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Resumo - Concepção e Formação do Ser Humano

Material sobre puberdade e adolescência: define puberdade e adolescência, aborda mecanismos hormonais (ajuste das alças de feedback e controle menstrual), fatores que influenciam o início (genética, nutrição, geografia, luz, bisfenol, fitoestrógenos) e descreve os estágios de Tanner.

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Julia Novaes

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Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
PROBLEMA 1 – ABERTURA: 
PUBERDADE E SEUS IMPACTOS 
MORFOFISIOLÓGICOS: 
A puberdade é o momento no qual os 
caracteres sexuais secundários surgem e a 
maturidade reprodutiva é alcançada 
(geralmente entre 8-13 anos para meninas e 
9-14 para meninos). Sob o aspecto 
hormonal, esse período é marcado pelo 
ajuste da alça de feedback negativo de 
esteroides gonadais e aquisição de uma alça 
de feedback positivo de estrogênio para o 
controle do ciclo menstrual na mulher, de 
forma interdependente de gonadotrofinas e 
hormônios ovarianos. 
A adolescência, por sua vez, configura-se 
como o período da vida que sucede a 
infância, abrangendo indivíduos de 12 a 20 
anos. Começa com a puberdade e 
caracteriza-se por uma série de mudanças 
corporais e psicológicas. 
FATORES DETERMINANTES DO INÍCIO DA 
PUBERDADE: 
O principal determinante para a deflagração 
da puberdade é genético (ex.: concordância 
de idade da menarca entre mãe e filha, filha 
e irmãs ou num mesmo grupo étnico), porém 
fatores extrínsecos são capazes de afetar 
tanto a idade de início quanto a progressão 
puberal, dentre os quais podem ser 
destacados o estado nutricional (mais 
precoce em crianças obesas e atrasada em 
indivíduos desnutridos), a saúde geral, a 
região geográfica (maior precocidade em 
áreas urbanas, de menor altitude e mais 
próximas à linha do Equador), a exposição à 
luz, a exposição à compostos químicos 
capazes de afetar o sistema endócrino e o 
estado psicológico. 
 
Gêmeas normais aos 12 anos de idade. A puberdade está 
claramente mais avançada na gêmea mais pesada (64,8 kg) que 
na mais magra (39,5 kg). Fotografias e dados de casos como esse 
serviram como base para a teoria de que existe uma relação entre 
gordura corporal, massa corporal e menarca 
Um dos supostos agentes exógenos 
capazes de desregular aspectos endócrino-
hormonais e influenciar o início da fase 
puberal é o bisfenol, composto presente 
principalmente em plásticos. Em 2011, a 
ANVISA proibiu a presença desta substância 
nas mamadeiras, pelo risco que representa 
para as crianças, mas ela continua presente 
em latas de refrigerantes e outras 
embalagens. Esse composto tem ação 
estrogênica, que pode causar alterações 
neurocomportamentais e mudança na forma 
dos órgãos reprodutores, além de câncer de 
mama. 
Além dos agentes sintéticos, compostos 
naturais podem agir desregulando os níveis 
hormonais, sendo denominados 
fitoestrógenos. Sua ação é relativamente 
fraca quando comparada à do estrogênio 
endógeno, porém apresenta impactos se 
consumidos em excesso, estando presentes 
principalmente na soja (e derivados) e na 
semente de linhaça. 
ALTERAÇÕES MORFOFISIOLÓGICAS NA 
PUBERDADE: 
MARCOS DO DESENVOLVIMENTO PUBERAL: 
As mudanças típicas do período puberal 
ocorrem de forma ordenada num período de 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
tempo definido, sendo qualquer desvio 
considerado como anormal. 
Os estágios de Tanner (Marshall e Tanner) 
são utilizados para descrever o 
desenvolvimento dos caracteres sexuais 
secundários em ambos os sexos, dividindo-
se em estágios: 
 Desenvolvimento mamário feminino: 
o Estágio 1 de Tanner: pré-puberal, com 
ausência de tecido mamário palpável, 
papilas invertidas, planas ou elevadas 
e aréolas medindo menos de 2 cm de 
diâmetro; 
o Estágio 2 de Tanner: brotamento das 
mamas, com elevação visível e 
palpável do tecido mamário. Há um 
aumento das aréolas e a pele do local 
se torna mais fina. As papilas se 
desenvolvem em grau variado, 
formando uma pequena saliência; 
o Estágio 3 de Tanner: o crescimento e 
a elevação de toda a mama continuam, 
e é evidente uma segunda saliência 
correspondente à papila; 
o Estágio 4 de Tanner: há aumento da 
glândula mamária e elevação da 
aréola e da papila, com aumento de 
diâmetro e mudanças na textura da 
primeira; 
o Estágio 5 de Tanner: o contorno e 
tamanho da mama são de aspecto 
adulto. Na maioria das mulheres, a 
papila é mais pigmentada nesse 
estágio que no início do 
desenvolvimento, e as glândulas de 
Montgomery são visíveis ao redor da 
circunferência da aréola. 
O desenvolvimento mamário completo 
costuma levar 3 a três anos e meio, mas 
pode ocorrer em apenas 2 anos ou não 
progredir além do estágio 4 até a primeira 
gravidez. 
 
 
 Desenvolvimento puberal feminino: 
o Estágio 1 de Tanner: não há pelos 
pubianos, porém pode ser observada 
uma penugem semelhante àquela que 
recobre o abdome; 
o Estágio 2 de Tanner: surgimento dos 
primeiros pelos pubianos, longos, finos 
e liso/pouco encaracolados, que se 
depositam junto aos grandes lábios ou 
na base do pênis; 
o Estágio 3 de Tanner: os pelos se 
estendem até a sínfise púbica, 
tornando-se mais grossos, 
encaracolados e escuros; 
o Estágio 4 de Tanner: os pelos já 
apresentam aspectos de textura e 
espessura iguais aos de um adulto, 
porém não atingem a face interna da 
coxa; 
o Estágio 5 de Tanner: a quantidade, 
distribuição, textura e espessura da 
pilosidade pubiana são iguais às do 
adulto, invadindo a face interna da 
coxa. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 
 Desenvolvimento genital masculino: 
o Estágio 1 de Tanner: pré-puberal, o 
tamanho e aspecto do pênis e do 
escroto são infantis; 
o Estágio 2 de Tanner: surgem os 
primeiros sinais de aumento testicular 
(2,5 a 3,2cm de comprimento) e 
peniano; 
o Estágio 3 de Tanner: crescimento 
peniano em comprimento e diâmetro, 
com aumento testicular (3,3 a 4cm de 
comprimento); 
o Estágio 4 de Tanner: crescimento 
peniano, principalmente em diâmetro, 
com desenvolvimento da glande, 
manutenção do crescimento escrotal 
(4 a 4,5cm), com aumento na 
pigmentação da pele do local; 
o Estágio 5 de Tanner: tamanho dos 
órgãos genitais compatíveis com os de 
um adulto. O comprimento médio do 
pênis flácido em homens adultos varia 
entre 8,6 e 10,5 cm desde a 
extremidade até a base. 
 
Há uma aceleração do crescimento durante 
a puberdade, evidente principalmente nos 
estágios 3 e 4 de Tanner. As meninas sofrem 
esse pico de crescimento antes da menarca, 
limitando seu crescimento posteriormente, 
ao passo que os meninos perpassam essas 
mudanças cerca de 2 anos mais tarde, 
resultando numa diferença de altura de 12 
cm entre os sexos na fase adulta. 
O controle hormonal desse processo é 
complexo, com papéis importantes sendo 
atribuídos ao hormônio do crescimento (GH), 
fator de crescimento semelhante à insulina 1 
(IGF-1) e esteroides gonadais. O estrogênio 
é o principal estimulador do crescimento 
puberal tanto para meninos quanto para 
meninas. 
Várias alterações da composição corporal 
ocorrem durante o desenvolvimento puberal. 
Embora a massa corporal magra, a massa 
óssea e a gordura corporal sejam iguais em 
meninos e meninas pré-púberes, na 
maturidade, os homens têm 1,5 vez a massa 
corporal magra e quase 1,5 vez a massa 
óssea das mulheres, enquanto as mulheres 
têm o dobro da gordura corporal dos 
homens. As alterações do contorno corporal 
em meninas, com acúmulo de gordura nas 
coxas, quadris e nádegas, ocorrem durante 
o estirão de crescimento puberal. Nesse 
aspecto, a testosterona é um potente 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
esteroide anabólico, responsável pelas 
principais mudanças em meninos; enquanto, 
nas meninas, o estrogênio aumenta a 
gordura corporal total em uma distribuição 
característica nas coxas, nas nádegas e no 
abdome. 
O crescimento na adolescência é 
desproporcional, iniciando-se, 
primeiramente, pelas extremidades distais, o 
que dá ao adolescente um aspecto peculiar 
nessa fase. Após o crescimento dos pés e 
mãos, ocorre o crescimento das 
extremidades proximais e, por último, o do 
tronco, retomando, então, a harmonia e a 
proporcionalidade. 
Durante esse estirão de crescimentoos 
ossos longos crescem e as epífises se 
fecham, o que faz com que a idade óssea 
seja uma forma mais acurada de se verificar 
o estágio puberal que a idade cronológica. 
Outras alterações físicas reforçam o 
dimorfismo sexual na puberdade, como o 
alongamento excessivo das partes 
cartilaginosa e membranácea das pregas 
vocais em meninos. Acne, seborreia e odor 
corporal decorrem da estimulação de 
glândulas sebáceas e apócrinas por meio da 
maior secreção de esteroides gonadais e 
suprarrenais, sendo indicações do 
desenvolvimento puberal iminente. 
ALTERAÇÕES HORMONAIS NA ADOLESCÊNCIA: 
O EIXO HIPOTÁLAMO-HIPÓFISE-GONADAL: 
Chama-se eixo hipotálamo-hipófise-gonadal 
(HHG) a relação de interdependência na 
secreção de esteroides entre essas três 
regiões, regulada por meio de uma alça de 
feedback negativo (estímulo contrário ao que 
provocou desequilíbrio), fundamental para a 
manutenção de níveis hormonais no 
organismo e para o desenvolvimento da 
puberdade. 
A hipófise ou pituitária se localiza na sela 
turca do osso esfenoide e mantém ligação 
com o hipotálamo, estrutura situada na base 
do cérebro. Essa glândula apresenta origem 
embrionária dupla, ectodérmica 
(adenoipófise) e nervosa (neuro-hipófise). A 
porção de origem nervosa se desenvolve 
pelo crescimento do assoalho do diencéfalo 
em direção caudal e a porção ectodérmica 
da hipófise se desenvolve a partir de um 
trecho do ectoderma do teto da boca 
primitiva que cresce em direção cranial 
formando a bolsa de Rathke, que logo é 
separada por meio de uma constrição local. 
A neuro-hipófise, a porção de origem 
nervosa, consta de uma porção volumosa 
(pars nervosa) e do seu pedículo de fixação 
(infundíbulo) que se continua com o 
hipotálamo. A adenoipófise não tem conexão 
anatômica com o sistema nervoso, sendo 
subdividida em três porções: a primeira e 
mais volumosa é a pars distalis ou lobo 
anterior; a segunda é a porção cranial que 
abraça o infundíbulo, denominada pars 
tuberalis; a terceira, denominada pars 
intermedia, é uma região intermediária entre 
a neuro-hipófise e a pars distalis, separada 
desta última pela fissura restante da 
cavidade da bolsa de Rathke, compondo 
uma estrutura rudimentar no homem. Ao 
conjunto de pars nervosa e pars intermedia 
também se dá o nome de lobo posterior da 
hipófise. 
 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 
O suprimento sanguíneo hipofisial é 
imprescindível para a secreção hormonal da 
pars distalis, realizado por meio das artérias 
hipofisária superiores D/E (eminência 
mediana e infundíbulo) e inferiores D/E 
(neuro-hipófise e pedículo). No infundíbulo, 
as artérias hipofisárias superiores formam 
um plexo capilar primário fenestrado, 
reunidos para formar vênulas encaminhadas 
para a pars distalis, onde formam um grande 
plexo capilar primário. 
Há, portanto, dois sistemas venosos em 
cascata, o que caracteriza um sistema porta, 
denominado sistema porta hipofisário. O 
suprimento sanguíneo da pars distalis é feito, 
portanto, de sangue vindo principalmente do 
infundíbulo através do sistema porta-
hipofisário e em escala muito menor de 
alguns ramos das artérias hipofisárias 
inferiores. Através desse sistema vascular 
vários neuro-hormônios produzidos no 
hipotálamo são levados diretamente do 
infundíbulo à pars distalis, controlando a 
função de suas células. O sangue venoso 
desse sistema sai por diversas veias 
hipofisárias. 
A hipófise e o hipotálamo manifestam 
interações importantes anatômica e 
fisiologicamente, principalmente no que diz 
respeito à secreção hormonal. O hipotálamo 
produz em seus diversos núcleos 
substâncias que serão levadas até a pars 
nervosa (vasopressina [ADH] e ocitocina) ou 
a eminência mediana (GnRH, dopamina, 
somatostatina, entre outros), agindo na 
estimulação ou inibição da produção de 
compostos pela pars distalis ou sobre outros 
locais do organismo. 
Um segundo mecanismo de controle para 
além da modulação hipotalâmica é 
representado pelos hormônios produzidos 
por várias glândulas endócrinas, os quais 
agem sobre a liberação de peptídeos da 
eminência mediana e sobre a função das 
próprias células da pars distalis. Dessa 
maneira, os níveis plasmáticos de hormônios 
de várias glândulas endócrinas controlam 
por retroalimentação negativa a sua própria 
secreção. 
Na pars distalis, cinco tipos de células 
secretoras produzem compostos que irão 
estimular a ação de outras glândulas, com 
maior destaque no contexto da puberdade 
para os hormônios gonadotróficos, FSH e 
LH, que irão estimular a secreção de 
estrogênio, progesterona e andrógenos, 
além de promover a formação de folículos 
ovarianos e a espermatogênese, situações 
importantes na maturação reprodutiva 
humana. 
 
 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
AÇÃO DOS HORMÔNIOS PARA O 
DESENVOLVIMENTO DA PUBERDADE: 
Por volta da 10ª semana de gestação, o 
hormônio liberador da gonadotrofina (GnRH) 
se faz presente no hipotálamo, e o hormônio 
luteinizante (LH) e o hormônio 
foliculoestimulante (FSH) encontram-se na 
hipófise. A gonadotrofina (GH – hormônio do 
crescimento) encontra-se elevada em fetos 
de ambos os sexos, com FSH elevado no 
sexo feminino. Após o nascimento, a 
concentração desses hormônios diminui 
gradativamente, mantendo-se baixos até a 
pré-puberdade. 
Na fase pós-natal, o hormônio do 
crescimento (GH) estimula o crescimento por 
sua ação direta na diferenciação celular, na 
placa de crescimento e no hepatócito, onde 
aumenta a secreção de fator de crescimento 
semelhante a insulina (IGF-1). O IGF-1, 
secretado pelos hepatócitos, tem ação 
específica na expansão e hipertrofia da placa 
epifisária, e é transportado por uma proteína 
carreadora (IGFPB3), cuja função é 
aumentar o período de meia-vida das IGF. 
Além disso, os hormônios tireoidianos 
também são necessários para o crescimento 
desde a infância, pois estimulam a secreção 
de GH e formação de IGF-1, além de agir 
sobre a epífise óssea de forma direta. 
Entre o terceiro trimestre de gestação e o 
sexto mês de vida é observada uma ativação 
parcial do HHG, que confere algumas 
manifestações clínicas em meninas, como a 
acne neonatal, trofismo genital e telarca 
(desenvolvimento mamário), configurando a 
minipuberdade. 
A produção de androgênios/hormônios 
masculinos (desidroepiandrosterona (DHEA) 
e seu sulfato (DHEAS)) pelas glândulas 
adrenais, controlada pelo ACTH, é anterior à 
produção de esteroides gonadais, ocorrendo 
entre 6 e 8 anos de idade (adrenarca). É 
responsável por modificações no odor das 
secreções, aumento da oleosidade da pele e 
aparecimento e manutenção da pilificação 
axilar e púbica durante a puberdade, 
evidenciando a importância de secreções 
não gonadais para a puberdade. 
Em dado momento, os fatores chamados 
permissivos (neuropeptídios, leptina, 
insulina, IGF-1 e estímulos oriundos de 
centros cerebrais superiores) atuam sobre o 
sistema HHG, provocando aumento da 
frequência e amplitude da produção de 
GnRH pelos neurônios hipotalâmicos que, 
via sistema porta hipofisário, ativam 
receptores específicos localizados na 
adenoipófise, desencadeando aumento da 
produção de gonadotrofinas (FSH e LH). A 
liberação dessas substâncias estimula 
ovários e testículos a produzirem os 
esteroides sexuais que induzirão todo o 
processo de modificações corporais, 
capacitando o organismo para as funções 
reprodutivas. 
 
Aumentos de FSH e LH podem ser 
associados ao sono. Em meninos, os 
aumentos noturnos dos níveis de 
gonadotrofina são acompanhados por 
aumentos simultâneos dos níveis circulantes 
de testosterona; já nas meninas, os 
aumentos noturnos dos níveis circulantes de 
gonadotrofina são seguidos por aumento da 
secreção de estradiol no dia seguinte, atraso 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
este que pode ser explicadopelas outras 
etapas de síntese para a conversão de 
androgênios em estrogênio. 
Em relação aos hormônios sexuais e seu 
impacto na puberdade temos que: 
 Testosterona: 
Os testículos secretam uma série de 
androgênios, incluindo a testosterona, di-
hidrotestosterona e a androtestosterona, 
com a primeira mais abundante que os 
outros, mesmo que seja quase totalmente 
convertida, posteriormente, em di-
hidrotestosterona. 
A testosterona é produzida pelas células de 
Leydig quando influenciadas pela presença 
de LH, localizadas no interstício dos túbulos 
seminíferos. Esses tipos celulares não são 
encontrados facilmente nos testículos 
durante a infância, mas são abundantes no 
recém-nascido durante os primeiros meses 
de vida e no homem adulto pós-puberdade, 
momentos nos quais a produção hormonal é 
aumentada. 
De forma geral, a testosterona é responsável 
pelos caracteres que diferenciam o corpo 
masculino, tendo sua produção estimulada 
pela gonadotropina coriônica placentária 
durante a gestação e até 10 semanas após o 
nascimento. Na puberdade, a testosterona 
favorece o aumento dos órgãos genitais, a 
disposição de pelos pelo corpo (região 
genital, tórax, face e ao longo da linha alba), 
a calvície (em casos de concentração 
hormonal excessiva), a mudança de voz 
(atrofia da mucosa laríngea), o aumento da 
espessura da pele e de secreções sebáceas 
(acne), o maior desenvolvimento muscular, a 
maior retenção de cálcio nos ossos e a 
aceleração do metabolismo basal. 
 Hormônios ovarianos: 
Os dois tipos de hormônios ovarianos são os 
estrogênios e as progestinas, sendo que os 
mais importantes de cada categoria são o 
estradiol e a progesterona, respectivamente. 
O primeiro grupo age na formação e 
crescimento de células específicas no corpo, 
compondo assim os caracteres sexuais 
secundários femininos, ao passo que o 
último atua na preparação do útero para a 
gestação e das mamas para a produção e 
secreção de leite. 
Todos esses hormônios são esteroides 
sintetizados nos ovários tendo como base o 
colesterol circulante e a acetilcoenzima A 
(suas moléculas podem se arranjar num 
núcleo esteroide). 
Em relação ao processo de síntese desses 
compostos, inicialmente são produzidos 
somente progesterona e androgênios, que 
são convertidos antes que possam deixar as 
gônadas em estrogênios, fenômeno 
desencadeado pela enzima aromatase 
associada à ação do FSH, presente somente 
nas células granulosas ovarianas. Durante a 
fase lútea, é produzida mais progesterona do 
que é possível converter, explicando a 
elevação plasmática desse hormônio. 
 
As funções dos hormônios ovarianos para o 
desenvolvimento do corpo feminino são: 
o Estrogênios: 
São responsáveis por aumentar de 
tamanho as estruturas reprodutoras 
internas (destacando-se a alteração no 
epitélio vaginal, de cuboide para 
estratificado, e proliferação de estroma 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
endometrial no útero e de fímbrias nas 
trompas de Falópio) e a genitália 
externa, esta por meio de acúmulo de 
gordura no monte púbis e grandes 
lábios. Há também desenvolvimento 
mamário, não só por deposição de 
gordura como pelo aumento de ductos 
lactíferos. 
Esses hormônios aumentam o 
crescimento ósseo e estimulam o 
fechamento rápido das epífises, 
justificando o fim precoce dos estirões 
de crescimento. Em relação à pele, os 
estrogênios a tornam mais lisa e 
macia, além de favorecer sua 
vascularização, resultando assim em 
maior sangramento em cortes 
superficiais e temperatura mais 
elevada. 
o Progestinas: 
As progestinas promovem o aumento 
na secreção mucosa uterina e nas 
trompas de Falópio, visando preparar 
o corpo para a gravidez. Além disso, 
auxiliam no desenvolvimento das 
mamas ao estimular a proliferação de 
células alveolares e sua transformação 
em células secretoras. 
Nas fases iniciais da puberdade há, além da 
elevação das taxas de esteroides gonadais, 
um aumento na frequência e amplitude de 
secreção de GH (duas a dez vezes maior), o 
que intensifica a produção de IGF-1 pelo 
fígado. Esse hormônio também atua em 
outros órgãos, como musculatura cardíaca, 
diafragma, adipócitos e sistema 
hematopoético, o que é essencial para 
adequar esses órgãos às novas 
necessidades impostas pelo crescimento. 
Em ambos os sexos, os hormônios sexuais, 
com destaque para os estrógenos, são 
imprescindíveis para a aceleração do 
crescimento por meio de sua ação em 
receptores da placa epifisária. 
 
GAMETOGÊNESE: 
Corresponde à formação de células 
germinativas masculinas e femininas, 
denominada como espermatogênese e 
ovogênese, respectivamente. O número de 
cromossomos nesses gametas é reduzido à 
metade, fenômeno que ocorre por meio da 
meiose, tipo reducional de divisão celular. A 
história da formação do gameta masculino e 
feminino é diferente, mas a sequência é a 
mesma. A diferença entre os dois sexos 
reside no ritmo de eventos durante a meiose. 
MEIOSE (R!): 
A meiose é composta por duas divisões 
celulares meióticas que têm por objetivo a 
formação de células haploides (n= 23) 
originadas de matrizes diploides. 
Na primeira etapa (meiose I, também 
chamada de fase reducional), o número de 
cromossomos passa de diploide para 
haploide, com pareamento de cromossomos 
homólogos durante a prófase e separação na 
anáfase, originando células (espermatócito 
ou oócito secundário) com duas cromátides-
irmãs pertencentes aos tipos iniciais, 
carregando metade de suas informações 
genéticas. 
 
A segunda divisão mitótica ocorre logo após 
a primeira sem uma intérfase (etapa de 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
replicação de DNA). Cada uma das 
cromátides-irmãs se divide, com cada uma 
de suas partes sendo levada de forma 
aleatória a um dos polos do fuso, 
constituindo uma nova célula, mantendo 
assim o caráter haploide dos cromossomos. 
 
A meiose é um processo que garante 
constância no número de cromossomos 
gerados e também a recombinação genética 
por meio do crossing over 
(“embaralhamento” das cromátides). 
ESPERMATOGÊNESE: 
As espermatogônias permanecem nos 
túbulos seminíferos dos testículos desde o 
período tardio do desenvolvimento fetal até a 
puberdade, momento no qual elas passam a 
aumentar em número e sofrem mudanças 
gradativas, transformando-se em 
espermatócitos primários. Esses tipos 
celulares passam por um processo 
reducional (primeira divisão mitótica), 
formando assim os espermatócitos 
secundários haploides, que possuem 
aproximadamente a metade do tamanho dos 
tipos celulares primários. 
Os espermatócitos secundários passam pela 
segunda divisão meiótica para gerar quatro 
espermátides, gradualmente transformadas 
em espermatozoides adultos durante a 
espermiogênese, momento no qual o núcleo 
celular se condensa, o acrossoma é 
formado, o citoplasma é majoritariamente 
eliminado e a cauda se desenvolve. Ao fim 
dessa etapa, os espermatozoides penetram 
a luz dos túbulos seminíferos, dirigindo-se ao 
epidídimo, ducto longo e espiralado na borda 
inferior do testículo, conectado aos canais 
deferentes (transporte de espermatozoides 
para a uretra), onde são armazenados e se 
tornam funcionalmente maduros, ganhando 
capacidade de movimentação. 
Os espermatozoides maduros podem ser 
armazenados no epidídimo, porém a maior 
quantidade se deposita nos canais 
deferentes, mantendo sua fertilidade por 
cera de um mês. 
 
Todo o processo de espermatogênese leva 
cerca de 2 meses para ser completado, 
continuando ao longo de toda a vida 
reprodutiva do homem. 
As células de Sertoli, que revestem os 
túbulos seminíferos, dão suporte e nutrição 
para as células germinativas, auxiliando na 
regulação da espermatogênese. 
No momento da ejaculação, os 
espermatozoides maduros apresentam-se 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANOcomo células de movimentação livre 
compostas por cabeça e cauda (a junção 
dessas estruturas chama-se pescoço), 
sendo a primeira responsável pela maior 
parte da massa desse gameta e por abrigar 
seu núcleo. Os dois terços mais anteriores 
dessa estrutura são recobertos pelo 
acrossoma, organela semelhante a um 
capuz enzimático que facilita a penetração 
na corona radiata e na zona pelúcida do 
ovócito durante a fecundação. 
A cauda do espermatozoide permite a sua 
motilidade, favorecendo sua migração até a 
ampola da tuba uterina. Essa estrutura é 
formada por três partes, a peça 
intermediária, a peça principal e a peça 
terminal, sendo que é na região intermediária 
que se localizam as mitocôndrias, produtoras 
da energia necessária ao movimento em 
chicote realizado pela célula. 
OVOGÊNESE: 
A ovogênese representa o processo de 
transformação de ovogônias em ovócitos 
maduros, iniciado antes do nascimento e 
completo após a puberdade, tendo seu fim 
somente com a menopausa, cessação 
permanente da menstruação. 
Antes do nascimento, as ovogônias, 
proliferadas via mitose, crescem para 
tornarem-se ovócitos primários. Esses tipos 
celulares são circundados por uma capa de 
tecido epitelial folicular achatado, 
constituindo assim um folículo primordial. 
À medida que o ovócito cresce durante a 
puberdade, o caráter de seu revestimento 
muda, passando a ser colunar, resultando 
num folículo primário, logo envolvido numa 
camada de material glicoproteico amorfo 
repleta de fenestras, chamada zona 
pelúcida. 
A divisão meiótica se inicia antes do 
nascimento, porém só se conclui na 
adolescência, fenômeno explicado pela 
secreção de substâncias inibidoras da 
maturação do ovócito pelas células 
foliculares, agindo ao estacionar o progresso 
da replicação. 
Com início na puberdade, ocorre o 
amadurecimento mensal de um folículo (a 
menos que sejam usados contraceptivos 
orais). A duração prolongada da primeira 
divisão meiótica pode ser parcialmente 
responsável pela alta frequência de erros 
meióticos que ocorrem com o aumento da 
idade materna. Além disso, as células 
suprimidas são vulneráveis a interações com 
agentes ambientais como a radiação. 
De forma contrastante ao desenvolvimento 
de gametas masculinos, após o nascimento 
não há a geração de mais ovócitos primários, 
que apenas mantêm-se em repouso nos 
folículos ovarianos até a puberdade. 
Com a maturação folicular, o ovócito primário 
aumenta de tamanho e completa a primeira 
fase da meiose, de modo a formar o ovócito 
secundário e o primeiro corpo polar, 
estruturas nas quais o citoplasma é dividido 
desigualmente (o ovócito recebe muito mais 
que o primeiro corpo polar). 
O corpo polar é uma célula pequena, não 
funcional, que logo degenera. Na ovulação, 
o núcleo do ovócito secundário inicia a 
segunda divisão meiótica, mas progride 
apenas até a metáfase, quando a divisão é 
interrompida. Se um espermatozoide 
penetra o ovócito secundário, a segunda 
divisão meiótica é completada e a maior 
parte do citoplasma é novamente mantida 
em uma célula, o ovócito fecundado. A outra 
célula, o segundo corpo polar, é uma célula 
com as mesmas características da anterior, 
e que também é degradada rapidamente. 
Assim que o segundo corpo polar é 
extrudido, a maturação do ovócito se 
termina. 
 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 
Dos dois milhões de ovócitos primários 
presentes nos ovários de uma menina 
recém-nascida, somente 40 mil permanecem 
até a puberdade, número que se reduz ainda 
mais, com apenas 400 transformados em 
ovócitos secundários e expelidos na 
ovulação. A quantidade de células que se 
tornam de fato maduras é extremamente 
baixa, se existente. 
CICLOS REPRODUTIVOS FEMININOS: 
As mulheres passam por ciclos reprodutivos 
mensais que envolvem atividade do 
hipotálamo do cérebro, da glândula hipófise, 
dos ovários, do útero, das tubas uterinas, da 
vagina e das glândulas mamárias. Esses 
ciclos mensais preparam o sistema 
reprodutivo para a gravidez. 
CICLO OVARIANO: 
O GnRH estimula a produção de FSH e LH, 
hormônios que produzem mudanças cíclicas 
nos ovários (ciclo ovariano), como o 
desenvolvimento dos folículos, a ovulação e 
a formação do corpo lúteo. Durante cada 
ciclo, o FSH promove o crescimento de 
vários foliados primordiais entre cinco e 12 
folículos primários, porém apenas um único 
folículo primário se desenvolve até se tornar 
folículo maduro e se rompe na superfície do 
ovário, liberando seu ovócito. 
 Desenvolvimento folicular: 
Com o aumento de tamanho do folículo 
primário, o tecido conjuntivo adjacente se 
organiza e forma uma cápsula, a teca 
folicular. A teca logo se diferencia em duas 
camadas, uma interna vascularizada e 
glandular (teca interna) e uma camada 
conjuntiva, semelhante a uma cápsula (teca 
externa). Acredita-se que as células tecais 
produzam um fator de angiogênese que 
promove o crescimento dos vasos 
sanguíneos da teca interna, que fornecem 
suporte nutritivo para o desenvolvimento 
folicular. As células foliculares dividem-se 
ativamente, produzindo uma camada 
estratificada em torno do ovócito. O folículo 
ovariano logo se torna oval e o ovócito 
assume posição excêntrica. 
Subsequentemente, surgem em torno das 
células foliculares espaços preenchidos por 
fluido, que coalescem para formar uma única 
e grande cavidade, o antro, que contém o 
fluido folicular. Depois que o antro se forma, 
o folículo ovariano é denominado folículo 
vesicular ou folículo secundário. 
O ovócito primário é empurrado para um lado 
do folículo, onde fica envolvido por um 
acúmulo de células foliculares, o cumulus 
ooforus, que se projeta para dentro do antro. 
O folículo continua a crescer até que alcança 
a maturidade e produz um intumescimento 
na superfície do ovário. 
O desenvolvimento inicial dos folículos 
ovarianos é induzido pelo FSH, mas os 
estágios finais de maturação requerem 
também o LH. Os folículos em crescimento 
produzem estrogênio por meio da atividade 
das células tecais internas. 
 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 Ovulação: 
Na metade do ciclo, sob influência do FSH e 
LH, o folículo ovariano sofre um surto de 
crescimento, criando uma saliência no 
ovário, onde surge o estigma, ponto 
avascular. Precedendo a ovulação, o ovócito 
secundário e algumas células do cumulus 
ooforus destacam-se do interior do folículo 
distendido. 
A ovulação é disparada por um aumento na 
produção de LH, induzido pela elevação nas 
concentrações plasmáticas de estrogênio. 
Esse evento ocorre cerca de 12 a 24 horas 
após o pico de LH. O estigma se expande em 
volume, criando uma vesícula que, ao se 
romper, expõe o ovócito secundário junto ao 
líquido folicular. Esse rompimento seria 
causado pela pressão intrafolicular e pelas 
contrações do músculo liso que envolve a 
teca externa. 
O ovócito secundário expelido é envolvido 
pela zona pelúcida e por uma ou mais 
camadas de células foliculares, as quais se 
arranjam radialmente, conhecidas como 
corona radiata, formando o complexo 
cumulus-ovócito. A onda de LH também 
parece induzir o término da primeira divisão 
meiótica do ovócito primário. Portanto, 
folículos ovarianos maduros contêm ovócitos 
secundários. 
 Corpo lúteo: 
Logo após a ovulação, as paredes do folículo 
ovariano e da teca folicular sofrem colapso e 
se tornam enrugadas. Sob a influência do 
LH, elas se desenvolvem em uma estrutura 
glandular, o corpo lúteo, que secreta 
progesterona e alguma quantidade de 
estrogênio, fazendo as glândulas 
endometriais secretarem e prepararem o 
endométrio para a implantação do 
blastocisto. 
 
Se o ovócito não é fecundado, o corpo lúteo 
involui e degenera 10 a 12 dias após a 
ovulação, quando é chamado de corpo lúteo 
da menstruação. Posteriormente, o corpo 
lúteo é transformado em uma cicatrizbranca 
no ovário, o corpo albicans. 
Os ciclos ovarianos normalmente persistem 
por toda a vida reprodutiva da mulher e 
terminam na menopausa, a suspensão 
permanente da menstruação, que 
geralmente ocorre entre 48 e 55 anos de 
idade. 
CICLO MENSTRUAL: 
O ciclo menstrual (endometrial) é o período 
durante o qual o ovócito amadurece, é 
ovulado e entra na tuba uterina. Os 
hormônios produzidos pelos folículos 
ovarianos e pelo corpo lúteo (estrogênio e 
progesterona) causam mudanças cíclicas no 
endométrio (age como espelho das 
mudanças ovarianas). 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
O ciclo menstrual médio é de 28 dias, sendo 
o primeiro dia do ciclo designado como o dia 
no qual se inicia o fluxo menstrual, porém 
sua duração pode variar entre 23 e 35 dias, 
diferenças motivadas pela extensão da fase 
proliferativa do ciclo. 
Esse processo divide-se em 3 fases 
principais: 
 Fase menstrual: 
A camada funcional da parede uterina 
desintegra-se e é expelida com o fluxo, que 
normalmente dura de 4 a 5 dias. O sangue 
descartado pela vagina está misturado a 
pequenos fragmentos de tecido endometrial. 
Após a menstruação, o endométrio erodido 
torna-se delgado. 
 Fase proliferativa: 
A fase proliferativa (folicular, estrogênica), 
que dura em torno de 9 dias, coincide com o 
crescimento dos folículos ovarianos e é 
controlada pelo estrogênio secretado por 
esses folículos. Ocorre um aumento de duas 
a três vezes na espessura do endométrio e 
no seu conteúdo de água durante essa fase 
de reparo e proliferação. No início dessa 
fase, o epitélio superficial reconstrói-se e 
recobre o endométrio. As glândulas 
aumentam em número e em comprimento, e 
as artérias espiraladas se alongam. 
 Fase lútea: 
A fase lútea (secretora, progestacional), com 
duração de aproximadamente 13 dias, 
coincide com a formação, o crescimento e o 
funcionamento do corpo lúteo. A 
progesterona produzida pelo corpo lúteo 
estimula o epitélio glandular a secretar um 
material rico em glicogênio. As glândulas 
tornam-se amplas, tortuosas e saculares, e o 
endométrio espessa-se por causa da 
influência da progesterona e do estrogênio 
do corpo lúteo e também pelo aumento de 
fluido no tecido conjuntivo. As anastomoses 
arteriovenosas surgem nesse estágio, sendo 
bastante importantes para a vascularização 
e nutrição local. 
Se a fecundação não ocorre, o endométrio 
entra em sua fase isquêmica, onde há 
contração das artérias espiraladas. Além das 
alterações vasculares, a queda hormonal 
resulta na parada de secreção glandular, em 
perda de fluido intersticial e em acentuada 
retração do endométrio. Ao fim da fase 
isquêmica, as artérias espiraladas contraem-
se por períodos maiores. Isso acarreta 
estase venosa e necrose isquêmica (morte) 
nos tecidos superficiais. Finalmente, segue-
se a ruptura da parede dos vasos lesados e 
o sangue penetra o tecido conjuntivo 
adjacente. Formam-se, então, pequenos 
lagos de sangue que se rompem na 
superfície endometrial, resultando em 
sangramento para a luz uterina e através da 
vagina, criando o fluxo menstrual. 
Se há a fecundação, os ciclos menstruais 
cessam e o endométrio assume sua fase 
gravídica, permitindo a implantação do 
blastocisto. Após 6-10 semanas do parto os 
ciclos ovarianos e menstruais retornam, em 
casos de mulheres que não amamentam seu 
bebê. 
 
 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
COMPARAÇÃO ENTRE GAMETAS: 
O ovócito é uma célula grande se comparada 
ao espermatozoide, ao passo que esse 
último apresenta elevada mobilidade. O 
gameta feminino é revestido pela corona 
radiata (células foliculares + zona pelúcida), 
além de possuir em seu interior grânulos de 
vitelo que auxiliam na nutrição do zigoto em 
seu processo replicativo na primeira semana 
de gestação. 
Em relação a constituição cromossômica 
desses tipos celulares, duas configurações 
normais são possíveis para o 
espermatozoide (23 X e 23 Y), enquanto 
apenas uma existe para os ovócitos 
secundários (23 X). 
 
IMPACTOS COMPORTAMEN TAIS DA 
ADOLESCÊNCIA: 
A adolescência pode ser compreendida ou 
definida segundo diversos pontos de vista: 
para a antropologia, é a etapa sociocultural 
de passagem para a vida adulta, contendo 
rituais específicos, ao passo que, para o 
direito, é a fase que sucede a infância, porém 
ainda inserida na menoridade. 
É na adolescência que se instalam as 
estruturas definitivas da personalidade 
adulta, com os últimos conflitos antes de se 
alcançar a maioridade, baseados 
principalmente na descoberta de uma 
identidade própria e na necessidade de 
autonomia. 
Sob a ótica da saúde entende-se 
adolescência como uma fase de 
desenvolvimento humano, situada entre a 
infância e a idade adulta e delimitada 
cronologicamente, pela Organização 
Mundial da Saúde, dos 10 aos 20 anos de 
idade. Essa demarcação etária justifica-se 
como referência para programas de atenção 
à saúde, porém não se aplica, do ponto de 
vista individual, como parâmetro único para 
a definição de entrada ou saída desse 
período do desenvolvimento. 
Nas famílias de classes média e alta, é 
comum identificar-se um prolongamento da 
adolescência, enquanto nas menos 
favorecidas, a inclusão escolar fica limitada 
pela necessidade de incorporação do 
adolescente ao mercado de trabalho, 
frequentemente em condições 
desfavoráveis. 
A adolescência apresenta características 
complexas e limites imprecisos, refletindo a 
dinamicidade dos ambientes socioculturais 
no qual o jovem está inserido. É também 
nesse período que o ser humano passa a 
compreender o quanto as interações com 
seus pares são importantes de forma 
biológica, afetiva e social para a vida. 
Mesmo reconhecendo que na adolescência 
o critério cronológico perde importância, para 
que se possa compreender a evolução do 
processo é interessante analisar o 
desenvolvimento dividido por idade: 
adolescência inicial (dos 10 aos 13 anos), 
adolescência média (dos 14 aos 16 anos) e 
adolescência final (dos 17 aos 20 anos). 
A adolescência inicial é um período marcado 
pelo rápido crescimento e pela entrada na 
puberdade. A adolescência média 
caracteriza-se pelo desenvolvimento 
intelectual e pela maior valorização do grupo, 
e na adolescência tardia consolidam-se as 
etapas anteriores e o adolescente se prepara 
para assumir o mundo adulto. Na última fase, 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
se todas as transformações tiverem ocorrido 
conforme previsto nas fases inicial e média, 
incluindo a presença de suporte familiar e do 
grupo de iguais, o adolescente estará pronto 
para as responsabilidades da idade adulta. 
Sob a óptica do desenvolvimento cognitivo, 
na adolescência adquire-se capacidade de 
abstração, raciocínio hipotético, pensamento 
criativo, formulação de ideias próprias e 
opiniões pessoais, constituindo assim sua 
individualidade. 
 
O desenvolvimento psicossocial do 
adolescente pode ser visto como um 
exercício de aprendizagem acerca de si 
mesmo, que lhe possibilita alcançar, além da 
identidade (conhecimento de si mesmo), 
intimidade (capacidade para relacionar-se de 
forma madura, tanto emocional como 
sexual), integridade (aptidão para assumir 
atitudes e comportamentos socialmente 
responsáveis) e independência. O fator 
tempo tem extrema importância para que 
todas essas intensas e várias mudanças 
possam ser absorvidas. Nesse momento 
evolutivo, não será apenas o jovem que 
passará por transformações estruturais, a 
família também deverá alterar sua estrutura 
interna e seus padrões de relacionamento 
entre os membros. 
Frente à busca de uma nova identidade, o 
adolescente deve vivenciar o luto por três 
grandes perdas: perda do corpo infantil (o 
adolescente passa por período de adaptação 
até a aceitação das modificações corporais), 
perda dos pais da infância (quese manifesta 
por meio de relações conflituosas com as 
figuras parentais), perda da identidade e do 
papel infantil (renúncia à dependência infantil 
e aceitação de responsabilidades que muitas 
vezes o adolescente desconhece). Esse tipo 
de comportamento cria uma entidade 
semipatológica de grande força, a síndrome 
da adolescência normal, demarcada por 
alterações de conduta, crises religiosas, 
distanciamento dos pais, tendência grupal, 
atitudes reivindicatórias e evolução sexual. 
SISTEMA LÍMBICO NA PUBERDADE: 
Durante a adolescência, além das mudanças 
corporais visualmente perceptíveis, ocorrem 
diversas alterações neurobiológicas, no 
córtex quanto na área subcortical. É 
interessante notar que a maturação cortical 
durante a adolescência não implica 
necessariamente em aumento de volume 
cerebral, mas sim numa maior habilidade de 
autocontrole e direcionamento de foco. 
Ocorre também uma intensa reorganização 
estrutural de regiões corticais, na qual 
dendritos e sinapses são refinados e se 
tornam mais estáveis, tornando o cérebro do 
adolescente extremamente neuroplástico. 
O sistema subcortical é altamente complexo 
e possui circuitarias neurais importantes que 
são mediadoras de uma grande quantidade 
de respostas psicofisiológicas, dentre elas as 
emoções, controladas pelo “sistema límbico” 
(corpo caloso, tálamo, amígdalas e 
hipocampo). Essa região sofre a ação dos 
hormônios sexuais secretados ao longo da 
puberdade, tornando heterogêneo o 
desenvolvimento neural entre os dois sexos. 
Este período de desenvolvimento neural 
representa para o adolescente, tanto uma 
fase de oportunidades para o 
desenvolvimento de novas habilidades, 
quanto um período de vulnerabilidades. 
Neste último caso, os comportamentos mais 
comuns nesse período são a impulsividade 
cognitiva, a labilidade emocional e a busca 
pelo perigo, explicada pela maior facilidade 
de ativação da região subcortical. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
SEXUALIDADE NA ADOLESCÊNCIA: 
O processo de desenvolvimento da 
sexualidade está vinculado à definição da 
identidade sexual e manifesta-se por meio do 
autoerotismo e das práticas de genitalidade. 
Quando o indivíduo consegue aceitar a 
coexistência simultânea entre si da criança e 
do adulto, ele passa de maneira flutuante a 
aceitar as mudanças de seu corpo, 
emergindo uma nova identidade. 
Na etapa precoce da adolescência (10 a 14 
anos), é grande a transformação biológica, 
em que o comportamento sexual depende 
das mudanças físicas. Os adolescentes têm 
dificuldade de conversar com adultos, 
principalmente com os pais. As fantasias 
sexuais e masturbação são frequentes. 
Na etapa média (14 a 17 anos), o 
desenvolvimento puberal está completo ou 
quase completo, marcado pela menarca na 
menina e pela semenarca no menino. O 
comportamento sexual costuma ser de 
natureza exploratória e egoísta, buscando 
tirar proveito das relações: encontros 
marcados, carícias e relações casuais 
acompanhadas de relações genitais ou 
extragenitais. O grande risco, nessa fase, é 
a negação das consequências do 
comportamento sexual. O relacionamento 
amoroso (namoro ou o “ficar” com alguém) 
geralmente se inicia aqui. Já há uma 
aceitação maior das transformações físicas, 
resultando em um corpo adulto com 
capacidade reprodutiva. A sexualidade 
contribui com a autoestima e faz parte da 
formação da identidade do indivíduo. É 
durante a adolescência que se define e se 
consolida a identidade sexual. 
Na etapa tardia (17 a 20 anos) a maturação 
física está completa, o comportamento 
sexual costuma ser mais expressivo e menos 
exploratório, e as relações, mais íntimas e 
compartilhadas. Predomina a escolha de par 
com relação de afeto, maior consciência dos 
riscos e necessidade de proteção. Nessa 
etapa, a identidade sexual já está definida e 
a maior estabilidade afetiva favorece a busca 
de um objeto amoroso único. 
Na adolescência, a vivência da sexualidade 
é como um caminho no qual a evolução e a 
maturidade vão determinar o itinerário. A 
preferência sexual com afeto é o 
posicionamento que demonstra postura mais 
integrada diante da sexualidade, escolha 
esta que se encontra subsidiada pelas 
vivências que cada adolescente enfrenta ao 
longo de sua vida e que são socialmente 
rotuladas de atitudes amadurecidas. 
FASES COMPORTAMENTAIS DO ATO SEXUAL: 
O comportamento sexual humano é uma 
característica definidora de suas interações, 
cujas bases neurais são ainda pouco 
compreendidas. As pesquisas sobre esse 
assunto foram dificultadas pela relutância 
popular em abordar abertamente temas 
relativos ao sexo. Ainda que lentamente, 
esse campo progrediu, gerando as seguintes 
teorias: 
 Masters e Johnson (pesquisas iniciadas 
em 1954 e publicadas em 1970): 
A resposta sexual, seja do homem ou da 
mulher, é caracterizada por um ciclo de 
quatro fases. Esse é um modelo clássico e 
linear, elaborado a partir de dados obtidos 
em laboratório, onde a resposta sexual de 
casais era monitorada a partir do início 
definido pelo pesquisador. Segundo o 
modelo, em cada ciclo ocorrem as fases de 
Excitação, Prazer, Orgasmo, Resolução 
(EPOR), numa sequência temporal. Embora 
em homens e mulheres ocorram as mesmas 
fases, elas apresentam peculiaridades em 
cada um dos sexos. 
Os autores observaram que a resposta 
sexual do homem obedecia a um único 
padrão: excitação, platô, orgasmo, 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
resolução; enquanto, em relação à mulher, 
concluíram sobre a possibilidade de vários 
padrões de respostas que foram sintetizados 
em três tipos fundamentais: A) excitação, 
platô, multiorgasmos, resolução; B) 
experiência de excitação, platô, sem, no 
entanto, atingir o orgasmo, resolução e C) 
excitação crescente até o orgasmo e 
resolução imediata. 
 
 Kaplan (pesquisa publicada em 1974): 
Acrescenta ao modelo proposto por Masters 
e Johnson o desejo sexual como outra fase 
da resposta sexual humana, motivada por 
observações de transtornos ligados à falta de 
ímpeto sexual. 
Inicialmente, o modelo proposto por ela seria 
trifásico, com Desejo, Excitação e Orgasmo 
(DEO), mas em 1979 ele foi modificado, 
tornando-se Desejo, Excitação, Orgasmo e 
Resolução (DEOR). 
Kaplan propôs um modelo psicossomático 
que considera os elementos que regulam a 
motivação sexual humana. Segundo a 
autora, no SNC estão os centros de 
regulação sexual que incluem estruturas 
límbicas e o hipotálamo. Estímulos 
fisiológicos e psicológicos, excitantes ou 
supressores da motivação sexual, agem 
sobre esses centros reguladores modulando 
o desejo sexual. Esse modelo pode ser visto 
como um acréscimo subjetivo ao esquema 
fisiológico, que expressa as mudanças 
objetivas causadas pelo ato sexual. 
 
ATO SEXUAL MASCULINO: 
A principal fonte de sinais sensoriais capazes 
de iniciar o ato sexual é a glande peniana, 
região densamente vascularizada e inervada 
capaz de transmitir a sensação sexual até o 
sistema nervoso central, partindo do nervo 
pudendo em direção ao plexo sacral e a 
porção sacral da medula. 
Esses impulsos podem ter o mesmo destino 
partindo de áreas adjacentes ao pênis, como 
o epitélio anal, saco escrotal e estruturas 
perianais. Esses estímulos podem surgir até 
mesmo de estruturas internas, tais como a 
uretra, próstata, bexiga, vesículas seminais, 
testículos e canais deferentes. 
O elemento psicológico é também um grande 
estimulador do ato sexual, visto que 
pensamentos conscientes ou sonhos já são 
suficientes para instigar a ejaculação. 
ESTÁGIOS DO ATO SEXUAL MASCULINO: 
A ereção peniana é o primeiro efeito do 
estímulo sexual masculino, em grau 
proporcional à estimulação realizada, seja 
ela física ou psicológica. 
Esse fenômeno é causado por impulsos 
nervosos parassimpáticos que passam da 
região sacral da medula até os nervospélvicos, liberando junto à ACh óxido nítrico 
ou peptídeo intestinal vasoativo, sendo que o 
primeiro auxilia a formação de monofosfato 
cíclico de guanosina (GMP). 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
O GMP cíclico relaxa as paredes das artérias 
do pênis e as malhas musculares no tecido 
erétil dos corpos cavernoso e esponjoso na 
haste peniana, permitindo maior fluxo 
sanguíneo na região que, associado à 
vasodilatação provocada pelo óxido nítrico, 
causa o enchimento do tecido erétil, 
manifestado por endurecimento e 
alongamento do pênis. 
Além de promover a ereção, as fibras e 
impulsos parassimpáticos promovem a 
secreção mucosa pelas glândulas 
bulbouretrais, fluindo pela uretra e auxiliando 
a lubrificação durante o ato sexual. 
O clímax para o ato sexual masculino 
consiste na emissão e ejaculação, ambos de 
responsabilidade simpática. Quando os 
estímulos se tornam muito intensos, os 
centros reflexos da medula enviam sinais 
elétricos que perpassam os plexos 
hipogástrico e pélvico até atingir a genitália. 
A emissão consiste na contração do canal 
deferente e da ampola, favorecendo o 
transporte dos espermatozoides até a uretra 
interna. Contrações prostáticas e nas 
vesículas seminais promovem a liberação de 
líquidos que junto com as secreções 
mucosas já liberadas formam o sêmen, 
substância que permite a movimentação dos 
gametas, além de empurrá-los para a frente. 
O enchimento uretral com esse líquido envia 
sinais sensoriais à parte sacral medula 
espinhal, criando a sensação de plenitude 
súbita nos órgãos genitais internos. Além 
disso, esses estímulos promovem a 
contração dos músculos isquiocavernoso e 
bulbocavernoso, comprimindo assim o tecido 
erétil peniano, causando aumento pressórico 
que culmina na ejaculação do sêmen. Todo 
esse movimento ainda causa espasmos na 
musculatura pélvica, projetando essa região 
no intuito de propelir os gametas para os 
recessos mais profundos da vagina. 
O conjunto dos períodos de emissão e 
ejaculação são denominados de orgasmo 
masculino. No final, a excitação sexual 
desaparece quase completamente entre 1 e 
2 minutos e a ereção cessa, período 
chamado resolução. 
ATO SEXUAL FEMININO: 
Da mesma forma que no ato masculino, o 
desempenho bem-sucedido do ato sexual 
feminino depende tanto de estimulação local 
quanto psicológica. Ter pensamentos 
sexuais auxilia no aumento do desejo sexual, 
porém a concentração hormonal também 
pode contribuir para o aumento da libido, 
principalmente no período de ovulação, 
quando há picos de estrogênio circulante. 
A estimulação sexual local feminina 
assemelha-se àquela observada para o sexo 
masculino, porque a massagem da vulva, 
vagina e de outras regiões perianais podem 
criar sensações prazerosas. A glande do 
clitóris é especialmente sensível ao início 
dessas estimulações. 
O tráfego nos impulsos de sensações 
sexuais segue o mesmo percurso que no 
sexo masculino, percorrendo o nervo 
pudendo, o plexo sacro e ascendendo pela 
medula até o cérebro, com participação 
significativa de arcos reflexos locais. 
Ao redor do clitóris existe tecido erétil muito 
semelhante ao do pênis, cujo controle 
nervoso se dá por fibras parassimpáticas, 
secretando os mesmos agentes vasoativos 
masculinos. O resultado desses processos é 
a contração do introito, que auxilia o homem 
durante o processo ejaculatório. 
Esses sinais também perpassam para as 
glândulas de Bartholin, estimulando a 
secreção de muco nos grandes lábios, 
promovendo assim lubrificação para o ato 
sexual (é válido salientar que a maior parte 
das secreções lubrificantes são de origem 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
feminina, sejam elas advindas dessas 
glândulas ou do epitélio vaginal). Todo esse 
processo favorece sensações 
massageadoras que culminam no clímax 
para ambos os sexos. 
No momento em que a estimulação local 
atinge sua intensidade máxima e, 
principalmente, quando essas sensações 
regionais são favorecidas por sinais de 
condicionamento psíquico oriundos do 
cérebro, são desencadeados reflexos que 
levam ao orgasmo/clímax feminino, 
processo análogo à emissão/ejaculação 
masculina, o que pode facilitar a fertilização 
do óvulo. Essa condição cria uma tensão 
muscular generalizada pelo corpo, dando 
lugar, após o clímax, a uma sensação de 
satisfação e relaxamento, marcando a 
resolução do ato sexual. 
PREVENÇÃO DE COMPORTAMENTOS DE RISCO 
DURANTE O AMADURECIMENTO SEXUAL: 
A puberdade traz consigo diversos 
comportamentos impulsivos e de 
experimentação que podem ter amplo 
impacto negativo sobre a saúde do jovem, 
principalmente no que diz respeito ao início 
da vida sexual. Nesse contexto, cabe aos 
profissionais da equipe multiprofissional de 
saúde desenvolver medidas de promoção de 
saúde voltadas para esse grupo etário, 
fazendo uso principalmente de cenários 
intrínsecos à UBS, inseridos no contexto 
diário do adolescente. 
Esses programas têm como temas 
estruturantes preconizados pelo Estatuto da 
Criança e do Adolescente a participação 
juvenil, equidade de gênero, direitos sexuais 
e direitos reprodutivos, projeto de vida, 
cultura de paz, ética e cidadania e igualdade 
racial e étnica, complementam o conjunto de 
oportunidades e facilidades com o objetivo 
de favorecer o desenvolvimento físico, o 
mental, moral, o espiritual e o social dos 
jovens púberes. 
 
A atuação do Programa Saúde na Escola 
(PSE) é de fundamental importância para o 
acesso dos adolescentes à saúde, pois são 
nessas dinâmicas que médicos, enfermeiros 
e outros profissionais podem adentrar a 
realidade juvenil. As informações e as ações 
educativas, fornecidas dentro do espaço da 
consulta e nos grupos, devem ser 
adequadas a cada subfaixa etária, 
considerando também os diferentes cenários 
culturais, religiosos, escolares e 
econômicos. 
Na promoção de ações voltadas para a 
educação em sexualidade é necessário 
considerar as diferentes formas de vivência 
da sexualidade, incluindo as 
experimentações iniciais eróticas e 
autoeróticas como fatores relevantes na 
atenção à saúde sexual e à saúde 
reprodutiva de adolescentes, orientando-os 
para o autocuidado e respeito mútuo na 
construção de relações afetivas e sexuais 
mais solidárias abordando, reflexivamente, 
as experimentações de adolescentes nessas 
relações, incluindo a abordagem da 
orientação sexual, identidade sexual e 
identidade de gênero, assim como as 
questões culturais construídas nas relações 
de gênero. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Nesse aspecto, de forma a orientar sobre o 
planejamento reprodutivo, é necessário 
personalizar o acolhimento aos jovens, 
dispensar preservativos em locais de fácil 
acesso nas UBS e elaborar fluxos e 
protocolos de atendimento capazes de 
atender o adolescente, considerando sua 
fase de desenvolvimento. Um exemplo 
dessa postura é o esclarecimento sobre 
todos os métodos contraceptivos 
disponíveis, inclusive os naturais, para que 
eles possam fazer escolhas livres e bem 
informadas, incluindo o respeito às 
concepções religiosas. 
Em relação aos aspectos da conduta 
adotada pela saúde pública em relação à 
sexualidade na adolescência, os temas 
abordados são planejamento familiar 
(acolhimento com respeito, orientação sobre 
contracepção, autoconhecimento, interação 
entre contraceptivos e substâncias ilícitas, 
soropositividade e vida sexual, etc.), 
doenças sexualmente transmissíveis, Aids e 
hepatites virais (redução de danos, 
realização de teste rápido, aumento da 
cobertura vacinal para hepatite B, etc.), 
acompanhamento durante a realização de 
teste rápido de gravidez, e detecção, 
denúncia e orientação sobre violência e 
abuso sexual. 
PROBLEMA 1 – INTERMEDIÁRIA: 
A FECUNDAÇÃO HUMANA: 
TRANSPORTE DOS GAMETAS: 
O ovócito secundário é expelido do folículoovariano com o fluido folicular circundante. 
Durante o processo de ovulação, as 
extremidades da tuba uterina aproximam-se 
do ovário e suas fímbrias fazem um 
movimento de varredura na região, captando 
o ovócito para o infundíbulo tubário. 
A peristalse, movimento ritmado de 
contração e relaxamento da parede das 
tubas uterinas, faz com que o ovócito seja 
encaminhado para a região da ampola, em 
direção ao útero. 
Os espermatozoides são transportados do 
epidídimo à uretra por várias contrações 
peristálticas da cobertura muscular espessa 
dos ductos deferentes. Além disso, as 
glândulas sexuais acessórias (próstata, 
vesículas seminais e glândulas 
bulbouretrais) produzem secreções que se 
misturam ao fluido contendo os gametas, 
fornecendo nutrição (frutose) e incentivando 
contrações uterinas (prostaglandinas). 
De 200 a 600 milhões de espermatozoides 
são depositados em torno do orifício externo 
do útero e no fórnice da vagina durante o 
intercurso sexual. Os gametas passam pelo 
canal cervical lentamente por meio do 
movimento de suas caudas. A vesiculase, 
enzima produzida pelas vesículas seminais, 
coagula uma pequena fração do sêmen 
ejaculado e compõe um tampão vaginal que 
impede o retorno de fluidos. 
Quando a ovulação ocorre, o muco cervical 
aumenta e se torna menos viscoso, 
promovendo o transporte dos 
espermatozoides. Essa passagem rumo ao 
útero e às tubas uterinas é auxiliada pelas 
contrações das paredes desses órgãos. 
O ejaculado (suspensão de 
espermatozoides e secreções de glândulas 
sexuais anexas) contém cerca de 3,5mL, 
podendo variar de 2 a 6mL. Os 
espermatozoides se movem numa 
velocidade média de 2 a 3mm/min, variando 
conforme o pH do meio no qual eles estão 
inseridos, mais lentamente na vagina (pH 
ácido) e rapidamente no útero (alcalino). 
O tempo de transporte dos gametas rumo ao 
local de fecundação é provavelmente curto, 
variando entre 5 e 45 minutos, porém 
somente 200 espermatozoides chegam a 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
esse estágio, com a maioria sendo absorvida 
e degradada pelo trato genital feminino. 
MATURAÇÃO DOS ESPERMATOZÓIDES: 
Os espermatozoides recentemente 
ejaculados são incapazes de fecundar 
ovócitos, precisando passar por um período 
de condicionamento, a capacitação, com 
duração de cerca de 7 horas. Nesse 
momento, são removidas uma cobertura 
glicoproteica e proteínas seminais do 
acrossoma, alterando assim os 
componentes de sua membrana, mas sem 
impactar em mudanças morfológicas. Essa 
fase ocorre normalmente no útero ou nas 
tubas uterinas, graças a substâncias 
secretadas nesses locais. 
Quando os espermatozoides capacitados 
entram em contato com a corona radiata que 
envolve o ovócito secundário, sofrem 
mudanças moleculares complexas que 
resultam no desenvolvimento de perfurações 
no acrossoma (reação acrossômica), 
causando fusões entre a membrana 
plasmática do gameta e o capuz enzimático, 
manifestadas como aberturas que permitem 
a liberação de compostos facilitadores da 
fecundação, como a hialuronidase e a 
acrosina. 
Os ovócitos não podem ser fecundados após 
24 horas e se degeneram rapidamente 
depois. A maioria dos espermatozoides 
humanos não sobrevive por mais de 48 
horas no trato genital feminino, porém pode 
ser armazenada temporariamente nos 
recessos vaginais, promovendo uma 
liberação gradual que favorece as chances 
de fertilização. Sêmen e ovócitos podem ser 
mantidos congelados por muitos anos para 
serem utilizados na reprodução assistida. 
A FECUNDAÇÃO: 
O local da fecundação normalmente é a 
ampola da tuba uterina, região mais dilatada 
dessa estrutura. Caso o ovócito não encontre 
o espermatozoide nesse ponto, ele passa 
lentamente para o útero, onde é degradado 
e reabsorvido (logo, constata-se que a 
fecundação pode ocorrer em outras áreas 
das Trompas de Falópio, porém nunca no 
útero). Sinais químicos atrativos, secretados 
pelo ovócito e pelas células foliculares 
circundantes, guiam os espermatozoides 
capacitados (quimiotaxia dos 
espermatozoides) para o gameta feminino. 
A fecundação consiste numa complexa 
sequência de eventos moleculares 
coordenados discorridos em torno de 24 
horas que se deflagra por meio do contato 
entre o espermatozoide e o ovócito e acaba 
com a combinação entre cromossomos de 
origem materna e paterna durante a 
metáfase da primeira clivagem mitótica do 
zigoto, embrião unicelular, fazendo com que 
qualquer interferência nesse processo 
possibilite a morte dessa célula. 
FASES DA FECUNDAÇÃO: 
O processo anteriormente descrito 
desenvolve-se segundo as seguintes etapas 
ordenadas: 
 Passagem do espermatozoide através da 
corona radiata: 
A hialuronidase, enzima liberada no 
acrossoma dos espermatozoides, permite a 
dispersão das células foliculares da corona 
radiata que circunda o ovócito e da zona 
pelúcida, sendo auxiliada por substâncias 
produzidas pela mucosa tubária. Além disso, 
o próprio movimento da cauda do gameta 
masculino favorece sua penetração nesse 
envoltório. 
 Penetração na zona pelúcida: 
A passagem pela zona pelúcida é um 
momento importante para o início da 
fecundação, promovida por meio das 
enzimas esterases, acrosina (proteolítica, de 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
maior destaque) e neuroaminidases, que 
impedem a lise total dessa membrana, 
formando um caminho que permita a 
chegada do espermatozoide ao ovócito. 
 No momento que o gameta rompe essa 
barreira ocorre uma reação zonal que 
modifica suas propriedades, impedindo a 
passagem de outros espermatozoides. Essa 
reação é fruto da ação de enzimas 
lisossômicas liberadas pelos grânulos 
corticais localizados abaixo da membrana 
plasmática do ovócito. 
 Fusão das membranas plasmáticas entre 
ovócito e espermatozoide: 
As membranas de ambos os gametas se 
fundem e se rompem. A cabeça e a cauda do 
espermatozoide permeiam o citoplasma do 
ovócito, porém sua membrana plasmática 
fica para trás. 
 Término da segunda divisão meiótica e 
formação do pronúcleo feminino: 
Com a penetração pelo espermatozoide, o 
ovócito é estimulado a terminar a segunda 
parte de sua meiose, formando o ovócito 
maduro e o segundo corpo polar. Os 
cromossomos maternos se descondensam e 
o núcleo do ovócito torna-se o pronúcleo 
feminino. 
 Formação do pronúcleo masculino: 
Dentro do citoplasma do ovócito, o núcleo do 
espermatozoide aumenta para formar o 
pronúcleo masculino, e sua cauda se 
degenera. 
Morfologicamente, os pronúcieos masculino 
e feminino são indistinguíveis. Durante o 
crescimento dos pronúcieos, eles replicam 
seu DNA-1 n (haploide), 2 c (com duas 
cromátides). O ovócito contendo dois 
pronúcieos haploides é chamado de oótide. 
 Formação do zigoto: 
Logo que os pronúcieos se fundem em uma 
agregação de cromossomos única e diploide, 
a oótide torna-se um zigoto. Os 
cromossomos no zigoto arranjam-se em um 
fuso de clivagem, na preparação para a 
divisão do zigoto. 
 
Um fator inicial de gravidez, uma proteína 
imunossupressora, é secretada pelas células 
trofoblásticas e surge no soro materno dentro 
de 24 a 48 horas após a fecundação, 
compondo a base dos testes de gravidez 
durante os primeiros 10 dias de 
desenvolvimento. 
O zigoto é geneticamente único pois contém 
metade dos cromossomos de origem 
materna e a outra, paterna, formando uma 
nova combinação gênica. Esse mecanismo 
forma a base da herança biparental e da 
variação da espécie humana. O sexo 
cromossômico do embrião é determinado na 
fecundação pelo tipo de espermatozoide (X 
ou Y) que fertiliza o ovócito, uma vez que 
esse gameta já apresenta o cromossomo X. 
CLIVAGEM DO ZIGOTO: 
A clivagem, conjunto de divisões mitóticas 
sucessivas do zigoto (ainda revestido pela 
zona pelúcida), ocorre cerca de 30 horas 
após a fecundação, quando esse tipo celular 
passapelas tubas uterinas em direção ao 
útero. Essas divisões sucessivas criam 
células embrionárias (blastômeros) cada vez 
menores. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Após o estágio de nove células, os 
blastômeros mudam sua forma e se juntam 
firmemente uns com os outros para formar 
uma bola compacta de células. Esse 
fenômeno (compactação) provavelmente é 
auxiliado por glicoproteínas de adesão de 
superfície celular. A compactação permite 
uma maior interação célula com célula e é 
imprescindível para a segregação de células 
internas que formam a massa celular interna 
ou embrioblasto do blastocisto. 
Quando já existem de 12 a 32 blastômeros, 
o ser humano em desenvolvimento é 
chamado de mórula (aparência semelhante 
a uma amora com suas projeções esféricas). 
As células internas da mórula (chamadas de 
massa celular interna) estão circundadas por 
uma camada de células que formam a 
camada celular externa. A mórula se forma 
cerca de 3 dias após a fecundação e alcança 
o útero. 
 
MÉTODOS CONTRACEPTIVOS: 
Anticoncepção refere-se ao ato de utilizar 
métodos e técnicas com o objetivo de 
impedir a fecundação, sendo um recurso de 
planejamento familiar para a constituição de 
prole planejada e programada, de forma 
consciente. 
Embora possam ser classificados de 
diversas maneiras, os dois principais grupos 
são de métodos reversíveis e métodos 
definitivos. 
Os métodos reversíveis são 
comportamentais, de barreira, dispositivos 
intrauterinos, hormonais e os de emergência, 
ao passo que os métodos definitivos são os 
cirúrgicos, esterilização cirúrgica feminina e 
esterilização cirúrgica masculina. 
O manejo das situações que envolvem a 
contracepção faz necessária a aplicação de 
critérios importantes, a saber: 
 Eficácia do método contraceptivo: 
Refere-se à capacidade de proteção desse 
método contra a gravidez não desejada/não 
programada, expressa pela taxa de falhas 
inerente ao mecanismo num período de 
tempo (geralmente um ano). Para calcular 
esse fator é empregado o índice de Pearl, 
calculado da seguinte forma: 
 
 Segurança: 
Determinada pelo potencial de causar riscos 
à saúde de quem utiliza o método em 
questão. Sua avaliação se dá por meio dos 
efeitos indesejáveis e possíveis 
complicações. Quanto maior a segurança do 
método, menor será sua probabilidade de 
comprometer a saúde do usuário. 
 Escolha do método: 
O principal critério para a eleição do método 
contraceptivo é a opção feita pelo usuário, 
que deve ser sempre privilegiada. 
Entretanto, o mecanismo escolhido nem 
sempre poderá ser utilizado, fazendo com 
que o médico desenvolva ferramentas 
adequadas para avaliar se o paciente 
apresenta alguma contraindicação clínica 
para tal. Se existirem, o médico deve colocar 
os demais métodos possíveis à disposição 
da pessoa interessada, explicando-lhe as 
suas características, modo de uso, riscos e 
benefícios, bem como a eficácia, fornecendo 
ao usuário condições de fazer nova opção e 
se comprometer com ela. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Vale salientar que os resultados (eficácia, 
uso correto, ausência de efeitos 
indesejáveis) observados para qualquer 
instrumento de contracepção são 
diretamente relacionados com o grau de 
adesão após a eleição do melhor método. 
 
 Critérios de elegibilidade de um método 
anticoncepcional: 
São definidos por meio de um conjunto de 
características apresentadas pelo candidato 
à adoção de certo método, indicando se essa 
pessoa pode ou não o utilizar. Quatro 
categorias formas estabelecidas pela OMS: 
o Categoria 1: o método pode ser 
utilizado sem qualquer restrição; 
o Categoria 2: o uso do método discutido 
pode apresentar algum risco, 
normalmente menor do que os 
benefícios decorrentes de seu uso. Em 
outras palavras, o método pode ser 
usado com cautela e precauções 
maiores, especialmente 
acompanhamento clínico mais 
rigoroso; 
o Categoria 3: o uso do método pode 
estar associado a um risco, 
geralmente considerado superior aos 
benefícios decorrentes de seu uso. O 
método não é o mais apropriado para 
aquela pessoa, podendo ser usado, 
contudo, no caso de não haver outra 
opção disponível, ou em que a pessoa 
não aceita qualquer outra alternativa, 
mas desde que seja bem alertada 
desse fato e que se submeta a uma 
vigilância médica muito rigorosa. As 
condições que levam à classificação 
nessa categoria eram denominadas 
anteriormente por contraindicações 
relativas; 
o Categoria 4: o uso do método em 
apreço determina um risco à saúde 
inaceitável, sendo contraindicado de 
forma absoluta. 
MÉTODOS CONTRACEPTIVOS REVERSÍVEIS: 
MÉTODOS COMPORTAMENTAIS: 
Denominados também como métodos 
naturais de concepção, são os mecanismos 
baseados no reconhecimento do período 
fértil feminino. Compõem um conjunto de 
práticas que envolvem a abstinência sexual 
durante os dias nos quais há chances de 
ocorrer a fecundação ou no uso de técnicas 
nas quais o esperma não é depositado no 
canal vaginal. 
O período fértil contempla o tempo de 
viabilidade do espermatozoide (5 dias) e o 
tempo que o ovócito permanece vivo (24 
horas), totalizando seis dias em cada ciclo 
menstrual. No entanto, não existe uma 
determinação precisa deste período, que é 
variável, de mulher para mulher e, mesmo 
numa mesma mulher, em cada um de seus 
ciclos. Por esse motivo, o casal necessita 
abster-se de fazer sexo por um período 
maior do que os seis dias férteis de cada 
ciclo. 
As vantagens que se destacam são a 
gratuidade, a ausência de malefícios à 
saúde, o autoconhecimento do corpo 
feminino e de sua fertilidade e a possibilidade 
de casais seguirem normas de sua religião 
ou filosofia cultural, além de não haver 
demora no retorno da fertilidade. Apesar de 
não possuírem efeitos colaterais, os métodos 
naturais não protegem o casal contra 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
infecções sexualmente transmissíveis 
(ISTs). 
Algumas situações podem fazer com que 
seja mais difícil usar a abstenção periódica 
com a eficácia desejada. Dentre elas, 
destacam-se irregularidades no ciclo 
menstrual e o pós-parto ou amamentação, 
sendo recomendado o adiamento do início 
do uso desse método até que ocorram no 
mínimo três ciclos menstruais e os ciclos 
estejam regulares novamente, o que também 
vale para casos de abortamento. 
A eficácia depende dos casais em abster-se 
de relações sexuais com penetração vaginal 
nos dias férteis. 
Essas práticas podem ser divididas de forma 
didática conforme as formas distintas de 
percepção da fertilidade feminina, a saber: 
 Métodos baseados no calendário: 
o Método dos dias fixos: 
Indicado para mulheres que 
apresentam ciclos de 26 a 32 dias. A 
pessoa interessada deve anotar no 
calendário (ex.: com um círculo) o 
primeiro dia da menstruação e os 
próximos sete dias, período no qual 
pode ter reações sexuais livremente. 
Os próximos 12 dias devem ser 
assinalados de forma diferente (ex.: 
com um X) não devendo praticar, 
durante esse intervalo, relações com 
penetração vaginal. Portanto, em cada 
ciclo, a mulher pode ter relações 
livremente nos dias marcados com 
círculo e os dias após o último 
marcado com X até a próxima 
menstruação. 
o Método rítmico do calendário 
(tabelinha ou Ogino-Knaus): 
Previamente ao início da utilização 
desse método, a mulher deve registrar 
o número de dias de cada ciclo 
menstrual durante, pelo menos, seis 
meses. O primeiro dia da menstruação 
é sempre o dia número um. O ciclo 
menstrual começa no primeiro dia da 
menstruação e termina no último dia 
antes da menstruação seguinte. A 
mulher subtrai 18 da duração do seu 
ciclo mais curto, estimando, assim, o 
primeiro dia de seu período fértil. Em 
seguida, ela subtrai 11 dias da duração 
do seu ciclo mais longo, que 
corresponde ao último dia de seuperíodo fértil. O casal deve evitar 
relações sexuais com penetração 
vaginal durante este período. 
 
A crítica a esse método se baseia no 
fato de que é realizada uma avaliação 
retrospectiva projetada para o futuro, 
sendo que a fisiologia feminina não 
responde a critérios matemáticos, 
além de que requer bastante disciplina 
e obediência por parte do casal ao 
período de abstinência. 
 Métodos baseados em sintomas: 
o Método da ovulação (método de 
Billings ou do muco cervical): 
A fundamentação desse método 
consiste no processo de evolução do 
muco cervical ao longo do ciclo 
menstrual. Durante a fase estrogênica, 
ocorre secreção de muco cervical que, 
durante a ovulação, possui 
características que viabilizam a 
locomoção dos espermatozoides. 
Ocorrendo a ovulação, o corpo lúteo 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
secreta progesterona, inibindo a 
secreção cervical. 
Logo após o fluxo menstrual é o 
período conhecido como seco, que 
compreende do 1º ao 7º ou 10º dia do 
ciclo. É o período pré-ovulatório. Após 
essa etapa, aparece o muco cervical, 
marcando o início do período úmido. O 
muco cervical no início é escasso, 
opaco e viscoso, aumentando 
progressivamente em quantidade e 
tornando-se claro, transparente e 
elástico, como a clara de ovo crua. No 
dia que corresponde ao pico de 
estrogênio, o muco alcança o máximo 
dessas características, sendo 
conhecido como o dia ápice do muco e 
corresponde à máxima fertilidade. 
 
Para o uso deste método, a mulher 
precisa detectar a presença ou não de 
muco, examinando diariamente sua 
secreção cervical nos dedos, na 
calcinha ou lenço de papel ou pela 
sensação de umidade vaginal. Assim 
que sentir a presença de secreção, 
deve considerar-se fértil. Após 
perceber o dia do ápice do muco, 
deverá permanecer sem penetração 
vaginal por três dias. Do 4º dia após o 
ápice, até novamente perceber 
umidade vaginal, o casal pode manter 
relações sexuais vaginais. 
A ovulação pode, mesmo que 
raramente, ocorrer durante o fluxo 
menstrual, portanto, os casais devem 
evitar relações sexuais vaginais 
durante os dias de fluxo menstrual 
intenso, pois, nestes dias é difícil 
verificar as secreções cervicais. 
Durante o período livre para relações 
vaginais, o casal não deve tê-las por 
dois dias seguidos, pois, o sêmen 
prejudica a observação do muco. 
 
As críticas direcionadas a esse método 
baseiam-se no fato de que diversas 
mulheres não conseguem manipular 
seus genitais de forma a obter 
amostras de muco, além de que 
processos patológicos como vaginites 
podem interferir no aspecto dessas 
secreções. 
o Método dos dois dias: 
Esse método é apropriado para 
mulheres com ciclos menstruais de 
qualquer duração, independentemente 
de sua regularidade, porém requer 
grandes períodos de abstinência 
sexual. Sua fundamentação é a 
mesma que a do método de Billings, 
mas não requer observação das 
características da secreção vaginal, 
somente sua presença e o dia que se 
segue. 
A mulher deve considerar-se fértil ao 
perceber a presença de qualquer 
forma de muco até que permaneça por 
dois dias sem a secreção, momento a 
partir do qual pode ter relações 
livremente. 
 
o Método da temperatura basal: 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
São utilizadas variações da 
temperatura corporal de modo a 
identificar a ovulação, uma vez que a 
secreção de progesterona pelo corpo 
lúteo causa aumento de 0,2 a 0,5ºC na 
temperatura do corpo. Na maioria das 
mulheres isso ocorre no meio do ciclo 
menstrual. 
Para utilizar este método, a mulher 
precisa verificar sua temperatura 
diariamente, da mesma maneira, no 
mesmo horário pela manhã, antes de 
sair da cama ou ingerir alimentos. 
Após três dias da elevação da 
temperatura, o casal pode ter relações 
livremente. Portanto, o período de 
abstinência deverá ser desde o 
primeiro dia do ciclo menstrual até três 
dias após a elevação da temperatura 
basal. 
Esse método pode ser tanto utilizado 
sozinho como associado ao método do 
calendário e fazendo parte do 
sintotérmico, pois permite reduzir a 
abstinência pós-ovulatória. 
Os principais pontos criticados nesse 
método são a necessidade de 
disciplina para a consistência dos 
valores aferidos, dependência da 
medição adequada da temperatura e 
alta capacidade de interferência por 
agentes exógenos, como um processo 
gripal. 
 
 Método sintotérmico (combina calendário 
e sintomas): 
A identificação do período fértil e não fértil é 
feita com a combinação dos métodos de 
temperatura basal e da ovulação, além da 
percepção de outros sinais e sintomas que 
indicam a ocorrência da ovulação, como 
ingurgitamento das mama, dor pélvica e 
mudanças de humor. 
A utilização deste método requer abstinência 
sexual desde o primeiro dia da menstruação 
até o quarto dia após o pico das secreções 
cervicais ou o terceiro dia inteiro após a 
elevação da temperatura. Ocorrendo um 
destes fatores, deverá esperar a ocorrência 
do segundo para que possa ter relação 
vaginal desprotegida. 
 
 Método da lactância com amenorreia 
(LAM): 
O aleitamento materno foi reconhecido 
cientificamente como um método 
contraceptivo em 1988, no Consenso de 
Bellagio, e reavaliado em 1995, sendo 
considerado uma ferramenta adequada para 
utilização pelos programas de planejamento 
familiar. 
Na década de 1980, ao mesmo tempo em 
que o foi resgatado como método 
contraceptivo, seus inúmeros benefícios 
para a saúde da mulher e da criança foram 
comprovados e defendidos pela comunidade 
científica. Essa conduta, no entanto, sofre 
com o condicionamento social, recebendo 
diferentes significados em sociedades 
distintas, tornando necessária sua 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
compreensão como fenômeno biológico e 
social. 
Este método fundamenta-se na 
hiperprolactinemia existente em resposta ao 
estímulo da sucção durante a amamentação 
e, consequentemente, níveis de FSH e de LH 
insuficientes para estimular o 
desenvolvimento dos folículos ovarianos. 
Sabe-se que o estímulo para produção da 
prolactina é a sucção efetiva do bebê e, 
quanto maior a frequência e a duração das 
mamadas, maior é este estímulo. Nesse 
sentido, o uso de chupetas e de mamadeiras, 
a introdução de líquidos ou sólidos e longos 
intervalos entre as mamadas (intervalo 
noturno maior que seis horas, por exemplo) 
podem interferir diretamente na produção de 
leite, permitindo oscilações da liberação de 
prolactina, facilitando a possibilidade de 
ovulação. 
Há três critérios para a adoção desse 
método, que devem estar sempre presentes: 
 O bebê deve ter até 6 meses de vida; 
 A mãe deve estar em amenorreia; 
 O aleitamento deve ser exclusivo (ou 
quase) dia e noite. 
É um método de alta eficácia, sendo o índice 
de falha de 0,5 a 2% em seis meses, 
havendo redução em caso de uso rotineiro. 
Todas as mulheres que estejam 
amamentado podem usar o LAM. São raras 
as condições que contraindicam o 
aleitamento, sendo as principais: doenças 
maternas como infecção pelos vírus HIV e 
HTLV, uso de drogas como quimioterápicos 
e drogas radioativas, e drogas ilícitas. Todas 
as intercorrências que afetam o momento de 
aleitamento devem ser sanadas de forma a 
manter a eficácia desse método 
contraceptivo, sejam elas relacionadas à 
nutriz ou ao bebê. 
 Relações sem que haja ejaculação na 
vagina: 
Consiste na utilização de práticas sexuais 
diversas do coito vaginal, para que a 
ejaculação não seja intravaginal. A prática 
mais conhecida e difundida é o coito 
interrompido. O homem, ao pressentir a 
iminência da ejaculação, retira o pênis da 
vagina e ejacula fora desta, 
preferencialmente longe da região genital 
feminina. São necessários um grande 
autocontrole masculino e compreensão da 
mulher, que pode sentir frustração por isso. 
Há,contudo, casais bem ajustados, que 
conseguem desenvolver a anticoncepção 
por meio desse método. 
Outras formas de se fazer sexo sem 
ejaculação dentro da vagina são práticas 
eróticas diversas, em que não ocorre a 
penetração do pênis na vagina. Podem ser 
citados: o sexo oral, o sexo anal, a 
masturbação mútua, entre outras. É válido 
lembrar que o coito interfemoral (ejaculação 
feita na vulva) pode resultar em gestação. 
MÉTODOS DE BARREIRA: 
Esses métodos se baseiam na utilização de 
aparelhos como barreiras mecânicas que 
impedem a ascensão dos espermatozoides 
pelo trato genital feminino, podendo ser 
empregados tanto pelo homem quanto pela 
mulher. 
 Preservativo masculino: 
Também denominado camisinha, constitui 
um invólucro para o pênis, fino e elástico, 
podendo ser feito de látex, membrana animal 
ou plástico. 
Os modelos de látex são os mais utilizados e 
representam quase a totalidade dos 
preservativos existentes no mercado. Podem 
ser lubrificados com silicone, glicerina, gel à 
base de água ou espermicida em creme ou 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
gel, mas não com substâncias à base de 
óleo, pois podem enfraquecer o látex. 
Os de membrana animal são pouco 
utilizados e, apesar de oferecer conforto, não 
são recomendados, pois protegem apenas 
contra a gravidez. Estes apresentam 
porosidades inseguras para prevenir IST, 
permitindo a passagem dos vírus HIV, da 
hepatite B e do herpes simples. Os 
preservativos de látex ou plástico, no 
entanto, têm uma permeabilidade 
extremamente baixa, o que confere alta 
segurança pelo bloqueio da passagem do 
espermatozoide e de vários micro-
organismos. 
Em geral os preservativos de látex medem 
180 mm de comprimento por 52 mm de 
largura e atendem a necessidade da maioria 
da população masculina brasileira. 
O uso do preservativo é recomendado em 
todas as relações sexuais, sendo suas 
contraindicações relativas a reações 
alérgicas ao material e disfunção erétil. Deve 
ser colocado com o pênis ereto e seco, antes 
da penetração vaginal, com o cuidado de 
comprimir o reservatório, evitando 
perfurações durante o intercurso sexual. 
Após a ejaculação e retirada do pênis, o 
preservativo deve ser amarrado com um nó 
em sua base de modo a aprisionar seu 
conteúdo. 
A taxa de falha varia de 3% a 14% no 
primeiro ano (3 a 14 gestações por 100 
mulheres/ano). Esta variação ocorre pelas 
diferenças entre o uso ideal, em que a falha 
prática não ocorre e o uso “típico”, sujeito a 
estes desfechos. 
As vantagens apresentadas por esse método 
são a ausência de efeitos sistêmicos, 
praticidade de uso, baixo custo (início da 
distribuição gratuita em 1994), proteção 
contra ISTs e fácil acesso. As desvantagens, 
por sua vez, referem-se à possibilidade de 
falhas por ruptura ou deslizamento, retardo 
da ejaculação, compressão peniana, 
irritação vaginal e alergia ao látex. 
 
 Preservativo feminino: 
Consiste em um dispositivo que é inserido na 
vagina antes do coito com a finalidade de 
impedir que o pênis e o sêmen entrem em 
contato direto com a mucosa genital 
feminina. Ele tem um formato de tubo 
transparente apresentando um anel em cada 
extremidade: o anel móvel fica no interior da 
extremidade fechada e auxilia para uma 
melhor adaptação do preservativo ao fundo 
vaginal, enquanto o anel fixo, situado 
externamente, mantém a outra extremidade 
aberta recobrindo a parte central da vulva, 
ajudando a protegê-la e impedindo que o 
preservativo entre na vagina durante o coito. 
Ele se adapta de forma frouxa, mas segura, 
auxiliado pela presença de um lubrificante à 
base de silicone de alta viscosidade que 
favorece sua aderência na mucosa genital. 
Em função da epidemia do HIV/AIDS, o 
preservativo feminino ganhou maior 
destaque como um método de barreira para 
prevenir a transmissão não só do HIV como 
de de outras ISTs, além de prevenir a 
gravidez. O modelo feminino quando 
comparado ao masculino, confere uma maior 
proteção ao casal por recobrir uma área 
maior de contato genital incluindo a vulvar 
que é sede frequente de úlceras genitais 
provocadas por estas doenças. 
Para o uso adequado do preservativo 
feminino é necessário seguir uma sequência 
maior de passos, orientada pelo profissional 
de saúde ou na embalagem do material. Seu 
uso é recomendado em todas as relações 
sexuais, mesmo no período menstrual. Sua 
utilização junto ao preservativo masculino 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
não é indicada, pois o atrito aumenta as 
chances de rompimento. 
 
As taxas de falha variam de 5% a 21%, 
comparativamente maiores que as 
encontradas pelo preservativo masculino, 
uma vez que seu uso inadequado é mais 
frequente. A eficácia contraceptiva dos 
preservativos femininos pode aumentar 
quando utilizado com lubrificantes 
espermicidas. 
O preservativo feminino é indicado para 
todas as mulheres durante o coito, visando 
prevenir o contágio ou a transmissão de ISTs 
ou a gravidez indesejada, podendo ser 
associado a ouros métodos como forma de 
aumentar sua eficácia. As contraindicações 
são alergias ao látex e prolapsos vaginais. 
As vantagens desse método são a ausência 
de efeitos sistêmicos, a proteção dupla (ISTs 
e gravidez), possibilidade de inserção com 
antecedência (dá mais controle à mulher e 
evita interrupções durante o ato sexual, não 
dependendo da ereção peniana), o conforto 
mútuo e a menor perda de sensibilidade. As 
desvantagens, por sua vez, são as falhas 
ligadas à utilização inadequada, custo 
elevado, menor aceitação estética, 
dificuldade de acesso, possibilidade de 
penetração inadequada e desconforto 
associado aos anéis. 
 Diafragma: 
O diafragma é um dispositivo vaginal de 
anticoncepção com longo período de 
validade (5 anos), que consiste em um capuz 
macio de borracha, côncavo, com borda 
flexível, que cobre parte da parede vaginal 
anterior e o colo uterino. É necessária a 
medição por profissional de saúde treinado, 
para determinar o tamanho adequado a cada 
mulher. Se o diafragma medidor escolhido 
for correto, a borda superior deste se 
encaixará perfeitamente atrás do púbis e, se 
corretamente aplicado, não deverá causar 
desconforto. O médico deverá treinar a 
paciente para uma colocação correta, 
certificando-se sempre de que o diafragma 
está recobrindo totalmente o colo uterino. 
 
Antes de colocar o diafragma, a paciente 
deve urinar para esvaziar a bexiga e lavar as 
mãos. Deve-se examiná-lo cuidadosamente 
contra a luz, para assegurar-se da 
inexistência de defeitos ou furos antes da 
sua colocação. 
A utilização do diafragma deve ser 
preferencialmente associada ao espermicida 
em todas as relações sexuais. A reaplicação 
do gel deve ocorrer a cada duas horas sem 
retirar o diafragma, que deve permanecer por 
no mínimo 6 a 8 horas após a última 
ejaculação vaginal. 
Depois de retirado, ele deve ser lavado com 
água limpa e sabão, secado e armazenado 
em local limpo, seco e escuro. Pode ser 
colocado antes da relação sexual (até oito 
horas antes), ou utilizado de forma contínua. 
Nesta última modalidade, é aconselhável 
retirá-lo uma vez ao dia para lavá-lo e 
recolocá-lo novamente. Durante a 
menstruação o diafragma deve ser retirado. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
A taxa de gravidez é de 6% a 21%, variando 
conforme a discrepância entre uso perfeito e 
típico. 
A indicação desse método vale para 
mulheres com baixo risco de infecção por 
HIV e outras ISTs. Contraindicações para o 
uso do diafragma são direcionadas para 
portadores ou pessoas com alto risco de 
infecção por HIV, infecções urinárias e 
candidíase recorrentes, com doença 
cardíaca valvular complicada, prolapsos 
vaginais e mulheres antes de seis meses 
pós-parto. 
Como vantagens, é possível ressaltar a 
ausência de efeitos sistêmicos, fácil acessoe baixo custo, controle feminino, prevenção 
de gravidez e algumas ISTs, a não 
interferência durante o aleitamento materno, 
possibilidade de interrupção a qualquer 
momento, longa vida útil e facilidade de 
colocação após orientação. As 
desvantagens observadas são as falhas 
elevada por uso incorreto, necessidade de 
medição e instruções claras de profissionais 
de saúde, possibilidade de acometimento por 
dores pélvicas e maior susceptibilidade a 
infecções urinárias. 
 Capuz cervical: 
São dispositivos menores que o diafragma, 
recobrem e aderem ao colo do útero e são 
usados junto com espermicidas que 
funcionam como métodos anticoncepcionais 
de barreira cervical. Podem ser utilizados por 
mais tempo que o diafragma (48 a 72 horas, 
comparadas a 24h com o método anterior) e 
requerem só uma aplicação de espermicida, 
mesmo com mais de uma relação sexual. 
A taxa de gravidez é de 9% a 20% em 
nulíparas e de 26% a 40% em multíparas. 
Suas indicações, vantagens e desvantagens 
assemelham-se às do diafragma, porém são 
de difícil acesso no Brasil. 
 Esponjas: 
As esponjas são dispositivos pequenos, 
macios e circulares de poliuretano (plástico) 
contendo espermicida, colocados no fundo 
da vagina recobrindo o colo uterino. 
Antes da introdução vaginal, ela deve ser 
umedecia com água filtrada, espremida para 
distribuir o espermicida. Permanece eficaz 
por 24 horas após a inserção 
independentemente do número de coitos. 
Após a última ejaculação, ela deve 
permanecer por no mínimo seis horas, não 
ultrapassando 24 a 30 horas. 
A taxa de gravidez é de 9% a 20% nas 
nulíparas e de 20% a 40% nas multíparas. 
Tem indicações e contraindicações 
semelhantes às do diafragma, com 
vantagens e desvantagens análogas às do 
capuz cervical. 
 Espermicidas: 
São substâncias químicas que recobrem a 
vagina e o colo do útero, bloqueando a 
passagem dos espermatozoides pelo canal 
cervical, impedindo sua ascensão em 
direção ao ovócito para a fecundação. Esses 
compostos dissolvem os constituintes 
lipídicos da membrana celular dos gametas 
masculinos, provocando sua inativação 
funcional ou morte. 
O espermicida, para o máximo de 
efetividade, deve ser usado com o diafragma 
ou com os preservativos, e é efetivo por um 
período de uma hora após a colocação. 
Portanto, a mulher deve ser orientada para 
que a relação sexual ocorra neste período de 
tempo, caso contrário ele deve ser 
reaplicado antes do coito. 
O principal componente desses produtos, o 
nonoxinol-9 (N-9) pode provocar lesões na 
mucosa vaginal ou retal de acordo com a 
frequência de utilização e volume aplicado, 
fazendo com que a OMS não recomende a 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
utilização desse método por mulheres com 
risco aumentado para ISTs, especialmente 
aquelas que têm muitas relações diárias. 
A taxa de gravidez é de 6% a 26%, indicado 
para mulheres com baixo risco de infecção 
por ISTs e que utilizem outros métodos de 
barreira, e contraindicados para as situações 
supracitadas, além de alergias ao produto e 
doença inflamatória pélvica e/ou cervicite 
purulenta atual ou nos últimos 3 meses. 
As vantagens são semelhantes às dos 
últimos métodos apresentados, tendo por 
desvantagens a não proteção contra ISTs, 
baixa eficácia com uso individual, 
possibilidade de irritação local e 
desenvolvimento de infecções na mucosa 
vaginal. 
DISPOSITIVOS INTRAUTERINOS (DIU): 
O dispositivo intrauterino consiste em um 
objeto sólido de formato variável que é 
inserido através do colo uterino na cavidade 
uterina, com o objetivo de evitar a gestação. 
Os DIUs podem ser classificados em três 
grupos principais: não medicados, 
medicados ou de cobre e hormonais (DIU 
Mirena, contém levongestrel ou 
progesterona – age sobre o endométrio, 
atrofiando a parede uterina). Os mecanismos 
de ação são variados, sendo o principal a 
prevenção da fertilização. 
 O DIU não medicado depende de uma 
reação de corpo estranho para sua ação 
contraceptiva, trata-se de reação 
inflamatória estéril que produz lesão 
tecidual mínima, porém suficiente para 
ser espermicida; 
 O DIU de cobre consiste em um fio de 
prata corado com cobre. A presença de 
um corpo estranho e de cobre na 
cavidade endometrial causa mudanças 
bioquímicas e morfológicas no 
endométrio, além de produzir 
modificações no muco cervical. Esse 
aparelho é associado à resposta 
inflamatória aumentada com citocinas 
citotóxicas. 
O cobre é responsável pelo aumento da 
produção de prostaglandinas e pela 
inibição de enzimas endometriais. Estas 
mudanças afetam adversamente o 
transporte de esperma, de modo a 
prevenir a fertilização. Os íons de cobre 
também têm um efeito direto na 
motilidade espermática, reduzindo a 
capacidade de penetração no muco 
cervical. A ovulação não é afetada em 
usuárias do DIU de cobre; 
Na ausência de contraindicações, o DIU 
pode ser considerado para qualquer mulher 
que esteja procurando por um método 
contraceptivo de confiança, reversível, 
independente do coito, de longo prazo. Duas 
situações que configuram boas candidaturas 
ao uso desses dispositivos são mulheres 
com contraindicação ao estrogênio e 
lactantes. 
Além dos benefícios de caráter 
contraceptivo, o DIU de cobre pode também 
auxiliar a reduzir o câncer endometrial por 
mecanismos ainda não esclarecidos. 
Alguns riscos devem ser levados em 
consideração para a escolha dos dispositivos 
intrauterinos como método de 
anticoncepção, como a possibilidade de 
perfuração uterina (rara, ocorre durante a 
inserção, principalmente em mulheres pós-
parto, com o útero em posição anatômica 
diferenciada ou por conta de operadores não 
treinados), infecções (risco é mais alto nos 
primeiros 20 dias seguindo a inserção), 
expulsão (mais comum no primeiro ano de 
uso, ocorrendo em 2% a 10% das usuárias. 
Sua incidência é maior em nulíparas, 
mulheres que impantaram o dispositivo após 
o parto e em reincidências), falha 
contraceptiva (risco de abortamento caso a 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
gestação ocorra com a manutenção do DIU), 
e gravidez ectópica (não é mais frequente 
em usuárias de DIU, porém caso ocorra 
gravidez na presença de DIU, ela tem mais 
chances de ser ectópica). 
O DIU pode ser inserido em qualquer 
momento do ciclo menstrual, uma vez a 
gravidez seja excluída. Não há nenhuma 
evidência para apoiar a prática comum de 
inserir o DIU só durante a menstruação, 
embora neste momento descarta-se a 
gravidez e mascara-se o sangramento 
relacionado à inserção. As taxas de infecção 
e índices de expulsão podem ser mais altas 
quando inserido durante a menstruação. Da 
mesma forma, o aparelho pode ser removido 
e substituído em qualquer momento do ciclo. 
O exame ginecológico completo incluindo 
toque bimanual e exame especular deve ser 
realizado antes da inserção, observando 
conteúdo vaginal anormal sugestivo de 
infecções, posição uterina, visto que úteros 
extremamente retrovertidos não 
diagnosticados são mais comumente 
relacionados à perfuração. O tamanho 
uterino preferível para sucesso do método 
deve estar entre 6 cm e 9 cm. 
Dentre as candidatas apropriadas estão 
jovens e adolescentes (desde que 
selecionadas cuidadosamente), nulíparas 
(têm mais risco de expulsão e aumento do 
fluxo menstrual, porém a paridade não influi 
na decisão), mulheres pós-parto (pode ser 
colocado de 10 a 15 minutos após a 
dequitação da placenta, porém há risco de 
perfuração uterina e expulsão, sendo mais 
segura a inserção após a involução uterina [4 
a 6 semanas após o parto]), mulheres pós-
aborto, lactantes e indivíduos na 
perimenopausa. 
Os procedimentos de colocação e remoção 
devem ser realizados em consultório por um 
médico, recomendando-se uma consulta de 
acompanhamento após a primeira 
menstruação ou de três a seis semanas após 
a colocaçãodo instrumento. Depois desta 
visita, a usuária de DIU deve ter rotina anual. 
A visita pós-inserção permite a exclusão de 
infecção, avaliação dos padrões de 
sangramento, avaliação da satisfação da 
paciente e do parceiro e uma oportunidade 
de reforço para uso de preservativo para 
proteção contra ISTs. 
A OMS desenvolvei uma lista de 
contraindicações absolutas e relativas para o 
uso de DIU: 
 Contraindicações absolutas: 
o Gravidez; 
o Doença Inflamatória Pélvica ou IST 
atual, recorrente ou recente; 
o Sépsis puerperal; 
o Imediatamente pós-aborto séptico; 
o Deturpação severa da cavidade 
uterina; 
o Hemorragia vaginal inexplicada; 
o Cancer cervical ou endometrial; 
o Doença trofoblásticas maligna; 
o Alergia ao cobre. 
 Contraindicações relativas: 
o Fator de risco para ISTs; 
o Imunidade comprometida; 
o 48 horas a 4 semanas pós-parto; 
o Câncer de ovário; 
o Doença trofoblásticas benigna. 
O sangramento irregular ou um aumento na 
quantidade de sangramento menstrual são 
os efeitos colaterais mais comuns nos 
primeiros meses depois da inserção. A perda 
menstrual nas usuárias quando comparadas 
às não usuárias de DIU de cobre pode 
aumentar em até 65%. O número médio de 
dias de sangramento parece diminuir com o 
tempo. As usuárias de DIUs de cobre têm 
uma média de 13 dias de sangramento ou 
spotting no primeiro mês depois da inserção, 
diminuindo para uma média de seis dias 
após 12 meses da inserção. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Alguns problemas com o uso são a perda do 
fio, problemas com a inserção, perfurações, 
amenorreia, dor e hemorragia anormais. 
 
 
 
MÉTODOS HORMONAIS: 
A anticoncepção hormonal é a utilização de 
drogas, classificadas como hormônios, em 
dose e modo adequados para impedir a 
ocorrência de uma gravidez não desejada ou 
não programada, sem qualquer restrição às 
relações sexuais. Esse método pode ser 
aplicado de várias formas (contraceptivos 
orais combinados [mono, bi ou trifásicos, 
dependendo da dosagem de cada 
componente ao longo a cartela] ou só com 
progestágenos, injetáveis combinados 
[mensais] ou só com progestágenos 
[trimestral], implantes, anéis vaginais, DIU 
com progestágeno e adesivos cutâneos). 
Os hormônios usados para anticoncepção 
são os esteroides sexuais sintéticos: 
estrógenos e progestágenos. O estrógeno 
que aparece nos contraceptivos hormonais 
orais (CHO) é o etinilestradiol. Os 
progestágenos usados nas formulações 
contraceptivas são vários, produzindo 
diferentes efeitos metabólicos. Tais 
diferenças são sutis, mas suficientemente 
importantes para determinar reações 
variadas. 
Para manter a elevada eficácia, a 
administração de anticoncepcionais 
monofásicos deve ser feita de forma diária, 
nos mesmos horários, respeitando as 
pausas máximas entre as cartelas e evitando 
esquecimentos (é possível tomar a dose 
diária tão logo se lembrar do fato). Se ocorrer 
esquecimento de duas pílulas consecutivas, 
deve tomar a pílula do dia mais uma (duas 
pílulas juntas) em dois dias consecutivos e 
usar método adicional, de barreira, ou evitar 
relações sexuais por 14 dias. 
Os contraceptivos orais combinados 
exercem a sua ação contraceptiva por meio 
de uma influência no eixo neuroendócrino, 
alterando o mecanismo de estimulação 
ovariana pelas gonadotrofinas e pela 
interferência direta sobre os mecanismos de 
feedback. Assim, promovem um bloqueio 
gonadotrófico especialmente do pico de LH 
e, com isso, impedem que ocorra a ovulação. 
Por esta razão são chamados de 
anovulatórios. Além dessa forma de ação, os 
progestágenos atuam sobre o muco cervical, 
dificultado o acesso de espermatozoides, e o 
endométrio, tornando-o hipertrófico. Esses 
efeitos são totalmente reversíveis e, por isso, 
a usuária retorna à fertilidade ao suspender 
o seu uso. 
 
O uso de outras medicações 
concomitantemente repercute de forma 
importante na eficácia contraceptiva e pode 
interferir de modo significativo, tanto na 
eficácia contraceptiva, quanto no efeito do 
outro medicamento, fenômeno que se chama 
interações medicamentosas. 
A eficácia das pílulas combinadas depende 
essencialmente da correção do uso. Se o 
modo de uso for perfeito, a taxa de falhas, 
independente da formulação, fica em torno 
de 0,5%. Entretanto, o risco relativo de 
gravidez durante o uso de pílulas é maior 
para as formulações com muito baixas doses 
de hormônios. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Alguns efeitos indesejados podem ocorrer 
devido à ação hormonal, como náuseas, 
aumento das mamas, retenção de líquidos, 
ganho de peso rápido e em ciclos, AVC, 
aumento da concentração de colesterol na 
bile, etc. 
A diferença dos anticoncepcionais orais para 
implantes, adesivos e injetáveis está 
somente na ausência de passagem pelo 
fígado e redução de uso incorreto por 
minimizar o fato esquecimento. 
A indicação geral desses métodos se dirige 
a mulheres desde a menarca até os 40 anos, 
pós-parto (21 dias) sem lactação, pós-
aborto, portadoras de HIV, obesas, 
portadoras de diabetes gestacional, entre 
outras. Esse mecanismo contraceptivo é 
contraindicado para lactantes antes das 6 
semanas e até 6 meses pós-parto, mulheres 
antes de 21 dias pós-parto, diabéticas com 
mais de 20 anos de diagnóstico, gestantes, 
hipertensas moderadas e graves, com 
câncer de mama atual, histórico de AVC ou 
doenças cardioisquêmicas ou valvulares. 
 
MÉTODOS DEFINITIVOS: 
Os métodos anticoncepcionais definitivos, ou 
cirúrgicos, são procedimentos que resultam 
na esterilização, seja para o sexo masculino 
ou para o feminino. Na mulher, esse 
procedimento é realizado por meio da 
laqueadura/ligadura das trompas de Falópio, 
e no homem por meio da vasectomia. 
O acesso às tubas uterinas durante a 
laqueadura pode se dar de várias formas, 
sendo que as incisões normalmente se 
localizam na região suprapúbica. Um 
segmento tubário será ressecado, isolado 
por meio de uma pinça hemostática, 
formando assim uma alça que será cortada, 
com sua base sendo ligada por fios 
absorvíveis. 
 
As complicações decorrentes da 
esterilização tubária (LT) são variadas e 
dependem muito da habilidade e da 
experiência de quem a executa. A maioria 
delas são lesões de órgãos ou vísceras 
vizinhas, como a bexiga ou o intestino. 
Também podem ocorrer sangramentos e 
infecção da ferida cirúrgica, além de 
irregularidades menstruais e dor pélvica. 
Nota-se que não há perda de prazer sexual 
feminino após a realização da cirurgia. 
Uma complicação séria de LT é o 
arrependimento. Algumas mulheres, alguns 
anos após serem submetidas ao 
procedimento, voltam à clínica, solicitando 
sua reversão. Ocorrem mudanças em suas 
vidas e voltam a desejar nova gravidez. Por 
isso, é fundamental que antes de realizar um 
procedimento de esterilização, se tenha 
convicção de que a paciente tem perfeita 
consciência do caráter definitivo do método, 
e de que está absolutamente certa de que 
não deseja mais ter filhos. A taxa de 
arrependimento é inversamente proporcional 
à idade com que a paciente se submete à 
esterilização e ao número de filhos que 
possui. 
A vasectomia, por sua vez, é uma cirurgia 
simples, segura e rápida, na qual os canais 
deferentes são ressecados, cauterizados ou 
amarrados. O procedimento pode ser feito 
em ambulatório (o que não é possível na 
esterilização feminina), com anestesia local 
e sem necessidade de internamento. 
O efeito desse processo não é imediato. Nas 
primeiras ejaculações depois da vasectomia, 
ainda existem espermatozoides no esperma 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
ejaculado, ou seja, ainda existe o risco de o 
homem engravidar a mulher. A vasectomia 
só será considerada segura quando o exame 
realizado no esperma, o espermograma, 
mostrar que não existem mais 
espermatozoides no esperma ejaculado.Vale salientar que a vasectomia não altera a 
vida sexual do homem. O desejo e a potência 
sexual continuam iguais ao que eram antes 
da cirurgia. 
 
Os métodos anticoncepcionais definitivos 
são regulados pela Lei do Planejamento 
Familiar, que só permite a esterilização 
voluntária nas seguintes condições: 
 Em homens e mulheres com plena 
capacidade civil e maiores de 25 anos, ou 
com pelo menos dois filhos vivos, com 
observação de um espaço de tempo de 
60 dias entre manifestação da vontade e 
a realização da cirurgia; 
 Nos casos em que há risco de vida para 
a mulher ou riscos para a saúde da 
mulher ou do futuro concepto, desde que 
testemunhado em relatório escrito e 
assinado por dois médicos; 
 Deve ser elaborado documento que 
expresse a vontade pela paciente, 
contendo informações sobre os riscos da 
cirurgia, possíveis efeitos colaterais, 
dificuldade de sua reversão e opções de 
contracepção reversível. Este documento 
deve ser assinado pelo cônjuge, quando 
houver sociedade conjugal. 
A Lei do Planejamento Familiar proíbe a 
realização da ligadura de trompas durante o 
período de parto ou aborto, exceto nos casos 
de comprovada necessidade. 
CONTRACEPÇÃO DE EMERGÊNCIA: 
A anticoncepção/contracepção de 
emergência (AE/CE) é um método 
anticonceptivo que visa prevenir a gestação 
após a relação sexual. O método, também 
conhecido por “pílula do dia seguinte”, ou 
ainda como “anticoncepção pós-coital”, 
utiliza compostos hormonais concentrados e 
atua por curto período de tempo nos dias 
seguintes da relação sexual. 
Entre as principais indicações de AE, está a 
relação sexual sem uso de método 
anticonceptivo, por razão de violência 
sexual, falha conhecida ou presumida do 
método em uso de rotina ou uso inadequado 
do anticonceptivo. 
A anticoncepção de emergência surgiu logo 
após o lançamento dos contraceptivos 
hormonais, ainda na década de 60, com 
elevadas doses de dietilbistrol aplicadas a 
mulheres abusadas sexualmente, obtendo 
resultados favoráveis, porém foram 
descontinuadas por conta dos fortes efeitos 
adversos. Em 1974, Yuzpe usa pela primeira 
vez a combinação de levonorgestrel com 
etinil-estradiol para contracepção pós-coital. 
Os dois regimes mais utilizados na CE são: 
 
 Método de Yuzpe: 
Consiste na combinação de 100 µg de 
etinilestradiol e 500 µg de levonorgestrel 
tomados em duas vezes, sendo que a 
segunda tomada é feita 12 horas após a 
primeira. O uso desse esquema deve ocorrer 
antes de decorridas 72 horas do coito 
desprotegido, sendo recomendado pela 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
OMS que seja feito o mais cedo possível 
após essa relação. 
A taxa média de gestação com este método 
é de 1,8%, porém, se o tratamento for 
iniciado nas primeiras doze horas após o 
coito, a taxa é reduzida para 1,2% Os 
principais paraefeitos desse regime são a 
náusea e o vômito, que ocorrem em até 20% 
das vezes. Por isso, é recomendável o uso 
de um antiemético 30 minutos antes de cada 
tomada dos hormônios. Não há 
contraindicação para o uso do regime de 
Yuzpe, exceto gravidez conhecida. 
 Contraceptivo com levonorgestrel 
isolado: 
Usa-se o levonorgestrel na dose de 1,5 mg 
em dose única ou fracionada em duas 
tomadas, com intervalo de 12 horas. Uma 
dose única de levonorgestrel é tão eficaz 
quanto à dose fracionada e mostra-se mais 
conveniente à paciente, sem aumentar os 
efeitos adversos. 
A eficácia desse método é tão ou mais alta 
que aquela fornecida elo método de Yuzpe, 
contando com a vantagem de não produzir 
náuseas e vômitos com a mesma 
intensidade. Não há contraindicações além 
de gravidez reconhecida. 
MÉTODO DE AÇÃO DA CONTRACEPÇÃO DE 
EMERGÊNCIA: 
Descrever os mecanismos de ação que 
levam aos efeitos anticoncepcionais da 
contracepção de emergência é de 
fundamental importância para desconstruir o 
mito de feito abortivo veiculado por vertentes 
religiosas. O mecanismo de ação varia 
conforme a fase do ciclo menstrual na qual a 
CE é administrada, a saber: 
 
 Na primeira fase do ciclo, antes da 
elevação na produção de LH (pré-
ovulação): a CE altera o desenvolvimento 
folicular, impedindo ou retardando o 
momento da ovulação por muitos dias, 
evitando assim o contato entre gametas; 
 Na segunda fase do ciclo (pós-ovulação): 
a CE atua na alteração do transporte dos 
espermatozoides e do ovócito pelas 
tubas uterinas, modificando as 
características do muco cervical para 
torna-lo hostil à passagem de gametas 
masculinos e/ou interferindo na 
capacitação espermática (momento no 
qual os espermatozoides iniciam sua 
movimentação). 
Por não ter impacto sobre uma gravidez 
reconhecida (não há evidência que esse 
método funcione após a fecundação), a CE 
não pode ser configurada como um método 
que resulte em aborto. 
Apesar de ser um método altamente eficaz, 
o uso inconsequente e prolongado da 
anticoncepção de emergência pode 
acarretar em grandes prejuízos à saúde da 
mulher, com ênfase para o câncer de mama 
e colo uterino, bem como diminuição da 
eficácia terapêutica, com possível gravidez 
indesejada e infertilidade. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
O aconselhamento em contracepção de 
emergência deve seguir a complexidade de 
fatores que atravessam a gravidez 
indesejada, desde o entendimento prévio 
sobre padrões culturais que atribuem valores 
naturalizados às relações entre os gêneros, 
situações de violências e agressões contra 
as mulheres, até orientações informativas e 
de aconselhamento para práticas sexuais 
seguras. 
ABUSO SEXUAL – EPIDEMIOLOGIA E PROTOCOLOS 
DE ATENDIMENTO: 
A violência sexual contra crianças e 
adolescentes é considerada um problema de 
saúde pública e violação dos direitos 
humanos, resultando em graves impactos 
tanto no âmbito individual quanto no social. 
O abuso contra essa população ocorre 
muitas vezes em meio ao espaço doméstico, 
escolar e familiar, não garantindo visibilidade 
pelas esferas do poder público e dificultando 
o acesso aos serviços de saúde. 
Para dar visibilidade à violência, revelando 
sua magnitude, tipologia, gravidade, perfil 
das pessoas envolvidas, localização de 
ocorrência e outras características dos 
eventos, o Ministério da Saúde desenvolveu 
o Sistema de Vigilância de Violências e 
Acidentes (Viva). A partir de 2011 a 
notificação de violências passou a ser 
compulsória para todos os serviços de saúde 
públicos e privados, e em 2014 os casos de 
violência sexual passaram a ser de 
notificação imediata, comunicados à 
Secretaria Municipal de Saúde em até 24 
horas após o atendimento da vítima. Outra 
ação mandatória é a comunicação de 
qualquer tipo de violência contra crianças e 
adolescentes ao Conselho Tutelar, conforme 
preconiza o Estatuto da Criança e do 
Adolescente. 
Incluem-se como violência sexual os casos 
de assédio, estupro, pornografia infantil e 
exploração sexual, que podem se manifestar 
como abuso incestuoso, sexo forçado no 
casamento, jogos sexuais e práticas eróticas 
não consentidas, pedofilia, voyeurismo, 
manuseio, penetração oral, anal ou vaginal, 
com pênis ou objetos, de forma forçada. 
Inclui, também, exposição 
coercitiva/constrangedora a atos libidinosos, 
exibicionismo, masturbação, linguagem 
erótica, interações sexuais de qualquer tipo 
e material pornográfico. 
Ademais, se consideram os atos que, 
mediante coerção, chantagem, suborno ou 
aliciamento, impeçam o uso de qualquer 
método contraceptivo ou force ao 
matrimônio, à gravidez, ao aborto, à 
prostituição, ou que limitem ou anulem em 
qualquer pessoa a autonomia e o exercício 
de seus direitos sexuais e direitos 
reprodutivos. 
Entre 2011 e 2017 foram notificados 219.717 
casos de violência interpessoal ou 
autoprovocada em crianças e 372.014 casos 
contra jovens, concentrando 40,5% dos 
casos notificados entre todos os gruposetários. Nesse período, foram notificados 
184.524 casos de violência sexual, sendo 
58.037 (31,5%) contra crianças e 83.068 
(45,0%) contra adolescentes, concentrando 
76,5% dos casos notificados nesses dois 
cursos de vida. 
Ao comparar os anos de 2011 e 2017 é 
possível observar um aumento geral de 83% 
nas notificações de violências sexuais, com 
crescimento de 64,6% e 83,2% dentre as 
duas faixas etárias aqui reportadas. Isso 
pode estar atrelado ao desenvolvimento do 
Viva e da notificação compulsória pelos 
serviços de saúde. 
PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA VIOLÊNCIA SEXUAL 
CONTRA CRIANÇAS: 
A análise sociodemográfica de crianças 
vítimas de violência sexual revelou que 
43.034 (74,2%) eram do sexo feminino e 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
14.996 (25,8%) eram do sexo masculino. Do 
total, 51,2% estavam na faixa etária entre 1 
e 5 anos, 45,5% eram da raça/cor da pele 
negra, e 3,3% possuíam alguma deficiência 
ou transtorno. As notificações se 
concentraram nas regiões Sudeste (40,4%), 
Sul (21,7%) e Norte (15,7%). 
O padrão demográfico se assemelha entre 
meninos e meninas, tendo como vítimas 
principalmente indivíduos com 1 a 5 e 6 a 9 
anos, sua maioria com pele negra. Os casos 
eram vinculados principalmente às regiões 
Sudeste, Sul e Norte. 
A avaliação das características da violência 
sexual contra crianças mostrou que 33,7% 
dos eventos tiveram caráter de repetição, 
69,2% ocorreram na residência e 4,6% 
ocorreram na escola, e 62% foram 
notificados como estupro, dados que se 
repetem ao separar por sexo. 
A avaliação das características do provável 
autor da violência sexual contra crianças 
mostrou que em 74,7% das notificações 
houve envolvimento de um autor. Em 81,6%, 
o agressor era do sexo masculino e 37,0% 
tinham vínculo familiar com a vítima. 
 
PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA VIOLÊNCIA SEXUAL 
CONTRA ADOLESCENTES: 
A observação dos padrões demográficos de 
adolescentes vítimas de violência sexual 
mostrou que 76.716 (92,4%) eram do sexo 
feminino e 6.344 (7,6%) eram do sexo 
masculino. Do total, 67,8% estavam na faixa 
etária entre 10 e 14 anos, 55,5% eram da 
raça/cor negra, 7,1% possuíam alguma 
deficiência ou transtorno e as notificações se 
concentraram nas regiões Sudeste (32,1%), 
Norte (21,9%) e Sul (18,8%). 
A projeção das características femininas 
reflete o que é mostrado pelas estatísticas 
gerais, porém o abuso sexual em jovens do 
sexo masculino possui padrões distintos: 
75,9% estavam na faixa etária entre 10 e 14 
anos, 49,9% eram da raça/cor da pele negra, 
17% possuíam alguma deficiência ou 
transtorno e as notificações se concentraram 
nas regiões Sudeste (41,0%), Sul (23,5%) e 
Nordeste (14,0%). 
A avaliação das características da violência 
sexual contra adolescentes mostrou que 
39,8% dos eventos tiveram caráter de 
repetição, 58,2% ocorreram na residência e 
13,9% em via pública, e 70,4% foram 
notificados como estupro. 
Ao analisar as características dos possíveis 
autores da violência sexual em 
adolescentes, é possível observar que em 
78,9% das notificações houve envolvimento 
de um autor, 92,4% dos agressores eram do 
sexo masculino e 38,4% possuíam vinculo 
intrafamiliar (familiares ou parceiros íntimos) 
com a vítima. 
Dentre as diretrizes normativas que 
direcionam o atendimento de casos de abuso 
sexual com menores de idade destacam-se 
a Política Nacional de Atenção Integral à 
Saúde da Criança (PNAISC), criada em 
20115, prevê dentre seus eixos de ação 
estratégica a “atenção integral à criança em 
situação de violências, prevenção de 
acidentes e promoção da cultura de paz” e 
as Diretrizes Nacionais para a Atenção 
Integral à Saúde de Adolescentes e Jovens 
na Promoção, Proteção e Recuperação da 
Saúde , que também possui como eixo 
estruturante “Vitimização juvenil e a 
integração de políticas interfederativas, 
governamentais e com a sociedade – 
Violência doméstica e a violência sexual, 
mortalidade por causas externas e a 
promoção da cultura de paz”. 
As notificações no Sinan mostraram um 
elevado percentual de caráter crônico de 
violência sexual, ainda mais grave entre os 
adolescentes. Entretanto, o elevado nível de 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
dados ignorados para essa variável entre as 
crianças (35,5%) pode ser um reflexo da 
dificuldade de comunicação oral inerente a 
essa fase do desenvolvimento. Além disso, 
os acompanhantes no atendimento em 
saúde muitas vezes são os prováveis 
autores da violência, ou possuem vínculo de 
proximidade com a vítima, fato que dificulta a 
identificação do histórico crônico do evento. 
Os indivíduos do sexo masculino foram 
apontados como os principais autores das 
violências sexuais contra crianças e 
adolescentes. Diante disso, faz-se 
necessário problematizar essa situação, 
considerando que esse maior envolvimento 
como promotores das violências sexuais 
contra estes grupos pode ser reflexo da 
afirmação de uma identidade masculina 
hegemônica, marcada pelo uso da força, 
provas de virilidade e exercício de poder 
sobre outros corpos, sendo relevante a 
promoção de novas formas de 
masculinidade que permitam a manifestação 
indenitária de forma saudável. 
Os perfis demográficos das violências 
sexuais contra crianças e adolescentes 
apontam para a dificuldade em dar 
visibilidade ao problema, seja pelo seu 
caráter íntimo e relacional, pela menor 
autonomia dos indivíduos em realizar a 
comunicação das ocorrências ou pelo 
estigma social e sentimento de vergonha. 
Nesse sentido, é necessário que o 
profissional de saúde saiba reconhecer as 
violências ocultas e mascaradas de forma 
humanizada, promovendo o cuidado e 
encaminhamento adequado dentro dos 
limites das Redes de Atenção à Saúde. 
EPIDEMIOLOGIA DA VIOLÊNCIA SEXUAL EM 
CRIANÇAS E ADOLESCENTES NA BAHIA: 
No período de 2009 a 2013 houve um total 
de 2.657 casos de violência sexual 
notificados, com maior incidência em Vitória 
da Conquista (22,3%), Salvador (19,9%) e 
Feira de Santana (15,1%). A população do 
sexo feminino foi a que mais sofreu com 
esses abusos (87,5% dos casos), 
principalmente as adolescentes na faixa de 
10 a 14 anos. No sexo masculino, a maior 
frequência se deu entre 5 a 9 anos. 
 
Encontra-se, no registro de dados que, no 
quesito raça/cor, a parda foi a mais 
declarada para ambos os sexos. Quanto à 
escolaridade, predominou o ensino 
fundamental incompleto (5ª a 8ª série em 
ambos os sexos). 
O local de ocorrência mais apontado foi a 
residência (56,1%), seguido por vias públicas 
(12,6%). Os agentes causadores da 
agressão no sexo feminino foram pessoas 
desconhecidas (24,2%), e 
amigas/conhecidas (22,4%). Para o sexo 
masculino pessoas conhecidas (35,6%) 
foram os principais perpetradores. O número 
de agressores foi relatado como um, para a 
maioria das vítimas (83,1%). De acordo com 
o tipo de violência sexual, o estupro (65,9%), 
seguido por assédio (21,1%) e exploração 
sexual (5,3%) foram os mais informados. A 
violência por repetição foi identificada em 
37,6% dos casos atendidos. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 
Quanto aos procedimentos realizados, a 
profilaxia contra doenças sexualmente 
transmissíveis (DST) foi utilizada em 22,0% 
das vítimas, seguido de profilaxia HIV 
(19,5%) e Hepatite B (14,4%). Utilizouse a 
contracepção de emergência em 11,4% dos 
atendimentos. 
Como consequências da violência foram 
relatados os seguintes dados em números 
absolutos: 16 abortos, 7 dos quais foram 
previstos em Lei. Além disso, 105 pessoas 
engravidaram e 137 foram detectadas com 
doenças sexualmente transmissíveis. 
Observou-se 28 casos de tentativas de 
suicídio e 1038 pessoas que disseram sofrer 
algum tipo de transtorno comportamental 
e/ou mental. 
A maioria dos encaminhamentos foram 
realizados para o Conselho Tutelar (33,8%)e para o CREAS (33,2%). Como 
consequências extremas da violência sexual 
foram registrados 12 óbitos relacionados a 
esse tipo de abuso. 
PROTOCOLO DE ATENDIMENTO ÀS VÍTIMAS DE 
ABUSO SEXUAL: 
Para que a atenção às pessoas em situação 
de violência sexual seja realizada de forma 
integral é necessário que ela contemple as 
seguintes dimensões: 
 Acolhimento: 
O acolhimento da pessoa em situação de 
violência deve permear todos os locais e 
momentos do processo de produção do 
cuidado, diferenciando-se da tradicional 
triagem. O acolhimento representa a primeira 
etapa do atendimento e nele são 
fundamentais: ética, privacidade, 
confidencialidade e sigilo. 
A pessoa deverá ser acolhida em ambiente 
reservado assim que sinaliza o fato que a 
levou a procurar atendimento. Neste 
momento pode-se observar se existe a 
presença de alguma pessoa que possa coibir 
o relato (seja familiar ou profissional do 
serviço) e verificar a possibilidade de 
entrevista na presença de outro técnico ou 
sem o familiar, uma vez que o abuso pode 
ser provocado por um dos pais ou estes são 
coniventes com o ato. 
O acolhimento poderá ser feito pelo 
enfermeiro, assistente social ou psicólogo 
(ou outro técnico capacitado e com 
habilidades para atendimento à pessoa 
vítima de abuso sexual). Para fins de 
prioridade e encaminhamento, o profissional 
deverá confirmar o tempo decorrido entre a 
violência sexual e a procura pelo 
atendimento. Dados como uso de 
preservativo pelo agressor, tipo de agressão 
(com contato de fluidos ou não), meio 
empregado (para verificação de uso de 
substância química que impossibilitasse a 
pessoa de resistir) e, caso mulher em idade 
fértil, se usa algum método contraceptivo, 
deverão ser questionados garantindo 
agilidade para profilaxias. 
Estas informações preliminares deverão ser 
registradas em prontuário para que a pessoa 
não necessite repetir várias vezes o fato 
ocorrido. Cabe aos profissionais informar 
sobre os procedimentos e medidas que 
serão realizadas. Em posse do breve 
histórico e dos dados pessoais da pessoa em 
situação de violência, aciona-se a delegacia 
de referência para solicitação de exames 
periciais (Lesões Corporais, Ato Libidinoso, 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Conjunção Carnal e/ou Toxicológico) e a 
nomeação como perito ad hoc do médico 
que irá atender a pessoa. 
 Atendimento clínico: 
Levando em conta o momento de ansiedade 
e temor o histórico de saúde, o levantamento 
de dados do abuso deverá ser o mais breve 
e pontual possível. Não cabe aos 
profissionais emitir opiniões próprias ou 
levantar “curiosidades pessoais” sem 
interesse clínico. 
Os registros que devem estar incluídos no 
prontuário são definidos pela Norma Técnica 
do Ministério da Saúde, publicada em 2012 e 
pelo Decreto Presidencial nº 7958, de 13 de 
março de 2013, a saber: 
o Local, dia e hora aproximados da 
violência sexual e do atendimento 
médico no Hospital de Referência; 
o História clínica detalhada, com dados 
sobre a violência sofrida; 
o Tipo(s) de violência sexual sofrida(s); 
o Forma(s) de constrangimento 
empregada(s); 
o Tipificação e número de agressores; 
o Exame físico completo, inclusive os 
exames ginecológico e urológico 
(devendo registrar a presença ou 
ausência de sinais e sintomas de ISTs); 
o Descrição minuciosa das lesões, com 
indicação da temporalidade e 
localização específica; 
o Descrição minuciosa de vestígios e de 
outros achados no exame; 
o Identificação dos profissionais que 
atenderam a vítima, com letra legível e 
assinatura; 
o Preenchimento da Ficha de Notificação 
Compulsória de violência doméstica, 
sexual e outras violências. 
 Notificação dos casos: 
Casos de violência e abuso sexual devem 
ser notificados de forma compulsória em até 
24 horas para a Secretaria Municipal de 
Saúde, segundo a Portaria GM/MS nº 1.271, 
de 6 de junho de 2014. 
 Recursos Humanos: 
A equipe responsável pelos Serviços de 
Referência para Atenção Integral às Pessoas 
em Situação de Violência Sexual é composta 
por médico clínico ou médico em 
especialidades cirúrgicas, enfermeiro, 
técnico em enfermagem, psicólogo, 
assistente social e farmacêutico, segundo o 
que foi regulamentado pela Portaria GM/MS 
nº 485 de 1º de abril de 2014. 
 Materiais e equipamentos: 
São os mesmos empregados no 
atendimento ambulatorial em ginecologia e 
obstetrícia (mesa clínica/ginecológica, 
biombo, foco de luz, lençol, tubos para coleta 
de sangue e lâminas, espéculo e pinças), 
podendo ser incluídos colposcópio e 
aparelho de ultrassonografia. 
Compõem os materiais para coleta de 
vestígios e exame de lesões corporais: 
régua, requisições específicas, rascunhos de 
laudos, termo de exibição e cessão, swabs, 
tubos de sangue com e sem anticoagulante, 
frasco de urina, envelope de papel para 
armazenamento de vestimentas e/ou objetos 
(papel higiênico, calcinha, cueca, absorvente 
íntimo, etc), livro de protocolo e câmera 
fotográfica (a critério do profissional médico) 
para registros de lesões e/ou posterior 
discussão de caso. 
A solicitação e coleta de exames de sangue 
e conteúdo vaginal deve ser realizada de 
forma rápida, visando a detecção de alguma 
IST, porém esses processos não devem 
retardar a administração de métodos 
profiláticos. Seu processamento se dá no 
LACEN. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 
Os exames laboratoriais de interesse médico 
legal são realizados pelo médico perito ad 
hoc e subsidiam a investigação e 
identificação do agressor, assim como a 
elaboração de laudos periciais. São eles: 
 Sangue da pessoa agredida (para 
possível posterior confronto de DNA, para 
dosagem alcoólica/toxicológica e ß HCG 
para mulheres em idade fértil); 
 Urina para análise toxicológica; 
 Swabs para pesquisa de sangue, 
espermatozoides e PSA (antígeno 
prostático específico), nas seguintes 
regiões: vagina, boca, vulva, ânus e 
pênis, com esfregaços excepcionais 
realizados conforme as particularidades 
do caso; 
 Análise de outros materiais que tiveram 
contato com a vítima. 
Esses exames somente poderão ser 
analisados e laudados pela Divisão de 
Laboratórios do IML. 
A anticoncepção de emergência está 
indicada para todas as mulheres ou 
adolescentes que tenham sofrido violência 
sexual, através de contato certo ou duvidoso 
com sêmen, independente do período do 
ciclo menstrual em que se encontrem, sendo 
desnecessária somente quando a vítima 
relata uso prévio de métodos contraceptivos 
de alta eficácia, porém deve-se levar em 
conta o estado alterado de orientação e 
concentração em função do trauma causado 
pela situação de abuso. 
Nos casos de prática de ato libidinoso em 
que não haja possibilidade de contato de 
sêmen com a região genital da mulher, a AE 
poderá ser desnecessária. Porém, em 
relatos confusos de agressão, rebaixamento 
de nível de consciência, cognição 
prejudicada, história de intoxicação exógena 
no momento da agressão ou dúvidas com 
relação ao tipo de prática sexual aplicada, 
deve-se considerar o uso da contracepção 
de emergência. 
A pessoa vítima de abuso sexual deve ser 
orientada quanto ao uso de preservativos 
nas relações sexuais subsequentes à 
violência até que sejam descartadas 
possíveis contaminações. No momento do 
atendimento emergencial a pessoa pode não 
dispor de interesse em ouvir sobre atividade 
sexual futura, desta forma, poderá receber 
apoio e informação nos atendimentos 
posteriores nas Unidades de Atenção 
Primária à Saúde ou no Hospital de 
Referência. 
Durante a violência sexual a pessoa 
experimenta a sensação de ameaça à vida. 
Logo após, pode sentir-se culpada por não 
ter reagido, envergonhada e angustiada em 
relação às consequências do ato sexual. 
Grande parte das pessoas dispõe de acesso 
à informação sobre HIV e outras ISTs, 
gerando um estadode ansiedade e temor 
por poder ter risco de contrair alguma dessas 
moléstias, sendo a infecção pelo HIV 
cercada de grande estigma. Considerando a 
ampla gama de infecções sexualmente 
transmissíveis, a profilaxia pós-violência 
sexual contemplará os agravos mais 
prevalentes, de repercussão clínica de 
relevância e está indicada em situações de 
exposição com risco de transmissão, mesmo 
não sendo observadas lesões. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Nos casos de abuso crônico ou quando 
houver uso de preservativo durante todo o 
crime sexual, a profilaxia de ISTs não virais 
não está recomendada, porém, a avaliação 
deverá ser individualizada. Na maioria dos 
casos de abuso crônico em crianças, estas 
são submetidas a práticas diferentes da 
penetração vaginal, anal ou oral, não as 
expondo ao contato contaminante com o 
agressor. 
A imunoprofilaxia contra hepatite B deve ser 
realizada em situações nas quais a vítima 
entrou em contato com sêmen ou outros 
fluidos corporais do agressor e quando há 
dúvida ou desconhecimento acerca do 
estado vacinal do agressor, podendo ser 
aplicada em até 14 dias após o abuso, mas 
é recomendada sua aplicação em até 48 
horas para maior eficácia. 
A profilaxia antirretroviral do HIV é 
considerada abordagem protocolar de 
emergência nos casos de violência sexual 
com contato de fluidos do agressor e deve 
ser iniciada idealmente nas primeiras 2 
horas, ou, no máximo em 72 horas (e o 
esquema terapêutico deve ser mantido por 
quatro semanas consecutivas. Em casos de 
abuso crônico não há indicação de medida 
profiláticas, uma vez que há chances de a 
contaminação já ter ocorrido. 
 
A pessoa agredida sexualmente, após ser 
atendida em situação emergencial no 
hospital, deverá ser encaminhada para 
continuidade do cuidado em uma unidade de 
atenção primária à saúde, ou outro serviço 
da rede de atenção à saúde conforme a 
necessidade apresentada. Neste contexto é 
importante o atendimento individual e 
familiar. 
 
CONDUTA EM CONSULTAS GINECOLÓGICAS NA 
ADOLESCÊNCIA: 
A presença cada vez mais frequente de 
adolescentes nos consultórios ginecológicos 
traz consigo o desafio do estabelecimento e 
manutenção da relação médico-paciente, 
uma vez que esse último se encontra num 
grande momento de transição no seu 
desenvolvimento biopsicossocial. 
Diferente da paciente adulta, a adolescente 
apresenta diferenças no seu modo de agir e 
pensar, de acordo com a fase da 
adolescência que ela está vivendo. O 
estabelecimento de uma boa relação entre 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
profissional e paciente, garantindo a 
privacidade e respeitando a 
confidencialidade, é aspecto fundamental 
para que a consulta transcorra de forma 
bem-sucedida e para que a adolescente 
estabeleça um vínculo com o ginecologista, 
cujo objetivo é promover a saúde sexual e 
reprodutiva desse indivíduo. 
Entre os motivos de consulta mais 
frequentes observam-se a avaliação de 
rotina do desenvolvimento da puberdade, 
problemas relacionados aos ciclos 
menstruais, cólicas, corrimento e desejo de 
contracepção. 
A relação entre confidencialidade e 
adolescentes ainda não apresenta uma 
conduta estabelecida, dada a escassez de 
pesquisas com enfoque nesse tema e a 
ambiguidade nos resultados, pois certos 
trabalhos apontam que os pais associam a 
confidencialidade a comportamentos de 
risco e queda na qualidade dos 
relacionamentos, enquanto outros 
consideram-na favorável, desejando ser 
informados apenas sobre tópicos específicos 
como saúde mental, atividade sexual e 
gravidez, mesmo que os filhos requisitassem 
sigilo. 
Independentemente da situação, o 
ginecologista deve ter empatia para perceber 
como a adolescente está se sentindo 
naquele momento e tentar vencer a 
resistência da paciente que insiste em ficar 
em silêncio apontando para a mãe sempre 
que fazemos alguma pergunta como sinal de 
protesto. 
O maior medo das adolescentes é com 
relação ao exame ginecológico, assim, é 
muito importante assegurar que nada será 
feito sem a sua permissão. Essas atitudes 
tranquilizam a paciente no primeiro contato. 
A anamnese ginecológica da adolescente 
não difere da de uma adulta, entretanto 
alguns aspectos não podem ser esquecidos, 
como a situação vacinal da paciente (resgate 
de vacinas desatualizadas), alergias 
medicamentosas (anti-inflamatórios como 
primeira opção no tratamento de 
dismenorreias), uso de anticonvulsivantes 
(interferências com contraceptivos orais), 
tabaco, drogas e álcool (presença de 
comportamentos de risco), porém esses 
últimos tópicos podem ser deixados para 
quando a paciente estiver sozinha. 
A história menstrual deve ser detalhada, e 
para tal as adolescentes devem ser 
orientadas a marcarem seus períodos 
menstruais, podendo ser oferecido um 
calendário menstrual ou podem ser 
sugeridos aplicativos de controle do ciclo, 
disponíveis para smartphones. Muitas 
dúvidas surgem com relação aos ciclos 
irregulares no período da pós-menarca, e a 
orientação sobre imaturidade do eixo, 
comum nesta fase, tranquiliza a paciente e a 
sua mãe, muitas vezes preocupadas com o 
futuro reprodutivo. 
Uma das maiores dificuldades na anamnese 
é abordar assuntos ligados à sexualidade, 
uma vez que estamos frente a pacientes 
menores de idade, o que gera preocupação 
aos profissionais sobre aspectos ligados ao 
sigilo e privacidade. Perguntas sobre vida 
sexual na presença da mãe são 
consideradas não apropriadas, mesmo que 
seu relacionamento seja aparentemente 
positivo. Essa abordagem só é recomendada 
se a adolescente diga espontaneamente que 
deseja falar sobre contracepção pois possui 
ou quer iniciar sua vida sexual, evitando 
assim promover situações de conflito entre 
mãe e filha. 
Pedir à adolescente acompanhada para que 
ela fique sozinha pode ser um momento de 
tensão, porém indaga-la com “Você faz 
questão da presença de sua mãe no 
momento do exame?” pode dar a chance à 
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jovem para que ela se sinta segura em 
continuar o atendimento por conta própria, 
dispensando o apoio de forma harmoniosa. 
Uma vez a sós com a adolescente, os 
aspectos de sigilo devem ser abordados, 
garantindo a confidencialidade. Essa 
informação é muito importante, já que as 
adolescentes se sentem inseguras, 
principalmente quando o ginecologista foi 
escolhido pela sua mãe. Ao ser tranquilizada 
que o sigilo será preservado, será possível 
orientar a respeito de contracepção e 
cuidados para se prevenir de infecções 
sexualmente transmitidas, além de evitar o 
uso indiscriminado da contracepção de 
emergência. 
A confidencialidade, a privacidade e a 
autonomia são direitos da adolescente que 
recebe atendimento médico. O sigilo será 
mantido desde que ela tenha capacidade de 
avaliar seu problema, de conduzir-se por 
seus próprios meios para solucioná-lo e 
quando a não revelação não ocasione danos 
a ela ou a terceiros. 
O exame físico da adolescente deve contar 
com a anotação de todos os dados 
biométricos, dada a continuidade do 
desenvolvimento físico. O exame 
ginecológico na adolescente que já menstrua 
e não apresenta nenhuma queixa no dia da 
consulta pode ser adiado para uma segunda 
visita, caso ela se mostre relutante em ser 
examinada na primeira consulta, mostrando 
para a adolescente o respeito à sua 
autonomia. 
Nas pacientes sexualmente ativas, o exame 
ginecológico não difere do da paciente 
adulta, e a importância da sua realização 
deve ser enfatizada para a adolescente, para 
pesquisa de infecções de transmissão 
sexual. Naquela adolescente que mantém 
sua vida sexual em sigilo, poderá ocorrer 
dificuldade com relação aos exames 
complementares, seja por impossibilidade de 
arcar com o custo, seja por questões de 
convênios médicos, por ela ser dependente 
dospais. É importante discutir previamente 
com a adolescente sobre quem vai levar o 
material ao laboratório, se a adolescente vai 
acompanhada ou não para a coleta de 
material ou mesmo para os exames de 
imagem, quem vai buscar os resultados 
previamente, evitando deste modo quebra 
inadvertida de sigilo. 
Todos os dados coletados na anamnese e 
exame físico devem ser cuidadosamente 
registrados, inclusive o dado se a vida sexual 
é mantida em segredo para evitar quebra 
inadvertida de sigilo numa conversa com a 
mãe. Nas consultas subsequentes, nas 
adolescentes que eram virgens na primeira 
consulta, é importante sempre perguntar se 
ela já iniciou atividade sexual, e, para 
aquelas que já eram sexualmente ativas, se 
ainda mantém sua vida sexual em segredo. 
PROBLEMA 2 - ABERTURA: 
ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS E A CONFIRMAÇÃO DA 
GRAVIDEZ: 
As alterações fisiológicas evidentes na 
gestação são causadas, principalmente por 
fatores hormonais e mecânicos, culminando 
em ajustes no corpo da gestante que devem 
ser considerados normais, mesmo que 
impliquem em alguns sintomas que podem 
afetar o quadro de saúde do indivíduo. 
MUDANÇAS SISTÊMICAS: 
ALTERAÇÕES POSTURAIS E DEAMBULAÇÃO: 
É possível verificar mudanças na postura da 
gestante antes mesmo do aumento de seu 
volume uterino. Quando a matriz da pelve se 
apoia à parede abdominal, e as mamas, 
engrandecidas, pesam no tórax, o centro de 
gravidade desvia-se para frente, e todo o 
corpo, em compensação, projeta-se para 
trás. A atitude adotada de forma involuntária 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
é a mesma aplicada ao carregar objetos 
pesados à frente do abdome. 
Essas alterações são mais visíveis quando a 
gestante se coloca em pé, pois para 
conservar o equilíbrio acaba empinando o 
ventre, resultando em lordose da coluna 
lombar, além de afastar os pés e projetar as 
escápulas para trás. 
Grupos de músculos até então sem função 
ou pouco utilizados passam a atuar, e sua 
fadiga causa as dores cervicais e lombares, 
comumente referidas pelas gestantes. 
 
Ao andar, a gestante apresenta passos mais 
curtos e oscilantes, que lembram a 
deambulação de um ganso (marcha 
anserina). A base de sustentação ampliada e 
os ângulos aumentados entre os pés e a 
linha mediana, principalmente do lado direito, 
por conta do dextrodesvio uterino, conferem 
peculiaridades à sua movimentação. 
As articulações apresentam maior 
mobilidade durante a gestação, 
notadamente as sacroilíacas e a sínfise 
pubiana. Atribui-se à relaxina, secretada pela 
placenta, a frouxidão dos ligamentos, 
especialmente da sínfise púbica, que pode 
alargar cerca de 4 mm nas primíparas e 4,5 
mm nas multíparas. O principal resultado 
dessas modificações é o aumento da 
capacidade pélvica, favorecendo a disjunção 
sinfisária e os movimentos de nutação do 
sacro. 
METABOLISMO: 
As alterações metabólicas no organismo 
materno são necessárias de modo a suprir 
as exigências criadas pelo crescimento 
acelerado do concepto, ocorrendo grandes 
mudanças no metabolismo de energia e 
acúmulo de gordura. 
 Metabolismo glicídico: 
Durante a gestação, a mãe se submete a 
uma demanda permanente de glicose devido 
ao consumo do concepto, constante tanto 
em períodos de jejum quanto ao se alimentar 
(relação de parasitismo verdadeiro). 
De forma a prover o suprimento ininterrupto 
de glicose e de aminoácidos para o feto, a 
gestante faz ajustes importantes, não 
consumindo mais indiscriminadamente a 
glicose diminuindo seu uso periférico ao 
longo da gravidez graças aos hormônios 
contrainsulares pela placenta. Essas 
substâncias são transferidas via difusão 
facilitada para o feto, ainda que seu 
gradiente de concentração seja pequeno 
(20mg/dL, menor que o da mãe). 
Esses fatores afetam profundamente o 
metabolismo dos carboidratos na gestante, 
que apresenta, após uma noite de jejum, 
níveis de glicose cerca de 15 a 20mg/dL 
menores que os observados fora da 
gravidez. 
No final do 2º trimestre é registrado amento 
na resistência à insulina, podendo chegar a 
80% no termo da gestação. Níveis elevados 
de hormônio lactogênio placentário humano 
(hPL), hormônio do crescimento placentário 
humano (hPGH) e adipocinas (leptina, 
adiponectina, TNF-α, IL-6) estão envolvidos 
nesse processo. Os níveis de hPL elevam-se 
rapidamente no 1º e 2º trimestres e alcançam 
o seu máximo nas últimas 4 semanas da 
gravidez. O efeito diabetogênico do hPL 
resulta na mobilização de lipídios na forma 
de ácidos graxos livres (AGL), que serviriam 
como fonte de energia, poupando glicose e 
aminoácidos, que estarão disponíveis para o 
feto. 
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No 3º trimestre, após a administração de 
glicose, observa-se hiperinsulinismo pós-
prandial, evidenciando a redução do efeito 
inibitório desse hormônio sobre a lipólise. 
 Metabolismo lipídico: 
Ainda que a maior demanda nutricional pelo 
feto se baseie em glicose e aminoácidos, 
lipídios também são empregados no seu 
processo de desenvolvimento, capazes de 
permear a placenta somente sob a forma de 
AGL ou corpos cetônicos. Essa 
particularidade faz com que o organismo da 
gestante tenha de alterar suas relações 
metabólicas de modo a permitir o 
crescimento do concepto, evidenciadas sob 
a forma de acúmulo de lipídios nos tecidos e 
hiperlipidemia gestacional. 
o Metabolismo do tecido adiposo 
materno: 
O aumento de peso materno durante a 
gestação corresponde ao crescimento do 
conjunto fetoplacentário e ao aumento de 
seus próprios tecidos, especialmente os 
relacionados à elevação de lipídios nos 
depósitos de gordura. 
Esse fenômeno ocorre nos primeiros 2/3 da 
gravidez, representando o principal motivo 
pelo ganho de peso além dos fatores 
relacionados ao concepto, tendo ligações 
com a hiperfagia, uma vez que desaparece 
em mulheres após restrição alimentar. 
Esse aumento nos depósitos de gordura 
maternos é decorrente da lipogênese 
aumentada, correspondendo à elevação na 
síntese de ácidos graxos e do glicerídio 
glicerol, indicando que a formação dos 
triglicerídeos está exaltada. 
Essa tendência ao acúmulo de gordura 
cessa no final da gestação devido ao estado 
catabólico do metabolismo lipídico, motivado 
pela desaceleração da atividade lipogênica e 
ação lipolítica do hPL, análoga àquela 
desempenhada pelo hormônio do 
crescimento. 
O aumento da atividade lipolítica do tecido 
adiposo eleva a liberação de AGL e de 
glicerol na circulação materna, na qual 
alcançam grandes concentrações no 
plasma. A transferência placentária desses 
dois produtos lipolíticos é baixa, e o fígado 
materno é o principal receptor. 
Ao fim da gestação, a transferência 
aumentada de AGL e de glicerol ao fígado 
em decorrência da lipólise nos tecidos 
adiposos justifica a exaltada esterificação e a 
subsequente liberação hepática na forma de 
triglicerídios da lipoproteína de muito baixa 
densidade (VLDL). A síntese de corpos 
cetônicos torna-se altamente incrementada 
durante o final da gestação sob condições de 
jejum, e o uso desses produtos pelos tecidos 
maternos reduz o consumo de glicose, que 
fica disponível de ser transferida para o feto. 
Ao fim da gravidez, a gliconeogênese a partir 
do glicerol está aumentada, poupando 
aquela proveniente dos aminoácidos que são 
transportados para o feto. 
O concepto se beneficia dos produtos finais 
do metabolismo lipídico (corpos cetônicos e 
glicose), uma vez que esses corpos 
cetônicos podem passar livremente pela 
placenta, utilizados tanto como combustível 
fetal quanto para síntese lipídica no cérebro. 
A atividade lipolítica intensa do tecido 
adiposo durante o final da gestação também 
favorece os tecidos maternos, pois nesse 
estágio o uso periférico de glicose é bastante 
diminuído pela resistência à insulina, e os 
produtos lipolíticos, especialmenteAGL e 
corpos cetônicos, podem ser empregados 
como combustíveis alternativos, poupando a 
glicose. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 
o Hiperlipidemia materna: 
Durante a gravidez normal há aumento 
constante nos triglicerídeos plasmáticos e 
pequeno acréscimo no colesterol. Essa 
hiperlipidemia corresponde ao 
enriquecimento proporcional de triglicerídeos 
nas frações lipoproteícas, mesmo naquelas 
que os transportam em baixas 
concentrações, tais como a lipoproteína de 
baixa densidade (LDL) e a lipoproteína de 
alta densidade (HDL). O maior acúmulo 
absoluto nos triglicerídeos no plasma 
corresponde ao VLDL. 
Essas lipoproteínas atuam no fígado, e os 
triglicerídeos que elas carregam são 
derivados do AGL e do glicerol, que também 
são sintetizados no próprio órgão ou o 
alcançam pela circulação, na qual são 
liberados pela lipólise do tecido adiposo. 
A produção acentuada do VLDL e sua 
remoção diminuída da circulação em 
decorrência da menor atividade da 
lipoproteína lipase (LPL) no tecido adiposo 
são os principais responsáveis pelo aumento 
dessas frações lipoproteicas durante a 
gestação. 
Esse aumento de VLDL plasmático causa 
acúmulo de triglicerídeos em outras 
lipoproteínas, influenciado pela atividade da 
proteína de transferência do éster de 
colesterol (CETP), que transfere os 
triglicerídeos para locais faltosos (HDL e 
LDL). Outro contribuinte é a diminuição da 
atividade da lipase hepática (HL) que 
controla a conversão do HDL ao fim da 
gestação. 
Mesmo que os triglicérides não cruzem 
efetivamente a barreira placentária, o 
concepto se beneficia dessa 
hipertrigliceridemia por meio da obtenção de 
corpos cetônicos decorrentes de seu 
metabolismo ou da permeabilidade dos AGL, 
que são logo reconvertidos ao alcançar o 
feto. 
A indução da LPL nas mamas por volta do 
parto dirige triglicerídeos circulantes para 
essa glândula, visando à produção de leite. 
Por esse mecanismo, ácidos graxos 
essenciais da dieta materna que circulam na 
forma de triglicerídeos podem se tornar 
disponíveis para o lactente. 
 Ácidos graxos essenciais: 
Os ácidos graxos essenciais (AGE) referem-
se a lipídios que não podem ser sintetizados 
pelo organismo e devem provir da 
alimentação. As duas famílias de ácidos 
graxos essenciais, ômega-3 (ácido 
linolênico) e ômega-6 (ácido linoleico), são 
requeridas para funções fisiológicas, 
incluindo transporte de oxigênio, 
armazenamento de energia, atuação na 
membrana celular e regulação da inflamação 
e da proliferação celular. 
Na gravidez, os AGE são necessários para o 
desenvolvimento da unidade fetoplacentária 
no início da gestação, e o ácido 
docosaexanoico (DHA), um tipo de ômega-3 
derivado de peixe marinho, é vital para a 
homeostase materna, assim como o 
desenvolvimento do cérebro e da retina fetal 
durante todo o 3º trimestre. 
Além dos benefícios à saúde materna 
(proteção cardiovascular e menor índice de 
câncer de colo do útero), o ômega-3 e 
ômega-6 são precursores dos ácidos graxos 
poli-insaturados de cadeia longa (AGPICL): 
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ácido araquidônico, da série ômega-6, ácido 
eicosapentanoico (EPA) e DHA, da série 
ômega-3. 
O feto não é capaz de sintetizar os AGPICL 
por meio dos seus precursores ômega-3 e 
ômega-6, sendo suas necessidades 
supridas pela placenta e pelas reservas 
tissulares da mãe, principalmente do tecido 
adiposo. 
As principais fontes de ômega-3 são peixes 
gordurosos de água fria (salmão, atum), 
truta, sardinha, ostra, mariscos, óleos de 
linhaça e de canola, nozes e rúcula. A dieta 
moderna proporciona sete a dez vezes mais 
ômega-6 do que ômega-3, quando o correto 
seria a proporção de 5 para 1. Os ácidos 
graxos trans (AGT) também são prejudiciais 
à saúde, pois inibem a formação dos 
AGPICL. 
 Metabolismo proteico: 
Graças ao consumo do concepto, a 
quantidade da maioria dos aminoácidos está 
reduzida na gravidez. As proteínas totais, 
embora aumentem em valores absolutos 
pela hemodiluição plasmática, têm 
concentração diminuída. As de albumina 
sofrem redução nítida, enquanto é menor a 
queda das gamaglobulinas e se registra 
ascensão dos teores de alfa- e 
betaglobulinas e de fibrinogênio. 
 Metabolismo hidroeletrolítico: 
Uma das alterações sistêmicas mais 
perceptíveis na gravidez é a retenção de 
líquido (8 a 10 L) intra e extracelular, 
especialmente responsável pelo aumento do 
volume plasmático. Essa alteração 
hidroeletrolítica é decisiva para que ocorram 
outras modificações importantes, como o 
aumento do débito cardíaco e o do fluxo 
plasmático renal. 
O provável mecanismo para essa adaptação 
é a retenção de sódio, determinada 
principalmente pela maior secreção de 
aldosterona pela suprarrenal, a despeito do 
efeito natriurético da progesterona. Para se 
conservar o sódio, quando a taxa de filtração 
glomerular aumenta em torno de 50%, 
durante a gravidez ativa-se o mecanismo 
compensatório representado pelo sistema 
renina-angiotensina, estimulando a 
reabsorção de sódio nos túbulos renais, 
retomando a homeostase materna. 
Admitindo-se um ganho de 11kg durante a 
gravidez, dos quais 70% são referentes à 
água, para se manter a isotonicidade, 
tornam-se necessários 25 g de sódio ou 60 g 
de cloreto de sódio, evidenciando a 
necessidade de conservação. A 
concentração plasmática desse mineral, no 
entanto, encontra-se levemente diminuída, o 
que é tolerado pela gestante, sem que se 
elevem os níveis de diurese. 
Por outro lado, o limiar de sede na gravidez 
está alterado de tal maneira que a gestante 
sente vontade de ingerir líquido com nível 
mais baixo de osmolaridade do que a não 
gestante. Do mesmo modo, há redução 
acentuada da pressão oncótica (pressão 
coloidosmótica), determinada principalmente 
pela queda de cerca de 20% na 
concentração de albumina plasmática. Essa 
alteração sugere que a pressão oncótica é o 
fator mais relevante para o equilíbrio do grau 
de passagem de líquido pelos capilares. 
Assim, a diminuição da pressão oncótica do 
plasma é responsável pelo aumento da taxa 
de filtração glomerular renal (TFG) 
observada na gravidez, além de contribuir 
para o desenvolvimento do edema periférico, 
comum na gravidez normal. 
 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 Metabolismo de cálcio: 
Na gravidez, uma grande quantidade de 
cálcio e fósforo é transferida contra o 
gradiente de concentração da mãe para o 
feto (transporte ativo), com acúmulo de 25 a 
30 g de cálcio no termo. Para tanto, a 
absorção de cálcio no intestino dobra na 
gravidez, consequência também do nível 
duplamente elevado de vitamina D3 (forma 
ativada desse composto) de origem 
placentária e materna renal. 
A vitamina D3 elevada abre os canais de 
cálcio voltagem-dependentes na membrana 
dos enterócitos e, dessa maneira, é 
responsável pela maior absorção do 
elemento. 
O paratormônio (PTH), que auxilia a 
regulação de cálcio no organismo, tem sua 
concentração plasmática reduzida na 
gestação, situação compensada pelo 
acréscimo do PTHrP, peptídeo de ação 
relacionada ao hormônio, produzido tanto 
pela placenta quanto pela paratireoide fetal, 
que auxilia a elevar as taxas de vitamina D3. 
Para evitar que o cálcio no plasma materno 
se eleve em demasia, a calcitonina, 
produzida pela tireoide, age como 
antagonista fisiológico do PTH. 
O transporte de cálcio pelo trofoblasto 
também depende do aumento da 
concentração da proteína de ligação ao 
cálcio, que atinge máxima concentração no 
3º trimestre, quando é marcante o 
crescimento fetal. 
Durante a lactação, a perda diária de cálcio 
pelo leite é de 220 a 340 mg. Os níveis de 
PTHrP de origem mamária estão 
significativamente elevados na lactante e são 
responsáveis pela desmineralização do seu 
esqueleto, por estímulo à reabsorção tubular 
renal decálcio e por supressão do PTH. 
 
SISTEMA CARDIOVASCULAR: 
As principais alterações hemodinâmicas 
registradas na gravidez incluem o aumento 
do débito cardíaco e do volume sanguíneo e 
a redução da resistência vascular periférica 
e da pressão sanguínea. Essas alterações 
são aparentes já no início da gravidez, mas 
alcançam o seu máximo no 3º trimestre (28 
a 32 semanas). Elas contribuem para o ótimo 
crescimento e desenvolvimento do feto e 
protegem a mãe das perdas fisiológicas de 
sangue no parto. 
O início da gravidez é caracterizado por 
vasodilatação periférica, resultante do 
aumento de óxido nítrico, fator vasoativo, 
relaxante, elaborado pelo endotélio vascular. 
O acréscimo significativo da frequência 
cardíaca pode ser observado a partir da 5ª 
semana, e isso contribui para a elevação do 
débito cardíaco. A elevação do volume 
sistólico, no entanto, é observada apenas 
várias semanas depois, possivelmente pela 
expansão do volume plasmático. 
A elevação progressiva da frequência 
cardíaca materna continua até 28-32 
semanas de gravidez, com aumento de 10 a 
20% (10 a 15bpm) se comparado aos valores 
existentes antes da gestação. 
Ocorre também aumento gradual no volume 
sistólico durante a primeira metade da 
gravidez devido ao maior volume plasmático. 
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Em consequência disso, o débito cardíaco 
atinge 7 L/min durante o período de 28 a 32 
semanas (inicialmente esse valor é de 5 
L/min), estabilizando-se até o parto. 
 
Após a 20ª semana de gestação, o útero 
impede o retorno venoso ao coração quando 
a gestante se coloca em decúbito dorsal 
devido à compressão da veia cava inferior, 
causando a síndrome da hipotensão supina 
(em alguns casos pode levar a perda de 
consciência). Essa condição é revertida de 
forma quase imediata ao se adotar o 
decúbito lateral esquerdo. 
 
Mesmo com o aumento do volume 
sanguíneo e do débito cardíaco, a pressão 
arterial sistólica e diastólica encontram-se 
diminuídas de 5 a 10 mmHg no segundo 
trimestre, com média de 105/60 mmHg, 
porém esses valores se elevam no último 
terço da gestação, mantendo-se normais até 
o parto. 
A pressão venosa nos membros inferiores de 
uma gestante aumenta em cerca de três 
vezes em virtude da compressão uterina 
sobre as veias pélvicas, evidenciada 
principalmente ao manter-se de pé e parada, 
momento no qual há maior retenção de 
sangue nas pernas e coxas. Nesse período 
há tendência à hipotensão, lipotimia 
ortostática, edema dos membros inferiores, 
varicosidade e hemorroidas. 
Alterações hemodinâmicas também ocorrem 
durante o parto, quando cada contração 
uterina leva à autotransfusão de 300 a 500 
mL de sangue de volta para o sistema 
circulatório. O débito cardíaco aumenta 
cerca de 35% durante as contrações e 10% 
nos intervalos. No período expulsivo, por 
ocasião dos “empurrões”, o débito cardíaco 
aumenta ainda mais, até cerca de 50%. A 
resposta simpática à dor e à ansiedade 
durante o parto causa maior elevação na 
frequência cardíaca e na pressão arterial. No 
pós-parto imediato, graças à contração do 
útero, mais uma vez ocorre uma 
autotransfusão de 300mL de volta ao 
sistema circulatório, aumentando o débito 
cardíaco em 60 a 80%, reestabelecendo os 
níveis não gravídicos entre 6 a 8 semanas 
após o nascimento. 
SISTEMA SANGUÍNEO: 
O aumento do volume plasmático durante a 
gravidez normal causa diluição da maioria 
dos fatores circulantes, havendo maior 
destaque para a hemodiluição das hemácias. 
Embora esteja elevada na gravidez, com 
pico de cerca de 15% em torno de 32 
semanas, a produção de hemácias é 
mascarada pela elevação de 40% do volume 
plasmático, resultando no decréscimo de 
índices hematológicos como contagem de 
hemácias, hematócrito e concentração de 
hemoglobina. 
A concentração de hemoglobina reduz de 13 
g/dL (valor médio antes da gravidez), para 11 
g/dL no 1º trimestre e 10,5 g/dL, no 2º e 3º 
trimestres da gravidez. É a clássica anemia 
fisiológica da gravidez, confundida 
frequentemente com o estado de anemia 
ferropriva. De modo a suprir suas 
necessidades e as do feto, a gestante deve 
ingerir maior quantidade de ferro pela 
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alimentação (1 a 1,3g durante toda a 
gravidez, visando evitar a anemia decorrente 
do parto e garantir a eritropoese materna e 
fetal), cuja absorção intestinal é aumentada. 
A demanda por ácido fólico na gravidez 
também aumenta (de 50 para 400mg 
diários), sendo comprovado que a 
suplementação de 0,4mg/dia dessa 
substância 1 mês antes do início da gestação 
e em seu primeiro terço reduz 
expressivamente más-formações do tubo 
neural e previne a anemia megaloblástica. 
Diferentemente das hemácias, os leucócitos 
encontram-se em maiores concentrações na 
gestação, podendo atingir até 20 mil/mm3 no 
termo. A concentração de plaquetas exibe, 
por outro lado, pequeno decréscimo (250 
para 210 mil/mm3). Observa-se, inclusive, 
quadro de trombocitopenia gestacional, no 3º 
trimestre, com níveis de 80 a 150 mil/mm3. 
Alterações no processo de coagulação 
sanguínea também são identificadas, 
manifestando-se como um estado de 
hipercoagulabilidade (explica o maior risco 
de trombose). Diversos fatores de 
coagulação se elevam no plasma, 
principalmente o fibrinogênio (atinge 400 a 
600mg/dl no 3º trimestre), além de ocorrer 
redução da atividade fibrinolítica. Todas 
essas mudanças são responsáveis pela 
hemostasia fisiológica no momento da 
separação da placenta (ainda que a 
contração do miométrio atue como primeira 
linha de defesa, o depósito de fibrina na 
ferida se dá quase que imediatamente). 
SISTEMA URINÁRIO: 
O sistema urinário sofre tanto com alterações 
anatômicas quanto fisiológicas, a saber: 
 Mudanças anatômicas: 
Os rins se deslocam para cima pelo aumento 
do volume uterino e aumentam de tamanho 
cerca de 1cm devido ao maior volume 
vascular renal e do espaço intersticial. 
Uma das mudanças mais significativas 
observadas nesse sistema durante a 
gravidez é a dilatação de sua porção superior 
(hidronefrose), ocorrendo a partir da 7ª 
semana e persistindo até 6 semanas pós-
parto. Esse fenômeno é causado tanto por 
fatores mecânicos quanto hormonais, uma 
vez que a expansão uterina comprime os 
ureteres e a progesterona inibe sua 
musculatura lisa (ureteroectasia). 
Essa dilatação é mais evidente do lado 
direito devido à dextrorrotação do útero, 
sendo o ureter esquerdo protegido pelo 
sigmoide. Toda essa modificação estrutural 
do sistema urinário superior torna a gestante 
mais propensa ao desenvolvimento de 
infecções urinárias e pielonefrite, uma vez 
que a estase urinária é aumentada. 
No sistema urinário inferior, a bexiga é 
distorcida pela compressão direta do útero, 
sendo o primeiro órgão deslocado 
anteriormente, com expansão lateral. Além 
disso, os níveis elevados de estrogênios 
causam hiperemia e congestão da mucosa 
uretral e vesical. Também há redução da 
resposta contrátil do colo vesical a estímulos 
alfa-adrenérgicos e diminuição do suporte 
pélvico da parede vaginal anterior e da 
uretra, alterações que podem contribuir para 
a incidência elevada de incontinência 
urinária na gravidez. 
 Mudanças fisiológicas: 
Com o aumento do débito cardíaco e a 
diminuição da resistência vascular sistêmica 
observados na gestação, há concomitante 
aumento do fluxo plasmático renal e da TFG, 
que podem estar aumentados, 
respectivamente, de 50 a 85% e 40 a 65%, 
quando comparados a valores fora da 
gravidez. 
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A elevação da taxa de filtração glomerular 
resulta na diminuição da creatinina 
plasmática, situação que apresenta 
implicações importantes sobre a excreção 
renal de medicamentos e sobre a redução 
dos valores plasmáticos que determinam 
insuficiência renal (parâmetrosmais baixos). 
A concentração de ácido úrico, de 4 mg/dL 
em período não gravídico, cai para ≤ 3 mg/dL 
no 1º trimestre da gravidez, devido à ação 
uricosúrica dos estrogênios e do aumento da 
TFG, elevando-se depois, a partir do 3º 
trimestre, até atingir 4 a 5 mg/dL no termo da 
gestação. 
A hipercalciúria também é comum na 
gravidez pelo aumento da absorção do cálcio 
intestinal. Todavia, a taxa de formação de 
cálculos renais permanece inalterada, à 
medida que fatores inibidores na sua 
produção, tais como citrato, magnésio e 
glicoproteínas, também estão aumentados. 
A glicosúria é fisiológica na gravidez e se 
deve ao aumento da TFG, que excede o 
limite da reabsorção tubular da glicose. 
Desse modo, não é indicativa de diabetes na 
gestação, assim como não serve para o seu 
rastreamento. Igualmente, a proteinúria 
(microalbuminúria) é fisiológica na gravidez, 
sendo normais valores de proteína na urina 
de até 300 mg/dia. 
A despeito do enorme trabalho urinário na 
gravidez, o volume urinário não está maior. 
Até 80% da urina filtrada é absorvida nos 
túbulos proximais. A frequência urinária 
decorre da compressão do útero gravídico na 
bexiga. 
SISTEMA RESPIRATÓRIO: 
A expansão do volume sanguíneo e a 
vasodilatação da gravidez resultam em 
hiperemia e edema da mucosa do sistema 
respiratório superior. Essas alterações 
predispõem a gestante a congestão nasal, 
epistaxe e até mesmo alterações da voz. 
Também são marcantes na gestação as 
alterações na caixa torácica e no diafragma. 
Com o relaxamento dos ligamentos das 
costelas, o ângulo subcostal aumenta de 68 
para 103º. Os diâmetros anteroposterior e 
transverso do tórax aumentam 2 cm cada 
um, resultando na expansão da 
circunferência torácica de 5 a 7 cm. Embora 
o diafragma eleve-se aproximadamente 4 cm 
pelo aumento do útero gravídico, sua função 
não se mostra comprometida, na verdade, 
sua excursão está incrementada de 1 a 2 cm. 
A complacência da parede torácica, todavia, 
diminui com o evoluir da gestação, 
aumentando o trabalho da respiração. Nota-
se que essas alterações se iniciam antes da 
ocorrência de pressão mecânica pelo útero 
em crescimento. 
 
O volume-minuto (produto do volume 
corrente pela frequência respiratória) se 
eleva já no 1º trimestre, evidenciando o 
aumento do volume-corrente desencadeado 
pela maior expansão torácica e aumento do 
estímulo respiratório induzido pela 
progesterona. Pela elevação da cúpula do 
diafragma estão diminuídos o volume de 
reserva expiratório e o volume residual, em 
cerca de 20%, o que se reflete na 
capacidade residual funcional, também 
reduzida na mesma porcentagem. 
 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
A hiperventilação da gravidez facilita as 
trocas gasosas nos pulmões. A PO2 eleva-se 
tanto no ar alveolar quanto no sangue 
arterial. O consumo de oxigênio aumenta de 
15 a 20% para fazer frente à massa materno-
fetal adicional e ao trabalho 
cardiorrespiratório da gestação. Esse 
fenômeno ocasiona alcalose respiratória, 
com queda da PCO2 para menos de 
30mmHg, embora a PO2 manifeste certo 
aumento (101 a 104mmHg). A redução da 
quantidade de gás carbônico é compensada 
pelo aumento da excreção de bicarbonato na 
urina, o que promove a manutenção do pH 
plasmático (pH= 7,4). 
A dispneia, relatada por 60-70% das 
gestantes, começa nos primeiros trimestres, 
estabilizando-se no final da gestação, 
provando a ausência de vínculos com o 
desenvolvimento do útero gravídico. A causa 
mais provável para esse sintoma é a 
percepção da hiperventilação pela gestante. 
O exercício acarreta aumento compensatório 
na frequência respiratória, no volume-
corrente e consumo de oxigênio. Essa 
resposta adaptativa ao aumento do trabalho 
respiratório está amortecida na gestante em 
comparação a controles não gravídicos. Por 
isso, recomenda-se reduzir a intensidade do 
exercício aeróbio na gravidez. Durante o 
parto, as contrações uterinas dolorosas são 
acompanhadas por resposta similar, que 
pode ser atenuada pela administração de 
analgésicos. 
Em decorrência do aumento do consumo de 
oxigênio materno e da diminuição da 
capacidade residual funcional, gestantes 
com asma, pneumonia ou outras doenças 
respiratórias estão mais suscetíveis à 
descompensação rápida. A solução das 
alterações induzidas pela gravidez sobre o 
sistema respiratório começa 24 a 48h após o 
parto e se completa com 7 semanas desse 
marco. 
SISTEMA DIGESTÓRIO: 
No primeiro trimestre da gestação, 50 a 90% 
das mulheres relatam a ocorrência de 
náuseas e vômitos, levando em geral, à 
anorexia, embora uma quantidade 
semelhante de indivíduos observem melhora 
no apetite e uma parcela considerável admita 
desejos por alguns alimentos. A base 
fisiológica das náuseas, que tendem a 
ocorrer pela manhã, é desconhecida, 
embora possa estar relacionada com níveis 
crescentes de gonadotrofina coriônica 
humana (hCG) e de estrogênios. 
As gengivas de mulheres grávidas estão 
frequentemente edemaciadas, hiperêmicas 
e vulneráveis à sangramentos. Gengivites, 
causadas pelo acúmulo de placa bacteriana, 
podem deflagrar partos prematuros se muito 
intensas. 
Mesmo com a hiperêmese gravídica e 
consequente queda do pH bucal não há 
maior tendência para o aparecimento de 
cáries durante a gestação. 
Durante os dois primeiros trimestres há 
redução na secreção gástrica de ácidos, 
explicando a incidência reduzida de úlcera 
péptica e a remissão das preexistentes. 
O sistema gastrintestinal encontra-se atônico 
durante toda a gestação, com os fatores 
determinantes sendo de origem hormonal, os 
mesmos que relaxam a musculatura de 
artérias, veias e ureteres. Uma consequência 
imediata é a maior incidência de pirose, 
combinação do relaxamento do esfíncter 
gastresofágico com o aumento de pressão 
intra-abdominal, condicionada pelo útero 
gravídico. A atonia do cólon explica a grande 
frequência da constipação intestinal. A 
vesícula fica hipotônica, distendida, com bile 
viscosa e com grande tendência de formar 
cálculos. 
SISTEMA ENDÓCRINO: 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Dentre todas as glândulas, é a tireoide que 
sofre as modificações mais relevantes. 
O volume da tireoide materna chega a 
aumentar 30% no 3º trimestre, em 
decorrência da hiperplasia e da maior 
vascularidade, fenômeno fisiológico durante 
a gravidez. 
Os níveis da tireoxina total (T4T) aumentam 
1,5 vez em relação aos valores não 
gravídicos, até as 16 semanas da gravidez, 
momento em que se estabilizam devido à 
elevação da globulina de ligação da tireoxina 
(TBG) estimulada pelos estrogênios. 
 
A tireotrofina, ou hormônio tireoestimulante 
(TSH), que desempenha papel central no 
rastreamento para o diagnóstico de muitos 
distúrbios da tireoide, apresenta níveis 
diminuídos nas primeiras 12 semanas da 
gravidez em virtude da menor estimulação 
dos receptores de TSH causada pela 
substancial quantidade de hCG (estimula a 
produção de tireoxina livre [T4L], que reduz 
a quantidade de TSH secretada). Após o 1º 
trimestre, os níveis de TSH retornam aos 
seus valores basais. 
O metabolismo periférico de hormônios 
tireoidianos também sofre modificações, 
evidentes principalmente na segunda 
metade da gestação, influenciando a ação 
das deiodinases (chamadas de tipo I, II e II). 
As enzimas tipo I não se modificam 
significativamente. As tipo II, expressas na 
placenta, convertem T4 em tri-iodotironina 
(T3). As últimas, também abundantes na 
placenta, catalisam T4 em T3 reversa (T3r). 
 
A presença do T4 livre materno é 
fundamental para o desenvolvimento normal 
do cérebro fetal, sendo transferido para o 
concepto durante toda a gravidez. Sua 
relevância é ainda maior antes do início do 
aporte de iodo e da síntese hormonal pela 
tireoide fetal, o que ocorre na 12ª semana de 
gravidez. 
PELE E FÂNEROS: 
A presençade estrias gravídicas no abdome 
e nos seios durante o último trimestre de 
gestação é relatada por 50% das gestantes. 
Inicialmente vermelhas, mais tarde 
assumem coloração branca ou nacarada, 
não desaparecendo facilmente. Ocorre 
também aumento da pigmentação da linha 
nigra, no abdome inferior, da vulva, das 
aréolas mamárias e da face (cloasma), além 
de elangiectasisas (vasos finos e 
avermelhados na superfície da pele). É 
provável que o hormônio melanotrófico da 
hipófise atue também sobre os 
melanoblastos epidérmicos, acentuando a 
pigmentação, e o sistema nervoso autônomo 
influencie a formação do pigmento nas 
gestantes. 
A hipertricose é um aparecimento fisiológico 
durante a gravidez, com presença de pelos 
na face e em outras regiões, crescimento 
mais acentuado dos cabelos, unhas muito 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
quebradiças e surgimento de eritema palmar 
e hipertrofia das glândulas sudoríparas e 
sebáceas. 
MUDANÇAS NOS ÓRGÃOS GENITAIS: 
VULVA E VAGINA: 
Os estrogênios estimulam a vascularização 
e o espessamento do epitélio vaginal durante 
a gravidez, o que, somado ao aumento de 
sua descamação, culminam em maior 
secreção vaginal. Esse corrimento tem pH 
mais ácido (3,8 – 4,0) do que o de mulheres 
não grávidas, com o objetivo de proteger a 
região contra infecções ascendentes. 
A vulva e a vagina sofrem intumescimento, 
amolecimento e têm sua cor alterada. A 
vulva torna-se mais pigmentada e a região 
limítrofe com a vagina perde seu tom rosado 
característico, tornando-se vermelho-vinho 
com os grandes lábios entreabertos. 
ÚTERO: 
Logo após a nidação, processam-se 
inúmeras modificações na consistência, na 
forma, no volume, na capacidade, na 
posição, no peso e na espessura do útero, 
acompanhadas de alterações microscópicas 
e funcionais. 
Ocorre um amolecimento imediato no local 
de implantação, que progride por todo o 
órgão e outras estruturas pélvicas, sendo 
essa redução do tônus notada 
principalmente no istmo uterino (sinal de 
Hegar). 
Concomitantemente a esse fenômeno, o 
órgão aumenta de tamanho inicialmente de 
modo desigual, sendo mais acentuada a 
expansão na zona de implantação, o que lhe 
impõe forma assimétrica. A matriz, 
inicialmente piriforme, passa a globosa, e o 
toque dos fundos de saco laterais revela 
essa morfologia, enquanto o pulso da artéria 
uterina pode ser percebido. O corpo do útero 
mantém a configuração esférica até o 4º ou 
5º mês, quando o alongamento predomina 
sobre os diâmetros transversos, conferindo à 
víscera forma cilíndrica. A expansão do istmo 
nos últimos meses, incorporando sua 
cavidade ao corpo uterino acentua a 
cilindrificação da matriz. 
Durante os dois primeiros meses o útero é 
exclusivamente pélvico, podendo ser 
percebido durante a palpação abdominal 
com 12 semanas, dependendo da 
musculatura da parede do abdome e do 
panículo adiposo da região. O crescimento 
subsequente pode ser acompanhado 
mensalmente ao delimitar o fundo uterino e 
medir sua altura em relação à sínfise púbica. 
 
A. Feto a termo: o colo é maior do que o corpo. B. Recém-
nascido e infância; carente de estímulos hormonais, o 
útero regride, de modo mais acentuado no corpo. C. 
Puberdade: a atividade ovariana provoca o 
desenvolvimento do órgão. D. Menacma: útero não 
gravídico de nuligesta. E. Menacma: útero não gravídico, 
de multigesta. F. Senilidade: há involução de todo o órgão, 
especialmente do corpo. G. Na gestante. 
O útero tem aumento drástico em seu peso 
(passa de 4-70g na não gestante para 1100-
1200g a termo) e volume (10mL para 5L). No 
início da gestação ocorre expansão do 
número de células miometriais, que se 
estabiliza posteriormente. 
O crescimento miometrial na segunda 
metade da gestação resulta primariamente 
da hipertrofia celular que ocorre sob a 
influência dos hormônios esteroides, 
(estrogênios). Ainda na segunda metade da 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
gestação, a distensão que a matriz sofre pelo 
aumento do seu conteúdo determina 
afinamento gradual da parede uterina, 
especialmente no istmo, que não sofre 
hipertrofia, constituindo o segmento inferior 
do útero. 
O aumento do tamanho do útero é 
acompanhado por elevação de 10 vezes no 
fluxo sanguíneo e redistribuição deste dentro 
do útero, antes igualmente repartido para o 
miométrio e o endométrio, e com 80 a 90% 
dirigidos para a placenta durante a gravidez. 
Esse aumento marcante do fluxo 
uteroplacentário é consequência da 
diminuição da resistência vascular 
placentária, ou seja, da remodelação das 
artérias espiraladas. 
A espessura do miométrio, de 7 a 12 mm 
antes da gravidez, alcança 25 mm nos 
primeiros meses e assim se mantém até o 4º 
ou 5º mês. A subsequente ampliação da 
cavidade uterina se dá por crescimento de 
todo o órgão e afinamento do miométrio, que 
no corpo e a termo tem somente 4 a 10 mm. 
Em relação ao colo uterino, seu 
posicionamento é alterado ao longo da 
gravidez, recentralizando-se no eixo vaginal 
no momento do parto. O orifício externo 
obstétrico torna-se permeável ao dedo ou à 
polpa digital até na nulíparas, com multíparas 
podendo comportar um a dois dedos, 
mostrando-se por vezes entreaberto. 
O canal cervical é obliterado por secreção 
mucosa espessada, chamada tampão 
mucoso, responsável por proteger o 
concepto. A eliminação desse tampão, nas 
proximidades do parto, à medida que o colo 
se encurta, constitui importante sinal clínico. 
O encurtamento do colo também é prenúncio 
do parto, acentuando-se até o completo 
apagamento, mas se trata de um fenômeno 
observado apenas em primíparas, porque os 
ligamentos uterossacros que fixam o útero à 
pelve estão firmes e tensos na primeira 
gravidez, ao passo que nas gestações 
seguintes ocorre um afrouxamento dessas 
estruturas, com quebra e rearranjo do 
colágeno pelas metaloproteinases da matriz, 
reação inflamatória mediada por citocinas e 
prostaglandinas e contrações típicas do final 
da gravidez. 
 
MÉTODOS DIAGNÓSTICOS DA GRAVIDEZ: 
O diagnóstico da gravidez deve ser realizado 
de forma precoce pelo médico na prática 
cotidiana, sendo possível adotar métodos 
clínicos, hormonais ou ultrassônicos. 
 
DIAGNÓSTICO CLÍNICO: 
Os sinais clínicos da gravidez podem dividir-
se em de presunção, de probabilidade e de 
certeza. 
SINAIS DE PRESUNÇÃO: 
Esses sinais iniciam suas manifestações por 
volta da 4ª semana de gravidez, com a 
amenorreia, condição que pressupõe 
gestação em mulheres com ciclos 
menstruais regulares e vida sexual ativa. 
No marco de cinco semanas, a presença de 
congestão mamária (evolui na 8ª semana 
para maior pigmentação da aréola, na 16ª 
para produção de colostro e na 20ª para o 
surgimento da aréola secundária) ou de 
náuseas (geralmente no período da manhã, 
culminando em vômitos e anorexia) também 
podem sugerir gravidez. Nota-se que 
algumas mulheres podem apresentar maior 
apetite, não sendo raro o desenvolvimento 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
de pica/malácia (perversão alimentar que 
consiste no desejo de ingerir substâncias 
normalmente não consideradas como 
alimento). 
No segundo e no terceiro mês de gestação 
(por volta da 6ª semana), o útero, com maior 
volume e em anteflexão acentuada, 
comprime a bexiga, levando à micção 
frequente, com emissão de quantidade 
reduzida de urina. No segundo trimestre, tal 
sintomatologia cessa, retornando nas duas 
últimas semanas, ao insinuar a apresentação 
fetal. 
SINAIS DE PROBABILIDADE: 
Na sexta semana, a presença de amenorreia 
e o aumento do volume uterino, comprovado 
pelo toque combinado, permitem inferir se há 
ou não gestação (com seis semanas, o útero 
tem volume semelhante ao de uma 
tangerina, com 10, ao de uma laranja, e com 
12, o tamanho da cabeça fetal a termo, 
podendo ser apalpado logo acima da sínfise 
púbica).Com oito semanas de gestação, os sinais 
prováveis no exame clínico são a alteração 
da consistência uterina (sinal de Hegar, com 
textura elástico pastosa que faz parecer que 
houve separação entre corpo e colo), e a 
alteração do formato do útero (maior 
desenvolvimento na zona de implantação, 
com presença de um sulco delimitando essa 
região [sinal de Piskacek] e, quando o órgão 
se torna globoso, é possível sentir essa 
alteração durante a palpação [sinal de 
Nobile-Budin]). 
 Ao 
entreabrir a vulva durante o exame 
especular, destaca-se a coloração violácea 
da sua mucosa), denominada sinal de 
Jacquemier ou de Chadwick. A mesma 
tonalidade da mucosa vaginal constitui o 
sinal de Kluge. 
Se o exame ocorrer na 16ª semana, pode ser 
observado aumento do volume abdominal 
devido à expansão uterina. 
SINAIS DE CERTEZA: 
Esse grupo de sinais é descrito por meio da 
existência do concepto, provada tanto pelos 
batimentos cardiofetais quanto por sua 
movimentação ativa, sendo possível rastreá-
lo por meio da ultrassonografia com 7 a 8 
semanas. 
Com catorze semanas é possível observar o 
sinal de Puzos, ou rechaço fetal intrauterino, 
obtido ao impulsionar o feto com os dedos no 
fundo de saco anterior, havendo uma 
movimentação com o afastamento e 
aproximação do concepto. 
 
Na 18ª semana surgem de forma discreta a 
percepção e palpação de movimentos pelo 
feto, que se intensificam ao longo de seu 
desenvolvimento, e de sua cabeça e 
membros. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Com vinte semanas, a identificação dos 
batimentos cardíacos fetais (BCF) é 
possível, sendo esse o sinal mais fidedigno 
de gravidez, obtido por meio de sonar 
Doppler. 
 
DIAGNÓSTICO HORMONAL: 
Representa, atualmente, o melhor parâmetro 
para diagnosticar a gravidez, uma vez que é 
capaz de detectá-la de forma precoce e com 
elevada acurácia. Fundamenta-se na 
produção de hCG pelo trofoblasto 
implantado no endométrio, iniciada na 
primeira semana após a fertilização, 
continuando em níveis crescentes ao longo 
da gestação, detectável pelo soro ou urina 
maternos. 
Há três tipos de testes para a identificação 
desse hormônio, imunológico, 
radioimunológico e ensaio imunoenzimático 
(ELISA). 
TESTES IMUNOLÓGICOS: 
O hCG, como toda proteína, induz a 
formação de anticorpos em outros animais, 
substância esta que é empregada para 
identificar hormônios na urina sob análise, 
embora seja necessário tornar a reação 
visível (possível por meio de hemácias ou 
partículas de látex). Para melhorar a 
sensibilidade dos testes, é preciso que a 
urina esteja bastante concentrada. 
 Prova de inibição da aglutinação do látex: 
denominada teste de lâmina, é de leitura 
rápida, com duração de poucos minutos. 
Apresenta dois inconvenientes: a 
imagem do resultado pode ser discutível 
e a sensibilidade é menor (1.500 a 3.500 
UI/L); 
 Prova de inibição da hemaglutinação: 
chamada teste de tubo, oferece leituras 
em 2 h, raramente de interpretação 
duvidosa, e com mais sensibilidade (750 
a 1.000 UI/L). A hemaglutinação passiva 
reversa adota o mesmo método, 
utilizando anticorpos monoclonais com o 
hCG ligado, podendo fornecer resultados 
com sensibilidade altíssima (75 UI/L). 
Para que o exame seja realizado, 
aconselha-se que o atraso menstrual 
ultrapasse 10 a 14 dias, assim, a prova de 
inibição da hemaglutinação oferece 
sensibilidade de 97 a 99%. 
Medicamentos psicotrópicos, proteinúria 
e mulheres no climatério (reação cruzada 
com o LH, neste caso, em teor bem mais 
elevado) podem determinar resultados 
falso-positivos. Os falso-negativos 
ocorrem em urinas de baixa densidade 
(grandes volumes nicteméricos, acima de 
2 L), na primeira ou na segunda semana 
do atraso menstrual e, ocasionalmente, 
durante o segundo trimestre, quando é 
mais baixo o limite inferior dos níveis de 
hCG. 
TESTES RADIOIMUNOLÓGICOS: 
Testes radioimunológicos consistem na 
dosagem de hCG por método 
radioimunológico (RIA), com base na 
competição do hormônio em questão com 
traçador adequado (o próprio hormônio 
marcado com radioiodo), conforme a 
quantidade fixa de antissoro. 
A dificuldade nesse procedimento é a reação 
cruzada com LH hipofisário, que é corrigida 
ao se fazer a dosagem da subunidade beta 
do hCG, mais específica. A dosagem de β-
hCG tem sensibilidade de 5 mUI/mL. Os 
resultados são obtidos em aproximadamente 
4 horas, o que torna possível aos 
laboratórios especializados o fornecimento 
de duas séries por dia. 
TESTE ELISA: 
O ensaio imunoenzimático apresenta as 
mesmas bases teóricas do RIA, porém 
substitui o hormônio marcado com 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
radioisótopo por uma enzima capaz de reagir 
com substrato incolor e gerar um produto 
colorido. A intensidade da cor resultante é 
proporcional à quantidade de hormônio. 
Sua maior vantagem é a grande vida útil, 
uma vez que não contém materiais 
radioativos (atividade limitada pela meia-
vida). Sua sensibilidade é de 25 mUI/mL. 
DIFERENÇAS ENTRE ANÁLISE DE SORO E URINA: 
Com os testes de análise de urina (testes de 
farmácia), é esperado que o diagnóstico 
positivo ocorra pelo menos um dia antes da 
amenorreia, ao passo que métodos que 
utilizam o soro fornecem o resultado em até 
7 dias antes desse marco. Outra diferença 
reide no fato que os exames de urina 
apresentam apenas resultados qualitativos, 
podendo ser afetados pela qualidade da 
amostra coletada. 
DIAGNÓSTICO ULTRASSONOGRÁFICO: 
Com 4 a 5 semanas, na parte superior do 
útero, começa a aparecer formação 
arredondada, anelar, com contornos nítidos, 
que corresponde à estrutura ovular, 
denominada, na ultrassonografia por saco 
gestacional (SG). 
 
A partir de 5 semanas, é possível visualizar 
a vesícula vitelina (VV) e, com 6 semanas, o 
eco embrionário e a sua pulsação cardíaca 
(BCF). 
 
Em torno de 10 a 12 semanas, nota-se 
espessamento no SG, que representa a 
placenta em desenvolvimento e seu local de 
implantação no útero. Com 12 semanas, a 
placenta pode ser facilmente identificada e 
apresenta estrutura definida com 16 
semanas. 
 
ÊMESE E HIERÊMESE GRAVÍDICA: 
Tanto a êmese quanto a hiperêmese 
gravídica representam o mesmo processo de 
expulsão do conteúdo gástrico pela boca, 
diferindo apenas por sua intensidade e 
repercussão clínica de seus efeitos. 
A prevalência de náuseas e de vômitos na 
gestação é calculada em torno de 85%, 
sendo que em 25% dos casos observa-se 
exclusivamente o quadro de náusea matinal, 
e, no restante das gestantes, diversos graus 
de êmese associado à náusea. O período de 
incidência entre 5 e 9 semanas ocorre em 
mais de 90% das gestações, reduzindo 
progressivamente e tornando-se ocasional 
além de 20 semanas. Apenas 10% dos 
casos de gestantes acometidas por náuseas 
e vômitos requer tratamento farmacológico. 
Os quadros mais graves de vômitos nas 
gestantes, denominados de hiperêmese 
gravídica, respondem por 1,1% de todos os 
casos. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Não há definição única para a hiperêmese 
gravídica, sendo a mais aceita aquela que 
considera a perda ponderal de, no mínimo, 
5% do peso pré-gravídico. 
EITOLOGIA E FATORES DE RISCO: 
A etiologia desses sintomas ainda não é 
totalmente compreendida. Os possíveis 
causadores são os hormônios placentários 
(hCG e estrogênios), talvez inter-
relacionados. É sabido que o pico das 
náuseas e vômitos da gravidez está ligado 
ao da gonadotrofina coriônica humana. Além 
disso, os hormônios citados estão mais 
elevados em gestações gemelares e 
molares, reconhecidamente mais afetadas 
pelo exagero dos sintomas supracitados. 
As teorias mais difundidas para explicar o 
surgimento das náuseas e vômitos são: 
 Teoria endócrina: 
A progesterona e o estrogênio reduzem o 
tônus da musculatura lisa e a atividade 
peristáltica de todoo trato gastrointestinal. A 
distensão intestinal, que ocorre em resposta 
a estas adaptações funcionais do organismo 
materno à gravidez, ativa alguns 
mecanismos biomoleculares que são 
envolvidos na geração dos estímulos 
eméticos, representando um dos possíveis 
causadores do quadro. 
Outra associação que pode auxiliar a 
explicar esses sintomas é o aumento dos 
hormônios tireoidianos provocando 
hipertireoidismo transitório e o 
desenvolvimento de náuseas e vômitos 
gravídicos, uma vez que alterações nesses 
hormônios são vistas em 70% das mulheres 
que relatam tais sintomas. Essa vertente tem 
importância etiológica reduzida por ser 
assintomática e não ter relevância clínica. 
Recentemente, a leptina também foi 
colocada como possível causadora do 
quadro de náuseas e vômitos por se 
apresentar mais elevadas em mulheres com 
essas comorbidades, porém essas 
alterações ainda não foram confirmadas. 
 Teoria da infecção pelo Heliobacter 
pylori: 
Foi observado que 95% dos exames 
histológicos das mucosas das gestantes com 
NVG são positivas para este agente contra 
50% do grupo controle. Além disso, 
constatou-se também clara associação entre 
a carga bacteriana e a intensidade dos 
sintomas. 
Apesar da intrigante associação entre 
náuseas e vômitos gravídicos com a infecção 
materna pelo H. pylori, o número de 
gestantes que são portadoras da infecção e 
não apresentam essas manifestações indica 
que a bactéria também não consegue, 
isoladamente, explicar todos os casos 
registrados de enjoo gestacional. 
 Teoria genética: 
As taxas mais elevadas de recorrência desta 
complicação em sucessivas gestações 
reforçam a teoria genética. Além disso, o 
risco de uma gestante desenvolver os 
sintomas é três vezes maior se sua mãe 
também apresentou este quadro. No 
entanto, a falta de estudos que identifiquem 
quais são os genes responsáveis por esta 
alteração e em que parte do genoma estas 
mudanças podem ser identificadas são 
fatores limitantes para se desenhar 
abordagens mais específicas de controle da 
doença. 
 Teoria psicogênica: 
Já foi especulado que as náuseas e vômitos 
poderiam ser a manifestação de uma doença 
psicossomática na qual o processo emético 
seria a forma de exteriorizar estes conflitos 
intrapsíquicos, o que poderia conferir a esta 
teoria importante papel na composição 
etiológica dos sintomas supracitados. Entre 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
as variáveis situacionais que compõem esta 
teoria, já foi postulado que tais sintomas 
seriam a manifestação subconsciente da 
gestante rejeitar uma gravidez não desejada. 
No entanto, esta teoria não é aceita 
universalmente. Em estudo desenvolvido na 
Noruega, mostrou que a angústia e a 
depressão seriam mais efeitos do que causa 
dos enjoos e vômitos. Os eventos adversos 
ou estressantes na vida da gestante com 
seu meio social que poderiam estar 
associados com os sintomas são a gravidez 
não programada, rejeição à maternidade, a 
rejeição ao pai, a imaturidade emocional, o 
temor do ganho de peso, as situações de 
violência, a pobreza, a busca de 
compensações, a insegurança, as limitações 
financeiras e a estabilidade no emprego. 
Em síntese, não se nega a importância 
destas situações de estresse 
potencializando sinergicamente o 
aparecimento e manutenção do processo 
emético em gestantes predispostas, mas não 
é correto considerá-las como responsáveis 
isoladas pelo seu aparecimento. 
Entre os fatores de risco, podem ser citadas 
a história de hiperêmese gravídica em 
gestação anterior, a história familiar (mãe, 
irmã), nuliparidade em mulher jovem e a 
gravidez de feto feminino. 
QUADRO CLÍNICO: 
As manifestações clínicas decorrem 
inicialmente de perdas hidroeletrolíticas e, 
posteriormente, da desnutrição. Nas 
pacientes que não buscam 
acompanhamento médico, a deficiência de 
carboidratos acaba por acelerar o 
metabolismo de lipídios, culminando com a 
eliminação de corpos cetônicos na urina 
(cetonúria). Se o quadro de desnutrição for 
muito avançado, a deficiência de tiamina 
(vitamina B1) pode causar as manifestações 
neuropsiquiátricas da síndrome de 
Wernicke-Korsakoff. 
 
A hiperêmese gravídica apresenta uma 
evolução nítida do comprometimento 
materno, a saber: 
 Fase de desidratação: Náusea e 
ptialismo intensos, vômitos fortes levando 
a um quadro de desidratação. A paciente 
apresenta-se com diminuição do turgor e 
da elasticidade da pele, olhos encovados, 
mucosas secas e pegajosas, língua 
áspera, taquicardia, hipotensão e 
hipotermia. Distúrbios hidroeletrolíticos 
podem estar presentes (dosagem de 
sódio alta, cloro e potássio um pouco 
diminuídos). O hematócrito encontra-se 
um pouco aumentado; 
 Fase metabólica: somam-se distúrbios 
nutricionais (perda poderal superior a 
5%), alterações da função hepática com 
elevação de enzimas e bilirrubinas 
(icterícia discreta), cetoacidose e 
cetonúria de duas ou três cruzes, 
hipoalbuminemia, hiponatremia e 
hipopotassemia. Hipoglicemia já ocorre 
nessa fase. Pode ocorrer hipotermia e 
torpor; 
 Fase neurológica: achados anteriores 
acrescidos de comprometimento 
oftálmico com lesões na retina e 
comprometimento neurológico inicial com 
hiporreflexia e dor à palpação das 
panturrilhas e coxas. Esse quadro é muito 
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importante, pois antecede o 
acometimento encefálico, que é 
irreversível, em uma semana; 
 Fase da psicose de Wernicke-Korsakoff: 
trata-se de uma encefalopatia amoniacal, 
caracterizada por instabilidade 
hemodinâmica de difícil controle, 
alucinações e coma. Este quadro é 
irreversível na maioria das vezes. 
Para classificar o quadro de náuseas e 
vômitos gravídicos, o Pregnancy Unique 
Quantification of Emesis (PUQE) destaca-se 
como escore de maior utilidade, idealizado 
para avaliação de 12 horas, mas obtendo 
bons resultados com análises de 6 a 24 
horas (o primeiro valor sendo mais aplicado 
para medir efeitos terapêuticos, e o último, 
para o diagnóstico da intensidade 
sintomática). 
O funcionamento dessa ferramenta se dá por 
meio da resposta de 3 perguntas básicas 
acerca dos sintomas de acordo com o tempo 
de corte escolhido, com pontuações 
diferentes para cada item assinalado, 
resultando numa pontuação que delimita as 
formas dessa condição. 
 
A hiperêmese gravídica pode ser separada 
em duas formas clínicas, de média e grave 
intensidade, a saber: 
 Forma média: pacientes abandonadas na 
êmese simples, por 2 a 4 semanas, com 
perda ponderal discreta, de 5% do peso 
pré-gravídico. O pulso mantém-se abaixo 
de 100 bpm; 
 Forma grave: a perda ponderal é 
acentuada, 6 a 8%, e o pulso mostra-se 
rápido, acima de 100 bpm. Há presença 
de cetonúria pontual. 
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: 
Náuseas e vômitos nas primeiras 9 semanas 
da gravidez acometem quase todas as 
grávidas. Quando a paciente experimenta 
náuseas e vômitos após 9 semanas, outras 
condições, em sua maioria intercorrentes na 
gravidez, devem ser cogitadas. Do ponto de 
vista obstétrico, a neoplasia trofoblástica e a 
gestação múltipla são diagnósticos 
diferenciais obrigatórios. 
A presença de náusea no terceiro trimestre 
geralmente decorre de problemas hepáticos, 
das vias hepáticas (litíase), de descontrole 
metabólico (diabetes) ou de processos 
hipertensivos gestacionais graves, a 
exemplo da pré-eclâmpsia. 
Em relação ao aparelho digestivo, deve-se 
incluir para diagnóstico diferencial as 
seguintes alterações: esofagite terminal, 
hérnia de hiato, dispepsia, úlcera péptica, 
gastroparesias, neoplasias do tubo digestivo, 
infecções virais hepáticas, colelitíase, 
colecistite, esteatose hepática, neoplasias 
hepáticas, pancreatite, neoplasia 
pancreática, doenças disabsortivas, entre 
outras. 
Entre as doenças sistêmicas, sobressaem as 
infecções (ouvido, sistema urinário), asendocrinopatias (cetoacidose diabética, crise 
tireotóxica, hiperparatireoidismo, síndrome 
de Addison), a uremia e a porfiria 
intermitente aguda. Dentre as doenças do 
sistema nervoso central a mais frequente 
como diagnóstico diferencial das 
náuseas/vômitos é a enxaqueca. 
Um dos grupos mais importantes para o 
diagnóstico diferencial são as intoxicações 
exógenas (medicamentosas ou não). As 
possibilidades são infinitas, mas sobressai o 
uso de quimioterápicos, de anti-
inflamatórios, de digoxina, de anti-
hipertensivos, de betabloqueadores, de 
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diuréticos, de anticonvulsivantes, de 
aminofilina, de álcool e de drogas ilícitas. 
DIAGNÓSTICO LABORATORIAL E 
ULTRASSONOGRÁFICO: 
A maioria das pacientes com náuseas e 
vômitos não necessita de avaliação 
laboratorial, mas em casos de hiperêmese 
gravídica esses exames podem ser 
solicitados para avaliar a gravidade da 
doença e estabelecer o diagnóstico 
diferencial. Anormalidades laboratoriais na 
hiperêmese gravídica incluem aumento das 
enzimas hepáticas (< 300 UI/l), bilirrubina 
sérica (< 4 mg/dL) e amilase e lipase séricas 
(aumento de até 5 vezes o limite normal). O 
exame de urina pode revelar aumento da 
densidade e cetonúria. 
A ultrassonografia está indicada para 
descartar casos de doença trofoboblástica, 
principalmente se há história de 
sangramento genital ou aumento do volume 
uterino acima do esperado para a idade 
gestacional. Igualmente, pode identificar 
gestação gemelar, situação em que os 
enjoos são mais frequentes. 
Nos casos em que não há remissão ou 
melhora dos sintomas mesmo com terapia 
medicamentosa, é indicada a repetição das 
funções hepática e renal e a realização de 
esofagogastroduodenoscopia, além de 
investigar a presença de H. pylori. 
Sem melhoras, apesar dos cuidados 
corretos, pode ser necessária a avaliação do 
neurologista. Os recursos utilizados vão 
desde a punção liquórica para afastar 
infecções e hemorragias até o estudo por 
imagens. Estas avaliações não são apenas 
para avaliação diagnóstica de eventuais 
alterações infecciosas ou expansivas do 
encéfalo, mas também para verificar o risco 
de evolução para a síndrome de Wernicke. 
TRATAMENTO: 
As possibilidades de tratamento para 
mulheres portadoras de náuseas e vômitos 
gravídicos podem ser divididas em 
farmacológicas e não farmacológicas, a 
saber: 
 Abordagens não farmacológicas: 
o Apoio psicoemocional: fundamental 
em todos os casos, pois sabemos 
que o medo e a ansiedade são 
componentes que por si sós podem 
resultar no aparecimento do quadro. 
Este apoio será familiar e 
profissional, inicialmente, pelo 
próprio obstetra e, em casos de maior 
complexidade, com o apoio de 
psicólogo afeito a este tipo de 
situação clínica; 
o Mudanças nutricionais: todas as 
gestantes devem receber este tipo de 
orientação, independente de 
apresentarem ou não o quadro em 
análise. O maior tempo de 
esvaziamento gástrico, menor 
produção e escoamento biliar, menor 
tolerância ao jejum prolongado e 
muitas outras alterações levam a 
gestante a ter que adotar dietas mais 
leves, menos gordurosas e em 
intervalos menores, como também 
evitar ingestão de líquidos nas 
primeiras duas horas do dia; 
o Terapias não convencionais ou 
complementares: o grupo mais 
beneficiado por esse conjunto 
terapêutico são de gestantes coma 
forma leve do acometimento, 
podendo ser realizadas sessões de 
acupressão (pressão em pontos 
específicos das mãos), aromaterapia, 
acupuntura, suplementação de 
piridoxina (vitamina B6) e ingesta de 
gengibre. 
 Abordagens farmacológicas: em razão da 
elevada prevalência do quadro, é 
compreensível que mais de 30% de todas 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
as gestações tenham em algum momento 
sido exposta ao uso deste grupo 
farmacológico. O antiemético de eleição 
é a ondansetrona, na dose de 4 mg por 
via intravenosa de 12 em 12 horas. Este 
fármaco foi recentemente liberado para 
uso na gravidez. 
Nas formas leves das náuseas e vômitos da 
gestante (≤ 6 do escore de PUQE), as 
medidas não farmacológicas e 
farmacológicas por via oral apresentam bons 
resultados rapidamente e o tratamento deve 
ser ambulatorial. 
Nas formas moderadas e graves (> 6 do 
escore de PUQE), a gestante deve ser 
abordada de maneira multidisciplinar em 
ambiente hospitalar. Após adotadas as 
medidas terapêuticas, espera-se que em 24 
horas cessem os vômitos e o escore de 
PUQE revele uma pontuação compatível 
com a forma leve do quadro. Caso isto não 
ocorra, é indicada uma reavaliação da 
gestante (dosagem de ACTH, cortisol 
plasmático, provas de função hepática, 
transaminases, amilase, hormônios 
tiroidianos, fundoscopia, entre outros). Deve-
se aproveitar também para analisar 
ionograma, perda ponderal e o estado de 
hidratação materna. 
 
PROGNÓSTICO: 
Embora seja rara hoje em dia, a morte por 
hiperêmese gravídica tem sido associada à 
síndrome de Wernicke-Korsakoff. A 
síndrome de Wernicke corresponde à 
instalação de sintomas agudos como ataxia 
(predominantemente da marcha), disfunção 
vestibular, confusão e uma variedade de 
anormalidades da motilidade ocular 
frequentemente bilaterais. O quadro evolui 
para a condição crônica, chamada de 
síndrome de Korsakoff, caracterizada por 
perda da memória de fixação e 
desorientação temporoespacial, podendo ou 
não haver confabulações associadas. A 
síndrome negligenciada evolui com 
sequelas, por vezes, irreversíveis. O 
tratamento imediato com tiamina na 
síndrome de Wernicke é eficaz em dias a 
poucas semanas. A morbidade psicossocial 
associada à hiperêmese gravídica pode 
resultar em indicação para a interrupção da 
gravidez. Em relação ao feto, tem-se 
observado menor incidência de abortamento 
e risco aumentado de recém-nascido 
pequeno para a idade gestacional (PIG). 
PERFIL EPIDEMIOL[OGICO DA GRAVIDEZ NA 
ADOLESCÊNCIA: 
A gravidez na adolescência (primeira 
gestação na faixa etária de 10 a 19 anos), 
considerada de alto risco pela complexidade 
de fatores, torna-se um problema de saúde 
pública devido às consequências que impõe 
à sociedade como um todo. 
Em 2017, o Brasil registrou 2.923.535 
nascidos vivos, com 22.146 sendo 
relacionados a meninas de 10 a 14 anos e 
458.777 a indivíduos com 15 a 19 anos. A 
regiões com maior número de registros 
nessas faixas etárias são a Região Nordeste 
(163.298 casos combinados) e Região 
Sudeste (153.527 notificações). 
Salienta-se que, na série histórica de 1994 a 
2017, o Brasil registou 634.664 casos de 
gravidez entre 10 e 14 anos e 14.218.890 
entre 15 e 19 anos. Ainda que esses índices 
estejam em queda relativamente constante 
ao longo desse período, tais números ainda 
refletem a urgência por intervenções para 
solucionar esse problema. Entre os anos de 
1994 a 2008 houve crescimento no número 
de nascidos vivos entre 10 e 14 anos, e entre 
1994 e 1999, na faixa de 15 a 19 anos. 
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Na Bahia, em 2017, foram registrados 
204.096 nascidos vivos, sendo que 2.155 
são filhos de mulheres com 10 a 14 anos e 
36.712, de 15 a 19 anos. As regiões de 
saúde com maior prevalência de gravidez na 
adolescência são Salvador (5.729 
notificações), Feira de Santana (2.670) e 
Juazeiro (2.090). As etnias mais reportadas 
são de pardas (29.819) e pretas (3.886 
notificações nas faixas etárias em análise). A 
realização do pré-natal nesses grupos 
etários tende a ser classificada como 
adequada, porém ainda é notável a 
existência de jovens que não realizaram 
esse acompanhamento durante a gestação. 
A maior parte das gestações tanto entre 
jovens de 10-14 quanto de 15-19 anos 
contempla mulheres solteiras ou em união 
consensual, mas observam-se 19 
casamentos dentre as mais novas 
Aspectos importantes podem ser levantados 
demodo a compreender a complexidade da 
gravidez precoce e a necessidade de 
cuidados diferenciados nessa faixa etária: 
 Os índices de mortalidade infantil têm 
diminuído no Brasil, mas 20% dessas 
mortes ainda são de filhos e filhas de 
mães adolescentes (10 a 14 anos); 
 A Incidência de baixo peso é duas vezes 
maior entre filhos de mães adolescentes; 
 A mortalidade infantil é diretamente 
proporcional ao peso ao nascer e ganho 
de peso do bebê; 
 A mortalidade neonatal é três vezes 
maior entre os filhos e filhas de mães 
adolescentes quando comparados aos 
filhos de mulheres adultas; 
 03 em cada 10 adolescentes ficarão 
grávidas antes de completar 20 anos; 
 As meninas mais pobres têm cinco vezes 
mais possibilidades de engravidar no 
período da adolescência do que as 
meninas mais ricas; 
 Dos abortos por razões médicas e legais, 
24,85% acontecem na faixa de 20 a 24 
anos; 15,4% entre 15 e 19 anos e 1,27% 
de 10 aos 14 anos. 
Diversos fatores podem ser apontados como 
causa para a gestação na adolescência. No 
entanto, a desinformação sobre sexualidade, 
sobre direitos sexuais e reprodutivos é o 
principal motivo. Questões emocionais, 
psicossociais e contextuais também 
contribuem, inclusive para a falta de acesso 
à proteção social e ao sistema de saúde, 
incluindo o uso inadequado de 
contraceptivos, como métodos de barreira e 
preservativos. 
A falta de um projeto de vida e expectativas 
de futuro, educação, pobreza, famílias 
disfuncionais e vulneráveis, abuso de álcool 
e outras drogas, além de situações de 
abandono, abuso/violência e a falta de 
proteção efetiva às crianças e aos 
adolescentes, também fazem parte desse 
quadro. Ocorre também a adoção do RN 
pelos avós ou familiares, como substitutos da 
maternagem do recém-nascido e retirando 
esse direito dessas adolescentes. Muitas 
vezes, a gravidez é desejada pela jovem, 
inclusive como uma resposta ao meio que a 
circunda ou como forma de exercer a 
sexualidade, de ser incluída e aceita 
socialmente. Ou ainda por gerar benefícios 
financeiros futuros para a família. Todos 
esses fatores também contribuem para a 
reincidência da gravidez ainda na 
adolescência. 
Pesquisas sobre mudanças na vida social 
revelam que as gestantes adolescentes 
indicam a interrupção dos estudos como a 
mais frequente e preocupante. O abandono 
escolar compromete não apenas a 
continuidade da educação formal, como 
resulta em menor qualificação e obstáculo 
nos seus projetos de vida. A porcentagem de 
adolescentes que não frequenta mais a 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
escola após ter engravidado é de 68,3%, 
elevando-se para 85,7% no terceiro trimestre 
de gravidez. Porém é válido ressaltar que a 
gravidez precoce apresenta nuances 
conforme o contexto social de inserção da 
jovem, uma vez que nas classes média e alta 
a ocorrência de gestação na jovem tende a 
não prejudicar tanto o percurso de 
escolarização e profissionalização. 
Um dos mais importantes fatores de 
prevenção é a educação, fato indubitável 
para a saúde plena, tanto individual quanto 
coletiva. Nesse sentido, é importante 
considerar a educação abordando 
sexualidade e saúde reprodutiva, tanto no 
meio familiar quanto na escola, com 
abordagem científica, e nos programas de 
promoção à saúde. Não apenas quanto aos 
eventos biológicos, mas em relação ao 
convívio de respeito entre meninos e 
meninas, atividades sexuais com 
responsabilidade e proteção, principalmente 
durante a adolescência. 
PROBLEMA 2 - INTERMEDIÁRIA: 
EMBRIOGÊNESE ATÉ A 4ª SEMANA DE GESTAÇÃO: 
O desenvolvimento embriológico humano se 
inicia com a fecundação, momento no qual o 
espermatozoide funde-se ao óvulo para 
compor o zigoto, marco da origem de um 
novo ser. 
 Os 23 estágios Carnegie do 
desenvolvimento humano refletem as 
mudanças na aparência externa do embrião 
durantes as primeiras 8 semanas de 
gestação. 
 
A marcação do tempo gestacional difere 
entre clínicos e embriologistas, sendo que 
para o obstetra a gravidez tem início no 
último período menstrual e para o 
embriologista, 2 semanas após o momento 
de fertilização. 
CLIVAGEM DO ZIGOTO: 
A clivagem, conjunto de divisões mitóticas 
sucessivas do zigoto (ainda revestido pela 
zona pelúcida), ocorre cerca de 30 horas 
após a fecundação, quando esse tipo celular 
passa pelas tubas uterinas em direção ao 
útero. Essas divisões sucessivas criam 
células embrionárias (blastômeros) cada vez 
menores. 
Após o estágio de nove células, os 
blastômeros mudam sua forma e se juntam 
firmemente uns com os outros para formar 
uma bola compacta de células. Esse 
fenômeno (compactação) provavelmente é 
auxiliado por glicoproteínas de adesão de 
superfície celular. A compactação permite 
uma maior interação célula com célula e é 
imprescindível para a segregação de células 
internas que formam a massa celular interna 
ou embrioblasto do blastocisto. 
Quando já existem de 12 a 32 blastômeros, 
o ser humano em desenvolvimento é 
chamado de mórula (aparência semelhante 
a uma amora com suas projeções esféricas). 
As células internas da mórula (chamadas de 
massa celular interna) estão circundadas por 
uma camada de células que formam a 
camada celular externa. A mórula se forma 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
cerca de 3 dias após a fecundação e alcança 
o útero. 
 
A PRIMEIRA SEMANA: 
À medida que o zigoto percorre a tuba 
uterina em direção ao útero ele sofre 
múltiplas segmentações mitóticas, 
responsáveis pela formação dos 
blastômeros. No 3º dia pós-fecundação a 
estrutura celular com 16 ou mais 
blastômeros passa a chamar-se mórula e 
penetra a cavidade uterina. 
 
No 4º dia, é formada uma cavidade na 
mórula, que passa a se chamar blástula ou 
blastocisto, estrutura composta por um grupo 
de células internas (embrioblasto) em um 
dos polos do ovo, que dará origem ao 
embrião, a blastocele (cavidade) e uma 
camada celular externa, chamada 
trofoblasto, que engloba as duas porções 
anteriormente citadas. 
 
No 3º e 5º dias o blastocisto está livre na 
cavidade do útero, mas no último ocorre a 
degeneração e o desaparecimento da zona 
pelúcida. 
As células trofoblásticas começam a invadir 
o epitélio endometrial no 7º dia, momento no 
qual se inicia sua diferenciação em duas 
camadas a interna (citotrofoblasto ou células 
de Langhans), e a externa 
(sinciciotrofoblasto), composto por massas 
multinucleadas protoplasmáticas sem limites 
celulares, que penetram no endométrio 
invadindo seu estroma. 
Simultaneamente à implantação do 
blastocisto, o embrioblasto inicia a formação 
do endoderma embrionário na sua superfície 
ventral, compondo a primeira de três 
camadas germinativas primárias do embrião. 
O fim da primeira semana marca a 
implantação superficial do ovo no 
endométrio. 
 
Ovo de 8 dias parcialmente implantado no endométrio 
SEGUNDA SEMANA E A FORMAÇÃO DO DISCO 
EMBRIONÁRIO BILAMINAR: 
Mudanças rápidas se sucedem no 
trofoblasto, com a organização definitiva em 
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duas camadas bastante distintas, o 
citotrofoblasto e o sinciciotrofoblasto. 
Lacunas são formadas nessa última região, 
fusionando-se para compor a rede lacunar. 
 
Ovo de 9 dias 
O trofoblasto erode os sinusoides maternos, 
permitindo assim que o sangue flua para o 
interior da rede lacunar, criando assim a 
circulação uteroplacentária primitiva. 
Quando o sangue materno flui para as 
lacunas, o oxigênio e as substâncias 
nutritivas tornam-se disponíveis para o 
embrião. O sangue oxigenado das artérias 
endometriais espiraladas passa para as 
lacunas e o sangue pobremente oxigenado é 
removido pelas veias endometriais. 
O sinciciotrofoblasto produz a gonadotrofina 
coriônica humana, que penetra o sangue 
materno pelas lacunas dessa região. O hCG 
mantém a atividadehormonal do corpo lúteo 
durante a gravidez, que continua a secretar 
estrogênio e progesterona para manter as 
condições necessárias ao desenvolvimento 
embrionário. No fim da segunda semana, o 
sinciciotrofoblasto produz uma quantidade 
de hCG suficiente para dar um teste positivo 
para a gravidez, mesmo que a mulher não 
saiba que está grávida. 
 
Ovo de 12 dias totalmente implantado, com endotélio 
remodelado e comunicação de sinusoides com a rede 
lacunar 
As vilosidades primárias originam-se na face 
externa do saco coriônico, completando a 
implantação. Nesse estágio o ovo encontra-
se totalmente mergulhado no endométrio, 
gerando várias reações do tecido materno, 
denominadas reação decidual. Com a 
acumulação de glicogênio e lipídios em seu 
citoplasma, as células ficam intumescidas e 
são conhecidas como células deciduais. A 
principal função da reação decidual é 
fornecer ao concepto um sítio 
imunologicamente privilegiado. 
 
Desenvolvimento das vilosidades primárias 
O mesoderma extraembrionário origina-se 
da superfície interna do trofoblasto, 
reduzindo o tamanho relativo da cavidade 
blastocística, que passa a receber o nome de 
vesícula vitelina primitiva. Quando se forma 
o celoma extraembrionário, proveniente de 
espaços criados no mesoderma 
extraembrionário, a vesícula vitelina primitiva 
torna-se menor e origina a vesícula vitelina 
secundária, constituindo o restante o saco 
vitelino. O celoma extraembrionário se 
converte na cavidade coriônica. 
A vesícula vitelina não contém vitelo, mas 
pode desempenhar papéis na transferência 
seletiva de nutrientes para o embrião. 
O mesoderma somático extraembrionário e 
as duas camadas do trofoblasto formam o 
cório, constituinte da parede da vesícula 
amniótica, dentro do qual o embrião e as 
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vesículas vitelina e amniótica estão 
suspensos. O celoma extraembrionário é, 
então, chamado de cavidade coriônica (na 
gravidez, e à ultrassonografia, denominado 
saco gestacional). 
 
Enquanto essas modificações ocorrem 
aparece um pequeno espaço no epiblasto, 
que cria o primórdio da cavidade amniótica. 
Logo os amnioblastos, formadores do âmnio, 
passam a revestir a região. 
O embrioblasto diferencia-se no disco 
bilaminar, formado pelo epiblasto 
(ectoderma embrionário), relacionado com a 
cavidade amniótica, e o hipoblasto 
(endoderma embrionário), adjacente à 
cavidade exocelômica. 
O hipoblasto forma o teto da cavidade 
exocelômica e é contínuo com a delgada 
membrana exocelômica. Estruturas que 
juntas formam a vesícula vitelina primitiva. 
As células do endoderma da vesícula vitelina 
formam uma camada de tecido conjuntivo, o 
mesoderma extraembrionário, que circunda 
a cavidade amniótica. 
 
O celoma embrionário é formado pela fusão 
de diversos espaços celômicos 
extraembrionários isolados no interior do 
mesoderma extraembrionário. Essa região 
repleta de fluidos envolve a vesícula vitelina 
e a cavidade amniótica, exceto em seu local 
de adesão ao cório (pedículo embrionário). 
O embrião de 14 dias apresenta-se ainda 
como um disco bilaminar. As células 
hipoblásticas formam, numa área localizada, 
a placa precordal, futuro local da boca e 
importante organizadora da região da 
cabeça. 
TERCEIRA SEMANA, GASTRULAÇÃO E FORMAÇÃO 
DO DISCO EMBRIONÁRIO TRILAMINAR: 
Esse é um período de desenvolvimento 
acelerado, coincidindo com a época do 
primeiro atraso menstrual (sinal primordial da 
gravidez, mesmo que possam ocorrer perdas 
de sangue decorrentes da implantação). 
Surge o mesoderma intraembrionário (3ª 
camada germinativa) a partir de células 
mesoblásticas originárias do epiblasto. O 
mesênquima forma os tecidos de 
sustentação do embrião, tais como a maior 
parte dos tecidos conjuntivos do corpo e a 
trama do tecido conjuntivo das glândulas. 
Células do epiblasto deslocam o hipoblasto, 
formando o endoderma embrionário, no teto 
da vesícula vitelina. As células que 
permanecem no epiblasto formam o 
ectoderma embrionário. Cada camada irá 
dar origem a órgãos específicos: 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 
 O ectoderma embrionário dá origem à 
epiderme, ao sistema nervoso central e 
periférico, ao olho, à orelha interna e, 
como células da crista neural, a muitos 
tecidos conjuntivos da cabeça; 
 O endoderma embrionário é a fonte dos 
revestimentos epiteliais das vias 
respiratórias e do trato gastrointestinal, 
incluindo as glândulas que se abrem no 
trato gastrointestinal e as células 
glandulares dos órgãos associados, tais 
como o fígado e o pâncreas; 
 O mesoderma embrionário dá origem a 
todos os músculos esqueléticos, às 
células sanguíneas e ao revestimento 
dos vasos sanguíneos, a todo músculo 
liso visceral, a todos os revestimentos 
serosos de todas as cavidades do corpo, 
aos duetos e órgãos dos sistemas 
reprodutivo e secretor e à maior parte do 
sistema cardiovascular. No tronco, é a 
origem de todos os tecidos conjuntivos, 
incluindo a cartilagem, os ossos, os 
tendões, os ligamentos, a derme e o 
estroma dos órgãos internos. 
O primeiro sinal da gastrulação é a formação 
da linha primitiva. No começo da 3ª semana 
há o aparecimento de uma opacidade 
formada por uma faixa linear espessada do 
epiblasto, caudalmente localizada no plano 
mediano do aspecto dorsal do disco 
embrionário. Enquanto a linha primitiva se 
alonga pela adição de células na sua 
extremidade caudal, a extremidade cranial 
prolifera e forma o nó primitivo. 
Concomitantemente, na linha primitiva 
forma-se o estreito (sulco primitivo) que se 
continua com uma pequena depressão no nó 
primitivo, a fosseta primitiva. Assim que a 
linha primitiva surge, é possível identificar o 
eixo cefálico-caudal do embrião, as 
extremidades cefálica e caudal, as 
superfícies dorsal e ventral e os lados direito 
e esquerdo. O sulco e a fosseta primitivos 
resultam da invaginação das células 
epiblásticas. 
 
Pouco tempo após o aparecimento da linha 
primitiva, células abandonam sua superfície 
profunda e formam o mesênquima, um tecido 
formado por células frouxamente arranjadas 
suspensas em uma matriz gelatinosa. As 
células mesenquimais são ameboides e 
ativamente fagocíticas. Essa região forma os 
tecidos de sustentação do embrião, como a 
maior parte dos tecidos conjuntivos do corpo. 
Parte do mesênquima forma o mesoblasto 
(mesoderma indiferenciado), que compõe o 
mesoderma embrionário ou 
intraembrionário. Células do epiblasto, assim 
como do nó primitivo e de outras partes da 
linha primitiva, deslocam o hipoblasto, 
formando o endoderma embrionário, no teto 
do saco vitelino. As células que permanecem 
no epiblasto formam o ectoderma 
embrionário ou intraembrionário. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
As células mesenquimais originadas da linha 
primitiva migram amplamente. Essas células 
pluripotentes têm o potencial de proliferar e 
diferenciar-se em diversos tipos celulares, 
tais como fibroblastos, condroblastos e 
osteoblastos. Em suma, o processo de 
gastrulação forma todas as três camadas 
germinativas por meio de células do 
epiblasto, marcando o início da morfogênese 
humana. 
A linha primitiva forma o mesoderma de 
forma ativa pelo ingresso de células até o 
começo da 4ª semana, momento no qual a 
produção passa a tornar-se mais lenta. A 
linha diminui seu tamanho relativo e passa a 
compor uma estrutura insignificante na 
região sacrococcígea embrionária, 
desaparecendo ao final dessa semana. 
FORMAÇÃO DO PROCESSO NOTOCORDAL E DA 
NOTOCORDA: 
Algumas células mesenquimais que 
ingressaram através da linha primitiva e 
tiveram destinos de células do mesoderma, 
migram cefalicamente do nó e da fosseta 
primitivos, formando um cordão celular 
mediano, o processo notocordal, que logo 
adquire uma luz, o canal notocordal. Esse 
processo crescecefalicamente entre o 
ectoderma e o endoderma até alcançar a 
placa pré-cordal, pequena área circular de 
células endodérmicas colunares onde essas 
duas camadas entram em contato. O 
mesoderma pré-cordal é uma população 
mesenquimal anterior à notocorda e 
essencial para a indução do cérebro anterior 
e do olho. A placa pré-cordal é o primórdio 
da membrana bucofaríngea, localizada no 
futuro local da cavidade oral, agindo também 
como centro sinalizador para o controle da 
formação de estruturas cranianas. 
 
Algumas células mesenquimais da linha 
primitiva e do processo notocordal migram 
lateral e cefalicamente, entre o ectoderma e 
o mesoderma, até alcançarem as bordas do 
disco embrionário. Essas células estão em 
continuidade com o mesoderma 
extraembrionário que cobre o âmnio e o saco 
vitelino. Algumas células mesenquimais da 
linha primitiva, que também têm destinos 
mesodérmicos, migram cefalicamente de 
cada lado do processo notocordal e em torno 
da placa pré-cordal. Nesse local, elas se 
encontram cefalicamente, formando o 
mesoderma cardiogênico na área 
cardiogênica, onde o primórdio do coração 
começa a se desenvolver no fim da terceira 
semana. 
Caudalmente à linha primitiva, há uma área 
circular, a membrana cloacal, que indica o 
local do futuro ânus. Ali e na membrana 
bucofaríngea, o disco embrionário 
permanece bilaminar porque, nesses locais, 
o ectoderma e o endoderma estão fundidos, 
impossibilitando a migração celular entre os 
folhetos. 
Na metade da terceira semana, o 
mesoderma separa a formação bilaminar em 
todos os lugares, com exceção da já citada 
membrana bucofaríngea (cefalicamente), do 
processo notocordal (cefalicamente ao nó 
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primitivo, no plano mediano) e da membrana 
cloacal supracitada (caudalmente). 
Sinais instrutivos naturais da região da linha 
primitiva induzem as células precursoras 
notocordais a formarem a notocorda, 
estrutura celular em forma de haste. Esse 
arranjo é responsável por: 
 Definir o eixo primitivo do embrião, 
fornecendo certa rigidez; 
 Fornecer os sinais necessários ao 
desenvolvimento do esqueleto axial e do 
sistema nervoso central; 
 Contribuir na formação de discos 
intervertebrais. 
O desenvolvimento da notocorda se dá da 
seguinte forma: 
 O processo notocordal se alonga pela 
invaginação de células provenientes da 
fosseta primitiva, compondo assim o 
canal notocordal; 
 O processo notocordal é agora um tubo 
celular que se estende cefalicamente do 
nó primitivo até a placa pré-cordal, com 
seu assoalho fundindo-se ao endoderma 
subjacente; 
 Essas camadas fusionadas sofrem uma 
degeneração gradual, permitindo assim a 
comunicação do canal notocordal com o 
saco vitelino; 
 As aberturas confluem rapidamente e o 
assoalho do canal notocordal 
desaparece, com o remanescente desse 
processo formando a placa notocordal, 
achatada e com um sulco; 
 Iniciando pela extremidade cefálica do 
embrião, as células da notocorda 
proliferam e a placa notocordal se dobra, 
formando a notocorda; 
 A parte proximal do canal notocordal 
persiste, temporariamente, como o canal 
neuroentérico, que forma uma 
comunicação transitória entre as 
cavidades dos sacos amniótico e vitelino. 
Normalmente, o canal neuroentérico se 
oblitera ao fim do desenvolvimento da 
notocorda; 
 A notocorda separa-se do endoderma do 
saco vitelino, que novamente se torna 
uma camada contínua. 
A notocorda se estende da membrana 
bucofaríngea ao nó primitivo, degenerando-
se e desaparecendo quando os corpos 
vertebrais se formam, mas persiste como o 
núcleo pulposo de cada disco intervertebral. 
Essa estrutura atua como o indutor primário 
do embrião inicial, estimulando o ectoderma 
subjacente a espessar-se e formar a placa 
neural, primórdio do sistema nervoso central. 
 
O ALANTOIDE: 
O alantoide surge por volta do 16º dia como 
uma pequena evaginação em forma de 
salsicha da parede caudal do saco vitelino 
que se estende até o pedículo do embrião. 
Em embriões de répteis, aves e outros 
mamíferos essa região se expande, 
ocupando a maior parte do espaço entre 
âmnio e córion, tendo função respiratória ou 
de reservatório para a urina durante a fase 
embrionária, porém, no desenvolvimento 
humano o alantoide permanece muito 
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pequeno, mas o mesoderma alantoide se 
expande abaixo do córion e forma os vasos 
sanguíneos que servirão à placenta. A parte 
proximal do divertículo alantoide original 
persiste durante a maior parte do 
desenvolvimento como uma linha chamada 
úraco, que se estende da bexiga até a região 
umbilical. O úraco é representado nos 
adultos pelo ligamento umbilical mediano. Os 
vasos sanguíneos do alantoide tornam-se as 
artérias umbilicais. 
NEURULAÇÃO: 
Os fenômenos envolvidos na formação da 
placa neural e das pregas neurais e o 
fechamento destas para criação do tubo 
neural constituem a neurulação, processo 
que se encerra na 4ª semana, quando ocorre 
o fechamento do neuroporo caudal. Nessa 
fase, o embrião pode ser chamado de 
nêurula. 
 
Com o desenvolvimento da notocorda, o 
ectoderma embrionário acima dela se 
espessa, formando uma placa alongada, em 
forma de chinelo, de células epiteliais 
espessadas, a placa neural. O ectoderma 
dessa placa (neuroectoderma) dá origem ao 
sistema nervoso central (encéfalo e medula 
espinhal) e outras estruturas, como a retina. 
Inicialmente, a placa neural alongada 
corresponde, em comprimento, à notocorda 
subjacente. Ela aparece cefalicamente ao nó 
primitivo e dorsalmente à notocorda e ao 
mesoderma adjacente a esta. Enquanto a 
notocorda se alonga, a placa neural se 
alarga e se estende cefalicamente até a 
membrana bucofaríngea. Finalmente, a 
placa neural ultrapassa a notocorda. 
Por volta do 18º dia, a placa neural se 
invagina ao longo de seu eixo central, 
formando um sulco neural mediano, com 
pregas neurais em ambos os lados, 
particularmente proeminentes na 
extremidade cefálica do embrião, 
constituindo os primeiros sinais de 
desenvolvimento encefálico. 
No fim da terceira semana, as pregas neurais 
já começaram a se aproximar e a se fundir, 
convertendo a placa neural em tubo neural, 
o primórdio do SNC. O tubo neural logo se 
separa do ectoderma da superfície, assim 
que as pregas neurais se encontram. As 
células da crista neural sofrem uma 
transição, de epiteliais se tornam 
mesenquimais, e se afastam à medida que 
as pregas neurais se encontram, e as bordas 
livres do ectoderma se fundem, tornando 
essa camada contínua sobre o tubo neural e 
as costas do embrião. Subsequentemente, o 
ectoderma da superfície diferencia-se na 
epiderme. A neurulação é completada 
durante a quarta semana. 
Com a fusão da placa neural algumas células 
neuroectodérmicas dispostas ao longo da 
crista de cada prega neural, perdem sua 
afinidade com o epitélio e suas adesões às 
células vizinhas. Quando o tubo neural se 
separa do ectoderma da superfície, as 
células da crista neural formam uma massa 
achatada irregular, a crista neural, entre o 
tubo neural e o ectoderma superficial 
suprajacente. 
Logo essa crista se separa em partes direita 
e esquerda, que migram para as regiões 
dorsolaterais do tubo neural, onde originam 
os gânglios sensitivos dos nervos cranianos 
e espinhais, além dos gânglios do sistema 
nervoso autônomo. As células da crista 
neural depois se movem tanto para dentro 
quanto sobre a superfície dos somitos. 
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Além de formarem as células ganglionares, 
as células da crista neural formam as 
bainhas de neurilema dos nervos periféricos 
e contribuem para a formação de 
leptomeninges. Contribuem também para a 
criação de células pigmentares, células da 
medula da suprarrenal e vários componentesmusculares e esqueléticos da cabeça. 
Estudos laboratoriais indicam que as 
interações celulares tanto na superfície do 
epitélio quanto entre ele e o mesoderma 
subjacente são necessárias para 
estabelecer os limites da placa neural e 
especificar os locais onde vai ocorrer a 
transformação epitelial-mesenquimal. Estas 
são mediadas por proteínas morfogenéticas 
do osso, Wnt, Notch e FGF. Além disso, 
moléculas como efrinas são importantes 
guias das vias de migração das células da 
crista neural. 
 
DESENVOLVIMENTO DOS SOMITOS: 
Além da notocorda, as células derivadas do 
nó primitivo também formam o mesoderma 
paraxial, evidente como uma coluna grossa 
e longitudinal de células. Cada coluna está 
em continuidade com o mesoderma 
intermediário, que se adelgaça 
gradualmente para formar a camada de 
mesoderma lateral, contínuo ao mesoderma 
extraembrionário que cobre o saco vitelino e 
o âmnio. 
Próximo ao fim da terceira semana, o 
mesoderma paraxial diferencia-se e começa 
a dividir-se em pares de corpos cuboides, os 
somitos, formados em sequência 
cefalocaudal. Esses blocos de mesoderma 
estão localizados em cada lado do tubo 
neural em desenvolvimento. Cerca de 38 
pares são formados ao longo do período 
somítico do desenvolvimento humano (20º 
ao 30º dia), ao passo que na quinta semana 
42 a 44 pares são visíveis (aparentam ser 
triangulares em secção transversal), 
permitindo assim a verificação da idade do 
embrião. 
Os somitos aparecem primeiro na futura 
região occipital do embrião. Logo avançam 
cefalocaudalmente, dando origem à maior 
parte do esqueleto axial e aos músculos 
associados, assim como à derme da pele 
adjacente. 
A progressão ordenada da segmentação 
envolve um mecanismo de relógio (oscilador) 
da expressão dos genes, em particular os de 
Notch. Além disso, axônios motores do 
cordão espinhal inervam as células 
musculares nos somitos, um processo que 
exige uma orientação correta dos axônios do 
cordão espinhal para as células-alvo 
adequadas. 
DESENVOLVIMENTO DO CELOMA 
INTRAEMBRIONÁRIO: 
O primórdio do celoma intraembrionário, a 
cavidade do corpo do embrião, surge como 
espaços celômicos isolados no mesoderma 
lateral e no mesoderma cardiogênico. Esses 
espaços logo se fusionam, formando uma 
cavidade única em forma de ferradura (o 
próprio celoma intraembrionário), que divide 
o mesoderma lateral em duas camadas, a 
parietal (somática), localizada sob o epitélio 
ectodérmico e contínua ao mesoderma 
extraembrionário, e a visceral (esplâncnica), 
adjacente à endoderme e também contínua 
ao mesoderma extraembrionário. 
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O mesoderma somático e o ectoderma 
sobrejacente do embrião formam a parede 
do corpo do embrião ou somatopleura, 
enquanto o mesoderma esplâncnico e o 
endoderma subjacente compõem o intestino 
embrionário ou esplancnopleura. 
No segundo mês, o celoma intraembrionário 
está dividido em três cavidades corporais, a 
pericárdica (que contém o coração), a pleural 
(abriga os pulmões), e a peritoneal 
(comporta as vísceras abaixo do diafragma). 
 
DESENVOLVIMENTO INICIAL DO SISTEMA 
CARIOVASCULAR: 
No fim da segunda semana, a nutrição do 
embrião é obtida do sangue materno, por 
difusão através do celoma extraembrionário 
e do saco vitelino. No início da terceira 
semana, iniciam-se a vasculogênese e a 
angiogênese no mesoderma 
extraembrionário do saco vitelino, do 
pedículo do embrião e do córion. Os vasos 
sangüíneos do embrião começam a se 
desenvolver cerca de 2 dias mais tarde. 
A formação inicial do sistema cardiovascular 
está correlacionada com a necessidade 
urgente dos vasos sanguíneos de trazer 
oxigênio e nutrientes para o embrião a partir 
da circulação materna, através da placenta. 
Durante a terceira semana, desenvolve-se o 
primórdio de uma circulação 
uteroplacentária. 
A vasculogênese é a formação de novos 
canais vasculares pela reunião de 
precursores celulares individuais chamados 
angioblastos. A angiogênese, por sua vez, é 
a formação de novos vasos pela ramificação 
de estruturas pré-existentes. A formação de 
vasos sanguíneos no embrião e em suas 
membranas externas pode ser resumida da 
seguinte forma: 
 Células mesenquimais (derivadas do 
mesoderma) se diferenciam em 
precursoras de células endoteliais, os 
angioblastos, que se agregam e formam 
grupos de células angiogênicas, as 
ilhotas sanguíneas, que são associadas 
ao saco vitelino ou cordões endoteliais do 
embrião; 
 Dentro das ilhotas, fendas intercelulares 
confluem, formando pequenas 
cavidades; 
 Os angioblastos se achatam, tornando-se 
células endoteliais que passam a se 
depositar em torno das cavidades 
supracitadas formando o endotélio; 
 Canais endoteliais são formados pela 
fusão das cavidades revestidas 
(vasculogênese); 
 Os vasos avançam para locais 
adjacentes por brotamento endotelial e se 
juntam a outros vasos. 
As células sanguíneas desenvolvem-se a 
partir de células endoteliais dos vasos à 
medida que eles se desenvolvem nas 
paredes do saco vitelino e do alantoide, no 
fim da terceira semana. A hematogênese só 
terá início na 5ª semana, ocorrendo 
primariamente no fígado, depois no baço, na 
medula óssea e nos linfonodos. As células 
mesenquimais que circundam os vasos 
sanguíneos endoteliais primitivos 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
diferenciam-se nos elementos musculares e 
conjuntivos dos vasos. 
 
Estágios do desenvolvimento do sangue e dos vasos 
sanguíneos. A: Vista lateral do saco vitelino e de parte do 
saco coriônico (cerca de 18 dias). B: Vista dorsal do 
embrião exposto pela remoção do âmnio. C a F: Secções 
de ilhotas sanguíneas mostrando os estágios sucessivos 
do desenvolvimento do sangue e dos vasos 
O coração e os grandes vasos surgem de 
células mesenquimais da área cardiogênica. 
Na 3ª semana é formado um par de canais 
longitudinais revestidos por endotélio, os 
tubos cardíacos endocárdicos, que se 
fundem, compondo o tubo cardíaco primitivo. 
Esse coração tubular se une a vasos 
sanguíneos do embrião, do pedículo, do 
córion e do saco vitelino para formar o 
sistema cardiovascular primitivo. No fim da 
terceira semana, o sangue circula e o 
coração começa a bater (21º ou 22º dia). O 
sistema cardiovascular é o primeiro a 
alcançar um estado funcional. Os batimentos 
cardíacos fetais (BCF) podem ser detectados 
por ultrassonografia com técnica de Doppler 
na 5ª semana, cerca de sete semanas após 
o último sangramento menstrual normal. 
 
DESENVOLVIMENTO DAS VILOSIDADES CORIÔNICAS: 
Pouco depois da formação das vilosidades 
coriônicas primárias, no fim da segunda 
semana, elas começam a ramificar-se. No 
início da terceira semana, o mesênquima 
penetra as vilosidades primárias formando 
um eixo central de tecido mesenquimal. 
Nesse estágio, as vilosidades (já chamadas 
vilosidades coriônicas secundárias) 
recobrem todo o saco coriônico. 
Algumas células mesenquimais dessas 
estruturas diferenciam-se rapidamente em 
capilares e células sanguíneas. Quando isso 
ocorre, as vilosidades passam a ser 
denominadas por vilosidades coriônicas 
terciárias. Esses capilares se fundem, 
criando assim várias redes arteriocapilares 
que se conectam ao coração embrionário 
através de vasos diferenciados do pedículo e 
do córion. 
No fim da terceira semana, o sangue do 
embrião começa a fluir lentamente através 
dos capilares das vilosidades coriônicas. 
Oxigênio e nutrientes do sangue materno 
presente no espaço interviloso difundem-se 
através das paredes das vilosidades e 
penetram o sangue do embrião. CO2 e 
demais resíduos são difundidos do sangue 
nos capilares fetais para o sangue materno 
através das paredes das vilosidades. 
As células citotrofoblásticas, na parte distal 
das vilosidades, proliferam e formam colunas 
que atravessam o sinciciotrofoblastoe se 
fixam ao estroma endometrial (vilosidades 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
ancorantes). Essas células citotrofoblásticas 
juntam-se umas às outras para compor o 
manto citotrofoblástico, apoiando firmemente 
o saco coriônico ao endométrio. As 
vilosidades que crescem dos lados das 
vilosidades de ancoragem constituem as 
vilosidades terminais, por meio das quais se 
dá a maior parte das trocas de material entre 
o sangue da mãe e do embrião. As 
vilosidades terminais são banhadas por 
sangue materno do espaço interviloso, que é 
trocado continuamente. 
 
QUARTA SEMANA – PERÍODO EMBRIONÁRIO E 
ORGANOGÊNESE: 
Grandes modificações internas e externas 
ocorrem entre a 4ª e a 8ª semana, sendo que 
ao final desse período os principais sistemas 
de órgãos já começaram a se desenvolver, 
ainda que sem funcionamento expressivo. 
Com a criação dessas estruturas, a forma do 
embrião muda, apresentando aspectos 
marcadamente humanos na oitava semana. 
A exposição do embrião a teratogênicos 
(drogas e vírus, por exemplo) nessa fase 
pode causar anomalias congênitas. 
Logo ao se iniciar a 4 a semana, curvaturas 
longitudinais (cefálica e caudal) e laterais 
(direita e esquerda) convertem o disco 
embrionário, achatado, com 4 a 12 somitos, 
em um embrião cilíndrico, em forma de “C”. 
A formação dessas curvaturas termina por 
circunscrever o embrião na vesícula vitelina, 
sendo que parte dela será incorporada pelo 
embrião, formando o intestino primitivo, e o 
restante constituirá o remanescente da 
vesícula vitelina secundária. Das curvaturas 
laterais emanam as paredes laterais e 
ventral do corpo. 
Com o dobramento cefálico ventral, parte da 
camada endodérmica é incorporada pela 
região cefálica do embrião, formando o 
intestino anterior. O dobramento da região 
cefálica também leva a membrana 
bucofaríngea e o coração a se deslocarem 
ventralmente, tornando o encéfalo em 
desenvolvimento a parte mais cefálica do 
embrião. O dobramento ventral da eminência 
caudal é o momento em que parte da 
camada germinativa endodérmica é 
incorporada pela extremidade caudal do 
embrião, constituindo o intestino posterior. A 
parte terminal do intestino posterior se 
expande, formando a cloaca. O dobramento 
da região caudal também resulta no 
deslocamento da membrana cloacal, do 
alantoide e do pedículo do embrião para a 
superfície ventral do embrião. A conexão do 
intestino com a vesícula vitelina fica reduzida 
ao pedículo ou canal vitelino. A região de 
ligação do âmnio com a superfície ventral do 
embrião fica, também, reduzida a uma região 
umbilical relativamente estreita. 
Com a transformação do pedículo do 
embrião no cordão umbilical, a fusão ventral 
das pregas laterais reduz a região de 
comunicação entre as cavidades celômicas 
intraembrionárias e extraembrionárias a uma 
comunicação estreita. A medida que a 
cavidade amniótica se expande e oblitera a 
maior parte do celoma extraembrionário, o 
âmnio passa a formar o revestimento epitelial 
do cordão umbilical. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 
As três camadas germinativas (ectoderma, 
mesoderma e endoderma), formadas 
durante a gastrulação, dão origem aos 
primórdios de todos os tecidos e órgãos. No 
entanto, a especificidade das camadas 
germinativas não é rigidamente fixa. As 
células de cada camada se dividem, migram, 
se agregam e se diferenciam seguindo 
padrões bastante precisos ao formar os 
vários sistemas de órgãos. Os principais 
derivados das camadas germinativas são: 
 Ectoderma: dá origem ao SNC, ao 
sistema nervoso periférico, aos epitélios 
sensoriais do olho, orelha e nariz, à 
epiderme e aos seus anexos (pêlos e 
unhas), às glândulas mamárias, à 
hipófise, às glândulas subcutâneas e ao 
esmalte dos dentes. As células da crista 
neural, derivadas do neuroectoderma, 
dão origem às células dos gânglios 
espinhais, do crânio (nervos cranianos, V, 
VII, IX e X) e gânglios autônomos, além 
das células que formam as bainhas do 
sistema; 
 Mesoderma: dá origem ao tecido 
conjuntivo, cartilagem, osso, músculos 
estriados e lisos, coração, vasos 
sanguíneos e linfáticos, rins, ovários e 
testículos, duetos genitais, membranas 
serosas que revestem as cavidades do 
corpo, o baço e ao córtex das 
suprarrenais; 
 Endoderma: origina o revestimento 
epitelial dos tratos gastrointestinal e 
respiratório, o parênquima das tonsilas, 
das glândulas tireoide e paratireóides, do 
timo, do fígado e do pâncreas, o 
revestimento epitelial da bexiga e maior 
parte da uretra e ao revestimento epitelial 
da cavidade timpânica, do antro do 
tímpano e da tuba faringotimpânica 
(auditiva). 
 
O tubo neural forma-se em frente aos 
somitos, mas tem aberturas amplas nos 
neuroporo rostral (anterior) e caudal 
(posterior). Com 24 dias os arcos faríngeos 
são visíveis, com o primeiro (mandibular) e o 
segundo (hioideo) individualizados. A 
principal parte do primeiro arco dá origem à 
mandíbula, e uma extensão rostral do arco, 
a proeminência maxilar, contribui para a 
formação da maxila. O embrião está, agora, 
levemente encurvado por causa das pregas 
cefálica e caudal. O coração forma uma 
grande saliência ventral e bombeia sangue. 
Três pares de arcos faríngeos são visíveis 
aos 26 dias, e o neuroporo rostral já se 
fechou. O encéfalo anterior produz uma 
elevação saliente na cabeça, enquanto o 
dobramento do embrião lhe dá uma 
curvatura em C. Os brotos dos membros 
superiores tornam-se reconhecíveis aos 26 
ou 27 dias como pequenas intumescências 
na parede ventrolateral do corpo. As fossetas 
óticas, primórdios das orelhas internas, 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
também são visíveis. Nos lados da cabeça 
são visíveis espessamentos ectodérmicos, 
denominados placóides do cristalino, que 
indicam os futuros cristalinos dos olhos. O 
quarto par de arcos faríngeos e os brotos dos 
membros inferiores são visíveis no fim da 
quarta semana. Próximo ao fim da quarta 
semana, uma longa eminência caudal é uma 
característica típica. 
Rudimentos de muitos sistemas de órgãos já 
foram estabelecidos, principalmente do 
sistema cardiovascular. Ao fim da 4ª semana 
o neuroporo caudal encontra-se geralmente 
fechado. 
 
 
ULTRASSONOGRAFIA E IDADE GESTACIONAL: 
A determinação da idade gestacional é um 
dos pilares da medicina perinatal e 
obstétrica. Se a data da última menstruação 
(DUM) for conhecida, ela é empregada como 
base para esse cálculo, além de poder 
determinar a data provável do parto (DPP). 
Se a DUM for desconhecida, a idade 
gestacional pode ser estimada corretamente 
por ecografia/ultrassonografia (indicam o 
mesmo exame, mas a diferença está no fato 
de que o primeiro indica o efeito [formação 
de ecos] e o último faz menção à causa 
[ultrassom para formar ecos]) até a 22ª 
semana de gestação. 
 
Um melhor conhecimento da IG tem efeitos 
benéficos e evidentes na população, ao 
permitir o rastreio da restrição de 
crescimento intrauterino e ao evitar a falsa 
pós-maturidade, reduzindo assim o número 
de intervenções desnecessárias e 
orientando decisões médicas mais 
ajustadas. 
Vários métodos podem ser utilizados para 
calcular a idade gestacional, como: 
 História clínica: 
o DUM: 
Não é a forma mais fidedigna de 
cálculo, pois diversos fatores podem 
afetar a validade do método, como 
ciclos irregulares ou abandono recente 
(< 3 meses) de métodos 
contraceptivos orais. Em 10 a 45% das 
gestantes a DUM não é conhecida, 
seja pelos fatores supracitados ou pela 
realização de cálculos incorretos e uso 
faltoso de auxiliares de memória ou até 
mesmo pela inconstância dos ciclos 
menstruais com a contagem mensal, 
uma vez que esse padrão não é 
universal para todas as mulheres. 
Para calcular esse índice, utiliza-se a 
regra de Nagele, que consiste em 
adicionar à data daúltima 
menstruação 7 dias e mais 9 meses 
(ou menos 3 meses, quando se faz o 
cálculo para meses após abril). 
o Dosagem de a β-HCG; 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
o Dosagens hormonais e verificação da 
temperatura basal (determinação da 
ovulação); 
o Percepção materna dos movimentos 
fetais. 
 Exame físico: 
o Altura uterina; 
o Ausculta dos BCF. 
 Ultrassonografia; 
 Dados antropométricos pós-natais. 
Na primeira metade da gravidez, o 
crescimento fetal apresenta um padrão de 
desenvolvimento notavelmente constante, 
próprio da espécie, independente do sexo, 
do grupo étnico, das condições geográficas 
e socioeconômicas. Depois dessa altura, a 
variação do crescimento fetal está associada 
a intervalos de confiança maiores, 
diminuindo assim a precisão do cálculo da IG 
por ultrassonografia. 
A identificação do saco gestacional pode se 
dar desde após duas a três semanas de 
gravidez (ou quatro a cinco semanas de 
idade gestacional, visto que é um costume 
obstétrico se acrescentar ao tempo de 
gravidez as duas semanas que precedem a 
ovulação). Para este propósito, a ecografia 
obstétrica por via transvaginal é a mais 
indicada por possibilitar uma melhor 
formação da imagem. Além disso, essa 
técnica pode assegurar o número de 
gestações que se estão desenvolvendo, bem 
como a sua localização, usualmente 
intrauterina. 
 
É comum ser necessária a confirmação da 
viabilidade do embrião, principalmente na 
vigência de sangramento. Neste caso, a 
ecografia pode mostrar a atividade cardíaca 
do embrião a partir de 6 semanas quando 
utilizada a técnica transvaginal, ou a partir de 
7 semanas, se visualizado através da parede 
abdominal. 
Até 13 semanas, a idade da gravidez 
avaliada pela medida do comprimento 
cabeça-nádega (CCN) tem uma acurácia de 
± 5-7 dias. Se a US realizada nesse período 
tiver uma discrepância > 7 dias, a data da 
gravidez estimada pela última menstruação 
deve ser trocada pela idade sonográfica. 
Antes de 9 semanas uma discrepância maior 
que 9 dias é apropriada para alterar a data 
estimada da gravidez. 
Na gravidez muito precoce (< 5 semanas), a 
idade gestacional calculada por exames de 
imagem é imprecisa, baseada nos diâmetros 
médio ou máximo do saco coriônico: o 
diâmetro médio baseia-se na média das três 
medidas (diâmetro longitudinal, 
anteroposterior e transversal). No início da 
quarta semana, o diâmetro é de 2-3 mm, 
atingindo 9-10 mm quando a vesícula vitelina 
se toma visível. 
Uma vez identificado o embrião, o 
comprimento deste deve ser adotado como 
referencial para o cálculo da IG. Antes da 10ª 
semana o que se mede verdadeiramente é o 
comprimento fetal e não o comprimento 
cabeça-nádega (também chamado 
comprimento craniocaudal, CCC), que pode 
ser averiguado após esse marco por meio da 
curvatura embrionária. Um CCC medido 
entre as 9 e 14 semanas tem um erro 
máximo de cinco dias, possuindo uma 
acuidade superior ao diâmetro biparietal, 
medido no segundo trimestre, na 
determinação da idade gestacional, mas 
semelhante na estimativa da data provável 
do parto. 
 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
A idade gestacional por ultrassonografia no 
2º trimestre é fornecida pelo diâmetro 
biparietal (DBP) ou pelo comprimento do 
fêmur (CF). Entre 14 e 21 semanas a 
acurácia é de ± 10 a 14 dias. A idade da 
gravidez estimada pelo exame deste período 
não deve ser trocada se diferir daquela 
referida pela ecografia de 1º trimestre. 
 
Ultrassom evidenciando o diâmetro biparietal (avalia o 
diâmetro entre os ossos parietais) 
A idade da gravidez estimada pelo ultrassom 
de 3 o trimestre (28 semanas em diante), 
também avaliada pelo DBP ou pelo CF, é a 
mais imprecisa, com acurácia de ± 21 a 30 
dias. 
 
Ultrassom evidenciando comprimento do fêmur fetal 
Considerando o atual conceito do termo da 
gravidez (37 semanas + 0 dias a 41 semanas 
+ 6 dias) adotado pela OMS, seguem as 
novas definições sobre o tema: 
 Termo-precoce: 37 semanas e 0 dias a 
38 semanas e 6 dias; 
 Termo-completo: 39 semanas e 0 dias a 
40 semanas e 6 dias; 
 Termo-tardio: 41 semanas e 0 dias a 41 
semanas e 6 dias; 
 Pós-termo: ≥42 semanas. 
O PAPEL DO ÁCIDO FÓLICO NA GESTAÇÃO: 
O ácido fólico, folacina ou ácido pteroil-L-
glutâmico é uma vitamina hidrossolúvel 
pertencente ao complexo B, também 
conhecido como vitamina B9 ou vitamina M. 
Apresenta papel fundamental no processo 
de multiplicação celular, na formação de 
proteínas estruturais e da hemoglobina. 
O folato é a forma natural encontrada nos 
alimentos, predominantemente, em vegetais 
de folhas verde-escuras, couve, brócolis, 
aspargos, espinafre, feijão, lentilha, grão-de-
bico, amendoim, ervilha, milho, morango, 
kiwi, suco de laranja e fígado, porém, o 
cozimento prolongado pode destruir até 90% 
do conteúdo de folato desses alimentos. O 
ácido fólico, por sua vez, representa a versão 
sintética do folato, utilizada como 
suplemento nutricional e fortificante de 
alimentos, podendo ser transportado através 
de membranas. 
No adulto normal, a necessidade diária 
mínima tem sido estimada em 50 µg, 
enquanto a mulher grávida ou em lactação e 
os pacientes com altas taxas de renovação 
celular (anemia hemolítica) podem 
necessitar de até 100 a 200 µg por dia, ou 
mais. 
O folato interfere no aumento do volume dos 
eritrócitos, das células miometriais do útero 
gravídico e do crescimento da placenta e do 
feto. Atua como coenzima no metabolismo 
de aminoácidos, na síntese de purinas e 
pirimidinas e dos ácidos nucleicos (DNA e 
RNA), sendo vital para a divisão celular e 
síntese proteica. 
Uma fonte exógena de folato é necessária 
para a síntese de nucleoproteínas e 
manutenção da eritropoiese normal. O ácido 
fólico não é ativo como tal, mas o precursor 
do ácido tetrahidrofólico, envolvido como co-
fator na transferência de C-1 na biossíntese 
de purinas e timidinas dos ácidos nucléicos. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Falha na síntese de timidilato em pacientes 
com deficiência de ácido fólico dificulta a 
síntese de DNA, levando à formação de 
anemias megaloblástica e macrocíticas. 
O ácido fólico é absorvido rapidamente pelo 
trato intestinal, principalmente na porção 
proximal do intestino delgado. Após 
absorção, o ácido fólico é reduzido e 
metilado no fígado em ácido metiltetra-
hidrofólico, a principal forma de transporte do 
folato no corpo. O ácido tetra-hidrofólico e 
seus derivados são distribuídos a todos os 
tecidos, mas o fígado contém cerca da 
metade do total de folato armazenado. Esse 
nutriente é ativamente concentrado no 
líquido cérebro-espinhal e distribuído no leite 
materno. 
A deficiência de vitamina B9 manifesta-se 
em diversos graus, atribuídos a uma miríade 
de causas, como dieta pobre em 
carboidratos (pães e massas são feitas com 
cereais enriquecidos), uso de alguns 
medicamentos, consumo elevado de 
alimentos orgânicos (não são 
suplementados com ácido fólico), e 
condições médico-cirúrgicas associadas à 
má absorção desse nutriente, como 
observado em pacientes com doença de 
Crohn ou após ressecção intestinal. 
Casos de depleção de folato podem impedir 
a renovação celular adequada durante o 
processo de fechamento do tubo neural 
embrionário, culminando em sua formação 
incompleta. (defeito aberto do tubo neural – 
DATN). 
O DATN inclui anencefalia, espinha bífida 
aberta (mielomeningocele) e a encefalocele, 
que têm incidência em torno de 1 a cada mil 
nascimentos. 
A anencefalia (acrania) é um defeito 
caracterizado pela ausência da calota 
craniana e da pele que a recobre, de tal 
modo que o tubo neural da porção craniana 
é exposto e há degeneração secundária do 
encéfalo. Esse grave defeito é incompatível 
com a vida extrauterina, fazendo com que a 
maioria dos óbitos ocorra no útero ou poucas 
horasapós o parto. 
A espinha bífida aberta (mielodisplasia ou 
mielomeningocele) caracteriza-se pela 
ausência do arco neural e da pele que o 
recobre, com lesão secundária dos nervos 
expostos. 
 
A encefalocele é um defeito craniano que 
geralmente ocorre na região occipital, com 
herniação cística preenchida por líquido ou 
tecido cerebral. 
 
A deficiência de ácido fólico pode determinar 
o acúmulo sérico de homocisteína, podendo 
associar-se à síndrome hipertensiva da 
gestação, ao descolamento prematuro de 
placenta, a abortamentos espontâneos de 
repetição, a partos prematuros, ao baixo 
peso ao nascer, à restrição de crescimento 
fetal, a algumas doenças crônicas 
cardiovasculares, cerebrovasculares, 
demência e depressão. Estudos evidenciam 
que a ingestão de ácido fólico possa diminuir 
o risco de cânceres infantis, com redução de 
60% na incidência de neuroblastoma, tumor 
de origem embrionária apontado como o 
mais prevalente tumor sólido extracraniano 
em crianças. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Quanto às anomalias congênitas, há 
consenso na literatura de que a reposição 
periconcepcional de ácido fólico previne o 
DATN, sendo motivo de controvérsia em 
relação a outras anomalias, incluindo 
cardiopatias congênitas, anomalias do trato 
urinário, fendas faciais, defeitos nos 
membros e estenose pilórica. 
Mulheres que utilizaram ácido fólico em dose 
diária de 400 µg por mais de 12 meses antes 
da concepção tiveram redução de 70% da 
incidência de partos entre 28 e 30 semanas, 
de 50% entre 30 e 32 semanas e de 34% na 
incidência de rotura prematura das 
membranas antes de 32 semanas de 
gestação, quando comparadas às mulheres 
que não o utilizaram. Informar às mulheres 
em idade fértil sobre a importância do ácido 
fólico e encorajá-las a aumentar seu 
consumo provavelmente seja a mais 
relevante indicação da suplementação 
periconcepcional do ácido fólico sintético, 
uma vez que se associa com significativa 
melhora dos indicadores de saúde materna e 
neonatal, influenciando diretamente na 
saúde da família e da sociedade. 
No Brasil, a Agência de Vigilância Sanitária, 
por meio da resolução da diretoria colegiada 
nº 344, tornou obrigatória a adição de ferro e 
de ácido fólico nas farinhas de trigo e nas 
farinhas de milho pré-embaladas na 
ausência do cliente e prontas para oferta ao 
consumidor, as destinadas ao uso industrial, 
incluindo as de panificação e as farinhas 
adicionadas nas pré-misturas, devendo cada 
100 g de farinha de trigo e de farinha de milho 
fornecer no mínimo 4,2 mg de ferro e 150 µg 
de ácido fólico. 
No entanto, a maioria das mulheres em idade 
fértil não consome diariamente quantidade 
suficiente de ácido fólico para proteger sua 
gestação contra esse grave defeito 
congênito. Assim, para obter a quantidade 
diária recomendada de ácido fólico, a maioria 
das mulheres terá de mudar seus hábitos 
alimentares, o que pode causar 
incompatibilidade com seu estilo de vida. 
Igualmente, além de a biodisponibilidade do 
folato ser afetada por vários fatores, 
incluindo o fato de o alimento ser cru ou 
cozido, a forma como ele é preparado, a 
combinação de alimentos consumidos e 
fatores locais do hospedeiro, a 
biodisponibilidade do ácido fólico sintético 
parece ser substancialmente superior à do 
folato de alimentos naturais. A 
suplementação prescrita para gestantes é de 
0,4 mg por dia, enquanto mulheres com 
história de gestação com DATN devem fazer 
uso de 4 mg diárias do composto, 1 mês 
antes e nos 3 primeiros meses da nova 
gravidez. 
Nota-se que a suplementação regular com 
ácido fólico sintético para todas as mulheres 
em idade fértil com risco potencial para 
engravidar deve ser considerada, pois tal 
ação maximizará as chances de uma 
gravidez saudável e minimizará a 
possibilidade de ter uma criança com DATN. 
Os riscos da suplementação de ácido fólico 
durante a gestação recaem mais sobre 
interações medicamentosas, reações 
alérgicas e efeitos cancerígenos, além de 
poder mascarar um quadro de deficiência de 
vitamina B12 (o que não é comum em 
mulheres na idade fértil). 
FATORES DE RISCO PARA DEFEITOS ABERTOS DO 
TUBO NEURAL: 
95% das mulheres que tiveram gestações 
afetadas por crianças com DATN não 
apresentam história familiar ou pessoal 
positiva, mas alguns fatores de risco são 
bem conhecidos, como: 
 História anterior de filho diagnosticado 
com DATN; 
 Uso de medicações anticonvulsivantes; 
 Baixo nível socioeconômico; 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 Diabetes insulinodependente; 
 Uso de medicamentos antagonistas de 
folato; 
 Obesidade; 
 Síndromes de má absorção; 
 Exposição a altas temperaturas no início 
da gravidez (ex.: febre alta); 
 Etnia (mais prevalente em mulheres 
caucasianas do que negras, e mais 
comum em hispânicas que em mulheres 
não latinas). 
PROBLEMA 3 - ABERTURA: 
EMBRIOGÊNESE ENTRE A 5ª E A 8ª SE MANA DE 
GESTAÇÃO: 
QUINTA SEMANA: 
As mudanças que ocorrem nesse período 
são menores que aquelas observadas na 
semana anterior, entretanto o crescimento 
da cabeça excede o das demais regiões. 
Esse aumento é causado principalmente 
pelo desenvolvimento encefálico e das 
proeminências faciais. 
A face entra em contato com a proeminência 
cardíaca. O segundo arco faríngeo cresce 
rapidamente sobre o terceiro e quarto arcos, 
formando uma depressão ectodérmica 
lateral em ambos os lados, o seio cervical. As 
cristas mesonéfricas indicam o local dos rins 
mesonéfricos, que, nos seres humanos, são 
órgãos provisórios. 
 
SEXTA SEMANA: 
Nesse período, o embrião apresenta 
resposta reflexa ao toque. O 
desenvolvimento dos cotovelos e das placas 
das mãos fazem com que os membros 
superiores comecem a expressar uma 
diferenciação regional perante o resto do 
corpo, o que também ocorre com os raios 
digitais, primórdios precursores dos dedos. O 
desenvolvimento dos membros inferiores 
ocorre de 4 a 5 dias após o dos membros 
superiores. 
Embriões mostram movimentos 
espontâneos, com contrações musculares 
ocorrendo principalmente nos membros e no 
tronco. 
Várias intumescências pequenas, 
denominadas saliências auriculares, 
desenvolvem-se em torno da fenda faríngea, 
entre os dois primeiros arcos faríngeos. Esse 
sulco irá compor futuramente o meato 
acústico externo, ao passo que as elevações 
periféricas se fundem, formando o pavilhão 
auricular (orelha, porção em forma de 
concha). 
Nesse período o olho já se mostra bem 
evidente, principalmente pelo surgimento do 
pigmento da retina. A cabeça é muito maior 
que o tronco, apresentando-se encurvada 
sobre a proeminência cardíaca, fenômeno 
oriundo da flexão da região cervical. Tronco 
e pescoço começam a se endireitar. 
Os intestinos penetram no celoma 
extraembrionário na região proximal do 
cordão umbilical. Essa herniação é 
fisiológica, e ocorre devido ao tamanho 
reduzido da cavidade abdominal para 
comportar o intestino em amplo crescimento. 
 
SÉTIMA SEMANA: 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Essa etapa da organogênese embrionária 
promove mudanças consideráveis nos 
membros. Chanfraduras aparecem entre os 
raios digitais das placas das mãos, 
remetendo claramente aos dedos que se 
desenvolverão. 
O intestino e o saco vitelino têm sua 
comunicação reduzida a um ducto estreito, o 
pedículo vitelino. Ao fim dessa semana já foi 
deflagrado o processo de ossificação dos 
membros superiores. 
 
OITAVA SEMANA: 
No começo da última semana do período 
embrionário, os dedos da mão já estão 
separados, porém uma membrana ainda 
ocupa os espaços interdigitais. Sulcos são 
vistos entre os raios digitais dos pés, e a 
eminência caudal ainda é perceptível, 
mesmo que mais curta, regredindo até que 
desapareça antes da fase fetal. 
 
No término da 8ª semana, todas as regiões 
dos membrossão evidentes, os dedos e 
mostram mais compridos e completamente 
afastados. 
O plexo vascular do couro cabeludo já se 
encontra presente, formando uma faixa 
característica que envolve a cabeça do 
embrião. 
Nesse período ocorrem também os primeiros 
movimentos voluntários de MMSS e MMII, 
sendo que a ossificação desses últimos 
começa pelo fêmur. As mãos e os pés 
aproximam-se ventralmente uns dos outros. 
Nesse estágio, o embrião já possui 
características marcadamente humanas, 
mas a cabeça ainda é desproporcionalmente 
grande, representando quase metade do 
embrião. A região do pescoço se encontra 
mais bem definida e as pálpebras são mais 
demarcadas, começando a unirem-se por 
fusão epitelial. 
Os intestinos ainda estão na porção proximal 
do cordão umbilical. Os pavilhões auriculares 
começam a assumir sua forma final. Apesar 
de já existirem diferenças entre os sexos na 
aparência da genitália externa, elas não são 
suficientemente distintas para possibilitar 
uma identificação precisa do sexo. 
 
ETIOLOGIA, MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E 
DIAGNÓSTICO DOS TIPOS DE ABORTO: 
O abortamento pode ser definido como a 
interrupção da gravidez antes que o 
concepto seja viável para a vida extrauterina. 
A OMS, por sua vez, classifica o aborto como 
a expulsão ou extração do feto antes da 20ª 
semana de gestação ou com menos de 
500g. 
O aborto pode ser classificado de duas 
maneiras distintas, a saber: 
 Intenção: pode ser espontâneo (sem 
ação deliberada de qualquer natureza) ou 
induzido/provocado (resultante de 
interferência intencional antes de 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
alcançadas as condições mínimas de 
sobrevivência extrauterina); 
 Cronologia: denomina-se aborto precoce 
aquele que ocorre até a 12ª semana de 
gestação, e aborto tardio se a ocorrência 
se der entre a 12ª e a 20ª semana. 
ETIOLOGIA DO ABORTAMENTO: 
O aborto, mais corretamente denominado 
como abortamento, apresenta diversas 
causas, desde alterações cromossômicas 
até o consumo de álcool na gravidez. 
ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS: 
A maior parte dos abortos se dá antes das 12 
semanas de gestação, e 50 a 80% deles 
apresentam alguma alteração a nível 
cromossômico, proporção esta que diminui 
com a evolução do ciclo gravídico. 
A trissomia autossômica é a alteração mais 
frequente ligada ao abortamento espontâneo 
no 1º trimestre, constituindo metade dos 
casos de perda gestacional de origem 
genética, afetando principalmente os 
cromossomos 16, 22, 21, 15, 13, 2 e 14. 
Erros durante a meiose II são a principal 
explicação para a ocorrência das trissomia, 
relacionando-se intimamente à idade 
materna avançada e seu impacto na 
diminuição da recombinação meiótica. 
A monossomia do cromossomo X é a 
segunda causa de modificação 
cromossômica que gera abortamentos, 
presente em cerca de 7 a 10% dos 
abortamentos precoces. A quase totalidade 
dos casos dessa monossomia (99%) 
evoluem para o aborto, sendo correlacionada 
principalmente à falta de um cromossomo 
sexual no gameta masculino, não existindo 
correlação com a idade da mãe. 
Triploidias estão relacionadas a um saco 
gestacional desproporcionalmente grande, 
com degeneração parcial das vilosidades 
coriônicas e hiperplasia do trofoblasto. O feto 
pode manifestar defeitos no tubo neural, 
dimorfismo facial, fenda labial e sindactilia. 
Os abortamentos triploides são geralmente 
relacionados a cariótipos do tipo 69 XXY ou 
69 XXX, e originam-se da fecundação por 
dois espermatozoides (dispermia) ou por um 
espermatozoide que duplica seu genoma. 
Ocorrências de tetraploidia são muito raras, 
e a gestação normalmente não progride para 
além da 3ª semana. 
Em situações de abortamento habitual, 3 a 
5% dos casais possuem alguma alteração 
cromossômica, principalmente aquelas 
relacionadas a translocação, inversões e 
mosaicismo do cromossomo X. A frequência 
de alterações cromossômicas em casais 
com abonamento habitual parece ser maior 
em mulheres jovens e com pais e irmãos 
afetados. 
A avaliação do cariótipo com bandeamento 
cromossômico do casal e do abono deve ser 
realizada em casos de abortamento habitual 
em que as perdas recorrentes são precoces. 
Em relação ao tratamento do fator 
cromossômico, de acordo com o diagnóstico 
propõe.se a fertilização in vitro, podendo-se 
utilizar o diagnóstico genético pré-
implantação ou a doação de gametas. 
ALTERAÇÕES ENDÓCRINAS: 
 Defeitos durante a fase lútea: 
A implantação do óvulo em endométrio mal 
preparado pela produção deficitária de 
progesterona pelo corpo lúteo já foi muito 
associada à ocorrência de abortos 
espontâneos e habituais, mas atualmente é 
considerada uma causa pouco provável para 
a perda gestacional. O diagnóstico é 
realizado por biópsias do endométrio e 
dosagem sérica de progesterona, ambos 
apresentando deficiências em seu método. 
 Diabetes mellitus: 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
A taxa de abortamentos é mais elevada em 
mulheres com DM tipo 1 que não se 
encontram metabolicamente controladas ao 
início da gestação, risco este que não se 
repete para aquelas compensadas ou em 
quadro sub clínico. 
 Tireopatias: 
Mulheres com alguma forma de tireopatia 
têm taxas de perdas gestacionais mais 
elevadas, no entanto a associação desse 
quadro com anticorpos antitireoidianos ou o 
uso dessas imunoglobulinas para tratamento 
ainda não encontra embasamento científico. 
 Síndrome dos Ovários Policísticos: 
Cerca de 10% das mulheres em idade fértil 
são afetadas por essa condição, que está 
associada tanto a abortos espontâneos 
quanto habituais. Os possíveis mecanismos 
que justificam essa correlação são a maior 
resistência à insulina, que causa elevação do 
LH, obesidade e hiperandrogenismo. 
INFECÇÕES: 
Infecções maternas de origem bacteriana ou 
viral podem causar abortamento por lesões 
da decídua, da placenta, das membranas 
ovulares e do próprio concepto. Essa 
associação é clara para mulheres 
acometidas pelo Treponema pallidum 
(sífilis), mas não há relações causais tão 
bem estabelecidas para outros agentes 
etiológicos. 
CAUSAS UTERINAS: 
A presença de aderências intrauterinas pode 
afetar a implantação ovular, o que justifica o 
percentual de 15 a 30% das mulheres 
acometidas por esse quadro desenvolverem 
aborto de repetição. Para se evitar a 
formação de novas aderências após 
cauterização cirúrgica, preconiza-se a 
inserção de DIU ou administração de 
estrogênio (proliferação endometrial). 
Miomas uterinos e gravidez estão 
frequentemente associados, sendo mais 
relevante a localização do pólipo do que seu 
tamanho, sendo os miomas intramurais e 
submucosos os mais relacionados à 
presença de abortamentos. Em 
consequência do mioma, podem ocorrer 
deciduação deficiente na região de 
implantação do ovo e rápido crescimento 
tumoral, resultado dos hormônios produzidos 
na gestação, que pode culminar na liberação 
de citocinas, que contraem o útero e 
provocam perda gestacional. 
A incompetência cervical é uma condição 
que se caracteriza por perda fetal recorrente 
no segundo trimestre da gravidez, em 
consequência de insuficiência do sistema de 
oclusão do colo uterino. Essa inabilidade do 
colo uterino em manter-se 
convenientemente ocluído pode ser 
consequente a um defeito estrutural ou 
funcional. Geralmente ocorre dilatação 
cervical indolor, ausência de sangramento, 
protrusão das membranas ovulares na 
vagina e posterior rotura de membranas, 
seguida de expulsão fetal, na maioria das 
vezes com produto conceptual ainda vivo. 
Essa incompetência cervical pode ser 
causada por traumas, lacerações, 
curetagem ou até mesmo por alterações 
congênitas. O tratamento clássico da 
incompetência cervical é a realização da 
cerclagem do colo uterino, sutura circular 
que impede o encurtamento ou a abertura 
dessa estrutura uterina. 
FATORESIMUNOLÓGICOS: 
 Causas autoimunes: 
Os anticorpos antifosfolipídicos estão 
implicados em várias complicações 
obstétricas, como abonamento habitual, 
restrição do crescimento fetal (RCF), 
prematuridade, doença hipertensiva 
específica da gestação, descolamento 
prematuro de placenta (DPP) e óbito fetal. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Os anticorpos antifosfolipídicos são famílias 
heterogêneas de imunoglobulinas C (IgC) e 
M (lgM) e, menos frequentemente, 
imunoglobulina A (lgA), que reagem contra 
fosfolípides de membrana carregados 
negativamente ou contra as proteínas 
ligadas a fosfolípides envolvidos com a 
coagulação. Os anticorpos antifosfolipídicos 
são responsáveis por fenômenos 
trombóticos, tanto arteriais como venosos, e 
encontram-se presentes entre 15 e 20% das 
mulheres com abortamento habitual. O 
mecanismo exato pelo qual esses anticorpos 
causam abonamento ainda não está 
completamente esclarecido. 
 Causas aloimunes: 
A teoria aloimune para abortamentos de 
repetição baseia-se em resposta materna 
anormal para antígenos paternos, ou do 
trofoblasto. Partindo-se do princípio de que a 
desigualdade antigênica entre mãe e feto é 
fundamental para o progredir da gestação, 
na presença de histocompatibilidade 
materno-fetal exagerada pode ocorrer uma 
resposta imunológica alterada e paradoxal 
(agressora), ocasionando rejeição materna 
aos tecidos fetais, semelhante ao observado 
em transplantes. Esse descontrole do 
mecanismo imune normal provavelmente 
ocorre na interface materno-fetal, podendo 
envolver aumento de atividade de células NK 
uterinas, que regulam o crescimento da 
placenta e do trofoblasto, a imunomodulação 
local e o controle da invasão trofoblástica. 
TROMBOFILIAS HEREDITÁRIAS: 
Consistem em trombofilias (alterações que 
tornam o indivíduo mais propenso à 
trombose) hereditárias as deficiências da 
antitrombina e das proteínas C e Se as 
mutações do gene da protrombina, do fator V 
de Leiden e dos genes da enzima 
metilenotetraidrofolato redutase. As 
associações desse quadro com o 
abortamento ainda são controversas. 
USO DE AGENTES NOCIVOS: 
 Tabagismo: 
A associação entre tabagismo e abortamento 
foi alvo de diversos estudos, e percebe-se 
que mulheres que fumam mais de 10 
cigarros por dia apresentam maior risco de 
abortamento, originado da vasoconstricção e 
dos danos placentários induzidos pelo 
tabaco. 
 Consumo de álcool: 
Alguns estudos associam de forma 
inconsistente o consumo moderado ou 
excessivo de álcool durante a gestação com 
um maior risco de abortamentos. Mesmo 
com a dificuldade em interpretar os 
resultados, gestantes devem evitar a 
ingestão de bebidas alcoólicas por seus 
efeitos teratogênicos. 
 Consumo de cafeína: 
Não pode ser correlacionado de forma 
concreta ao aborto, mas alguns estudos 
relatam que mulheres que consomem mais 
de 500mg/dia de cafeína elevam o risco de 
perda gestacional. 
TRAUMA: 
Normalmente, atribui-se a ocorrência de 
abortamentos a alguma forma de trauma, 
seja por queda ou trauma abdominal direto. 
Essa ligação, no entanto, é dificultada no 
primeiro trimestre, uma vez que o embrião se 
encontra protegido de impactos no abdome, 
distanciando associações diretas com 
acidentes de baixa gravidade. 
No trauma grave, por sua vez, o produto 
conceptual pode enfrentar trauma direto ou 
ainda sofrer consequências danosas em 
função do esta· do hemodinâmico materno. 
FORMAS CLÍNICAS DO ABORTAMENTO: 
AMEAÇA DE ABORTAMENTO: 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Consiste fundamentalmente em hemorragia, 
que indica anomalia decidual e/ou 
descolamento do ovo, e dor, sinal de que o 
útero está se contraindo. 
 
Esquema que representa a placentação no 1º trimestre da 
gravidez normal (A) e no abortamento (B), com formação 
de tampões e invasão placentária mais acentuadas em A 
De modo geral, o fluxo sanguíneo na fase de 
ameaça é menor do que na interrupção 
inevitável. Os sangramentos precoces, de 
longa duração, escuros e do tipo “borra de 
café” são considerados mais sérios. 
Aproximadamente 30% das gestações 
apresentam sangramento no 1º trimestre, e 
metade delas resultam em aborto. 
As dores precedem, acompanham e 
normalmente sucedem a hemorragia. São 
provocadas por metrossístoles fugazes e 
intermitentes. Contrações regulares, como 
as do trabalho de parto, espelham processo 
irreversível. 
O exame físico confirma o útero aumentado 
(volume proporcional à IG), mas o toque não 
fornece muitas informações por não 
existirem mudanças cervicais. O exame 
especular pode afastar causas ginecológicas 
da hemorragia. 
DIAGNÓSTICO: 
Na ultrassonografia, não há alterações 
significativas (pode ser empregada para 
excluir possibilidade de gravidez ectópica por 
via transvaginal): o saco gestacional 
encontra-se íntegro e, caso haja embrião 
maior que 5 mm, é possível visualizar 
batimentos cardíacos embrionários. Quando 
ainda não há achado ultrassonográfico, 
pode-se lançar mão da dosagem quantitativa 
de β-HCG. De modo geral, quando esse 
hormônio está maior que 1.500 a 
2.000mUI/ml, deve haver saco gestacional 
intrauterino. Além disso, em uma gestação 
normal, os valores de hCG aumentam 66% a 
cada 48 horas. 
Os sinais ultrassonográficos de mau 
prognóstico são saco gestacional irregular, 
frequência cardíaca fetal abaixo de 100 
batimentos por minuto entre 5 e 7 semanas 
e hematomas subcoriônicos maiores que 
25% do diâmetro do saco gestacional. Na 
vigência desses achados, a ultrassonografia 
deve ser repetida dentro de 7 a 10 dias. 
 
ABORTAMENTO INEVITÁVEL: 
Nos casos onde a amenorreia é recente e o 
ovo, pequeno, o processo pode ser 
confundido com menstruação, distinguindo-
se pelo maior volume de sague, e pela 
presença de embrião e decídua à análise do 
material eliminado. Esse mecanismo é raro 
após 8 semanas (cório fixa o embrião à 
decídua), sendo que após esse marco as 
características passam a ser gradualmente 
semelhantes com aquelas do trabalho de 
parto. 
O diagnóstico é claro, pois geralmente o 
episódio é precedido por ameaça de aborto, 
sendo raras as manifestações iminentes de 
expulsão. As hemorragias são mais 
abundantes, e o sangue tem cor mais viva. 
O volume do útero corresponde à data da 
amenorreia, exceto quando a morte do ovo é 
antiga. O colo mostra-se permeável, 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
notando-se as membranas herniadas pelo 
orifício externo na cavidade uterina. A 
presença de quadro clinico inconfundível 
anula a necessidade de exames 
complementares. 
 
DIAGNÓSTICO: 
Em alguns casos, percebe-se a presença de 
material ovular ao exame físico ginecológico 
e o colo aberto, com sangramento e cólicas. 
É aquele caso em que a paciente chega ao 
atendimento eliminando o material, porém 
ainda não o fez por completo, também 
chamado por alguns de abortamento em 
curso. A comprovação diagnóstica é feita 
pelo encontro de restos ovulares na 
ultrassonografia. 
 
ABORTAMENTO COMPLETO: 
Frequente até a 8ª semana de gestação. É 
considerado abortamento completo aquele 
no qual a expulsão do ovo é acompanhada 
por término das cólicas e redução do 
sangramento a níveis discretos, sendo 
necessário acompanhar a evolução do caso 
para um diagnóstico completo. 
 
ABORTAMENTO INCOMPLETO: 
Relaciona-se com a eliminação parcial do 
embrião, que causa hemorragia persistente 
e intensifica os riscos de infecção. 
O abortamento incompleto é comum após 8 
semanas de gestação, quando as 
vilosidades coriônicas ficam aderidas ao 
útero. Nos abortamentos tardios, a paciente 
consegue distinguir estruturas secundárias e 
o concepto e, geralmente, informa a 
eliminação apenas do feto. 
O sangramento não cessa, é intermitente, 
pode ser intenso, e ocorre porque os restos 
ovulares impedem a contração uterina 
adequada. As cólicaspersistem. 
 
O útero, amolecido, tem volume aumentado, 
mas o escoamento do líquido amniótico e, 
comumente do feto, reduz suas dimensões, 
que não são as previstas pela idade da 
gravidez. O colo está entreaberto 
ABORTAMENTO INFECTADO: 
Esse tipo de aborto geralmente é decorrente 
de interrupções gestacionais realizados em 
ambientes com más condições técnicas, mas 
esta não é sua única etiologia, podendo estar 
relacionado também com abortamentos 
espontâneos, sendo sua causa esclarecida 
pela anamnese. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Os microrganismos causadores são os 
existentes na flora do sistema genital e dos 
intestinos: cocos anaeróbios, E. coli, 
bacteroides, Clostridium perfringens, entre 
outros. 
Clinicamente, pode ser classificado em três 
formas: 
 I – Endo(mio)metrite: 
Mais comum, a infecção se limita ao 
conteúdo da cavidade uterina, à decídua e, 
provavelmente, ao miométrio. 
Sua sintomatologia assemelha-se à do 
abortamento completo ou incompleto. São 
observadas pequenas elevações térmicas 
(pouco maior que 38ºC), dores discretas e 
bom estado geral. Não há sinais de irritação 
peritoneal, e tanto a palpação do abdome 
como o toque vaginal são tolerados. 
Hemorragia escassa é a regra; 
 II – Pelviperitonite: 
A infecção progride, agora localizada no 
miométrio e nas estruturas secundárias, 
afetando todo o peritônio pélvico. 
A hemorragia não é fator relevante, pois o 
sangue escorre junto a líquido sanioso, de 
odor fecaloide, com presença de 
microrganismos anaeróbios. 
Se um abortamento incompleto suceder a 
infecção, como é usual, eliminam-se 
fragmentos do ovo. A temperatura está em 
torno de 39°C e o estado geral está afetado, 
com taquicardia, desidratação, paresia 
intestinal, anemia, e dores constantes e 
espontâneas. A defesa abdominal está 
limitada ao hipogástrio e não se estende ao 
andar superior do abdome. 
O exame pélvico é praticamente impossível, 
tal a dor despertada. Feito muito 
delicadamente, nota-se útero amolecido, 
mobilidade reduzida e paramétrios 
empastados. O colo costuma estar 
entreaberto. 
 III – Peritonite: 
É a forma extremamente grave, com 
infecção generalizada. As condições da 
genitália são as mesmas da forma anterior. 
Há peritonite, septicemia e choque séptico, 
decorrentes, em geral, do acometimento por 
gram-negativos e demais microrganismos, 
sendo o acometimento por Clostridium mais 
grave por levar possivelmente a um quadro 
de síndrome do choque tóxico induzida por 
exotoxinas (insuficiência generalizada de 
órgãos por vazamento capilar). 
Temperatura elevada, mas, nem sempre, 
pulso rápido, filiforme, hipotensão arterial, 
abdome distendido, desidratação acentuada, 
oligúria e icterícia, são sinais gerais. Em 
outras pacientes, há endocardite, miocardite 
e subsequente falência do órgão. 
Tromboflebite pélvica e embolia pulmonar 
podem ser encontradas. 
As condições hemodinâmicas e infecciosas 
conduzem à infecção renal aguda. São 
comuns abscessos no fundo de saco 
posterior, entre as alças e os apêndices 
epiploicos, retroperitoneais, sub-hepáticos e 
subdiafragmáticos. 
ABORTAMENTO RETIDO: 
No abortamento retido, o útero retém o ovo 
morto por dias ou semanas, podendo ou não 
ocorrer sangramento vaginal. 
O útero mantém-se estacionário e pode até 
diminuir. A ultrassonografia não exibe BCF 
após o embrião ter atingido ≥ 7 mm ou o SG 
for ≥ 25 mm e embrião estiver ausente (ovo 
anembrionado). 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 
Nas retenções superiores a 4 semanas os 
distúrbios de hemocoagulação são as 
complicações mais temidas. 
DIAGNÓSTICO: 
O diagnóstico definitivo de abortamento 
retido deve ser sempre confirmado por duas 
ultrassonografias espaçadas de 7 a 10 dias. 
ABORTAMENTO HABITUAL: 
O abortamento habitual ou recorrente é 
definido como a perda de duas ou mais 
gestações, tendo uma grande variação 
causal, com cerca de 75% dos casais com 
abortamento habitual apresentam pelo 
menos um fator etiológico dentre alterações 
genéticas, anatômicas, endócrinas, 
infecciosas e imunológicas. 
DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS: 
Os principais diagnósticos diferenciais do 
abortamento são as outras síndromes 
hemorrágicas do primeiro trimestre da 
gravidez: gestação ectópica e doença 
trofoblástica gestacional. 
No caso de gravidez ectópica, a suspeita 
diagnóstica é feita quando o β-HCG é 
positivo e não há achado de gestação 
intrauterina. Níveis de β-HCG maiores que 
1.500 a 2.000 mUI/ml obrigatoriamente 
devem cursar com achado de saco 
gestacional tópico. 
A gestação molar é caracterizada por 
sangramento, útero habitualmente maior do 
que o esperado para idade gestacional e 
achado de vesículas à ultrassonografia. O 
diagnóstico é confirmado pelo 
anatomopatológico do material de 
abortamento. 
EPIDEMIOLOGIA E PROTOCOLO DE ATENDIMENTO 
EM CASO DE ABORTO: 
As discussões sobre o aborto são extensas 
e antigas, envolvendo diversos tópicos 
controversos como se e quando a 
interrupção da gestação deve ser permitida, 
quais situações justificariam esse ato ou, até 
mesmo, quando se inicia a vida. Nesse 
debate, valores como poder, igualdade, 
direitos, liberdade, fé e autonomia são muito 
utilizados para a formação de opinião. 
Para a saúde pública, o aborto pode ser 
classificado em três grandes tipos: 
espontâneo/induzido, legal/ilegal e 
seguro/inseguro. Esses fatores devem ser 
conhecidos e compreendidos pelos 
profissionais de saúde para o exercício de 
suas funções cotidianas, mas ainda assim há 
discrepâncias no acesso às unidades de 
saúde e no atendimento recebido de acordo 
com o tipo de perda gestacional. 
Esse julgamento, face a casos de 
abortamento induzido, pode ser 
exteriorizado por questionamento moral ou 
denúncia policial pelo atendente. No que se 
refere ao aborto legal, além do julgamento 
moral, há a questão do difícil acesso devido 
a uma rede de serviços pequena, 
despreparada e pouco articulada. 
Estima-se que, a cada ano, cerca de 230 mil 
mulheres internem pelo SUS em decorrência 
de abortos inseguros e, além disso, o 
abortamento tem sido uma das principais 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
causas de óbito materno no Brasil nos 
últimos anos, justificando seu status de 
problema de saúde pública. 
Em relação ao abortamento espontâneo, a 
Bahia relatou, em 2019, 8.510 notificações, 
com maior prevalência entre os 20-29 anos, 
com 3.550 casos. As regiões de saúde com 
mais registros foram Salvador (2.365 casos), 
Feira de Santana (821), e Juazeiro (675). O 
grupo étnico mais acometido foi o de pardas, 
com 5.413 notificações. 
A Pesquisa Nacional de Aborto de 2016 
mostra que 13% das 2.002 entrevistadas de 
18 a 39 anos, todas elas residentes em área 
urbana e alfabetizadas, já realizaram ao 
menos um abortamento ao longo da vida. 
Projetando o percentual encontrado na 
pesquisa, seriam 503 mil mulheres 
praticando abortos no Brasil em 2015. 
Essa pesquisa também mostrou que 
mulheres de todas as classes sociais, níveis 
educacionais, idades e religiões recorrem ao 
aborto, ainda que as taxas de realização 
variem significativamente segundo grupos, 
sendo mais altas em mulheres pretas, 
pardas, amarelas e indígenas, com menor 
escolaridade e menor renda. Todavia, no 
contexto de ilegalidade, clandestinidade e 
insegurança, são mulheres pobres, negras e 
jovens as que possuem os maiores riscos de 
adoecimento e óbito. Outro fator de suma 
importância para a saúde pública é que 
muitas mulheres que teriam o direito de 
acessar os serviços de saúde para 
realizarem a interrupção da gravidez prevista 
em lei acabam por optar por meios 
inseguros, justamente por desconhecerem 
seus direitos ou por não serem bem 
acolhidas e bem atendidas nos serviços do 
SUS. 
Somente 2.442 abortos legais foram 
realizados em decorrênciade violência 
sexual em todo o Brasil (2013-2015), 
enquanto os dados de segurança pública 
referem a existência de um estupro a cada 
11 minutos no país. Isso significa que, 
embora o número de ocorrências em 2015 
tenha sido de 45.460, estima-se que o 
número real fique entre 129,9 mil e 454,6 mil 
estupros, devido à subnotificação. 
Considerando que 5% a 7% das mulheres 
vítimas de estupro podem engravidar, 
percebe-se que o número de abortos legais 
realizados no território nacional está bem 
abaixo do esperado. 
A escassez de serviços para o atendimento 
das mulheres que recorrem ao aborto 
previsto em lei e a dificuldade no tratamento 
das complicações decorrentes de um aborto 
inseguro devem ser entendidas como uma 
violação dos direitos sexuais e reprodutivos, 
podendo também ser compreendido sobre a 
ótica das questões de gênero que 
prevalecem no contexto social brasileiro, 
podendo ser exemplificadas pelos 
programas de saúde materno-fetal 
produzidos no século XX, nos quais a 
abordagem traduz uma visão restrita sobre a 
mulher, tratada somente quanto suas 
especificidades biológicas e na sua 
obrigação social de ser mãe (criação, 
educação e cuidado). Ainda que esse 
cenário teha se alterado, uma ênfase muito 
grande ainda persiste em relação ao parto e 
ao nascimento, em comparação ao aborto, 
que segue marginalizado. 
No Brasil, o aborto é considerado crime; 
entretanto, o Código Penal Brasileiro, em seu 
artigo 128, não pune a realização do aborto 
nas seguintes situações: gravidez que 
coloque em risco a vida da mulher e gravidez 
resultante de estupro. Em 2012, o Supremo 
Tribunal Federal incluiu nessa lista o direito 
ao aborto nos casos de anencefalia. Mesmo 
com respaldo jurídico, foi apenas em 1989 
que o primeiro serviço de aborto legal foi 
criado no Brasil, no Hospital Jabaquara, em 
São Paulo, proporcionando atendimento a 
mulheres vítimas de violência sexual, ação 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
pioneira não só em âmbito nacional como 
também para a América Latina como um 
todo. 
Os “Serviços de Aborto Legal” seriam os 
locais de referência para a realização do 
procedimento de abortamento (segundo os 
preceitos legais supracitados) no SUS, 
integrando os Serviços de Atenção Integral 
às Pessoas em Situação de Violência 
Sexual. Prevê a constituição de uma equipe 
multidisciplinar composta por ginecologistas-
obstetras, psicólogos, assistentes sociais e 
enfermeiros que atuam no atendimento à 
violência sexual e também na realização do 
aborto. A Norma Técnica que institui esse 
serviço passou por duas atualizações, em 
2005 e 2012. A principal mudança em 
relação à Norma original, inserida em 2005, 
foi o reconhecimento de que a narrativa da 
mulher é suficiente para averiguar a 
presença de violência sexual, ou seja, exclui-
se a obrigatoriedade de apresentação do 
boletim de ocorrência policial. 
Apesar desse avanço na proposição de uma 
política pública direcionada à saúde das 
mulheres vítimas de violência sexual, o 
acesso ao aborto ainda não é uma garantia 
para as mulheres brasileiras. Dos 68 
serviços existentes entre 2013 e 2015, 
apenas 37 haviam realizado interrupções de 
gravidez decorrente de estupro. Constatou-
se a concentração de serviços no Sudeste e 
a ausência de serviço ativo em sete estados. 
Algumas das instituições ainda exigiam 
boletim de ocorrência policial, laudo do IML 
ou alvará judicial para o procedimento. 
Recentemente, novos encaminhamentos 
legais têm trazido à tona a discussão sobre o 
aborto. O STF, em novembro de 2016, 
definiu que o aborto não deveria ser 
considerado crime no primeiro trimestre da 
gravidez, absolvendo cinco pessoas 
pertencentes à equipe médica de uma clínica 
clandestina de abortos no Rio de Janeiro. Em 
contrapartida, houve forte reação por parte 
da bancada evangélica no Congresso 
Nacional, por meio da Proposta de Emenda 
Constitucional 181 (PEC 181). O projeto 
inicial, que propunha alterar o artigo 7º da 
Constituição Federal, permitindo a 
ampliação da licença-maternidade em caso 
do nascimento de bebês prematuros, foi 
transformado com inserções no texto 
constitucional, que passaria a incluir “a 
garantia da inviolabilidade da vida desde a 
concepção”. 
Três vertentes podem ser utilizadas na 
Atenção Primária de modo a reduzir os 
danos causados pelo abortamento, a saber: 
 Prevenção primária: evitar a gestação 
indesejada a partir de ações de educação 
sexual e planejamento reprodutivo; 
 Prevenção secundária: atuar para que o 
abortamento que não se pode evitar seja 
realizado de forma segura; 
 Prevenção terciária: tratar 
oportunamente as complicações do 
abortamento e fornecer contracepção 
pós-abortamento para prevenir a sua 
repetição. 
Sabe-se que o aborto é um procedimento 
muito seguro, se realizado com técnica 
correta e condições adequadas de higiene, 
atentando-se para a idade gestacional, cujo 
avanço implica em aumento de risco. Antes 
das 12 semanas, especialmente antes das 9 
semanas, o risco de complicações de um 
aborto é inclusive menor que o risco 
envolvido em uma gestação de risco habitual 
levada a termo. Compartilhar informação de 
qualidade, disponível amplamente, é um ato 
de respeito e de cuidado com as pessoas 
atendidas, que não infringe nenhuma lei ou 
norma vigente no Brasil (o aconselhamento 
sobre o aborto seguro não é mencionado no 
Código Penal). 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
PROTOCOLOS DE ATENDIMENTO AO 
ABORTAMENTO: 
O acolhimento e a orientação são elementos 
importantes para uma atenção de qualidade 
e humanizada às mulheres em situação de 
abortamento, que vivenciam naquele 
momento um misto de emoções negativas 
como culpa, solidão, ansiedade e angústia. A 
escuta ativa e o não julgamento são 
fundamentais para que a mulher se sinta 
segura e acolhida, potencializando o efeito 
das medidas terapêuticas empregadas. 
CONDUTAS TERAPÊUTICAS: 
Sempre se deve encaminhar o material 
abortado para estudo anatomopatológico. 
Deve-se também verificar o tipo sanguíneo 
materno. Se a paciente for Rh negativo com 
parceiro Rh positivo ou desconhecido, deve-
se prescrever a imunoglobulina Rh 
idealmente até 72 horas após o evento. 
 Ameaça de abortamento: 
Não existe indicação de internação 
hospitalar, a mulher deve ser orientada para 
ficar em repouso, utilizar analgésico se 
apresentar dor, evitar relações sexuais 
durante a perda sanguínea, e retornar ao 
atendimento de pré-natal. Nos casos em que 
não ocorre regressão das alterações ou se 
surgir febre, dor pélvica localizada ou 
sangramento com odor fétido deve a mulher 
retornar ao serviço de saúde para nova 
avaliação. 
90-95% das gestações entre 7 e 11 semanas 
que apresentam sangramento, mas em que 
são identificados batimentos cardíacos 
(>100/min), evoluem para gestação normal. 
 Abortamento completo: 
A conduta nesse caso é de observação, com 
atenção ao sangramento e/ou à infecção 
uterina. Quando persiste o sangramento, 
podem ser prescritos uterotônicos, ou ser 
realizada uma aspiração manual intrauterina 
com cânula bem fina, recorrendo à 
curetagem somente quando não houver 
disponibilidade de aspiração. 
 Abortamento incompleto: 
Em gestações com menos de 12 semanas, 
pelo tamanho uterino, indica-se a aspiração 
manual ou elétrica intrauterina por ser mais 
segura e permitir o esvaziamento mais 
rápido. Quando não for possível empregar 
essa técnica, realiza-se a curetagem uterina. 
Em úteros compatíveis com gestação 
superior a 12 semanas, principalmente se o 
feto ainda estiver dentro do útero, emprega-
se o misoprostol na dose de 200mcg de 12 
em 12h, via vaginal, em ciclos de 48 horas 
de tratamento, com 3-5 dias de intervalo. 
Após a expulsão, persistindo o sangramento, 
se o tamanho uterino for menor ou igual a 
gestação de 12 semanas é possível realizara complementação por aspiração uterina. Se 
o volume uterino for maior que 12 semanas 
será utilizada a curetagem uterina. Também 
é importante avaliar a perda sanguínea e, se 
necessário, efetuar transfusão sanguínea. 
Em situações onde o esvaziamento é 
emergencial, o uso do misoprostol deve ser 
evitado devido ao tempo de resposta 
necessário para o esvaziamento 
medicamentoso. 
 Abortamento retido: 
Trata-se com misoprostol quando o útero 
corresponder à gestação maior que 12 
semanas e por meio de aspiração manual 
com útero correspondente a menos de 12 
semanas. 
 Abortamento infectado: 
O tratamento do abortamento infectado deve 
ser iniciado pela internação da paciente, 
tentativa de isolar o agente etiológico pela 
coleta de material cervical e hemocultura, 
correção do estado hemodinâmico, 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
administração de ocitocina e 
antibioticoterapia endovenosa. Após a 
instituição do tratamento para a infecção, 
deve ser realizado o esvaziamento uterino, 
sempre com administração de ocitocina 
antes e durante o procedimento, para 
diminuir o risco de perfuração. Caso haja 
abcessos, esses devem ser drenados. Em 
casos graves sem melhora após 48 horas e 
com comprometimento dos tecidos uterinos, 
pode ser necessária a histerectomia. 
 Abortamento habitual: 
Estas mulheres devem ser encaminhadas 
para tratamento especializado, onde seja 
possível identificar as causas e realizados 
tratamentos específicos. 
 Abortamento eletivo legal: 
Nos casos em que exista indicação de 
interrupção da gestação, obedecida a 
legislação vigente e, por solicitação da 
mulher ou de seu representante, deve ser 
oferecida à mulher a opção de escolha da 
técnica a ser empregada: abortamento 
farmacológico, procedimento aspirativo ou a 
dilatação e curetagem. Tal escolha deverá 
ocorrer depois de adequados 
esclarecimentos das vantagens e 
desvantagens de cada método, suas taxas 
de complicações e efeitos adversos. 
TÁTICAS DE ESVAZIAMENTO UTERINO: 
CONDUTA EXPECTANTE: 
O interesse por intervenções não cirúrgicas 
em caso de abortamento precoce incompleto 
(até 12 semanas de gestação) vem 
crescendo nos últimos anos, sendo indicada 
para mulheres sem alterações 
hemodinâmicas nem sinais de infecção, 
tendo boa tolerância à conduta desde que 
ela seja corretamente explicada pelo 
profissional de saúde. Na maioria das vezes, 
a eliminação acontece dentro de duas 
semanas após o diagnóstico, mas intervalos 
de até quatro semanas não são incomuns. 
Apesar de a conduta expectante apresentar 
chance de eliminação incompleta e 
necessidade de medicação ou curetagem, 
não está associada a maior risco de 
infecção. O tempo recomendado para 
resolução espontânea costuma ser de um 
mês. Pode-se indicar ultrassonografia de 
controle após a resolução. 
Por outro lado, em casos de aborto retido ou 
gestação anembrionada, os resultados 
obtidos com a conduta expectante parecem 
ser menos animadores que os observados 
no abortamento incompleto, apresentando 
taxa de sucesso de 25% (tratamento 
cirúrgico apresenta 98% de desfechos 
positivos nessas manifestações clínicas). 
TRATAMENTO MEDICAMENTOSO: 
Tratamentos medicamentosos em 
abortamentos de 1º trimestre representam 
uma alternativa para as mulheres que não 
desejam passar por intervenções cirúrgicas. 
O Misoprostol, antagonista de 
prostaglandina E1, anteriormente 
empregado no tratamento de úlceras 
pépticas em indivíduos em uso crônico de 
anti-inflamatórios não hormonais, é visto 
como droga de escolha antes da realização 
de curetagem, no tratamento de abortamento 
precoce/óbito fetal, como indutor de trabalho 
de parto, e no controle de hemorragias pós-
parto, graças a seus efeitos na contratilidade 
uterina e bom custo-benefício. 
Alguns efeitos dose dependentes dessa 
medicação são náuseas, diarreia, vômitos, 
hipertermia e tremores. A eficácia e 
segurança desse tipo de conduta estão 
comprovadas no primeiro trimestre, mas 
também é usado como propedêutica em 
abortamentos tardios, devendo ser 
empregado com ressalvas em mulheres com 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
cicatriz intrauterina prévia, uma vez que pode 
causar roturas no órgão. 
TRATAMENTO CIRÚRGICO: 
O tratamento cirúrgico para abortamentos de 
1º e 2º trimestres é a curetagem uterina, cuja 
eficácia é próxima de 100%. Sua principal 
complicação é a infecção, que afeta 10% das 
mulheres submetidas ao procedimento, 
seguido por esvaziamento uterino 
incompleto (2 a 3%). 
A conduta cirúrgica está indicada nas 
situações de urgência., como nos casos de 
sangramento moderado ou intenso, na 
presença de infecção e ainda para aquelas 
mulheres que não desejam esperar a 
eliminação espontânea ou medicamentosa 
dos produtos da concepção. 
Os métodos de esvaziamento uterino 
empregados na prática cotidiana são: 
 Aspiração Manual Intrauterina: consiste 
na aspiração do material intrauterino com 
cânulas flexíveis de plástico acopladas a 
seringas, podendo ser descartáveis ou 
aproveitadas após esterilização. É 
seguro e de fácil realização, 
apresentando menor risco de perfuração 
quando comparado aos métodos 
tradicionais. Eventualmente pode ser 
realizado com anestesia local ou sedação 
leve; 
 Aspiração à vácuo: realizado por sistema 
a vácuo e cânulas rígidas. Apresenta 
mais riscos de perfuração uterina; 
 
 Curetagem tradicional: se necessário, 
realiza-se a dilatação cervical, e a 
retirada de material uterino se faz por 
curetas fenestradas. Deve-se ter cuidado 
para não perfurar o útero, e a 
administração concomitante de ocitócitos 
é rotineira. Recomenda-se também 
histerometria (medida do útero) indireta 
no início e ao final do procedimento. 
 
 
SANGRAMENTO VAGINAL FISIOLÓGICO NA 
GRAVIDEZ: 
O sangramento vaginal no primeiro trimestre 
da gravidez é relativamente comum, 
ocorrendo em aproximadamente 25% das 
pacientes que sabem que estão grávidas. 
Em muitas pacientes o sangramento é 
autolimitado e deve-se, provavelmente, à 
implantação ovular no endométrio 
decidualizado. O cérvix também pode 
representar um ponto de sangramento 
comum devido ao maior número de vasos 
sanguíneos que permeiam a região. 
Caso ocorram pequenos escapes de sangue 
ao longo dos 2/3 finais da gravidez, as 
hipóteses etiológicas são inflamação ou 
crescimento do cérvix, enquanto grandes 
sangramentos podem estar ligados à 
placenta, gerando forte indício de parto 
prematuro: 
 Descolamento de placenta: 
desacoplamento desse anexo 
embrionário de forma precoce, que pode 
causar hemorragias em larga escala para 
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a mãe e hipóxia para o feto. Há presença 
de dor lombar ou abdominal; 
 
 Placenta prévia: ocorre quando a 
placenta se aloja na porção inferior do 
útero, comprimindo o cérvix. Não causa 
dor na maioria dos casos. Esse problema 
geralmente se resolve entre a 32 e 35ª 
semana, quando ocorre redução na 
espessura uterina, permitindo que a 
gestação seja levada a termo; 
 
 Placenta acreta: se dá por meio da 
invasão placentária de forma inseparável 
da parede uterina. Esse quadro pode 
causar sangramento no terceiro trimestre 
e graves hemorragias durante o parto. A 
maior parte dos casos é descoberto 
durante exame ultrassonográfico de 
rotina. A histerectomia deve ser realizada 
logo após o parto para evitar choque 
hemorrágico. 
 
MECANISMO DE SENSIBILIZAÇÃO NA PROFILAXIA 
DA INCOMPATIBILIDADE DE FATOR RH MATERNO-
FETAL: 
A doença hemolítica perinatal (DHPN), ou 
eritroblastose fetal e do recém-nascido, é 
uma afecção generalizada, caracterizada por 
aglutinação e hemólise dos eritrócitos fetais, 
e acompanhada de anemia, destruição das 
hemácias e aparecimento de suas formas 
jovens (eritroblastos) na circulação 
periférica, com atividade persistente e 
anômala defocos extramedulares de 
hematopoese. É causada, originalmente, por 
incompatibilidade sanguínea maternofetal. 
Os anticorpos da gestante, específicos para 
antígeno localizado nas hemácias do 
concepto, intervêm como elementos 
desencadeantes. 
A incompatibilidade pelo sistema ABO é 
responsável pela maioria dos casos de 
DHPN, no entanto, como são de pequena 
gravidade clínica, esses casos tendem a 
passar despercebidos. Um elevado número 
de indivíduos afetados é associado a 
discrepâncias de fator Rh. A DHPN 
determinada por anticorpos irregulares traz 
consequências variáveis para o feto, 
dependendo do fator sanguíneo envolvido. 
Apesar da prevenção com a imunoglobulina 
Rh, a eritroblastose fetal/do recém-nascido 
continua sendo um grave problema global, 
sendo a maior causa de anemia fetal. 
Na maioria dos casos justifica- se pela mãe 
possuir Rh negativo e o pai Rh positivo, 
sendo assim a criança herda caráter do pai 
Rh positivo, ocasionando a incompatibilidade 
entre a mãe o feto. 
 
Em 1946, Fisher & Race propuseram o 
conceito de que três genes seriam 
responsáveis pela codificação dos três 
maiores antígenos do sistema Rh: D, C/c e 
E/e. Quase 50 anos mais tarde, o locus Rh 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
foi localizado no braço pequeno do 
cromossomo 1, mas somente dois genes 
foram identificados (D e CE), codificando os 
antígenos do sistema Rh (RhD e RhCE). 
A principal característica molecular de um 
indivíduo Rh-negativo é o fato de o gene D 
ter sido deletado, portanto não existe o 
antígeno D, expresso nas hemácias. Esse 
percentual varia segundo a raça, alcançando 
15% nos caucasoides, 3 a 5% nos negroides 
e raro nos mongoloides. 
Aproximadamente 55% dos indivíduos Rh-
positivos são heterozigotos para o locus D. 
Nesse caso, durante a concepção deles com 
mulheres Rh-negativas, apenas 50% dos 
fetos serão Rh-positivos e, assim, passíveis 
de serem atingidos pelo anticorpo materno. 
Por outro lado, os outros 50% de fetos Rh-
negativos não são afetados. Para maridos 
Rh-positivos homozigotos, todos os fetos 
gerados serão Rh-positivos. 
ALOIMUNIZAÇÃO MATERNA: 
Na DHPN, a aloimunização materna é 
ocasionada pelos seguintes fatores: 
 Administração de sangue incompatível 
produzida por hemotransfusão, sendo 
danosa e condenável quando o fator Rh 
da receptora é desconhecido; 
 Gestação de produtos Rh-discordantes, 
determinada pela passagem de 
hemácias fetais (possuem anticorpos 
RhD) durante o decorrer da gravidez ou 
no parto. 
Hemorragias fetomaternas espontâneas 
ocorrem com frequência e volumes 
crescentes durante a evolução da gravidez. 
Na maioria dos casos, a carga antigênica do 
antígeno D das hemácias fetais é insuficiente 
para estimular o sistema imunológico 
materno. Todavia, no caso da hemorragia 
fetomaterna do parto ou, excepcionalmente, 
vigente grande hemorragia antenatal, os 
linfócitos B maternos passam a reconhecer o 
antígeno D. 
A produção de anti-D materno é inicialmente 
de IgM, de curta duração, com rápida 
mudança para a resposta IgG. A memória 
dos linfócitos B, então, espera nova 
exposição antigênica que ocorrerá na 
gravidez subsequente. Se estimulados pelo 
antígeno D das hemácias fetais, esses 
linfócitos rapidamente se proliferam e 
produzem anticorpos IgG que elevam os 
títulos maternos. 
Cerca de metade das mulheres sensibiliza-
se na primeira gravidez e 1/3 na segunda 
gestação. Em 20% dos casos, a 
sensibilização ocorre após 28 semanas da 
gestação e em 80% dos casos no pós-parto. 
PASSAGEM DE ANTICORPOS MATERNOS PARA O 
ORGANISMO FETAL: 
Os anticorpos dos vários sistemas de grupos 
sanguíneos presentes na fração IgG 
(denominados imunes, incompletos ou 
bloqueadores) atravessam a barreira 
placentária. Os IgM e IgA, chamados 
anticorpos naturais ou completos, não 
passam para o organismo fetal. 
O transporte de anticorpos para o feto se dá 
por meio imunoglobulinas da fração IgG, que 
se ligam aos receptores Fc da membrana 
plasmática do trofoblasto. 
 
Quando decorre de incompatibilidade com o 
sistema ABO, a DHPN tem como anticorpos 
responsáveis os imunes anti-A e anti-B, pois 
os naturais anti-A e anti-B não franqueiam a 
placenta, como anteriormente afirmado. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
MECAISMO DE AÇÃO DOS ANTICORPOS 
MATERNOS NO ORGANISMO FETAL: 
Os anticorpos maternos que passam para o 
feto, em virtude da reação específica 
antígeno-anticorpo, irão produzir hemólise 
de suas hemácias e, depois, a das hemácias 
do recém-nascido. Vai depender da 
quantidade de anticorpos maternos 
produzidos para definir o grau de hemólise, 
os efeitos da destruição podem ser mínimos, 
mas também podem ser severos, podendo 
ser uma hiperbilirrubinemia até uma anemia 
leve à moderada no útero, exigindo 
transfusões sanguíneas após o nascimento. 
Esses anticorpos maternos, quando 
ingressam no organismo do feto, combinam-
se com suas hemácias. Os macrófagos do 
sistema reticuloendotelial (SRE) esplênico 
reconhecem a porção Fc do anticorpo na 
hemácia e a fagocitam, o que gera 
bilirrubina. 
Sabe-se que as formas clínicas da DHPN 
(ictérica, anêmica e hidrópica) decorrem da 
intensidade do processo de destruição e 
formação das hemácias e consoante a 
predominância de IgG1 ou de IgG3. O IgG1 
migra mais cedo, tem teor elevado, e a 
regeneração (eritroblastose) leva ao 
empobrecimento proteico do feto, o que 
causa edema, ascite e hidropisia. Se 
prevalecer o IgG3, cuja passagem é tardia, 
os níveis, menores, só ascendem após 28 
semanas. Em geral, o feto nasce anêmico, 
com icterícia presente apenas após o parto. 
MANIFESTAÇÃO CLÍNICA: 
DIAGNÓSTICO ANTEPARTO: 
Poucas vezes a incompatibilidade pelo 
sistema Rh acomete o primeiro filho, exceto 
se houver relato de hemotransfusão sem que 
esse fator fosse conhecido. O histórico de 
um ou dois filhos normais, seguidos de 
recém-nascidos com icterícia grave e 
persistente, manifesta nas primeiras horas 
de vida, anemia e morte nos casos de maior 
agravo clínico sugerem aloimunização Rh. 
Em mulheres com história clínica de um 
natimorto por incompatibilidade Rh, a 
probabilidade de se reproduzir o acidente é 
de 75%, que ascende para 90% quando o 
histórico é de dois natimortos. 
A ultrassonografia é extremamente 
importante para o seguimento fetal na 
DHPN, pois além de possibilitar o 
monitoramento de procedimentos invasivos, 
pode orientar a identificação dos fetos mais 
gravemente atingidos por anemia hemolítica, 
o que possibilita assentar o grau de seu 
comprometimento. Sinais sonográficos de 
descompensação fetal, de hidropisia, 
representam grave anemia do concepto, com 
hematócrito inferior a 20% e 
hemoglobinometria com menos de 7 g/dL 
 
O aumento da espessura placentária (maior 
que 4 cm), perda de sua arquitetura e maior 
homogeneidade parecem ser os primeiros 
indicadores da doença. Polidrâmnio e 
aumento da circunferência abdominal do 
feto, medida seriadamente, correspondem 
ao agravamento do processo hemolítico. 
DIAGNÓSTICO NO PÓS-PARTO: 
O exame do recém-nascido irá apresentar 
peculiaridades de acordo com a 
incompatibilidade presente e a forma clínica 
da doença: 
 Incompatibilidade de Rh: 10 a 15% dos 
fetos são hidrópicos (edemaciados), 
outros 10-15% possuem formas leves, 
sem sintomatologia (eritroblastose de 
laboratório), e 70 a 80% manifestam 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
formas icteroanêmicas, que possuem 
gravidade variada e necessitam de 
tratamento; 
 Hidropsia fetal: os RN com essa condição 
estão muito deformados pela infiltração 
edematosa que os afeta por todo o corpo. 
O abdome de batráquio, condicionado 
pela ascite, caracteriza-se por fígado e 
baço enormes. A transfusão intrauterina 
impede a morte de muitos bebês afetados 
por essa condição; 
 
 Icterícia grave: podeser observada logo 
nas primeiras horas de vida. O 
diagnóstico diferencial deve ser feito com 
outras icterícias do recém-nascido, como 
a chamada fisiológica ou benigna: esta 
tem início tardio, acomete 50% dos 
recém-nascidos e cede 
espontaneamente, sendo rara a 
persistência além de 2 semanas. 
A sonolência brutal seria patognomônica 
da icterícia nuclear (kernicterus), quando 
estão associados à DHPN distúrbios 
nervosos centrais, decorrentes da 
impregnação dos núcleos da base pela 
bilirrubina não conjugada. Os sinais 
aparecem muitas horas depois do 
surgimento da icterícia. No período de 
estado, há hipertonia generalizada, com 
predileção pela musculatura da face (riso 
sardônico). 
A icterícia nuclear é de prognóstico 
sombrio, em função das sequelas 
neurológicas, muito prejudiciais, que 
eclodem ao fim do primeiro ano. 
 Anemia grave: modalidade menos 
expressiva, clinicamente, de DHPN. 
Alcança seu pico na 3ª semana após o 
nascimento. Há espleno-hepatomegalia, 
extrema palidez e anemia, com 
descoramento intenso das mucosas 
visíveis. O exame de sangue é 
fundamental. A icterícia, em geral 
presente, mascara a identificação dos 
sinais clínicos; 
 Incompatibilidade ABO: mesmo que seja 
a causa mais frequente da DHPN, as 
manifestações anêmicas são mais 
brandas. Cerca de 20% de todos os 
bebês apresentam incompatibilidade 
ABO, mas apenas 5% são clinicamente 
afetados. 
o A doença ABO é frequentemente 
vista no primeiro filho (40 a 50% dos 
casos) porque muitas mulheres do 
grupo O apresentam isoaglutininas 
anti-A que antedatam a gravidez. 
Esses anticorpos imunes são 
atribuídos à exposição a bactérias 
que exibem antígenos similares; 
o Grande parte dos anticorpos anti-A e 
anti-B são IgM que não atravessam a 
placenta e, por isso, não têm acesso 
às hemácias fetais. Além disso, as 
hemácias fetais têm menos locais 
antigênicos A e B do que as células 
adultas e são, assim, menos 
imunogênicas; 
o A aloimunização ABO pode 
comprometer gestações futuras, mas 
raramente é progressiva como a Rh. 
O critério usual para hemólise neonatal por 
incompatibilidade ABO é: 
o Mãe de grupo O, feto A, B ou AB; 
o Icterícia de início nas primeiras 24h; 
o Vários graus de anemia; 
o Teste de Coombs direto positivo (mas 
nem sempre); 
o Exclusão de outras causas de 
hemólise. 
Todas as grávidas deverão determinar o seu 
grupo sanguíneo (ABO ou Rh), e serem 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
testadas quanto à presença de anticorpos 
que poderão estar direcionados contra 
antígenos de origem paterna. Diante destes 
dados, o médico obstetra irá orientar a 
grávida, controlando a gestação com 
exames e outras medidas terapêuticas, 
nomeadamente, transfusão de eritrócitos in 
útero ou antecipação do parto. 
Destacam-se entre as técnicas empregadas 
a cordocentese com determinação de 
hemoglobina, fluxometria da artéria cerebral 
média, ecografia para rastreio de eventual 
hidropisia, determinação do perfil biofísico e 
amniocentese para espectofotometria. 
Após o parto em mulheres não sensibilizadas 
a administração de imunoglobulina anti-D 
(Rhlg) em até 72 horas confere proteção de 
95%. Não se mostraram eficazes outras 
medidas terapêuticas como a ingestão da 
membrana eritrocitária Rho (D) positiva por 
via oral ou a plasmaferese. 
Exsanguíneotransfusão e fototerapia são as 
terapias convencionais após o nascimento, 
onde o risco de mortalidade varia em relação 
antes do procedimento o quadro clínico do 
paciente. 
PROMAS IMUNOEMATOLÓGICAS NO RECÉM-
NASCIDO: 
São indispensáveis a determinação do grupo 
sanguíneo e do fator Rh e o teste de Coombs 
Direto. 
 Teste de Coombs Direto: avalia a 
sensibilização das hemácias do recém-
nascido pelos anticorpos maternos. Deve 
ser feito, sistematicamente, no sangue do 
cordão umbilical dos bebês nascidos de 
mulher Rh-negativa, com ou sem 
aloimunização, e mesmo se ausente 
história sugestiva de DHPN. As reações 
negativas não afastam, definitivamente, a 
doença, pois nos tipos clínicos 
ocasionados pelo sistema ABO, elas 
costumam apresentar esse resultado; 
 Subsídios anatomopatológicos: os focos 
de hematopoese extramedular 
(eritroblastos) encontrados no fígado, 
baço ou na placenta são de grande 
importância. 
Hepatoesplenomegalia está sempre 
presente. Os núcleos da base do cérebro 
podem tornar-se amarelo-esverdeados, o 
que constitui a icterícia nuclear ou 
kernicterus. A pigmentação ictérica 
parece poupar o córtex e nunca é 
observada em natimortos nem em bebês 
falecidos nas primeiras 24 h de vida. 
 
O estudo da placenta mostra sua invasão 
pelo edema, apresentando-se 2 a 3 vezes 
aumentada ponderalmente e no volume, 
a face fetal e as membranas 
frequentemente amareladas. 
PREVENÇÃO: 
A imunoprofilaxia anti-D tornou a 
eritroblastose fetal determinada pela 
sensibilização ao antígeno D uma doença 
previnível, de modo que a mortalidade 
perinatal pela aloimunização demonstrou 
diminuição de 100 vezes. Todavia, mesmo 
nos países desenvolvidos, a aloimunização 
materna ainda persiste em 0,4:1000 
nascimentos, indicando possíveis falhas no 
processo de profilaxia e acompanhamento. 
A imunoglobulina anti-D é um produto 
sanguíneo que contém títulos elevados de 
anticorpos que neutralizam o antígeno RhD 
das hemácias fetais e, assim, é efetiva na 
prevenção da aloimunização. A via de 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
administração usual é a intramuscular. Após 
a administração da anti-D, o rastreamento 
para anticorpos apresenta resultado 
fracamente reativo, com título baixo. O anti-
D atravessa a placenta e se liga às hemácias 
fetais, sem causar hemólise, anemia ou 
icterícia. 
Reações adversas são raras e costumam ser 
leves, tais como inchaço local, dor de 
cabeça, calafrios. Também são pouco 
frequentes reações de hipersensibilidade 
que não resistem a antialérgicos. Embora 
seja muito rara a ocorrência de anafilaxia 
após o uso da IgG anti-D, recomenda-se ter 
à mão solução de epinefrina. 
Se a mulher Rh-negativa não receber 
profilaxia IgG anti-D no pós-parto após o 
nascimento de bebê Rh-positivo, a incidência 
de sensibilização na vigência de nova 
gravidez será de 12 a 16%, em comparação 
com 1,6 a 1,9% se tiver havido a prevenção. 
Devem ser utilizados 300 µg de IgG anti-D 
dentro de 72 h do parto para mulheres Rh-
negativas não sensibilizadas, com bebês Rh-
positivos, com administração extra de 
imunoglobulinas em caso de hemorragia 
fetomaterna. Se o anti-D IgG não tiver sido 
utilizado dentro de 72 h do parto ou de 
qualquer evento potencialmente 
sensibilizante, ele poderá ser empregado em 
até 28 dias com algum efeito protetor. 
A profilaxia antenatal na 28ª semana reduz 
para 0,2% a taxa de sensibilização na 
gravidez. Todas as pacientes devem ser 
rastreadas na 1ª consulta pré-natal para 
anticorpos com o teste de Coombs indireto. 
Devem ser administrados 300 µg de IgG anti-
D a grávidas Rh-negativo não sensibilizadas 
com 28 semanas de gestação quando o 
grupo sanguíneo fetal for Rh-positivo ou 
desconhecido. 
Após abortamento ou gravidez ectópica, há 
indicação para o anti-D em mulheres Rh-
negativas não sensibilizadas: 120 µg até 12 
semanas e 300 µg após esse período. 
TRATAMENTO: 
TRANSFUSÃO INTRAVASCULAR: 
A transfusão intravascular (TIV) foi por anos 
o tratamento de escolha para a 
aloimunização. As hemácias para TIV são do 
grupo O, Rh-negativas, citomegalovírus-
negativas e coletadas nas últimas 72 h. O 
local ótimo de punção da veia umbilical é 
próximo da sua inserção na placenta, mas na 
impossibilidade, vale a punção em alça livre. 
Muitos utilizam agente curarizante para 
paralisar a movimentação fetal e facilitar a 
punção. 
No início da TIV é determinado o hematócrito 
fetal, e o valor < 30% (Hb < 10 g/dL) é 
indicação para o tratamento. A quantidadede sangue a ser transfundido depende desse 
hematócrito inicial, do peso estimado fetal e 
do hematócrito do doador. Procura-se atingir 
hematócrito final de 40 a 50%, e declínio de 
cerca de 1% por dia do hematócrito pode ser 
antecipado após a TIV. 
No concepto extremamente anemiado, em 
especial no hidrópico, o hematócrito não 
deve ser acrescido em mais de 4 vezes para 
não sobrecarregar o sistema cardiovascular 
fetal pelo aumento agudo da viscosidade 
sanguínea. A TIV deve ser repetida após 48 
h para normalizar o hematócrito. Após 
atingido o hematócrito de 40 a 50%, nova TIV 
deve ser programada para depois de 14 dias. 
A última TIV deve ser realizada com 35 
semanas de gestação e o parto deve ser 
antecipado para 37 a 38 semanas. Essa 
prática possibilita o amadurecimento do 
pulmão e do fígado fetal, virtualmente 
eliminando a necessidade de 
exsanguinotransfusão neonatal. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
FENOBARBITAL: 
A administração de fenobarbital oral à mãe 
(30 mg, 3 vezes/dia) pode ser considerada 
nos últimos 7 a 10 dias antes do parto com o 
objetivo de induzir a maturidade hepática e, 
por conseguinte, melhorar a conjugação da 
bilirrubina. 
TRANSFUSÃO NEONATAL: 
Não é incomum a suspensão da eritropoese 
depois de diversas TIV. Esses fetos nascem 
com possível ausência de reticulócitos, com 
suas hemácias quase inteiramente 
constituídas de células do doador. Como as 
exanguinotransfusões raramente são 
necessárias, os anticorpos maternos 
passivamente adquiridos ficam na circulação 
neonatal por semanas. Como consequência, 
durante o período de 1 a 3 meses o recém-
nascido pode necessitar de várias 
transfusões complementares. 
FOTOTERAPIA: 
A molécula da bilirrubina, fotossensível, 
quando exposta à luz, transforma-se na 
atóxica biliverdina. Esse achado possibilitou 
o emprego da superiluminação como recurso 
para o tratamento das hiperbilirrubinemias do 
recém-nascido. 
 
Em virtude da ação exclusiva sobre a 
bilirrubina, a fototerapia tem emprego 
apenas coadjuvante no tratamento da 
DHPN. Na incompatibilidade ABO, a 
fototerapia reduz a necessidade de 
transfusão complementar, devido ao quadro 
ictérico de menor gravidade. 
 
PROGNÓSTICO: 
As séries mais encorpadas relatam 
sobrevida de quase 90%; no hidrópico a 
sobrevida é pior, menor que 80%, e 
especialmente na hidropisia grave, de 
somente 55%. O prognóstico tardio pode 
estar onerado pela ocorrência de paralisia 
cerebral ou de comprometimento no 
neurodesenvolvimento, mas 90% dos bebês 
apresentam-se normais. 
PROBLEMA 4 - ABERTURA: 
MORFOFISIOLOGIA DAS BARREIRAS 
MATERNOFETAIS: 
Para a embriologia existem quatro anexos 
embrionário e fetais, o cório, o âmnio, a 
vesícula vitelina e o alantoide. Todas essas 
estruturas desenvolvem-se no ovo, mas não 
estão relacionadas diretamente com a 
formação do concepto, com a exceção de 
partes da vesícula vitelina e do alantoide. 
Suas funções são assegurar nutrição, 
proteção, respiração e excreção ao ser 
humano em desenvolvimento. 
Na obstetrícia, por sua vez, são apenas três 
anexos fetais, a placenta, o cordão umbilical 
e as membranas. Essas últimas, num total de 
duas, costumam ser descritas como 
constituídas pelo cório e pelo âmnio, mas na 
verdade contemplam apenas a porção lisa 
do primeiro e a membranosa do segundo. 
Uma terceira membrana pode ser 
considerada, a decídua capsular e parietal 
(auxiliam na recuperação do endométrio 
após o parto), formando assim duas 
membranas ovulares e apenas uma 
materna. 
 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
A placenta é considerada um órgão misto, 
com sua região ovular/fetal formada por 
elementos do ovo, como toda a placa corial 
e as estruturas arboriformes do cório, e sua 
porção materna de origem decidual, com 
decídua basal e septos. Após o parto, uma 
fração placentária (ponto de clivagem do 
órgão na área esponjosa da decídua basal) 
permanece no útero para a reconstituição 
dessa estrutura. 
REAÇÃO DECIDUAL: 
Com a nidação, o ovo penetra 
completamente a mucosa, desenvolvendo-
se nessa região. A camada endometrial 
modificada pela gestação passa a se chamar 
decídua ou caduca, o que indica sua 
eliminação com o parto. 
A entrada do trofoblasto no leito placentário 
é precedida pela remodelação decidual (ou 
decidualização) dos tecidos maternos, 
processo iniciado no endométrio e que se 
estende à zona de junção miometrial, no 
terço interno do miométrio. 
Esse fenômeno complexo começa na fase 
secretória do ciclo menstrual, regulada por 
hormônios ovarianos e pelas citocinas 
deciduais, e representa o principal regulador 
na invasão trofoblástica, na qual tomariam 
parte a decídua e as células imunes do útero. 
A distribuição dessas células também é 
regrada pelos hormônios secretados pelos 
ovários, promovendo a liberação de citocinas 
e fatores de crescimento que estimulam a 
remodelação decidual. 
No período de implantação, entre o 8º e o 13º 
dia pós-ovulação), o endométrio se 
estratifica em três zonas distintas: a camada 
basal, que representa menos de ¼ dessa 
estrutura, alimentada pelas artérias retas; a 
camada esponjosa, compondo 50% da 
região endometrial, composta por estroma 
frouxo edematoso, vasos espiralados e 
glândulas dilatadas; e a camada compacta, 
estrato superficial do endométrio, com 25% 
de sua altura e predomínio de células do 
estroma muito próximas entre si, 
comprimindo ductos glandulares e 
ingurgitando capilares e artérias espiraladas. 
Com a nidação, o embrião se detém na 
camada esponjosa, rica em vasos e 
glândulas que favorecem sua nutrição. Essa 
camada desempenha também papel no 
momento do secundamento, pois, 
constituída por tecido frouxo, facilita o 
descolamento da placenta logo após o parto. 
Topograficamente, até o 3º ou 4º mês de 
gestação, é possível distinguir três porções 
deciduais: 
 Decídua basal: corresponde ao local de 
implantação, muito vascularizada e forma 
a parte materna da placenta; 
 Decídua capsular/reflexa: levantada pelo 
desenvolvimento do ovo, é fina e mal 
irrigada, favorecendo a atrofia do cório 
correspondente; 
 Decídua parietal/vera: atapeta toda a 
cavidade uterina, exceto o local de 
implantação. 
Com o crescimento embrionário, as camadas 
capsular e parietal se aproximam, reduzindo 
o tamanho da cavidade uterina até seu 
desaparecimento ao fim do 3ª mês, 
reduzindo a decídua a duas porções, basal e 
capsular+parietal (intimamente conectadas, 
porém a vascularização precária promove o 
futuro desaparecimento da parte reflexa). 
 
A) Útero fora do ciclo gestatório; ilustrado em cor mais 
escura, o endométrio. B) Ovo recém-nidificado. C a E) 
Fases do desenvolvimento uterino e ovular; oblitera-se, 
progressivamente, a cavidade uterina, pelo acolamento 
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das decíduas capsular e parietal, o que está por completar-
se em E (3º/4º mês). F) Útero e ovo do 4º mês até o termo. 
Não se distinguem a decídua capsular e a parietal. 
Em resposta a níveis crescentes de 
progesterona no sangue materno, as células 
do estroma (tecido conjuntivo) da decídua 
aumentam de tamanho, formando as células 
deciduais, que crescem com o acúmulo de 
glicogênio e lipídio no citoplasma, corando-
se pouco. Esses tipos celulares começam a 
desaparecer em torno do ovo implantado, 
mas ainda são notadas, em graus variáveis, 
no estroma do cérvix uterino, nas trompas de 
Falópio e no peritônio pélvico. 
A reação decidual é resposta do organismo 
à existência do ovo. No final do ciclo 
menstrual há aspecto deciduoide, vigente 
também quando se administram altas doses 
de progestógenos. Embora a importância da 
reação decidual não esteja totalmente 
desvendada, parece ligada à nutrição do 
embrião e à proteção do tecido materno 
contra a invasão desordenada do trofoblasto.A cavidade amniótica cresce mais 
rapidamente que a coriônica, e suas paredes 
se fundem para formar a membrana 
amniocoriônica, desaparecendo a cavidade 
coriônica. As duas membranas acoladas se 
fundem com a decídua capsular e, depois do 
desaparecimento dessa, com a parietal. 
A PLACENTA: 
A porção do ovo que estabelece intercâmbio 
com o ambiente é o trofoblasto. Após a 
nidificação ele prolifera e, dotado de grande 
poder invasor, penetra pelos capilares e dá 
início à nutrição hemotrófica, isto é, à custa 
do sangue materno. O trofoblasto e o tecido 
de conexão correspondente constituem o 
cório. 
A invasão intravascular aumenta a superfície 
de trocas, e se faz em dois estágios: 1ª onda 
de migração, alcançando apenas o 
segmento decidual nas artérias espiraladas 
(a partir de 8 semanas), e 2ª onda de 
migração, alcançando a zona de junção 
miometrial (iniciando com 14 semanas); por 
volta de 18 semanas, as artérias espiraladas 
apresentam trofoblasto endovascular 
incorporado na parede do vaso, 
convertendo-se em artérias 
uteroplacentárias, compondo assim um 
circuito hemodinâmico de baixa resistência 
entre artérias radiais e o espaço interviloso. 
Como resultado de todo esse processo, ao 
final da 4ª semana forma-se a placenta 
hemocorial profunda humana. 
 
Até a 8ª semana as vilosidades cobrem 
inteiramente o cório. Com o crescimento, as 
porções do cório em correspondência com a 
decídua basal, mais vascularizadas e 
diretamente conectadas com o embrião pela 
circulação alantocorial, desenvolvem-se de 
modo considerável, constituindo o cório 
frondoso, principal componente da fração 
ovular da placenta, sendo denominado 
também cório placentário. Os demais 
segmentos do cório correspondem à decídua 
capsular, e as vilosidades logo regridem 
devido à vascularização precária 
(compressão arterial), permanecendo 
algumas vestigiais. É o cório liso, que 
acolado ao âmnio membranoso, formará as 
membranas do ovo, por isso, nomeado cório 
membranoso. Com o desaparecimento das 
vilosidades do córion liso, aquelas 
associadas à decídua basal aumentam 
rapidamente de número, ramificam-se 
profusamente e crescem. Essa parte 
arboriforme do saco coriônico constitui o 
córion viloso (parte fetal da placenta). Essa 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
diferenciação (liso e frondoso) é completa ao 
longo da 12ª semana. 
Com o crescimento do feto, o útero, o saco 
coriônico e a placenta aumentam de 
tamanho. A placenta continua a crescer em 
tamanho e espessura até o feto ter cerca de 
18 semanas (20 semanas de gestação). A 
placenta totalmente desenvolvida cobre de 
15% a 30% da decídua e pesa 
aproximadamente um sexto do peso do feto. 
A parte fetal da placenta (córion viloso) 
prende-se à parte materna (decídua basal) 
pela capa citotrofoblástica. As vilosidades 
coriônicas prendem-se firmemente à 
decídua basal por essa capa e ancoram o 
saco coriônico à decídua basal. Essa junção 
permite passagem livre de artérias e veias 
endometriais. 
A forma da placenta é determinada pela 
forma da área de vilosidades coriônicas que 
persistem. Usualmente, esta é uma região 
circular, dando à placenta uma forma 
discoide. Com a invasão da decídua basal 
pelas vilosidades coriônicas, durante a 
formação da placenta, o tecido da decídua 
sofre erosão, aumentando o espaço 
interviloso. Esse processo de erosão produz 
várias áreas cuneiformes na decídua, septos 
da placenta, que se projetam em direção à 
placa coriônica, parte da parede do córion 
relacionada com a placenta. Os septos da 
placenta dividem a parte fetal da placenta em 
áreas convexas irregulares denominadas 
cotilédones. 
Cada cotilédone é formado por duas ou mais 
vilosidades-tronco e seus inúmeros ramos. 
No fim do quarto mês, a decídua basal está 
quase totalmente substituída por 
cotilédones. Os septos placentários dividem 
o espaço interviloso da placenta em 
compartimentos, entretanto, eles 
comunicam-se livremente, pois os septos 
não chegam até a placa coriônica. 
 
A placenta in situ apresenta uma face fetal, 
em correspondência com a cavidade 
amniótica e o cordão umbilical, e outra, face 
materna, que se confunde com a decídua. 
No órgão delivrado, o que se denomina face 
materna não corresponde exatamente ao 
limite da placenta, pois uma pequena porção 
decidual permaneceu in utero. A face fetal é 
recoberta pelo âmnio, que a torna lisa e 
brilhante. Aí se insere o cordão umbilical, do 
qual emergem as ramificações das artérias 
umbilicais, dispostas em raios, ou para o qual 
convergem os componentes da veia 
umbilical. Ocasionalmente, encontram-se 
granulações e pequenas formações císticas, 
remanescentes da vesícula vitelina e da 
alantoide. 
Na face materna, como vista no órgão após 
o parto, notam-se 15 a 30 cotilédones. Os 
sulcos intercotiledonários correspondem a 
septos deciduais, dilacerados pela 
dequitadura. A superfície dos cotilédones 
está coberta por fragmentos de material fino, 
acinzentado, da decídua basal, embora a 
maior parte dela fique retida no útero para 
ser eliminada posteriormente, com os 
lóquios. 
 
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CIRCULAÇÃO PLACENTÁRIA: 
A placenta fornece uma área extensa na qual 
substâncias podem ser intercambiadas entre 
a mãe e o feto. As circulações materna e fetal 
são independentes, não havendo, em 
condições normais, comunicação alguma 
entre elas. 
CIRCULAÇÃO UTEROPLACENTÁRIA (MATERNA): 
O sangue, retido no espaço interviloso, está 
temporariamente fora do sistema circulatório 
materno, penetrando nessa região por meio 
de 80 a 100 artérias endometriais 
espiraladas. 
O fluxo desses vasos é pulsátil e 
propulsionado em jatos ou correntes pela 
pressão sanguínea materna. O sangue que 
entra está submetido a uma pressão muito 
mais alta do que a existente no espaço 
interviloso e, por isso, é direcionado para a 
placa corial. Quando a pressão se dissipa, o 
sangue flui, vagarosamente, em volta e 
sobre a superfície das vilosidades, 
possibilitando a troca de produtos 
metabólicos e gasosos com o sangue fetal. 
O sangue materno alcança o assoalho do 
espaço interviloso, no qual ingressa nas 
veias endometriais e deixa o espaço 
interviloso com pressão superior à das veias 
endometriais. 
O espaço interviloso contém cerca de 150 ml 
de sangue, quantidade substituída 3 a 4 
vezes por minuto. A nutrição da placenta, 
tanto na parte materna como na ovular, 
depende essencialmente da circulação 
materna. 
 
CIRCULAÇÃO FETOPLACENTÁRIA: 
O sangue, pobre em oxigênio, deixa o feto e 
segue em direção à placenta pelas veias 
umbilicais. O cordão umbilical, ao se inserir 
na placenta, tem suas artérias divididas em 
alguns vasos, dispostos de modo radiado, e 
que se ramificam livremente na placa 
coriônica, compondo um extenso sistema 
arteriocapilar-vernoso dentro das 
vilosidades, aproximando o sangue fetal e o 
materno sem que exista mistura entre eles 
(em condições normais). 
O sangue fetal oxigenado passa através de 
veias que têm o mesmo trajeto das artérias, 
em sentido contrário, para o cordão 
umbilical, sendo coletado pela veia umbilical, 
adentrando novamente o sistema circulatório 
do feto. 
O fluxo fetal que se dirige à placenta é 
determinado pelo débito cardíaco do 
concepto e pela resistência vascular 
umbilical, que é a exercida pelas arteríolas 
do sistema viloso terminal. Na ausência de 
inervação autônoma, a resistência vascular 
na circulação fetal da placenta é exercida 
localmente pela ação de autocoides que 
promovem a vasoconstrição ou a 
vasodilatação. Entre os principais 
vasodilatadores estão o óxido nítrico (NO) e 
a prostaciclina (PGI2). Entre os 
vasoconstritores, a antitrombina III (AT III) e 
as endotelinas 1 (ET-1) e 3 (ET-3). 
VISOLIDADES CORIAIS: 
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Essasestruturas representam o 
revestimento trofoblástico e conjuntivo rico 
em capilares que se organiza em forma 
digiforme, fixadas no endométrio. Imutáveis 
quanto a morfologia geral, ocorrem, 
entretanto, no curso da gravidez, numerosas 
modificações: altera-se o tamanho, 
modificam-se o aspecto e a quantidade do 
trofoblasto, do tecido conjuntivo e da 
vascularização. 
Entre a vilosidade corial agressiva do ovo 
jovem e a da placenta senil, sucedem-se, de 
modo gradual, inúmeros quadros 
transicionais, não sendo possível 
estabelecer limites cronológicos para 
separá-los, mas didaticamente é possível 
observar as seguintes características: 
 Vilosidade tipo primeiro trimestre: são 
visíveis quatro camadas em corte 
transversal (sinciciotrofoblasto, 
citotrofoblasto, tecido de conexão e 
endotélio de capilares fetais); 
 Vilosidade tipo segundo trimestre: o 
citotrofoblasto não compõe uma camada 
contínua, há redução na quantidade de 
tecido conjuntivo e aumento no número e 
tamanho dos capilares; 
 Vilosidades tipo terceiro trimestre: a 
membrana placentária torna-se mais fina 
e mais capilares aproximam-se do 
sinciciotrofoblasto. Agrupados nucleares 
dessa camada (nós sinciciais) se 
destacam e são enviados para a 
circulação pulmonar, onde se 
degeneram. Próximo ao fim da gestação, 
material fibrinoide dispõe-se na superfície 
das vilosidades, reduzindo sua superfície 
útil (senilidade). 
 
Através da superfície das vilosidades 
efetuam-se as trocas transplacentárias. A 
soma das superfícies de todas as vilosidades 
constitui a superfície placentária de trocas. O 
aumento da massa placentária no decorrer 
da gravidez causa um aumento dessa área 
funcional, e para evitar insuficiência 
estrutural as vilosidades têm seu diâmetro 
reduzido, permitindo maior ocupação delas 
na unidade de massa. 
ATRIBUIÇÕES PLACENTÁRIAS: 
A placenta desempenha um grande número 
de funções de grande importância num curto 
espaço de tempo, suprindo o papel de 
diversos órgãos atuantes no adulto. 
A placenta serve como transporte de gases 
respiratórios, nutrientes e produtos de 
degradação entre a mãe e o concepto. É 
órgão endócrino de grande atividade, 
secretando ampla gama de hormônios 
esteroides e peptídicos, necessários para a 
manutenção da gravidez e o controle do 
crescimento e do amadurecimento fetal. 
Além disso, também atua como interface 
imunológica entre a mãe e o aloenxerto fetal. 
O citotrofoblasto se diferencia para formar o 
sinciciotrofoblasto, que desempenha as 
funções endócrina, epitelial e endotelial da 
placenta. 
METABOLISMO PLACENTÁRIO: 
A placenta, particularmente durante a fase 
inicial da gravidez, sintetiza glicogênio, 
colesterol e ácidos graxos, que servem de 
fonte de nutrientes e energia para o embrião/ 
feto. Muitas de suas atividades metabólicas 
são, indubitavelmente, críticas para as duas 
outras atividades principais da placenta 
(transporte e secreção endócrina). 
A PLACENTA COMO UM ALOENXERTO: 
A placenta pode ser vista como um 
aloenxerto em relação à mãe. A parte fetal 
da placenta é um derivado do concepto, que 
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herda os genes tanto maternos quanto 
paternos. 
O sinciciotrofoblasto das vilosidades 
coriônicas, embora exposto às células 
imunes maternas nos sinusoides, não 
expressa antígenos do complexo principal de 
histocompatibilidade (MHC) e, portanto, não 
evoca respostas de rejeição. Entretanto, as 
células trofoblásticas extravilosas (TEV) que 
invadem a decídua uterina e seus vasos 
expressam antígenos MHC classe I, 
principalmente HLA-G, pouco reconhecidos 
pelo sistema imune, e HLA-C, que são 
reconhecidos pelas células T maternas. 
Alguns mecanismos estão associados à 
proteção da placenta, como: 
 A expressão de HLA-G é restrita a alguns 
tecidos, incluindo as células TEV 
placentárias. Acredita-se que a sua 
localização estratégica na placenta 
forneça um duplo papel imunoprotetor: 
fuga do reconhecimento pelas células T 
devido à sua natureza não-polimórfica e 
reconhecimento pelos "receptores 
inibitórios citotóxicos" das células NK, 
inibindo assim sua função citotóxica. 
 A imunoproteção é fornecida localmente 
por certas moléculas imunossupressoras, 
por exemplo, prostaglandina (PG) E2, 
fator de crescimento transformante (TGF) 
(3 e interleucina-10 (IL-10). Já foi 
mostrado que a PGE, derivada da 
decídua bloqueia a ativação das células 
T maternas e das células NK no local; 
 A presença de proteínas reguladoras do 
complemento (co-fator proteico de 
membrana, ou CD46 no homem), as 
quais podem bloquear a ativação do 
terceiro componente do complemento 
(C3) na cascata, protege a placenta da 
destruição mediada por este, que pode 
acontecer de outra forma em virtude da 
ativação residual de C3 remanescente 
após defesa contra patógenos. 
A implantação e a placentação que 
caracterizam o 1º trimestre da gestação 
representam uma “ferida aberta” e 
necessitam de forte resposta inflamatória 
(TH1). Nessa fase inicial, a grávida sente 
mal-estar resultante da resposta imunológica 
e do ambiente hormonal. Assim, o 1º 
trimestre da gravidez é uma fase 
inflamatória. 
A segunda fase imunológica da gravidez é 
período de rápido crescimento e 
desenvolvimento. A mãe, a placenta e o feto 
se apresentam simbióticos, e cessam os 
sintomas inflamatórios da 1ª fase (náuseas, 
fadiga extrema), caracterizando estado anti-
inflamatório (TH2). 
Durante a última fase imunológica da 
gravidez, a mãe precisa expulsar o concepto, 
e isso só pode ser realizado por meio de 
novo estado inflamatório. O parto se 
caracteriza pelo influxo de células 
imunológicas no miométrio, que criam 
ambiente proinflamatório, determinando 
contratilidade uterina, expulsão do feto e 
rejeição da placenta. 
 
TRANSFERÊNCIA PLACENTÁRIA: 
O transporte bidirecional de substâncias 
entre a placenta e o sangue materno é 
facilitado pela grande superfície da 
membrana placentária, permeando-a por um 
dentre quatro mecanismos principais 
(difusão simples [DS], facilitada [DF], 
transporte ativo [TA] ou pinocitose [P]). 
O transporte passivo por difusão simples é, 
usualmente, característico de substâncias 
que se deslocam de uma área de 
concentração mais alta para outra mais 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
baixa, até o equilíbrio ser estabelecido. Na 
difusão facilitada, há transporte por meio de 
cargas elétricas. O transporte ativo contra 
um gradiente de concentração requer 
energia. A pinocitose é uma forma de 
endocitose na qual o material englobado é 
uma pequena amostra do fluido extracelular. 
Esse método de transporte geralmente está 
reservado para moléculas grandes. 
TRANSFERÊNCIA DE GASES: 
O2, CO2 e CO cruzam a membrana 
placentária por DS. As trocas de oxigênio e 
dióxido de carbono são mais limitadas pelo 
fluxo sanguíneo do que pela eficiência da 
difusão, tendo aproveitamento semelhante 
ao dos pulmões. A interrupção do transporte 
de oxigênio por vários minutos põe em risco 
a sobrevivência do embrião ou do feto. 
TRANSFERÊNCIA DE NUTRIENTES: 
Nutrientes são a maior parte do conjunto de 
substâncias carreadas para o feto. A água 
permeia facilmente por DS (aumento gradual 
com o passar da gestação), com a glicose 
seguindo o mesmo fenômeno. 
Há pouca ou nenhuma transferência de 
colesterol, triglicerídeos ou fosfolipídios 
maternos. Apesar de haver transporte de 
ácidos graxos livres, a quantidade transferida 
parece ser relativamente pequena. Os 
aminoácidos são atravessados pela 
membrana placentária por TA e são 
essenciais para o crescimento do feto. 
As vitaminas cruzam a membrana 
placentária e são essenciais para o 
desenvolvimento normal. Vitaminas 
hidrossolúveis cruzam a membrana 
placentária mais rapidamente do que as 
lipossolúveis. 
PERMEAÇÃO HORMONAL: 
Hormônios proteicos nãochegam ao 
embrião ou ao feto em quantidades 
significativas, exceto por uma transferência 
lenta de tiroxina e triiodotironina (favorece o 
desenvolvimento cerebral enquanto a 
tireoide se forma). Hormônios esteroides 
não-conjugados cruzam livremente a 
membrana placentária. A testosterona e 
algumas progestinas sintéticas cruzam a 
membrana placentária e podem causar 
masculinização de fetos do sexo feminino. 
TRANSFERÊNCIA DE ELETRÓLITOS: 
Estes compostos são livremente trocados 
através da membrana placentária em 
quantidades significativas, cada um com sua 
própria velocidade. A infusão de líquidos por 
via endovenosa também fornece insumos ao 
feto. 
PASSAGEM DE ANTICORPOS MATERNOS: 
O feto produz somente pequenas 
quantidades de anticorpos, pois seu sistema 
imune é imaturo. Alguma imunidade passiva 
é conferida ao feto pela transferência 
placentária de anticorpos maternos, 
principalmente IgG, prontamente carreada 
por transcitose. Anticorpos maternos 
conferem imunidade ao feto contra doenças 
como a difteria, a varíola e o sarampo. 
Uma proteína materna, a transferrina, cruza 
a membrana placentária e transporta ferro 
para o embrião ou o para o feto, acoplando-
se em receptores placentários específicos. 
TRANSFERÊNCIA DE EXCRETAS: 
A ureia e o ácido úrico passam pela 
membrana placentária por DS. A bilirrubina 
conjugada, lipossolúvel, é facilmente 
transportada pela placenta para uma rápida 
depuração. 
PASSAGEM TRANSPLACENTÁRIA DE DROGAS: 
A maioria das drogas e seus metabólitos 
cruzam a placenta por DS, exceto aqueles 
que se assemelham estruturalmente a 
aminoácidos. Algumas dessas substâncias 
podem causar defeitos congênitos ao feto, 
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enquanto outras (drogas ilícitas) podem levar 
à dependência fetal. 
As drogas tomadas pela mãe podem afetar, 
direta ou indiretamente, o embrião/feto, 
interferindo no metabolismo materno ou da 
placenta. A alteração mais comum é a 
depressão respiratória no RN, causada 
principalmente por anestésicos inalatórios. 
PASSAGEM DE AGENTES INFECCIOSOS: 
Citomegalovírus, vírus da rubéola e 
coxsackievírus, assim como os vírus 
associados à varíola, varicela, sarampo e 
poliomielite podem atravessar a membrana 
placentária e causar infecção no feto. 
Microrganismos como o Treponema 
pallidum, causador da sífilis, e o Toxoplasma 
gondii, que causa alterações destrutivas do 
cérebro e dos olhos, também atravessam a 
membrana placentária. 
PLACENTA COMO UM ÓRGÃO ENDÓCRINO: 
Usando precursores provenientes do feto 
e/ou da mãe, o sinciciotrofoblasto da 
placenta sintetiza hormônios proteicos e 
esteroides, como o hCG, lactogênio 
placentário humano (hPL), tireotrofina 
coriônica humana, e corticotrofina coriônica 
humana. 
Os hormônios esteroides sintetizados pela 
placenta são a progesterona e os 
estrogênios. A progesterona pode ser 
extraída da placenta em todos os estágios da 
gestação, indicando ser ela essencial para a 
manutenção da gravidez. A placenta forma 
progesterona a partir do colesterol ou da 
pregnenolona maternos. 
O CORDÃO UMBILICAL: 
Essa estrutura normalmente está inserida no 
centro da placenta, com 50-60cm de 
comprimento e 1-2cm de diâmetro. O cordão 
é espiralado, fato que parece estar 
relacionado à prevenção de fenômenos 
compressivos. A torção do cordão pode se 
dar ao longo de toda a sua extensão, mas é 
geralmente observada na extremidade do 
feto. 
O cordão é formado de tecido conjuntivo 
indiferenciado (geleia de Wharton), no qual 
correm os vasos umbilicais e onde se 
encontram, com frequência, remanescentes 
da alantoide e da vesícula vitelina. O todo é 
revestido pelo âmnio funicular. 
Os vasos umbilicais possuem tortuosidades 
que com frequência originam nodulações na 
superfície do cordão ou acúmulos focais de 
geleia, constituindo os falsos nós. Nós 
verdadeiros podem ser formados em 1% das 
gestações, podendo causar morte fetal 
decorrente de anóxia. 
SISTEMA AMNIÓTICO: 
O sistema amniótico representa a unidade 
morfofuncional entre o âmnio e o líquido 
amniótico. 
O ÂMNIO: 
O âmnio, delgado, porém firme, forma o saco 
amniótico membranoso cheio de fluido, que 
envolve o embrião e o feto. Como o âmnio 
está preso às bordas do disco embrionário, 
após o dobramento do embrião, sua junção 
com o mesmo (futuro umbigo) passa a 
localizar-se na superfície ventral. Com o 
aumento do âmnio, ele oblitera gradualmente 
a cavidade coriônica e forma o revestimento 
epitelial do cordão umbilical. 
As membranas em volta da cavidade 
amniótica são compostas pelo âmnio e pelo 
cório liso, cujas camadas estão intimamente 
aderidas entre si e em contato com a decídua 
materna. Elas retêm o líquido amniótico. As 
membranas normalmente se rompem 
durante o parto. 
O âmnio não possui vasos sanguíneos nem 
nervos, sendo suprido nutricionalmente pelo 
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líquido amniótico. Cinco camadas formam 
essa estrutura: a mais interna, perto do feto, 
é o epitélio amniótico, secretor de colágeno 
III e IV e glicoproteínas que elaboram a 
próxima camada, a membrana basal. A 
camada compacta de tecido conjuntivo, 
adjacente à membrana basal, forma o 
principal esqueleto fibroso do âmnio, cujo 
colágeno é secretado por células 
mesenquimais da camada fibroblástica, a 
mais espessa. Não há interposição de 
substância amorfa entre as fibrilas de 
colágeno no tecido conjuntivo amniótico a 
termo, assim, o âmnio mantém toda a sua 
capacidade de estiramento durante o final da 
gestação normal. 
A camada intermediária (camada ou zona 
esponjosa) situa-se entre o âmnio e o cório. 
Seu abundante conteúdo de proteoglicanos 
hidratados e de glicoproteínas proporciona a 
essa camada uma aparência “esponjosa” 
nas lâminas histológicas. Ela contém 
também colágeno tipo III. A camada 
intermediária absorve o estresse físico, 
possibilitando que o âmnio deslize sob o 
cório subjacente, que está firmemente 
aderido à decídua. 
 
Ao examinar as membranas, reconstituindo 
o ovo na sua morfologia intrauterina, a face 
interna é lisa e brilhante, e a externa, 
despolida e irregular. A primeira é o âmnio, a 
segunda, o cório, com fragmentos deciduais. 
LÍQUIDO AMNIÓTICO: 
O líquido amniótico desempenha papel 
importante no crescimento e 
desenvolvimento do embrião. Inicialmente, 
um pouco de líquido amniótico pode ser 
secretado pelas células amnióticas, 
entretanto, a maior parte desse fluido provém 
do fluido tecidual materno e amniótico por 
difusão através da membrana 
amniocoriônica a partir da decídua parietal. 
Mais tarde, há difusão de líquido, através da 
placa coriônica a partir do sangue presente 
nos espaços intervilosos da placenta. Antes 
de a pele tornar-se queratinizada, ela é a 
principal via para a passagem de água e 
solutos do fluido tissular do feto para a 
cavidade amniótica, portanto esse líquido 
assemelha-se ao fluido dos tecidos fetais. 
O volume amniótico é muito variável de um 
entre gestações e, na mesma gestante, 
oscilante, embora com tendência geral ao 
aumento progressivo. Nos primórdios da 
gravidez, é maior o volume amniótico que o 
do concepto. Sendo mais acentuado o 
desenvolvimento do feto que o do âmnio, 
igualam-se, em torno do 5º mês, os volumes 
fetal e amniótico, invertendo-se a proporção 
ao final do ciclo gravídico. 
No início da 1ª semana, o feto contribui para 
o líquido amniótico expelindo urina na 
cavidade amniótica. No final da gravidez, 
cerca de 500 mL de urina é acrescentado 
diariamente. Normalmente, o volume de 
líquido amniótico aumenta lentamente, 
chegando a cerca de 30 mL com 10 
semanas, 350 mL com 20 semanas e de 700 
a 1.000 mL com 37 semanas, passando a 
perder 10 mL por semana próximo ao termo. 
Grande quantidade de água passa pela 
membrana amniocoriônica para o fluido 
tecidual materno e daí paraos capilares 
uterinos. Também há troca de fluido com o 
sangue fetal através do cordão umbilical e no 
local onde o âmnio adere à placa coriônica 
na superfície fetal da placenta. Desta 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
maneira, o líquido amniótico fica em 
equilíbrio com a circulação fetal. 
Esse líquido é uma solução na qual material 
não dissolvido está suspenso, (células 
epiteliais fetais descarnadas) e contém 
partes aproximadamente iguais de sais 
orgânicos e inorgânicos. Metade dos 
constituintes orgânicos é proteína, a outra 
metade consiste em carboidratos, gorduras, 
enzimas, hormônios e pigmentos. Com o 
avanço da gravidez, a composição do líquido 
amniótico muda pelo acréscimo de excretas 
fecais (mecônio e urina). A realização de 
amniocentese permite a análise de 
hormônios e enzimas fetais, sendo um bom 
método diagnóstico para anormalidades 
cromossômicas. 
O líquido amniótico é deglutido pelo feto e 
absorvido pelos tratos respiratório e 
digestivo, e os produtos de excreção nele 
contidos atravessam a membrana 
placentária e vão para o sangue materno 
presente no espaço interviloso. O excesso 
de água do sangue fetal é excretado pelos 
rins do feto e retorna para o saco amniótico 
através do trato urinário fetal. 
O líquido amniótico é fundamental para o 
desenvolvimento embriofetal, a saber: 
 Age como uma barreira contra infecções; 
 Permite o desenvolvimento adequado 
dos pulmões fetais; 
 Impede a aderência do âmnio ao feto; 
 Protege o feto contra choques 
mecânicos; 
 Regula a temperatura corporal 
embrionária; 
 Capacita a movimentação fetal livre e o 
desenvolvimento dos membros; 
 Participa da manutenção homeostásica 
de fluidos e eletrólitos. 
 
VESÍCULA VITELINA: 
Embora na espécie humana não 
desempenhe funções de armazenamento de 
material nutritivo, seu crescimento e sua 
diferenciação são essenciais para os 
seguintes fatores: 
 Fornece material nutritivo para o embrião 
na 2ª e 3ª semanas, quando não há 
circulação uteroplacentária; 
 O sangue se desenvolve em suas 
paredes desde a 3ª semana até a 6ª, 
quando a atividade hematopoética se 
inicia no fígado; 
 Durante a 4ª semana, a parte dorsal da 
vesícula vitelina se incorpora ao embrião, 
constituindo o tubo endodérmico, o 
intestino primitivo. Além do sistema 
digestivo, esse endoderma dará origem 
ao epitélio da traqueia, dos brônquios e 
dos pulmões; 
 No começo da 3ª semana, as células 
germinativas primitivas aparecem na 
vesícula vitelina e migram para 
desenvolver as gônadas 
(espermatogônias ou oogônias). 
No fim da 5ª semana a vesícula vitelina se 
separa do intestino primitivo, e na 12ª 
semana jaz na cavidade coriônica entre as 
vesículas amniótica e coriônica. Com o 
evoluir da gravidez, reduz-se, tornando-se 
sólida e bem diminuta. Pode persistir durante 
toda a gravidez e ser reconhecida na 
superfície fetal da placenta, embaixo do 
âmnio, perto da inserção do cordão umbilical. 
Em cerca de 2% dos adultos, a porção intra-
abdominal proximal da vesícula vitelina 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
persiste como um divertículo do íleo 
(divertículo de Meckel). 
ALANTOIDE: 
O alantoide aparece no 16º dia após a 
fertilização, como um divertículo na zona 
caudal da vesícula vitelina. Durante o 2º mês, 
a porção extraembrionária degenera, 
embora traços possam ser vistos entre as 
artérias umbilicais, em local próximo ao 
cordão, por algum tempo. Ainda que não seja 
funcional para os embriões humanos, ele 
apresenta três funções importantes: 
 Permite, nos dois primeiros meses de 
gestação, a formação de sangue em suas 
paredes; 
 Seus vasos sanguíneos originam as 
artérias e veias umbilicais; 
 Dá origem ao ligamento umbilical, que se 
estende do umbigo à bexiga. 
 
DESENVOLVIMENTO FETAL ENTRE A 9ª E 12ª 
SEMANA: 
Embora a transformação do embrião em feto 
seja gradual, a mudança de nome é 
relevante, pois significa que o embrião se 
tornou um ser humano reconhecível e que já 
se formaram todos os sistemas importantes. 
O desenvolvimento durante o período fetal 
está relacionado principalmente com o 
rápido crescimento do corpo e com a 
diferenciação dos tecidos, órgãos e 
sistemas. 
Uma alteração perceptível que ocorre 
durante o período fetal é a diminuição 
relativa do crescimento da cabeça quando 
comparado com o do resto do corpo. A taxa 
de crescimento do corpo durante o período 
fetal é muito grande, e, durante as últimas 
semanas, o ganho de peso pelo feto é 
impressionante. Períodos de crescimento 
contínuo se alternam com intervalos 
prolongados de ausência de crescimento. 
 
No início da 9ª semana, a cabeça constitui 
quase a metade do comprimento cabeça-
nádegas (CCN) do feto. Em sequência, há 
grande aceleração no crescimento do 
comprimento do corpo, fazendo com que no 
final da 12ª semana esse comprimento 
dobre, ainda que a medida cefálica ainda 
seja desproporcionalmente grande. 
 
Com nove semanas, a face é larga, os olhos 
estão muito separados, as orelhas têm 
implantação baixa e as pálpebras estão 
fundidas. No fim das 12 semanas, centros de 
ossificação primária aparecem no esqueleto, 
especialmente no crânio e nos ossos longos. 
No início da nona semana, as pernas são 
curtas e as coxas relativamente pequenas. 
No término da 12ª semana, os membros 
superiores quase alcançaram seu 
comprimento final relativo, mas os membros 
inferiores ainda não estão tão bem 
desenvolvidos e são um pouco mais curtos 
do que seu comprimento proporcional final. 
A genitália externa de homens e mulheres 
parece semelhante até o final da 9ª semana, 
uma vez que a sua forma fetal madura não 
está estabelecida até a 12ª semana. 
As alças intestinais são claramente visíveis 
na extremidade proximal do cordão umbilical 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
na metade da 10ª semana. Na 11ª semana, 
o intestino já retornou para o abdome. 
 
Intestino fetal próximo ao cordão umbilical (seta branca), 
que se retrai rumo ao abdome na 11ª semana. 
Com 9 semanas, o fígado é o principal local 
da eritropoese, mas o final da 12ª semana, 
marca a diminuição dessa atividade na 
região hepática e começa no baço. A 
formação de urina começa entre as semanas 
em análise, e essa excreta é lançada no 
líquido amniótico. O feto reabsorve parte 
deste fluido depois de degluti-lo. Os produtos 
de excreção fetal são transferidos para a 
circulação materna cruzando a membrana 
placentária. 
 
ASSISTÊNCIA PRÉ-NATAL E MORBIMORTALIDADE 
MATERNA: 
A morte materna é definida, de acordo com a 
Classificação Internacional de Doenças 
(CID), como a morte que ocorre durante a 
gestação, no período de até 42 dias após seu 
final, independentemente do seu local ou 
duração, devido a qualquer causa 
relacionada ou agravada pela gravidez ou, 
ainda, por medidas tomadas em relação a 
ela, excluindo-se os fatores acidentais ou 
incidentais. 
As causas obstétricas diretas estão 
relacionadas às complicações na gravidez, 
no parto ou puerpério, em razão de 
tratamento inadequado, más práticas e 
omissões. As indiretas são as que resultam 
de doenças que já existiam antes da 
gestação ou de uma patologia que se 
desenvolveu durante a gravidez, sem uma 
relação direta com causas obstétricas, mas 
que se agravaram pelas condições 
fisiológicas específicas da gestação. 
Países desenvolvidos têm taxa de 
mortalidade materna de 12 óbitos maternos 
por 100 mil nascidos vivos, e os países em 
desenvolvimento, 239 óbitos maternos a 
cada 100 mil nascidos vivos. Considera-se 
razoável uma proporção de até 20:100 mil. 
No Brasil, em 2014, foram registrados 1.552 
óbitos maternos por 100 mil nascidos vivos, 
evidenciando seu status como problema de 
saúde pública. 
Para computar os incidentes graves com 
gestantes que não chegaram a óbito, foi 
criado o conceitode morbidade materna 
grave, também denominada near miss. Essa 
categoria de complicações foi definida pela 
OMS como “uma mulher que quase morreu, 
mas sobreviveu a uma complicação materna 
grave, ocorrida durante a gravidez, o parto 
ou em até 42 dias após o término da 
gravidez”. 
As possibilidades de intervenção para 
redução dos índices de mortalidade e 
morbidade materna orbitam principalmente 
em torno dos serviços de saúde, nos quais 
destaca-se a assistência pré-natal. Esse 
modelo de atendimento contempla um 
conjunto de atividades que objetiva promover 
a saúde da gestante e do feto, identificando 
riscos do período gestacional. 
O número de consultas pré-natal realizadas 
pela gestante está intimamente relacionado 
com a prevenção do óbito materno, visto que 
é durante a realização do mesmo que são 
identificados os riscos potenciais, é garantido 
suporte nutricional para a gestante, 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
tratamento de doenças e imunizações 
indicadas nesse período, no intuito de 
diminuir a interferência de fatores externos 
sobre o desenvolvimento gestacional. É 
recomendada a primeira consulta de pré-
natal até a 16ª semana de gestação, onde é 
realizada a primeira avaliação de risco 
obstétrico dessa mulher. 
O novo modelo de atenção à gestante da 
OMS recomenda que sejam realizadas ao 
menos 8 atendimentos de acompanhamento 
pré-natal, visto que uma maior frequência de 
contatos entre mulheres e adolescentes com 
o sistema de saúde é associada a uma 
menor probabilidade de natimortos. 
No entanto, não é somente a maior 
frequência de atendimentos que irá prevenir 
boa parte dos óbitos maternos, mas sim a 
qualidade assistencial destes, e para tanto, a 
OMS faz uma série de recomendações, 
como investigar os prováveis riscos da 
gestante, realizar exame clínico e obstétrico, 
com uma especial atenção a presença de 
anemia e avaliação da idade gestacional, 
altura uterina e batimentos cardiofetais, aferir 
níveis pressóricos, e reforçar e estimular a 
suplementação de ferro e ácido fólico. 
Na primeira consulta pré-natal também deve 
ser realizado o exame ginecológico 
completo, o cálculo de IMC, a solicitação de 
exames laboratoriais básicos, como 
dosagem de hemoglobina, sorológico para 
sífilis e HIV/HTLV, urinálise, tipagem 
sanguínea (ABO e Rh), e a primeira dose da 
vacina antitetânica. 
Além da ação preventiva e terapêutica, o pré-
natal também tem como função a orientação 
das gestantes, no intuito de proporcionar a 
mulher medidas de suporte capazes de 
reduzir a ansiedade no período que antecede 
o parto e também durante o trabalho de 
parto, resultando assim, na diminuição de 
complicações. 
CONDUÇÃO E ORIENTAÇÕES NUMA CONSULTA DE 
PRÉ-NATAL: 
A consulta pré-natal, assim como uma 
consulta cínica, é composta de anamnese, 
exame físico e avaliação dos exames 
complementares. As consultas são divididas 
em primeira consulta e acompanhamento. 
PRIMEIRA CONSULTA: 
A primeira consulta é o contato inicial da 
paciente gestante com seu obstetra, 
momento em que serão estabelecidas as 
relações de confiança e empatia, e tem como 
objetivos principais a avaliação da condição 
de saúde materna e fetal, estimar a IG e 
iniciar o planejamento do acompanhamento 
gestacional. O profissional de saúde ainda 
deve orientar a gestante acerca do número e 
frequência das consultas, dos 
procedimentos que serão realizados, e dos 
momentos nos quais deve buscar 
atendimento emergencial. 
A avaliação de risco é individual para cada 
paciente, e deve ser permanente, ou seja, 
realizada em cada consulta. É por meio 
desses fatores que o profissional pode 
desenvolver condutas ou encaminhamentos 
capazes de prevenir complicações que 
possam causar prejuízos à mãe ou ao 
concepto. 
A caracterização de uma situação de risco 
não implica necessariamente referência da 
gestante para acompanhamento em pré-
natal de alto risco. As situações que 
envolvem fatores clínicos mais relevantes 
(risco real) ou fatores preveníveis que 
demandem intervenções mais complexas 
devem ser necessariamente referenciadas, 
podendo, contudo, retornar ao nível primário 
quando se considerar a situação como 
resolvida. De qualquer maneira, a unidade 
básica de saúde deve continuar responsável 
pelo seguimento da gestante encaminhada a 
um nível de maior complexidade no sistema. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Os fatores de rico para a gravidez em curso 
são: 
 Características individuais e condições 
sociodemográficas desfavoráveis: 
o Idade menor que 15 e maior que 35 
anos; 
o Ocupação com esforço físico intenso, 
carga horária intensa, estresse, 
rotatividade de horários ou exposição 
a agentes químicos, físicos ou 
biológicos; 
o Situação familiar/conjugal insegura; 
o Condições ambientais desfavoráveis; 
o Altura menor que 1,45m; 
o Peso menor que 45kg ou maior que 
75kg; 
o Dependência química (drogas lícitas 
ou ilícitas). 
 História reprodutiva anterior: 
o Mortalidade perinatal anterior; 
o Recém-nascido malformado, pré-
termo ou com restrição de 
crescimento; 
o Abortamento habitual; 
o Infertilidade; 
o Intervalo entre partos menor que dois 
anos ou maior que cinco; 
o Nuliparidade/multiparidade; 
o Síndromes hemorrágicas; 
o (Pré) eclâmpsia; 
o Cirurgia uterina prévia; 
o Macrossomia fetal. 
 Condições clínicas de aspecto crônico: 
o Diabetes mellitus; 
o Cardiopatias; 
o GInecopatias; 
o Epilepsia; 
o Hipertensão moderada/grave ou em 
uso de anti-hipertensivo; 
o Nefropatias; 
o Pneumopatias; 
o Portadores de doenças infecciosas; 
o Infecção urinária; 
o Doenças autoimunes. 
 Doença obstétrica atual: 
o Trabalho de parto prematuro ou 
gestação prolongada; 
o Ganho ponderal inadequado; 
o Óbito fetal; 
o Isoimunização; 
o Pré-eclâmpsia ou eclampsia. 
Ainda sobre a primeira consulta, anamnese 
e exame físico devem ser minuciosos para 
auxiliar a construir o quadro atual da saúde 
da gestante, não devendo ser esquecidos 
aspectos como sexualidade, contexto 
socioeconômico e cultural, antecedentes 
pessoais e familiares. Nesse primeiro 
momento são prescritos os seguintes 
exames complementares: 
 Dosagem de hemoglobina ( VR: acima de 
11g/dL) e hematócrito; 
 Grupo sanguíneo e fator Rh; 
 Sorologia para sífilis (VDRL), repetindo 
na 32ª semana; 
 Glicemia em jejum, repetindo na 30ª 
semana; 
 Sumário de urina, repetindo na 30ª 
semana; 
 Sorologia anti-HIV/HTLV; 
 Sorologia para Hepatite B, 
preferencialmente próximo à 30ª semana 
de gestação; 
 Sorologia para toxoplasmose (IgM para 
toda paciente, IgG se há disponibilidade). 
Outros exames podem ser solicitados 
conforme a necessidade, como 
protoparasitológico (na primeira consulta, 
principalmente se a paciente for 
economicamente vulnerável), Papanicolau 
(se não foi realizado nos últimos 3 anos ou 
se houver indicação), bacterioscopia da 
secreção vaginal (30ª semana, 
particularmente em mulheres com histórico 
de prematuridade), sorologia para rubéola, 
urocultura (diagnóstico para bacteriúria 
assintomática), e ultrassonografia obstétrica 
(realizar precocemente se houver 
disponibilidade). 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
As condutas promovidas nesse primeiro 
momento são o cálculo da IG e da DPP, 
avaliação do estado nutricional, respostas às 
indagações da paciente ou de seus 
familiares, referência para atendimento 
odontológico, encaminhamento para 
imunização antitetânica (se a gestante não 
for imunizada) ou outros serviços prestados 
pela Unidade 
ACOMPANHAMENTO: 
O processo de acompanhamento no pré-
natal deve contar com a revisão da 
caderneta da gestante, uma anamnese 
sucinta de queixas atuais e verificação do 
calendário vacinal. 
Para o controle da saúde materna são 
realizados o cálculo da IG, determinação do 
peso atual(IMC e verificação da curva de 
ganho ponderal), a medida da PA, palpação 
obstétrica e medida da AU, pesquisa por 
edema, e avaliação dos resultados 
laboratoriais (se positivo para sífilis, iniciar o 
tratamento do casal e promover sorologias 
mensais para o controle da cura). 
Os controles da saúde fetal são executados 
por meio da ausculta dos BCF e da avaliação 
dos movimentos percebidos pela mulher 
e/ou detectados durante o exame obstétrico. 
Como condutas típicas desse período, o 
profissional deve correlacionar dados 
colhidos na anamnese e exame físico aos 
resultados dos exames laboratoriais, 
solicitando outros conforme a necessidade, 
tratar alterações encontradas, prescrever a 
suplementação de sulfato ferroso (60mg de 
ferro elementar/ dia) e ácido fólico (5mg/dia), 
orientar acerca dos hábitos alimentares que 
devem ser seguidos, acompanhar a conduta 
adotada em centros de referência 
especializados (caso a paciente tenha sido 
encaminhada),e realizar medidas 
educativas individuais ou coletivas 
(gestantes com 10-14 e 15-19 anos devem 
ter grupos isolados), além de agendar nova 
consultas. 
O calendário de atendimento pré-natal deve 
ser programado em função dos períodos 
gestacionais que determinam maior risco 
materno e perinatal. Deve ser iniciado 
precocemente (primeiro trimestre) e deve ser 
regular e completo (garantindo-se que todas 
as avaliações propostas sejam realizadas e 
preenchendo-se o cartão da gestante e a 
ficha de pré-natal). 
O Programa de Humanização do Pré-Natal e 
Nascimento estabelece que o número 
mínimo de consultas de pré-natal deverá ser 
de seis, preferencialmente, uma no primeiro 
trimestre, duas no segundo trimestre e três 
no último trimestre. A maior frequência de 
visitas no final da gestação visa à avaliação 
do risco perinatal e das intercorrências 
clínico-obstétricas mais comuns nesse 
trimestre, como trabalho de parto prematuro, 
pré-eclâmpsia e eclâmpsia, amniorrexe 
prematura e óbito fetal. 
O acompanhamento da mulher, no ciclo 
grávido-puerperal, deve ser iniciado o mais 
precocemente possível e só se encerra após 
o 42º dia de puerpério, período em que 
deverá ter sido realizada a consulta de 
puerpério. 
ORIENTAÇÕES NUTRICIONAIS NA GESTAÇÃO: 
O estado nutricional da mulher deve ser 
avaliado preferencialmente no período 
periconcepcional e as modificações 
alimentares necessárias também devem ser 
iniciadas antes da gestação. O estado 
nutricional materno adequado é considerado 
um fator imponente na redução da 
morbidade e da mortalidade materno-infantil. 
A incidência de complicações na gestação é 
maior nos extremos do ganho de peso. O 
ganho inferior ao ideal para a faixa de índice 
de massa corporal (IMC) está associado à 
restrição do crescimento fetal e ao parto 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
prematuro, ao passo que os ganhos 
superiores têm relação com macrossomia 
fetal e ao aumento de duas vezes na taxa de 
cesárias. 
O ganho ponderai médio ideal da grávida é 
de aproximadamente 12,5 kg. O feto, a 
placenta e o aumento uterino e das mamas 
representam aproximadamente 9 kg, sendo 
o restante composto por tecido gorduroso 
materno. Esses parâmetros podem variar 
conforme o IMC prévio de cada gestante. 
 
O ganho semanal para a gestante com peso 
ideal é de aproximadamente 400 g no 
segundo e terceiro trimestres. Ganho menor 
que 1 kg ou maior que 3 kg em um mês é 
sugestivo de mudanças nos hábitos 
alimentares ou de outros fatores que possam 
contribuir para alterações no peso, como a 
retenção hídrica na pré-eclâmpsia. As 
gestantes com ganho de peso inadequado 
se beneficiam de acompanhamento 
nutricional especializado e individualizado. 
Recomenda-se um aumento de 300 kcal/dia 
na ingestão sobre os níveis pré· -
gestacionais. A quantidade de calorias 
representa o principal fator nutricional 
determinante do peso ao nascer. A placenta 
e o feto consomem aproximadamente 1 kg 
de proteína durante a gestação, e a maioria 
desse consumo ocorre nos últimos seis 
meses da gestação. Dessa forma, a grávida 
necessita ingerir de 5 a 6g/dia adicionais de 
proteína, em relação à sua dieta pré-
gestacional. 
Alguns alimentos devem ser limitados ou 
mesmo evitados durante a gestação por 
conta de seu potencial tóxico. Entre eles, 
estão peixes, cafeína, carnes cruas, frutas e 
vegetais não lavados e produtos não 
pasteurizados. A exposição ao metilmercúrio 
pela ingestão de peixes contaminados pode 
causar alterações no desenvolvimento do 
sistema nervoso central do feto, as quais 
podem provocar prejuízos no 
desenvolvimento intelectual e psicomotor. 
A deficiência de ferro é a principal causa de 
anemia. No decorrer da gestação, ocorre 
aumento das necessidades desse nutriente 
por causa da captação de 15 a 20% do ferro 
total do plasma materno pela placenta e pelo 
feto, além da expansão da volemia. Os sais 
de ferro, provenientes apenas da dieta, 
passam a ser insuficientes após 20 semanas 
para a maioria das gestantes. Nesse caso, 
recomenda-se sua suplementação desde 16 
semanas de gestação até 8 semanas após o 
parto. A partir do segundo trimestre é 
recomendada a suplementação de 60mg/dia 
de ferro elementar, que corresponde a 
300mg de sulfato ferroso ou do ferro quelato 
glicinato. 
Para prevenção dos defeitos abertos do tubo 
neural nas pacientes sem antecedentes, 
recomenda-se suplementação de 400µg de 
ácido fólico por dia e, em pacientes com 
antecedentes, 4mg/dia. Para esse fim, a 
suplementação deve ser iniciada 3 meses 
antes da gestação e continuar nos 2 
primeiros meses. 
A ingestão de polivitamínicos contendo 
vitamina A deve ser evitada, pois a 
alimentação já supre a necessidade diária da 
gestante. A ingestão de vitamina A em doses 
superiores a 10.000UI/dia é teratogênica. 
A suplementação de cálcio é recomendada 
na dose de 600mg/ dia apenas para 
gestantes que não consumam produtos 
lácteos. As gestantes veganas necessitam 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
de maiores doses de suplementação de 
vitaminas B12 e D. 
A vitamina B6 é recomendada para 
gestantes com nutrição inadequada 
(usuárias de drogas, adolescentes e nos 
casos de gestação múltipla). A necessidade 
de vitamina C na gestação é de 80 a 
85mg/dia e pode ser obtida pela 
alimentação. 
 
PROGRAMAS GOVERNAMENTAIS LIGADOS À 
GESTAÇÃO: 
O SUS deve garantir, através de políticas 
públicas, ações e serviços de atenção 
integral à saúde da mulher, incluindo o direito 
à gestação segura, assistência ao parto e 
puerpério. É nesse contexto que se insere a 
Política Nacional de Atenção Integral a 
Saúde da Mulher, que surgiu inicialmente 
como programa em 1983, e, em 2000, teve 
sua linha de saúde reprodutiva fortalecida 
por meio da implantação do Programa de 
Humanização no Pré-Natal e Nascimento 
(PHPN), que delibera acerca dos requisitos 
mínimos para o acompanhamento pré-natal 
e assistência à gestante, aprimorados em 
2005 com a Política Nacional de Atenção 
Obstétrica e Neonatal. 
Diante da necessidade de avaliação dos 
programas citados, o Departamento de 
Informática do SUS (DATASUS) 
desenvolveu o Sistema de Informação do 
Pré-natal (SISPRENATAL), que tem por 
objetivo o desenvolvimento de ações de 
promoção, prevenção e assistência à saúde 
de gestantes e recém-nascidos, subsidiando 
Municípios, Estados e o Ministério da Saúde 
com informações fundamentais para o 
planejamento, acompanhamento e avaliação 
das ações desenvolvidas. 
Entretanto, desde a implantação, os 
indicadores do Programa de Humanização 
no Pré-Natal e Nascimento refletem baixa 
cobertura, com variação em todo o país. 
Estudos apontam que o registro da 
informação no SISPRENATAL é sempre 
incompleto ao comparar com outras fontes 
de informação (prontuários de internação, 
entrevistas com puérperas ou estatísticas 
institucionais),evidenciando uma provável 
subnotificação. 
 
A Rede Cegonha é uma estratégia lançada 
em 2011 pelo governo federal para 
proporcionar às mulheres saúde, qualidade 
de vida e bem-estar durante a gestação, 
parto, pós-parto e o desenvolvimento da 
criança até os dois primeiros anos de vida. 
Tem o objetivo de reduzir a mortalidade 
materna e infantil e garantir os direitos 
sexuais e reprodutivos de mulheres, 
homens, jovens e adolescentes. 
Trata-se de um modelo que garante às 
mulheres e às crianças uma assistência 
humanizada e de qualidade, que lhes 
permite vivenciar a experiência da gravidez, 
do parto e do nascimento com segurança, 
dignidade e beleza. Não se pode esquecer 
jamais que dar à luz não é uma doença ou 
um processo patológico, mas sim uma 
função fisiológica e natural que constitui uma 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
experiência única tanto para a mulher como 
para o parceiro. 
O conceito de atenção humanizada é amplo 
e pode contemplar diversos significados 
mas, a partir de sua aplicação ao contexto da 
assistência obstétrica e neonatal, envolve 
um conjunto de conhecimentos, práticas e 
atitudes que visam a promoção do parto e do 
nascimento saudáveis e a prevenção da 
morbimortalidade materna e perinatal. Inicia-
se no pré-natal e procura garantir que a 
equipe de saúde realize procedimentos 
comprovadamente benéficos para a mulher 
e o bebê, que evite as intervenções 
desnecessárias e que preserve a privacidade 
e a autonomia desses sujeitos. 
Pode-se afirmar que para haver 
humanização deve haver compromisso com 
a ambiência (bem-estar integral em 
determinado ambiente), melhoria das 
condições de trabalho e de atendimento, 
respeito às questões de gênero, etnia, raça, 
orientação sexual e às populações 
específicas, fortalecimento de trabalho em 
equipe multiprofissional, fomentando a 
transversalidade e a grupalidade, apoio à 
construção de redes cooperativas, 
fortalecimento do controle social, e estímulo 
de processos que buscam a educação 
permanente em saúde. 
Os Centros de Parto Normal Intra e Peri-
hospitalares são unidades de atenção ao 
parto e nascimento da maternidade/hospital 
que realizam o atendimento humanizado e 
de qualidade exclusivamente ao parto 
normal e privilegiam a privacidade, a 
dignidade e a autonomia da mulher ao parir 
em um ambiente mais acolhedor e 
confortável e contar com a presença de 
acompanhante de sua livre escolha. Essas 
unidades são geridas por enfermeiras e 
obstetras e devem estar sempre organizadas 
no sentido de promover a ampliação do 
acesso, do vínculo e da atenção humanizada 
ao parto e ao nascimento. 
Dentre os componentes da Rede Cegonha 
encontram-se: 
 Qualificação do Pré-Natal: captação 
precoce da gestante (medidas de 
educação em saúde para o 
reconhecimento dos sinais de gravidez), 
acolhimento humanizado, subsídio 
financeiro para realização de exames, 
vinculação a uma maternidade de 
referência (mediação de visitas, evita 
peregrinações no parto), alimentação no 
SISPRENATAL. 
o Caderneta da Gestante: instrumento 
fundamental para o registro das 
informações de acompanhamento da 
gestação e deve ser parte do 
processo de trabalho dos 
profissionais de saúde, sendo 
utilizada em todas as consultas do 
pré-natal. Ela é um instrumento 
reconhecido e inserido na rotina de 
pré-natal dos serviços de saúde que 
realizam acompanhamento das 
gestantes pelo SUS. As informações 
presentes na caderneta auxiliam o 
diálogo entre a equipe 
multiprofissional e a paciente, que 
pode registrar e esclarecer suas 
dúvidas, se preparar para o 
parto/amamentação e conhecer seus 
direitos. 
 Parto e Nascimento: garantia de 
permanência do RN ao lado da mãe 
durante todo o tempo de internação, 
contato pele a pele, estímulo de 
participação paterna, investimentos em 
UTIs neonatais; 
 Puerpério e Atenção Integral à Saúde da 
Criança: encaminhamento personalizado 
para a continuidade do cuidado, visita 
domiciliar pelo ACS, realização de todos 
os exames de rotina e imunizações; 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 Logística de transporte: fornecer subsídio 
financeiro ou veicular para o transporte 
da gestante durante a realização de 
exames ou do parto, emprego do SAMU 
(com equipe capacitada) em 
emergências ou situações clínicas 
compatíveis. 
ACHADOS ULTRASSONOGRÁFICOS E DEFEITOS 
CONGÊNITOS: 
ACONSELHAMENTO GENÉTICO: 
O aconselhamento genético pode ser 
definido como um processo de comunicação 
sobre o risco de ocorrência ou recorrência 
familial de anomalias genéticas, com as 
finalidades de fornecer a indivíduos ou 
famílias uma ampla compreensão de todas 
as implicações relacionadas às doenças 
genéticas em discussão, as opções que a 
medicina atual oferece para a terapêutica ou 
para a diminuição dos riscos de ocorrência 
ou recorrência da doença genética em 
questão, e eventual apoio psicoterapêutico. 
Nessa definição é fácil entender que uma 
das metas prioritárias do aconselhamento 
genético é ajudar famílias que estão ou que 
supõe estar sob risco de ocorrência ou de 
defeitos genéticos, a tomar decisões 
racionais quanto à procriação. 
O aconselhamento genético é feito de modo 
não doutrinador com a finalidade de defender 
o bem-estar de indivíduos ou de famílias, 
ajudando-os a resolver problemas de 
natureza genética, tentando esclarecer-lhe 
dúvidas e diminuindo ou evitando 
sofrimentos e preocupações. 
ULTRASSONOGRAFIA HABITUAL NA GESTAÇÃO: 
A ultrassonografia de rotina durante a 
gestação, embora seja procedimento 
bastante corriqueiro, permanece como 
assunto controverso. Não existe, ainda, 
demonstração científica de que esse 
procedimento tenha qualquer efetividade 
sobre a redução da morbidade e da 
mortalidade perinatal ou materna. 
Entretanto, existem evidências de que sua 
realização se relaciona com uma melhor 
determinação da idade gestacional, 
detecção precoce de gestações múltiplas e 
malformações fetais clinicamente não 
suspeitas. 
Essa última característica associa-se 
indiretamente a uma menor mortalidade 
perinatal específica por malformações fetais 
nas localidades onde a interrupção precoce 
da gravidez é legalizada. Dessa maneira, 
pode-se dizer que o exame de ultrassom 
pode ser recomendado como rotina nos 
locais onde ele esteja disponível e possa ser 
realizado no início da gestação. A sua não 
realização não constitui omissão, nem 
diminui a qualidade do pré-natal. 
No segundo trimestre, o feto cresce 
suficientemente em tamanho, o que torna 
possível a visualização de detalhes 
anatômicos na ultrassonografia. Durante 
este período, usando USG de alta definição 
em tempo real, é possível descobrir a maioria 
das principais anomalias fetais. As medidas 
mais utilizadas para auxiliar a observação do 
desenvolvimento fetal são: 
 Diâmetro biparietal; 
 Circunferência da cabeça; 
 Circunferência abdominal; 
 Comprimento do fêmur; 
 Comprimento do pé. 
O peso do feto é um critério útil para a 
estimativa da idade, mas pode haver 
discrepância entre a idade e a massa fetal, 
particularmente quando a mãe teve 
distúrbios metabólicos, como diabetes 
mellitus, durante a gravidez. Nestes casos, 
frequentemente o peso fetal excede os 
valores considerados normais para o 
comprimento cabeça-nádegas. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
No terceiro trimestre, a USG é importante 
pois diagnostica fetos pequenos para a idade 
gestacional (PIG) ou grandes para a idade 
gestacional (GIG). Outra recente indicação 
da ultrassonografia nesse trimestre é o 
diagnóstico da restrição de crescimento 
intrauterino placentário tardio entre 32 e 36 
semanas, quando seriam realizados o 
Doppler da artéria uterina, da relação 
cerebroplacentária (RCP) e a medida da 
circunferência abdominal. 
A ultrassonografia obstétrica é, 
indiscutivelmente,aquela que mais 
diagnostica, em frequência e em número, 
tanto doenças genéticas quanto não-
genéticas e, por esse motivo, aliado ao seu 
baixo custo e à sua característica não 
invasiva, deve ser incentivada e priorizada 
no diagnóstico pré-natal. 
Uma outra grande aplicação da 
ultrassonografia diz respeito à investigação 
do efeito de agentes teratogênicos, como 
certos agentes químicos, que são 
causadores de redução de membros, ou 
físicos, como a radiação, que pode causar 
microcefalia, ou, ainda, biológicos, capazes 
de acarretar retardamento do crescimento 
intrauterino, além de microcefalia. 
DIAGNÓSTICO PRÉ-NATAL E ANOMALIAS 
CONGÊNITAS: 
O diagnóstico pré-natal, parte da obstetrícia 
que aborda as anomalias genéticas fetais, 
emprega tanto testes de rastreamento 
quanto de diagnóstico propriamente dito. Os 
testes de rastreamento são realizados 
universalmente pela população, não são 
invasivos, têm boa sensibilidade e avaliam o 
risco de uma gestante dar à luz a um feto 
acometido por alterações genéticas. Os 
testes diagnósticos, por sua vez, são mais 
específicos, custosos e invasivos, 
pretendendo revelar com a maior precisão 
possível se o feto apresenta algum distúrbio 
genético. Sua realização é originada de 
testes de rastreamento, que selecionam as 
pacientes com risco. 
A cada 150 nascidos vivos, 1 apresenta 
algum tipo de anomalia cromossomal. As 
aberrações cromossômicas ocorrem em 2/3 
dos abortamentos ocultos, em metade dos 
abortamentos clínicos e em 5% dos 
natimortos. Além disso, 5 a 7% da 
mortalidade no infante e na criança se deve 
à anomalia cromossômica. No caso de 
sobrevida do bebê, podem ocorrer defeitos 
congênitos, dificuldade de sucção, 
anormalidades funcionais, incluindo retardo 
no neurodesenvolvimento, infertilidade e 
pequena expectativa de vida. As anomalias 
cromossomais são mais frequentes em caso 
de abortamentos recorrentes e 
anormalidades estruturais fetais. 
Além de anormalidades no número de 
cromossomos, aberrações na sua estrutura, 
tais como deleções, duplicações, 
translocações e outros rearranjos, também 
podem ocorrer. Embora nem todas as 
deleções e duplicações sejam patológicas, 
algumas são bastante grandes e facilmente 
identificadas na análise do cariótipo, 
enquanto outras são pequenas 
microdeleções ou duplicações passíveis de 
detecção apenas por técnicas laboratoriais 
específicas. 
Ainda mais comuns do que as 
anormalidades cromossômicas são os 
defeitos estruturais congênitos isolados, tais 
como anomalias cardíacas, defeitos do tubo 
neural e fendas faciais. Essas malformações 
geralmente são determinadas por múltiplos 
genes ao longo de fatores ambientais e, em 
geral, são isoladas. 
Mutações podem ocorrer no DNA das 
mitocôndrias e causar doenças. Como as 
mitocôndrias são essenciais para o 
metabolismo aeróbio, as doenças 
mitocondriais comumente afetam tecidos 
com necessidade elevada de energia, como 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
o sistema nervoso central, coração e 
músculo. 
As anormalidades cromossômicas afetam 
aproximadamente 0,4% dos nascimentos 
(1/250) e incluem nascidos vivos, natimortos 
e abortos. A trissomia 21 é responsável por 
50% dos casos, a trissomia 18, por 15%; e a 
13, por 5% dos casos. Aproximadamente 
12% são anormalidades dos cromossomos 
sexuais, tais como 45,X e 47 XXX, XXY e 
XYY. O restante, grosseiramente 18% de 
todas as anomalias, é ou não de 
aneuploidias (poliploidia, mosaicismo, 
rearranjos estruturais) ou não é comumente 
identificado por meio do rastreamento pré-
natal. 
Alguns critérios de risco para o 
desenvolvimento de alterações congênitas 
são: 
 Idade materna avançada: eleva o risco 
para aneuploidias (variações no número 
de cromossomos), mas não contribui 
para seu surgimento de forma isolada; 
 Idade paterna avançada: está associada 
a risco aumentado de a criança 
apresentar distúrbio monogênico. 
Embora não haja consenso, o período de 
40 a 50 anos é o considerado para a 
definição de idade paterna avançada. O 
risco genético está relacionado, 
principalmente, com a incidência 
aumentada de mutação durante a 
espermatogênese; 
 Pais portadores de rearranjos 
cromossomais: mulheres ou homens 
portadores de translocações ou 
inversões costumam apresentar fenótipo 
normal, mas estão em risco de produzir 
gametas com cromossomos não 
balanceados, resultando crianças com 
anormalidades genéticas. Para a maioria 
dos rearranjos, o risco de o recém-
nascido apresentar alguma anormalidade 
é menor do que o risco teórico, pois 
muitos desses gametas determinam 
abortamentos; 
 Pais com aneuploidias: mulheres com 
trissomia 21, ainda que subférteis, 
apresentam risco elevado de ter prole 
com a síndrome. Mulheres 47 XXX e 
homens 47 XXY tendem a ser férteis, 
mas não possuem maior risco de gerar 
descendentes com o mesmo distúrbio; 
 Filho anterior com defeito estrutural 
congênito: a maioria dos defeitos 
congênitos de caráter anatômico são 
isolados e decorrentes de múltiplos 
genes, portanto há probabilidade de 
reincidência numa mesma família; 
 Pais portadores de um distúrbio genético: 
pais afetados ou portadores de distúrbios 
genéticos, tais como anemia falciforme 
ou fibrose cística, têm risco elevado de ter 
uma criança afetada; 
 Filho anterior com trissomia autossômica 
ou triploidia sexual: o risco de recorrência 
após uma gravidez afetada é 1,6 a 8,2 
vezes o risco da idade materna para 
trissomias autossômicas. O risco de 
recorrência é mais impreciso para as 
trissomias sexuais; 
 Anormalidades estruturais identificadas 
por USG: a presença de anomalias 
estruturais fetais aumenta o risco de 
aneuploidia, variações no número de 
cópias, microdeleções e outras 
síndromes genéticas, porém nem sempre 
isso acontece, visto que algumas 
alterações estruturais são isoladas. 
TRANSLUCÊNCIA NUCAL: 
A medida da translucência nucal (TN) em 
fetos de gestações entre 10 e 14 semanas 
pode ser usada como triagem de anomalias 
cromossômicas, sendo que quanto maior a 
medida desse parâmetro, maior a 
probabilidade de a gestação resultar no 
nascimento de uma criança afetada por 
cromossomopatias, principalmente 
trissomias. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
Com o feto em posição sagital, a medida da 
TN é feita medindo-se a espessura máxima 
da translucência entre a pele e o tecido mole 
que cobre a espinha cervical. O valor de 
2,5mm é o limite entre risco baixo e elevado, 
com medidas entre 2,5 e 3mm aumentando 
essa probabilidade em 3 vezes, entre 4 e 
4,9mm, aumenta 18 vezes, com valores 
maiores ou iguais a 6mm representando 36 
vezes mais propensão ao desenvolvimento 
de cromossomopatias, com todas essas 
pacientes devendo realizar USG morfológica 
para descartar a possibilidade de outras 
malformações. O aumento desses valores 
também se relaciona a maiores chances de 
abortamento espontâneo. 
Cabe lembrar que a TN não é específica de 
cromossomopatia, podendo ser encontrada 
em cardiopatias e em diversas síndromes. O 
uso da translucência nucal é capaz de 
detectar cerca de 50% das cardiopatias 
congênitas, sendo, assim, usado como rotina 
para tranquilizar casais que já tiveram uma 
criança com essa afecção, deixando-os mais 
calmos até a realização da amniocentese 
após duas a quatro semanas. 
 
MARCADORES BIOFÍSICOS DO 1º TRIEMSTRE: 
Os de maior importância são o osso nasal, 
que entre a 11ª e 13ª não é visível em 70% 
dos fetos com Síndrome de Down, contra 
somente 2% dos fetos euploides, e o ducto 
venoso, cujas alterações de fluxo são 
observadas em 80% dos indivíduos com 
trissomia 21 e em 5% dos fetos de 
desenvolvimento regular. 
 
Alguns sinais anatômicos ultrassonográficos 
são suficientes, inclusive, para diagnosticar 
outras síndromes. Exemplos bastante 
significativos se referem à síndrome deTurner. Assim, a presença do higroma cístico 
em feto do sexo feminino torna altamente 
possível esse diagnóstico. Sinais 
importantes como lábio leporino associado à 
diminuição das órbitas e presença de 
polidactilia impõe que se investigue a 
hipótese da síndrome de Patau. 
TESTE DE 1º TRIMESTRE COMBNADO: 
O teste de 1º trimestre combinado avalia não 
só a idade materna como também a TN e 
dois marcadores bioquímicos, a proteína 
plasmática associada à gravidez-A (PAPP-
A) e o β-hCG livre. 
A vantagem desse método é que o rastreio 
bioquímico pode, se utilizadas as técnicas 
adequadas, ser obtido em 30 minutos. A 
combinação desse resultado com a TN e a 
idade materna conseguem, ao final de uma 
consulta, avaliar o risco final dessa paciente. 
Cerca de 30% das anomalias 
cromossômicas detectadas pelo teste de 1º 
trimestre combinado são diferentes das 
trissomias 21, 18 e 13, sendo as mais 
frequentes a síndrome de Turner (45 X) e a 
47 XYY. Aproximadamente 99% dos casos 
de Turner terminam em abortamento no 1º 
trimestre, o que pode ser explicado pelo valor 
elevado da TN (superior a 8,5mm) e pela 
idade materna superior a 35 anos. 
TESTE PRÉ-NATAL NÃO INVASIVO: 
Podendo ser realizado a partir de 9 a 10 
semanas de gestação, o teste pré-natal não 
invasivo (NIPT) ou cell free DNA (cfDNA) 
busca identificar material genético fetal 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
oriundo de células apoptóticas do trofoblasto, 
podendo estabelecer: 
 Sexagem fetal; 
 Rh fetal; 
 Diagnóstico de trissomias 13, 18 e 21, 
monossomia 45 X (Síndrome de Turner) 
e 47 XXY (Klinefelter); 
O NIPT é um teste de rastreamento, não 
devendo, portanto, substituir testes 
diagnósticos. O cfDNA é mais efetivo na 
presença de maior fração do DNA fetal, o 
que ocorre entre 11 e 13 semanas, quando 
esse valor é, em média, 10%. Os resultados 
do teste costumam ser fornecidos em 7 a 10 
dias e referidos como positivo, negativo ou 
no call (se o valor de material genético fetal 
for menor que 4%). 
O cfDNA tem maior sensibilidade e 
apresenta menos resultados falso-positivos 
do que os testes usuais de rastreamento. No 
momento, o NIPT parece ser o melhor 
exame para rastrear aneuploidia fetal, e 
espera-se que, com o avanço da tecnologia, 
ele seja capaz de identificar uma gama ainda 
maior de alterações genéticas 
diagnosticadas, contribuindo para reduzir 
significativamente a taxa de procedimentos 
invasivos. 
Na gestação de 11 a 13 semanas, algumas 
anomalias estruturais podem ser 
identificadas pela ultrassonografia, incluindo 
higroma cístico, anencefalia, 
holoprosencefalia e megabexiga. 
Os três pilares do diagnóstico pré-natal no 
primeiro trimestre são o NIPT, a USG de 
primeiro trimestre e o teste invasivo, 
reforçando a necessidade de 
acompanhamento em mulheres com NIPT 
normal. 
MARCADORES DO 2º TRIEMSTRE: 
Existem diversos marcadores 
ultrassonográficos de trissomia identificados 
na ultrassonografia de 2º trimestre, por 
ocasião do exame morfológico: 
ventriculomegalia leve (diâmetro do 
ventrículo lateral ≥ 10 mm e < 15 mm), cisto 
do plexo coroide, prega cutânea occipital 
(PCO) espessada (≥ 6 mm), foco ecogênico 
intracardíaco, intestino hiperecogênico 
(visualizado da USG como uma massa 
esbranquiçada), hidronefrose leve ou 
pieloectasia (diâmetro anteroposterior da 
pelve renal ≥ 5 mm e < 10 mm), fêmur ou 
úmero curto e osso nasal 
ausente/hipoplásico. O risco de anomalias 
desses marcadores é estimado pela razão 
de verossimilhança, elevando o risco 
fornecido pelo teste de 1º trimestre 
combinado. Os melhores marcadores para a 
síndrome de Down são a PCO espessada, a 
ventriculomegalia e o osso nasal 
ausente/hipoplásico. 
 
A artéria umbilical única incide em 
aproximadamente 0,5 a 5% de todas as 
gestações, e acredita-se que ela resulte de 
uma agenesia primária ou atrofia trombótica 
de uma das artérias. Está bem documentada 
a sua associação com anomalias fetais, 
incluindo aquelas dos sistemas 
cardiovascular, gastrintestinal e 
geniturinário, além de elevarem o risco de 
trissomia 18. Gestações complicadas por 
artéria umbilical única isolada (fetos sem 
malformações) constituem fator de risco para 
recém-nascido PIG e pré-eclâmpsia, mas 
não para parto pré-termo espontâneo. 
MARCADORES BIOQUÍMICOS (TESTE QUADRUPLO): 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
O teste quádruplo inclui alfafetoproteína 
(AFP – principal proteína do soro fetal), 
estriol não conjugado (estrogênio sintetizado 
pela placenta a partir de androgênios fetais – 
sua concentração em níveis baixos sugere 
anencefalia), β-hCG livre e inibina-A 
dimérica. A taxa de detecção é de 80%, com 
falso-positivo de 5%. O teste pode ser 
realizado entre 15 e 22 semanas de 
gestação, mas a idade preferencial é entre 
16 e 18 semanas. A taxa de detecção para a 
síndrome de Down é maior que 80% e esse 
teste estaria indicado apenas às mulheres 
que tenham perdido a oportunidade do 
rastreamento de 1º trimestre. 
TÉCNICAS LABORATORIAIS: 
CARIÓTIPO CONVENCIONAL: 
Permite determinar a constituição, número e 
morfologia dos cromossomos fetais, 
realizado habitualmente no líquido amniótico 
ou por biópsia de vilosidades coriônicas 
(BVC). 
Essa técnica é utilizada para diagnosticar 
todas as aneuploidias, incluindo trissomias, 
síndrome de Turner e grandes rearranjos. O 
mosaicismo no feto pode não ser detectado 
pela análise do cariótipo caso ele não esteja 
presente na linhagem específica da célula 
fetal obtida para o teste. Em virtude de 
análise ser feita em cultura de células na 
metáfase, o resultado não é obtido até 7 a 14 
dias após a coleta da amostra. 
HIBRIDIZAÇÃO FLUORESCENTE IN SITU: 
A hibridização fluorescente in situ (FISH) usa 
sondas fluorescentes marcadas para 
cromossomos ou regiões específicas 
visando identificar o número dessas regiões 
que estão presentes na amostra, coletada 
via amniocentese ou BVC. 
Os resultados obtidos por FISH são mais 
rápidos do que no cariótipo convencional, em 
geral dentro de 1 a 2 dias. O painel mais 
comum de FISH é para o rastreamento dos 
cromossomos 13, 18, 21, X e Y. 
Ainda que consiga analisar um grande 
número de variáveis, esse teste ainda deve 
ser considerado como ferramenta de 
rastreio, com resultados utilizados com fins 
diagnósticos somente se associado a 
cariotipagem convencional ou microarranjo e 
clínica consistente (ex.: achados anormais). 
MICROARRANJO: 
A técnica citogenética molecular de 
microarranjo cromossômico (microarray) 
pode identificar não só as maiores 
aneuploidias, mas também alterações 
submicroscópicas que, por serem muito 
pequenas, não podem ser detectadas por 
cariotipagem convencional. Ao contrário do 
cariótipo convencional, o microarray não 
detecta translocações balanceadas e 
triploidia. Casos de mosaicismo de baixo 
grau também não são identificados por 
ambas as técnicas. Pode ser realizado 
diretamente em células não cultivadas ou 
após cultura. 
Sua maior indicação no diagnóstico pré-natal 
é a existência de anomalia fetal à 
ultrassonografia com cariótipo convencional 
normal, evitando a realização do teste pré-
natal invasivo. O teste de microarranjo é um 
procedimento robusto em analisar casos de 
morte fetal para melhor delinear a etiologia 
genética, qualquer que seja a idade 
gestacional. 
PROCEDIMENTOS DIAGNÓSTICOS INVASIVOS: 
Com a grande participação do NIPT como 
forma de diagnóstico, a realização de 
procedimentos invasivos tem caído bastante. 
Constituem indicações para os 
procedimentos diagnósticos invasivos: 
testes de rastreamento com risco 
aumentado, achados ultrassonográficos 
anormais (anomalias estruturais fetais 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
comumente associadas a cromossopatias), 
história obstétrica, história familiar e risco 
aumentado de doenças genéticasou 
bioquímicas conhecidas nos pais. 
Diversas técnicas estão disponíveis para se 
obterem células fetais, incluindo análise pré-
implantacional embrionária, BVC, 
amniocentese e cordocentese, sendo que a 
biópsia e a coleta de sangue fetal 
apresentam menor grau de indicação. 
DIAGNÓSTICO GENÉTICO PRÉ-IMPLANTACIONAL: 
O diagnóstico genético pré-implantacional 
testa o embrião para determinado distúrbio 
genético antes da implantação e é realizado 
nos corpúsculos polares do oócito ou do 
zigoto, um único blastômero do embrião em 
divisão ou um grupo de células do 
trofoectoderma no estágio de blastocisto. 
Como o diagnóstico genético pré-
implantacional usa ou poucas células do 
embrião precoce e é passível de erro, 
recomenda-se a confirmação dos resultados 
com BVC ou amniocentese. 
BIÓPSIA DE VILOSIDADE CORIÔNICA: 
A BVC para o diagnóstico genético pré-natal 
costuma ser realizada entre 10 e 13 
semanas. 
A técnica de biópsia aspirativa transcervical 
consiste basicamente na inserção 
intrauterina de um cateter que tenha em seu 
interior um mandril que possa lhe dar a 
direção. O uso da ultrassonografia para 
orientação do cateter facilita sobremaneira o 
índice de sucesso. Em gestações de até 12 
semanas, a bolsa amniótica não preenche 
ainda a luz do útero. O córion começou a 
diferenciar o córion frondoso, que irá 
constituir o local da placenta. É a região de 
maior índice mitótico e, portanto, a área da 
qual será coletado o material. 
Suas vantagens sobre a amniocentese são 
poder ser realizada mais cedo na gravidez e 
o fato de as células viáveis para a análise 
poderem ser processadas em menor espaço 
de tempo (5 a 7 dias contra 7 a 14 dias) de 
maneira que o resultado é fornecido mais 
cedo. 
AMNIOCENTESE: 
A amniocentese para o diagnóstico pré-natal 
costuma ser realizada entre 15 e 20 
semanas da gestação, mas pode ser feita 
mais tarde. A amniocentese precoce 
realizada entre 10 e 13 semanas não é 
recomendada. Complicações menores 
transitórias para a amniocentese são o 
sangramento vaginal e o vazamento de 
líquido que ocorrem aproximadamente em 1 
a 2% de todos os casos. Lesões fetais 
determinadas pela agulha de punção são 
raras quando o procedimento é realizado sob 
condução ultrassonográfica. 
 
CORDOCENTESE: 
Como essa técnica de punção sanguínea 
fetal era mais amplamente aplicada para 
detecção de doenças infecciosas fetais, o 
advento do uso da Reação em Cadeia da 
Polimerase (PCR) permitiu que essa 
detecção fosse feita mais precocemente com 
o uso do líquido amniótico. A única grande 
aplicação da cordocentese, atualmente, tem 
sido para fins de transfusão intrauterina. 
Nesse procedimento, o feto deve ser 
curarizado, a agulha deve ser firmemente 
locada e a injeção de sangue deve ser 
acompanhada pelo borbulhar dentro do 
vaso, monitorizado ao ultrassom. 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
 
TESTE DE TRIAGEM NEONATAL: 
Realizado no bebê entre o 3º e o 7º dia de 
vida, o teste de triagem neonatal (TTN) tem 
por objetivo o diagnóstico de algumas 
doenças genéticas, usando apenas uma 
gota de sangue retirada do calcanhar do 
recém-nascido (teste do pezinho). O 
Ministério da Saúde propõe o rastreamento 
das seguintes doenças: hipotireoidismo 
congênito, fenilcetonúria, fibrose cística, 
anemia falciforme e outras 
hemoglobinopatias, hiperplasia suprarrenal 
congênita e deficiência de biotinidase. 
PROBLEMA 4 - INTERMEDIÁRIA: 
DESENVOLVIMENTO FETAL ENTRE A 13ª E 16ª 
SEMANA: 
Nesse período há crescimento bastante 
acelerado. Ao final da 16ª semana, a cabeça 
fetal é relativamente menor que a de um 
concepto com 12 semanas. Os membros 
inferiores se tornam mais compridos e o 
padrão do couro cabeludo é determinado. A 
genitália externa pode ser reconhecida entre 
12 e 14 semanas. 
Na 14ª semana, os movimentos fetais, 
iniciados ao fim do período embrionário, 
passam a ser coordenados, mas são muito 
discretos e ainda imperceptíveis pela mãe, 
porém podem ser detectados na 
ultrassonografia. Ainda nessa semana há a 
ocorrência de movimento lento dos olhos, 
desenvolvimento inicial das unhas dos pés, e 
a cabeça se torna ereta 
A ossificação do esqueleto fetal é ativa, 
claramente visíveis em exames de imagem 
realizados no início da 16ª semana. Nesse 
período, os ovários já se diferenciaram e 
contêm folículos primordiais com ovogônias, 
os olhos se anteriorizam na face e a orelha 
externa se destaca da cabeça, em posição 
próxima àquela definitiva. 
 
DIAGNÓSTICO, CONDUTA MÉDICA E IMPACTOS DA 
SÍFILIS GESTACIONAL: 
ETIOLOGIA E FORMAS DE TRANSMISSÃO DA 
SÍFILIS: 
A sífilis é uma IST de caráter sistêmico, 
curável e exclusiva do ser humano. Seu 
agente etiológico é o Treponema pallidum, 
bactéria Gram-negativa do grupo das 
espiroquetas. A notificação compulsória de 
gestantes acometidas por essa doença 
ocorre desde 2005. 
A transmissão da sífilis ocorre 
majoritariamente por via sexual e 
transmissão vertical (TV). Seu risco é 
diretamente associado à presença de lesões 
mucocutâneas, mais comuns durante o 
primeiro ano de infecção. 
A TV acontece mais frequentemente em 
meio intrauterino, mas também pode se dar 
durante a passagem do feto pelo canal de 
parto, caso exista nessa região alguma lesão 
ativa. A probabilidade do desenvolvimento 
de sífilis congênita depende do estágio da 
doença na mãe e do tempo de exposição do 
concepto, ocorrendo em 70 a 100% dos 
casos nos quais a gestante manifesta as 
fases primária e secundária da doença, 
reduzindo-se para 30% durante as fases 
mais tardias. A transmissão durante o 
Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 
aleitamento só ocorre se há lesões mamárias 
decorrentes dessa IST. 
A manifestação da doença em filhos de 
portadoras é passível de prevenção quando 
o tratamento é realizado de forma adequada. 
A sífilis na gestação pode implicar 
consequências como aborto, natimorto, 
parto prematuro, morte neonatal e 
manifestações congênitas precoces ou 
tardias. 
Não há uma vacina contra a sífilis, e novas 
infecções podem surgir a cada exposição, 
justificando assim o rastreio frequente 
durante a gravidez. 
MANIFESTAÇÃO CLÍNICA E CLASSIFICAÇÃO DA 
SÍFILIS DURANTE A GRAVIDEZ: 
O quadro da sífilis em gestantes é 
semelhante ao da população geral. Essa 
infecção é dividida em estágios baseados em 
achados clínicos, que determinam a forma 
de tratamento a ser implementada. Essa 
divisão ocorre da seguinte forma: 
 Sífilis recente (duração ≤ 2 anos): 
o Estágio primário: 
Desenvolve-se entre 10 a 90 dias após 
o contato (média de 21 dias). 
Geralmente se manifesta como um 
nódulo indolor único na região de 
contato, que ulcera (forma ferida) 
rapidamente, dando origem ao cancro 
duro. 
Ocorre principalmente na genitália, 
mas também pode ser visto no 
períneo, ânus, reto, orofaringe, lábios 
e mãos. Essa primeira lesão apresenta 
grande número de T. pallidum. 
 
o Estágio secundário: 
Se dá entre 6 semanas a 6 meses 
após o contato inicial. 
Nessa fase, são comuns sinais e 
sintomas sistêmicos que mimetizam as 
manifestações clínicas de outras 
doenças, o que pode dificultar o 
diagnóstico. 
Podem ser observadas erupções 
cutâneas em forma de máculas ou 
pápulas, principalmente no tronco, 
lesões eritemato-escamosas palmo-
plantares (sugestiva para o 
diagnóstico da doença), placas 
eritematosas branco-acinzentadas nas 
mucosas, lesões pápulo-hipertróficas 
nas mucosas ou pregas cutâneas 
(condiloma plano), alopecia em 
clareira ou madarose (queda das 
sobrancelhas), febre, mal-estar, 
adinamia (fraqueza muscular) e 
linfadenopatia generalizada. 
Nesse estágio ainda são encontrados 
muitos treponemas. 
 
 Sífilis tardia (duração ≥ 2 anos): 
o Estágio terciário: 
Ocorre com mais de 2 anos de 
infecção. É comum o acometimento 
dos sistemas nervoso e cardiovascular 
(dilatação

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