Prévia do material em texto
1 Mariana Magalhães – Odontologia UFMG Elementos e organização estrutural da Polpa Dental: A polpa é composta por um tecido conjuntivo frouxo vascularizado. É rica em células, possui matriz extracelular, fibras, vasos sanguíneos, vasos linfáticos e nervos. Componentes celulares: Odontoblastos: Células colunares dispostas em paliçada localizadas na periferia Sua forma e arranjo variam de acordo com a localização – atividade metabólica Coronária e cervical: Cilíndricas altas Médio: cilíndricas baixas Apical: cúbicas Os odontoblastos são altamente diferenciados, especializados na produção de dentina primária, secundária e terciária. Fibroblastos: Células predominantes na polpa. São fusiformes ou estreladas, e possuem prolongamentos. Apresentam grande quantidade de organelas. Proteínas, proteoglicanos e glicoproteínas estruturais. Principalmente fibras colágenas, que reforçam a matriz. São responsáveis pela síntese e secreção de componentes da matriz extracelular e fibras. Envelhecimento: diminuição de fibroblastos e aumento de fibras colágenas Células mesenquimais indiferenciadas: Semelhantes aos fibroblastos. São células de reserva, e possuem capacidade de diferenciação em odontoblastos e fibroblastos. Estão localizadas ao redor dos vasos sanguíneos e diminuem com a idade. Células do sistema imune: Linfócitos T, Macrófagos, Células dendríticas (células apresentadoras de antígenos – APCs) Além dessas existem em menor quantidade neutrófilos, eosinófilos e basófilos. Na polpa normal elas encontram-se em estado de repouso, mas desempenham papel importante na reação inflamatória aumentando em número. Componentes Extracelulares: Matriz extracelular: Funciona como meio de transporte para nutrição. Composta por proteoglicanas e água. 2 Mariana Magalhães – Odontologia UFMG Feixe de fibras, fibras nervosas, vasos sanguíneos e elementos celulares pelo qual as células recebem os nutrientes do sangue arterial, e os metabólitos eliminados são transportados até a circulação eferente. Confere viscosidade e coesão à polpa o que torna o tecido conjuntivo gelatinoso. Trama fibrilar: Fibras colágenas: Formam o arcabouço do tecido pulpar Colágeno tipo I (60%) Maior concentração próximo ao ápice, dispostas paralelamente Pequena quantidade em polpas jovens Resposta pulpar inversamente relacionada com sua presença Fibras reticulares (Von Korff): Localizadas em torno dos vasos. Colágeno tipo III Fibras elásticas: Presentes nas paredes dos vasos. São escassas Quanto maior a quantidade de fibras, menor a resposta tissular Vascularização: A polpa é ricamente vascularizada Sistema microcirculatório: Arteríolas, capilares e vênulas O fluxo sanguíneo na polpa coronária é quase o dobro da região radicular Vasos linfáticos: Drenagem e direcionamento das células apresentadoras de antígenos até os linfonodos regionais Os vasos principais entram e saem da polpa através do forame apical, e dirigem-se para o centro e para a periferia da polpa onde emitem ramificações que anastomosam-se formando um plexo capilar. Inervação: Neurônios sensoriais da polpa apresentam seus corpos celulares no gânglio trigeminal Os axônios alcançam a polpa pelo ápice radicular do dente, juntamente com os vasos sanguíneos As fibras acabam como terminações nervosas livres, chamadas de nociceptores que respondem a diversos estímulos externos em dentes normais, a alterações do meio e aos vários mediadores inflamatórios que ocorrem nas condições patológicas A maioria das terminações está situada na interface dentina-polpa da polpa coronária Fibras Mielínicas (Tipo A): Localização periférica Raschkow Algumas penetram nos túbulos dentinários (150-200µm) Respondem a estímulos “hidrodinâmicos” aplicados na dentina Dor aguda, pulsátil, rápida Sensibilidade dentinária -> Ativação mecânica das fibras Tipo A -> Teoria hidrodinâmica da dor Ex: Preparos cavitários, sondagem, secagem com jato de ar e soluções químicas hipertônicas Fibras Amielínicas – 70 a 80% (Tipo C): Localização profunda Limiar de excitação alto Estímulos mais fortes (térmicos ou mecânicos intensos) e mediadores inflamatórios (bradicinina e histamina) Dor difusa, mais lenta Mantêm a integridade por mais tempo 3 Mariana Magalhães – Odontologia UFMG Camadas da polpa – Subdivisão histológica: Função formativa da polpa: É a função pela qual os odontoblastos presentes na polpa formam a dentina. Tal processo ocorre por toda a vida do dente. Dentina primária: Sua formação tem início no momento em que o dente apresenta característica funcional mínima. Dentina secundária: Sua formação vai ocorrendo à medida que mais pressões funcionais incidem sobre os dentes, os dentinoblastos secretam matriz dentinária e retraem-se em direção ao centro da polpa, a dentina produzida é mais ondulada e possui menos túbulos por unidade. Dentina terciária: é a dentina mais ou menos regular, depositada em locais de dentina primária ou secundária, e corresponde a áreas de irritação externas. Quando ocorre um estímulo excessivo um dos mecanismos de defesa do dente é produzir dentina terciária ou dentina reparadora, composta por túbulos irregulares ou ausentes. No caso de traumas severos, pode haver formação de dentina numa quantidade suficiente para obliterar o canal radicular, a essa dentina dá-se o nome de dentina traumática (sendo uma forma de dentina reparadora). Características e distribuição das estruturas responsáveis pela nutrição do complexo dentina-polpa: Vasos sanguíneos aferentes ou arteríolas: Entram no canal por meio do forame apical, são ramos da artéria alveolar inferior, da artéria alveolar póstero-superior ou da artéria infra-orbital que se ramifica da artéria maxilar interna. Essas arteríolas se dirigem em direção a polpa coronal, exibindo ramificações por todo o trajeto. As ramificações terminam na rede capilar predominante na zona dentinoblástica e subdentinoblástica. Os vasos comunicativos são pouco numerosos o que não permite uma circulação colateral eficiente. Vasos sanguíneos eferentes (vênulas): ao saírem do forame apical as vênulas coalescem e drenam posteriormente, para a veia maxilar através do plexo pterigoide ou anteriormente na veia facial. Vasos linfáticos: ajudam na drenagem, sendo importantes para regulação hídrica tecidual. Esse sistema linfático pulpar começa como uma rede de capilares na zona subodontoblástica e confluem em direção a zona central da polpa, deixando o dente pelo forame apical drenando para os vasos linfáticos regionais. Fibras nervosas presentes no tecido pulpar: Fibras Tipo A: São as fibras que apresentam maior diâmetro, com isso possuem uma velocidade de condução maior e estão situadas mais na periferia da polpa. São mielínicas e divididas em: A-beta e A-gama: transferem o tato, pressão, propriocepção em uma velocidade que pode chegar a 70m/s. A-delta: transmitem a sensação dolorosa na velocidade de 2 a 30m/s. Além da distribuição periférica, essas fibras possuem um limiar de excitabilidade baixo, por isso a dor inicial devido ao estímulo agressor é aguda e momentânea (rápida). A dor é aquela do tipo “fincada” relacionada a dor de origem dentinária. Essas fibras também tem baixa resistência a hipóxia e anóxia. Fibras Tipo B: – são fibras com diâmetro intermediário Camada odontoblástica Camada subodontoblástica ou pobre em células Camada rica em células Região central 4 Mariana Magalhães – Odontologia UFMG Fibras Tipo C: São fibras amielínica que possuem menor diâmetro e estão localizadas na região central da polpa. Apresentam baixa velocidade de condução do estímulo (0,5 a 1m/s) e estão associadas à sensação de dor profunda, difusa, latejante, pulsátil ou em queimação. A maioria dessas fibras é polimodal respondendo a estímulos mecânicos, térmicos e químicos. Transmitem a dor mais profundae crônica, devido ao alto limiar de excitabilidade. São sensibilizadas pela inflamação tecidual. Mecanismos da sensibilidade dentinária: Existem três teorias que explicam os mecanismos de sensibilidade dentinária. São elas: Teoria da inervação da dentina ou da modulação (substâncias neurotransmissoras): Acreditava-se que a sensibilidade dentinária era explicada devido à presença de nervos dentro dos túbulos dentinários que, quando danificadas, iniciavam o impulso nervoso conduzindo assim a sensação dolorosa. Teoria Hidrodinâmica de Brannstrom: Relaciona a dor à movimentação de fluidos no interior dos túbulos dentinários, para fora e para dentro, estimulando por diferença de pressão as terminações nervosas. Corresponde à teoria mais aceita para explicar o fenômeno de sensibilidade dentinária. Exemplos: Preparo cavitário (estímulo positivo que pode provocar a dor, dependendo da intensidade, do estado de vitalidade pulpar e do limiar de dor); Jato de ar (estímulo negativo em que o fluido tenta sair, causando dor); Açúcar (estímulo iônico negativo – atrai água); Condensação do amálgama (estímulo positivo – pressão) Teoria da deformação dentinoblástica: Explica que todos os dentinoblastos podem ser danificados por qualquer estímulo aplicado à dentina, como o calor, pressão, trauma químico ou osmótico. Ao atuar como receptores do estímulo, os dentinoblastos conduziriam esse estímulo aos terminais nervosos independentes dentro dos túbulos. Isso não foi comprovado, além disso a membrana do dentinoblasto é pouco excitável, o que questionaria esse papel de receptor e condutor do estímulo. Mecanismos de defesa da polpa dental: Dor dentinária: a percepção da dor é um mecanismo de defesa uma vez que constitui um alerta do organismo na tentativa de sinalizar a agressão ao tecido. A camada delgada: A lama dentinária – detritos provenientes da agressão (escoriação, abrasão, atrito, cárie, preparos cavitário) são misturados com saliva, água e/ou fluido dentinário, 5 Mariana Magalhães – Odontologia UFMG obliterando o orifício de entrada dos túbulos, reduzindo a sensibilidade e a permeabilidade dentinária. Esclerose tubular: é produzida por agentes irritantes mais suaves e moderados, como cáries de progressão lenta. É um efeito cumulativo de vários fatores: formação contínua de dentina peritubular (esclerose fisiológica) e a calcificação intratubular (esclerose patológica). Irritação que gera formação de dentina: Consiste na formação de uma dentina defensiva, na tentativa de compensar a perda da dentina. É uma dentina desorganizada, com maior grau de calcificação e menos sensível devido a falta de continuidade no processo dentinoblástico Fatores responsáveis pela dor pulpar de origem inflamatória: A lesão ao tecido, que está relacionada à liberação de mediadores que desencadeiam o processo inflamatório local. Essa lesão produz vasodilatação prolongada, aumento da pressão intrapulpar e dor espontânea ou contínua e estimulam a dor. Fator nervoso corresponde a reação neurológica e está relacionado com a ativação das reações neurológicas por irritantes ambientais que danificam os dentinoblastos, que causam reação primária e secundária a dor, além de também gerarem vasodilatação e aumento da pressão intrapulpar. Alterações pulpares inflamatórias: Pulpite Reversível: Dor provocada (frio, alimentos doces), de curta duração e localizada. Dor espontânea ausente. Presença de sensibilidade ou leve desconforto. Resposta aos testes: Frio e Quente – Aparecimento rápido; Pressão e Percussão – Negativo. Pode evoluir para uma pulpite irreversível. Tratamento: Remoção do agente agressor. Possui bom prognóstico. Histologicamente: aumento da permeabilidade vascular devido ao processo inflamatório periférico já instalado, ocorre um rearranjo da camada dentinoblástica e há hiperemia no tecido. Pulpite Irreversível Sintomática Inicial: Reação inflamatória aguda severa caracterizada pela hiper-reatividade exsudativa. A remoção do agente agressor não é suficiente para reverter o quadro inflamatório. Ocorre vasodilatação, aumento do infiltrado inflamatório, edema e formação de microabscessos no tecido pulpar devido a ação de enzimas proteolíticas e radicais oxigenados libertados por células inflamatórias do organismo. A dor aguda é do tipo “fincada”, o frio alivia a dor. Nesse estágio o paciente ainda pode ser capaz de indicar qual dente dói. Pulpite Irreversível Sintomática Avançada: Nesta fase ocorre exacerbação do processo inflamatório. Dor pulsátil, excruciante, fastidiosa, lancinante e espontânea. Analgésicos, nem os mais potentes são capazes de aliviar a dor. No exame radiográfico a pulpite aguda irreversível não mostra sinais. A região periapical, radiograficamente, pode estar normal ou com aumento do espaço periodontal apical e lâmina dura intacta. É comum o paciente ter dificuldades de mostrar qual dente dói, isso porque a dor passa a ser difusa, isso ocorre devido a super excitação de uma fibra que pode despolarizar fibras vizinhas. A dor é mais intensa no período noturno, isso porque quando o paciente deita-se ocorre um aumento da pressão intrapulpar, como o tecido já está inflamado a dor fica mais exacerbada. Pulpite Irreversível Assintomática: Dor ausente devido à diminuição da atividade exsudativa inflamatória e da pressão intrapulpar. Pode-se observar o aparecimento de tecido de granulação na região periférica na zona exsudativa. A polpa não está mais circundada em todos os lados por paredes duras, em muitos casos a lesão cariosa já alcançou a polpa, deixando uma área de exposição, mesmo que mínima. A comunicação da polpa com a cavidade oral leva a diluição dos produtos tóxicos da inflamação. Essa pulpite pode ser classificada como crônica ulcerada ou como crônica hiperplásica. Na pulpite crônica ulcerada há ulceração visível na superfície pulpar, o paciente relata dor ao mastigar em dentes com cáries profundas ou com restaurações profundas. 6 Mariana Magalhães – Odontologia UFMG Na pulpite crônica hiperplásica ocorre formação de um pólipo pulpar visível clinicamente, esse pólipo é uma proliferação do tecido de granulação. Também há sintomatologia dolorosa na mastigação. Necrose Pulpar: Assintomática. Pode haver relato de episódio prévio de dor. Presença de cáries ou restaurações extensas podem ter alcançado a polpa. Pode ocorrer escurecimento da coroa, causado por hemólise ou pela decomposição do tecido pulpar. Resposta aos testes: Frio – Negativo; Quente – Negativo ou Positivo; Pressão e Percussão – Positivo ou negativo, varia de acordo com a situação dos tecidos perirradiculares. É uma sequela da inflamação aguda e crônica. Ocorre mortificação completa do tecido pulpar devido a interrupção imediata da circulação por causa de uma lesão. Pode evoluir para um quadro de pericementite sintomática ou assintomática.