Farmacologia dos ansiolíticos
7 pág.

Farmacologia dos ansiolíticos


DisciplinaPsicofarmacologia992 materiais7.608 seguidores
Pré-visualização3 páginas
Farmacologia dos ansiolíticos, sedativos e hipnóticos 
 O estresse é uma condição que desafia o equilíbrio e põe em risco a estabilidade e 
segurança de um organismo. Tem como sintomas: 
- Reflexos autonômicos: sudorese, taquicardia, entre outros; 
- Secreção adrenal: corticoide, cortisol e adrenalina; 
- Comportamento de defesa: medo, esquiva de situações; 
- Emoções negativas. 
 Todavia, o estresse possui também, quando na quantidade \u201ccerta\u201d, uma função 
fisiológica que está relacionada à melhora no desempenho do indivíduo, visualizada na Curva 
de Yerkes-Dodson: 
 
 Apesar de serem muito confundidos, a ansiedade e o medo são muito diferentes. 
Ambos são mecanismos de defesa, porém, a ansiedade tem caráter antecipatório (ou seja, 
prediz um risco em potencial), é acionada por um gatilho interno e é mais subjetiva. 
 Já o medo é acionado por um gatilho externo de ameaça iminente, prediz um risco real 
e não é tão subjetiva. 
 Ambos se tornam patológicos quando passam a interferir diretamente na 
produtividade e rotina do indivíduo. Tem ocorrido de forma frequente devido ao descompasso 
da evolução social em relação à evolução biológica, apesar de termos, no geral, hoje, 
problemas mais fúteis do que o que tínhamos no passado. 
 A ansiedade envolve vários sintomas somáticos e autonômicos, como taquicardia, 
tremores, sudorese, distúrbios do trato gastrointestinal, agitação, insônia, entre outros. Esses 
sintomas causam prejuízos cotidianos, pois diminuem a concentração e atenção e favorecem 
as sensações de fadiga e exaustão. 
 A ansiedade generalizada, a ansiedade social e o Transtorno Obsessivo Compulsivo são 
transtornos mentais que estão relacionados majoritariamente à ansiedade. Portanto são 
acionados por um gatilho interno e podem ser tratados com fármacos que potencializam o 
GABA (benzodiazepínicos) e, em segundo plano, fármacos a base de serotonina. 
 Já o pânico, a fobia simples e o estresse pós-traumático são transtornos mentais 
relacionados majoritariamente ao medo. Podem ser acionados por gatilhos internos ou 
externos, mas geralmente pelos externos, e são tratados com fármacos a base de serotonina 
(antidepressivos). 
 Existem diversas formas de intervir e tratar esses transtornos mentais. Há, por 
exemplo, as abordagens alternativas (como acupuntura, que libera no organismo serotonina e 
opioides), as abordagens psicológicas e a farmacoterapia, que não deve ser a única via de 
tratamento, mas pode fazer com que o paciente lide melhor com a própria doença e aceite 
outras abordagens, principalmente a psicológica. 
 A ansiedade ocorre devido a um desbalanço entre vias ansiolíticas (GABAérgica, 
serotoninérgica e endocanabinoide) e ansiogênicas (noradrenérgica, serotoninérgica, 
glicocorticoide e glutamatérgica) do SNC. 
OBS.: a serotonina está relacionado às duas vias e por isso deve ser cautelosamente analisada. 
Inibição neuronal por ação de GABA: 
 O GABAa é um receptor ionotrópico permeável ao cloreto. Ele causa a 
hiperpolarização da célula com a entrada de cloreto de forma a \u201cfrear\u201d o desbalanço entre as 
vias ansiogênica e ansiolítica. 
 Esse receptor possui 5 subnidades, que, geralmente, são 2 alfa, 2 beta e 1 gama. Ele 
possui vários possíveis sítios de interação de compostos endógenos ou fármacos. O GABA, no 
caso, interage entre as subunidades alfa e beta e, num mesmo canal, pode haver a interação 
de até duas dessas moléculas. 
 Outros agentes podem agir em sítios não comuns ao GABA, como o etanol (por isso 
sua ação ansiolítica), esteroides (o que explica a variação de humor durante o ciclo hormonal 
da mulher), barbitúricos e benzodiazepínicos. A picotroxina se liga internamente no canal e 
funciona como uma \u201crolha\u201d, impedindo a hiperpolarização do canal, portanto é um 
antagonista GABAa. 
Barbitúricos: 
 São fármacos que se originaram do barbital. São obsoletos como ansiolíticos, mas 
ainda são utilizados como anticonvulsivantes (fenobarbital \u2013 gardenal) e anestésicos 
(tiopental). 
 O mecanismo básico de ação dos barbitúricos consiste na ligação dos barbitúricos em 
seu sítio específico no canal GABAa, que está localizado entre as subunidades alfa e beta, 
permitindo o influxo de cloreto. Em baixas doses, o barbitúrico altera a conformação do 
receptor, que altera sua afinidade por GABA. Ao mesmo tempo, causa um aumento no tempo 
de abertura do canal, de forma que cada vez que o canal se abre, ele fica aberto por mais 
tempo. Tudo isso causa uma hiperpolarização do canal por entrada de cloreto. Os barbitúricos 
também aumentam a afinidade do GABAa aos BZD e causam menor ativação dos receptores 
glutamatérgicos AMPA. 
 A principal desvantagem dos barbitúricos é que, em doses muito altas, eles podem 
abrir o canal GABAa por si só, podendo causar uma depressão generalizada do sistema 
nervoso central e, portanto, morte. 
 Os barbitúricos já foram utilizados como sedativos ou hipnóticos devido à sua ação no 
hipotálamo. Apesar de não mais serem utilizados para esse fim, esse pode ser um efeito 
indesejado para o uso dos barbitúricos para a ação anticonvulsivante ou anestésica. 
 Todos os barbitúricos causam indução enzimática, que é o aumento da produção de 
enzimas hepáticas, o que faz com que o metabolismo deles mesmos e de outros fármacos 
sejam afetados. Causam, também, tolerância, dependência e dependência cruzada 
(desenvolvimento de tolerância para qualquer fármaco depressor do sistema nervoso central 
que tenha ação em GABA). Alguns barbitúricos podem causar hiperalgesia, ou seja, aumentam 
a sensação de dor, por isso não são utilizados como anestésicos únicos. Pode causar depressão 
geral do SNC, que é a principal causa de morte relacionada ao uso desses fármacos. 
 A intoxicação barbitúrica ocorre facilmente, já que a janela terapêutica desse fármaco 
é muito estreita, sendo que, ao causar depressão do SNC, essa intoxicação causa depressão 
cardiorrespiratória e, então, morte. Essa depressão é associada com perda da consciência e 
cianose e é muito mais grave quando age em combinação com outro depressor do SNC. 
 Existem barbitúricos com diversas durações de efeito, o que afeta diretamente no uso 
clínico desses fármacos. Em geral, aqueles de ação ultracurta são utilizados como anestésicos, 
os de curta e média ação são utilizados para causar hipnose e sedação, já os de longa ação são 
utilizados como anticonvulsivantes. 
 Em casos de intoxicação por barbitúricos, o paciente deve ser hidratado para aumentar 
a diurese aumentando a velocidade da eliminação. Pode-se, também, aumentar o pH urinário, 
pois o barbitúrico é ácido e assim seria mais rapidamente eliminado. Não se deve utilizar um 
estimulante do SNC nesses casos, pois aumenta a mortalidade. 
Benzodiazepínicos: 
 São assim chamados por possuírem um anel benzênico e um anel diazepínico, sendo 
que alterações nessa estrutura química produzem diferentes fármacos com diferentes 
durações de efeito. São fármacos muito seguros, por isso substituíram os barbitúricos, e são, 
provavelmente, os psicofármacos mais prescritos atualmente. 
 Eles são agonistas alostéricos do canal GABAa. Interagem com o sítio específico dos 
BZD, que se localiza entre as subunidades alfa e gama. Esse sítio funciona para os BZD, para o 
Flumazenil (antagonista) e para os compostos Z. 
 Quando os BZD se ligam no GABAa, eles aumentam a afinidade do receptor pelo GABA, 
ou seja, não agem \u201cpor si só\u201d. Isso faz com que eles sejam muito mais seguros que os 
barbitúricos. Na administração de BZD é impossível hiperativar o GABAa, pois a ação do 
fármaco depende do GABA, que é frequentemente retirado da sinapse e vai funcionar como 
um \u201cfreio\u201d da ação do fármaco. 
 Outra diferença em relação aos barbitúricos é que os BZD aumentam apenas a 
frequência de ativação do receptor, que está relacionada ao aumento da afinidade por GABA, 
causando a hiperpolarização. 
 Os principais exemplos de BZD são diazepam, bromazepam, midazolam,