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Etica em Ginecologia e Obstetricia Boyaciyan 5ed

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e profissional”.1
Dessa Lei, podemos extrair alguns tópicos sobre a atuação do médico 
residente:2
	 •	 A	Residência	Médica	é	definida	como	modalidade	de	ensino	de	pós-gra-
duação. A pós-graduação lato sensu é o complemento da aprendizagem, 
em que o residente vai ter o contato direto com o paciente, colocando 
em prática a teoria obtida nos bancos acadêmicos. Configura-se assim 
a prática médica: são aprimoradas as habilidades técnicas, o raciocínio 
clínico e a capacidade de tomar decisões. É o treinamento em serviço. 
	 •	 O	 residente	 realiza	 esse	 treinamento	 sob	 a	 orientação	 de	 profissionais	
médicos de elevada qualificação ética e profissional, sendo esse o ponto 
chave para o bom andamento da residência. Ainda assim, subentende-se 
que o médico residente tenha os conhecimentos necessários para lidar 
com a vida humana. Por isso, ao prestar atendimento ao paciente, as-
sume a responsabilidade direta pelos atos que pratica, não podendo em 
hipótese alguma atribuir o insucesso a terceiros.
	 •	 As	instituições	de	saúde,	universitárias	ou	não,	também	têm	suas	respon-
sabilidades: os problemas podem surgir quando estas não oferecem super-
visão adequada para seus residentes, ou quando o residente “se considera 
apto” para realizar o procedimento sem a orientação de um preceptor.
	 •	 Aspecto	importante	e	atual	é	a	ocorrência	de	assédio	moral	contra	residen-
tes praticado pelos próprios colegas residentes e também por preceptores. 
De acordo com os princípios fundamentais estabelecidos no Código de 
Ética Médica, “as relações do médico com os demais profissionais devem ba-
sear-se no respeito mútuo, na liberdade e na independência de cada um, bus-
cando sempre o interesse e o bem-estar do paciente” e “o médico terá, para 
com os colegas, respeito, consideração e solidariedade, sem se eximir de de-
nunciar atos que contrariem os postulados éticos”. 
Há uma frequente confusão entre o que é hierarquia e assédio. Hierar-
quia profissional consiste em ordenar diferentes níveis ou graus de poder 
dentro de uma instituição para que se estabeleçam relações entre superiores 
e subordinados. O médico deve cumprir os ditames propostos por seu supe-
rior hierárquico, desde que eles não firam a ética profissional. 
Ética em Ginecologia e Obstetrícia 41
Nesse sentido, o Código de Ética Médica, em seu artigo 56, prevê que é 
vedado ao médico “utilizar-se de sua posição hierárquica para impedir que 
seus subordinados atuem dentro dos princípios éticos”. Por sua vez, assédio 
significa perseguir com insistência, molestar, perturbar, aborrecer, incomo-
dar, importunar. 
O assédio moral é a exposição de alguém a situações humilhantes e 
constrangedoras, repetidas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no 
exercício de suas funções. Geralmente, é praticado por uma pessoa em posi-
ção hierárquica superior em relação a um subordinado, embora possa acon-
tecer de colega para colega. O assédio se caracteriza, principalmente, pela 
regularidade dos ataques, que se prolongam no tempo, e a determinação de 
desestabilizar emocionalmente a vítima, visando afastá-la do trabalho. 
Já o assédio sexual é um tipo de coerção de cunho sexual, que se carac-
teriza por alguma ameaça, insinuação de ameaça ou hostilidade para o ga-
nho de algum objeto ou objetivo. O assédio é mais comum em relações hie-
rárquicas autoritárias, nas quais predominam condutas negativas, relações 
desumanas e antiéticas de longa duração, da parte de um ou mais chefes, di-
rigida a um (ou mais) subordinado, desestabilizando a relação da vítima com 
o ambiente de trabalho e sua organização. 
Algumas diferenças entre hierarquia e assédio no 
trabalho médico
Em relação à hierarquia, alguns requisitos são: exigir que o residente 
cumpra horário determinado em contrato, delegar tarefas e orientar o servi-
ço, tratar com respeito todos os profissionais, apontar eventuais problemas e 
sugerir correções, reforçar e exigir que se cumpram as resoluções da Comis-
são de Residência Médica (Coreme) e do Código de Ética Médica. 
Já o assédio seria, por exemplo: forçar o residente a trabalhar 80 horas 
semanais quando seu contrato prevê apenas 60; não supervisionar as ativi-
dades ou não orientar os residentes adequadamente; ignorar ou desrespeitar 
as resoluções do Conselho e solicitar que sejam seguidas condutas não éticas; 
atribuir erros imaginários, fazer críticas destrutivas ou brincadeiras de mau 
gosto, principalmente em público.3
Para estabelecer uma regra referente ao aspecto da supervisão do re-
sidente, a Comissão Nacional de Residência Médica emitiu a Resolução nº 
4/78, já revogada. Atualmente está em vigor a Resolução nº 02, de 07 de ju-
lho de 2005,4 que diz, em seu artigo 23, alínea “d”: “a supervisão permanen-
te do treinamento do residente por médicos portadores de Certificado de 
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Residência Médica da área ou especialidade em causa ou título superior, ou 
possuidores de qualificação equivalente, a critério da Comissão Nacional de 
Residência Médica, observada a proporção mínima de um médico do cor-
po clínico, em regime de tempo integral, para 06 (seis) residentes, ou de 02 
(dois) médicos do corpo clínico, em regime de tempo parcial, para 03 (três) 
médicos residentes”.
Convém ressaltar que, nos termos do artigo 17 da Lei no 3.268, de 30 
de setembro de 1957,5 os médicos só poderão exercer legalmente a Medicina, 
em qualquer dos seus ramos ou especialidades, após o prévio registro de seus 
títulos, diplomas, certificados ou cartas no Ministério da Educação e Cul-
tura e de sua inscrição no Conselho Regional de Medicina, sob a jurisdição 
em que se encontrar o local de sua atividade. Desta forma, o médico, ao se 
inscrever no Conselho Regional de Medicina, torna-se apto a exercer a pro-
fissão; ele assume, então, a responsabilidade direta pelos atos decorrentes ao 
prestar atendimento aos pacientes, não podendo atribuir o insucesso a ter-
ceiros, exceto quando devidamente comprovado (artigo 6º do Novo Código 
de Ética Médica).6
O segredo de uma boa Residência Médica é aquela que oferece uma 
equipe capacitada de supervisão em tempo integral, orientando os residentes 
nos ambulatórios, pronto-socorro, cirurgias e plantões noturnos. O progra-
ma de residência deve prever a implantação de escala progressiva de atribui-
ções, tanto referente a responsabilidades quanto a funções com grau de difi-
culdade crescente dentro da hierarquia do serviço. 
A importância da atribuição em graus distintos da responsabilidade nas 
diferentes etapas dentro do programa de Residência Médica condiciona uma 
progressiva adaptação não só a obrigações mais complexas, como também à 
capacidade de assumir maior responsabilidade frente a procedimentos e de-
cisões, incluindo a coordenação de colegas residentes menos graduados. 
A fórmula ideal de como preparar o residente tem sido testada de di-
versas maneiras, não existindo ainda um modelo definitivo consagrado. O 
melhor modo de controlar a qualidade da formação ética de cada residen-
te resulta da avaliação desenvolvida por meio da estreita convivência entre 
orientador e orientando ao longo desse período de aquisição de qualificação 
profissional. Os preceptores são ao mesmo tempo mestres e responsáveis pe-
lo residente, pois o guiam no processo de aquisição de conhecimento, libe-
rando procedimentos médicos em escala crescente de complexidade para 
que o médico residente execute, à medida que este demonstre estar apto para 
tal atividade.
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Mão de obra
O trabalho do residente não deverá ser utilizado somente como mão-de
-obra. O compromisso da instituição é com sua formação adequada e com 
o competente atendimento assistencial prestado por todos os integrantes de 
um programa de Residência Médica. Desta forma, sendo a residência um 
processo de pós-graduação sob supervisão, não deve o residente efetuar pro-
cedimentos de qualquer complexidade sem a supervisão de seu orientador 
ou do coordenador do serviço.