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Psicomotricidade e Desenvolvimento Motor W B A 0 2 2 2 _ v1 .2 2/172 Psicomotricidade e Desenvolvimento Motor Autoria: Prof. Dirceu Costa Junior Como citar este documento: COSTA JR, Dirceu. Psicomotricidade e Desenvolvimento Motor. Valinhos: 2017. Sumário Apresentação da Disciplina 03 Unidade 1: Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor 05 Unidade 2: Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo 31 Unidade 3: Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras 51 Unidade 4: Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento 75 2/172 Unidade 5: Córtex Motor e Cerebelo 95 Unidade 6: Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade 115 Unidade 7: Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos 135 Unidade 8: A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação 154 3/172 Apresentação da Disciplina A separação entre o corpo e a mente (ou alma) vem desde os antigos filósofos gre- gos, alguns séculos antes de Cristo. Nessa época, essa dicotomia concedia à mente um papel privilegiado, enquanto ao corpo restava apenas a função menosprezada de subserviência. Contextualizando esse perí- odo, foi uma época em que houve um gran- de desenvolvimento da ciência, coincidindo com o declínio dos Jogos Olímpicos da An- tiguidade (quando o corpo era cultuado ho- menageando os deuses). Com o passar dos séculos e muitos estudio- sos debruçados sobre essa temática, per- cebeu-se a indissociabilidade entre corpo e mente. O “novo” entendimento de que eles se conectam, influenciando um ao outro, si- naliza agora com mais veemência. Confor- me o poeta romano Juvenal associou am- bos no final do séc. I: “mens sana in corpore sano”, ou traduzindo, “mente sã num corpo sadio”. Nesse cenário, surgem diversas ciências que se baseiam nesse ser humano “unificado”, como é o caso da Educação Física e da Psi- cologia. Dentre essas possibilidades, uma ciência se destaca — a Psicomotricidade. Compreendendo essa ciência por meio de suas diversas manifestações como uma abordagem educacional, uma intervenção hospitalar ou, ainda, uma terapia holística, comprovadamente eficiente (principalmen- te, mas não só, com o público infantil), esta disciplina é apresentada com o objetivo de oportunizar aos alunos, de diversas áreas, 4/172 um maior aprofundamento com relação a esse estudo. Serão abordados alguns conceitos, as prin- cipais características, além de algumas das aplicações práticas da psicomotricidade e suas relações com o desenvolvimento mo- tor. 5/172 Unidade 1 Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor Objetivos 1. Apresentar a discussão epistemológi- ca sobre a psicomotricidade. 2. Contextualizá-la na realidade brasi- leira. 3. Introduzi-la no contexto do desenvol- vimento psicomotor. Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor6/172 1. Epistemologia da Psicomotri- cidade 1.1. Conceito A palavra PSICOMOTRICIDADE, numa aná- lise etimológica, une a palavra grega psyché (refere-se a alma, espírito ou mente) com a palavra motricidade, que é uma derivação da palavra latina motor (que desloca, que faz mover). Nesse sentido, a formação da palavra seria algo que misturasse o corpo em movimento e a atividade mental, permi- tindo uma tradução que relacione a movi- mentação corporal e sua intencionalidade. A Associação Brasileira de Psicomotricida- de (ABP), entidade de maior representati- vidade no Brasil, define a psicomotricidade como sendo um “movimento organizado e integrado, em função das experiências vividas pelo sujeito cuja ação é resultante de sua in- dividualidade, sua linguagem e sua socializa- ção”. Por apresentar um conteúdo transdiscipli- nar, com contribuições científicas oriundas de diversas áreas como a filosofia, a psi- cologia, a neurologia, a pedagogia, entre outras, existem diversos significados para psicomotricidade, mas sempre se referindo aos aspectos motor, intelectual e socioe- mocional. Dentre essas diversas definições, pode- mos destacar uma clássica, de Ajuriaguerra (1970, p.19), que afirma que a psicomotrici- dade “[...] é a ciência do pensamento através do corpo preciso, econômico e harmonioso”, ou uma mais atual, de Barreto (2000, p.19), que aborda a psicomotricidade como “[...] a Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor7/172 integração do indivíduo, utilizando, para isso, o movimento e levando em consideração os aspectos relacionais ou afetivos, cognitivos e motrizes”. 1.2. Breve Histórico1 A trajetória da psicomotricidade, desde o seu surgimento até a atualidade, pode ser acompanhada por meio de alguns momen- tos importantes na história. Esses marcos apresentam também diversos estudiosos que contribuíram de alguma forma para a caracterização do que hoje entende-se por psicomotricidade. Dos berços europeus (especificamente franceses) até sua introdução e primeiros passos no Brasil, é possível seguir esse de- senvolvimento pela ordem cronológica dos eventos: Final do Século XIX: Phellipe Tissié, um neu- ropsiquiatra francês, usou pela primeira vez Para saber mais O posicionamento dos países europeus em re- lação à psicomotricidade divide-se entre os pa- íses latinos (a favor) e os anglo-saxões (contra). Provavelmente isso se dá por conta da tendência cultural esportiva, que interfere em toda a motri- cidade. Nesse caso, os países latinos apresentam comportamento mais humanista do que os vizi- nhos de língua inglesa. Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor8/172 o termo para nomear a região específica do cérebro encarregada por unir as funções do pensamento com as funções motoras (re- gião do córtex frontal do cérebro). 1870: o vocábulo aparece no discurso neu- rológico pela necessidade de explicar algu- mas patologias que não seguiam a lógica anterior que sempre relacionava um sinto- ma com uma área específica lesionada. 1909: o neuropsiquiatra e professor francês Ernest Dupré expôs que a debilidade moto- ra não precisava necessariamente ter rela- ção com algum problema neurológico. 1925: Henry Wallon, um filósofo, médico, psicólogo e político francês, evidencia a re- lação existente entre o movimento huma- no, o afeto, as emoções e seus hábitos. 1935: o francês Edouard Guilmain, famoso neurologista, apresentou um exame diag- nóstico psicomotor. 1947: Julian de Ajuriaguerra, psiquiatra e professor francês, delimitou com clareza os transtornos psicomotores, balizando-os entre os neurológicos e os psiquiátricos. 1968: iniciam-se os primeiros cursos dentro das universidades brasileiras de graduação e, principalmente, de pós-graduação. 1970: diversos profissionais começam a trazer da Europa os principais conceitos e práticas sobre psicomotricidade, focando no corpo de um sujeito e, dessa forma, tor- nando mais relevante a relação, a afetivida- de e o emocional. Nesse momento é possí- vel perceber nitidamente a divisão entre as Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor9/172 abordagens reeducativa e terapêutica. 1976: a francesa Françoise Désobeau, fono- audióloga e terapeuta corporal, trouxe para o Brasil uma diferente abordagem desen- volvida por ela, que substituía as técnicas instrumentais por jogos e brincadeiras. 1980: é fundada, no estado do Rio de Janei- ro, a “Sociedade Brasileira de Terapia Psi- comotora” (SBTP); alguns anos depois, em 1986, o nome foi modificado para “Socie- dade Brasileira de Psicomotricidade” (SBP) e, em 2005, tornou-se a “Associação Brasi- leira de Psicomotricidade” (ABP). 2012: na Assembleia Geral da ABP, insti- tuiu-se o dia 29 de abril como o Dia do Psi- comotricista. Diversos outros fatos e muitos outros perso- nagens participaram — e ainda participam — dessa construção da jovem ciência psi- comotora. Entretanto, nem todas as ações são apresentadas claramente, por exemplo, alguns cursos e intervenções psicomoto- ras realizadas especificamentepara pesso- as com deficiência, por vezes apresentados com outros nomes. Outro grande exemplo é o professor de Educação Física e psicólogo francês Jean Le Bouch, um dos maiores estudiosos da psi- comotricidade, que utiliza em diversos tra- balhos o termo psicocinética. Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor10/172 1.3. Áreas de Atuação O psicomotricista é um profissional que uti- liza os conhecimentos do desenvolvimento psicomotor para educar, reeducar e realizar tratamentos de pessoas. Essa profissão ainda não é regulamentada no Brasil, embora o MEC já tenha autorizado a abertura de um curso de graduação nessa área. Hoje esse campo é for- mado por profissionais da área da Saúde e da Educação que desenvolveram seus estudos, principalmente em cursos de pós-graduação. Os principais locais de atuação na área da educação são: as escolas, creches e escolas especiais para pessoas com deficiência; na área da saúde são: clínicas multidisciplina- res, hospitais, postos de saúde e consultórios; e também existem empresas que atuam no Para saber mais Phellipe Tissié foi um dos grandes nomes da edu- cação física escolar francesa. Durante anos ele esteve em embate idealista com o famoso barão Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpi- cos da Era Moderna. Tissié defendia uma edu- cação física mais igualitária e coletiva, em detri- mento à concorrência e violência manifestadas pelo esporte na escola, sustentado por Coubertin, que justificava esse excesso de liberdade como um condutor necessário para a excelência do in- divíduo. Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor11/172 ramo de consultorias. Além de toda essa atu- ação profissional no ambiente educativo, em clínicas e até em empresas, boa quantidade de pesquisa também é realizada por aqui. O público-alvo do trabalho da psicomotrici- dade são crianças em fase de desenvolvimen- to ou que apresentam atrasos nos estágios de desenvolvimento, e pessoas em processo de reabilitação motora, sensorial, mental ou psíquica. A psicomotricidade pode ainda ser ferramenta no processo de reinserção social de crianças, jovens e idosos. Vale ressaltar a importância sobre a orientação de familiares e cuidadores desses pacientes, para que por meio da compreensão do trabalho também se tornem facilitadores da psicomotricidade no dia a dia. 2. Desenvolvimento Psicomotor O desenvolvimento psicomotor refere-se às contínuas transformações do movi- mento humano ao longo da vida, em har- Para saber mais O projeto de lei nº 795/2003, que dispõe sobre a regulamentação da atividade profissional de psi- comotricista e autoriza a criação dos Conselhos Federal e Regionais de Psicomotricidade, de au- toria do deputado Leonardo Picciani (RJ), tramita na Câmara dos Deputados desde 2003 e foi ar- quivado em 2007, 2011 e 2015 (término de suas legislaturas). Como o deputado, autor do projeto, se reelegeu, ele pode solicitar o desarquivamento do projeto (da última vez, desarquivado até o final da sua legislatura em 2019). Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor12/172 monia com o aperfeiçoamento social e cognitivo. Essa maturação, que se inicia logo após a concepção, acontece desde a sua fase não consciente, por meio dos movimentos reflexos, até a fase conscien- te, em que os movimentos passam a ser influenciados por outros indivíduos e pelo ambiente. Nesta fase, a motricidade rela- ciona-se ao cognitivo e começa a contem- plar sentido e significado, possibilitando a capacidade de expressar as emoções e demonstrar as descobertas. A Figura 2.1 sintetiza a interação de to- dos os fatores que contribuem para a ma- nifestação do movimento, segundo o ex- posto acima. Figura 2.1. O movimento (M*) como consequência da interação en- tre indivíduo (I), tarefa (T) e ambiente (A). A organização e a execu- ção do movimento sobre ação direta dos fatores compõem I, T e A Fonte: adaptado de Shumway-Cook (2010). Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor13/172 Em um primeiro momento, os conheci- mentos adquiridos referem-se ao próprio corpo e, em seguida, a interação com ou- tros indivíduos e as situações experimen- tadas no meio onde vivem levam a reco- nhecer seu corpo em relação aos outros (pessoas e objetos) e sua relação em um espaço (ambiente); permitindo descobrir a si mesmo e o mundo ao seu redor. Esse desenvolvimento compara-se ao desen- volvimento biológico, paralelamente às funções motoras, cognitivas, perceptivas, afetivas e sociais. O psicólogo Henry Wallon é conhecido como o responsável pela visão científica da psicomotricidade ao contribuir com in- formações fundamentais sobre o desen- volvimento neurológico do recém-nasci- do e da evolução psicomotora da criança. Ele propõe alguns estágios para esse de- senvolvimento psicomotor, não de forma linear e sequencial, mas com os estágios posteriores aumentando e reestruturan- do os anteriores. Ele afirma ainda que é possível caracterizar a mudança de está- gio por meio de um tipo diferenciado de comportamento, conforme é apresentado no Quadro 2.1. Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor14/172 Tabela 2.1. Características dos estágios conforme a idade Estágios Idade Características Impulsivo-emocional Recém-nascido Reflexos Tônico-emocional 6 aos 12 meses Emoções Sensório-motor 1 a 2 anos Postura Projetivo 2 a 3 anos Eu corporal Personalismo 3 a 6 anos Símbolos Categorial 6 a 11 anos Praxias Adolescência A partir de 11 anos Reflexão Fonte: adaptado de Wallon (1981). Estágio impulsivo-emocional: predomínio afetivo. Interação com o meio pela emoção. Adaptações ao meio via reflexos (sucção, preensão palmar). Reações puramente fisiológicas (espasmos, contra- ções). Estágio tônico-emocional: passagem da desordem gestual para as emoções diferenciadas (já ex- pressa medo e alegria). Movimentos ainda são bem desorientados. Relações com o meio via “cumpli- cidade afetiva” (a criança solicita e precisa da troca afetiva para o seu equilíbrio psicofisiológico). Estágio sensório-motor: inteligência predomina e é dividida em inteligência prática (conseguida pela interação do corpo com os objetos) e inteligência discursiva (conquistada por meio de imitação e consequente apropriação da linguagem). A ação precede o pensamento. Exploração do meio (am- Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor15/172 pliada após a conquista do andar). Estágio projetivo: surgimento da inteligência simbólica. Conhece o objeto pela interação com ele (via mobilidade intencional). Exterio- riza o ato mental por meio de gestos, proje- tando os pensamentos em movimentos. Estágio de personalismo: predominância afetiva (período crítico na formação da per- sonalidade, dá-se por meio de interações so- ciais). Período de intenso intercâmbio social (com muita imitação, representação de pa- péis e trocas de amizades). Consciência de si (imagem própria). Crise de oposição. Estágio categorial: predominância da inte- ligência (capacidades mnemônicas e aten- ção voluntária) sobre as emoções. Aumen- to do interesse para o conhecimento e pelo mundo exterior (transmitindo suas relações com o meio). Idade da razão (idade escolar) e do “desmame afetivo”. Estágio adolescência: predominância afetiva (caracterizada por diversos conflitos internos e externos, levando à crise da puberdade). Pe- ríodo marcado pela busca de autoafirmação e pelo desenvolvimento da sexualidade. O re- conhecimento da consciência de si mesmo no tempo, levando ao desenvolvimento das res- ponsabilidades. Compreendendo como os desenvolvimentos psicológico, emocional e cognitivo próprios de cada faixa etária influenciam na interação com o meio e na variedade das tarefas execu- tadas, cronologicamente pode ser observado o aparecimento das habilidades motoras es- peradas para cada idade. No recém-nascido,observamos uma série de reflexos que podem ser entendidos como res- postas ou movimentos involuntários estereo- Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor16/172 tipados como consequência de um estímulo externo. Esses reflexos, que tendem a desaparecer ainda nos primeiros meses de vida, podem indicar algum sinal de comprometimento neurológico quando de sua ausência ao nascimento ou permanência para além do período estimado.A Tabela 2.2 a seguir traz alguns dos reflexos do recém-nascido. Tabela 2.2. Exemplificação de alguns reflexos que podem ser observados no neonato Reflexo Movimento observado 1. De sucção Sucção vigorosa por meio de estímulo no lábio. 2. De marcha Posicionado em pé com apoio podal e inclinação do tronco para a frente. Observa-se o cruzamento das pernas uma frente à ou- tra, assemelhando-se à marcha. 3. De moro Com amparo das mãos do examinador, promove-se uma queda súbita da cabeça do recém-nascido para trás. Observa-se ex- tensão e abdução dos membros superiores seguida de choro. 4. De busca Realizando estímulo na face ao redor da boca, observa-se rota- ção da cabeça na tentativa de busca pelo objeto. 5. Preensão palmar Pressão na palma da mão desencadeia a flexão dos dedos. 6. Preensão plantar Pressão na base dos artelhos desencadeia flexão dos dedos. Fonte: elaborada pelo autor. Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor17/172 À medida que esses reflexos primitivos vão sendo integrados com a maturação do sistema nervoso central, que ocorre de maneira acentuada nos primeiros anos de vida, novas possibilidades de ação vão sendo acrescentadas ao repertório de movimentos possíveis de serem realizados, promovendo a ativação de novas áreas motoras e regiões envolvidas no planejamento, modulação e controle do movimento. Embora presente durante toda a vida, o processo de aprendizagem motora acontece de forma in- tensa durante os primeiros meses de vida, com a aquisição de nova habilidade em curto intervalo de tempo, conforme representado na Figura 2.2. Figura 2.2. Marcos do desenvolvimento motor Fonte: elaborada pelo autor. Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor18/172 O desenvolvimento psicomotor age direta- mente sobre o desenvolvimento biomecâni- co do indivíduo: à medida que novas habili- dades motoras são aprendidas e novas pos- turas são adotadas, o sistema de forças que age sobre o sistema musculoesquelético se modifica. Disso depende o correto alinham- ento das estruturas ósseas: as curvaturas da coluna se desenvolvem, o ângulo de encaixe do fêmur no quadril vai se corrigindo assim como os ângulos de posicionamento de jo- elhos, tíbia e tornozelos, além da definição do arco plantar. O atraso no desenvolvimento psicomotor na infância ou a perda de habilidades mo- toras no adulto/idoso podem ser desde um sinal de falta de estímulo físico até mesmo a presença de alguma doença neurológica. Conhecer como a interação indivíduo-tare- fa-ambiente molda o desenvolvimento psi- comotor, sabendo identificar os aspectos cognitivos, afetivos, físicos e motores espe- rados em cada faixa etária, permite ao edu- cador/cuidador intervir ou buscar por aten- dimento profissional adequado. Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor19/172 Glossário Dicotomia: divisão de um elemento em duas partes; nesse caso, o indivíduo sendo separado em corpo e mente. Maturação: processo de crescimento, de evolução, de amadurecimento. Transdisciplinar: é a interação global de várias ciências, buscado a articulação entre as inúme- ras faces de compreensão do mundo, visando alcançar a unificação do conhecimento. Questão reflexão ? para 20/172 Após essa breve apresentação sobre a psicomotricida- de, reflita se essa possibilidade de intervenção pode tra- zer mais benefícios para a saúde do que os tratamentos já existentes. Com relação aos benefícios na educação, será que tem maior eficácia do que as tradicionais aulas expositivas, com monólogos do professor ou cópias da lousa? 21/172 Considerações Finais • A psicomotricidade leva em consideração o desenvolvimento motor, cogni- tivo, social e afetivo. • Essa ciência de origem francesa, do final do século XIX, chegou ao Brasil na década de 70 e ainda não apresenta a profissão de psicomotricista (que atua principalmente na Educação e na Saúde). • Existem diversos estudiosos nesse assunto das mais variadas áreas do co- nhecimento, com destaque para Ernest Dupré, Henry Wallon, Julian de Aju- riaguerra e Jean Le Bouch. • O desenvolvimento motor apresenta uma maturação biológica entrelaçada com a evolução motriz, cognitiva e social. Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor22/172 Referências AJURIAGUERRA, Julian. Manual de psiquiatria da criança. Paris: Masson, 1970. ASSOCIAÇÃO Brasileira de Psicomotricidade. Disponível em: <http://psicomotricidade.com.br/>. Acesso em: 15 abr. 2017. BARRETO, Sidirley de Jesus. Psicomotricidade, educação e reeducação. Blumenau: Acadêmica, 2000. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde da criança: acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil. Brasília: Minis- tério da Saúde, 2002. (Cadernos de Atenção Básica. nº 11). Disponível em: <http://bvsms.saude. gov.br/bvs/publicacoes/crescimento_desenvolvimento.pdf>. Acesso em: 18 abr. 2017. LE BOULCH, Jean. O desenvolvimento psicomotor: do nascimento até 6 anos: a psicocinética na idade pré-escolar. Porto Alegre: Artmed, 1992. MORAES, Sonia; MALUF, Maria Fernanda de Matos. Psicomotricidade no contexto da neu- roaprendizagem: contribuições à ação psicopedagógica. Psicopedagogia, v. 32, nº 97, São Paulo, 2015. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S0103-84862015000100009>. Acesso em: 18 abr. 2017 WALLON, Henri. Psicologia e educação da infância. Lisboa: Estampa, 1981. http://psicomotricidade.com.br/ http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/crescimento_desenvolvimento.pdf http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/crescimento_desenvolvimento.pdf http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862015000100009 http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862015000100009 Unidade 1 • Epistemologia da Psicomotricidade e Desenvolvimento Psicomotor23/172 SHUMWAY-COOK, Anne; WOOLLACOTT, Marjorie. Controle Motor: Teoria e Aplicações Clínicas. Barueri: Manole, 2010. 24/172 1. Assinale a alternativa correta. O termo psicomotricidade refere-se ao: a) Movimento corporal independente da atividade mental. b) Corpo em movimento dissociado do cognitivo. c) Movimento corporal com intencionalidade. d) Corpo em movimento guiando o espírito. e) Corpo em repouso com atividade mental. Questão 1 25/172 2. Assinale a alternativa que indica a ordem correta dos fatos seguindo o histórico da Psicomotricidade. a) Criação da ABP – primeiros cursos na França – termo usado na neurologia. b) Termo usado na neurologia – primeiros cursos no Brasil – criação da SBTP. c) Primeiros cursos na Europa – criação da ABP – termo usado na neurologia. d) Criação da SBTP – primeiros cursos no Brasil – termo usado na nefrologia. e) Termo usado na neurologia – criação da SBTP – primeiros cursos no Brasil. Questão 2 26/172 3. Assinale a alternativa que apresenta as principais áreas de atuação da Psicomotricidade. a) Escolas, creches e igrejas. b) Hospitais, farmácias e escolas. c) Clínicas de reabilitação, SUS e creches. d) Escolas especiais, clínicas e creches. e) Praças esportivas, empresas e atendimentos domiciliares. Questão 3 27/172 4. Assinale a alternativa correta. O desenvolvimento psicomotor leva em con- sideração os aspectos: a) Motores, afetivos, cognitivos e sociais. b) Sociais, motores, urbanos e afetivos. c) Cognitivos, psicológicos, mentais e motrizes. d) Afetivos, espirituais, afetivose cognitivos. e) Psicológicos, motores, sociais e econômicos. Questão 4 28/172 5. Assinale a alternativa que relaciona corretamente os estágios psicomo- tores de Wallon com suas principais características. a) Sensório-motor e reflexos, adolescência e reflexão, projetivo e postura. b) Sensório-motor e posturas, projetivo e eu corporal, adolescência e praxias. c) Personalismo e símbolos, tônico-emocional e emoção, impulsivo e gestual. d) Categorial e praxias, adolescência e reflexos, infantil e postura. e) Impulsivo e rReflexos, sensório-motor e postura, personalismo e símbolos. Questão 5 29/172 Gabarito 1. Resposta: C. A resposta que se refere ao termo psicomo- tricidade trata do movimento do corpo com intenção. Excluindo-se, portanto, as res- postas que apresentam o corpo sem movi- mento ou relacionando-o com o espírito, ou ainda, não relacionado com a mente (cog- nitivo). 2. Resposta: B. A ordem cronológica correta apresenta a seguinte sequência: (Final do século XIX) termo utilizado pela primeira vez na neu- rologia, (1968) primeiros cursos no Brasil e (1980) Criação da SBTP. As demais estão em ordem errada. 3. Resposta: D. A única resposta possível abrange as áreas de atuação das escolas especiais, das clí- nicas e das creches. As outras alternativas apresentam locais que não têm atuação do psicomotricista ou não tem muita represen- tatividade, como igrejas, farmácias, no SUS e em praças esportivas. 4. Resposta: A. A alternativa correta relaciona os aspectos motores, afetivos, cognitivos e sociais do ser humano. Nas outras alternativas, pelo menos um item não diz respeito ao desen- volvimento psicomotor. 30/172 Gabarito 5. Resposta: E. A resposta correta é a que relaciona o es- tágio impulsivo com reflexos, o estágio sen- sório-motor com a postura e o estágio de personalismo associado aos símbolos. Nas demais respostas, ou a associação está ina- dequada ou o estágio não existe. 31/172 Unidade 2 Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo Objetivos 1. Apresentar a importância das experi- ências motoras. 2. Conhecer o processo do desenvolvi- mento cognitivo. 3. Exibir os conceitos básicos da fisiolo- gia do movimento. Unidade 2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo32/172 1. Introdução Todas as experiências pelas quais as pesso- as passam na vida interferem direta e indi- retamente em todo o seu desenvolvimento, incluindo na esfera cognitiva. Para acompa- nhar esse desenvolvimento, pesquisadores apresentaram algumas etapas caracterís- ticas. Dentre esses pensadores, destaca-se Jean Piaget, que dividiu o desenvolvimento cognitivo em quatro estágios. As experiências motoras oportunizam vi- vências que trazem informações não só do próprio corpo, mas também do ambiente em que ele está inserido e das pessoas e objetos com que ele se relaciona. Posterior- mente esse conhecimento é organizado no intelecto e imbuído de significados. Convido você agora a entender a importân- cia das experiências motoras, como se dá o processo fisiológico desses movimentos e relacioná-los com o processo de desenvol- vimento cognitivo. 1.1.Experiências Motoras As experiências vividas por cada indivíduo têm papel importante no seu desenvolvi- mento de maneira geral. As experiências motoras trazem percepções corporais e sensoriais que permitem ao homem um co- nhecimento melhor de si e da forma como se relaciona com o mundo ao seu redor, conforme explana o filósofo francês MER- LEAU-PONTY (1999, p.195) ao afirmar que “[...] a experiência motora do nosso corpo não é um caso particular de conhecimento; ela nos fornece uma maneira de ter acesso ao mundo e ao objeto...”. Unidade 2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo33/172 Para esse filósofo, o processo cognitivo só ocorre por meio da corporeidade, demonstrando assim a importância das experiências motoras, quer seja pelos movimentos corporais ou pela utiliza- ção dos órgãos sensoriais. Portanto, quanto maiores forem a diversificação e a qualidade dessas vivências, maiores serão as oportunidades de aprendizado e desenvolvimento. Para saber mais Além dos cinco sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato), as vivências sensoriais proprioceptivas e vestibulares são responsáveis pela captação de estímulos do ambiente. As sensações proprioceptivas são aquelas que trazem informações a respeito da tensão muscular (sem o uso da visão, é possível reco- nhecer a configuração espacial do seu corpo e a posição de suas partes em relação às outras); também são conhecidas como sensações cinestésicas. Já as sensações vestibulares referem-se às informações sobre equilíbrio (informações sobre o posicionamento do corpo), o qual é formado por um conjunto de órgãos no ouvido interno. Conforme os anos passam, as pessoas vivenciam diversas mudanças e transformações em si mesmas. Além desse crescimento, numa perspectiva morfofisiológica, há também um aprimo- ramento motor, cognitivo, emocional e social, permitindo seu desenvolvimento e seguindo numa Unidade 2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo34/172 linha que parte do simples para o complexo. Durante esse processo, essas modificações definem a maturidade biológica do indiví- duo. O processo de maturação biológica se dá de forma distinta entre as pessoas. Ainda que se observe um grupo de mesma faixa etá- ria, diferentes estágios dessa evolução se- rão identificados. No decorrer do processo, o indivíduo torna-se apto a aprender coisas novas e executar novas tarefas. A maturação biológica diz respeito aos pro- gressos físico e cognitivo do indivíduo re- lacionando-os com a idade cronológica. Matsudo e Matsudo (1991, p.18) definem a maturidade biológica como um “[...] proces- so que irá levar a um completo estado de de- senvolvimento morfológico, fisiológico e psi- cológico, e que necessariamente, tem controle genético e ambiental”. Existem algumas formas de aferir o nível de maturidade em que a pessoa se encontra, por exemplo, analisando a maturação dos dentes, por meio da maturação somática (como o Pico de Velocidade de Crescimento em estatura – PVC) ou, ainda, pela invasiva avaliação da maturação sexual, quando são observadas as características sexuais se- cundárias do adolescente. A Idade Esquelé- tica também é um parâmetro bem confiá- vel, embora utilize equipamentos caros. 1.2. Desenvolvimento Cognitivo Algumas capacidades mentais são respon- sáveis pela forma como percebemos, com- Unidade 2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo35/172 preendemos e interagimos com o mundo. Esse processo mental que envolve princi- palmente as ações de pensar, compreen- der, raciocinar, imaginar, prestar atenção, memorizar e aprender é chamado de cog- nição. Matlin (2004, p. 2) define que a cog- nição “[...] descreve a aquisição, o armazena- mento, a transformação e a aplicação do co- nhecimento”. Esse conjunto de capacidades cerebrais é importante para a aquisição de conheci- mento durante toda a vida. O desenvolvi- mento dessas competências mentais segue desde a infância até os últimos dias de vida da pessoa. As etapas desse desenvolvimen- to ficam mais perceptíveis durante a infân- cia, pois a jovem mente vazia começa a en- trar em contato com as diversas informa- ções desse “novo mundo”, como se fosse o disco rígido de um computador novo quan- do se inicia a gravação de arquivos nele. Durante o desenvolvimento cognitivo exis- tem dois processos fundamentais para que ocorra a construção do conhecimento, que são a assimilação e a acomodação. Na assi- milação, a pessoa tenta organizar e adaptar as novas informações (motoras, sensoriais e conceituais) de novas experiências por meio da similaridade com as estruturas cogniti- vas já possuídas anteriormente. Ao receber novos estímulos externos, diferenciando as novas informações daquelas já existentes previamente, é necessária a criação de no- vas estruturas cognitivas, surgindo então a acomodação. Unidade2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo36/172 Seguindo essa premissa, o psicólogo suíço Jean Piaget, ao observar o desenvolvimento de algumas crianças, começando por seus próprios filhos, sugere a possibilidade de dividir o desenvolvimento em quatro perío- dos, os quais chamou de estágios: sensório- -motor, pré-operacional, operacional-con- creto e operacional-formal; cada um deles diferenciado por características específicas e associado a determinadas faixas etárias. Essa faixa etária é apenas uma referência e não uma diretriz rija; todas as pessoas pas- sam por essas quatro fases, mas não neces- sariamente na mesma idade cronológica, principalmente pelas diferenças biológicas e pela qualidade dos estímulos recebidos. • Estágio sensório-motor (de 0 a 2 anos) – É a fase da percepção e do mo- vimento, é o período que os recém- -nascidos substituem seus reflexos inatos (como o de sucção, por exem- plo) pelos movimentos coordenados rudimentares; nesse período a criança centraliza-se no próprio corpo, não é capaz de realizar imagens mentais e sua inteligência prática (por meio de seus atos) permitirá o surgimento do pensamento. • Estágio pré-operacional (de 2 a 7 anos) – Nessa fase há predominância do pensamento egocêntrico (só con- seguem ver as coisas pelo seu próprio ponto de vista), do raciocínio trans- dutivo (quando usam a mesma ex- plicação em situações semelhantes), da irreversibilidade (não entendem o Unidade 2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo37/172 processo inverso do que veem) e do animismo (dá vida a seres inanima- dos); ainda nesse período acontece o desenvolvimento da linguagem, além da utilização de imagens mentais e dos jogos simbólicos. • Estágio operacional-concreto (de 7 a 11 anos) – Nesse terceiro momento a criança é capaz de entender o pro- cesso inverso do que vê (reversibilida- de), de fazer análises lógicas, de reali- zar classificações e seriações simples e de concentrar-se mais. Momento também em que há a diminuição do egocentrismo, levando a uma maior colaboração, empatia e mais respeito com os outros, além da participação em grupos. • Estágio operacional-formal (a partir de 11 anos) – O jovem que se encon- tra nesse período está apto a realizar as operações lógico-matemáticas, sem utilização de artigos concretos e criando conceitos e ideias. Apresenta, portanto, o pensamento formal abs- trato, que lhe permite realizar todos os processos de aporte mental. Para saber mais Jean William Fritz Piaget era psicólogo e biólogo. É considerado um dos maiores pensadores do sécu- lo XX, sendo responsável por importantes estudos nas áreas de Educação, Psicologia, Biologia, Ciên- cia da Computação, Epistemologia, Filosofia e So- ciologia, além de também ter escrito um romance. Unidade 2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo38/172 2. Fisiologia do Movimento O movimento pode ser dividido em três tipos diferentes de acordo com o nível de controle motor: movimento automático, movimento involuntário e movimento voluntário. O movimento voluntário é aquele cons- ciente e planejado, realizado com intenção e de forma controlada. Esse movimento se inicia na fase de planejamento (mental), passando pela fase tática até chegar à fase de execução (movimento propriamente dito). Do cérebro (especificamente na região de- nominada córtex motor), parte o comando em forma de impulso nervoso, que passa pela medula espinhal até chegar ao múscu- lo. Esse sinal, na configuração de um estí- mulo elétrico, é transmitido, através de um motoneurônio, às fibras musculares, reali- zando então a contração muscular. Importante lembrar que essa via córtex-es- pinhal é um caminho de mão dupla, pois ao mesmo tempo que a informação envia- da para a efetivação da contração vai até o músculo, o músculo também “devolve” ou- tro tipo de informação referente à realiza- ção do movimento. Essa informação vinda do músculo juntamente com outras infor- mações de propriocepção, informações ves- tibulares e estímulos ambientais baseiam o controle desse movimento, refinando-o. Por meio dessa comparação do movimen- to idealizado com o movimento realizado, é possível fazer os alinhamentos e ajustes ne- cessários com o objetivo de tornar o gesto mais preciso. Unidade 2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo39/172 Após diversas execuções realizadas, alguns movimentos não utilizam mais a fase de planejamento na área pré-motora, são os movimentos automáticos. Tornando-se automatizado, o movimento automático forma um programa motor, que nada mais é que uma via neuromuscular que se repete quase automaticamente quando recebe o mesmo estímulo. Ao estabelecer esse pro- grama motor, o tempo entre a idealização e a realização do movimento torna-se mais curto e essa comunicação torna-se mais intensa. Já o movimento involuntário ocorre no nível medular, sem contato com o córtex. São os movimentos reflexos, que através de órgãos sensoriais intramusculares ou subcutâneos, “geram” informações que vão para a medu- la e voltam desta diretamente para o mús- culo, como nos casos de controle postural e retirada rápida de segmentos agredidos. Para saber mais Reflexo versus Tempo de Reação. Frequentemente escuta-se nas mídias esportivas dizerem que o go- leiro teve reflexo ao defender uma bola. Na verdade, há um grande equívoco nisso, pois o que o goleiro usou foi o tempo de reação. O reflexo é uma rea- ção involuntária, não pode ser treinado, pois não é processado pelo cérebro, é um movimento em nível medular e apresenta sempre a mesma resposta, di- ferente de tempo de reação, que é o tempo entre o estímulo e a resposta motora, que pode ser treina- do. Os goleiros treinam para diminuir esse tempo de resposta. Se fosse reflexo, o goleiro saltaria sempre do mesmo jeito e para o mesmo lado. Unidade 2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo40/172 O movimento pretendido é, portanto, plane- jado e coordenado no nível cortical, depois é transmitido via medula espinhal e na se- quência é executado nos músculos dese- jados. O sistema neuromotor transforma sinais elétricos em físicos e químicos para gerar o movimento, enquanto o sistema nervoso sensorial capta as informações ex- ternas e as utiliza para regular o movimento. Unidade 2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo41/172 Glossário Corporeidade: modo como o cérebro utiliza o corpo para relacionar-se com o mundo. Egocentrismo: comportamento centrado em si mesmo ou para as coisas que lhe diz respeito; indiferença ao outro. Morfofisiológica: funcionamento macro e micro do nosso corpo; aproximação da anatomia e da fisiologia. Motoneurônio: é um neurônio motor; neurônio ligado ao músculo capaz de passar estímulos elétricos às fibras musculares para contraí-las. Questão reflexão ? para 42/172 Conhecendo um pouco mais sobre os quatro estágios do desenvolvimento cognitivo na visão de Piaget, ava- lie a utilização desse conhecimento balizador nas inter- venções educacionais ou na área da saúde questionan- do: é importante na área pedagógica? Em um acompa- nhamento psicológico, pode fazer a diferença em algum momento? É relevante em atendimentos preventivos relacionados a doenças? 43/172 Considerações Finais • As experiências motoras são essenciais no desenvolvimento do indi- víduo, conectando-o com o ambiente, os objetos e outras pessoas. • O desenvolvimento cognitivo refere-se ao processo de evolução das atividades cerebrais que permitem raciocinar e compreender. • Jean Piaget segmenta o desenvolvimento cognitivo em quatro eta- pas, marcando as fases nesse processo. • Existem movimentos que se iniciam a partir de um estímulo cerebral conscientemente (como os voluntários e os automáticos) e movi- mentos involuntários que são acionados em nível medular de forma inconsciente. Unidade 2 • Experiências Motoras e Desenvolvimento Cognitivo44/172 Referências BAUM, Carlos; MARASCHIN, Cleci.Level Up! Desenvolvimento cognitivo, aprendizagem enati- va e videogames. Psicologia e Sociedade, 29: el32334, Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2017. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/psoc/v29/1807-0310-psoc- -29-e132334.pdf>. Acesso em: 2 maio 2017. FEDERAÇÃO Brasileira de Terapias Cognitivas. Disponível em: <http://www.fbtc.org.br>. Acesso em: 2 maio 2017. LE BOULCH, Jean. O desenvolvimento psicomotor: do nascimento até 6 anos: a psicocinética na idade pré-escolar. Porto Alegre: Artmed, 1992. MATLIN, Margaret W. Psicologia cognitiva. São Paulo: LTC, 2004. MATSUDO, S. M. M.; MATSUDO, V. K. R. Validade da auto-avaliação na determinação da matura- ção sexual. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, 5: 18-35, 1991. PONTY, Maurice Merleau. Fenomenologia da percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999. http://www.scielo.br/pdf/psoc/v29/1807-0310-psoc-29-e132334.pdf http://www.scielo.br/pdf/psoc/v29/1807-0310-psoc-29-e132334.pdf http://www.fbtc.org.br 45/172 1. Assinale a alternativa correta. As experiências motoras referem-se às: a) Participações em atividades sociais. b) Experimentações de atividades esportivas com automotivos. c) Vivências corporais e sensoriais. d) Conexões entre os saberes afetivos e práticos. e) Abordagens que diferem o movimento das habilidades sensoriais. Questão 1 46/172 2. Assinale a alternativa correta. É possível aferir a maturação biológica por meio de: Questão 2 a) Maturação somática, maturação sexual, maturação corporal e idade cutânea. b) Maturação somática, maturação sexual, idade esquelética e maturação dentária. c) Maturação sexual, idade esquelética, maturação articular e maturação esportiva. d) Idade esquelética, maturação renal, maturação genital e maturação dentária. e) Maturação somática, maturação dentária, idade fisiológica e maturação medular. 47/172 3. Assinale a alternativa que indica em qual período acontece todo o desen- volvimento cognitivo. Questão 3 a) Da fase intrauterina até os primeiros anos de vida. b) Apenas durante toda a fase escolar. c) A partir da terceira idade. d) Durante a vida toda. e) A partir da fase da adolescência até a vida adulta. 48/172 Questão 4 5. Assinale a alternativa correta. Os estágios do desenvolvimento cognitivo, se- gundo Piaget, são organizados em ordem de aparecimento da seguinte forma: a) Sensório-motor, pré-operacional, operacional-concreto e operacional-formal. b) Pré-operacional, operacional-concreto, operacional-formal e sensório-motor. c) Sensório-motor, pré-operacional, operacional-formal e operacional-concreto. d) Operacional-concreto, operacional-formal, sensório-motor e pré-operacional. e) Pré-operacional, operacional-formal, sensório-motor e operacional-concreto. 49/172 5. De acordo com o nível de controle motor, existem três tipos de movimento. Assinale a alternativa que os identifica. Questão 5 a) Aberto, fechado e autônomo. b) Automatizado, global e preciso. c) Involuntário, reflexo e inconsciente. d) Embasado, voluntário e autônomo. e) Voluntário, involuntário e automático. 50/172 Gabarito 1. Resposta: C. As vivências corporais e as sensoriais dizem respeito às experiências motoras pelas quais passam as pessoas. As demais alternativas não caracterizam, totalmente ou em partes, as experiências motoras. 2. Resposta: B. A resposta refere-se às maturações somáti- ca, sexual e dentária, além da idade esque- lética. As demais apresentam pelo menos uma informação incoerente. 3. Resposta: D. A única resposta possível é durante toda a vida. As outras apresentam curtos períodos que não se referem a toda a fase do desen- volvimento cognitivo. 4. Resposta: A. A ordem correta é: sensório-motor (0 a 2 anos), pré-operacional (2 a 7 anos), opera- cional-concreto (7 a 11 anos) e operacio- nal-formal (a partir de 11 anos). Todas as outras alternativas estão em ordem errada. 5. Resposta: E. Os movimentos, segundo o nível de contro- le motor, podem ser voluntário, involuntário e automático, tornando falsas todas as ou- tras alternativas. 51/172 Unidade 3 Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras Objetivos 1. Identificar as principais habilidades psicomotoras. 2. Apresentar as diferenças entre esque- ma corporal e imagem corporal; 3. Caracterizar as funções de cada habi- lidade psicomotora. Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras52/172 1. Introdução Ao atuar em qualquer área que envolve o desenvolvimento da pessoa, quer seja na educação, na saúde ou até mesmo no cam- po empresarial, é de extrema importância o conhecimento “do que” está sendo avaliado e posteriormente trabalhado. Nesse caso, os parâmetros são norteados pelas capaci- dades e pelas habilidades. No escopo da psicomotricidade, ao enten- dermo-la como uma área multidisciplinar (principalmente motora, cognitiva e afeti- va), percebemos que as habilidades psico- motoras relacionam-se com habilidades e capacidades de outras áreas, portanto, podendo influenciar e ser influenciada por elas. Nesse momento, proponho a você que acompanhe a leitura e reflita sobre como essas habilidades psicomotoras podem in- terferir na vida de uma pessoa. 2. Habilidades Psicomotoras As habilidades psicomotoras são aquelas que envolvem funções cognitivas e o corpo humano em movimento; são aquelas capaz- es de abordar não somente o “que fazer”, mas também o “como fazer”. As principais habilidades utilizadas para o desenvolvi- mento psicomotor são: tonicidade, laterali- dade, equilíbrio, coordenação motora glob- al, coordenação motora fina e orientação espaço-temporal. Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras53/172 2.1. Tonicidade O tônus muscular é a tensão natural de um músculo em repouso. A tonicidade, ou grau de tensão muscular, é a resistência que o músculo oferece ao ser movimenta- do de forma passiva. Essa tensão natural do músculo em repouso é oferecida pelas Link Ilusão de ótica – A bailarina que gira para os dois lados. Observe o vídeo da bailarina, ela roda para um dos lados. Fixando os olhos para a som- bra da imagem ou ao lado dela, você percebe que ela gira para o outro lado. Disponível em: <ht- tps://www.youtube.com/watch?v=wOclJx- GkPh4>. Acesso em: 20 maio 2017. propriedades visco-elásticas intrínsecas do músculo. Para que ocorra a contração (encurtamento) ou o alongamento (relaxa- mento) muscular, é necessário que ocorra a adaptação visco-elástica ao movimento que está sendo realizado. Na presença de doença neurológica, o tô- nus muscular poderá estar alterado e, ao realizarmos um movimento passivo, pode- remos observar que a resistência oferecida pelo músculo à movimentação está muito abaixo do normal nos casos de hipotonia ou muito acima para os casos de hiperto- nia. O tônus muscular é diferente para cada gru- po muscular e suas especificidades: múscu- los de controle postural devem ser capazes de manter o tônus ativo por longos períodos https://www.youtube.com/watch?v=wOclJxGkPh4 https://www.youtube.com/watch?v=wOclJxGkPh4 https://www.youtube.com/watch?v=wOclJxGkPh4 Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras54/172 (manutenção da postura nas posições sen- tada, em pé, durante o andar), enquanto os demais grupos musculares alternam entre contração e alongamento de acordo com a tarefa que está sendo executada (diferentes atividades/movimentos de membros supe- riores e inferiores). Dessa maneira, notamos a importância do papel do tônus muscular normal no desenvolvimento psicomotor de cada pessoa: é ele quem dará o suporte principal para que a atividade motora seja realizada e, assim, as habilidades sejam ad- quiridas. Devemos ainda pontuar o fato de a tonici- dade muscular estar, muitas vezes, associa- da a um comportamento psicológico. Essa correlação é apresentada tanto na forma de expressar os sentimentos como namaneira de senti-los, como nas pesadas expressões, nas fortes batidas ou na imposição firme da voz, usadas para demonstrar braveza ou seriedade, comparando com a voz suave, as leves carícias e os movimentos faciais amenos ao querer demonstrar a sensação de paz, calmaria e tranquilidade. 2.2. Lateralidade O conceito de lateralidade refere-se à es- pecificidade de ações dos hemisférios ce- rebrais; é o “local” onde cada função está armazenada no sistema nervoso. Embora algumas funções estejam localizadas em apenas um dos hemisférios, outras pos- suem representações em ambos. Raramen- te a especialização significa exclusividade de ação. Dessa forma, o envolvimento cog- Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras55/172 nitivo e psicoemocional de um indivíduo no realizar de suas tarefas poderá exigir mais da atuação de um dos hemisférios, porém é a ação conjunta deles que fornecerá a exe- cução perfeita. Por exemplo, a função da fala possui 2 áreas de ação: enquanto a área de Broca controla a função motora, permi- tindo os movimentos e a emissão das pala- vras, a área de Wernicke é responsável pela compreensão do que é dito e pelas emoções associadas à fala (tonalidade séria, bra- va, de alegria ou entusiasmo). Ainda como exemplo, ao observar uma pintura em um quadro, seu hemisfério direito lançará mão de estratégias de percepção global para a interpretação da imagem como um todo, enquanto seu hemisfério esquerdo realiza- rá uma análise mais específica filtrando os detalhes contidos na figura. Em conjunto da especialização dos hemis- férios cerebrais em relação à funcionalida- de, temos características pessoais, como preferência por usar mais um lado do corpo em detrimento do outro nas atividades do dia a dia e sua relação com a tarefa e o am- biente, pontos já abordados anteriormente. Quanto mais estímulos são oferecidos no decorrer do desenvolvimento psicomotor, ou mesmo ao longo da vida adulta por meio de atividades físicas e práticas que promo- vam maior consciência corporal, para um, outro ou ambos os lados do corpo, mais essa lateralidade ou bilateralidade se expressa. Dessa maneira, podemos observar uma pessoa destra ao escrever, porém, canhota ao chutar uma bola, ou ainda, embora mais raro de ser observado, pessoas que conse- Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras56/172 Para saber mais Além dos membros superiores e inferiores, tam- bém possuímos um olho dominante. Para saber qual é o seu, faça o seguinte: estique seus braços à sua frente e encostando a ponta de seus po- legares (um com o outro) e seus indicadores (da mesma forma), formando assim a figura de um triângulo, dentro dessa figura “enquadre” algum ponto distante (pode ser um objeto qualquer, que permita sua visualização completa). Feche um olho de cada vez, aquele olho que melhor “cen- tralizar” essa imagem dentro de seus dedos é o seu olho dominante. guem igual desempenho ao realizar ativi- dades físicas com os dois lados do corpo. 2.3. Equilíbrio A capacidade de manter a sustentação do corpo sobre uma base reduzida por meio da ativação coordenada de músculos postu- rais recebe a denominação de “equilíbrio”. O equilíbrio possui o componente estático, que permite a manutenção da posição pa- rada, e o dinâmico, que permite a execução de movimentos, sendo que ambos utilizam as informações visuais e proprioceptivas para executarem suas ações. A atividade conjunta do equilíbrio e da co- ordenação motora permite a aquisição da posição bípede e a execução de atividades nessa postura e a locomoção. A marcha acontece como consequência de equilíbrios e desequilíbrios coordenados. O corpo está Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras57/172 em equilíbrio quando é capaz de controlar as forças externas e internas, buscando a manutenção de posturas e posições. Essa busca pelo equilíbrio motor também rep- resenta a mesma busca pelo equilíbrio do pensamento. Essa habilidade é utilizada juntamente com a tonicidade e a lateralidade no equilíbrio estático e mais a coordenação motora e a orientação espaço-temporal no equilíbrio dinâmico. O corpo também recebe infor- mações vestibulares importantes recebidas pelo labirinto, no ouvido interno, sobre o posicionamento do corpo. A contribuição do equilíbrio no desenvolvi- mento cognitivo e no desenvolvimento das outras habilidades psicomotoras é funda- mental, sobretudo por alterar a perspecti- va quando a criança senta, depois ao ficar de pé e principalmente ao andar. O desen- volvimento da afetividade também se es- Para saber mais O que causa mal-estar e enjoo em viagens de na- vios é a confusão mental gerada por diferentes informações. De um lado, os olhos e as informa- ções proprioceptivas dizendo que tudo está para- do; do outro lado, o labirinto — que é muito mais sensível — sentindo as ondulações do mar. Esse conflito das informações é que gera incômodo para alguns navegantes. Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras58/172 cora nessa fase com a conquista da inde- pendência. 2.4. Coordenação Motora (Glo- bal e Fina) Essa habilidade corresponde à coordenação dos movimentos corporais. Pode ser divi- dida em global (grossa) e fina. Na coorde- nação motora global, são utilizados grandes músculos para fazer grandes movimentos e, apesar de ser importante a harmonia no movimento, não é necessária muita pre- cisão nos movimentos; como exemplo po- demos citar o andar ou o pular. Diferente- mente da coordenação motora fina, que utiliza pequenos músculos para a realização de atividades específicas, usando a precisão para a realização do movimento de forma eficiente. Alguns exemplos de coordenação motora fina: desenhar e pintar. Fonseca (2008, p. 457) caracteriza a coor- denação motora como uma “[...] organização preparatória da periferia motora, de modo a garantir a otimização da sua condutibilidade seletiva”, e diz, ainda, sobre esse processo de coordenação, que ele “[...] opera antes da própria resposta motora, organizando as vias de condução que ligam o centro à periferia, a intenção à ação propriamente dita”. Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras59/172 2.5. Orientação Espaço-tempo- ral Como é possível perceber pelo nome, a ori- entação espaço-temporal é a habilidade que permite à pessoa se orientar adequa- damente em relação ao espaço e ao tempo. À orientação espacial é atribuída a noção Para saber mais Desafio de coordenação motora: sentado, fique fazendo círculos com a perna direita na mesma direção do relógio; sem parar, tente desenhar o número 6 (seis) no ar com a mão direita. Dificul- dades? Não conseguiu? Isso acontece porque é a mesma região do cérebro que manda informação para a realização de ambos os movimentos. de direita/esquerda, frente/atrás, acima/ abaixo e todas as informações que orien- tam a pessoa em relação ao ambiente em que ela se encontra; também refere-se à condição de um objeto em relação a outro em um local. Já a orientação temporal tem como base o entendimento do antes/agora/depois, manhã/tarde/noite, além de intervalos de tempo, como segundos/minutos/horas/ dias/semanas. Pode-se dizer que a pessoa que tem essa habilidade aprimorada con- segue perceber seu corpo em relação ao es- paço e ao tempo. A orientação espaço-temporal é também a habilidade responsável pelo ritmo, que se caracteriza por mudanças de contração e relaxamento, relacionando-se com o tem- Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras60/172 po. Encontra-se dentro dessa habilidade, principalmente, pela noção de duração e sucessão. 3. Esquema Corporal A habilidade psicomotora chamada de es- quema corporal compreende o conheci- mento do corpo (em partes e inteiro) e suas possibilidades de movimento e as suas funções, além de conhecer os gestos mo- tores daspartes do seu corpo e suas diver- sas combinações; também abrange a finali- dade de seus movimentos. Um dos pesquisadores que estudaram e se posicionaram com relação a essa habili- dade foi Jean Piaget, que destaca que a con- strução desse esquema corporal passa por três fases distintas: • Corpo vivido (até 3 anos): período em que a criança começa a se conhecer e a conhecer o mundo (mesmo porque a criança ainda se percebe como parte do meio, como uma coisa só) por meio da sua interação, de suas vivências e das atividades instintivas. • Corpo percebido (3 a 7 anos): a cri- ança nessa faixa etária começa a per- ceber o seu corpo e diferenciá-lo do ambiente. Seu corpo começa a ser um ponto de referência para que ela se organize no espaço e no tempo. • Corpo representado (7 a 12 anos): o jovem já é capaz de projetar seu ponto Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras61/172 de referência fora do seu corpo, no ambiente. Mantém um domínio corporal mais apurado. A imagem corporal passa a ter movimento (próximo aos 10 anos) e a ser antecipatória. 4. Imagem Corporal Cada pessoa tem um corpo. Podemos nunca ter dado importância a essa relação simples, mas é assim que é: uma pessoa, um corpo; uma mente, um corpo — esse é o princípio básico.” (DAMÁSIO, 1999) Entende-se por imagem corporal o conceito que cada pessoa tem do seu corpo, mas represen- tado em formato de imagem, uma imagem mental. Essa imagem é criada mentalmente pela pessoa, mas sofre interferência das informações externas, vindas de toda a sociedade em que se está inserido e da maneira como a pessoa se vê, vê o mundo ao se redor e, principalmente, de como a pessoa se vê nesse mundo ao seu redor. A figura 4.1, a seguir, representa as estruturas interagentes na construção da imagem corporal. Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras62/172 Figura 4.1. Agentes influenciadores do processo de construção da imagem corporal Fonte: elaborada pelo autor. O componente social advém dos intercâmbios pessoais e dos valores culturais e sociais agrega- dos. Aqui pode ser notada a importância que um determinado grupo de pessoas dá às funções que ocupam, às vestimentas, à forma de comunicação utilizada, aos gestos e aos olhares típicos. Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras63/172 A manutenção das funções vitais do orga- nismo é assegurada pelo seu componente fisiológico, que recebe influência de carac- terísticas genéticas. O componente libidinal representa a ener- gia despendida com um órgão ou função; é composto pelo conjunto de emoções vivi- das ao longo da vida e está ligado ao quanto cada um está satisfeito em relação a si pró- prio. Quando a pessoa tem uma visão irreal de como é seu próprio corpo, acaba criando uma distorção da sua imagem corporal, o que pode levar a quadros de distúrbios al- imentares (como a bulimia e a anorexia) e distúrbios comportamentais (como baixa autoestima e depressão). Esse ponto de referência criado permite que a pessoa “analise” movimentos antes de serem realizados e viabiliza o pensamento e a projeção em sua mente da execução do movimento. Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras64/172 Glossário Labirinto: é uma região do ouvido interno responsável pela audição, noção de equilíbrio e per- cepção de posição do corpo. Posição bípede: é a posição que permite andar sobre os dois pés, de forma ereta, característica dos seres humanos. Propriocepção: é a capacidade que, sem o uso da visão, permite saber onde seu corpo está e onde estão as partes dele em relação às outras, além da sua posição e da tonicidade do seu corpo. Questão reflexão ? para 65/172 Conhecendo as principais habilidades psicomotoras e suas principais características, você é capaz de associar algum problema que acontece consigo ou com algu- ma pessoa próxima a você que possa estar diretamen- te ligado a alguma habilidade psicomotora? Consegue imaginar se aconteceu alguma falha durante o desen- volvimento? Será que existe algum modo de resolver essa defasagem? 66/172 Considerações Finais • As habilidades psicomotoras possuem grande relevância para o desenvolvi- mento humano (motor, cognitivo, afetivo e social). • Essas habilidades relacionam-se entre si. • A principal referência em esquema corporal é o suíço Jean Piaget. • A imagem corporal é influenciada também por agentes externos, podendo levar a diversos problemas, por exemplo, comportamentais. Unidade 3 • Esquema e Imagem Corporal e outras Habilidades Psicomotoras67/172 Referências FONSECA, Vitor da. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008. LENT, Roberto. Cem Bilhões de Neurônios: Conceitos Fundamentais de Neurociência. São Paulo: Atheneu, 2010. LUNDY-EKMAN, Laurie. Neurociência: fundamentos para a reabilitação. Rio de Janeiro: Guana- bara Koogan, 2000. MUNARI, Alberto. Jean Piaget. Tradução e organização de Daniele Saheb. Recife: Fundação Jo- aquim Nabuco: Massangana, 2010. (Educadores). Disponível em: <http://www.dominiopublico. gov.br/download/texto/me4676.pdf>. Acesso em: 20 maio 2017. PETROSKI, Edio Luiz; PELEGRINI, Andreia; GLANER, Maria Fátima. Motivos e prevalência de in- satisfação com a imagem corporal em adolescentes. Ciência e Saúde Coletiva, 17 (4), p. 1071- 1077, 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n4/v17n4a28.pdf>. Acesso em: 20 maio 2017. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me4676.pdf http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me4676.pdf http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n4/v17n4a28.pdf 68/172 1. Assinale a alternativa que apresenta habilidades psicomotoras. a) Tonicidade, lateralidade, equilíbrio e coordenação motora. b) Equilíbrio, orientação espaço-temporal, velocidade e agilidade. c) Coordenação motora, resistência, tonicidade e orientação espacial. d) Equilíbrio, lateralidade, direcionamento e força. e) Orientação temporal, equilíbrio, flexibilidade e noção de direita e esquerda. Questão 1 69/172 2. Com relação à tonicidade, podemos afirmar que: a) Apresenta hipotonia quando tem tensão maior do que o normal. b) Auxilia na manutenção do equilíbrio e da postura. c) Controla a função de encurtamento do músculo, relaxando-o. d) Não influencia na coordenação motora. e) Controla a função de alongamento do músculo, contraindo-o. Questão 2 70/172 3. Com relação à coordenação motora, é correto afirmar que: a) A coordenação motora é dividida em três: grossa, fina e global. b) A coordenação motora fina refere-se aos músculos involuntários. c) Coordena os movimentos com intenção. d) Passar uma linha na agulha pode ser considerada uma habilidade da coordenação motora global. e) É uma habilidade cognitiva muito importante. Questão 3 71/172 4. Assinale a alternativa correta. Piaget apresentou os estágios do esquema corporal na seguinte ordem: a) Corpo percebido, corpo vivido e corpo representado. b) Corpo representado, corpo percebido e corpo vivido. c) Corpo vivido, corpo representado e corpo percebido. d) Corpo vivido, corpo percebido e corpo representado. e) Corpo percebido, corpo representado e corpo vivido. Questão 4 72/172 5. Assinale a alternativa que apresenta o que influencia na construção da imagem corporal. a) Somente informações internas. b) Somente informações externas. c) Nem informação interna e nem externa. d) Informações internas e externas sem relação entre elas. e) Informações internas relacionadas com as informações externas. Questão 5 73/172 Gabarito 1. Resposta: A. A resposta que apresenta todos os itens sendo habilidades psicomotoras é a primei- ra alternativa, com tonicidade, lateralidade, equilíbrio e coordenação motora. As outras, apesar de apresentarem algumas das ha- bilidades corretas, apresentam no mínimo uma que não se refere à psicomotricidade, como velocidade, agilidade, resistência, di- recionamento, força, flexibilidade enoção de direita e esquerda. 2. Resposta: B. A tonicidade auxilia na manutenção do equilíbrio e da postura. Já as outras estão erradas, pois quando há hipotonia a tensão é MENOR do que o normal; quando há en- curtamento, acontece a contração do mús- culo e no alongamento o músculo relaxa; além disso, a tonicidade influencia, sim, di- retamente a coordenação motora. 3. Resposta: C. A única resposta possível é a “C”, que fala sobre a intencionalidade do movimento, ex- cluindo já os músculos involuntários; a co- ordenação motora global e a grossa falam sobre a mesma coisa; passar uma linha na agulha é uma habilidade fina e a coorde- nação é uma habilidade psicomotora, não cognitiva. 74/172 Gabarito 4. Resposta: D. A ordem correta é corpo vivido (até 3 anos), corpo percebido (de 3 a 7 anos) e corpo re- presentado (de 7 a 12 anos). 5. Resposta: E. A resposta correta apresenta as informa- ções internas relacionando-as com as ex- ternas. Todas as outras alternativas afir- mam o oposto, tornando-as falsas. 75/172 Unidade 4 Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento Objetivos 1. Caracterizar a aprendizagem. 2. Identificar as concepções referentes à aprendizagem; 3. Entender a relação entre aprendiza- gem e desenvolvimento. Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento76/172 1. Introdução O conhecimento passa por diversas modi- ficações, com momentos em que existem algumas associações e, após outras infor- mações, ocorrem as acomodações. O pro- cesso de aquisição ou transformação desse conhecimento é a aprendizagem. É importante para as pessoas que querem aprender e, principalmente, vão mediar esse aprendizado, conhecer as principais características da aprendizagem, pois exis- tem diversos fatores que podem auxiliar ou atrapalhar todo esse processo. Existem diversas abordagens para a realiza- ção da aprendizagem, como as tradicionais behavorista, cognitivista e humanista. Além destas, muitas outras perspectivas já foram estudadas e aplicadas e, cada vez mais, no- vos olhares vão surgindo e assim enfoques são apresentados. A aprendizagem está relacionada direta- mente com o desenvolvimento e, por serem processos complexos, diversas influências externas interferem neles; dentre as princi- pais, têm-se as influências culturais e sociais. Para saber mais GIUSTA, Agnela da Silva. Concepções de aprendi- zagem e práticas pedagógicas. Educação em Re- vista, [s.l.], v. 29, n. 1, p.20-36, mar. 2013. FapUNI- FESP (SciELO). Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento77/172 2. A Aprendizagem e suas Prin- cipais Características Aprendizagem é uma função mental que ocorre quando há alguma modificação per- manente no conhecimento, nas habilidades e nas competências ou nos valores e nas atitudes, por meio de observações, estudos ou experiências. Para saber mais Diversos especialistas indicam diferentes ações para ajudar na memorização, como por exemplo: realizar coisas diferentes durante o dia, que o fa- çam sair da rotina (como trocar o relógio de braço, inverter o lado do mouse ou mudar o trajeto para casa); realizar associações verbais e agrupamen- tos de itens por categorização (de preferência que sejam absurdos, exagerados); tentar reproduzir através de desenhos imagens ricas em detalhes sem vê-las (ou vendo-as apenas anteriormente); dizer 10 coisas que te venham à cabeça e depois tentar escrevê-las (desafio pode ir aumentando de acordo com o bom desempenho); ou ainda, so- letrar mentalmente algumas palavras de trás pra frente. Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento78/172 Para que aconteça o processo da aprendiza- gem, são necessários cinco importantes fa- tores: a sensação (estruturas sensoriais que conectam o homem ao mundo); a percepção (conscientizar-se da sensação em progres- so e da formação das imagens); a memo- rização (armazenamento de informações posteriormente utilizadas); a atenção (foco no objetivo de aprendizagem, ignorando outros estímulos dispersivos) e a motivação (interesse e diferenciação dos aspectos que estimulam e determinam a busca pela aprendizagem). A aprendizagem pode ser vista sob difer- entes perspectivas, pelas suas principais concepções, como apresentaremos a seguir. Para saber mais Sensação X Percepção. Através da sensação, nós sentimos o mundo (órgãos do sentido) e usamos a percepção para interpretá-lo, percebendo-o de acordo com significados associados que variam de pessoa pra pessoa, sob fortes influências culturais. Para saber mais: Existem algumas anormalidades relacionadas com a atenção, dentre as principais encontram-se a Hipoprosexia (diminuição global da atenção), a Aprosexia (extinção total da aten- ção), a Hiperprosexia (superatividade da atenção), a Distração (desatenção), a Distraibilidade (inca- pacidade para se fixar ou se manter em qualquer coisa que implique esforço produtivo) e a Incapa- cidade de concentração. Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento79/172 O professor busca alterar comportamen- tos por meio de reforços (padrão de conse- quências). Ele atua com metas predetermi- 2.1. Behavorista A concepção Behaviorista, também conhe- cida como comportamentalista, baseia-se nas alterações de comportamento, em que o objetivo são que as respostas aos respec- tivos estímulos tornem-se automáticas. Para saber mais Nessa concepção, o aluno adapta seu comporta- mento de acordo com os estímulos que recebe (as alterações do ambiente e dos objetivos). O aluno apresenta participação passiva nesse contexto de aprendizagem. nadas, baseadas em apenas uma realidade, visando estabelecer, cada vez mais rápido, a sequência: sugestão, comportamento e consequência. A ideia principal é condicionar o comporta- mento do aluno por repetição de estímulos. Nessa abordagem a avaliação deve ser fun- damentada em critérios predeterminados. 2.2. Cognitivista A concepção cognitivista baseia-se no pro- cesso de pensamento, relacionando-o com mudanças no comportamento (nesse caso as alterações comportamentais aparecem apenas como indicador da aprendizagem do aluno). Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento80/172 Os alunos aprendem a fazer alguma coisa, todos do mesmo jeito (podendo não ser o melhor modo de fazê-la), criando assim um comportamento consistente entre si. Eles são passivos com relação à interpretação da realidade, embora tenham participação ativa ao adotar novas formas de comporta- mento. A aprendizagem concentra-se na transmis- são do processo de pensamento do estu- dante e usa simulações para abordar situ- ações da vida real. O professor, nesse caso, apresenta o modelo mental que o aluno deve seguir, o processo de pensamento do aluno e a sucessão de atividades de apren- dizagem visando alcançar as metas almeja- das. 2.3. Humanista Esta abordagem tem o foco em preparar o aluno para a resolução de problemas em si- tuações distintas, partindo do pressuposto de que todas as pessoas usam suas experi- ências para construir a própria perspectiva do mundo. Nessa concepção de aprendizagem, o aluno interpreta a realidade externa usando para isso suas experiências individuais. Para saber mais Na teoria Humanista, o aluno é ativo no processo de aprendizagem, pois controla “o que” aprende e também “da forma como” ele aprende. Ele é pre- parado para lidar com as mais diversas situações da vida real. Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento81/172 O professor leva em consideração a opin- ião e o conhecimento prévio do aluno para oportunizar a ele atividades de aprendiza- gem apropriadas que o ajudarão na con- strução do seu próprio conhecimento. Ele avalia o aluno pelo seu desempenho (po- dendo incluir a autoavaliação). 3. Relação entre Aprendizagem e Desenvolvimento A aprendizagem está diretamente liga- da ao desenvolvimento. Quando acontece a aprendizagem, por intermédio de out- ras pessoasou do meio, há a construção do conhecimento. Ao ser construído esse conhecimento, a pessoa passa dessa etapa para a próxima, gerando, assim, o desen- volvimento. Durante todo o desenvolvimento, existem diversos fatores que influenciam a apren- dizagem. Como já visto no tema anterior, as habilidades psicomotoras recebem influên- cias de outras habilidades, principalmente cognitivas e motoras. Além disso, existem outros fatores que também podem influ- enciar, como as interferências sociais e cul- turais. 3.1. Influências Sociais Baseado no princípio de que o homem é um ser social, pois é frágil demais para sobreviver sozinho (está inserido em di- versos grupos sociais, como família, amigos, comunidades religiosas, colegas de trabalho, vizinhos, dentre outros), per- Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento82/172 cebe-se que recebe várias influências do meio onde está. Diversas dessas influências atuam sobre a aprendizagem e o desenvolvimento, den- tre elas podem ser observadas algumas como a carência afetiva, as condições san- itárias, as privações lúdicas e culturais, os ambientes repressivos, as relações inter- familiares ou os métodos inadequados de ensino-aprendizagem. Na prática, essas influências podem ser percebidas através de interferências em qualquer etapa no processo de aprendiza- gem (sensação, percepção, memorização, atenção e motivação). Para saber mais A falta de condições sanitárias básicas pode in- terferir diretamente na atenção durante o apren- dizado, ou ainda, uma relação familiar não está- vel, pode privar o aluno de motivação durante o processo de ensino aprendizado. Pensando nas influências sociais à que to- dos são submetidos, o educador psicomo- triz precisa atentar-se para, além de evitar ou minimizar as influências que podem at- rapalhar a aprendizagem, aproveitar e uti- lizar as influências positivas para auxiliar e facilitar o aprendizado. Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento83/172 3.2. Influências Culturais Outro fator de influência importante na aprendizagem diz respeito às influências culturais. Toda a cultura existente no grupo em que se está inserido também interfere no desenvolvimento. É possível perceber por meio de exemplos de culturas nas quais as mulheres não têm direito à educação esco- lar, ou em outros países onde leva-se muito a sério os estudos e a dedicação escolar é demonstrada com maior ênfase. Todos os povos possuem uma série de rit- uais para as realizações de suas atividades. Dentre elas podem ser encontrados os rit- uais de estudo, com grupos que têm acom- panhamento de adultos fora da escola, out- ros não; grupos que estudam duas horas por dia, outros que estudam dez; grupos que acompanham ensalamentos de acordo com a faixa etária ou grupos que escolhem qual atividade realizar naquele momento; dentre diversas outras características. Outro ponto relevante para destacar é em relação às tradições, com culturas em que apenas uma estratificação social tem di- reito ao estudo, ou onde o estudo é realiza- do dentro da escola, ou é feito por meio de histórias sob a responsabilidade dos mais velhos. Esses e outros fatores também pre- cisam de um olhar cuidadoso, principal- mente numa época cada vez mais global- izada. Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento84/172 Para saber mais O artigo a seguir, elaborado pela Empresa Brasi- leira de Comunicação, discorre acerca de como a cultura pode influenciar no desenvolvimento e na aprendizagem da criança. É uma interessante leitura, confira: Cultura: Síntese. Em: Tremblay RE, Boivin M, Peters RDeV, eds. Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância[on-line]. Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento85/172 Glossário Globalizada: que abrange todos os países, que atravessa as fronteiras políticas. Rituais: conjunto de práticas baseado em normas, costumes e tradições. São hábitos regulares que se tornam rotina. Tradição: transmissão de costumes, comportamentos, memórias, crenças, lendas e outros ele- mentos que passam a fazer parte da cultura das pessoas de determinada comunidade. Questão reflexão ? para 86/172 Agora que você já conhece algumas concepções de aprendizagem, já pode opinar sobre os pontos positivos e negativos. Durante sua fase escolar, você teve contato com quais concepções? Com qual (ou quais) acredita ter se relacionado melhor? Lembra-se de alguma influência que sua aprendizagem pode ter sofrido da sociedade? Consegue apontar uma boa e uma ruim? 87/172 Considerações Finais • A aprendizagem é uma função mental que marca alguma mudança perma- nente no conhecimento. • Para que ocorra o processo de aprendizagem, são necessários cinco fatores: sensação, percepção, memorização, atenção e motivação. • As principais concepções de aprendizagem são: behavorista, cognitivista e humanista. • A aprendizagem está relacionada diretamente com o desenvolvimento. • A aprendizagem pode sofrer influências sociais e culturais. Unidade 4 • Aprendizagem, suas Concepções e Desenvolvimento88/172 Referências FONSECA, Vitor da. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2009. MOREIRA, Marco Antonio. Teorias de aprendizagem. São Paulo: Editora Pedagógica e Universi- tária, 1999. NETO, Carlos. Desenvolvimento da Motricidade e as ‘culturas de infância’. 2004. SANTOS, A. O.; OLIVEIRA, G. S.; JUNQUEIRA, A. M. R. Relações entre Aprendizagem e Desenvolvi- mento em Piaget e Vygotsky: o construtivismo em questão. Revista Eletrônica Itinerarius Reflec- tionis, 2014. VIGOTSKII, Lev Semenovich et al. Aprendizagem e desenvolvimento intelectual na idade escolar. ______ et al. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone: EDUSP, 1988. 89/172 1. A aprendizagem ocorre quando há modificação permanente em: a) Conhecimentos, habilidades, competências e valores. b) Habilidades, motivações, vontades e conhecimentos. c) Competências, histórias, atitudes e comportamentos. d) Valores, memórias, conhecimentos e atitudes. e) Atitudes, habilidades, relações e histórias. Questão 1 90/172 2. Qual alternativa apresenta 5 importantes fatores no processo de apren- dizagem? a) Percepção, atenção, recepção, acomodação e comunicação. b) Sensação, percepção, memorização, atenção e motivação. c) Emoção, atenção, sensação, tensão e educação. d) Motivação, condição, observação, percepção e emoção. e) Abdicação, percepção, motivação, condição e assimilação. Questão 2 91/172 3. Quais destas são abordagens tradicionais da aprendizagem? a) Humanista, capitalista e mundialista. b) Elitista, behavirista e humanista. c) Cognitivista, humanista e behavorista. d) Cognitivista, afetivista e comunista. e) Behavorista, elitista e dicotomista. Questão 3 92/172 4. Com relação ao desenvolvimento e à aprendizagem, pode-se dizer que: a) Não se relacionam entre si, impossibilitados de existirem ao mesmo tempo. b) Quando existe aprendizagem, não há desenvolvimento. c) São inversamente proporcionais cognitivamente, motoramente e afetivamente. d) Estão diretamente ligados, quando acontece a aprendizagem, ocorre também o desenvolvi- mento. e) Quando existe desenvolvimento, não há aprendizagem. Questão 4 93/172 5. São exemplos de influências sociais: a) Carência afetiva, distúrbios psicológicos e privações lúdicas. b) Transtorno fisiológico, métodos inadequados de comunicação e doenças. c) Condições sanitárias, ambiente repressivo e sentimento de culpa. d) Variações bioquímicas, privações lúdicas e relações matrimoniais. e) Carência afetiva, condições sanitárias e relações interfamiliares. Questão 5 94/172 Gabarito 1. Resposta: A. A aprendizagem se dá na modificação per- manente em: conhecimentos, habilidades, competências, valores e atitudes. As outras palavras deixam as outras alternativas erra- das. 2. Resposta: B. A sensação, a percepção, a memorização, a atenção e a motivaçãosão fatores impor- tantes no processo de aprendizagem. 3. Resposta: C. A alternativa correta é a que apresenta as abordagens tradicionais cognitivista, hu- manista e behavorista. 4. Resposta: D. A aprendizagem e o desenvolvimento estão diretamente ligados, quando acontece a aprendizagem, ocorre também o desenvol- vimento. 5. Resposta: E. Apenas a última alternativa apresenta so- mente influenciadores sociais: carência afetiva, condições sanitárias e relações in- terfamiliares. 95/172 Unidade 5 Córtex Motor e Cerebelo Objetivos 1. Caracterizar o córtex motor e o cere- belo. 2. Apresentar a relação deles com os movimentos da fala, da escrita e da leitura. 3. Compreender o processo que envolve as habilidades dos movimentos. Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo96/172 Introdução Todos os órgãos do sistema nervoso são fundamentais para a nossa sobrevivência, embora, para o entendimento da psicomo- tricidade, devamos ter mais atenção com o encéfalo, mais precisamente numa região do cérebro conhecida como córtex motor, e com o órgão cerebelo. O córtex motor é res- ponsável principalmente pelos movimen- tos voluntários e o cerebelo, por sua vez, responde ao controle e à regulação desses movimentos. Além de movimentos básicos como andar, correr e pular, existem outros movimentos que também são planejados e afinados no encéfalo e que são de extrema importância para a educação e para o desenvolvimento humano, como os movimentos de falar, ler e escrever. 1. Córtex Motor O córtex motor é uma região do cérebro res- ponsável por diversos processos mentais, principalmente pela linguagem e pelo pro- cessamento de informações. Ele pode ser subdividido em três áreas, as quais contri- buem com as funções motoras, são elas: • O córtex motor primário, região res- ponsável pela produção de movimen- tos voluntários de todo o corpo e capaz de enviar um estímulo para contrair um grupo de músculos (para realiza- ção de um determinado movimento) através de apenas um só neurônio. • O córtex pré-motor, também conhe- cido como córtex de associação mo- Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo97/172 tora, área responsável pela coordena- ção dos movimentos mais complexos. Aqui são criados padrões de movi- mento com funções específicas (pro- gramas motores) que são enviados ao córtex motor primário e deste para os músculos. Responsável pela organi- zação dos movimentos e pelos movi- mentos mais exteriores. • Área motora suplementar que funcio- na junto com o córtex pré-motor para realizar os movimentos posturais e de fixação (posicionamento ereto da ca- beça e estabilização dos olhos). Dife- rente do córtex pré-motor, essa área é a responsável pelos movimentos mais internos e também pela promoção dos movimentos bilaterais. Figura 5.1. Área do córtex motor (em vermelho) Fonte: <www.istockphotos.com, ID:174977886>. Acesso em: 16 jun. 2017. Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo98/172 1.1. Movimento da Fala Para realização do movimento da fala, o córtex motor primário envia impulsos com informações referentes à vocalização, que dizem respeito aos movimentos na face, priorizando lábios, língua e mandíbula. A área Broca é conhecida como o centro da fala, região do cérebro próxima ao córtex motor primário, sendo responsável pela ati- vação das cordas vocais através do controle respiratório. Esse controle da passagem de ar, visando emitir sons de forma organizada, é realizado por meio da contração muscular da laringe. A participação dessas duas regiões do cére- bro, ativando harmoniosamente a contra- ção dos músculos ligados ao som e à fala, junto com outra região no cérebro respon- sável pela escolha das palavras, é que per- mite às pessoas se comunicarem por meio da fala. Para falar, é necessária, além dessa iniciati- va motora, a decisão comportamental (além disso, ainda sofre a influência da emoção). Nessa ação, algumas habilidades psicomo- toras atuam diretamente na construção e execução da fala, como a coordenação mo- tora e a noção espaço-temporal, pois para falar é necessária uma sequência espacial (as palavras são apresentadas de forma or- denada e sucessiva) e temporal (utilização do ritmo para pronunciar palavras e frases). Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo99/172 1.2 Movimento da Escrita No movimento da escrita, a principal fonte de estímulos está ligada às áreas do córtex pré-motor e à área motora suplementar, que respondem pelos movimentos de rota- ção da cabeça, pelo movimento ocular (vo- luntário), pela área das habilidades manuais (movimentos das mãos e dos dedos), pela escolha de palavras e pela fixação ocular. Para saber mais A parte do cérebro que usamos para falar (sistema pré-motor medial) é diferente da usada para can- tar ou emitir sons ritmados (sistema pré-motor la- teral). Por isso as pessoas com gagueira são capa- zes de cantar sem nenhum problema em sua fala. Pode-se dizer que a escrita é a representa- ção gráfica da linguagem, portanto, para representar a linguagem por meio de sím- bolos, antes é necessário ter desenvolvido essa linguagem e sua pronúncia satisfato- riamente. Após esse processo, entendendo que a escrita é um aprendizado motor, con- centram-se esforços no aprendizado motor imerso na dissociação da mão e dos dedos, no ritmo e na constância do traçado, na orientação da esquerda para a direita e no controle tônico (segurar o lápis). Outros fatores que também influenciam nesse momento de comunicação gráfica di- zem respeito à percepção e representação espacial. Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo100/172 1.3 Movimento da Leitura Na leitura, os principais movimentos en- volvidos são os mesmos da escrita, com ex- ceção das habilidades manuais das mãos e dos dedos. Do mesmo modo, a forma de lei- tura horizontalizada, da esquerda para a di- reita, exige além da lateralidade e da orien- tação espaço-temporal bem desenvolvidas, Para saber mais Nosso modo de leitura ocidental — da esquerda para a direita e de cima para baixo —, variou en- tre as épocas e os locais, não sendo unanimidade. Por exemplo, os árabes e os hebreus liam da direi- ta para a esquerda; já os chineses e os japoneses liam de cima para baixo. a coordenação do movimento de cabeça e, principalmente, dos olhos. Também importante na leitura, o ritmo tem destaque, pois a nossa leitura é baseada na sequência de sílabas e o entendimento é margeado pela pontuação. Antes de ser um bom escritor, o indivíduo precisa ser antes um bom leitor, permitin- do-se ter acesso ao desenvolvimento da linguagem por meio de uma gama de voca- bulários e diferentes formas de escrita. Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo101/172 2. Cerebelo O cerebelo é um órgão que faz parte do en- céfalo e coordena as informações para o controle motor, além de ser o responsável por manter o equilíbrio e a postura do cor- po. É formado pelo vermis cerebelar, que atua na postura e na locomoção, e por dois hemisférios, responsáveis pela coordena- ção da atividade muscular voluntária e o controle do tônus. Para saber mais Existe uma lesão conhecida como ataxia cerebelar; a pessoa com esse comprometimento apresenta dificuldades na coordenação dos movimentos da fala e caminha cambaleando, exatamente igual a uma pessoa alcoolizada. Como o excesso de álcool também afeta o cerebelo (e os neurotransmissores que enviam e recebem suas informações), as ca- racterísticas são semelhantes, tanto que é muito comum, quando em dúvida sobre a embriaguez da pessoa, solicitarem para que façam testes de equi- líbrio, como andar sobre uma linha ou fazer o “4”, apoiando-se sobre uma só perna. Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo102/172 O cerebelo não é capaz de estimular direta- mente a contração muscular, mas consegue manter a sequência contínua do movimen- to e, sua função principal, acompanhá-lo e ajustá-lo, de acordo com as informações recebidas (principalmente visuais, auditi- vas, proprioceptivas e vestibulares). Como ele é responsávelpor coordenar as se- quências complexas dos músculos esquelé- ticos, sua ausência (ou deficiência) impedi- ria a realização de qualquer movimento que necessite do mínimo de habilidade ou de uma coordenação motora um pouco mais refinada. 3. Funções nas Habilidades dos Movimentos O cerebelo age diretamente nas habilidades dos movimentos. Essas habilidades possibi- litam a melhora qualitativa dos movimen- tos e é essa regulação que torna o cerebelo essencial para o desenvolvimento e, conse- quentemente, para a aprendizagem. Esse monitoramento funciona da seguinte forma: do córtex motor primário parte uma informação para a realização de determi- nado movimento; durante a realização des- se movimento, o cerebelo recebe diversas informações a respeito daquele: • Informações externas: visuais, audi- tivas e táteis, vindas dos órgãos dos Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo103/172 sentidos. • Informações internas: vestibulares, vindas de alguns órgãos do ouvido in- terno, e cinestésicas (propriocepção), enviadas pelos músculos e pelas arti- culações e referente à tonicidade dos músculos e à amplitude das articula- ções, permitindo reconhecer as posi- ções e os movimentos de seu próprio corpo, sem uso da visão. De posse de todas essas informações (mais as imagens mentais que a pessoa tem da- quele movimento) e de seus objetivos, o cerebelo envia informações para possíveis correções e adequações. Podem ser envia- das informações para aumento ou diminui- ção da tonicidade muscular, que podem in- terferir na coordenação motora fina, na ve- locidade, na força, na amplitude, no ângulo, na direção e no sentido do movimento, bus- cando um movimento mais hábil. Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo104/172 Glossário Hemisférios: são os dois lóbulos laterais do cerebelo; pela sua semelhança com os dois hemis- férios cerebrais, também são chamados assim. Vermis cerebelar: parte anatômica central do cerebelo. Vestibulares: referente ao sistema vestibular, que é um conjunto de órgãos no ouvido interno responsáveis pelo equilíbrio. Questão reflexão ? para 105/172 Neste momento do estudo, já é possível percebermos a importância da psicomotricidade nas habilidades bási- cas de comunicação, principalmente nos movimentos da fala, da escrita e da leitura. Também sabemos que a comunicação é a base da estruturação social, portanto, será que podemos dizer que existe um caráter social na psicomotricidade? 106/172 Considerações Finais • O córtex motor e o cerebelo são responsáveis, respectivamente, pelos movi- mentos voluntários e pela regulação desses movimentos. • Dentre diversos movimentos planejados, ordenados e controlados pelo en- céfalo, alguns deles têm relevância diretamente ligada à educação, como é o caso dos movimentos da fala, da escrita e da leitura. • O cerebelo utiliza-se de informações internas e externas para “afinar” a qua- lidade dos movimentos, buscando um movimento mais hábil. Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo107/172 Referências ASSOCIAÇÃO dos Amigos, Parentes e Portadores de Ataxias Dominantes. Disponível em: <http:// www.aappad.com.br/>. Acesso em: 16 jun. 2017 BOULCH, L. Educação Psicomotora: a psicocinética na idade escolar. Porto Alegre: Artmed, 1987. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde da criança: acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil. Brasília: Minis- tério da Saúde, 2002. (Cadernos de Atenção Básica. nº 11). Disponível em: <http://bvsms.saude. gov.br/bvs/publicacoes/crescimento_desenvolvimento.pdf>. Acesso em: 18 abr. 2017. DELACATO, C. H. O diagnóstico e tratamento dos problemas da fala e leitura. [S.l.: s.n.], 1966. DI NUCCI, F. P. Caracterização do perfil psicomotor de crianças com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDA/H). 2007. 86 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Escolar) – Centro de Ciências da Vida, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas. FURTADO, V. Q. Relação entre desempenho psicomotor e aprendizagem da leitura e escrita. 1998. 95 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Estadu- al de Campinas, Campinas. KANDEL, E. R.; SCHWARTZ, J. H.; JESSEL, T. M. Princípios da Neurociência. 4. ed. Barueri: Manole, 2003. http://www.aappad.com.br http://www.aappad.com.br http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/crescimento_desenvolvimento.pdf http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/crescimento_desenvolvimento.pdf Unidade 5 • Córtex Motor e Cerebelo108/172 SILVA, Ainoã Athaide M.; REIS, Vanessa de Oliveira M. Influência da consciência morfo- lógica na leitura e na escrita: uma revisão sistemática de literatura. CoDAS, v. 29, nº 1, São Paulo, 2017. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S2317-17822017000100600&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 jun. 2017. STEINER, R. Andar, falar, pensar: a atividade lúdica. São Paulo: Antroposófica, 1994. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2317-17822017000100600&lng=pt&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2317-17822017000100600&lng=pt&nrm=iso 109/172 1. O córtex motor pode ser subdividido em três áreas. Quais são elas? a) Córtex motor primário, córtex motor secundário e córtex motor terciário. b) Córtex motor primário, córtex pré-motor e área motora suplementar. c) Córtex pré-motor, córtex motor e córtex pós-motor. d) Córtex pré-motor, área motora complementar e área motora suplementar. e) Córtex motor, área motora e área submotora. Questão 1 110/172 2. Para realizar o movimento da fala, o córtex motor primário envia impul- sos para os movimentos de quais partes do corpo? Questão 2 a) Músculos faciais, céu da boca, língua e úvula. b) Músculos da face, boca, bochecha e faringe. c) Mandíbula, dentes, glândulas salivares e cordas vocais. d) Ossos do crânio, língua, músculos da respiração e laringe. e) Músculos da face, lábios, língua e mandíbula. 111/172 3. Qual órgão coordena as informações para realizar o controle motor? Questão 3 a) Cérebro. b) Memória. c) Cerebelo. d) Sistema nervoso periférico. e) Bulbo. 112/172 4. Quais as funções psicomotoras presentes na leitura e na escrita? Questão 4 a) Controle tônico, noção espaço-temporal e ritmo. b) Coordenação motora grossa, coordenação motora fina e flexibilidade. c) Agilidade, ritmo e força. d) Noção de espaço, noção de tempo e noção de memória. e) Batimentos cardíacos por minuto, calma e controle tônico. 113/172 5. Para realizar o controle dos movimentos, o cerebelo recebe que tipos de informações? Questão 5 a) Visuais, locais e de mapeamento. b) De controle interno, de controle externo e de baixo controle. c) Vestibulares, cinestésicas e dos órgãos do sentido. d) Sobre o peso, sobre a altura e sobre o porcentual de gordura. e) Auditivas, táteis e do paladar. 114/172 Gabarito 1. Resposta: B. As três áreas em que o córtex motor pode ser dividido são: córtex motor primário, cór- tex pré-motor e área motora suplementar. 2. Resposta: E. Para realizar o movimento da fala, usamos principalmente os movimentos de múscu- los da face, lábios, língua e mandíbula. 3. Resposta: C. O órgão responsável pelo controle dos mo- vimentos é o cerebelo. 4. Resposta: A. Para realizar a leitura e a escrita, usamos principalmente as habilidades de controle tônico, noção espaço-temporal e ritmo. 5. Resposta: C. Ao realizar o controle dos movimentos, o cerebelo recebe informações vestibulares, cinestésicas e dos órgãos do sentido (visu- ais, auditivas e táteis). 115/172 Unidade 6 Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade Objetivos 1. Entender a importância da observa- ção do desenvolvimento psicomotor. 2. Conhecer o diagnóstico dos principais grupos de distúrbios de psicomotrici- dade. 3. Saber sobre a aplicação das aborda- gens teórico-práticas da psicomotri- cidade. Unidade 6 • Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade116/172Introdução Ao falarmos da aplicação da psicomotrici- dade nos âmbitos educacional e terapêu- tico, devemos atentar-nos para o fato de existirem diversas abordagens teóricas e práticas que podem ser utilizadas. Em sua grande maioria, são atividades direciona- das ao desenvolvimento das habilidades psicomotoras que se deseja abranger. No caso educacional, busca-se o desenvol- vimento completo e correlacionado de to- das as habilidades psicomotoras. Entretan- to, nos casos de intervenção terapêutica ou de reeducação, é necessária a realização do diagnóstico para conhecer a real necessi- dade de intervenção, para então realizá-la. Antes do diagnóstico, vem a fase de obser- vação. Veremos, portanto, as principais ca- racterísticas da observação e dos diagnós- ticos no desenvolvimento psicomotor. 1. Observação do Desenvolvi- mento Psicomotor Para observar qualquer tipo de desenvol- vimento, precisa-se saber por quais etapas (ou fases ou estágios) passa a progressão de determinado contexto. No contexto da psi- comotricidade, existem a peculiaridade que dificulta um pouco mais, a qual diz respeito à transdisciplinaridade, e o fato de as habi- lidades interferirem umas nas outras. A ob- servação é o passo anterior ao diagnóstico. Unidade 6 • Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade117/172 Existem diversos instrumentos para avaliar as habilidades psicomotoras e saber como está o desenvolvimento, mas não se deve analisar qualquer competência isolada- Para saber mais Existe uma grande discussão sobre a observação e a interpretação. É comum escutarmos que para relatar uma observação, deve-se fazê-la da ma- neira que foi visualizada, não havendo a interpre- tação do observador. No entanto, alguns autores, como Norwood Russell Hanson em sua obra Ob- servação e Interpretação, levantam o questiona- mento sobre a existência de uma interpretação antes da observação, baseados na premissa de que o observador já traz consigo diversas infor- mações que podem “influenciar” sua observação. mente. Dentre os principais instrumentos, podemos destacar: • O teste de imitação dos movimentos dos braços, das mãos e dos dedos. • O DAP – Desenho de uma Pessoa. • A Bateria Neuropsicológica Luria-Ne- braska (que formatou escalas para as funções motoras, o ritmo, as funções táteis, as funções visuais, a linguagem receptiva e expressiva, a escrita e a leitura, a aritmética, a memória e os processos intelectuais). • A APM – Avaliação Pré-escolar de Mil- ler. • A VMI – Teste do Desenvolvimento da Integração Viso-Motora. Unidade 6 • Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade118/172 Uma bateria de testes psicomotores muito utilizada é a Bateria Psicomotora (BPM), de Fonseca (1995). Ela classifica o perfil psico- motor em apráxico, quando há realização imperfeita, incompleta e descoordenada; dispráxico, quando a realização é satisfató- ria (com dificuldade de controle); eupráxico, com realização adequada e controlada; e hiperpráxico, quando a realização é perfei- ta, harmoniosa e controlada. 2. Diagnóstico dos Distúrbios Identificar distúrbios psicomotores não é uma tarefa fácil, principalmente porque envolve diversos aspectos, como o motor, o cognitivo e o afetivo, relacionando-se entre si. Realizar diagnósticos em alterações nessas habilida- des, como ritmo, lateralidade e atenção, re- quer cuidado, pois é preciso ter uma visão da pessoa como um todo, ampliando a perspec- tiva em todos os aspectos envolvidos. Grunspun (1980) classifica esses aspectos em alguns grupos: Instabilidade psicomotora: apresenta-se quando a pessoa não consegue fixar-se numa tarefa devido à falta de controles psíquicos e motores; essa agitação apresentada é comu- mente confundida com a hiperatividade. A pessoa com esse distúrbio pode ser reconhe- cida pelo conjunto de características motoras que demonstra uma pessoa desajeitada e com falta de coordenação motora, com problemas no equilíbrio, com contração muscular contí- nua e aparência apática. Também apresenta Unidade 6 • Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade119/172 características psíquicas como falta de aten- ção e de concentração, dificuldades na comu- nicação, na percepção, na formulação de con- ceitos e no pensamento abstrato. Essa insta- bilidade intelectual acompanhada de uma instabilidade emocional (como impulsividade, explosões e sensibilidade) e de problemas no sono (como terror noturno e movimentos du- rante o sono), levam a dificuldades escolares. Debilidade psicomotora: são perturbações motoras relacionadas à paratonia e à sincine- sia. A paratonia é uma rigidez muscular que aparece em duas ou quatro extremidades do corpo, limitando movimentos de braços, per- nas, mãos e pés; a pessoa não consegue rela- xar um músculo por vontade própria, dando a impressão de que o movimento está bloquea- do. Na sincinesia alguns músculos participam em movimentos que não são necessários. São características desse distúrbio: descontinui- dade e imprecisão dos movimentos; proble- mas na linguagem; tremores nos lábios, pál- pebras e dedos; dificuldades com a coordena- ção motora e comprometimento na atenção; afetividade e intelectualidade. Outras carac- terísticas marcantes são os hábitos manipu- ladores, como enrolar o cabelo ou chupar os dedos, sonolência acima do normal e enurese (noturna e até diurna). Esses problemas mo- tores, cognitivos e de afetividade levam ao isolamento social e a dificuldades com a dis- ciplina e a aprendizagem. Inibição psicomotora: pode ser percebida quando há falta de movimento ou ele é inibi- do. Apresenta as mesmas características da debilidade psicomotora acrescida de ansie- Unidade 6 • Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade120/172 dade constante. É possível ver a pessoa com a cabeça baixa, sobrancelhas franzidas e com problemas de conduta. Diferente dos outros tipos, as pessoas com inibição psicomotora gostam de situações novas e de trabalhar em grupos. Lateralidade cruzada: aparece quando a dominância de olhos, ouvido, pés e mãos não se apresenta do mesmo lado do corpo, o que leva à deformação do esquema cor- poral. As pessoas com a lateralidade cru- zada podem apresentar fadiga constante e acima do normal, distúrbios do sono e pro- blemas na coordenação (pessoa desajeita- da e com quedas frequentes) que podem levar a problemas de linguagem. A atenção instável e a intranquilidade comprometem a leitura e a escrita. Para saber mais A ansiedade está presente na inibição psicomo- tora, portanto, é importante ficar atento a alguns sinais no comportamento que podem estar rela- cionados a esse transtorno, como alterações de sono, preocupação excessiva, inquietação cons- tante, comportamento compulsivo, pensamento obsessivo, problemas digestivos, indigestão crô- nica e outros sintomas físicos. Unidade 6 • Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade121/172 Imperícias: possui inteligência normal, em- bora apresente frustação por não conseguir realizar algumas atividades que envolvam a coordenação motora fina. Caracteriza-se por movimentos rígidos, tornando a pessoa desajeitada com uma letra irregular e es- barrando e quebrando objetos. Essa rigidez muscular aumenta a fadiga. 3. Abordagens Teórico-práticas de Aplicação da Psicomotrici- dade Existem diversas abordagens que dizem res- peito à aplicação da psicomotricidade. Elas podem ser aplicadas na educação (e reedu- cação) ou na terapia psicomotora. Em todos os casos, após a observação e o diagnóstico Para saber mais Acredita-se que aproximadamente 10% da população mundial sejam canhotas. Muito se fala sobre uma certa “superioridade” dos ca- nhotos em relação aos destros, mas nada ainda foi comprovado cientificamente. Entretanto, mesmo sendo significativamente menor o por- centual de canhotos, temos muitos deles em destaque em suas profissões; podemos desta- car: Albert Einstein, Ayrton Senna, Beethoven, BenjaminFranklin, Bill Gates, Bob Dylan, Char- lie Chaplin, Eric Clapton, Friedrich Nietzsche, Gandhi, Goethe, Henry Ford, Isaac Newton, Ivan Pavlov, Jimi Hendrix, Joana d’Arc, Júlio César, Le- onardo da Vinci, Leonel Messi, Lewis Carrol, Mi- chelangelo, Mozart, Paul McCartney, Pelé, Ram- sés II, Ringo Starr, Romário, Thomas Jefferson. Unidade 6 • Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade122/172 primário, são direcionadas atividades que estimulam as habilidades específicas, tendo o homem como um ser único e indivisível. Le Boulch (1987) sugere a utilização de situ- ações-problema, em que se objetiva atuar nas funções de interiorização, percepção e estruturação do espaço, além da percepção temporal. Também se deve buscar melho- rar a postura e a qualidade dos gestos. Para isso, utilizam-se jogos com regras e ativida- des de expressão rítmica. Fonseca (1988) divide sua sessão psicomo- tora em quatro etapas: formação de grupo, motivação, apresentação (junto com a co- ordenação dos jogos) e avaliação (do aluno e do professor). Unidade 6 • Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade123/172 Glossário Franzidas: não planas, enrugadas. Hiperatividade: uma agitação acima do normal em uma pessoa. Interiorização: processo pelo qual se adotam inconscientemente concepções e ideias vindas de outras pessoas ou grupos; internalização. Questão reflexão ? para 124/172 A observação, como uma das etapas do método cien- tífico, não remete apenas a ver e a ouvir, mas deve ser planejada, organizada e ter objetivo predeterminado. Realizada dessa maneira, você acredita que ela é impor- tante para diagnosticar possíveis distúrbios da psico- motricidade? O que deve ser levado em consideração? 125/172 Considerações Finais • Antes de fazermos qualquer diagnóstico, é preciso fazer a observação. • Os principais distúrbios psicomotores são: instabilidade psicomotora, de- bilidade psicomotora, inibição psicomotora, lateralidade cruzada e imperí- cias. • Dentre as aplicações mais utilizadas da psicomotricidade, estão os usos de situações-problema, de jogos com regras e de atividades de expressão rít- mica. Unidade 6 • Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade126/172 Referências AJURIAGUERRA, J.; MARCELLI, D. Manual de psicopatologia infantil. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. ASSOCIAÇÃO Brasileira do Sono. Disponível em: <http://www.absono.com.br/>. Acesso em: 12 jul. 2017. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde da criança: acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil. Brasília: Minis- tério da Saúde, 2002. (Cadernos de Atenção Básica. nº 11). Disponível em: <http://bvsms.saude. gov.br/bvs/publicacoes/crescimento_desenvolvimento.pdf>. Acesso em: 12 jul. 2017. CRENITTE, Patrícia A. P. et al. Estudo piloto de adaptação da bateria neuropsicológica luria-ne- braska para crianças (LNNB-C). Psicopedagogia, v. 28, nº 86, São Paulo, 2011. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862011000200002>. Acesso em: 12 jul. 2017. FONSECA, V. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008. PIAGET, J. Seis estudos de psicologia. 24. ed. São Paulo: Forense Universitária, 2002. SUZUKI, S.; GUGELMIN, M. R. G.; SOARES, A. V. O equilíbrio estático em crianças em idade escolar com transtornos de déficit de atenção/hiperatividade. Fisioterapia em Movimento, v. 18, nº 3, p. 49-54, 2005. http://www.absono.com.br/ http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/crescimento_desenvolvimento.pdf http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/crescimento_desenvolvimento.pdf http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862011000200002 Unidade 6 • Observação, Diagnóstico e Aplicação da Psicomotricidade127/172 WALLON, H. As origens do caráter na criança. São Paulo: Nova Alexandria, 1995. 128/172 1. Qual a ordem correta da aplicação da psicomotricidade? Questão 1 a) Diagnóstico, intervenção e observação. b) Observação, diagnóstico e intervenção. c) Intervenção, observação e diagnóstico. d) Observação, intervenção e diagnóstico. e) Intervenção, diagnóstico e observação. 129/172 2. Qual destes é um instrumento para avaliar as habilidades psicomotoras? Questão 2 a) O Teste do Desenvolvimento da Integração Viso-Motora. b) A Bateria Neuropsicológica de Miller. c) O Teste do Desenvolvimento da Integração Audiovisual. d) O Teste de Imitação dos Movimentos da perna. e) O Teste da Capacidade Viso-Motora. 130/172 3. Quais são os grupos mais utilizados no diagnóstico dos distúrbios psi- comotores? Questão 3 a) Instabilidade psicomotora, habilidade psicomotora, inibição psicomotora, lateralidade pa- ralela, imperícias. b) Estabilidade psicomotora, debilidade psicomotora, inibição psicomotora, lateralidade cru- zada, imperícias. c) instabilidade psicomotora, debilidade psicomotora, exibição psicomotora, lateralidade pa- ralela, perícias. d) estabilidade psicomotora, habilidade psicomotora, exibição psicomotora, lateralidade cru- zada, imperícias. e) instabilidade psicomotora, debilidade psicomotora, inibição psicomotora, lateralidade cru- zada, imperícias. 131/172 4. Pode-se dizer sobre as características das pessoas que possuem distúr- bios do grupo das imperícias que: Questão 4 a) Não possuem inteligência normal. b) Realizam atividades que envolvam a coordenação motora fina sem problemas. c) Possuem movimentos desajeitados. d) Possuem letra regular e legível. e) Não apresentam fadiga pela rigidez muscular. 132/172 5. Dentre as diversas abordagens possíveis para a aplicação da psicomo- tricidade, marque a alternativa mais coerente. Questão 5 a) Atividades que desestimulam as habilidades específicas. b) Atividades que vejam o homem como um ser único e indivisível. c) Atividades que atuam nas funções de exteriorização, percepção e quebra do espaço. d) Atividades que utilizam jogos livres de regras. e) Atividades que excluam a expressão rítmica. 133/172 Gabarito 1. Resposta: B. A ordem correta da aplicação da psicomo- tricidade é: observação, diagnóstico e inter- venção. 2. Resposta: A. O único instrumento para avaliar as habili- dades psicomotoras é o Teste do Desenvol- vimento da Integração Viso-Motora. 3. Resposta: E. Os grupos mais utilizados no diagnóstico dos distúrbios psicomotores são: instabili- dade psicomotora, debilidade psicomotora, inibição psicomotora, lateralidade cruzada e imperícias. 4. Resposta: C. Dentre as características das pessoas que possuem distúrbios do grupo das imperí- cias, podemos destacar que: elas possuem inteligência normal, não realizam algumas atividades que envolvam a coordenação motora fina, possuem movimentos desajei- tados, possuem letra irregular e apresentam fadiga pela rigidez muscular. 5. Resposta: B. Dentre as diversas abordagens possíveis para a aplicação da psicomotricidade, te- mos: atividades que estimulam as habili- dades específicas, atividades que vejam o homem como um ser único e indivisível, 134/172 Gabarito atividades que atuam nas funções de in- teriorização, percepção e estruturação do espaço, atividades que utilizam jogos com regras e atividades que envolvam a expres- são rítmica. 135/172 Unidade 7 Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos Objetivos 1. Entender a relação entre o ato motor e a representação mental. 2. Conhecer as praxias e as gnosias. 3. Identificar e caracterizar as agnosias e dispraxias. Unidade 7 • Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos136/172 Introdução No primeiro momento, o ato motor antece- de a representação mental, que depois de estruturada define (redefine) o mesmo ato motor. Nesse gesto cognitivo-motriz, pode- mos perceber algumas funções cognitivas relacionadas à psicomotricidade, que são a praxia (referente ao movimento) e a gnosia (referente à percepção sensorial). Os transtornos relacionados à percepção são chamadosde agnosias e os transtornos psicomotores são as dispraxias. Convido-o a fazer uma rápida imersão nes- se conteúdo para que conheça e entenda essas relações e seja capaz de identificar al- guns tipos de transtornos psicomotores. 1. Ato Motor e Representação Mental O ato motor é passado ao ato mental por meio do reconhecimento do próprio corpo e das sensações, percepções e movimentos resultantes das experiências vividas. A mo- tricidade dá início à representação mental. Para que seja formada essa imagem mental, é necessária a recepção de diversas infor- mações intra e extra corporais. Unidade 7 • Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos137/172 Após a aquisição dessas informações, a pessoa realiza simultaneamente o ges- to e a representação mental; o gesto é uma projeção de suas ideias, a pessoa age ao mesmo tempo que projeta a imagem Para saber mais Ao realizarmos qualquer movimento, diversos neurônios no córtex motor são ativados e ge- ram uma pequena corrente elétrica. Como ficam numa região do cérebro superficial, é possível medir e até utilizar essas correntes elétricas. Essa tecnologia já está sendo utilizada para o desen- volvimento de produtos que utilizam a interface cérebro-computador, como braços robóticos e cadeiras de rodas, que podem ser movidos usan- do apenas o cérebro. mental. No período seguinte, o ato men- tal projeta o ato motor. Como já foi apre- sentado anteriormente, o ato é planejado mentalmente (no córtex motor) e o es- tímulo é enviado (através da medula) ao músculo, para que este realize a contra- ção, objetivando o ato motor. Logo, o ato motor realiza-se por imagens mentais e para que isso aconteça é neces- sário receber dados corretos intracorpo- rais (parietais) e extracorporais (occipitais e temporais). Só depois o córtex motor in- duzirá as unidades motoras a atuarem e produzirem o ato motor. Do exposto, po- de-se então afirmar que o sistema psico- motor do ser humano pensa antes de agir. Unidade 7 • Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos138/172 Para saber mais Existem três estilos de representação mental: visual, auditivo e cinestésico, definidos por aprendizagem ou por hábito, que assumem o papel predominante na forma de comunicação (verbal ou não verbal) e na sua aprendizagem. A pessoa com estilo sensitivo visual tem o pensamento baseado em imagens inter- nas e na visualização, costuma realizar desenhos enquanto faz outras tarefas (rabiscos enquanto fala ao telefone, por exemplo), prefere visualizar um mapa (na indicação de lugares, por exemplo) e prefere olhar para o esquema com as instruções desenhadas (manual de equipamentos, por exemplo). A pessoa com predominância da modalidade sensorial auditiva pensa de forma linear e sequencial (processo demorado e completo), se expressa verbalmente com facilidade e fala consigo mesma (com velocidade mediana e ritmada). Já a pessoa cuja modalidade dominante é a cinestésica expressa facilmente seus sentimentos (confia neles e nas suas intuições), possui pensamentos estruturados nas emoções e sensações vividas, tem pensamento mais fluido quando se move (andando com frequência, de um lado para o outro durante os momentos de reflexão), gesticula enquanto fala e toca nos outros. Unidade 7 • Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos139/172 2. Praxias e Gnosias Por meio da relação do corpo com o meio, organizam-se as funções cerebrais superio- res ou funções cognitivas superiores, res- ponsáveis principalmente pela consciência, pela tomada de decisões e pelos comporta- mentos. As principais funções são: a aten- ção, a orientação, a memória, a linguagem, o cálculo, a abstração, o raciocínio lógico, as praxias e as gnosias. Observam-se, nesse momento, as duas últimas funções, que são adquiridas e requerentes de aprendizagem. Gnosia são as atividades organizadas da percepção sensorial. Quanto mais vezes se repete, mais se consolida e maior é sua ca- pacidade de análise dos estímulos, caracte- rizando os estímulos mais fortes. Também é conhecida como o “saber reconhecer”. As gnosias podem ser dos tipos: Gnosias simples: intervenção de apenas um estímulo perceptivo: como a gnosia au- ditiva (referente à análise de sons, ruídos e música); a gnosia visual (reconhecimento de cores e formas); a gnosia tátil (informações adquiridas através da pele, principalmente da ponta dos dedos) e a gnosia olfativa (ti- pos correspondentes: incluindo a percep- ção sensorial térmica e vibratória). Gnosias complexas: intervenção de mais de um estímulo perceptível: gnosia viso-espa- cial (reconhecimento de formas geométri- cas e planas; une um estímulo visual e outro de atividade muscular); gnosia tátil complexa (combina estímulos táteis com os muscula- res e mais os cinestésicos). Unidade 7 • Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos140/172 Praxia é a capacidade de realizar qualquer movimento intencional coordenado de for- ma satisfatória, objetivando um fim ou de- terminado resultado. É conhecida como o “saber fazer”. 3. Transtornos da Percepção – Agnosias Agnosia é a incapacidade de reconhecer as impressões sensoriais, a pessoa pode ver ou sentir um objeto, mas não pode nomeá-lo (exceto em casos de demência grave ou al- gum tipo de retardo). A pessoa com agnosia ainda tem a função sensorial intacta. Podem ser realizados diversos testes no diagnóstico dos transtornos de percepção, por exemplo, entregar um objeto (comum) para uma pessoa com os olhos fechados e pedir para que ela nomeie o objeto (em caso de falha, caracteriza agnosia somatossen- sorial); ou tocar alguma parte do corpo da pessoa, que com os olhos fechados deve di- zer qual parte está sendo tocada (em caso de insucesso, esta pessoa possui “extinção tátil”). Existem outros tipos de agnosias e todos eles vão se referir à dificuldade de reconhe- cimento: • A agnosia visual: incapacidade de re- conhecer objetos através da visão. • A agnosia auditiva: incapacidade de reconhecer sons. • A agnosia tátil: incapacidade de reco- nhecimento através do tato. Unidade 7 • Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos141/172 • A agnosia aperceptiva: incapacidade de lembrar informações sobre os ob- jetos. • A simultagnosia: incapacidade de re- conhecer vários objetos ao mesmo tempo. • A agnosia associativa: incapacidade de nomear e saber o uso de objetos. • A prosopagnosia: incapacidade de re- conhecer rostos. 4. Transtornos Psicomotores – Dispraxias A dispraxia é uma disfunção motora neu- rológica (sem lesão) que impossibilita o cérebro de desempenhar os movimentos corretamente. Também é conhecida como “Síndrome do Desastrado”, pois dentre seus sintomas mais aparentes estão a falta de coordenação motora, a falta de percepção tridimensional e problemas no equilíbrio, o que leva à dificuldade na execução de mo- vimentos coordenados e na organização espacial. As pessoas dispráxicas não conse- guem realizar e nem imitar ações simples de maneira satisfatória. Existem diversos tipos de transtornos psi- comotores, dentre os quais destacam-se: • A dispraxia motora: apresentada pe- las dificuldades com o esquema cor- poral e atraso na organização motora (como vestir ou comer). Também pode estar associada à lentidão, imprecisão Unidade 7 • Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos142/172 e dificuldade no planejamento de mo- vimentos simples. • A dispraxia espacial: quando há uma desorganização do gesto, do esquema corporal e das relações com o espaço. Apresenta dificuldades de seriação e classificação, além de problemas na utilização de conceitos (como alto e baixo ou dentro e fora). • A dispraxia postural: problema na pos- tura, gerando movimentos sem ritmo e sem muito controle. • A dispraxia verbal: afeta o desenvolvi- mento da linguagem, gerando um dé- ficit na fala, podendo ser fonológico e/ ou fonético, ou no programa motor da fala. Para saber mais aDia 14 de maio é o diade conscientização sobre apraxia de fala em crianças, instituído pela As- sociação Norte Americana de Apraxia de Fala na Infância (CASANA), sendo uma forma de alertar os pais, professores e profissionais da área para o assunto. Unidade 7 • Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos143/172 Glossário Cinestésico: relacionado à percepção do posicionamento e ao equilíbrio do corpo. Parietais, occipitais e temporais: regiões (lobos) do cérebro. Transtorno: uma alteração da ordem; uma desorganização. Questão reflexão ? para 144/172 Agora que você já teve acesso às informações referentes aos transtornos da percepção e psicomotores, você se lembra de alguma pessoa que era chamada de atrapalha- da? Quando falamos em uma pessoa estabanada, quem vem à sua cabeça? Será que essa pessoa é simplesmente desajeitada ou tem algum transtorno? 145/172 Considerações Finais • A representação mental se dá pelo ato motor e, posteriormente, o ato motor se executa por conta da representação mental. • Dentre as principais funções cognitivas superiores estão a gnosia (reconhe- cimento através da percepção sensorial) e a praxia (movimento intencional e organizado que busca determinada finalidade ou resultado). • Os transtornos na percepção são chamados de agnosias e os transtornos psicomotores são as dispraxias. Unidade 7 • Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos146/172 Referências BOULCH, L. O desenvolvimento psicomotor do nascimento até 6 anos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982. DUARTE, Maria Lúcia Batezat. Sobre desenho, memória e aprendizagem: uma abordagem neu- rocientífica visando a educação inclusiva. Apotheke, v. 5, nº 5, 2017. FEDOSSE, Elenir. Da relação linguagem e praxia: estudo neurolinguístico de um caso de afasia. 2000. 149 f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Instituto de Estudos da Linguagem, Uni- camp, Campinas. KANDEL, E. R.; SCHWARTZ, J. H.; JESSEL, T. M. Princípios da Neurociência. 4. ed. Barueri: Manole, 2003. SILVA, Dener Luiz da. Do gesto ao símbolo: a teoria de Henri Wallon sobre a formação sim- bólica. Educar em Revista, nº 30, p. 145-163, 2007. Disponível em: <http://www.redalyc.org/ pdf/1550/155013356010.pdf>. Acesso em: 10 jul. 2017. SOUZA, Thamires da Fonseca de. Especificidade e sensibilidade do Questionário de Transtor- no do Desenvolvimento da Coordenação: Brasil para crianças de 8 a 10 anos. 2016. 85 f. Dis- sertação (Mestrado em Terapia Ocupacional) – Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, UFSCar, São Carlos. http://www.redalyc.org/pdf/1550/155013356010.pdf http://www.redalyc.org/pdf/1550/155013356010.pdf Unidade 7 • Representação Mental, Praxias e Gnosias e Transtornos147/172 TVU Lavras. Prosopagnosia. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7ZUCrqY- d2Ps>. Acesso em: 10 jul. 2017. WALLON, H. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 1972. https://www.youtube.com/watch?v=7ZUCrqYd2Ps https://www.youtube.com/watch?v=7ZUCrqYd2Ps 148/172 1. As funções cognitivas superiores são responsáveis principalmente: Questão 1 a) Pela consciência, pela tomada de decisões e pelos comportamentos. b) Pela corrida, pelos saltos e pelos arremessos. c) Pelo equilíbrio, pela força e pela resistência. d) Pelo funcionamento do coração, do pulmão e do intestino. e) Pela noção espacial, pela coordenação motora e pela tonicidade muscular. 149/172 2. Quais são os tipos de gnosias? Questão 2 a) Unitárias e duplas. b) Contagiosas e hereditárias. c) Simples e complexas. d) Fáceis e difíceis. e) Paralelas e alternadas. 150/172 3. Qual alternativa apresenta, em todas as respostas, tipos de agnosias? Questão 3 a) Perceptiva, associativa e disfuncional. b) Dissociativa, perceptiva e multignosia. c) Interognosia, prosopagnosia e apercetiva. d) Aperceptiva, simultagnosia e prosopagnosia. e) Propagnosia, dissociativa e disfuncional. 151/172 4. A dispraxia é uma disfunção motora neurológica que também é conhe- cida como: Questão 4 a) “Síndrome do Desastrado”. b) “Síndrome do Desequilibrado”. c) “Síndrome do Desestruturado”. d) “Síndrome do Desajustado”. e) “Síndrome do Desleixado”. 152/172 5. Quais são os principais tipos de dispraxias? Questão 5 a) Motora, conceitual, associativa e mental. b) Mental, postural, verbal e estrutural. c) Motora, consensual, mental e corporal. d) Espacial, postural, estrutural e associativa. e) Motora, espacial, postural e verbal. 153/172 Gabarito 1. Resposta: A. As funções cognitivas superiores são res- ponsáveis principalmente pela consciência, pela tomada de decisões e pelos comporta- mentos. 2. Resposta: C. As gnosias podem ser divididas em simples e complexas. 3. Resposta: D. Aperceptiva, simultagnosia e prosopagno- sia são tipos de agnosias. 4. Resposta: A. “Síndrome do Desastrado” é o outro nome pelo qual a dispraxia é conhecida. 5. Resposta: E. Dentre os principais tipos de dispraxias, po- demos ter: a motora, a espacial, a postural e a verbal. 154/172 Unidade 8 A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação Objetivos 1. Caracterizar a psicomotricidade en- quanto ferramenta da educação. 2. Mostrar a importância da psicomotri- cidade na prevenção. 3. Conhecer algumas intervenções prá- ticas na educação. Unidade 8 • A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação155/172 Introdução Ao trabalharmos a psicomotricidade na fase adequada, estamos ao mesmo tempo educando a pessoa com relação às habili- dades psicomotoras propriamente ditas e também subsidiando essa pessoa para que seja capaz de realizar seu desenvolvimento em todas as esferas educacionais. Conco- mitantemente, ao realizar a prática psico- motriz, a pessoa está se prevenindo de di- versos transtornos e distúrbios possíveis re- lacionados não apenas à psicomotricidade, mas também a problemas associados. Podemos intervir em psicomotricidade de diversas maneiras, utilizando diversos mé- todos. A prática pode ser realizada de dife- rentes formas possíveis, combinando dife- rentes estratégias e metodologias. Vamos agora conhecer alguns exemplos de práticas e intervenções educativas utiliza- das na psicomotricidade. 1. A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação A importância da educação psicomotriz é facilmente notada ao se reconhecer que as habilidades psicomotoras são básicas e fundamentais para os aprendizados pré- -escolares. A criança precisa conhecer seu próprio corpo e seus movimentos, reco- nhecer as outras pessoas e o ambiente que está inserida, para depois poder começar a fazer as associações e conexões dos outros aprendizados. Unidade 8 • A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação156/172 A estimulação psicomotora nessa fase pré- -escolar e nos anos iniciais, realizada de forma adequada e encarada como uma for- mação integral, auxilia a evitar maiores pro- blemas nas habilidades psicomotoras (que podem levar a diversos outros problemas de caráter cognitivo, motor, afetivo e social). É muito importante que esses aprendizados e essas adaptações, feitos no começo da vida, sejam estruturados de maneira corre- ta, pois é mais fácil do que tentar corrigi-los mais adiante, quando já estão estruturados de forma não conveniente. Atuando desse modo, é possível prevenir diversas inade- quações já conhecidas, como a empunha- dura do lápis, que ao ser aprendida de for- ma inadequada, depois é de difícil correção. 2. Práticas e Intervenções Edu- cativas Diversas estratégias são utilizadas para atingir objetivos educativos específicos, sendo conhecidas como práticas educa- tivas. Elas acontecem nos mais diferentes contextos, podendo ser encontradas dentro Para saber mais A prática terapêutica da psicomotricidade é uti- lizada principalmente nos casos de instabilidade postural, descoordenação motora, disgrafia, dis- praxia, perturbações do esquema corporal e da lateralidade, perturbações da estruturação espa- cial e temporal. Unidade 8 • A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação157/172ou fora da escola e aplicadas por profissio- nais da pedagogia ou não (como treinado- res e maestros). Ao optar por intervenções com explanações ou debates, disciplina indutiva ou coerciva, estilo indulgente ou negligente, aula teórica ou prática, estilo punitivo ou de recompen- sa, assume-se determinada prática educa- tiva. Por essas (e outras) escolhas não serem todas dialéticas e poderem ser montadas em diversas combinações, criam-se diver- sas possibilidades de intervenção; numa mesma aula, um educador pode agir de for- mas diferentes de acordo com a pessoa, o grupo ou a situação. Em psicomotricidade, a maioria das inter- venções é baseada no lúdico, especifica- mente nos jogos, favorecendo os objetivos afetivo-sociais seja durante as aulas ou fora delas (nas chamadas “sessões psicomoto- ras”). Além disso, existem características Para saber mais A intervenção em Psicomotricidade pode-se di- vidir em dois componentes: instrumental (com maior fundamentação cognitiva e neuropsico- lógica, centrado nas situações-problema, com descoberta guiada, pensamento divergente e exploração da verbalização) e relacional (focado no componente psicoafetivo e relacional, em um diálogo tónico-emocional, explorando o corpo, numa comunicação não verbal). Unidade 8 • A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação158/172 específicas de acordo com a faixa etária ou o objetivo pretendido, observe: • Na educação no nível infantil, a bus- ca pelo conhecimento e a organização do esquema corporal permanecem; a criança continua usando seu corpo para buscar novas experiências e, aos poucos, vai formatando sua imagem corporal, conhecendo as possibilida- des e os limites de seu corpo e crian- do sua noção do mundo. Nesta fase, o educador deve criar condições para que o aluno possa vivenciar todas as habilidades psicomotoras e desenvol- vê-las, assumindo a função de um fa- cilitador. • Na atividade em grupo, realizada na dinâmica escolar, pode haver duas situações: a atividade individualiza- da, mas realizada em grupo, na qual o grupo influencia os movimentos dos alunos (principalmente afetivamen- te), embora a realização do exercício não dependa de outra pessoa; ou a atividade pode ser coletiva, obrigato- riamente havendo interação entre os participantes. Le Boulch (1987) mos- tra que nesse contexto é possível per- ceber algumas atitudes socioafeti- vas como organização, comunicação, cooperação, liderança, rivalidade e agressividade. • Referente à atenção (na verdade, na falta dela), sabe-se que pode ser cau- sada por vários motivos; no caso es- Unidade 8 • A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação159/172 pecífico da psicomotricidade, o foco é no que Wallon (1925) chamou de “ins- tabilidade psicomotora”, que é a falta de controle das reações impulsivas. As atividades espontâneas (mesmo com mínimo estímulo) geram uma respos- ta motora ou verbal que deveria ser ajustada por uma função de contro- le; a dificuldade nesse equilíbrio é que apresenta essa instabilidade. • Na leitura e na escrita, como aprofun- dado no Tema 05, estão envolvidas as habilidades psicomotoras de coor- denação dos movimentos da cabeça, dos olhos, das mãos e dos dedos, além da lateralidade, da orientação espa- ço-temporal, do ritmo e do controle tônico. • Na matemática, a abstração lógi- co-matemática ocorre num espaço simbólico representativo; essa repre- sentação mental só ocorre quando a pessoa consegue formar a imagem mental de seu corpo, que por sua vez, só acontece após ela compreender seu esquema corporal (processo já aprofundado no Tema 03). Além disso, para montar as contas na matemáti- ca e realizar as operações, é preciso da noção espaço-temporal (cima-baixo) e a lateralidade (da direita para a es- querda). Essas são apenas algumas das característi- cas específicas, de uma parte das diversas possibilidades de intervenção escolar, que podem ser realizadas em uma sala de aula. Unidade 8 • A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação160/172 De maneira preventiva, todas as habili- dades psicomotoras, por serem base para a aprendizagem, devem ser estimuladas e seu desenvolvimento oportunizado pelo pro- fessor. Para saber mais Durante as sessões de Psicomotricidade Relacio- nal, são utilizados diversos tipos de jogos espon- tâneos, dentre os quais destacam-se os grupos de: jogos de imitação, os jogos simbólicos, os jo- gos de exercícios, o jogo de construção e os jogos de regras. Unidade 8 • A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação161/172 Glossário Disciplina coerciva: uso do poder, utilização de uma “vantagem” hierárquica para conseguir o que se quer (principalmente por meio de punições, privação de privilégios, ameaças). Disciplina indutiva: por meio da comunicação, explica o que se quer para que a pessoa mude seu comportamento por vontade própria. Estilo indulgente: A principal característica é que evita o conflito, é tolerante. Estilo negligente: solicitações com baixa exigência e abdicação da responsabilidade; omissão. Questão reflexão ? para 162/172 Posteriormente a todas essas informações referentes à psicomotricidade, qual o grau de importância que você classifica essa abordagem na educação? Você se consi- dera capaz de montar uma aula ou uma sessão de psi- comotricidade? Acredita que consegue encontrar argu- mentos para justificar a introdução ou a manutenção da psicomotricidade em uma escola? 163/172 Considerações Finais • A psicomotricidade é fundamental para a aprendizagem, portanto é base para atividades educativas. • Ao ser aplicada na fase correta, ela previne diversos problemas, principal- mente com relação à aprendizagem. • O uso da psicomotricidade caracteriza-se como uma prática educativa (es- tratégia) e uma importante forma de intervenção. Unidade 8 • A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação164/172 Referências AMAZON Sat. Os reflexos da psicomotricidade na aprendizagem. Disponível em: <https://www. youtube.com/watch?v=3qH-xlXFu6E>. Acesso em: 15 jul. 2017. ASSOCIAÇÃO Vem Ser. Disponível em: <http://www.associacaovemser.org.br/>. Acesso em: 15 jul. 2017. FONSECA, V. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008. GASPAR, A. Experiências de ciências para o ensino fundamental. São Paulo: Ática, 2005. GONÇALVES, A. A. Psicomotricidade na educação infantil: a influência do desenvolvimento psicomotor na educação infantil. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. NOGUEIRA, Liliana Azevedo; CARVALHO, Luzia Alves de; PESSANHA, Fernanda Campos Lima. A psicomotricidade na prevenção das dificuldades no processo de Alfabetização e Letramento. Perspectivas, v. 1, nº 2, 2007. Disponível em: <http://www.seer.perspectivasonline.com.br/index. php/revista_antiga/article/view/251/163>. Acesso em: 15 jul. 2017. PIAGET, J. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Tradução de Álvaro Cabral e Christiano Monteiro Oiticica. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar; Brasília: INL, 1975. https://www.youtube.com/watch?v=3qH-xlXFu6E https://www.youtube.com/watch?v=3qH-xlXFu6E http://www.associacaovemser.org.br/ http://www.seer.perspectivasonline.com.br/index.php/revista_antiga/article/view/251/163 http://www.seer.perspectivasonline.com.br/index.php/revista_antiga/article/view/251/163 Unidade 8 • A Psicomotricidade enquanto Prevenção e Educação165/172 STAINBACK, S.; STAINBACK, W. (Org.). Inclusão: um guia para educadores. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999. 166/172 1. Antes de começar a fazer as associações e conexões dos outros aprendi- zados, é aconselhado que a pessoa: a) Conheça seu próprio corpo, seus movimentos e o ambiente onde está inserida. b) Conheça seu próprio corpo, mas não seus movimentos e nem o ambiente onde está inserida. c) Não conheça seu próprio corpo, mas conheça seus movimentos e o ambiente onde está in- serida. d) Não conheça seu próprio corpo, nem seus movimentos, mas sim o ambiente onde está inse- rida. e)Não conheça seu próprio corpo, nem seus movimentos e nem o ambiente onde este corpo está inserido. Questão 1 167/172 2. A estimulação psicomotora, na fase pré-escolar e nos anos iniciais, pode auxiliar a evitar que tipos de problemas além dos psicomotores? Questão 2 a) Cognitivos, físicos, esportivos e culturais. b) Cognitivos, motores, afetivos e sociais. c) Cognitivos, adaptativos, raciais e sociais. d) Físicos, psicológicos, culturais e esportivos. e) Motores, esportivos, educativos e raciais. 168/172 3. Qual destas alternativas apresenta em todas as informações exemplos de prática educativa? Questão 3 a) Explanações, disciplina coerciva, estilo negligente, estilo punitivo. b) Demarcação, disciplina coerciva, estilo exagerado, estilo punitivo. c) Explanações, disciplina atrativa, estilo negligente, estilo punitivo. d) Demarcação, disciplina atrativa, estilo negligente, estilo punitivo. e) Explanações, disciplina coerciva, estilo exagerado, estilo com multa. 169/172 4. Marque a alternativa correta. Questão 4 a) Não se trabalha a psicomotricidade na Educação Infantil, pois os alunos são muito pequenos ainda. b) A psicomotricidade pode auxiliar na atenção especificamente na “instabilidade psicomotora”. c) A psicomotricidade influencia a escrita, mas não a leitura. d) A psicomotricidade influencia a leitura, mas não a escrita. e) A psicomotricidade não interfere na matemática. 170/172 5. Quando é possível perceber atitudes como organização, comunicação, cooperação, liderança e rivalidade? Questão 5 a) Durante a explanação do professor sobre esses temas. b) Durante trabalhos individuais que usam o corpo. c) Durante as pesquisas sobre esses temas. d) Durante as atividades em grupo na dinâmica escolar. e) Durante as provas individuais por escrito. 171/172 Gabarito 1. Resposta: A. Antes de fazer as associações e as conexões dos outros aprendizados, é muito importante que a pessoa conheça seu próprio corpo, seus movimentos e o ambiente onde está inserida. 2. Resposta: B. A estimulação psicomotora na fase pré-es- colar e nos anos iniciais pode auxiliar a evi- tar problemas dos tipos cognitivos, moto- res, afetivos e sociais. 3. Resposta: A. Podemos destacar explanações, disciplina coerciva, estilo negligente e estilo punitivo como bons exemplos de prática educativa. 4. Resposta: B. A psicomotricidade pode auxiliar na aten- ção especificamente na “instabilidade psi- comotora”. 5. Resposta: D. Essas atitudes podem ser realizadas durante as atividades em grupo na dinâmica escolar.