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TT: 058 
Emissão: 29/01/2012 
Revisão: 00 
 
O BOPE E A EXCELÊNCIA 
OPERACIONAL. 
 
(publicada originalmente na edição de novembro / dezembro de 2011 pela HSM Management) 
 
 
Hoje o Brasil inteiro e talvez uma parcela razoável do mundo já conheçam o BOPE, 
o famoso Batalhão de Operações Policiais Especiais do Estado do Rio de Janeiro. Muito 
antes (trata-se de uma instituição com 33 anos de existência) e muito além das telas 
de cinema, o BOPE virou lenda por seu histórico de desempenho excepcional em 
condições de absoluta incerteza e risco, tanto que as melhores equipes de operações 
especiais do mundo vem ao Brasil estudá-lo, do mesmo modo que gestores brasileiros 
vão aos Estados Unidos fazer visitas de aprendizado no Google ou na Zappos. 
Se qualquer força especial já mereceria atenção do universo empresarial por ter 
de combinar as virtudes da hierarquia convencional - organização, planejamento e 
foco - com as virtudes da coordenação informal - participação, liberdade de ação e 
flexibilidade - , o BOPE o merece em dobro, uma vez que, para conquistar esse 
equilíbrio, utiliza como premissa o engajamento incondicional baseado em princípios e 
valores compartilhados, somados, é claro, a treinamento intensivo - especialmente 
psicológico -, domínio da técnica e mecanismo de seleção rigoroso. Compreender o 
êxito do BOPE, portanto, pode servir de inspiração e aprendizado para empresas 
privadas e é por isso que o estudamos em profundidade nos últimos dez meses. 
 
3 QUESTÕES-CHAVE 
A competência distintiva nunca nasce ao acaso. Por trás da construção de um 
padrão de excelência de desempenho, onde quer que seja, sempre há o empenho 
daqueles que, ao longo do tempo, compreendem que são necessárias tenacidade, 
perseverança e uma ação orientada por valores. 
Não é diferente da formação de equipes de forcas policiais especiais, cujas 
experiências específicas podem nos ajudar a responder, com propriedade, as 
perguntas-chave da gestão atual das empresas privadas: 
• Como atribuir sentido e significado ao trabalho? 
• Como construir excelência operacional diante do risco e da incerteza? 
• Como estimular o surgimento das melhores lideranças e equipes? 
Os elementos centrais do modelo de gestão do BOPE são liderança (o que remete 
a doutrina), treinamento e tecnologia, como se vê no quadro da página 5, sendo que 
nada disso reside em um contrato formal; são, acima de tudo, uma construção social e 
simbólica - ou seja, cultural. As respostas a essas três questões nos permitem 
aprofundar esse modelo. 
 
SINOPSE 
• Um padrão de excelência operacional não pode ser arquitetado nas empresas 
somente por meio de boas normas, processos e técnicas. Especialmente quando as 
tarefas para realizar exigem maior especialização e envolvem risco e incerteza, é 
necessário promover a concordância das inteligências e orquestrar a ação coletiva, 
informando a cada funcionário sobre como agir e realizar sua tarefa da melhor 
forma, sem a necessidade do comando e controle direto. 
• Como se faz isso? Reconhecendo o papel fundamental de princípios e valores 
compartilhados, ou seja, de uma doutrina e do contexto capacitante para a 
 
 
construção da confiança e do espírito de corpo. 
• O estudo desses três aspectos mostra que o BOPE, o célebre Batalhão de 
Operações Policiais Especiais da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro, também 
conhecido como “tropa de elite”, pode - ou deve - servir de inspiração também para 
o universo corporativo. 
 
CONFIANCA E ESPIRITO DE CORPO 
Como atribuir sentido e significado ao trabalho 
Muitos executivos e estudiosos das organizações concordam que as empresas 
passam por uma profunda crise de motivação e sentido para o trabalho. Atualmente, 
um dos dilemas mais relevantes na vida corporativa e a construção de vínculos de 
confiança nas relações de trabalho que se traduzam em cooperação espontânea e 
motivação, tarefa que costuma ser atribuída aos líderes. Antes de tudo, porem, esse é 
um dilema da sociedade contemporânea, mais individualista e egoísta, portanto de 
vínculos mais frágeis (nos contratos em geral: relações de trabalho, casamentos, 
amizades e relações com estranhos). 
A vida moderna trouxe maior independência e isolamento social. No mundo do 
trabalho, relações menos dependentes eliminaram os acordos bilaterais de lealdade e 
fidelidade eterna. A perspectiva das relações de curto prazo ameaça o sentimento de 
responsabilidade pelas tarefas e o comprometimento efetivo com os resultados 
coletivos, reduzindo, consequentemente, a possibilidade da construção de um padrão 
de excelência para a entrega de valor. Organizações que conseguem criar forte 
sentimento de pertencimento e significado para a execução das tarefas ordinárias, 
conquistando maior devoção dos empregados, adquirem um capital social que e uma 
precondição fundamental para o surgimento de diferenciais competitivos. 
 
SAIBA MAIS SOBRE O BOPE 
Criado em 19 de Janeiro de 1978, o Batalhão de Operações Policiais Especiais 
(BOPE) e uma força de intervenção da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro. 
Conta atualmente com 400 policiais especializados em ações de resgate de reféns e 
combate ao crime em áreas de alto risco. O símbolo da faca e da caveira e adotado 
desde o surgimento do grupo. Tais elementos estão presentes em várias equipes de 
forças especiais em todo o mundo: 
• A faca simboliza o caráter de quem faz da ousadia sua conduta; representa 
também o sigilo da missão. É o mais perfeito instrumento de combate que o homem 
já desenvolveu; basta observar que a forma básica da faca não foi alterada em 
milênios. 
• O crânio simboliza a inteligência e o conhecimento, mas também a morte. A 
faca nele cravada, historicamente na concepção do BOPE, significa “Vitória sobre a 
morte”. 
• As garruchas são o símbolo da Policia Militar. 
Ao longo de sua existência, o Batalhão de Operações Policiais Especiais da Policia 
Militar do Estado do Rio de Janeiro, o BOPE, atingiu um nível de excelência operacional 
que e reconhecido pelas melhores equipes de forças especiais do planeta. Atualmente, 
 
 
e considerado uma das melhores equipes de intervenção em conflitos armados em 
áreas urbanas do mundo. Tornou-se referenda no Brasil e no exterior. Não é de 
estranhar que equipes como a Swat, os US Marines, o FBI, os Seals da Marinha dos 
Estados Unidos, o grupo especial GSG9 alemão, a Le Raid francesa e até mesmo a 
reservada Yaman, unidade antiterror da policia de Israel, dentre outros, tenham vindo 
ao Rio de Janeiro trocar experiências com o BOPE. 
 
Alguns ensinamentos das equipes de forcas especiais, presentes na formação do 
BOPE, são particularmente úteis às empresas - e a criação dos vínculos de confiança e 
lealdade como base para a ação coletiva esta entre eles. 
 
CONTEXTO CAPACITANTE 
Como construir excelência operacional diante do risco e da incerteza 
Desde o início dos anos 1970, o BOPE reúne elementos de gestão que possibilitam 
a criação de um contexto capacitante para a formação da excelência operacional e 
asseguram sua continuidade. Aqui destacamos sete deles: 
 
1. Missão - A missão declarada do BOPE e intervir e resolver situações extremas, 
que ameaçam sair ou estão fora de controle. Nas paredes do comando lê-se: “Missão 
dada é missão cumprida”, remetendo a um espirito altivo que afirma não haver missão 
impossível. Seus membros sabem que representam a última instancia para solucionar 
problemas críticos e conflitos entre a sociedade e o crime organizado. Sua missão 
inclui libertar todos aqueles que se encontram sob a opressão e a ameaça do crime 
organizado, grupos ilegais e organizações que, pela força, tentam exercer poderes 
paralelos aos do Estado. O combate em si não é o fim pelo qual vivem os combatentes, 
mas um meio de cumprir sua missão. É melhor evitar o confronto direto, sempre que 
possível, mas os combatentes sabem que, acima de tudo, devem libertar os reféns, 
mesmo sob a ameaça da própria vida. A doutrina e a boa técnicalhes asseguram o 
sucesso. 
 
2. Seleção - O BOPE possui um rígido mecanismo de seleção. Pertencer ao grupo 
significa necessariamente ter sido aprovado em um dos dois cursos ministrados pela 
unidade: o de ações táticas, de cinco semanas, oferecido três vezes por ano, e o de 
operações especiais, de 14 semanas, oferecido uma vez cada dois anos. O objetivo 
desse rígido processo seletivo é identificar, no grupo de aspirantes, aqueles que 
possuem as competências para pertencer à equipe. Não basta ter bom preparo físico, 
boa técnica e bom caráter. Para que o BOPE mantenha seu padrão de excelência, é 
necessário que os indivíduos selecionados tenham as precondições de um 
combatente: coragem, equilíbrio emocional, constância e força de vontade. Os 
aprovados que posteriormente não tem bom desempenho são dispensados pelas 
lideranças ou mesmo pelos próprios pares. Os indivíduos que conseguem entrar no 
BOPE por outros motivos que não pela vontade de pertencer ao grupo e seguir sua 
doutrina acabam pedindo para sair, pois não conseguem acompanhar o ritmo das 
operações e treinamentos. 
 
 
 
 
 
 
3. Significado - Uma vez que tenha sido do BOPE, o individuo carrega consigo esse 
senso de pertencimento para sempre. A construção do vinculo de confiança no grupo 
está fundamentada em um forte significado social que fortalece o sentimento de 
orgulho de pertencimento, missão pessoal e lealdade. A identidade dos “caveiras”, 
como são conhecidos os membros do BOPE, baseia-se em anos de combate lado a lado 
com pessoas que muitas vezes arriscam a própria vida para salvar um companheiro. 
Logo, o pacto ético é estabelecido sob a premissa de vida e morte. Sabemos pela 
Antropologia que grupos coesos que se formam com forte identidade coletiva estão 
sujeitos a uma ameaça externa, e esta nunca deixou de existir para o BOPE. À medida 
que o crime organizado foi se transformando e se especializando, também o batalhão 
cresceu em excelência operacional. 
 
4. Formação de equipes - Um dos valores centrais da organização é o espírito de 
corpo, pelo qual cada membro sabe que a equipe e formada por indivíduos únicos, 
mas que a vitória somente é possível por meio do trabalho em equipe. O BOPE não se 
caracteriza como um grupo composto pela soma de talentos isolados, e sim como um 
corpo. A excelência está no conjunto. Para tanto, o bem comum tem de prevalecer 
sobre as ações individuais. Na operação não há espaço para o egoísmo. Cada um deve 
ter a consciência de que seus atos influenciam fortemente a segurança e o bem-estar 
da equipe. O bem comum deve estar acima das escolhas pessoais, o que só é possível 
porque, na prática, todos percebem a importância de ser uma equipe e de agir como 
tal. O indivíduo que toma decisões por si e testa seus limites além do razoável acaba 
assumindo riscos de maneira insensata e torna-se um elo fraco, fragilizando toda a 
equipe. 
 
 
 
5. Treinamento - Há uma diferença 
marcante entre o ritmo do BOPE e o de 
outras equipes de forcas especiais: no 
BOPE, as operações são muito mais 
frequentes e intensas do que as de 
algumas das melhores equipes do 
mundo. Isso faz com que os combatentes 
sejam forjados em combate em um 
período de tempo bem menor. Assim, na 
Seção de Instrução Especializada do 
BOPE, pode-se ler a frase: “Treinamento 
duro, combate fácil”. O treinamento 
intensivo torna a operação menos 
arriscada e garante a vitória. Ao longo de 
seus anos de existência, apesar dos 
inúmeros combates, o BOPE tem 
apresentado pouquíssimas baixas. Nele, o treinamento não esta relacionado somente 
à repetição contínua de movimentos, mas ao exercício do uso da razão para buscar 
alternativas possíveis em momentos de alto risco. O medo e o erro são encarados 
como naturais e inerentes a qualquer ser humano. Negá-los é um grande equivoco e 
sinal de um estado psicológico inadequado para o combate. Não reconhecer e não 
saber lidar com o medo e com a possibilidade do erro inviabiliza a construção da 
excelência operacional. Trabalhar o medo e o erro constitui um treinamento contínuo 
para as operações. 
 
6. Sucessão - Como toda organização militar, a sucessão obedece à hierarquia. No 
entanto, em equipes de operações especiais, dificilmente alguém consegue assumir o 
comando com legitimidade apenas por força de um decreto. Em uma organização com 
cultura coesa e orientada por valores como o BOPE, a legitimidade do comando tem 
peso motivacional fundamental para a manutenção do comprometimento de seus 
membros e dos padrões de excelência nas operações. De maneira geral, o comando e 
dado a quem demonstra disciplina pessoal, autocontrole e liderança em momentos de 
alto risco. Essas características são adquiridas por aqueles que passaram por várias 
operações e possuem experiência em combate, tomando-se idealmente líderes e 
instrutores. 
 
7. Punição - Em qualquer sociedade baseada em confiança, os mecanismos de 
punição estão sempre presentes. No BOPE, eles são horizontais, ou seja, os próprios 
pares inibem o indivíduo de agir de modo inapropriado. Mesmo aqueles que são 
considerados excelentes tecnicamente, quando apresentam falhas de caráter, indícios 
de corrupção ou deslealdade ao grupo, recebem severas punições, a maior delas o 
afastamento da equipe de operações especiais. Não pertencer ao grupo de elite e ser 
destituído de uma propriedade que não se conquista pela indicação pessoal e não 
pode ser comprada. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PRINCÍPIOS E VALORES 
Como estimular o surgimento das melhores lideranças e equipes 
O êxito do BOPE não se sustenta apenas na qualidade dos armamentos ou na boa 
técnica, mas, sobretudo, nos princípios e valores que orientam a ação coletiva ao longo 
dos anos e coordenam as operações da equipe. São os valores centrais desse grupo, 
praticados desde sua fundação, na década de 1970, que constroem sua identidade e 
são transferidos, como um DNA, a cada nova geração, informando-lhe sobre como agir 
 
 
e realizar sua tarefa da melhor maneira sem a necessidade do comando e controle 
diretos, seja lá quais forem os desafios da operação. Tais valores são: 
 
Agressividade controlada - Esse valor está fundamentado no princípio: “A técnica 
suplanta a força”, ou seja, o emprego da força é um recurso possível, que deve ser 
utilizado posteriormente ao uso da razão. A razão tem de operar em primeiro lugar, 
buscando a melhor resposta de acordo com as circunstâncias presentes. 
 
Controle emocional - Significa manter-se sóbrio e lúcido para tomar decisões, 
mesmo diante de conflitos e em momentos de extrema agonia. Sobretudo em 
situações de combate, nas quais companheiros podem ser atingidos gravemente, o 
combatente deve ficar relativamente calmo para que sua decisão seja o mais assertiva 
possível, com base nas instruções recebidas. Controle emocional e o indivíduo não 
permitir que o pânico e o medo o levem a agir de maneira precipitada, colocando em 
risco sua vida e a de toda a equipe. Para tanto, ele precisa ter uma visão 
“organizacional” de sua missão. Deve encontrá-la, desenvolvê-la e agarrar-se a ela; 
gerenciar seu tempo; construir consenso, fazendo que sua visão seja aceita pelo grupo; 
encorajar debates e discussões e não se sentir ameaçado por desacordos e 
divergências de opinião; tomar decisões 
claras, para orientar e assegurar a 
compreensão e não deixar margem para 
discussões; assumir o comando quando 
lhe é dado sem vacilar. 
 
Disciplina consciente - Todo com 
batente sabe que tem de travar uma 
batalha consigo mesmo e que, para tanto, 
deve adotar uma disciplina pessoal rígida. 
Ele aprende que, para atingir a excelência 
SAIBA MAIS SOBRE OS AUTORES 
Professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ) e 
da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, Marco Tulio Zanini e pioneiro no Brasil nos 
temas “confiança nas empresas” e “gestão integrada de ativos intangíveis”. E doutor 
em management pela Universidade de Magdeburg, da Alemanha, e coordenador do 
mestrado executivoem gestão empresarial da FGV-RJ. 
O coronel Alberto Pinheiro Neto, o Caveira 41, ficou lotado no BOPE por mais de 
15 anos e comandou a unidade de Janeiro de 2007 a julho de 2009, fase dos combates 
mais intensivos contra traficantes no Rio de Janeiro. Sua liderança foi marcada por um 
salto de qualidade na gestão dos recursos humanos, logística e operações. Atualmente 
é o comandante responsável por todas as unidades de operações especiais da Polícia 
Militar do Estado do Rio de Janeiro. 
Márcio Colmerauer foi subsecretario de Estado de Segurança Pública e é 
atualmente o chefe de Gabinete da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão do 
Rio de Janeiro. 
 
 
na execução das tarefas, é necessária uma disciplina pessoal que estimule a força de 
vontade para vencer o desconforto e a tendência ao relaxamento, próprios da 
natureza humana. Essa disciplina é conquistada no dia a dia. O cuidado com as coisas 
externas ajuda a construir a disciplina interna. 
Muitas vezes, a disciplina consciente é alimentada na realização de tarefas 
ordinárias que visam o bem comum; a constante limpeza das armas e do batalhão, por 
exemplo, exercita o espírito de serviço e a humildade necessárias para alcançar um 
nível de consciência superior, ajudando a entender que toda missão exige reflexão e 
autocontrole. O combatente deve se esforçar para sempre ser tática e tecnicamente 
proficiente em tudo; saber que desempenhara um papel em condições desfavoráveis; 
dizer não a complacência; nunca afirmar que ele e sua organização fracassaram porque 
não fizeram o melhor. 
 
Espirito de corpo - É um valor que vai bem além da formação convencional de 
uma equipe de trabalho. Revela que a força de um membro nunca estará nele mesmo, 
mas em seu grupo, e que essa força deve se submeter a razão e a boa técnica. 
Fundamenta-se na crença de que o BOPE e um lugar em que pessoas diferentes que 
perseguem os mesmos valores e adotam os mesmos princípios se reúnem para realizar 
algo maior. Significa que o combatente não constrói absolutamente nada sem uma 
missão em comum. Ter uma missão em comum, treinar e operar juntos com fortes 
laços de interdependência e o que constrói a excelência operacional. Mais importantes 
do que o individuo são a missão e as pessoas encarregadas de cumpri-la. 
 
Flexibilidade - Esse valor 
está muito relacionado às 
questões operacionais. É a 
capacidade de se adaptar as 
diferentes nuances da missão a 
ser cumprida, utilizando para 
tanto os princípios e técnicas de 
combate. O combatente não 
deve adotar modelos de ação 
repetitivos ou criar “zonas de 
conforto”, e sim visar a 
alternância de rotinas, espaços e 
contextos. Para agir assim, 
precisa buscar respostas nos 
princípios para a ação e na boa técnica, não se deixando levar por uma rotina 
operacional repetitiva, que consome sua energia vital. Tudo o que ele tem a fazer e 
preparar-se, com sua equipe, para o sucesso da missão e para a sobrevivência. 
 
Honestidade - A mentira, o roubo e o engano são inaceitáveis, porque não 
condizem com o espírito daqueles que travam o bom combate. Baseado na crença de 
que um indivíduo só pode ser honesto com o outro se e honesto consigo mesmo, esse 
valor opera como um mecanismo interior de segurança. Todo combatente que quer 
cumprir sua missão com perfeição deve avaliar se está preparado para isso, 
 
 
reconhecendo como se encontra seu estado de espírito, e questionar a necessidade e 
a validade do risco, propondo alternativas, se necessário. As regras do jogo tem de ser 
claras. Cada um tem de se responsabilizar por suas ações de acordo com suas posições 
individuais. 
 
Iniciativa - Esse valor significa: manter boa conduta e foco, com atitudes 
consistentes; nunca ter receio de tomar uma posição moral ou ética sobre algo que crê 
ser o correto a ser feito; ser proativo para se colocar no lugar e no momento certos; 
não se omitir; antecipar-se a ação do inimigo e avaliar possíveis movimentos para que 
a batalha possa ser vencida. A iniciativa diz respeito também à construção do futuro. 
Partir para a ação e adiantar-se e colocar-se a disposição para agir e projetar um futuro 
desejado, e isso se consegue com boa técnica. 
 
Lealdade - A lealdade entre os membros do BOPE é um escudo e a principal 
característica do grupo. Em nossos estudos, as relações de confiança entre pares no 
BOPE superaram qualquer outra já investigada em uma pesquisa científica. A lealdade 
de uns para com os outros blinda o grupo contra quaisquer possibilidades de 
oportunismo. De certa maneira, trata-se da capacidade de reconstruir uma 
propriedade muito difícil de ser observada hoje e altamente desejável em qualquer 
grupo social. Há um pacto de lealdade entre os membros do BOPE que protege o 
grupo e o indivíduo ao mesmo tempo. Esse pacto só é possível porque a conduta de 
todos e provada constantemente nas operações; baseia-se na escuta e na ajuda a um 
companheiro, a qualquer momento, na esperança de que líderes e subordinados 
façam o mesmo. 
 
Perseverança - No comando, significa buscar identificar o “centro de gravidade da 
organização”, seu “ponto de equilíbrio”, ou seja, o núcleo que dá à organização a força 
necessária para atingir suas metas e objetivos. Há um “esforço principal” do líder em 
comando em nutrir e cuidar desse núcleo permanentemente. Na perspectiva do 
combatente, esse valor está também relacionado à autoconfiança, a certeza de que a 
rotina disciplinar o orienta para a vitória certa, eliminando ao máximo a possibilidade 
de derrota. Acima de tudo, baseia-se na crença fundamental de que a missão precisa 
ser cumprida e que não se deve desanimar diante das vicissitudes e dificuldades 
impostas, e que o indivíduo é escolhido para cumprir seu papel em certo momento; 
dependerá dele mesmo estar devidamente preparado para entregar seu melhor. 
 
Versatilidade - No comando, significa observar, escutar e aprender cada vez mais 
sobre sua organização, aproveitar cada oportunidade que surgir para articular 
claramente qual e o “esforço principal” e alocar recursos para assegurar seu sucesso. 
Na perspectiva do combatente, e manter o espírito altivo, ser capaz de transitar por 
diferentes ambientes e comunicar-se com autoridades, moradores de comunidades e 
representantes de diversas entidades. O combatente deve representar sua missão e 
seus princípios onde quer que esteja e seja convidado a estar. 
 
 
 
 
Liderança - Finalmente, no BOPE, a liderança não está necessariamente 
relacionada ao formalismo da patente militar, mas é reconhecida como uma dimensão 
que todos devem possuir. Muitas vezes a liderança formal e a informal coexistem em 
harmonia. Esse equilíbrio é possível nas equipes de operações especiais e raramente 
encontrado nas convencionais. Surge da consciência coletiva sobre a importância da 
hierarquia para o sucesso das operações e do acolhimento e admiração das virtudes de 
cada membro da equipe. 
Liderar é influenciar as pessoas de maneira que elas façam aquilo que deve ser 
feito, cada uma assumindo suas atribuições. No combate, a principal preocupação do 
combatente é sobreviver para cumprir sua missão. Por isso, o líder em comando não 
pode estar permanentemente na linha de frente. No entanto, o indivíduo que assume 
a liderança de uma operação foi formado em combate por bom tempo, e é importante 
que ele conheça muito bem como a operação ocorre. Uma vez no comando, deve 
preservar-se para poder tomar decisões livre da pressão imposta pelas circunstancias 
extremas da operação, pois suas decisões devem pesar a vida de todo o grupo. 
 
OBJETIVO: A PAZ 
Equipes de forças especiais, como as conhecemos hoje, nasceram durante a 
Segunda Guerra Mundial com a finalidade de empregar recursos de maneira 
concentrada, por meio da informação, para alcançar resultados mais significativos que 
poderiam alterar o curso de uma batalha ou da própria guerra. Com o tempo, 
especializaram-se segundo os desafios específicos que foram surgindo (antiterrorismo, 
resgate dereféns, combate em locais de alto risco, antidrogas e outros). 
O fato e que os resultados alcançados por elas são surpreendente e 
consistentemente superiores aos de qualquer força policial convencional, 
provavelmente por serem resultantes do exercício de pensar modos mais eficientes e 
eficazes de coordenação ante o aumento da complexidade dos desafios impostos pelo 
contexto, conforme os expostos neste artigo. 
Mais ainda: os melhores resultados nessas operações não são conquistados 
apenas pela coragem de seus membros em destruir os meios de combate do inimigo, 
mas, sobretudo, em eliminar das tropas inimigas qualquer vontade de combater. 
O foco do BOPE hoje é a busca 
incessante da paz, entendendo que ela só 
será possível se for combatido o “bom 
combate”. Por trás dessa missão, os 
“homens de preto” sabem que inúmeras 
pessoas ainda estão privadas de seus 
direitos fundamentais de cidadania, 
coagidas a viver sob um regime local que 
incita os jovens a se alistar no tráfico de 
drogas. Há uma guerra justa a ser travada 
cada dia, como ocorre nas empresas. 
Como já afirmava um observador da 
guerra, Vegécio, em 590 a.C., “aquele que 
deseja a paz que se prepare para a 
guerra”.

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