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Material de apoio 1
Introdução à Bíblia1
A Bíblia é uma coletânea de 66 documentos inspirados por Deus, os quais
estão reunidos em dois testamentos, o Antigo (39) e o Novo (27). Profetas, sacerdotes,
reis e líderes da nação de Israel escreveram os livros do Antigo Testamento em
hebraico (com duas passagens em aramaico), ao passo que os apóstolos e seus
companheiros escreveram os livros do Novo Testamento em grego.
A palavra "bíblia" é derivada do latim, proveniente da palavra grega bíblia
(livros), que diz respeito especificamente aos livros que são reconhecidos como
canônicos pela Igreja cristã. Nesse sentido, acredita-se estar o uso cristão mais antigo
da expressão ta biblía (os livros) na epístola de 2 Clemente 2.14 (c. 150 d.C.): "Os
livros e os apóstolos declaram que a Igreja... existe desde o princípio" (compare Dn
9.2: "Eu, Daniel, entendi pelos livros...", cuja referência é ao corpus dos escritos
proféticos do Antigo Testamento). O vocábulo grego bíblíon (do qual bíblia é o plural)
é o diminutivo de biblos, que na prática denota qualquer tipo de documento escrito,
mas originalmente aquele que foi escrito em papiro.
Um termo sinônimo de "a Bíblia" é "os escritos" ou "as Escrituras" (em
grego haigraphai, ta grammata), frequentemente usado no Novo Testamento para
designar, no todo ou em parte, os documentos do Antigo Testamento. Por exemplo,
Mateus 21.42 diz: "Nunca lestes nas Escrituras?" (en tais graphais). A passagem
paralela, Marcos 12.10, traz o singular, referindo-se ao particular texto citado: "Ainda
não lestes esta Escritura?" (ten graphen tauten). Em 2 Timóteo 3.15, temos "as
sagradas letras" (ta hiera grammata), e o versículo seguinte (ARA) diz: "Toda
Escritura é inspirada por Deus" (pasagraphe theopneustos). Em 2 Pedro 3.16, "todas"
as epístolas de Paulo são incluídas junto com "as outras Escrituras" (tas loipas
graphas), as quais presumem-se que sejam os escritos do Antigo Testamento e
provavelmente os evangelhos também2.
que contém e pode oferecer Marcos. Quando examinamos estes versículos
adicionais nos damos conta de que mais de 200 são quase idênticos. Por exemplo, são
virtualmente iguais entre si passagens como Lucas 6:41-42 e Mateus 7:3-5; Lucas
10:21-22 e Mateus 11:25-27; Lucas 3:7-9 e Mateus 3:7-10. Mas também notamos que
1 MacARTHUR, John. Manual bíblico MacArthur. Thomas Nelson Brasil. Edição do Kindle.
2 COMFORT, Philip Wesley, ed. A Origem da Bíblia - Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias
de Deus, 1998, p 13 e 14.
Material de apoio 2
há uma diferença. O material que Mateus e Lucas extraíram de Marcos se ocupa
quase em sua totalidade de narrar acontecimentos da vida de Jesus; mas os 200
versículos que Mateus e Lucas têm em comum além dos que extraíram de Marcos é
que estão compostos totalmente de ensinos de Jesus; estes versículos nos falam nem
tanto do que Jesus fez mas sim do que disse. Fica claro que estes 200 versículos estão
tomados de uma fonte comum que os dois possuíram, na qual estavam contidos os
ensinos de Mateus (William Barclay) 3Jesus. Este livro não existe na atualidade; mas
os eruditos lhe deram o nome de Q, letra que representa a palavra Quelle4, que em
alemão significa fonte. Em sua época deve ter sido um livro de extraordinária
importância, porque foi o primeiro manual com os ensinos de Jesus.
A simples leitura dos Evangelhos conduz logo a uma primeira classificação,
que é resultante da constatação, de um lado, de que existe uma ampla coincidência da
parte de Mateus, Marcos e Lucas quanto aos temas de que tratam e quanto à
disposição dos elementos narrativos que introduzem; e por outro, o Evangelho de
João, cuja aparição foi posterior à dos outros três, parece ter sido escrito com o
propósito de suplementar os relatos anteriores com uma nova e distinta visão da vida
de Jesus. Porque, de fato, com exceção dos acontecimentos que formavam a história
da paixão de Jesus, apenas três dos fatos referidos por João (1.19-28; 6.1-13 e 6.16-21)
encontram-se também consignados nos outros Evangelhos.
Os Evangelhos
Os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João são cerca de 46 por cento
do Novo Testamento5. No primórdio da Igreja6, os Evangelhos foram colocados no
inicio de Cânon7 do NT, não por eles serem os primeiros livros escritos, mas por
serem a base fundamental sobre o qual Atos dos Apóstolos e as Epístolas são
3 William Barclay (download do comentário do NT).
4 Não há nenhuma evidência histórica ou manuscrita de que o documento Q tenha sequer existido;
trata-se puramente de uma fabricação do ceticismo moderno e uma maneira de possivelmente negar a
inspiração verbal dos evangelhos. MacArthur, John. Manual bíblico MacArthur (Locais do Kindle
9653-9655). Thomas Nelson Brasil. Edição do Kindle.
5 AT e NT abreviaturas de ANTIGO TESTAMENTO e NOVO TESTAMENTO.
6 Primórdio da Igreja. Compreende o período da Igreja Primitiva entre 30 a 300 d.C.
7 Cânon. A O termo "cânon" é proveniente do grego, no qual kanon significa regra, lista — um padrão de
medida. Com relação à Bíblia, diz respeito aos livros que satisfizeram o padrão e que, portanto, foram
dignos de inclusão. Desde o século IV, O vocábulo kanon é usado pelos cristãos para indicar uma lista
autoritária de livros que pertencem ao Antigo ou ao Novo Testamento. COMFORT, Philip Wesley. A
Origem da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1998, p 79.
Material de apoio 3
edificados. Ao mesmo tempo se originam do Antigo Testamento (AT) e o cumprem,
bem como fornecem um cenário histórico e teológico para o restante do NT. Em
nossa apostila de introdução ao NT, podemos ter uma melhor noção do que iremos
tratar nestas aulas, conforme J. Sidlow Baxter8 muito bem expressou:
De todos os livros da terra, ele é o mais maravilhoso em seu conteúdo, significado
e mensagem. Suas páginas são imortalizadas pela mais sublime das ideias e
ideais... Essas ideias não são apenas eticamente incorporáveis, mas vivos, cheios
de uma vitalidade inesgotável. Existe neles uma força moral e espiritual gloriosa e
explosiva que faz novos homens, abala nações inteiras, provoca novas eras e
resultará um dia num novo mundo [...] A maior necessidade deste nosso
perturbado século vinte e um é uma volta ao Novo Testamento. Ele pode fazer
mais por nós do que todas as teorias e teoristas económicos e políticos. Vai direto
ao âmago do problema humano - pois o coração do problema humano é o
problema do coração humano.
Os Evangelhos e Atos no contexto do Antigo Testamento
A Obra-Prima terminada. Onde o AT explica o NT e o NT completa no AT.
Sem ele o Velho é como um rio que se perde na areia. Seria uma revelação sem
destino: algo previsto, mas nunca concretizado; promessa sem cumprimento; preparo
sem consumação. Jesus Cristo no AT é profetizado, no NT Ele é revelado e encarnado.
Jesus do NT, em relação ao seu nascimento, vida, morte, ressurreição e ascensão são
registrados historicamente nos evangelhos, interpretados espiritualmente em Atos e
nas Epístolas, e consumado por antecipação em Apocalipse. Jesus Cristo do NT é
cumprimento da cerimonia, história, filosofia e profecia do AT.
 No AT Ele está vindo.
 No Evangelho Ele veio em humanidade visível.
 Em Atos e nas Epístolas Ele chegou através do Espírito Santo invisível.
 No Apocalipse Ele volta na glória do império mundial.
O NT é o livro mais vital do mundo, Seu tema supremo é o Senhor Jesus
Cristo, Seu objeto supremo é a salvação dos seres humanos. Seu projeto supremo é o
reinado final do Senhor Jesus num império sem limites e eterno.
8 BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras. Período Interbíblico e Evangelhos. São Paulo: Vida Nova,
1985. p 96.
Material de apoio 4
A Bíblia e o resumo da Teologia do Novo Testamento
O Dr. William H. Griffith Thomas9 sugere quatro palavras, a fim de ajudar-nos a
ligar toda a revelação de Deus:
 PREPARAÇÃO...No Antigo Testamento Deus prepara o mundo para a vinda do
Messias.
 MANIFESTAÇÃO...Nos quatro Evangelhos, Cristo entra no mundo, morre pelo
mundo e funda a suaIgreja.
 APROPRIAÇÃO... Em Atos e nas Epístolas, são apresentadas maneiras pelas
quais o Senhor Jesus foi recebido, apropriado e aplicado à vida das pessoas.
 CONSUMAÇÃO... No Apocalipse revela-se o resultado do plano perfeito de
Deus.
Evangelho conceito e significação
A palavra grega ( transliterado => euaggelion se refere às
“Boas Noticias” ou “Alegres Noticias, Boas Novas” acerca de Jesus Cristo, que foi
oralmente proclamado. No grego secular, euangellion se referia a uma boa notícia a
respeito de um acontecimento importante10. Mais tarde veio a ser também as Boas
Notícias escritas em pergaminhos. A Igreja primitiva considerou somente os quatro
Evangelhos, da forma que os conhecemos, como dotados de autoridade e divinamente
inspirados11. Foram distinguidos uns dos outros pela preposição grega ( kata
(segundo), acompanhada pelo nome do escritor. Em relação a língua em que foi
escrito, certamente foi a língua grega, pois era o idioma comum de todo o império ou
mundo conhecido na época, e por isso o mais adequado canal de propagação das
narrativas evangélicas.
9oDisponíveloem::https://www.passeidireto.com/arquivo/61611074/universidade-da-biblia-41-os-evangel
hos
10 MacArthur, John. Manual bíblico MacArthur (Locais do Kindle 8243). Thomas Nelson Brasil. Edição do
Kindle.
11 Nesta disciplina Teologia do Novo Testamento, abrangendo os Evangelho e Atos dos Apóstolos, nós
partimos deste pressuposto: que a Bíblia em sua totalidade é revelação inspirada, completa, inerrante e
verdadeira.
Material de apoio 5
Os quatro relatos: Mateus, Marcos, Lucas e João fornecem um retrato
composto da pessoa do Salvador, operando juntos para fornecer profundidade clareza
à nossa compreensão da mais singular figura da história humana. Neles Jesus é visto
como Divino e humano, o Servo soberano, O Deus-homem. Cada Evangelho tem uma
dimensão distintiva a acrescentar, de sorte que o total é maior que a soma das partes.
Baxter em relação aos quatro evangelhos, diz que: “os mesmos estão agrupados numa
tal unidade quadrupla de apresentação, como só, a superintendência Divina poderia
ter efetuado”. No Livro Examinai as Escrituras12 Baxter vai mais longe dizendo que:
“Se quatro homens não inspirados tivessem escrito quatro narrativas separadas e
independentes, nos certamente nos veríamos face a face com verdadeiras contradições
e incorreções...”. Por outro lado, os quatro evangelhos estão registrados de forma
harmonica, e usando um termo emprestado da música, “afinados” de tal forma que
existe um paralelo entre os quatro evangelhos e os quatro seres viventes como
descritos em Ezequiel 1:10 E a semelhança dos seus rostos era como o rosto de
homem; e do lado direito todos os quatro tinham rosto de leão, e do lado esquerdo
todos os quatro tinham rosto de boi; e também tinham rosto de águia todos os quatro.
 Em Mateus13 vemos o Messias-Rei (o leão).
 Em Marcos14 vemos o Servo do Senhor (o boi).
 Em Lucas15 vemos o Filho do Homem (o homem).
 Em João vemos o Filho de Deus (a águia).
Os quatro aspectos são necessários para transmitir toda a verdade. Como
soberano Ele vem para reinar e governar. Como Servo vem para servir e sofrer. Como
Filho do Homem vem para participar e consolar. Como Filho de Deus vem para
revelar e remir. Soberania e humildade; humanidade e divindade, que magnífica
coleção! No Manuel Bíblico de McArthur16 temos este comentário: “Os quatro
12 BAXTER, J. Sidlow, op. Cit., p 128.
13 CRISTO EM MATEUS Mateus escreve principalmente aos judeus, defendendo Jesus como Rei e
Messias de Israel. Ao citar em seu evangelho passagens proféticas do AT mais que sessenta vezes, ele
enfatiza como Cristo, sendo o Messias, é o cumprimento de todas elas. Mateus demonstra a realeza de
Cristo ao se referir constantemente a ele por “Filho de Davi” (1:1; 9: 27; 12: 23; 15: 22; 20: 30; 21: 9,15;
22: 42,45). Manual bíblico MacArthur. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019.
14 Marcos apresenta Jesus como o servo sofredor de Deus (Mc 10:45). Seu foco está mais nos feitos
dele do que nos seus ensinos, enfatizando particularmente o serviço e o sacrifício. Cf. MacArthur, op.
Cit., p.
15 Lucas também descreve Jesus como o Filho do Homem, enfatizando sua oferta de salvação para o
mundo. Cf. MacArthur, op Cit., (Locais do Kindle 10125-10126).
16 MacArthur, op Cit., (Locais do Kindle 10125-10126).
Material de apoio 6
evangelhos são as boas-novas sobre os acontecimentos mais significativos de toda a
História — a vida, a morte redentora e a ressurreição de Jesus de Nazaré”.
O que é o Evangelho
Às Boas Notícias a respeito de Jesus Cristo, o Filho de Deus nos são
apresentadas por quatro autores: Mateus, Marcos, Lucas e João, embora exista só um
Evangelho17, a bela história da salvação por Jesus Cristo, nosso Senhor. (Nota) A
palavra “Evangelho” nunca é usada no Novo Testamento para referir-se a um livro.
Significa sempre “Boas-Notícias”.
Evangelhos e Evangelistas
Tradicionalmente, os autores dos quatro primeiros livros do Novo
Testamento recebem o nome de “evangelistas”, título que na Igreja primitiva
correspondia às pessoas a quem, de modo específico, se confiava a função de anunciar
a boa nova de Jesus Cristo (At 21.8; Ef 4.11; 2Tm 4.5 e cf. At 8.12,40).
Durante os anos que se seguiram à ascensão do Senhor, a pregação
apostólica foi, sobretudo, verbal como vemos na leitura de Atos. Mais tarde, quando
começaram a desaparecer aqueles que haviam conhecido Jesus em pessoa, a Igreja
sentiu a necessidade de fixar por escrito a memória das palavras que haviam ouvido
dele e dos seus atos que haviam presenciado. Durante certo tempo, circularam entre as
comunidades cristãs de então numerosos textos referentes a Jesus, que, na maioria dos
casos, eram simples apontamentos dispersos e sem conexão. Apesar do seu caráter
fragmentário, porém, aqueles breves relatos representaram a passagem da tradição
oral à escrita, passagem que presidiu o nascimento dos nossos quatro Evangelhos.
17 O Evangelho que Jesus proclamava era um discipulado, um chamado a segui-Lo em obediência
submissa, e não um mero apelo a que se fizesse uma decisão ou oração. A mensagem de Jesus
libertava as pessoas de sua escravidão ao pecado, ao mesmo tempo em que confrontava e condenava
a hipocrisia.Ela era uma oferta de perdão e vida eterna aos pecadores arrependidos, mas também era
uma censura aos religiosos de fachada, cuja a vida era destituídas da verdadeira justiça. Era um alerta
aos pecadores abandonar o pecado e abraçar a justiça de Deus. Em todos os sentidos, a sua
mensagem eram Boas Novas. Porém não era de modo algum uma fé fácil.
O Evangelho segundo Jesus. John F. MacArthur, Jr., pg 41.
Material de apoio 7
Os evangelhos sinóticos
Os primeiros três evangelhos, Mateus, Marcos e Lucas, são conhecidos
geralmente como os evangelhos sinóticos. A palavra sinótico provém de duas palavras
gregas que significam ver conjuntamente. Sinótico significa literalmente "que se pode
ver ao mesmo tempo". A razão deste nome é a seguinte. Estes três evangelhos
oferecem o relato dos mesmos acontecimentos da vida de Jesus. Em cada um deles há
episódios adicionados, ou outros que se omitem; mas em geral o material é o mesmo,
assim como é o seu próprio ordenamento. Portanto é possível colocá-los em três
colunas paralelas e lê-los simultaneamente, comparando-os entre si ao fazê-lo.
Quando se faz isto, fica bem evidente que estes três evangelhos estão intimamente
relacionados. [...] A correspondência entre os três evangelhos sinóticos é tão íntima
que nos impõe extrair a conclusão de que, ou os três tomam seus materiais de uma
fonte comum, ou dois deles copiam do terceiro. [...] Os ensinos de Jesus Vimos que
Mateus tem 1068 versículos e Lucas 1149 e que entre os dois reproduzem 582 dos
versículos do Marcos. Isto significa que em Mateus e Lucas há muito mais material de
Os sinóticos e João
Charles Swindoll diz que não temos quatro evangelhos; temos apenas um
evangelho, escrito de quatro pontos de vistadiferentes. Temos uma biografia
elaborada por quatro testemunhas, cada escritor provendo uma perspectiva peculiar.5
Nessa mesma linha de pensamento, Andreas Kostenberger afirma: “Os quatro
evangelhos bíblicos apresentam o único evangelho da salvação em Jesus Cristo,
segundo quatro testemunhas importantes: Mateus, Marcos, Lucas e João”.
Sidlow Baxter coloca que em relação aos quatro evangelhos, os sinóticos
cobrem quase o mesmo terreno, enquanto o registro de João, além de ter sido escrito
consideravelmente mais tarde, trata em sua maior parte de matéria não mencionado
nos sinóticos. Está isolado no tempo e no caráter em relação aos outros evangelhos.
Existe um relacionamento contrastante ente eles, vejamos:
SINÓTICOS JOÃO
Fatos externos da vida do Senhor. Fatos internos da vida do Senhor
Aspectos humanos da vida do Senhor. Aspectos Divinos da vida do Senhor
Os discursos públicos (em geral) Os discursos particulares (em geral)
Material de apoio 8
O ministério na Galiléia (em especial) O ministério na judéia (em especial)
Cânon
E complementa o escritor salientando a adaptação seletiva dos evangelhos.
De modo que Mateus escreveu principalmente para o Judeu, Marcos para o Romano,
Lucas para o Grego, e João para a Igreja. O escopo desse evangelho possui
abrangência universal.
Livro de João
Na introdução de seu livro Myer Pearlman destaca a mensagem teológica
principal contida em João 20.31 [..] “que é oferecer um a série de evidências que com
provem a natureza e a missão divinas de Jesus. [...] Com o Filho de Deus foi
manifestado ao mundo”. Este prefácio apresenta as três grandes ideias que percorrem
o evangelho inteiro:
1. A revelação do Verbo, v. 1-4.
2. A rejeição do Verbo, v. 5-11.
3. A aceitação do Verbo, v. 12-14.
O Evangelho de João é singular. Mateus, Marcos e Lucas são chamados
Evangelhos Sinóticos porque, a despeito de suas ênfases individuais, descrevem
muitos dos mesmos eventos da vida de Jesus de Nazaré. João se volta principalmente
para eventos e discursos não comuns aos outros evangelhos, com intuito de provar a
seus leitores que Jesus é Deus na carne, a eterna Palavra vinda à terra, que nasceu para
morrer como sacrifício oferecido a Deus para tirar o pecado humano. Sete sinais
miraculosos provam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo,
tenhais vida em seu nome (20.31). Jamais se escreveu um tratado evangélico mais
excelente que a narrativa inspirada que João elaborou sobre a vida, morte e
Ressurreição. Concordo com John MacArthur quando ele diz que o objetivo de João
era tanto apologético, “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, como
evangelístico, e que crendo tenhais vida em seu nome” (20.31).
Estudar esse livro é entrar no santo dos santos, além do véu, e contemplar as
glórias do Filho de Deus. Este evangelho foi escrito no final do primeiro século,
depois que os demais apóstolos já estavam mortos pelo viés do martírio e depois que
os Evangelhos Sinóticos já circulavam nas igrejas por mais de quarenta anos.
Morando em Éfeso, capital da Ásia Menor, e já enfrentando todas as ameaças do
Material de apoio 9
gnosticismo emergente, uma ameaçadora heresia que atacou a igreja nos três
primeiros séculos, João escreve esse livro para enfatizar a verdade incontroversa de
que o Filho de Deus, o Verbo eterno, se fez carne e veio habitar entre nós.
O propósito de João foi deixar claro que Jesus é o Filho de Deus e levar
seus leitores a uma confiança inabalável nele, como condição indispensável para
receber a vida eterna. Para provar essa verdade indubitável, João seleciona sete
milagres operados por Jesus: a transformação da água em vinho (2.1-11), a cura do
oficial (4.46-53), a cura do paralítico em Betesda (5.1-9), a multiplicação dos pães e
peixes (6.1-13), a caminhada sobre o mar (6.12-21), a cura do cego de nascença (9.1-7)
e a ressurreição de Lázaro (11.1-44). Nessa mesma toada, João seleciona sete
afirmações de Jesus, que remetem os leitores à revelação que Deus fez de si mesmo,
quando disse a Moisés no monte Sinai: Eu Sou o que Sou (Êx 3.14). Desta forma,
Jesus se identifica como o Deus Jeová que apareceu a Moisés no monte santo. Jesus
disse: Eu sou o pão da vida (6.35); Eu sou a luz do mundo (8.12); Eu sou a porta
(10.9); Eu sou o bom pastor (10.11); Eu sou a ressurreição e a vida (11.25); Eu sou o
caminho, a verdade e a vida (14.6); Eu sou a videira verdadeira (15.1). As obras de
Jesus e suas declarações levam-nos inconfundivelmente à conclusão de que ele
verdadeiramente é o Filho de Deus.
O autor
Embora os quatro evangelhos sejam anônimos, ou seja, não tragam o nome de seu
autor, há inconfundíveis e irrefutáveis evidências internas e externas de que esse
evangelho foi escrito pelo apóstolo João, irmão de Tiago, filho de Zebedeu,
empresário de pesca do mar da Galileia. Sua mãe era Salomé (Mc 15.40; Mt 27.56), a
qual contribuiu financeiramente com o ministério de Jesus (Mt 27.55,56) e pode ter
sido irmã de Maria, mãe de Jesus (Jo 19.25). Se essa interpretação for verdadeira,
então João e Jesus eram primos.7 Sem apresentar seu nome, o autor se identifica
como testemunha, em sua conclusão do evangelho: E é esse o discípulo que dá
testemunho dessas coisas e que as escreveu (21.24).
Pais da igreja como Papias, Irineu, Eusébio, Tertuliano, Clemente de Alexandria,
entre outros, deram amplo testemunho da autoria joanina para esse evangelho. O
Cânon muratoriano, do segundo século d.C., também atribui esse evangelho a João.11
Material de apoio 10
F. F. Bruce escreve: “No fim do segundo século, o evangelho de João era reconhecido
normalmente nas igrejas cristãs como um dos evangelhos canônicos.
Livro de Atos dos Apóstolos
Atos dos Apóstolos é o primeiro livro da história da igreja crista. Registra a
caminhada da igreja de Jerusalém a Roma. Este robusto livro não tem conclusão,
porque a história da igreja continua. Cabe-nos dar continuidade a esta bendita
empreitada de levar o evangelho de Cristo até aos confins da terra e fazer discípulos
de todas as nações.
Atos desenvolve o esboço traçado por Jesus, o Senhor da Igreja, quando
disse aos seus discípulos: “E recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e
sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia, Samaria e até
aos confins da terra (1.8)”.
Embora este livro seja chamado de Atos dos Apóstolos, Lucas enfatiza
especialmente o ministério de Pedro e Paulo. A primeira metade do livro destaca o
ministério de Pedro, e a outra metade se debruça sobre o ministério de Paulo. Pedro
endereçou seu ministério aos judeus e Paulo se dirigiu aos gentios. Embora os
judaizantes tenham lutado com todas as forças para colocar um apóstolo contra o
outro, insinuando que pregavam mensagens diferentes, ficou provado, tanto em Atos
como nas epístolas, que ambos os apóstolos estavam em harmonia e que essa
insinuação não passava de consumada mentira. O evangelho é um só. Proclama a
salvação pela graça mediante a fé, independentemente das obras. A salvação não é
resultado da obra que fazemos para Deus, mas da obra que Deus fez por nós em
Cristo Jesus, seu amado Filho.
Atos não é um livro exaustivo. Não tem a pretensão de registrar todos os
detalhes do avanço missionário da igreja de Jerusalém a Roma. Lucas, como zeloso
historiador, selecionou apenas alguns pontos importantes para ressaltar a vitoriosa
marcha do cristianismo até a capital do Império.
Nessa jornada, os apóstolos enfrentaram implacável perseguição dos judeus.
Aqueles que deveriam ser os maiores promotores da fé cristã assumiram a desditosa
posição de seus maiores inimigos. Seja em Jerusalém ou Damasco, na província da
Galácia ou na Macedônia, ou ainda na província da Acaia ou Ásia Menor, os judeus
foram sempre e sem cessar os grandes opositores do evangelho. Curiosamente, Lucas
Material de apoio 11
registra que, em todo o tempo e por todos os lugares, os romanos constituíram-se em
defensores da fé cristã e protetores de seus arautos.Atos é um livro para ser estudado não como uma história remota e distante,
mas como um desafio presente. Os tempos mudaram, mas Deus não mudou. As
circunstâncias são outras, mas o evangelho é o mesmo. A forma de pregar pode ser
repaginada, mas o conteúdo da pregação permanece inalterável. Não pregamos um
Cristo que esteve vivo e agora está morto, mas o Cristo que esteve morto e agora está
vivo. Pregamos o Cristo que padeceu por nossos pecados, mas triunfou sobre a morte
e desbancou os principados e potestades na cruz. Pregamos o Cristo que ressuscitou e
está assentado no trono; governa a igreja e tem as rédeas da história em suas mãos.
Pregamos o Cristo que voltará em glória para colocar todos os seus inimigos debaixo
de seus pés e reinar para sempre com sua igreja.
Estudar o livro de Atos é trazer à memória os gloriosos feitos de Deus. É
alimentar nossa alma com a esperança de que o mesmo Deus que realizou coisas
exponenciais no passado tem poder para realizar de novo em nossos dias. Estudar o
livro de Atos é nutrir nosso coração com a perspectiva de novos avivamentos, que
coloquem a igreja no trilho da verdade e firmem seus passos no caminho da santidade.
O livro de Atos é a dobradiça do Novo Testamento. Ele fecha os evangelhos
e abras epístolas. William Barclay considera-o um dos mais importantes livros do
Novo Testamento. Calvino o chamou de “um grande tesouro” e Martyn Loyd-Jones,
de “o mais lírico dos livros”. O livro de Atos é a segunda parte de uma obra cujo
primeiro volume é o Evangelho de Lucas. O objetivo de Lucas em sua dupla obra era
oferecer um relato coordenado das origens cristas. Lucas reúne a história de Jesus e a
história da igreja primitiva. Explica como as boas novas começaram e se espalharam a
ponto de abranger o mundo mediterrâneo, desde Jerusalém até Roma. O segundo
volume trata de tudo o que Jesus continuou a fazer e ensinar. O livro de Atos não tem
a pretensão de ser um registro detalhado da história da igreja primitiva, mas foca sua
atenção especialmente no ministério de Pedro e Paulo, destacando a vitoriosa marcha
do cristianismo de Jerusalém à capital do Império Romano.
Desta maneira, os dois volumes abrangem o começo do evangelho e a
proclamação da salvação pela igreja primitiva. David Stern sugere que esse “segundo
livro” poderia ser chamado de “Lucas, Parte II”. Matthew Henry diz que as promessas
feitas nos evangelhos têm seu cumprimento em Atos. A comissão dada aos apóstolos
lá é executada aqui, e os poderes implantados lá são mostrados aqui em milagres
Material de apoio 12
feitos no corpo das pessoas: milagres de misericórdia, curando corpos doentes e
ressuscitando corpos mortos; milagres de julgamento, golpeando os rebeldes com
cegueira ou tirando-lhes a vida; e milagres muitos maiores feitos na mente das
pessoas, concedendo-lhes dons espirituais, dons de entendimento e dons de expressão
vocal. E toda essa dinâmica é consequência dos propósitos de Cristo e do
cumprimento de suas promessas feitas nos evangelhos.
Citando Leon Tucker, Myer Pearlman afirma que Atos pode ser sintetizado
em três palavras: ascensão, descida e expansão. A ascensão de Cristo é seguida pela
descida do Espírito, que por sua vez é seguida pela expansão do evangelho.
Destacamos três verdades importantes sobre a mensagem de Atos, à guisa de
introdução. Em primeiro lugar, a importância de sua mensagem. John Stott diz que
Atos é fundamental por causa de seus registros históricos e também por sua inspiração
contemporânea. Atos narra a história da igreja apostólica, desde os seus primeiros
passos em Jerusalém até Roma, a cidade imperial. Faz uma estreita conexão entre o
que Jesus começou a fazer e ensinar e o que ele continuou a fazer e ensinar por
intermédio dos apóstolos.
O livro de Atos não coloca no centro do palco os apóstolos, mas o Senhor
Jesus. E ele quem fala e faz. Os homens de Deus são apenas instrumentos; o agente é
o próprio Filho de Deus. O poder que transforma vidas não vem do homem, mas de
Deus; não vem da terra, mas do céu; não vem de dentro, mas de cima. Concordo com
Guilherme Orr quando diz que o tema central de Atos é ainda Cristo, mas agora é o
Cristo ressuscitado, vivo, que dá poder, e que desafia seus seguidores a irem por todo
o mundo com a incomparável história do amor de Deus.
William MacDonald ressalta com razão que o livro de Atos é a única
história da igreja inspirada; é também o primeiro livro da história da igreja apostólica.
Atos não é apenas uma ponte que liga a vida de Cristo com o Cristo vivo ensinado nas
epístolas; é também um elo de transição entre o judaísmo e o cristianismo, entre a lei
e a graça.
Em segundo lugar, a necessidade de sua mensagem. Atos é um manual
sobre o crescimento saudável da igreja. Uma igreja saudável cresce naturalmente.
Quando a igreja vive a doutrina apostólica, Deus acrescenta a ela, diariamente, os que
vão sendo salvos. O livro de Atos é o mais importante manual de crescimento da
igreja. Se quisermos vê-la crescer, não devemos começar com os manuais modernos;
Material de apoio 13
devemos retornar ao livro de Atos e nele buscar os princípios que levaram a igreja de
Jerusalém a Roma em poucas décadas.
John Stott está correto ao dizer que o livro de Atos trata de importantes
questões para a igreja contemporânea, como o batismo do Espírito Santo, os dons
espirituais, sinais e milagres carismáticos, a comunhão econômica da primeira
comunidade cristã em Jerusalém, a disciplina na igreja, a diversidade de ministérios, a
conversão cristã, o preconceito racial, os princípios missionários, o preço da unidade
cristã, as motivações e os métodos na evangelização, o chamado para sofrer por Cristo,
a relação entre a igreja e o Estado, e a providência divina. O livro Atos é também o
maior livro de missões do mundo. E, de igual forma, o maior livro sobre organização
e procedimentos eclesiásticos.
Em terceiro lugar, a urgência de sua mensagem. O livro de Atos trata do
crescimento espiritual e numérico da igreja. Para alcançar esse alvo, a igreja manteve,
inseparavelmente, ortodoxia e piedade, doutrina e vida, palavra e poder. Ortodoxia
sem piedade gera racionalismo estéril.
Piedade sem ortodoxia produz misticismo histérico. Ao longo da história, a igreja
várias vezes caiu num extremo ou noutro. Ainda hoje, vemos muitas igrejas zelosas
da doutrina, mas áridas como um deserto; outras cheias de entusiasmo, mas vazias de
doutrina. Atos é um alerta para a necessidade urgente de uma nova reforma e de um
profundo reavivamento. Não precisamos buscar as novidades do mercado da fé, mas
nos voltarmos às origens do cristianismo apostólico.
O autor de Atos
O autor de Atos dos Apóstolos e do Evangelho nada diz a respeito de si mesmo, nem
mesmo em sua dedicatória pessoal a Teófilo. A tradição eclesiástica, porém, desde
cedo não tem dúvidas de que o autor é Lucas. Lucas era médico e historiador. A
tradição liga-o à cidade de Antioquia da Síria, a terceira maior do mundo naquela
época. Único escritor gentio do Novo Testamento, Lucas foi testemunha ocular dos
ocorridos nas viagens missionárias de Paulo, uma vez que acompanhou o apóstolo
nessas peregrinações como seu companheiro e médico.
Embora o nome de Lucas não apareça explicitamente em Atos, há um consenso
praticamente unânime de que ele foi seu autor. Há sobejas evidências internas da
autoria lucana. Dentre as provas internas, destacamos três:
Material de apoio 14
1. O prólogo do livro. O autor demonstra que está dando continuidade a um relato,
endereçado ao mesmo indivíduo ao qual já destinara a parte inicial da obra: Escrevi o
primeiro livro, ó Teófilo. O relato começa em Lucas e termina em Atos.
2. A perfeita identidade vocabular. São 17 os vocábulos comuns a Mateus e
Lucas-Atos que não figuram nos demais livros do Novo Testamento; há 14 palavras
exclusivas de Marcos e Lucas-Atos; e há 58 palavras que só aparecem em Lucas.
3. A alta qualidade do grego coinê de Lucas-Atos, quase clássico, é forte evidênciade
que ambos foram escritos pela mesma mão. Howard Marshall enfatiza que a
linguagem e o estilo de Lucas se destacam no Novo Testamento e demonstram que,
entre todos os escritores, este era o mais consciente de estar escrevendo literatura para
uma audiência culta.
Quanto às evidências externas, ressaltamos que o Cânon Muratoriano e uma gama
enorme de Pais da igreja reconheceram Lucas como autor de Atos. Entre eles, citamos
Eusébio, Irineu, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Orígenes e Jerônimo.
Cânon
O Novo Testamento foi escrito dentro de um período de cinquenta anos,
vários séculos depois que o Antigo Testamento foi completado. Ambas as partes
dessa declaração seriam questionadas por críticos modernos, que aumentariam o
intervalo de tempo para a completação de ambos os Testamentos. Entretanto, o
escritor deste ensaio está seguro de sua autenticidade aos fatos históricos. Além disso,
o método usado para a canonização tanto do Antigo quanto do Novo Testamento está
solidamente baseado naquela dupla premissa.
Em relação ao tempo, o Antigo Testamento está tão distante de nós que sua
formação como corpo escriturístico poderia ser considerada longínqua demais para a
atestação de seu conteúdo. Tal não é o caso. Em certo sentido, temos atestações muito
maiores para o cânon do Antigo Testamento do que para o cânon do Novo
Testamento. Referimo-nos ao fato do próprio imprimátur18 de nosso Senhor Jesus
Cristo, pela maneira como fez uso das Escrituras hebraicas como a Palavra autoritária
de Deus. Não obstante, há um sentido no qual Jesus Cristo realmente oficializou o
conteúdo ou cânon do Novo Testamento: pela via da antecipação. Foi Ele quem nos
18 Imprimátur - Permissão concedida por autoridade religiosa para que seja impresso texto submetido à
sua censura, e que passa a figurar no verso da página de rosto ou do anterosto. Disponível:
pt.m.wikipedia.org/wiki/imprimatur
Material de apoio 15
fez estas promessas: o "Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome,
vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito" e "ele
vos guiará em toda a verdade" (Jo 14.26; 16.13).
A partir disto podemos inferir, ao mesmo tempo, O princípio básico da
canonicidade para o Novo Testamento. E idêntico ao do Antigo Testamento, visto que
se restringe à questão da inspiração divina. Quer pensemos nos profetas dos tempos
do Antigo Testamento ou nos apóstolos e seus companheiros dados por Deus nos dias
do Novo Testamento, o reconhecimento na própria época de seus escritos de que eram
autênticos porta-vozes de Deus é o que determina a canonicidade intrínseca de seus
registros. E inteiramente a Palavra de Deus, somente se for respirada por Deus.
Podemos estar certos de que os livros em questão foram recebidos pela Igreja dos
tempos apostólicos, precisamente no momento em que foram atestados por um
apóstolo como sendo dessa maneira inspirados. A variação evidente relativa à área
geográfica, no reconhecimento de algumas das epístolas do Novo Testamento, pode
muito bem ser o reflexo do simples fato de que, em princípio, essa atestação era por
sua própria natureza localizada. De maneira inversa, o fato de cada um dos 27 livros
do Novo Testamento hoje universalmente aceitos ter recebido aprovação definitiva é
prova de que a atestação apropriada era dada somente depois de rigorosa investigação.
Tertuliano, notável escritor cristão das primeiras duas décadas do século III, foi um
dos primeiros a chamar as Escrituras cristãs de "Novo Testamento". Esse título havia
aparecido antes (c. 190) em uma composição feita contra o montanismo, de autor
desconhecido. Esse fato é significativo. Seu uso colocou as Escrituras do Novo
Testamento em um nível de inspiração e autoridade igual ao do Antigo Testamento.
Partindo de informações disponíveis, o processo gradual que conduziu ao completo e
formal reconhecimento público de um cânon estabelecido em 27 livros, formando o
Novo Testamento, leva-nos ao século IV de nossa era. Isso não significa
necessariamente que antes desse período estivesse faltando reconhecimento para a
integridade destas Escrituras, mas que a necessidade de uma definição oficial do
cânon não foi premente até então. Análogo a isso seria o modo como certas doutrinas
teológicas foram enunciadas em determinados períodos da história da Igreja, como
por exemplo as formulações cristológicas dos primeiros séculos e a doutrina da
justificação pela fé na época da Reforma. O fato de Tertuliano ser creditado por
alguns como o primeiro a definir a Trindade, evidentemente não significa que a
doutrina do Deus trino tenha vindo à existência naquele ponto da história ou que a
Material de apoio 16
Bíblia não contenha essa verdade. Da mesma forma, o Novo Testamento, que foi
realmente completado com a redação de sua porção final (o que necessariamente não
é o livro de Apocalipse), não constituiu Escritura por declarações de homens, quer
falando individualmente quer coletivamente. Ainda que o Novo Testamento seja em
grande parte o correlativo e o complemento da revelação do Antigo Testamento, sua
estrutura formal é um tanto quanto diferente. O princípio organizacional do cânon do
Antigo Testamento é, em essência, similar a um documento do concerto. O
Pentateuco, em particular, compartilha do padrão estabelecido em outros tratados e
acordos escritos no antigo Oriente Próximo. O princípio dos escritos sagrados e
autoritários estabelecido pelo Antigo Testamento para o povo de Deus, foi
obviamente levado para o Novo Testamento.
Embora um período de tempo muito mais curto esteja envolvido nos
escritos do Novo Testamento, o alcance geográfico de sua origem é muito mais amplo.
Essa circunstância já é suficiente para justificar a falta de reconhecimento espontâneo
ou simultâneo da extensão precisa do cânon do Novo Testamento. Por causa do
isolamento geográfico dos vários destinatários das porções do Novo Testamento,
houve espaço para algum atraso e incerteza de uma região para outra no
reconhecimento de alguns dos livros.
A fim de apreciarmos exatamente o que aconteceu, de fato, no processo de
canonização dos livros do Novo Testamento, devemos rever os fatos que nos estão
disponíveis. Isso nos capacitará a analisar como e por que nossos antepassados
cristãos nos deixaram como legado os 27 livros em nosso Novo Testamento.
O processo histórico19 foi gradual e contínuo, mas teremos facilidade em entendê-lo
se subdividirmos esse ciclo de quase três séculos e meio em períodos de tempo mais
curtos. Alguns falam em três estágios principais para a canonização. Isso implica, sem
o menor fundamento, que há etapas facilmente discerníveis ao longo do processo.
Outros simplesmente apresentam uma longa lista de nomes de pessoas e documentos.
Mas tal lista torna absolutamente difícil perceber alguma mudança de posição. Neste
ensaio, faremos uma divisão um tanto quanto arbitrária em cinco períodos, com o
19 Ao longo dos séculos, três princípios amplamente reconhecidos foram utilizados para validar os
escritos provenientes da revelação e inspiração divinas. Primeiro, o escrito tinha de ter um profeta ou
apóstolo reconhecido como autor (ou alguém associado a eles, como no caso de Marcos, Lucas,
Hebreus, Tiago e Judas). Segundo, o escrito não podia discordar de (nem contradizer) outra Escritura.
Terceiro, o escrito tinha de obter um consenso geral por parte da Igreja como um livro inspirado.
Portanto, quando vários concílios se reuniram durante a história da Igreja para considerar o cânone, eles
não votaram em favor da canonicidade de um livro; antes, reconheceram, a posteriori, aquilo que Deus
já havia escrito. MacArthur, John. Manual bíblico MacArthur (Locais do Kindle 342, 345-347).
Material de apoio 17
lembrete de que a expansão do conhecimento da literatura sagrada e o veemente
consenso em relação à sua autenticidade como Escritura inspirada continuaram
ininterruptamente. Os períodos são:
1. Século I
2. Primeira Metade do Século II
3.Segunda Metade do Século II
4. Século III
5. Século IV
Mais uma vez, sem querer fazer supor que essas sejam etapas
claramente delineadas, será útil notar as principais tendências observáveis em cada
um dos períodos supracitados. No primeiro período, naturalmente, muitos livros
foram escritos, mas também já começaram a ser copiados e divulgados pelas igrejas.
No segundo, à medida que iam se tomando cada vez mais conhecidos e apreciados
pelo que continham, passaram a ser citados como fonte de autoridade. Pelo fim do
terceiro período, já detinham um lugar reconhecido ao lado do Antigo Testamento
como "Escritura", quando então passaram a ser traduzidos para as línguas regionais e
também se tornaram tema de comentários. Durante o século III, nosso quarto período,
a compilação de livros em um "Novo Testamento" completo estava em andamento,
juntamente com um processo de seleção que os ia distinguindo das outras literaturas
cristãs. O último ou quinto período encontra os pais da Igreja do século IV afirmando
que conclusões relacionadas ao cânon haviam sido alcançadas, o que indica a
aceitação por toda a Igreja. Desse modo, no sentido mais estrito e formal da palavra, o
cânon foi estabelecido.
O conceito que a Igreja fazia do cânon, derivado antes de mais nada da
reverência dada às Escrituras do Antigo Testamento, apoiava-se na convicção de que
os apóstolos eram singularmente autorizados a falar em nome do único que possui
toda a autoridade — o Senhor Jesus Cristo. O desenvolvimento, partindo daí, é lógico
e direto. Aqueles que viram Jesus em pessoa estavam imediatamente sujeitos à sua
autoridade. Nosso Mestre pessoalmente autenticou suas palavras aos crentes. Esses
mesmos crentes sabiam que Jesus autorizara seus apóstolos a falarem em seu nome,
não só durante, mas também (e isso é mais importante) depois de seu ministério
terreno. O discurso apostólico no interesse de Jesus foi reconhecido na Igreja, quer
pela expressão vocal, quer pela forma escrita. Tanto a palavra falada quanto a carta de
um apóstolo constituíam as palavras de Jesus.
Material de apoio 18
A geração que seguiu a dos apóstolos recebeu o testemunho daqueles que
sabiam que eles tinham o direito de falar e escrever em nome de Jesus. Por
conseguinte, a segunda e a terceira geração de cristãos relembravam as palavras e
escritos apostólicos como as próprias palavras de Jesus. Isso é o que realmente se
queria dizer com canonização — reconhecimento da palavra divinamente autenticada.
Portanto, os crentes (a Igreja) não estabeleceram o cânon, mas simplesmente deram
testemunho de sua extensão ao reconhecer a autoridade das palavras de Jesus.
Bibliografia consultada
MacARTHUR, John. Manual bíblico MacArthur. Rio de Janeiro: Thomas Nelson
Brasil, 2019.
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras. Periodo Interbíblico e Evangelhos. São
Paulo, Vida Nova, 1985.
CARSON, D. A.; MOO, J. D.; MORRIS, L. Introdução ao Novo Testamento. São
Paulo: Vida Nova, 2004.
BARCLAY, William. (Obs.: ver sites consultados).
LOPES, Hernandes Dias. Marcos: o evangelho dos milagres. São Paulo: Hagnos,
2006
COMFORT, Philip Wesley, ed. A Origem da Bíblia - Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembléias de Deus, 1998
LOPES, Hernandes Dias. Atos: a ação do Espírito Santo na vida da Igreja. São Paulo:
Hagnos, 2012.
PEARLMAN, Myer. João, o Evangelho do Filho de Deus. CPAD: Rio de Janeiro,
1995.
HALE, Broadus David. Introdução ao estudo do Novo Testamento: Rio de Janeiro,
JUERP, 1983.
Sites Consultados
http://www.cpadnews.com.br/blog/claudionorandrade/posts/50/a-inspiracao-e-a-credi
bilidade-das-escrituras.html
https://www.passeidireto.com/arquivo/61611074/universidade-da-biblia-41-os-evange
lhos
https://pt.m.wikipedia.org/wiki/...
https://ferramentasteologicas.blogspot.com/2014/10/comentario-novo-testamento-will
iam_1.html?m=1
https://www.passeidireto.com/arquivo/61611074/universidade-da-biblia-41-os-evangelhos
https://www.passeidireto.com/arquivo/61611074/universidade-da-biblia-41-os-evangelhos
https://pt.m.wikipedia.org/wiki/...
https://ferramentas

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