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ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 1 SÍNDROME NEFRÍTICA HARRISON – CAPÍTULO 338 – 19ª EDIÇÃO 1. INTRODUÇÃO: Uma criança subitamente se apresenta com “urina presa” e de tonalidade avermelhada, com o “rosto inchado” e a “pressão alta”. O que está acontecendo em seus glomérulos? A SÍNDROME NEFRÍTICA pode ser entendida como sendo um conjunto de sinais e sintomas que surgem quando um indivíduo tem os seus glomérulos renais envolvidos por um processo inflamatório agudo. Essa inflamação dos glomérulos pode ocorrer de forma idiopática, como doença primária dos rins, ou ser secundária a alguma doença sistêmica, como infecções e colagenoses. A SÍNDROME NEFRÍTICA clássica, também denominada GLOMERULONEFRITE DIFUSA AGUDA (GNDA), tem como protótipo a GLOMERULONEFRITE PÓS-ESTREPTOCÓCICA. Independente da origem, o quadro básico é caracterizado por hematúria (estigma da síndrome), proteinúria subnefrótica (menor que 3,5 g em 24 horas), oligúria, edema e hipertensão arterial. A redução do débito urinário provoca retenção volêmica, justificando o edema generalizado e a hipertensão arterial. Por vezes, surge também azotemia (retenção de uréia e creatinina), quando há queda significativa na TFG (< 40%). A SÍNDROME NEFRÍTICA, também denominada GLOMERULONEFRITE DIFUSA AGUDA (GNDA) é caracteriza pela hematúria (estigma da doença), hipertensão, proteinúria subnefrótica (< 50mg/Kg/24h em crianças) e edema. A redução do débito urinário provoca retenção volêmica, ocasionando a hipertensão arterial e o edema. Ela ocorre devido a um processo inflamatório agudo que acomete os glomérulos renais que pode ocorrer de forma idiopática ou ser secundária a alguma doença. No geral a GNDA é causada por complexos antígeno anticorpo que atingem o parênquima renal. Isso gera inflamação e proliferação celular, o que lesiona o tecido renal. As duas causas mais comuns de SÍNDORME NEFRÍTICA no mundo são a GLOMERULONEFRITE PÓS ESTREPTOCÓCICA e a DOENÇA DE BERGER (NEFROPATIA por IgA). As GLOMERULONEFRITES podem ser primárias ou secundárias. A SÍNDROME NEFRÍTICA é uma constelação de manifestações clínicas causadas por um processo inflamatório no glomérulo. É um complexo clínico caracterizado ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 2 por HEMATÚRIA (eritrócitos dismórficos e cilíndricos), OLIGÚRIA e AZOEMIA, HIPERTENSÃO ARTERIAL. HEMATÚRIA: A HEMATÚRIA tem origem nos glomérulos comprometidos, sendo o sinal mais característico e mais comum da SÍNDROME NEFRÍTICA, devendo ser esperada na imensa maioria das vezes, na forma macroscópica. A hematúria é detectada pelo exame do sedimento urinário. Esse exame é conhecido por nomes diversos em diferentes regiões do Brasil, sendo chamado também de EAS (elementos anormais e sedimentos), urina tipo I, urinálise, EQU (exame qualitativo de urina), e sumário de urina. As hematúrias de origem glomerular possuem características microscópicas especiais que as diferenciam das hematúrias que se originam em outros locais que não os glomérulos, como as que resultam de lesões nos túbulos, pelve renal, ureteres, bexiga, próstata e uretra. Quando as hemácias encontradas no sedimento urinário são de origem glomerular, elas estão quase sempre deformadas, fragmentadas e hipocrômicas, num fenômeno conhecido como “disformismo eritrocitário”. A hematúria de origem glomerular resulta da migração de hemácias através de rupturas ou fendas que surgem nas alças capilares dos glomérulos inflamados. As hemácias vão do interior dos glomérulos para o sistema tubular, e se deformam ao passarem por estes poros estreitos. A HEMATURIA DA SÍNDROME NEFRÍTICA É DO TIPO “DISMÓRFICA”. O ACHADO DE HEMATÚRIA DISMÓRFICA NO SEDIMENTO URINÁRIO (EAS) INDICA LESÃO GLOMERULAR. O ACHADO DE CILINDROS HEMÁTICOS NO SEDIMENTO URINÁRIO (EAS) INDICA LESÃO GLOMERULAR. Além do disformismo eritrocitário e da presença de cilindros hemáticos, o sedimento urinário da síndrome nefrítica comumente revela piúria (leucocitúria) e cilindros leucocitários, deixando evidente a natureza inflamatória do processo. A eliminação destes cilindros celulares na urina é um indício importante de que a lesão renal se localiza no parênquima renal (glomérulos ou túbulos). No caso dos cilindros hemáticos, a localização da injúria até que se prove o contrário, é glomerular. CILINDROS: Diariamente, células epiteliais que compõem a parede da alça de Henle secretam uma proteína conhecida como “glicoproteína de Tamm-Horsfall”. Essa proteína segue o fluxo urinário e acaba se depositando nos túbulos contorcidos distais e túbulos coletores, originando uma superficie pegajosa em seu interior. Como consequência, diversas substâncias, partículas ou até mesmo células podem se aderir a essas proteínas, moldando um corpo cilíndrico-tubular potencialmente descamável. Qualquer condição que determine a presença de elementos celulares (epitélio tubular, hemácias e/ou ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 3 leucócitos) no interior do sistema tubular do néfron pode ser acompanhada pelos cilindros celulares no exame de sedimento de urina (EAS). Os cilindros são classificados em função de sua composição, mas podem ser divididos basicamente em dois tipos: os celulares (epiteliais, hemáticos e leucocitários), sempre patológicos e os acelulares (como os hialinos) que podem ser encontrados em indivíduos normais. Os cilindros hemáticos indicam quase sempre uma doença glomerular, enquanto os cilindros leucocitários, apesar de serem encontrados com frequência nas glomerulopatias, estão mais associados as nefrites intersticiais. ACELULARES 1 – CILINDROS HIALINOS: Formados apenas pela proteína de Tamm-Horsfall – constituídos por material transparente, às vezes de difícil visualização na sedimentoscopia. Um ou outro cilindro hialino pode ser encontrado em pessoas normais, mas a presença de uma grande quantidade deles pode indicar desidratação, uso de diuréticos (especialmente a Furosemida), esforço físico ou febre. 2 – CILINDROS CÉREOS: Acredita-se que sejam a evolução natural de um cilindro granuloso patológico. Apresentam uma cor amarelada e um alto índice de refração, sendo facilmente visualizado na sedimentoscopia. Esses cilindros indicam disfunção renal avançada, pois são formados apenas quando o fluxo tubular é baixo. 3 – CILINDROS LARGOS: Destacam-se por terem um diâmetro bem maior que os outros cilindros, tendo geralmente o aspecto granular ou céreo. São formados pela dilatação dos túbulos coletores, característica da insuficiência renal avançada. 4 – CILINDROS GRAXOS: São cilindros birrefringentes que denotam a presença de gotículas de gordura e são característicos dos estados de lipidúria, como a síndrome nefrótica. CELULARES 5 – CILINDROS EPITELIAIS: São compostos por células epiteliais descamadas dos túbulos renas que aderem a matriz proteica. Os cilindros epiteliais podem evoluir para cilindros granulosos, pela degeneração celular. A presença de cilindros epiteliais indica lesão tubular renal, como a necrose tubular aguda e as nefropatias tubulointersticiais. Cuidado para não confundir – o encontro de células epiteliais pode ocorrer na sedimentoscopia de uma pessoa normal, porém, os cilindros epiteliais quase sempre são patológicos. 6 – CILINDROS GRANULOSOS: Geralmente são formados por debris celulares e sua superfície pode se apresentar finamente ou grosseiramente granulada. Quando acumulam o pigmento hemoglobínico modificado, tornam-se pardo-escuros, ganhando a nomenclatura de cilindros granulosos pigmentares. Os cilindros granulosos indicam lesão tubular e eventualmente glomerular, podendo representar cilindros celulares degenerados. A necrose tubular aguda é uma causa clássica de cilindros granulosos, que costumam ser do tipo pigmentares. Uma pessoa normal raramente pode apresentar umou outro cilindro granulosos, neste casso, o aspecto granular deve-se à agregação de proteínas aos cilindros hialinos. ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 4 7 – CILINDROS HEMÁTICOS: São compostos por hemácias que aderem à matriz proteica. São indicadores confiáveis de lesão glomerular e são clássicos das glomerulonefrites. 8 – CILINDROS LEUCOCITÁRIOS OU PIOCITÁRIOS: São compostos por leucócitos polimorfonucleares aderidos à matriz proteica. Os leucócitos degenerados são chamados de piócitos. Podem estar presentes nas glomerulonefrites, mas são clássicos das nefrites tubulointersticiais, como a pielonefrite aguda bacteriana. Podem conter bactérias. O paciente que desenvolve SÍNDROME NEFRÍTICA é aquele que se queixa de “urina presa e vermelho-acastanhada” correspondentes à oligúria e hematúria, e desenvolve hipertensão arterial e edema por congestão hídrica. O sedimento urinário mostra disformismo eritrocitário, piúria e cilindros celulares (hemáticos e leucocitários) e a urina de 24 horas revela proteinúria em níveis de 150 mg a 3,5 g (subnefróticos). PROTEINÚRIA: A proteinúria é outro achado comum na GNDA, aparecendo em função de alguns fenômenos, como alterações da permeabilidade e rupturas mecânicas na parede dos glomérulos comprometidos. Diz-se que há proteinúria quando os níveis de proteína na urina ultrapassam 150mg/dia. Na SÍNDROME NEFRÍTICA PURA, essa proteinúria não costuma atingir níveis acima de 3,5 g/dia (considerados nefróticos) e, tipicamente, é do tipo não seletiva. OLIGÚRIA: A oligúria deve ser entendida como resultante do prejuízo da superfície de filtração dos glomérulos, devido principalmente, à invasão pelas células inflamatórias e a contração do espaço mesangial. Como os glomérulos filtram menos, sobrevém retenção hidrosalina, e nos casos mais graves, azotemia. HIPERTENSÃO ARTERIAL E EDEMA: A retenção volêmica provoca hipertensão arterial e edema generalizado (anasarca). Uma prova de que o edema da síndrome nefrítica é decorrente da retenção renal primária é a presença de níveis plasmáticos de renina consistentemente baixos. Por ser nefrogênico, o edema também acomete a região periorbitária. 2. EPIDEMIOLOGIA – INCIDÊNCIA DAS GLOMERULONEFRITES PRIMÁRIAS: A GLOMERULONEFRITE é uma doença comum? Não é todo dia que encontramos inúmeras glomerulonefrite, entretanto, nos hospitais universitários (hospitais escola), como nós drenamos pacientes com perfil investigatório, isso faz com a incidência seja um pouco maior devido a uma amostra viciada. Quando falamos de GLOMERULOPATIA, nos referimos da terceira maior causa de DOENÇA RENAL CRÔNICA no Brasil e 5% das causas de INJÚRIA RENAL AGUDA e a mortalidade é maior em pacientes com ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 5 GLOMERULONEFRITES de ETIOLOGIA SECUNDÁRIA, ou seja, aquela que é decorrente de LÚPUS, de uma vasculite, de uma endocardite, de uma crioglobulinemia, dentre várias outras causas. Além de determinar que é uma glomerulopatia, devemos saber investiga-la e dar finalmente um diagnóstico. A GNPE é a principal causa, cerca de 80% dos casos. É mais frequente em crianças e adolescentes com idade de 5 a 15 anos e em países em via de desenvolvimento. 3. CAUSAS DE GLOMERULONEFRITE DIFUSA AGUDA: SÍNDROME INFECCIOSA: Pós-Estreptocócica. Não Estreptocócica: Bacterianas (endocardite, abcessos, doença pneumocócica, sepse, shunt VP infectado), virais (hepatite B e C, mononucleose infecciosa, caxumba, sarampo, varicela) e parasitárias (malária e toxoplasmose). Doenças Multissistêmicas: Lúpus (LES), PÚRPURA de HENOCH – SCHONLEIN, CRIOGLOBULINEMIA, POLIARTRITE MICROSCÓPICA, GRANULOMATOSE de WEGENER, SÍNDROME DE GOODPASTURE, tumores. Primárias do Glomérulo: Doença de BERGER (NEFROPATIA por IgA), GLOMERULONEFRITE MEMBRANOPROLIFERATIVA, GLOMERULONEFRITE MESANGIAL, GLOMERULONEFRITE por IMUNOCOMPLEXOS IDIOPÁTICA, GLOMERULONEFRITE ANTIMEMBRANA BASAL GLOMERULAR, GLOMERULONEFRITE PAUCI – IMUNE (ANCA POSITIVO). As condições que se enquadram como glomerulonefrite aguda (GNDA), ou seja, aquelas que se caracterizam pelos sinais e sintomas de uma síndrome nefrítica, devem ser agrupadas etiologicamente da forma apresentara na tabela abaixo: SÍNDROME PÓS-INFECCIOSA Pós-Estreptocócica Não Pós-Estreptocócica Bacterianas: Endocardite, abcesso, shunt VP infectado, doença pneumocócica, sepse. Virais: Hepatite B, C, mononucleose infecciosa, caxumba, sarampo, varicela. Parasitárias: Malária falciparum, toxoplasmose. CAUSADAS POR DOENÇAS MULTISSISTÊMICAS Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES), púrpura de Henoch-Schönlein, crioglobulinemia, poliarterite ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 6 microscópica, granulomatose de Wegener, síndrome de Goodpasture, tumores. PRIMÁRIAS DO GLOMÉRULO Doença de Berger, GN membranoproliferativa (mesangiocapilar), GN proliferativa mesangial, GN por imunocomplexos idiopática, GN anti- membrana basal glomerular, GN pauci-imune (ANCA positivo). 4. CONCEITOS FISIOPATOLÓGICOS: Na SÍNDROME NEFRÍTICA, podemos ter a presença de imunocomplexos na estrutura mesangial, ou seja, acometimento das células mesangiais e isso é clássico na DOENÇA de BERGER (NEFROPATIA por IgA), onde encontramos depósitos de IgA no nosso mesangio. Outro ponto importante é que os imunocomplexos podem determinar a lesão em vários outros locais da MICROANATOMIA GLOMERULAR, como por exemplo, entre o nosso endotélio fenestrado e a membrana basal glomerular, determinamos depósitos subendoteliais e um acometimento específico na MEMBRANA BASAL GLOMERULAR. Esses imunocomplexos surgem geralmente da quebra da barreira ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 7 imunológica. Essa quebra da barreira imunológica fisiológica pode levar a uma reação das constituintes normais do nosso glomérulo, pode ser uma reação secundária a antígenos NÃO RENAIS, ou seja, não tem nada a ver com o glomérulo, no “fogo cruzado” alguém atinge o glomérulo, ou por fatores exógenos, classicamente alguns vírus e bactérias, então mais uma vez, o glomérulo está sendo acometido por alguma coisa que não tem nada a ver com ele. Quando falamos de doenças que são decorrentes de alterações que promovem lesões constituintes normais do glomérulo, podemos ter lesões relacionadas ao COLÁGENO, ao receptor de FOSFOLIPASE A2 no podocito, ao receptor de TROMBOSPONDINA 1 no podocito. E tudo isso entre como os principais mecanismos fisiopatológicos da SÍNDROME de GOODPASTORE, principalmente em relação ao colágeno tipo IV (4), e a glomerulopatia membranosa quando temos esse acometimento no receptor de FOSFOLIPASE A2 e no receptor de TROMBOSPONDINA 1. Sabemos que existem outros constituintes que podem ser acometidos e que podem dar origem a glomerulopatias. Quando falamos de antígenos NÃO RENAIS promovendo lesão glomerular, classicamente podemos falar da NEFROPATIA por IgA (DOENÇA DE BERGER), onde conseguimos determinar a presença de depósitos de IgA nas células mesangiais. Agora falando dos fatores exógenos, levando a proliferação de imunoagregados, temos um exemplo clássico, um paciente com HEPATITE C, nós sabemos que a reação imunológica ao vírus da hepatite C pode levar à dois grandes tipos de glomerulonefrites, ou seja, classicamente temos a GLOMERULONEFRITE MEMBRANOPROLIFERATIVA (GNMP) ou então, a GLOMERULONEFRITE secundária a CRIOGLOBULINEMIA. Tendo isso em mente, teremos diversos motivos que podem levar a SÍNDROME NEFRÍTICA, mas o que caracteriza a SÍNDROME NEFRÍTICA para a medicina é o seguinte: ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 8 A redução da superfície para a filtração glomerular e isso irá levar a um processo de DISFUNÇÃO RENAL, EDEMA e HIPERTENSÃO. Podemos cursar também com algum grau de alteração da permeabilidade proteicalevando a um quadro de PROTEINÚRIA, usualmente SUBNEFRÓTICA, ou seja, menor que 3 a 3,5g/dia. E em alguns casos podemos cursar ruptura total das alças glomerulares, fazendo com que ocorra saída de HEMÁCIAS, chegando até o túbulo, dando origem às HEMÁCIAS DISMÓFICAS e os CILINDROS HEMÁTICOS, que são clássicos da SÍNDROME NEFRÍTICA. Todas essas alterações são o protótipo da SÍNDROME NEFRÍTICA HIPERTENSÃO, HEMATÚRIA DISMÓRFICA, EDEMA e DISFUNÇÃO RENAL. 5. FISIOPATOLOGIA: As GLOMERULONEFRITES associadas ao COMPLEMENTO são enfermidades glomerulares caracterizada pelo acúmulo de C3 (COMPLEMENTO), nos glomérulos. É causada por ativação, deposição ou degradação anormal do complemento e controle anormal da ativação da sua via alternativa. Caracteristicamente, os glomérulos apresentam forte coloração imuno-histológica para C3 sem coloração significativa para as imunoglobulinas ou para componentes de ativação da via clássica do complemento. C1q e C4. Ocorre uma desregulação da via alternativa do complemento. Quando há exposição a agentes patógenos ocorre rápida amplificação da C3b. Essa rápida amplificação pode acarretar uma ativação inadequada da via, que é controlada pelo fator H do complemento (FH). Aparentemente, uma deficiência do FH, ou a presença de proteínas relacionadas ao fator H (CFHRs) que competem com o FH, mas não exercem o mesmo efeito para inibir a ativação do complemento, podem ser fatores determinantes para o aparecimento da patologia. Outra possível causa é a presença do fator nefrítico C3 (C3NeF). Os C3NeFs são PRINCIPAIS ACHADOS CLÍNICOS ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 9 autoanticorpos capazes de estabilizar a C3 convertase da via alternativa, inibindo a ação do FH. 6. PRINCIPAIS CAUSAS DE SÍNDROME NEFRÍTICA: Sabemos que o complemento sérico auxilia na divisão etiológica das síndromes nefríticas, onde podemos ter causas de síndromes nefríticas com o COMPLEMENTO NORMAL, classicamente temos a DOENÇA DE BERGER (NEFROPATIA por IgA), SÍNDROME DE GOODPASTURE, SÍNDROME DE CHURG- STRAUSS, GRANULOMATOSE DE WEGENER, POLIANGITE MICROSCÓPICA. E podemos ter também, síndromes nefríticas com QUEDA NO COMPLEMENTO. Essas são as principais, GLOMERULONEFRITE MEMBRANOPROLIFERATIVA, NEFRITE LÚPICA, ENDOCARDITE INFECCIOSA, CRIOGOBULINEMIA e GLOMERULONEFRITE PÓS-ESTREPTOCOCO (GNPE). ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 10 PRINCIPAIS AGENTES INFECCIOSOS ASSOCIADOS A GNDA : Bactérias, vírus, parásitos, fungos. REGRA MINEMÔNICA PARA DECORAR – CAUSAS DE GLOMERULONEFRITE COM COMPLEMENTO REDUZIDO: “É uma MELECA decorar tudo isso”. Essas são as principais causas de SÍNDROME NEFRÍTICA ASSOCIADAS AO CONSUMO DO COMPLEMENTO. REGRA MINEMÔNICA – CAUSAS GLOMERULONEFRITE COM COMPLEMENTO REDUZIDO ME MEMBRANOPROLIFERATIVA L LÚPUS (LES) E ENDOCARDITE INFECCIOSA C CRIOGLOBULINEMIA A APÓS ESTREPTOCOCO ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 11 7. GLOMERULONEFRITE PÓS ESTREPTOCÓCICA: É uma reação imunológica do nosso corpo secundária a um processo decorrente de uma infecção pelo ESTREPTOCOCO BETA- HEMOLÍTICO DO GRUPO A, classicamente o “Streptococcus pyogenes”. Quem gosta de ter infeção estreptocócica? As crianças são mais acometidas por faringoamigdalite por estreptococo, o acometimento mais comum da GNPE, é justamente em crianças entre 5 e 12 anos de idade. A glomerulonefrite ocorre nesses pacientes porque acontece uma reação cruzada aos antígenos bacterianos, ou seja, os antígenos da bactéria são parecidos com os antígenos glomerulares, e então o nosso corpo entende que o nosso glomérulo faz parte do complexo bacteriano, gerando uma resposta imunológica com consequentes depósitos de IMUNOCOMPLEXOS no glomérulo. Esses depósitos são classicamente SUBENDOTELIAIS e depósitos na MEMBRANA BASAL GLOMERULAR. Lembrando que isso NÃO acontece no momento da INFECÇÃO, demora um pouco para o corpo gerar essa resposta imunológica. ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 12 E isso é clássico da GNPE, o período PRÓDROMICO, quando estamos diante de um paciente com faringoamigdalite, a gente pode esperar que de uma a três semanas, esse paciente possa evoluir com GLOMERUNEFRITE PÓS-ESTREPTOCÓCICA. É um pouco diferente das infecções cutâneas como o IMPETIGO em que teremos um período prodrômico de duas a seis semanas. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA GNPE: A GLOMERULONEFRITE PÓS ESTREPTOCÓCICA é o protótipo da SÍNDROME NEFRÍTICA CLÁSSICA, então teremos a presença de HEMATÚRIA DISMÓRFICA, CILINDROS HEMÁTICOS, temos PROTEINÚRIA SUBNEFRÓTICA, HIPERTENSÃO, EDEMA, DISFUNÇÃO RENAL. Tudo isso está dentro do complexo de manifestações clínicas da SÍNDROME NEFRÍTICA. ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 13 ACHADOS LABORATORIAIS: Classicamente podemos encontrar marcadores de contato, ou seja, nos pacientes que temos suspeita de GNPE, se a nossa história clínica não for suficiente para determinar uma ESTREPTOCOCCIA PRÉVIA, podemos lançar mão de alguns exames complementares como ANTIESTREPTOLINA O (ASLO), a ANTI-HIALURONIDASE, ANTI-DNAse B para determinar se houve ou não contato com a bactéria. Porém, as manifestações clínicas da GNPE geralmente levam a QUEDA DO COMPLEMENTO SÉRICO, principalmente do segmento C3 do complemento e o CH50, surgimento de HEMATÚRIA DISMÓRFICA, PROTEINÚRIA SUBNEFRÓTICA, e elevação da CREATININA. As alterações laboratoriais da GNPE podem demorar um tempinho para voltarem ao normal, ou seja, o COMPLEMENTO pode ficar baixo por até dois meses (8 semanas), hematúria microscópica, ou seja, uma alteração no sedimento urinário pode persistir por até dois anos, e a proteinúria (subnefrótica) residual pode ficar até 5 anos. Outra coisa que sempre devemos lembrar da GNPE, é que ela é uma SÍNDROME NEFRÍTICA CLÁSSICA, então tudo que fugir disso, nós devemos lembrar de biopsiar, porque nem sempre estamos diante de uma GNPE, podemos estar diante de uma outra GLOMERULOPATIA. Devemos indicar a biópsia, quando temos OLIGÚRIA PERSISTENTE, maior que 72 horas ou 1 semana, dependendo da referência, quadros de anúria, complemento sérico baixo por mais de 8 semanas, proteinúria nefrótica por mais de 4 semanas, hematúria macroscópica por mais de 6 semanas, ou então, em evidencias de doenças sistêmicas. E sempre lembrar, a GNPE é o protótipo da SÍNDROME NEFRÍTICA. Então, a SÍNDROME NEFRÍTICA não vai ter mononeurite múltipla, não vai ter púrpura palpável, não vai ter hemorragia alveolar, não vai ter acometimento do sistema nervoso central. Então, quando tivermos diante disso, devemos lembrar de outras etiologias, então por isso é importante biopsiar esse rim para obter o diagnóstico correto. ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 14 Porém, quando fazemos a biópsia desse rim, o que vai nos dizer que estamos diante de uma GNPE são os achados obtidos na microscopia eletrônica, que serão as imagens em CORCOVAS, que é um achado clássico da GNPE, então devemos lembrar que imagem em CORCOVA ou HUMPS é típico da GNPE. Na imunofluorescência, encontramos IMUNOCOMPLEXOS de padrão GRANULAR. ASPECTOS HISTOLÓGICOS: Na microscopia optica evidencia uma glomerulonefrite proliferativa difusa e exsudativa com proeminente proliferação endocapilar e numerosos neutrófilos. A imunofluorescência evidencia depósitos de C3 e imunoglobulina G distribuídos em um padrão granular no mesangio e paredes glomerulares. Na microscopia eletrônica evidencia depósitos eletrodensos de imunocomplexos descritos como CORCOVAS ou HUMPS. ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 15 TRATAMENTO DA GNPE: A primeira coisa é a restrição hidrosalina, porque não queremos que o paciente fique muito edemaciado e nem congesto. Porém se o paciente apresentar oligúria e sinais de congestão sistêmica, podemoslançar mão de diuréticos de alça como a FUROSEMIDA, se o paciente se apresenta com hipertensão, podemos fazer algum vasodilatador com a HIDRALAZINA ou BLOQUEADORES DE CANAIS DE CÁLCIO, e obviamente se o paciente está evoluindo com refratariedade ao tratamento clínico, é indicado DIÁLISE. Outro ponto extremamente importante da GNPE, principalmente em relação aos antibióticos. ANTIBIÓTICOS NÃO PREVINEM GNPE, porque é uma reação imunológica do nosso corpo. Porém, a partir do momento em que a gente diagnostica a GNPE, devemos dar o antibiótico para eliminar as CEPAS NEFRITOGÊNICAS, ou seja, para diminuirmos a dissipação de cepas que podem levar a GNPE para dentro da nossa comunidade. a) Restrição Hidrosalina: De 300 – 400 ml/m2/dia. Na de 1 – 2 mEq/Kg/dia. b) Diuréticos de Alça: Furosemida – melhora o edema e a hipertensão. CORCOVAS OU HUMPS GRANULAR ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 16 Furosemida 1mg/Kg/dose. c) Hipertensão Arterial: Vasodilatadores. Devem-se evitar os IECA devido ao seu efeito HIPERCALEMIANTE. Nifedipino (BCC). Hidralazina (alfa-bloqueadores). d) Hipercalemia: Restrição dietética e resinas de intercâmbio iônico. Resinas de Intercâmbio Iônico: Cayexalate / Resin – Cálcio. e) Tratamento Etiológico: Se recomenda em caso de evidencia de infecção ativa. f) Imunossupressores: Se reserva para os casos complicados ou com tendência a persistência. g) Diálise: Em caso de uremia, sobrecarga cardiovascular grave ou alterações hidroeletrolíticas imanejáveis. 8. NEFROPATIA POR IgA – DOENÇA DE BERGER: É a principal causa de SÍNDROME NEFRÍTICA no mundo. Geralmente ela tem um pico de incidência entre a 2ª e 3ª década de vida, decorrente de um processo de “defeito da glicosilação da imunoglobulina A (IgA). É uma GLOMERULONEFRITE associada à imunoglobulina A. É a causa mais comum de GLOMERULONEFRITE PRIMÁRIA no mundo. Até 50% dos casos evoluem para DOENÇA RENAL CRÔNICA. A DOENÇA de BERGER pode ser de etiologia primária ou secundária a alguma outra doença como a PÚRPURA de HENOCH – SCHOLEIN, cirrose hepática, doença celíaca e até mesmo o HIV. PRINCIPAIS FORMAS DE APRESENTAÇÃO: Pode se manifestar como SÍNDROME NEFRÍTICA CLÁSSICA, mais ou menos 50% dos casos, ou seja, é a forma mais comum de apresentação, com hematúria recorrente cerca de 40% dos casos, por exemplo, um jovem que correu uma maratona, jogou futebol, que depois disso está cursando com hematúria macroscópica, então devemos suspeitar de DOENÇA DE BERGER. Outra forma de manifestação dela é a GLOMERULONEFRITE RAPIDAMENTE PROGRESSIVA (menos de 10% dos casos) e a SÍNDROME NEFRÓTICA (menos de 10% dos casos). Lembrando que a DOENÇA DE BERGER se manifesta clinicamente como SÍNDROME NEFRÍTICA CLASSICA, na metade dos casos, então, como fazer para diferenciar a DOENÇA DE BERGER da SÍNDROME NEFRÍTICA CLASSICA? A SÍNDROME NEFRÍTICA DA DOENÇA DE BERGER é concomitante ao fator precipitante. Por exemplo, tivemos uma infecção, 1 ou 2 dias depois, já começamos a ter manifestações da DOENÇA DE BERGER, perda de função renal, hematúria, proteinúria. Lembrando que a GNPE tem um período prodrômico, que ela respeita esse período de uma a três semanas em ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 17 pacientes com FARINGOAMIGDALITE e de duas a seis semanas nos pacientes com infecção cutânea. Outra coisa que pode nos auxiliar a diferenciar uma da outra é justamente o complemento sérico. Lembrando que a DOENÇA DE BERGER é uma SÍNDROME NEFRÍTICA que geralmente não cursa com QUEDA DO COMPLEMENTO, e isso é diferente da GNPE, onde a QUEDA do COMPLEMENTO SÉRICO é fator crucial na determinação do diagnóstico. Se diante de tudo isso, ainda não conseguimos diferenciar uma da outra, devemos fazer a biopsia renal. A biopsia renal do paciente com DOENÇA DE BERGER vai determinar pra gente a presença de depósitos de IgA no mesangio, levando aos achados clássicos da doença. ACHADOS LABORATORIAIS: Podemos encontrar os seguintes achados nos pacientes com NEFROPATIA por IgA (DOENÇA DE BERGER): Primeiro, os achados típicos de SÍNDROME NEFRÍTICA, ou seja, perda de função renal, hematúria microscópica, proteinúria subnefrótica, dentre outros. Nesse perfil de pacientes, podemos encontrar um aumento dos níveis séricos de IgA em mais ou menos 50% dos casos. E a biópsia renal ou cutânea no caso de um paciente com PÚRPURA de HENOCH – SCHONLEIN que pode levar pra gente o diagnóstico. BIÓPSIA RENAL: Podemos ter um depósito de IgA no mesangio, clássico da NEFROPATIA por IgA, mas a gente também pode encontrar algumas alterações na microscopia optica, sendo a mais comum a HIPERCELULARIDADE MESANGIAL. Uma coisa importante quando falamos de DOENÇA DE BERGER, é que através da biópsia renal a gente consegue determinar também critérios de “pior prognóstico”. Quando um paciente com DOENÇA DE BERGER se apresenta com proteinúria maciça (> 1g/dia), hipertensão, creatinina elevada (disfunção renal) logo no momento do diagnóstico, nós sabemos que esse paciente tem maior risco de complicações no futuro. Da mesma forma, as alterações de fibrose e atrofia túbulo-intersticial na biópsia renal também é um critério de pior prognóstico, esclerose glomerular com fibrose difusa ou então paciente com hematúria microscópica persistente. Esses critérios de pior prognóstico nos levam a monitorar o paciente de forma mais precoce. ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 18 TRATAMENTO DA NEFROPATIA POR IgA: . Nós sabemos que na NEFROPATIA por IgA, a grande maioria das vezes tem um curso benigno, e o acompanhamento ambulatorial é que fazemos na maioria dos casos. Porém, quando os pacientes se apresentam com proteinúria, geralmente maior que 1 g/dia, devemos lançar mão de IECA ou BRA, os nossos fármacos clássicos anti- proteinúricos. Em pacientes que estão cursando com SÍNDROME NEFRÍTICA ou GLOMERULO NEFRITE RAPIDAMENTE PROGRESSIVA, a gente lança mão de terapia imunossupressora, com corticoterapia, pulsoterapia com corticoide, ciclofosfamida. Em relação a outras terapias como amigdalectomia, uso de Ômega 3, nós não temos muitas evidencias que sustentem o seu uso de forma rotineira, portanto, é algo que não fazemos no nosso dia a dia. 9. GLOMERULONEFRITE MEMBRANOPROLIFERATIVA: Também é chamada de GLOMERULONEFRITE MESANGIOCAPILAR, é mais comum na vida adulta, embora seja uma causa incomum de SÍNDROME NEFRÍTICA. E todas as vezes que estamos suspeitando de uma GNMP, nós devemos lembrar da sua associação com HEPATITE C e CRIOGLOBULINEMIA. O que mais chama a atenção na GLOMERULONEFRITE MEMBRANOPROLIFERATIVA é que ela é uma causa de GLOMERULONEFRITE COM CONSUMO DE COMPLEMENTO. E muitas vezes a GNMP pode se manifestar pra gente como SÍNDROME NEFRÓTICA, ou seja, uma síndrome mista, com componentes de SÍNDROME NEFRÍTICA e de SÍNDROME NEFRÓTICA. ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 19 FISIOPATOLOGIA: No processo fisiopatológico da GNMP, podemos ter uma desregulação no SISTEMA COMPLEMENTO, ou então, um depósito excessivo de IMUNOCOMPLEXOS, levando ao espessamento da MEMBRANA BASAL GLOMERULAR com proliferação celular mesangial e capilar, dando o nome a ela de GLOMERULONEFRITE MESANGIOCAPILAR. E esses depósitos de IMUNOCOMPLEXOS, podem ser tanto SUBENDOTELIAIS que podem levar a quebra, destruição do endotélio fenestrado, levando a saída de hemácias com aqueles achados clássicos de SÍNDROME NEFRÍTICA com HEMATÚRIA DISMÓRFICA, CILINDROS HEMÁTICOS, e um acometimento SUBEPITELIAL, ou seja, entre a MEMBRANA BASAL GLOMERULAR e os PODÓCITOS levando a alteração da permeabilidade dos PODOCITOS. Esses depósitos tanto na região subendotelial quanto subepitelial irão dar origem aos achados clássicos da GNMP na microscopia eletrônica. MICROSCOPIA ELETRÔNICA: Na microscopia eletrônica vamos determinaro “sinal do duplo contorno”. ANDREY LEANDRO MENSHHEIN – MEDICNA 6º SEMESTRE 20 TRATAMENTO: Para tratar a GNMP, devemos tratar as causas de base, ou seja, a HEPATITE C, a CRIOGLOBULINEMIA. Devemos lembrar que a GNMP é um diagnóstico que devemos correr atrás, investigar a causa de base, não adianta fazer o diagnóstico de GNMP, e não tratar a causa de base.