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Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO PROBLEMA 1 – ABERTURA: PUBERDADE E SEUS IMPACTOS MORFOFISIOLÓGICOS: A puberdade é o momento no qual os caracteres sexuais secundários surgem e a maturidade reprodutiva é alcançada (geralmente entre 8-13 anos para meninas e 9-14 para meninos). Sob o aspecto hormonal, esse período é marcado pelo ajuste da alça de feedback negativo de esteroides gonadais e aquisição de uma alça de feedback positivo de estrogênio para o controle do ciclo menstrual na mulher, de forma interdependente de gonadotrofinas e hormônios ovarianos. A adolescência, por sua vez, configura-se como o período da vida que sucede a infância, abrangendo indivíduos de 12 a 20 anos. Começa com a puberdade e caracteriza-se por uma série de mudanças corporais e psicológicas. FATORES DETERMINANTES DO INÍCIO DA PUBERDADE: O principal determinante para a deflagração da puberdade é genético (ex.: concordância de idade da menarca entre mãe e filha, filha e irmãs ou num mesmo grupo étnico), porém fatores extrínsecos são capazes de afetar tanto a idade de início quanto a progressão puberal, dentre os quais podem ser destacados o estado nutricional (mais precoce em crianças obesas e atrasada em indivíduos desnutridos), a saúde geral, a região geográfica (maior precocidade em áreas urbanas, de menor altitude e mais próximas à linha do Equador), a exposição à luz, a exposição à compostos químicos capazes de afetar o sistema endócrino e o estado psicológico. Gêmeas normais aos 12 anos de idade. A puberdade está claramente mais avançada na gêmea mais pesada (64,8 kg) que na mais magra (39,5 kg). Fotografias e dados de casos como esse serviram como base para a teoria de que existe uma relação entre gordura corporal, massa corporal e menarca Um dos supostos agentes exógenos capazes de desregular aspectos endócrino- hormonais e influenciar o início da fase puberal é o bisfenol, composto presente principalmente em plásticos. Em 2011, a ANVISA proibiu a presença desta substância nas mamadeiras, pelo risco que representa para as crianças, mas ela continua presente em latas de refrigerantes e outras embalagens. Esse composto tem ação estrogênica, que pode causar alterações neurocomportamentais e mudança na forma dos órgãos reprodutores, além de câncer de mama. Além dos agentes sintéticos, compostos naturais podem agir desregulando os níveis hormonais, sendo denominados fitoestrógenos. Sua ação é relativamente fraca quando comparada à do estrogênio endógeno, porém apresenta impactos se consumidos em excesso, estando presentes principalmente na soja (e derivados) e na semente de linhaça. ALTERAÇÕES MORFOFISIOLÓGICAS NA PUBERDADE: MARCOS DO DESENVOLVIMENTO PUBERAL: As mudanças típicas do período puberal ocorrem de forma ordenada num período de Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO tempo definido, sendo qualquer desvio considerado como anormal. Os estágios de Tanner (Marshall e Tanner) são utilizados para descrever o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários em ambos os sexos, dividindo- se em estágios: Desenvolvimento mamário feminino: o Estágio 1 de Tanner: pré-puberal, com ausência de tecido mamário palpável, papilas invertidas, planas ou elevadas e aréolas medindo menos de 2 cm de diâmetro; o Estágio 2 de Tanner: brotamento das mamas, com elevação visível e palpável do tecido mamário. Há um aumento das aréolas e a pele do local se torna mais fina. As papilas se desenvolvem em grau variado, formando uma pequena saliência; o Estágio 3 de Tanner: o crescimento e a elevação de toda a mama continuam, e é evidente uma segunda saliência correspondente à papila; o Estágio 4 de Tanner: há aumento da glândula mamária e elevação da aréola e da papila, com aumento de diâmetro e mudanças na textura da primeira; o Estágio 5 de Tanner: o contorno e tamanho da mama são de aspecto adulto. Na maioria das mulheres, a papila é mais pigmentada nesse estágio que no início do desenvolvimento, e as glândulas de Montgomery são visíveis ao redor da circunferência da aréola. O desenvolvimento mamário completo costuma levar 3 a três anos e meio, mas pode ocorrer em apenas 2 anos ou não progredir além do estágio 4 até a primeira gravidez. Desenvolvimento puberal feminino: o Estágio 1 de Tanner: não há pelos pubianos, porém pode ser observada uma penugem semelhante àquela que recobre o abdome; o Estágio 2 de Tanner: surgimento dos primeiros pelos pubianos, longos, finos e liso/pouco encaracolados, que se depositam junto aos grandes lábios ou na base do pênis; o Estágio 3 de Tanner: os pelos se estendem até a sínfise púbica, tornando-se mais grossos, encaracolados e escuros; o Estágio 4 de Tanner: os pelos já apresentam aspectos de textura e espessura iguais aos de um adulto, porém não atingem a face interna da coxa; o Estágio 5 de Tanner: a quantidade, distribuição, textura e espessura da pilosidade pubiana são iguais às do adulto, invadindo a face interna da coxa. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Desenvolvimento genital masculino: o Estágio 1 de Tanner: pré-puberal, o tamanho e aspecto do pênis e do escroto são infantis; o Estágio 2 de Tanner: surgem os primeiros sinais de aumento testicular (2,5 a 3,2cm de comprimento) e peniano; o Estágio 3 de Tanner: crescimento peniano em comprimento e diâmetro, com aumento testicular (3,3 a 4cm de comprimento); o Estágio 4 de Tanner: crescimento peniano, principalmente em diâmetro, com desenvolvimento da glande, manutenção do crescimento escrotal (4 a 4,5cm), com aumento na pigmentação da pele do local; o Estágio 5 de Tanner: tamanho dos órgãos genitais compatíveis com os de um adulto. O comprimento médio do pênis flácido em homens adultos varia entre 8,6 e 10,5 cm desde a extremidade até a base. Há uma aceleração do crescimento durante a puberdade, evidente principalmente nos estágios 3 e 4 de Tanner. As meninas sofrem esse pico de crescimento antes da menarca, limitando seu crescimento posteriormente, ao passo que os meninos perpassam essas mudanças cerca de 2 anos mais tarde, resultando numa diferença de altura de 12 cm entre os sexos na fase adulta. O controle hormonal desse processo é complexo, com papéis importantes sendo atribuídos ao hormônio do crescimento (GH), fator de crescimento semelhante à insulina 1 (IGF-1) e esteroides gonadais. O estrogênio é o principal estimulador do crescimento puberal tanto para meninos quanto para meninas. Várias alterações da composição corporal ocorrem durante o desenvolvimento puberal. Embora a massa corporal magra, a massa óssea e a gordura corporal sejam iguais em meninos e meninas pré-púberes, na maturidade, os homens têm 1,5 vez a massa corporal magra e quase 1,5 vez a massa óssea das mulheres, enquanto as mulheres têm o dobro da gordura corporal dos homens. As alterações do contorno corporal em meninas, com acúmulo de gordura nas coxas, quadris e nádegas, ocorrem durante o estirão de crescimento puberal. Nesse aspecto, a testosterona é um potente Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO esteroide anabólico, responsável pelas principais mudanças em meninos; enquanto, nas meninas, o estrogênio aumenta a gordura corporal total em uma distribuição característica nas coxas, nas nádegas e no abdome. O crescimento na adolescência é desproporcional, iniciando-se, primeiramente, pelas extremidades distais, o que dá ao adolescente um aspecto peculiar nessa fase. Após o crescimento dos pés e mãos, ocorre o crescimento das extremidades proximais e, por último, o do tronco, retomando, então, a harmonia e a proporcionalidade. Durante esse estirão de crescimentoos ossos longos crescem e as epífises se fecham, o que faz com que a idade óssea seja uma forma mais acurada de se verificar o estágio puberal que a idade cronológica. Outras alterações físicas reforçam o dimorfismo sexual na puberdade, como o alongamento excessivo das partes cartilaginosa e membranácea das pregas vocais em meninos. Acne, seborreia e odor corporal decorrem da estimulação de glândulas sebáceas e apócrinas por meio da maior secreção de esteroides gonadais e suprarrenais, sendo indicações do desenvolvimento puberal iminente. ALTERAÇÕES HORMONAIS NA ADOLESCÊNCIA: O EIXO HIPOTÁLAMO-HIPÓFISE-GONADAL: Chama-se eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HHG) a relação de interdependência na secreção de esteroides entre essas três regiões, regulada por meio de uma alça de feedback negativo (estímulo contrário ao que provocou desequilíbrio), fundamental para a manutenção de níveis hormonais no organismo e para o desenvolvimento da puberdade. A hipófise ou pituitária se localiza na sela turca do osso esfenoide e mantém ligação com o hipotálamo, estrutura situada na base do cérebro. Essa glândula apresenta origem embrionária dupla, ectodérmica (adenoipófise) e nervosa (neuro-hipófise). A porção de origem nervosa se desenvolve pelo crescimento do assoalho do diencéfalo em direção caudal e a porção ectodérmica da hipófise se desenvolve a partir de um trecho do ectoderma do teto da boca primitiva que cresce em direção cranial formando a bolsa de Rathke, que logo é separada por meio de uma constrição local. A neuro-hipófise, a porção de origem nervosa, consta de uma porção volumosa (pars nervosa) e do seu pedículo de fixação (infundíbulo) que se continua com o hipotálamo. A adenoipófise não tem conexão anatômica com o sistema nervoso, sendo subdividida em três porções: a primeira e mais volumosa é a pars distalis ou lobo anterior; a segunda é a porção cranial que abraça o infundíbulo, denominada pars tuberalis; a terceira, denominada pars intermedia, é uma região intermediária entre a neuro-hipófise e a pars distalis, separada desta última pela fissura restante da cavidade da bolsa de Rathke, compondo uma estrutura rudimentar no homem. Ao conjunto de pars nervosa e pars intermedia também se dá o nome de lobo posterior da hipófise. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO O suprimento sanguíneo hipofisial é imprescindível para a secreção hormonal da pars distalis, realizado por meio das artérias hipofisária superiores D/E (eminência mediana e infundíbulo) e inferiores D/E (neuro-hipófise e pedículo). No infundíbulo, as artérias hipofisárias superiores formam um plexo capilar primário fenestrado, reunidos para formar vênulas encaminhadas para a pars distalis, onde formam um grande plexo capilar primário. Há, portanto, dois sistemas venosos em cascata, o que caracteriza um sistema porta, denominado sistema porta hipofisário. O suprimento sanguíneo da pars distalis é feito, portanto, de sangue vindo principalmente do infundíbulo através do sistema porta- hipofisário e em escala muito menor de alguns ramos das artérias hipofisárias inferiores. Através desse sistema vascular vários neuro-hormônios produzidos no hipotálamo são levados diretamente do infundíbulo à pars distalis, controlando a função de suas células. O sangue venoso desse sistema sai por diversas veias hipofisárias. A hipófise e o hipotálamo manifestam interações importantes anatômica e fisiologicamente, principalmente no que diz respeito à secreção hormonal. O hipotálamo produz em seus diversos núcleos substâncias que serão levadas até a pars nervosa (vasopressina [ADH] e ocitocina) ou a eminência mediana (GnRH, dopamina, somatostatina, entre outros), agindo na estimulação ou inibição da produção de compostos pela pars distalis ou sobre outros locais do organismo. Um segundo mecanismo de controle para além da modulação hipotalâmica é representado pelos hormônios produzidos por várias glândulas endócrinas, os quais agem sobre a liberação de peptídeos da eminência mediana e sobre a função das próprias células da pars distalis. Dessa maneira, os níveis plasmáticos de hormônios de várias glândulas endócrinas controlam por retroalimentação negativa a sua própria secreção. Na pars distalis, cinco tipos de células secretoras produzem compostos que irão estimular a ação de outras glândulas, com maior destaque no contexto da puberdade para os hormônios gonadotróficos, FSH e LH, que irão estimular a secreção de estrogênio, progesterona e andrógenos, além de promover a formação de folículos ovarianos e a espermatogênese, situações importantes na maturação reprodutiva humana. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO AÇÃO DOS HORMÔNIOS PARA O DESENVOLVIMENTO DA PUBERDADE: Por volta da 10ª semana de gestação, o hormônio liberador da gonadotrofina (GnRH) se faz presente no hipotálamo, e o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio foliculoestimulante (FSH) encontram-se na hipófise. A gonadotrofina (GH – hormônio do crescimento) encontra-se elevada em fetos de ambos os sexos, com FSH elevado no sexo feminino. Após o nascimento, a concentração desses hormônios diminui gradativamente, mantendo-se baixos até a pré-puberdade. Na fase pós-natal, o hormônio do crescimento (GH) estimula o crescimento por sua ação direta na diferenciação celular, na placa de crescimento e no hepatócito, onde aumenta a secreção de fator de crescimento semelhante a insulina (IGF-1). O IGF-1, secretado pelos hepatócitos, tem ação específica na expansão e hipertrofia da placa epifisária, e é transportado por uma proteína carreadora (IGFPB3), cuja função é aumentar o período de meia-vida das IGF. Além disso, os hormônios tireoidianos também são necessários para o crescimento desde a infância, pois estimulam a secreção de GH e formação de IGF-1, além de agir sobre a epífise óssea de forma direta. Entre o terceiro trimestre de gestação e o sexto mês de vida é observada uma ativação parcial do HHG, que confere algumas manifestações clínicas em meninas, como a acne neonatal, trofismo genital e telarca (desenvolvimento mamário), configurando a minipuberdade. A produção de androgênios/hormônios masculinos (desidroepiandrosterona (DHEA) e seu sulfato (DHEAS)) pelas glândulas adrenais, controlada pelo ACTH, é anterior à produção de esteroides gonadais, ocorrendo entre 6 e 8 anos de idade (adrenarca). É responsável por modificações no odor das secreções, aumento da oleosidade da pele e aparecimento e manutenção da pilificação axilar e púbica durante a puberdade, evidenciando a importância de secreções não gonadais para a puberdade. Em dado momento, os fatores chamados permissivos (neuropeptídios, leptina, insulina, IGF-1 e estímulos oriundos de centros cerebrais superiores) atuam sobre o sistema HHG, provocando aumento da frequência e amplitude da produção de GnRH pelos neurônios hipotalâmicos que, via sistema porta hipofisário, ativam receptores específicos localizados na adenoipófise, desencadeando aumento da produção de gonadotrofinas (FSH e LH). A liberação dessas substâncias estimula ovários e testículos a produzirem os esteroides sexuais que induzirão todo o processo de modificações corporais, capacitando o organismo para as funções reprodutivas. Aumentos de FSH e LH podem ser associados ao sono. Em meninos, os aumentos noturnos dos níveis de gonadotrofina são acompanhados por aumentos simultâneos dos níveis circulantes de testosterona; já nas meninas, os aumentos noturnos dos níveis circulantes de gonadotrofina são seguidos por aumento da secreção de estradiol no dia seguinte, atraso Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO este que pode ser explicadopelas outras etapas de síntese para a conversão de androgênios em estrogênio. Em relação aos hormônios sexuais e seu impacto na puberdade temos que: Testosterona: Os testículos secretam uma série de androgênios, incluindo a testosterona, di- hidrotestosterona e a androtestosterona, com a primeira mais abundante que os outros, mesmo que seja quase totalmente convertida, posteriormente, em di- hidrotestosterona. A testosterona é produzida pelas células de Leydig quando influenciadas pela presença de LH, localizadas no interstício dos túbulos seminíferos. Esses tipos celulares não são encontrados facilmente nos testículos durante a infância, mas são abundantes no recém-nascido durante os primeiros meses de vida e no homem adulto pós-puberdade, momentos nos quais a produção hormonal é aumentada. De forma geral, a testosterona é responsável pelos caracteres que diferenciam o corpo masculino, tendo sua produção estimulada pela gonadotropina coriônica placentária durante a gestação e até 10 semanas após o nascimento. Na puberdade, a testosterona favorece o aumento dos órgãos genitais, a disposição de pelos pelo corpo (região genital, tórax, face e ao longo da linha alba), a calvície (em casos de concentração hormonal excessiva), a mudança de voz (atrofia da mucosa laríngea), o aumento da espessura da pele e de secreções sebáceas (acne), o maior desenvolvimento muscular, a maior retenção de cálcio nos ossos e a aceleração do metabolismo basal. Hormônios ovarianos: Os dois tipos de hormônios ovarianos são os estrogênios e as progestinas, sendo que os mais importantes de cada categoria são o estradiol e a progesterona, respectivamente. O primeiro grupo age na formação e crescimento de células específicas no corpo, compondo assim os caracteres sexuais secundários femininos, ao passo que o último atua na preparação do útero para a gestação e das mamas para a produção e secreção de leite. Todos esses hormônios são esteroides sintetizados nos ovários tendo como base o colesterol circulante e a acetilcoenzima A (suas moléculas podem se arranjar num núcleo esteroide). Em relação ao processo de síntese desses compostos, inicialmente são produzidos somente progesterona e androgênios, que são convertidos antes que possam deixar as gônadas em estrogênios, fenômeno desencadeado pela enzima aromatase associada à ação do FSH, presente somente nas células granulosas ovarianas. Durante a fase lútea, é produzida mais progesterona do que é possível converter, explicando a elevação plasmática desse hormônio. As funções dos hormônios ovarianos para o desenvolvimento do corpo feminino são: o Estrogênios: São responsáveis por aumentar de tamanho as estruturas reprodutoras internas (destacando-se a alteração no epitélio vaginal, de cuboide para estratificado, e proliferação de estroma Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO endometrial no útero e de fímbrias nas trompas de Falópio) e a genitália externa, esta por meio de acúmulo de gordura no monte púbis e grandes lábios. Há também desenvolvimento mamário, não só por deposição de gordura como pelo aumento de ductos lactíferos. Esses hormônios aumentam o crescimento ósseo e estimulam o fechamento rápido das epífises, justificando o fim precoce dos estirões de crescimento. Em relação à pele, os estrogênios a tornam mais lisa e macia, além de favorecer sua vascularização, resultando assim em maior sangramento em cortes superficiais e temperatura mais elevada. o Progestinas: As progestinas promovem o aumento na secreção mucosa uterina e nas trompas de Falópio, visando preparar o corpo para a gravidez. Além disso, auxiliam no desenvolvimento das mamas ao estimular a proliferação de células alveolares e sua transformação em células secretoras. Nas fases iniciais da puberdade há, além da elevação das taxas de esteroides gonadais, um aumento na frequência e amplitude de secreção de GH (duas a dez vezes maior), o que intensifica a produção de IGF-1 pelo fígado. Esse hormônio também atua em outros órgãos, como musculatura cardíaca, diafragma, adipócitos e sistema hematopoético, o que é essencial para adequar esses órgãos às novas necessidades impostas pelo crescimento. Em ambos os sexos, os hormônios sexuais, com destaque para os estrógenos, são imprescindíveis para a aceleração do crescimento por meio de sua ação em receptores da placa epifisária. GAMETOGÊNESE: Corresponde à formação de células germinativas masculinas e femininas, denominada como espermatogênese e ovogênese, respectivamente. O número de cromossomos nesses gametas é reduzido à metade, fenômeno que ocorre por meio da meiose, tipo reducional de divisão celular. A história da formação do gameta masculino e feminino é diferente, mas a sequência é a mesma. A diferença entre os dois sexos reside no ritmo de eventos durante a meiose. MEIOSE (R!): A meiose é composta por duas divisões celulares meióticas que têm por objetivo a formação de células haploides (n= 23) originadas de matrizes diploides. Na primeira etapa (meiose I, também chamada de fase reducional), o número de cromossomos passa de diploide para haploide, com pareamento de cromossomos homólogos durante a prófase e separação na anáfase, originando células (espermatócito ou oócito secundário) com duas cromátides- irmãs pertencentes aos tipos iniciais, carregando metade de suas informações genéticas. A segunda divisão mitótica ocorre logo após a primeira sem uma intérfase (etapa de Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO replicação de DNA). Cada uma das cromátides-irmãs se divide, com cada uma de suas partes sendo levada de forma aleatória a um dos polos do fuso, constituindo uma nova célula, mantendo assim o caráter haploide dos cromossomos. A meiose é um processo que garante constância no número de cromossomos gerados e também a recombinação genética por meio do crossing over (“embaralhamento” das cromátides). ESPERMATOGÊNESE: As espermatogônias permanecem nos túbulos seminíferos dos testículos desde o período tardio do desenvolvimento fetal até a puberdade, momento no qual elas passam a aumentar em número e sofrem mudanças gradativas, transformando-se em espermatócitos primários. Esses tipos celulares passam por um processo reducional (primeira divisão mitótica), formando assim os espermatócitos secundários haploides, que possuem aproximadamente a metade do tamanho dos tipos celulares primários. Os espermatócitos secundários passam pela segunda divisão meiótica para gerar quatro espermátides, gradualmente transformadas em espermatozoides adultos durante a espermiogênese, momento no qual o núcleo celular se condensa, o acrossoma é formado, o citoplasma é majoritariamente eliminado e a cauda se desenvolve. Ao fim dessa etapa, os espermatozoides penetram a luz dos túbulos seminíferos, dirigindo-se ao epidídimo, ducto longo e espiralado na borda inferior do testículo, conectado aos canais deferentes (transporte de espermatozoides para a uretra), onde são armazenados e se tornam funcionalmente maduros, ganhando capacidade de movimentação. Os espermatozoides maduros podem ser armazenados no epidídimo, porém a maior quantidade se deposita nos canais deferentes, mantendo sua fertilidade por cera de um mês. Todo o processo de espermatogênese leva cerca de 2 meses para ser completado, continuando ao longo de toda a vida reprodutiva do homem. As células de Sertoli, que revestem os túbulos seminíferos, dão suporte e nutrição para as células germinativas, auxiliando na regulação da espermatogênese. No momento da ejaculação, os espermatozoides maduros apresentam-se Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANOcomo células de movimentação livre compostas por cabeça e cauda (a junção dessas estruturas chama-se pescoço), sendo a primeira responsável pela maior parte da massa desse gameta e por abrigar seu núcleo. Os dois terços mais anteriores dessa estrutura são recobertos pelo acrossoma, organela semelhante a um capuz enzimático que facilita a penetração na corona radiata e na zona pelúcida do ovócito durante a fecundação. A cauda do espermatozoide permite a sua motilidade, favorecendo sua migração até a ampola da tuba uterina. Essa estrutura é formada por três partes, a peça intermediária, a peça principal e a peça terminal, sendo que é na região intermediária que se localizam as mitocôndrias, produtoras da energia necessária ao movimento em chicote realizado pela célula. OVOGÊNESE: A ovogênese representa o processo de transformação de ovogônias em ovócitos maduros, iniciado antes do nascimento e completo após a puberdade, tendo seu fim somente com a menopausa, cessação permanente da menstruação. Antes do nascimento, as ovogônias, proliferadas via mitose, crescem para tornarem-se ovócitos primários. Esses tipos celulares são circundados por uma capa de tecido epitelial folicular achatado, constituindo assim um folículo primordial. À medida que o ovócito cresce durante a puberdade, o caráter de seu revestimento muda, passando a ser colunar, resultando num folículo primário, logo envolvido numa camada de material glicoproteico amorfo repleta de fenestras, chamada zona pelúcida. A divisão meiótica se inicia antes do nascimento, porém só se conclui na adolescência, fenômeno explicado pela secreção de substâncias inibidoras da maturação do ovócito pelas células foliculares, agindo ao estacionar o progresso da replicação. Com início na puberdade, ocorre o amadurecimento mensal de um folículo (a menos que sejam usados contraceptivos orais). A duração prolongada da primeira divisão meiótica pode ser parcialmente responsável pela alta frequência de erros meióticos que ocorrem com o aumento da idade materna. Além disso, as células suprimidas são vulneráveis a interações com agentes ambientais como a radiação. De forma contrastante ao desenvolvimento de gametas masculinos, após o nascimento não há a geração de mais ovócitos primários, que apenas mantêm-se em repouso nos folículos ovarianos até a puberdade. Com a maturação folicular, o ovócito primário aumenta de tamanho e completa a primeira fase da meiose, de modo a formar o ovócito secundário e o primeiro corpo polar, estruturas nas quais o citoplasma é dividido desigualmente (o ovócito recebe muito mais que o primeiro corpo polar). O corpo polar é uma célula pequena, não funcional, que logo degenera. Na ovulação, o núcleo do ovócito secundário inicia a segunda divisão meiótica, mas progride apenas até a metáfase, quando a divisão é interrompida. Se um espermatozoide penetra o ovócito secundário, a segunda divisão meiótica é completada e a maior parte do citoplasma é novamente mantida em uma célula, o ovócito fecundado. A outra célula, o segundo corpo polar, é uma célula com as mesmas características da anterior, e que também é degradada rapidamente. Assim que o segundo corpo polar é extrudido, a maturação do ovócito se termina. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Dos dois milhões de ovócitos primários presentes nos ovários de uma menina recém-nascida, somente 40 mil permanecem até a puberdade, número que se reduz ainda mais, com apenas 400 transformados em ovócitos secundários e expelidos na ovulação. A quantidade de células que se tornam de fato maduras é extremamente baixa, se existente. CICLOS REPRODUTIVOS FEMININOS: As mulheres passam por ciclos reprodutivos mensais que envolvem atividade do hipotálamo do cérebro, da glândula hipófise, dos ovários, do útero, das tubas uterinas, da vagina e das glândulas mamárias. Esses ciclos mensais preparam o sistema reprodutivo para a gravidez. CICLO OVARIANO: O GnRH estimula a produção de FSH e LH, hormônios que produzem mudanças cíclicas nos ovários (ciclo ovariano), como o desenvolvimento dos folículos, a ovulação e a formação do corpo lúteo. Durante cada ciclo, o FSH promove o crescimento de vários foliados primordiais entre cinco e 12 folículos primários, porém apenas um único folículo primário se desenvolve até se tornar folículo maduro e se rompe na superfície do ovário, liberando seu ovócito. Desenvolvimento folicular: Com o aumento de tamanho do folículo primário, o tecido conjuntivo adjacente se organiza e forma uma cápsula, a teca folicular. A teca logo se diferencia em duas camadas, uma interna vascularizada e glandular (teca interna) e uma camada conjuntiva, semelhante a uma cápsula (teca externa). Acredita-se que as células tecais produzam um fator de angiogênese que promove o crescimento dos vasos sanguíneos da teca interna, que fornecem suporte nutritivo para o desenvolvimento folicular. As células foliculares dividem-se ativamente, produzindo uma camada estratificada em torno do ovócito. O folículo ovariano logo se torna oval e o ovócito assume posição excêntrica. Subsequentemente, surgem em torno das células foliculares espaços preenchidos por fluido, que coalescem para formar uma única e grande cavidade, o antro, que contém o fluido folicular. Depois que o antro se forma, o folículo ovariano é denominado folículo vesicular ou folículo secundário. O ovócito primário é empurrado para um lado do folículo, onde fica envolvido por um acúmulo de células foliculares, o cumulus ooforus, que se projeta para dentro do antro. O folículo continua a crescer até que alcança a maturidade e produz um intumescimento na superfície do ovário. O desenvolvimento inicial dos folículos ovarianos é induzido pelo FSH, mas os estágios finais de maturação requerem também o LH. Os folículos em crescimento produzem estrogênio por meio da atividade das células tecais internas. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Ovulação: Na metade do ciclo, sob influência do FSH e LH, o folículo ovariano sofre um surto de crescimento, criando uma saliência no ovário, onde surge o estigma, ponto avascular. Precedendo a ovulação, o ovócito secundário e algumas células do cumulus ooforus destacam-se do interior do folículo distendido. A ovulação é disparada por um aumento na produção de LH, induzido pela elevação nas concentrações plasmáticas de estrogênio. Esse evento ocorre cerca de 12 a 24 horas após o pico de LH. O estigma se expande em volume, criando uma vesícula que, ao se romper, expõe o ovócito secundário junto ao líquido folicular. Esse rompimento seria causado pela pressão intrafolicular e pelas contrações do músculo liso que envolve a teca externa. O ovócito secundário expelido é envolvido pela zona pelúcida e por uma ou mais camadas de células foliculares, as quais se arranjam radialmente, conhecidas como corona radiata, formando o complexo cumulus-ovócito. A onda de LH também parece induzir o término da primeira divisão meiótica do ovócito primário. Portanto, folículos ovarianos maduros contêm ovócitos secundários. Corpo lúteo: Logo após a ovulação, as paredes do folículo ovariano e da teca folicular sofrem colapso e se tornam enrugadas. Sob a influência do LH, elas se desenvolvem em uma estrutura glandular, o corpo lúteo, que secreta progesterona e alguma quantidade de estrogênio, fazendo as glândulas endometriais secretarem e prepararem o endométrio para a implantação do blastocisto. Se o ovócito não é fecundado, o corpo lúteo involui e degenera 10 a 12 dias após a ovulação, quando é chamado de corpo lúteo da menstruação. Posteriormente, o corpo lúteo é transformado em uma cicatrizbranca no ovário, o corpo albicans. Os ciclos ovarianos normalmente persistem por toda a vida reprodutiva da mulher e terminam na menopausa, a suspensão permanente da menstruação, que geralmente ocorre entre 48 e 55 anos de idade. CICLO MENSTRUAL: O ciclo menstrual (endometrial) é o período durante o qual o ovócito amadurece, é ovulado e entra na tuba uterina. Os hormônios produzidos pelos folículos ovarianos e pelo corpo lúteo (estrogênio e progesterona) causam mudanças cíclicas no endométrio (age como espelho das mudanças ovarianas). Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO O ciclo menstrual médio é de 28 dias, sendo o primeiro dia do ciclo designado como o dia no qual se inicia o fluxo menstrual, porém sua duração pode variar entre 23 e 35 dias, diferenças motivadas pela extensão da fase proliferativa do ciclo. Esse processo divide-se em 3 fases principais: Fase menstrual: A camada funcional da parede uterina desintegra-se e é expelida com o fluxo, que normalmente dura de 4 a 5 dias. O sangue descartado pela vagina está misturado a pequenos fragmentos de tecido endometrial. Após a menstruação, o endométrio erodido torna-se delgado. Fase proliferativa: A fase proliferativa (folicular, estrogênica), que dura em torno de 9 dias, coincide com o crescimento dos folículos ovarianos e é controlada pelo estrogênio secretado por esses folículos. Ocorre um aumento de duas a três vezes na espessura do endométrio e no seu conteúdo de água durante essa fase de reparo e proliferação. No início dessa fase, o epitélio superficial reconstrói-se e recobre o endométrio. As glândulas aumentam em número e em comprimento, e as artérias espiraladas se alongam. Fase lútea: A fase lútea (secretora, progestacional), com duração de aproximadamente 13 dias, coincide com a formação, o crescimento e o funcionamento do corpo lúteo. A progesterona produzida pelo corpo lúteo estimula o epitélio glandular a secretar um material rico em glicogênio. As glândulas tornam-se amplas, tortuosas e saculares, e o endométrio espessa-se por causa da influência da progesterona e do estrogênio do corpo lúteo e também pelo aumento de fluido no tecido conjuntivo. As anastomoses arteriovenosas surgem nesse estágio, sendo bastante importantes para a vascularização e nutrição local. Se a fecundação não ocorre, o endométrio entra em sua fase isquêmica, onde há contração das artérias espiraladas. Além das alterações vasculares, a queda hormonal resulta na parada de secreção glandular, em perda de fluido intersticial e em acentuada retração do endométrio. Ao fim da fase isquêmica, as artérias espiraladas contraem- se por períodos maiores. Isso acarreta estase venosa e necrose isquêmica (morte) nos tecidos superficiais. Finalmente, segue- se a ruptura da parede dos vasos lesados e o sangue penetra o tecido conjuntivo adjacente. Formam-se, então, pequenos lagos de sangue que se rompem na superfície endometrial, resultando em sangramento para a luz uterina e através da vagina, criando o fluxo menstrual. Se há a fecundação, os ciclos menstruais cessam e o endométrio assume sua fase gravídica, permitindo a implantação do blastocisto. Após 6-10 semanas do parto os ciclos ovarianos e menstruais retornam, em casos de mulheres que não amamentam seu bebê. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO COMPARAÇÃO ENTRE GAMETAS: O ovócito é uma célula grande se comparada ao espermatozoide, ao passo que esse último apresenta elevada mobilidade. O gameta feminino é revestido pela corona radiata (células foliculares + zona pelúcida), além de possuir em seu interior grânulos de vitelo que auxiliam na nutrição do zigoto em seu processo replicativo na primeira semana de gestação. Em relação a constituição cromossômica desses tipos celulares, duas configurações normais são possíveis para o espermatozoide (23 X e 23 Y), enquanto apenas uma existe para os ovócitos secundários (23 X). IMPACTOS COMPORTAMEN TAIS DA ADOLESCÊNCIA: A adolescência pode ser compreendida ou definida segundo diversos pontos de vista: para a antropologia, é a etapa sociocultural de passagem para a vida adulta, contendo rituais específicos, ao passo que, para o direito, é a fase que sucede a infância, porém ainda inserida na menoridade. É na adolescência que se instalam as estruturas definitivas da personalidade adulta, com os últimos conflitos antes de se alcançar a maioridade, baseados principalmente na descoberta de uma identidade própria e na necessidade de autonomia. Sob a ótica da saúde entende-se adolescência como uma fase de desenvolvimento humano, situada entre a infância e a idade adulta e delimitada cronologicamente, pela Organização Mundial da Saúde, dos 10 aos 20 anos de idade. Essa demarcação etária justifica-se como referência para programas de atenção à saúde, porém não se aplica, do ponto de vista individual, como parâmetro único para a definição de entrada ou saída desse período do desenvolvimento. Nas famílias de classes média e alta, é comum identificar-se um prolongamento da adolescência, enquanto nas menos favorecidas, a inclusão escolar fica limitada pela necessidade de incorporação do adolescente ao mercado de trabalho, frequentemente em condições desfavoráveis. A adolescência apresenta características complexas e limites imprecisos, refletindo a dinamicidade dos ambientes socioculturais no qual o jovem está inserido. É também nesse período que o ser humano passa a compreender o quanto as interações com seus pares são importantes de forma biológica, afetiva e social para a vida. Mesmo reconhecendo que na adolescência o critério cronológico perde importância, para que se possa compreender a evolução do processo é interessante analisar o desenvolvimento dividido por idade: adolescência inicial (dos 10 aos 13 anos), adolescência média (dos 14 aos 16 anos) e adolescência final (dos 17 aos 20 anos). A adolescência inicial é um período marcado pelo rápido crescimento e pela entrada na puberdade. A adolescência média caracteriza-se pelo desenvolvimento intelectual e pela maior valorização do grupo, e na adolescência tardia consolidam-se as etapas anteriores e o adolescente se prepara para assumir o mundo adulto. Na última fase, Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO se todas as transformações tiverem ocorrido conforme previsto nas fases inicial e média, incluindo a presença de suporte familiar e do grupo de iguais, o adolescente estará pronto para as responsabilidades da idade adulta. Sob a óptica do desenvolvimento cognitivo, na adolescência adquire-se capacidade de abstração, raciocínio hipotético, pensamento criativo, formulação de ideias próprias e opiniões pessoais, constituindo assim sua individualidade. O desenvolvimento psicossocial do adolescente pode ser visto como um exercício de aprendizagem acerca de si mesmo, que lhe possibilita alcançar, além da identidade (conhecimento de si mesmo), intimidade (capacidade para relacionar-se de forma madura, tanto emocional como sexual), integridade (aptidão para assumir atitudes e comportamentos socialmente responsáveis) e independência. O fator tempo tem extrema importância para que todas essas intensas e várias mudanças possam ser absorvidas. Nesse momento evolutivo, não será apenas o jovem que passará por transformações estruturais, a família também deverá alterar sua estrutura interna e seus padrões de relacionamento entre os membros. Frente à busca de uma nova identidade, o adolescente deve vivenciar o luto por três grandes perdas: perda do corpo infantil (o adolescente passa por período de adaptação até a aceitação das modificações corporais), perda dos pais da infância (quese manifesta por meio de relações conflituosas com as figuras parentais), perda da identidade e do papel infantil (renúncia à dependência infantil e aceitação de responsabilidades que muitas vezes o adolescente desconhece). Esse tipo de comportamento cria uma entidade semipatológica de grande força, a síndrome da adolescência normal, demarcada por alterações de conduta, crises religiosas, distanciamento dos pais, tendência grupal, atitudes reivindicatórias e evolução sexual. SISTEMA LÍMBICO NA PUBERDADE: Durante a adolescência, além das mudanças corporais visualmente perceptíveis, ocorrem diversas alterações neurobiológicas, no córtex quanto na área subcortical. É interessante notar que a maturação cortical durante a adolescência não implica necessariamente em aumento de volume cerebral, mas sim numa maior habilidade de autocontrole e direcionamento de foco. Ocorre também uma intensa reorganização estrutural de regiões corticais, na qual dendritos e sinapses são refinados e se tornam mais estáveis, tornando o cérebro do adolescente extremamente neuroplástico. O sistema subcortical é altamente complexo e possui circuitarias neurais importantes que são mediadoras de uma grande quantidade de respostas psicofisiológicas, dentre elas as emoções, controladas pelo “sistema límbico” (corpo caloso, tálamo, amígdalas e hipocampo). Essa região sofre a ação dos hormônios sexuais secretados ao longo da puberdade, tornando heterogêneo o desenvolvimento neural entre os dois sexos. Este período de desenvolvimento neural representa para o adolescente, tanto uma fase de oportunidades para o desenvolvimento de novas habilidades, quanto um período de vulnerabilidades. Neste último caso, os comportamentos mais comuns nesse período são a impulsividade cognitiva, a labilidade emocional e a busca pelo perigo, explicada pela maior facilidade de ativação da região subcortical. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO SEXUALIDADE NA ADOLESCÊNCIA: O processo de desenvolvimento da sexualidade está vinculado à definição da identidade sexual e manifesta-se por meio do autoerotismo e das práticas de genitalidade. Quando o indivíduo consegue aceitar a coexistência simultânea entre si da criança e do adulto, ele passa de maneira flutuante a aceitar as mudanças de seu corpo, emergindo uma nova identidade. Na etapa precoce da adolescência (10 a 14 anos), é grande a transformação biológica, em que o comportamento sexual depende das mudanças físicas. Os adolescentes têm dificuldade de conversar com adultos, principalmente com os pais. As fantasias sexuais e masturbação são frequentes. Na etapa média (14 a 17 anos), o desenvolvimento puberal está completo ou quase completo, marcado pela menarca na menina e pela semenarca no menino. O comportamento sexual costuma ser de natureza exploratória e egoísta, buscando tirar proveito das relações: encontros marcados, carícias e relações casuais acompanhadas de relações genitais ou extragenitais. O grande risco, nessa fase, é a negação das consequências do comportamento sexual. O relacionamento amoroso (namoro ou o “ficar” com alguém) geralmente se inicia aqui. Já há uma aceitação maior das transformações físicas, resultando em um corpo adulto com capacidade reprodutiva. A sexualidade contribui com a autoestima e faz parte da formação da identidade do indivíduo. É durante a adolescência que se define e se consolida a identidade sexual. Na etapa tardia (17 a 20 anos) a maturação física está completa, o comportamento sexual costuma ser mais expressivo e menos exploratório, e as relações, mais íntimas e compartilhadas. Predomina a escolha de par com relação de afeto, maior consciência dos riscos e necessidade de proteção. Nessa etapa, a identidade sexual já está definida e a maior estabilidade afetiva favorece a busca de um objeto amoroso único. Na adolescência, a vivência da sexualidade é como um caminho no qual a evolução e a maturidade vão determinar o itinerário. A preferência sexual com afeto é o posicionamento que demonstra postura mais integrada diante da sexualidade, escolha esta que se encontra subsidiada pelas vivências que cada adolescente enfrenta ao longo de sua vida e que são socialmente rotuladas de atitudes amadurecidas. FASES COMPORTAMENTAIS DO ATO SEXUAL: O comportamento sexual humano é uma característica definidora de suas interações, cujas bases neurais são ainda pouco compreendidas. As pesquisas sobre esse assunto foram dificultadas pela relutância popular em abordar abertamente temas relativos ao sexo. Ainda que lentamente, esse campo progrediu, gerando as seguintes teorias: Masters e Johnson (pesquisas iniciadas em 1954 e publicadas em 1970): A resposta sexual, seja do homem ou da mulher, é caracterizada por um ciclo de quatro fases. Esse é um modelo clássico e linear, elaborado a partir de dados obtidos em laboratório, onde a resposta sexual de casais era monitorada a partir do início definido pelo pesquisador. Segundo o modelo, em cada ciclo ocorrem as fases de Excitação, Prazer, Orgasmo, Resolução (EPOR), numa sequência temporal. Embora em homens e mulheres ocorram as mesmas fases, elas apresentam peculiaridades em cada um dos sexos. Os autores observaram que a resposta sexual do homem obedecia a um único padrão: excitação, platô, orgasmo, Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO resolução; enquanto, em relação à mulher, concluíram sobre a possibilidade de vários padrões de respostas que foram sintetizados em três tipos fundamentais: A) excitação, platô, multiorgasmos, resolução; B) experiência de excitação, platô, sem, no entanto, atingir o orgasmo, resolução e C) excitação crescente até o orgasmo e resolução imediata. Kaplan (pesquisa publicada em 1974): Acrescenta ao modelo proposto por Masters e Johnson o desejo sexual como outra fase da resposta sexual humana, motivada por observações de transtornos ligados à falta de ímpeto sexual. Inicialmente, o modelo proposto por ela seria trifásico, com Desejo, Excitação e Orgasmo (DEO), mas em 1979 ele foi modificado, tornando-se Desejo, Excitação, Orgasmo e Resolução (DEOR). Kaplan propôs um modelo psicossomático que considera os elementos que regulam a motivação sexual humana. Segundo a autora, no SNC estão os centros de regulação sexual que incluem estruturas límbicas e o hipotálamo. Estímulos fisiológicos e psicológicos, excitantes ou supressores da motivação sexual, agem sobre esses centros reguladores modulando o desejo sexual. Esse modelo pode ser visto como um acréscimo subjetivo ao esquema fisiológico, que expressa as mudanças objetivas causadas pelo ato sexual. ATO SEXUAL MASCULINO: A principal fonte de sinais sensoriais capazes de iniciar o ato sexual é a glande peniana, região densamente vascularizada e inervada capaz de transmitir a sensação sexual até o sistema nervoso central, partindo do nervo pudendo em direção ao plexo sacral e a porção sacral da medula. Esses impulsos podem ter o mesmo destino partindo de áreas adjacentes ao pênis, como o epitélio anal, saco escrotal e estruturas perianais. Esses estímulos podem surgir até mesmo de estruturas internas, tais como a uretra, próstata, bexiga, vesículas seminais, testículos e canais deferentes. O elemento psicológico é também um grande estimulador do ato sexual, visto que pensamentos conscientes ou sonhos já são suficientes para instigar a ejaculação. ESTÁGIOS DO ATO SEXUAL MASCULINO: A ereção peniana é o primeiro efeito do estímulo sexual masculino, em grau proporcional à estimulação realizada, seja ela física ou psicológica. Esse fenômeno é causado por impulsos nervosos parassimpáticos que passam da região sacral da medula até os nervospélvicos, liberando junto à ACh óxido nítrico ou peptídeo intestinal vasoativo, sendo que o primeiro auxilia a formação de monofosfato cíclico de guanosina (GMP). Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO O GMP cíclico relaxa as paredes das artérias do pênis e as malhas musculares no tecido erétil dos corpos cavernoso e esponjoso na haste peniana, permitindo maior fluxo sanguíneo na região que, associado à vasodilatação provocada pelo óxido nítrico, causa o enchimento do tecido erétil, manifestado por endurecimento e alongamento do pênis. Além de promover a ereção, as fibras e impulsos parassimpáticos promovem a secreção mucosa pelas glândulas bulbouretrais, fluindo pela uretra e auxiliando a lubrificação durante o ato sexual. O clímax para o ato sexual masculino consiste na emissão e ejaculação, ambos de responsabilidade simpática. Quando os estímulos se tornam muito intensos, os centros reflexos da medula enviam sinais elétricos que perpassam os plexos hipogástrico e pélvico até atingir a genitália. A emissão consiste na contração do canal deferente e da ampola, favorecendo o transporte dos espermatozoides até a uretra interna. Contrações prostáticas e nas vesículas seminais promovem a liberação de líquidos que junto com as secreções mucosas já liberadas formam o sêmen, substância que permite a movimentação dos gametas, além de empurrá-los para a frente. O enchimento uretral com esse líquido envia sinais sensoriais à parte sacral medula espinhal, criando a sensação de plenitude súbita nos órgãos genitais internos. Além disso, esses estímulos promovem a contração dos músculos isquiocavernoso e bulbocavernoso, comprimindo assim o tecido erétil peniano, causando aumento pressórico que culmina na ejaculação do sêmen. Todo esse movimento ainda causa espasmos na musculatura pélvica, projetando essa região no intuito de propelir os gametas para os recessos mais profundos da vagina. O conjunto dos períodos de emissão e ejaculação são denominados de orgasmo masculino. No final, a excitação sexual desaparece quase completamente entre 1 e 2 minutos e a ereção cessa, período chamado resolução. ATO SEXUAL FEMININO: Da mesma forma que no ato masculino, o desempenho bem-sucedido do ato sexual feminino depende tanto de estimulação local quanto psicológica. Ter pensamentos sexuais auxilia no aumento do desejo sexual, porém a concentração hormonal também pode contribuir para o aumento da libido, principalmente no período de ovulação, quando há picos de estrogênio circulante. A estimulação sexual local feminina assemelha-se àquela observada para o sexo masculino, porque a massagem da vulva, vagina e de outras regiões perianais podem criar sensações prazerosas. A glande do clitóris é especialmente sensível ao início dessas estimulações. O tráfego nos impulsos de sensações sexuais segue o mesmo percurso que no sexo masculino, percorrendo o nervo pudendo, o plexo sacro e ascendendo pela medula até o cérebro, com participação significativa de arcos reflexos locais. Ao redor do clitóris existe tecido erétil muito semelhante ao do pênis, cujo controle nervoso se dá por fibras parassimpáticas, secretando os mesmos agentes vasoativos masculinos. O resultado desses processos é a contração do introito, que auxilia o homem durante o processo ejaculatório. Esses sinais também perpassam para as glândulas de Bartholin, estimulando a secreção de muco nos grandes lábios, promovendo assim lubrificação para o ato sexual (é válido salientar que a maior parte das secreções lubrificantes são de origem Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO feminina, sejam elas advindas dessas glândulas ou do epitélio vaginal). Todo esse processo favorece sensações massageadoras que culminam no clímax para ambos os sexos. No momento em que a estimulação local atinge sua intensidade máxima e, principalmente, quando essas sensações regionais são favorecidas por sinais de condicionamento psíquico oriundos do cérebro, são desencadeados reflexos que levam ao orgasmo/clímax feminino, processo análogo à emissão/ejaculação masculina, o que pode facilitar a fertilização do óvulo. Essa condição cria uma tensão muscular generalizada pelo corpo, dando lugar, após o clímax, a uma sensação de satisfação e relaxamento, marcando a resolução do ato sexual. PREVENÇÃO DE COMPORTAMENTOS DE RISCO DURANTE O AMADURECIMENTO SEXUAL: A puberdade traz consigo diversos comportamentos impulsivos e de experimentação que podem ter amplo impacto negativo sobre a saúde do jovem, principalmente no que diz respeito ao início da vida sexual. Nesse contexto, cabe aos profissionais da equipe multiprofissional de saúde desenvolver medidas de promoção de saúde voltadas para esse grupo etário, fazendo uso principalmente de cenários intrínsecos à UBS, inseridos no contexto diário do adolescente. Esses programas têm como temas estruturantes preconizados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente a participação juvenil, equidade de gênero, direitos sexuais e direitos reprodutivos, projeto de vida, cultura de paz, ética e cidadania e igualdade racial e étnica, complementam o conjunto de oportunidades e facilidades com o objetivo de favorecer o desenvolvimento físico, o mental, moral, o espiritual e o social dos jovens púberes. A atuação do Programa Saúde na Escola (PSE) é de fundamental importância para o acesso dos adolescentes à saúde, pois são nessas dinâmicas que médicos, enfermeiros e outros profissionais podem adentrar a realidade juvenil. As informações e as ações educativas, fornecidas dentro do espaço da consulta e nos grupos, devem ser adequadas a cada subfaixa etária, considerando também os diferentes cenários culturais, religiosos, escolares e econômicos. Na promoção de ações voltadas para a educação em sexualidade é necessário considerar as diferentes formas de vivência da sexualidade, incluindo as experimentações iniciais eróticas e autoeróticas como fatores relevantes na atenção à saúde sexual e à saúde reprodutiva de adolescentes, orientando-os para o autocuidado e respeito mútuo na construção de relações afetivas e sexuais mais solidárias abordando, reflexivamente, as experimentações de adolescentes nessas relações, incluindo a abordagem da orientação sexual, identidade sexual e identidade de gênero, assim como as questões culturais construídas nas relações de gênero. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Nesse aspecto, de forma a orientar sobre o planejamento reprodutivo, é necessário personalizar o acolhimento aos jovens, dispensar preservativos em locais de fácil acesso nas UBS e elaborar fluxos e protocolos de atendimento capazes de atender o adolescente, considerando sua fase de desenvolvimento. Um exemplo dessa postura é o esclarecimento sobre todos os métodos contraceptivos disponíveis, inclusive os naturais, para que eles possam fazer escolhas livres e bem informadas, incluindo o respeito às concepções religiosas. Em relação aos aspectos da conduta adotada pela saúde pública em relação à sexualidade na adolescência, os temas abordados são planejamento familiar (acolhimento com respeito, orientação sobre contracepção, autoconhecimento, interação entre contraceptivos e substâncias ilícitas, soropositividade e vida sexual, etc.), doenças sexualmente transmissíveis, Aids e hepatites virais (redução de danos, realização de teste rápido, aumento da cobertura vacinal para hepatite B, etc.), acompanhamento durante a realização de teste rápido de gravidez, e detecção, denúncia e orientação sobre violência e abuso sexual. PROBLEMA 1 – INTERMEDIÁRIA: A FECUNDAÇÃO HUMANA: TRANSPORTE DOS GAMETAS: O ovócito secundário é expelido do folículoovariano com o fluido folicular circundante. Durante o processo de ovulação, as extremidades da tuba uterina aproximam-se do ovário e suas fímbrias fazem um movimento de varredura na região, captando o ovócito para o infundíbulo tubário. A peristalse, movimento ritmado de contração e relaxamento da parede das tubas uterinas, faz com que o ovócito seja encaminhado para a região da ampola, em direção ao útero. Os espermatozoides são transportados do epidídimo à uretra por várias contrações peristálticas da cobertura muscular espessa dos ductos deferentes. Além disso, as glândulas sexuais acessórias (próstata, vesículas seminais e glândulas bulbouretrais) produzem secreções que se misturam ao fluido contendo os gametas, fornecendo nutrição (frutose) e incentivando contrações uterinas (prostaglandinas). De 200 a 600 milhões de espermatozoides são depositados em torno do orifício externo do útero e no fórnice da vagina durante o intercurso sexual. Os gametas passam pelo canal cervical lentamente por meio do movimento de suas caudas. A vesiculase, enzima produzida pelas vesículas seminais, coagula uma pequena fração do sêmen ejaculado e compõe um tampão vaginal que impede o retorno de fluidos. Quando a ovulação ocorre, o muco cervical aumenta e se torna menos viscoso, promovendo o transporte dos espermatozoides. Essa passagem rumo ao útero e às tubas uterinas é auxiliada pelas contrações das paredes desses órgãos. O ejaculado (suspensão de espermatozoides e secreções de glândulas sexuais anexas) contém cerca de 3,5mL, podendo variar de 2 a 6mL. Os espermatozoides se movem numa velocidade média de 2 a 3mm/min, variando conforme o pH do meio no qual eles estão inseridos, mais lentamente na vagina (pH ácido) e rapidamente no útero (alcalino). O tempo de transporte dos gametas rumo ao local de fecundação é provavelmente curto, variando entre 5 e 45 minutos, porém somente 200 espermatozoides chegam a Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO esse estágio, com a maioria sendo absorvida e degradada pelo trato genital feminino. MATURAÇÃO DOS ESPERMATOZÓIDES: Os espermatozoides recentemente ejaculados são incapazes de fecundar ovócitos, precisando passar por um período de condicionamento, a capacitação, com duração de cerca de 7 horas. Nesse momento, são removidas uma cobertura glicoproteica e proteínas seminais do acrossoma, alterando assim os componentes de sua membrana, mas sem impactar em mudanças morfológicas. Essa fase ocorre normalmente no útero ou nas tubas uterinas, graças a substâncias secretadas nesses locais. Quando os espermatozoides capacitados entram em contato com a corona radiata que envolve o ovócito secundário, sofrem mudanças moleculares complexas que resultam no desenvolvimento de perfurações no acrossoma (reação acrossômica), causando fusões entre a membrana plasmática do gameta e o capuz enzimático, manifestadas como aberturas que permitem a liberação de compostos facilitadores da fecundação, como a hialuronidase e a acrosina. Os ovócitos não podem ser fecundados após 24 horas e se degeneram rapidamente depois. A maioria dos espermatozoides humanos não sobrevive por mais de 48 horas no trato genital feminino, porém pode ser armazenada temporariamente nos recessos vaginais, promovendo uma liberação gradual que favorece as chances de fertilização. Sêmen e ovócitos podem ser mantidos congelados por muitos anos para serem utilizados na reprodução assistida. A FECUNDAÇÃO: O local da fecundação normalmente é a ampola da tuba uterina, região mais dilatada dessa estrutura. Caso o ovócito não encontre o espermatozoide nesse ponto, ele passa lentamente para o útero, onde é degradado e reabsorvido (logo, constata-se que a fecundação pode ocorrer em outras áreas das Trompas de Falópio, porém nunca no útero). Sinais químicos atrativos, secretados pelo ovócito e pelas células foliculares circundantes, guiam os espermatozoides capacitados (quimiotaxia dos espermatozoides) para o gameta feminino. A fecundação consiste numa complexa sequência de eventos moleculares coordenados discorridos em torno de 24 horas que se deflagra por meio do contato entre o espermatozoide e o ovócito e acaba com a combinação entre cromossomos de origem materna e paterna durante a metáfase da primeira clivagem mitótica do zigoto, embrião unicelular, fazendo com que qualquer interferência nesse processo possibilite a morte dessa célula. FASES DA FECUNDAÇÃO: O processo anteriormente descrito desenvolve-se segundo as seguintes etapas ordenadas: Passagem do espermatozoide através da corona radiata: A hialuronidase, enzima liberada no acrossoma dos espermatozoides, permite a dispersão das células foliculares da corona radiata que circunda o ovócito e da zona pelúcida, sendo auxiliada por substâncias produzidas pela mucosa tubária. Além disso, o próprio movimento da cauda do gameta masculino favorece sua penetração nesse envoltório. Penetração na zona pelúcida: A passagem pela zona pelúcida é um momento importante para o início da fecundação, promovida por meio das enzimas esterases, acrosina (proteolítica, de Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO maior destaque) e neuroaminidases, que impedem a lise total dessa membrana, formando um caminho que permita a chegada do espermatozoide ao ovócito. No momento que o gameta rompe essa barreira ocorre uma reação zonal que modifica suas propriedades, impedindo a passagem de outros espermatozoides. Essa reação é fruto da ação de enzimas lisossômicas liberadas pelos grânulos corticais localizados abaixo da membrana plasmática do ovócito. Fusão das membranas plasmáticas entre ovócito e espermatozoide: As membranas de ambos os gametas se fundem e se rompem. A cabeça e a cauda do espermatozoide permeiam o citoplasma do ovócito, porém sua membrana plasmática fica para trás. Término da segunda divisão meiótica e formação do pronúcleo feminino: Com a penetração pelo espermatozoide, o ovócito é estimulado a terminar a segunda parte de sua meiose, formando o ovócito maduro e o segundo corpo polar. Os cromossomos maternos se descondensam e o núcleo do ovócito torna-se o pronúcleo feminino. Formação do pronúcleo masculino: Dentro do citoplasma do ovócito, o núcleo do espermatozoide aumenta para formar o pronúcleo masculino, e sua cauda se degenera. Morfologicamente, os pronúcieos masculino e feminino são indistinguíveis. Durante o crescimento dos pronúcieos, eles replicam seu DNA-1 n (haploide), 2 c (com duas cromátides). O ovócito contendo dois pronúcieos haploides é chamado de oótide. Formação do zigoto: Logo que os pronúcieos se fundem em uma agregação de cromossomos única e diploide, a oótide torna-se um zigoto. Os cromossomos no zigoto arranjam-se em um fuso de clivagem, na preparação para a divisão do zigoto. Um fator inicial de gravidez, uma proteína imunossupressora, é secretada pelas células trofoblásticas e surge no soro materno dentro de 24 a 48 horas após a fecundação, compondo a base dos testes de gravidez durante os primeiros 10 dias de desenvolvimento. O zigoto é geneticamente único pois contém metade dos cromossomos de origem materna e a outra, paterna, formando uma nova combinação gênica. Esse mecanismo forma a base da herança biparental e da variação da espécie humana. O sexo cromossômico do embrião é determinado na fecundação pelo tipo de espermatozoide (X ou Y) que fertiliza o ovócito, uma vez que esse gameta já apresenta o cromossomo X. CLIVAGEM DO ZIGOTO: A clivagem, conjunto de divisões mitóticas sucessivas do zigoto (ainda revestido pela zona pelúcida), ocorre cerca de 30 horas após a fecundação, quando esse tipo celular passapelas tubas uterinas em direção ao útero. Essas divisões sucessivas criam células embrionárias (blastômeros) cada vez menores. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Após o estágio de nove células, os blastômeros mudam sua forma e se juntam firmemente uns com os outros para formar uma bola compacta de células. Esse fenômeno (compactação) provavelmente é auxiliado por glicoproteínas de adesão de superfície celular. A compactação permite uma maior interação célula com célula e é imprescindível para a segregação de células internas que formam a massa celular interna ou embrioblasto do blastocisto. Quando já existem de 12 a 32 blastômeros, o ser humano em desenvolvimento é chamado de mórula (aparência semelhante a uma amora com suas projeções esféricas). As células internas da mórula (chamadas de massa celular interna) estão circundadas por uma camada de células que formam a camada celular externa. A mórula se forma cerca de 3 dias após a fecundação e alcança o útero. MÉTODOS CONTRACEPTIVOS: Anticoncepção refere-se ao ato de utilizar métodos e técnicas com o objetivo de impedir a fecundação, sendo um recurso de planejamento familiar para a constituição de prole planejada e programada, de forma consciente. Embora possam ser classificados de diversas maneiras, os dois principais grupos são de métodos reversíveis e métodos definitivos. Os métodos reversíveis são comportamentais, de barreira, dispositivos intrauterinos, hormonais e os de emergência, ao passo que os métodos definitivos são os cirúrgicos, esterilização cirúrgica feminina e esterilização cirúrgica masculina. O manejo das situações que envolvem a contracepção faz necessária a aplicação de critérios importantes, a saber: Eficácia do método contraceptivo: Refere-se à capacidade de proteção desse método contra a gravidez não desejada/não programada, expressa pela taxa de falhas inerente ao mecanismo num período de tempo (geralmente um ano). Para calcular esse fator é empregado o índice de Pearl, calculado da seguinte forma: Segurança: Determinada pelo potencial de causar riscos à saúde de quem utiliza o método em questão. Sua avaliação se dá por meio dos efeitos indesejáveis e possíveis complicações. Quanto maior a segurança do método, menor será sua probabilidade de comprometer a saúde do usuário. Escolha do método: O principal critério para a eleição do método contraceptivo é a opção feita pelo usuário, que deve ser sempre privilegiada. Entretanto, o mecanismo escolhido nem sempre poderá ser utilizado, fazendo com que o médico desenvolva ferramentas adequadas para avaliar se o paciente apresenta alguma contraindicação clínica para tal. Se existirem, o médico deve colocar os demais métodos possíveis à disposição da pessoa interessada, explicando-lhe as suas características, modo de uso, riscos e benefícios, bem como a eficácia, fornecendo ao usuário condições de fazer nova opção e se comprometer com ela. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Vale salientar que os resultados (eficácia, uso correto, ausência de efeitos indesejáveis) observados para qualquer instrumento de contracepção são diretamente relacionados com o grau de adesão após a eleição do melhor método. Critérios de elegibilidade de um método anticoncepcional: São definidos por meio de um conjunto de características apresentadas pelo candidato à adoção de certo método, indicando se essa pessoa pode ou não o utilizar. Quatro categorias formas estabelecidas pela OMS: o Categoria 1: o método pode ser utilizado sem qualquer restrição; o Categoria 2: o uso do método discutido pode apresentar algum risco, normalmente menor do que os benefícios decorrentes de seu uso. Em outras palavras, o método pode ser usado com cautela e precauções maiores, especialmente acompanhamento clínico mais rigoroso; o Categoria 3: o uso do método pode estar associado a um risco, geralmente considerado superior aos benefícios decorrentes de seu uso. O método não é o mais apropriado para aquela pessoa, podendo ser usado, contudo, no caso de não haver outra opção disponível, ou em que a pessoa não aceita qualquer outra alternativa, mas desde que seja bem alertada desse fato e que se submeta a uma vigilância médica muito rigorosa. As condições que levam à classificação nessa categoria eram denominadas anteriormente por contraindicações relativas; o Categoria 4: o uso do método em apreço determina um risco à saúde inaceitável, sendo contraindicado de forma absoluta. MÉTODOS CONTRACEPTIVOS REVERSÍVEIS: MÉTODOS COMPORTAMENTAIS: Denominados também como métodos naturais de concepção, são os mecanismos baseados no reconhecimento do período fértil feminino. Compõem um conjunto de práticas que envolvem a abstinência sexual durante os dias nos quais há chances de ocorrer a fecundação ou no uso de técnicas nas quais o esperma não é depositado no canal vaginal. O período fértil contempla o tempo de viabilidade do espermatozoide (5 dias) e o tempo que o ovócito permanece vivo (24 horas), totalizando seis dias em cada ciclo menstrual. No entanto, não existe uma determinação precisa deste período, que é variável, de mulher para mulher e, mesmo numa mesma mulher, em cada um de seus ciclos. Por esse motivo, o casal necessita abster-se de fazer sexo por um período maior do que os seis dias férteis de cada ciclo. As vantagens que se destacam são a gratuidade, a ausência de malefícios à saúde, o autoconhecimento do corpo feminino e de sua fertilidade e a possibilidade de casais seguirem normas de sua religião ou filosofia cultural, além de não haver demora no retorno da fertilidade. Apesar de não possuírem efeitos colaterais, os métodos naturais não protegem o casal contra Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Algumas situações podem fazer com que seja mais difícil usar a abstenção periódica com a eficácia desejada. Dentre elas, destacam-se irregularidades no ciclo menstrual e o pós-parto ou amamentação, sendo recomendado o adiamento do início do uso desse método até que ocorram no mínimo três ciclos menstruais e os ciclos estejam regulares novamente, o que também vale para casos de abortamento. A eficácia depende dos casais em abster-se de relações sexuais com penetração vaginal nos dias férteis. Essas práticas podem ser divididas de forma didática conforme as formas distintas de percepção da fertilidade feminina, a saber: Métodos baseados no calendário: o Método dos dias fixos: Indicado para mulheres que apresentam ciclos de 26 a 32 dias. A pessoa interessada deve anotar no calendário (ex.: com um círculo) o primeiro dia da menstruação e os próximos sete dias, período no qual pode ter reações sexuais livremente. Os próximos 12 dias devem ser assinalados de forma diferente (ex.: com um X) não devendo praticar, durante esse intervalo, relações com penetração vaginal. Portanto, em cada ciclo, a mulher pode ter relações livremente nos dias marcados com círculo e os dias após o último marcado com X até a próxima menstruação. o Método rítmico do calendário (tabelinha ou Ogino-Knaus): Previamente ao início da utilização desse método, a mulher deve registrar o número de dias de cada ciclo menstrual durante, pelo menos, seis meses. O primeiro dia da menstruação é sempre o dia número um. O ciclo menstrual começa no primeiro dia da menstruação e termina no último dia antes da menstruação seguinte. A mulher subtrai 18 da duração do seu ciclo mais curto, estimando, assim, o primeiro dia de seu período fértil. Em seguida, ela subtrai 11 dias da duração do seu ciclo mais longo, que corresponde ao último dia de seuperíodo fértil. O casal deve evitar relações sexuais com penetração vaginal durante este período. A crítica a esse método se baseia no fato de que é realizada uma avaliação retrospectiva projetada para o futuro, sendo que a fisiologia feminina não responde a critérios matemáticos, além de que requer bastante disciplina e obediência por parte do casal ao período de abstinência. Métodos baseados em sintomas: o Método da ovulação (método de Billings ou do muco cervical): A fundamentação desse método consiste no processo de evolução do muco cervical ao longo do ciclo menstrual. Durante a fase estrogênica, ocorre secreção de muco cervical que, durante a ovulação, possui características que viabilizam a locomoção dos espermatozoides. Ocorrendo a ovulação, o corpo lúteo Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO secreta progesterona, inibindo a secreção cervical. Logo após o fluxo menstrual é o período conhecido como seco, que compreende do 1º ao 7º ou 10º dia do ciclo. É o período pré-ovulatório. Após essa etapa, aparece o muco cervical, marcando o início do período úmido. O muco cervical no início é escasso, opaco e viscoso, aumentando progressivamente em quantidade e tornando-se claro, transparente e elástico, como a clara de ovo crua. No dia que corresponde ao pico de estrogênio, o muco alcança o máximo dessas características, sendo conhecido como o dia ápice do muco e corresponde à máxima fertilidade. Para o uso deste método, a mulher precisa detectar a presença ou não de muco, examinando diariamente sua secreção cervical nos dedos, na calcinha ou lenço de papel ou pela sensação de umidade vaginal. Assim que sentir a presença de secreção, deve considerar-se fértil. Após perceber o dia do ápice do muco, deverá permanecer sem penetração vaginal por três dias. Do 4º dia após o ápice, até novamente perceber umidade vaginal, o casal pode manter relações sexuais vaginais. A ovulação pode, mesmo que raramente, ocorrer durante o fluxo menstrual, portanto, os casais devem evitar relações sexuais vaginais durante os dias de fluxo menstrual intenso, pois, nestes dias é difícil verificar as secreções cervicais. Durante o período livre para relações vaginais, o casal não deve tê-las por dois dias seguidos, pois, o sêmen prejudica a observação do muco. As críticas direcionadas a esse método baseiam-se no fato de que diversas mulheres não conseguem manipular seus genitais de forma a obter amostras de muco, além de que processos patológicos como vaginites podem interferir no aspecto dessas secreções. o Método dos dois dias: Esse método é apropriado para mulheres com ciclos menstruais de qualquer duração, independentemente de sua regularidade, porém requer grandes períodos de abstinência sexual. Sua fundamentação é a mesma que a do método de Billings, mas não requer observação das características da secreção vaginal, somente sua presença e o dia que se segue. A mulher deve considerar-se fértil ao perceber a presença de qualquer forma de muco até que permaneça por dois dias sem a secreção, momento a partir do qual pode ter relações livremente. o Método da temperatura basal: Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO São utilizadas variações da temperatura corporal de modo a identificar a ovulação, uma vez que a secreção de progesterona pelo corpo lúteo causa aumento de 0,2 a 0,5ºC na temperatura do corpo. Na maioria das mulheres isso ocorre no meio do ciclo menstrual. Para utilizar este método, a mulher precisa verificar sua temperatura diariamente, da mesma maneira, no mesmo horário pela manhã, antes de sair da cama ou ingerir alimentos. Após três dias da elevação da temperatura, o casal pode ter relações livremente. Portanto, o período de abstinência deverá ser desde o primeiro dia do ciclo menstrual até três dias após a elevação da temperatura basal. Esse método pode ser tanto utilizado sozinho como associado ao método do calendário e fazendo parte do sintotérmico, pois permite reduzir a abstinência pós-ovulatória. Os principais pontos criticados nesse método são a necessidade de disciplina para a consistência dos valores aferidos, dependência da medição adequada da temperatura e alta capacidade de interferência por agentes exógenos, como um processo gripal. Método sintotérmico (combina calendário e sintomas): A identificação do período fértil e não fértil é feita com a combinação dos métodos de temperatura basal e da ovulação, além da percepção de outros sinais e sintomas que indicam a ocorrência da ovulação, como ingurgitamento das mama, dor pélvica e mudanças de humor. A utilização deste método requer abstinência sexual desde o primeiro dia da menstruação até o quarto dia após o pico das secreções cervicais ou o terceiro dia inteiro após a elevação da temperatura. Ocorrendo um destes fatores, deverá esperar a ocorrência do segundo para que possa ter relação vaginal desprotegida. Método da lactância com amenorreia (LAM): O aleitamento materno foi reconhecido cientificamente como um método contraceptivo em 1988, no Consenso de Bellagio, e reavaliado em 1995, sendo considerado uma ferramenta adequada para utilização pelos programas de planejamento familiar. Na década de 1980, ao mesmo tempo em que o foi resgatado como método contraceptivo, seus inúmeros benefícios para a saúde da mulher e da criança foram comprovados e defendidos pela comunidade científica. Essa conduta, no entanto, sofre com o condicionamento social, recebendo diferentes significados em sociedades distintas, tornando necessária sua Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO compreensão como fenômeno biológico e social. Este método fundamenta-se na hiperprolactinemia existente em resposta ao estímulo da sucção durante a amamentação e, consequentemente, níveis de FSH e de LH insuficientes para estimular o desenvolvimento dos folículos ovarianos. Sabe-se que o estímulo para produção da prolactina é a sucção efetiva do bebê e, quanto maior a frequência e a duração das mamadas, maior é este estímulo. Nesse sentido, o uso de chupetas e de mamadeiras, a introdução de líquidos ou sólidos e longos intervalos entre as mamadas (intervalo noturno maior que seis horas, por exemplo) podem interferir diretamente na produção de leite, permitindo oscilações da liberação de prolactina, facilitando a possibilidade de ovulação. Há três critérios para a adoção desse método, que devem estar sempre presentes: O bebê deve ter até 6 meses de vida; A mãe deve estar em amenorreia; O aleitamento deve ser exclusivo (ou quase) dia e noite. É um método de alta eficácia, sendo o índice de falha de 0,5 a 2% em seis meses, havendo redução em caso de uso rotineiro. Todas as mulheres que estejam amamentado podem usar o LAM. São raras as condições que contraindicam o aleitamento, sendo as principais: doenças maternas como infecção pelos vírus HIV e HTLV, uso de drogas como quimioterápicos e drogas radioativas, e drogas ilícitas. Todas as intercorrências que afetam o momento de aleitamento devem ser sanadas de forma a manter a eficácia desse método contraceptivo, sejam elas relacionadas à nutriz ou ao bebê. Relações sem que haja ejaculação na vagina: Consiste na utilização de práticas sexuais diversas do coito vaginal, para que a ejaculação não seja intravaginal. A prática mais conhecida e difundida é o coito interrompido. O homem, ao pressentir a iminência da ejaculação, retira o pênis da vagina e ejacula fora desta, preferencialmente longe da região genital feminina. São necessários um grande autocontrole masculino e compreensão da mulher, que pode sentir frustração por isso. Há,contudo, casais bem ajustados, que conseguem desenvolver a anticoncepção por meio desse método. Outras formas de se fazer sexo sem ejaculação dentro da vagina são práticas eróticas diversas, em que não ocorre a penetração do pênis na vagina. Podem ser citados: o sexo oral, o sexo anal, a masturbação mútua, entre outras. É válido lembrar que o coito interfemoral (ejaculação feita na vulva) pode resultar em gestação. MÉTODOS DE BARREIRA: Esses métodos se baseiam na utilização de aparelhos como barreiras mecânicas que impedem a ascensão dos espermatozoides pelo trato genital feminino, podendo ser empregados tanto pelo homem quanto pela mulher. Preservativo masculino: Também denominado camisinha, constitui um invólucro para o pênis, fino e elástico, podendo ser feito de látex, membrana animal ou plástico. Os modelos de látex são os mais utilizados e representam quase a totalidade dos preservativos existentes no mercado. Podem ser lubrificados com silicone, glicerina, gel à base de água ou espermicida em creme ou Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO gel, mas não com substâncias à base de óleo, pois podem enfraquecer o látex. Os de membrana animal são pouco utilizados e, apesar de oferecer conforto, não são recomendados, pois protegem apenas contra a gravidez. Estes apresentam porosidades inseguras para prevenir IST, permitindo a passagem dos vírus HIV, da hepatite B e do herpes simples. Os preservativos de látex ou plástico, no entanto, têm uma permeabilidade extremamente baixa, o que confere alta segurança pelo bloqueio da passagem do espermatozoide e de vários micro- organismos. Em geral os preservativos de látex medem 180 mm de comprimento por 52 mm de largura e atendem a necessidade da maioria da população masculina brasileira. O uso do preservativo é recomendado em todas as relações sexuais, sendo suas contraindicações relativas a reações alérgicas ao material e disfunção erétil. Deve ser colocado com o pênis ereto e seco, antes da penetração vaginal, com o cuidado de comprimir o reservatório, evitando perfurações durante o intercurso sexual. Após a ejaculação e retirada do pênis, o preservativo deve ser amarrado com um nó em sua base de modo a aprisionar seu conteúdo. A taxa de falha varia de 3% a 14% no primeiro ano (3 a 14 gestações por 100 mulheres/ano). Esta variação ocorre pelas diferenças entre o uso ideal, em que a falha prática não ocorre e o uso “típico”, sujeito a estes desfechos. As vantagens apresentadas por esse método são a ausência de efeitos sistêmicos, praticidade de uso, baixo custo (início da distribuição gratuita em 1994), proteção contra ISTs e fácil acesso. As desvantagens, por sua vez, referem-se à possibilidade de falhas por ruptura ou deslizamento, retardo da ejaculação, compressão peniana, irritação vaginal e alergia ao látex. Preservativo feminino: Consiste em um dispositivo que é inserido na vagina antes do coito com a finalidade de impedir que o pênis e o sêmen entrem em contato direto com a mucosa genital feminina. Ele tem um formato de tubo transparente apresentando um anel em cada extremidade: o anel móvel fica no interior da extremidade fechada e auxilia para uma melhor adaptação do preservativo ao fundo vaginal, enquanto o anel fixo, situado externamente, mantém a outra extremidade aberta recobrindo a parte central da vulva, ajudando a protegê-la e impedindo que o preservativo entre na vagina durante o coito. Ele se adapta de forma frouxa, mas segura, auxiliado pela presença de um lubrificante à base de silicone de alta viscosidade que favorece sua aderência na mucosa genital. Em função da epidemia do HIV/AIDS, o preservativo feminino ganhou maior destaque como um método de barreira para prevenir a transmissão não só do HIV como de de outras ISTs, além de prevenir a gravidez. O modelo feminino quando comparado ao masculino, confere uma maior proteção ao casal por recobrir uma área maior de contato genital incluindo a vulvar que é sede frequente de úlceras genitais provocadas por estas doenças. Para o uso adequado do preservativo feminino é necessário seguir uma sequência maior de passos, orientada pelo profissional de saúde ou na embalagem do material. Seu uso é recomendado em todas as relações sexuais, mesmo no período menstrual. Sua utilização junto ao preservativo masculino Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO não é indicada, pois o atrito aumenta as chances de rompimento. As taxas de falha variam de 5% a 21%, comparativamente maiores que as encontradas pelo preservativo masculino, uma vez que seu uso inadequado é mais frequente. A eficácia contraceptiva dos preservativos femininos pode aumentar quando utilizado com lubrificantes espermicidas. O preservativo feminino é indicado para todas as mulheres durante o coito, visando prevenir o contágio ou a transmissão de ISTs ou a gravidez indesejada, podendo ser associado a ouros métodos como forma de aumentar sua eficácia. As contraindicações são alergias ao látex e prolapsos vaginais. As vantagens desse método são a ausência de efeitos sistêmicos, a proteção dupla (ISTs e gravidez), possibilidade de inserção com antecedência (dá mais controle à mulher e evita interrupções durante o ato sexual, não dependendo da ereção peniana), o conforto mútuo e a menor perda de sensibilidade. As desvantagens, por sua vez, são as falhas ligadas à utilização inadequada, custo elevado, menor aceitação estética, dificuldade de acesso, possibilidade de penetração inadequada e desconforto associado aos anéis. Diafragma: O diafragma é um dispositivo vaginal de anticoncepção com longo período de validade (5 anos), que consiste em um capuz macio de borracha, côncavo, com borda flexível, que cobre parte da parede vaginal anterior e o colo uterino. É necessária a medição por profissional de saúde treinado, para determinar o tamanho adequado a cada mulher. Se o diafragma medidor escolhido for correto, a borda superior deste se encaixará perfeitamente atrás do púbis e, se corretamente aplicado, não deverá causar desconforto. O médico deverá treinar a paciente para uma colocação correta, certificando-se sempre de que o diafragma está recobrindo totalmente o colo uterino. Antes de colocar o diafragma, a paciente deve urinar para esvaziar a bexiga e lavar as mãos. Deve-se examiná-lo cuidadosamente contra a luz, para assegurar-se da inexistência de defeitos ou furos antes da sua colocação. A utilização do diafragma deve ser preferencialmente associada ao espermicida em todas as relações sexuais. A reaplicação do gel deve ocorrer a cada duas horas sem retirar o diafragma, que deve permanecer por no mínimo 6 a 8 horas após a última ejaculação vaginal. Depois de retirado, ele deve ser lavado com água limpa e sabão, secado e armazenado em local limpo, seco e escuro. Pode ser colocado antes da relação sexual (até oito horas antes), ou utilizado de forma contínua. Nesta última modalidade, é aconselhável retirá-lo uma vez ao dia para lavá-lo e recolocá-lo novamente. Durante a menstruação o diafragma deve ser retirado. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO A taxa de gravidez é de 6% a 21%, variando conforme a discrepância entre uso perfeito e típico. A indicação desse método vale para mulheres com baixo risco de infecção por HIV e outras ISTs. Contraindicações para o uso do diafragma são direcionadas para portadores ou pessoas com alto risco de infecção por HIV, infecções urinárias e candidíase recorrentes, com doença cardíaca valvular complicada, prolapsos vaginais e mulheres antes de seis meses pós-parto. Como vantagens, é possível ressaltar a ausência de efeitos sistêmicos, fácil acessoe baixo custo, controle feminino, prevenção de gravidez e algumas ISTs, a não interferência durante o aleitamento materno, possibilidade de interrupção a qualquer momento, longa vida útil e facilidade de colocação após orientação. As desvantagens observadas são as falhas elevada por uso incorreto, necessidade de medição e instruções claras de profissionais de saúde, possibilidade de acometimento por dores pélvicas e maior susceptibilidade a infecções urinárias. Capuz cervical: São dispositivos menores que o diafragma, recobrem e aderem ao colo do útero e são usados junto com espermicidas que funcionam como métodos anticoncepcionais de barreira cervical. Podem ser utilizados por mais tempo que o diafragma (48 a 72 horas, comparadas a 24h com o método anterior) e requerem só uma aplicação de espermicida, mesmo com mais de uma relação sexual. A taxa de gravidez é de 9% a 20% em nulíparas e de 26% a 40% em multíparas. Suas indicações, vantagens e desvantagens assemelham-se às do diafragma, porém são de difícil acesso no Brasil. Esponjas: As esponjas são dispositivos pequenos, macios e circulares de poliuretano (plástico) contendo espermicida, colocados no fundo da vagina recobrindo o colo uterino. Antes da introdução vaginal, ela deve ser umedecia com água filtrada, espremida para distribuir o espermicida. Permanece eficaz por 24 horas após a inserção independentemente do número de coitos. Após a última ejaculação, ela deve permanecer por no mínimo seis horas, não ultrapassando 24 a 30 horas. A taxa de gravidez é de 9% a 20% nas nulíparas e de 20% a 40% nas multíparas. Tem indicações e contraindicações semelhantes às do diafragma, com vantagens e desvantagens análogas às do capuz cervical. Espermicidas: São substâncias químicas que recobrem a vagina e o colo do útero, bloqueando a passagem dos espermatozoides pelo canal cervical, impedindo sua ascensão em direção ao ovócito para a fecundação. Esses compostos dissolvem os constituintes lipídicos da membrana celular dos gametas masculinos, provocando sua inativação funcional ou morte. O espermicida, para o máximo de efetividade, deve ser usado com o diafragma ou com os preservativos, e é efetivo por um período de uma hora após a colocação. Portanto, a mulher deve ser orientada para que a relação sexual ocorra neste período de tempo, caso contrário ele deve ser reaplicado antes do coito. O principal componente desses produtos, o nonoxinol-9 (N-9) pode provocar lesões na mucosa vaginal ou retal de acordo com a frequência de utilização e volume aplicado, fazendo com que a OMS não recomende a Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO utilização desse método por mulheres com risco aumentado para ISTs, especialmente aquelas que têm muitas relações diárias. A taxa de gravidez é de 6% a 26%, indicado para mulheres com baixo risco de infecção por ISTs e que utilizem outros métodos de barreira, e contraindicados para as situações supracitadas, além de alergias ao produto e doença inflamatória pélvica e/ou cervicite purulenta atual ou nos últimos 3 meses. As vantagens são semelhantes às dos últimos métodos apresentados, tendo por desvantagens a não proteção contra ISTs, baixa eficácia com uso individual, possibilidade de irritação local e desenvolvimento de infecções na mucosa vaginal. DISPOSITIVOS INTRAUTERINOS (DIU): O dispositivo intrauterino consiste em um objeto sólido de formato variável que é inserido através do colo uterino na cavidade uterina, com o objetivo de evitar a gestação. Os DIUs podem ser classificados em três grupos principais: não medicados, medicados ou de cobre e hormonais (DIU Mirena, contém levongestrel ou progesterona – age sobre o endométrio, atrofiando a parede uterina). Os mecanismos de ação são variados, sendo o principal a prevenção da fertilização. O DIU não medicado depende de uma reação de corpo estranho para sua ação contraceptiva, trata-se de reação inflamatória estéril que produz lesão tecidual mínima, porém suficiente para ser espermicida; O DIU de cobre consiste em um fio de prata corado com cobre. A presença de um corpo estranho e de cobre na cavidade endometrial causa mudanças bioquímicas e morfológicas no endométrio, além de produzir modificações no muco cervical. Esse aparelho é associado à resposta inflamatória aumentada com citocinas citotóxicas. O cobre é responsável pelo aumento da produção de prostaglandinas e pela inibição de enzimas endometriais. Estas mudanças afetam adversamente o transporte de esperma, de modo a prevenir a fertilização. Os íons de cobre também têm um efeito direto na motilidade espermática, reduzindo a capacidade de penetração no muco cervical. A ovulação não é afetada em usuárias do DIU de cobre; Na ausência de contraindicações, o DIU pode ser considerado para qualquer mulher que esteja procurando por um método contraceptivo de confiança, reversível, independente do coito, de longo prazo. Duas situações que configuram boas candidaturas ao uso desses dispositivos são mulheres com contraindicação ao estrogênio e lactantes. Além dos benefícios de caráter contraceptivo, o DIU de cobre pode também auxiliar a reduzir o câncer endometrial por mecanismos ainda não esclarecidos. Alguns riscos devem ser levados em consideração para a escolha dos dispositivos intrauterinos como método de anticoncepção, como a possibilidade de perfuração uterina (rara, ocorre durante a inserção, principalmente em mulheres pós- parto, com o útero em posição anatômica diferenciada ou por conta de operadores não treinados), infecções (risco é mais alto nos primeiros 20 dias seguindo a inserção), expulsão (mais comum no primeiro ano de uso, ocorrendo em 2% a 10% das usuárias. Sua incidência é maior em nulíparas, mulheres que impantaram o dispositivo após o parto e em reincidências), falha contraceptiva (risco de abortamento caso a Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO gestação ocorra com a manutenção do DIU), e gravidez ectópica (não é mais frequente em usuárias de DIU, porém caso ocorra gravidez na presença de DIU, ela tem mais chances de ser ectópica). O DIU pode ser inserido em qualquer momento do ciclo menstrual, uma vez a gravidez seja excluída. Não há nenhuma evidência para apoiar a prática comum de inserir o DIU só durante a menstruação, embora neste momento descarta-se a gravidez e mascara-se o sangramento relacionado à inserção. As taxas de infecção e índices de expulsão podem ser mais altas quando inserido durante a menstruação. Da mesma forma, o aparelho pode ser removido e substituído em qualquer momento do ciclo. O exame ginecológico completo incluindo toque bimanual e exame especular deve ser realizado antes da inserção, observando conteúdo vaginal anormal sugestivo de infecções, posição uterina, visto que úteros extremamente retrovertidos não diagnosticados são mais comumente relacionados à perfuração. O tamanho uterino preferível para sucesso do método deve estar entre 6 cm e 9 cm. Dentre as candidatas apropriadas estão jovens e adolescentes (desde que selecionadas cuidadosamente), nulíparas (têm mais risco de expulsão e aumento do fluxo menstrual, porém a paridade não influi na decisão), mulheres pós-parto (pode ser colocado de 10 a 15 minutos após a dequitação da placenta, porém há risco de perfuração uterina e expulsão, sendo mais segura a inserção após a involução uterina [4 a 6 semanas após o parto]), mulheres pós- aborto, lactantes e indivíduos na perimenopausa. Os procedimentos de colocação e remoção devem ser realizados em consultório por um médico, recomendando-se uma consulta de acompanhamento após a primeira menstruação ou de três a seis semanas após a colocaçãodo instrumento. Depois desta visita, a usuária de DIU deve ter rotina anual. A visita pós-inserção permite a exclusão de infecção, avaliação dos padrões de sangramento, avaliação da satisfação da paciente e do parceiro e uma oportunidade de reforço para uso de preservativo para proteção contra ISTs. A OMS desenvolvei uma lista de contraindicações absolutas e relativas para o uso de DIU: Contraindicações absolutas: o Gravidez; o Doença Inflamatória Pélvica ou IST atual, recorrente ou recente; o Sépsis puerperal; o Imediatamente pós-aborto séptico; o Deturpação severa da cavidade uterina; o Hemorragia vaginal inexplicada; o Cancer cervical ou endometrial; o Doença trofoblásticas maligna; o Alergia ao cobre. Contraindicações relativas: o Fator de risco para ISTs; o Imunidade comprometida; o 48 horas a 4 semanas pós-parto; o Câncer de ovário; o Doença trofoblásticas benigna. O sangramento irregular ou um aumento na quantidade de sangramento menstrual são os efeitos colaterais mais comuns nos primeiros meses depois da inserção. A perda menstrual nas usuárias quando comparadas às não usuárias de DIU de cobre pode aumentar em até 65%. O número médio de dias de sangramento parece diminuir com o tempo. As usuárias de DIUs de cobre têm uma média de 13 dias de sangramento ou spotting no primeiro mês depois da inserção, diminuindo para uma média de seis dias após 12 meses da inserção. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Alguns problemas com o uso são a perda do fio, problemas com a inserção, perfurações, amenorreia, dor e hemorragia anormais. MÉTODOS HORMONAIS: A anticoncepção hormonal é a utilização de drogas, classificadas como hormônios, em dose e modo adequados para impedir a ocorrência de uma gravidez não desejada ou não programada, sem qualquer restrição às relações sexuais. Esse método pode ser aplicado de várias formas (contraceptivos orais combinados [mono, bi ou trifásicos, dependendo da dosagem de cada componente ao longo a cartela] ou só com progestágenos, injetáveis combinados [mensais] ou só com progestágenos [trimestral], implantes, anéis vaginais, DIU com progestágeno e adesivos cutâneos). Os hormônios usados para anticoncepção são os esteroides sexuais sintéticos: estrógenos e progestágenos. O estrógeno que aparece nos contraceptivos hormonais orais (CHO) é o etinilestradiol. Os progestágenos usados nas formulações contraceptivas são vários, produzindo diferentes efeitos metabólicos. Tais diferenças são sutis, mas suficientemente importantes para determinar reações variadas. Para manter a elevada eficácia, a administração de anticoncepcionais monofásicos deve ser feita de forma diária, nos mesmos horários, respeitando as pausas máximas entre as cartelas e evitando esquecimentos (é possível tomar a dose diária tão logo se lembrar do fato). Se ocorrer esquecimento de duas pílulas consecutivas, deve tomar a pílula do dia mais uma (duas pílulas juntas) em dois dias consecutivos e usar método adicional, de barreira, ou evitar relações sexuais por 14 dias. Os contraceptivos orais combinados exercem a sua ação contraceptiva por meio de uma influência no eixo neuroendócrino, alterando o mecanismo de estimulação ovariana pelas gonadotrofinas e pela interferência direta sobre os mecanismos de feedback. Assim, promovem um bloqueio gonadotrófico especialmente do pico de LH e, com isso, impedem que ocorra a ovulação. Por esta razão são chamados de anovulatórios. Além dessa forma de ação, os progestágenos atuam sobre o muco cervical, dificultado o acesso de espermatozoides, e o endométrio, tornando-o hipertrófico. Esses efeitos são totalmente reversíveis e, por isso, a usuária retorna à fertilidade ao suspender o seu uso. O uso de outras medicações concomitantemente repercute de forma importante na eficácia contraceptiva e pode interferir de modo significativo, tanto na eficácia contraceptiva, quanto no efeito do outro medicamento, fenômeno que se chama interações medicamentosas. A eficácia das pílulas combinadas depende essencialmente da correção do uso. Se o modo de uso for perfeito, a taxa de falhas, independente da formulação, fica em torno de 0,5%. Entretanto, o risco relativo de gravidez durante o uso de pílulas é maior para as formulações com muito baixas doses de hormônios. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Alguns efeitos indesejados podem ocorrer devido à ação hormonal, como náuseas, aumento das mamas, retenção de líquidos, ganho de peso rápido e em ciclos, AVC, aumento da concentração de colesterol na bile, etc. A diferença dos anticoncepcionais orais para implantes, adesivos e injetáveis está somente na ausência de passagem pelo fígado e redução de uso incorreto por minimizar o fato esquecimento. A indicação geral desses métodos se dirige a mulheres desde a menarca até os 40 anos, pós-parto (21 dias) sem lactação, pós- aborto, portadoras de HIV, obesas, portadoras de diabetes gestacional, entre outras. Esse mecanismo contraceptivo é contraindicado para lactantes antes das 6 semanas e até 6 meses pós-parto, mulheres antes de 21 dias pós-parto, diabéticas com mais de 20 anos de diagnóstico, gestantes, hipertensas moderadas e graves, com câncer de mama atual, histórico de AVC ou doenças cardioisquêmicas ou valvulares. MÉTODOS DEFINITIVOS: Os métodos anticoncepcionais definitivos, ou cirúrgicos, são procedimentos que resultam na esterilização, seja para o sexo masculino ou para o feminino. Na mulher, esse procedimento é realizado por meio da laqueadura/ligadura das trompas de Falópio, e no homem por meio da vasectomia. O acesso às tubas uterinas durante a laqueadura pode se dar de várias formas, sendo que as incisões normalmente se localizam na região suprapúbica. Um segmento tubário será ressecado, isolado por meio de uma pinça hemostática, formando assim uma alça que será cortada, com sua base sendo ligada por fios absorvíveis. As complicações decorrentes da esterilização tubária (LT) são variadas e dependem muito da habilidade e da experiência de quem a executa. A maioria delas são lesões de órgãos ou vísceras vizinhas, como a bexiga ou o intestino. Também podem ocorrer sangramentos e infecção da ferida cirúrgica, além de irregularidades menstruais e dor pélvica. Nota-se que não há perda de prazer sexual feminino após a realização da cirurgia. Uma complicação séria de LT é o arrependimento. Algumas mulheres, alguns anos após serem submetidas ao procedimento, voltam à clínica, solicitando sua reversão. Ocorrem mudanças em suas vidas e voltam a desejar nova gravidez. Por isso, é fundamental que antes de realizar um procedimento de esterilização, se tenha convicção de que a paciente tem perfeita consciência do caráter definitivo do método, e de que está absolutamente certa de que não deseja mais ter filhos. A taxa de arrependimento é inversamente proporcional à idade com que a paciente se submete à esterilização e ao número de filhos que possui. A vasectomia, por sua vez, é uma cirurgia simples, segura e rápida, na qual os canais deferentes são ressecados, cauterizados ou amarrados. O procedimento pode ser feito em ambulatório (o que não é possível na esterilização feminina), com anestesia local e sem necessidade de internamento. O efeito desse processo não é imediato. Nas primeiras ejaculações depois da vasectomia, ainda existem espermatozoides no esperma Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO ejaculado, ou seja, ainda existe o risco de o homem engravidar a mulher. A vasectomia só será considerada segura quando o exame realizado no esperma, o espermograma, mostrar que não existem mais espermatozoides no esperma ejaculado.Vale salientar que a vasectomia não altera a vida sexual do homem. O desejo e a potência sexual continuam iguais ao que eram antes da cirurgia. Os métodos anticoncepcionais definitivos são regulados pela Lei do Planejamento Familiar, que só permite a esterilização voluntária nas seguintes condições: Em homens e mulheres com plena capacidade civil e maiores de 25 anos, ou com pelo menos dois filhos vivos, com observação de um espaço de tempo de 60 dias entre manifestação da vontade e a realização da cirurgia; Nos casos em que há risco de vida para a mulher ou riscos para a saúde da mulher ou do futuro concepto, desde que testemunhado em relatório escrito e assinado por dois médicos; Deve ser elaborado documento que expresse a vontade pela paciente, contendo informações sobre os riscos da cirurgia, possíveis efeitos colaterais, dificuldade de sua reversão e opções de contracepção reversível. Este documento deve ser assinado pelo cônjuge, quando houver sociedade conjugal. A Lei do Planejamento Familiar proíbe a realização da ligadura de trompas durante o período de parto ou aborto, exceto nos casos de comprovada necessidade. CONTRACEPÇÃO DE EMERGÊNCIA: A anticoncepção/contracepção de emergência (AE/CE) é um método anticonceptivo que visa prevenir a gestação após a relação sexual. O método, também conhecido por “pílula do dia seguinte”, ou ainda como “anticoncepção pós-coital”, utiliza compostos hormonais concentrados e atua por curto período de tempo nos dias seguintes da relação sexual. Entre as principais indicações de AE, está a relação sexual sem uso de método anticonceptivo, por razão de violência sexual, falha conhecida ou presumida do método em uso de rotina ou uso inadequado do anticonceptivo. A anticoncepção de emergência surgiu logo após o lançamento dos contraceptivos hormonais, ainda na década de 60, com elevadas doses de dietilbistrol aplicadas a mulheres abusadas sexualmente, obtendo resultados favoráveis, porém foram descontinuadas por conta dos fortes efeitos adversos. Em 1974, Yuzpe usa pela primeira vez a combinação de levonorgestrel com etinil-estradiol para contracepção pós-coital. Os dois regimes mais utilizados na CE são: Método de Yuzpe: Consiste na combinação de 100 µg de etinilestradiol e 500 µg de levonorgestrel tomados em duas vezes, sendo que a segunda tomada é feita 12 horas após a primeira. O uso desse esquema deve ocorrer antes de decorridas 72 horas do coito desprotegido, sendo recomendado pela Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO OMS que seja feito o mais cedo possível após essa relação. A taxa média de gestação com este método é de 1,8%, porém, se o tratamento for iniciado nas primeiras doze horas após o coito, a taxa é reduzida para 1,2% Os principais paraefeitos desse regime são a náusea e o vômito, que ocorrem em até 20% das vezes. Por isso, é recomendável o uso de um antiemético 30 minutos antes de cada tomada dos hormônios. Não há contraindicação para o uso do regime de Yuzpe, exceto gravidez conhecida. Contraceptivo com levonorgestrel isolado: Usa-se o levonorgestrel na dose de 1,5 mg em dose única ou fracionada em duas tomadas, com intervalo de 12 horas. Uma dose única de levonorgestrel é tão eficaz quanto à dose fracionada e mostra-se mais conveniente à paciente, sem aumentar os efeitos adversos. A eficácia desse método é tão ou mais alta que aquela fornecida elo método de Yuzpe, contando com a vantagem de não produzir náuseas e vômitos com a mesma intensidade. Não há contraindicações além de gravidez reconhecida. MÉTODO DE AÇÃO DA CONTRACEPÇÃO DE EMERGÊNCIA: Descrever os mecanismos de ação que levam aos efeitos anticoncepcionais da contracepção de emergência é de fundamental importância para desconstruir o mito de feito abortivo veiculado por vertentes religiosas. O mecanismo de ação varia conforme a fase do ciclo menstrual na qual a CE é administrada, a saber: Na primeira fase do ciclo, antes da elevação na produção de LH (pré- ovulação): a CE altera o desenvolvimento folicular, impedindo ou retardando o momento da ovulação por muitos dias, evitando assim o contato entre gametas; Na segunda fase do ciclo (pós-ovulação): a CE atua na alteração do transporte dos espermatozoides e do ovócito pelas tubas uterinas, modificando as características do muco cervical para torna-lo hostil à passagem de gametas masculinos e/ou interferindo na capacitação espermática (momento no qual os espermatozoides iniciam sua movimentação). Por não ter impacto sobre uma gravidez reconhecida (não há evidência que esse método funcione após a fecundação), a CE não pode ser configurada como um método que resulte em aborto. Apesar de ser um método altamente eficaz, o uso inconsequente e prolongado da anticoncepção de emergência pode acarretar em grandes prejuízos à saúde da mulher, com ênfase para o câncer de mama e colo uterino, bem como diminuição da eficácia terapêutica, com possível gravidez indesejada e infertilidade. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO O aconselhamento em contracepção de emergência deve seguir a complexidade de fatores que atravessam a gravidez indesejada, desde o entendimento prévio sobre padrões culturais que atribuem valores naturalizados às relações entre os gêneros, situações de violências e agressões contra as mulheres, até orientações informativas e de aconselhamento para práticas sexuais seguras. ABUSO SEXUAL – EPIDEMIOLOGIA E PROTOCOLOS DE ATENDIMENTO: A violência sexual contra crianças e adolescentes é considerada um problema de saúde pública e violação dos direitos humanos, resultando em graves impactos tanto no âmbito individual quanto no social. O abuso contra essa população ocorre muitas vezes em meio ao espaço doméstico, escolar e familiar, não garantindo visibilidade pelas esferas do poder público e dificultando o acesso aos serviços de saúde. Para dar visibilidade à violência, revelando sua magnitude, tipologia, gravidade, perfil das pessoas envolvidas, localização de ocorrência e outras características dos eventos, o Ministério da Saúde desenvolveu o Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (Viva). A partir de 2011 a notificação de violências passou a ser compulsória para todos os serviços de saúde públicos e privados, e em 2014 os casos de violência sexual passaram a ser de notificação imediata, comunicados à Secretaria Municipal de Saúde em até 24 horas após o atendimento da vítima. Outra ação mandatória é a comunicação de qualquer tipo de violência contra crianças e adolescentes ao Conselho Tutelar, conforme preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente. Incluem-se como violência sexual os casos de assédio, estupro, pornografia infantil e exploração sexual, que podem se manifestar como abuso incestuoso, sexo forçado no casamento, jogos sexuais e práticas eróticas não consentidas, pedofilia, voyeurismo, manuseio, penetração oral, anal ou vaginal, com pênis ou objetos, de forma forçada. Inclui, também, exposição coercitiva/constrangedora a atos libidinosos, exibicionismo, masturbação, linguagem erótica, interações sexuais de qualquer tipo e material pornográfico. Ademais, se consideram os atos que, mediante coerção, chantagem, suborno ou aliciamento, impeçam o uso de qualquer método contraceptivo ou force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto, à prostituição, ou que limitem ou anulem em qualquer pessoa a autonomia e o exercício de seus direitos sexuais e direitos reprodutivos. Entre 2011 e 2017 foram notificados 219.717 casos de violência interpessoal ou autoprovocada em crianças e 372.014 casos contra jovens, concentrando 40,5% dos casos notificados entre todos os gruposetários. Nesse período, foram notificados 184.524 casos de violência sexual, sendo 58.037 (31,5%) contra crianças e 83.068 (45,0%) contra adolescentes, concentrando 76,5% dos casos notificados nesses dois cursos de vida. Ao comparar os anos de 2011 e 2017 é possível observar um aumento geral de 83% nas notificações de violências sexuais, com crescimento de 64,6% e 83,2% dentre as duas faixas etárias aqui reportadas. Isso pode estar atrelado ao desenvolvimento do Viva e da notificação compulsória pelos serviços de saúde. PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS: A análise sociodemográfica de crianças vítimas de violência sexual revelou que 43.034 (74,2%) eram do sexo feminino e Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO 14.996 (25,8%) eram do sexo masculino. Do total, 51,2% estavam na faixa etária entre 1 e 5 anos, 45,5% eram da raça/cor da pele negra, e 3,3% possuíam alguma deficiência ou transtorno. As notificações se concentraram nas regiões Sudeste (40,4%), Sul (21,7%) e Norte (15,7%). O padrão demográfico se assemelha entre meninos e meninas, tendo como vítimas principalmente indivíduos com 1 a 5 e 6 a 9 anos, sua maioria com pele negra. Os casos eram vinculados principalmente às regiões Sudeste, Sul e Norte. A avaliação das características da violência sexual contra crianças mostrou que 33,7% dos eventos tiveram caráter de repetição, 69,2% ocorreram na residência e 4,6% ocorreram na escola, e 62% foram notificados como estupro, dados que se repetem ao separar por sexo. A avaliação das características do provável autor da violência sexual contra crianças mostrou que em 74,7% das notificações houve envolvimento de um autor. Em 81,6%, o agressor era do sexo masculino e 37,0% tinham vínculo familiar com a vítima. PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA ADOLESCENTES: A observação dos padrões demográficos de adolescentes vítimas de violência sexual mostrou que 76.716 (92,4%) eram do sexo feminino e 6.344 (7,6%) eram do sexo masculino. Do total, 67,8% estavam na faixa etária entre 10 e 14 anos, 55,5% eram da raça/cor negra, 7,1% possuíam alguma deficiência ou transtorno e as notificações se concentraram nas regiões Sudeste (32,1%), Norte (21,9%) e Sul (18,8%). A projeção das características femininas reflete o que é mostrado pelas estatísticas gerais, porém o abuso sexual em jovens do sexo masculino possui padrões distintos: 75,9% estavam na faixa etária entre 10 e 14 anos, 49,9% eram da raça/cor da pele negra, 17% possuíam alguma deficiência ou transtorno e as notificações se concentraram nas regiões Sudeste (41,0%), Sul (23,5%) e Nordeste (14,0%). A avaliação das características da violência sexual contra adolescentes mostrou que 39,8% dos eventos tiveram caráter de repetição, 58,2% ocorreram na residência e 13,9% em via pública, e 70,4% foram notificados como estupro. Ao analisar as características dos possíveis autores da violência sexual em adolescentes, é possível observar que em 78,9% das notificações houve envolvimento de um autor, 92,4% dos agressores eram do sexo masculino e 38,4% possuíam vinculo intrafamiliar (familiares ou parceiros íntimos) com a vítima. Dentre as diretrizes normativas que direcionam o atendimento de casos de abuso sexual com menores de idade destacam-se a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC), criada em 20115, prevê dentre seus eixos de ação estratégica a “atenção integral à criança em situação de violências, prevenção de acidentes e promoção da cultura de paz” e as Diretrizes Nacionais para a Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e Jovens na Promoção, Proteção e Recuperação da Saúde , que também possui como eixo estruturante “Vitimização juvenil e a integração de políticas interfederativas, governamentais e com a sociedade – Violência doméstica e a violência sexual, mortalidade por causas externas e a promoção da cultura de paz”. As notificações no Sinan mostraram um elevado percentual de caráter crônico de violência sexual, ainda mais grave entre os adolescentes. Entretanto, o elevado nível de Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO dados ignorados para essa variável entre as crianças (35,5%) pode ser um reflexo da dificuldade de comunicação oral inerente a essa fase do desenvolvimento. Além disso, os acompanhantes no atendimento em saúde muitas vezes são os prováveis autores da violência, ou possuem vínculo de proximidade com a vítima, fato que dificulta a identificação do histórico crônico do evento. Os indivíduos do sexo masculino foram apontados como os principais autores das violências sexuais contra crianças e adolescentes. Diante disso, faz-se necessário problematizar essa situação, considerando que esse maior envolvimento como promotores das violências sexuais contra estes grupos pode ser reflexo da afirmação de uma identidade masculina hegemônica, marcada pelo uso da força, provas de virilidade e exercício de poder sobre outros corpos, sendo relevante a promoção de novas formas de masculinidade que permitam a manifestação indenitária de forma saudável. Os perfis demográficos das violências sexuais contra crianças e adolescentes apontam para a dificuldade em dar visibilidade ao problema, seja pelo seu caráter íntimo e relacional, pela menor autonomia dos indivíduos em realizar a comunicação das ocorrências ou pelo estigma social e sentimento de vergonha. Nesse sentido, é necessário que o profissional de saúde saiba reconhecer as violências ocultas e mascaradas de forma humanizada, promovendo o cuidado e encaminhamento adequado dentro dos limites das Redes de Atenção à Saúde. EPIDEMIOLOGIA DA VIOLÊNCIA SEXUAL EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES NA BAHIA: No período de 2009 a 2013 houve um total de 2.657 casos de violência sexual notificados, com maior incidência em Vitória da Conquista (22,3%), Salvador (19,9%) e Feira de Santana (15,1%). A população do sexo feminino foi a que mais sofreu com esses abusos (87,5% dos casos), principalmente as adolescentes na faixa de 10 a 14 anos. No sexo masculino, a maior frequência se deu entre 5 a 9 anos. Encontra-se, no registro de dados que, no quesito raça/cor, a parda foi a mais declarada para ambos os sexos. Quanto à escolaridade, predominou o ensino fundamental incompleto (5ª a 8ª série em ambos os sexos). O local de ocorrência mais apontado foi a residência (56,1%), seguido por vias públicas (12,6%). Os agentes causadores da agressão no sexo feminino foram pessoas desconhecidas (24,2%), e amigas/conhecidas (22,4%). Para o sexo masculino pessoas conhecidas (35,6%) foram os principais perpetradores. O número de agressores foi relatado como um, para a maioria das vítimas (83,1%). De acordo com o tipo de violência sexual, o estupro (65,9%), seguido por assédio (21,1%) e exploração sexual (5,3%) foram os mais informados. A violência por repetição foi identificada em 37,6% dos casos atendidos. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Quanto aos procedimentos realizados, a profilaxia contra doenças sexualmente transmissíveis (DST) foi utilizada em 22,0% das vítimas, seguido de profilaxia HIV (19,5%) e Hepatite B (14,4%). Utilizouse a contracepção de emergência em 11,4% dos atendimentos. Como consequências da violência foram relatados os seguintes dados em números absolutos: 16 abortos, 7 dos quais foram previstos em Lei. Além disso, 105 pessoas engravidaram e 137 foram detectadas com doenças sexualmente transmissíveis. Observou-se 28 casos de tentativas de suicídio e 1038 pessoas que disseram sofrer algum tipo de transtorno comportamental e/ou mental. A maioria dos encaminhamentos foram realizados para o Conselho Tutelar (33,8%)e para o CREAS (33,2%). Como consequências extremas da violência sexual foram registrados 12 óbitos relacionados a esse tipo de abuso. PROTOCOLO DE ATENDIMENTO ÀS VÍTIMAS DE ABUSO SEXUAL: Para que a atenção às pessoas em situação de violência sexual seja realizada de forma integral é necessário que ela contemple as seguintes dimensões: Acolhimento: O acolhimento da pessoa em situação de violência deve permear todos os locais e momentos do processo de produção do cuidado, diferenciando-se da tradicional triagem. O acolhimento representa a primeira etapa do atendimento e nele são fundamentais: ética, privacidade, confidencialidade e sigilo. A pessoa deverá ser acolhida em ambiente reservado assim que sinaliza o fato que a levou a procurar atendimento. Neste momento pode-se observar se existe a presença de alguma pessoa que possa coibir o relato (seja familiar ou profissional do serviço) e verificar a possibilidade de entrevista na presença de outro técnico ou sem o familiar, uma vez que o abuso pode ser provocado por um dos pais ou estes são coniventes com o ato. O acolhimento poderá ser feito pelo enfermeiro, assistente social ou psicólogo (ou outro técnico capacitado e com habilidades para atendimento à pessoa vítima de abuso sexual). Para fins de prioridade e encaminhamento, o profissional deverá confirmar o tempo decorrido entre a violência sexual e a procura pelo atendimento. Dados como uso de preservativo pelo agressor, tipo de agressão (com contato de fluidos ou não), meio empregado (para verificação de uso de substância química que impossibilitasse a pessoa de resistir) e, caso mulher em idade fértil, se usa algum método contraceptivo, deverão ser questionados garantindo agilidade para profilaxias. Estas informações preliminares deverão ser registradas em prontuário para que a pessoa não necessite repetir várias vezes o fato ocorrido. Cabe aos profissionais informar sobre os procedimentos e medidas que serão realizadas. Em posse do breve histórico e dos dados pessoais da pessoa em situação de violência, aciona-se a delegacia de referência para solicitação de exames periciais (Lesões Corporais, Ato Libidinoso, Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Conjunção Carnal e/ou Toxicológico) e a nomeação como perito ad hoc do médico que irá atender a pessoa. Atendimento clínico: Levando em conta o momento de ansiedade e temor o histórico de saúde, o levantamento de dados do abuso deverá ser o mais breve e pontual possível. Não cabe aos profissionais emitir opiniões próprias ou levantar “curiosidades pessoais” sem interesse clínico. Os registros que devem estar incluídos no prontuário são definidos pela Norma Técnica do Ministério da Saúde, publicada em 2012 e pelo Decreto Presidencial nº 7958, de 13 de março de 2013, a saber: o Local, dia e hora aproximados da violência sexual e do atendimento médico no Hospital de Referência; o História clínica detalhada, com dados sobre a violência sofrida; o Tipo(s) de violência sexual sofrida(s); o Forma(s) de constrangimento empregada(s); o Tipificação e número de agressores; o Exame físico completo, inclusive os exames ginecológico e urológico (devendo registrar a presença ou ausência de sinais e sintomas de ISTs); o Descrição minuciosa das lesões, com indicação da temporalidade e localização específica; o Descrição minuciosa de vestígios e de outros achados no exame; o Identificação dos profissionais que atenderam a vítima, com letra legível e assinatura; o Preenchimento da Ficha de Notificação Compulsória de violência doméstica, sexual e outras violências. Notificação dos casos: Casos de violência e abuso sexual devem ser notificados de forma compulsória em até 24 horas para a Secretaria Municipal de Saúde, segundo a Portaria GM/MS nº 1.271, de 6 de junho de 2014. Recursos Humanos: A equipe responsável pelos Serviços de Referência para Atenção Integral às Pessoas em Situação de Violência Sexual é composta por médico clínico ou médico em especialidades cirúrgicas, enfermeiro, técnico em enfermagem, psicólogo, assistente social e farmacêutico, segundo o que foi regulamentado pela Portaria GM/MS nº 485 de 1º de abril de 2014. Materiais e equipamentos: São os mesmos empregados no atendimento ambulatorial em ginecologia e obstetrícia (mesa clínica/ginecológica, biombo, foco de luz, lençol, tubos para coleta de sangue e lâminas, espéculo e pinças), podendo ser incluídos colposcópio e aparelho de ultrassonografia. Compõem os materiais para coleta de vestígios e exame de lesões corporais: régua, requisições específicas, rascunhos de laudos, termo de exibição e cessão, swabs, tubos de sangue com e sem anticoagulante, frasco de urina, envelope de papel para armazenamento de vestimentas e/ou objetos (papel higiênico, calcinha, cueca, absorvente íntimo, etc), livro de protocolo e câmera fotográfica (a critério do profissional médico) para registros de lesões e/ou posterior discussão de caso. A solicitação e coleta de exames de sangue e conteúdo vaginal deve ser realizada de forma rápida, visando a detecção de alguma IST, porém esses processos não devem retardar a administração de métodos profiláticos. Seu processamento se dá no LACEN. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Os exames laboratoriais de interesse médico legal são realizados pelo médico perito ad hoc e subsidiam a investigação e identificação do agressor, assim como a elaboração de laudos periciais. São eles: Sangue da pessoa agredida (para possível posterior confronto de DNA, para dosagem alcoólica/toxicológica e ß HCG para mulheres em idade fértil); Urina para análise toxicológica; Swabs para pesquisa de sangue, espermatozoides e PSA (antígeno prostático específico), nas seguintes regiões: vagina, boca, vulva, ânus e pênis, com esfregaços excepcionais realizados conforme as particularidades do caso; Análise de outros materiais que tiveram contato com a vítima. Esses exames somente poderão ser analisados e laudados pela Divisão de Laboratórios do IML. A anticoncepção de emergência está indicada para todas as mulheres ou adolescentes que tenham sofrido violência sexual, através de contato certo ou duvidoso com sêmen, independente do período do ciclo menstrual em que se encontrem, sendo desnecessária somente quando a vítima relata uso prévio de métodos contraceptivos de alta eficácia, porém deve-se levar em conta o estado alterado de orientação e concentração em função do trauma causado pela situação de abuso. Nos casos de prática de ato libidinoso em que não haja possibilidade de contato de sêmen com a região genital da mulher, a AE poderá ser desnecessária. Porém, em relatos confusos de agressão, rebaixamento de nível de consciência, cognição prejudicada, história de intoxicação exógena no momento da agressão ou dúvidas com relação ao tipo de prática sexual aplicada, deve-se considerar o uso da contracepção de emergência. A pessoa vítima de abuso sexual deve ser orientada quanto ao uso de preservativos nas relações sexuais subsequentes à violência até que sejam descartadas possíveis contaminações. No momento do atendimento emergencial a pessoa pode não dispor de interesse em ouvir sobre atividade sexual futura, desta forma, poderá receber apoio e informação nos atendimentos posteriores nas Unidades de Atenção Primária à Saúde ou no Hospital de Referência. Durante a violência sexual a pessoa experimenta a sensação de ameaça à vida. Logo após, pode sentir-se culpada por não ter reagido, envergonhada e angustiada em relação às consequências do ato sexual. Grande parte das pessoas dispõe de acesso à informação sobre HIV e outras ISTs, gerando um estadode ansiedade e temor por poder ter risco de contrair alguma dessas moléstias, sendo a infecção pelo HIV cercada de grande estigma. Considerando a ampla gama de infecções sexualmente transmissíveis, a profilaxia pós-violência sexual contemplará os agravos mais prevalentes, de repercussão clínica de relevância e está indicada em situações de exposição com risco de transmissão, mesmo não sendo observadas lesões. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Nos casos de abuso crônico ou quando houver uso de preservativo durante todo o crime sexual, a profilaxia de ISTs não virais não está recomendada, porém, a avaliação deverá ser individualizada. Na maioria dos casos de abuso crônico em crianças, estas são submetidas a práticas diferentes da penetração vaginal, anal ou oral, não as expondo ao contato contaminante com o agressor. A imunoprofilaxia contra hepatite B deve ser realizada em situações nas quais a vítima entrou em contato com sêmen ou outros fluidos corporais do agressor e quando há dúvida ou desconhecimento acerca do estado vacinal do agressor, podendo ser aplicada em até 14 dias após o abuso, mas é recomendada sua aplicação em até 48 horas para maior eficácia. A profilaxia antirretroviral do HIV é considerada abordagem protocolar de emergência nos casos de violência sexual com contato de fluidos do agressor e deve ser iniciada idealmente nas primeiras 2 horas, ou, no máximo em 72 horas (e o esquema terapêutico deve ser mantido por quatro semanas consecutivas. Em casos de abuso crônico não há indicação de medida profiláticas, uma vez que há chances de a contaminação já ter ocorrido. A pessoa agredida sexualmente, após ser atendida em situação emergencial no hospital, deverá ser encaminhada para continuidade do cuidado em uma unidade de atenção primária à saúde, ou outro serviço da rede de atenção à saúde conforme a necessidade apresentada. Neste contexto é importante o atendimento individual e familiar. CONDUTA EM CONSULTAS GINECOLÓGICAS NA ADOLESCÊNCIA: A presença cada vez mais frequente de adolescentes nos consultórios ginecológicos traz consigo o desafio do estabelecimento e manutenção da relação médico-paciente, uma vez que esse último se encontra num grande momento de transição no seu desenvolvimento biopsicossocial. Diferente da paciente adulta, a adolescente apresenta diferenças no seu modo de agir e pensar, de acordo com a fase da adolescência que ela está vivendo. O estabelecimento de uma boa relação entre Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO profissional e paciente, garantindo a privacidade e respeitando a confidencialidade, é aspecto fundamental para que a consulta transcorra de forma bem-sucedida e para que a adolescente estabeleça um vínculo com o ginecologista, cujo objetivo é promover a saúde sexual e reprodutiva desse indivíduo. Entre os motivos de consulta mais frequentes observam-se a avaliação de rotina do desenvolvimento da puberdade, problemas relacionados aos ciclos menstruais, cólicas, corrimento e desejo de contracepção. A relação entre confidencialidade e adolescentes ainda não apresenta uma conduta estabelecida, dada a escassez de pesquisas com enfoque nesse tema e a ambiguidade nos resultados, pois certos trabalhos apontam que os pais associam a confidencialidade a comportamentos de risco e queda na qualidade dos relacionamentos, enquanto outros consideram-na favorável, desejando ser informados apenas sobre tópicos específicos como saúde mental, atividade sexual e gravidez, mesmo que os filhos requisitassem sigilo. Independentemente da situação, o ginecologista deve ter empatia para perceber como a adolescente está se sentindo naquele momento e tentar vencer a resistência da paciente que insiste em ficar em silêncio apontando para a mãe sempre que fazemos alguma pergunta como sinal de protesto. O maior medo das adolescentes é com relação ao exame ginecológico, assim, é muito importante assegurar que nada será feito sem a sua permissão. Essas atitudes tranquilizam a paciente no primeiro contato. A anamnese ginecológica da adolescente não difere da de uma adulta, entretanto alguns aspectos não podem ser esquecidos, como a situação vacinal da paciente (resgate de vacinas desatualizadas), alergias medicamentosas (anti-inflamatórios como primeira opção no tratamento de dismenorreias), uso de anticonvulsivantes (interferências com contraceptivos orais), tabaco, drogas e álcool (presença de comportamentos de risco), porém esses últimos tópicos podem ser deixados para quando a paciente estiver sozinha. A história menstrual deve ser detalhada, e para tal as adolescentes devem ser orientadas a marcarem seus períodos menstruais, podendo ser oferecido um calendário menstrual ou podem ser sugeridos aplicativos de controle do ciclo, disponíveis para smartphones. Muitas dúvidas surgem com relação aos ciclos irregulares no período da pós-menarca, e a orientação sobre imaturidade do eixo, comum nesta fase, tranquiliza a paciente e a sua mãe, muitas vezes preocupadas com o futuro reprodutivo. Uma das maiores dificuldades na anamnese é abordar assuntos ligados à sexualidade, uma vez que estamos frente a pacientes menores de idade, o que gera preocupação aos profissionais sobre aspectos ligados ao sigilo e privacidade. Perguntas sobre vida sexual na presença da mãe são consideradas não apropriadas, mesmo que seu relacionamento seja aparentemente positivo. Essa abordagem só é recomendada se a adolescente diga espontaneamente que deseja falar sobre contracepção pois possui ou quer iniciar sua vida sexual, evitando assim promover situações de conflito entre mãe e filha. Pedir à adolescente acompanhada para que ela fique sozinha pode ser um momento de tensão, porém indaga-la com “Você faz questão da presença de sua mãe no momento do exame?” pode dar a chance à Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO jovem para que ela se sinta segura em continuar o atendimento por conta própria, dispensando o apoio de forma harmoniosa. Uma vez a sós com a adolescente, os aspectos de sigilo devem ser abordados, garantindo a confidencialidade. Essa informação é muito importante, já que as adolescentes se sentem inseguras, principalmente quando o ginecologista foi escolhido pela sua mãe. Ao ser tranquilizada que o sigilo será preservado, será possível orientar a respeito de contracepção e cuidados para se prevenir de infecções sexualmente transmitidas, além de evitar o uso indiscriminado da contracepção de emergência. A confidencialidade, a privacidade e a autonomia são direitos da adolescente que recebe atendimento médico. O sigilo será mantido desde que ela tenha capacidade de avaliar seu problema, de conduzir-se por seus próprios meios para solucioná-lo e quando a não revelação não ocasione danos a ela ou a terceiros. O exame físico da adolescente deve contar com a anotação de todos os dados biométricos, dada a continuidade do desenvolvimento físico. O exame ginecológico na adolescente que já menstrua e não apresenta nenhuma queixa no dia da consulta pode ser adiado para uma segunda visita, caso ela se mostre relutante em ser examinada na primeira consulta, mostrando para a adolescente o respeito à sua autonomia. Nas pacientes sexualmente ativas, o exame ginecológico não difere do da paciente adulta, e a importância da sua realização deve ser enfatizada para a adolescente, para pesquisa de infecções de transmissão sexual. Naquela adolescente que mantém sua vida sexual em sigilo, poderá ocorrer dificuldade com relação aos exames complementares, seja por impossibilidade de arcar com o custo, seja por questões de convênios médicos, por ela ser dependente dospais. É importante discutir previamente com a adolescente sobre quem vai levar o material ao laboratório, se a adolescente vai acompanhada ou não para a coleta de material ou mesmo para os exames de imagem, quem vai buscar os resultados previamente, evitando deste modo quebra inadvertida de sigilo. Todos os dados coletados na anamnese e exame físico devem ser cuidadosamente registrados, inclusive o dado se a vida sexual é mantida em segredo para evitar quebra inadvertida de sigilo numa conversa com a mãe. Nas consultas subsequentes, nas adolescentes que eram virgens na primeira consulta, é importante sempre perguntar se ela já iniciou atividade sexual, e, para aquelas que já eram sexualmente ativas, se ainda mantém sua vida sexual em segredo. PROBLEMA 2 - ABERTURA: ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS E A CONFIRMAÇÃO DA GRAVIDEZ: As alterações fisiológicas evidentes na gestação são causadas, principalmente por fatores hormonais e mecânicos, culminando em ajustes no corpo da gestante que devem ser considerados normais, mesmo que impliquem em alguns sintomas que podem afetar o quadro de saúde do indivíduo. MUDANÇAS SISTÊMICAS: ALTERAÇÕES POSTURAIS E DEAMBULAÇÃO: É possível verificar mudanças na postura da gestante antes mesmo do aumento de seu volume uterino. Quando a matriz da pelve se apoia à parede abdominal, e as mamas, engrandecidas, pesam no tórax, o centro de gravidade desvia-se para frente, e todo o corpo, em compensação, projeta-se para trás. A atitude adotada de forma involuntária Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO é a mesma aplicada ao carregar objetos pesados à frente do abdome. Essas alterações são mais visíveis quando a gestante se coloca em pé, pois para conservar o equilíbrio acaba empinando o ventre, resultando em lordose da coluna lombar, além de afastar os pés e projetar as escápulas para trás. Grupos de músculos até então sem função ou pouco utilizados passam a atuar, e sua fadiga causa as dores cervicais e lombares, comumente referidas pelas gestantes. Ao andar, a gestante apresenta passos mais curtos e oscilantes, que lembram a deambulação de um ganso (marcha anserina). A base de sustentação ampliada e os ângulos aumentados entre os pés e a linha mediana, principalmente do lado direito, por conta do dextrodesvio uterino, conferem peculiaridades à sua movimentação. As articulações apresentam maior mobilidade durante a gestação, notadamente as sacroilíacas e a sínfise pubiana. Atribui-se à relaxina, secretada pela placenta, a frouxidão dos ligamentos, especialmente da sínfise púbica, que pode alargar cerca de 4 mm nas primíparas e 4,5 mm nas multíparas. O principal resultado dessas modificações é o aumento da capacidade pélvica, favorecendo a disjunção sinfisária e os movimentos de nutação do sacro. METABOLISMO: As alterações metabólicas no organismo materno são necessárias de modo a suprir as exigências criadas pelo crescimento acelerado do concepto, ocorrendo grandes mudanças no metabolismo de energia e acúmulo de gordura. Metabolismo glicídico: Durante a gestação, a mãe se submete a uma demanda permanente de glicose devido ao consumo do concepto, constante tanto em períodos de jejum quanto ao se alimentar (relação de parasitismo verdadeiro). De forma a prover o suprimento ininterrupto de glicose e de aminoácidos para o feto, a gestante faz ajustes importantes, não consumindo mais indiscriminadamente a glicose diminuindo seu uso periférico ao longo da gravidez graças aos hormônios contrainsulares pela placenta. Essas substâncias são transferidas via difusão facilitada para o feto, ainda que seu gradiente de concentração seja pequeno (20mg/dL, menor que o da mãe). Esses fatores afetam profundamente o metabolismo dos carboidratos na gestante, que apresenta, após uma noite de jejum, níveis de glicose cerca de 15 a 20mg/dL menores que os observados fora da gravidez. No final do 2º trimestre é registrado amento na resistência à insulina, podendo chegar a 80% no termo da gestação. Níveis elevados de hormônio lactogênio placentário humano (hPL), hormônio do crescimento placentário humano (hPGH) e adipocinas (leptina, adiponectina, TNF-α, IL-6) estão envolvidos nesse processo. Os níveis de hPL elevam-se rapidamente no 1º e 2º trimestres e alcançam o seu máximo nas últimas 4 semanas da gravidez. O efeito diabetogênico do hPL resulta na mobilização de lipídios na forma de ácidos graxos livres (AGL), que serviriam como fonte de energia, poupando glicose e aminoácidos, que estarão disponíveis para o feto. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO No 3º trimestre, após a administração de glicose, observa-se hiperinsulinismo pós- prandial, evidenciando a redução do efeito inibitório desse hormônio sobre a lipólise. Metabolismo lipídico: Ainda que a maior demanda nutricional pelo feto se baseie em glicose e aminoácidos, lipídios também são empregados no seu processo de desenvolvimento, capazes de permear a placenta somente sob a forma de AGL ou corpos cetônicos. Essa particularidade faz com que o organismo da gestante tenha de alterar suas relações metabólicas de modo a permitir o crescimento do concepto, evidenciadas sob a forma de acúmulo de lipídios nos tecidos e hiperlipidemia gestacional. o Metabolismo do tecido adiposo materno: O aumento de peso materno durante a gestação corresponde ao crescimento do conjunto fetoplacentário e ao aumento de seus próprios tecidos, especialmente os relacionados à elevação de lipídios nos depósitos de gordura. Esse fenômeno ocorre nos primeiros 2/3 da gravidez, representando o principal motivo pelo ganho de peso além dos fatores relacionados ao concepto, tendo ligações com a hiperfagia, uma vez que desaparece em mulheres após restrição alimentar. Esse aumento nos depósitos de gordura maternos é decorrente da lipogênese aumentada, correspondendo à elevação na síntese de ácidos graxos e do glicerídio glicerol, indicando que a formação dos triglicerídeos está exaltada. Essa tendência ao acúmulo de gordura cessa no final da gestação devido ao estado catabólico do metabolismo lipídico, motivado pela desaceleração da atividade lipogênica e ação lipolítica do hPL, análoga àquela desempenhada pelo hormônio do crescimento. O aumento da atividade lipolítica do tecido adiposo eleva a liberação de AGL e de glicerol na circulação materna, na qual alcançam grandes concentrações no plasma. A transferência placentária desses dois produtos lipolíticos é baixa, e o fígado materno é o principal receptor. Ao fim da gestação, a transferência aumentada de AGL e de glicerol ao fígado em decorrência da lipólise nos tecidos adiposos justifica a exaltada esterificação e a subsequente liberação hepática na forma de triglicerídios da lipoproteína de muito baixa densidade (VLDL). A síntese de corpos cetônicos torna-se altamente incrementada durante o final da gestação sob condições de jejum, e o uso desses produtos pelos tecidos maternos reduz o consumo de glicose, que fica disponível de ser transferida para o feto. Ao fim da gravidez, a gliconeogênese a partir do glicerol está aumentada, poupando aquela proveniente dos aminoácidos que são transportados para o feto. O concepto se beneficia dos produtos finais do metabolismo lipídico (corpos cetônicos e glicose), uma vez que esses corpos cetônicos podem passar livremente pela placenta, utilizados tanto como combustível fetal quanto para síntese lipídica no cérebro. A atividade lipolítica intensa do tecido adiposo durante o final da gestação também favorece os tecidos maternos, pois nesse estágio o uso periférico de glicose é bastante diminuído pela resistência à insulina, e os produtos lipolíticos, especialmenteAGL e corpos cetônicos, podem ser empregados como combustíveis alternativos, poupando a glicose. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO o Hiperlipidemia materna: Durante a gravidez normal há aumento constante nos triglicerídeos plasmáticos e pequeno acréscimo no colesterol. Essa hiperlipidemia corresponde ao enriquecimento proporcional de triglicerídeos nas frações lipoproteícas, mesmo naquelas que os transportam em baixas concentrações, tais como a lipoproteína de baixa densidade (LDL) e a lipoproteína de alta densidade (HDL). O maior acúmulo absoluto nos triglicerídeos no plasma corresponde ao VLDL. Essas lipoproteínas atuam no fígado, e os triglicerídeos que elas carregam são derivados do AGL e do glicerol, que também são sintetizados no próprio órgão ou o alcançam pela circulação, na qual são liberados pela lipólise do tecido adiposo. A produção acentuada do VLDL e sua remoção diminuída da circulação em decorrência da menor atividade da lipoproteína lipase (LPL) no tecido adiposo são os principais responsáveis pelo aumento dessas frações lipoproteicas durante a gestação. Esse aumento de VLDL plasmático causa acúmulo de triglicerídeos em outras lipoproteínas, influenciado pela atividade da proteína de transferência do éster de colesterol (CETP), que transfere os triglicerídeos para locais faltosos (HDL e LDL). Outro contribuinte é a diminuição da atividade da lipase hepática (HL) que controla a conversão do HDL ao fim da gestação. Mesmo que os triglicérides não cruzem efetivamente a barreira placentária, o concepto se beneficia dessa hipertrigliceridemia por meio da obtenção de corpos cetônicos decorrentes de seu metabolismo ou da permeabilidade dos AGL, que são logo reconvertidos ao alcançar o feto. A indução da LPL nas mamas por volta do parto dirige triglicerídeos circulantes para essa glândula, visando à produção de leite. Por esse mecanismo, ácidos graxos essenciais da dieta materna que circulam na forma de triglicerídeos podem se tornar disponíveis para o lactente. Ácidos graxos essenciais: Os ácidos graxos essenciais (AGE) referem- se a lipídios que não podem ser sintetizados pelo organismo e devem provir da alimentação. As duas famílias de ácidos graxos essenciais, ômega-3 (ácido linolênico) e ômega-6 (ácido linoleico), são requeridas para funções fisiológicas, incluindo transporte de oxigênio, armazenamento de energia, atuação na membrana celular e regulação da inflamação e da proliferação celular. Na gravidez, os AGE são necessários para o desenvolvimento da unidade fetoplacentária no início da gestação, e o ácido docosaexanoico (DHA), um tipo de ômega-3 derivado de peixe marinho, é vital para a homeostase materna, assim como o desenvolvimento do cérebro e da retina fetal durante todo o 3º trimestre. Além dos benefícios à saúde materna (proteção cardiovascular e menor índice de câncer de colo do útero), o ômega-3 e ômega-6 são precursores dos ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa (AGPICL): Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO ácido araquidônico, da série ômega-6, ácido eicosapentanoico (EPA) e DHA, da série ômega-3. O feto não é capaz de sintetizar os AGPICL por meio dos seus precursores ômega-3 e ômega-6, sendo suas necessidades supridas pela placenta e pelas reservas tissulares da mãe, principalmente do tecido adiposo. As principais fontes de ômega-3 são peixes gordurosos de água fria (salmão, atum), truta, sardinha, ostra, mariscos, óleos de linhaça e de canola, nozes e rúcula. A dieta moderna proporciona sete a dez vezes mais ômega-6 do que ômega-3, quando o correto seria a proporção de 5 para 1. Os ácidos graxos trans (AGT) também são prejudiciais à saúde, pois inibem a formação dos AGPICL. Metabolismo proteico: Graças ao consumo do concepto, a quantidade da maioria dos aminoácidos está reduzida na gravidez. As proteínas totais, embora aumentem em valores absolutos pela hemodiluição plasmática, têm concentração diminuída. As de albumina sofrem redução nítida, enquanto é menor a queda das gamaglobulinas e se registra ascensão dos teores de alfa- e betaglobulinas e de fibrinogênio. Metabolismo hidroeletrolítico: Uma das alterações sistêmicas mais perceptíveis na gravidez é a retenção de líquido (8 a 10 L) intra e extracelular, especialmente responsável pelo aumento do volume plasmático. Essa alteração hidroeletrolítica é decisiva para que ocorram outras modificações importantes, como o aumento do débito cardíaco e o do fluxo plasmático renal. O provável mecanismo para essa adaptação é a retenção de sódio, determinada principalmente pela maior secreção de aldosterona pela suprarrenal, a despeito do efeito natriurético da progesterona. Para se conservar o sódio, quando a taxa de filtração glomerular aumenta em torno de 50%, durante a gravidez ativa-se o mecanismo compensatório representado pelo sistema renina-angiotensina, estimulando a reabsorção de sódio nos túbulos renais, retomando a homeostase materna. Admitindo-se um ganho de 11kg durante a gravidez, dos quais 70% são referentes à água, para se manter a isotonicidade, tornam-se necessários 25 g de sódio ou 60 g de cloreto de sódio, evidenciando a necessidade de conservação. A concentração plasmática desse mineral, no entanto, encontra-se levemente diminuída, o que é tolerado pela gestante, sem que se elevem os níveis de diurese. Por outro lado, o limiar de sede na gravidez está alterado de tal maneira que a gestante sente vontade de ingerir líquido com nível mais baixo de osmolaridade do que a não gestante. Do mesmo modo, há redução acentuada da pressão oncótica (pressão coloidosmótica), determinada principalmente pela queda de cerca de 20% na concentração de albumina plasmática. Essa alteração sugere que a pressão oncótica é o fator mais relevante para o equilíbrio do grau de passagem de líquido pelos capilares. Assim, a diminuição da pressão oncótica do plasma é responsável pelo aumento da taxa de filtração glomerular renal (TFG) observada na gravidez, além de contribuir para o desenvolvimento do edema periférico, comum na gravidez normal. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Metabolismo de cálcio: Na gravidez, uma grande quantidade de cálcio e fósforo é transferida contra o gradiente de concentração da mãe para o feto (transporte ativo), com acúmulo de 25 a 30 g de cálcio no termo. Para tanto, a absorção de cálcio no intestino dobra na gravidez, consequência também do nível duplamente elevado de vitamina D3 (forma ativada desse composto) de origem placentária e materna renal. A vitamina D3 elevada abre os canais de cálcio voltagem-dependentes na membrana dos enterócitos e, dessa maneira, é responsável pela maior absorção do elemento. O paratormônio (PTH), que auxilia a regulação de cálcio no organismo, tem sua concentração plasmática reduzida na gestação, situação compensada pelo acréscimo do PTHrP, peptídeo de ação relacionada ao hormônio, produzido tanto pela placenta quanto pela paratireoide fetal, que auxilia a elevar as taxas de vitamina D3. Para evitar que o cálcio no plasma materno se eleve em demasia, a calcitonina, produzida pela tireoide, age como antagonista fisiológico do PTH. O transporte de cálcio pelo trofoblasto também depende do aumento da concentração da proteína de ligação ao cálcio, que atinge máxima concentração no 3º trimestre, quando é marcante o crescimento fetal. Durante a lactação, a perda diária de cálcio pelo leite é de 220 a 340 mg. Os níveis de PTHrP de origem mamária estão significativamente elevados na lactante e são responsáveis pela desmineralização do seu esqueleto, por estímulo à reabsorção tubular renal decálcio e por supressão do PTH. SISTEMA CARDIOVASCULAR: As principais alterações hemodinâmicas registradas na gravidez incluem o aumento do débito cardíaco e do volume sanguíneo e a redução da resistência vascular periférica e da pressão sanguínea. Essas alterações são aparentes já no início da gravidez, mas alcançam o seu máximo no 3º trimestre (28 a 32 semanas). Elas contribuem para o ótimo crescimento e desenvolvimento do feto e protegem a mãe das perdas fisiológicas de sangue no parto. O início da gravidez é caracterizado por vasodilatação periférica, resultante do aumento de óxido nítrico, fator vasoativo, relaxante, elaborado pelo endotélio vascular. O acréscimo significativo da frequência cardíaca pode ser observado a partir da 5ª semana, e isso contribui para a elevação do débito cardíaco. A elevação do volume sistólico, no entanto, é observada apenas várias semanas depois, possivelmente pela expansão do volume plasmático. A elevação progressiva da frequência cardíaca materna continua até 28-32 semanas de gravidez, com aumento de 10 a 20% (10 a 15bpm) se comparado aos valores existentes antes da gestação. Ocorre também aumento gradual no volume sistólico durante a primeira metade da gravidez devido ao maior volume plasmático. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Em consequência disso, o débito cardíaco atinge 7 L/min durante o período de 28 a 32 semanas (inicialmente esse valor é de 5 L/min), estabilizando-se até o parto. Após a 20ª semana de gestação, o útero impede o retorno venoso ao coração quando a gestante se coloca em decúbito dorsal devido à compressão da veia cava inferior, causando a síndrome da hipotensão supina (em alguns casos pode levar a perda de consciência). Essa condição é revertida de forma quase imediata ao se adotar o decúbito lateral esquerdo. Mesmo com o aumento do volume sanguíneo e do débito cardíaco, a pressão arterial sistólica e diastólica encontram-se diminuídas de 5 a 10 mmHg no segundo trimestre, com média de 105/60 mmHg, porém esses valores se elevam no último terço da gestação, mantendo-se normais até o parto. A pressão venosa nos membros inferiores de uma gestante aumenta em cerca de três vezes em virtude da compressão uterina sobre as veias pélvicas, evidenciada principalmente ao manter-se de pé e parada, momento no qual há maior retenção de sangue nas pernas e coxas. Nesse período há tendência à hipotensão, lipotimia ortostática, edema dos membros inferiores, varicosidade e hemorroidas. Alterações hemodinâmicas também ocorrem durante o parto, quando cada contração uterina leva à autotransfusão de 300 a 500 mL de sangue de volta para o sistema circulatório. O débito cardíaco aumenta cerca de 35% durante as contrações e 10% nos intervalos. No período expulsivo, por ocasião dos “empurrões”, o débito cardíaco aumenta ainda mais, até cerca de 50%. A resposta simpática à dor e à ansiedade durante o parto causa maior elevação na frequência cardíaca e na pressão arterial. No pós-parto imediato, graças à contração do útero, mais uma vez ocorre uma autotransfusão de 300mL de volta ao sistema circulatório, aumentando o débito cardíaco em 60 a 80%, reestabelecendo os níveis não gravídicos entre 6 a 8 semanas após o nascimento. SISTEMA SANGUÍNEO: O aumento do volume plasmático durante a gravidez normal causa diluição da maioria dos fatores circulantes, havendo maior destaque para a hemodiluição das hemácias. Embora esteja elevada na gravidez, com pico de cerca de 15% em torno de 32 semanas, a produção de hemácias é mascarada pela elevação de 40% do volume plasmático, resultando no decréscimo de índices hematológicos como contagem de hemácias, hematócrito e concentração de hemoglobina. A concentração de hemoglobina reduz de 13 g/dL (valor médio antes da gravidez), para 11 g/dL no 1º trimestre e 10,5 g/dL, no 2º e 3º trimestres da gravidez. É a clássica anemia fisiológica da gravidez, confundida frequentemente com o estado de anemia ferropriva. De modo a suprir suas necessidades e as do feto, a gestante deve ingerir maior quantidade de ferro pela Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO alimentação (1 a 1,3g durante toda a gravidez, visando evitar a anemia decorrente do parto e garantir a eritropoese materna e fetal), cuja absorção intestinal é aumentada. A demanda por ácido fólico na gravidez também aumenta (de 50 para 400mg diários), sendo comprovado que a suplementação de 0,4mg/dia dessa substância 1 mês antes do início da gestação e em seu primeiro terço reduz expressivamente más-formações do tubo neural e previne a anemia megaloblástica. Diferentemente das hemácias, os leucócitos encontram-se em maiores concentrações na gestação, podendo atingir até 20 mil/mm3 no termo. A concentração de plaquetas exibe, por outro lado, pequeno decréscimo (250 para 210 mil/mm3). Observa-se, inclusive, quadro de trombocitopenia gestacional, no 3º trimestre, com níveis de 80 a 150 mil/mm3. Alterações no processo de coagulação sanguínea também são identificadas, manifestando-se como um estado de hipercoagulabilidade (explica o maior risco de trombose). Diversos fatores de coagulação se elevam no plasma, principalmente o fibrinogênio (atinge 400 a 600mg/dl no 3º trimestre), além de ocorrer redução da atividade fibrinolítica. Todas essas mudanças são responsáveis pela hemostasia fisiológica no momento da separação da placenta (ainda que a contração do miométrio atue como primeira linha de defesa, o depósito de fibrina na ferida se dá quase que imediatamente). SISTEMA URINÁRIO: O sistema urinário sofre tanto com alterações anatômicas quanto fisiológicas, a saber: Mudanças anatômicas: Os rins se deslocam para cima pelo aumento do volume uterino e aumentam de tamanho cerca de 1cm devido ao maior volume vascular renal e do espaço intersticial. Uma das mudanças mais significativas observadas nesse sistema durante a gravidez é a dilatação de sua porção superior (hidronefrose), ocorrendo a partir da 7ª semana e persistindo até 6 semanas pós- parto. Esse fenômeno é causado tanto por fatores mecânicos quanto hormonais, uma vez que a expansão uterina comprime os ureteres e a progesterona inibe sua musculatura lisa (ureteroectasia). Essa dilatação é mais evidente do lado direito devido à dextrorrotação do útero, sendo o ureter esquerdo protegido pelo sigmoide. Toda essa modificação estrutural do sistema urinário superior torna a gestante mais propensa ao desenvolvimento de infecções urinárias e pielonefrite, uma vez que a estase urinária é aumentada. No sistema urinário inferior, a bexiga é distorcida pela compressão direta do útero, sendo o primeiro órgão deslocado anteriormente, com expansão lateral. Além disso, os níveis elevados de estrogênios causam hiperemia e congestão da mucosa uretral e vesical. Também há redução da resposta contrátil do colo vesical a estímulos alfa-adrenérgicos e diminuição do suporte pélvico da parede vaginal anterior e da uretra, alterações que podem contribuir para a incidência elevada de incontinência urinária na gravidez. Mudanças fisiológicas: Com o aumento do débito cardíaco e a diminuição da resistência vascular sistêmica observados na gestação, há concomitante aumento do fluxo plasmático renal e da TFG, que podem estar aumentados, respectivamente, de 50 a 85% e 40 a 65%, quando comparados a valores fora da gravidez. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO A elevação da taxa de filtração glomerular resulta na diminuição da creatinina plasmática, situação que apresenta implicações importantes sobre a excreção renal de medicamentos e sobre a redução dos valores plasmáticos que determinam insuficiência renal (parâmetrosmais baixos). A concentração de ácido úrico, de 4 mg/dL em período não gravídico, cai para ≤ 3 mg/dL no 1º trimestre da gravidez, devido à ação uricosúrica dos estrogênios e do aumento da TFG, elevando-se depois, a partir do 3º trimestre, até atingir 4 a 5 mg/dL no termo da gestação. A hipercalciúria também é comum na gravidez pelo aumento da absorção do cálcio intestinal. Todavia, a taxa de formação de cálculos renais permanece inalterada, à medida que fatores inibidores na sua produção, tais como citrato, magnésio e glicoproteínas, também estão aumentados. A glicosúria é fisiológica na gravidez e se deve ao aumento da TFG, que excede o limite da reabsorção tubular da glicose. Desse modo, não é indicativa de diabetes na gestação, assim como não serve para o seu rastreamento. Igualmente, a proteinúria (microalbuminúria) é fisiológica na gravidez, sendo normais valores de proteína na urina de até 300 mg/dia. A despeito do enorme trabalho urinário na gravidez, o volume urinário não está maior. Até 80% da urina filtrada é absorvida nos túbulos proximais. A frequência urinária decorre da compressão do útero gravídico na bexiga. SISTEMA RESPIRATÓRIO: A expansão do volume sanguíneo e a vasodilatação da gravidez resultam em hiperemia e edema da mucosa do sistema respiratório superior. Essas alterações predispõem a gestante a congestão nasal, epistaxe e até mesmo alterações da voz. Também são marcantes na gestação as alterações na caixa torácica e no diafragma. Com o relaxamento dos ligamentos das costelas, o ângulo subcostal aumenta de 68 para 103º. Os diâmetros anteroposterior e transverso do tórax aumentam 2 cm cada um, resultando na expansão da circunferência torácica de 5 a 7 cm. Embora o diafragma eleve-se aproximadamente 4 cm pelo aumento do útero gravídico, sua função não se mostra comprometida, na verdade, sua excursão está incrementada de 1 a 2 cm. A complacência da parede torácica, todavia, diminui com o evoluir da gestação, aumentando o trabalho da respiração. Nota- se que essas alterações se iniciam antes da ocorrência de pressão mecânica pelo útero em crescimento. O volume-minuto (produto do volume corrente pela frequência respiratória) se eleva já no 1º trimestre, evidenciando o aumento do volume-corrente desencadeado pela maior expansão torácica e aumento do estímulo respiratório induzido pela progesterona. Pela elevação da cúpula do diafragma estão diminuídos o volume de reserva expiratório e o volume residual, em cerca de 20%, o que se reflete na capacidade residual funcional, também reduzida na mesma porcentagem. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO A hiperventilação da gravidez facilita as trocas gasosas nos pulmões. A PO2 eleva-se tanto no ar alveolar quanto no sangue arterial. O consumo de oxigênio aumenta de 15 a 20% para fazer frente à massa materno- fetal adicional e ao trabalho cardiorrespiratório da gestação. Esse fenômeno ocasiona alcalose respiratória, com queda da PCO2 para menos de 30mmHg, embora a PO2 manifeste certo aumento (101 a 104mmHg). A redução da quantidade de gás carbônico é compensada pelo aumento da excreção de bicarbonato na urina, o que promove a manutenção do pH plasmático (pH= 7,4). A dispneia, relatada por 60-70% das gestantes, começa nos primeiros trimestres, estabilizando-se no final da gestação, provando a ausência de vínculos com o desenvolvimento do útero gravídico. A causa mais provável para esse sintoma é a percepção da hiperventilação pela gestante. O exercício acarreta aumento compensatório na frequência respiratória, no volume- corrente e consumo de oxigênio. Essa resposta adaptativa ao aumento do trabalho respiratório está amortecida na gestante em comparação a controles não gravídicos. Por isso, recomenda-se reduzir a intensidade do exercício aeróbio na gravidez. Durante o parto, as contrações uterinas dolorosas são acompanhadas por resposta similar, que pode ser atenuada pela administração de analgésicos. Em decorrência do aumento do consumo de oxigênio materno e da diminuição da capacidade residual funcional, gestantes com asma, pneumonia ou outras doenças respiratórias estão mais suscetíveis à descompensação rápida. A solução das alterações induzidas pela gravidez sobre o sistema respiratório começa 24 a 48h após o parto e se completa com 7 semanas desse marco. SISTEMA DIGESTÓRIO: No primeiro trimestre da gestação, 50 a 90% das mulheres relatam a ocorrência de náuseas e vômitos, levando em geral, à anorexia, embora uma quantidade semelhante de indivíduos observem melhora no apetite e uma parcela considerável admita desejos por alguns alimentos. A base fisiológica das náuseas, que tendem a ocorrer pela manhã, é desconhecida, embora possa estar relacionada com níveis crescentes de gonadotrofina coriônica humana (hCG) e de estrogênios. As gengivas de mulheres grávidas estão frequentemente edemaciadas, hiperêmicas e vulneráveis à sangramentos. Gengivites, causadas pelo acúmulo de placa bacteriana, podem deflagrar partos prematuros se muito intensas. Mesmo com a hiperêmese gravídica e consequente queda do pH bucal não há maior tendência para o aparecimento de cáries durante a gestação. Durante os dois primeiros trimestres há redução na secreção gástrica de ácidos, explicando a incidência reduzida de úlcera péptica e a remissão das preexistentes. O sistema gastrintestinal encontra-se atônico durante toda a gestação, com os fatores determinantes sendo de origem hormonal, os mesmos que relaxam a musculatura de artérias, veias e ureteres. Uma consequência imediata é a maior incidência de pirose, combinação do relaxamento do esfíncter gastresofágico com o aumento de pressão intra-abdominal, condicionada pelo útero gravídico. A atonia do cólon explica a grande frequência da constipação intestinal. A vesícula fica hipotônica, distendida, com bile viscosa e com grande tendência de formar cálculos. SISTEMA ENDÓCRINO: Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Dentre todas as glândulas, é a tireoide que sofre as modificações mais relevantes. O volume da tireoide materna chega a aumentar 30% no 3º trimestre, em decorrência da hiperplasia e da maior vascularidade, fenômeno fisiológico durante a gravidez. Os níveis da tireoxina total (T4T) aumentam 1,5 vez em relação aos valores não gravídicos, até as 16 semanas da gravidez, momento em que se estabilizam devido à elevação da globulina de ligação da tireoxina (TBG) estimulada pelos estrogênios. A tireotrofina, ou hormônio tireoestimulante (TSH), que desempenha papel central no rastreamento para o diagnóstico de muitos distúrbios da tireoide, apresenta níveis diminuídos nas primeiras 12 semanas da gravidez em virtude da menor estimulação dos receptores de TSH causada pela substancial quantidade de hCG (estimula a produção de tireoxina livre [T4L], que reduz a quantidade de TSH secretada). Após o 1º trimestre, os níveis de TSH retornam aos seus valores basais. O metabolismo periférico de hormônios tireoidianos também sofre modificações, evidentes principalmente na segunda metade da gestação, influenciando a ação das deiodinases (chamadas de tipo I, II e II). As enzimas tipo I não se modificam significativamente. As tipo II, expressas na placenta, convertem T4 em tri-iodotironina (T3). As últimas, também abundantes na placenta, catalisam T4 em T3 reversa (T3r). A presença do T4 livre materno é fundamental para o desenvolvimento normal do cérebro fetal, sendo transferido para o concepto durante toda a gravidez. Sua relevância é ainda maior antes do início do aporte de iodo e da síntese hormonal pela tireoide fetal, o que ocorre na 12ª semana de gravidez. PELE E FÂNEROS: A presençade estrias gravídicas no abdome e nos seios durante o último trimestre de gestação é relatada por 50% das gestantes. Inicialmente vermelhas, mais tarde assumem coloração branca ou nacarada, não desaparecendo facilmente. Ocorre também aumento da pigmentação da linha nigra, no abdome inferior, da vulva, das aréolas mamárias e da face (cloasma), além de elangiectasisas (vasos finos e avermelhados na superfície da pele). É provável que o hormônio melanotrófico da hipófise atue também sobre os melanoblastos epidérmicos, acentuando a pigmentação, e o sistema nervoso autônomo influencie a formação do pigmento nas gestantes. A hipertricose é um aparecimento fisiológico durante a gravidez, com presença de pelos na face e em outras regiões, crescimento mais acentuado dos cabelos, unhas muito Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO quebradiças e surgimento de eritema palmar e hipertrofia das glândulas sudoríparas e sebáceas. MUDANÇAS NOS ÓRGÃOS GENITAIS: VULVA E VAGINA: Os estrogênios estimulam a vascularização e o espessamento do epitélio vaginal durante a gravidez, o que, somado ao aumento de sua descamação, culminam em maior secreção vaginal. Esse corrimento tem pH mais ácido (3,8 – 4,0) do que o de mulheres não grávidas, com o objetivo de proteger a região contra infecções ascendentes. A vulva e a vagina sofrem intumescimento, amolecimento e têm sua cor alterada. A vulva torna-se mais pigmentada e a região limítrofe com a vagina perde seu tom rosado característico, tornando-se vermelho-vinho com os grandes lábios entreabertos. ÚTERO: Logo após a nidação, processam-se inúmeras modificações na consistência, na forma, no volume, na capacidade, na posição, no peso e na espessura do útero, acompanhadas de alterações microscópicas e funcionais. Ocorre um amolecimento imediato no local de implantação, que progride por todo o órgão e outras estruturas pélvicas, sendo essa redução do tônus notada principalmente no istmo uterino (sinal de Hegar). Concomitantemente a esse fenômeno, o órgão aumenta de tamanho inicialmente de modo desigual, sendo mais acentuada a expansão na zona de implantação, o que lhe impõe forma assimétrica. A matriz, inicialmente piriforme, passa a globosa, e o toque dos fundos de saco laterais revela essa morfologia, enquanto o pulso da artéria uterina pode ser percebido. O corpo do útero mantém a configuração esférica até o 4º ou 5º mês, quando o alongamento predomina sobre os diâmetros transversos, conferindo à víscera forma cilíndrica. A expansão do istmo nos últimos meses, incorporando sua cavidade ao corpo uterino acentua a cilindrificação da matriz. Durante os dois primeiros meses o útero é exclusivamente pélvico, podendo ser percebido durante a palpação abdominal com 12 semanas, dependendo da musculatura da parede do abdome e do panículo adiposo da região. O crescimento subsequente pode ser acompanhado mensalmente ao delimitar o fundo uterino e medir sua altura em relação à sínfise púbica. A. Feto a termo: o colo é maior do que o corpo. B. Recém- nascido e infância; carente de estímulos hormonais, o útero regride, de modo mais acentuado no corpo. C. Puberdade: a atividade ovariana provoca o desenvolvimento do órgão. D. Menacma: útero não gravídico de nuligesta. E. Menacma: útero não gravídico, de multigesta. F. Senilidade: há involução de todo o órgão, especialmente do corpo. G. Na gestante. O útero tem aumento drástico em seu peso (passa de 4-70g na não gestante para 1100- 1200g a termo) e volume (10mL para 5L). No início da gestação ocorre expansão do número de células miometriais, que se estabiliza posteriormente. O crescimento miometrial na segunda metade da gestação resulta primariamente da hipertrofia celular que ocorre sob a influência dos hormônios esteroides, (estrogênios). Ainda na segunda metade da Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO gestação, a distensão que a matriz sofre pelo aumento do seu conteúdo determina afinamento gradual da parede uterina, especialmente no istmo, que não sofre hipertrofia, constituindo o segmento inferior do útero. O aumento do tamanho do útero é acompanhado por elevação de 10 vezes no fluxo sanguíneo e redistribuição deste dentro do útero, antes igualmente repartido para o miométrio e o endométrio, e com 80 a 90% dirigidos para a placenta durante a gravidez. Esse aumento marcante do fluxo uteroplacentário é consequência da diminuição da resistência vascular placentária, ou seja, da remodelação das artérias espiraladas. A espessura do miométrio, de 7 a 12 mm antes da gravidez, alcança 25 mm nos primeiros meses e assim se mantém até o 4º ou 5º mês. A subsequente ampliação da cavidade uterina se dá por crescimento de todo o órgão e afinamento do miométrio, que no corpo e a termo tem somente 4 a 10 mm. Em relação ao colo uterino, seu posicionamento é alterado ao longo da gravidez, recentralizando-se no eixo vaginal no momento do parto. O orifício externo obstétrico torna-se permeável ao dedo ou à polpa digital até na nulíparas, com multíparas podendo comportar um a dois dedos, mostrando-se por vezes entreaberto. O canal cervical é obliterado por secreção mucosa espessada, chamada tampão mucoso, responsável por proteger o concepto. A eliminação desse tampão, nas proximidades do parto, à medida que o colo se encurta, constitui importante sinal clínico. O encurtamento do colo também é prenúncio do parto, acentuando-se até o completo apagamento, mas se trata de um fenômeno observado apenas em primíparas, porque os ligamentos uterossacros que fixam o útero à pelve estão firmes e tensos na primeira gravidez, ao passo que nas gestações seguintes ocorre um afrouxamento dessas estruturas, com quebra e rearranjo do colágeno pelas metaloproteinases da matriz, reação inflamatória mediada por citocinas e prostaglandinas e contrações típicas do final da gravidez. MÉTODOS DIAGNÓSTICOS DA GRAVIDEZ: O diagnóstico da gravidez deve ser realizado de forma precoce pelo médico na prática cotidiana, sendo possível adotar métodos clínicos, hormonais ou ultrassônicos. DIAGNÓSTICO CLÍNICO: Os sinais clínicos da gravidez podem dividir- se em de presunção, de probabilidade e de certeza. SINAIS DE PRESUNÇÃO: Esses sinais iniciam suas manifestações por volta da 4ª semana de gravidez, com a amenorreia, condição que pressupõe gestação em mulheres com ciclos menstruais regulares e vida sexual ativa. No marco de cinco semanas, a presença de congestão mamária (evolui na 8ª semana para maior pigmentação da aréola, na 16ª para produção de colostro e na 20ª para o surgimento da aréola secundária) ou de náuseas (geralmente no período da manhã, culminando em vômitos e anorexia) também podem sugerir gravidez. Nota-se que algumas mulheres podem apresentar maior apetite, não sendo raro o desenvolvimento Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO de pica/malácia (perversão alimentar que consiste no desejo de ingerir substâncias normalmente não consideradas como alimento). No segundo e no terceiro mês de gestação (por volta da 6ª semana), o útero, com maior volume e em anteflexão acentuada, comprime a bexiga, levando à micção frequente, com emissão de quantidade reduzida de urina. No segundo trimestre, tal sintomatologia cessa, retornando nas duas últimas semanas, ao insinuar a apresentação fetal. SINAIS DE PROBABILIDADE: Na sexta semana, a presença de amenorreia e o aumento do volume uterino, comprovado pelo toque combinado, permitem inferir se há ou não gestação (com seis semanas, o útero tem volume semelhante ao de uma tangerina, com 10, ao de uma laranja, e com 12, o tamanho da cabeça fetal a termo, podendo ser apalpado logo acima da sínfise púbica).Com oito semanas de gestação, os sinais prováveis no exame clínico são a alteração da consistência uterina (sinal de Hegar, com textura elástico pastosa que faz parecer que houve separação entre corpo e colo), e a alteração do formato do útero (maior desenvolvimento na zona de implantação, com presença de um sulco delimitando essa região [sinal de Piskacek] e, quando o órgão se torna globoso, é possível sentir essa alteração durante a palpação [sinal de Nobile-Budin]). Ao entreabrir a vulva durante o exame especular, destaca-se a coloração violácea da sua mucosa), denominada sinal de Jacquemier ou de Chadwick. A mesma tonalidade da mucosa vaginal constitui o sinal de Kluge. Se o exame ocorrer na 16ª semana, pode ser observado aumento do volume abdominal devido à expansão uterina. SINAIS DE CERTEZA: Esse grupo de sinais é descrito por meio da existência do concepto, provada tanto pelos batimentos cardiofetais quanto por sua movimentação ativa, sendo possível rastreá- lo por meio da ultrassonografia com 7 a 8 semanas. Com catorze semanas é possível observar o sinal de Puzos, ou rechaço fetal intrauterino, obtido ao impulsionar o feto com os dedos no fundo de saco anterior, havendo uma movimentação com o afastamento e aproximação do concepto. Na 18ª semana surgem de forma discreta a percepção e palpação de movimentos pelo feto, que se intensificam ao longo de seu desenvolvimento, e de sua cabeça e membros. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Com vinte semanas, a identificação dos batimentos cardíacos fetais (BCF) é possível, sendo esse o sinal mais fidedigno de gravidez, obtido por meio de sonar Doppler. DIAGNÓSTICO HORMONAL: Representa, atualmente, o melhor parâmetro para diagnosticar a gravidez, uma vez que é capaz de detectá-la de forma precoce e com elevada acurácia. Fundamenta-se na produção de hCG pelo trofoblasto implantado no endométrio, iniciada na primeira semana após a fertilização, continuando em níveis crescentes ao longo da gestação, detectável pelo soro ou urina maternos. Há três tipos de testes para a identificação desse hormônio, imunológico, radioimunológico e ensaio imunoenzimático (ELISA). TESTES IMUNOLÓGICOS: O hCG, como toda proteína, induz a formação de anticorpos em outros animais, substância esta que é empregada para identificar hormônios na urina sob análise, embora seja necessário tornar a reação visível (possível por meio de hemácias ou partículas de látex). Para melhorar a sensibilidade dos testes, é preciso que a urina esteja bastante concentrada. Prova de inibição da aglutinação do látex: denominada teste de lâmina, é de leitura rápida, com duração de poucos minutos. Apresenta dois inconvenientes: a imagem do resultado pode ser discutível e a sensibilidade é menor (1.500 a 3.500 UI/L); Prova de inibição da hemaglutinação: chamada teste de tubo, oferece leituras em 2 h, raramente de interpretação duvidosa, e com mais sensibilidade (750 a 1.000 UI/L). A hemaglutinação passiva reversa adota o mesmo método, utilizando anticorpos monoclonais com o hCG ligado, podendo fornecer resultados com sensibilidade altíssima (75 UI/L). Para que o exame seja realizado, aconselha-se que o atraso menstrual ultrapasse 10 a 14 dias, assim, a prova de inibição da hemaglutinação oferece sensibilidade de 97 a 99%. Medicamentos psicotrópicos, proteinúria e mulheres no climatério (reação cruzada com o LH, neste caso, em teor bem mais elevado) podem determinar resultados falso-positivos. Os falso-negativos ocorrem em urinas de baixa densidade (grandes volumes nicteméricos, acima de 2 L), na primeira ou na segunda semana do atraso menstrual e, ocasionalmente, durante o segundo trimestre, quando é mais baixo o limite inferior dos níveis de hCG. TESTES RADIOIMUNOLÓGICOS: Testes radioimunológicos consistem na dosagem de hCG por método radioimunológico (RIA), com base na competição do hormônio em questão com traçador adequado (o próprio hormônio marcado com radioiodo), conforme a quantidade fixa de antissoro. A dificuldade nesse procedimento é a reação cruzada com LH hipofisário, que é corrigida ao se fazer a dosagem da subunidade beta do hCG, mais específica. A dosagem de β- hCG tem sensibilidade de 5 mUI/mL. Os resultados são obtidos em aproximadamente 4 horas, o que torna possível aos laboratórios especializados o fornecimento de duas séries por dia. TESTE ELISA: O ensaio imunoenzimático apresenta as mesmas bases teóricas do RIA, porém substitui o hormônio marcado com Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO radioisótopo por uma enzima capaz de reagir com substrato incolor e gerar um produto colorido. A intensidade da cor resultante é proporcional à quantidade de hormônio. Sua maior vantagem é a grande vida útil, uma vez que não contém materiais radioativos (atividade limitada pela meia- vida). Sua sensibilidade é de 25 mUI/mL. DIFERENÇAS ENTRE ANÁLISE DE SORO E URINA: Com os testes de análise de urina (testes de farmácia), é esperado que o diagnóstico positivo ocorra pelo menos um dia antes da amenorreia, ao passo que métodos que utilizam o soro fornecem o resultado em até 7 dias antes desse marco. Outra diferença reide no fato que os exames de urina apresentam apenas resultados qualitativos, podendo ser afetados pela qualidade da amostra coletada. DIAGNÓSTICO ULTRASSONOGRÁFICO: Com 4 a 5 semanas, na parte superior do útero, começa a aparecer formação arredondada, anelar, com contornos nítidos, que corresponde à estrutura ovular, denominada, na ultrassonografia por saco gestacional (SG). A partir de 5 semanas, é possível visualizar a vesícula vitelina (VV) e, com 6 semanas, o eco embrionário e a sua pulsação cardíaca (BCF). Em torno de 10 a 12 semanas, nota-se espessamento no SG, que representa a placenta em desenvolvimento e seu local de implantação no útero. Com 12 semanas, a placenta pode ser facilmente identificada e apresenta estrutura definida com 16 semanas. ÊMESE E HIERÊMESE GRAVÍDICA: Tanto a êmese quanto a hiperêmese gravídica representam o mesmo processo de expulsão do conteúdo gástrico pela boca, diferindo apenas por sua intensidade e repercussão clínica de seus efeitos. A prevalência de náuseas e de vômitos na gestação é calculada em torno de 85%, sendo que em 25% dos casos observa-se exclusivamente o quadro de náusea matinal, e, no restante das gestantes, diversos graus de êmese associado à náusea. O período de incidência entre 5 e 9 semanas ocorre em mais de 90% das gestações, reduzindo progressivamente e tornando-se ocasional além de 20 semanas. Apenas 10% dos casos de gestantes acometidas por náuseas e vômitos requer tratamento farmacológico. Os quadros mais graves de vômitos nas gestantes, denominados de hiperêmese gravídica, respondem por 1,1% de todos os casos. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Não há definição única para a hiperêmese gravídica, sendo a mais aceita aquela que considera a perda ponderal de, no mínimo, 5% do peso pré-gravídico. EITOLOGIA E FATORES DE RISCO: A etiologia desses sintomas ainda não é totalmente compreendida. Os possíveis causadores são os hormônios placentários (hCG e estrogênios), talvez inter- relacionados. É sabido que o pico das náuseas e vômitos da gravidez está ligado ao da gonadotrofina coriônica humana. Além disso, os hormônios citados estão mais elevados em gestações gemelares e molares, reconhecidamente mais afetadas pelo exagero dos sintomas supracitados. As teorias mais difundidas para explicar o surgimento das náuseas e vômitos são: Teoria endócrina: A progesterona e o estrogênio reduzem o tônus da musculatura lisa e a atividade peristáltica de todoo trato gastrointestinal. A distensão intestinal, que ocorre em resposta a estas adaptações funcionais do organismo materno à gravidez, ativa alguns mecanismos biomoleculares que são envolvidos na geração dos estímulos eméticos, representando um dos possíveis causadores do quadro. Outra associação que pode auxiliar a explicar esses sintomas é o aumento dos hormônios tireoidianos provocando hipertireoidismo transitório e o desenvolvimento de náuseas e vômitos gravídicos, uma vez que alterações nesses hormônios são vistas em 70% das mulheres que relatam tais sintomas. Essa vertente tem importância etiológica reduzida por ser assintomática e não ter relevância clínica. Recentemente, a leptina também foi colocada como possível causadora do quadro de náuseas e vômitos por se apresentar mais elevadas em mulheres com essas comorbidades, porém essas alterações ainda não foram confirmadas. Teoria da infecção pelo Heliobacter pylori: Foi observado que 95% dos exames histológicos das mucosas das gestantes com NVG são positivas para este agente contra 50% do grupo controle. Além disso, constatou-se também clara associação entre a carga bacteriana e a intensidade dos sintomas. Apesar da intrigante associação entre náuseas e vômitos gravídicos com a infecção materna pelo H. pylori, o número de gestantes que são portadoras da infecção e não apresentam essas manifestações indica que a bactéria também não consegue, isoladamente, explicar todos os casos registrados de enjoo gestacional. Teoria genética: As taxas mais elevadas de recorrência desta complicação em sucessivas gestações reforçam a teoria genética. Além disso, o risco de uma gestante desenvolver os sintomas é três vezes maior se sua mãe também apresentou este quadro. No entanto, a falta de estudos que identifiquem quais são os genes responsáveis por esta alteração e em que parte do genoma estas mudanças podem ser identificadas são fatores limitantes para se desenhar abordagens mais específicas de controle da doença. Teoria psicogênica: Já foi especulado que as náuseas e vômitos poderiam ser a manifestação de uma doença psicossomática na qual o processo emético seria a forma de exteriorizar estes conflitos intrapsíquicos, o que poderia conferir a esta teoria importante papel na composição etiológica dos sintomas supracitados. Entre Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO as variáveis situacionais que compõem esta teoria, já foi postulado que tais sintomas seriam a manifestação subconsciente da gestante rejeitar uma gravidez não desejada. No entanto, esta teoria não é aceita universalmente. Em estudo desenvolvido na Noruega, mostrou que a angústia e a depressão seriam mais efeitos do que causa dos enjoos e vômitos. Os eventos adversos ou estressantes na vida da gestante com seu meio social que poderiam estar associados com os sintomas são a gravidez não programada, rejeição à maternidade, a rejeição ao pai, a imaturidade emocional, o temor do ganho de peso, as situações de violência, a pobreza, a busca de compensações, a insegurança, as limitações financeiras e a estabilidade no emprego. Em síntese, não se nega a importância destas situações de estresse potencializando sinergicamente o aparecimento e manutenção do processo emético em gestantes predispostas, mas não é correto considerá-las como responsáveis isoladas pelo seu aparecimento. Entre os fatores de risco, podem ser citadas a história de hiperêmese gravídica em gestação anterior, a história familiar (mãe, irmã), nuliparidade em mulher jovem e a gravidez de feto feminino. QUADRO CLÍNICO: As manifestações clínicas decorrem inicialmente de perdas hidroeletrolíticas e, posteriormente, da desnutrição. Nas pacientes que não buscam acompanhamento médico, a deficiência de carboidratos acaba por acelerar o metabolismo de lipídios, culminando com a eliminação de corpos cetônicos na urina (cetonúria). Se o quadro de desnutrição for muito avançado, a deficiência de tiamina (vitamina B1) pode causar as manifestações neuropsiquiátricas da síndrome de Wernicke-Korsakoff. A hiperêmese gravídica apresenta uma evolução nítida do comprometimento materno, a saber: Fase de desidratação: Náusea e ptialismo intensos, vômitos fortes levando a um quadro de desidratação. A paciente apresenta-se com diminuição do turgor e da elasticidade da pele, olhos encovados, mucosas secas e pegajosas, língua áspera, taquicardia, hipotensão e hipotermia. Distúrbios hidroeletrolíticos podem estar presentes (dosagem de sódio alta, cloro e potássio um pouco diminuídos). O hematócrito encontra-se um pouco aumentado; Fase metabólica: somam-se distúrbios nutricionais (perda poderal superior a 5%), alterações da função hepática com elevação de enzimas e bilirrubinas (icterícia discreta), cetoacidose e cetonúria de duas ou três cruzes, hipoalbuminemia, hiponatremia e hipopotassemia. Hipoglicemia já ocorre nessa fase. Pode ocorrer hipotermia e torpor; Fase neurológica: achados anteriores acrescidos de comprometimento oftálmico com lesões na retina e comprometimento neurológico inicial com hiporreflexia e dor à palpação das panturrilhas e coxas. Esse quadro é muito Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO importante, pois antecede o acometimento encefálico, que é irreversível, em uma semana; Fase da psicose de Wernicke-Korsakoff: trata-se de uma encefalopatia amoniacal, caracterizada por instabilidade hemodinâmica de difícil controle, alucinações e coma. Este quadro é irreversível na maioria das vezes. Para classificar o quadro de náuseas e vômitos gravídicos, o Pregnancy Unique Quantification of Emesis (PUQE) destaca-se como escore de maior utilidade, idealizado para avaliação de 12 horas, mas obtendo bons resultados com análises de 6 a 24 horas (o primeiro valor sendo mais aplicado para medir efeitos terapêuticos, e o último, para o diagnóstico da intensidade sintomática). O funcionamento dessa ferramenta se dá por meio da resposta de 3 perguntas básicas acerca dos sintomas de acordo com o tempo de corte escolhido, com pontuações diferentes para cada item assinalado, resultando numa pontuação que delimita as formas dessa condição. A hiperêmese gravídica pode ser separada em duas formas clínicas, de média e grave intensidade, a saber: Forma média: pacientes abandonadas na êmese simples, por 2 a 4 semanas, com perda ponderal discreta, de 5% do peso pré-gravídico. O pulso mantém-se abaixo de 100 bpm; Forma grave: a perda ponderal é acentuada, 6 a 8%, e o pulso mostra-se rápido, acima de 100 bpm. Há presença de cetonúria pontual. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: Náuseas e vômitos nas primeiras 9 semanas da gravidez acometem quase todas as grávidas. Quando a paciente experimenta náuseas e vômitos após 9 semanas, outras condições, em sua maioria intercorrentes na gravidez, devem ser cogitadas. Do ponto de vista obstétrico, a neoplasia trofoblástica e a gestação múltipla são diagnósticos diferenciais obrigatórios. A presença de náusea no terceiro trimestre geralmente decorre de problemas hepáticos, das vias hepáticas (litíase), de descontrole metabólico (diabetes) ou de processos hipertensivos gestacionais graves, a exemplo da pré-eclâmpsia. Em relação ao aparelho digestivo, deve-se incluir para diagnóstico diferencial as seguintes alterações: esofagite terminal, hérnia de hiato, dispepsia, úlcera péptica, gastroparesias, neoplasias do tubo digestivo, infecções virais hepáticas, colelitíase, colecistite, esteatose hepática, neoplasias hepáticas, pancreatite, neoplasia pancreática, doenças disabsortivas, entre outras. Entre as doenças sistêmicas, sobressaem as infecções (ouvido, sistema urinário), asendocrinopatias (cetoacidose diabética, crise tireotóxica, hiperparatireoidismo, síndrome de Addison), a uremia e a porfiria intermitente aguda. Dentre as doenças do sistema nervoso central a mais frequente como diagnóstico diferencial das náuseas/vômitos é a enxaqueca. Um dos grupos mais importantes para o diagnóstico diferencial são as intoxicações exógenas (medicamentosas ou não). As possibilidades são infinitas, mas sobressai o uso de quimioterápicos, de anti- inflamatórios, de digoxina, de anti- hipertensivos, de betabloqueadores, de Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO diuréticos, de anticonvulsivantes, de aminofilina, de álcool e de drogas ilícitas. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL E ULTRASSONOGRÁFICO: A maioria das pacientes com náuseas e vômitos não necessita de avaliação laboratorial, mas em casos de hiperêmese gravídica esses exames podem ser solicitados para avaliar a gravidade da doença e estabelecer o diagnóstico diferencial. Anormalidades laboratoriais na hiperêmese gravídica incluem aumento das enzimas hepáticas (< 300 UI/l), bilirrubina sérica (< 4 mg/dL) e amilase e lipase séricas (aumento de até 5 vezes o limite normal). O exame de urina pode revelar aumento da densidade e cetonúria. A ultrassonografia está indicada para descartar casos de doença trofoboblástica, principalmente se há história de sangramento genital ou aumento do volume uterino acima do esperado para a idade gestacional. Igualmente, pode identificar gestação gemelar, situação em que os enjoos são mais frequentes. Nos casos em que não há remissão ou melhora dos sintomas mesmo com terapia medicamentosa, é indicada a repetição das funções hepática e renal e a realização de esofagogastroduodenoscopia, além de investigar a presença de H. pylori. Sem melhoras, apesar dos cuidados corretos, pode ser necessária a avaliação do neurologista. Os recursos utilizados vão desde a punção liquórica para afastar infecções e hemorragias até o estudo por imagens. Estas avaliações não são apenas para avaliação diagnóstica de eventuais alterações infecciosas ou expansivas do encéfalo, mas também para verificar o risco de evolução para a síndrome de Wernicke. TRATAMENTO: As possibilidades de tratamento para mulheres portadoras de náuseas e vômitos gravídicos podem ser divididas em farmacológicas e não farmacológicas, a saber: Abordagens não farmacológicas: o Apoio psicoemocional: fundamental em todos os casos, pois sabemos que o medo e a ansiedade são componentes que por si sós podem resultar no aparecimento do quadro. Este apoio será familiar e profissional, inicialmente, pelo próprio obstetra e, em casos de maior complexidade, com o apoio de psicólogo afeito a este tipo de situação clínica; o Mudanças nutricionais: todas as gestantes devem receber este tipo de orientação, independente de apresentarem ou não o quadro em análise. O maior tempo de esvaziamento gástrico, menor produção e escoamento biliar, menor tolerância ao jejum prolongado e muitas outras alterações levam a gestante a ter que adotar dietas mais leves, menos gordurosas e em intervalos menores, como também evitar ingestão de líquidos nas primeiras duas horas do dia; o Terapias não convencionais ou complementares: o grupo mais beneficiado por esse conjunto terapêutico são de gestantes coma forma leve do acometimento, podendo ser realizadas sessões de acupressão (pressão em pontos específicos das mãos), aromaterapia, acupuntura, suplementação de piridoxina (vitamina B6) e ingesta de gengibre. Abordagens farmacológicas: em razão da elevada prevalência do quadro, é compreensível que mais de 30% de todas Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO as gestações tenham em algum momento sido exposta ao uso deste grupo farmacológico. O antiemético de eleição é a ondansetrona, na dose de 4 mg por via intravenosa de 12 em 12 horas. Este fármaco foi recentemente liberado para uso na gravidez. Nas formas leves das náuseas e vômitos da gestante (≤ 6 do escore de PUQE), as medidas não farmacológicas e farmacológicas por via oral apresentam bons resultados rapidamente e o tratamento deve ser ambulatorial. Nas formas moderadas e graves (> 6 do escore de PUQE), a gestante deve ser abordada de maneira multidisciplinar em ambiente hospitalar. Após adotadas as medidas terapêuticas, espera-se que em 24 horas cessem os vômitos e o escore de PUQE revele uma pontuação compatível com a forma leve do quadro. Caso isto não ocorra, é indicada uma reavaliação da gestante (dosagem de ACTH, cortisol plasmático, provas de função hepática, transaminases, amilase, hormônios tiroidianos, fundoscopia, entre outros). Deve- se aproveitar também para analisar ionograma, perda ponderal e o estado de hidratação materna. PROGNÓSTICO: Embora seja rara hoje em dia, a morte por hiperêmese gravídica tem sido associada à síndrome de Wernicke-Korsakoff. A síndrome de Wernicke corresponde à instalação de sintomas agudos como ataxia (predominantemente da marcha), disfunção vestibular, confusão e uma variedade de anormalidades da motilidade ocular frequentemente bilaterais. O quadro evolui para a condição crônica, chamada de síndrome de Korsakoff, caracterizada por perda da memória de fixação e desorientação temporoespacial, podendo ou não haver confabulações associadas. A síndrome negligenciada evolui com sequelas, por vezes, irreversíveis. O tratamento imediato com tiamina na síndrome de Wernicke é eficaz em dias a poucas semanas. A morbidade psicossocial associada à hiperêmese gravídica pode resultar em indicação para a interrupção da gravidez. Em relação ao feto, tem-se observado menor incidência de abortamento e risco aumentado de recém-nascido pequeno para a idade gestacional (PIG). PERFIL EPIDEMIOL[OGICO DA GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: A gravidez na adolescência (primeira gestação na faixa etária de 10 a 19 anos), considerada de alto risco pela complexidade de fatores, torna-se um problema de saúde pública devido às consequências que impõe à sociedade como um todo. Em 2017, o Brasil registrou 2.923.535 nascidos vivos, com 22.146 sendo relacionados a meninas de 10 a 14 anos e 458.777 a indivíduos com 15 a 19 anos. A regiões com maior número de registros nessas faixas etárias são a Região Nordeste (163.298 casos combinados) e Região Sudeste (153.527 notificações). Salienta-se que, na série histórica de 1994 a 2017, o Brasil registou 634.664 casos de gravidez entre 10 e 14 anos e 14.218.890 entre 15 e 19 anos. Ainda que esses índices estejam em queda relativamente constante ao longo desse período, tais números ainda refletem a urgência por intervenções para solucionar esse problema. Entre os anos de 1994 a 2008 houve crescimento no número de nascidos vivos entre 10 e 14 anos, e entre 1994 e 1999, na faixa de 15 a 19 anos. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Na Bahia, em 2017, foram registrados 204.096 nascidos vivos, sendo que 2.155 são filhos de mulheres com 10 a 14 anos e 36.712, de 15 a 19 anos. As regiões de saúde com maior prevalência de gravidez na adolescência são Salvador (5.729 notificações), Feira de Santana (2.670) e Juazeiro (2.090). As etnias mais reportadas são de pardas (29.819) e pretas (3.886 notificações nas faixas etárias em análise). A realização do pré-natal nesses grupos etários tende a ser classificada como adequada, porém ainda é notável a existência de jovens que não realizaram esse acompanhamento durante a gestação. A maior parte das gestações tanto entre jovens de 10-14 quanto de 15-19 anos contempla mulheres solteiras ou em união consensual, mas observam-se 19 casamentos dentre as mais novas Aspectos importantes podem ser levantados demodo a compreender a complexidade da gravidez precoce e a necessidade de cuidados diferenciados nessa faixa etária: Os índices de mortalidade infantil têm diminuído no Brasil, mas 20% dessas mortes ainda são de filhos e filhas de mães adolescentes (10 a 14 anos); A Incidência de baixo peso é duas vezes maior entre filhos de mães adolescentes; A mortalidade infantil é diretamente proporcional ao peso ao nascer e ganho de peso do bebê; A mortalidade neonatal é três vezes maior entre os filhos e filhas de mães adolescentes quando comparados aos filhos de mulheres adultas; 03 em cada 10 adolescentes ficarão grávidas antes de completar 20 anos; As meninas mais pobres têm cinco vezes mais possibilidades de engravidar no período da adolescência do que as meninas mais ricas; Dos abortos por razões médicas e legais, 24,85% acontecem na faixa de 20 a 24 anos; 15,4% entre 15 e 19 anos e 1,27% de 10 aos 14 anos. Diversos fatores podem ser apontados como causa para a gestação na adolescência. No entanto, a desinformação sobre sexualidade, sobre direitos sexuais e reprodutivos é o principal motivo. Questões emocionais, psicossociais e contextuais também contribuem, inclusive para a falta de acesso à proteção social e ao sistema de saúde, incluindo o uso inadequado de contraceptivos, como métodos de barreira e preservativos. A falta de um projeto de vida e expectativas de futuro, educação, pobreza, famílias disfuncionais e vulneráveis, abuso de álcool e outras drogas, além de situações de abandono, abuso/violência e a falta de proteção efetiva às crianças e aos adolescentes, também fazem parte desse quadro. Ocorre também a adoção do RN pelos avós ou familiares, como substitutos da maternagem do recém-nascido e retirando esse direito dessas adolescentes. Muitas vezes, a gravidez é desejada pela jovem, inclusive como uma resposta ao meio que a circunda ou como forma de exercer a sexualidade, de ser incluída e aceita socialmente. Ou ainda por gerar benefícios financeiros futuros para a família. Todos esses fatores também contribuem para a reincidência da gravidez ainda na adolescência. Pesquisas sobre mudanças na vida social revelam que as gestantes adolescentes indicam a interrupção dos estudos como a mais frequente e preocupante. O abandono escolar compromete não apenas a continuidade da educação formal, como resulta em menor qualificação e obstáculo nos seus projetos de vida. A porcentagem de adolescentes que não frequenta mais a Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO escola após ter engravidado é de 68,3%, elevando-se para 85,7% no terceiro trimestre de gravidez. Porém é válido ressaltar que a gravidez precoce apresenta nuances conforme o contexto social de inserção da jovem, uma vez que nas classes média e alta a ocorrência de gestação na jovem tende a não prejudicar tanto o percurso de escolarização e profissionalização. Um dos mais importantes fatores de prevenção é a educação, fato indubitável para a saúde plena, tanto individual quanto coletiva. Nesse sentido, é importante considerar a educação abordando sexualidade e saúde reprodutiva, tanto no meio familiar quanto na escola, com abordagem científica, e nos programas de promoção à saúde. Não apenas quanto aos eventos biológicos, mas em relação ao convívio de respeito entre meninos e meninas, atividades sexuais com responsabilidade e proteção, principalmente durante a adolescência. PROBLEMA 2 - INTERMEDIÁRIA: EMBRIOGÊNESE ATÉ A 4ª SEMANA DE GESTAÇÃO: O desenvolvimento embriológico humano se inicia com a fecundação, momento no qual o espermatozoide funde-se ao óvulo para compor o zigoto, marco da origem de um novo ser. Os 23 estágios Carnegie do desenvolvimento humano refletem as mudanças na aparência externa do embrião durantes as primeiras 8 semanas de gestação. A marcação do tempo gestacional difere entre clínicos e embriologistas, sendo que para o obstetra a gravidez tem início no último período menstrual e para o embriologista, 2 semanas após o momento de fertilização. CLIVAGEM DO ZIGOTO: A clivagem, conjunto de divisões mitóticas sucessivas do zigoto (ainda revestido pela zona pelúcida), ocorre cerca de 30 horas após a fecundação, quando esse tipo celular passa pelas tubas uterinas em direção ao útero. Essas divisões sucessivas criam células embrionárias (blastômeros) cada vez menores. Após o estágio de nove células, os blastômeros mudam sua forma e se juntam firmemente uns com os outros para formar uma bola compacta de células. Esse fenômeno (compactação) provavelmente é auxiliado por glicoproteínas de adesão de superfície celular. A compactação permite uma maior interação célula com célula e é imprescindível para a segregação de células internas que formam a massa celular interna ou embrioblasto do blastocisto. Quando já existem de 12 a 32 blastômeros, o ser humano em desenvolvimento é chamado de mórula (aparência semelhante a uma amora com suas projeções esféricas). As células internas da mórula (chamadas de massa celular interna) estão circundadas por uma camada de células que formam a camada celular externa. A mórula se forma Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO cerca de 3 dias após a fecundação e alcança o útero. A PRIMEIRA SEMANA: À medida que o zigoto percorre a tuba uterina em direção ao útero ele sofre múltiplas segmentações mitóticas, responsáveis pela formação dos blastômeros. No 3º dia pós-fecundação a estrutura celular com 16 ou mais blastômeros passa a chamar-se mórula e penetra a cavidade uterina. No 4º dia, é formada uma cavidade na mórula, que passa a se chamar blástula ou blastocisto, estrutura composta por um grupo de células internas (embrioblasto) em um dos polos do ovo, que dará origem ao embrião, a blastocele (cavidade) e uma camada celular externa, chamada trofoblasto, que engloba as duas porções anteriormente citadas. No 3º e 5º dias o blastocisto está livre na cavidade do útero, mas no último ocorre a degeneração e o desaparecimento da zona pelúcida. As células trofoblásticas começam a invadir o epitélio endometrial no 7º dia, momento no qual se inicia sua diferenciação em duas camadas a interna (citotrofoblasto ou células de Langhans), e a externa (sinciciotrofoblasto), composto por massas multinucleadas protoplasmáticas sem limites celulares, que penetram no endométrio invadindo seu estroma. Simultaneamente à implantação do blastocisto, o embrioblasto inicia a formação do endoderma embrionário na sua superfície ventral, compondo a primeira de três camadas germinativas primárias do embrião. O fim da primeira semana marca a implantação superficial do ovo no endométrio. Ovo de 8 dias parcialmente implantado no endométrio SEGUNDA SEMANA E A FORMAÇÃO DO DISCO EMBRIONÁRIO BILAMINAR: Mudanças rápidas se sucedem no trofoblasto, com a organização definitiva em Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO duas camadas bastante distintas, o citotrofoblasto e o sinciciotrofoblasto. Lacunas são formadas nessa última região, fusionando-se para compor a rede lacunar. Ovo de 9 dias O trofoblasto erode os sinusoides maternos, permitindo assim que o sangue flua para o interior da rede lacunar, criando assim a circulação uteroplacentária primitiva. Quando o sangue materno flui para as lacunas, o oxigênio e as substâncias nutritivas tornam-se disponíveis para o embrião. O sangue oxigenado das artérias endometriais espiraladas passa para as lacunas e o sangue pobremente oxigenado é removido pelas veias endometriais. O sinciciotrofoblasto produz a gonadotrofina coriônica humana, que penetra o sangue materno pelas lacunas dessa região. O hCG mantém a atividadehormonal do corpo lúteo durante a gravidez, que continua a secretar estrogênio e progesterona para manter as condições necessárias ao desenvolvimento embrionário. No fim da segunda semana, o sinciciotrofoblasto produz uma quantidade de hCG suficiente para dar um teste positivo para a gravidez, mesmo que a mulher não saiba que está grávida. Ovo de 12 dias totalmente implantado, com endotélio remodelado e comunicação de sinusoides com a rede lacunar As vilosidades primárias originam-se na face externa do saco coriônico, completando a implantação. Nesse estágio o ovo encontra- se totalmente mergulhado no endométrio, gerando várias reações do tecido materno, denominadas reação decidual. Com a acumulação de glicogênio e lipídios em seu citoplasma, as células ficam intumescidas e são conhecidas como células deciduais. A principal função da reação decidual é fornecer ao concepto um sítio imunologicamente privilegiado. Desenvolvimento das vilosidades primárias O mesoderma extraembrionário origina-se da superfície interna do trofoblasto, reduzindo o tamanho relativo da cavidade blastocística, que passa a receber o nome de vesícula vitelina primitiva. Quando se forma o celoma extraembrionário, proveniente de espaços criados no mesoderma extraembrionário, a vesícula vitelina primitiva torna-se menor e origina a vesícula vitelina secundária, constituindo o restante o saco vitelino. O celoma extraembrionário se converte na cavidade coriônica. A vesícula vitelina não contém vitelo, mas pode desempenhar papéis na transferência seletiva de nutrientes para o embrião. O mesoderma somático extraembrionário e as duas camadas do trofoblasto formam o cório, constituinte da parede da vesícula amniótica, dentro do qual o embrião e as Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO vesículas vitelina e amniótica estão suspensos. O celoma extraembrionário é, então, chamado de cavidade coriônica (na gravidez, e à ultrassonografia, denominado saco gestacional). Enquanto essas modificações ocorrem aparece um pequeno espaço no epiblasto, que cria o primórdio da cavidade amniótica. Logo os amnioblastos, formadores do âmnio, passam a revestir a região. O embrioblasto diferencia-se no disco bilaminar, formado pelo epiblasto (ectoderma embrionário), relacionado com a cavidade amniótica, e o hipoblasto (endoderma embrionário), adjacente à cavidade exocelômica. O hipoblasto forma o teto da cavidade exocelômica e é contínuo com a delgada membrana exocelômica. Estruturas que juntas formam a vesícula vitelina primitiva. As células do endoderma da vesícula vitelina formam uma camada de tecido conjuntivo, o mesoderma extraembrionário, que circunda a cavidade amniótica. O celoma embrionário é formado pela fusão de diversos espaços celômicos extraembrionários isolados no interior do mesoderma extraembrionário. Essa região repleta de fluidos envolve a vesícula vitelina e a cavidade amniótica, exceto em seu local de adesão ao cório (pedículo embrionário). O embrião de 14 dias apresenta-se ainda como um disco bilaminar. As células hipoblásticas formam, numa área localizada, a placa precordal, futuro local da boca e importante organizadora da região da cabeça. TERCEIRA SEMANA, GASTRULAÇÃO E FORMAÇÃO DO DISCO EMBRIONÁRIO TRILAMINAR: Esse é um período de desenvolvimento acelerado, coincidindo com a época do primeiro atraso menstrual (sinal primordial da gravidez, mesmo que possam ocorrer perdas de sangue decorrentes da implantação). Surge o mesoderma intraembrionário (3ª camada germinativa) a partir de células mesoblásticas originárias do epiblasto. O mesênquima forma os tecidos de sustentação do embrião, tais como a maior parte dos tecidos conjuntivos do corpo e a trama do tecido conjuntivo das glândulas. Células do epiblasto deslocam o hipoblasto, formando o endoderma embrionário, no teto da vesícula vitelina. As células que permanecem no epiblasto formam o ectoderma embrionário. Cada camada irá dar origem a órgãos específicos: Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO O ectoderma embrionário dá origem à epiderme, ao sistema nervoso central e periférico, ao olho, à orelha interna e, como células da crista neural, a muitos tecidos conjuntivos da cabeça; O endoderma embrionário é a fonte dos revestimentos epiteliais das vias respiratórias e do trato gastrointestinal, incluindo as glândulas que se abrem no trato gastrointestinal e as células glandulares dos órgãos associados, tais como o fígado e o pâncreas; O mesoderma embrionário dá origem a todos os músculos esqueléticos, às células sanguíneas e ao revestimento dos vasos sanguíneos, a todo músculo liso visceral, a todos os revestimentos serosos de todas as cavidades do corpo, aos duetos e órgãos dos sistemas reprodutivo e secretor e à maior parte do sistema cardiovascular. No tronco, é a origem de todos os tecidos conjuntivos, incluindo a cartilagem, os ossos, os tendões, os ligamentos, a derme e o estroma dos órgãos internos. O primeiro sinal da gastrulação é a formação da linha primitiva. No começo da 3ª semana há o aparecimento de uma opacidade formada por uma faixa linear espessada do epiblasto, caudalmente localizada no plano mediano do aspecto dorsal do disco embrionário. Enquanto a linha primitiva se alonga pela adição de células na sua extremidade caudal, a extremidade cranial prolifera e forma o nó primitivo. Concomitantemente, na linha primitiva forma-se o estreito (sulco primitivo) que se continua com uma pequena depressão no nó primitivo, a fosseta primitiva. Assim que a linha primitiva surge, é possível identificar o eixo cefálico-caudal do embrião, as extremidades cefálica e caudal, as superfícies dorsal e ventral e os lados direito e esquerdo. O sulco e a fosseta primitivos resultam da invaginação das células epiblásticas. Pouco tempo após o aparecimento da linha primitiva, células abandonam sua superfície profunda e formam o mesênquima, um tecido formado por células frouxamente arranjadas suspensas em uma matriz gelatinosa. As células mesenquimais são ameboides e ativamente fagocíticas. Essa região forma os tecidos de sustentação do embrião, como a maior parte dos tecidos conjuntivos do corpo. Parte do mesênquima forma o mesoblasto (mesoderma indiferenciado), que compõe o mesoderma embrionário ou intraembrionário. Células do epiblasto, assim como do nó primitivo e de outras partes da linha primitiva, deslocam o hipoblasto, formando o endoderma embrionário, no teto do saco vitelino. As células que permanecem no epiblasto formam o ectoderma embrionário ou intraembrionário. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO As células mesenquimais originadas da linha primitiva migram amplamente. Essas células pluripotentes têm o potencial de proliferar e diferenciar-se em diversos tipos celulares, tais como fibroblastos, condroblastos e osteoblastos. Em suma, o processo de gastrulação forma todas as três camadas germinativas por meio de células do epiblasto, marcando o início da morfogênese humana. A linha primitiva forma o mesoderma de forma ativa pelo ingresso de células até o começo da 4ª semana, momento no qual a produção passa a tornar-se mais lenta. A linha diminui seu tamanho relativo e passa a compor uma estrutura insignificante na região sacrococcígea embrionária, desaparecendo ao final dessa semana. FORMAÇÃO DO PROCESSO NOTOCORDAL E DA NOTOCORDA: Algumas células mesenquimais que ingressaram através da linha primitiva e tiveram destinos de células do mesoderma, migram cefalicamente do nó e da fosseta primitivos, formando um cordão celular mediano, o processo notocordal, que logo adquire uma luz, o canal notocordal. Esse processo crescecefalicamente entre o ectoderma e o endoderma até alcançar a placa pré-cordal, pequena área circular de células endodérmicas colunares onde essas duas camadas entram em contato. O mesoderma pré-cordal é uma população mesenquimal anterior à notocorda e essencial para a indução do cérebro anterior e do olho. A placa pré-cordal é o primórdio da membrana bucofaríngea, localizada no futuro local da cavidade oral, agindo também como centro sinalizador para o controle da formação de estruturas cranianas. Algumas células mesenquimais da linha primitiva e do processo notocordal migram lateral e cefalicamente, entre o ectoderma e o mesoderma, até alcançarem as bordas do disco embrionário. Essas células estão em continuidade com o mesoderma extraembrionário que cobre o âmnio e o saco vitelino. Algumas células mesenquimais da linha primitiva, que também têm destinos mesodérmicos, migram cefalicamente de cada lado do processo notocordal e em torno da placa pré-cordal. Nesse local, elas se encontram cefalicamente, formando o mesoderma cardiogênico na área cardiogênica, onde o primórdio do coração começa a se desenvolver no fim da terceira semana. Caudalmente à linha primitiva, há uma área circular, a membrana cloacal, que indica o local do futuro ânus. Ali e na membrana bucofaríngea, o disco embrionário permanece bilaminar porque, nesses locais, o ectoderma e o endoderma estão fundidos, impossibilitando a migração celular entre os folhetos. Na metade da terceira semana, o mesoderma separa a formação bilaminar em todos os lugares, com exceção da já citada membrana bucofaríngea (cefalicamente), do processo notocordal (cefalicamente ao nó Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO primitivo, no plano mediano) e da membrana cloacal supracitada (caudalmente). Sinais instrutivos naturais da região da linha primitiva induzem as células precursoras notocordais a formarem a notocorda, estrutura celular em forma de haste. Esse arranjo é responsável por: Definir o eixo primitivo do embrião, fornecendo certa rigidez; Fornecer os sinais necessários ao desenvolvimento do esqueleto axial e do sistema nervoso central; Contribuir na formação de discos intervertebrais. O desenvolvimento da notocorda se dá da seguinte forma: O processo notocordal se alonga pela invaginação de células provenientes da fosseta primitiva, compondo assim o canal notocordal; O processo notocordal é agora um tubo celular que se estende cefalicamente do nó primitivo até a placa pré-cordal, com seu assoalho fundindo-se ao endoderma subjacente; Essas camadas fusionadas sofrem uma degeneração gradual, permitindo assim a comunicação do canal notocordal com o saco vitelino; As aberturas confluem rapidamente e o assoalho do canal notocordal desaparece, com o remanescente desse processo formando a placa notocordal, achatada e com um sulco; Iniciando pela extremidade cefálica do embrião, as células da notocorda proliferam e a placa notocordal se dobra, formando a notocorda; A parte proximal do canal notocordal persiste, temporariamente, como o canal neuroentérico, que forma uma comunicação transitória entre as cavidades dos sacos amniótico e vitelino. Normalmente, o canal neuroentérico se oblitera ao fim do desenvolvimento da notocorda; A notocorda separa-se do endoderma do saco vitelino, que novamente se torna uma camada contínua. A notocorda se estende da membrana bucofaríngea ao nó primitivo, degenerando- se e desaparecendo quando os corpos vertebrais se formam, mas persiste como o núcleo pulposo de cada disco intervertebral. Essa estrutura atua como o indutor primário do embrião inicial, estimulando o ectoderma subjacente a espessar-se e formar a placa neural, primórdio do sistema nervoso central. O ALANTOIDE: O alantoide surge por volta do 16º dia como uma pequena evaginação em forma de salsicha da parede caudal do saco vitelino que se estende até o pedículo do embrião. Em embriões de répteis, aves e outros mamíferos essa região se expande, ocupando a maior parte do espaço entre âmnio e córion, tendo função respiratória ou de reservatório para a urina durante a fase embrionária, porém, no desenvolvimento humano o alantoide permanece muito Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO pequeno, mas o mesoderma alantoide se expande abaixo do córion e forma os vasos sanguíneos que servirão à placenta. A parte proximal do divertículo alantoide original persiste durante a maior parte do desenvolvimento como uma linha chamada úraco, que se estende da bexiga até a região umbilical. O úraco é representado nos adultos pelo ligamento umbilical mediano. Os vasos sanguíneos do alantoide tornam-se as artérias umbilicais. NEURULAÇÃO: Os fenômenos envolvidos na formação da placa neural e das pregas neurais e o fechamento destas para criação do tubo neural constituem a neurulação, processo que se encerra na 4ª semana, quando ocorre o fechamento do neuroporo caudal. Nessa fase, o embrião pode ser chamado de nêurula. Com o desenvolvimento da notocorda, o ectoderma embrionário acima dela se espessa, formando uma placa alongada, em forma de chinelo, de células epiteliais espessadas, a placa neural. O ectoderma dessa placa (neuroectoderma) dá origem ao sistema nervoso central (encéfalo e medula espinhal) e outras estruturas, como a retina. Inicialmente, a placa neural alongada corresponde, em comprimento, à notocorda subjacente. Ela aparece cefalicamente ao nó primitivo e dorsalmente à notocorda e ao mesoderma adjacente a esta. Enquanto a notocorda se alonga, a placa neural se alarga e se estende cefalicamente até a membrana bucofaríngea. Finalmente, a placa neural ultrapassa a notocorda. Por volta do 18º dia, a placa neural se invagina ao longo de seu eixo central, formando um sulco neural mediano, com pregas neurais em ambos os lados, particularmente proeminentes na extremidade cefálica do embrião, constituindo os primeiros sinais de desenvolvimento encefálico. No fim da terceira semana, as pregas neurais já começaram a se aproximar e a se fundir, convertendo a placa neural em tubo neural, o primórdio do SNC. O tubo neural logo se separa do ectoderma da superfície, assim que as pregas neurais se encontram. As células da crista neural sofrem uma transição, de epiteliais se tornam mesenquimais, e se afastam à medida que as pregas neurais se encontram, e as bordas livres do ectoderma se fundem, tornando essa camada contínua sobre o tubo neural e as costas do embrião. Subsequentemente, o ectoderma da superfície diferencia-se na epiderme. A neurulação é completada durante a quarta semana. Com a fusão da placa neural algumas células neuroectodérmicas dispostas ao longo da crista de cada prega neural, perdem sua afinidade com o epitélio e suas adesões às células vizinhas. Quando o tubo neural se separa do ectoderma da superfície, as células da crista neural formam uma massa achatada irregular, a crista neural, entre o tubo neural e o ectoderma superficial suprajacente. Logo essa crista se separa em partes direita e esquerda, que migram para as regiões dorsolaterais do tubo neural, onde originam os gânglios sensitivos dos nervos cranianos e espinhais, além dos gânglios do sistema nervoso autônomo. As células da crista neural depois se movem tanto para dentro quanto sobre a superfície dos somitos. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Além de formarem as células ganglionares, as células da crista neural formam as bainhas de neurilema dos nervos periféricos e contribuem para a formação de leptomeninges. Contribuem também para a criação de células pigmentares, células da medula da suprarrenal e vários componentesmusculares e esqueléticos da cabeça. Estudos laboratoriais indicam que as interações celulares tanto na superfície do epitélio quanto entre ele e o mesoderma subjacente são necessárias para estabelecer os limites da placa neural e especificar os locais onde vai ocorrer a transformação epitelial-mesenquimal. Estas são mediadas por proteínas morfogenéticas do osso, Wnt, Notch e FGF. Além disso, moléculas como efrinas são importantes guias das vias de migração das células da crista neural. DESENVOLVIMENTO DOS SOMITOS: Além da notocorda, as células derivadas do nó primitivo também formam o mesoderma paraxial, evidente como uma coluna grossa e longitudinal de células. Cada coluna está em continuidade com o mesoderma intermediário, que se adelgaça gradualmente para formar a camada de mesoderma lateral, contínuo ao mesoderma extraembrionário que cobre o saco vitelino e o âmnio. Próximo ao fim da terceira semana, o mesoderma paraxial diferencia-se e começa a dividir-se em pares de corpos cuboides, os somitos, formados em sequência cefalocaudal. Esses blocos de mesoderma estão localizados em cada lado do tubo neural em desenvolvimento. Cerca de 38 pares são formados ao longo do período somítico do desenvolvimento humano (20º ao 30º dia), ao passo que na quinta semana 42 a 44 pares são visíveis (aparentam ser triangulares em secção transversal), permitindo assim a verificação da idade do embrião. Os somitos aparecem primeiro na futura região occipital do embrião. Logo avançam cefalocaudalmente, dando origem à maior parte do esqueleto axial e aos músculos associados, assim como à derme da pele adjacente. A progressão ordenada da segmentação envolve um mecanismo de relógio (oscilador) da expressão dos genes, em particular os de Notch. Além disso, axônios motores do cordão espinhal inervam as células musculares nos somitos, um processo que exige uma orientação correta dos axônios do cordão espinhal para as células-alvo adequadas. DESENVOLVIMENTO DO CELOMA INTRAEMBRIONÁRIO: O primórdio do celoma intraembrionário, a cavidade do corpo do embrião, surge como espaços celômicos isolados no mesoderma lateral e no mesoderma cardiogênico. Esses espaços logo se fusionam, formando uma cavidade única em forma de ferradura (o próprio celoma intraembrionário), que divide o mesoderma lateral em duas camadas, a parietal (somática), localizada sob o epitélio ectodérmico e contínua ao mesoderma extraembrionário, e a visceral (esplâncnica), adjacente à endoderme e também contínua ao mesoderma extraembrionário. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO O mesoderma somático e o ectoderma sobrejacente do embrião formam a parede do corpo do embrião ou somatopleura, enquanto o mesoderma esplâncnico e o endoderma subjacente compõem o intestino embrionário ou esplancnopleura. No segundo mês, o celoma intraembrionário está dividido em três cavidades corporais, a pericárdica (que contém o coração), a pleural (abriga os pulmões), e a peritoneal (comporta as vísceras abaixo do diafragma). DESENVOLVIMENTO INICIAL DO SISTEMA CARIOVASCULAR: No fim da segunda semana, a nutrição do embrião é obtida do sangue materno, por difusão através do celoma extraembrionário e do saco vitelino. No início da terceira semana, iniciam-se a vasculogênese e a angiogênese no mesoderma extraembrionário do saco vitelino, do pedículo do embrião e do córion. Os vasos sangüíneos do embrião começam a se desenvolver cerca de 2 dias mais tarde. A formação inicial do sistema cardiovascular está correlacionada com a necessidade urgente dos vasos sanguíneos de trazer oxigênio e nutrientes para o embrião a partir da circulação materna, através da placenta. Durante a terceira semana, desenvolve-se o primórdio de uma circulação uteroplacentária. A vasculogênese é a formação de novos canais vasculares pela reunião de precursores celulares individuais chamados angioblastos. A angiogênese, por sua vez, é a formação de novos vasos pela ramificação de estruturas pré-existentes. A formação de vasos sanguíneos no embrião e em suas membranas externas pode ser resumida da seguinte forma: Células mesenquimais (derivadas do mesoderma) se diferenciam em precursoras de células endoteliais, os angioblastos, que se agregam e formam grupos de células angiogênicas, as ilhotas sanguíneas, que são associadas ao saco vitelino ou cordões endoteliais do embrião; Dentro das ilhotas, fendas intercelulares confluem, formando pequenas cavidades; Os angioblastos se achatam, tornando-se células endoteliais que passam a se depositar em torno das cavidades supracitadas formando o endotélio; Canais endoteliais são formados pela fusão das cavidades revestidas (vasculogênese); Os vasos avançam para locais adjacentes por brotamento endotelial e se juntam a outros vasos. As células sanguíneas desenvolvem-se a partir de células endoteliais dos vasos à medida que eles se desenvolvem nas paredes do saco vitelino e do alantoide, no fim da terceira semana. A hematogênese só terá início na 5ª semana, ocorrendo primariamente no fígado, depois no baço, na medula óssea e nos linfonodos. As células mesenquimais que circundam os vasos sanguíneos endoteliais primitivos Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO diferenciam-se nos elementos musculares e conjuntivos dos vasos. Estágios do desenvolvimento do sangue e dos vasos sanguíneos. A: Vista lateral do saco vitelino e de parte do saco coriônico (cerca de 18 dias). B: Vista dorsal do embrião exposto pela remoção do âmnio. C a F: Secções de ilhotas sanguíneas mostrando os estágios sucessivos do desenvolvimento do sangue e dos vasos O coração e os grandes vasos surgem de células mesenquimais da área cardiogênica. Na 3ª semana é formado um par de canais longitudinais revestidos por endotélio, os tubos cardíacos endocárdicos, que se fundem, compondo o tubo cardíaco primitivo. Esse coração tubular se une a vasos sanguíneos do embrião, do pedículo, do córion e do saco vitelino para formar o sistema cardiovascular primitivo. No fim da terceira semana, o sangue circula e o coração começa a bater (21º ou 22º dia). O sistema cardiovascular é o primeiro a alcançar um estado funcional. Os batimentos cardíacos fetais (BCF) podem ser detectados por ultrassonografia com técnica de Doppler na 5ª semana, cerca de sete semanas após o último sangramento menstrual normal. DESENVOLVIMENTO DAS VILOSIDADES CORIÔNICAS: Pouco depois da formação das vilosidades coriônicas primárias, no fim da segunda semana, elas começam a ramificar-se. No início da terceira semana, o mesênquima penetra as vilosidades primárias formando um eixo central de tecido mesenquimal. Nesse estágio, as vilosidades (já chamadas vilosidades coriônicas secundárias) recobrem todo o saco coriônico. Algumas células mesenquimais dessas estruturas diferenciam-se rapidamente em capilares e células sanguíneas. Quando isso ocorre, as vilosidades passam a ser denominadas por vilosidades coriônicas terciárias. Esses capilares se fundem, criando assim várias redes arteriocapilares que se conectam ao coração embrionário através de vasos diferenciados do pedículo e do córion. No fim da terceira semana, o sangue do embrião começa a fluir lentamente através dos capilares das vilosidades coriônicas. Oxigênio e nutrientes do sangue materno presente no espaço interviloso difundem-se através das paredes das vilosidades e penetram o sangue do embrião. CO2 e demais resíduos são difundidos do sangue nos capilares fetais para o sangue materno através das paredes das vilosidades. As células citotrofoblásticas, na parte distal das vilosidades, proliferam e formam colunas que atravessam o sinciciotrofoblastoe se fixam ao estroma endometrial (vilosidades Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO ancorantes). Essas células citotrofoblásticas juntam-se umas às outras para compor o manto citotrofoblástico, apoiando firmemente o saco coriônico ao endométrio. As vilosidades que crescem dos lados das vilosidades de ancoragem constituem as vilosidades terminais, por meio das quais se dá a maior parte das trocas de material entre o sangue da mãe e do embrião. As vilosidades terminais são banhadas por sangue materno do espaço interviloso, que é trocado continuamente. QUARTA SEMANA – PERÍODO EMBRIONÁRIO E ORGANOGÊNESE: Grandes modificações internas e externas ocorrem entre a 4ª e a 8ª semana, sendo que ao final desse período os principais sistemas de órgãos já começaram a se desenvolver, ainda que sem funcionamento expressivo. Com a criação dessas estruturas, a forma do embrião muda, apresentando aspectos marcadamente humanos na oitava semana. A exposição do embrião a teratogênicos (drogas e vírus, por exemplo) nessa fase pode causar anomalias congênitas. Logo ao se iniciar a 4 a semana, curvaturas longitudinais (cefálica e caudal) e laterais (direita e esquerda) convertem o disco embrionário, achatado, com 4 a 12 somitos, em um embrião cilíndrico, em forma de “C”. A formação dessas curvaturas termina por circunscrever o embrião na vesícula vitelina, sendo que parte dela será incorporada pelo embrião, formando o intestino primitivo, e o restante constituirá o remanescente da vesícula vitelina secundária. Das curvaturas laterais emanam as paredes laterais e ventral do corpo. Com o dobramento cefálico ventral, parte da camada endodérmica é incorporada pela região cefálica do embrião, formando o intestino anterior. O dobramento da região cefálica também leva a membrana bucofaríngea e o coração a se deslocarem ventralmente, tornando o encéfalo em desenvolvimento a parte mais cefálica do embrião. O dobramento ventral da eminência caudal é o momento em que parte da camada germinativa endodérmica é incorporada pela extremidade caudal do embrião, constituindo o intestino posterior. A parte terminal do intestino posterior se expande, formando a cloaca. O dobramento da região caudal também resulta no deslocamento da membrana cloacal, do alantoide e do pedículo do embrião para a superfície ventral do embrião. A conexão do intestino com a vesícula vitelina fica reduzida ao pedículo ou canal vitelino. A região de ligação do âmnio com a superfície ventral do embrião fica, também, reduzida a uma região umbilical relativamente estreita. Com a transformação do pedículo do embrião no cordão umbilical, a fusão ventral das pregas laterais reduz a região de comunicação entre as cavidades celômicas intraembrionárias e extraembrionárias a uma comunicação estreita. A medida que a cavidade amniótica se expande e oblitera a maior parte do celoma extraembrionário, o âmnio passa a formar o revestimento epitelial do cordão umbilical. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO As três camadas germinativas (ectoderma, mesoderma e endoderma), formadas durante a gastrulação, dão origem aos primórdios de todos os tecidos e órgãos. No entanto, a especificidade das camadas germinativas não é rigidamente fixa. As células de cada camada se dividem, migram, se agregam e se diferenciam seguindo padrões bastante precisos ao formar os vários sistemas de órgãos. Os principais derivados das camadas germinativas são: Ectoderma: dá origem ao SNC, ao sistema nervoso periférico, aos epitélios sensoriais do olho, orelha e nariz, à epiderme e aos seus anexos (pêlos e unhas), às glândulas mamárias, à hipófise, às glândulas subcutâneas e ao esmalte dos dentes. As células da crista neural, derivadas do neuroectoderma, dão origem às células dos gânglios espinhais, do crânio (nervos cranianos, V, VII, IX e X) e gânglios autônomos, além das células que formam as bainhas do sistema; Mesoderma: dá origem ao tecido conjuntivo, cartilagem, osso, músculos estriados e lisos, coração, vasos sanguíneos e linfáticos, rins, ovários e testículos, duetos genitais, membranas serosas que revestem as cavidades do corpo, o baço e ao córtex das suprarrenais; Endoderma: origina o revestimento epitelial dos tratos gastrointestinal e respiratório, o parênquima das tonsilas, das glândulas tireoide e paratireóides, do timo, do fígado e do pâncreas, o revestimento epitelial da bexiga e maior parte da uretra e ao revestimento epitelial da cavidade timpânica, do antro do tímpano e da tuba faringotimpânica (auditiva). O tubo neural forma-se em frente aos somitos, mas tem aberturas amplas nos neuroporo rostral (anterior) e caudal (posterior). Com 24 dias os arcos faríngeos são visíveis, com o primeiro (mandibular) e o segundo (hioideo) individualizados. A principal parte do primeiro arco dá origem à mandíbula, e uma extensão rostral do arco, a proeminência maxilar, contribui para a formação da maxila. O embrião está, agora, levemente encurvado por causa das pregas cefálica e caudal. O coração forma uma grande saliência ventral e bombeia sangue. Três pares de arcos faríngeos são visíveis aos 26 dias, e o neuroporo rostral já se fechou. O encéfalo anterior produz uma elevação saliente na cabeça, enquanto o dobramento do embrião lhe dá uma curvatura em C. Os brotos dos membros superiores tornam-se reconhecíveis aos 26 ou 27 dias como pequenas intumescências na parede ventrolateral do corpo. As fossetas óticas, primórdios das orelhas internas, Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO também são visíveis. Nos lados da cabeça são visíveis espessamentos ectodérmicos, denominados placóides do cristalino, que indicam os futuros cristalinos dos olhos. O quarto par de arcos faríngeos e os brotos dos membros inferiores são visíveis no fim da quarta semana. Próximo ao fim da quarta semana, uma longa eminência caudal é uma característica típica. Rudimentos de muitos sistemas de órgãos já foram estabelecidos, principalmente do sistema cardiovascular. Ao fim da 4ª semana o neuroporo caudal encontra-se geralmente fechado. ULTRASSONOGRAFIA E IDADE GESTACIONAL: A determinação da idade gestacional é um dos pilares da medicina perinatal e obstétrica. Se a data da última menstruação (DUM) for conhecida, ela é empregada como base para esse cálculo, além de poder determinar a data provável do parto (DPP). Se a DUM for desconhecida, a idade gestacional pode ser estimada corretamente por ecografia/ultrassonografia (indicam o mesmo exame, mas a diferença está no fato de que o primeiro indica o efeito [formação de ecos] e o último faz menção à causa [ultrassom para formar ecos]) até a 22ª semana de gestação. Um melhor conhecimento da IG tem efeitos benéficos e evidentes na população, ao permitir o rastreio da restrição de crescimento intrauterino e ao evitar a falsa pós-maturidade, reduzindo assim o número de intervenções desnecessárias e orientando decisões médicas mais ajustadas. Vários métodos podem ser utilizados para calcular a idade gestacional, como: História clínica: o DUM: Não é a forma mais fidedigna de cálculo, pois diversos fatores podem afetar a validade do método, como ciclos irregulares ou abandono recente (< 3 meses) de métodos contraceptivos orais. Em 10 a 45% das gestantes a DUM não é conhecida, seja pelos fatores supracitados ou pela realização de cálculos incorretos e uso faltoso de auxiliares de memória ou até mesmo pela inconstância dos ciclos menstruais com a contagem mensal, uma vez que esse padrão não é universal para todas as mulheres. Para calcular esse índice, utiliza-se a regra de Nagele, que consiste em adicionar à data daúltima menstruação 7 dias e mais 9 meses (ou menos 3 meses, quando se faz o cálculo para meses após abril). o Dosagem de a β-HCG; Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO o Dosagens hormonais e verificação da temperatura basal (determinação da ovulação); o Percepção materna dos movimentos fetais. Exame físico: o Altura uterina; o Ausculta dos BCF. Ultrassonografia; Dados antropométricos pós-natais. Na primeira metade da gravidez, o crescimento fetal apresenta um padrão de desenvolvimento notavelmente constante, próprio da espécie, independente do sexo, do grupo étnico, das condições geográficas e socioeconômicas. Depois dessa altura, a variação do crescimento fetal está associada a intervalos de confiança maiores, diminuindo assim a precisão do cálculo da IG por ultrassonografia. A identificação do saco gestacional pode se dar desde após duas a três semanas de gravidez (ou quatro a cinco semanas de idade gestacional, visto que é um costume obstétrico se acrescentar ao tempo de gravidez as duas semanas que precedem a ovulação). Para este propósito, a ecografia obstétrica por via transvaginal é a mais indicada por possibilitar uma melhor formação da imagem. Além disso, essa técnica pode assegurar o número de gestações que se estão desenvolvendo, bem como a sua localização, usualmente intrauterina. É comum ser necessária a confirmação da viabilidade do embrião, principalmente na vigência de sangramento. Neste caso, a ecografia pode mostrar a atividade cardíaca do embrião a partir de 6 semanas quando utilizada a técnica transvaginal, ou a partir de 7 semanas, se visualizado através da parede abdominal. Até 13 semanas, a idade da gravidez avaliada pela medida do comprimento cabeça-nádega (CCN) tem uma acurácia de ± 5-7 dias. Se a US realizada nesse período tiver uma discrepância > 7 dias, a data da gravidez estimada pela última menstruação deve ser trocada pela idade sonográfica. Antes de 9 semanas uma discrepância maior que 9 dias é apropriada para alterar a data estimada da gravidez. Na gravidez muito precoce (< 5 semanas), a idade gestacional calculada por exames de imagem é imprecisa, baseada nos diâmetros médio ou máximo do saco coriônico: o diâmetro médio baseia-se na média das três medidas (diâmetro longitudinal, anteroposterior e transversal). No início da quarta semana, o diâmetro é de 2-3 mm, atingindo 9-10 mm quando a vesícula vitelina se toma visível. Uma vez identificado o embrião, o comprimento deste deve ser adotado como referencial para o cálculo da IG. Antes da 10ª semana o que se mede verdadeiramente é o comprimento fetal e não o comprimento cabeça-nádega (também chamado comprimento craniocaudal, CCC), que pode ser averiguado após esse marco por meio da curvatura embrionária. Um CCC medido entre as 9 e 14 semanas tem um erro máximo de cinco dias, possuindo uma acuidade superior ao diâmetro biparietal, medido no segundo trimestre, na determinação da idade gestacional, mas semelhante na estimativa da data provável do parto. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO A idade gestacional por ultrassonografia no 2º trimestre é fornecida pelo diâmetro biparietal (DBP) ou pelo comprimento do fêmur (CF). Entre 14 e 21 semanas a acurácia é de ± 10 a 14 dias. A idade da gravidez estimada pelo exame deste período não deve ser trocada se diferir daquela referida pela ecografia de 1º trimestre. Ultrassom evidenciando o diâmetro biparietal (avalia o diâmetro entre os ossos parietais) A idade da gravidez estimada pelo ultrassom de 3 o trimestre (28 semanas em diante), também avaliada pelo DBP ou pelo CF, é a mais imprecisa, com acurácia de ± 21 a 30 dias. Ultrassom evidenciando comprimento do fêmur fetal Considerando o atual conceito do termo da gravidez (37 semanas + 0 dias a 41 semanas + 6 dias) adotado pela OMS, seguem as novas definições sobre o tema: Termo-precoce: 37 semanas e 0 dias a 38 semanas e 6 dias; Termo-completo: 39 semanas e 0 dias a 40 semanas e 6 dias; Termo-tardio: 41 semanas e 0 dias a 41 semanas e 6 dias; Pós-termo: ≥42 semanas. O PAPEL DO ÁCIDO FÓLICO NA GESTAÇÃO: O ácido fólico, folacina ou ácido pteroil-L- glutâmico é uma vitamina hidrossolúvel pertencente ao complexo B, também conhecido como vitamina B9 ou vitamina M. Apresenta papel fundamental no processo de multiplicação celular, na formação de proteínas estruturais e da hemoglobina. O folato é a forma natural encontrada nos alimentos, predominantemente, em vegetais de folhas verde-escuras, couve, brócolis, aspargos, espinafre, feijão, lentilha, grão-de- bico, amendoim, ervilha, milho, morango, kiwi, suco de laranja e fígado, porém, o cozimento prolongado pode destruir até 90% do conteúdo de folato desses alimentos. O ácido fólico, por sua vez, representa a versão sintética do folato, utilizada como suplemento nutricional e fortificante de alimentos, podendo ser transportado através de membranas. No adulto normal, a necessidade diária mínima tem sido estimada em 50 µg, enquanto a mulher grávida ou em lactação e os pacientes com altas taxas de renovação celular (anemia hemolítica) podem necessitar de até 100 a 200 µg por dia, ou mais. O folato interfere no aumento do volume dos eritrócitos, das células miometriais do útero gravídico e do crescimento da placenta e do feto. Atua como coenzima no metabolismo de aminoácidos, na síntese de purinas e pirimidinas e dos ácidos nucleicos (DNA e RNA), sendo vital para a divisão celular e síntese proteica. Uma fonte exógena de folato é necessária para a síntese de nucleoproteínas e manutenção da eritropoiese normal. O ácido fólico não é ativo como tal, mas o precursor do ácido tetrahidrofólico, envolvido como co- fator na transferência de C-1 na biossíntese de purinas e timidinas dos ácidos nucléicos. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Falha na síntese de timidilato em pacientes com deficiência de ácido fólico dificulta a síntese de DNA, levando à formação de anemias megaloblástica e macrocíticas. O ácido fólico é absorvido rapidamente pelo trato intestinal, principalmente na porção proximal do intestino delgado. Após absorção, o ácido fólico é reduzido e metilado no fígado em ácido metiltetra- hidrofólico, a principal forma de transporte do folato no corpo. O ácido tetra-hidrofólico e seus derivados são distribuídos a todos os tecidos, mas o fígado contém cerca da metade do total de folato armazenado. Esse nutriente é ativamente concentrado no líquido cérebro-espinhal e distribuído no leite materno. A deficiência de vitamina B9 manifesta-se em diversos graus, atribuídos a uma miríade de causas, como dieta pobre em carboidratos (pães e massas são feitas com cereais enriquecidos), uso de alguns medicamentos, consumo elevado de alimentos orgânicos (não são suplementados com ácido fólico), e condições médico-cirúrgicas associadas à má absorção desse nutriente, como observado em pacientes com doença de Crohn ou após ressecção intestinal. Casos de depleção de folato podem impedir a renovação celular adequada durante o processo de fechamento do tubo neural embrionário, culminando em sua formação incompleta. (defeito aberto do tubo neural – DATN). O DATN inclui anencefalia, espinha bífida aberta (mielomeningocele) e a encefalocele, que têm incidência em torno de 1 a cada mil nascimentos. A anencefalia (acrania) é um defeito caracterizado pela ausência da calota craniana e da pele que a recobre, de tal modo que o tubo neural da porção craniana é exposto e há degeneração secundária do encéfalo. Esse grave defeito é incompatível com a vida extrauterina, fazendo com que a maioria dos óbitos ocorra no útero ou poucas horasapós o parto. A espinha bífida aberta (mielodisplasia ou mielomeningocele) caracteriza-se pela ausência do arco neural e da pele que o recobre, com lesão secundária dos nervos expostos. A encefalocele é um defeito craniano que geralmente ocorre na região occipital, com herniação cística preenchida por líquido ou tecido cerebral. A deficiência de ácido fólico pode determinar o acúmulo sérico de homocisteína, podendo associar-se à síndrome hipertensiva da gestação, ao descolamento prematuro de placenta, a abortamentos espontâneos de repetição, a partos prematuros, ao baixo peso ao nascer, à restrição de crescimento fetal, a algumas doenças crônicas cardiovasculares, cerebrovasculares, demência e depressão. Estudos evidenciam que a ingestão de ácido fólico possa diminuir o risco de cânceres infantis, com redução de 60% na incidência de neuroblastoma, tumor de origem embrionária apontado como o mais prevalente tumor sólido extracraniano em crianças. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Quanto às anomalias congênitas, há consenso na literatura de que a reposição periconcepcional de ácido fólico previne o DATN, sendo motivo de controvérsia em relação a outras anomalias, incluindo cardiopatias congênitas, anomalias do trato urinário, fendas faciais, defeitos nos membros e estenose pilórica. Mulheres que utilizaram ácido fólico em dose diária de 400 µg por mais de 12 meses antes da concepção tiveram redução de 70% da incidência de partos entre 28 e 30 semanas, de 50% entre 30 e 32 semanas e de 34% na incidência de rotura prematura das membranas antes de 32 semanas de gestação, quando comparadas às mulheres que não o utilizaram. Informar às mulheres em idade fértil sobre a importância do ácido fólico e encorajá-las a aumentar seu consumo provavelmente seja a mais relevante indicação da suplementação periconcepcional do ácido fólico sintético, uma vez que se associa com significativa melhora dos indicadores de saúde materna e neonatal, influenciando diretamente na saúde da família e da sociedade. No Brasil, a Agência de Vigilância Sanitária, por meio da resolução da diretoria colegiada nº 344, tornou obrigatória a adição de ferro e de ácido fólico nas farinhas de trigo e nas farinhas de milho pré-embaladas na ausência do cliente e prontas para oferta ao consumidor, as destinadas ao uso industrial, incluindo as de panificação e as farinhas adicionadas nas pré-misturas, devendo cada 100 g de farinha de trigo e de farinha de milho fornecer no mínimo 4,2 mg de ferro e 150 µg de ácido fólico. No entanto, a maioria das mulheres em idade fértil não consome diariamente quantidade suficiente de ácido fólico para proteger sua gestação contra esse grave defeito congênito. Assim, para obter a quantidade diária recomendada de ácido fólico, a maioria das mulheres terá de mudar seus hábitos alimentares, o que pode causar incompatibilidade com seu estilo de vida. Igualmente, além de a biodisponibilidade do folato ser afetada por vários fatores, incluindo o fato de o alimento ser cru ou cozido, a forma como ele é preparado, a combinação de alimentos consumidos e fatores locais do hospedeiro, a biodisponibilidade do ácido fólico sintético parece ser substancialmente superior à do folato de alimentos naturais. A suplementação prescrita para gestantes é de 0,4 mg por dia, enquanto mulheres com história de gestação com DATN devem fazer uso de 4 mg diárias do composto, 1 mês antes e nos 3 primeiros meses da nova gravidez. Nota-se que a suplementação regular com ácido fólico sintético para todas as mulheres em idade fértil com risco potencial para engravidar deve ser considerada, pois tal ação maximizará as chances de uma gravidez saudável e minimizará a possibilidade de ter uma criança com DATN. Os riscos da suplementação de ácido fólico durante a gestação recaem mais sobre interações medicamentosas, reações alérgicas e efeitos cancerígenos, além de poder mascarar um quadro de deficiência de vitamina B12 (o que não é comum em mulheres na idade fértil). FATORES DE RISCO PARA DEFEITOS ABERTOS DO TUBO NEURAL: 95% das mulheres que tiveram gestações afetadas por crianças com DATN não apresentam história familiar ou pessoal positiva, mas alguns fatores de risco são bem conhecidos, como: História anterior de filho diagnosticado com DATN; Uso de medicações anticonvulsivantes; Baixo nível socioeconômico; Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Diabetes insulinodependente; Uso de medicamentos antagonistas de folato; Obesidade; Síndromes de má absorção; Exposição a altas temperaturas no início da gravidez (ex.: febre alta); Etnia (mais prevalente em mulheres caucasianas do que negras, e mais comum em hispânicas que em mulheres não latinas). PROBLEMA 3 - ABERTURA: EMBRIOGÊNESE ENTRE A 5ª E A 8ª SE MANA DE GESTAÇÃO: QUINTA SEMANA: As mudanças que ocorrem nesse período são menores que aquelas observadas na semana anterior, entretanto o crescimento da cabeça excede o das demais regiões. Esse aumento é causado principalmente pelo desenvolvimento encefálico e das proeminências faciais. A face entra em contato com a proeminência cardíaca. O segundo arco faríngeo cresce rapidamente sobre o terceiro e quarto arcos, formando uma depressão ectodérmica lateral em ambos os lados, o seio cervical. As cristas mesonéfricas indicam o local dos rins mesonéfricos, que, nos seres humanos, são órgãos provisórios. SEXTA SEMANA: Nesse período, o embrião apresenta resposta reflexa ao toque. O desenvolvimento dos cotovelos e das placas das mãos fazem com que os membros superiores comecem a expressar uma diferenciação regional perante o resto do corpo, o que também ocorre com os raios digitais, primórdios precursores dos dedos. O desenvolvimento dos membros inferiores ocorre de 4 a 5 dias após o dos membros superiores. Embriões mostram movimentos espontâneos, com contrações musculares ocorrendo principalmente nos membros e no tronco. Várias intumescências pequenas, denominadas saliências auriculares, desenvolvem-se em torno da fenda faríngea, entre os dois primeiros arcos faríngeos. Esse sulco irá compor futuramente o meato acústico externo, ao passo que as elevações periféricas se fundem, formando o pavilhão auricular (orelha, porção em forma de concha). Nesse período o olho já se mostra bem evidente, principalmente pelo surgimento do pigmento da retina. A cabeça é muito maior que o tronco, apresentando-se encurvada sobre a proeminência cardíaca, fenômeno oriundo da flexão da região cervical. Tronco e pescoço começam a se endireitar. Os intestinos penetram no celoma extraembrionário na região proximal do cordão umbilical. Essa herniação é fisiológica, e ocorre devido ao tamanho reduzido da cavidade abdominal para comportar o intestino em amplo crescimento. SÉTIMA SEMANA: Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Essa etapa da organogênese embrionária promove mudanças consideráveis nos membros. Chanfraduras aparecem entre os raios digitais das placas das mãos, remetendo claramente aos dedos que se desenvolverão. O intestino e o saco vitelino têm sua comunicação reduzida a um ducto estreito, o pedículo vitelino. Ao fim dessa semana já foi deflagrado o processo de ossificação dos membros superiores. OITAVA SEMANA: No começo da última semana do período embrionário, os dedos da mão já estão separados, porém uma membrana ainda ocupa os espaços interdigitais. Sulcos são vistos entre os raios digitais dos pés, e a eminência caudal ainda é perceptível, mesmo que mais curta, regredindo até que desapareça antes da fase fetal. No término da 8ª semana, todas as regiões dos membrossão evidentes, os dedos e mostram mais compridos e completamente afastados. O plexo vascular do couro cabeludo já se encontra presente, formando uma faixa característica que envolve a cabeça do embrião. Nesse período ocorrem também os primeiros movimentos voluntários de MMSS e MMII, sendo que a ossificação desses últimos começa pelo fêmur. As mãos e os pés aproximam-se ventralmente uns dos outros. Nesse estágio, o embrião já possui características marcadamente humanas, mas a cabeça ainda é desproporcionalmente grande, representando quase metade do embrião. A região do pescoço se encontra mais bem definida e as pálpebras são mais demarcadas, começando a unirem-se por fusão epitelial. Os intestinos ainda estão na porção proximal do cordão umbilical. Os pavilhões auriculares começam a assumir sua forma final. Apesar de já existirem diferenças entre os sexos na aparência da genitália externa, elas não são suficientemente distintas para possibilitar uma identificação precisa do sexo. ETIOLOGIA, MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS E DIAGNÓSTICO DOS TIPOS DE ABORTO: O abortamento pode ser definido como a interrupção da gravidez antes que o concepto seja viável para a vida extrauterina. A OMS, por sua vez, classifica o aborto como a expulsão ou extração do feto antes da 20ª semana de gestação ou com menos de 500g. O aborto pode ser classificado de duas maneiras distintas, a saber: Intenção: pode ser espontâneo (sem ação deliberada de qualquer natureza) ou induzido/provocado (resultante de interferência intencional antes de Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO alcançadas as condições mínimas de sobrevivência extrauterina); Cronologia: denomina-se aborto precoce aquele que ocorre até a 12ª semana de gestação, e aborto tardio se a ocorrência se der entre a 12ª e a 20ª semana. ETIOLOGIA DO ABORTAMENTO: O aborto, mais corretamente denominado como abortamento, apresenta diversas causas, desde alterações cromossômicas até o consumo de álcool na gravidez. ALTERAÇÕES CROMOSSÔMICAS: A maior parte dos abortos se dá antes das 12 semanas de gestação, e 50 a 80% deles apresentam alguma alteração a nível cromossômico, proporção esta que diminui com a evolução do ciclo gravídico. A trissomia autossômica é a alteração mais frequente ligada ao abortamento espontâneo no 1º trimestre, constituindo metade dos casos de perda gestacional de origem genética, afetando principalmente os cromossomos 16, 22, 21, 15, 13, 2 e 14. Erros durante a meiose II são a principal explicação para a ocorrência das trissomia, relacionando-se intimamente à idade materna avançada e seu impacto na diminuição da recombinação meiótica. A monossomia do cromossomo X é a segunda causa de modificação cromossômica que gera abortamentos, presente em cerca de 7 a 10% dos abortamentos precoces. A quase totalidade dos casos dessa monossomia (99%) evoluem para o aborto, sendo correlacionada principalmente à falta de um cromossomo sexual no gameta masculino, não existindo correlação com a idade da mãe. Triploidias estão relacionadas a um saco gestacional desproporcionalmente grande, com degeneração parcial das vilosidades coriônicas e hiperplasia do trofoblasto. O feto pode manifestar defeitos no tubo neural, dimorfismo facial, fenda labial e sindactilia. Os abortamentos triploides são geralmente relacionados a cariótipos do tipo 69 XXY ou 69 XXX, e originam-se da fecundação por dois espermatozoides (dispermia) ou por um espermatozoide que duplica seu genoma. Ocorrências de tetraploidia são muito raras, e a gestação normalmente não progride para além da 3ª semana. Em situações de abortamento habitual, 3 a 5% dos casais possuem alguma alteração cromossômica, principalmente aquelas relacionadas a translocação, inversões e mosaicismo do cromossomo X. A frequência de alterações cromossômicas em casais com abonamento habitual parece ser maior em mulheres jovens e com pais e irmãos afetados. A avaliação do cariótipo com bandeamento cromossômico do casal e do abono deve ser realizada em casos de abortamento habitual em que as perdas recorrentes são precoces. Em relação ao tratamento do fator cromossômico, de acordo com o diagnóstico propõe.se a fertilização in vitro, podendo-se utilizar o diagnóstico genético pré- implantação ou a doação de gametas. ALTERAÇÕES ENDÓCRINAS: Defeitos durante a fase lútea: A implantação do óvulo em endométrio mal preparado pela produção deficitária de progesterona pelo corpo lúteo já foi muito associada à ocorrência de abortos espontâneos e habituais, mas atualmente é considerada uma causa pouco provável para a perda gestacional. O diagnóstico é realizado por biópsias do endométrio e dosagem sérica de progesterona, ambos apresentando deficiências em seu método. Diabetes mellitus: Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO A taxa de abortamentos é mais elevada em mulheres com DM tipo 1 que não se encontram metabolicamente controladas ao início da gestação, risco este que não se repete para aquelas compensadas ou em quadro sub clínico. Tireopatias: Mulheres com alguma forma de tireopatia têm taxas de perdas gestacionais mais elevadas, no entanto a associação desse quadro com anticorpos antitireoidianos ou o uso dessas imunoglobulinas para tratamento ainda não encontra embasamento científico. Síndrome dos Ovários Policísticos: Cerca de 10% das mulheres em idade fértil são afetadas por essa condição, que está associada tanto a abortos espontâneos quanto habituais. Os possíveis mecanismos que justificam essa correlação são a maior resistência à insulina, que causa elevação do LH, obesidade e hiperandrogenismo. INFECÇÕES: Infecções maternas de origem bacteriana ou viral podem causar abortamento por lesões da decídua, da placenta, das membranas ovulares e do próprio concepto. Essa associação é clara para mulheres acometidas pelo Treponema pallidum (sífilis), mas não há relações causais tão bem estabelecidas para outros agentes etiológicos. CAUSAS UTERINAS: A presença de aderências intrauterinas pode afetar a implantação ovular, o que justifica o percentual de 15 a 30% das mulheres acometidas por esse quadro desenvolverem aborto de repetição. Para se evitar a formação de novas aderências após cauterização cirúrgica, preconiza-se a inserção de DIU ou administração de estrogênio (proliferação endometrial). Miomas uterinos e gravidez estão frequentemente associados, sendo mais relevante a localização do pólipo do que seu tamanho, sendo os miomas intramurais e submucosos os mais relacionados à presença de abortamentos. Em consequência do mioma, podem ocorrer deciduação deficiente na região de implantação do ovo e rápido crescimento tumoral, resultado dos hormônios produzidos na gestação, que pode culminar na liberação de citocinas, que contraem o útero e provocam perda gestacional. A incompetência cervical é uma condição que se caracteriza por perda fetal recorrente no segundo trimestre da gravidez, em consequência de insuficiência do sistema de oclusão do colo uterino. Essa inabilidade do colo uterino em manter-se convenientemente ocluído pode ser consequente a um defeito estrutural ou funcional. Geralmente ocorre dilatação cervical indolor, ausência de sangramento, protrusão das membranas ovulares na vagina e posterior rotura de membranas, seguida de expulsão fetal, na maioria das vezes com produto conceptual ainda vivo. Essa incompetência cervical pode ser causada por traumas, lacerações, curetagem ou até mesmo por alterações congênitas. O tratamento clássico da incompetência cervical é a realização da cerclagem do colo uterino, sutura circular que impede o encurtamento ou a abertura dessa estrutura uterina. FATORESIMUNOLÓGICOS: Causas autoimunes: Os anticorpos antifosfolipídicos estão implicados em várias complicações obstétricas, como abonamento habitual, restrição do crescimento fetal (RCF), prematuridade, doença hipertensiva específica da gestação, descolamento prematuro de placenta (DPP) e óbito fetal. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Os anticorpos antifosfolipídicos são famílias heterogêneas de imunoglobulinas C (IgC) e M (lgM) e, menos frequentemente, imunoglobulina A (lgA), que reagem contra fosfolípides de membrana carregados negativamente ou contra as proteínas ligadas a fosfolípides envolvidos com a coagulação. Os anticorpos antifosfolipídicos são responsáveis por fenômenos trombóticos, tanto arteriais como venosos, e encontram-se presentes entre 15 e 20% das mulheres com abortamento habitual. O mecanismo exato pelo qual esses anticorpos causam abonamento ainda não está completamente esclarecido. Causas aloimunes: A teoria aloimune para abortamentos de repetição baseia-se em resposta materna anormal para antígenos paternos, ou do trofoblasto. Partindo-se do princípio de que a desigualdade antigênica entre mãe e feto é fundamental para o progredir da gestação, na presença de histocompatibilidade materno-fetal exagerada pode ocorrer uma resposta imunológica alterada e paradoxal (agressora), ocasionando rejeição materna aos tecidos fetais, semelhante ao observado em transplantes. Esse descontrole do mecanismo imune normal provavelmente ocorre na interface materno-fetal, podendo envolver aumento de atividade de células NK uterinas, que regulam o crescimento da placenta e do trofoblasto, a imunomodulação local e o controle da invasão trofoblástica. TROMBOFILIAS HEREDITÁRIAS: Consistem em trombofilias (alterações que tornam o indivíduo mais propenso à trombose) hereditárias as deficiências da antitrombina e das proteínas C e Se as mutações do gene da protrombina, do fator V de Leiden e dos genes da enzima metilenotetraidrofolato redutase. As associações desse quadro com o abortamento ainda são controversas. USO DE AGENTES NOCIVOS: Tabagismo: A associação entre tabagismo e abortamento foi alvo de diversos estudos, e percebe-se que mulheres que fumam mais de 10 cigarros por dia apresentam maior risco de abortamento, originado da vasoconstricção e dos danos placentários induzidos pelo tabaco. Consumo de álcool: Alguns estudos associam de forma inconsistente o consumo moderado ou excessivo de álcool durante a gestação com um maior risco de abortamentos. Mesmo com a dificuldade em interpretar os resultados, gestantes devem evitar a ingestão de bebidas alcoólicas por seus efeitos teratogênicos. Consumo de cafeína: Não pode ser correlacionado de forma concreta ao aborto, mas alguns estudos relatam que mulheres que consomem mais de 500mg/dia de cafeína elevam o risco de perda gestacional. TRAUMA: Normalmente, atribui-se a ocorrência de abortamentos a alguma forma de trauma, seja por queda ou trauma abdominal direto. Essa ligação, no entanto, é dificultada no primeiro trimestre, uma vez que o embrião se encontra protegido de impactos no abdome, distanciando associações diretas com acidentes de baixa gravidade. No trauma grave, por sua vez, o produto conceptual pode enfrentar trauma direto ou ainda sofrer consequências danosas em função do esta· do hemodinâmico materno. FORMAS CLÍNICAS DO ABORTAMENTO: AMEAÇA DE ABORTAMENTO: Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Consiste fundamentalmente em hemorragia, que indica anomalia decidual e/ou descolamento do ovo, e dor, sinal de que o útero está se contraindo. Esquema que representa a placentação no 1º trimestre da gravidez normal (A) e no abortamento (B), com formação de tampões e invasão placentária mais acentuadas em A De modo geral, o fluxo sanguíneo na fase de ameaça é menor do que na interrupção inevitável. Os sangramentos precoces, de longa duração, escuros e do tipo “borra de café” são considerados mais sérios. Aproximadamente 30% das gestações apresentam sangramento no 1º trimestre, e metade delas resultam em aborto. As dores precedem, acompanham e normalmente sucedem a hemorragia. São provocadas por metrossístoles fugazes e intermitentes. Contrações regulares, como as do trabalho de parto, espelham processo irreversível. O exame físico confirma o útero aumentado (volume proporcional à IG), mas o toque não fornece muitas informações por não existirem mudanças cervicais. O exame especular pode afastar causas ginecológicas da hemorragia. DIAGNÓSTICO: Na ultrassonografia, não há alterações significativas (pode ser empregada para excluir possibilidade de gravidez ectópica por via transvaginal): o saco gestacional encontra-se íntegro e, caso haja embrião maior que 5 mm, é possível visualizar batimentos cardíacos embrionários. Quando ainda não há achado ultrassonográfico, pode-se lançar mão da dosagem quantitativa de β-HCG. De modo geral, quando esse hormônio está maior que 1.500 a 2.000mUI/ml, deve haver saco gestacional intrauterino. Além disso, em uma gestação normal, os valores de hCG aumentam 66% a cada 48 horas. Os sinais ultrassonográficos de mau prognóstico são saco gestacional irregular, frequência cardíaca fetal abaixo de 100 batimentos por minuto entre 5 e 7 semanas e hematomas subcoriônicos maiores que 25% do diâmetro do saco gestacional. Na vigência desses achados, a ultrassonografia deve ser repetida dentro de 7 a 10 dias. ABORTAMENTO INEVITÁVEL: Nos casos onde a amenorreia é recente e o ovo, pequeno, o processo pode ser confundido com menstruação, distinguindo- se pelo maior volume de sague, e pela presença de embrião e decídua à análise do material eliminado. Esse mecanismo é raro após 8 semanas (cório fixa o embrião à decídua), sendo que após esse marco as características passam a ser gradualmente semelhantes com aquelas do trabalho de parto. O diagnóstico é claro, pois geralmente o episódio é precedido por ameaça de aborto, sendo raras as manifestações iminentes de expulsão. As hemorragias são mais abundantes, e o sangue tem cor mais viva. O volume do útero corresponde à data da amenorreia, exceto quando a morte do ovo é antiga. O colo mostra-se permeável, Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO notando-se as membranas herniadas pelo orifício externo na cavidade uterina. A presença de quadro clinico inconfundível anula a necessidade de exames complementares. DIAGNÓSTICO: Em alguns casos, percebe-se a presença de material ovular ao exame físico ginecológico e o colo aberto, com sangramento e cólicas. É aquele caso em que a paciente chega ao atendimento eliminando o material, porém ainda não o fez por completo, também chamado por alguns de abortamento em curso. A comprovação diagnóstica é feita pelo encontro de restos ovulares na ultrassonografia. ABORTAMENTO COMPLETO: Frequente até a 8ª semana de gestação. É considerado abortamento completo aquele no qual a expulsão do ovo é acompanhada por término das cólicas e redução do sangramento a níveis discretos, sendo necessário acompanhar a evolução do caso para um diagnóstico completo. ABORTAMENTO INCOMPLETO: Relaciona-se com a eliminação parcial do embrião, que causa hemorragia persistente e intensifica os riscos de infecção. O abortamento incompleto é comum após 8 semanas de gestação, quando as vilosidades coriônicas ficam aderidas ao útero. Nos abortamentos tardios, a paciente consegue distinguir estruturas secundárias e o concepto e, geralmente, informa a eliminação apenas do feto. O sangramento não cessa, é intermitente, pode ser intenso, e ocorre porque os restos ovulares impedem a contração uterina adequada. As cólicaspersistem. O útero, amolecido, tem volume aumentado, mas o escoamento do líquido amniótico e, comumente do feto, reduz suas dimensões, que não são as previstas pela idade da gravidez. O colo está entreaberto ABORTAMENTO INFECTADO: Esse tipo de aborto geralmente é decorrente de interrupções gestacionais realizados em ambientes com más condições técnicas, mas esta não é sua única etiologia, podendo estar relacionado também com abortamentos espontâneos, sendo sua causa esclarecida pela anamnese. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Os microrganismos causadores são os existentes na flora do sistema genital e dos intestinos: cocos anaeróbios, E. coli, bacteroides, Clostridium perfringens, entre outros. Clinicamente, pode ser classificado em três formas: I – Endo(mio)metrite: Mais comum, a infecção se limita ao conteúdo da cavidade uterina, à decídua e, provavelmente, ao miométrio. Sua sintomatologia assemelha-se à do abortamento completo ou incompleto. São observadas pequenas elevações térmicas (pouco maior que 38ºC), dores discretas e bom estado geral. Não há sinais de irritação peritoneal, e tanto a palpação do abdome como o toque vaginal são tolerados. Hemorragia escassa é a regra; II – Pelviperitonite: A infecção progride, agora localizada no miométrio e nas estruturas secundárias, afetando todo o peritônio pélvico. A hemorragia não é fator relevante, pois o sangue escorre junto a líquido sanioso, de odor fecaloide, com presença de microrganismos anaeróbios. Se um abortamento incompleto suceder a infecção, como é usual, eliminam-se fragmentos do ovo. A temperatura está em torno de 39°C e o estado geral está afetado, com taquicardia, desidratação, paresia intestinal, anemia, e dores constantes e espontâneas. A defesa abdominal está limitada ao hipogástrio e não se estende ao andar superior do abdome. O exame pélvico é praticamente impossível, tal a dor despertada. Feito muito delicadamente, nota-se útero amolecido, mobilidade reduzida e paramétrios empastados. O colo costuma estar entreaberto. III – Peritonite: É a forma extremamente grave, com infecção generalizada. As condições da genitália são as mesmas da forma anterior. Há peritonite, septicemia e choque séptico, decorrentes, em geral, do acometimento por gram-negativos e demais microrganismos, sendo o acometimento por Clostridium mais grave por levar possivelmente a um quadro de síndrome do choque tóxico induzida por exotoxinas (insuficiência generalizada de órgãos por vazamento capilar). Temperatura elevada, mas, nem sempre, pulso rápido, filiforme, hipotensão arterial, abdome distendido, desidratação acentuada, oligúria e icterícia, são sinais gerais. Em outras pacientes, há endocardite, miocardite e subsequente falência do órgão. Tromboflebite pélvica e embolia pulmonar podem ser encontradas. As condições hemodinâmicas e infecciosas conduzem à infecção renal aguda. São comuns abscessos no fundo de saco posterior, entre as alças e os apêndices epiploicos, retroperitoneais, sub-hepáticos e subdiafragmáticos. ABORTAMENTO RETIDO: No abortamento retido, o útero retém o ovo morto por dias ou semanas, podendo ou não ocorrer sangramento vaginal. O útero mantém-se estacionário e pode até diminuir. A ultrassonografia não exibe BCF após o embrião ter atingido ≥ 7 mm ou o SG for ≥ 25 mm e embrião estiver ausente (ovo anembrionado). Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Nas retenções superiores a 4 semanas os distúrbios de hemocoagulação são as complicações mais temidas. DIAGNÓSTICO: O diagnóstico definitivo de abortamento retido deve ser sempre confirmado por duas ultrassonografias espaçadas de 7 a 10 dias. ABORTAMENTO HABITUAL: O abortamento habitual ou recorrente é definido como a perda de duas ou mais gestações, tendo uma grande variação causal, com cerca de 75% dos casais com abortamento habitual apresentam pelo menos um fator etiológico dentre alterações genéticas, anatômicas, endócrinas, infecciosas e imunológicas. DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS: Os principais diagnósticos diferenciais do abortamento são as outras síndromes hemorrágicas do primeiro trimestre da gravidez: gestação ectópica e doença trofoblástica gestacional. No caso de gravidez ectópica, a suspeita diagnóstica é feita quando o β-HCG é positivo e não há achado de gestação intrauterina. Níveis de β-HCG maiores que 1.500 a 2.000 mUI/ml obrigatoriamente devem cursar com achado de saco gestacional tópico. A gestação molar é caracterizada por sangramento, útero habitualmente maior do que o esperado para idade gestacional e achado de vesículas à ultrassonografia. O diagnóstico é confirmado pelo anatomopatológico do material de abortamento. EPIDEMIOLOGIA E PROTOCOLO DE ATENDIMENTO EM CASO DE ABORTO: As discussões sobre o aborto são extensas e antigas, envolvendo diversos tópicos controversos como se e quando a interrupção da gestação deve ser permitida, quais situações justificariam esse ato ou, até mesmo, quando se inicia a vida. Nesse debate, valores como poder, igualdade, direitos, liberdade, fé e autonomia são muito utilizados para a formação de opinião. Para a saúde pública, o aborto pode ser classificado em três grandes tipos: espontâneo/induzido, legal/ilegal e seguro/inseguro. Esses fatores devem ser conhecidos e compreendidos pelos profissionais de saúde para o exercício de suas funções cotidianas, mas ainda assim há discrepâncias no acesso às unidades de saúde e no atendimento recebido de acordo com o tipo de perda gestacional. Esse julgamento, face a casos de abortamento induzido, pode ser exteriorizado por questionamento moral ou denúncia policial pelo atendente. No que se refere ao aborto legal, além do julgamento moral, há a questão do difícil acesso devido a uma rede de serviços pequena, despreparada e pouco articulada. Estima-se que, a cada ano, cerca de 230 mil mulheres internem pelo SUS em decorrência de abortos inseguros e, além disso, o abortamento tem sido uma das principais Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO causas de óbito materno no Brasil nos últimos anos, justificando seu status de problema de saúde pública. Em relação ao abortamento espontâneo, a Bahia relatou, em 2019, 8.510 notificações, com maior prevalência entre os 20-29 anos, com 3.550 casos. As regiões de saúde com mais registros foram Salvador (2.365 casos), Feira de Santana (821), e Juazeiro (675). O grupo étnico mais acometido foi o de pardas, com 5.413 notificações. A Pesquisa Nacional de Aborto de 2016 mostra que 13% das 2.002 entrevistadas de 18 a 39 anos, todas elas residentes em área urbana e alfabetizadas, já realizaram ao menos um abortamento ao longo da vida. Projetando o percentual encontrado na pesquisa, seriam 503 mil mulheres praticando abortos no Brasil em 2015. Essa pesquisa também mostrou que mulheres de todas as classes sociais, níveis educacionais, idades e religiões recorrem ao aborto, ainda que as taxas de realização variem significativamente segundo grupos, sendo mais altas em mulheres pretas, pardas, amarelas e indígenas, com menor escolaridade e menor renda. Todavia, no contexto de ilegalidade, clandestinidade e insegurança, são mulheres pobres, negras e jovens as que possuem os maiores riscos de adoecimento e óbito. Outro fator de suma importância para a saúde pública é que muitas mulheres que teriam o direito de acessar os serviços de saúde para realizarem a interrupção da gravidez prevista em lei acabam por optar por meios inseguros, justamente por desconhecerem seus direitos ou por não serem bem acolhidas e bem atendidas nos serviços do SUS. Somente 2.442 abortos legais foram realizados em decorrênciade violência sexual em todo o Brasil (2013-2015), enquanto os dados de segurança pública referem a existência de um estupro a cada 11 minutos no país. Isso significa que, embora o número de ocorrências em 2015 tenha sido de 45.460, estima-se que o número real fique entre 129,9 mil e 454,6 mil estupros, devido à subnotificação. Considerando que 5% a 7% das mulheres vítimas de estupro podem engravidar, percebe-se que o número de abortos legais realizados no território nacional está bem abaixo do esperado. A escassez de serviços para o atendimento das mulheres que recorrem ao aborto previsto em lei e a dificuldade no tratamento das complicações decorrentes de um aborto inseguro devem ser entendidas como uma violação dos direitos sexuais e reprodutivos, podendo também ser compreendido sobre a ótica das questões de gênero que prevalecem no contexto social brasileiro, podendo ser exemplificadas pelos programas de saúde materno-fetal produzidos no século XX, nos quais a abordagem traduz uma visão restrita sobre a mulher, tratada somente quanto suas especificidades biológicas e na sua obrigação social de ser mãe (criação, educação e cuidado). Ainda que esse cenário teha se alterado, uma ênfase muito grande ainda persiste em relação ao parto e ao nascimento, em comparação ao aborto, que segue marginalizado. No Brasil, o aborto é considerado crime; entretanto, o Código Penal Brasileiro, em seu artigo 128, não pune a realização do aborto nas seguintes situações: gravidez que coloque em risco a vida da mulher e gravidez resultante de estupro. Em 2012, o Supremo Tribunal Federal incluiu nessa lista o direito ao aborto nos casos de anencefalia. Mesmo com respaldo jurídico, foi apenas em 1989 que o primeiro serviço de aborto legal foi criado no Brasil, no Hospital Jabaquara, em São Paulo, proporcionando atendimento a mulheres vítimas de violência sexual, ação Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO pioneira não só em âmbito nacional como também para a América Latina como um todo. Os “Serviços de Aborto Legal” seriam os locais de referência para a realização do procedimento de abortamento (segundo os preceitos legais supracitados) no SUS, integrando os Serviços de Atenção Integral às Pessoas em Situação de Violência Sexual. Prevê a constituição de uma equipe multidisciplinar composta por ginecologistas- obstetras, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros que atuam no atendimento à violência sexual e também na realização do aborto. A Norma Técnica que institui esse serviço passou por duas atualizações, em 2005 e 2012. A principal mudança em relação à Norma original, inserida em 2005, foi o reconhecimento de que a narrativa da mulher é suficiente para averiguar a presença de violência sexual, ou seja, exclui- se a obrigatoriedade de apresentação do boletim de ocorrência policial. Apesar desse avanço na proposição de uma política pública direcionada à saúde das mulheres vítimas de violência sexual, o acesso ao aborto ainda não é uma garantia para as mulheres brasileiras. Dos 68 serviços existentes entre 2013 e 2015, apenas 37 haviam realizado interrupções de gravidez decorrente de estupro. Constatou- se a concentração de serviços no Sudeste e a ausência de serviço ativo em sete estados. Algumas das instituições ainda exigiam boletim de ocorrência policial, laudo do IML ou alvará judicial para o procedimento. Recentemente, novos encaminhamentos legais têm trazido à tona a discussão sobre o aborto. O STF, em novembro de 2016, definiu que o aborto não deveria ser considerado crime no primeiro trimestre da gravidez, absolvendo cinco pessoas pertencentes à equipe médica de uma clínica clandestina de abortos no Rio de Janeiro. Em contrapartida, houve forte reação por parte da bancada evangélica no Congresso Nacional, por meio da Proposta de Emenda Constitucional 181 (PEC 181). O projeto inicial, que propunha alterar o artigo 7º da Constituição Federal, permitindo a ampliação da licença-maternidade em caso do nascimento de bebês prematuros, foi transformado com inserções no texto constitucional, que passaria a incluir “a garantia da inviolabilidade da vida desde a concepção”. Três vertentes podem ser utilizadas na Atenção Primária de modo a reduzir os danos causados pelo abortamento, a saber: Prevenção primária: evitar a gestação indesejada a partir de ações de educação sexual e planejamento reprodutivo; Prevenção secundária: atuar para que o abortamento que não se pode evitar seja realizado de forma segura; Prevenção terciária: tratar oportunamente as complicações do abortamento e fornecer contracepção pós-abortamento para prevenir a sua repetição. Sabe-se que o aborto é um procedimento muito seguro, se realizado com técnica correta e condições adequadas de higiene, atentando-se para a idade gestacional, cujo avanço implica em aumento de risco. Antes das 12 semanas, especialmente antes das 9 semanas, o risco de complicações de um aborto é inclusive menor que o risco envolvido em uma gestação de risco habitual levada a termo. Compartilhar informação de qualidade, disponível amplamente, é um ato de respeito e de cuidado com as pessoas atendidas, que não infringe nenhuma lei ou norma vigente no Brasil (o aconselhamento sobre o aborto seguro não é mencionado no Código Penal). Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO PROTOCOLOS DE ATENDIMENTO AO ABORTAMENTO: O acolhimento e a orientação são elementos importantes para uma atenção de qualidade e humanizada às mulheres em situação de abortamento, que vivenciam naquele momento um misto de emoções negativas como culpa, solidão, ansiedade e angústia. A escuta ativa e o não julgamento são fundamentais para que a mulher se sinta segura e acolhida, potencializando o efeito das medidas terapêuticas empregadas. CONDUTAS TERAPÊUTICAS: Sempre se deve encaminhar o material abortado para estudo anatomopatológico. Deve-se também verificar o tipo sanguíneo materno. Se a paciente for Rh negativo com parceiro Rh positivo ou desconhecido, deve- se prescrever a imunoglobulina Rh idealmente até 72 horas após o evento. Ameaça de abortamento: Não existe indicação de internação hospitalar, a mulher deve ser orientada para ficar em repouso, utilizar analgésico se apresentar dor, evitar relações sexuais durante a perda sanguínea, e retornar ao atendimento de pré-natal. Nos casos em que não ocorre regressão das alterações ou se surgir febre, dor pélvica localizada ou sangramento com odor fétido deve a mulher retornar ao serviço de saúde para nova avaliação. 90-95% das gestações entre 7 e 11 semanas que apresentam sangramento, mas em que são identificados batimentos cardíacos (>100/min), evoluem para gestação normal. Abortamento completo: A conduta nesse caso é de observação, com atenção ao sangramento e/ou à infecção uterina. Quando persiste o sangramento, podem ser prescritos uterotônicos, ou ser realizada uma aspiração manual intrauterina com cânula bem fina, recorrendo à curetagem somente quando não houver disponibilidade de aspiração. Abortamento incompleto: Em gestações com menos de 12 semanas, pelo tamanho uterino, indica-se a aspiração manual ou elétrica intrauterina por ser mais segura e permitir o esvaziamento mais rápido. Quando não for possível empregar essa técnica, realiza-se a curetagem uterina. Em úteros compatíveis com gestação superior a 12 semanas, principalmente se o feto ainda estiver dentro do útero, emprega- se o misoprostol na dose de 200mcg de 12 em 12h, via vaginal, em ciclos de 48 horas de tratamento, com 3-5 dias de intervalo. Após a expulsão, persistindo o sangramento, se o tamanho uterino for menor ou igual a gestação de 12 semanas é possível realizara complementação por aspiração uterina. Se o volume uterino for maior que 12 semanas será utilizada a curetagem uterina. Também é importante avaliar a perda sanguínea e, se necessário, efetuar transfusão sanguínea. Em situações onde o esvaziamento é emergencial, o uso do misoprostol deve ser evitado devido ao tempo de resposta necessário para o esvaziamento medicamentoso. Abortamento retido: Trata-se com misoprostol quando o útero corresponder à gestação maior que 12 semanas e por meio de aspiração manual com útero correspondente a menos de 12 semanas. Abortamento infectado: O tratamento do abortamento infectado deve ser iniciado pela internação da paciente, tentativa de isolar o agente etiológico pela coleta de material cervical e hemocultura, correção do estado hemodinâmico, Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO administração de ocitocina e antibioticoterapia endovenosa. Após a instituição do tratamento para a infecção, deve ser realizado o esvaziamento uterino, sempre com administração de ocitocina antes e durante o procedimento, para diminuir o risco de perfuração. Caso haja abcessos, esses devem ser drenados. Em casos graves sem melhora após 48 horas e com comprometimento dos tecidos uterinos, pode ser necessária a histerectomia. Abortamento habitual: Estas mulheres devem ser encaminhadas para tratamento especializado, onde seja possível identificar as causas e realizados tratamentos específicos. Abortamento eletivo legal: Nos casos em que exista indicação de interrupção da gestação, obedecida a legislação vigente e, por solicitação da mulher ou de seu representante, deve ser oferecida à mulher a opção de escolha da técnica a ser empregada: abortamento farmacológico, procedimento aspirativo ou a dilatação e curetagem. Tal escolha deverá ocorrer depois de adequados esclarecimentos das vantagens e desvantagens de cada método, suas taxas de complicações e efeitos adversos. TÁTICAS DE ESVAZIAMENTO UTERINO: CONDUTA EXPECTANTE: O interesse por intervenções não cirúrgicas em caso de abortamento precoce incompleto (até 12 semanas de gestação) vem crescendo nos últimos anos, sendo indicada para mulheres sem alterações hemodinâmicas nem sinais de infecção, tendo boa tolerância à conduta desde que ela seja corretamente explicada pelo profissional de saúde. Na maioria das vezes, a eliminação acontece dentro de duas semanas após o diagnóstico, mas intervalos de até quatro semanas não são incomuns. Apesar de a conduta expectante apresentar chance de eliminação incompleta e necessidade de medicação ou curetagem, não está associada a maior risco de infecção. O tempo recomendado para resolução espontânea costuma ser de um mês. Pode-se indicar ultrassonografia de controle após a resolução. Por outro lado, em casos de aborto retido ou gestação anembrionada, os resultados obtidos com a conduta expectante parecem ser menos animadores que os observados no abortamento incompleto, apresentando taxa de sucesso de 25% (tratamento cirúrgico apresenta 98% de desfechos positivos nessas manifestações clínicas). TRATAMENTO MEDICAMENTOSO: Tratamentos medicamentosos em abortamentos de 1º trimestre representam uma alternativa para as mulheres que não desejam passar por intervenções cirúrgicas. O Misoprostol, antagonista de prostaglandina E1, anteriormente empregado no tratamento de úlceras pépticas em indivíduos em uso crônico de anti-inflamatórios não hormonais, é visto como droga de escolha antes da realização de curetagem, no tratamento de abortamento precoce/óbito fetal, como indutor de trabalho de parto, e no controle de hemorragias pós- parto, graças a seus efeitos na contratilidade uterina e bom custo-benefício. Alguns efeitos dose dependentes dessa medicação são náuseas, diarreia, vômitos, hipertermia e tremores. A eficácia e segurança desse tipo de conduta estão comprovadas no primeiro trimestre, mas também é usado como propedêutica em abortamentos tardios, devendo ser empregado com ressalvas em mulheres com Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO cicatriz intrauterina prévia, uma vez que pode causar roturas no órgão. TRATAMENTO CIRÚRGICO: O tratamento cirúrgico para abortamentos de 1º e 2º trimestres é a curetagem uterina, cuja eficácia é próxima de 100%. Sua principal complicação é a infecção, que afeta 10% das mulheres submetidas ao procedimento, seguido por esvaziamento uterino incompleto (2 a 3%). A conduta cirúrgica está indicada nas situações de urgência., como nos casos de sangramento moderado ou intenso, na presença de infecção e ainda para aquelas mulheres que não desejam esperar a eliminação espontânea ou medicamentosa dos produtos da concepção. Os métodos de esvaziamento uterino empregados na prática cotidiana são: Aspiração Manual Intrauterina: consiste na aspiração do material intrauterino com cânulas flexíveis de plástico acopladas a seringas, podendo ser descartáveis ou aproveitadas após esterilização. É seguro e de fácil realização, apresentando menor risco de perfuração quando comparado aos métodos tradicionais. Eventualmente pode ser realizado com anestesia local ou sedação leve; Aspiração à vácuo: realizado por sistema a vácuo e cânulas rígidas. Apresenta mais riscos de perfuração uterina; Curetagem tradicional: se necessário, realiza-se a dilatação cervical, e a retirada de material uterino se faz por curetas fenestradas. Deve-se ter cuidado para não perfurar o útero, e a administração concomitante de ocitócitos é rotineira. Recomenda-se também histerometria (medida do útero) indireta no início e ao final do procedimento. SANGRAMENTO VAGINAL FISIOLÓGICO NA GRAVIDEZ: O sangramento vaginal no primeiro trimestre da gravidez é relativamente comum, ocorrendo em aproximadamente 25% das pacientes que sabem que estão grávidas. Em muitas pacientes o sangramento é autolimitado e deve-se, provavelmente, à implantação ovular no endométrio decidualizado. O cérvix também pode representar um ponto de sangramento comum devido ao maior número de vasos sanguíneos que permeiam a região. Caso ocorram pequenos escapes de sangue ao longo dos 2/3 finais da gravidez, as hipóteses etiológicas são inflamação ou crescimento do cérvix, enquanto grandes sangramentos podem estar ligados à placenta, gerando forte indício de parto prematuro: Descolamento de placenta: desacoplamento desse anexo embrionário de forma precoce, que pode causar hemorragias em larga escala para Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO a mãe e hipóxia para o feto. Há presença de dor lombar ou abdominal; Placenta prévia: ocorre quando a placenta se aloja na porção inferior do útero, comprimindo o cérvix. Não causa dor na maioria dos casos. Esse problema geralmente se resolve entre a 32 e 35ª semana, quando ocorre redução na espessura uterina, permitindo que a gestação seja levada a termo; Placenta acreta: se dá por meio da invasão placentária de forma inseparável da parede uterina. Esse quadro pode causar sangramento no terceiro trimestre e graves hemorragias durante o parto. A maior parte dos casos é descoberto durante exame ultrassonográfico de rotina. A histerectomia deve ser realizada logo após o parto para evitar choque hemorrágico. MECANISMO DE SENSIBILIZAÇÃO NA PROFILAXIA DA INCOMPATIBILIDADE DE FATOR RH MATERNO- FETAL: A doença hemolítica perinatal (DHPN), ou eritroblastose fetal e do recém-nascido, é uma afecção generalizada, caracterizada por aglutinação e hemólise dos eritrócitos fetais, e acompanhada de anemia, destruição das hemácias e aparecimento de suas formas jovens (eritroblastos) na circulação periférica, com atividade persistente e anômala defocos extramedulares de hematopoese. É causada, originalmente, por incompatibilidade sanguínea maternofetal. Os anticorpos da gestante, específicos para antígeno localizado nas hemácias do concepto, intervêm como elementos desencadeantes. A incompatibilidade pelo sistema ABO é responsável pela maioria dos casos de DHPN, no entanto, como são de pequena gravidade clínica, esses casos tendem a passar despercebidos. Um elevado número de indivíduos afetados é associado a discrepâncias de fator Rh. A DHPN determinada por anticorpos irregulares traz consequências variáveis para o feto, dependendo do fator sanguíneo envolvido. Apesar da prevenção com a imunoglobulina Rh, a eritroblastose fetal/do recém-nascido continua sendo um grave problema global, sendo a maior causa de anemia fetal. Na maioria dos casos justifica- se pela mãe possuir Rh negativo e o pai Rh positivo, sendo assim a criança herda caráter do pai Rh positivo, ocasionando a incompatibilidade entre a mãe o feto. Em 1946, Fisher & Race propuseram o conceito de que três genes seriam responsáveis pela codificação dos três maiores antígenos do sistema Rh: D, C/c e E/e. Quase 50 anos mais tarde, o locus Rh Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO foi localizado no braço pequeno do cromossomo 1, mas somente dois genes foram identificados (D e CE), codificando os antígenos do sistema Rh (RhD e RhCE). A principal característica molecular de um indivíduo Rh-negativo é o fato de o gene D ter sido deletado, portanto não existe o antígeno D, expresso nas hemácias. Esse percentual varia segundo a raça, alcançando 15% nos caucasoides, 3 a 5% nos negroides e raro nos mongoloides. Aproximadamente 55% dos indivíduos Rh- positivos são heterozigotos para o locus D. Nesse caso, durante a concepção deles com mulheres Rh-negativas, apenas 50% dos fetos serão Rh-positivos e, assim, passíveis de serem atingidos pelo anticorpo materno. Por outro lado, os outros 50% de fetos Rh- negativos não são afetados. Para maridos Rh-positivos homozigotos, todos os fetos gerados serão Rh-positivos. ALOIMUNIZAÇÃO MATERNA: Na DHPN, a aloimunização materna é ocasionada pelos seguintes fatores: Administração de sangue incompatível produzida por hemotransfusão, sendo danosa e condenável quando o fator Rh da receptora é desconhecido; Gestação de produtos Rh-discordantes, determinada pela passagem de hemácias fetais (possuem anticorpos RhD) durante o decorrer da gravidez ou no parto. Hemorragias fetomaternas espontâneas ocorrem com frequência e volumes crescentes durante a evolução da gravidez. Na maioria dos casos, a carga antigênica do antígeno D das hemácias fetais é insuficiente para estimular o sistema imunológico materno. Todavia, no caso da hemorragia fetomaterna do parto ou, excepcionalmente, vigente grande hemorragia antenatal, os linfócitos B maternos passam a reconhecer o antígeno D. A produção de anti-D materno é inicialmente de IgM, de curta duração, com rápida mudança para a resposta IgG. A memória dos linfócitos B, então, espera nova exposição antigênica que ocorrerá na gravidez subsequente. Se estimulados pelo antígeno D das hemácias fetais, esses linfócitos rapidamente se proliferam e produzem anticorpos IgG que elevam os títulos maternos. Cerca de metade das mulheres sensibiliza- se na primeira gravidez e 1/3 na segunda gestação. Em 20% dos casos, a sensibilização ocorre após 28 semanas da gestação e em 80% dos casos no pós-parto. PASSAGEM DE ANTICORPOS MATERNOS PARA O ORGANISMO FETAL: Os anticorpos dos vários sistemas de grupos sanguíneos presentes na fração IgG (denominados imunes, incompletos ou bloqueadores) atravessam a barreira placentária. Os IgM e IgA, chamados anticorpos naturais ou completos, não passam para o organismo fetal. O transporte de anticorpos para o feto se dá por meio imunoglobulinas da fração IgG, que se ligam aos receptores Fc da membrana plasmática do trofoblasto. Quando decorre de incompatibilidade com o sistema ABO, a DHPN tem como anticorpos responsáveis os imunes anti-A e anti-B, pois os naturais anti-A e anti-B não franqueiam a placenta, como anteriormente afirmado. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO MECAISMO DE AÇÃO DOS ANTICORPOS MATERNOS NO ORGANISMO FETAL: Os anticorpos maternos que passam para o feto, em virtude da reação específica antígeno-anticorpo, irão produzir hemólise de suas hemácias e, depois, a das hemácias do recém-nascido. Vai depender da quantidade de anticorpos maternos produzidos para definir o grau de hemólise, os efeitos da destruição podem ser mínimos, mas também podem ser severos, podendo ser uma hiperbilirrubinemia até uma anemia leve à moderada no útero, exigindo transfusões sanguíneas após o nascimento. Esses anticorpos maternos, quando ingressam no organismo do feto, combinam- se com suas hemácias. Os macrófagos do sistema reticuloendotelial (SRE) esplênico reconhecem a porção Fc do anticorpo na hemácia e a fagocitam, o que gera bilirrubina. Sabe-se que as formas clínicas da DHPN (ictérica, anêmica e hidrópica) decorrem da intensidade do processo de destruição e formação das hemácias e consoante a predominância de IgG1 ou de IgG3. O IgG1 migra mais cedo, tem teor elevado, e a regeneração (eritroblastose) leva ao empobrecimento proteico do feto, o que causa edema, ascite e hidropisia. Se prevalecer o IgG3, cuja passagem é tardia, os níveis, menores, só ascendem após 28 semanas. Em geral, o feto nasce anêmico, com icterícia presente apenas após o parto. MANIFESTAÇÃO CLÍNICA: DIAGNÓSTICO ANTEPARTO: Poucas vezes a incompatibilidade pelo sistema Rh acomete o primeiro filho, exceto se houver relato de hemotransfusão sem que esse fator fosse conhecido. O histórico de um ou dois filhos normais, seguidos de recém-nascidos com icterícia grave e persistente, manifesta nas primeiras horas de vida, anemia e morte nos casos de maior agravo clínico sugerem aloimunização Rh. Em mulheres com história clínica de um natimorto por incompatibilidade Rh, a probabilidade de se reproduzir o acidente é de 75%, que ascende para 90% quando o histórico é de dois natimortos. A ultrassonografia é extremamente importante para o seguimento fetal na DHPN, pois além de possibilitar o monitoramento de procedimentos invasivos, pode orientar a identificação dos fetos mais gravemente atingidos por anemia hemolítica, o que possibilita assentar o grau de seu comprometimento. Sinais sonográficos de descompensação fetal, de hidropisia, representam grave anemia do concepto, com hematócrito inferior a 20% e hemoglobinometria com menos de 7 g/dL O aumento da espessura placentária (maior que 4 cm), perda de sua arquitetura e maior homogeneidade parecem ser os primeiros indicadores da doença. Polidrâmnio e aumento da circunferência abdominal do feto, medida seriadamente, correspondem ao agravamento do processo hemolítico. DIAGNÓSTICO NO PÓS-PARTO: O exame do recém-nascido irá apresentar peculiaridades de acordo com a incompatibilidade presente e a forma clínica da doença: Incompatibilidade de Rh: 10 a 15% dos fetos são hidrópicos (edemaciados), outros 10-15% possuem formas leves, sem sintomatologia (eritroblastose de laboratório), e 70 a 80% manifestam Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO formas icteroanêmicas, que possuem gravidade variada e necessitam de tratamento; Hidropsia fetal: os RN com essa condição estão muito deformados pela infiltração edematosa que os afeta por todo o corpo. O abdome de batráquio, condicionado pela ascite, caracteriza-se por fígado e baço enormes. A transfusão intrauterina impede a morte de muitos bebês afetados por essa condição; Icterícia grave: podeser observada logo nas primeiras horas de vida. O diagnóstico diferencial deve ser feito com outras icterícias do recém-nascido, como a chamada fisiológica ou benigna: esta tem início tardio, acomete 50% dos recém-nascidos e cede espontaneamente, sendo rara a persistência além de 2 semanas. A sonolência brutal seria patognomônica da icterícia nuclear (kernicterus), quando estão associados à DHPN distúrbios nervosos centrais, decorrentes da impregnação dos núcleos da base pela bilirrubina não conjugada. Os sinais aparecem muitas horas depois do surgimento da icterícia. No período de estado, há hipertonia generalizada, com predileção pela musculatura da face (riso sardônico). A icterícia nuclear é de prognóstico sombrio, em função das sequelas neurológicas, muito prejudiciais, que eclodem ao fim do primeiro ano. Anemia grave: modalidade menos expressiva, clinicamente, de DHPN. Alcança seu pico na 3ª semana após o nascimento. Há espleno-hepatomegalia, extrema palidez e anemia, com descoramento intenso das mucosas visíveis. O exame de sangue é fundamental. A icterícia, em geral presente, mascara a identificação dos sinais clínicos; Incompatibilidade ABO: mesmo que seja a causa mais frequente da DHPN, as manifestações anêmicas são mais brandas. Cerca de 20% de todos os bebês apresentam incompatibilidade ABO, mas apenas 5% são clinicamente afetados. o A doença ABO é frequentemente vista no primeiro filho (40 a 50% dos casos) porque muitas mulheres do grupo O apresentam isoaglutininas anti-A que antedatam a gravidez. Esses anticorpos imunes são atribuídos à exposição a bactérias que exibem antígenos similares; o Grande parte dos anticorpos anti-A e anti-B são IgM que não atravessam a placenta e, por isso, não têm acesso às hemácias fetais. Além disso, as hemácias fetais têm menos locais antigênicos A e B do que as células adultas e são, assim, menos imunogênicas; o A aloimunização ABO pode comprometer gestações futuras, mas raramente é progressiva como a Rh. O critério usual para hemólise neonatal por incompatibilidade ABO é: o Mãe de grupo O, feto A, B ou AB; o Icterícia de início nas primeiras 24h; o Vários graus de anemia; o Teste de Coombs direto positivo (mas nem sempre); o Exclusão de outras causas de hemólise. Todas as grávidas deverão determinar o seu grupo sanguíneo (ABO ou Rh), e serem Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO testadas quanto à presença de anticorpos que poderão estar direcionados contra antígenos de origem paterna. Diante destes dados, o médico obstetra irá orientar a grávida, controlando a gestação com exames e outras medidas terapêuticas, nomeadamente, transfusão de eritrócitos in útero ou antecipação do parto. Destacam-se entre as técnicas empregadas a cordocentese com determinação de hemoglobina, fluxometria da artéria cerebral média, ecografia para rastreio de eventual hidropisia, determinação do perfil biofísico e amniocentese para espectofotometria. Após o parto em mulheres não sensibilizadas a administração de imunoglobulina anti-D (Rhlg) em até 72 horas confere proteção de 95%. Não se mostraram eficazes outras medidas terapêuticas como a ingestão da membrana eritrocitária Rho (D) positiva por via oral ou a plasmaferese. Exsanguíneotransfusão e fototerapia são as terapias convencionais após o nascimento, onde o risco de mortalidade varia em relação antes do procedimento o quadro clínico do paciente. PROMAS IMUNOEMATOLÓGICAS NO RECÉM- NASCIDO: São indispensáveis a determinação do grupo sanguíneo e do fator Rh e o teste de Coombs Direto. Teste de Coombs Direto: avalia a sensibilização das hemácias do recém- nascido pelos anticorpos maternos. Deve ser feito, sistematicamente, no sangue do cordão umbilical dos bebês nascidos de mulher Rh-negativa, com ou sem aloimunização, e mesmo se ausente história sugestiva de DHPN. As reações negativas não afastam, definitivamente, a doença, pois nos tipos clínicos ocasionados pelo sistema ABO, elas costumam apresentar esse resultado; Subsídios anatomopatológicos: os focos de hematopoese extramedular (eritroblastos) encontrados no fígado, baço ou na placenta são de grande importância. Hepatoesplenomegalia está sempre presente. Os núcleos da base do cérebro podem tornar-se amarelo-esverdeados, o que constitui a icterícia nuclear ou kernicterus. A pigmentação ictérica parece poupar o córtex e nunca é observada em natimortos nem em bebês falecidos nas primeiras 24 h de vida. O estudo da placenta mostra sua invasão pelo edema, apresentando-se 2 a 3 vezes aumentada ponderalmente e no volume, a face fetal e as membranas frequentemente amareladas. PREVENÇÃO: A imunoprofilaxia anti-D tornou a eritroblastose fetal determinada pela sensibilização ao antígeno D uma doença previnível, de modo que a mortalidade perinatal pela aloimunização demonstrou diminuição de 100 vezes. Todavia, mesmo nos países desenvolvidos, a aloimunização materna ainda persiste em 0,4:1000 nascimentos, indicando possíveis falhas no processo de profilaxia e acompanhamento. A imunoglobulina anti-D é um produto sanguíneo que contém títulos elevados de anticorpos que neutralizam o antígeno RhD das hemácias fetais e, assim, é efetiva na prevenção da aloimunização. A via de Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO administração usual é a intramuscular. Após a administração da anti-D, o rastreamento para anticorpos apresenta resultado fracamente reativo, com título baixo. O anti- D atravessa a placenta e se liga às hemácias fetais, sem causar hemólise, anemia ou icterícia. Reações adversas são raras e costumam ser leves, tais como inchaço local, dor de cabeça, calafrios. Também são pouco frequentes reações de hipersensibilidade que não resistem a antialérgicos. Embora seja muito rara a ocorrência de anafilaxia após o uso da IgG anti-D, recomenda-se ter à mão solução de epinefrina. Se a mulher Rh-negativa não receber profilaxia IgG anti-D no pós-parto após o nascimento de bebê Rh-positivo, a incidência de sensibilização na vigência de nova gravidez será de 12 a 16%, em comparação com 1,6 a 1,9% se tiver havido a prevenção. Devem ser utilizados 300 µg de IgG anti-D dentro de 72 h do parto para mulheres Rh- negativas não sensibilizadas, com bebês Rh- positivos, com administração extra de imunoglobulinas em caso de hemorragia fetomaterna. Se o anti-D IgG não tiver sido utilizado dentro de 72 h do parto ou de qualquer evento potencialmente sensibilizante, ele poderá ser empregado em até 28 dias com algum efeito protetor. A profilaxia antenatal na 28ª semana reduz para 0,2% a taxa de sensibilização na gravidez. Todas as pacientes devem ser rastreadas na 1ª consulta pré-natal para anticorpos com o teste de Coombs indireto. Devem ser administrados 300 µg de IgG anti- D a grávidas Rh-negativo não sensibilizadas com 28 semanas de gestação quando o grupo sanguíneo fetal for Rh-positivo ou desconhecido. Após abortamento ou gravidez ectópica, há indicação para o anti-D em mulheres Rh- negativas não sensibilizadas: 120 µg até 12 semanas e 300 µg após esse período. TRATAMENTO: TRANSFUSÃO INTRAVASCULAR: A transfusão intravascular (TIV) foi por anos o tratamento de escolha para a aloimunização. As hemácias para TIV são do grupo O, Rh-negativas, citomegalovírus- negativas e coletadas nas últimas 72 h. O local ótimo de punção da veia umbilical é próximo da sua inserção na placenta, mas na impossibilidade, vale a punção em alça livre. Muitos utilizam agente curarizante para paralisar a movimentação fetal e facilitar a punção. No início da TIV é determinado o hematócrito fetal, e o valor < 30% (Hb < 10 g/dL) é indicação para o tratamento. A quantidadede sangue a ser transfundido depende desse hematócrito inicial, do peso estimado fetal e do hematócrito do doador. Procura-se atingir hematócrito final de 40 a 50%, e declínio de cerca de 1% por dia do hematócrito pode ser antecipado após a TIV. No concepto extremamente anemiado, em especial no hidrópico, o hematócrito não deve ser acrescido em mais de 4 vezes para não sobrecarregar o sistema cardiovascular fetal pelo aumento agudo da viscosidade sanguínea. A TIV deve ser repetida após 48 h para normalizar o hematócrito. Após atingido o hematócrito de 40 a 50%, nova TIV deve ser programada para depois de 14 dias. A última TIV deve ser realizada com 35 semanas de gestação e o parto deve ser antecipado para 37 a 38 semanas. Essa prática possibilita o amadurecimento do pulmão e do fígado fetal, virtualmente eliminando a necessidade de exsanguinotransfusão neonatal. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO FENOBARBITAL: A administração de fenobarbital oral à mãe (30 mg, 3 vezes/dia) pode ser considerada nos últimos 7 a 10 dias antes do parto com o objetivo de induzir a maturidade hepática e, por conseguinte, melhorar a conjugação da bilirrubina. TRANSFUSÃO NEONATAL: Não é incomum a suspensão da eritropoese depois de diversas TIV. Esses fetos nascem com possível ausência de reticulócitos, com suas hemácias quase inteiramente constituídas de células do doador. Como as exanguinotransfusões raramente são necessárias, os anticorpos maternos passivamente adquiridos ficam na circulação neonatal por semanas. Como consequência, durante o período de 1 a 3 meses o recém- nascido pode necessitar de várias transfusões complementares. FOTOTERAPIA: A molécula da bilirrubina, fotossensível, quando exposta à luz, transforma-se na atóxica biliverdina. Esse achado possibilitou o emprego da superiluminação como recurso para o tratamento das hiperbilirrubinemias do recém-nascido. Em virtude da ação exclusiva sobre a bilirrubina, a fototerapia tem emprego apenas coadjuvante no tratamento da DHPN. Na incompatibilidade ABO, a fototerapia reduz a necessidade de transfusão complementar, devido ao quadro ictérico de menor gravidade. PROGNÓSTICO: As séries mais encorpadas relatam sobrevida de quase 90%; no hidrópico a sobrevida é pior, menor que 80%, e especialmente na hidropisia grave, de somente 55%. O prognóstico tardio pode estar onerado pela ocorrência de paralisia cerebral ou de comprometimento no neurodesenvolvimento, mas 90% dos bebês apresentam-se normais. PROBLEMA 4 - ABERTURA: MORFOFISIOLOGIA DAS BARREIRAS MATERNOFETAIS: Para a embriologia existem quatro anexos embrionário e fetais, o cório, o âmnio, a vesícula vitelina e o alantoide. Todas essas estruturas desenvolvem-se no ovo, mas não estão relacionadas diretamente com a formação do concepto, com a exceção de partes da vesícula vitelina e do alantoide. Suas funções são assegurar nutrição, proteção, respiração e excreção ao ser humano em desenvolvimento. Na obstetrícia, por sua vez, são apenas três anexos fetais, a placenta, o cordão umbilical e as membranas. Essas últimas, num total de duas, costumam ser descritas como constituídas pelo cório e pelo âmnio, mas na verdade contemplam apenas a porção lisa do primeiro e a membranosa do segundo. Uma terceira membrana pode ser considerada, a decídua capsular e parietal (auxiliam na recuperação do endométrio após o parto), formando assim duas membranas ovulares e apenas uma materna. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO A placenta é considerada um órgão misto, com sua região ovular/fetal formada por elementos do ovo, como toda a placa corial e as estruturas arboriformes do cório, e sua porção materna de origem decidual, com decídua basal e septos. Após o parto, uma fração placentária (ponto de clivagem do órgão na área esponjosa da decídua basal) permanece no útero para a reconstituição dessa estrutura. REAÇÃO DECIDUAL: Com a nidação, o ovo penetra completamente a mucosa, desenvolvendo- se nessa região. A camada endometrial modificada pela gestação passa a se chamar decídua ou caduca, o que indica sua eliminação com o parto. A entrada do trofoblasto no leito placentário é precedida pela remodelação decidual (ou decidualização) dos tecidos maternos, processo iniciado no endométrio e que se estende à zona de junção miometrial, no terço interno do miométrio. Esse fenômeno complexo começa na fase secretória do ciclo menstrual, regulada por hormônios ovarianos e pelas citocinas deciduais, e representa o principal regulador na invasão trofoblástica, na qual tomariam parte a decídua e as células imunes do útero. A distribuição dessas células também é regrada pelos hormônios secretados pelos ovários, promovendo a liberação de citocinas e fatores de crescimento que estimulam a remodelação decidual. No período de implantação, entre o 8º e o 13º dia pós-ovulação), o endométrio se estratifica em três zonas distintas: a camada basal, que representa menos de ¼ dessa estrutura, alimentada pelas artérias retas; a camada esponjosa, compondo 50% da região endometrial, composta por estroma frouxo edematoso, vasos espiralados e glândulas dilatadas; e a camada compacta, estrato superficial do endométrio, com 25% de sua altura e predomínio de células do estroma muito próximas entre si, comprimindo ductos glandulares e ingurgitando capilares e artérias espiraladas. Com a nidação, o embrião se detém na camada esponjosa, rica em vasos e glândulas que favorecem sua nutrição. Essa camada desempenha também papel no momento do secundamento, pois, constituída por tecido frouxo, facilita o descolamento da placenta logo após o parto. Topograficamente, até o 3º ou 4º mês de gestação, é possível distinguir três porções deciduais: Decídua basal: corresponde ao local de implantação, muito vascularizada e forma a parte materna da placenta; Decídua capsular/reflexa: levantada pelo desenvolvimento do ovo, é fina e mal irrigada, favorecendo a atrofia do cório correspondente; Decídua parietal/vera: atapeta toda a cavidade uterina, exceto o local de implantação. Com o crescimento embrionário, as camadas capsular e parietal se aproximam, reduzindo o tamanho da cavidade uterina até seu desaparecimento ao fim do 3ª mês, reduzindo a decídua a duas porções, basal e capsular+parietal (intimamente conectadas, porém a vascularização precária promove o futuro desaparecimento da parte reflexa). A) Útero fora do ciclo gestatório; ilustrado em cor mais escura, o endométrio. B) Ovo recém-nidificado. C a E) Fases do desenvolvimento uterino e ovular; oblitera-se, progressivamente, a cavidade uterina, pelo acolamento Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO das decíduas capsular e parietal, o que está por completar- se em E (3º/4º mês). F) Útero e ovo do 4º mês até o termo. Não se distinguem a decídua capsular e a parietal. Em resposta a níveis crescentes de progesterona no sangue materno, as células do estroma (tecido conjuntivo) da decídua aumentam de tamanho, formando as células deciduais, que crescem com o acúmulo de glicogênio e lipídio no citoplasma, corando- se pouco. Esses tipos celulares começam a desaparecer em torno do ovo implantado, mas ainda são notadas, em graus variáveis, no estroma do cérvix uterino, nas trompas de Falópio e no peritônio pélvico. A reação decidual é resposta do organismo à existência do ovo. No final do ciclo menstrual há aspecto deciduoide, vigente também quando se administram altas doses de progestógenos. Embora a importância da reação decidual não esteja totalmente desvendada, parece ligada à nutrição do embrião e à proteção do tecido materno contra a invasão desordenada do trofoblasto.A cavidade amniótica cresce mais rapidamente que a coriônica, e suas paredes se fundem para formar a membrana amniocoriônica, desaparecendo a cavidade coriônica. As duas membranas acoladas se fundem com a decídua capsular e, depois do desaparecimento dessa, com a parietal. A PLACENTA: A porção do ovo que estabelece intercâmbio com o ambiente é o trofoblasto. Após a nidificação ele prolifera e, dotado de grande poder invasor, penetra pelos capilares e dá início à nutrição hemotrófica, isto é, à custa do sangue materno. O trofoblasto e o tecido de conexão correspondente constituem o cório. A invasão intravascular aumenta a superfície de trocas, e se faz em dois estágios: 1ª onda de migração, alcançando apenas o segmento decidual nas artérias espiraladas (a partir de 8 semanas), e 2ª onda de migração, alcançando a zona de junção miometrial (iniciando com 14 semanas); por volta de 18 semanas, as artérias espiraladas apresentam trofoblasto endovascular incorporado na parede do vaso, convertendo-se em artérias uteroplacentárias, compondo assim um circuito hemodinâmico de baixa resistência entre artérias radiais e o espaço interviloso. Como resultado de todo esse processo, ao final da 4ª semana forma-se a placenta hemocorial profunda humana. Até a 8ª semana as vilosidades cobrem inteiramente o cório. Com o crescimento, as porções do cório em correspondência com a decídua basal, mais vascularizadas e diretamente conectadas com o embrião pela circulação alantocorial, desenvolvem-se de modo considerável, constituindo o cório frondoso, principal componente da fração ovular da placenta, sendo denominado também cório placentário. Os demais segmentos do cório correspondem à decídua capsular, e as vilosidades logo regridem devido à vascularização precária (compressão arterial), permanecendo algumas vestigiais. É o cório liso, que acolado ao âmnio membranoso, formará as membranas do ovo, por isso, nomeado cório membranoso. Com o desaparecimento das vilosidades do córion liso, aquelas associadas à decídua basal aumentam rapidamente de número, ramificam-se profusamente e crescem. Essa parte arboriforme do saco coriônico constitui o córion viloso (parte fetal da placenta). Essa Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO diferenciação (liso e frondoso) é completa ao longo da 12ª semana. Com o crescimento do feto, o útero, o saco coriônico e a placenta aumentam de tamanho. A placenta continua a crescer em tamanho e espessura até o feto ter cerca de 18 semanas (20 semanas de gestação). A placenta totalmente desenvolvida cobre de 15% a 30% da decídua e pesa aproximadamente um sexto do peso do feto. A parte fetal da placenta (córion viloso) prende-se à parte materna (decídua basal) pela capa citotrofoblástica. As vilosidades coriônicas prendem-se firmemente à decídua basal por essa capa e ancoram o saco coriônico à decídua basal. Essa junção permite passagem livre de artérias e veias endometriais. A forma da placenta é determinada pela forma da área de vilosidades coriônicas que persistem. Usualmente, esta é uma região circular, dando à placenta uma forma discoide. Com a invasão da decídua basal pelas vilosidades coriônicas, durante a formação da placenta, o tecido da decídua sofre erosão, aumentando o espaço interviloso. Esse processo de erosão produz várias áreas cuneiformes na decídua, septos da placenta, que se projetam em direção à placa coriônica, parte da parede do córion relacionada com a placenta. Os septos da placenta dividem a parte fetal da placenta em áreas convexas irregulares denominadas cotilédones. Cada cotilédone é formado por duas ou mais vilosidades-tronco e seus inúmeros ramos. No fim do quarto mês, a decídua basal está quase totalmente substituída por cotilédones. Os septos placentários dividem o espaço interviloso da placenta em compartimentos, entretanto, eles comunicam-se livremente, pois os septos não chegam até a placa coriônica. A placenta in situ apresenta uma face fetal, em correspondência com a cavidade amniótica e o cordão umbilical, e outra, face materna, que se confunde com a decídua. No órgão delivrado, o que se denomina face materna não corresponde exatamente ao limite da placenta, pois uma pequena porção decidual permaneceu in utero. A face fetal é recoberta pelo âmnio, que a torna lisa e brilhante. Aí se insere o cordão umbilical, do qual emergem as ramificações das artérias umbilicais, dispostas em raios, ou para o qual convergem os componentes da veia umbilical. Ocasionalmente, encontram-se granulações e pequenas formações císticas, remanescentes da vesícula vitelina e da alantoide. Na face materna, como vista no órgão após o parto, notam-se 15 a 30 cotilédones. Os sulcos intercotiledonários correspondem a septos deciduais, dilacerados pela dequitadura. A superfície dos cotilédones está coberta por fragmentos de material fino, acinzentado, da decídua basal, embora a maior parte dela fique retida no útero para ser eliminada posteriormente, com os lóquios. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO CIRCULAÇÃO PLACENTÁRIA: A placenta fornece uma área extensa na qual substâncias podem ser intercambiadas entre a mãe e o feto. As circulações materna e fetal são independentes, não havendo, em condições normais, comunicação alguma entre elas. CIRCULAÇÃO UTEROPLACENTÁRIA (MATERNA): O sangue, retido no espaço interviloso, está temporariamente fora do sistema circulatório materno, penetrando nessa região por meio de 80 a 100 artérias endometriais espiraladas. O fluxo desses vasos é pulsátil e propulsionado em jatos ou correntes pela pressão sanguínea materna. O sangue que entra está submetido a uma pressão muito mais alta do que a existente no espaço interviloso e, por isso, é direcionado para a placa corial. Quando a pressão se dissipa, o sangue flui, vagarosamente, em volta e sobre a superfície das vilosidades, possibilitando a troca de produtos metabólicos e gasosos com o sangue fetal. O sangue materno alcança o assoalho do espaço interviloso, no qual ingressa nas veias endometriais e deixa o espaço interviloso com pressão superior à das veias endometriais. O espaço interviloso contém cerca de 150 ml de sangue, quantidade substituída 3 a 4 vezes por minuto. A nutrição da placenta, tanto na parte materna como na ovular, depende essencialmente da circulação materna. CIRCULAÇÃO FETOPLACENTÁRIA: O sangue, pobre em oxigênio, deixa o feto e segue em direção à placenta pelas veias umbilicais. O cordão umbilical, ao se inserir na placenta, tem suas artérias divididas em alguns vasos, dispostos de modo radiado, e que se ramificam livremente na placa coriônica, compondo um extenso sistema arteriocapilar-vernoso dentro das vilosidades, aproximando o sangue fetal e o materno sem que exista mistura entre eles (em condições normais). O sangue fetal oxigenado passa através de veias que têm o mesmo trajeto das artérias, em sentido contrário, para o cordão umbilical, sendo coletado pela veia umbilical, adentrando novamente o sistema circulatório do feto. O fluxo fetal que se dirige à placenta é determinado pelo débito cardíaco do concepto e pela resistência vascular umbilical, que é a exercida pelas arteríolas do sistema viloso terminal. Na ausência de inervação autônoma, a resistência vascular na circulação fetal da placenta é exercida localmente pela ação de autocoides que promovem a vasoconstrição ou a vasodilatação. Entre os principais vasodilatadores estão o óxido nítrico (NO) e a prostaciclina (PGI2). Entre os vasoconstritores, a antitrombina III (AT III) e as endotelinas 1 (ET-1) e 3 (ET-3). VISOLIDADES CORIAIS: Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Essasestruturas representam o revestimento trofoblástico e conjuntivo rico em capilares que se organiza em forma digiforme, fixadas no endométrio. Imutáveis quanto a morfologia geral, ocorrem, entretanto, no curso da gravidez, numerosas modificações: altera-se o tamanho, modificam-se o aspecto e a quantidade do trofoblasto, do tecido conjuntivo e da vascularização. Entre a vilosidade corial agressiva do ovo jovem e a da placenta senil, sucedem-se, de modo gradual, inúmeros quadros transicionais, não sendo possível estabelecer limites cronológicos para separá-los, mas didaticamente é possível observar as seguintes características: Vilosidade tipo primeiro trimestre: são visíveis quatro camadas em corte transversal (sinciciotrofoblasto, citotrofoblasto, tecido de conexão e endotélio de capilares fetais); Vilosidade tipo segundo trimestre: o citotrofoblasto não compõe uma camada contínua, há redução na quantidade de tecido conjuntivo e aumento no número e tamanho dos capilares; Vilosidades tipo terceiro trimestre: a membrana placentária torna-se mais fina e mais capilares aproximam-se do sinciciotrofoblasto. Agrupados nucleares dessa camada (nós sinciciais) se destacam e são enviados para a circulação pulmonar, onde se degeneram. Próximo ao fim da gestação, material fibrinoide dispõe-se na superfície das vilosidades, reduzindo sua superfície útil (senilidade). Através da superfície das vilosidades efetuam-se as trocas transplacentárias. A soma das superfícies de todas as vilosidades constitui a superfície placentária de trocas. O aumento da massa placentária no decorrer da gravidez causa um aumento dessa área funcional, e para evitar insuficiência estrutural as vilosidades têm seu diâmetro reduzido, permitindo maior ocupação delas na unidade de massa. ATRIBUIÇÕES PLACENTÁRIAS: A placenta desempenha um grande número de funções de grande importância num curto espaço de tempo, suprindo o papel de diversos órgãos atuantes no adulto. A placenta serve como transporte de gases respiratórios, nutrientes e produtos de degradação entre a mãe e o concepto. É órgão endócrino de grande atividade, secretando ampla gama de hormônios esteroides e peptídicos, necessários para a manutenção da gravidez e o controle do crescimento e do amadurecimento fetal. Além disso, também atua como interface imunológica entre a mãe e o aloenxerto fetal. O citotrofoblasto se diferencia para formar o sinciciotrofoblasto, que desempenha as funções endócrina, epitelial e endotelial da placenta. METABOLISMO PLACENTÁRIO: A placenta, particularmente durante a fase inicial da gravidez, sintetiza glicogênio, colesterol e ácidos graxos, que servem de fonte de nutrientes e energia para o embrião/ feto. Muitas de suas atividades metabólicas são, indubitavelmente, críticas para as duas outras atividades principais da placenta (transporte e secreção endócrina). A PLACENTA COMO UM ALOENXERTO: A placenta pode ser vista como um aloenxerto em relação à mãe. A parte fetal da placenta é um derivado do concepto, que Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO herda os genes tanto maternos quanto paternos. O sinciciotrofoblasto das vilosidades coriônicas, embora exposto às células imunes maternas nos sinusoides, não expressa antígenos do complexo principal de histocompatibilidade (MHC) e, portanto, não evoca respostas de rejeição. Entretanto, as células trofoblásticas extravilosas (TEV) que invadem a decídua uterina e seus vasos expressam antígenos MHC classe I, principalmente HLA-G, pouco reconhecidos pelo sistema imune, e HLA-C, que são reconhecidos pelas células T maternas. Alguns mecanismos estão associados à proteção da placenta, como: A expressão de HLA-G é restrita a alguns tecidos, incluindo as células TEV placentárias. Acredita-se que a sua localização estratégica na placenta forneça um duplo papel imunoprotetor: fuga do reconhecimento pelas células T devido à sua natureza não-polimórfica e reconhecimento pelos "receptores inibitórios citotóxicos" das células NK, inibindo assim sua função citotóxica. A imunoproteção é fornecida localmente por certas moléculas imunossupressoras, por exemplo, prostaglandina (PG) E2, fator de crescimento transformante (TGF) (3 e interleucina-10 (IL-10). Já foi mostrado que a PGE, derivada da decídua bloqueia a ativação das células T maternas e das células NK no local; A presença de proteínas reguladoras do complemento (co-fator proteico de membrana, ou CD46 no homem), as quais podem bloquear a ativação do terceiro componente do complemento (C3) na cascata, protege a placenta da destruição mediada por este, que pode acontecer de outra forma em virtude da ativação residual de C3 remanescente após defesa contra patógenos. A implantação e a placentação que caracterizam o 1º trimestre da gestação representam uma “ferida aberta” e necessitam de forte resposta inflamatória (TH1). Nessa fase inicial, a grávida sente mal-estar resultante da resposta imunológica e do ambiente hormonal. Assim, o 1º trimestre da gravidez é uma fase inflamatória. A segunda fase imunológica da gravidez é período de rápido crescimento e desenvolvimento. A mãe, a placenta e o feto se apresentam simbióticos, e cessam os sintomas inflamatórios da 1ª fase (náuseas, fadiga extrema), caracterizando estado anti- inflamatório (TH2). Durante a última fase imunológica da gravidez, a mãe precisa expulsar o concepto, e isso só pode ser realizado por meio de novo estado inflamatório. O parto se caracteriza pelo influxo de células imunológicas no miométrio, que criam ambiente proinflamatório, determinando contratilidade uterina, expulsão do feto e rejeição da placenta. TRANSFERÊNCIA PLACENTÁRIA: O transporte bidirecional de substâncias entre a placenta e o sangue materno é facilitado pela grande superfície da membrana placentária, permeando-a por um dentre quatro mecanismos principais (difusão simples [DS], facilitada [DF], transporte ativo [TA] ou pinocitose [P]). O transporte passivo por difusão simples é, usualmente, característico de substâncias que se deslocam de uma área de concentração mais alta para outra mais Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO baixa, até o equilíbrio ser estabelecido. Na difusão facilitada, há transporte por meio de cargas elétricas. O transporte ativo contra um gradiente de concentração requer energia. A pinocitose é uma forma de endocitose na qual o material englobado é uma pequena amostra do fluido extracelular. Esse método de transporte geralmente está reservado para moléculas grandes. TRANSFERÊNCIA DE GASES: O2, CO2 e CO cruzam a membrana placentária por DS. As trocas de oxigênio e dióxido de carbono são mais limitadas pelo fluxo sanguíneo do que pela eficiência da difusão, tendo aproveitamento semelhante ao dos pulmões. A interrupção do transporte de oxigênio por vários minutos põe em risco a sobrevivência do embrião ou do feto. TRANSFERÊNCIA DE NUTRIENTES: Nutrientes são a maior parte do conjunto de substâncias carreadas para o feto. A água permeia facilmente por DS (aumento gradual com o passar da gestação), com a glicose seguindo o mesmo fenômeno. Há pouca ou nenhuma transferência de colesterol, triglicerídeos ou fosfolipídios maternos. Apesar de haver transporte de ácidos graxos livres, a quantidade transferida parece ser relativamente pequena. Os aminoácidos são atravessados pela membrana placentária por TA e são essenciais para o crescimento do feto. As vitaminas cruzam a membrana placentária e são essenciais para o desenvolvimento normal. Vitaminas hidrossolúveis cruzam a membrana placentária mais rapidamente do que as lipossolúveis. PERMEAÇÃO HORMONAL: Hormônios proteicos nãochegam ao embrião ou ao feto em quantidades significativas, exceto por uma transferência lenta de tiroxina e triiodotironina (favorece o desenvolvimento cerebral enquanto a tireoide se forma). Hormônios esteroides não-conjugados cruzam livremente a membrana placentária. A testosterona e algumas progestinas sintéticas cruzam a membrana placentária e podem causar masculinização de fetos do sexo feminino. TRANSFERÊNCIA DE ELETRÓLITOS: Estes compostos são livremente trocados através da membrana placentária em quantidades significativas, cada um com sua própria velocidade. A infusão de líquidos por via endovenosa também fornece insumos ao feto. PASSAGEM DE ANTICORPOS MATERNOS: O feto produz somente pequenas quantidades de anticorpos, pois seu sistema imune é imaturo. Alguma imunidade passiva é conferida ao feto pela transferência placentária de anticorpos maternos, principalmente IgG, prontamente carreada por transcitose. Anticorpos maternos conferem imunidade ao feto contra doenças como a difteria, a varíola e o sarampo. Uma proteína materna, a transferrina, cruza a membrana placentária e transporta ferro para o embrião ou o para o feto, acoplando- se em receptores placentários específicos. TRANSFERÊNCIA DE EXCRETAS: A ureia e o ácido úrico passam pela membrana placentária por DS. A bilirrubina conjugada, lipossolúvel, é facilmente transportada pela placenta para uma rápida depuração. PASSAGEM TRANSPLACENTÁRIA DE DROGAS: A maioria das drogas e seus metabólitos cruzam a placenta por DS, exceto aqueles que se assemelham estruturalmente a aminoácidos. Algumas dessas substâncias podem causar defeitos congênitos ao feto, Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO enquanto outras (drogas ilícitas) podem levar à dependência fetal. As drogas tomadas pela mãe podem afetar, direta ou indiretamente, o embrião/feto, interferindo no metabolismo materno ou da placenta. A alteração mais comum é a depressão respiratória no RN, causada principalmente por anestésicos inalatórios. PASSAGEM DE AGENTES INFECCIOSOS: Citomegalovírus, vírus da rubéola e coxsackievírus, assim como os vírus associados à varíola, varicela, sarampo e poliomielite podem atravessar a membrana placentária e causar infecção no feto. Microrganismos como o Treponema pallidum, causador da sífilis, e o Toxoplasma gondii, que causa alterações destrutivas do cérebro e dos olhos, também atravessam a membrana placentária. PLACENTA COMO UM ÓRGÃO ENDÓCRINO: Usando precursores provenientes do feto e/ou da mãe, o sinciciotrofoblasto da placenta sintetiza hormônios proteicos e esteroides, como o hCG, lactogênio placentário humano (hPL), tireotrofina coriônica humana, e corticotrofina coriônica humana. Os hormônios esteroides sintetizados pela placenta são a progesterona e os estrogênios. A progesterona pode ser extraída da placenta em todos os estágios da gestação, indicando ser ela essencial para a manutenção da gravidez. A placenta forma progesterona a partir do colesterol ou da pregnenolona maternos. O CORDÃO UMBILICAL: Essa estrutura normalmente está inserida no centro da placenta, com 50-60cm de comprimento e 1-2cm de diâmetro. O cordão é espiralado, fato que parece estar relacionado à prevenção de fenômenos compressivos. A torção do cordão pode se dar ao longo de toda a sua extensão, mas é geralmente observada na extremidade do feto. O cordão é formado de tecido conjuntivo indiferenciado (geleia de Wharton), no qual correm os vasos umbilicais e onde se encontram, com frequência, remanescentes da alantoide e da vesícula vitelina. O todo é revestido pelo âmnio funicular. Os vasos umbilicais possuem tortuosidades que com frequência originam nodulações na superfície do cordão ou acúmulos focais de geleia, constituindo os falsos nós. Nós verdadeiros podem ser formados em 1% das gestações, podendo causar morte fetal decorrente de anóxia. SISTEMA AMNIÓTICO: O sistema amniótico representa a unidade morfofuncional entre o âmnio e o líquido amniótico. O ÂMNIO: O âmnio, delgado, porém firme, forma o saco amniótico membranoso cheio de fluido, que envolve o embrião e o feto. Como o âmnio está preso às bordas do disco embrionário, após o dobramento do embrião, sua junção com o mesmo (futuro umbigo) passa a localizar-se na superfície ventral. Com o aumento do âmnio, ele oblitera gradualmente a cavidade coriônica e forma o revestimento epitelial do cordão umbilical. As membranas em volta da cavidade amniótica são compostas pelo âmnio e pelo cório liso, cujas camadas estão intimamente aderidas entre si e em contato com a decídua materna. Elas retêm o líquido amniótico. As membranas normalmente se rompem durante o parto. O âmnio não possui vasos sanguíneos nem nervos, sendo suprido nutricionalmente pelo Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO líquido amniótico. Cinco camadas formam essa estrutura: a mais interna, perto do feto, é o epitélio amniótico, secretor de colágeno III e IV e glicoproteínas que elaboram a próxima camada, a membrana basal. A camada compacta de tecido conjuntivo, adjacente à membrana basal, forma o principal esqueleto fibroso do âmnio, cujo colágeno é secretado por células mesenquimais da camada fibroblástica, a mais espessa. Não há interposição de substância amorfa entre as fibrilas de colágeno no tecido conjuntivo amniótico a termo, assim, o âmnio mantém toda a sua capacidade de estiramento durante o final da gestação normal. A camada intermediária (camada ou zona esponjosa) situa-se entre o âmnio e o cório. Seu abundante conteúdo de proteoglicanos hidratados e de glicoproteínas proporciona a essa camada uma aparência “esponjosa” nas lâminas histológicas. Ela contém também colágeno tipo III. A camada intermediária absorve o estresse físico, possibilitando que o âmnio deslize sob o cório subjacente, que está firmemente aderido à decídua. Ao examinar as membranas, reconstituindo o ovo na sua morfologia intrauterina, a face interna é lisa e brilhante, e a externa, despolida e irregular. A primeira é o âmnio, a segunda, o cório, com fragmentos deciduais. LÍQUIDO AMNIÓTICO: O líquido amniótico desempenha papel importante no crescimento e desenvolvimento do embrião. Inicialmente, um pouco de líquido amniótico pode ser secretado pelas células amnióticas, entretanto, a maior parte desse fluido provém do fluido tecidual materno e amniótico por difusão através da membrana amniocoriônica a partir da decídua parietal. Mais tarde, há difusão de líquido, através da placa coriônica a partir do sangue presente nos espaços intervilosos da placenta. Antes de a pele tornar-se queratinizada, ela é a principal via para a passagem de água e solutos do fluido tissular do feto para a cavidade amniótica, portanto esse líquido assemelha-se ao fluido dos tecidos fetais. O volume amniótico é muito variável de um entre gestações e, na mesma gestante, oscilante, embora com tendência geral ao aumento progressivo. Nos primórdios da gravidez, é maior o volume amniótico que o do concepto. Sendo mais acentuado o desenvolvimento do feto que o do âmnio, igualam-se, em torno do 5º mês, os volumes fetal e amniótico, invertendo-se a proporção ao final do ciclo gravídico. No início da 1ª semana, o feto contribui para o líquido amniótico expelindo urina na cavidade amniótica. No final da gravidez, cerca de 500 mL de urina é acrescentado diariamente. Normalmente, o volume de líquido amniótico aumenta lentamente, chegando a cerca de 30 mL com 10 semanas, 350 mL com 20 semanas e de 700 a 1.000 mL com 37 semanas, passando a perder 10 mL por semana próximo ao termo. Grande quantidade de água passa pela membrana amniocoriônica para o fluido tecidual materno e daí paraos capilares uterinos. Também há troca de fluido com o sangue fetal através do cordão umbilical e no local onde o âmnio adere à placa coriônica na superfície fetal da placenta. Desta Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO maneira, o líquido amniótico fica em equilíbrio com a circulação fetal. Esse líquido é uma solução na qual material não dissolvido está suspenso, (células epiteliais fetais descarnadas) e contém partes aproximadamente iguais de sais orgânicos e inorgânicos. Metade dos constituintes orgânicos é proteína, a outra metade consiste em carboidratos, gorduras, enzimas, hormônios e pigmentos. Com o avanço da gravidez, a composição do líquido amniótico muda pelo acréscimo de excretas fecais (mecônio e urina). A realização de amniocentese permite a análise de hormônios e enzimas fetais, sendo um bom método diagnóstico para anormalidades cromossômicas. O líquido amniótico é deglutido pelo feto e absorvido pelos tratos respiratório e digestivo, e os produtos de excreção nele contidos atravessam a membrana placentária e vão para o sangue materno presente no espaço interviloso. O excesso de água do sangue fetal é excretado pelos rins do feto e retorna para o saco amniótico através do trato urinário fetal. O líquido amniótico é fundamental para o desenvolvimento embriofetal, a saber: Age como uma barreira contra infecções; Permite o desenvolvimento adequado dos pulmões fetais; Impede a aderência do âmnio ao feto; Protege o feto contra choques mecânicos; Regula a temperatura corporal embrionária; Capacita a movimentação fetal livre e o desenvolvimento dos membros; Participa da manutenção homeostásica de fluidos e eletrólitos. VESÍCULA VITELINA: Embora na espécie humana não desempenhe funções de armazenamento de material nutritivo, seu crescimento e sua diferenciação são essenciais para os seguintes fatores: Fornece material nutritivo para o embrião na 2ª e 3ª semanas, quando não há circulação uteroplacentária; O sangue se desenvolve em suas paredes desde a 3ª semana até a 6ª, quando a atividade hematopoética se inicia no fígado; Durante a 4ª semana, a parte dorsal da vesícula vitelina se incorpora ao embrião, constituindo o tubo endodérmico, o intestino primitivo. Além do sistema digestivo, esse endoderma dará origem ao epitélio da traqueia, dos brônquios e dos pulmões; No começo da 3ª semana, as células germinativas primitivas aparecem na vesícula vitelina e migram para desenvolver as gônadas (espermatogônias ou oogônias). No fim da 5ª semana a vesícula vitelina se separa do intestino primitivo, e na 12ª semana jaz na cavidade coriônica entre as vesículas amniótica e coriônica. Com o evoluir da gravidez, reduz-se, tornando-se sólida e bem diminuta. Pode persistir durante toda a gravidez e ser reconhecida na superfície fetal da placenta, embaixo do âmnio, perto da inserção do cordão umbilical. Em cerca de 2% dos adultos, a porção intra- abdominal proximal da vesícula vitelina Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO persiste como um divertículo do íleo (divertículo de Meckel). ALANTOIDE: O alantoide aparece no 16º dia após a fertilização, como um divertículo na zona caudal da vesícula vitelina. Durante o 2º mês, a porção extraembrionária degenera, embora traços possam ser vistos entre as artérias umbilicais, em local próximo ao cordão, por algum tempo. Ainda que não seja funcional para os embriões humanos, ele apresenta três funções importantes: Permite, nos dois primeiros meses de gestação, a formação de sangue em suas paredes; Seus vasos sanguíneos originam as artérias e veias umbilicais; Dá origem ao ligamento umbilical, que se estende do umbigo à bexiga. DESENVOLVIMENTO FETAL ENTRE A 9ª E 12ª SEMANA: Embora a transformação do embrião em feto seja gradual, a mudança de nome é relevante, pois significa que o embrião se tornou um ser humano reconhecível e que já se formaram todos os sistemas importantes. O desenvolvimento durante o período fetal está relacionado principalmente com o rápido crescimento do corpo e com a diferenciação dos tecidos, órgãos e sistemas. Uma alteração perceptível que ocorre durante o período fetal é a diminuição relativa do crescimento da cabeça quando comparado com o do resto do corpo. A taxa de crescimento do corpo durante o período fetal é muito grande, e, durante as últimas semanas, o ganho de peso pelo feto é impressionante. Períodos de crescimento contínuo se alternam com intervalos prolongados de ausência de crescimento. No início da 9ª semana, a cabeça constitui quase a metade do comprimento cabeça- nádegas (CCN) do feto. Em sequência, há grande aceleração no crescimento do comprimento do corpo, fazendo com que no final da 12ª semana esse comprimento dobre, ainda que a medida cefálica ainda seja desproporcionalmente grande. Com nove semanas, a face é larga, os olhos estão muito separados, as orelhas têm implantação baixa e as pálpebras estão fundidas. No fim das 12 semanas, centros de ossificação primária aparecem no esqueleto, especialmente no crânio e nos ossos longos. No início da nona semana, as pernas são curtas e as coxas relativamente pequenas. No término da 12ª semana, os membros superiores quase alcançaram seu comprimento final relativo, mas os membros inferiores ainda não estão tão bem desenvolvidos e são um pouco mais curtos do que seu comprimento proporcional final. A genitália externa de homens e mulheres parece semelhante até o final da 9ª semana, uma vez que a sua forma fetal madura não está estabelecida até a 12ª semana. As alças intestinais são claramente visíveis na extremidade proximal do cordão umbilical Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO na metade da 10ª semana. Na 11ª semana, o intestino já retornou para o abdome. Intestino fetal próximo ao cordão umbilical (seta branca), que se retrai rumo ao abdome na 11ª semana. Com 9 semanas, o fígado é o principal local da eritropoese, mas o final da 12ª semana, marca a diminuição dessa atividade na região hepática e começa no baço. A formação de urina começa entre as semanas em análise, e essa excreta é lançada no líquido amniótico. O feto reabsorve parte deste fluido depois de degluti-lo. Os produtos de excreção fetal são transferidos para a circulação materna cruzando a membrana placentária. ASSISTÊNCIA PRÉ-NATAL E MORBIMORTALIDADE MATERNA: A morte materna é definida, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID), como a morte que ocorre durante a gestação, no período de até 42 dias após seu final, independentemente do seu local ou duração, devido a qualquer causa relacionada ou agravada pela gravidez ou, ainda, por medidas tomadas em relação a ela, excluindo-se os fatores acidentais ou incidentais. As causas obstétricas diretas estão relacionadas às complicações na gravidez, no parto ou puerpério, em razão de tratamento inadequado, más práticas e omissões. As indiretas são as que resultam de doenças que já existiam antes da gestação ou de uma patologia que se desenvolveu durante a gravidez, sem uma relação direta com causas obstétricas, mas que se agravaram pelas condições fisiológicas específicas da gestação. Países desenvolvidos têm taxa de mortalidade materna de 12 óbitos maternos por 100 mil nascidos vivos, e os países em desenvolvimento, 239 óbitos maternos a cada 100 mil nascidos vivos. Considera-se razoável uma proporção de até 20:100 mil. No Brasil, em 2014, foram registrados 1.552 óbitos maternos por 100 mil nascidos vivos, evidenciando seu status como problema de saúde pública. Para computar os incidentes graves com gestantes que não chegaram a óbito, foi criado o conceitode morbidade materna grave, também denominada near miss. Essa categoria de complicações foi definida pela OMS como “uma mulher que quase morreu, mas sobreviveu a uma complicação materna grave, ocorrida durante a gravidez, o parto ou em até 42 dias após o término da gravidez”. As possibilidades de intervenção para redução dos índices de mortalidade e morbidade materna orbitam principalmente em torno dos serviços de saúde, nos quais destaca-se a assistência pré-natal. Esse modelo de atendimento contempla um conjunto de atividades que objetiva promover a saúde da gestante e do feto, identificando riscos do período gestacional. O número de consultas pré-natal realizadas pela gestante está intimamente relacionado com a prevenção do óbito materno, visto que é durante a realização do mesmo que são identificados os riscos potenciais, é garantido suporte nutricional para a gestante, Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO tratamento de doenças e imunizações indicadas nesse período, no intuito de diminuir a interferência de fatores externos sobre o desenvolvimento gestacional. É recomendada a primeira consulta de pré- natal até a 16ª semana de gestação, onde é realizada a primeira avaliação de risco obstétrico dessa mulher. O novo modelo de atenção à gestante da OMS recomenda que sejam realizadas ao menos 8 atendimentos de acompanhamento pré-natal, visto que uma maior frequência de contatos entre mulheres e adolescentes com o sistema de saúde é associada a uma menor probabilidade de natimortos. No entanto, não é somente a maior frequência de atendimentos que irá prevenir boa parte dos óbitos maternos, mas sim a qualidade assistencial destes, e para tanto, a OMS faz uma série de recomendações, como investigar os prováveis riscos da gestante, realizar exame clínico e obstétrico, com uma especial atenção a presença de anemia e avaliação da idade gestacional, altura uterina e batimentos cardiofetais, aferir níveis pressóricos, e reforçar e estimular a suplementação de ferro e ácido fólico. Na primeira consulta pré-natal também deve ser realizado o exame ginecológico completo, o cálculo de IMC, a solicitação de exames laboratoriais básicos, como dosagem de hemoglobina, sorológico para sífilis e HIV/HTLV, urinálise, tipagem sanguínea (ABO e Rh), e a primeira dose da vacina antitetânica. Além da ação preventiva e terapêutica, o pré- natal também tem como função a orientação das gestantes, no intuito de proporcionar a mulher medidas de suporte capazes de reduzir a ansiedade no período que antecede o parto e também durante o trabalho de parto, resultando assim, na diminuição de complicações. CONDUÇÃO E ORIENTAÇÕES NUMA CONSULTA DE PRÉ-NATAL: A consulta pré-natal, assim como uma consulta cínica, é composta de anamnese, exame físico e avaliação dos exames complementares. As consultas são divididas em primeira consulta e acompanhamento. PRIMEIRA CONSULTA: A primeira consulta é o contato inicial da paciente gestante com seu obstetra, momento em que serão estabelecidas as relações de confiança e empatia, e tem como objetivos principais a avaliação da condição de saúde materna e fetal, estimar a IG e iniciar o planejamento do acompanhamento gestacional. O profissional de saúde ainda deve orientar a gestante acerca do número e frequência das consultas, dos procedimentos que serão realizados, e dos momentos nos quais deve buscar atendimento emergencial. A avaliação de risco é individual para cada paciente, e deve ser permanente, ou seja, realizada em cada consulta. É por meio desses fatores que o profissional pode desenvolver condutas ou encaminhamentos capazes de prevenir complicações que possam causar prejuízos à mãe ou ao concepto. A caracterização de uma situação de risco não implica necessariamente referência da gestante para acompanhamento em pré- natal de alto risco. As situações que envolvem fatores clínicos mais relevantes (risco real) ou fatores preveníveis que demandem intervenções mais complexas devem ser necessariamente referenciadas, podendo, contudo, retornar ao nível primário quando se considerar a situação como resolvida. De qualquer maneira, a unidade básica de saúde deve continuar responsável pelo seguimento da gestante encaminhada a um nível de maior complexidade no sistema. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Os fatores de rico para a gravidez em curso são: Características individuais e condições sociodemográficas desfavoráveis: o Idade menor que 15 e maior que 35 anos; o Ocupação com esforço físico intenso, carga horária intensa, estresse, rotatividade de horários ou exposição a agentes químicos, físicos ou biológicos; o Situação familiar/conjugal insegura; o Condições ambientais desfavoráveis; o Altura menor que 1,45m; o Peso menor que 45kg ou maior que 75kg; o Dependência química (drogas lícitas ou ilícitas). História reprodutiva anterior: o Mortalidade perinatal anterior; o Recém-nascido malformado, pré- termo ou com restrição de crescimento; o Abortamento habitual; o Infertilidade; o Intervalo entre partos menor que dois anos ou maior que cinco; o Nuliparidade/multiparidade; o Síndromes hemorrágicas; o (Pré) eclâmpsia; o Cirurgia uterina prévia; o Macrossomia fetal. Condições clínicas de aspecto crônico: o Diabetes mellitus; o Cardiopatias; o GInecopatias; o Epilepsia; o Hipertensão moderada/grave ou em uso de anti-hipertensivo; o Nefropatias; o Pneumopatias; o Portadores de doenças infecciosas; o Infecção urinária; o Doenças autoimunes. Doença obstétrica atual: o Trabalho de parto prematuro ou gestação prolongada; o Ganho ponderal inadequado; o Óbito fetal; o Isoimunização; o Pré-eclâmpsia ou eclampsia. Ainda sobre a primeira consulta, anamnese e exame físico devem ser minuciosos para auxiliar a construir o quadro atual da saúde da gestante, não devendo ser esquecidos aspectos como sexualidade, contexto socioeconômico e cultural, antecedentes pessoais e familiares. Nesse primeiro momento são prescritos os seguintes exames complementares: Dosagem de hemoglobina ( VR: acima de 11g/dL) e hematócrito; Grupo sanguíneo e fator Rh; Sorologia para sífilis (VDRL), repetindo na 32ª semana; Glicemia em jejum, repetindo na 30ª semana; Sumário de urina, repetindo na 30ª semana; Sorologia anti-HIV/HTLV; Sorologia para Hepatite B, preferencialmente próximo à 30ª semana de gestação; Sorologia para toxoplasmose (IgM para toda paciente, IgG se há disponibilidade). Outros exames podem ser solicitados conforme a necessidade, como protoparasitológico (na primeira consulta, principalmente se a paciente for economicamente vulnerável), Papanicolau (se não foi realizado nos últimos 3 anos ou se houver indicação), bacterioscopia da secreção vaginal (30ª semana, particularmente em mulheres com histórico de prematuridade), sorologia para rubéola, urocultura (diagnóstico para bacteriúria assintomática), e ultrassonografia obstétrica (realizar precocemente se houver disponibilidade). Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO As condutas promovidas nesse primeiro momento são o cálculo da IG e da DPP, avaliação do estado nutricional, respostas às indagações da paciente ou de seus familiares, referência para atendimento odontológico, encaminhamento para imunização antitetânica (se a gestante não for imunizada) ou outros serviços prestados pela Unidade ACOMPANHAMENTO: O processo de acompanhamento no pré- natal deve contar com a revisão da caderneta da gestante, uma anamnese sucinta de queixas atuais e verificação do calendário vacinal. Para o controle da saúde materna são realizados o cálculo da IG, determinação do peso atual(IMC e verificação da curva de ganho ponderal), a medida da PA, palpação obstétrica e medida da AU, pesquisa por edema, e avaliação dos resultados laboratoriais (se positivo para sífilis, iniciar o tratamento do casal e promover sorologias mensais para o controle da cura). Os controles da saúde fetal são executados por meio da ausculta dos BCF e da avaliação dos movimentos percebidos pela mulher e/ou detectados durante o exame obstétrico. Como condutas típicas desse período, o profissional deve correlacionar dados colhidos na anamnese e exame físico aos resultados dos exames laboratoriais, solicitando outros conforme a necessidade, tratar alterações encontradas, prescrever a suplementação de sulfato ferroso (60mg de ferro elementar/ dia) e ácido fólico (5mg/dia), orientar acerca dos hábitos alimentares que devem ser seguidos, acompanhar a conduta adotada em centros de referência especializados (caso a paciente tenha sido encaminhada),e realizar medidas educativas individuais ou coletivas (gestantes com 10-14 e 15-19 anos devem ter grupos isolados), além de agendar nova consultas. O calendário de atendimento pré-natal deve ser programado em função dos períodos gestacionais que determinam maior risco materno e perinatal. Deve ser iniciado precocemente (primeiro trimestre) e deve ser regular e completo (garantindo-se que todas as avaliações propostas sejam realizadas e preenchendo-se o cartão da gestante e a ficha de pré-natal). O Programa de Humanização do Pré-Natal e Nascimento estabelece que o número mínimo de consultas de pré-natal deverá ser de seis, preferencialmente, uma no primeiro trimestre, duas no segundo trimestre e três no último trimestre. A maior frequência de visitas no final da gestação visa à avaliação do risco perinatal e das intercorrências clínico-obstétricas mais comuns nesse trimestre, como trabalho de parto prematuro, pré-eclâmpsia e eclâmpsia, amniorrexe prematura e óbito fetal. O acompanhamento da mulher, no ciclo grávido-puerperal, deve ser iniciado o mais precocemente possível e só se encerra após o 42º dia de puerpério, período em que deverá ter sido realizada a consulta de puerpério. ORIENTAÇÕES NUTRICIONAIS NA GESTAÇÃO: O estado nutricional da mulher deve ser avaliado preferencialmente no período periconcepcional e as modificações alimentares necessárias também devem ser iniciadas antes da gestação. O estado nutricional materno adequado é considerado um fator imponente na redução da morbidade e da mortalidade materno-infantil. A incidência de complicações na gestação é maior nos extremos do ganho de peso. O ganho inferior ao ideal para a faixa de índice de massa corporal (IMC) está associado à restrição do crescimento fetal e ao parto Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO prematuro, ao passo que os ganhos superiores têm relação com macrossomia fetal e ao aumento de duas vezes na taxa de cesárias. O ganho ponderai médio ideal da grávida é de aproximadamente 12,5 kg. O feto, a placenta e o aumento uterino e das mamas representam aproximadamente 9 kg, sendo o restante composto por tecido gorduroso materno. Esses parâmetros podem variar conforme o IMC prévio de cada gestante. O ganho semanal para a gestante com peso ideal é de aproximadamente 400 g no segundo e terceiro trimestres. Ganho menor que 1 kg ou maior que 3 kg em um mês é sugestivo de mudanças nos hábitos alimentares ou de outros fatores que possam contribuir para alterações no peso, como a retenção hídrica na pré-eclâmpsia. As gestantes com ganho de peso inadequado se beneficiam de acompanhamento nutricional especializado e individualizado. Recomenda-se um aumento de 300 kcal/dia na ingestão sobre os níveis pré· - gestacionais. A quantidade de calorias representa o principal fator nutricional determinante do peso ao nascer. A placenta e o feto consomem aproximadamente 1 kg de proteína durante a gestação, e a maioria desse consumo ocorre nos últimos seis meses da gestação. Dessa forma, a grávida necessita ingerir de 5 a 6g/dia adicionais de proteína, em relação à sua dieta pré- gestacional. Alguns alimentos devem ser limitados ou mesmo evitados durante a gestação por conta de seu potencial tóxico. Entre eles, estão peixes, cafeína, carnes cruas, frutas e vegetais não lavados e produtos não pasteurizados. A exposição ao metilmercúrio pela ingestão de peixes contaminados pode causar alterações no desenvolvimento do sistema nervoso central do feto, as quais podem provocar prejuízos no desenvolvimento intelectual e psicomotor. A deficiência de ferro é a principal causa de anemia. No decorrer da gestação, ocorre aumento das necessidades desse nutriente por causa da captação de 15 a 20% do ferro total do plasma materno pela placenta e pelo feto, além da expansão da volemia. Os sais de ferro, provenientes apenas da dieta, passam a ser insuficientes após 20 semanas para a maioria das gestantes. Nesse caso, recomenda-se sua suplementação desde 16 semanas de gestação até 8 semanas após o parto. A partir do segundo trimestre é recomendada a suplementação de 60mg/dia de ferro elementar, que corresponde a 300mg de sulfato ferroso ou do ferro quelato glicinato. Para prevenção dos defeitos abertos do tubo neural nas pacientes sem antecedentes, recomenda-se suplementação de 400µg de ácido fólico por dia e, em pacientes com antecedentes, 4mg/dia. Para esse fim, a suplementação deve ser iniciada 3 meses antes da gestação e continuar nos 2 primeiros meses. A ingestão de polivitamínicos contendo vitamina A deve ser evitada, pois a alimentação já supre a necessidade diária da gestante. A ingestão de vitamina A em doses superiores a 10.000UI/dia é teratogênica. A suplementação de cálcio é recomendada na dose de 600mg/ dia apenas para gestantes que não consumam produtos lácteos. As gestantes veganas necessitam Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO de maiores doses de suplementação de vitaminas B12 e D. A vitamina B6 é recomendada para gestantes com nutrição inadequada (usuárias de drogas, adolescentes e nos casos de gestação múltipla). A necessidade de vitamina C na gestação é de 80 a 85mg/dia e pode ser obtida pela alimentação. PROGRAMAS GOVERNAMENTAIS LIGADOS À GESTAÇÃO: O SUS deve garantir, através de políticas públicas, ações e serviços de atenção integral à saúde da mulher, incluindo o direito à gestação segura, assistência ao parto e puerpério. É nesse contexto que se insere a Política Nacional de Atenção Integral a Saúde da Mulher, que surgiu inicialmente como programa em 1983, e, em 2000, teve sua linha de saúde reprodutiva fortalecida por meio da implantação do Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento (PHPN), que delibera acerca dos requisitos mínimos para o acompanhamento pré-natal e assistência à gestante, aprimorados em 2005 com a Política Nacional de Atenção Obstétrica e Neonatal. Diante da necessidade de avaliação dos programas citados, o Departamento de Informática do SUS (DATASUS) desenvolveu o Sistema de Informação do Pré-natal (SISPRENATAL), que tem por objetivo o desenvolvimento de ações de promoção, prevenção e assistência à saúde de gestantes e recém-nascidos, subsidiando Municípios, Estados e o Ministério da Saúde com informações fundamentais para o planejamento, acompanhamento e avaliação das ações desenvolvidas. Entretanto, desde a implantação, os indicadores do Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento refletem baixa cobertura, com variação em todo o país. Estudos apontam que o registro da informação no SISPRENATAL é sempre incompleto ao comparar com outras fontes de informação (prontuários de internação, entrevistas com puérperas ou estatísticas institucionais),evidenciando uma provável subnotificação. A Rede Cegonha é uma estratégia lançada em 2011 pelo governo federal para proporcionar às mulheres saúde, qualidade de vida e bem-estar durante a gestação, parto, pós-parto e o desenvolvimento da criança até os dois primeiros anos de vida. Tem o objetivo de reduzir a mortalidade materna e infantil e garantir os direitos sexuais e reprodutivos de mulheres, homens, jovens e adolescentes. Trata-se de um modelo que garante às mulheres e às crianças uma assistência humanizada e de qualidade, que lhes permite vivenciar a experiência da gravidez, do parto e do nascimento com segurança, dignidade e beleza. Não se pode esquecer jamais que dar à luz não é uma doença ou um processo patológico, mas sim uma função fisiológica e natural que constitui uma Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO experiência única tanto para a mulher como para o parceiro. O conceito de atenção humanizada é amplo e pode contemplar diversos significados mas, a partir de sua aplicação ao contexto da assistência obstétrica e neonatal, envolve um conjunto de conhecimentos, práticas e atitudes que visam a promoção do parto e do nascimento saudáveis e a prevenção da morbimortalidade materna e perinatal. Inicia- se no pré-natal e procura garantir que a equipe de saúde realize procedimentos comprovadamente benéficos para a mulher e o bebê, que evite as intervenções desnecessárias e que preserve a privacidade e a autonomia desses sujeitos. Pode-se afirmar que para haver humanização deve haver compromisso com a ambiência (bem-estar integral em determinado ambiente), melhoria das condições de trabalho e de atendimento, respeito às questões de gênero, etnia, raça, orientação sexual e às populações específicas, fortalecimento de trabalho em equipe multiprofissional, fomentando a transversalidade e a grupalidade, apoio à construção de redes cooperativas, fortalecimento do controle social, e estímulo de processos que buscam a educação permanente em saúde. Os Centros de Parto Normal Intra e Peri- hospitalares são unidades de atenção ao parto e nascimento da maternidade/hospital que realizam o atendimento humanizado e de qualidade exclusivamente ao parto normal e privilegiam a privacidade, a dignidade e a autonomia da mulher ao parir em um ambiente mais acolhedor e confortável e contar com a presença de acompanhante de sua livre escolha. Essas unidades são geridas por enfermeiras e obstetras e devem estar sempre organizadas no sentido de promover a ampliação do acesso, do vínculo e da atenção humanizada ao parto e ao nascimento. Dentre os componentes da Rede Cegonha encontram-se: Qualificação do Pré-Natal: captação precoce da gestante (medidas de educação em saúde para o reconhecimento dos sinais de gravidez), acolhimento humanizado, subsídio financeiro para realização de exames, vinculação a uma maternidade de referência (mediação de visitas, evita peregrinações no parto), alimentação no SISPRENATAL. o Caderneta da Gestante: instrumento fundamental para o registro das informações de acompanhamento da gestação e deve ser parte do processo de trabalho dos profissionais de saúde, sendo utilizada em todas as consultas do pré-natal. Ela é um instrumento reconhecido e inserido na rotina de pré-natal dos serviços de saúde que realizam acompanhamento das gestantes pelo SUS. As informações presentes na caderneta auxiliam o diálogo entre a equipe multiprofissional e a paciente, que pode registrar e esclarecer suas dúvidas, se preparar para o parto/amamentação e conhecer seus direitos. Parto e Nascimento: garantia de permanência do RN ao lado da mãe durante todo o tempo de internação, contato pele a pele, estímulo de participação paterna, investimentos em UTIs neonatais; Puerpério e Atenção Integral à Saúde da Criança: encaminhamento personalizado para a continuidade do cuidado, visita domiciliar pelo ACS, realização de todos os exames de rotina e imunizações; Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Logística de transporte: fornecer subsídio financeiro ou veicular para o transporte da gestante durante a realização de exames ou do parto, emprego do SAMU (com equipe capacitada) em emergências ou situações clínicas compatíveis. ACHADOS ULTRASSONOGRÁFICOS E DEFEITOS CONGÊNITOS: ACONSELHAMENTO GENÉTICO: O aconselhamento genético pode ser definido como um processo de comunicação sobre o risco de ocorrência ou recorrência familial de anomalias genéticas, com as finalidades de fornecer a indivíduos ou famílias uma ampla compreensão de todas as implicações relacionadas às doenças genéticas em discussão, as opções que a medicina atual oferece para a terapêutica ou para a diminuição dos riscos de ocorrência ou recorrência da doença genética em questão, e eventual apoio psicoterapêutico. Nessa definição é fácil entender que uma das metas prioritárias do aconselhamento genético é ajudar famílias que estão ou que supõe estar sob risco de ocorrência ou de defeitos genéticos, a tomar decisões racionais quanto à procriação. O aconselhamento genético é feito de modo não doutrinador com a finalidade de defender o bem-estar de indivíduos ou de famílias, ajudando-os a resolver problemas de natureza genética, tentando esclarecer-lhe dúvidas e diminuindo ou evitando sofrimentos e preocupações. ULTRASSONOGRAFIA HABITUAL NA GESTAÇÃO: A ultrassonografia de rotina durante a gestação, embora seja procedimento bastante corriqueiro, permanece como assunto controverso. Não existe, ainda, demonstração científica de que esse procedimento tenha qualquer efetividade sobre a redução da morbidade e da mortalidade perinatal ou materna. Entretanto, existem evidências de que sua realização se relaciona com uma melhor determinação da idade gestacional, detecção precoce de gestações múltiplas e malformações fetais clinicamente não suspeitas. Essa última característica associa-se indiretamente a uma menor mortalidade perinatal específica por malformações fetais nas localidades onde a interrupção precoce da gravidez é legalizada. Dessa maneira, pode-se dizer que o exame de ultrassom pode ser recomendado como rotina nos locais onde ele esteja disponível e possa ser realizado no início da gestação. A sua não realização não constitui omissão, nem diminui a qualidade do pré-natal. No segundo trimestre, o feto cresce suficientemente em tamanho, o que torna possível a visualização de detalhes anatômicos na ultrassonografia. Durante este período, usando USG de alta definição em tempo real, é possível descobrir a maioria das principais anomalias fetais. As medidas mais utilizadas para auxiliar a observação do desenvolvimento fetal são: Diâmetro biparietal; Circunferência da cabeça; Circunferência abdominal; Comprimento do fêmur; Comprimento do pé. O peso do feto é um critério útil para a estimativa da idade, mas pode haver discrepância entre a idade e a massa fetal, particularmente quando a mãe teve distúrbios metabólicos, como diabetes mellitus, durante a gravidez. Nestes casos, frequentemente o peso fetal excede os valores considerados normais para o comprimento cabeça-nádegas. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO No terceiro trimestre, a USG é importante pois diagnostica fetos pequenos para a idade gestacional (PIG) ou grandes para a idade gestacional (GIG). Outra recente indicação da ultrassonografia nesse trimestre é o diagnóstico da restrição de crescimento intrauterino placentário tardio entre 32 e 36 semanas, quando seriam realizados o Doppler da artéria uterina, da relação cerebroplacentária (RCP) e a medida da circunferência abdominal. A ultrassonografia obstétrica é, indiscutivelmente,aquela que mais diagnostica, em frequência e em número, tanto doenças genéticas quanto não- genéticas e, por esse motivo, aliado ao seu baixo custo e à sua característica não invasiva, deve ser incentivada e priorizada no diagnóstico pré-natal. Uma outra grande aplicação da ultrassonografia diz respeito à investigação do efeito de agentes teratogênicos, como certos agentes químicos, que são causadores de redução de membros, ou físicos, como a radiação, que pode causar microcefalia, ou, ainda, biológicos, capazes de acarretar retardamento do crescimento intrauterino, além de microcefalia. DIAGNÓSTICO PRÉ-NATAL E ANOMALIAS CONGÊNITAS: O diagnóstico pré-natal, parte da obstetrícia que aborda as anomalias genéticas fetais, emprega tanto testes de rastreamento quanto de diagnóstico propriamente dito. Os testes de rastreamento são realizados universalmente pela população, não são invasivos, têm boa sensibilidade e avaliam o risco de uma gestante dar à luz a um feto acometido por alterações genéticas. Os testes diagnósticos, por sua vez, são mais específicos, custosos e invasivos, pretendendo revelar com a maior precisão possível se o feto apresenta algum distúrbio genético. Sua realização é originada de testes de rastreamento, que selecionam as pacientes com risco. A cada 150 nascidos vivos, 1 apresenta algum tipo de anomalia cromossomal. As aberrações cromossômicas ocorrem em 2/3 dos abortamentos ocultos, em metade dos abortamentos clínicos e em 5% dos natimortos. Além disso, 5 a 7% da mortalidade no infante e na criança se deve à anomalia cromossômica. No caso de sobrevida do bebê, podem ocorrer defeitos congênitos, dificuldade de sucção, anormalidades funcionais, incluindo retardo no neurodesenvolvimento, infertilidade e pequena expectativa de vida. As anomalias cromossomais são mais frequentes em caso de abortamentos recorrentes e anormalidades estruturais fetais. Além de anormalidades no número de cromossomos, aberrações na sua estrutura, tais como deleções, duplicações, translocações e outros rearranjos, também podem ocorrer. Embora nem todas as deleções e duplicações sejam patológicas, algumas são bastante grandes e facilmente identificadas na análise do cariótipo, enquanto outras são pequenas microdeleções ou duplicações passíveis de detecção apenas por técnicas laboratoriais específicas. Ainda mais comuns do que as anormalidades cromossômicas são os defeitos estruturais congênitos isolados, tais como anomalias cardíacas, defeitos do tubo neural e fendas faciais. Essas malformações geralmente são determinadas por múltiplos genes ao longo de fatores ambientais e, em geral, são isoladas. Mutações podem ocorrer no DNA das mitocôndrias e causar doenças. Como as mitocôndrias são essenciais para o metabolismo aeróbio, as doenças mitocondriais comumente afetam tecidos com necessidade elevada de energia, como Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO o sistema nervoso central, coração e músculo. As anormalidades cromossômicas afetam aproximadamente 0,4% dos nascimentos (1/250) e incluem nascidos vivos, natimortos e abortos. A trissomia 21 é responsável por 50% dos casos, a trissomia 18, por 15%; e a 13, por 5% dos casos. Aproximadamente 12% são anormalidades dos cromossomos sexuais, tais como 45,X e 47 XXX, XXY e XYY. O restante, grosseiramente 18% de todas as anomalias, é ou não de aneuploidias (poliploidia, mosaicismo, rearranjos estruturais) ou não é comumente identificado por meio do rastreamento pré- natal. Alguns critérios de risco para o desenvolvimento de alterações congênitas são: Idade materna avançada: eleva o risco para aneuploidias (variações no número de cromossomos), mas não contribui para seu surgimento de forma isolada; Idade paterna avançada: está associada a risco aumentado de a criança apresentar distúrbio monogênico. Embora não haja consenso, o período de 40 a 50 anos é o considerado para a definição de idade paterna avançada. O risco genético está relacionado, principalmente, com a incidência aumentada de mutação durante a espermatogênese; Pais portadores de rearranjos cromossomais: mulheres ou homens portadores de translocações ou inversões costumam apresentar fenótipo normal, mas estão em risco de produzir gametas com cromossomos não balanceados, resultando crianças com anormalidades genéticas. Para a maioria dos rearranjos, o risco de o recém- nascido apresentar alguma anormalidade é menor do que o risco teórico, pois muitos desses gametas determinam abortamentos; Pais com aneuploidias: mulheres com trissomia 21, ainda que subférteis, apresentam risco elevado de ter prole com a síndrome. Mulheres 47 XXX e homens 47 XXY tendem a ser férteis, mas não possuem maior risco de gerar descendentes com o mesmo distúrbio; Filho anterior com defeito estrutural congênito: a maioria dos defeitos congênitos de caráter anatômico são isolados e decorrentes de múltiplos genes, portanto há probabilidade de reincidência numa mesma família; Pais portadores de um distúrbio genético: pais afetados ou portadores de distúrbios genéticos, tais como anemia falciforme ou fibrose cística, têm risco elevado de ter uma criança afetada; Filho anterior com trissomia autossômica ou triploidia sexual: o risco de recorrência após uma gravidez afetada é 1,6 a 8,2 vezes o risco da idade materna para trissomias autossômicas. O risco de recorrência é mais impreciso para as trissomias sexuais; Anormalidades estruturais identificadas por USG: a presença de anomalias estruturais fetais aumenta o risco de aneuploidia, variações no número de cópias, microdeleções e outras síndromes genéticas, porém nem sempre isso acontece, visto que algumas alterações estruturais são isoladas. TRANSLUCÊNCIA NUCAL: A medida da translucência nucal (TN) em fetos de gestações entre 10 e 14 semanas pode ser usada como triagem de anomalias cromossômicas, sendo que quanto maior a medida desse parâmetro, maior a probabilidade de a gestação resultar no nascimento de uma criança afetada por cromossomopatias, principalmente trissomias. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO Com o feto em posição sagital, a medida da TN é feita medindo-se a espessura máxima da translucência entre a pele e o tecido mole que cobre a espinha cervical. O valor de 2,5mm é o limite entre risco baixo e elevado, com medidas entre 2,5 e 3mm aumentando essa probabilidade em 3 vezes, entre 4 e 4,9mm, aumenta 18 vezes, com valores maiores ou iguais a 6mm representando 36 vezes mais propensão ao desenvolvimento de cromossomopatias, com todas essas pacientes devendo realizar USG morfológica para descartar a possibilidade de outras malformações. O aumento desses valores também se relaciona a maiores chances de abortamento espontâneo. Cabe lembrar que a TN não é específica de cromossomopatia, podendo ser encontrada em cardiopatias e em diversas síndromes. O uso da translucência nucal é capaz de detectar cerca de 50% das cardiopatias congênitas, sendo, assim, usado como rotina para tranquilizar casais que já tiveram uma criança com essa afecção, deixando-os mais calmos até a realização da amniocentese após duas a quatro semanas. MARCADORES BIOFÍSICOS DO 1º TRIEMSTRE: Os de maior importância são o osso nasal, que entre a 11ª e 13ª não é visível em 70% dos fetos com Síndrome de Down, contra somente 2% dos fetos euploides, e o ducto venoso, cujas alterações de fluxo são observadas em 80% dos indivíduos com trissomia 21 e em 5% dos fetos de desenvolvimento regular. Alguns sinais anatômicos ultrassonográficos são suficientes, inclusive, para diagnosticar outras síndromes. Exemplos bastante significativos se referem à síndrome deTurner. Assim, a presença do higroma cístico em feto do sexo feminino torna altamente possível esse diagnóstico. Sinais importantes como lábio leporino associado à diminuição das órbitas e presença de polidactilia impõe que se investigue a hipótese da síndrome de Patau. TESTE DE 1º TRIMESTRE COMBNADO: O teste de 1º trimestre combinado avalia não só a idade materna como também a TN e dois marcadores bioquímicos, a proteína plasmática associada à gravidez-A (PAPP- A) e o β-hCG livre. A vantagem desse método é que o rastreio bioquímico pode, se utilizadas as técnicas adequadas, ser obtido em 30 minutos. A combinação desse resultado com a TN e a idade materna conseguem, ao final de uma consulta, avaliar o risco final dessa paciente. Cerca de 30% das anomalias cromossômicas detectadas pelo teste de 1º trimestre combinado são diferentes das trissomias 21, 18 e 13, sendo as mais frequentes a síndrome de Turner (45 X) e a 47 XYY. Aproximadamente 99% dos casos de Turner terminam em abortamento no 1º trimestre, o que pode ser explicado pelo valor elevado da TN (superior a 8,5mm) e pela idade materna superior a 35 anos. TESTE PRÉ-NATAL NÃO INVASIVO: Podendo ser realizado a partir de 9 a 10 semanas de gestação, o teste pré-natal não invasivo (NIPT) ou cell free DNA (cfDNA) busca identificar material genético fetal Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO oriundo de células apoptóticas do trofoblasto, podendo estabelecer: Sexagem fetal; Rh fetal; Diagnóstico de trissomias 13, 18 e 21, monossomia 45 X (Síndrome de Turner) e 47 XXY (Klinefelter); O NIPT é um teste de rastreamento, não devendo, portanto, substituir testes diagnósticos. O cfDNA é mais efetivo na presença de maior fração do DNA fetal, o que ocorre entre 11 e 13 semanas, quando esse valor é, em média, 10%. Os resultados do teste costumam ser fornecidos em 7 a 10 dias e referidos como positivo, negativo ou no call (se o valor de material genético fetal for menor que 4%). O cfDNA tem maior sensibilidade e apresenta menos resultados falso-positivos do que os testes usuais de rastreamento. No momento, o NIPT parece ser o melhor exame para rastrear aneuploidia fetal, e espera-se que, com o avanço da tecnologia, ele seja capaz de identificar uma gama ainda maior de alterações genéticas diagnosticadas, contribuindo para reduzir significativamente a taxa de procedimentos invasivos. Na gestação de 11 a 13 semanas, algumas anomalias estruturais podem ser identificadas pela ultrassonografia, incluindo higroma cístico, anencefalia, holoprosencefalia e megabexiga. Os três pilares do diagnóstico pré-natal no primeiro trimestre são o NIPT, a USG de primeiro trimestre e o teste invasivo, reforçando a necessidade de acompanhamento em mulheres com NIPT normal. MARCADORES DO 2º TRIEMSTRE: Existem diversos marcadores ultrassonográficos de trissomia identificados na ultrassonografia de 2º trimestre, por ocasião do exame morfológico: ventriculomegalia leve (diâmetro do ventrículo lateral ≥ 10 mm e < 15 mm), cisto do plexo coroide, prega cutânea occipital (PCO) espessada (≥ 6 mm), foco ecogênico intracardíaco, intestino hiperecogênico (visualizado da USG como uma massa esbranquiçada), hidronefrose leve ou pieloectasia (diâmetro anteroposterior da pelve renal ≥ 5 mm e < 10 mm), fêmur ou úmero curto e osso nasal ausente/hipoplásico. O risco de anomalias desses marcadores é estimado pela razão de verossimilhança, elevando o risco fornecido pelo teste de 1º trimestre combinado. Os melhores marcadores para a síndrome de Down são a PCO espessada, a ventriculomegalia e o osso nasal ausente/hipoplásico. A artéria umbilical única incide em aproximadamente 0,5 a 5% de todas as gestações, e acredita-se que ela resulte de uma agenesia primária ou atrofia trombótica de uma das artérias. Está bem documentada a sua associação com anomalias fetais, incluindo aquelas dos sistemas cardiovascular, gastrintestinal e geniturinário, além de elevarem o risco de trissomia 18. Gestações complicadas por artéria umbilical única isolada (fetos sem malformações) constituem fator de risco para recém-nascido PIG e pré-eclâmpsia, mas não para parto pré-termo espontâneo. MARCADORES BIOQUÍMICOS (TESTE QUADRUPLO): Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO O teste quádruplo inclui alfafetoproteína (AFP – principal proteína do soro fetal), estriol não conjugado (estrogênio sintetizado pela placenta a partir de androgênios fetais – sua concentração em níveis baixos sugere anencefalia), β-hCG livre e inibina-A dimérica. A taxa de detecção é de 80%, com falso-positivo de 5%. O teste pode ser realizado entre 15 e 22 semanas de gestação, mas a idade preferencial é entre 16 e 18 semanas. A taxa de detecção para a síndrome de Down é maior que 80% e esse teste estaria indicado apenas às mulheres que tenham perdido a oportunidade do rastreamento de 1º trimestre. TÉCNICAS LABORATORIAIS: CARIÓTIPO CONVENCIONAL: Permite determinar a constituição, número e morfologia dos cromossomos fetais, realizado habitualmente no líquido amniótico ou por biópsia de vilosidades coriônicas (BVC). Essa técnica é utilizada para diagnosticar todas as aneuploidias, incluindo trissomias, síndrome de Turner e grandes rearranjos. O mosaicismo no feto pode não ser detectado pela análise do cariótipo caso ele não esteja presente na linhagem específica da célula fetal obtida para o teste. Em virtude de análise ser feita em cultura de células na metáfase, o resultado não é obtido até 7 a 14 dias após a coleta da amostra. HIBRIDIZAÇÃO FLUORESCENTE IN SITU: A hibridização fluorescente in situ (FISH) usa sondas fluorescentes marcadas para cromossomos ou regiões específicas visando identificar o número dessas regiões que estão presentes na amostra, coletada via amniocentese ou BVC. Os resultados obtidos por FISH são mais rápidos do que no cariótipo convencional, em geral dentro de 1 a 2 dias. O painel mais comum de FISH é para o rastreamento dos cromossomos 13, 18, 21, X e Y. Ainda que consiga analisar um grande número de variáveis, esse teste ainda deve ser considerado como ferramenta de rastreio, com resultados utilizados com fins diagnósticos somente se associado a cariotipagem convencional ou microarranjo e clínica consistente (ex.: achados anormais). MICROARRANJO: A técnica citogenética molecular de microarranjo cromossômico (microarray) pode identificar não só as maiores aneuploidias, mas também alterações submicroscópicas que, por serem muito pequenas, não podem ser detectadas por cariotipagem convencional. Ao contrário do cariótipo convencional, o microarray não detecta translocações balanceadas e triploidia. Casos de mosaicismo de baixo grau também não são identificados por ambas as técnicas. Pode ser realizado diretamente em células não cultivadas ou após cultura. Sua maior indicação no diagnóstico pré-natal é a existência de anomalia fetal à ultrassonografia com cariótipo convencional normal, evitando a realização do teste pré- natal invasivo. O teste de microarranjo é um procedimento robusto em analisar casos de morte fetal para melhor delinear a etiologia genética, qualquer que seja a idade gestacional. PROCEDIMENTOS DIAGNÓSTICOS INVASIVOS: Com a grande participação do NIPT como forma de diagnóstico, a realização de procedimentos invasivos tem caído bastante. Constituem indicações para os procedimentos diagnósticos invasivos: testes de rastreamento com risco aumentado, achados ultrassonográficos anormais (anomalias estruturais fetais Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO comumente associadas a cromossopatias), história obstétrica, história familiar e risco aumentado de doenças genéticasou bioquímicas conhecidas nos pais. Diversas técnicas estão disponíveis para se obterem células fetais, incluindo análise pré- implantacional embrionária, BVC, amniocentese e cordocentese, sendo que a biópsia e a coleta de sangue fetal apresentam menor grau de indicação. DIAGNÓSTICO GENÉTICO PRÉ-IMPLANTACIONAL: O diagnóstico genético pré-implantacional testa o embrião para determinado distúrbio genético antes da implantação e é realizado nos corpúsculos polares do oócito ou do zigoto, um único blastômero do embrião em divisão ou um grupo de células do trofoectoderma no estágio de blastocisto. Como o diagnóstico genético pré- implantacional usa ou poucas células do embrião precoce e é passível de erro, recomenda-se a confirmação dos resultados com BVC ou amniocentese. BIÓPSIA DE VILOSIDADE CORIÔNICA: A BVC para o diagnóstico genético pré-natal costuma ser realizada entre 10 e 13 semanas. A técnica de biópsia aspirativa transcervical consiste basicamente na inserção intrauterina de um cateter que tenha em seu interior um mandril que possa lhe dar a direção. O uso da ultrassonografia para orientação do cateter facilita sobremaneira o índice de sucesso. Em gestações de até 12 semanas, a bolsa amniótica não preenche ainda a luz do útero. O córion começou a diferenciar o córion frondoso, que irá constituir o local da placenta. É a região de maior índice mitótico e, portanto, a área da qual será coletado o material. Suas vantagens sobre a amniocentese são poder ser realizada mais cedo na gravidez e o fato de as células viáveis para a análise poderem ser processadas em menor espaço de tempo (5 a 7 dias contra 7 a 14 dias) de maneira que o resultado é fornecido mais cedo. AMNIOCENTESE: A amniocentese para o diagnóstico pré-natal costuma ser realizada entre 15 e 20 semanas da gestação, mas pode ser feita mais tarde. A amniocentese precoce realizada entre 10 e 13 semanas não é recomendada. Complicações menores transitórias para a amniocentese são o sangramento vaginal e o vazamento de líquido que ocorrem aproximadamente em 1 a 2% de todos os casos. Lesões fetais determinadas pela agulha de punção são raras quando o procedimento é realizado sob condução ultrassonográfica. CORDOCENTESE: Como essa técnica de punção sanguínea fetal era mais amplamente aplicada para detecção de doenças infecciosas fetais, o advento do uso da Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) permitiu que essa detecção fosse feita mais precocemente com o uso do líquido amniótico. A única grande aplicação da cordocentese, atualmente, tem sido para fins de transfusão intrauterina. Nesse procedimento, o feto deve ser curarizado, a agulha deve ser firmemente locada e a injeção de sangue deve ser acompanhada pelo borbulhar dentro do vaso, monitorizado ao ultrassom. Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO TESTE DE TRIAGEM NEONATAL: Realizado no bebê entre o 3º e o 7º dia de vida, o teste de triagem neonatal (TTN) tem por objetivo o diagnóstico de algumas doenças genéticas, usando apenas uma gota de sangue retirada do calcanhar do recém-nascido (teste do pezinho). O Ministério da Saúde propõe o rastreamento das seguintes doenças: hipotireoidismo congênito, fenilcetonúria, fibrose cística, anemia falciforme e outras hemoglobinopatias, hiperplasia suprarrenal congênita e deficiência de biotinidase. PROBLEMA 4 - INTERMEDIÁRIA: DESENVOLVIMENTO FETAL ENTRE A 13ª E 16ª SEMANA: Nesse período há crescimento bastante acelerado. Ao final da 16ª semana, a cabeça fetal é relativamente menor que a de um concepto com 12 semanas. Os membros inferiores se tornam mais compridos e o padrão do couro cabeludo é determinado. A genitália externa pode ser reconhecida entre 12 e 14 semanas. Na 14ª semana, os movimentos fetais, iniciados ao fim do período embrionário, passam a ser coordenados, mas são muito discretos e ainda imperceptíveis pela mãe, porém podem ser detectados na ultrassonografia. Ainda nessa semana há a ocorrência de movimento lento dos olhos, desenvolvimento inicial das unhas dos pés, e a cabeça se torna ereta A ossificação do esqueleto fetal é ativa, claramente visíveis em exames de imagem realizados no início da 16ª semana. Nesse período, os ovários já se diferenciaram e contêm folículos primordiais com ovogônias, os olhos se anteriorizam na face e a orelha externa se destaca da cabeça, em posição próxima àquela definitiva. DIAGNÓSTICO, CONDUTA MÉDICA E IMPACTOS DA SÍFILIS GESTACIONAL: ETIOLOGIA E FORMAS DE TRANSMISSÃO DA SÍFILIS: A sífilis é uma IST de caráter sistêmico, curável e exclusiva do ser humano. Seu agente etiológico é o Treponema pallidum, bactéria Gram-negativa do grupo das espiroquetas. A notificação compulsória de gestantes acometidas por essa doença ocorre desde 2005. A transmissão da sífilis ocorre majoritariamente por via sexual e transmissão vertical (TV). Seu risco é diretamente associado à presença de lesões mucocutâneas, mais comuns durante o primeiro ano de infecção. A TV acontece mais frequentemente em meio intrauterino, mas também pode se dar durante a passagem do feto pelo canal de parto, caso exista nessa região alguma lesão ativa. A probabilidade do desenvolvimento de sífilis congênita depende do estágio da doença na mãe e do tempo de exposição do concepto, ocorrendo em 70 a 100% dos casos nos quais a gestante manifesta as fases primária e secundária da doença, reduzindo-se para 30% durante as fases mais tardias. A transmissão durante o Júlia Figueirêdo – CONCEPÇÃO E FORMAÇÃO DO SER HUMANO aleitamento só ocorre se há lesões mamárias decorrentes dessa IST. A manifestação da doença em filhos de portadoras é passível de prevenção quando o tratamento é realizado de forma adequada. A sífilis na gestação pode implicar consequências como aborto, natimorto, parto prematuro, morte neonatal e manifestações congênitas precoces ou tardias. Não há uma vacina contra a sífilis, e novas infecções podem surgir a cada exposição, justificando assim o rastreio frequente durante a gravidez. MANIFESTAÇÃO CLÍNICA E CLASSIFICAÇÃO DA SÍFILIS DURANTE A GRAVIDEZ: O quadro da sífilis em gestantes é semelhante ao da população geral. Essa infecção é dividida em estágios baseados em achados clínicos, que determinam a forma de tratamento a ser implementada. Essa divisão ocorre da seguinte forma: Sífilis recente (duração ≤ 2 anos): o Estágio primário: Desenvolve-se entre 10 a 90 dias após o contato (média de 21 dias). Geralmente se manifesta como um nódulo indolor único na região de contato, que ulcera (forma ferida) rapidamente, dando origem ao cancro duro. Ocorre principalmente na genitália, mas também pode ser visto no períneo, ânus, reto, orofaringe, lábios e mãos. Essa primeira lesão apresenta grande número de T. pallidum. o Estágio secundário: Se dá entre 6 semanas a 6 meses após o contato inicial. Nessa fase, são comuns sinais e sintomas sistêmicos que mimetizam as manifestações clínicas de outras doenças, o que pode dificultar o diagnóstico. Podem ser observadas erupções cutâneas em forma de máculas ou pápulas, principalmente no tronco, lesões eritemato-escamosas palmo- plantares (sugestiva para o diagnóstico da doença), placas eritematosas branco-acinzentadas nas mucosas, lesões pápulo-hipertróficas nas mucosas ou pregas cutâneas (condiloma plano), alopecia em clareira ou madarose (queda das sobrancelhas), febre, mal-estar, adinamia (fraqueza muscular) e linfadenopatia generalizada. Nesse estágio ainda são encontrados muitos treponemas. Sífilis tardia (duração ≥ 2 anos): o Estágio terciário: Ocorre com mais de 2 anos de infecção. É comum o acometimento dos sistemas nervoso e cardiovascular (dilatação