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Artes8,20fícios Eugène Emmanuel Viollet -le-Duc ER1AIS Artes&Ofieios Restauração Eugène Emmanuel Viollet-le-Duc Apresentação e :Tradução Beatriz Mugayar Kühl ReVitirl0 Renata Maria Parreira Cordeiro Ateliê Editorial Viollet-le-Duc e o Verbete Restauração Beatriz Mugayar Kühl Eugène Emmanuel Viollet-le-Duc (1814 — 1879) é uma personalidade sempre presente quando se aborda a questão das teorias de restauro. Foi um autor prolixo e quando se invocam as obras e os escritos desse grande estudioso e teórico de talentos múltiplos, que também abrangiam os de arquiteto, escritor, diretor de canteiros de obras, desenhista, a polêmica é certa. Sua influência r, foi enorme em vários campos e, no que concerne à res- tauração, Viollet-le-Duc imprimiu uma marca pessoal e indelével. Viollet-le-Duc nasceu no seio de uma família bur- guesa de estável posição. Seu pai era Emmanuel Viollet- le-Duc, um funcionário público, bibliófilo, com sólida carreira, e sua mãe, Eugénie Delécluze, cujo irmão, 10 • Eugène Emmanuel Viollet-le-Due Restauração • 11 Etienne Jean Delécluze, era um pintor formado no ate- liê de David e crítico de arte. Eugène vinha, pois, de um meio que cultivava a cultura e as artes. Freqüentavam sua casa, principalmente o apartamento de seu tio, ar- quitetos, pintores, historiadores, escritores, dentre os quais Prosper Mérimée e Ludovic Vitet, que posterior- mente teriam grande importância no desenvolvimento profissional do jovem Eugène. Viollet-le-Duc atuou numa época em que a restau- ração se estava firmando como ciência e seu papel foi de grande relevância. A partir do Renascimento, em que era notável o crescente interesse pelas construções da Anti- güidade, as noções ligadas ao restauro foram definindo- se e esse movimento acentuou-se com as grandes trans- formações que ocorreram na Europa no século XVIII — tais como o advento da chamada Revolução Industrial e as profundas mudanças por ela acarretadas, o despontar do Iluminismo, a Revolução Francesa — que alteraram de forma dramática o modo como uma dada cultura se rela- cionava com o seu passado, provocando o despertar da noção de ruptura entre passado e presente e produzindo um sentimento de proteção a edifícios e ambientes his- tóricos em vários estados europeus. Na França, no período pós-revolução, numerosos e notáveis edifícios medievais foram destruídos. Os rela- tórios sobre o vandalismo apresentados pelo abade Gré- goire na última década do século XVIII tiveram grande importância e influíram nas primeiras medidas oficiais tomadas por um Estado moderno com o objetivo de pre- servar monumentos históricos. O panorama cultural da e VI a nça do início do século XIX era ainda dominado pela I igura de Antoine Quatremère de Quincy e pelos ideais clássicos. A arquitetura oficial seguia uma estética dita acadêmica, de derivação clássica, mas que comportava múltiplas faces, com diversas correntes, tais como as neopalladianas e as neogregas. Mas, concomitantemente, aumentava o interesse pela g_r_u_rite_p_. a medieval, que fora desconsiderada durante séculos, dando origem a vá- 1 rios estudos sobre o tema nos anos 1820 e 1830. Por muitos ela era encarada como uma verdadeira manifes- tação do gênio nacional, em oposição à arquitetura aca- dêmica. É interessante, no entanto, lembrar que esse não( era um fenômeno exclusivamente francês e que em ou- tros países estudos mais consistentes sobre o gótico co- meçaram no século anterior como, por exemplo, na In- glaterra e na Alemanha. Foi nesse ambiente, em que novas idéias despon- tavam, em que a arquitetura gótica se revestia de um caráter nacionalista, em que se buscavam novos cami- nhos para a produção arquitetônica e em que a restaura- ção se estava estabelecendo como uma ciência, que Viollet-le-Duc se formou, e sobre o qual, por sta_a_y_ea, exerceria grande i n fl Uêtic i a. O período cru que Viollet-le-Duc iniciava seu< — caminho como arquiteto, os anos 1830, foi, pois, rico em debates sobre as artes em geral e sobre a arquitetura em particular, e eram grandes as controvérsias. Nessa épo- ca, e principalmente após 184.0, também se iniciava a 1 2 • Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc sistematização da formação do arquiteto na França e se multiplicavam as revistas de arquitetura. Quando Viollet-le-Duc terminou seus estudos ge- rais, o encaminhamento desejado por seu tio seria a Es- cola de Belas-Artes, mas ele se recusou a seguir uma forma de estudos que considerava ultrapassada e petri- ficada, e procurou aprender a prática da arquitetura tra- balhando para dois arquitetos que freqüentavam as reu- niões em sua casa, Jean-Jacques Huvé e Achille Leclère. Foi então que Viollet-le-Duc começou a viajar, de- sejando conhecer melhor a França. Em 1831 deixou por alguns meses o ateliê de Huvé, e acompanhado de Delé- cluze deu um giro pelo país. Partiu novamente em 1832, sozinho, pela Normandia e ainda uma vez em 1833, com o músico Emile Millet, por cinco meses. EssaLsviAgris aumentaram o seu interesse e seu conhecimento em re- _—__ lação à arquitetura medieval. Descontente em ambos os ateliês, assumiu em 1834 o posto de professor suplente na Escola de Desenho, que posteriormente se tornaria a Escola de Artes Decorativas, à qual permaneceria liga- do até 1850. Em 1836, já casado e pai de família, viajou para a Itália com o desenhista Léon Gaucherel, e juntos fizeram a pé uma volta pela Sicília. Conheceram também outras localidades, tais como Nápoles, Pompéia, Pestum, Ro- ma, Livorno e Pisa. Retornaram a Roma e Viollet-le-Duc ali ficou por seis meses. Nessas andanças, aprofundou seu conhecimento sobre a arquitetura clássica em geral, i e sobre a arquitetura grega em particular, cujo modelo Restauração • 13 e i de construção o fascinou. Foi também a Veneza, onde se maravilhou com o Palácio dos Doges. Nessas viagens< pela Franç_p_ela Itália, consolidou a noção, que se tor- - - - - -- -- -- r) . I medievo, nou urna certeza, de que existem princípios verdadeiros de adequação da forma à função, da estrutura à forma, e da ornamentação ao conjunto, seja na arquitetura clás- sica, seja na arquitetura medieval. Voltando a Paris, Viollet-le-Duc assumiu o cargo de subinspetor, ligado à arquitetura oficial, tornando-se, em 1838, auditor no Conselho de Construções Civis. Os debates sobre a arquitetura medieval tomavam maior vulto e o destino de edifícios do período, tão sacri- ficados no decorrer do século XVIII e início do séculó XIX, se tornou objeto de preocupação. Havia a participa-+ ção de profissionais de variadas formações, com muitos autores reconhecendo a beleza e racionalidade da arte do sendc . de grande importância os escritos de Victor Hugo, e os do arqueólogo Arcisse de Caumont. Uma obra de restauração que teve grande influên- cia sobre o restauro e sobre o próprio movimento neo gótico foi a da Sainte Chapelle, iniciada em 1836. O tra- balho foi confiado a Félix Duban, assistido por um dis cípulo de Henri Labrouste, Jean-Baptiste Lassus. Foi uma restauração em que se procurou ser fiel aos documentos e aos indícios existentes e que se constituiu em um ver- dadeiro laboratório experimental. Viollet-le-Duc dei _ _ participou como adjunto de Lassos. _ A preocupação com monumentos adquirira maior importância e Ludovic Vitet foi nomeado em 1830 ins- 14 • Eugène Emmanuel Viollet-le-Due petor geral dos monumentos históricos. Um de seus ob- jetivos era centralizar e regularizar as intervenções em edifícios de valor histórico. Fez várias viagens, princi- palmente pelos departamentos do Norte da França, e ela- borou relatórios que teriam grande repercussão, revelan- do muitos dados e edificações até então esquecidos ou pouco conhecidos. Em 1834 Vitet abandonou o posto para assumir o cargo de secretário geral no Ministériodo Comércio, sendo substituído por Prosper Mérimée. Em 1837 foi decidida a criação de um conselho de especialistas para auxiliar e ladear o inspetor geral, dan- do origem à Comissão dos Monumentos Históricos, sen- do nomeado presidente Etat Vatout, que era também o presidente do Conselho de Construções Civis. Vitet foi escolhido vice-presidente e Mérimée, secretário, A Comissão selecionou arquitetos que eram desig- nados para dirigir as obras e assim, em fevereiro de 1840, Viollet-le-Duc foi indicado pelo Ministro do Inte- rior, por recomendação de Mérimée, para restaurar a Igreja de Vézelay. Até então, Viollet-le-Duc não possuía experiência em restauro (sua nomeação para participar das obras da Sainte Chapelle data de novembro daquele ano). Não deixou de ser uma surpresa a sua escolha, principalmente por se tratar de um projeto complexo e difícil que fora recusado por dois outros arquitetos. ---> A partir de sua atuação bem-sucedida em Vézelay ,, ink r os trabalhos se multiplicaram. Em 1842 foi convidado por Lassus para participar do concurso para a restaura- ção de Notre-Dame de Paris, e em 1844 o projeto deles i 41.1 i* eili i • Restauração • 15 foi o escolhido. Participou também de várias missões para o Serviço dos Cultos. Em seguida, iniciou o projeto de Saint-Sernin de Toulouse, e em 1846, já reconhecido como um grande especialista da restauração, foi nomea- do para a abadia de Saint-Denis. Uma particularidade dos serviços de restauração franceses no período era o fato de as igrejas serem de responsabilidade do Serviço dos Cultos, que possuía um corpo próprio de profissionais, enquanto os "outros" mo- numentos eram ligados à Comissão dos Monumentos Históricos. Uma união entre os dois serviços só ocorre- ria com a separação definitiva entre a Igreja e o Estado, no início do século XX. Os dois grupos de arquitetos fo- ram então unificados, passando a atuar sobre as grandes igrejas e sobre os "outros" monumentos históricos, que constituíam um conjunto mais amplo de edifícios de va- fiados tipos e épicas. Em 1848 a administração dos Cultos criou a Comis- são das Artes e Edifícios Religiosos, para a qual foram chamados Mérimée e Viollet-le-Duc, que ali passou a dedicar grande parte de seu trabalho. Em 1853 Viollet- le-Duc foi nomeado, juntamente com Léon Vaudoyer e Léonce Reynaud, inspetor geral dos edifícios diocesa- nos, formando um comitê que detinha a autoridade so- bre a avaliação dos projetos de restauração. Sua ação passou a englobar, dessa forma, não apenas alguns edi- fícios esparsos, mas muitas igrejas da França, par- ticipando da avaliação dos projetos de restauração e elaborando alguns deles, a exemplo dos planos para a 16 • Eugène Emmanuel Viollet-le-Due Catedral de Amiens e tendo influência decisiva sobre o futuro de muitas delas. Nesse período sua obra teórica também vai tomando corpo, formulando reflexões agudas sobre o papel do arquiteto e suas condições de trabalho, que influíram nas reformas que alteraram os honorários dos arquitetos em suas missões para o Serviço. Em 1849 foi publicada uma instrução técnica, elaborada conjun- tamente por Viollet-le-Duc e Mérimée, sobre a restau- ração dos edifícios diocesanos, cujo texto foi difundido - entre os seus arquitetos. Nela foram recomendadas ma- nutenções periódicas para evitar as restaurações, e fo- ram expostas questões práticas e técnicas, tais como: o modo de fazer o levantamento, de analisar, e de verifi- car as causas mais comuns de degradação; as maneiras de talhar pedras e de fazer rejuntes; explicações sobre as técnicas medievais. E também, e principalmente, in- dicações de como restaurar um edifício. Foi um texto fundamental que exerceu enorme influência na formação dos profissionais que trabalhavam na restauração. Ao mesmo tempo, continuou executando trabalhos para a Comissão dos Monumentos Históricos, a exemplo das obras para Carcassonne. Apesar de nunca ter sido inspetor geral dos monumentos históricos, foi designado em 1860 membro da Comissão, tendo também grande influência sobre seus arquitetos. Se a instrução técnica, circulares e relatórios per- maneceram restritos a um certo círculo de profissionais, outros de seus escritos, em compensação — principal- mente os Entretiens sur l'Architecture, publicados entre Restauração • 17 1863 e 1872, e o Dictionnaire Raisonné de l'Architecture Française du XI au XVI' Siècle, publicado em dez volu- mes entre 1854 e 1868 — teriam difusão muito maior, tanto na França quanto no exterior. Nesses textos foram expostos seus conhecimento- t sobre a arquitetura e análises sobre as formas de cons truir, apresentando reflexões sobre a racionalidade, . adequação de materiais/formas/funções e estruturas, foram propostos novos caminhos para a arquitetura de período. Tiveram importância fundamental para a difu são de princípios racionais de construção e na propagaçã da idéia de que o verdadeiro futuro da arquitetura estari. em se estabelecer um sistema tão coerente, coeso, racio nal e eficiente quanto aquele da arquitetura gótica. No Dictionnaire, ele expõe de forma pormenoriza- da seus aprofundados conhecimentos sobre a arquitetu- ra medieval, utilizando a ilustração como contraponto de suas teses e vice-versa. Dentro do universo da arquite- tura gótica, concebe um sistema ideal de correspondên- cia entre forma, estrutura e função, formando um siste- ma lógico, perfeito, e fechado em si. Essa sua tendência _- de encarar um dado objeto segundo uma alizada se verifica tambémriaregauração. Esse tema foi tratado de forma esparsa em vários dos verbetes, mas a principal formulação está no artigo "restauração", cujo notório início se dá em tom dogmático: A palavra e o assunto são modernos. Restaurar um edifício não é mantê-lo, repará-lo ou refazê-lo, é restabelecê-lo em um estado com- pleto que pode não ter existido nunca em um dado momento. 18 • Eugene Enunanuel Viollet-le-Duc No Dictionnaire são apresentadas as formulações teóricas de suas experiências práticas e não é de se sur- preender que várias das recomendações possam ser ve- uvOr\ rificadas em suas obras de restauro, que muitas vezes resultaram em intervenções incisivas, fazendo largo uso de reconstituições ou mesmo "corrigindo" o projeto onde ele se mostrava defeituoso. O • • Os primeiros preceitos genéricos sobre a restauração de monumentos apareceram na França já no século XVIII. O exercício teórico das reconstituições, por sua vez, era algo com tradição, fazendo parte do trabalho dos pensio- nistas na Academia de França em Roma, que tinham que estudar monumentos da Antiguidade Clássica, fazer o seu levantamento e elaborar reconstituições hipotéticas. Viollet-le-Duc, porém, passa do exercício teórico à prática em edifícios medievais. Procura entender a lógi- ca da concepção do projeto que, quando compreendida *v como um todo, daria respostas unívocas. Não se conten- ta unicamente em fazer uma reconstituição hipotética do ,vr estado de origem, mas procura fazer uma reconstituição daquilo que teria sido feito se, quando da construção, detivessem todos os conhecimentos e experiências de sua própria época, ou seja, uma reformulação ideal de um dado projeto. O seu procedimento se caracterizava por, inicialmente, procurar entender profundamente um sistema, concebendo então um modelo ideal e impondo, a seguir, sobre a obra, o esquema idealizado. r' Esse método foi algo que ele aplicou efetivamente em muitas de suas restaurações, sem o respeito que mui- Restauração • 19 tos de seus contemporâneos, na França e em outros paí- ses, tinham pela matéria, pela configuração original e pelas transformações da obra no decorrer do tempo. Al- gumas vezes alterou partes originais que considerava "defeituosas", em vários exemplos não respeitou modi- ficações posteriores,buscando a pureza de estilo, e não se acanhava em fazer reconstituições de grande exten- são. Sua relativa falta de cerimônia em relação ao pre- existente era algo bastante diferente da prudência apre- sentada nas obras e nas justificativas para o projeto de Notre-Dame de Paris, cujo texto sofreu provavelmente grande influência de Lassus. A posição de Viollet-le-Duc era diametralmente '" • -̀'4' oposta à de John Ruskin que, na Inglaterra, em 1849, publicara The Seven Lamps of Architecture em que faz pesadas críticas às restaurações. Ruskin era o expoente de um movimento 'que pregava absoluto respeito pela matéria original, que levava em consideração as trans- formações feitas em uma obra no decorrer do tempo, sen- do a atitude a tomar a de simples trabalhos de conserva- ção, para evitar degradações, ou, até mesmo, a de pura contemplação. Ambas as posições exerceram enorme influência, não apenas em seus próprios ambientes, mas também em outros países e foram as posturas consagradas pela historiografia das teorias de restauro. É interessante, porém, enfatizar que mesmo nos respectivos meios dos dois eminentes teóricos havia atuações seguindo pre- ceitos diversos. Na França, por exemplo, muitos outros 20 • Eugène Emmanuel Viollet-le-Duc Restauração • 21 autores eram mais "prudentes" do que Viollet-le-Duc, alguns como o próprio Lassus, que procurava respeitar a concepção original, aindagueffdefeituosa", ou mes- mo V ictor Hugo que clamava pela conservação das obras como chegaram aos seus dias, com todas as mo- dificações por que passaram. Mas as obras que Viollet-le-Duc realizou em suas funções como arquiteto diocesano e na Comissão dos Monumentos Históricos, a grande ascendência que teve sobre a formação de muitos arquitetos desses serviços, a influência de seus textos na França e no exterior, inclu- sive na Grã-Bretanha, o tornam um nome que não se pode ignorar quando se trata da restauração de monu- mentos históricos. Viollet-le-Duc acabou por se demitir de sua função em 1874 por vários motivos, entre eles por se opor à po- lítica religiosa do governo e pelos problemas que teve em relação à oposição ao seu parecer para a Catedral de Evreux. Viollet-le-Duc construiu sua teoria de restauro sobre certezas, baseado em aprofundados estudos arqui- tetõnicos, e não gostava de ser contrariado,denions- trando algumas vezes uma tendência à obstinação e à onisciência. O arquiteto responsável pela Catedral de Evreux, Denis Darcy, elaborou em 1872 um projeto em que propunha, entre outras coisas, a reconstrução das partes superiores das naves, abóbadas e a modificação do sistema de arcobotantes, concebendo uma solução diversa da existente, com a supressão dos arcobotantes superiores (eram arcobotantes duplos), a reconstrução dos pináculos e a adição de gárgulas. Idealizou assim um sistema engenhoso de distribuição das cargas e escoa- mento das águas mas que não tinha relação com o pre- existente. Houve grande oposição e pressão de vários se- tores contra as modificações projetadas por Darcy, que Viollet-le-Duc apoiava. Após meses de discussão, as obras foram retomadas segundo os preceitos de Darcy, e foram concluídas em 1887. A forma incisiva (e invasiva) de Viollet-le-Duc atuar sobre um monumento, seus numerosos seguido- res e as transformações por que foi passando a teoria e a prática da restauração durante os séculos XIX e XX, acabaram por condenar a sua forma de intervenção. De certa forma ele se tornou o "vilão" da história. Viollet- le-Duc concebeu uma teoria racional, coesa, cabal, dogmática, e pela antipatia que se foi desenvolvendo posteriormente Pela sua postura de pouco considerar os materiais, a concepção original e as mudanças por que passou a construção, pelo aspecto por vezes abusivo de suas restaurações e de seus seguidores (dada a nos- sa atual concepção sobre o tema), seus princípios teó- ricos foram relegados ao ostracismo durante um longo período. Apenas mais recentemente seu papel como um dos "apóstolos" do neogótico, como o teórico de uma nova arquitetura, e como restaurador passou a ser reavaliado, principalmente após o centenário de sua morte, cuja co- memoração incluiu uma exposição e o Colóquio Interna- cional Viollet-le-Duc, realizados em Paris em 1980. 22 • Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc Quanto à sua faceta de restaurador, a mais_po_lêmi- ca delas, seria interessante, antes de mais nada, avaliá- la dentro dentro do contexto em que foi produzida, to de de "redescoberta" e de grande apreciação dasguali- clades da arquitetura medieval — e Viollet-le-Duc teve papel fundamental no estudo e difusão de conhecimen- tos — e um período em que se verificaram as primeiras tentativas metódicas de restauração de obras considera- das monumentos históricos, sistematização que não Unha precedentes e que se estava formando na época. Apesar da reapreciação recente de sua obra, ela está longe de estar livre de polêmicas e nem por isso o arqui- teto passou a ser insensado — haja vista a controvérsia em torno da "desrestauração" da igreja Saint-Sernin de Toulouse, em que um princípio "leduciano" dos mais con- trovertidos, o de desrespeitar o estado existente_para vol- tar a um estágio anterior ou a um estado considerado mais correto, foi usado "contra" uma obra do própj_io_Vi_dlet- le-Duc. Os trabalhos de Viollet-le-Duc para a igrej_a__de Saint-Sernin começaram em meados do século XIX e acarretaram numerosas mudanças, a maior delas consis- tindo na supressão das adições góticas para se obter um românico puro. Na execução da obra, no entanto, nem todo o plano do arquiteto foi seguido. Na recente "desres- tauração" procurou-se retornar ao estado da obra antes de 1860 e para isso existia um levantamento pormenori- zado feito pelo próprio Viollet-le-Duc e também fotogra- fias. Nem todos os elementos, porém, foram reconstituídos segundo a documentação disponível, havendo algumas al- Restauração • 23 terações em relação ao estado pré-Viollet-le-Duc. Hou- ve muitas discussões em relação a essa intervenção, cujas obras tiveram que ser interrompidas em 1989-1990, mas que depois foram retomadas e concluídas. Esse é um dos exemplos das controvérsias e da pai- xão que até hoje marcam os debates sobre as obras e idéias de Viollet-le-Duc e a polêmica que causou e ain- da causa é proporcional à grandeza de sua produção. Pela antipatia criada em relaçã_ o às suas obras como _ restaurador, muitas vezes deixou-se . de apreciar a coe-.. _ _ _ rência de suas formulações teóricas, seus aspe .ctos ino- vadores, e seus muitos aspectos ainda atuais. Suas mais _ _ conhecidas formulações sobre a restauração estão enun- ciadas no Dictionnaire, principalmente no verbete Res- tauração (apesar de outros de seus textos, mesmo no pró- prio dicionário, se referirem ao tema). Entre as questões de grande atualidade podem ser citadas: o fato de reco- -- - Adiei -1. mendar que se deva restaurar não apenas a aparência clo t,, ,C., _ edifício, mas também a função portanle de sua estrutu- __. _ .._ o ra; procurar seguir a concepção de origem para resolver eifin- 4-4-7,' - , os problemas estruturais; a importância de se fazer_ le- vantamentos pormenorizados da situação existente; agir _. somente em função das circunstâncias, pois princípios ... .... ......._._ absolutos podem levar aoabsurdo; a importância da reu-....... _._. .. tilização para a sobrevivência da obra, pois restaurar não __. _ é apenas uma conservação da matéria, mas de um espí- rito da qual ela é suporte. O texto comporta, como qualquer escrito, várias lei- turas e interpretações. Um modo é analisá-lo confrontan- 24 • Eugène Eminanuel Viollet-le-Due do a teoria de restauro de Viollet-le-Duc com as obras em que atuou, verificando se uma é . o alimento da outra e vice-versa, procurando observar até que ponto ele usa ateoria para justificar a sua própria atuação como arqui- teto. É possível, também, entre outras possibilidades, abstrair as referências diretas à sua ação de arquiteto restaurador, procurando ler o texto de forma isolada, ao pé da letra. É nesse caso que algumas de suas recomen- dações parecem, para a nossa visão tão preconceituosa em relação às restaurações do notável teórico, estranha- mente sábias, ponderadas e atuais. Desse modo, parece oportuno apresentar esta tra- dução do verbete Restauração para que se possa ofere- cer uma idéia mais imparcial de sua teoria, deixando que o próprio Viollet-le-Duc exponha suas concepções, e para que se possa apreciar toda a grandeza de seu texto. 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