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Reumatologia – Bloco 2 Vitória Martins Castro Feitosa Introdução Também são doenças inflamatórias autoimu- nes, o que chamamos atualmente de doença imuno- mediada. Definição São patologias autoimunes que cursam com fraqueza muscular decorrentes da inflamação da mus- culatura estriada. Pode sentir dor também, mas não é o principal sintoma. Tipos • Dermatomiosite. • Polimiosite. • Miopatia autoimune necrosante. • Miosite por corpos de inclusão. • Miopatias associadas a outras colagenoses. • Miopatias associadas a neoplasias. OBS.: as neoplasias devem estar sempre em mente quando vai investigar alguma doença que não tem muita característica. Então, miopatia, fraqueza e au- mento de enzimas musculares podem ser relacionados a uma neoplasia – síndromes paraneoplásicas. Epidemiologia São raras, porém mais comuns que a esclerose sistêmica. Mais prevalente em mulheres, com a exceção da miosite por corpos de inclusão, que é mais comum em homens. Tem dois picos de incidência: 10 a 15 anos e 40 a 55 anos. Fisiopatogenia Não existe, como na maioria das doenças au- toimunes, um motivo exato que possa ser flagrado. Al- guns estudos indicam que exposição a certas infec- ções, radiação e lesão da microvasculatura fazem parte da fisiopatogênese. De um modo geral, inicialmente a PM se carac- teriza por um infiltrado de LTCD8 e macrófagos, com produção de citocinas. Já na DM há participação de LTB, com formação de autoanticorpos e imunocom- plexos. Parecem doenças diferentes, mas levam à mesma sintomatologia – fraqueza muscular. Quadro clínico Sintomas constitucionais • Fadiga, perda de peso, febre e mialgia. muscular • Fraqueza muscular insidiosa, bilateral, simé- trica e progressiva. OBS.: como é insidioso, geralmente, quando o paci- ente procura o médico, já tem certo grau de gravidade. • Normalmente começa em região proximal de MMSS e MMII → próximos a cintura escapular e cintura pélvica. • Disfagia alta (a dificuldade é na transferência do alimento, pois o 1/3 proximal do esôfago é de musculatura estriada e não lisa) – quando tem acometimento GI, principalmente de esô- fago. • Regurgitação nasal e disfonia. pulmão Pode atingir até 47% dos pacientes, sendo o ór- gão interno mais comumente acometido. O quadro clí- nico é progressivo e inclui: • Dispneia, tosse. • Dor torácica. • Diminuição da tolerância aos exercícios. • Insuficiência respiratória. • Pode ter pneumomediastino. O padrão de doença intersticial pulmonar mais comum é o NSIP (pneumonia intersticial não especí- fica). Existe um faveolamento ou infiltrado intersti- cial mais periférico. É em vidro fosco, lembra um pouco a COVID. coração • Distúrbios de condução. articular • Artrite ou artralgia – é não erosiva, apesar de ter padrão reumatoide (simétrica). gastrointestinal • Disfagia. • Úlcera gástrica. malignidades Tem muita relação com malignidades, talvez seja a maior das doenças autoimunes, principalmente nos primeiros 3 a 5 anos. Mais comum em pacientes com DM do que PM. Isso significa que deve sempre fazer o rastreio para malignidades. Em uma mulher, seria a avaliação ginecológica, mamária, TC de tórax... pele É mais característico na DM. Pode ter: • Heliótropo: manchas eritematosas ou violá- ceas peripalpebrais (pálpebra superior e infe- rior), com ou sem edema associado. • Pápulas de Gottron: lesões eritematosas, pa- pulares e maculares em regiões extensoras de metacarpofalangeanas e interfalangeanas. • Sinal de Gottron: apenas eritema, sem mácula ou pápula. • Fotossensibilidade. • Sinal do V e sinal do xale (fotossensibilidade em região dorsal). • Úlceras cutâneas, calcinose e fenômeno de Raynaud. • Hipertrofia de cutículas e eritema periungueal. • Mãos de mecânico: hiperceratose e fissuras em região radial de dedos e mão – fica bem ás- pero. • Sinal de Holster: hiperemia em face lateral de coxas. Critérios de classificação para DM ePM Quando suspeita de miopatia inflamatória, sa- bendo que o maior achado é a fraqueza, tem que lem- brar o que está relacionado à fraqueza. Por exemplo, os exames de CPK, aldolase, DHL, AST e ALT não são específicos, mas são típicos de doença muscular, então fazem parte dos critérios. 1. Fraqueza muscular: proximal e simétrica de MMSS e MMII. 2. Aumento sérico de enzimas musculares: CPK, aldolase, DHL, AST e ALT. 3. Evidência na eletroneuromiografia: avalia con- dução nervosa e contração muscular na região examinada → evidencia padrão miopático. 4. Evidência histológica: biópsia da região → alte- rações que confirmem ou descartem a miopa- tia. OBS.: esses são os 4 critérios principais. Quando se tem DM, existem os achados der- matológicos, que são: heliotropo, sinal e pápula de Go- ttron. Eles são os únicos sinais cutâneos que podem ser considerados critérios. Diagnóstico definitivo dermatomiosite: achados dermatológicos + 3 critérios. polimiosite: 4 critérios. Diagnóstico provável dermatomiosite: achados dermatológicos + 2 critérios. polimiosite: 3 critérios. Outras miopatias Miosite autoimune necrosante É o “tipo de miopatia por droga” – as principais seriam as estatinas (sinvastatina). O paciente vai apre- sentar fraqueza muscular progressiva proximal, mais comum em MMII (pode ter distal também), que per- siste mesmo após a suspensão da medicação. Não é todo mundo que faz miosite autoimune necrosante por estatina que vai ter necessariamente um prognóstico ruim, pode ser que ele tenha certa in- tolerância à estatina e faça uma inflamação que não chegue a necrose. Nesse caso, quando suspende a droga, pode ter recuperação total. Pode ter também a fraqueza cervical e disfagia e a necrose das fibras tem pouca inflamação. É mais comum que a PM. Inicia de forma aguda ou subaguda e acomete qualquer idade, mas pode ter curso indolente, apesar de não ser o mais comum. Pode não ter mialgia e ter associação com cân- cer. Miopatia por corpos de inclusão É a miopatia da 3ª idade – causa mais comum de doença muscular adquirida em > 50 anos, acomete mais homens e os principais músculos afetados são quadríceps e flexores longos dos dedos – pode ter di- ficuldade de fazer a extensão da perna e a flexão dos dedos. Tem fraqueza assimétrica, fraqueza facial em até 55% dos casos (pode ter ptose palpebral bilateral) e camptocormia (fraqueza do pescoço). Fatores de mau prognóstico • Idade avançada ao diagnóstico. • Demora no início do tratamento (> 6 meses). • Acometimento cardíaco e/ou pulmonar. • História pessoal ou familiar de câncer. • Paciente com fraqueza intensa já no início. • Fraqueza proximal e distal dos membros. • Presença de Acs anti-sintetase. • Presença de vasculite, calcinose ou disfagia grave. • Associação com neoplasia. Ou seja, quando tem inflamação mais intensa, neoplasia envolvida ou demora no reconhecimento da enfermidade, tem mau prognóstico. Exames complementares Laboratório • Hemograma: anemia de doença crônica. • Aumento de VHS e PCR: acompanham ativi- dade de doença. • CPK: enzima mais sensível e específica, usada para diagnóstico e acompanhamento, seu au- mento precede a fraqueza e, em geral, sobe 50x o limite superior da normalidade. • Aldolase: pode se elevar em hepatopatias. • DHL, TGO e TGP: auxiliam no monitoramento da atividade inflamatória – resposta terapêu- tica. Anticorpos Miosite específicos Os mais importantes são: anti-Jo1, anti-Mi2, anti-SRP e anti-MDA-5. Quando tem um FAN + de padrão citoplasmá- tico e fecha critérios, faz a pesquisa desses anticorpos mais importantes. Miosite associados São encontrados nas síndromes de overlap. • Anri-Ro: quando é associada a Sd. de Sjogren. • Anti-PM-SCI: associada a ES. • Anti-Ku: associada a escleromiosite. • Anti-UIRNP: LES e DMTC. Não significa LES, está re- lacionado à miopatia au- toimuneEletroneuromiografia Permite classificar, localizar e dimensionar o grau de gravidade. Nas doenças inflamatórias muscu- lares, tem padrão miopático. Ressonância magnética Não é usado na rotina, só usa quando tem alta suspeita clínica, mas não tem outros exames comple- mentares mais indicados com alterações significativas. Ou seja, quando o paciente tem uma fraqueza muito grande e bilateral, mas não altera enzimas, tem ENMG e biópsia inconclusivas. Tem captação de sinal na parte proximal da musculatura → onde tem inflamação. Existe uma patologia chamada dermatomiosite amiopática, na qual tem lesões patognomônicas (heli- otropo e gottron) sem alteração de ENMG ou labora- torial. Ou seja, tem um padrão mais dérmico. Nesses casos, a RNM pode ser útil. Além disso, pode ser usada para direcionar o local de biópsia e distinguir miosite crônica ativa de inativa (sequela ou atividade). Biópsia Define o caráter inflamatório de uma miopatia, é padrão-ouro para polimiosite. O local se dá pela ENMG ou RM. Neoplasias Pacientes portadores de doenças inflamatórias musculares tem maior chance de desenvolver neopla- sias. É mais comum nos primeiros 3 a 5 anos, sendo mais importante no 1º. Os fatores de risco são: lesões cutâneas atípi- cas, VHS persistentemente elevado, tratamento refra- tário, progressão rápida de fraqueza, Acs miosite espe- cíficos (anti-MDA-5), disfagia e ausência de acometi- mento pulmonar. O rastreio é de acordo com a idade e os sinto- mas ou, se de alto risco, rastrear mais cedo. Diagnóstico diferencial Síndrome de sjogren É uma síndrome seca, em que tem um infil- trado linfocitário em algumas glândulas do corpo, principalmente salivares e conjuntivais. Pode tam- bém ter acometimento de órgão interno (pulmão, rim), artrite, FRy. A fadiga intensa e a febre baixa pode ser pródomo de qualquer doença autoimune e se deve a atividade inflamatória exacerbada. Investigar outras causas e acometi- mento de órgão interno Teste de Mingazzini Exemplo: Na miopatia por corpos de inclusão, conside- rando o CPK como exemplo, ele pode chegar até 10x o limite superior de normalidade, mas pode também ser normal – lembre que é a miopatia que dá no idoso. Quando compara com as outras miopatias, geral- mente é 50x o LSN. Tratamento A princípio, paciente com fraqueza, faz corti- coide – prednisona 1mg/kg/dia (dose imunossupres- sora), precedido ou não por pulsoterapia com metil- prednisolona, o que depende da gravidade do sin- toma. Outras medicações imunossupressoras ou imu- nomoduladoras usadas são: Em quadros severos, com até insuficiência res- piratória, pode usar a Ig como medida salvadora. Doença mista do tecido conjuntivo – DMTC São pacientes que exibem características clini- cas de LES, ES, AR ou DM/PM (não consegue fechar di- agnóstico com os critérios), associado à presença do anti-U1RNP em altos títulos. Mais frequente em mulheres entre 20 e 30 anos. Quadro clínico Laboratório Se forem positivos, pode dar diagnóstico de LES, ES ou miopatia. Fala contra lúpus. Diagnóstico Tratamento Praticamente segue o mesmo das miopatias, a depender dos sintomas. Por exemplo, se tem FRy, faz nifedipina (bloqueador do canal de cálcio), se tem dis- fagia, pirose, faz bloqueador H2, pró-cinéticos...