Justiça Cristã - FILOSOFIA DO DIREITO PROF. SALAMANCA (10)
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Justiça Cristã - FILOSOFIA DO DIREITO PROF. SALAMANCA (10)


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GIOTTO. A lamentaçio (detalhe), c. 1305.
Tomás de Aqaino lembra que é Aristoteles, não a Bíblia, quem ensina o que são possível que indivídos anjos
A concepção de alma de Tomás pretende ser
estritamente aristotélica,mas a impostação é nova.
A alma dos antigos
começa a adquirir os contornos do "eu"pensante
sobre o qual Descartes poderá se apoiar para refundar
a metafísica
Possivel que individuos diferentes tenham a mesma operação, porque então não seriam diferentes.
Tomás mantém a seu favor a evidência de que indivíduos pensam. Numa passagem com excelente efeito retórico
(o § 68 do Contra Averróis), Tomás tuteia seu interlocutor presumido: "se dizes...". No momento em que se aceita que
há divergência entre um e outro dos interlocutores, já não se pode sustentar que haveria identidade entre eles. Gil de
Roma, um dos primeiros defensores das posições de Tomás, lembra como, ainda jovem bacharel, ficou impressionado
com a retórica do "grande mestre", mostrando como não tem sentido discutir com alguém que diz que "homem não
pensa"...
Averróis, por certo, não escreveu o que lhe atribui Tomás de Aquino e os historiadores nunca conseguiram
encontrar os tais "averroístas" atacados por ele. Pelo menos não antes de Tomás escrever o Contra Averróis, embora
depois, sim, por um efeito paradoxal, tenha existido uma tendência averroísta que se estende até o fim da Idade
Média. Ao que parece, Tomás de Aquino queria prevenir um erro iminente e perigoso. A recepção da obra de
Aristoteles não poderia deixar de incorporar a recorrente discussão acerca da noção de intelecto, discussão crucial
porque se Aristoteles pode abandonar a teoria das Ideias de Platão é porque a substitui por uma teoria do
intelecto, e o tema tendia a levar à desconsideração da individualidade pessoal dos homens, com prejuízos teóricos
que Tomás considerava inadmissíveis.
Se o intelecto é um só para todos os homens, se o "homem não pensa", tampouco é responsável por seus atos.
No Contra Averróis, Tomás de Aquino expressamente diz que não se trata de discutir sobre os efeitos da tese na
religião, efeitos evidentes, porque não havendo responsabilidade não há nem pecado nem salvação, mas de
permanecer no interior da obra de Aristoteles e mostrar que a tese torna impossíveis tanto a ética quanto a política,
uma vez que impede a distinção entre os indivíduos e torna inócua toda deliberação.
Na realidade, outros entenderam justamente o contrário. Dante Alighieri, para dar um exemplo de peso, em sua
obra Sobre a monarquia, deduz a necessidade do Império universal de uma análise da natureza humana que
considera justamente a unidade do intelecto, na acepção averroísta, à qual corresponderia a unidade do Império.
Mas o empenho de Tomás de Aquino não foi em vão. Ainda que se possa dizer que talvez fosse Averróis, e não
ele, o melhor interprete de Aristoteles quanto à questão, o certo é que depois do dominicano a discussão sobre a
noção de
intelecto, que remontava à Antiguidade, deixou de ter atualidade. A insistência na individualidade, que dominaria a
cena filosófica nos séculos seguintes, inclusive contra Tomás, levou a um deslocamento que, numa perspectiva de
longa duração, indica os caminhos pêlos quais a filosofia medieval lança as bases para a ruptura, a revolução
moderna. Como diz o historiador da filosofia Alain de Libera, "o encontro do subienctum ... no sentido de 'aquilo que
é constante' (subsistente) e 'real' e do ego, determina o momento em que 'a mens humana revindica
exclusivamente para si o nome de sujeito, de tal sorte que subienctum e ego, sub-jetividade e egoicidade,
adquirem uma significação idêntica'... tal é o complexo com que nos defrontamos na leitura do opúsculo de Tomás,
Contra Averróis".
A concepção de alma de Tomás de Aquino pretende ser estritamente aristotélica, a discussão levada a cabo é
com os filósofos e comentadores da tradição grega e árabe, neoplatônicos e aristotélicos, mas a impostação é
nova, a problemática é outra e a velha alma dos antigos começa, provavelmente pela primeira vez, a adquirir os
contornos do "eu" pensante sobre o qual Descartes poderá se apoiar para refundar a metafísica e propor uma nova
física. A física moderna já não terá alma. \u2022&&> ,.rv.
PARA CONHECER MAIS
O ente e a essência. Tomás de Aquino. Intr.
de B. Souza Netto. Trad. de C. A. R. Nascimento.
Vozes, 1995.
A unidade do intelecto: contra os averroíst»
Tomás de Aquino. Trad. de M. S. Carvalho.
Ed. 70,1999.
Uunité de 1'intellect de Thomas d'Aquin. Alam
de Libera. Vrin, 2003.
98 M ENTE, CÉREBRO & FILOSOFIA
www.mentecerebro.com.il