Prévia do material em texto
Universidade Católica Portuguesa – Porto Mestrado em Ciências Religiosas Relatório Ao Senhor Ministro da Educação Nacional “O Ensino do Facto Religioso na Escola Laica” RÉGIS DEBRAY – Fevereiro 2002 Índice Que Esperanças? Que Resistências? Que Contrariedades? Que Laicidade? Que Recomendações? Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 1 I – Que Esperanças? O consenso aparente. A opinião francesa, na sua maioria, aprova a ideia de aprofundar o estudo do religioso na Escola Pública. E não somente por causa de actualidade traumatizante, ou de modo intelectual. Desde os anos 1980-1990, partindo do relatório do Reitor Joutarde de 1989, foram desenvolvidas as razões básicas, por diversas vezes e sob diversos ângulos defendendo uma abordagem profunda fundamentada nas religiões, enquanto facto de civilização. Argumentação conhecida. É a ameaça cada vez mais sensível de um desenraizamento colectivo, de uma ruptura dos elos da memória nacional e europeia, onde faltando o elo da informação religiosa, torna absolutamente incompreensível e sem nenhum interesse os Tímpanos de Chartres, a Crucifixão de Tintoretto, o Don Juan de Mozart, o Sono de Booz de Victor Hugo e a Semana Santa de Aragão. É a mediocridade e o desvanecimento do quotidiano a partir do momento em que a Trindade não passa de uma estação de metro e os feriados, as férias do Pentecostes e o ano sabático meras datas ao acaso no calendário. É a angústia dum desmembramento comunitário das solidariedades cívicas, para a qual contribui a ignorância em que estamos do passado e crenças de outros, cheias de clichés e preconceitos. É a procura, através da universalidade do sagrado com as suas interdições e permissões, de uma plataforma de valores unificadores, para ligar a montante a educação cívica e temperar do esvaziamento das referências, como a diversidade, sem precedentes para nós, e das pertenças religiosas num país de imigração, felizmente aberto a todos. Angústia patrimonial, social, moral? O crescimento de opacidades, de desorientação e de intolerâncias, de mal-estar e de desvios? Face a estas inquietações, experienciadas por muitos, apesar de este não ser o lugar para apreciar a sua pertinência ou alcance, abordaremos o seu fundamento no campo pedagógico. O colapso ou erosão dos antigos meios de transmissão que as igrejas, famílias, costumes e civilizações constituíam, transfere para o serviço público do ensino as tarefas elementares de orientação no espaço e no tempo que a sociedade civil já não é capaz de assegurar. A transferência deste cargo, a mudança de responsabilidade da esfera do privado para a escola de todos, concretizadas há trinta anos, a partir do momento em que as humanidades clássicas e as obras literárias foram abandonadas, quando a preponderância do visual, a nova demografia das instituições, assim como um certo formalismo tecnicista na abordagem escolar marginalizando os textos e obras ou desvalorizando as antigas disciplinas do sentido (literatura, filosofia, história, arte). Infeliz coincidência que nada facilitou. “A incultura religiosa” de que tanto se fala (olhando a Virgem de Boticelli: “quem é esta miúda?”) não constitui um problema em si. Ela é parte e efeito a jusante, de uma “incultura” a montante, devido ao desaparecimento dos códigos de reconhecimento que afectam, claramente, a unidade dos saberes, do saber viver e do discernimento. E por tanto, a Educação nacional estava avisada há muito tempo para estar na linha da frente e poder, dia após dia, colmatar estas lacunas. Não se trata por isso de reservar ao facto religioso um lugar à parte, dotando-o de um privilégio superlativo, mas de se dotar de todas os elementos necessários aos estudantes do ensino médio e liceal, alias domados para e pelo binómio: consumo-comunicação, para ficar em plenamente educado, assegurando-lhes o seu direito ao livre exercício do discernimento. Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 2 O objectivo não é de remeter “Deus à escola”, mas de prolongar o itinerário humano em múltiplas vias, partindo do princípio que a continuidade cumulativa, que também chamamos cultura, distingue a nossa espécie animal das outras, menos afortunadas. Tradições religiosas e futuro das Humanidades embarcaram no mesmo barco. Não se reforçará o estudo do religioso sem reforçar o estudo em si mesmo. E é aqui que a história das religiões pode encontrar a sua plena pertinência educativa, como meio de ligar o curto ao longo termo, reencontrando os encadeamentos, os largos elos, próprios da humanidade, que tende a apagar a esfera áudio-visual, apoteose repetitiva do instante. Porque aquilo que nós chamamos, sem razão, incultura, nas gerações jovens, é uma outra cultura, que podemos definir como uma cultura de extensão. Ela dá a prioridade ao espaço sobre o tempo, ao imediato sobre o duradouro, tirando disto a melhor parte das novas ofertas tecnológicas “Sampling, Zapping, culto do directo e do imediato, montagem instantânea e viagens ultra-rapidas”. Alargamento vertiginoso dos horizontes, estreitamento drástico das cronologias. Contracção planetária e pulverização do calendário. Nós de-localizamo-nos tão rapidamente como nós nos “desistuarizamos”. Um antídoto eficaz a este desequilíbrio entre o espaço e o tempo, as duas âncoras fundamentais de qualquer civilização, não residirá na colocação em evidência das genealogias e barreiras da actualidade mais ardente? Como compreender o 11 de Setembro de 2001 sem ir ao wahabismo, às diversas filiações coramicas, e aos avatares do monoteísmo? Como compreender os confrontos jugoslavos sem ir ao sisma do Filioque e ás antigas divisões confessionais da zona balcânica? Como compreender o Jazz e o pastor Luter King sem falar do protestantismo e da Bíblia? A história das religiões não é a recolha de lembranças de infância da humanidade; nem um catálogo de amáveis ou funestas bizarrias. Ao atestar que o acontecimento “digamos: as Twin Towers” não toma o seu relevo e a sua significação se não na profundeza do tempo, ela pode contribuir a relativizar junto dos alunos o fascínio conformista da imagem, o spot publicitário, sketch informativo, dando-lhe meios suplementares de escapar-se do presente-prisão, para fazer retorno, mas em conhecimento de causa, ao mundo de hoje. Eis-nos já longe de um projecto pré- fabricado (artesanal) de “rearmamento moral”, de um mínimo espiritual garantido ou de uma nostalgia beatifica e exclusivamente patrimonial. Estão no primeiro plano do esforço a empreender e sobre o mesmo plano: os professores de letras e línguas uma vez que eles são os melhores colocados para fazer compreender os diferentes modos e estratégias de discurso, os diferentes significado de palavras utilizadas pelo ser humano segundo o que ele diz sua fé, descreve os factos ou emite as ideias, e que não se pode apreciar a partir dos mesmos critérios este ou aquele tipo de artigos; os professores de filosofia que o programa actual e a sua própria reflexão só podem incitar a explicitar a diferença entre uma relação mágica racional ou religiosa ao mundo; os ensinamentos artísticos, porque o estudo das formas dos símbolos e das representações os confrontam necessariamente às culturas religiosas; os professores de história e geografia “uma vez que o mapa do mundo contemporâneo é ininteligível sem referência às estruturações religiosas das áreas culturais”. II – Que Resistências? Foram dados importantes passos em frente, nomeadamente desde 1996, com as novas e excelentes orientações dos programas de história de francês (6ª, 5ª, 2ª e 1ª). Não se pode dizer de uma forma séria hoje que o islão, por exemplo, está ausente das aprendizagens escolares. Tornou-se uma contra-verdade. Dito isto, quando queremos aprofundar, o consenso esfria-se. Porque sobre as vias e meios de uma melhor inclusão Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/20113 das questões religiosas num ensino sem nenhuma obediência religiosa as crispações estão vivas e permanecem. Passar de votos piedosos às decisões práticas acorda imediatamente desconfianças inveteradas. Desconfianças simétricas, que deveriam, em boa lógica, anular-se uma à outra, mas que, em boa psicologia duplicam a inibição. No lado laico, acontece que se denuncia por palavras mais ou menos disfarçadas o cavalo de Tróia de um clericalismo mascarado, o último disfarce dum proselitismo alias em declino, quando não é o instrumento sério de uma reconquista papista da Europa, ou mesmo da anti-ciência e do regresso dos magos. O lobo no curral. Sem contar com o medo, justificado, de avivar no seio da escola transcomunitária os demónios comunitaristas, através de questões que zangam, os ateus não menos que os outros. Daí esta reacção compreensível: “Nós não estamos aqui para fazer catequese”. Do lado eclesiástico ou crente, acontece que se denuncia um outro cavalo de Tróia, o dum confessionalismo e dum relativismo obscuros que justapondo dados inertes e incolores, apagaria as fronteiras entre o inefável e as vulgatas, a “verdadeira religião” e as “falsas”. Como separar o exame dos factos das interpretações que lhes dão sentido? Pode-se reduzir a uma rapsódia de observações exteriores e frias um empenhamento vivido a partir do interior que faz corpo com a própria pessoa? Ou então reduzir a música a um correr de notas sobre papel riscado, ou perguntar a um cego para falar das cores... Estas objecções têm a sua validade. No entanto, elas alimentam-se de um certo número de mal entendidos, ou de amálgamas mecânicas, que seria prudente dissipar desde início, antes de se arriscar aos exercícios práticos. O primeiro dos qui pro quos: o ensino do religioso não é um ensino religioso. Os vigilantes defensores do livre pensamento e da “escola emancipadora” conhecem as distinções que se seguem, mas aquilo que não é preciso dizer fica sempre melhor quando é dito. a) Ninguém pode confundir catequese e informação, proposta de fé e oferta de saber, testemunhos e relatórios. Não mais que a epistemologia da Revelação com a da razão. A relação sacramental à memória visa acrescentar e afinar a crença, a relação analítica a acrescentar e afinar o conhecimento. O primeiro tipo de ensino, por mais argumentado e dialectizado (Dialéctica) que ele seja, pressupõem a autoridade de uma palavra revelada incomparável a qualquer outra, dom sobrenatural regulado, em última instancia, pela instituição. A segunda procede a uma aproximação descritiva, factual e mocional (moção) das religiões em presença, na sua pluralidade, do extremo oriente ao ocidente, e sem procurar privilegiar esta ou aquela. A república não tem que arbitrar entre as crenças, e a igualdade de princípio entre crentes, ateias e agnósticas vale, à fortiori, para as confissões. b) “A procura de sentido” é uma realidade social da qual a Educação Nacional não pode fazer vista grossa, mas não se saberia, para responder à pergunta e por facilidade, reconhecer às “religiões” (termo diga-se de passagem tardio, equivoco e muitas vezes impróprio para as realidades que ele designa) um qualquer monopólio do sentido. No que diz respeito ás ansiedades metafísicas do ser humano, onde é evidente que o que liga o individuo ao tempo, ao cosmos e aos seus congéneres, as religiões instituídas não têm nem exclusividade nem superioridade à priori. As também sabedorias, as filosofias, os saberes e a própria arte, exploram desde há três milénios as relações que podem estabelecer-se entre os nossos pontos cardeais, sem fazer eco obrigatoriamente ao “apelo da outra margem”. Estas respostas profanas às questões que nos colocam a morte, a origem e a finalidade do universo, Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 4 contribuem plenamente à formação do sentido. Esta evidência relembrada não impede que hoje como ontem e provavelmente amanhã (se se admite que as idades sucessivas das histórias das mentalidades não se acabam uma com a outra, mas constituem andares estruturais na psique humana), os homens vivem e matam-se uns aos outros por e em nome dos símbolos. Como eles se dividem, na primeira classe, pelas palavras, cartazes e imagens. Culturas, línguas, religiões, identidades, patrimónios fazem descer à rua, hoje ainda mais do que antes, milhões de manifestantes (viu-se em Paris com a Escola, nos dois sentidos). E é o universo simbólico como tal onde podem entrar com títulos tão diferentes tanto como o direito, a moral, a história da arte e o mito, do qual a Escola, nomeadamente através do ensino filosófico, deve entender-se a inteligência reflexiva e crítica. Como descrever a aventura irreversível das civilizações sem tomar em conta o sulco deixado pelas grandes religiões1? O esforço impõem-se tanto mais que o paradigma da economia, as novas tecnologias e as referências à empresa e ao empreendedorismo se impõem ou se propõem hoje aos alunos, meio obriga como único e último horizonte. c) O remeter do facto religioso fora dos limites da transmissão racional e publicamente controlada dos conhecimentos, favorece a patologia do terreno em vez de a corar. O mercado das credulidades, a imprensa e a livraria enchem-se da vaga exotérica e irracionalista. A Escola republicana não deve fazer contra-peso ás guerras audiências, aos charlatães e ás paixões sectárias? Abster-se não é curar. O Pensador de Rodin que manda passear a Bíblia com um pontapé negligente “visto numa caricatura” esquece que o Livro Santo não desaparece por isso na natureza, ou não se perde para toda a gente. Dele se dará noutro lugar “sem constrangimento” leituras fundamentalistas tanto ou mais perniciosas que as jovens endoutrinas não terão recebido nenhum esclarecimento qualificado sobre este texto de referência. Está provado que um conhecimento objectivo e circunstanciado dos textos santos como das suas próprias tradições conduz muitos jovens intriguistas a rejeitar a tutela de autoridades fanatizantes, por vezes ignaras e incompetentes. Os representantes instruídos das confissões sabem-no bem, mas não é inutil, por precaução, redize-lo claramente à intenção de crentes reticentes, outras evidências em contra-ponto das precedentes. d) Da mesma forma que o sábio e a testemunha não se invalidam um ao outro a aproximação objectivante e a aproximação confessante não fazem concorrência uma à outra a partir do momento que as duas possam existir e prosperar simultaneamente (o que permitem a liberdade de consciência e nomeadamente as diversas faculdades de teologia entre as quais algumas são do Estado, como na Alsacia e Mozelle). Prova disto é que as duas podem coexistir em certas pessoas (um exegeta pode ser crítico e ordenado). A óptica da fé e a óptica do conhecimento não constituem um jogo empatado. Esta última começa por fazer a partilha a título preliminar, entre o religioso como objecto de cultura (entrando no caderno de encargos da instrução pública que tem por obrigação examinar a contribuição das diferentes 1 O estoicismo como o budismo, o platonismo como o espinozismo, ligam o eu ao todo e ao tempo. Simplesmente os estóicos não edificaram torres sineiras, nem arritmaram o nosso ano solar. Há, para nós ocidentais, uma mentalidade histórica, e felizmente, mas há, bom ano, mau ano, catedrais ou calendário, um facto judeu‐cristão partilhado entre crentes e não crentes que não se pode crer apagar do nosso campo prático sem retirar os terrenos da realidade. Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 5 religiões à instituição simbólica da humanidade) e o religioso como objecto de culto (exigindo um voluntariado pessoal no quadro das associações privadas). A química das cores não desqualifica a história da pintura, da mesma forma que a fórmula H2O não esvazia as estações termais no monopólio da sua apresentação, nem desfiguraas ressonâncias imemoráveis dos ritos da água. A laicidade só concerne aquilo que é comum a todos, a saber as marcas visíveis e tangíveis das diversas fés colectivas sobre o mundo que os humanos partilham, sem se misturar, por prudência e pudor, daquilo que não é comum se não a vários, por exemplo as experiências intimas. e) A deontologia do ensino, e que se aplica à exposição das doutrinas, em filosofia como ao dos sistemas sociais, em história, estipula que se coloque entre parênteses as convicções pessoais. Dar a conhecer uma realidade ou uma doutrina é uma coisa, promover uma norma ou um ideal é outra. Os professores são instruídos, para lá da simples obrigação da reserva, na arte de reduzir sem apagar, explicar sem desvalorizar, fazer sentir sem se colocar como modelo. A família das disciplinas ditas literárias treina-os, desde há muito tempo, a ponderar proximidade compreensiva e distância crítica, empatia e recuo, quer seja em relação aos textos, às civilizações ou aos indivíduos. Uma didáctica das ciências das religiões, que está ainda, sem dúvida, por criar ou refazer saberá dar a continuidade, ajudando nisto a experimentação pedagógica. As religiões têm uma história, mas não são apenas história, e menos ainda estatística. Claro. Dizer o contexto histórico sem a espiritualidade que o anima é correr o risco de desvitalizar. Dizer, por outro lado, a sabedoria sem o contexto social que a produziu, é correr o risco de mistificar. A primaria abstracção faz o entomologista, ou mesmo o museu Grevine. A segunda produz o guru, se não mesmo o tempo solar. Aposta-se aqui numa terceira via, mas que não tem nada de novo na nossa melhor tradição escolar, desde há um século: informar dos factos para elaborar as significações. f) A incultura religiosa, segundo numerosos indícios, afecta tanto os estabelecimentos privados com perfil confessional como a escola pública. Vários índices mostram que a ignorância, neste domínio, está em correlação, em grande escala ao nível dos estudos e não à origem religiosa dos alunos, ou à sua pertença familiar. As “caixas católicas” em si mesmas não sendo mais, nem de longe, as “fortalezas da fé” de outrora, o apelo tradicionalista a “cada um em sua casa” parece ter falta de realismo. À selecção social, que é apenas uma pequena vantagem, o privado e o publico são afectados, finalmente, pela mesma amnésia, pelas mesmas carências. III – Que Contrariedades? A precaução laica tanto como a saturação do sistema educativo conduzem a ratificar as opções já tomadas, isto é a afastar a hipótese, por vezes formulada da uma “matéria” a mais e total no primeiro e no segundo grau. A história das religiões, tal como a história das artes e das ciências, e das técnicas, pode sem dúvida alguma, constituir uma disciplina específica no ensino superior e a pesquisa, como ramo autónomo de um tronco de disciplinas preliminares (história, filosofia, sociologia, mediologia). Mas não mais que as suas consortes, ela não poderia pretender, no liceu e no colégio ocupar um lugar à parte. A tarefa cabe às Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 6 pessoas em função, através das disciplinas reconhecidas. E para mais estes professores devem ser acompanhados e apoiados no prosseguimento dos seus esforços. A escola não pode tomar como tarefa, sozinha, todos os problemas não resolvidos pela sociedade. Na crise de crescimento que ela atravessa, - massificação dos liceus, sobrecarga de actividades, alargamento dos horários, empilhamento de programas, neste momento em que se fala, por vezes demasiado, de aligeirar e de reduzir – não seria razoável juntar uma nova prateleira a uma grelha já em cheia, da qual muitos professores lamentam já o peso e a dificuldade a “faze-la passar” em turmas heterogéneas. Promover a história das religiões, no ensino secundário, como disciplina especifica seria prestar-lhe o pior dos serviços visto que ela não poderia, num calendário cheio como um ovo, se não ocupar um lugar decorativo e um horário á margem como o do curso de música. A longo termo, seria de lamentar, na ausência de concursos regulares, (licenciatura, agregação ou caps), e de instancia autónoma de validação dos saberes (conselho nacional das universidades), uma substituição do clérigo ao leigo. Intervenientes exteriores seriam, mais tarde ou mais cedo, propostos para substituir os professores, e não uns quaisquer: diplomados nas faculdades de teologia e representantes patenteados de diferentes confissões, que poderiam argumentar de reais qualificações e de uma secular experiência a este respeito. Jules Ferry, de imediato não reconheceria ai os seus. É por isso sobre os conteúdos de ensino, através de uma convergência mais razoável entre as disciplinas existentes, e sobre tudo sobre a preparação dos professores que convém colocar a ambição. São estes últimos que é preciso incitar, sossegar, desinibir e, para isto, melhor armar intelectualmente e profissionalmente face a uma questão sempre sensível porque toca na identidade mais profunda dos alunos e das famílias. Uma melhor competência apoiando-se sobre um tema julgado não sem razão espinhoso ou complicado (socialmente muito mais “quente”, de facto, que a história das ciências e da arte) deveria permitir decrispizar, desapaixonar e mesmo, ousemos o termo, banalizar o tema, sem lhe retirar, antes pelo contrário, a sua dignidade intrínseca. Esta formação dos formadores exige a aproximação das duas lâminas demasiado afastadas de uma mesma tesoura, a escolar e a universitária. Porque se operou, e neste domínio muito particularmente, um afastamento entre a pesquisa especializada e o ensino geral. Entre a evolução interna dos saberes e a prática ordinária da sua transmissão. Entre uma “alta cultura” reservada a uma elite social ou sábia, e um “nível médio” exposto, por apelo da “moda”, aos ventos mediáticos da simplificação. Com, entre outras consequências de caminhos caóticos. Não podemos nós ler, em certos manuais escolares, com chancela laica formulas dignas da história santa do século XIX (“Abraão, o pai do povo hebreu” ou “Jesus, o fundador do cristianismo”) – simplificações das quais o especialista confessante do século XXI, por sua vez, evitará? Opor-se a uma segregação muito pouco democrática, prejudicial às tarefas de uns e de outros, aparece como uma necessidade. Organizar em rede o arquipélago nacional das “ciências das religiões”; desencravar a pesquisa para lhe permitir de se atirar para fora; e abrir um mundo do ensino a uma formação profissional de qualidade: estes três momentos não são se não um porque se condicionam uns aos outros. IV – Que Laicidade? Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 7 O principio da laicidade coloca a liberdade de consciência (a de ter ou não uma religião) a montante e acima daquilo que se chama, em certos países, a “liberdade religiosa” (a de poder escolher uma religião desde que se tenha alguma). Nesse sentido, a laicidade não é uma opção espiritual entre outras, ela é aquilo que torna possível a sua coexistência, porque o que é comum em direito a todos os homens deve ter prioridade sobre aquilo que de facto os separa. A faculdade de aceder à globalidade da experiência humana, inerente a todos os indivíduos dotados de razão implica a luta contra o analfabetismo religioso e o estudo de sistemas de crenças existentes. Assim, não podemos separar princípio de laicidade e estudo do religioso (dai o título do modulo sugerido mais à frente). Melhor: importa começar por uma primeira lição sobre os fundamentos e obrigações de um princípio, no fim de contas, pouco banal que pensaríamos mal acreditando que entrou nos costumes, e do qual os furores que nos envolvem não cessam de fazer crescer a pertinência. Por mais que se possa ai ver uma derrogação, uma concessão a lóbis ou efeito de um inexorável gatinhar, levar a bom termo os projectos aqui desenvolvidos exige da escola públicaque ela se mostre não um pouco menos, mas ainda mais laica, adoçando-se desde o início a uma ordem de valores claramente assumida, não menos constrangedoras que as dos religiosos e opusantes, neste caso, a alguns entre eles. (Cada um com o seu credo. Nós respeitamos o vosso. Respeitai o nosso...). Vigiando sempre que possível tanto o sentido simbólico existencial para os crentes dos ritos e dos dogmas, o caminho proposto deve desde o inicio e abertamente reconhecer os seus próprios limites. Ele não pode nem deve pretender atingir o coração da fé vivida, ainda menos substituir-se aqueles dos quais é a vocação. A adesão pessoal não é do seu lado, mais do que a sua recusa. No interior e em função desta mesma auto-limitação, o espírito de laicidade não devia ter nada a temer aqui. E isto a três títulos. a) É prosseguir o combate pela ciência, que ultrapassa os medos e os preconceitos que estende o discurso da razão ao domínio do imaginário e do simbólico, sem fugir diante da dificuldade. Uma laicidade que se esquiva amputa-se. Abrir os jovens espíritos a toda a espécie de comportamentos e de culturas para os ajudar a descobrir em que mundo vivem, e de que heranças colectivas eles são devedores, deve conduzir a fazer luz sobre obscuro. Mesmo a ultrapassar um certo cientificísmo ingénuo, doença infantil da ciência em curso, como um certo laicismo obscuro pode ser doença infantil do livre exame. O afastamento do religioso como buraco negro da razão, fora do campo do divulgável, com risco de fazer o funeral do hermetismo, testemunharia talvez uma laicidade ainda complexada pelas suas condições de nascimento uma “cato-laicidade” ou de uma contra religião de estado, marcada pelos combates que ela teve de enfrentar, contra o vento, contra a catolicidade dos sylabus e da ordem moral. Dois séculos mais tarde, cada um respira melhor: a paisagem histórica não é mais a mesma. b) Só uma deontologia laica provada pode evitar a confusão de magistérios, porque o que ela exige imparcialidade e de neutralidade nos mestres, de recusa de tudo o que pode assemelhar-se ao conflito das “duas franças” (o princípio de laicidade tendo-se, desde as suas origens, demarcado da anti- religião militante) ensinar, deste modo, a reencontrar a “época alta” das leis laicas e republicanas que acabaram justamente com a criação de uma secção autónoma da escola prática em 1986, destinada a estudar de um modo não teológico, os fenómenos religiosos. c) Se a laicidade é inseparável de uma orientação democrática da verdade, transcender o preconceitos, colocar em relevo os valores de descoberta (a Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 8 Índia, o Tibete, a América), desatar o nó identitário, no seio de uma sociedade mais exposta do que outrora à influência de personalidades colectivas, é contribuir para desramar os diversos intriguismos, que têm em comum esta distinção intelectual: é preciso ser de uma cultura para poder falar dela. É nesse sentido precisamente, e sem excluir outras confissões de fé, que se pode avançar: a laicidade é uma sorte para o islão em França, e o islão de França é uma sorte para a laicidade. Não falaríamos, a este propósito de aggiornamento, mas de refontalização. Nem de uma laicidade plural, aberta ou repetida mas sobretudo refundida, orgulhosa, segura de si mesma e dos seus valores próprios. O estável alicerce dos seus postulados filosóficos não impede, felizmente, a sua procura de ser evolutiva e inovadora. As circunstâncias ruidosas e tensas da imergência republicana recomendaram, neste aspecto, uma abstenção deliberada e motivada, honra seja dada aos mestres, naquilo que ela procedia tanto de um respeito das crenças íntimas como das divisões que elas poderiam suscitar nos alunos. A abstenção de método foi interpretada, às vezes, e sem razão, como uma denegação do próprio objecto. Parece chegado o tempo da passagem de uma laicidade incompetente (o religioso, por construção, não nos diz respeito) a uma laicidade da inteligência (é nosso dever compreende- lo). Isto é tão verdadeiro que não existe tabu nem zona interdita aos olhos de um laico. O exame calmo e metódico do facto religioso, na recusa de qualquer alinhamento confessional, não seria, finalmente, através desta ascese intelectual, a pedra angular e a provação da verdade? Inscrita na constituição, mais exigente que uma separação jurídica das Igrejas e do Estado e mais ambiciosa que uma simples “secularização” (a qual desconfessionaliza os valores religiosos para melhor nos desenvolver na própria sociedade civil), nossa aproximação nacional de um principio de direito universal cuja aplicação em França, mesmo que imperfeita, é mais avançada que noutros lados, constitui uma singularidade na Europa. O México e a Turquia foram, ou são, outros. Esta originalidade de raiz é-nos, por vezes, imputada sem razão e elevam-se vozes que tendem a argumentar sobre a norma europeia, o que seria um anacronismo ou uma má vontade, exortando a ovelha negra a alinhar-se sobre o “modelo comunitário”. É esquecer duas coisas: a primeira é que não existe, em matéria de ensino das religiões, um só modelo, mas tantas situações como países. Na Irlanda, onde a constituição presta homenagem à Santíssima Trindade, e na Grécia, onde a Igreja Ortodoxa, auto-cefala, é de Estado, este ensino é de tipo confessional e obrigatório. Na Espanha, onde se trata, com efeito, de uma catequese, dada por professores certamente escolhidos pela administração pública, mas a partir de uma lista de candidatos apresentados pela diocese, tornou-se facultativo. Em Portugal, apesar do princípio afixado de neutralidade, foi até esta manhã, assegurado, nas escolas públicas, pela Igreja Católica. Na Dinamarca, onde a Igreja Luterana é a Igreja nacional, não há catequese, mas em cada grau da “escola do povo” um curso não obrigatório de “conhecimento do cristianismo”. Na Alemanha, onde a educação vária segundo as regiões, o ensino religioso cristão faz parte dos programas oficiais, frequentemente sob o controlo das igrejas, e as notas obtidas em religião contam para a passagem de ano. Na Bélgica, os estabelecimentos do Estado permitem a escolha entre um curso de religião e um curso de moral não confessional. Abreviemos. Não há norma europeia na matéria, cada Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 9 mentalidade colectiva gere como pode a sua herança histórica e as suas relações de forças simbólicas. A segunda coisa, é que este ensino, dito “europeu”, está muitas vezes em crise, suscitando protestos dos “sem religião” e deserção dos outros. Notemos que na Alçacia-Moselle, dotada de um estatuto escolar “à alemã”, onde este ensino é obrigatório e de carácter confessional, os pedidos de dispensa, no liceu, atingem agora os 45% dos efectivos (mas um terço na primária). Não teríamos razão se acreditássemos que a procura de “cultura religiosa” é uma procura de religião. Confundi-las demasiado sistematicamente, num mundo tal e qual ele está, seria prejudicar a tarefa. A partir daqui, é permitido pensar que uma caminhada mais equilibrada, ou mais distanciada podia ser olhada com interesse pelos nossos vizinhos e amigos europeus. Longe de ser neste assunto a carruagem da cauda, a nossa escola republicana se encontraria, pouco antes do centenário da separação das igrejas e do Estado, como locomotiva do futuro. Os “retardatários” na vanguarda? São coisas que acontecem. V – Que Recomendações? Estas considerações conduzem-nos a submeter os Ministro doze propostas concretas de desigual envergadura e alcance, mas cujo cumulo pode imprimir o novo elã desejado. 1) Perguntar de imediato, no quadro do seu programa de trabalho, aos corpos de inspecção geral implicados – essencialmente História/Geografia e Letras – um relatório de avaliação a propósito das modificações, trazidas aos programas em 1996, apoiando-se nos corpos de inspecção territoriais. Este primeiro balanço, no fim de umprocesso acelerado faria subir a DESCU (direcção do ensino escolar) a experiência adquirida no terreno: dificuldades encontradas nos alunos, reticências ou genes ressentidos nos professores, escolhas efectuadas no interior dos programas. Assim, poderíamos melhor adaptar instruções e orientações às condições reais... 2) Ganharíamos muito em restabelecer a coerência, em particular, dos programas de História do 2º (Ano francês) onde os seis temas se ligam uns aos outros2. O professor foi outrora convidado a praticar adaptações no programa, tornando opcional o estudo de alguns capítulos, ao passo que o conjunto se inscreve numa continuidade cultural que perde muito do seu valor se nós a fraccionarmos. Este ponto diz respeito a mais do que uma disciplina. Como ensinar a literatura do século XVI francês se a história do renascimento é desconhecida? Como compreender o estado da natureza em Rousseau ou a odisseia Hegeliana, se nunca se ouviu falar de Adão e Eva. 3) As novas orientações sobre o colégio, e nomeadamente os itinerários da descoberta, deveriam poder facilitar a evocação, no ciclo central (5ª. e 4ª.), questões religiosas sobre uma forma concreta e profissionalizada, em relação com os programas já modificados de Francês e de História. Sobre os quatro domínios propostos, “artes e humanidades” assim como “línguas e civilizações” oferecem entradas favoráveis para estudar, por exemplo, as 2 Cidadania ateniense, nascimento do cristianismo, o mediterrâneo no século XII, Humanismo e Renascimento, a Revolução e as Experiências Políticas em França até 1851, a Europa em mudança na primeira metade do século XIX. Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 10 práticas de peregrinação, os ritos de purificação ou as diversas arquitecturas religiosas. Um novo documento de acompanhamento poderia incitar e precisar, junto das equipas pedagógicas, esta abertura. 4) No liceu, ao lado dos esforços disciplinares, que permanecem o essencial, os trabalhos pessoais acompanhados (EA) poderiam favorecer aproximações sensíveis, transversais e interdisciplinares dos fenómenos religiosos. Não seria inútil, tendo em conta os desiderata dos alunos e os recursos regionais (museus, igrejas, mesquitas, sinagogas, festas religiosas, etc.), de fazer estudar, por exemplo, em termos comparativos, os jejuns (Ramadão e Quaresma), o estatuto social das mulheres, a figuração do divino no monoteísmo e no politeísmo, etc. Os ensinamentos artísticos poderiam aqui, com a História e a Filosofia, ter um papel nevrálgico para abordar estes problemas pela mediação de obras-mestras do património religioso, tanto como pelo cinema, a fotografia, a dança, a educação musical ou o espectáculo vivo. 5) Para os professores em formação inicial: a criação de um módulo na IUFM (Institutos Universitários de Formação de Mestres, que sucederam às antigas Escolas Normais). Múltiplos os contributos culturais possíveis à formação geral dos professores estagiários, e os módulos acumulam-se aqui e ali, por vezes excessivamente, sobre os mais diversos temas. No entanto, diferentemente da História da Arte e mesmo da História das Ciências, o tema “laicidade e religiões” parece directamente ligado ao princípio fundador do ofício. Do mesmo modo, se estivesse previsto o enquadramento nacional dos percursos de formação, e se estivessem reconhecidas certas prioridades, este módulo teria todo o direito de estar aqui. Através do texto de enquadramento nacional dos IUFM, um módulo obrigatório “filosofia da laicidade e história das religiões” seria confiado aos professores de filosofia, de letras e de história da academia correspondente, assim como a pessoas/recursos, universitários especializados e formados para este efeito (ver mais à frente). Co-intervenções seriam sistematizadas segundo as condições locais. Este módulo (à volta de 10 horas por ano) só ocorreria no segundo ano, após os concursos, e seria proposto aos futuros professores do básico e do secundário (geral, técnico e profissional). Os temas deveriam poder ser abordados nas testes profissionais, á espera de requerer uma validação formal do módulo. A trintena de IUFM, no conjunto do “superior” e do “escolar” (por posição, não por estatuto) parece destinada para servir de ponto de irrigação e de ligação entre laboratórios de investigação e estabelecimentos escolares. Se foi reconhecido (Comité Nacional de Avaliação 2001) que “a cultura é o parente pobre dos IUFM”, mais voltados para o uso de documentos que para as problemáticas, a introdução de um tal módulo, abrindo-se aos problemas mais quentes, tanto como às realidades do vasto mundo (compreendendo sobre estas formas, para nós as mais exóticas ou desenraizadoras, budismo, hinduísmo, xinto) contribuiria ao alargamento dos horizontes. 6) Para a formação contínua, um estágio nacional interacadémico, encontro anula a inscrever no calendário, reuniria no início do próximo ano, durante três dias, de um lado um grupo de especialistas reputados reunidos à volta da quinta secção do EPHE, e do outro, um grupo composto de um inspector pedagógico regional por academia, fundamentalmente em história/geografia, Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 11 filosofia, letras, línguas vivas e ensinos artísticos, duplicada de um professor/formador à sua escolha por disciplina em cada académica3. Porquê proceder assim por níveis e espirais? Porque há de um lado à volta de 40000 professores de história/geografia (certificados, agregados, PEGS, PLP2, etc.), 60000 de letras, 6000 de filosofia, sem contar os milhares em línguas vivas, em ensinos artísticos, etc.; e do outro lado, um pequena centena de formadores virtuais de alto nível. Estas ordens de grandeza, e sua dissimetria, obrigam, se queremos que os professores nos liceus e colégios tenham sólidas referências através deles, a proceder por etapas e recomeços. O programa dos três dias deste seminário de estudos superiores cobrindo a gama das grandes religiões presentes em França (mais a questão das seitas), cuja elaboração seria confiada à secção das ciências religiosas da EPHE, secção onde brilharam Sylvain Lèvi, Marcel Mauss, Gilson, Coyré, Massignon, Kojév, Dumèzil, Clode Lèvi-Strauss, e outros se repartiria entre conferências magistrais e ateliês de trabalho (debate). As conferências seriam gravadas e as cassetes colocadas à disposição dos CDI dos estabelecimentos através do CNDP. O site da instituição asseguraria a continuidade. Este estágio poderia ter-se na Escola Normal superior da rua do Ulm, mais precisamente no número 29, na antiga cinemateca, sala Jules Ferry. O ENS contribuiria, no plano intelectual, com os seus próprios investigadores e, no plano material, a administração. No espírito da missão que lhe tinha confiado o seu lírico fundador, Lakanal: oferecer às luzes um reservatório, comandando, na origem, vários canais de difusão. 7) Para tornar a formação realmente contínua, o tema laicidade/história das religiões seria inscrito no programa nacional de orientação destinado aos reitorados que poderiam inseri-lo nos seus cadernos de encargos e solicitar a seguir as universidades. Seriam assim previstas no interior do plano académico de formação, acções animadas pelos participantes deste seminário nacional, em ligação com as universidades, sobre uma base interdisciplinar. As universidades de verão tomariam a seguir a continuidade, conforme os pedidos. 8) Seria examinada, nesta perspectiva, a possibilidade para a secção das ciências religiosas da EPHE de se constituir em cabeça de rede, ligada aos melhores centros de estudos existentes em França (laboratórios de pesquisas, CNRS, universidades de Paris e das regiões), a fim de poder responder concertadamente aos pedidos de formação inicial e contínua. Podemos interrogar-nos se não seria desejável dispor de um instituto europeu em ciências das religiões, identificávelsobre a cena internacional e da qual a “5ª secção” seria a ponta de lança, transformação que meteria um termo ao seu relativo deficit de visibilidade, à difusão dos seus locais aos quatro cantos de Paris, e acerta subutilização no seu potencial cientifico. Este instituto federativo, no quadro de uma renovação geral da Escola Prática de Altos Estudos, reforçaria os seus projectos de investigação cientifica e ver-se ia igualmente dotada de meios de oferecer aos IUFN o mesmo tipo de prestações que aquelas que assegura já, em matéria de história das ciências, a 3 A Escola Prática de Altos Estudos, autorizado estabelecimento do ensino superior, presidido pelo Senhor Jean Baubèrot, comporta três secções: ciências da vida e da terra (3ª secção), ciencias históricas e filológicas (4ª secção) e ciências religiosas (5ª secção). Esta última, presidida pelo Senhor Claud Langlois, contava em 2001, 52 directores de estudo e 8 mestres de conferências. Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 12 Cidade das Ciências e da Indústria (Ensino à distancia, vídeo-conferências, bibliografias, dossier, etc.). A vantagem de tal promoção consistiria em dispor de um centro organizador reconhecido, independente das empresas eclesiais ou ideológicas, garante de objectividade susceptível ao mesmo tempo de se alargar a diversas escolas de pensamento e disciplinas e de validar, em caso de necessidade, esta ou aquela contribuição exterior. Se os pólos de excelência cientifica, na matéria, não respeitam necessariamente os dualismos privado/publico ou religioso/laico e se nós fizéssemos mal, na nossa humilde opinião, de se privar do apoio deste ou daquele, nas suas competências (Escola Bíblica e Arqueológica de Jerusalém, IFER de Dijon, Faculdades de teologia, etc.) – ainda seria necessário uma instância propriamente universitária susceptível de qualificar e seleccionar estas possíveis contribuições às tarefas de formação comum, em função de critérios puramente disciplinares e eruditos. Esta mudança de imagem, de escala e de estatuto administrativo, que testemunharia de uma vontade clara, não teria sentido se não a reagrupar, a breve prazo, biblioteca, administração e salas de aulas numa direcção únicas, e isto a fim de assegurar uma presença singular à medida de uma missão de interesse nacional. No imediato, ou a título de prefiguração, poderia ser criada uma célula de investigação “educação/sociedade, religião” (ERS) ligada directamente à DES e à DESCO. Ela seria constituída por professores investigadores afectos à gestão da EPHE. 9) O instituto teria entre outros por missão elaborar as ferramentas pedagógicas adequadas (em papel ou CD-ROM) e contribuir a uma melhor avaliação das comunicações existentes no mercado escolar. Seria pena deste ponto de vista que o relatório de Dominic Borne sobre o “manual escolar” fique letra morta. Com este fim, deveriam poder ser ouvidos, em caso de necessidade, os representantes das religiões presentes em França assim como outras famílias de pensamento. 10) O Ministro, por seu lado, poderia pedir à inspecção-geral, em acordo com o conselho nacional dos programas, de reunir um grupo de peritos pertencendo a diversas disciplinas (historiadores da arte, historiadores, letras, filosofia, línguas vivas, artes plásticas, música) a fim de produzir um conjunto de itinerários, de dossiers, de ferramentas pedagógicas destinadas aos alunos. Tratar-se-ia de favorecer uma aproximação de pleno direito do facto religioso através das suas manifestações artísticas e culturais. 11) Conviria entender o tronco comum das formações invocadas ao pessoal de acompanhamento e em particular aos chefes de estabelecimentos e directores de escola confrontados no quotidiano com a prova dessas questões de actualidade (recusa de seguir as aulas de biologia ou de educação cívica, o porte do véu, mestiçagem), porque são eles que são levados, em primeiro lugar, a discutir com os grupos minoritários e invocando presumíveis saberes religiosos para obter modificações de regulamentos internos. “Laicidade e religião”, a partir de estudos de casos adaptados constitui um elemento a integrar igualmente nos planos de formação dos inspectores territoriais (pelo menos 6 horas), colocados no terreno sob a autoridade da DPATE (Direcção do Pessoal Administrativo, Técnico e de Acompanhamento). A mesma coisa se diga para as equipas académicas da via escolar (EAVS) encarregadas da formação dos chefes de estabelecimento. Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 13 Tradução responsável: Miguel Peixoto 2010/2011 14 12) O parecer do comité de reflexão e de preposição sobre a laicidade na escola, recentemente entronizado pelo Ministro, poderia ser solicitado aquando da elaboração do novo módulo destinado em prioridade aos IUFN. Conviria igualmente associá-lo à preparação do estágio interacademico anual organizado pelo instituto europeu de ciências das religiões. Em resumo. Estas propostas, deliberadamente pragmáticas e modestas, só têm sentido articulando-se umas com as outras. Alguns as julgarão bastante limitadas. Para lá das aparências e olhando de perto, recusar de promover uma matéria na sua globalidade pode tornar-se um benefício intelectual uma vez que o religioso é transversal a vários campos de estudos e de actividades humanas. Isto pode ser, no sentido inverso, um perigo pedagógico, o do abafamento e o da desenvoltura. Precisamos, por isso, caminhar no clima do momento, entre o demasiado e demasiado pouco. A construção simultânea destas diversas propostas parte, sobre este aspecto, de uma ambição ponderada: atingir, no interior do ambiente escolar e fora dele, a “massa crítica”.