Prévia do material em texto
Ética, sexualidade e gênero 1 ÉTICA Guilherme Marin Ética e Sexualidade Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Construir um conceito acerca da relação ética dentro do tema “Ética e Sexualidade”. Relacionar os termos ética e sexualidade. Identificar os problemas que a ausência da ética pode trazer nessa temática. Introdução Atualmente o debate sobre sexualidade é foco de divergências evi- dentes na sociedade, entretanto, é comum perceber que o debate se perde um pouco no campo semântico, justamente onde se dá o foco do problema, concretizado pela expressão: ideologia de gênero. Para melhor compreender a questão iremos relacionar os pontos em comum entre os conceitos de ética e sexualidade com a finali- dade de distinguirmos, na investigação, aspectos que são ligados à natureza ou à cultura. Por fim, evidenciaremos como o debate se- mântico foca na palavra gênero, de um lado a finalidade é torna-la sinônimo de sexo biológico, de outro diferenciá-lo aproximando sua interpretação do campo da cultura. Sobre a Ética e sobre a Sexualidade Para tratarmos da relação entre ‘ética’ e ‘sexualidade’, primeiro delimita- remos os conceitos separadamente, a fim de encontrar a medida que permitirá a melhor compreensão deste tema que vem gerando acaloradas divergências nos tempos atuais e que, muitas vezes, poderiam ser evitadas com a melhor compreensão das variáveis do problema para que o debate esteja devidamente orientado à construção do entendimento. Ética4 No senso comum, a palavra ética é muitas vezes associada a um manual de regras sobre o que é, ou não, permitido fazer na vida prática. No trabalho, nas relações pessoais, familiares ou comunitárias a ética deve prevalecer como um padrão de boa conduta. Entretanto não seguiremos o caminho do julgamento, mas sim uma outra dimensão da palavra que primeiramente foi utilizada em língua grega. Éthos significava hábito, ou costume (HOUAISS, 2019) e é esta dimensão que será fundamental para a compreensão do problema. A ética é fruto da convivência social, em outras palavras, só se pode ad- mitir a existência desta palavra a partir do contato entre, ao menos, duas pes- soas. Não é possível tratar sobre ética aplicada a indivíduos em isolamento da sociedade, a ética se aplica necessariamente na relação entre indivíduos. Sobre a vida em sociedade, os filósofos contratualistas, do Iluminismo, foram os primeiros a pensar sobre a necessidade de um pacto coletivo capaz de promover a mudança do modo de vida daquilo que chamavam de ‘estado de natureza’ para o ‘estado civil’ e a consequente perda da liberdade natural em favor da liberdade civil. saria a ser de 70% da média dos salários de contribuição, somando 1,5% a cada ano que superar o período de 25 anos de contribuição, 2% a cada ano que superar 30 anos de contribuição e 2,5% a cada ano que superar o período de 35 anos de contribuição, até o limite máximo de 100% (Bernardino, 2017). Em relação à aposentadoria por idade rural destinada aos segurados es- peciais, o homem se aposentaria por idade aos 60 anos, enquanto a mulher se aposentaria aos 57 anos de idade, devendo trabalhar, portanto, dois anos a mais que o tempo previsto na legislação atual, que é de 55 anos. Esse novo texto alteraria o §7º do Art. 201 da Constituição (Câmara dos Deputados, 2017). Já no final do ano de 2017, o Governo Federal anunciou o texto subs- titutivo do substituto. Nele, diz-se que as regras da aposentadoria rural do segurado especial continuariam como vigem na legislação atual, no entanto a redação modificada do inciso II do §7º do Art. 201 da Constituição Federal (Sinesp, 2017) assim ficaria: “O que o homem perde pelo contrato social é a liberdade natural e um direito ilimitado a tudo quanto aventura e pode alcançar. O que ele ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo que possui. [...] a liberdade natural, que só conhece limites nas forças do indivíduo, e a liberdade civil, que se limita pela vontade geral...” (ROUSSEAU, p. 36, 1978) Ética, sexualidade e gênero 5 De fato, todos vivemos esta dualidade, entre sermos, simultaneamente, pro- duto da natureza e da sociedade, ou seja, queremos exercer nossa liberdade de forma ilimitada, mas estamos constrangidos pelos limites impostos para a viabilidade do convívio humano. A sexualidade, aqui nesta unidade, também assumirá em seu significado, o caráter de uma relação humana. Distinta, portanto, do sexo biológico, ou seja, das características anatômicas com as quais a pessoa nasce. O sexo biológico, não entrará em questão quanto a sua relação em sociedade, uma vez que per- tence ao campo da natureza, exclusivamente, ao passo que a sexualidade, ou seja, a relação sexual entre indivíduos, será analisada a partir desta dualidade entre natureza e sociedade. Sobre a relação sexual, se interpretada segundo a natureza, dir-se-á que se dá a partir da relação entre um macho e uma fêmea da mesma espécie, que possuem sistemas reprodutivos capazes de proporcionar a união de gametas e assim gerar uma nova célula capaz de crescer e se tornar um novo indivíduo. Este conceito de relação sexual enquanto prática natural para a proliferação de genes consegue delimitar o problema sob a perspectiva da natureza, mas aqui interessa uma análise capaz de associar a sexualidade à ética e, portanto, deveremos investigar ambos os conceitos a partir de um mínimo denomi- nador comum, ou seja, a dimensão social. “Em qualquer sociedade, os indivíduos diferem em termos de natu- reza, alcance e intensidade de seus interesses e necessidades sexu- ais. Ninguém sabe ao certo por que existem essas diferenças sexuais individuais. Parte da resposta provavelmente é biológica, refletindo genes e hormônios (Wade, 2005), outra parte pode ter a ver com ex- periências durante o crescimento e o desenvolvimento, mas, sejam quais forem as razões para a variação individual, a cultura sempre cumpre um papel na moldagem de necessidades sexuais individuais em direção a uma norma coletiva, a qual varia de cultura para cultu- ra.” (KOTTAK,2013, p. 209) Ao conceito de diversidade, tanto na natureza quanto na cultura, sempre são associados atributos positivos. Os brasileiros, por exemplo, se orgulham da biodiversidade preservada na Amazônia e também da riqueza de ritmos que resultou da mistura de diferentes culturas que se encontraram nestas terras ao sul das américas, entretanto quando se trata de liberdade à diversidade se- xual, o país figura na primeira posição do ranking de violência global contra transgêneros, segundo pesquisa realizada pela ONG Transgender Europe, Ética6 realizada entre 2008 e 2016. Analisar a sexualidade a partir da perspectiva da ética é fundamental para ajudar na compreensão do problema e é esta di- reção que agora tomaremos, ao olhar mais atentamente para conceitos que relacionam a ética à sexualidade. “Orientação sexual é a atração sexual habitual de alguém e suas atividades sexuais do sexo oposto (heterossexualidade), do mesmo sexo (homossexualidade) ou de ambos os sexos (bissexualidade). A assexualidade, indiferença ou falta de atração por ambos os sexos, também é uma orientação sexual. Essas quatro formas são encontradas em todo mundo, mas cada tipo de desejo e experiência tem significados diferentes para indivíduos e grupos. Por exemplo, uma disposição assexual pode ser aceitável em alguns lugares, mas ser percebida como um defeito de caráter em outros. A atividade sexual entre homens pode ser um assunto privado no México, em vez de ser público, socialmente aprovado e incentivado, como entre os Etoro, de Papua-Nova Guiné.” (KOTTAK,2013, p. 209) Sobre a relação entre Ética e Sexualidade A sexualidade é influenciada pelo jogo de significados produzidos pelacul- tura. Em diferentes locais do planeta ela se expressa segundo valores rela- cionados ao que é em cada contexto semântico. A cultura não é estática, ela sofre influências externas e internas, muda ao longo do tempo e, por isso, os valores éticos e a sexualidade são constantemente atualizados quanto aos significados que os sustentam. “... o homem é um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias...” (GEERTZ, 1978, p. 15) Quando tratamos da vida social, da relação entre pessoas, devemos compre- ender que ela só é possível porque somos capazes de forjar significados co- muns por meio dos quais nos integramos ao corpo coletivo. A cultura trata de significados que são forjados por todos os que participam da sociedade Ética, sexualidade e gênero 7 e, ao mesmo tempo, também os amarram, ou seja, ela sustenta e limita ao mesmo tempo, porque sem ela não existiram relações sociais , mas também adquire uma inércia que só pode ser expressa pelo coletivo dos indivíduos. Só através de acordos coletivos a vida social é possível, de outro modo sequer a linguagem existiria. A interpretação sobre a sexualidade depende, portanto, dos atributos culturais compartilhados por uma sociedade em um determinado momento histórico. Alguns autores referem-se à cultura como uma construção, isto porque os significados se alteram ao longo do tempo, conforme a sociedade passa a produzir novas denominações capazes de descrever o mundo ao longo da história. “As diferenças sexuais são biológicas, mas o gênero engloba todos os traços que uma cultura atribui a machos e fêmeas e neles impri- me. ‘Gênero’, em outras palavras, é a construção cultural que define fêmea, macho ou outros.” (KOTTAK, 2013, p. 192) O gênero é um conceito sociológico importante porque ele se refere aos significados que a sociedade constrói relacionados aos sexos biológicos dos indivíduos. Quando ouvimos dizer, por exemplo, que a cor azul corres- ponde aos meninos e a cor rosa corresponde às meninas estamos tratando sobre gênero. É importante frisar que o gênero é um conceito importante para compreen- dermos a sexualidade, mas ele não trata sobre relações sexuais, ele trata estri- tamente de significados. Exatamente por isso ele é fundamental para aprofun- darmos a reflexão sobre a sexualidade porque o gênero trata de construções coletivas, está relacionado estritamente à cultura, o que vai de encontro com o esforço de refletir a dualidade entre natureza e cultura a respeito do tema. Para aprofundar ainda mais a investigação, o próximo passo deve ser dado no sentido de nos aproximarmos do indivíduo e, para isso, outro conceito será importante para compreender o problema: identidade. “... entendo por identidade o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atri- butos culturais inter-relacionados, os quais prevalecem sobre outras fontes de significado.” (CASTELLS, 2010, p. XX) Castells (2010) ainda continua sua definição de identidade relacionando-a a duas dimensões, a da auto-representação e a da ação social, ou seja, simulta- Ética8 neamente o modo como os indivíduos se apresentam à sociedade e como seu comportamento está relacionados a atributos culturais estabelecidos. Enquanto o conceito de ‘gênero’ trata de algo que se relaciona ao conjunto da sociedade, a ‘identidade de gênero’ se relaciona ao modo como o indivíduo se apropria dos significados produzidos pela cultura. Abordar a sexualidade através da perspectiva da ética implica necessariamente na utilização de um vocabulário capaz de restringir a análise à perspectiva da cultura. É importante também salientar para que não se confundam os conceitos de ‘identidade’ e de ‘papel social’, uma vez que o primeiro está relacionado estritamente à cultura, o segundo trata da organização de funções na socie- dade, ou seja, de como atuam determinados grupos no contexto mais geral da sociedade (Castells, 2010). Um exemplo aplicado ao esforço de analisar a relação entre a ética e a sexualidade através do conceito de papel social, seria, por exemplo, compre- ender que, na família tradicional, cabe aos homens trabalharem pela renda familiar e às mulheres o cuidado da família e do lar, enquanto na família con- temporânea todos trabalham, têm responsabilidades com o cuidado humano e do lar, além do que, inclui-se à estrutura familiar baseada a possibilidade de relação entre pessoas necessariamente do mesmo sexo biológico. Falar sobre a ética e sexualidade implica uma disputa entre perspectivas de análise, que muitas vezes se tornam radicais, de um lado a defesa pelas evidências da natureza, de outro, a defesa pelas evidências da cultura. O principal foco do debate é justamente a defesa de uma concepção de família associada à natureza em oposição a cultura e a principal arena onde este em- bate é travado é nas escolas. Este será o próximo passo de nosso percurso. Ética, sexualidade e gênero 9 Saiba Mais Questões contemporâneas sobre ética e sexualidade Até agora nosso foco foi definir e aproximar os conceitos de ética e se- xualidade. Todo esforço empreendido foi no sentido em separar o aspecto da sexualidade ligada à natureza, justamente porque só sob a perspectiva da cultura que é possível analisá-la em relação à ética. Entretanto, para adentrar à complexidade do problema no mundo atual é interessante a análise do tema Ética10 à luz de uma expressão muito repetida atualmente no Brasil e que é tema de acalorados, por vezes intolerantes, debates. A expressão ‘ideologia de gênero’ será inicialmente tomada a partir de um documento produzido pelo Vaticano, para ser encaminhado a todas as insti- tuições de ensino católicas ao redor do mundo, para depois interagir com as definições e relações que foram apresentados anteriormente. O documento do Vaticano (2019, p.3), trata do homem, da mulher e da criação, frisa que sua publicação se justifica por trata-se de uma “emergência educativa”, que vai contra a fé e a razão. Para definir a emergência de que trata o documento, o autor utiliza a expressão gender, que pode ser compreen- dida, no texto, como uma ideologia a ser combatida justifica a convocação de uma “missão educativa”. O documento tem por objetivo orientar para que as instituições de ensino tratem o conceito de gênero como sendo algo estritamente ligada à natureza, igualado semanticamente ao conceito de ‘sexo biológico’ do qual tratamos no começo da argumentação a fim de possibilitar a manutenção de uma con- venção de família capaz de gerar filhos, portanto baseada na união heteros- sexual e fundamentada nas evidências anatômicas necessárias à procriação. À tentativa de associar à palavra ‘gênero’ uma dimensão cultural, é que surge a expressão ‘ideologia de gênero’, ela toma a palavra ideologia no sen- tido de uma ideia que substitui a realidade. Segundo Chauí (2008) a palavra ideologia varia de definição ao longo da história, mas a partir de um docu- mento de Napoleão Bonaparte, agrega um sentido pejorativo que visa dis- torcer a relação entre o campo das ideias daquilo que seria a realidade. A emergência educativa a que o documento do Vaticano se refere é justa- mente uma campanha que atua sobre uma questão semântica em torno da pa- lavra ‘gênero’. A missão tem como objetivo combater toda a forma de debate cultural sobre o tema da sexualidade, sob o argumento de defesa da família, uma união que só pode se dar a partir da heterossexualidade entre os cônjuges. O embate contemporâneo não se restringe ao âmbito religioso, é mais amplo, é da sociedade brasileira como um todo. Tal a dimensão do debate na atualidade que também está em análise, pela câmara dos deputados federais um projeto de lei que “institui o Programa Escola sem Partido” (PL246/2019), cujo Artigo 2º expressa: “O Poder Público não se imiscuirá no processo de amadurecimento sexual dos alunos nem permitirá qualquer forma de dogma- tismo ou proselitismo na abordagem das questões de gênero.” É impressionante notar a dimensão que um embate semântico pode pro- vocar na sociedade. Em torno de uma simples palavra todo o sistema educa- Ética, sexualidade e gênero 11 cional e legislativo de um país se mobiliza, gerando uma disputa que também se expressa nas ruas com indivíduos defendendo fervorosamente uma po- sição, ou outra. É curioso notar que o interesse sobre o tema é muito grande no Brasil, mas disto não deriva um melhor esclarecimento do debate à sociedade que ainda é muito impreciso no entendimento do que está efetivamente em jogo. A asso- ciação irrestrita da família enquanto produto da natureza. Ao negar a influência da cultura na constituição das famílias ao longo da história, nega-se também a ela a sua possibilidade de mudança, que se fixa na heterossexualidade como condição de uma finalidade natural, a procriação. Existe uma relação evidente entre sexualidade e biologia, entretanto não se pode restringir a análise apenas a esta dimensão. É pela ampliação do de- bate que a sociedade poderá evoluir para consensos e não pela sua restrição, para isso, compreender do que se trata o problema da sexualidade no mundo contemporâneo exige a associação da dimensão ética à análise. Saiba Mais Fonte: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2019/05/07/reforma-da-previdencia-cria-con- tribuicao-minima-para-trabalhadores-do-campo Ética12 Referência CHAUÍ, M. – O que é ideologia. São Paulo. Brasileiense. 2008. HARLAN, C. – Em Documento a Educadores, Vaticano prega que gênero é apenas o biológico. In: Folha de São Paulo. 11 de junho de 2019. HOUAISS. – Dicionário de Língua Portuguesa Online. https://houaiss.uol.com.br. Aces- sado em 18 de julho de 2019. KOTTAK, C. P. – Espelho para a Humanidade. Porto Alegre: AMGH, 2013. ROUSSEAU, J. J – Do Contrato Social. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978. VATICANO – Homem e Mulher os Criou. Para uma Via de Diálogo sobre a Questão de Gender na Educação. 2019. http://www.educatio.va/content/dam/cec/Documen- ti/19_1000_PORTOGHESE.pdf Acessado em 19 de julho de 2019. Leituras recomendadas O racional e o razoável: Aristóteles e o trabalho hoje: <http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S1679-39512003000100005> Conhecimento, arte e formação na República de Platão: <http://www.scielo.br/pdf/ep/ v41n1/1517-9702-ep-41-1-0203.pdf> Ética, sexualidade e gênero 13