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IMPACTOS DA PANDEMIA SOBRE POPULAÇÕES INDÍGENAS - Cientistas Sociais e o Coronavírus: Miriam Pillar Grossi e Rodrigo Toniol

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suas ações foram desastrosas e contestadas
por entidades indígenas e pelo Ministério Público Federal.
Ademais, outra ocasião que a autora Capiberibe (2020) cita como coincidente com a
Portaria nº 419, foi uma invasão de um missionário americano ao tentar entrar em uma terra
índigena no Vale do Javari, cujo centraliza uma grande parte de indígenas isolados. Esse fato
deve ser bastante questionado principalmente agora em tempos de pandemia, que o
isolamento é algo tão prezado e disseminado para toda a população. Portanto, o isolamento
voluntário desses povos, deveria no mínimo ser respeitado, qual seria a intenção desse
missionário ao quebrar esse isolamento?
Por fim, afirma Capiberibe (2020) que tanto os indígenas em isolamento voluntário,
como os não aldeados, sofrem uma enorme vulnerabilidade e foram parte dos não aldeados à
primeira morte que teve como causa o novo coronavírus, a vítima foi uma idosa de 87 anos da
etnia Borari, em um município do Pará, chamado Santarém. Conclui-se então, que esses casos
são subnotificados, esse povo possui uma assistência bastante insuficiente, um risco maior de
disseminação do vírus dentro da comunidade e ainda estão sujeitos a invasões e letalidade de
mais uma doença, mas dessa vez uma pandemia que assolou o mundo.
Covid - 19 nos quinze municípios com os maiores contingentes de população indígena do
estado do Amazonas
Adentrando no contexto sanitário e político-social na pandemia do coronavírus para as
populações indígenas, pode-se destacar alguns pontos que exemplificam as desigualdades e
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exclusões que historicamente tais populações enfrentam. Por exemplo, baseado no Censo
2020 do IBGE, 20% da população indígena se encontra na região amazônica, entretanto,
segundo Dias Junior (2020), essa região é a que apresenta menor relação indivíduos/leitos de
UTI para a população, perdendo para qualquer estado do sul e sudeste.
Isso demonstra a problemática da desigualdade na saúde dessa população, pois apesar
do sudeste apresentar um maior número de casos de COVID-19, baseado em dados do
Ministério da Saúde (2020), por causa da falha e irregularidade na distribuição de leitos, no
território nacional, o estado do Amazonas se destacou nos últimos meses pela superlotação
dos hospitais, falta de leitos e consequentemente um aumento súbito de mortes pelo
Sars-Cov-2, além de ser local para surgimento de novas variante do vírus, conforme afirma a
Fiocruz (2020).
Além disso, quando se observa os Territórios indígenas (TI´s) isoladamente, a
problemática se torna ainda mais séria, isso porque, segundo dados do Ministério da Saúde
(2020) e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (2021), menos de 10% dos TI ́s
possuem UTIs, ou seja, a maior parte desse grupo que necessita de tratamento intensivo
deverá sair de suas regiões ou acabará correndo risco de agravos à saúde, podendo chegar até
o óbito.
Somado a todas essas questões, especialistas do Instituto Socioambiental - ISA (2020)
também criticam a escassez de políticas públicas para o controle da pandemia nessas
populações minoritárias e avaliam negativamente várias posições do Governo Federal durante
esse período. Dessa forma, pode-se destacar que o Estado Brasileiro não só foi omisso como
ajudou o vírus a se espalhar nas populações indígenas.
E a ISA (2020) ainda destaca que foram observadas três causas mais comuns para esse
descaso: profissionais da saúde que atuavam em outras regiões, como centros urbanos e que
também trabalhavam no subsistema de Saúde Indígena acabaram levando o vírus para essas
populações minoritárias. Nesse ponto, argumenta-se uma falta de controle sanitário e de
testagem dos profissionais de saúde, antes do envio para os TI´s. A segunda causa foi a falta
de políticas públicas para impedir a entrada de garimpeiros e grileiros nos TI´s, que culminou
no aumento de invasões a esses territórios na pandemia. Esses extratores também atuaram
como disseminadores do vírus. A terceira causa foi pelo corte de políticas assistencialistas e,
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por isso, os indígenas não tinham outra alternativa a não ser ir à procura do auxílio
emergencial nos centros urbanos, aumentando o risco de contaminação.
Cabe destacar também que, para a APIB (2020), no início da pandemia, a FUNAI
cortou diversos auxílios para essa população, por exemplo, as cestas básicas distribuídas no
TI ́s que culminaram em pobreza, violência e aumento da vulnerabilidade à COVID-19.
Além disso, a FUNAI também oficializou uma portaria na qual suspendia a autorização de
entrada nos TI´s, mas não criou nenhum mecanismo e política para a proteção da invasão
desses territórios. O resultado dessa política foi o fracasso com o aumento das invasões e de
confronto e violências entre madeireiros e garimpeiros contra os indígenas.
Essas falhas tiveram um impacto importante nas comunidades indígenas, ainda
baseado no levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (2021), até o início de
abril de 2021, 51.935 casos confirmados e 1031 mortos em 163 povos indígenas por
COVID-19 foram contabilizados. A partir dessas perspectivas, várias universidades
começaram a desenvolver estudos que correlacionaram a COVID-19 e territórios indígenas.
Com isso, vale pontuar o estudo da UFMG que desenvolveu um índice de
vulnerabilidade das Terras Indígenas ao Coronavírus. Esse índice varia entre 0 a 1 e valores
mais próximos de 1 indicam maior risco. Compõem a análise dados de vulnerabilidade social,
disponibilidade de leitos hospitalares, números de casos por município, número de óbitos,
perfil etário da população indígena, vias de acesso e outros fatores relacionados com a
estrutura de atendimento da saúde indígena e mobilidade territorial. Esses estudos podem ser
utilizados como ferramentas importantes na elaboração de políticas para o combate ao
coronavírus nesse grupo social.
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CONCLUSÃO
Dessa forma, conclui-se que a população indígena é influenciada diretamente por
epidemias e crises sanitárias que já existiram no Brasil, nas quais, contribuíram para a
mortalidade dessa população. Com isso, a pandemia da Covid-19 não está sendo diferente,
pois, está impactando negativamente às tribos indígenas, tanto no aspecto social e político,
como por exemplo, o cancelamento do principal movimento político pan-indígena, que é o
Acampamento Terra Livre, quanto associado à uma crise no seu sistema de saúde, que não
está devidamente preparado para suportar essa nova pandemia, resultando em um aumento
significativo, mais uma vez, da mortalidade da população indígena.
Percebe-se, portanto, que assim como requisitado pela Articulação dos Povos
Indígenas do Brasil (APIB), é imprescindível o desenvolvimento de um plano de contingência
urgente para o controle da pandemia nessa população. Além disso, é preciso impedir a entrada
do vírus nos municípios onde ainda não foram identificados casos do coronavírus e dar
assistência aos povos indígenas residentes nos municípios com casos já notificados. Como
também elaborar políticas públicas que minimizem as desigualdades históricas para essas
populações, estimulem a equidade e isonomia, respeitem a cultura da comunidade, o seu
isolamento e garantam os seus direitos básicos, como por exemplo, à saúde.
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REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Carina Santos de; NÖRZOLD, Ana Lúcia Vulfe. O impacto da colonização e
imigração no Brasil Meridional: contágios, doenças e ecologia humana dos povos indígenas.
2008. Disponível em: periodicos.unesc.net/historia/article/viewFile/431/440.
ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL (APIB). Covid-19: Emergência
Indígena. 2021. Disponível em: https://emergenciaindigena.apiboficial.org/.
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Portaria nº 419/PRES, de 17 de março de
2020. 2020. Estabelece medidas temporárias de prevenção à infecção e propagação do novo
Coronavírus (COVID-19) no âmbito da Fundação Nacional do Índio - FUNAI. Disponível
em:https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/portaria/prt/portaria%20n%C2%BA%20419-20-mjs

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