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Hemorragia digestiva Autor: Pedro V.F. Medrado Qualquer sangramento do trato gastrointestinal (TGI) Hemorragia Digestiva Alta – esôfago, estômago e duodeno · Varicosa · Não-varicosa Hemorragia Digestiva Média – tem sua origem entre o ângulo de Treitz e a válvula íleo-cecal – delgado Hemorragia Digestiva Baixa – cólon, reto e ânus – distal a válvula íleo-cecal Hematêmese (rutilante em ‘vermelho vivo’ ou coagulado em ‘bora de café’) e Melena (fezes pretas, liquidificadas e fétidas, devido a sangue digerido) – Hemorragia digestiva alta – EDA Hematoquezia e Enterorragia – Hemorragia digestiva média e baixa. Ângulo de Treitz – liga a IV porção duodenal com a I porção jejunal Hemorragia digestiva alta (HDA) Mesma mortalidade há 40 anos (8-10%), com incidência de 50-100 por 100.000 habitantes/ao ano. Está aumentado com a idade, acima de 65 anos responde por 30% dos casos – Idosos (polifarmácia, trato digestivo superior mais suscetível à hemorragia digestiva alta). São de vários tipos de apresentação, mas em 80% são causas autolimitadas Sinais e sintomas de perda sanguínea · Aguda – sinais de choque hipovolêmico · Crônica – anemia recorrente, síncope postural, dispneia, taquicardia, mal-estar até angina. Avaliação inicial · Anamnese – ingestão alcoolica, tentativa de autoexterminio, ingestão de corpo estômago, cirurgias recentes (bariátrica), portador de alguma hepatopatia, tem histórico de UP, histórico de sangramentos anteriores. Perguntar se o sangue deu para encher uma xícara, o aspecto do sangramento, a característica se era em vulto... · Exame físico de entrada (sinais vitais, PA, pulso) – graduação do choque · Laboratoriais (VG e Hb) – parâmetros · Reposição volêmica – a depender da perda · Monitorização cardíaca, diurese, VG e Hb · Apresentação do sangramento – em jato, em vulto, as características. · Sangramentos anteriores · Uso de AINES – idosos 80% dos sangramentos por UP · Álcool · Doenças pregressas: coagulopatias · Cirurgias TGI anteriores · Ingestão de cáusticos Severidade hemodinâmica da Hemorragia GI aguda - Nenhuma mudança dos sinais vitais e posturais menos de 10% de perda de sangue - Alteração dos sinais vitais posturais de 10 a 20% de perda de sangue - Alteração hemodinâmica mais de 25% de perda de sangue - A estimativa de perda de sangue é baseada nos achados clínicos Choque hipovolêmico Choque discreto – perda volêmica de menos de 10% · FC < 100 bpm · PAS > 100mmHg · Volume Globular >30% Choque moderado – perda volêmica de 10 e 20% · FC entre 100 e 120 bpm · PAS entre 80 e 100 mmHg · VG entre 20 e 30% Choque grave – perda volêmica de mais de 25% · FC acima de 120 bpm · PAS abaixo de 80 mmHg · VG abaixo de 20% Pacientes que fogem dessa classificação: · Paciente em uso de Betabloqueador (modifica a FC), marca-passo, atletas de alta performance (alto rendimento com pouca exigência da máquina), crianças (FC elevada por si só), gestantes do último trimestre de gravidez (tem alta volemia). Graduação do choque - avaliar a pressão arterial e a frequência cardíaca · Hipotensão ortostática – Queda de 20 mmHg na PAS e Aumento da frequência 25 bpm – perda aproximada de 1000 mL · Choque – PAS <90 mmHg – perda sanguínea estimada em 1.500 mL ou mais Situações de risco · Idade >70 anos · Doenças graves associadas (DPOC, cardiopata ou histórico de IAM) · Sangramento hospitalizada · Hematêmese de vulto · Melena persistente (é importante fazer limpeza do intestino, sobretudo em hepatopatas pois pode absorver e precipitar uma encefalopatia) · Enterorragia de vulto · Hipotensão postural · PAS<100 mHg e pulso>100bpm · Ressangramento Abordagem inicial Encaminhamento diagnóstico – clínico, endoscópico e cirúrgico · Acesso venoso – 2 acessos calibrosos em ambos membros superiores, para aumentar o volume de infusão · Reposição volêmica · Cristaloide – primeira escolha nas HDA’s causadas por DUP – Ringer Lactato (melhor solução por se parecer melhor com a composição líquido do sangue) > Ringer simples (sem lactato) > Soro fisiológico (0,9%) > Solução glicosada (última opção, infiltra o paciente devido ao alto consumo metabólico da glicose pelo paciente) · Colóides – raramente usado · Plasma fresco e congelado – cirróticos e coagulopatas, ou fator de coagulação específico para coagulopatas. · Plaquetas – contagem <80.000, 1U (+8000 plaquetas) · Grau III pode fazer ou não, o grau IV é mandatório fazer · Concentrado de hemácias – sangramentos de monta – transporte de O2 · VG < 25% ou Hb < 8g/dL · Usado em sangramentos maciços e choque · Sinais e sintomas de má perfusão · Idoso, cardiopatia e DPOC é usado se o VG estiver abaixo de 30% · 1 U (unidade de concentrado) equivale a um aumento de + 3% no VG · 3 U equivale a um aumento de +9% – associar 1 plasma mais 1 ampola de Gluconato de cálcio (quelante de ácido cítrico usado para conservação das hemácias) · Sonda nasogástrica – quase não é usado para diagnóstico · Controvérsia – gastrite mecânica · Lavado gástrico com solução fisiológica (gelado) · Dieta zero · Medicamentoso Fatores associados a alta mortalidade por hemorragia GI superior aguda · Idade>60 anos · Estados clínicos co-mórbidos · Hipotensão persistente – paciente irresponsivo* · Paciente responsivo: paciente chega com choque hipovolêmico, repõe volume e o paciente normaliza, e assim permanece. · Parcialmente responsivo: a pressão sobe na reposição, mas ela volta a cair · Paciente irresponsivo*: mesmo fazendo reposição, a pressão continua baixa · Necessidade de cirurgia de emergência · Características endoscópicas · Hemorragia por malignidade – neoplasia nunca vai levar a choque · Hemorragia varicosa · Vaso visível sangrando ativamente · Vasos visíveis não-sangrando Como diagnosticar a origem do sangramento? Etiologia do sangramento alto agudo – baseado na epidemiologia, a grande maioria é a doença ulcerosa péptica e as varizes esofágicas Varizes de esôfago explicação: a veia porta é uma veia avalvular, e tal reverte o fluxo devido resistência do fígado, recanaliza a gástrica esquerda que vai para o sistema ázigos, e faz uma dilatação das veias submucosas do esôfago distal ou fundo gástrico. A Sonda Nasogástrica (NSG) quase não é usada, exceto em locais sem uma estrutura para uma endoscopia/cirurgia · Pode ser usada para limpeza, retirada de coágulo e facilitação da visualização para a cirurgia. · Sua controvérsia é o risco de gastrite mecânica · O lavado gástrico com solução fisiológica gelada é ineficaz, além de causar riscos, tais como: · Hipotermia · Pneumonia por aspiração · E piora do sangramento – isquemia transitória e ressangramento de reboot Diagnóstico – Endoscopia Digestiva Alta (EDA) – padrão ouro (Gold standart) · Diagnóstico etiológico e orientação terapêutica · Local do sangramento – fundo gástrico, ou varizes de esôfago distal, parede anterior ou posterior · Volume do sangramento · Coágulos ou não · Hematinas ou não · Úlcera ou varizes · Possibilidade de terapêutica – clipe gástrico, e procedimentos hemostáticos · Valor prognóstico de recidiva · Tem baixos índices de complicações – tratamento clínico e cirurgia Varizes esofagianas · Responde por 24,3% das HDA · É variável conforme região · É agressiva e em grande volume · Exige uma imediata abordagem endoscópica · Outras opções de tratamento – Balão de Sengstaken-Blakemore (sonda de duplo-balão) · Inserida pelo nariz até chegar no estômago, possui três orifícios – um para inflar o balão do esôfago (60 ml), outro para inflar o balão do estômago (120ml) e outro para fazer o lavado gástrico. · Depois é preciso desinsuflar para evitar risco de isquemia de mucosa gástrica. Gastrite/duodenite hemorrágica · Lesões hemorrágicas difusas · Stress fisiológico · Difícil tratamento endoscópico – “micro-hemorragias” em aspecto de melancia que sangram muito Erosão de Mallory-Weiss · Lesão do esôfago distal, fundo e cárdia · Pós-vômitos excessivos, após uma ingestão de álcool – alta pressão rasga a mucosa. · 60-80% tem resolução espontânea · Associado à ingestão de álcool · Quimioterapia · 70% em homens Neoplasiasmalignas · Raramente provocam um sangramento grave · Necrose e ulceração da mucosa · 2-3% dos casos de HDA · Tratamento a Laser. Quando indicar a terapia endoscópica? Classificação de Forrest (Ia, Ib, IIa, IIb, IIc e III) Recomendações gerais para HDA Grave · Proteger as vias aéreas, se necessário · 2 Acessos venosos (noº 18, 16 ou 14) · Intracater nunca, pois é longo e fino (velocidade de infusão baixa). · Preferir curto e grosso, jelco ou escalpe 19. · Ressuscitar com cristaloides (RL, Rs ou SF) ou derivados do sangue · Instabilidade hemodinâmica (ou paciente com muita anemia) – UTI ** · Tratar empiricamente com supressão ácida (sem história de hepatopatia) ** · Terlipressina ou Octreotide (se suspeita de hepatopatia crônica) ** · Substâncias que dão vasoconstricção nas áreas não nobres (esplâncnica), favorece o controle do sangramento. · Corrigir coagulopatia – de preferência com os fatores de coagulação deficitários do paciente · Solicitar parecer de especialistas – se ele cirurgião ou endoscopista Informação adicional importante ** Se o paciente tiver história de hepatopatia, a primeira coisa é não repor tudo que ele sangrou (levemente hipotenso – em torno de 100 mmHg), se tiver acima de 120 mmHg ele vai voltar a sangrar. · O importante para manter a volemia dele, isto é a integridade dos órgãos nobres – pulmão, coração e cérebro. · Por isso o uso da Terlipressina ou Octreotide Métodos endoscópicos · Terapias não-térmicas · Terapia de infiltração (esclerose) · Usados adrenalinas, álcool, solução salina ou trombina que produzem compressão do vaso, vasoconstrição, agregação plaquetária, trombose arterial e venosa · Terapia mecânica – kit de 7 bandas de borracha com um tubo aspirativo, e por fora desliza e amarra a varizes · Ligadura elastiva de varizes ou hemoclipes · Há dificuldade na aplicação de ‘clips’ quando há fibrose da parede da úlcera, partirculamente em posições tangenciais ou quando o endoscópio está na posição de retrovisão. · A eficácia dos clipes é maior para úlceras agudas e com estigmas de sangramento ativo · SÓ SERVE PARA VARIZES DE ESÔFAGO, varizes de fundo gástrico não se faz ligadura e nem usa hemoclipe, nesses só se usa histoacril (uma resina que endurece a veia - cianoacrilato) · Terapia combinada · É caracterizada pela combinação dos diferentes métodos, em geral, injeção e alguma outra técnica · Sugere-se que a terapia combinada seja o tratamento de escolha em úlceras com alto risco de ressangramento. · Usado principalmente nas VARIZES DE ESÔFAGO seguido de ligadura. · Terapias térmicas · Bisturi de plasma de argônio · A energia térmica pode ser transmitida sem o contato entre o cateter e o tecido - o bisturi de argônio (APC) é um dos exemplos. · Heat Probe Fatores preditivos para a falha do tratamento endoscópico** · Choque hipovolêmica – falseia o endoscopista, pois não está mais sangrando pois não tem mais sangue. · Doenças associadas – IAM, DPOC, cardiopatas · Localização da úlcera na pequena curvatura alta e parede posterior do duodeno – difícil de reposicionar o endoscópio · Úlcera>2cm – úlcera com alta probabilidade de ressangrar · Hemorragia ativa na endoscopia diagnóstica – jato grande -**Identificar alguns desses fatores preditivos necessita de internação em unidade de cuidados intensivos e o reexame endoscópico programado (“second look”) – com 12 e 24 horas. Ressangramento após hemostasia endoscópica inicial · Por definição o paciente apresenta vômitos com sangue vivo, OU · Hipotensão (PAS <90mmHg ou pulso> 110bpm) e melena, OU · Quando são necessárias transfusões de 4 ou mais unidades de concentrado de hemácias nas 72horas após o tratamento endoscópico. Quando pedir uma segunda endoscopia nos pacientes que tem tratamento de úlcera? A grande maioria do ressangramentos ocorre nas primeiras 24 horas e somente 5% após 72 horas, após esse intervalo os pacientes podem receber alta hospitalar Essa segunda endoscopia deve ser solicitada com 12 a 24 horas. É necessário quando o tratamento endoscópico inicial não foi bem sucedido, ou seja, houve falha no tratamento endoscópico inicial. TERAPÊUTICA CIRURGICA É uma indicação conjunta, sempre, decisão do intensivista, do endoscopista e do cirurgião. O perfil do serviço de atenção à saúde deve ser levado em consideração Quando indicar o tratamento operatório da úlcera péptica hemorrágica? – Critérios de indicação cirúrgica · Persistência do sangramento, apesar das medidas clínicas ou hemorragia refratária ou inacessível ao TTO endoscópico · Choque hipovolêmica que tenham recebido transfusão > 4unidades · Mais de 50 anos com sangramento intenso e repercussão hemodinâmica · Sangramento recente por UGD, mesmo que tenham respondido na ocasião as medidas conservadoras · Tipo sanguíneo raro, ou sensibilizados por transfusões prévias ou por motivos religiosos · Doentes com afecções graves, ou função limítrofe de outros órgãos, cuja descompensação possa levar risco cirúrgico Contraindicações à cirurgia · Insuficiência cardíaca ou respiratória grave · Doença neoplásica terminal · Cirrose hepática descompensada · Eventuais afecções em fase terminal Aspectos técnicos · O objetivo primário é PARAR o sangramento · Visa à melhor EFICÁCIA e SEGURANÇA do procedimento cirúrgico · A via de acesso é a LAPAROTOMIA MEDIANA – só tem ali pele, subcutâneo e aponeurose, não tem músculo, ou estrutura para afastar, sendo assim é um procedimento simples, seguro e tem pouco sangramento. · Manter o tratamento medicamentoso contínuo no PÓS-OPERATÓRIO quando foi indicado o tratamento cirúrgico não-retardado para úlcera péptica sangrante. · Mortalidade de 6 a 7% (não-operatório é 2x maior do não operatório) Terapêutica cirúrgica · A melhor conduta sempre deve ser baseada tanto nas condições do paciente como na experiência do cirurgião para o melhor resultado do tratamento, com menores taxas de mortalidade e sequelas – “não se inventa o que não sabe”. Conclusão · A hemostasia endoscópica é segura, eficaz e deve ser o PRIMEIRO tratamento · A conduta cirúrgica deve ser reservada para os casos de falha das medidas “conservadoras” · A cirurgia deve ser realizada precocemente em pacientes de risco, e as operação conservadoras devem ser evitadas (alto índice de recidiva de sangramento – outro trauma cirúrgico) CONDUTA SUSPEITA DE VARIZES DE ESÔFAGO