, em grande quantidade, sem estrutura familiar, sem estrutura financeira pra dar conta. então, é um fator de pobreza muito grande. Aula 4, turnos 165 a 178 Nesse trecho, verificamos que a professora assume a função de informadora, devido à solicitação de um aluno. No turno 165, John faz uma pergunta direta (“normalmente, no Brasil, a que idade uma pessoa que vai a casar?”), que será respondida parcialmente pela professora já no turno seguinte. Essa resposta, tipicamente informativa, vem intercalada com outros turnos de John, em que ele tece comentários sobre as informações trazidas pela professora. Durante essa troca, o aluno age como “ouvinte interessado”, quer repetindo em seu turno o que foi dito pela professora (ver turno 169), quer efetuando comentários que visam a conferir sua própria compreensão sobre o que estava sendo dito (em 173) ou que visam a clarificar informações inferidas a partir daquelas apresentadas pela professora (turno 171). Gretel também faz uma participação, cujo teor é de avaliação do que foi dito (turno 177). O que se pode observar é que a estrutura de participação nesse trecho mostra que, nesse ponto da conversação, o objetivo é informar os alunos sobre um aspecto da sociedade brasileira, o que se coaduna perfeitamente com a função precípua da professora na sala de aula. Trecho 9 187 John é, não sei:: então, tem muito aqui no Brasil, por exemplo, que nasce um bebê oito meses depois da, da boda/ 188 Diane acontece. acontece porque, porque se casou grávida: 189 John ligeira, ligeira, rapidinho, rapidinho vai casar/ 190 Diane vai. isso. às vezes acontece, e às vezes não. às vezes os pais vão morar juntos sem se casar. ou acontece de a menina ficar solteira. ela não querer casar. tem uma prima, na minha família, que ficou grávida agora. ela teve o bebê há uns quatro meses. Aula 4, turnos 187 a 190 85 Nesse trecho, o tópico de discussão era gravidez na adolescência. John abre a seqüência perguntando sobre a freqüência com que ocorre gravidez antes do casamento. Nos turnos seguintes, Diane e o aluno desenvolvem o tópico – ela com informadora e ele contribuindo com perguntas de esclarecimento. 5.1.1.2. O aluno como informador Quando o aluno se propõe ou é chamado a exercer a função de informador, a estrutura padrão das relações professor/aluno parece ser subvertida. O aluno toma a iniciativa de dar uma informação e os demais alunos passam a se dirigir a ele em busca de esclarecimentos. Essa situação é caracterizadora da conversação na sala de aula em contextohomoglota, onde determinados traços identitários adquirem saliência, entre eles a nacionalidade do aluno. Nos dados observamos que essas intervenções são incentivadas pelo professor. Trecho 10 266 Takeo no japon, no japon a família qualquer, avós moram, principalmente os pais trabalham. por isso avôs, avós, filhas ficam com as crianças. 267 Diane muitos 268 Takeo é pra ser. 269 John e ficam na mesma casa/ moram juntos/ 270 Takeo é. nesse caso, avôs sim. mas não é esse caso, né/ bom crianças:: os pais levam para a escola infantil. deixam, deixam na escola até cinco, seis da tarde, depois buscam. 271 Diane e vão buscar 272 hum, hum. 273 John e, mas, no japon ter dentro de uma casa moram três geração da família/ 274 Takeo agora não, mas já teve. antigamente, né/ 275 Diane hum, hum. 276 Takeo moram juntos, né/ 277 Diane moravam. 278 Takeo moravam juntos. três famílias não: 279 Diane três gerações. 280 John geración. 281 Diane gerações. 282 Takeo bem. minha família, agora mora só minha família. 283 Diane só. 284 John só. Aula 4, turnos 266 a 284 86 Nesse trecho, vemos a participação de Takeo, que informa aos demais alunos e ao professor sobre um aspecto da cultura japonesa. Aqui se pode verificar a ocorrência de evento característico da situação de ensino de língua estrangeira em contexto homoglota. O aluno, sendo japonês, é detentor natural de informações sobre aspectos específicos de seu país. No caso desse trecho, a discussão tinha como tema as relações familiares. A intervenção de Takeo, não solicitada pela professora, provoca interesse de John, que passa a interpelá-lo solicitando mais informações (turnos 269 e 273). A professora intervém para dar apoio à fala de Takeo (turnos 267 e 275) ou para oferecer algum insumo de caráter corretivo (turnos 277 e 281). Trecho 11 127 Diane vam lá 128 Kanji eu vi 129 Kaori ahn/ 130 Kanji eu vi isso 131 Yuko o tipo de arma é diferente. polícia policiais japoneses também têm, mas ah não pode shootar ah (: ) eu tenho problema com este nome 132 Kaori shootar 133 Kanji sem tiro= 134 Diane =atirar= 135 Yuko =atirar 136 Kanji sem tiro. sem tiro. = 137 Aiko ahn/ = 138 Kanji não= 139 ( ) 140 Kanji em geral eles ahn eles fingem né, arma (.) mas (.) sem tiro 141 Diane sem bala/= 142 Kanji bala, sem bala 143 Kaori hum/= 144 Ade hhhhh 145 Kaori não. tem sim, tem= 146 Donald =no Japão/= 147 Kaori =tem sim, tem.= 148 Donald =sem bala/= 149 Naomi =ahn/= 150 Kaori =não sei mas (.) sem bala pra que/ 151 Kanji =sim 152 Naomi ahn tem. mas 153 Ade é 154 Naomi ah, nom, nom, nom, não coloca ((fazendo gesto de encaixar algo na cintura)).só:: caso de emergência. 155 Aiko eles têm balas mas só caso de emergência dá susto no criminoso. eles atiram, ah/ Aula 1, turnos 128 a 155 87 Na seqüência acima, os alunos japoneses se revezam para explicar o funcionamento da ação policial em seu país. Depois de uma negociação para se chegar ao verbo “atirar” (turnos 132 a 135), Kanji e Kaori explicam a Ade e Donald (respectivamente ganense e norte -americano) e, por extensão, ao resto da turma como é possível agir contra a violência estando desarmado. A professora compartilha o espanto com os demais alunos (turno 141) e permanece atenta à discussão. 5.1.2. Tarefa: dar explicações sobre itens de vocabulário O emprego do discurso explicativo é bastante freqüente na situação de conversação, já que nessas circunstâncias há amplas possibilidades de os alunos se depararem com palavras e expressões desconhecidas. É também característico da função do professor proceder à explicitação desse vocabulário, o que é feito pela sugestão de uma palavra que pode completar a frase interrompida pelo outro, ou pela explicação do sentido da palavra ou expressão na situação dada. 5.1.2.1. O professor como explicador Na tarefa de explicar, o que se faz é: fornecer insumo de vocabulário a outro participante, de modo a ajudá-lo a se expressar de forma mais eficiente ou adequada; fornecer explicações sobre o sentido de palavras ou expressões usadas quer pelo próprio professor, quer por um aluno, que tenham sentido desconhecido ou ainda que estejam sendo empregadas em contexto diferente daquele em que os alunos já a usaram em outra ocasião. Essa tarefa pode ser solicitada através de um pedido de ajuda mais ou menos explícito por parte de outro participante. Isso tende a ser uma tarefa do professor, que age como fonte de conhecimento específico sobre a língua (um “dicionário ambulante”, para empregar a expressão citada por Dabène (1984). Nos dados foram encontradas vários momentos em que isso acontece. Trecho 12 179 Donald bandidos/ 180 Diane bandidos. criminosos 88 181 Donald ah, criminosos é 182 Diane a gente vai chamar de bandido de modo geral, né/ 183 Diane então tem dessas coisas. 184 Ade mas qual é a diferença entre bandido e ladron/ 185 Diane bandido é mais genérico. 186 Ade ahn 187 Diane bandido é pra qualquer pessoa que cometa coisas= 188 Ade sei 189 Diane =criminosas é. qualquer tipo de coisa matar, roubar, qualquer coisa que você considere muito séria. mas, por exemplo, assaltante (.) é o sujeito que rouba usando violência 190 Ade hum hum 191 Diane quer dizer, um assaltante é um sujeito que ameaça a pessoa diretamente. um ladrão é uma pessoa que vê um objeto que não é dele e pega. não tem nenhuma pessoa, ele sabe que é de outra pessoa mas ele vem e (.) leva. isso se chama furto, né/ e assalto é bem mais grave, é quando você tem uma pessoa você fala “eu quero a sua bolsa”. né/ tem essa diferença aqui.(.) ok/ bom. vamos dar uma lida hoje na historinha. (.) no texto da Graça e do Ronaldo. Aula 1, turnos 179 a 191 Nesse trecho, o insumo oferecido pelo professor é o significado de uma palavra. Donald inicia o módulo fazendo uma pergunta direta (“bandidos?) e a professora responde-lhe, fornecendo um sinônimo da palavra. O aluno pareceu satisfeito com a explicação, mas a professora acrescenta um turno que se inicia com uma expressão de esclarecimento seguida de um fechamento no turno 183 (“então tem dessas coisas”), que provavelmente se refere à situação como um todo, já que esse trecho se situa no final de uma longa seqüência de discussão entre alunos e professora. Mas Ade a interpela, fazendo mais uma pergunta específica e direta (turno 184). Dessa vez a professora usa vários turnos para desenvolver sua resposta, procurando distinguir o significado das palavras “bandido”, “ladrão” e “assaltante”. É um momento em que ela aproveita a pergunta para apresentar bastante informação aos alunos, que ela considera interessados no tema. O pedido de informação pode ser mais ou menos explícito. No trecho acima, David fez um pedido claro de ajuda. No trecho a seguir, vemos que Pepper sugere a dúvida e pede ajuda à professora através do emprego da entonação ascendente no final da palavra “casa” (ver turno 93). Trecho 13 89 91 Diane e você, Pepper/ 92 Pepper (..) ahn 93 Pepper nesse tempo quando eu jogava (..) com as mi minhas amigas e (: ) jogava de (..) casa/ 94 Diane brincava de casinha 95 Pepper é. e (.) nadava muito Fita 2, turnos 91 a 95 Aqui uma combinação de marcas de hesitação e de entonação ascendente indica a dificuldade da aluna (turno 93). Essas pistas são suficientes para a professora fornecer o insumo pedido ao qual se segue a confirmação da aluna e a retomada do seu turno interrompido. O problema de Pepper era saber se o uso da expressão “jogava de casa” era adequado naquela situação. Sua entonação indica a dúvida,percebida pela professora, que lhe fornece a expressão correta no turno seguinte (turno 94). 5.1.2.2. O aluno como explicador A função de explicador pode ser exercida, na conversação, por um aluno. Entre as razões para que isso aconteça está o fato de que, nessa atividade, os alunos podem ter informações que não são do conhecimento do professor. Pode também acontecer de o aluno se adiantar para ajudar um colega em dificuldades, esclarecendo sua dúvida antes que o professor o faça, em um processo de andaimagem. Sendo um dos objetivos da conversação justamente o estabelecimento de oportunidades de cooperação entre os alunos com o emprego da língua-alvo, essa intervenção é considerada adequada à situação. Observou-se nos dados que essa ajuda ocorre para fornecimento de palavra, mas não para explicação sobre seu sentido ou uso na situação. Assim, parece-nos que os alunos tendem a agir mais no sentido de ajudar o colega a continuar o que estava dizendo, prevenindo uma interrupção do fluxo do tópico, ao passo que caberá ao professor utilizar a dúvida ou o erro do aluno para uma inserção de informação de caráter metalingüístico: Trecho 14 105 Gretel porque eu também:: eu não sei talvez:: não vou casar tempo do mi, mil, mil, meu.:: 106 John minha vida/ 107 Gretel minha. minha/ 108 John tua vida/ 90 109 Diane não entendi. 110 Gretel talvez não vou casar-me todo:: ((olha para Hans pedindo ajuda)) 111 John minha vida. 112 Diane você acha que não vai ficar casada a vida inteira/ 113 Gretel sim. talvez. não sei/ 114 John eu com certeza vou casar, mas não sei. não sei. Aula 4, turnos 105 a 114 Nesse trecho temos um exemplo de situação em que o esclarecimento da dúvida de uma aluna (o reconhecimento do gênero de uma palavra) foi feito não pela professora, mas por um outro aluno. Há nesse trecho dois momentos em que um aluno apóia e complementa a fala do outro. A primeira ocorre quando Gretel tenta sem sucesso completar uma frase (turno 105) e John interfere, apresentando-lhe a opção que parecia se coadunar semântica e morfossintaticamente com o que ela parecia dizer (turnos 106 e 108). A aluna tem uma atitude de estranhamento frente à opção proposta e o aluno tenta conferir se o sentido da expressão se adequa ao que Gretel queria dizer. A professora interfere apenas para deixar clara sua própria incompreensão. A aluna recorre então a Hans em busca da palavra ou expressão adequada para completar sua frase, empregando meios não-verbais para isso. Entretanto Hans não responde; quem o faz é, mais uma vez, John. Nesse caso, a professora só interfere depois que o aluno fez uma tentativa de colaborar com a colega, fornecendo-lhe novamente a mesma opção (“minha vida”). Para tanto, reemprega a frase usada pela aluna, porém substituindo a expressão “todo” (que sugeria o uso de “minha vida”, como indicado por John, mas que dificultava a compreensão do gênero da palavra “vida”) por “a vida inteira”, o que finalmente satisfaz a aluna e lhe permite continuar. O que chama a atenção nesse e em outros trechos do corpus é o fato de o insumo fornecido por um outro aluno, ao invés do professor, ser plenamente aceito pelo beneficiário. No caso de Gretel e Hans, é importante frisar que ambos são alunos alemães, advindos de uma mesma universidade. Ela tem apenas um mês de aulas no Brasil, ao passo que Hans é mais experiente. Assim, o fato de ela recorrer a ele nos momentos de dificuldade não é incomum – ele atua, nesses momentos, como “parte mais competente do par”. Esse tipo de posicionamento é bastante comum e indica que os alunos formam uma rede de apoio mútuo durante as aulas, o que se reflete nas formas de participação adotadas por eles durante episódios de 91 conversação. É a andaimagem: aquele aluno que se considera menos apto procura a ajuda do mais apto. Trecho 15 1 Rita é assim que você vê (.) as famílias saírem [à rua hoje/= 2 Maria =hoje não= 3 Rita =o chefe na fre::ente. Como é que é isso hoje/ 4 Maria hoje/ 5 Rita no Brasil. 6 Maria hoje não. porque (.) hoje a chef- não tem chefe. eu acho que não tem chefe. 7 Rita ahah porque/ 8 Maria porque a:: (.) a escravi escravi escravas escravas 9 Aluno a escravidão 10 Maria a escravidão (0.5) a escravidão (.)hu::m (0.3) a escravidão acabou hoje 11 Rita acabou hoje. então não tem senhor e não tem escravos. mas a família tem chefe ainda/ Aula 5, turnos 1 a 11 No trecho acima, pode-se observar outra situação em que um aluno apóia a fala do outro e contribui com uma explicação. No turno 8, Maria demonstra hesitação quando vai usar da palavra “escravidão”. Após várias tentativas, ela chega a uma forma inadequada ao contexto. Um aluno fornece-lhe a expressão desejada. A aluna reemprega a palavra, sem esboçar agradecimento, e segue sua frase. Mais uma vez se verifica que o apoio de um aluno a outro funciona como meio de se fazer completar a fala, de modo a se poder prosseguir o fluxo do tópico sobre o qual se está falando. Trecho 16 367 Takeo discutir é como brigar ou é como falar algum sobre alguma coisa, algum assunto/ 368 Diane as duas coisas. 369 John pode ser. 370 Diane discutir pode ser:: é 371 John pode ser como brigar:: 372 Diane nós estamos discutindo, por exemplo, um assunto. nós estamos discutindo:: o quê/ sobre os avós: 373 John um debate. 374 Diane isso. 375 John também. 376 Diane isso. também. é uma discussão. agora, discutir pode ser, também, asperamente. 377 John ((gesto com as mãos indicando briga)) 378 Diane gritando:: isso aí muito bom, meninos bom. eu 92 trouxe uma coisa pra vocês hoje. um jogo. não sei se vocês já jogaram isso alguma vez na vida/ é um jogo que eu já usei em várias turmas. e que é, costuma ser engraçado trata-se da seguinte situação. nós vamos inventar uma situação e vocês vão ter que tomar algumas decisões com base no que eu vou dizer. aconteceu uma catástrofe, entende/ muuito grande e a, a civilização:: humana: Aula 4, turnos 367 a 378 É possível ainda observar situações em que a resolução de uma dificuldade é construída colaborativamente por professor e aluno. É o caso do trecho acima, no qual Takeo apresenta explicitamente uma dúvida, que será respondida pela professora, secundada por John. Juntos eles constroem colaborativamente a resposta ao aluno / colega, empregando para isso tanto a linguagem verbal (turnos 371 a 376) quanto a não-verbal (turno 377). 5.1.3. Tarefa: fornecer dados sobre estruturas lingüísticas Entre as três operações que caracterizam o papel de informador, a abordagem de aspectos metalingüísticos é a que parece ter menos lugar no âmbito da conversação. Entretanto, mesmo ela pode estar presente. Isso pode ser explicado pelo fato de a descrição de aspectos lingüísticos estabelecer uma situação em que as condições que propiciam a conversação deixam de ser satisfeitas. A principal delas, que é o domínio do fluxo de informação sobre a análise dessa informação em termos metalingüísticos, deixa de funcionar. Mesmo assim, foi possível encontrar no corpus analisado situações em que a professora exerceu essa função. Ao contrário do que aconteceu nas funções anteriormente analisadas, não se verificou qualquer ocorrência de descrição lingüística feita por alunos. No corpus foram encontrados dois tipos de situação em que aparece preocupação explícita em se apresentar ao aluno uma estrutura lingüística. O primeiro é aquele em que a professora aproveitou uma situação para fazer um treino de pronúncia de palavras. Essa situação decorre do fato de que a conversação é um momento em que muitas vezes ocorre reemprego contextualizadode palavras ou expressões que apresentam dificuldade para o aluno. Assim, a interrupção para correção durante a conversação não é sentida como elemento estranho àquela situação. É o que vemos no trecho a seguir: 93 Trecho 17 246 Diane é possível. é possível. aliás, é bem comum as mulheres conciliarem o trabalho e a= 247 John e a família 248 Diane =a maternidade, e a família. mas tem uma ajuda muito grande da mãe, geralmente. hoje, muitas avós ajudam a cuidar dos netos. 249 John você falou avô. 250 Diane avó, avó. 251 John avá. 252 Diane avó. 253 John avá. 254 Diane ó. 255 John ó. 256 Diane isso isso Aula 4, turnos 246 a 256 Nesse trecho, John questiona a professora a respeito da pronúncia da palavra “avós”, empregada por ela no turno 248 (ver destaque). Essa questão provoca uma situação aproveitada pela professora para fazer um rápido treino; professora e aluno se alternam para apresentarem suas próprias versões da palavra. A troca só se encerra com o acerto do aluno, devidamente avaliado pala professora (turno 256). 5.2. A função de animar O segundo papel desempenhado pelo professor é o de regulador das trocas lingüísticas e de estimulador da participação dos alunos nas atividades. Fazem parte dessa função, além da responsabilidade de propor e desenvolver atividades apropriadas aos objetivos pedagógicos, os procedimentos destinados à distribuição da palavra: as operações de pontuação das trocas, de incitação à tomada de turno, e ainda operações para avisar e chamar a atenção dos alunos de modo a fazê-los participar da interação. Em uma análise feita a partir de interação verbal em sala de aula, Almeida ressalta o caráter não-igualitário das intervenções na sala de aula: Em primeiro lugar, nesse tipo de interação assimétrica, a distribuição da palavra geralmente é feita pelo professor, que tem a prerrogativa de designar o próximo locutor, o que não ocorre na conversação não-pedagógica. (...) Por outro lado, levando-se em conta o número de participantes [na interação 94 analisada], verifica-se que as falas se distribuem de modo bem desigual: dos 126 turnos que compõem toda a seqüência, 64 apenas são atribuídos ao conjunto de dez alunos e 61 ao professor. A produção verbal está centralizada na figura do professor, o que é compreensível uma vez que é ele quem assume o papel de iniciador/estimulador das trocas verbais. (ALMEIDA, 2000: 100) Almeida mostra que um dos papéis preponderantes do professor na conversação é pontuar as trocas. Observou-se nos dados, tal como ele já havia feito em seu estudo, que essa pontuação marca a atividade do professor. 5.2.1. Tarefa: Pontuar as trocas Pontuar as trocas consiste em estabelecer os ouvintes ratificados, regulando o direito à palavra. De modo geral, nas atividades de caráter didático, quem é responsável absoluto por essa tarefa é o professor. Na atividade de conversação, porém, essa tarefa é compartilhada por professor e alunos. 5.2.1.1 O professor como pontuador das trocas A pontuação das trocas em geral é uma prerrogativa do professor. Trata-se de toda operação cujo objetivo é conduzir a conversação, estabelecendo as regras de participação e fazendo com que sejam cumpridas. Há muitas operações possíveis para se desempenhar essa tarefa. Neste trabalho, salientamos a operação de distribuição dos turnos de fala, por ser esse um aspecto que distingue a conversação da conversa. A operação de atribuição de turnos pode ser feita através de interrogações dirigidas a todo o grupo, tais como “Quem pode dizer..” ou de injunções ou ainda de procedimentos prosódicos tais como entonações ascendentes, que convidam o participante a tomar a palavra. Como seria de se esperar, a maior parte das operações de atribuição de turno está a cargo da professora, mas se encontram também casos em que um aluno assumiu esse papel. No primeiro caso, a professora pode selecionar o falante enunciando seu nome ou empregando uma ação não-verbal – um gesto de cabeça ou mesmo um olhar. Pode ainda provocar a fala dos alunos fazendo uma pergunta 95 de caráter geral que seja dirigida a um grupo em especial, ou a qualquer aluno disposto a respondê-la. Chamar pelo nome é o modo mais direto de se tentar fazer o aluno participar da discussão. Geralmente é empregado quando o aluno não se decidiu a falar por conta própria, e representa um gesto de coerção, de autoridade explícita sobre a interação em curso. Trecho 18 77 Diane >o que você acha, Roy/< 78 Roy acho que bom. eu não tenho medo. 79 Diane nenhum problema 80 Roy eu não tenho nada de mais pior que nov zeland. 81 Diane nada de especial. 82 Roy ((nega com a cabeça)) Aula 1, turnos 77 a 82 Nesse trecho, a professora, depois de ter conseguido a participação espontânea de outros alunos, volta sua atenção a um rapaz que ainda não tinha se manifestado. Sua pergunta, no turno 77, é direta. É parte da função da professora levar os alunos a falar, e solicitar / obter a participação de todos. Assim sendo, o alto grau de diretividade da interpelação, assim como a insistência em busca de uma resposta que, por sinal, já havia sido fornecida da primeira vez, são compreendidos sem qualquer estranheza pelo aluno. Tal atitude poderia não ser tão bem aceita em uma situação de conversa. As pistas não-verbais funcionam como apoio às verbais, quando da indicação do próximo falante. No trecho abaixo, vemos uma situação em que isso ocorre. Trecho 19 63 John não/ você não gostar da tradicion duma boda: 64 Diane acho lindo 65 John sim 66 Diane mas nunca pensei pra mim 67 John nunca/ 68 Diane ((olha para Gretel)) e você/ 69 Gretel eu não sei: 70 John ela vai ser na Alemanha 71 Gretel eu sempre:: eu sempre dizia que nunca vou casar-me. agora, eu não sei:: não tenho ninguém, ma:s 72 Diane ahã 73 Gretel vamos ver Aula 4, turnos 63 a 73 96 Nos turnos 63 a 67, a professora falava com John. Depois de responder às perguntas do aluno, ela opta por selecionar um outro interlocutor, Gretel, encerrando a interlocução com John, sem fornecer qualquer pista verbal que indique, por si só, quem será selecionado como próximo interlocutor. É o olhar, que se desloca de John para Gretel, que trará precisão à atribuição de turno. Os alunos podem ser considerados não apenas individualmente, como vimos nos trechos anteriores, mas também segundo critérios variados que se baseiam em características tais como a cultura de origem ou o gênero. O realce de tais características constitui uma atribuição de identidade, cujos efeitos para a interação observaremos mais adiante. Trecho 20 315 Diane ah que bom e na Alemanha/ como é que é isso/ 316 Gretel que coisa/ 317 Diane as avós= 318 Gretel ((gesto negativo com a cabeça)) 319 Diane =não cuidam muito/ 320 Gretel eu acho que não. porque, existe mas é pouco. 321 Hans também acho que não é, não é padrão. acontece em algumas famílias, mas:: por exemplo, no meu caso:: quando eu era neném, meus avós, de vez em quando, tomaram- 322 Diane tomaram conta de mim. 323 Hans tomaram conta de mim quando os meus pais trabalharam, os dois, de professor, então, de vez em quando. mas, em geral, ou fica, ou fica com a mãe, ou fica a mãe ou fica o pai em casa pra tomar conta= 324 Diane tomar conta. 325 Hans =da criança. Aula 4, turnos 315-325 No trecho, após fechar uma seqüência anterior, na qual conversava com um aluno japonês sobre sua experiência pessoal, a professora faz uma pergunta com a qual pretende fazer um contraponto ao depoimento anterior. Assim, no turno 315, ao perguntar sobrecomo é a criação de filhos na Alemanha, a professora encaminha a conversação de modo que Gretel e Hans – ambos alemães - sejam selecionados como próximos locutores. Primeiramente Gretel toma a palavra e, depois de esclarecer a pergunta algo nebulosa da professora (“como é que é isso/”), dá a informação de modo bastante lacônico (turno 320). O mesmo não ocorre com Hans, 97 que se estende em sua resposta, encaminhando seu turno de modo a apoiar o que disse Gretel e depois ampliando a informação apresentada pela colega com a descrição de sua própria experiência. Note-se que nenhum outro aluno interferiu nessa troca. Trecho 21 68 Maria é.. non os homens hhhhh ( ) os homens falaram a: que: se as mulheres querem guardar seus marido é preciso ficar na casa, cozinhar bem e lavas as roupas 69 Rita ahn é/ 70 Maria é. 71 Rita vamos ouvir um homem do Senegal/ qual- um que vai falar quem pode/ 72 Al. 1 eu acho que hoje isso não é realidade porque eu posso me casar com uma mulher que: que está trabalhando. Eu depois depois de da sua trabalha do seu trabalho ele vai preparar a: ele vai preparar a::: a a a almoço o almoço o hhhhh 73 hhhhh 74 Rita o homem depois do seu trabalho >poderia< preparar o almoço, você diz isso/ 75 Al. 1 sim 76 Rita ou ela, ou a mulher 77 Al. 1 a mulher ou o homem 78 Rita ahn, você acredita que isso pode mudar 79 Al. 1 sim. 80 Rita sim Aula 5, turnos 68 a 80 Nesse módulo, observamos o comando da professora sobre a conversação. Encerrada uma participação de Maria, que apresentava sua opinião sobre a situação da mulher no Senegal, a professora convoca os rapazes da sala, senegaleses, para falar sobre o tema (turno 71). Esse movimento está bastante de acordo com o procedimento em aulas de conversação – dar voz a vários alunos, incitando-os a falar. Nesse caso conjugaram-se duas características definidoras dos participantes: serem homens e senegaleses. Veremos que essa condição lhes dá uma perspectiva específica e orienta suas falas, tanto em termos do conteúdo quanto do modo de organização. 98 5.2.1.2. O aluno como pontuador das trocas Apesar de o controle dos turnos de fala estar geralmente a cargo da professora, não é incomum um aluno tomar a palavra para interpelar outro. Esse evento é mais freqüente quando eles estão envolvidos com o tema, caso em que o caráter didático da interação se atenua, dando lugar a uma troca mais semelhante à conversa espontânea. Entretanto, esse comportamento tem estatutos diferentes, conforme seja uma iniciativa do aluno ou do professor. Ao fazer perguntas ao colega, o aluno emprega meios de justificar essa interpelação, procurando reduzir o potencial de ofensa ao outro. É o caso do trecho abaixo: Trecho 22 96 Diane todo mundo solteiro nessa sala/ 97 Takeo ((mais ou menos em gestos)) 98 John quem disse/ 99 Gretel e você/ 100 John quem/ eu ainda não me quero casar também. 101 Gretel mas você quer casar-se/ 102 John ah sim sim sim 103 Gretel si:m/ 104 John não tão depressa, mas, com uns anos. 105 Gretel porque eu também:: eu não sei talvez:: não vou casar tempo do mi, mil, mil, meu.:: 106 John minha vida/ 107 Gretel minha. minha/ 108 John tua vida/ 109 Diane não entendi. 110 Gretel talvez não vou casar-me todo:: ((olha para Hans pedindo ajuda)) 111 John minha vida. 112 Diane você acha que não vai ficar casada a vida inteira/ 113 Gretel sim. talvez. não sei/ 114 John eu com certeza vou casar, mas não sei. não sei. 115 Diane vou me casar. 116 John vou me casar. 117 Diane isso. Aula 4, turnos 104 a 117 Nesse trecho, a aluna toma a palavra e interpela seu colega, usando exatamente as mesmas palavras da professora (“E você?” – turno 99). Com o olhar, indica que o destinatário da pergunta é John. Ao reagir perguntando “quem? eu”, ele parece inicialmente surpreso, mas a seguir responde à colega. Não satisfeita, Gretel faz novas tentativas de conseguir respostas do colega que fossem mais longas ou 99 mais específicas (turnos 101 e 103). No turno 105, através do uso da expressão “porque” ela parece justificar essa seqüência de perguntas, expondo sua própria opinião de modo a estabelecer uma comparação entre ambas as opiniões sobre o casamento. Dessa forma, ela repara a possível ameaça à face de Hans, expondo a si própria tanto quanto expôs o colega, o que equilibra a situação de ambos. Na situação de conversação, nem sempre a professora precisa incitar o aluno à participação. Há, nos dados analisados, várias situações em que os alunos se auto-selecionam. Trecho 23 847 Naomi ah eu não usava relógio para acordar rápido. mas aqui eu uso. 848 Diane você usa. aqui você acorda mais cedo do que lá/ 849 Naomi Primeiro hh cedo hh e dormir hh de novo e acordar. 850 Diane que delícia acorda cedo, trava o relógio 851 Naomi é. 852 Diane melhor coisa do mundo 853 Aiko mas como você acordava lá sem despertador/ 854 Naomi ah minha mãe sempre me acordava. porque eu não consigo acordar ah ce- cedo/ não. não consigo levantar quando que eu= 855 Diane =acorda= 856 Naomi =acordo, por causa de pessoas, ainda mais a minha mãe que me grita para acordar 857 Diane gritava. 858 Naomi é Aula 1, turnos 847 a 858 Nesse trecho, Naomi e Diane dialogam. Aiko interfere (turno 853) para pedir um esclarecimento, que é dado em seguida por Naomi. Essa interferência, porém, não parece ser fortuita: ocorre depois de um turno em que aparece um possível fechamento: a avaliação da professora sobre a situação descrita pela aluna (turno 852). Assim, pode-se verificar que a máxima segundo a qual o próximo falante deve se abster de tomar a palavra até haver um ponto relevante de transição foi respeitada pela aluna. 5.2.2. Tarefa: Fornecer comandos de atividades O discurso didascálico é aquele por meio do qual “o professor orquestra as intervenções dos alunos tendo em vista a execução de tarefas”. (ALMEIDA, 2000: 100 106). Trata-se de uma forma de controle da interação muito característica da camada didática, que, na conversação, de modo geral ou indica o seu início (quando há uma proposta de tópico sobre o qual se pretende fazer girar a interação) ou o seu fim, caso em que a professora faz o fechamento daquela atividade e indica a próxima. Nos dados analisados, observou-se que esse recurso foi empregado para modificar o curso da interação, abrindo a atividade, corrigindo o seu curso (geralmente aproximando-o do objetivo ou tema original), ou ainda encerrando-a. São os casos analisados a seguir: Trecho 24 11 Diane bom. a primeira parte da aula, nós vamos ver esse textozinho aqui (.) depois nós vamos experimentar >recontar< essa história, certo/ é uma história sobre um ladrão (.) um casal e uma filha, certo/>primeira coisa que eu queria saber de vocês antes de começar a ler o texto ((a aula)) é<(0.5).no Brasil, vocês têm (.) preocupação (.) com assalto, com(.) violência/ 12 Kanji tenho. Fita 1 – turnos 11 e 12 Nesse fragmento, encontramos a professora Diane propondo, em linhas gerais, a atividade de conversação. Embora não-explícita, já que é formulada em forma de pergunta, trata-se da proposição de um tópico sobre o qual os alunos devem se manifestar. A forma empregada pela professora para dar uma ordem característica da interação professor/aluno tem o objetivo de reduzir a assimetria nas posições, estabelecendo, dessa maneira, uma relação interlocutiva mais igualitária. Essa forma, contudo, não impede que a assimetria continue a existir. Os alunos não são livres para ignorar a perguntar, ou mesmo para usar alguma estratégia de evitaçãodo tópico. O que se espera é que eles respondam à pergunta, mesmo se ela lhes causa algum desconforto. Trecho 25 699 John e assim também, por exemplo, eu ouvi falar que um menino que queria fazer outro curso depois de dois períodos e não conseguiu trocar o curso. mas lá, muitos de meus amigos – eu estou no último ano, sétimo período – e agora estão iniciando a fazer ( ). os primeiros dois anos não sabem, nenhuma coisa que, talvez vou fazer psicologia, talvez vou fazer química, ou alguma coisa assim, e depois, ao final tem que fazer isso, 101 mas:: aqui, antes de chegar você tem que, tem que procurar um vago dentro do novo curso, não/ por isso é muito diferente 700 Diane muito diferente muito diferente bom, gente vamos voltar para a nossa nave espacial/ nós largamos nossa nave pra trás 701 John vamos. 702 Diane e aí/ decidiu/ 703 John eu acho que tem, tem umas pessoas que todo mundo não vai querer levar como, por exemplo, uma mulher com problemas mentais. acho que todo mundo não vai: Fita 4 – turnos 699 a 703 No trecho recortado acima temos, no turno 700, um movimento de fechamento de um tópico, com um ato de avaliação e a seguir uma proposta de retomada de um tópico (o exercício proposto pela professora) através de segmento de discurso didascálico: “vamos voltar para a nossa nave espacial/ nós largamos nossa nave pra trás” (turno 700) . A estratégia funciona, o que é explicitamente indicado por John com uma concordância explícita (turno 701). O efeito dessa estratégia é uma mudança brusca de direção da conversação. O que seria uma quebra potencialmente comprometedora em uma situação de conversa informal, aqui é parte da tarefa e não causa qualquer espanto. Trecho 26 191 Diane quer dizer, um assaltante é um sujeito que ameaça a pessoa diretamente. um ladrão é uma pessoa que vê um objeto que não é dele e pega. não tem nenhuma pessoa, ele sabe que é de outra pessoa mas ele vem e (.) leva. isso se chama furto, né/ e assalto é bem mais grave, é quando você tem uma pessoa você fala “eu quero a sua bolsa”. né/ tem essa diferença aqui.(.) ok/ bom. vamos dar uma lida hoje na historinha. (.) no texto da Graça e do Ronaldo. Fita 1 – turno 191 No turno acima, vemos uma intervenção longa da professora, que não apenas encerra o tópico sobre o qual se estava discutindo, como também faz um pedido de intervenção avaliati va (ok/ Bom) e finalmente utiliza o discurso didascálico para abrir o próximo bloco da aula. 5.2.3. Tarefa: Chamar à atenção 102 A chamada à atenção é uma manifestação da assimetria entre professor e aluno. Na conversação, isso constitui procedimento raro, já que tem alto potencial ofensivo, incompatível com o equilíbrio de direitos de fala característicos dessa interação. No corpus, foi localizada apenas uma situação, apresentada a seguir: Trecho 27 142 Diane =não convidei ninguém. 143 Gretel ninguém/ 144 Diane não teve festa 145 Gretel não/ 146 Diane não entendeu/ 147 John sim. 148 Diane foi muito, muito simples. entendeu/ 149 John então, a família inteira: 150 Diane sim. só a família, só isso, só. 151 John só a família/ 152 Diane só. pouca gente. 153 Gretel sim. você gostou assim/ 154 Diane lógico que sim 155 John ( ) 156 Diane não não hhhhh não não é por isso não. é que:: tem circunstâncias específicas na história que:: que fizeram ser dessa maneira. mas o que que você acha, Hans/ Hans, tá quieto 157 Hans acontece de vez em quando. 158 Diane muito de vez em quando. 159 Hans não, não. mas é que eu não gosto:: não consigo me imaginar casando. nem agora nem no futuro. mas, talvez minha, minha idéia disso cambia depois. 160 Diane mude/ 161 Hans mude depois. Aula, turnos 142 a 161 Nesse trecho, para dar um fim a um tema que parece desconfortável para si mesma – os alunos estavam conversando sobre casamento e inquiriam Diane sobre como tinha sido sua festa de casamento – a professora convoca um aluno, que ainda não havia se manifestado, para participar. Ela se vale nesse momento de sua posição como professora não só para encerrar o tópico, mas também para incluir outro participante, Hans, elegendo-o como o próximo falante e chamando-o à atenção, ainda que de modo indireto (“Hans, tá quieto” - turno 156). Depois de receber uma justificativa do aluno ela ainda retruca, deixando explícito seu estranhamento em relação à atitude do aluno. Assim, força-o a falar do tema (turno 159). 103 Essa postura da professora não apareceu com freqüência nos dados, mas pode ser explicada pela necessidade sentida por ela de reiterar sua posição institucional naquele momento da discussão. Nesse caso, a exortação à participação do aluno, feita em dois turnos (156 e 158), teve como resultado a mudança, ainda que não definitiva, do foco das atenções da turma. 5.3. A função de avaliar A função de avaliar compreende, segundo Dabène, três tarefas: a de apreciação do que foi dito, a de correção e a de avaliação através de operações indiretas. 5.3.1. A tarefa de fazer uma apreciação Nessa tarefa, o professor deve mostrar não apenas compreensão do que foi dito pelo aluno, mas também deve indicar se aquilo era ou não pertinente, adequado àquele contexto ou situação. São freqüentes as ocorrências de apreciação. De modo geral, são rápidas e servem como fechamento de tópico. Trecho 28 834 Diane muito duro também.Ade/(.) 835 Ade é assim: parece que eu tô repetindo quase toda coisa que fazia lá. 836 Diane tudo igual/ 837 Ade é quase igualzinho. hhhhh 838 Diane hhhhh nenhuma coisa que você lembra que fazia lá/ nada/ 839 Ade é, começou por meus pais, né, que: 840 Diane começava. 841 Ade é começava por meus pais mas só que tô sozinho. 842 Diane tá sozinho. 843 Ade é. 844 Diane fora isso, tudo normal/ 845 Ade é, normal. 846 Diane muito bom quem mais/ Fita 2 – turnos 834 a 846 Nesse trecho, temos um módulo de conversação em que se alternam Ade e Diane. No turno 834, vemos a abertura do módulo, com a chamada para que o aluno dê sua contribuição. A questão que norteou essa interação foi “lembrem para mim 104 uma coisa que vocês faziam nos países de origem de vocês e que vocês não fazem no Brasil.” Após uma seqüência de trocas, a professora encerra o módulo com uma apreciação (“muito bom” – turno 846). Vale dizer que essa operação é ritualizada. Expressões tais como “OK”, “muito bem”, “muito bom” na verdade pouco revelam de fato sobre o teor da interação em si, mas servem, principalmente, para preparar o fechamento. Trecho 29 237 Gretel e como é aqui/ tem muitas mulheres, muitas mulheres na Alemanha querem fazer as dois. querem ter filhos e também querem trabalhar. e aqui como é/ também querem fazer os dois ou quando quis: 238 John (tem tempo para trabalhar) 239 Gretel quando eu tenho filhos quero ter tempo para eles, não quero trabalhar, ou como é/ 240 John tem que ter um berço, basicamente, uma coisa pra crianças com três anos para deixar e os pais saírem para trabalhar, e depois voltam para pegar a criança. 241 Diane hum, hum. tem. isso se chama “creche”. 242 John creche. 243 Diane creche. as crianças a partir de um ano, eu acho, acho que um ano, já podem ir para a creche. não é, Laís/ Aula 4, turnos 237 a 243 No trecho acima, a professora oferece (turno 241) uma proposta de expressão adequada àquilo a que o aluno se referia através de uma perífrase (“uma coisa para crianças...”) e que ele tinha erradamente nomeado como “berço” (possivelmente tentando usar a palavra “berçário”). O reemprego de John demonstra que ele incorporou a correção. A avaliaçãoaparece no uso da expressão “hum, hum”, indicativa de concordância da professora com o que foi dito e, ao mesmo tempo, indicativa de sua atenção ao estava sendo dito John. 5.3.2. A tarefa de fazer uma correção As operações corretivas são aquelas em que um interlocutor, diante uma inadequação na fala do outro, propõe uma reformulação. São situações de heterocorreção. Na sala de aula, essas operações são geralmente levadas a cabo pelo professor e constituem situação bastante característica do afloramento da camada didática na atividade de conversação. Podem, contudo, ser levadas a efeito por um aluno. São extremamente freqüentes nas aulas da professora Diane, mas 105 aparecem de forma mais velada na aula de Rita. Esse é um elemento de diferenciação entre os modos de condução da atividade de conversação das duas professoras. São exemplos de heterocorreção: Trecho 30 114 John eu com certeza vou casar, mas não sei. não sei. 115 Diane vou me casar. 116 John vou me casar. 117 Diane isso. Aula 4, turnos 114 a 117 Nesse caso, a operação de correção começa no turno 115. Nele a professora, observando uma inadequação na fala de John, produz uma heterocorreção, prontamente secundada pela aceitação, por parte do aluno, que repete a forma adequada. No turno 117, completa-se o ciclo, com a avaliação da professora. Trecho 31 756 Ade não sei ele é, chama carpi::n 757 Diane carpinteiro. 758 Ade carpinteiro. isso Aula 1, turnos 756 a 758 O tipo de correção mais comum é a sugestão de segmento que complete o que o aluno, evidentemente, está com dificuldades de pronunciar. É o que acontece no turno 757, quando a professora oferece a palavra “carpinteiro”, devidamente incorporada à fala do aluno no turno seguinte. Nem sempre a correção da professora é bem sucedida. No trecho a seguir, observamos uma situação em que a professora tenta, por duas vezes e sem sucesso, aprimorar a pronúncia do aluno: Trecho 32 260 John a minha mãe, minha mãe ajuda um dia da semana, é ela quem fica com su, su nieto, su nieto= 261 Diane neto. 262 John =seu nieto= 263 Diane seu neto 264 John =seu nieto, e depois meu irmão fica com ele dois dias 106 da semana. 265 Diane hum, hum. Fita 4 – turnos 260 a 265 Nos turnos 261 e 263, a professora propõe a pronúncia correta da expressão “seu neto”, pronunciada por John de maneira inadequada (“su nieto”). Embora tenha conseguido que ele pronunciasse o pronome corretamente, ela falhou na correção do substantivo. Cabe aqui observar que, em outra atividade didática (uma correção de exercícios, por exemplo), a professora certamente pararia para explicar que o aluno estava cometendo um erro, possivelmente até explicando a diferença entre a pronúncia em português e em espanhol. Tal atitude, porém, não foi tomada. Ela preferiu deixar de lado a tentativa de corrigir a pronúncia em favor da manutenção do “estado de conversa”. Assim, evitou interromper o turno do aluno antes que ele próprio o abandonasse ou que o tópico deixasse de fazer sentido para os demais. É possível haver heterocorreção da parte do aluno, mas nesse caso, o que se pode perceber é que ela está ligada aos aspectos de acuidade da informação prestada – característicos da camada relacional da interação. Assim, temos como exemplo: Trecho 33 53 Kanji mas:: na verdade eu não conheço muito bem o sobre o Rio de Janeiro, São Paulo porque(.)) nunca n:: n: 54 Diane fui 55 Kanji nunca fui. 56 Aiko em São Paulo ((inaudível)) ((aparentemente Aiko lembra Kanji de que ele já tinha ido a São Paulo)) 57 Kanji ahn, não em São Paulo eu fui, eu fui (.) mas (.) eu (..) nunca tinha passado. 58 Diane nunca teve assalto. 59 Kanji hum hum 60 Diane nunca teve 61 Kanji nunca tive, nunca tive. 62 Diane hum hum nunca sofri assalto. então melhor, né/ Aula 1, turnos 50 a 54 Nesse trecho, temos uma seqüência de heterocorreções. No turno 53, o aluno demonstra dificuldade em completar sua fala, no que é ajudado pela professora. No turno seguinte, o emprego da forma sugerida, completa o ciclo. No turno 56 uma aluna interfere na fala, de modo pouco claro para os demais participantes – o que é característico de intervenções de natureza corretiva entre os alunos. O turno 57 107 revela o teor dessa intervenção – um heterocorreção quanto à acuidade do conteúdo da fala do aluno. Essa fala incorpora a correção, destacada no turno seguinte pela repetição do elemento. 5.3.3. A tarefa de fazer uma avaliação indireta A avaliação indireta pressupõe cuidado por parte de quem a faz para não quebrar uma regra de polidez, importante na conversa e que deixa traços na conversação: a despreferência pela heterocorreção. Garcez, comparando excertos de fala espontânea e de fala na sala de aula, explica que Conforme já apontei acima, a prática de iniciar e levar a cabo o reparo da fala do interlocutor no turno seguinte ao da fonte de problema é um fenômeno raro na conversa cotidiana, sendo interacionalmente custoso e socialmente conseqüente (ver Garcez e Loder 2005). Na fala-em-interação de sala de aula convencional, no entanto, é relativamente comum. (...) há uma preferência estruturalmente observável para que o próprio falante que produz qualquer item potencialmente problemático ao falar aponte para a necessidade de lidar com esse problema, iniciando reparo. (GARCEZ, 2006:72) O procedimento de avaliação indireta é característico do encaminhamento do tipo revozeamento (característico da forma de trabalho da professora Rita) e tem como objetivo aproximar a fala em sala de aula daquela que se tem na conversa. Trecho 34 38 ahn, é:: depois ahn em meu: em meu país ahn (.) quando:: antigamente (.) as mulheres não saíam da casa porque:: a:: a praça da: da mulher é: sobre: hum (.) é no: s:::ó: hu::m 39 Rita o lugar da [mulher 40 Maria [ocupar-se de das crianças 41 Rita hu:m o lugar da mulher é só se ocupar das crianças. é em casa e a sua tarefa é se ocupar das crianças, é isso/ 42 Maria isso Fita 5, turnos 38 a 42 Nesse trecho, temos um exemplo do modo como a professora Rita conduz uma heterocorreção feita de modo indireto. Ao propor uma reorganização do que a 108 aluna havia dito (turno 38), a professora incorpora a forma adequada de vocabulário que deveria ter sido empregada pela aluna. Assim, ao mesmo tempo em que mantém a conversação dentro da camada relacional, faz um ajuste do que foi dito de modo não-apropriado. Trata-se, portanto, de uma correção indireta. 5.3.4. A autocorreção Nas seções anteriores, apresentamos três formas de correção características da atuação do professor na sala de aula. Nesta, apresentamos uma forma de correção privativa dos alunos. A autocorreção é o procedimento no qual o aluno, ao perceber um engano, se apressa em corrigi-lo. Ao perceber a seleção inadequada de um item lexical ou ao notar que ao pronunciá-lo cometeu um erro, o aluno interrompe a produção do enunciado antes de terminá-lo e propõe uma alternativa que julga mais adequada (embora possa ainda não ser a correta). Nos dados, verificamos ocorrências de autocorreções no próprio turno ou em um terceiro turno, intercalada com um pedido de esclarecimento do interlocutor. A seguir, observamos os dois tipos. Trecho 35 31 Diane mas vocês acham que Juiz de Fora é uma cidade mais perigo:sa= 32 Kanji =tranqüila. (.) tranqüila= 33 Diane =vocês se sentem com isso/ 34 Aiko ºde vez dinquandoº 35 Diane oi/ 36 Aiko de vez em quando. 37 Diane por quê/ 38 Aiko ce lembra que no Carrefour houve tentativa de assaltoentão eles pegaram reféns, ºné/ 39 Diane ahn ahn 40 Aiko ouvi essa notícia aquele dia eu <iria> <exatamente> [no Carrefour. 41 Diane [no Carrefour. 42 Aiko eu iria mas eu desisti. 43 Diane ainda bem.= 44 Aiko =ainda bem. eu ouvi essa notícia e achei horrível. 45 Diane com certeza. 46 Aiko mas mesmo assim: eu acho que aqui é muito tranqüilo. 47 Diane hum hum 48 Yuko também acho que Juiz de Fora é é ahn mais perigos anh menos perigoso do que o Rio. mas ainda tenho: tenho medo. Fita 1, turnos 33 a 48 109 Nesse trecho, observamos dois episódios de reparo. No primeiro, observamos que Aiko, respondendo a uma pergunta da professora, se expressa de maneira inadequada (turno 34). Diante da manifestação de incompreensão por parte da professora, refaz seu comentário, dessa vez de maneira adequada (turno 36). No segundo episódio, ocorrido logo após o término das trocas entre Aiko e Diane, é um autoreparo feito por Yuko no turno 48. Aqui vale a pena lembrar que, em uma conversa espontânea, os falantes sempre preferem que a correção seja feita no mesmo turno em que houve o erro (Schegloff, 1977). No caso da conversação, porém, essa preocupação faz pouco sentido: os alunos têm consciência de que estão sujeitos a erro em suas falas e de que aquela é uma situação na qual a correção é desejada. Assim, reparos em terceira posição, como o que faz Aiko não são objeto de preocupação dos participantes, mas sim efeito natural do objetivo daquela atividade. 110 6. A camada relacional Enquanto a camada didática da interação se caracteriza pela existência da hierarquia professor-aluno como parâmetro de comportamento, a camada relacional se caracteriza pela flexibilização dessa hierarquia. Um dos principais focos da camada relacional é a troca de informações – seja sobre aspectos das culturas ou da vida cotidiana dos participantes, seja sobre quaisquer outros temas relacionados ao universo social. O domínio dos conhecimentos a serem compartilhados deixa de ser quase exclusividade do professor (ao contrário do que tende a ocorrer na camada didática). Os participantes vão se alternar na função de informadores, conforme os saberes de cada um sobre o tema discutido. A função de informador encontra-se presente nas camadas didática e relacional. No espaço da camada didática, o participante fornece dados que serão incorporados ao conjunto de informações consideradas relevantes para a formação dos demais alunos, mas ao fazê-lo pode expor seus pontos de vista, dúvidas e impressões sobre os temas abordados, explorando assim a camada relacional. A análise aqui feita tem como foco as relações entre as identidades assumidas pelos participantes da interação e/ou atribuídas a eles no correr da conversação. Se na camada didática observamos que os traços identitários que se tornam mais destacados referem-se às posições de professor e de aluno, na camada relacional as identidades dos participantes podem tornar-se mais espessas devido ao afloramento de outros traços. 111 Segundo Kleiman, identidade é uma produção social emergente da interação, nem inteiramente livre das relações de poder que se reproduzem na microssituação, nem totalmente determinada por estas por força do caráter construtivo, criador de novos contextos de interação, que permitiria, em princípio, a criação de relações novas, em conseqüência da utilização subjetiva que os interactantes fazem dos elementos objetivamente dados pela realidade social (KLEIMAN, 1988: 271) A autora mostra que a concepção de identidade que emerge dos estudos interacionais não é a de um elemento estabilizado e constante do caráter humano, mas de algo essencialmente mutável, transitório e dinâmico, construído socialmente pelo indivíduo enquanto participante de uma interação específica, determinada espacial e temporalmente, estabelecida pelas relações entre os participantes da interação. No que se refere ao estatuto interacional da sala de aula, Kleiman explica que esse é um contexto em que as interpretações sócio-culturais podem ser produzidas de forma nova e criativa. Mesmo quando a interação está determinada por regras institucionais, a criatividade e a espontaneidade na produção local dos significados sociais são possíveis e desejadas. (idem, ibidem: 281). Essa configuração das relações mostra que a sala de aula é um espaço social em que as negociações de traços da identidade não apenas podem acontecer, mas são esperadas. Segundo Kerbrat-Orecchioni, A identidade investida na interação pode ser mais ou menos rica ou pobre, de acordo com: . A natureza da situação de comunicação: na maioria dos estabelecimentos comerciais, por exemplo, os únicos atributos realmente pertinentes das pares em presença dizem respeito ao seu papel interacional (de cliente vs vendedor), ao passo que nas trocas particulares é mobilizada uma paleta nitidamente mais diversificada de atributos identitários; . o grau de conhecimento mútuo dos participantes: quanto mais se “conhece” P, maior é o número de propriedades de P a que se tem acesso. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2001:164) Ainda segundo a autora, 112 Todo sujeito se define por um conjunto de atributos, os quais não podem ser todos “expostos” da mesma forma em um dado contexto: tudo depende do papel que o sujeito assume na interação em curso, papel esse que é especificado pelo “script” próprio daquela interação. Mas os scripts admitem uma grande margem de imprecisão dentro da qual vão poder se desdobrar os processos negociativos. (KERBRAT- ORECCHIONI, 2001: 173) Estamos considerando como traços identitários os aspectos da vida dos indivíduos menos passíveis de mudança e que lhes servem de elemento de identificação como participantes de um determinado grupo. No caso das aulas analisadas neste trabalho, destacamos como parte da identidade pertinente à situação comunicativa a nacionalidade do indivíduo. Às características pessoais estamos chamando os diferentes conjuntos de informações que os indivíduos assumem como sendo parte de sua “fachada pessoal”, para usar uma expressão de Goffman. Trata-se de um conjunto de aspectos menos estáveis daquilo a que comumente se chama personalidade do indivíduo e que está relacionada à noção de “face”, sendo, portanto, objeto de negociação por parte dos participantes de uma interação. Descrevendo uma interação hipotética, Kerbrat-Orecchioni assim apresenta a tensão decorrente das negociações de “apresentações de si”: Em T1, o participante P1 efetua, com a ajuda de um certo número de indícios, uma “apresentação de si” (...), isto é, uma proposta de definição de si próprio: “Eis quem sou (como me vejo)”; proposta esta que que é geralmente aceita por P2, parceiro de P1, mas que também pode ser contestada por P2, através de uma contra-proposta (“Eis como te vejo”). Semelhante desacordo pode colocar em perigo a interação: “Se P é reconhecido por outro de uma forma diferente daquela que ele próprio de reconhece, isto será vivido como algo desconcertante e destoante, e fará surgirem dificuldades na comunicação” e é justamente para pôr fim a essas dificuldades que os participantes serão levados a recorrer ao processo de negociação. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2001:164) Essa negociação de apresentações, feita através de processos de proposição e refutação de características, quer próprias, quer de outro participante, tem como 113 conseqüência a necessidade de atenção para que se evitem situações de “perda de face”. 6.1. Mobilização de traços da identidade pelo próprio participante A identidade é formada por um feixede traços. Durante as aulas, vários desses traços foram mobilizados: aspectos da vida pessoal, características individuais, características das culturas nas quais os participantes foram criados. Esses traços identitários são negociados pelos participantes, embora em nenhum momento tenhamos encontrado, no corpus analisado, evidências de situações desagradáveis decorrentes desses embates. Parece ser característico da conversação em sala certa suavidade no tratamento dos temas discutidos, em um efeito de abrandamento das tensões. Esse efeito será discutido mais adiante. 6.1.1. Aluno portador de cultura específica Ao assumir a identidade de portador de cultura específica, o aluno age como informador, e o foco das atenções recai sobre ele. A configuração da interação muda de foco e os direitos de fala também se alteram. O aluno assume o centro da interlocução, e recebe atenção dos demais participantes. Trecho 36 170 Diane entendi. (.) tá certo (..) mas de qualquer maneira o tipo de (.) acidente lá (.) o tipo de crime é muito mais leve do que no Brasil (..) muito mais raro. 171 Roy mas acho que na Nov Zeland tem mais é:: (.) melhor crime ((sinal com o polegar para cima)) ((rindo)) 172 Diane melhor crime/ 173 Roy é. mais [mais leve. 174 Diane [que tipo de crime ocorre mais lá/ 175 Roy mais (.) os: bandidos não têm grande armas ((faz gesto indicando uma grande arma)) 176 Diane oh, isso é verdade. aqui os bandidos são muito mais chiques. nós temos vocês têm a melhor polícia. nós temos os melhores bandidos. nosso bandido é muito mais chique do que o resto do mundo. 177 Ade isso é:: tem muitos meios. Aula 1, turnos 170 a 177 Roy, aluno neozelandês, assume indiretamente sua condição de habitante daquele país ao se propor a apresentar as condições de segurança de sua terra 114 natal. A apresentação de características de seu país pode atrair para o aluno as atenções de seus colegas e do professor. Em muitos casos, observa-se que os demais alunos interferem para fazer perguntas ou pequenos comentários, mostrando interesse no que está sendo apresentado. É o que fazem Diane, no turno 174 e Ade, no turno 177. Uma característica interessante desse trecho é o fato de Ade fazer o fechamento da seqüência, em geral a cargo da professora. É possível ver nessa inversão uma relação entre os participantes mais próxima da conversa. Trecho 37 266 Takeo no japon, no japon a família qualquer, avós moram, principalmente os pais trabalham. por isso avôs, avós, filhas ficam com as crianças. 267 Diane muitos 268 Takeo é pra ser. 269 John e ficam na mesma casa/ moram juntos/ 270 Takeo é. nesse caso, avôs sim. mas não é esse caso, né/ bom crianças:: os pais levam para a escola infantil. deixam, deixam na escola até cinco, seis da tarde, depois buscam. 271 Diane e vão buscar 272 hum, hum. 273 John e, mas, no japon ter dentro de uma casa moram três geração da família/ 274 Takeo agora não, mas já teve. antigamente, né/ 275 Diane hum, hum. 276 Takeo moram juntos, né/ 277 Diane moravam. 278 Takeo moravam juntos. três famílias não: 279 Diane três gerações. 280 John geración. 281 Diane gerações. 282 Takeo bem. minha família, agora mora só minha família. 283 Diane só. 284 John só. 285 Diane e você tem avó e avô/ 286 Takeo tem, mas está, está distante bastante, meio longe, está da minha cidade:: eu também não o encontro há oito, há oito anos. Aula 4, turnos 266 a 286 Nesse trecho vemos que o tópico “família japonesa” despertou o interesse de John, que faz várias perguntas a Takeo durante sua explicação (turnos 269, 273). Aqui vemos que, conforme aumenta o interesse dos alunos pelo relato de um dos participantes, aumentam as interferências não solicitadas pela professora. 115 6.1.2. Professor portador de cultura específica Ambas as professoras que tiveram as aulas analisadas neste trabalho são brasileiras. A situação padrão, nesse caso, é que elas atuem como informadoras sobre as características do país. Um exemplo dessa conduta foi localizado na aula 5: Trecho 38 32 Maria antes eu quero falar sobre uma coisa. eu acho aqui que: não é: eles não vão numa festa mas na igreja. 33 Rita ah você acha que eles estão indo à igreja, e não à festa. tá. por quê/ 34 Maria porque os negros colocaram os roupas de domingo porque se ahn seria uma festa ahn os: filhos dos negros não (.) se- não (.) 35 Rita não poderiam ir/ é isso/ 36 Maria é 37 Rita você tem razão eu acho que acho - uma hipótese forte é que essa família estivesse indo a uma missa. Não é/ E tem até relatos é do Brasil colonial de religiosos que achavam que as mulheres só deviam sair de casa para ir à igreja e em geral era assim que acontecia. tá/ e o que mais você pode dizer/ Aula 5, turnos 33 a 38 Nesse trecho, a aluna Maria, falando a respeito de uma imagem apresentada pela professora, tece comentários, procurando explicitar melhor o conteúdo do que havia visto. Ela o faz de modo quase hesitante, empregando expressão modalizadora (“eu acho”). A professora, por sua vez, mostra seu conhecimento, mostrando estar embasada em leitura anterior (“tem relatos do Brasil colonial” – turno 37), e acrescentando informação específica sobre o tema. Está exercendo sua função de informadora na sala, aproveitando o comentário da aluna e enriquecendo- o. É uma atitude comum o uso da pergunta do aluno como gatilho para fornecimento de mais informação sobre o tema em discussão – geralmente mais do que seria necessário para simplesmente se responder à pergunta feita. Como as aulas de língua prevêem também estudos de características da cultura-alvo, essas são situações ideais para se promover discussões e para fornecer informações a esse respeito. 116 6.2. Mobilização da identidade por outro participante Sob o ponto de vista das relações entre os participantes, a atribuição de identidade é um procedimento bem mais “perigoso” que a reivindicação de identidades. Nessa atribuição sempre existe o risco de ocorrerem afirmações de preconceito, especialmente no caso de atribuição de traços de identidade associados à nacionalidade do participante. Houve situações em que quase ocorreram mal-entendidos, prontamente resolvidos pela interferência de um outro participante. 6.2.1. Aluno como aprendiz Encontramos nos dados analisados apenas uma situação de atribuição de identidades relativas a situações do aluno como aprendiz. Já que o objetivo principal da conversação não é tratar de situações sobre a própria condição de aluno, isso não costuma ser objeto de discussão nesse contexto. No trecho abaixo, porém, a professora faz como que uma entrevista com os alunos sobre seus hábitos de interação na sala de aula. A questão surgiu a partir de uma pergunta de uma aluna sobre o uso que teria a fita que estava sendo gravada. Trecho 39 546 Diane vocês acham que falam mais aqui do que falariam em outras aulas/ 547 John com certeza eu: 548 Takeo eu/ sim 549 John eu, dentro da aula, fora dessa aula eu não falo nas aulas. 550 Diane não fala. 551 Gretel eu também não. 552 Diane também não/ 553 Gretel ah sim, em literatura inglesa eu sim, falo. 554 Diane fala / 555 Gretel mas falo em inglês então não tem problema 556 Diane problema é ótimo 557 John literatura o quê/ 558 Gretel inglesa. 559 Takeo eu fico ouvindo. 560 Diane ahã Aula 4, turnos 546 a 560 117 Nesse trecho, a professora pede que os alunos se manifestem quanto aos seus hábitos de participação em sala de aula. Nesse ponto, cada um deles fala, em uma rápida sucessão de turnos (ver 547 a549). Quando John propõe uma modificação no tópico (introduzindo a informação de que ele não fala em outras aulas) os demais alunos passam a fazer seus comentários a respeito disso. Nota-se uma ordenação nos turnos: cada um falou sobre o tópico. A seguir, com a introdução de modificações, cada um deles voltou a se manifestar (turno 551 – Gretel; turno 559 – Takeo). Esse movimento sugere uma resposta organizada coletivamente pelos alunos à pergunta da professora. 6.2.2. Aluno portador de cultura específica O processo de construção de uma imagem de si, por parte do aluno, é explorado pelo professor como parte das estratégias utilizadas para fazer avançar a conversação. Nos dados analisados, houve muitas iniciativas similares a esta, localizada na aula 4. Nela, há um momento em que a professora caracteriza John como um aluno americano, ainda que de modo indireto. No episódio do jogo na nave espacial, a professora incluiu no grupo de candidatos a irem colonizar outro planeta um personagem cuja única identificação era o fato de ele ser um assassino. John escolheu esse elemento para participar do grupo que iria viajar – fato que gerou bastante polêmica na turma. A professora logo associou a sua escolha a um outro personagem da ficção, que caracteriza os filmes norte-americanos de ação – Rambo. Faz, assim, uma associação entre o fato de ele ser americano e a sua escolha, que seria condizente com a imagem veiculada em filmes e que caracterizaria uma faceta (pouco elogiável) do povo do qual ele faz parte. O trecho é o que se segue: Trecho 40 832 Diane vou. mas antes eu quero discutir mais algumas coisas. o assassino 833 John sim. 834 Diane alguém colocou/ 835 John eu. 836 Diane você gostou dele/ achou super simpático/ 837 John porque:: não sei se vamos chegar a um planeta com outro gênero, uma população, uma coisa pra defensa. 838 Diane ele já vai levar o rambo 118 839 Gretel defensa é matar os outros/ 840 John não: 841 Hans mas assassino normalmente é ofensivo, não defensivo 842 Gretel eu penso também. ele vai matar os outros 843 John ah, os outros/ não. porque ele também precisa deles. 844 Takeo você quer que ele protegesse, né/ 845 John sim. 846 Gretel não como ele falou 847 Hans eu não coloquei o assassino porque eu acho que assassino diminui a população, e a nossa meta é aumentar. 848 Diane hhhhh. 849 John não. ele não vai matar a própria população porque ele precisa deles 850 Hans como você sabe/ 851 John porque ele precisa deles pra sobreviver. 852 Hans tem duas crianças, que não podem ajudar. tem um homem velho, assim, ele, o assassino tem fome ele vai pensar: “os outros estão comendo a minha comida”, ele vai matar. 853 Takeo nem sempre assassino mata pessoas porque lá tem, lá ta tudo pronto, por isso não precisa matar as pessoas. 854 Diane hum / 855 Takeo mas ele tem experiência, né/ como atacar. 856 Diane ele sabe atacar. a mulher com problemas mentais / Aula 4, turnos 832 a 856 Se essa menção incomodou John, ele não o deixou transparecer, já que não faz qualquer comentário sobre isso. Quem se manifesta é Gretel (turno 839), que fará uma pergunta (“defensa é matar os outros?”) que se pode se referir tanto a uma questão de vocabulário quanto, possivelmente, às intenções do aluno ao escolher o personagem. Os demais alunos continuam a discutir a presença do personagem, mas não fazem nenhuma menção ao fato de o aluno ser norte-americano, ao contrário do sugerido pela professora. A exceção fica por conta de Ade, que, quase no final do exercício, usa a expressão “americano” para se referir a John, que continua a defender a presença do assassino no grupo. É o trecho transcrito abaixo: Trecho 41 1089 Diane tem que votar entre esses dois: 1090 John nós vamos escolher entre os últimos dois ou de todos/ 1091 Diane entre os últimos dois, mas: 1092 John porque só pode escolher uma. 1093 Gretel não, entre os últimos dois. 1094 John ahhhh 1095 Diane ele quer votar no assassino 1096 John assassino 1097 hhhhh 1098 Diane faz campanha para o assassino. 119 1099 Hans ele é um americano é típico 1100 hhhhh 1101 John oh, não 1102 Takeo não, não, não, não, não, não. ((gestos de separar a briga)) 1103 hhhhh 1104 Takeo fiquem em paz fiquem em paz não não 1105 John em paz paz e amor 1106 Diane que boniti::nho 1107 John paz e amor 1108 Hans então 1109 Diane e aí, gente/ vão decidir ou não vão decidir/ Aula 4, turnos 1089 a 1109 Nesse caso, a saída do grupo para uma situação de conflito potencial, ainda que configurada a partir de uma situação fictícia, é a risada de todos, estabelecendo o consenso sobre como se deve encarar aquela cena. Esse papel é desempenhado por Takeo que, atribuindo à interação o enquadre de brincadeira, pôde exagerar na própria reação (turnos 1102 e 1104). Todos sem mantêm nesse enquadre (turnos 1105 – John; 1106 – Diane, 1108 – Ade); e a professora faz o fechamento do tópico (turno 1109) No trecho a seguir, vemos que a atribuição de traços de identidade pode ser feita por outros participantes que não o professor. No caso, Gretel assumindo a identidade de alemã (e, portanto, se permitindo informar aos outros sobre características desse grupo), atribui a um desejo individual de Hans uma característica comum dos homens alemães. Trecho 42 159 Hans não, não. mas é que eu não gosto:: não consigo me imaginar casando. nem agora nem no futuro. mas, talvez minha, minha idéia disso cambia depois. 160 Diane mude/ 161 Hans mude depois. 162 Gretel muitos alemãos falam assim. sim, é verdade muitos 163 Diane é/ 164 Gretel é. 165 John normalmente, no Brasil, a que idade uma pessoa que vai a casar/ Aula 4, turnos 159 a 165 Depois de Hans ter exposto sua própria opinião sobre seu futuro, apresentando-se, portanto, como indivíduo, Gretel realinha a informação dada pelo 120 colega, identificando-a como a de um alemão típico (turno 162). Nesse caso, Hans não fez qualquer objeção a essa manipulação de sua fala. A identificação de alguém como representante de uma cultura pode ser um recurso para se apresentar determinada forma de proceder ou de encarar aspectos da vida cotidiana. Nesse caso, usam-se aspectos retirados da identidade pessoal para exemplificar o modo de agir de um grupo. É o que fez Diane, no trecho a seguir: Trecho 43 224 Diane muito, muito então tem uma, uma, um buraco grande. por quê/ porque as mulheres vão pra universidade, não pra se, pra se prepararem, demoram vinte e um, vinte dois, vinte e três:: Laís você quer casar/ hoje/ 225 Laís não. 226 Diane Não. nem te passa pela cabeça/ 227 Laís não. 228 Diane pois é. filhos/ 229 Laís no futuro eu quero. 230 Diane agora/ 231 Laís na:o 232 Diane olha aí. 233 Laís depois dos trinta. 234 Diane depois dos trinta. a Laís é um padrão: Aula 4, turnos 224 a 234 A identidade de brasileira foi atribuída a Laís (participante brasileira – aluna do curso de Letras - que estava gravando a aula). Nesse caso, a professora, usando um enquadre próximo ao de entrevistadora, se dirige repetidas vezes à aluna brasileira, perguntando-lhe sobre seus planos para o futuro. Ao final da seqüência, ela sugere que as respostas da participante representam um padrão de comportamento. Assim, atribui-lhe a identidade de brasileira (“a Laís é um padrão” – turno 234). A referência à nacionalidade do participante costuma funcionar como um sistema de atribuição de turno, “em bloco” ou individualmente . Nesse último caso, alguém indaga sobre comportamentos ou fatos em uma determinada culturacomo forma indireta de pedir a participação de outra pessoa. É o que ocorre no trecho abaixo: Trecho 44 514 Diane é:: e:: lá na Nova Zelândia, como é que é isso/ também tem problemas com trabalho/ tem muito emprego/ 121 515 Roy tem. muito é:: tem é muitos vagas que ninguém quer ( ) preferem ahn govirno ahn (.) coisas de saúde. 515 Diane programas de governo 516 Roy é (.) acho que Nova Zelândia bem fácil ((aponta para Pepper)) no americano é difícil, né/ 517 Pepper procurar programa/ 518 Roy no, to get welfare 519 Pepper no, hhhhh muito difícil agora. (.) muito difícil. 520 Roy acho que na Nova Zelândia muito fácil agora. tem pessoas que vende drogas e tem 521 hhhhhhhh 522 Roy monte de pessoas o governo dá pra elas dinheiro e eles não têm nada, vende drogas. 523 Pepper o problema com welfare é: mulheres engrei: 524 Diane engravidar 525 Pepper só porque elas queron mais dinheiro. mais crianças, mais dinheiro. so:: fica 526 Diane fica grávida. 527 Pepper é, fica grávida 528 Diane que coisa. 529 Pepper e outras não recibem welfare. porque pessoas:: (.) usando (.) muito né/ Aula 2, turnos 514 a 529 No trecho acima, no turno 514, Diane usa a nacionalidade para induzir a participação do único neozelandês da turma – Roy. O mesmo faz Roy, associando linguagem não-verbal à indicação da nacionalidade, norte -americana, de Pepper (turno 516), ao apontar para ela. 6.2.3. Professor portador de cultura específica A presença do professor na sala de aula muitas vezes funciona como um contraponto para as opiniões apresentadas pelos alunos a respeito do Brasil. Sendo ele uma figura de autoridade, sua presença é uma força a ser considerada, especialmente quando surgem comentários que podem denegrir a imagem do país em que estão. A atribuição de identidade ao professor não foi feita de modo direto, mas inferida a partir do modo como os alunos tratam os temas mais delicados referentes ao Brasil, que possivelmente ofenderiam a professora. Um exemplo dessa situação ocorreu na aula 1, quando a aluna Aiko, ao relatar uma situação de perigo potencial, ocorrida com ela, teve o cuidado de procurar aliviar o potencial ofensivo contido na narrativa. Durante a seqüência abaixo pode-se perceber uma oposição entre os alunos e a professora no que diz respeito a suas abordagens do tema. A situação de que se tratava na interação – 122 segurança pública no Brasil - é motivo de preocupação para os alunos. Assim, eles tenderam a se expor mais, apresentando seus pontos de vista de maneira mais explícita. Observe-se, a título de exemplo, que na primeira intervenção do aluno Kanji no decorrer dessa aula, ele já havia explicado que tem medo de morrer. Trecho 45 11 Diane bom. a primeira parte da aula, nós vamos ver esse textozinho aqui (.) depois nós vamos experimentar >recontar< essa história, certo/ é uma história sobre um ladrão (.) um casal e uma filha, certo/>primeira coisa que eu queria saber de vocês antes de começar a ler o texto ((a aula)) é<(0.5).no Brasil, vocês têm (.) preocupação (.) com assalto, com(.) violência/ 12 Kanji tenho. 13 Kaori ºtenhoº. 14 Diane ((olhando para Kanji)) fala. 15 Kanji eu (.) tenho. 16 Diane por quê/ (1.0) qual que é o maior medo que você tem/ 17 Kanji (0.5) medo de morrer. Aula 1, turnos 11 a 17 Por outro lado, sua condição social de visitantes no país parece ter pesado para a tentativa de amenizar as críticas feitas e de relativizar os perigos, mostrando que as fontes de preocupação estão mais longe – em São Paulo, por exemplo - e não em Juiz de Fora, que é a cidade em que eles estavam no momento da interação. Em alguns momentos, é possível perceber como, depois de contar um fato desabonador sobre a segurança, os alunos tentaram aliviar a impressão de crítica, seja fazendo uma comparação com um outro lugar, seja evitando comentar as frases mais provocadoras da professora sobre o tema. Trecho 46 31 Diane mas vocês acham que Juiz de Fora é uma cidade mais perigo:sa= 32 Kanji =tranqüila. (.) tranqüila= 33 Diane =vocês se sentem com isso/ 34 Aiko ºde vez dinquandoº 35 Diane oi/ 36 Aiko de vez em quando. 37 Diane por quê/ 38 Aiko ce lembra que no Carrefour houve tentativa de assalto então eles pegaram reféns, ºné/ 39 Diane ahn ahn 40 Aiko ouvi essa notícia aquele dia eu <iria> <exatamente> [no Carrefour. 123 41 Diane [no Carrefour. 42 Aiko eu iria mas eu desisti. 43 Diane ainda bem.= 44 Aiko =ainda bem. eu ouvi essa notícia e achei horrível. 45 Diane com certeza. 46 Aiko mas mesmo assim: eu acho que aqui é muito tranqüilo. 47 Diane hum hum 48 Yuko também acho que Juiz de Fora é é ahn mais perigos anh menos perigoso do que o Rio. mas ainda tenho: tenho medo. 49 Aiko também 50 Yuko mas acho (.) é muito tranqüilo do que outras. 51 Diane muito mais tranqüilo. 52 Yuko é, com certeza. Aula 1, turnos 31 a 52 No trecho acima, observamos que a aluna Aiko faz uma narrativa de um assalto do qual ela poderia ter sido vítima. A abertura (turno 31) e o fechamento (turno 47) dessa narrativa, contudo, são feitos através de afirmativas que minimizam o efeito negativo da história. Embora a professora não dê qualquer indício de se ofender com as declarações da aluna, até porque ela própria havia proposto a discussão sobre a violência no Brasil, esta ainda reduz o potencial de agressão à identidade da professora como brasileira. Esse efeito se estende aos dois alunos brasileiros que estão participando da aula como observadores e operadores da câmera de vídeo. Trecho 47 327 Diane um salário que parece (.) mais ou menos 328 Ade é:: em cima de:: ( ) 329 Roy por mês/ 330 Diane oi/ 331 Roy por mês/ 332 Diane por mês 333 Diane pro Brasil não é ruim, não. 334 Roy muito ruim 335 Diane muito ruim. eu também acho, mas o Brasil ta desse jeito. 336 Ade mas está acima do salário mínimo 337 Diane está. acima do mínimo. 338 Donald um dia nos Estados Unidos 339 Diane oi/ 340 Donald isso é um dia nos Estados Unidos. ºé muito diferenteº 341 Diane é muito provável ( ) e tem e vou te falar que (.) uns trinta por cento da população tá ganhando isso. Por mês, e está ganhando cada vez menos. (.) esse dinheiro compra cada vez menos 342 (..) 124 343 Diane e em Ga oi/ 344 Donald infla[ção 345 Diane [inflação. não deixa de ser (.) não deixa de ser. ninguém fala. (.) mas: eu acho que tem porque a tarifas aumentam muito, os preços todos aumentam muito, mas quando você vê a taxa oficial não aparece. (.) né/ Aula 2, turnos 327 a 345 Nesse trecho, o aluno Roy, confrontado com o valor do salário apresentado em uma proposta hipotética de emprego, compara a situação brasileira com a dos Estados Unidos. Embora pareça indignado, não faz comentários que soem desabonadores. É a professora que os fará. O silêncio, em 342, indica uma espera de Diane por uma reação de Donald, que não vem. Pode-se interpretar esse silêncio como uma falta de interesse do aluno em continuar a desenvolver o tópico, mas sua postura indignada e o fato de que ele é que iniciou a seqüência de comentários pode ser considerada um indício de que ele evitou deliberadamente fazer afirmações que seriam desagradáveis. Isso parece se confirmar no turno 344, no qual Donald dá uma justificativa para a informação prestada pela professora. Esta pega o gancho dado por Donald e passa a falar do tema. Donald não se manifesta mais e Diane volta-se para Ade, em uma troca que será objeto de análise no trecho abaixo: Trecho 48 346 Diane (.)e em Gana, como é que é/ o salário 347 Ade[o salário 348 Diane em comp comparação com o Brasil, como é/ 349 Ade eu acho que:: depende, né/ mas no mínimo pessoa que ganha muito mal, né/ deve ter (.) É:: lá, cho vê:. O salário mínimo é igualzinho ao que o Brasil aumentou, né/ Duzentos e dezesseis= 350 Diane =é mesmo/= 351 Ade =é igualzinho, lá. non sei se eles já aumentou, já. mas normalmente pessoas que trabalham com empresas têm (.) 352 Diane [hum hum] 353 Ade tem é condições melhor 354 Diane melhores 355 Ade melhores do que as pessoas que são autônomos 356 Diane são autônomos. isso. 357 Ade é isso fazem negócios pequenininhos cê sabe, 358 Diane [Hum hum] 359 Ade comerciais que compram e revendem por aí, (compram e vendem) º aí tá malº tem pessoas na rua também que fazem negócios de não sei (.) como fala isso aqui/ pessoas que vendem na rua/ 360 Diane ambulantes 125 361 Ade ambulantes, isso, é o (.) juventude, juventude, né, maioria são ambulantes lá, para se sustentarem, porque família ta fraca ((gesto com o polegar para baixo)) 362 Diane ta difícil 363 Ade é 364 Diane então também ta um pouco parecido com aqui. 365 Ade é, um pouco, né, mas se você levar em conta a população, parece que lá, sabe, ta um pouquinho acima do Brasil, porque aqui tá população, né/ 366 Diane [população 367 Ade [a dá problema= 368 Diane =aí dá mais problema 369 Ade é. 370 Diane ºisso é verdadeº. isso mesmo. Aula 2, turnos 346 a 370 O aluno descreve a situação de seu país como sendo bastante difícil. Destaca a pobreza da população e as dificuldades pelas quais passam as pessoas. Ao final do relato (turno 364) a professora propõe uma comparação entre as situações dos países (“Então também tá um pouco parecido com aqui” – turno 364). O turno a seguir mostra o aluno numa atitude extremamente cuidadosa, explicando, que, embora a situação de Gana seja ruim, a seu ver a situação do Brasil é pior. Mas ele faz esse comentário do modo mais delicado, inicialmente concordando com a professora, depois acrescentando um dado que comprova sua opinião diferente (“mas se você levar em conta a população”). Por fim, emprega um diminutivo para tornar o comentário mais brando (“ta um pouquinho acima do Brasil”) e ainda se explica mais uma vez (“porque aqui tá população, né?“) 6.3. Mobilização de características pessoais Nessa seção serão analisadas situações em que são colocadas em jogo informações de caráter pessoal dos participantes. Veremos que, mesmo sendo a sala de aula um ambiente em que as interações têm uma função de treino, a exposição de tais informações pode provocar situações de desconforto, que exigirão dos participantes trabalhos de face. 6.3.1. Exposição de características pessoais dos alunos 126 As características específicas de cada aluno tendem a aparecer, muitas vezes, como exemplificação de situações de caráter mais geral que estejam sendo discutidas naquele momento. De modo geral, constituem narrativas de episódios acontecidos com eles, pessoalmente, ou com pessoas de seu conhecimento. Podem ser ainda projeções feitas para o futuro. De todo modo, são momentos em que os alunos falam de elementos específicos de sua vida pessoal. Observar o que dizem e, principalmente, como os demais reagem ao que é dito pode elucidar trabalhos de face que ocorrem durante esses momentos da interação. De modo geral, observamos que a reação dos que ouvem esses relatos é discreta (evita -se demonstrar qualquer julgamento quanto ao que foi dito) ou de simpatia (com manifestações de apoio). Apareceram, com freqüência, os risos, como manifestação de apoio, se o que foi dito tinha como intenção esse efeito, ou como forma de se quebrar a tensão gerada pela narração. Trecho 49 91 Diane e você, Pepper/ 92 Pepper (..) ahn 93 Pepper nesse tempo quando eu jogava (..) com as mi minhas amigas e (: ) jogava de (..) casa/ 94 Diane brincava de casinha 95 Pepper é. e (.) nadava muito 96 Diane em piscina ou mar/ 97 Pepper piscina. 98 Diane piscina. 99 Pepper todo dia ((faz gesto com as mãos)) 100 Diane isso 101 Diane vida boa.. 102 Pepper só isso. 103 Diane nadava nadava nadava 104 Pepper é 106 Diane você cresceu com seus pais/ 107 Pepper (..) 108 Diane você morava com seus pais/ ((Pepper faz gesto de quem não entende)) 109 Diane não entende 110 Diane você (.) morava (.) com (.) seu pai e sua mãe 111 Pepper [yeah] 112 Diane ou como o Ade. com sua avó/ 113 Pepper ahh (..) mora- morava com meus pais (..) mas quando eu nadava, outra casa. 114 Pepper minha amiga tem piscina. 115 Diane Hum, hum tinha 116 Pepper tinha 117 Diane bom, talvez ainda tenha 118 Pepper yeah 127 119 Diane perfeito então tá bom ((recostando na cadeira)) Aula 2, turnos 91 a 119 No trecho acima, temos uma situação na qual a exposição de um aspecto da vida do aluno não cria nenhuma tensão. Nesse trecho Pepper é convidada a descrever suas brincadeiras, quando era criança, tal como outros alunos já tinham feito anteriormente. Sua narrativa não parece conter nenhum tipo de elemento potencialmente difícil de lidar, o que não gera qualquer desconforto. Ela é apoiada pela professora, que faz perguntas de esclarecimento (turno 96) dá apoio, pela repetição do que tinha sido dito pela aluna (turno 98) e faz comentário de apoio (turno 101). Mais uma vez se destaca o fato de que aluna e professora interagem sem que haja interferência de mais ninguém. Essa estrutura de participação demonstra bastante a similaridade entre a conversação e a entrevista. Trecho 50 137 Maria nós temos (.) uma cultura e as costumes eh:: você a:: tem só uma semana. eu liga para minha mãe e eu falo que meu irmão está cozinhando. ele falou por que você deixa sua irmã cozinhar/ e você o que você está fazendo/ 138 namorando 139 Maria eh/ h/ – uma 140 Rita a sua mãe disse pra você, ahn, ahn 141 Maria é. uma coisa. segundo eu disse que minha irmã lava roupa ele porque você não lava as roupa de sua irmã/ 142 Rita de seu irmão 143 Maria é 144 Rita ahn. 145 Maria segundo 146 Rita tá. 147 Maria ((faz som de assovio, provavelmente acompanhado de gesto expressivo)) hhhhh segundo 148 Aluna quanto mais tem 149 Rita segundo. tem terceiro, Maria/ 150 Maria terceiro. 151 Aluno são três 152 Maria você sabe que (.) ah nossa mãe trabalha mas quando nosso pai chegar ele deixa sua trabalho para se ocupar de nossa pai. é verdade. é. É verdade. 153 Rita nosso pai. 154 Maria nosso pai. 155 Aluno ma::s ((incompreensível)) 156 Maria terceiro eh/ 157 Rita sua mãe trabalha em que, Maria/ 158 Maria ele °como diz° (.) tem uhn m::itas trabalhos comerçant 128 159 Rita como/ 160 Paulo comerciante 161 Rita como comerciante 162 Paulo mas na::o/ não vai: ela tem (.) hum (0.5) loja ela tem lojas. Uhn 163 ((corte na gravação)) 164 Rita ah: sei tem lojas 165 Paulo a fica na casa ma:s elas ficam na casa ela fica na casa- 166 Rita [hum hum] 167 Paulo em tão quando o meu pai chegou ela deixa aa minha irmã mais velha se ocupar do trabalho das lojas e vai se ocupar do meu pai 168 Rita Vai se ocupar do seu pai 169 Rita Então quando Maria diz aqui –primeiro porque deixa seu irmão cozinhar segundo porque deixa seu irmão lavar roupas as mulheres de certa forma têm responsabilidade= 170 Aluno hhhhh 171 Rita =nessa preservação da cultura na medida em que elas ensinam os filhos, não é/ estou esto:: é isso/ ou não/ você:: [concorda, discorda 172 Maria [não. e:: porque quando minha mãe fala com nós meus irmã lá no Senegal ele me falo você me- me o o olha porque quando você: tem marido vocêdeve fazer como eu faz agora. deixa tudo e só se ocupar do seu marido 173 Aluno ((incompreensível)) 174 Maria ((voz mais aguda)) É. Você sabe que é verdade Todo mundo aqui sabe que é verdade. Você fala isso porque você está no Brasil. Aula 5, turnos 137 a 174 Esse trecho é radicalmente diferente do anterior. Nele percebe-se claramente que o relato da aluna Maria gera tensão no ambiente. É importante colocá-lo em seu contexto maior: Maria, aluna senegalesa, como outros alunos dessa turma (entre os quais se inclui seu irmão – aqui chamado Paulo) está apresentando sua opinião sobre a vida das mulheres em seu país. Em trechos anteriores retirados dessa aula, observamos parte dessa apresentação. O recorte agora analisado é, provavelmente, o ponto culminante desse relato. Maria fala de um telefonema de sua mãe, recebido por ela naquela semana, e o usa como exemplo do modo como as mulheres são obrigadas a agirem em seu país em relação aos homens com quem convivem. Logo no início desse trecho (turno 137) depois de Maria explicar quando ocorreu o telefonema, ela repete o que sua mãe lhe teria dito: (“Ele falou por que você deixa sua irmã cozinhar? E você o que você está fazendo?”) Um aluno não- identificado (mas que se pode imaginar ser o irmão) responde: namorando (turno 138). Ela faz menção de comentar essa interferência, mas a professora a incentiva a 129 continuar. Provavelmente essa intervenção do aluno seria uma provocação, já que Maria estava reclamando de fazer muitas atividades. Mas a pergunta da mãe como que desqualifica essas atividades e o rapaz completa essa desqualificação dizendo que o tempo de Maria foi empregado no namoro – o que seria um uso não produtivo desse tempo. Mais à frente, continuando o relato do telefonema, Maria tem sua participação comentada por uma outra aluna (turno 148). Esse comentário (“quanto mais tem”) parece indicar impaciência. A professora mais uma vez apóia Maria na sua fala, procurando organizar o relato (“Segundo. Tem terceiro, Maria?” – turno 149). Ao enunciar o terceiro ponto – que não parece mais ser um relato do telefonema e sim de um hábito da mãe (turno 152), Maria começa a empregar uma expressão que se repetirá, com variações, ao longo de suas falas: “Você sabe”. Essa expressão tem interesse em dois aspectos. Em primeiro lugar, trata-se de uma afirmação da veracidade de seu relato – certamente colocado em xeque por outros participantes, que vão questioná-lo. Em segundo lugar, o uso do pronome você indica que Maria está não apenas falando com a professora (que é quem está conduzindo a conversação e com quem, tecnicamente, Maria interage), mas também falando para o irmão. Essa estruturação de sua fala terá como efeito o aumento da tensão, que subirá ainda mais nos turnos posteriores. Nos turnos 158 a 164, Maria, Paulo e Rita se revezam na negociação em torno da expressão comerciante. Concluída essa negociação, Paulo toma a palavra para dar uma informação que pode explicar a conduta da mãe deles. A professora faz então uma retomada do que foi dito, que deveria ser um fechamento desse tópico. Maria, porém, ainda insiste e agora vai progressivamente deixando de falar com a professora para se dirigir ao irmão, o que efetivamente ocorre no turno 174. Nele, com voz alterada, a aluna começa uma discussão que se estenderá por mais vários turnos. O que se percebe nesse trecho é que a manifestação da aluna não foi apenas a de alguém treinando estruturas gramaticais, ou pondo em prática o que já aprendeu sobre a língua estudada. É mais: trata-se de uma oportunidade de discutir um tema que afeta diretamente sua vida particular. É possível que a ocasião tenha sido apropriada pela possibilidade de haver testemunhas que a pudessem apoiar em seus pleitos, ou ainda que a aluna confiasse no fato de que a sala de aula seria um 130 campo neutro. O que se pode garantir é que a discussão ganhou contornos de conflito, devidamente mediado pela professora. 6.3.2. Exposição de características pessoais do professor Já verificamos a situação do professor como portador de traços de uma cultura. Entretanto não é apenas nesse papel que ele se encontra na sala de aula – ele é visto com um indivíduo singular, com opiniões, características e sentimentos próprios. Entretanto, parece haver certo pudor em relação a isso: os professores tendem a evitar expor sua individualidade e a envidar esforços para que a conversação permaneça restrita às opiniões dos alunos sobre os fatos. Entretanto, em uma situação em que as assimetrias são reduzidas, é possível acontecer que, em lugar de fonte das perguntas, o professor se torne, por vezes, alvo delas. Na aula 4, o primeiro bloco constituiu uma longa “entrevista” feita pelos alunos a respeito da vida da professora. Esse não é um tema freqüente na sala de aula, e a inversão de papéis causou certo desconforto e gerou, por parte da professora, tentativas de encerrar aquele tópico sem, contudo, quebrar a situação de conversação que havia se estabelecido de modo espontâneo. Trecho 51 142 Diane =não convidei ninguém. 143 Gretel ninguém/ 144 Diane não teve festa 145 Gretel não/ 146 Diane não entendeu/ 147 John sim. 148 Diane foi muito, muito simples. entendeu/ 149 John então, a família inteira: 150 Diane sim. só a família, só isso, só. 151 John só a família/ 152 Diane só. pouca gente. 153 Gretel sim. você gostou assim/ 154 Diane lógico que sim 155 John ( ) 156 Diane não não hhhhh não não é por isso não. é que:: tem circunstâncias específicas na história que:: que fizeram ser dessa maneira. mas o que que você acha, Hans/ hans, tá quieto 157 Hans acontece de vez em quando. 158 Diane muito de vez em quando. 159 Hans não, não. mas é que eu não gosto:: não consigo me imaginar casando. nem agora nem no futuro. mas, talvez 131 minha, minha idéia disso cambia depois. 160 Diane mude/ 161 Hans mude depois. Aula 4, turnos 142 a 161 Nesse trecho, a professora, depois de um longo período sendo “entrevistada” a respeito de sua vida pessoal – o que a princípio lhe pareceu interessante como mote de conversação – começa a dar sinais de desconforto. Nos turnos 146 e 148, a professora emprega uma expressão característica de fechamento de tópico na sala de aula: a expressão “entendeu?” geralmente funciona nesse contexto não só como uma verificação da compreensão do aluno, mas também como fórmula de encerramento. Entretanto, o efeito pretendido não foi alcançado, já que, nos turnos subseqüentes John ignora essa tentativa de fechamento, ao não empregar a contraparte do par adjacente, (que seria algo como “entendi”) e ainda faz novas perguntas, às quais a professora responde prontamente, mas sem se alongar. Na completa impossibilidade de fechar o tópico da maneira mais usual, a professora dá a John uma informação de caráter mais genérico e pouco elucidativo, entremeada de marcas de hesitação (“não! não! hhhhh não! não é por isso não. é que... tem circunstâncias específicas na história que... que fizeram ser dessa maneira. mas o que que você acha, hans? Hans, tá quieto!” – turno 156). Antes que outro aluno tome a palavra mais uma vez, ela usa sua autoridade para tentar interromper o fluxo do tópico usando uma manobra de chamada à atenção e de gestão do turno de fala – instando Hans a participar da discussão e colocando-o, ao mesmo tempo como alvo das perguntas. 6.3.3. Atribuição de características pessoais a outro participante Atribuir imagens a outro participante é tarefa que pode conduzir a dificuldades e mal-entendidos. A atribuição pode ter tanto o poder de mitigar problemas interacionaisquanto de criá-los. De todo modo, as identidades são sempre construídas coletivamente, à vezes negociadas. É o que veremos nessa seção. A atribuição de características a um aluno não é evento incomum na conversação. Ela pode partir tanto do professor como de um colega. Trecho 52 132 62 Maria porque se eu eu sou de- diferente de-das outras mulheres eu no eu non teria marido 63 Rita ah, não vai encontrar um marido 64 Maria é isso mesmo 65 Rita é verdade/ Será 66 Maria é verdade porque 67 Rita uma moça tão bonita, inteligente 68 Maria é.. non os homens hhhhh ( ) os homens falaram a: que: se as mulheres querem guardar seus marido é preciso ficar na casa, cozinhar bem e lavas as roupas Aula 5, turnos 62 a 68 No trecho acima, a professora atribui à aluna características abonadoras, que deveriam ter o efeito de agradá-la e de recolocar a questão da possibilidade de se conseguir marido sob a ótica brasileira – uma mulher bonita e inteligente teria mais facilidade de se casar que outra, sem esses atributos. Mas Maria não dá sinais de ter considerado essa caracterização como definidora de atributos adequados: segundo ela, no Senegal mulher tem de saber cozinhar, lavar roupas, ficar em casa. A atribuição de características pessoais a um aluno, quando feita por um colega, costuma ter como objetivo fazer uma brincadeira ou uma crítica. É o que vemos no trecho a seguir. Trecho 53 68 Diane ((olha para Gretel)) e você/ 69 Gretel eu não sei: 70 John ela vai ser na Alemanha 71 Gretel eu sempre:: eu sempre dizia que nunca vou casar-me. agora, eu não sei:: não tenho ninguém, ma:s 79 Gretel eu acho que aqui no Brasil não. 80 John ah, ah ahahahaha no Brasil, não/ 81 Gretel os homens são muito: 82 Diane homens, acordem 83 Gretel os homens aqui são muito baixos 84 John você está gastando seu tempo em acreditar. 85 Diane hhhhh 86 Gretel mas, quanto tempo você o conheceu antes de casar/ Aula 4, turnos 68 a 86 No trecho acima, John indiretamente informa à professora algo sobre o comportamento de Gretel, sua colega, ou a respeito de suas intenções no que diz respeito a relações amorosas. Ele o faz desqualificando a afirmativa da colega, pelo riso (turno 80) e por uma afirmativa (turno 84). Gretel não reage à provocação e 133 volta a conversar com a professora. Dessa maneira, evita que a interação adquira aspecto de disputa pessoal entre ela e John. A crítica, porém, pode se tornar mais agressiva. As pequenas disputas entre os alunos podem deixar o nível da brincadeira e da provocação sem maiores conseqüências e evoluir para uma situação um pouco mais séria. É o que ocorre no final da discussão entre os irmãos/alunos na aula 5: Trecho 54 219 Paulo se ela quer ela pode ficar sem marido 220 Rita o quê/ 221 Paulo se ela quer ela pode ficar sem mer- marido 222 Rita por quê/ 223 Paulo porque e ele ela se reclama muito da da dos homens. cada dia os homens, os homens 224 Rita é/ você acha que:: que pode acontecer isso com a mulher que reclama muito dos homens no seu país/ pode/ não encontrar um marido/ 225 Maria é. 226 Rita é/ 227 Maria é 228 Rita é/ 229 hhhhh Aula 5, turnos 219 a 229 Aqui Paulo fala para a professora que Maria pode ficar sem marido, já que reclama muito dos homens. Essa é uma crítica bastante mordaz, já que a tônica da discussão era justamente o fato de Maria, como mulher senegalesa, pretender seguir as tradições de seu país e, para isso, ter de agir conforme os padrões do Senegal. A frase que contém a crítica é reorganizada por Rita que, mais uma vez, solicita de Maria uma resposta àquele comentário. A aluna, contudo opta por simplesmente concordar, laconicamente, com a afirmativa, o que parece surpreender a professora (ainda que, no início dessa discussão ela tenha explicado sobre a necessidade de agir de maneira igual à das demais mulheres de seu país). Rita repete a fala de Maria, com entonação de pergunta, e Maria retruca da mesma maneira. Esses turnos vão se repetir mais uma vez, o que uma situação sem saída que acaba por funcionar como o fim da discussão. Nesse trecho, a provocação de Paulo também teve como resultado uma situação potencialmente problemática. È possível pensar que, em outras circunstâncias, a discussão tomasse uma outra direção, dada a tensão que se estabeleceu entre os alunos/irmãos. Estando os dois, contudo, em sala de aula e, além disso, com um gravador que registrava tudo, a 134 solução mais pacífica era, certamente a melhor para todos e, ao fim, foi a que se estabeleceu. Se a atribuição de característica a um aluno (seja pelo professor, seja por um colega) leva à possibilidade de conflitos, atribuir características a um professor certamente é ainda mais difícil para os alunos. Talvez essa situação seja a que contém o maior potencial de ofensa entre todas as atribuições aqui observadas. A figura do professor, por mais que seja relativizada na situação de conversação, será sempre objeto de atenção especial por parte dos alunos. Observamos que a atribuição de características, mesmo de um aluno para outro, tem potencial ofensivo e deve ser feita com atenção. Assim, não surpreende que não tenhamos encontrado no corpus analisado nenhuma ocorrência dessa situação. O mais próximo que os alunos chegaram disso foi a elaboração de perguntas pessoais, o que já provocou certo desconforto, como se viu. 6.4. Efeitos da negociação de identidades na conversação Nessa seção, pretende-se verificar como, na conversação, a negociação de identidades e de imagens exige trabalhos de face por parte tanto do professor quanto dos alunos. Serão observados no corpus, como essas negociações afetam a face positiva e negativa dos participantes e como as ameaças podem ser minimizadas. 6.4.1. Atos de ameaça da face Verificamos que a atividade de conversação implica às vezes em possibilidade de ameaças à face dos participantes. Quando um participante pede a outro que exponha, por exemplo, uma situação de sua vida cotidiana, por mais inofensiva que pareça, pode incorrer em ataque ao território do participante interpelado. Quando o convida a falar sobre um tema que de alguma maneira afeta sua imagem, corre o risco de a resposta se transformar em oportunidade de os demais participantes fazerem críticas e comentários desagradáveis. Enfim, a conversação é uma arena, em que todos têm exposta, em algum momento, aspectos tacos identitários nem sempre abonadores. 135 Nos dados encontramos situações de ameaças tanto à face positiva quanto à face negativa dos participantes. A seguir examinamos esses casos, atentando tanto para a situação em si, quanto para sua resolução. Trecho 55 118 Takeo depois que eu ganhar muito dinheiro, também quero me casar 119 Diane você quer se casar depois de ficar rico/ 120 Takeo hã/ 121 Diane depois de ficar rico. 122 Takeo ah não rico. mas ter dinheiro pra manter, pra manter a família. 123 John para manter a família/ 124 Takeo ( ) Aula 4, turnos 118 a 124 Nesse trecho, vemos uma seqüência em que o aluno expõe sua própria opinião – nesse caso, sobre um aspecto de sua vida futura. Takeo aparenta preocupação com sua auto-imagem: protegendo sua face, corrige, no turno 122, a informação dada no turno 118, depois de ser questionado pela professora (turno 119, com repetição no turno 121). Certamente a pergunta da professora soou como ameaça a ele ou evidenciou uma possível interpretação negativa do enunciado proferido anteriormente. O mesmo aluno tem reação semelhante no trecho abaixo: Trecho 56 923 Diane o homem de sessenta anos/924 Takeo ((levanta a mão)) 925 Diane é / por quê/ 926 Takeo calma aí no meu caso, eu gostaria que ele trabalhasse como pai, como pai= 927 Diane ahã. 929 Takeo =como pai= 930 Diane dos outros. 931 Takeo =do resto. 932 Diane ahã 933 Takeo porque ela já, ele vive sessenta anos. ter: 934 John sabedoria. 935 Takeo sabedoria, experiência mais do que outros. por isso eu escolho ele. 936 Diane muito bem. Aula 4, turnos 923 a 936 Nesse trecho, o aluno Takeo responde a uma intervenção da professora a respeito de sua escolha de um personagem que iria colonizar um planeta (tema de 136 um exercício). Ao levantar a mão, percebe ser o único a fazê-lo. Ao pensar ser o único a ter de defender aquela posição na sala, sente-se em posição de ameaça, aumentada pela pergunta direta (“por quê?”) e em uma atitude de proteção de face, pede tempo para se explicar (“calma aí”) e o faz em vários turnos, sempre apoiado pelos apartes da professora. No final, abaixa a voz ao completar sua “defesa” do personagem, como se estivesse preocupado com a reação de alguém – seja da professora, seja dos colegas. O momento mais marcante de ameaça à face nos dados analisados ocorreu na aula 5 e está transcrito e analisado a seguir: Trecho 57 88 Maria eles falam isso porque eles são aqui no Brasil 89 hhhhh 90 Maria primera coisa por que eles estão no Brasil 91 Rita Maria diz que eles falam isso porque eles estão aqui no Brasil. 92 Maria isso. 93 Rita vamos botar lenha na fogueira. Sabem o que é essa expressão/ ah/ vamos é::: é:: continuar com essa discussão bem quente. Diga. 94 Maria e porque quando é:: eles esta: °estavam° estavam no Senegal eles acham que a mulher me: mesmo se ela trabalhar ela deve fazer antes da sair da casa as (.) café da manhã almoço e: quando é é: a: a tarde, quando ela chegar na casa é preciso ahn lavar os pés do marido, depois hum/ lavar a roupas prepara o jantar depois hum anh se ocupar das crianças depois ahn como fala/ mass[a::gem= 95 Aluno =massagem= 96 Maria =é massagem porque o marido é muito cansado 97 Rita Ah fazer massagem no marido porque ele está muito cansado. Ahn 98 Maria [is- iss isso mesmo depois ele quer que as mulher falaram ah:: tio Aula 5, turnos 88 a 98 Nesse trecho, Maria faz um ataque direto à identidade de um aluno. Isso é feito desqualificando-se as afirmativas feitas por Paulo, ao determinar que o afastamento de aluno em relação à pátria e o fato de ele estar naquela situação específica de sala de aula lhe permite apresentar uma atitude que não corresponde àquela que teria quando imerso em sua sociedade de origem. Trecho 58 88 Maria eles falam isso porque eles são aqui no Brasil 89 hhhhh 137 90 Maria primera coisa por que eles estão no Brasil 91 Rita Maria diz que eles falam isso porque eles estão aqui no Brasil. 92 Maria isso. (...) 172 Maria [não. e:: porque quando minha mãe fala com nós meus irmã lá no Senegal ele me falo você me- me o o olha porque quando você: tem marido você deve fazer como eu faz agora. deixa tudo e só se ocupar do seu marido 173 Aluno ((incompreensível)) 174 Maria ((voz mais aguda)) É. Você sabe que é verdade Todo mundo aqui sabe que é verdade. Você fala isso porque você está no Brasil. 175 Aluno Não não 176 Maria Sim 177 Aluno Não 178 Maria sim sim. Porque você não 179 Aluno Não quero dizer (( )) 180 Maria Mas eles também quando nós somos aqui nós morar aqui junto você falou se tem aqui mulher porque os homens cozinha fala/ 181 Aluno . Não 182 Maria É verdade. Não. Porque 183 ((incompreensível)) 184 Rita Mas eles têm cozinhado 185 Paulo . Eu nunca cozinhei lá no Senegal. Eu nunca cozinhei tenho cinco irmãos cinco irmãs= 186 Rita Cinco irmãs 187 Paulo Eu nunca cozinhei 188 Rita Ta certo Mulheres 189 Paulo Mulheres. 190 Rita [Tá certo.] 191 Paulo [Agora eu chego- eu cheguei no Brasil ela quer que eu cozinhe 192 hhhhh 193 Alunos ((incompreensível)) 194 Rita E você tem que aprender a a a aproveitar a oportunidade. 195 Aluna ( ) hhhhh [para aprender 196 Rita Cê não cozinha nada/ 197 Paulo Nada. Nada Ovo frito, omelete 198 Rita [e se a sua irmã precisar olha e se sua irmã precisar estudar para a prova agora. mais muito 199 Paulo [eu vou cozinhar para ela 200 Rita [é uma boa oportunidade para você cozinhar um pouco, talvez ahn 201 Paulo mas talvez talvez mas sempre nos estamos cozinhando os homens. sempre 202 Rita é/ 203 ((corte)) 204 Rita e você tem que aprender a a a aproveitar a oportunidade. 205 Maria Não é verdade 138 206 Paulo tem que limpar a casa cada dia 207 Rita cada dia/ Vamos ouvir Sarah, fala Sarah Fita 4, turnos 172 a 207 Nesse trecho temos o registro de uma discussão que já se havia prenunciado alguns turnos antes (ver turnos 88 a 92). Maria e Paulo se revezam em uma troca de turnos nos quais há uma disputa pela veracidade das informações prestadas. Os traços identitários atribuídos a Paulo não coincidem com aqueles que ele pretendia que fossem reconhecidos. No turno 174, Maria procura apoio nos demais participantes como testemunhas de sua opinião sobre o irmão: “Você sabe que é verdade Todo mundo aqui sabe que é verdade. Você fala isso porque você está no Brasil.” Nos turnos seguintes (175 a 178) os dois se revezam em tentativas de impor seu ponto de vista. Paulo desiste daquela disputa no turno. Em 179, diz: “Não quero dizer”, o que entendemos como uma tentativa de se afastar da discussão. Mas a irmã continua a insistir. Em 185, Paulo demonstra perder a paciência e, com o tom de voz alterado (o da irmã já estava assim desde o turno 174) faz sua reclamação, mostrando que, no Senegal, sua vida era radicalmente diferente da que leva agora. A professora mantém-se na postura de ouvinte atenta, com turnos de apoio à fala de Paulo (turnos 188 e 190). Em 188, Paulo completa sua reclamação. No turno seguinte a professora procura minimizar o problema, propondo uma nova forma de encará-lo. A estratégia parece estar surtindo efeito, mas, no turno 201, depois de uma concordância parcial com a professora, Paulo volta a reclamar (“mas talvez talvez mas sempre nos estamos cozinhando os homens. Sempre”). O módulo se encerra com mais uma repetição do protesto (“cada dia”), que não tem resposta da professora. Nesse complicado movimento, percebe-se que o conflito de identificação tem, por trás, um conflito de interesses que foram trazidos da vida cotidiana dos alunos. Tendo como palco a sala de aula, esse conflito vai se desenrolar e chegar ao final sempre monitorado pela professora, a quem caberá administrá-lo de forma a limitar os estragos. Observa-se aqui que a discussão serena e até mesmo previsível encontrada em outros pontos dos dados dá lugar a um cenário mais dramático. Se para a professora aquela era apenas mais uma atividade didática, para os alunos a situação se afigurava de maneira bastante diferente. 139 Não se percebe, por parte de nenhum dos alunos envolvidos, intenção de mitigar as ameaças à face do outro. Essa atitude foi tomada apenas pela professora, mas de tal forma que não se percebesse uma tomada de partido por parte dela. Trecho 59 874 Diane a viciada em drogas, como é que fica/ 875 Gretel eu sim porque talvez:: não/ sim porque:: não sei como é lá, mas, se lá não tem drogas, não tem problema. 876 Takeo ( ) 877 John mas ela tem uma dependência química que seu corpo: 878 Gretel sim, mas= 879 Takeo mas:: também: 880 John =seu corpo precisa de drogas. 881 Gretel =mas se lá não tem: 882 Takeotambém tem coisa pra acabar com essa química. 883 John ela vai ter problemas mentais. 884 Takeo por isso ela vai, ela vai virar normal. não/ 885 Diane não sei 886 John eu acho que não. depende da droga, mas muitas pessoas não podem entrar no hospital e vão entrar, onde não tem nenhuma droga, e seu corpo não funciona muito bem, ( ). como cocaína:: depende da droga, é claro. por exemplo, a maconha não tem nenhum [programa], mas, pode ser, pode ser uma dependência grande que o corpo precisa da droga. 887 Hans eu não coloquei ela porque: 888 John entendeu/ 889 Hans =porque, eu acho ela deve ser uma das pessoas mais fracas, que ajudam menos. porque, já que ela é viciada de drogas ela é, fisicamente, ela tem um corpo bem fraco, ela não pode ajudar muito e:: o uso de drogas também podem causar um monte de problemas mentais. por isso eu preferia colocar uma mulher com problemas mentais porque, porque ela, pelo menos parece ter, parece ter um corpo são. a viciada em drogas, provavelmente, já não tem. 890 Diane hum, hum. 891 Hansd e a mulher viciada em drogas ter filhos acho bem problemático, porque elas também vão depender de drogas, aí não rola, não dá pra ter uma população crescente: 892 Diane hum, hum. 893 Gretel eu acho:: eu não sei:: eu não tenho muito experiência com pessoas vicia: .dos. 894 John viciados. 895 Diane viciadas. 896 John viciadas/ 897 Gretel viciadas/ sempre é feminino/ 898 Diane sempre:: pessoas, feminino. viciadas, feminino. 899 Gretel mas, às vezes, se você fala em geral: 900 Diane viciados. masculino. 901 Gretel viciados. eu não conheço muitas pessoas viciados, 140 mas:: eu tenho um amigo que foi viciado em, viciado em droga. e ele agora é normal é como:: não é como:: 902 Takeo fraco. 903 Gretel como falam aí/ 904 Diane fraco. 905 Gretel fraco. não é como fraco, tem força, faz todo. 906 John que droga/ 907 Gretel todo todo 908 Hans mas o problema= 909 Gretel sim. foi muito:: sim. mas, agora= 910 Hans é, mas. o problema pra mim é que a mulher ainda é viciada. eu não sei se ela vai conseguir acabar de depender de drogas. 911 Diane parar de depender de drogas. 912 Hans parar de depender. se ela não conseguir:: ela não pode ajudar. 913 Gretel mas, é verdade. mas você não está com a cabeça na: nesse planeto não tem drogas. 914 Takeo é:: talvez: 915 Hans mas se lá não tem:: ela precisa das drogas, quimicamente, ela não vai sobreviver. 916 Gretel sim, vai. 917 Hans vai/ 918 Gretel sim, vai. eu acho que sim. 919 Hans eu não sei não Aula 4, turnos 854 a 919 No trecho acima, observa-se manifestação de uma situação de possível tensão para a aluna Gretel. O que se discutia nesse ponto era a inclusão ou não de uma garota viciada em drogas no grupo que iria colonizar outro planeta. Gretel defendia a inclusão da moça no grupo e, como forma de argumentar, pretendia usar uma experiência própria a respeito do assunto. Entretanto, como esse é um tema que geralmente provoca reação negativa por parte das outras pessoas, prevendo, talvez essa reação, a aluna vai, inicialmente, se prevenir contra isso, eximindo-se da possibilidade de ter tido contato com drogas (turno 893) e até de ter convívio com muitas pessoas que são ou foram usuárias. Preparado o terreno, ela conta o que seria seu argumento: tem um amigo que já foi usuário e que hoje está normal (turno 901). Aqui o que se pode notar é uma preocupação da aluna com sua auto- imagem: ao se proteger previamente, ela evita a possibilidade de um ataque, no que é bem sucedida, já que ninguém o faz. Trecho 60 286 Takeo tem, mas está, está distante bastante, meio longe, está da minha cidade:: eu também não o encontro há oito, há 141 oito anos. 287 Diane oito anos sem ver seu avô/ 288 John sem ver/ 289 Takeo su, su, às vezes eu ligo. 290 Diane é bom 291 John mas fe, fe, fe:: como se chama o sete de setembro/ fe, ferau: 292 Diane feriado/ 293 John feriado. nos feriados você visita seus vôs/ 294 Takeo desde quando eu tinha :: eu não quero ir lá. por quê/ por causa de falta dinheiro e também tin, tinha que fazer vestibular pra passar primeiro colégio. 295 Diane hum,hum. 296 Takeo e depois que entrar no colégio, normalmente, os estudantes fazem campeonato regional no clube. qualquer clube. futebol, basquete, beisebol:: 297 Diane hum, hum. 298 Takeo normalmente nas férias:: quase todos os clubes entraram na competição. 299 Diane hum: 300 Takeo e lá não podia:= 301 Diane não podia sair/ 302 Takeo =não podia sair. e, depois do colégio, entrei na faculdade. e pra entrar na faculdade, também tinha que fazer vestibular, senão não entrava de jeito nenhum. 303 Diane de jeito nenhum 304 Takeo também não tinha dinheiro, porque eu não trabalhava. 305 Diane hum, hum. 306 Takeo agora. 307 Diane aí é mais complicado 308 Takeo quando for a época, agora, em fevereiro, aí eu vou encontrá-lo. 309 Diane ah 310 Takeo por que agora sim eu já posso. 311 Diane agora já pode 312 Takeo tomara 313 Diane tá melhorando 314 Takeo tá 315 Diane ah que bom e na Alemanha/ como é que é isso/ Fita 1, turnos 286 a 315 Mais uma situação de risco: o aluno Takeo faz uma longa explanação para justificar o fato de não encontrar seu avô há oito anos. Nesse caso, a professora atua com um ato de ameaça à face, ao inquirir diretamente o aluno (turno 287), no que é secundada por John (turno 288). A primeira tentativa de se justificar foi feita logo no turno a seguir, no qual o aluno informa que telefona. Mas isso não parece ser o suficiente. Após o comentário da professora (turno 291), John pergunta se nos feriados isso não seria possível. Takeo se vê então na posição de ter de expor sua vida pessoal, fazendo como que um resumo de suas atividades, no que vai sendo 142 apoiado pela professora. Ao final, a professora faz o fechamento desse módulo com um turno no qual apóia a atitude atual de Takeo (turnos 313 e 315) 6.4.2. Redução do potencial de dano à face Nem só de agressões vive a conversação, felizmente. Na maior parte do tempo, o que se percebe é um movimento contrário – atos de proteção da face do outro. Goffman nos fala da necessidade de os participantes de uma interação se manterem atentos a todos tipo de embaraço surgido de afirmações possivelmente desabonadoras por parte de um participantes. Tal cuidado é fundamental para que se mantenha uma interação em um nível a que poderíamos chamar “civilizado”, sem agressões mútuas. Achamos que são constantemente empregadas práticas preventivas para evitar esses embaraços e que práticas corretivas são constantemente empregadas para compensar as ocorrências desabonadoras que não tenham sido evitadas com sucesso. Quando o indivíduo emprega tais estratégias e táticas para proteger suas próprias projeções, podemos referir-nos a elas como “práticas defensivas”. Quando um participante as emprega para salvaguardar a definição da situação projetada por outro, falamos de “práticas protetoras” ou “diplomacia”. Em conjunto, as práticas defensivas e protetoras abrangem as técnicas empregadas para salvaguardar a impressão acalentada por um indivíduo durante o período em que está diante de outros. (GOFFMAN, 1992: 22) Silva (1999) explica, a respeito do processo de preservação das faces alheias, que esse é um processo típico da interação social. De modo geral, as pessoas cooperam (e pressupõem a cooperação mútua) na manutenção da face na interação, já que essa cooperação se baseia na vulnerabilidade mútua da face. Em outras palavras: em um dado encontro social, normalmente, a face de qualquer um depende da manutenção da facede todos os outros. Como a tendência de cada participante é defender sua face quando ela está ameaçada e como isso tem como conseqüência a ameaça à face de outro(s) participante(s), há geralmente interesse de cada participante em manter a face do outro. 143 Os trechos a seguir são situações em que a assunção ou atribuição de imagens como indivíduos geram a necessidade de negociações no sentido de se mitigarem ameaças à face (positiva ou negativa) de um participante. No trecho 61, o tema “infância” traz à tona uma lembrança do aluno que revela uma característica de sua vida familiar pregressa. Ao perguntar sobre essa característica, a professora realiza um ato de ameaça ao território do aluno. Segue-se uma negociação e a tensão é desfeita. Trecho 61 1 Diane quais as coisas que vocês se lembram (.) mais (.) que eram mais comuns (.) quando vocês eram crianças/ 2 (..) 3 Diane Ade, >você se lembra de alguma coisa</ 4 Ade [é::] 5 Ade é:: quando eu:: era criança eu (.) chupava me:u (.)dedo 6 Diane hum hum 7 Ade e chorava (..) chorava muito também, qualquer [coisa eu 8 Diane [qualquer coisa você chorava 9 Ade é. començava a chorar. 10 Diane e você costumava brincar de que/ 11 Ade bri::ncar/ de (..) olha eu não me lembra non, porque que essa coisa de: é: brinquedos non tinha, que eu morei com minha avó, hhhh porque meus pais ºnão moravam comigoº sabe como é morar com avós. 12 Diane hhhhh não, eu não morei com avó. 13 Ade é/ 14 Diane é mais difícil/ 15 Ade não, é: é ss(.) eles sempre quer você ao lado deles, né/ 16 Diane hum hum 17 Ade então chupando dedo, dormi:ndo, né/ Contar histórias. E eu ria muito, né/ 18 Diane hum hum 19 Diane eles contavam histórias/ 20 Ade é. contavam histórias né, bem tradicionais e eu ri ri 21 Diane ria 22 Ade ria 23 Diane muito 24 Ade muito 25 Diane >muito bom: 26 Diane bom, é um bom jeito de passar a infância. (.) E você, Donald/ Aula 2, turnos 1 a 26 No trecho acima, observamos uma interlocução em que os alunos são convidados a falar de si mesmos. A professora começa por fazer uma interpelação geral, bastante característica de introdução de tópico. Essa iniciação não tem 144 sucesso, já que ela esperava que um aluno se auto-selecionasse (assumindo assim um tipo de participação mais próximo daquele de uma conversa não-guiada). Na falta de resposta, passa a interpelar os alunos, começando por Ade. Em suas intervenções, o aluno procura ser preciso quanto ao que de fato aconteceu com ele na infância, inclusive revelando detalhes de sua vida pessoal (“brinquedos non tinha, que eu morei com minha avó, hhhh porque meus pais ºnão moravam comigoº”). No turno 11, Ade faz um comentário (“Sabe como é morar com avós.”) que é interpretado pela professora como se fosse uma pergunta a ser respondida. E nesse momento, a professora fala de sua própria experiência, também seguindo o padrão de fidelidade ao real. Ambos expõem suas faces de indivíduos nessa interação. A pergunta de Diane, no turno 14, parece ser algo embaraçosa para Ade, que titubeia na resposta. A professora parece ter tocado em um ponto delicado, colocando em questão a relação de Ade com seus familiares. Essa invasão é tratada com uma manobra de fuga ao tópico, que não é questionada pela professora. A negociação aqui fica por conta da hesitação de Ade, de uma risada (que contribui para o alívio da tensão) e pela atitude da professora de não insistir no tópico quando Ade volta ao que falava antes. 15 Ade não, é: é ss(.) eles sempre quer você ao lado deles, né/ 16 Diane hum hum 17 Ade então chupando dedo, dormi:ndo, né/ Contar histórias. E eu ria muito, né/ No turno 17, o uso do marcador “então” indica a volta ao tópico anterior – atitudes ou hábitos da infância. Trecho 62 435 Ade hhhh lá lá na Inglaterra na Europa tudo é mas na Inglaterra especificamente que agora era assim sabe que é tem um povo africano que sempre sai porque às vezes não precisa de visto pra ir mas porque agora eles têm negócio de: é: europeu union, né/ União de Europa. 436 Diane união européia 437 Ade isso. e tem outras países da Europeu (.) é (.) leste que também sei, são membros da comunidade. ce sabe que, em parentes, de outra forma países de leste europeus mais ou menos são países de terceiro mundo 438 Diane sim, claro. 439 Ade ah então eles sair pra trabalhar na Inglaterra, país desenvolvido 145 440 Diane hum hum 441 Ade aí deixa pessoas de terceiro mundo mesmo atra atrás, que eles não querem ser contratados porque pessoas da leste europeu são membros da comunidade. 442 Diane membros da comunidade 443 Ade assim mesmo o que está acontecendo. 444 Diane então os africanos por exemplo não conseguem entrar. 445 Ade eles conseguem entrar. 446 Diane mais difícil 447 Ade mais difícil pra caramba 448 Diane fica mais complicado 449 Ade é sim se não for se não fosse negócio de comunidade né aí:: ficaria melhor mais ou menos né, pra pessoas que sair da África pra Europa. 445 Diane pra trabalhar. exatamente. 451 Ade mas tem trabalho, é. tipo assim pessoas robam (.) pessoas pra trabalhar lá. 452 Diane até hoje/ 453 Ade até, ué. o que o que o que está acontecendo lá na Grécia/ sabe Olimpíadas vai chegar, né/ 454 Diane sei. 455 Ade aí falta quase (.) dois meses aí trabalho ainda não ta acabado e não sei como que fala isso é smuggling pessoas saem ilegalmente do país eles livam de avions ((faz gesto de avião levantando vôo, acompanhado de som)) pra lá trabalhar e ganham pouco também. 456 Diane mas não ganham bem, mas tem que ir lá. 457 Ade ué, se precisa dinheiro você tem que seguir sua caminho seu caminho. 458 459 Diane é verdade. 460 Ade é a vida, né/ ((gesto com o polegar para baixo)) 461 Diane é difícil, não ta/ 462 Ade é você lê essas coisas pela Internet e fica ( ) Nossa Senhora. ((recosta-se na cadeira e faz gesto de cobrir o rosto com as mãos)) 463 Diane é verdade. É verdade. A África continua sendo a fonte de trabalho do [mundo. 464 Ade [é, é qualquer coisa a pessoa leva pra lá se [for 465 Diane [O Brasil foi construíram o Brasil, os africanos. 466 Ade é, pois é, hehehe 467 Diane os braços fortes é que construíram o Brasil eram africanos né, a peso de sangue né, e agora estão construindo o resto do mundo, ué. Vocês são os construtores. 468 (.) 469 Diane complicado isso, realmente é complicado. ((virando-se para o lado da sala em que estão as duas alunas)) Muito bom, meninas você falou um não tão desanima:do Aula 2, turnos 435 a 469 146 Nesse longo trecho, Ade fala sobre a situação de trabalho da África. Diane e ele constroem colaborativamente o tópico. A seqüência começa com a descrição dos motivos pelos quais os trabalhadores africanos têm agora mais dificuldade em conseguir trabalho fora da África. Durante essa descrição, todas as intervenções da professora têm o objetivo de apoiar o que o aluno está falando. Ele descreve a África como pobre e sofrida. Sua descrição culmina com uma série de afirmações sobre o que seria um seqüestro de pessoas para trabalhos na Grécia, para a preparação dos jogos olímpicos. Todo esse quadro mostra o estado de miséria a que são submetidos os africanos. Ade é africano, e se mostra angustiado com a situação que está narrando (observe-se a comunicação não-verbal no turno 462); a professora reage com uma tentativa de apoiar o aluno. Cuidando para que suas palavras não soem ofensivas, já que não pode falar diretamente da pobreza do povo a que pertence o aluno, joga com informações históricas – menos ofensivas e consideradas válidasem termos de argumentação – e as apresenta de modo a destacar o papel positivo nos povos da África. Nos turnos 465 e 467, ela constrói uma argumentação que, por um lado, enaltece o esforço feito pelos povos, mostrando o que seria o lado positivo de seu esforço, e por outro evita o potencial ofensivo para ambos que teria a lembrança de que os africanos foram escravos no Brasil tanto para ela, cidadã do país escravagista quanto para ele, do povo escravizado. Encerra-se assim o tópico, com o silêncio de Ade. Percebe-se aqui mais uma situação em que a possibilidade de perda de face é cuidadosamente evitada, em um jogo delicado de palavras. Esse trabalho da professora constitui uma das tarefas interacionais mais importantes na atividade de conversação: equilibrar a fala espontânea dos alunos com um amortecimento dos possíveis resultados deletérios dessa mesma fala. É preciso estar atento, portanto, não apenas para a fala do aluno, mas também para o sentido que tem essa mesma fala. 6.4.3. Redução do potencial de dano pelo humor 147 O enquadre dito de brincadeira (ou lúdico) constitui um momento da interação em que se tenta eliminar o caráter de seriedade de uma afirmação. Esse efeito pode ser conseguido através de muitos meios. No caso das interações analisadas neste trabalho, destaca-se o efeito de humor provocado pelas risadas de outros participantes em resposta a determinadas afirmações de alguém. A respeito desse enquadre, Bateson afirma: Devemos encarar, então, duas peculiaridades próprias da brincadeira: (a) as mensagens ou sinais trocados durante a brincadeira são de algum modo não-verdadeiros, não- intencionados; (b) aquilo que é denotado por esses sinais é não-existente. (BATESON, 2002:93) Brincadeiras são, de acordo com o autor, situações em que a validade das afirmações parece ser invertida: o que era “positivo” passa a ser “negativo”. O contrário também acontece. Tal processo abre espaço para situações em que se quebram regras de polidez. É o que explica Kerbrat-Orecchioni: Há, evidentemente, muitas situações em que o exercício das regras de polidez se encontra suspenso (em caso de urgência, por exemplo, ou de interação intensamente agonística ou, ainda, de comunicações de caráter lúdico). (KERBRAT- ORECCHIONI, 2006:94) (grifo nosso) Nos dados analisados, aparecem várias situações em que o humor funciona como um sistema de alívio de tensão. Trecho 63 88 Maria eles falam isso porque eles são aqui no Brasil 89 hhhhh 90 Maria primera coisa por que eles estão no Brasil 91 Rita Maria diz que eles falam isso porque eles estão aqui no Brasil. 92 Maria isso. 93 Rita vamos botar lenha na fogueira. Sabem o que é essa expressão/ ah/ vamos é::: é:: continuar com essa discussão bem quente. Diga. 94 Maria e porque quando é:: eles esta: °estavam° estavam no Senegal eles acham que a mulher me: mesmo se ela trabalhar ela deve fazer antes da sair da casa as (.) café da manhã almoço e: quando é é: a: a tarde, quando ela chegar na casa é preciso ahn lavar os pés do marido, depois hum/ lavar a roupas prepara o jantar depois hum anh se ocupar das crianças depois ahn como fala/ mass[a::gem= 95 Aluno =massagem= 148 96 Maria =é massagem porque o marido é muito cansado 97 Rita Ah fazer massagem no marido porque ele está muito cansado. Ahn 98 Maria [is- iss isso mesmo depois ele quer que as mulher falaram ah:: tio Aula 5, turnos 88 a 98 Nesse trecho, Maria faz um ataque direto à identidade de um aluno. Isso é feito desqualificando-se as afirmativas feitas por Paulo, ao determinar que o afastamento de aluno em relação à pátria e o fato de ele estar naquela situação específica de sala de aula lhe permite apresentar uma face que não corresponde àquela que teria quando imerso em sua sociedade de origem. Esse trecho é também revelador de um possível efeito de suspensão que caracterizaria as relações na sala de aula de língua estrangeira. As risadas no turno 89 e a fala da professora no turno 93 podem ser reconhecidas como duas formas diferentes de diminuir o potencial ofensivo da afirmação de Maria. A risada contribui para instaurar um enquadre de brincadeira. O enquadre de brincadeira constitui um momento em que as afirmações feitas tendem a ser consideradas não-sérias – assim impedem-se as possíveis conseqüências negativas de uma fala potencialmente agressiva. Se o aluno a quem foi dirigida a frase reagisse de modo a não considerar aquele enquadre, a sua situação perante o grupo poderia não ser bem vista pelos demais (seria o aluno “que não sabe brincar”). Dessa maneira, o enquadre de brincadeira impede, ou ao menos atenua, as conseqüências potencialmente negativas de um ato de ameaça à face do outro. Já a fala da professora pode ser entendida como um reavivamento do caráter didático da interação. A frase “Vamos botar lenha na fogueira” funciona como uma autorização da professora para que a disputa continue – o que enfatiza o fato de a professora estar no comando da atividade. Ao deixar implícita essa hierarquia, Rita indica que, se ela tem o poder de autorizar a discussão, também tem a possibilidade de encerrá-la a qualquer momento. Esse poder pode funcionar para os demais participantes como uma forma de garantia: se alguém passar dos limites e a situação se tornar de alguma maneira perigosa, há uma mediadora pronta para agir. Nos trechos a seguir, verificamos situações em que o riso funcionou como sistema para redução da tensão provocada pelo comentário de um participante. Trecho 64 149 11 Diane bom. a primeira parte da aula, nós vamos ver esse textozinho aqui (.) depois nós vamos experimentar >recontar< essa história, certo/ é uma história sobre um ladrão (.) um casal e uma filha, certo/>primeira coisa que eu queria saber de vocês antes de começar a ler o texto ((a aula)) é<(0.5).no Brasil, vocês têm (.) preocupação (.) com assalto, com(.) violência/ 12 Kanji tenho. 13 Kaori ºtenhoº. 14 Diane ((olhando para Kanji)) fala. 15 Kanji eu (.) tenho. 16 Diane por quê/ (1.0) qual que é o maior medo que você tem/ 17 Kanji (0.5) medo de morrer. 18 ((risos na sala)) 19 Kanji é ( ) tenho. tenho medo de morrer. 20 Diane mas: por quê/ 21 Kanji ahn: 22 Diane que tipo de coisa você acha que preocupa/ Fita 1, turnos 11 a 22 Nesse trecho, a professora faz um pergunta aos alunos como a qual pretende provocar uma discussão: “no Brasil, vocês têm (.) preocupação (.) com assalto, com (.) violência?” O primeiro a responder é Kanji, que fala de seu principal medo: morrer. Essa afirmativa de Kanji (turno 17), provocou como reação risos dos demais alunos. A frase não continha qualquer traço de humor; pelo contrário, revelava uma preocupação que provavelmente era compartilhada pelas outros participantes. Assim, não faz sentido imaginar que os demais alunos a acharam engraçada. Esse riso pode ser explicado, porém, se entendemos a fala dos alunos como potencialmente agressiva: dizer que tem medo de morrer em outro país para um cidadão desse país, e mais, a um cidadão que tem uma função naquela interação que o coloca em situação de hierarquia pode ser bastante inadequado. É fato que a pergunta da professora levava a esse encaminhamento de resposta ou, ao menos a possibilitava. Entretanto, a força da frase gerou surpresa e impactos nos demais. Os risos podem, então, ser interpretados como uma maneira de não apenas revelar a surpresa pela frase, mas também de atenuar seu impacto. Trecho 65 268 Diane não gostou, não gostou. não combina com você. 269 Pepper não. dirigir aqui (.) 270 Diane oi/ 271 Pepper não quero (.) dirigir aqui.272 Diane dirigir. por quê/ 273 Pepper (..) 274 Diane ah, vai 150 275 Pepper Brasil (.) não tem regras. 276 hhhh ((risadas de todos os participantes)) 277 Pepper e eu não ss sei ahn ((faz gesto de passar marchas em um carro)) 278 Igor as marchas. 279 Pepper yeah. só as marchas. (só automático. no manual.) no tem ((frase com sotaque norte-americano)) 280 Diane não tem marcha. 281 Pepper yeah. 282 Diane hum hum. aí fica difícil. 283 Donald alguma coisa para aprender. 284 Diane oi/ 285 Donald alguma coisa para aprender. se quiser aprender. 286 Diane é. dirigir sem marchas. 287 Donald dirigir com marchas. 288 Diane com marchas. 289 Diane eu não sei dirigir nem com marchas nem sem marchas. muito bem bom. ahn. quem pode ler pra mim a próxima/ Fita 2, turnos 268 a 289 No trecho acima, mais uma vez aparece uma risada depois de uma afirmativa potencialmente ofensiva. Falando do Brasil e de sua impossibilidade de dirigir aqui, Pepper explica que não quer dirigir aqui por que no Brasil não tem regras (turno 276). Vale observar que depois da risada a aluna não insiste naquele ponto, preferindo passar à explicação sobre as diferenças entre os carros que ela está acostumada a dirigir e os daqui – os carros norte-americanos não têm marchas. A professora faz um comentário de apoio à aluna, mas Donald faz uma pequena provocação no turno 285 (“alguma coisa para aprender. se quiser aprender”.) O comentário não tem resposta por parte da aluna e, diante do silêncio, acaba por encerrar o tópico. Finalmente, retomamos um trecho já analisado anteriormente (ver trecho 63): 88 Maria eles falam isso porque eles são aqui no Brasil 89 hhhhh 90 Maria primera coisa por que eles estão no Brasil 91 Rita Maria diz que eles falam isso porque eles estão aqui no Brasil. Fita 5, turnos 88 a 92 No trecho acima, a afirmativa de Maria, no turno 88 tem como resposta a risada dos demais participantes. Nesse caso, eles certamente percebem o potencial de ofensa contido na afirmativa da aluna. 151 7. Relações entre as camadas didática e relacional Neste capítulo o objetivo é examinar o que acontece quando há algum tipo de interferência entre as duas camadas na conversação. Já verificamos, em capítulo anterior, que elas se alternam com grande rapidez nas trocas realizadas entre os participantes e que de modo geral o manejo dessas camadas é feito de modo satisfatório: alunos e professor conseguem transitar sem dificuldade entre elas, sabendo sempre onde estão e o que estão fazendo. Uma questão é: e quando essas camadas se colapsam? É disso que trataremos no primeiro ponto. Veremos que essa parece ser uma situação desejável na conversação. A segunda questão que se coloca é: e quando os participantes se desencontram? Trataremos disso no segundo ponto, e verificaremos quais as conseqüências desse movimento. 7.1. Colapso entre as camadas Tratando das três funções da linguagem solicitadas na sala de aula, Cicurel (1998:8) explica que “numa interação de aprendizagem da língua, os atos do fazer linguagístico e do dizer sobre o que fazer (a ajuda verbal) são em parte confundidos.” Já se observou, em seções anteriores, que as camadas se alternam com grande rapidez na construção dos tópicos na conversação. Mas pode-se observar uma situação em que as camadas didática e relacional realmente se colapsam. Trata-se da técnica empregada pela professora Rita, chamada revozeamento. 152 Consideramos que as camadas didática e relacional estão colapsadas quando um mesmo procedimento adotado pelo participante contempla as duas camadas, sem que se possa distinguir uma da outra. A técnica empregada por Rita, o revozeamento , consiste no redizer do turno anterior para reexame pelo seu produtor, que recebe crédito pela autoria da articulação que produziu da questão cognitiva sob exame do grupo. (Garcez, 2006: 72). Segundo Góes, O revozeamento é uma forma de reformulação que o professor faz de enunciados dos alunos, principalmente durante debates em grande grupo, mudando a linguagem, encaminhando a conversa para uma outra direção, enfatizando as posições assumidas por eles, resumindo seus enunciados, completando-os, dizendo-os em voz mais alta. A relevância do revozeamento é que, ao reformular seus enunciados, o professor valoriza a contribuição feita pelas crianças diante de toda a turma, enriquece o trabalho coletivo, mantém a organização social da classe e desenvolve o conteúdo acadêmico. Movimentos desse tipo criam condições para que os alunos tenham a oportunidade de exteriorizar seu raciocínio, posicionar-se em relação aos colegas, comparar visões sobre o mesmo tópico e, ao mesmo tempo, socializar-se em determinadas formas de linguagem e raciocínio. (GÓES, 2003: 35) O uso do revozeamento como técnica de condução da atividade de conversação garante à professora uma posição estável, que lhe permite manter uma aparente neutralidade diante do que é dito – ainda que esse efeito seja quebrado em alguns momentos, nos quais ela deixa esse formato de participação e se insere de modo mais efetivo na conversação. Por outro lado, o revozeamento escamoteia esse formato institucional, mantendo a discussão em um formato mais semelhante do da conversa informal. Assim, analisando toda a aula de Rita sob o ponto de vista das camadas de interação, podemos dizer que o formato de participação da professora colapsa as duas camadas. São características dessa forma de participação: o conter basicamente uma repetição da informação já fornecida pelo interlocutor, que agrega à frase, muitas vezes, palavras ou expressões 153 que o aluno demonstrou desconhecer, ou ainda termos considerados mais adequados à situação, que não foram empregados pelo aluno. o ser um direito privativo da posição institucional da professora. Não foi localizada nenhuma instância em que esse comportamento tenha partido de um aluno. o ser característico da atuação da professora nessa prática comunicativa. Os alunos trataram a participação sem qualquer demonstração de estranhamento, o que indica familiaridade com o formato. Ao adotar essa prática, a professora embute em um formato característico da conversa – o comentário sobre o que o outro diz – heterocorreções, indicativas de intervenções do plano didático. Assim, ser quebrar a seqüência enquadrada no plano relacional, ela mantém-se operando como instrutora, exercendo o papel de corretora das estruturas lingüísticas empregadas pelos alunos. Vejamos como se dá essa prática: Trecho 67 1 Rita é assim que você vê (.) as famílias saírem [à rua hoje/= 2 Maria =hoje não= 3 Rita =o chefe na fre::ente. Como é que é isso hoje/ 4 Maria hoje/ 5 Rita no Brasil. 6 Maria hoje não. porque (.) hoje a chef- não tem chefe. eu acho que não tem chefe. 7 Rita ahah porque/ 8 Maria porque a:: (.) a escravi escravi escravas escravas 9 Aluno a escravidão 10 Maria a escravidão (0.5) a escravidão (.)hu::m (0.3) a escravidão acabou hoje 11 Rita acabou hoje. então não tem senhor e não tem escravos. mas a família tem chefe ainda/ 12 Maria sim, a família tem chefe. chefe é o é a dona de casa 13 Rita ahn/ o chefe 14 Maria tem o chefe, o senhor de casa ou a dona de casa 15 Rita a:h, sim. tem o chefe que pode ser o homem ou a mulher. 16 Maria ou a mulher 17 Rita você tem visto famílias em que o chefe é homem e em que o chefe é mulher 18 Maria não, só só homem 19 Rita só homem/ e no seu país quem é o chefe da família/ 20 Maria lá também o: chefe é é é homem 21 Rita sempre/ 22 Maria sempre. 23 Rita (.)sempre. 154 24 Maria semprehhhh 25 Rita e no seu país, Wilson, como é essa questão da: família/ Aula 5, turnos 1 a 25 No trecho acima, Rita faz diversas retomadas do que foi dito por Maria. No turno 11, a professora propõe não exatamente correções, mas alternativas ao que a aluna tinha dito, e fornece mais informações (“Então não tem senhor e não tem escravos”). Faz o mesmo no turno 14, retomando o turno 13. Observe-se que Rita mantém o “tom” de conversa, sem fazer nenhuma intervenção de caráter explicitamente metalingüístico e sem fazer correções explícitas à fala da aluna, o que garante o fluxo da conversação, mas se mantém na posição de controladora dos turnos, orientando o fluxo do tópico. O mesmo acontece no trecho a seguir: Trecho 68 32 Maria antes eu quero falar sobre uma coisa. eu acho aqui que: não é: eles não vão numa festa mas na igreja. 33 Rita ah você acha que eles estão indo à igreja, e não à festa. tá. por quê/ 34 Maria porque os negros colocaram os roupas de domingo porque se ahn seria uma festa ahn os: filhos dos negros não (.) se- não (.) 35 Rita não poderiam ir/ é isso/ 36 Maria é Fita 5, turnos 32 a 36 Nesse trecho, mais uma vez Rita e Maria se alternam. No turno 33, Rita repete quase literalmente o que foi dito por Maria, mudando a forma do verbo empregada. Já no turno 35, Rita completa o que Maria parece ter dificuldade de dizer. Trecho 69 234 Rita e no seu país, Gilda 235 hhhhh 236 Gilda isso não é a situação 237 Rita não não é essa a situação 238 Gilda não Fita 5, turnos 234 a 237 Ainda uma vez Rita mantém o revozeamento, repetindo, reformulando o que a aluna (dessa vez Gilda) diz. Chama a atenção, nesse caso, a entonação de voz de Rita, que fala compassadamente, como se tentasse confirmar o entendimento da 155 frase pronunciada pela aluna. Ao mesmo tempo que reforça o caráter didático da intervenção, esse modo de se expressar denota uma atenção concentrada nas palavras da aluna. A professora tende a manter esse formato durante toda a seqüência gravada. 7.2. Conflitos entre as camadas Segundo Kerbrat Orecchioni, para que os participantes possam construir um texto coletivo, como o é uma conversação, é necessário que se estabeleça entre eles um certo número de acordos relativos às regras do jogo conversacional. Esses acordos geralmente se estabelecem espontaneamente entre os interlocutores, graças ao conhecimento compartilhado do “script” que dá sustentação ao tipo de troca em que se encontram engajados – geralmente, mas nem sempre, pois boa parte das regras conversacionais são relativamente imprecisas e pouco coercitivas. Assim, os diferentes participantes podem inclusive ter objetivos e interesses divergentes, o que vai provocar entre eles certas discordâncias quanto ao desenrolar da troca. Nesse caso, se desejarem que a relação ocorra de maneira relativamente harmoniosa, deverão ajustar suas concepções e comportamentos mútuos, isto é, negociar o desacordo a fim de neutralizá-lo. (KERBRAT-ORECCHIONI, 2001:158) Nem sempre a passagem de uma camada a outra por um participante é fácil ou prontamente percebida pelo seu interlocutor. Há situações em que esse movimento gera uma indecisão e até alguma dificuldade na interação, sanada mediante alguma manobra de adequação. Trecho 70 111 Aiko já percebi que eles a polícia militar usa aquele ne negócio que pára uma uma bala (.) eu não sei como é que fala 112 Diane <colete à prova de balas> 113 Aiko É isso. eu reparei. aqui [usa. 114 Diane [aqui usa. 115 Aiko ºlá nãoº 116 Diane no Rio usa sempre 117 Aiko ah, lá/ 118 Kanji quê/ 119 Aiko no Rio 120 Kaori colete/ colete/ 156 121 Diane no Rio de Janeiro 122 Diane colete (.) a prova de bala ((fazendo gesto explicativo)) 123 Kanji [ah, sim 124 Kaori ((faz gesto de bala furando a barriga)) 125 Diane ( ) 126 Kanji ( ) 127 Diane vam lá 128 Kanji eu vi 129 Kaori ahn/ 130 Kanji eu vi isso Aula 1, turnos 107 a 126 Nessa seqüência uma aluna, Aiko, abre o tópico de discussão – o uso de coletes à prova de bala (turno 111). Sua fala tem duas etapas. Na primeira, ela faz a abertura do tópico; na segunda, depois de empregar uma perífrase para se referir a uma expressão que lhe falta, faz uma pergunta indireta, (“eu não sei como é que se fala”), que será respondida no próximo turno pela professora. Nessa resposta, a professora adota um procedimento característico da atividade didática – a pronúncia cuidada, pausada, de cada sílaba. Aiko apenas confirma a expressão empregada pela professora, mas, diferentemente do que a sua interlocutora esperava naquela situação, não a reutiliza em sua frase, fazendo apenas uma recuperação de parte da frase já dita. A aluna nesse momento privilegia a camada relacional, enquanto a professora continua na didática. No turno 114, a professora ainda tenta fazer a aluna reutilizar a palavra com a repetição da frase de Aiko, que ela considerou incompleta, mas Aiko compreende isso como uma possibilidade de comparação entre o hábito no Brasil e no Japão. Oferece então a contribuição: “lá não”. Nos turnos a seguir, esse descompasso gera alguma confusão. A questão de Aiko já estava resolvida e professora e aluna continuaram a desenvolver o tópico passando, portanto, ambas à camada relacional. Para Kaori, porém, a incompreensão da expressão persistia. No turno 120, pergunta: “colete? colete?”. A professora fica, nesse ponto, dividida entre as duas camadas. Opta por esclarecer a dúvida de Kaori, recorrendo a mímica, já que o problema dessa vez era de compreensão do significado da expressão, e não de disponibilidade do termo. (turno 120). Depois de verificar que o problema estava resolvido, a professora dá sinal de querer voltar à camada relacional (vam lá) e Kaori a segue no turno 128. “Eu vi isso”. Trecho 71 157 260 John a minha mãe, minha mãe ajuda um dia da semana, é ela quem fica com su, su nieto, su nieto= 261 Diane neto. 262 John =seu nieto= 263 Diane seu neto 264 John =seu nieto, e depois meu irmão fica com ele dois dias da semana. 265 Diane hum, hum. Aula 4, turnos 260 a 262 No turno 260, o aluno pronuncia inadequadamente a palavra “neto”, inserindo um [y], o que se aproxima de uma pronúncia em espanhol, (característica da fala desse aluno). A professora realiza uma operação de heterocorreção, pronunciando apenas a palavra. O aluno responde com a mesma pronúncia de antes. A situação se repete nos turnos seguintes. No turno 264, o aluno retoma sua fala do ponto em que parara, encerrando a seqüência de correção, que não obteve sucesso. Esse tipo de situação não é incomum e merece maior profundidade de análise. O que se pode observar nos dados é que os alunos parecem estar mais atentos à continuação da conversação, portanto mais presos à camada relacional. Por isso, quando corrigidos em aspectos de sua fala que não interferem na intercompreensão dos sentidos, tendem a não se preocupar em incorporar a correção. O mesmo não ocorre quando a correção se dá em termos das informações prestadas. Pode-se observar, nesse trecho, uma situação em que professor e aluno ficam entre a camada didática e a relacional. A professora não insistiu na correção, nem ofereceu outras alternativas de treino ao aluno quando percebeu que isso romperia definitivamente o fio da discussão. Trata-se, nesse caso de uma decisão que demonstra a prioridade naquele momento – a conversação. A intervenção de cunho corretivo apresenta-se, aqui, como um procedimento até certo ponto marginal. O movimento entre as camadas didática e relacional pressupõe, comovimos, uma constante monitoração do professor durante a atividade. Para tanto, exige dele uma “escuta ativa”: o que o aluno fala não faz parte de um conjunto de frase ritualizadas que se repetem à exaustão, como acontece em outras situações e atividades na sala de aula. Pelo contrário, a conversação é uma atividade que pressupõe uma recriação constante de sentidos por parte tanto do professor quanto de alunos. Ouvir ativamente indica um engajamento do todos na tarefa de construção do tópico. Trata-se, portanto de um momento privilegiado no âmbito das relações 158 professor-aluno. Por um lado, esse é o objetivo de toda interação na sala de aula que vise o ensino /aprendizagem de uma língua estrangeira. Por outro, exige um preparo do profissional para lidar com situações inusitadas – com o imprevisível – e dar-lhe uma feição que se adeque aos objetivos da conversação: a participação de todos. Exige, além disso, que ele esteja constantemente atento à possibilidades de conflito inerentes ao “estado de conversa” que se instaura na sua sala. É preciso sempre lembrar-se de que o aluno é bem mais que um repetidor – é um criador de seus próprios sentidos. 159 Considerações finais A conversação é uma atividade da sala de aula de língua estrangeira cujo estatuto dentro daquele contexto institucional às vezes é pouco compreendido. Confundida com uma conversa informal, encarada por alguns alunos como mera perda de tempo ou como momento de descontração na aula, a função dessa atividade como recurso didático às vezes passa despercebida. Neste trabalho, nosso objetivo foi desvelar a estrutura que subjaz à conversação, enfocando dois aspectos: o reconhecimento das características que permitem sua identificação como atividade diferenciada tanto da conversa quanto das demais atividades da sala de aula; a identificação das funções exercidas pelos diferentes participantes nessa atividade e dos traços identitários que eles mobilizam durante a interação. Finalmente, observamos as conseqüências da mobilização desses traços para a organização da própria conversação. Para tanto, foram analisadas seqüências de conversação ocorridas em quatro aulas de português para estrangeiros ministradas em turmas de alunos provenientes de diferentes nacionalidades. Procedeu-se inicialmente a uma transcrição da fitas gravadas (três fitas de vídeo e uma de áudio). A seguir, foram recortados os trechos da aula em que ocorria a atividade de conversação. Tais trechos passaram então por um processo de refinamento da transcrição, de modo a se poder observar com maior riqueza de detalhe a interação em curso. Observou-se que a conversação é um procedimento bastante estruturado, com um ordenamento bastante específico das ações dos participantes. Não 160 obstante o fato de a conversação ser um momento da aula em que os participantes têm como objetivo a discussão de um tópico externo à língua-alvo, existe nesse módulo da aula de língua estrangeira uma oscilação do foco das atenções, entre forma e conteúdo. Observou-se que essa atividade permite tanto momentos em que a interação apresenta características próximas às de uma conversa, quanto momentos nos quais se reconhece nitidamente sua semelhança com momentos da aula mais voltados ao estudo da língua em si. A essa mescla propomos o estatuto de camadas. Na camada relacional estão os momentos da conversação em que o foco da atenção dos participantes está no conteúdo do que se está dizendo. Nesses momentos, cada participante deixa transparecer, em suas afirmativas e nos modos de receber as afirmações dos demais, determinados traços identitários. Entre esses traços destaca-se, no caso específico das aulas de português para estrangeiros aqui analisadas, as posições relativas à nacionalidade dos participantes e às imagens de si que pretendem apresentar naquela situação social. Na camada didática estão os momentos em que as posições de professor e aluno ficam evidenciadas, o que revela a assimetria de posições entre esses dois atores da cena. Chamou-nos a atenção, quando da análise dos dados, o fato de que a aparente quebra na hierarquia entre professor e alunos durante a conversação não ocorre de modo completo. O professor mantém durante todo o tempo determinados direitos conversacionais decorrentes de sua posição institucional. Entre eles, destaca-se o de atribuir os turnos a outros participantes e, mesmo, exigir-lhes a participação na atividade. Nossa expectativa de que nessa atividade haveria uma modificação radical da “estrutura em leque” (em que todas as interações entre os participantes consideradas relevantes para o andamento da atividade convergem para o professor) para a “estrutura em rede” (formato característico da conversação em pequenos grupos, na qual todos os participantes têm direitos iguais de fala e em que, portanto, não há convergência em torno de um participante) não se confirmou. O que observou foi que, mesmo nos momentos da interação em que os alunos conversam entre si, existe sempre a perspectiva de que o professor interferirá a qualquer momento, o que o mantém como controlador do tópico. Outro ponto de interesse nesta tese foi o movimento de assunção e de atribuição de traços identitários entre os participantes. Os dados mostraram que, durante a conversação, ocorrem negociações que envolvem assunção e/ou 161 atribuição de traços identitários, que ocorrem conforme os interesses dos participantes em cada momento da interação. Nessas negociações, os participantes levam em conta a necessidade de preservação tanto da própria face quanto da preservação da face do outro. Entretanto, foram registradas também situações de ameaça à face de um participante. Nesses casos observamos que um recurso empregado recorrentemente foi o humor, que proporcionou um alívio da tensão gerada pelo incidente. Este trabalho foi concebido a partir da leitura dos dados. Nosso objetivo ao mapear as características da conversação foi ter uma visão de conjunto dessa atividade. Assim, um dos desafios com o qual nos deparamos foi determinar o foco da pesquisa. Ao fazê-lo, inevitavelmente ficaram de lado na nossa análise vários outros caminhos possíveis (e igualmente interessantes). Entre eles, destacamos alguns que podem ser de interesse de outros pesquisadores que pretendam se aprofundar no estudo da conversação. 1. comparar a evolução dos procedimentos de um grupo de alunos ao longo de um certo período de tempo. No presente trabalho, observamos aulas de diferentes grupos de alunos com tempo de estudo aproximadamente igual (uma média de quatro meses de aulas de português como língua estrangeira, à exceção de uma aluna – Gretel). Sugerimos que se faça um processo de gravação de aulas em seqüência, de um mesmo grupo, a fim de se observar se o progresso na aprendizagem da língua estrangeira tem influência no modo como ocorrem as interações durante a conversação. 2. fazer um estudo mais aprofundado sobre o emprego da técnica de revozeamento e suas repercussões na estrutura da conversação. Consideramos que os principais “achados” deste trabalho são: · a análise da conversação como um complexo de camadas; · a observação de que alunos e professores podem ter focos diferentes, mesmo participando da mesma interação: os alunos tendem a ter o interesse voltado para o fluxo da informação. Suas intervenções na fala dos colegas de modo geral visam a tornar a fala mais adequada às “condições de verdade” ou mais compreensíveis para os demais. Os professores, por sua vez, tendem a oscilar mais o foco das atenções – ora na forma empregadapelos alunos, ora no conteúdo do que dizem; 162 · a constatação de que a mobilização de traços identitários tem efeitos importantes durante a atividade de conversação em sala de aula de língua estrangeira em contextos homoglotas. Conforme essa mobilização ocorre, há a configuração de diferentes grupos, que se reorganizam conforme o feixe de traços identitários que apresentam ou que lhes é atribuído. O propósito de se utilizar a conversação na sala de aula de língua estrangeira é o de possibilitar ao aluno uma oportunidade de encenar a língua que estuda. Nessa encenação, o professor propõe um tema externo à própria língua (não-meta- linguístico) que presume ser de interesse dos alunos. O que se segue daí depende, em parte, da capacidade desse professor de conduzir a atividade, agindo ora como animador, ora como corretor, ora como informador. Mas fica a cargo dos alunos a função de realizar a tarefa que lhes é proposta. E a sala de aula se torna, então um microcosmo, no qual, em condições controladas, se desenrolarão dramas, disputas, mas, principalmente trocas de informação e partilha de conhecimento de mundo. A eficiência da conversação como processo didático se apóia na capacidade e na disposição dos alunos a se abrirem e falarem. Por mais que seja uma encenação, o que é dito nesses momentos tem repercussão na convivência desses alunos dentro e fora de sala de aula. Assim, essa é uma atividade didática, não apenas por expor os alunos a amostras de língua estrangeira, mas por representar oportunidades de crescimento para todos os envolvidos, incluindo-se aí o próprio professor. O processo de ensino/aprendizagem, que se inicia por uma exposição dirigida na qual a LE é examinada, estudada, manipulada, regurgitada, deve conduzir à competência comunicativa do aluno. O objetivo é que ele se torne capaz de se comunicar na LE. Assim, a conversação é um módulo, talvez situado num nível avançado do processo de ensino/aprendizagem, que serve de fronteira entre a interlocução pedagógica e a não-pedagógica; um passo na direção das interações que o aluno deve ser capaz de estabelecer fora de sala de aula. Acreditamos que este trabalho pode contribuir para a formação de professores de português para estrangeiros que atuam em instituições nas quais precisam lidar com alunos de diferentes nacionalidades. Ele interessa especialmente àqueles que querem compreender os processos que subjazem às suas próprias aulas, notadamente processos de que participam de maneira quase automática, sem se dar conta sequer da sua existência, que os fazem agir e reagir 163 diante dos alunos como se estivesse conversando com eles, mas que, observados de perto, revelam uma preocupação constante com os diversos aspectos que irão, de fato, tornar a conversação uma atividade didática. 164 Bibliografia empregada AGUIAR Jr., Orlando G. e MORTIMER, Eduardo F. Tomada de consciência de conflitos: análise da atividade discursiva em uma aula de ciências. Investigações em ensino de ciências. Porto Alegre: UFRGS, 2005. Internet. http://www.if.ufrgs.br/public/ensino/vol10/n2/v10_n2_a3.htm. Consultado em 26 de maio de 2007. ALMEIDA FILHO, J. C. P. de & LOMBELLO, L. C. (Orgs.) O ensino de português para Estrangeiros. Pressupostos para o planejamento de cursos e elaboração de materiais. Campinas: Pontes, 1989. 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(.) tranqüila= 33 Diane =vocês se sentem com isso/ 34 Aiko ºde vez dinquandoº 35 Diane oi/ 36 Aiko de vez em quando. 37 Diane por quê/ 38 Aiko ce lembra que no Carrefour houve tentativa de assalto então eles pegaram reféns, ºné/ 39 Diane ahn ahn 40 Aiko ouvi essa notícia aquele dia eu <iria> <exatamente> [no Carrefour. 41 Diane [no Carrefour. 42 Aiko eu iria mas eu desisti. 43 Diane ainda bem.= 44 Aiko =ainda bem. eu ouvi essa notícia e achei horrível. 169 45 Diane com certeza. 46 Aiko mas mesmo assim: eu acho que aqui é muito tranqüilo. 47 Diane hum hum 48 Yuko também acho que Juiz de Fora é é ahn mais perigos anh menos perigoso do que o Rio. mas ainda tenho: tenho medo. 49 Aiko também 50 Yuko mas acho (.) é muito tranqüilo do que outras. 51 Diane muito mais tranqüilo. 52 Yuko é, com certeza. 53 Kanji mas:: na verdade eu não conheço muito bem o sobre o Rio de Janeiro, São Paulo porque(.)) nunca n:: n: 54 Diane fui 55 Kanji nunca fui. 56 Aiko em São Paulo ((inaudível)) ((aparentemente Aiko lembra Kanji de que ele já tinha ido a São Paulo)) 57 Kanji ahn, não em São Paulo eu fui, eu fui (.) mas (.) eu (..) nunca tinha passado. 58 Diane nunca teve assalto. 59 Kanji hum hum 60 Diane nunca teve 61 Kanji nunca tive, nunca tive. 62 Diane hum hum nunca sofri assalto. então melhor, né/ 63 (1.0) 64 Aiko eu morava em São Paulo um ano. 65 Aiko durante minha estada nunca encontrei com assalto lá em São Paulo, no capital. 66 Diane nada 67 Aiko nada. mas depois cheg- eu fui embora para o Japão, eu liguei para (.) pra senhora que hospedou ela falou que logo depois que foi embora houve um assalto (.) na casa dela. ladrão entrou e quebrou o vidro da janela a janela não, o vidro da carro (.) levaram aparelho de som duas vezes. 68 Diane hum hum 69 Aiko ninguém escutou nada. 70 Diane nada nada 71 Aiko nada. 72 Diane as pessoas estavam dormindo em casa/ 73 Aiko [dormindo. dormindo em casa. dia seguinte eles perceberam: perceberam. 74 Diane gente 75 Aiko ela contou isso. 76 Diane terrível, terrível realmenteº 77 Diane >o que você acha, Roy/< 78 Roy acho que bom. eu não tenho medo. 79 Diane nenhum problema 80 Roy eu não tenho nada de mais pior que nov zeland. 81 Diane nada de especial. 82 Roy ((nega com a cabeça)) 83 Diane ((virando-se e olhando para Donald.)) >o que que ce achou/< 84 Donald estava roubado, não sei. 85 Diane oi/ 86 Donald nõ, não não tem medo do assalto, não. vi vi violência física, non 170 87 Diane nenhum 88 Donald nenhum não. >ºacho que não<º 89 Diane e vocês comparando Juiz de Fora, Juiz de Fora especificamente, co:m as cidades de vocês (.) o que que vocês acham (.) o que que é mais (.) perigoso (..) onde é mais perigoso/ 90 ((alunos fazem gesto indicando o chão.)) 91 Kaori aqui. 92 Kanji aqui em Ju Juiz de fora. 93 Diane aqui é mais perigoso/ aqui é mais pe 94 Kaori [qual é a pergunta, mesmo/ 95 Diane o que é mais perigoso/ 96 Diane no caso, você morava em Tóquio, né/= 97 Kaori =ahn não, em Tóquio não. 98 Kanji =[no caso casa 99 Kaori [hum hum. ah 100 Diane onde você acha mais perigoso/ lá ou aqui/ 101 Kanji aqui. 102 Diane aqui, com certeza. 103 Yuko mas porque eu tenho medo é (..) porque o tipo de medo é diferente (.) o (.) vai acontecer o que eu não posso imaginar no Japão 104 Diane claro 105 Yuko então (: ) por isso que eu tenho medo 106 Kanji [e:(.) polícia sempre tem arma polícia armado por exemplo 107 Diane aqui 108 Kanji aqui 109 Diane lá não né/ 110 Kanji lá não. 111 Aiko já percebi que eles a polícia militar usa aquele ne negócio que pára uma uma bala (.) eu não sei como é que fala 112 Diane <colete à prova de balas> 113 Aiko É isso. eu reparei. aqui [usa. 114 Diane [aqui usa. 115 Aiko ºlá nãoº 116 Diane no Rio usa sempre 117 Aiko ah, lá/ 118 Kanji quê/ 119 Aiko no Rio 120 Kaori colete/ colete/ 121 Diane no Rio de Janeiro 122 Diane colete (.) a prova de bala ((fazendo gesto explicativo)) 123 Kanji [ah, sim 124 Kaori ((faz gesto de bala furando a barriga)) 125 Diane ( ) 126 Kanji ( ) 127 Diane vam lá 128 Kanji eu vi 129 Kaori ahn/ 130 Kanji eu vi isso 131 Yuko o tipo de arma é diferente. polícia policiais japoneses também têm, mas ah não pode shootar ah (: ) eu tenho problema com este nome 171 132 Kaori shootar 133 Kanji sem tiro= 134 Diane =atirar= 135 Yuko =atirar 136 Kanji sem tiro. sem tiro. = 137 Aiko ahn/ = 138 Kanji não= 139 140 Kanji em geral eles ahn eles fingem né, arma (.) mas (.) sem tiro 141 Diane sem bala/= 142 Kanji bala, sem bala 143 Kaori hum/= 144 Ade hhhhh 145 Kaori não. tem sim, tem= 146 Donald =no Japão/= 147 Kaori =tem sim, tem.= 148 Donald =sem bala/= 149 Naomi =ahn/= 150 Kaori =não sei mas (.) sem bala pra que/ 151 Kanji =sim 152 Naomi ahn tem. mas 153 Ade é 154 Naomi ah, nom, nom, nom, não coloca ((fazendo gesto de encaixar algo na cintura)).só:: caso de emergência. 155 Aiko eles têm balas mas só caso de emergência dá susto no criminoso. eles atiram, ah/ 156 Diane mas deve ser muito complicado, né/ em caso de emergência ((mudando a voz para parecer impostada)) pára criminoso, vou colocar as minhas balas 157 hhhhh 158 Diane coloca todas as balas, agora estou com balas, aí, tum tum. (..) acho meio complicado. 159 Naomi mas só no caso de emergência [aí 160 Diane [aí chega 161 Naomi Chefe= 162 Diane =permite= 163 Naomi =para= 164 Diane =atirar= 165 Naomi =levar (.) a arma (..) 166 Diane [hum hum 167 Naomi e (.) pra sair (.) na (.) a:qui (.) ladrão (.) alguma crime acontece (..) se não = 168 Diane =ºisso, no lugarº= 169 Naomi =se não acontece como aqui (.) chefe não acha que perigoso (.) não pode. 170 Diane entendi. (.) tá certo (..) mas de qualquer maneira o tipo de (.) acidente lá (.) o tipo de crime é muito mais leve do que no Brasil (..) muito mais raro. 171 Roy mas acho que na Nov Zeland tem mais é:: (.) melhor crime ((sinal com o polegar para cima)) ((rindo)) 172 Diane melhor crime/ 173 Roy é. mais [mais leve. 174 Diane [que tipo de crime ocorre mais lá/ 175 Roy mais (.) os: bandidos não têm grande armas ((faz gesto indicando uma grande arma)) 172 176 Diane oh, isso é verdade. aqui os bandidos são muito mais chiques. nós temos vocês têm a melhor polícia. nós temos os melhores bandidos. nosso bandido é muito mais chique do que o resto do mundo. 177 Ade isso é:: tem muitos meios. 178 Diane é:, os bandidos daqui parecem muito mais os bandidos de filme ((risos do Júnior.)), que têm aquelas armas enormes, né/ nos filmes não têm, aquelas coisas imensas, aqueles arsenais enormes/ aqui eles têm mesmo isso. 179 Donald bandidos/ 180 Diane bandidos. criminosos 181 Donald ah, criminosos é 182 Diane a gente vai chamar de bandido de modo geral, né/ 183 Diane então tem dessas coisas. 184 Ade mas qual é a diferença entre bandido e ladron/ 185 Diane bandido é mais genérico. 186 Ade ahn 187 Diane bandido é pra qualquer pessoa que cometa coisas= 188 Ade sei 189 Diane =criminosas é. qualquer tipo de coisa matar, roubar, qualquer coisa que você considere muito séria. mas, por exemplo, assaltante (.) é osujeito que rouba usando violência 190 Ade hum hum 191 Diane quer dizer, um assaltante é um sujeito que ameaça a pessoa diretamente. um ladrão é uma pessoa que vê um objeto que não é dele e pega. não tem nenhuma pessoa, ele sabe que é de outra pessoa mas ele vem e (.) leva. isso se chama furto, né/ e assalto é bem mais grave, é quando você tem uma pessoa você fala “eu quero a sua bolsa”. né/ tem essa diferença aqui.(.) ok/ bom. vamos dar uma lida hoje na historinha. (.) no texto da Graça e do Ronaldo. Fita 1 – turnos 697 a 931 697 Diane ficou em paz. muito bom perfeito bom algum de vocês já passou por situação parecida/ 698 ((1.0)) 699 Diane nenhum de vocês/ 700 Roy ((sinal negativo com a cabeça)) 701 Ade ((sinal negativo com a cabeça)) 702 Aiko aqui ou lá/ 703 Diane /// que bom 704 Donald o ladrão estava escondido a- a- atrás de a de mesa. então, ninguém viu e depois ele rouba todo ele. 705 hhhhh 706 Diane podia acontecer. eu tava perguntando se algum de vocês já teve experiência com ladrão em casa, ou achou que era ladrão e não era. 707 Yuko ahn. eu tive experiência. eu achei, ahn, são meia- noite, à noite, algué:m foi na janela, ahn, jardim, jardim da minha casa 708 Diane hum, hum 173 709 Yuko e eu olhei. não. antes deu olhar eu ahn fiquei assustada. muito e tinha preocupado. 710 Diane claro. 711 Yuko e eu primeiro fugi no, na pa:: ((gestos)) 712 Diane na parede. 713 Yuko na parede do quartinho e, é colocou de as- sapato pra tênis. eu colocava:: 714 Diane eu coloquei/ 715 Yuko colocava, colocava ahn sandália, e coloquei pra tênis e: 716 Diane ( ) 717 Yuko não. pra, pra, pra facilitar fugir. 718 hhhhh 719 Yuko quando eu vi a- a coisa acontecer, assim, depois eu olhava, coitada de mim hhhh 720 hhhhh 721 Diane que raiva né/ não sabe se ficava com mais raiva do ladrão, que não era, ou do ladrão que era. 722 Aiko lá em casa tem um cachorro. ele fugiu à noite 723 Diane ahn e aí/ 724 Aiko eu ouvi no jardim, mas foi lá no japão. 725 Diane ahn, ahn 726 Aiko eu vi que era um, alguma coisa falando, está se movimentando, tem alguma coisa no jardim, está se movimentando. estava no escuro. 727 Diane hum, hum 728 Aiko o quê que está fazendo no jardim, parecia um bicho. peraí. aquilo lá é parecido com meu cachorro, não é/ ele ele ele tá trancado geralmente porque ele não aprende as coisas. então a gente tranca. 729 Diane ahn, ahn 730 Aiko e a gente pôs cadeado. 731 Diane ahn, ahn 732 Aiko mas, acho, acho que alguém esqueceu de colocar cadeado, aí ele fugiu. 733 hhhhh 734 Diane aí acordaram no meio da noite pra pegar o cachorro. 735 Aiko não. agora não. a gente foi dormir. é assim que ele gosta. 736 Diane ahhh vocês deixaram o cachorro sozinho lá/ 737 Aiko é 738 Diane não tinha problema/ 739 Aiko não. 740 Donald (não entendi) 741 Aiko não. porque é cachorro eu falei, eu acho que ele:: eu acho que foi melhor. ó cachorro, você tem, você tem seis horas de liberdade. é o máximo. a gente quer dormir. 742 hhhhh 743 Diane boa coisa quem mais/ ninguém mais/ 744 Kaori na minha casa não, que parece uma casa pobre, né. mas ahn minha, na casa dos meus avós 745 Diane ahn, ahn 746 Kaori ladrão, hum, entrou/ mas o que: ele: roubou 747 Diane hum, hum 748 Kaori foi, foi, aquele negócio para construir as coisas 174 ((gestos)) como se diz/ esses: 749 Diane martelo/ 750 Ade martelo. 751 Kaori martelo. só isso 752 Diane roubou martelo/ 753 hhhhh 754 Diane que ladrão esquisito 755 Kaori ele tava:: 756 Ade não sei ele é, chama carpi::n 757 Diane carpinteiro. 758 Ade carpinteiro. isso 759 hhhhh 760 Kaori E:: outro, outro, não, outra avó. não, outra:: 761 Diane outra avó. 762 Kaori avó. na, na casa dela ladrão entrou. e, roubou roupas, e jóias, tudo. e cachorro. 763 Diane oh roubou cachorro/ 764 Aiko roubou cachorro/ 765 Donald cachorro/ 766 Kaori logo depois, logo depois da segunda guerra. e, essa época que tinha muitos ladrão. e cachorro foi: raro. 767 Diane ahn, ahn é raro. 768 Kaori é. ele levou 769 Diane que coisa 770 Donald uma vez meu amigo encontrei um cachorro que valizava quase mil dólares. 771 Diane que isso/ 772 Donald fica em casa e pega mil dólares na loja. 773 Diane encontrou cachorro assim e devolveu/ 774 Donald devol 775 Diane ele devolveu o cachorro para o dono/ 776 Donald não porque não tem dono. 777 Diane oh 778 Donald não tinha. eu não sei o que acontece mas ele acho que ele vendeu ele e ganhou muito dinheiro. 779 Diane [ganhou muito dinheiro. que coisa louca 780 Roy qual tipo/ 781 Donald Ahn/ 782 Roy qual tipo/ que raça/ 783 Donald ah:: pit pitbull/ 784 Roy pitbull. 785 Donald não sei. hein/ mas ah um um um cachorro que normalmente fica nos lutas. lutando no show muito forte com cabeça assim ((gestos)) 786 Diane ahn, ahn. 787 Roy pitbull. 788 Diane Pitbull/ 789 Roy é. 790 Donald acho que si::m não sei:: 791 Diane hum, hum. cada ladrão estranho nesse mundo, né/ um rouba cachorro na minha casa, há muitos anos, nós tínhamos o hábito de deixar os sapatos do lado de fora, porque nós não entrávamos de sapato em casa. mais ou menos como os japoneses. nós fizemos anos 792 Kaori (gesto positivo com a cabeça) 175 793 Roy ( ) 794 Diane o certo era isso eu acho, né, não usar sapato dentro de casa. aí o ladrão entrou no quintal da minha casa e roubou todos os sapatos da família. 795 hhhhh 796 Diane foi terrível foi ridículo ninguém tinha sapatos pra sair de casa. não tinha ninguém tinha sapato meu pai arranjou um sapato que ele tinha jogado no lixo, vestiu o, limpou o sapato, calçou o sapato e foi comprar sapatos. o ladrão levou todos os sapatos da minha casa, você acredita/ e pegou uma toalha de banho, amarrou tudo e levou. nunca vi um ladrão tão esquisito. carregou os sapatos. 797 Diane bom. vamos lá pra gente terminar hoje nós vamos só ver um pouco desses verbos no imperfeito. vocês, na hora em que estavam contando a história da, do texto vocês usaram, às vezes, é “ele saiu”, “ele desceu”, “ele encontrou a filha”, “ele voltou pra cima”, “ele subiu a escada”, né, “ele não encontrou o ladrão” e também usaram “ele estava dormindo”, “a filha estava fechando as janelas”. né/ então, vocês usaram dois, duas formas verbais, dois tempos verbais diferentes quando vocês estavam contando. e por quê que a gente usa/ porque as a forma verbal do imperfeito é usada nas histórias para descrever ações que estavam acontecendo quando outras aconteceram. lembram disso/ então esse vai ser o grande uso, né, da desse verbo no passado. e nós usamos com muita freqüência como eu falei antes para contar rotina nossa no passado. né/ é um tipo de verbo muito fácil em termos de gramática porque ele não tem quase quase nenhum tipo de irregularidade é um tempo muito regular de verbo e a diferença está nos verbos terminados em “a-r” que vão terminar em “a-v-a”, “ava”, né, então aqui tem comprar – comprava, comprava papéis, comprava computadores, comprávamos roupas, compravam, tá errado aí, é com “v” não é “r”, eu digitei errado, compravam móveis. e os verbos em “e-r” e em “i-r” que vão fazer pretérito imperfeito com “ia”, então, vender – vendia, né, é se fosse conhecer – conhecia, parecer – parecia, ler – lia, ver – via, ir – ia, é bem fácil, certo, tanto com “e-r” quanto com “i- r” vai ser do mesmo jeito. então, eu vendia papéis, você vendia computadores, nós vendíamos roupas, vocês vendiam móveis. certo/ perfeito/ bom. vamos treinar um pouquinho. o que é que vocês, uma,lembra pra mim uma:: (.) coisa que vocês faziam nos países (.) de origem de vocês e que vocês não fazem no Brasil. qualquer coisa. quem lembra/ 798 Aiko brincava no rio. 799 Diane oi/ 800 Aiko eu lembro que eu brincava no rio. 801 Diane brincava no rio. que delícia não tinha poluição nada/ 802 Aiko não. eu moro no interior. 803 Diane heim/ 804 Aiko eu moro no interior, lá são limpos. 805 Kanji no japão, eu trabalhava mas aqui eu não trabalho. 176 806 Diane não trabalha. perfeito 807 Kaori eu usava banhe, benhe 808 Diane a banheira. 809 Kaori banheira. 810 Diane banheira. aqui não usa/ [não tem. 811 Kaori [não. não tem. 812 Diane sente saudade/ 813 Kaori hhhhh 814 Diane quem mais/ quem mais/ quem mais/ 815 Yuko tirava sapatos também. 816 Diane quando entrava 817 Yuko entrava 818 Diane quando entrava em casa. 819 Yuko quando entrava em casa. 820 Diane tá certo 821 Kanji eu sentava no chão, mas aqui não. 822 Diane aqui não por que/ 823 Kanji não sento. 824 Diane aqui pode também. 825 Ade hhhhh 826 Kanji hhhhh não sento. 827 Diane você é mais assim compenetrado aqui. 828 Kanji porque é: 829 sujo. 830 Kanji é sujo também 831 Diane aqui é mais sujo é porque aqui usa sapato né/ 832 Aiko tem. 833 Kanji chão é muito duro. 834 Diane muito duro também.Ade/(.) 835 Ade é assim parece que eu tô repetindo quase toda coisa que fazia lá. 836 Diane tudo igual/ 837 Ade é quase igualzinho. hhhhh 838 Diane hhhhh nenhuma coisa que você lembra que fazia lá/ nada/ 839 Ade é, começou por meus pais, né, que: 840 Diane começava. 841 Ade é começava por meus pais mas só que tô sozinho. 842 Diane tá sozinho. 843 Ade é. 844 Diane fora isso, tudo normal/ 845 Ade é, normal. 846 Diane muito bom quem mais/ 847 Naomi ah eu não usava relógio para acordar rápido. mas aqui eu uso. 848 Diane você usa. aqui você acorda mais cedo do que lá/ 849 Naomi Primeiro hh cedo hh e dormir hh de novo e acordar. 850 Diane que delícia acorda cedo, trava o relógio 851 Naomi é. 852 Diane melhor coisa do mundo 853 Aiko mas como você acordava lá sem despertador/ 854 Naomi ah minha mãe sempre me acordava. porque eu não consigo acordar ah ce- cedo/ não. não consigo levantar quando que eu= 855 Diane =acorda= 856 Naomi =acordo, por causa de pessoas, ainda mais a minha mãe 177 que me grita para acordar 857 Diane gritava. 858 Naomi é 859 Diane ahn ahn. Naomi 860 Naomi ela não gritava muito e eu bom para fazer acordar para primeiro para acordar depois, “dá para preparar/” 861 Diane primeiro só te chamava para acordar depois ela falava assim “agora tá na hora, tem que levantar”. 862 Naomi hum hum. 863 Diane tá certo. pode ir. 864 Roy não sei. 865 Diane nada do que fazia/ você faz tudo igual aqui/ 866 Roy ah, eu acordo mais cedo aqui. eu acordava mais tarde lá. 867 Diane que horas/ 868 Roy depende se eu dirigia pra escola ou pego um ônibus. 869 Diane ou pegava. 870 Roy Roy pegava um ônibus. 871 Diane hum hum. 872 Yuko quer dizer, sua escola, ou a escola da sua região, começava mais tarde do que aqui/ 873 Roy é, mais tarde. 874 Yuko a minha também. 875 Diane que horas lá/ 876 Roy quinze pras nove. 877 Diane ai que delícia e aqui é sete e quinze. 878 Roy é. 879 hhhhh 880 Diane sete e quinze é muito cedo mesmo. (.) e você/ 881 Donald muitas coisas muitas coisas 882 Diane por exemplo/ 883 Donald ah dormir quase quatro horas menos do que dormir lá. 884 Diane aqui você dorme menos também. 885 Donald mas não não porque porque de lugar mas porque de:: eu não sei. 886 Diane não entendi. 887 Donald não não por causa de lugar, por causa aqui no Brasil faz isso. também come diferente coisa, muito diferente coisa que eu comi lá. é estranho porque tem diferentes comidas aqui. 888 Diane hum hum. 889 Donald diferentes climas diferentes hábitos 890 Diane comidas diferentes. 891 Donald é sim diferentes maneiras de comer também, muito mais de a:: de almoço porque todo mundo aqui come ((gesto indicando um grande prato de commida)) 892 Diane todo mundo come muito no almoço. 893 Donald muito sim. 894 Diane verdade. 895 Roy não tem jantar. 896 Diane oi/ 897 Roy não tem jantar. 898 Diane aqui/ 899 Roy tem, mas:: 900 Diane depende da casa. 901 Donald não é a mesma coisa. todo mundo janta lá. 178 902 Roy todo mundo janta. 903 Donald seis horas todo mundo janta (prato) grande. 904 Diane lá/ 905 Roy sim 906 Donald não é verdade/ 907 Roy ((gesto positivo com a cabeça)) 908 Donald inclusive na Nova Zelândia também/ 909 Roy também. 910 Diane aqui a gente janta muito mais tarde. 911 Donald ou não janta nada. não tem janta. 912 Kanji não tem janta, é lanche. 913 Diane na minha casa janta. 914 Kaori e o que você come/ 915 Diane a mesma coisa que tem no almoço a gente come na janta é a mesma comida. 916 Kanji ah que bom que bom 917 Diane é bom pode ir lá em casa. pode ir lá em casa. 918 Yuko a que horas você janta/ 919 Diane eu janto se:te horas:: algum, no intervalo de sete e oito horas da noite. nunca antes de sete horas. 920 Donald é é muito estranho aqui porque por uns dias pessoas jantam, por uns dias pessoas não jantam. é muito irre- irregular. 921 Diane muito irregular. é verdade. 922 Donald não eu sou muito irregular pra comer: estranho pra mim porque eu fazia assim rígido, aqui essa hora come, essa hora come: 923 Diane é verdade. lá tem hora de jantar, muito sério isso né, tem que jantar naquela hora: 924 Donald os amigos: essa hora todo mundo sabe todo mundo janta. 925 Diane hum hum. 926 Donald não ligar: não ligou/ 927 Diane não liga nessa hora. 928 Donald não liga nessa hora. também na hora do almoço. mas só, na hora do almoço, na pousada, todo mundo liga blá blá blá, todo mundo andando, é estranho. 929 Diane hum hum. 930 Donald diferente. 931 Diane é diferente, é verdade. muito bom bom pra terminar a aula de hoje tem um exercício aqui começa nessa página e vai até na próxima. 179 Anexo 2 Fita 2 – turnos 1 a 643 1 Diane quais as coisas que vocês se lembram (.) mais (.) que eram mais comuns (.) quando vocês eram crianças/ 2 (..) 3 Diane Ade, >você se lembra de alguma coisa</ 4 Ade [é::] 5 Ade é:: quando eu:: era criança eu (.) chupava me:u (.)dedo 6 Diane hum hum 7 Ade e chorava (..) chorava muito também, qualquer [coisa eu 8 Diane [qualquer coisa você chorava 9 Ade é. començava a chorar. 10 Diane e você costumava brincar de que/ 11 Ade bri::ncar/ de (..) olha eu não me lembra non, porque que essa coisa de: é: brinquedos non tinha, que eu morei com minha avó, hhhh porque meus pais ºnão moravam comigoº sabe como é morar com avós. 12 Diane hhhhh não, eu não morei com avó. 13 Ade é/ 14 Diane é mais difícil/ 15 Ade não, é: é ss(.) eles sempre quer você ao lado deles, né/ 16 Diane hum hum 17 Ade então chupando dedo, dormi:ndo, né/ Contar histórias. E eu ria muito, né/ 18 Diane hum hum 19 Diane eles contavam histórias/ 20 Ade é. contavam histórias né, bem tradicionais e eu ri ri 21 Diane ria 22 Ade ria 23 Diane muito 24 Ade muito 25 Diane >muito bom: 26 Diane bom, é um bom jeito de passar a infância. (.) E você, Donald/ 27 Donald quando eu criança eu: andava muito nas florestas perto de mi casa/, 28 Diane hum hum 29 Donald andava e brincava lá assim. mora- morava na fazenda. 30 Diane na fazenda 31 Donald fazenda de aves sim. 32 Diane muito bom:: 33 Donald legal 34 Diane e qual era a sua principal brincadeira/ Do quevocê gostava de brincar/ 35 Donald peg: penia/ non pega:: pegava 36 Diane pegava 37 Donald pegava paos e fa fa:= 38 Diane =fazia= 39 Donald =fa-fa- fazia (.) como as espadas ((fazendo gesto 180 ilustrativo com as mãos)) brincava mesmo assim 40 Diane [hum hum] 41 Diane legal. brincava de Obi Wan Kenobi/ 42 Donald é, sim. 43 Diane guerra nas estrelas 44 Donald mais ou menos assim. 45 Diane com barulho. 46 hhhhhh ( ) 47 Diane tá certo (.) e você, Roy/ 48 Roy quando eu era (.) um criança eu:: (..) é (.) eria 49 Diane era 50 Roy era 52 Roy foi, era. 52 Diane ia. fui, ia 53 Roy eu ia para escola, descalço. 54 Diane descalço/ 55 Roy é 56 Diane coisa bo:a e podia/ a professora deixava/ 57 Roy é. até eu ter (.) oito, nove anos, sempre. 58 Diane que coisa interessante, hhhhh ta: certo e essa é a coisa que você mais lembra na sua da sua =infância/ 60 Diane do que você brincava/ 61 Roy brincava (..) não sei. todos os:: ( ) (.) 62 Diane não tinha uma brincadeira favorita/ 63 Roy não sei, brincav brigava com meus irmãos. 64 Diane ah, >isso costuma ser uma brincadeira comum<. 65 Diane ((Se virando e olhando para Hazel)) E você o que você gostava de fazer/ 66 Hazel e eu quando era criança anh eu jog ahn, eu (.) 67 Diane jogava/ 68 Hazel [jogava] 69 Hazel muito com minha (.) irmão 70 Diane hum hum 71 Hazel ah e brinca (.) 72 Diane [oi/] 73 Hazel não (.) like a:: ahn ºteenage mutant turtlesº: 74 Diane de novo. fala mais alto 75 Diane hhhhh ( ) não escutei nada 76 Hazel quer dizer 77 ((Hazel olha para Donald, que faz menção de se manifestar, e aponta para ele, passando a vez)) 78 Donald adolas adolescents, não tortu tortu tortorugas adolescentes/ 79 Diane >tartarugas ninja<. 80 Donald ninja. 81 Ade e:: 82 hhhhhhhh 83 Diane tartarugas ninja 84 Diane meus irmãos brincavam de tartarugas ninja eles gostavam muito, também hhhhh. 85 Hazel e eu ahn. 86 Diane e você, era qual tartaruga ninja/ 87 Hazel Ono h:: Michelangelo 88 Diane Michelangelo 89 hhhhh 181 90 Diane eu gostava do Donatello hhhh 91 Diane e você, Pepper/ 92 Pepper (..) ahn 93 Pepper nesse tempo quando eu jogava (..) com as mi minhas amigas e (: ) jogava de (..) casa/ 94 Diane brincava de casinha 95 Pepper é. e (.) nadava muito 96 Diane em piscina ou mar/ 97 Pepper piscina. 98 Diane piscina. 99 Pepper todo dia ((faz gesto com as mãos)) 100 Diane isso 101 Diane vida boa.. 102 Pepper só isso. 103 Diane nadava nadava nadava 104 Pepper é 106 Diane você cresceu com seus pais/ 107 Pepper (..) 108 Diane você morava com seus pais/ ((Pepper faz gesto de quem não entende)) 109 Diane não entende 110 Diane você (.) morava (.) com (.) seu pai e sua mãe 111 Pepper yeah 112 Diane ou como o Ade. com sua avó/ 113 Pepper ahh (..) mora- morava com meus pais (..) mas quando eu nadava, outra casa. 114 Pepper minha amiga tem piscina. 115 Diane Hum, hum tinha 116 Pepper tinha 117 Diane bom, talvez ainda tenha 118 Pepper yeah 119 Diane perfeito então tá bom ((recostando na cadeira)) 120 Diane bom. próxima coisa. tem um exercício aqui que eu quero ver como é que vocês fazem. a tarefa é a seguinte: você está desempregado e precisa arrumar dinheiro de qualquer maneira, mesmo que ele seja com um bico, trabalho temporário. 121 Diane veja os anúncios abaixo e escolha o que gostaria de fazer e explique o porquê. justificando também porque não faria os outros trabalhos. ok/ tem quatro anúncios e quatro: possibilidades curiosas aí. (.5) vejam se têm alguma dúvida nos anúncios primeiro. (.) 122 Donald operador de telemarketing 123 Diane oi/ 124 Donald quem que faz isso. 125 Diane não sei quem quer. quem precisa de dinheiro, eu acho. 126 Donald louco 127 Diane hhhh já se revoltou/ 128 Roy que é sacoleira/ 129 Diane sacoleira é um tipo de:: profissão ou atividade ( ) de, é geralmente uma mulher, que compra roupas numa fábrica e depois vende essas roupas em casa pa:ra amigas, para conhecidas. 130 Pepper hum. 131 Diane é muito comum na faculdade vender ahn cami:sa, roupas 182 de todo tipo, é:: perfumes às vezes, bijou ((mostra o brinco na orelha)) coisas bijouterias 132 Pepper é ((mostra o brinco na orelha)) 133 Diane é muito comum isso, né. entende/ 134 Ade como é é é a casa a casa é o que/ 135 Diane geralmente ela conversa, ela leva, por exemplo, pra universidade, se ela estuda na universidade, ela vai pra universidade com sacola (gestos) e mostra pras amigas antes da aula. aí, as amigas compram, as professoras compram, às vezes, também. 136 (: ) 137 Diane é bastante comum este tipo de coisa não sei se você já viu aqui na faculdade, às vezes/ 138 Ade não. 139 Diane nunca teve aqui aqui- 140 Ade o que o que o que eu já vi é doce. 141 Diane oi/ 142 Ade pessoas que fazem doce. 143 Diane doce. 144 Ade eu já vi. 145 Diane é um é difi- a sacoleira a diferença é que ela não faz ah:: ela não produz o= 146 Ade =o produto= 147 Diane =o produto. ela compra, geralmente, aqui aqui em Juiz de Fora o pessoal vai pra Petrópolis, que é uma cidade aqui perto 148 Ade eu ouvi falar que 149 Diane exat: 150 Ade indústrias é baratinha 151 Diane muito barata, roupa é muito barata. 152 Flávio eu vou. minha família sempre vai. 153 Diane cê também pra Petrópolis/ 154 Flávio todo inverno e verão a gente vai lá, cata tudo e volta. 155 Ade é. já fui uma vez lá. 156 Diane é. 157 Ade hum, hum. 158 Diane comprou roupa também/ 159 Ade não por causa disso que eu fui as saber preço não era pra a coisa sai bem baratinho. 160 Diane é bem barato mesmo. 161 Ade só que não comprei nada só conheci a cidade. 162 Diane entendi. mas é Petrópolis, São Paulo, que tem um bairro inteiro só (.) desse tipo de comércio de roupas que vendem muito barato, mas muito barato mesmo, calças de dez reais, camisas de dois reais, três reais. 163 Ade lá no Rio também tem 164 Diane no Rio também= 165 Ade =é Saara= 166 Diane Saara e esse menino entende desse negócio de comércio 167 Ade não ah eu fui lá só pra ver. 168 Diane é verdade Saara também tem. 169 Igor e tem o Paraguai também 170 Diane e tem o Paraguai 171 Ade é o maior hhhhh 172 Diane o Paraguai é o maior comércio do mundo né/ você foi ao Paraguai/ 183 173 Ade não, eu queria conhecer. 174 Diane quem é que foi/ 175 Roy ((levanta a mão)) 176 Diane você é que foi né/ horrível, né/ 177 Roy nossa arghhh. 178 Diane hhhhh 179 Roy não tem comida em todo o país. 180 Diane não tem comida, né/ 181 Roy é, não, eu tava com muita fome 182 Diane é, eu achei que eu era a única que não encontrou comida naquela cidade. só tem loja pra vender produto eletrônico, é:: oi/ 183 Roy perfume. 184 Diane oi/ perfume e coisa vagabunda do tipo canetinha, lápis. 185 Ade piratas 186 Diane oi/ pilha. heim/ 187 Ade tudo pi é “pairetes” não 188 Diane piratas. 189 Ade piratas. isso 190 Diane tudo pirata. a maioria é pirata. às vezes tem coisa oficial. a maioria não é. eu não comprei 191 Roy é são falsificados as coisas é muito muito raro 192 Diane muita coisa oi/ 193 Roy muito ruim as coisas 194 Diane hum, hum. muito ruim há uns dez anos esse tipo de situação era muito mais comum. muito mais comum. o pessoal ia, ainda vão muito, em ônibus pra lá mas acontecia eram muito mais ônibus, muito mais gente comprando (.) né/ então pra fazer esse tipo de coisa. aí é a famosa sacoleira né/ (.) isso mesmo. 195 Diane bom. quem é que pode ler pra mim as opções/ quem começa/ Donald, Donald lê pra mim. 196 Donald garçom, garçonete. universitários, masculino e feminino e 197 Diane para. 198 Donald pára/ para trabalho em casa noturna,noturna/ 199 Diane noturna. 200 Donald noturna. comparecer à rua São Sebastião, tião, cento e um. 201 Diane muito bem o que que você acha desse possibilidade/ 202 Donald bom. eu, eu escolhi. 203 Diane por que/ 204 Donald porque eu gosto de andar, eu gosto de dar coisas pra pessoas, eu gosto de comida. 205 Diane [ahã. 206 Donald [primeira vez= 207 Diane ótimo perfeito = 208 Donald =nunca fiz, mas quero ver como é. 209 Diane hum, hum. é, a turma do os meninos japoneses todos foram garçons. nós fizemos uma pesquisa outro dia. nós descobrimos que só uma das cinco não foi garçonete. 210 Donald quem não faz isso/ 211 Diane É hhhh então. 212 Donald ( ) 213 Diane é, então, arrumou um emprego.vai lá. lê pra mim, Ade. 184 214 Ade é, operador de telemarketing, é mesmo é telemarketing/ 215 Diane hum, hum. 216 Ade masculino, editora, salário mais, é, comissão, cep, é, xô vê peraí, cep que sessenta MO 217 Diane isso. 218 Ade é cep 05946948 são paulo. 219 Diane muito bem o que você acha disso/ 220 Ade ah pra mim não dá 221 Diane por que/ 222 Ade ah. eu gosto de ser gar garçonete também. 223 Diane garçom. 224 Ade gar ((sinal como dedo)) garçom, isso. 225 Diane melhor. hhhhh 226 Ade garçom, isso. hhhhh 227 Diane você gostar de ser garçonete 228 Ade nó 229 Diane acho, sei lá, é bom você ser garçom. 230 Ade aí, não tenho conhecimento sobre essa escolha de telemarketing, não vai dá 231 Diane mas sabe o que é/ 232 Ade é, eu sei 233 Diane hum, hum. muito bem. aqui ele fala de salário mais comissão. entende isso// 234 Ade ((sinal com a cabeça de que entende)) 235 Roy ((sinal com a cabeça de que entende)) 236 Diane todo mundo/ 237 Donald pior 238 Diane oi/ 239 Donald pior coisa do mundo 240 Diane hhhhh 241 Donald esse tipo de trabalho. 242 Diane pior coisa do mundo. verdade. terceiro, lê pra mim. 243 Roy sacoleira, para vem-das para venda de camisas /, com ganhos aproximados de quatrocentos reais / 244 Diane hum, hum. quer tentar falar o número/ 245 Roy 39950847 246 Diane e aí/ o que você acha do emprego/ 247 Roy Não (.) muito chato. 248 Diane hum/ 249 Roy muito chato. 250 Diane por que/ 251 Roy ((faz gesto com os ombros)) 252 Diane hum/ 253 Roy acho que pôr, jogar não, pôr uma coisa coisa do lado, se você já já tem alguma coisa é mais sacoleiro não não podia ter 254 Diane ser só sacoleiro. 255 Roy ser só sacoleiro 256 Diane only 257 Roy é. 258 Diane é isso/ 259 Roy não sei. acho que é muito trabalho acho que é bom se você fez a outra coisa 260 Diane hum, hum. 261 Roy e mais esse. 262 Diane Entendi (.) muito bem 185 263 Diane mas qual trabalho desses você escolheria/ 264 Roy o que é <entregador>/ 265 Diane entregador é alguém que leva objetos de um lugar para o outro. 266 Roy ahn, entendo. 267 Diane ou de moto ou de bicicleta, ou a pé, não sei, de carro, de carro acho difícil aqui, né/ (.) é esse tipo de trabalho. ((Diane vê Pepper e interpreta sua expressão facial)) 268 Diane não gostou, não gostou. não combina com você. 269 Pepper não. dirigir aqui (.) 270 Diane oi/ 271 Pepper não quero (.) dirigir aqui. 272 Diane dirigir. por quê/ 273 Pepper (..) 274 Diane ah, vai 275 Pepper Brasil (.) não tem regras. 276 hhhh ((risadas de todos os participantes)) 277 Pepper e eu não ss sei ahn ((faz gesto de passar marchas em um carro)) 278 Igor as marchas. 279 Pepper yeah. só as marchas. (só automático. no manual.) no tem ((frase com sotaque norte-americano)) 280 Diane não tem marcha. 281 Pepper yeah. 282 Diane hum hum. aí fica difícil. 283 Donald alguma coisa para aprender. 284 Diane oi/ 285 Donald alguma coisa para aprender. se quiser aprender. 286 Diane é. dirigir sem marchas. 287 Donald dirigir com marchas. 288 Diane com marchas. 289 Diane eu não sei dirigir nem com marchas nem sem marchas. muito bem bom. ahn. quem pode ler pra mim a próxima/ 290 Hazel ham, ham. ((com a garganta)) 291 Diane ham, ham. hhhhh 292 Hazel entregadores. 293 Diane entregadores. 294 Hazel rapazes, não, rapazes/ 295 Diane ((sinal positivo com a cabeça)) 296 Hazel para entregas, ahn, cento e cinqüenta vagas, salário, salário, é, ahn, quatro quatro ((olha para Diane)) 297 Diane centos. 298 Hazel quatrocentos reais mais ahn (.) ticket 299 Diane ticket, perfeito. 300 Hazel refeição e vale tranpor- transporte e ahn ligue ahn ahn novecen o que/ 301 Diane novecentos. 302 Hazel novecentos 0535 ahã, quatro e quarenta e nove reais o minuto. 303 Diane muito bem. o que você acha desse emprego/ 304 Hazel ahn. Não, não gostei. ((gestos com as mãos de dirigir)) 305 Diane oi/ 306 Hazel eu não pode ((gestos de dirigir com as mãos)) 307 Diane dirigir. 308 Hazel hhhhh 186 309 Diane então não serve. 310 Hazel é. 311 Diane hum hum. 312 Diane vocês não perceberam nada de errado nesse quarto anúncio/ (.) 313 Ade Tem. Ce liga por um e três e paga 314 Diane pois é. 315 Hazel é. 316 Ade hum, quatro reais e 317 Hazel por minuto. 318 Ade é:: aí não vai dar. Parece que pessoa não nota fazer anúncio não. Ele quer que você paga 319 Diane Hum hum. 320 a conta do telefone dele. 321 Donald ham 322 Ade é. 323 Diane dele. isso muito bem Mas eu já vi acontecer esse tipo de coisa. É: não exatamente assim. Mas no Brasil existem empresas que se chamam <empresas de recolocação>. Quer dizer se você não tem emprego, você vai para essa empresa e essa empresa fala que vai conseguir emprego para você só que aí você tem que pagar a empresa pra fazer isso E tem muitas empresas desse tipo que são (.) fantasma. 324 Ade [oh, sim] 325 Diane entende, quer dizer elas não existem de verdade e muita gente paga (.) por um tipo de serviço que elas não conseguem (.) prestar (.) que não vão prestar mesmo, né/ Então esse esse anúncio aí é (.) de brincadeira mas (.) parece com algumas coisas de verdade. não é, por (.) o sujeito olha tem 150 vagas, é muito emprego. 326 Ade hum hum hhhhh 327 Diane um salário que parece (.) mais ou menos 328 Ade é:: em cima de:: ( ) 329 Roy por mês/ 330 Diane oi/ 331 Roy por mês/ 332 Diane por mês 333 Diane pro Brasil não é ruim, não. 334 Roy muito ruim 335 Diane muito ruim. eu também acho, mas o Brasil ta desse jeito. 336 Ade mas está acima do salário mínimo 337 Diane está. acima do mínimo. 338 Donald um dia nos Estados Unidos 339 Diane oi/ 340 Donald isso é um dia nos Estados Unidos. ºé muito diferenteº 341 Diane é muito provável ( ) e tem e vou te falar que (.) uns trinta por cento da população tá ganhando isso. Por mês, e está ganhando cada vez menos. (.) esse dinheiro compra cada vez menos 342 (..) 343 Diane e em Ga oi/ 344 Donald infla[ção 187 345 Diane [inflação. não deixa de ser (.) não deixa de ser. ninguém fala. (.) mas: eu acho que tem porque a tarifas aumentam muito, os preços todos aumentam muito, mas quando você vê a taxa oficial não aparece. (.) né/ 346 Diane (.)e em Gana, como é que é/ o salário 347 Ade [o salário 348 Diane em comp comparação com o Brasil, como é/ 349 Ade eu acho que:: depende, né/ mas no mínimo pessoa que ganha muito mal, né/ deve ter (.) É:: lá, cho vê:. O salário mínimo é igualzinho ao que o Brasil aumentou, né/ Duzentos e dezesseis= 350 Diane =é mesmo/= 351 Ade =é igualzinho, lá. non sei se eles já aumentou, já. mas normalmente pessoas que trabalham com empresas têm (.) 352 Diane [hum hum] 353 Ade tem é condições melhor 354 Diane melhores 355 Ade melhores do que as pessoas que são autônomos 356 Diane são autônomos. isso. 357 Ade é isso fazem negócios pequenininhos cê sabe, 358 Diane [Hum hum] 359 Ade comerciais que compram