Prévia do material em texto
Doenças do corpo uterino e ovário ...................................................................................................... Composição do útero - O útero tem dois componentes principais: o miométrio e o endométrio. Miométrio é composto por feixes de músculo liso, que formam a parede do útero, e a cavidade interna do útero é revestida pelo endométrio, composto por glândulas em meio a um estroma celular. .......................................................................................................... Endométrio normal - O endométrio passa por mudanças morfo e fisiológicas durante o ciclo menstrual em reposta aos hormônios esteroides sexuais produzidos no ovário (que é influenciado pela hipófise e, essa, pelo hipotálamo) - Fisiologicamente, o endométrio pode ser proliferativo ou secretor a) Proliferativo - A fase proliferativa do endométrio predomina na primeira parte do ciclo menstrual, quando prevalece a ação dos estrógenos. - Nesse momento, as glândulas são pequenas, tubulares, retilíneas e perpendiculares à superfície, com células colunares que não secretam, e se multiplicam ativamente por mitose (figuras de mitose são numerosas). - As glândulas são separadas por um estroma de células conjuntivas com citoplasma escasso, onde também ocorrem muitas mitoses - Abaixo, a primeira coluna de fotos em corte longitudinal e a segunda, transversal Ao lado, fotos da primeira linha representando o estroma endometrial em fase proliferativa Abaixo, na segunda linha, fotos do estroma do endométrio secretor b) Endométrio secretor - Ocorre especialmente durante a gestação, mas também durante a ovulação, quando cessa a proliferação endometrial, e a diferenciação começa em resposta aos efeitos da progesterona produzida pelo corpo lúteo ovariano. - As glândulas são tortuosas, com luz ampla ou contorno estrelado/serrilhado. As glândulas têm citoplasma amplo, róseo e, às vezes, vacuolado, devido à abundante secreção. - O estroma é abundante, composto por células com citoplasma róseo volumoso - Aqui, o principal hormônio envolvido é a progesterona Com a dissolução do corpo lúteo (pós ovulação, sem fecundação) e a subsequente queda nos níveis de progesterona, a camada funcional se degenera, e ocorre sangramento no estroma, seguido de rompimento desse e menstruação. .......................................................................................................... Metrorragia - Sangramento que foge do período menstrual (para mulheres que ainda menstruam), ou que acontece anormalmente em mulheres após a menopausa (que não deveriam mais apresentar sangramentos) - Causas: variam com a idade da paciente, e incluem – ciclos anovulatórios (principalmente para mulheres na fase inicial da menstruação – pré-adolescência - ou na perimenopausa), distúrbios inflamatórios (endometrite), endometriose, pólipos e hiperplasia do endométrio, neoplasias (benignas ou malignas) Embora, então, o sangramento uterino anormal possa ser causado por condições patológicas, ele é mais comumente gerado a partir de perturbações hormonais que produzem sangramentos uterinos disfuncionais (sem qualquer anormalidade orgânica subjacente), e decorre de perturbações no sistema regulado de hormônios hipofisários e ovarianos → a principal causa são os ciclos anovulatórios (falha na ovulação), causados por desequilíbrios hormonais sutis e são mais comuns na menarca e no período perimenopausa → “A falha na ovulação resulta em uma estimulação endometrial excessiva pelos estrogênios, que não é contraposta pela progesterona. Nessas circunstâncias, as glândulas endometriais sofrem discretas alterações arquiteturais, incluindo dilatação cística, que geralmente são resolvidas com o ciclo ovulatório seguinte. No entanto, as repetidas anovulações podem resultar em um sangramento que, em certas condições clínicas, pode levar a uma biópsia endometrial. Nessa situação, as biópsias revelam uma condensação estromal e uma metaplasia epitelial eosinófila parecidas com aquelas vistas no endométrio menstrual” .......................................................................................................... Endometrite - Endométrio e miométrio são relativamente resistentes a infecções, principalmente porque a endocérvice forma uma barreira para a infecção ascendente. Mas, inflamações no endométrio são motivos de preocupação quando fora da fase menstrual. - Inflamação no endométrio - Causas: agudas - pós parto ou aborto incompleto, cujos resquícios placentários podem levar a um processo inflamatório agudo nessa mucosa, usualmente por bactérias, cursando com resposta inflamatória limitada ao estroma e totalmente inespecífica. Crônicas - infecções por clamídia, tricomonas, vírus ou uso de DIU, especialmente os mais antigos, de cobre - Complicação: infertilidade devido ao processo inflamatório na mucosa → inclusive muitas mulheres descobrem essa endometrite por não conseguirem engravidar - Micro: na crônica, a cél responsável por esse processo inflamatório é o plasmócito (cél de citoplasma basofílico, roxo, núcleo excêntrico/periférico), que não se apresentam no endométrio normal; pode-se achar células NK também; por vezes a imuno-histoquímica pode ser importante - Na aguda, a principal célula responsável são os neutrófilos. - “Os organismos responsáveis podem ou não ser detectados através de cultura. Se houver suspeita de infecção por razões clínicas, a antibioticoterapia é indicada mesmo diante de culturas negativas, já que pode prevenir outras sequelas (p. ex., a salpingite).” .......................................................................................................... Endometriose - Tecido endometrial “ectópico”, em um local fora da cavidade uterina – a mucosa deve estar fora de seu local normal, fora da cavidade uterina (podendo, inclusive, se encontrar na camada muscular do endométrio → isso já caracteriza ectopia) - Normalmente mais comuns na terceira e quartas décadas de vida - Usualmente se apresenta tanto com glândulas quanto com estroma, mas pode consistir apenas em estroma em alguns casos. a) Manifestações clínicas - As mais comuns são: dismenorreia, dispareunia, dor pélvica e irregularidades menstruais b) Complicações - Infertilidade - mucosa glandular ectópica responde aos estímulos hormonais da mesma forma que o endométrio na cavidade uterina – então prolifera, descama, sangra → quando ocorre na tuba uterina, leva a inflamação e fibrose crônica das tubas, dificultando a chegada do óvulo fecundado ao útero para implantação); - Aderências - especialmente na serosa do intestino – sangramento na serosa do intestino cursa com inflamação e fibrose, podendo provocar obstrução intestinal → isso acontece, pois, as lesões endometrióticas sangram periodicamente em resposta à estimulação hormonal, o que produz nódulos vermelho-azulados abaixo da superfície mucosa e/ou serosa nos locais de desenvolvimento; quando a doença é extensa, a organização da hemorragia causa aderências fibrosas extensas - Associação entre carcinomas de ovário e “endometriose atípica” (casos de endometriose atípica no ovário, podendo desencadear o desenvolvimento desses tumores) → mutações compartilhadas por genes específicos nas endometrioses atípicas e carcinomas associados → alguns estudos sugerem uma origem comum para o tecido endometriótico anormal e para os cânceres ovarianos em alguns casos (ou seja, a endometriose contém um ep de risco) c) Principais focos de endometriose: - Ovários - Saco de Douglas (também chamado de escavação retouterina) - é uma extensão da cavidade peritoneal localizada entre o útero e o reto → complicação – aderência de útero e reto - Períneo - Tuba uterina - Região de apêndice ececo - Região umbilical → pode gerar nódulos – confunde com cisto epidérmico, e na realidade é um tecido endometrial no meio da pele - Ordem descendente de frequência: (1) ovários; (2) ligamentos uterinos; (3) septo retovaginal; (4) fundo de saco; (5) peritônio pélvico; (6) intestinos grosso e delgado, e apêndice; (7) mucosa do colo uterino, vagina e tubas uterinas; e (8) cicatrizes de laparotomia d) Teorias do surgimento da mucosa endometrial ectópica - I. Teoria da regurgitação para explicar a implantação tubária – durante a menstruação, fragmentos da mucosa endometrial são regurgitados para as tubas, justificando a presença dessa mucosa naquela região; Essa teoria também pode explicar a distribuição da endometriose dentro da cavidade peritoneal, visto que a menstruação retrógrada pelas tubas pode possibilitar a chegada de endométrio nessa cavidade, uma vez que a tuba uterina se abre ali. Essa menstruação retrógrada pelas tubas ocorre regularmente, mesmo em mulheres normais. - II. Metástases “benignas” – metástase só é visto em neoplasia maligna, mas, aqui, esse termo se refere a um processo disseminado, explicando a endometriose em locais mais afastados, como osso, cérebro, pulmão → fragmentos de mucosa ganham a circulação por vasos uterinos, sanguíneos e linfáticos, e disseminam para esses locais distantes; - III. Teoria metaplásica – substituição de um tecido por outro → tenta explicar a presença de endometriose no peritônio → mudança no fenótipo celular muda a célula mesotelial (reveste peritônio) por célula glandular endometrial; - IV. Surgimento a partir de células tronco remanescentes em vários tecidos – células tronco/progenitoras extrauterinas O endométrio ectópico expressa alguns fatores diferenciais, o que contribui para a sua sobrevivência em locais atípicos, além de diminuir a sua remoção imune. e) Suspeita - Superfície do órgão acometido ganha aspecto de foco hemorrágico por conta do sangramento e descamação dessa mucosa - Ovário com endometriose – ganha aspecto cístico de conteúdo hemorrágico (líquido de aspecto achocolatado – castanho/vinhoso); parede pode ter certa irregularidade f) Microscopia - Identifica-se mucosa (glândulas) e estroma endometrial - Abaixo, as fotos 1,2,3 e 4 mostram uma endometriose de cólon – áreas esbranquiçadas demonstrando fibrose reacional e áreas de hemorragia; na micro, glândulas de diferentes formatos, tipicamente endometriais, e estroma característico - Ao lado dessas fotos, uma foto de micro de uma trompa em corte transversal – na parede da trompa, nota-se glândulas, estroma tipicamente endometrial (zona mais escurecida, arroxeada) na periferia, sangramento e fibrose ao redor dessa área de mucosa ectópica. Fibrose distorce a trompa - Em endometrioses com sangramentos antigos, pode-se observar hemossiderina .......................................................................................................... Adenomiose - Mucosa endometrial no miométrio → útero de aspecto globoso, aumentado, nodular → ao corte, chama atenção que o miométrio está muito espessado difusamente (diferente do leiomioma, que faz um nódulo), com aspecto lenhoso, fascicular/trabecular a) Microscopia - Na micro da adenomiose, nota-se glândulas (de padrão secretor) e estroma de padrão endometrial (estroma celularizado – porção arroxeada da foto) no meio do miométrio – logo, no período menstrual, a adenomiose comporta-se como o endométrio, sofrendo degeneração e hemorragias → gera, como consequência, metrorragia e dismenorreia, dispareunia e dor pélvica (principalmente durante o período menstrual) Normalmente, na endometriose, nota-se tanto o componente glandular quando o estromal nesse tecido ectópico, mas não obrigatoriamente estarão os dois sempre presentes .......................................................................................................... Pólipos - Projeção de mucosa para dentro de órgão luminal - São lesões exofíticas (cresce de fora para dentro) que se projetam para a cavidade uterina - Antigamente, acreditava-se que a proliferação era glandular, mas atualmente sabe-se que o estroma é o responsável pela proliferação celular → o estroma é que prolifera, e as glândulas associadas são apenas reativas. - Pólipos classificados quanto ao tipo de mucosa que acompanha essa proliferação (tipos histológicos): hiperplásicos, atróficos e funcionais (quando apresentam alterações secretoras) - Podem se apresentar como grandes lesões (foto de fundo azul escuro acima), ou como lesões diminutas (foto de fundo verde acima) Podem ser decorrentes da proliferação da glândula por estímulo estrogênico a) Hiperplásicos - Caracterizados por número aumentado de glândulas em relação ao estroma – vem da hiperplasia celular - Glândulas de padrão proliferativo - Podem ocorrer em qualquer idade, especialmente por excesso de estrogênio funcionante b) Atróficos - Mais comuns em mulheres mais velhas, na menopausa - Provavelmente representam o que sobrou de pólipos anteriormente hiperplásicos. - Estruturas glandulares atróficas – extremamente dilatadas, com epitélio atrófico, baixinho → também chamado de pólipo atrófico cístico (glândulas cisticamente dilatadas) c) Pólipo endometrial funcional - Glândula de padrão secretor - Glândulas serrilhadas ou tubulares ............................................................................................. Hiperplasia endometrial - Espessamento da mucosa causado por aumento do número de glândulas em relação ao estroma (ambos proliferam, mas o glandular predomina em relação ao estroma); no geral, observa-se glândulas aglomeradas, geralmente com formatos anormais. Nas hiperplasias endometriais patológicas (aquelas que não ocorrem devido a algum estímulo fisiológico, como a gravidez), pode-se ter evolução para carcinoma de endométrio – associação confirmada da hiperplasia endometrial com o carcinoma de endométrio → mutações comuns em genes ligados à oncogênese em alguns casos de hiperplasia e tumores de endométrio (gene PTEN → gene supressor de tumores → ele é regulador negativo da via reguladora de crescimento PI3K/AKT – quando a sua função é perdida, essa via se torna excessivamente ativa, o que estimula a expressão de genes dependentes de estrogênio, levando ao crescimento excessivo de tipos celulares que dependem do estrogênio para receber sinais tróficos, como as células ep endometriais) - Causa: estímulo prolongado de estrogênio - obesidade (prod de estrogênio a partir de gordura periférica); menopausa (falha ovariana com progesterona mais baixa que o estrogênio – predomínio estrogênico); ovário policístico (ciclos anovulatório); reposição hormonal (exclusivamente com estrogênio); anovulação Após a menopausa há, na supra-renal, produção aumentada de androstenediona, um precursor de andrógenos. Essa, no tecido adiposo, se transforma em estrona (uma forma de estrógeno) pela enzima aromatase (fenômeno favorecido em mulheres obesas). Hiperplasia de endométrio pode ser difusa (todo o endométrio espessado), ou polipoide (apenas uma região do endométrio espessado = pólipo hiperplásico) – depende da forma de apresentação a) Evolução para carcinoma - Nem toda hiperplasia de endométrio evolui para o câncer – algumas características da hiperplasia mostram predisposição maior a evolução para carcinoma - Classificação quanto a predisposição ao carcinoma: antigamente, classificava-se quanto ao número de glândulas em relação ao estroma e às atipias, tendo como padrões: hiperplasia simples – aumento do número de glândulas com quantidade de estroma ao redor; hiperplasia complexa – glândulas em padrão coeso, quase sem estroma de permeio, devido a tamanha proliferação glandular; e essas, eram classificadas, ainda, quanto a presençaou não de atipias - Atualmente, entretanto, estudos mostraram que a principal associação com evolução para adenocarcinoma é a presença de atipias – os casos de hiperplasia sem atipias apenas evoluem para carcinoma em 1-3% dos casos, enquanto os com atipias, de 23-48% evolui. Ou seja, não se usa mais o critério de simples e complexa, apenas o de presença ou não de atipias → então, fala-se de hiperplasia típica ou atípica (também chamada de neoplasia intraepitelial endometrial) - Na primeira foto abaixo, gl com núcleos regulares, uniformes, sem atipias; já na segunda, nota-se características evidentes de atipias, pleomorfismos nucleares, mitoses, nucléolos evidentes. Atualmente, a hiperplasia atípica é tratada com histerectomia, na maior parte dos casos. ............................................................................... Adenocarcinomas de endométrio - Existem dois tipos de adenocarcinoma de endométrio, que apresentam diferenças clinicopatológicas e moleculares importantes, que provocam comportamentos clínicos diferentes, tratamentos diferentes, prognóstico diferente, e até mesmo o contexto de surgimento deles - Tipo 1 – padrão endometrióide → padrão glandular semelhante à gl endometrial normal. Tem histórico de exposição prévia ao estrogênio (normalmente com histórico de hiperplasia endometrial). Normalmente é de baixo grau e mostram expressão de receptores de estrogênio e de progesterona, quando são bem diferenciados. Mutação comum no PTEN. - Tipo 2 – padrão seroso → agressividade maior; glândulas se apresentam em padrão diferente do habitual, com padrão seroso/papilífero. Esse é um tumor esporádico, sem associação com exposição previa ao estrogênio → tumor normalmente de alto grau. Normalmente são negativos para os receptores de estrogênio e progesterona (relação com prognóstico e agressividade do tumor). Mutação característica no gene P53 - 80% dos casos de adenocarcinoma são desse tipo histológico - Apresentam associação com a hiperplasia de endométrio - Podem se apresentar como lesão polipoide (foto verde – lesão polipóide no fundo do corpo uterino) ou como lesão difusa, vegetante, infiltrativa (foto de fundo azul escuro) Polipóide – se projeta para a luz do útero, mas infiltra minimamente o miométrio, diferentemente do difuso, que invade, normalmente, grande parte do estroma adjacente, o que torna o seu prognóstico pior a) Evolução natural comum b) Grau de diferenciação - Relação com agressividade dele - Grau 1 – bem diferenciado → todo o tumor é formado por glândulas semelhantes ao padrão endometrial (tem atipias e mitoses, já que é uma neoplasia maligna, mas é todo cheio de glândulas) - Grau 2 – moderadamente diferenciado → nota-se estruturas glandulares e outras estruturas de proliferação celular dispostas em estruturas sólidas, compactas, sem formar organização glandular (o que só pode ocupar 50% do tumor) - Grau 3 – maciço de células neoplásicas sem formar estrutura glandular, todas em arranjos sólidos, blocos de proliferação celular - Responsável por até 15% dos casos de tumores de endométrio - Surge no contexto da atrofia do endométrio – não tem a exposição ao estrogênio, então o endométrio está atrófico (não espessado, como no padrão de adenocarcinoma anterior) e, em algum local desse endométrio atrófico, nota-se grande lesão, que representa um tumor - São sempre classificados como tumores de alto grau (grau 3), pouco diferenciados → são mais agressivos - Podem formar estruturas papilares (células em arquitetura papilar) → fotos de micro acima – nota-se glândulas com formação de papilas (projeções digitiformes) - Esse tumor tem atipias de alto grau – nota-se pleomorfismo importante, muitas figuras de mitose - São glândulas de padrão seroso papilífero, com acentuado pleomorfismo, muitas figuras de mitose, elevada proporção núcleo-citoplasma, hipercromasia, nucléolos evidentes “O precursor do carcinoma seroso, o carcinoma intraepitelial endometrial seroso, consiste em células idênticas às do carcinoma seroso, porém não possui invasão estromal identificável” – ou seja, fica confinado ao epitélio. “Portanto, o carcinoma seroso supostamente começa como uma neoplasia epitelial de superfície, que se estende para estruturas glandulares adjacentes, e mais tarde invade o estroma endometrial.” - Tipo (endometrióide ou seroso) e grau histológico (1, 2 ou 3) - Invasão vascular e linfática → não apenas para os carcinomas endometriais, mas para todos os tumores que o patologista diagnostica - Extensão tumoral – quanto aquele tumor se estende no útero e/ou além dele - Disseminação extrauterina – infiltram além do útero ........................................................................................... Neoplasias do miométrio - Neoplasias benignas que se originam da musculatura lisa - São bem mais frequentes que as malignas - A principal manifestação clínica é o sangramento - Mas, a forma de apresentação e localização do tumor é o que se relaciona com a manifestação clínica - Ao lado, foto de miométrio normal - No geral são bem circunscritos, nítidos, arredondados, firmes, cinza-esbranquiçados, variando de tamanho. a) Formas de apresentação - Diferenças de para onde esse tumor se projeta - I. Transmural – cresce no meio do miométrio. Na foto ao lado, útero gravídico (restos placentários), com múltiplas nodulações, com diferentes tamanhos, no meio do miométrio (intramural) – nódulos fasciculados, em feixes, bem delimitados. Essa forma de apresentação normalmente não leva a manifestações clínicas (a não ser quando muito grandes – podem comprimir estrutura adjacente, levar a sangramentos; mas, normalmente, os tumores do meio da musculatura ficam assintomático) - II. Submucoso - nódulo mais perto da mucosa, se projetando em direção a ela; fica recoberto pelo endométrio – fica abaixo da mucosa endometrial → na foto ao lado, cavidade uterina colabada. Leva a sangramento, uma vez que o tumor cresce se projetando em direção à mucosa endometrial, isquemiando essa mucosa por compressão de vasos, o que a faz descamar e sangrar. Alguns crescem tanto que podem até se exteriorizar pelo colo uterino (leiomioma parido) - III. Subseroso – cresce para fora do útero, e fica recoberto pela serosa. Já que o sangramento se associa aos tumores que se relacionam com a mucosa endometrial, esse tumor não costuma sangrar → ele cresce para fora, se exteriorizando, comprimindo as vísceras abdominais → sintomas compressivos, e não sangrativos b) Microscopia - Proliferação de células musculares lisas bem diferenciadas formando feixes – a neoplasia é benigna e bem diferenciada → a celularidade é um pouco maior e o arranjo de feixes mais nítido (com feixes se cruzando, as vezes, em ângulo reto) que no miométrio normal - Células fusiformes – núcleos alongados, fazendo feixes; - Pode-se ver mitoses, já que é uma neoplasia, em que as células se proliferam - Na primeira foto ao lado, as células em pontos são células musculares lisas em corte transversal - Neoplasias malignas - Podem se originar do miométrio direto ou do estroma endometrial (a proliferação desse estroma estimula a proliferação da musculatura lisa do miométrio), mas raramente se origina dos leiomiomas - Transformação maligna de leiomioma é rara - Comportamento agressivo, pior prognóstico - São muito vascularizados e podem fazer infiltração vascular levando à metástase - O tumor tem padrão nodular fasciculado, mas ele não é bem delimitado, e evidentemente infiltra o tecido adjacente - Pode crescer como massas volumosas carnosas que invadem a parede uterina, ou como massas polipoides que se projetam para a luz da cavidade uterina.- Presença de hemorragias e necrose também podem estar presentes - Na micro, proliferação de células fusiformes, com muito pleomorfismo e características de atipia, muitas mitoses, núcleos maiores, hipercromáticos ..................................................................................................... Ovários normais - O ovário tem algumas porções: medula – tem tecido conjuntivo frouxo, vasos sanguíneos e células intersticiais; córtex – folículos ovarianos, corpo lúteo, células intersticiais; - Na região cortical, predominam os folículos, formados por ovócitos, envoltos por células epiteliais (foliculares ou da granulosa). A superfície do ovário é revestida por um epitélio que varia do pavimentoso ao cilíndrico simples (denominado impropriamente de ep germinativo); abaixo dele, tem-se um tecido conjuntivo denso, chamado de túnica albugínea. - O estroma ovariano é rico em células de Leydig, que respondem às gonadotrofinas e produzem hormônios sexuais. ...................................................................................................................... Cistos - Maioria das lesões ovarianas se apresentam na forma de lesões císticas benignas ou funcionais, mas também pode haver tumores - Importante saber diferenciar cistos neoplásicos de cistos não neoplásicos - Não neoplásicos – foliculares, de corpo lúteo, da síndrome de ovários policísticos (hiperandrogenismos, alterações menstruais, anovulação e infertilidade) - Neoplásicos – neoplasias de várias linhagens → podem originar neoplasias a partir do ep mulleriano de revestimento, células germinativas, do estroma ovariano (padrão mais sólido do que cístico), metástases - Pequenas lesões císticas de conteúdo líquido seroso claro originados da distensão de um folículo ovariano ou de um corpo lúteo - Normalmente são pequenos e involuem, assintomáticos, mas podem manifestar sintomatologia quando crescem demais e se rompem - Na foto azul clara, o cisto maior é um cisto de corpo lúteo, que tem as mesmas características de surgimento do folicular, mas se origina do crescimento excessivo de um corpo lúteo a) Micro - Estroma ovariano, revestimento de células da teca e da granulosa (folicular) ou por células luteínicas (quando luteínico) ´ Ao lado, fotos de um folículo maduro com as camadas de revestimento Ao lado, foto de um ovário com o folículo ovariano em suas diferentes fases, o corpo lúteo e o corpo albicans - Podem ser epiteliais, das células germinativas, de células do estroma ovariano, metástases (de estomago, intestino) - Prognóstico relacionado ao subtipo histológico - Classificação histológica: comportamento, prognóstico e sobrevida do paciente dependem dessa classificação - Benignos - 80% dos cistos neoplásicos do ovário; maior incidência desses ocorre entre os 20-45 anos - Borderline – entre o benigno e o maligno → características que sugerem um comportamento mais agressivo, mas não tem todas as características pra enquadrar esse tumor como maligno → apresenta atipias, mas ainda não invade estroma - Malignos – mais frequentes dos 45-60 anos I. Tumores epiteliais - Mais frequentes - Subtipos se baseiam na diferenciação e no grau de proliferação - Diferenciação: seroso, mucinoso, endometrióides - Proliferação: benignos, borderline, malignos a) Epiteliais serosos - Conteúdo cístico de aspecto seroso – aspecto em que o líquido é claro, transparente, aquoso - Sinônimo: epitélio do tipo tubário (morfologicamente idêntico ao do ep tubário – célula colunar, ciliada) - Maior parte desses tumores serosos se enquadram dentro da categoria benigna ou bordeline; menor parte é maligna a.1) Cistoadenocarcinoma seroso - Tumor maligno seroso do ovário - Fatores de risco: nuliparidade (mulher que nunca pariu); histórico familiar (mutações BRCA 1 e 2) - Risco reduzido: ACO e laqueadura tubária - Baixo grau: bem diferenciados; podem ou não ter componente borderline associado (tem características nucleares que indicam agressividade, mas não invadem) - Alto grau: moderado/pouco diferenciados; lesões “in situ” nas fímbrias; cistos de inclusão serosa - Qual é a explicação para a origem tubárias nos tumores de alto grau? – BRCA 1 e 2 mutados em tumores de mama e ovário → mulheres com CA de mama submetidas a salpingooforectomia (retirada da trompa e ovário de maneira profilática) apresentavam atipia acentuada nas trompas (carcinomas intraepiteliais tubários); nos casos em que não se viam atipias nas trompas, acreditava-se que a origem desses tumores seria de cistos de inclusão do epitélio superficial; mas, atualmente, estudos mostram que as neoplasias serosas surgem de fragmentos do ep tubário envaginados para o parênquima ovariano durante a ovulação, quando ocorre rotura da superfície ovariana para implantação → essa invaginação do ep tubário no local da ovulação seria responsável por originar o cisto de inclusão, que daria origem à neoplasia - Mudança de paradigma: atualmente, as mulheres com alto risco (BRCA 1 e 2 mutados) são submetidas não apenas a ooforectomia, mas também a salpingectomia profilática - Características do tumor: - Faz invasão - Características de malignidade notadas desde a macro - Na foto, parte externa em aspecto bosselado, hemorrágico, variação da cor - Pode-se notar extensão extracapsular - Na micro – atipia, pleomorfismo, glândulas infiltrativas - No de alto grau, atipias e pleomorfismo nuclear muito mais acentuado, mitoses - Esses tumores são muito mais celulares do que os cistoadenomas, e as células podem formar extensas arborizações papilíferas, áreas glandulares ou áreas sólidas. Quanto maior a quantidade de áreas sólidas, maior a chance de malignidade. Há atipias, mitoses e/ou necrose em quantidade variável. - A primeira foto abaixo é um de baixo grau, e as outras duas, alto grau - Comportamento biológico: depende do grau de diferenciação e da distribuição e características da doença no peritônio. O crescimento pode ser mais rápido, gerando manifestações mais rapidamente. O comportamento biológico tem relação direta com prognóstico e sobrevida - Extensão peritoneal da doença é fator prognóstico fundamental – se não rompeu a cápsula e não infiltra peritônio, tem sobrevida em 5 anos para 70% dos casos; já para aqueles que invadem peritônio, a sobrevida em 5 anos só ocorre em 25% dos casos - Ao lado, tumor ovariano com metástase peritoneal (disseminação direta em cavidades – tumor ovariano cresceu, rompeu a cápsula ovariana, se estendendo para cavidade peritoneal → cada pontinho é um ponto de implante metastático, o que acaba levando à aderência – na foto, nota-se aderência de alça intestinal; ascite também é comum) a.2) Cistoadenomas serosas - Normalmente são unilaterais, mas podem ser bilaterais (20%) - Externamente, nota-se ovário cisticamente dilatado, superfície lisa, globoso; ao corte, líquido seroso (claro, transparente), e podem ser uniloculados (cavidade cística única) ou multiloculados (várias cavidades císticas dentro de um grande cisto), mas paredes são lisas e transparentes - Na micro, nota-se o epitélio tipicamente tubário (seroso), cilíndrico, ciliado, bem diferenciado - Manifestações: o crescimento é lento; então, dificilmente a paciente vai ter manifestações abruptas; o tumor vai crescendo de maneira lenta, e só leva à manifestação clínica se se romper ou se aumentar o volume abdominal, gerando desconforto por efeito de massa. Além disso, dependendo do tamanho desse tumor, o tumor preso ao pedículo ovariano pode pesar tanto esse pedículo que gera torção, provando isquemia e dor. a.3) Cistoadenoma seroso borderline- Bilaterais em 30% dos casos - Uniloculado, com líquido seroso - Nota-se proliferação acentuada, evidentes pela formação de projeções papilares na superfície do ovário (papilas no interior do cisto) - Nas papilas, já se nota certo grau de atipia (já foge da benignidade), mas não vai ser enquadrado na categoria maligna porque não tem invasão do tecido adjacente b) Epiteliais mucinosos - Secreção que compõe o cisto é uma secreção mucinosa, gelatinosa - Mais comuns na vida adulta média - Mais de 90% dos casos são benigno/borderline - Normalmente são unilaterais, mas também podem acometer os dois ovários - Origem: mutação do KRAS (proto-oncogene) - Sem doença peritoneal: sobrevida em 10 anos em >90% dos casos - Externamente pode não ser diferenciado do seroso, mas quando corta é bem característico; - Geralmente, a superfície do ovário não é envolvida. - Normalmente, multinoculados – várias cavidades císticas dentro de uma grande cavidade - Ao corte, o líquido que sai é de aspecto mucinoso (secreção mucosa, gelatinosa) - Ep de revestimento é mucossecretor (células com citoplasma grande, claro, distendido cheio de muco que está sendo produzido – parece a cél caliciforme do intestino) – células ep colunares altas, com mucina apical, sem cílios. b. 1) Cistoadenomas mucinosos bordeline - Grau de atipia nuclear na micro - Variação de cor e tamanho dos núcleos, mas ainda sem a invasão estromal (principal critério de malignidade) - Fazem formação de papilas intraglandulares b.2) Cistoadenocarcinoma mucinoso - Tumor mostra áreas de hemorragia, pode ter áreas de necrose - Aspecto é característico – superfície multinoculada e secreção gelatinosa/mucinosa - Micro – gl de padrão mucinoso, infiltrativas, de vários tamanhos e formatos c) Carcinomas endometrióides do ovário - Tem essa denominação porque as gl são muito semelhantes às endometriais - Esses tumores podem ser bilaterais - Normalmente são malignos - Os benignos e borderline são raros - Normalmente surgem com associação à endometriose atípica – endometriose ovariana com características de atipia - Lesão precursora: mutações no gene PTEN - Na foto ao lado, do lado direito, ovário preservado com cistos; do lado esquerdo, ovário roto, confirmado, à micro, lesão do tipo carcinoma endometrióide II. Tumores de células germinativas - Segundo grupo de tumores mais comuns de ovário (depois dos tumores epiteliais) – 15- 20% - Teratomas são os mais frequentes – surgem dos remanescentes de células tronco totipotentes (tem capacidade de se diferenciar em vários tipos de tecidos) Teratomas caracteristicamente surgem na linha média (mediastino anterior, região sacro- lombar, ovários, testículos) a) Teratomas - Divididos em 3 categorias: benignos/maduros (é a maioria dos teratomas – tecidos maduros e bem diferenciados); malignos/imaturos (mais raros, e os tecidos que se formam são imaturos/embrionários – mais comuns em crianças e adultos jovens; são muito agressivos); monodérmicos/especializados (formam um tipo exclusivo/único de tecido – composto por tecido tireoidiano ou neuroendócrino, normalmente) a.1) Teratomas benignos - Normalmente são cistos uniloculares - Compostos por gordura, cabelo, cartilagem, tecido adiposo maduro, dentes, e várias outras formações teciduais maduras; - São pesados, fazem efeito de massa (podem provocar torção do pedículo ovariano, gerando isquemia e dor) Cisto dermoide – revestidos por estruturas parecidas com a pele - Na micro, nota-se vários grupamentos teciduais maduros – cartilagem, tecido adiposo, pele, folículo piloso a.2) Teratomas malignos - Mais comuns em crianças e adultos jovens - Seguem o padrão da linha média - Macroscopicamente não é possível firmar o diagnóstico - Nota-se ovário aumentado, superfície sólida, área cística - Na micro, identifica-se tecidos embrionários, imaturos - São tumores muito agressivos – ao diagnóstico, já podem apresentar metástase; normalmente respondem mal à quimio - A agressividade é avaliada consoante a presença de tecido neuroepitelial (células epiteliais com função sensorial) imaturo ........................................................................................................ Aula síncrona - Não tem PPB - Pode ser único ou múltiplo - Corresponde a folículos ovarianos distendidos durante o processo de ovulação - Normalmente são corticais (porção mais externa do ovário) - Revestimento interno, na micro, por células da granulosa e da teca - Só tem manifestação quando aumentam muito de volume e se rompem - PPB: Neoplasia benigna - Revestimento seroso, de ep tubário - Externamente podem ganhar grandes dimensões; mas tem a superfície externa lisa, transparente - Abrindo-se, podem ser uni ou multiloculados - Parede interna também é lisa e transparente - Líquido seroso, claro, aquoso - Na micro, revestimento de aspecto tubário – ep cilíndrico, com cílios em sua porção apical → abaixo, epitélio com características típicas de benignidade, com células regulares, sem atipias, sem infiltração - PPB: Neoplasia maligna - Áreas mais sólidas na parede - Critério importante de ser evidenciado: infiltração (pois sem ela, não caracteriza tumor maligno, mas sim borderline, no caso de haver atipias) - A foto com fundo preto apresenta áreas de hemorragia, de necrose, lesões de padrão sólido, invasão extracapsular - Ao corte, aspecto do líquido também é seroso, mas pode ser serossanguinolento, com infiltração hemorrágica (modificação do conteúdo cístico) - PPB: Neoplasia benigna - Primeiro útero – tumor intramural, com massa sólida em porção fúndica do útero - Segundo útero – crescimento bem associado ao endométrio → manifestações como sangramento → crescimento expansivo que comprime vasos que irrigam a mucosa - Na micro, proliferação de células musculares lisas correndo em feixes, muito semelhantes ao miométrio normal - Na foto ao lado, todas as formas de apresentação do leiomioma → subseroso na extremidade direita da foto; submucoso nos 3 nódulos mais abaixo, que se apresentam em íntima relação com a mucosa endometrial (levam à isquemia da mucosa e, consequentemente, ao sangramento) Podem simular um pólipo de endométrio, como na foto ao lado → diferenciação entre pólipo de endométrio e leiomioma submucoso (que pode crescer se projetando para a cavidade) é feita na microscopia - PPB: Neoplasia maligna - Na foto ao lado, lesão de aspecto polipóide; região inferior, com necrose extensa e hemorragia é bastante indicativa de malignidade. - Além do subtipo histológico, profundidade de invasão também é importante – normalmente, os que fazem crescimento polipóide tem menor grau de invasão do miométrio - Na foto ao lado, tem-se um adenocarcinoma de padrão infiltrativo (o crescimento é infiltrativo) no *, e um leiomioma (crescimento expansivo) no + - Adenocarcinoma endometrióide – relação com estímulo hormonal, e glândulas semelhantes às endometriais normais - Adenocarcinoma seroso – mais agressivos; não expressam RP e RE; são esporádicos, associados a mutação no gene p53; glândulas não se apresentam tipicamente como as do endométrio normal → ep mais alongado, pode fazer aspecto papilar, atipia é muito mais acentuada; Informação clínica da paciente é fundamental para diagnóstico do tipo histológico desse adenocarcinoma (endometrióide ou seroso); em alguns casos, expressão imuno-histoquímica de RP e RE pode ser feita → nos endometrióides normalmente ocorre essa expressão (apesar de que, quanto mais agressivo e menos diferenciado, menor a expressão desses receptores) - PPB: Neoplasia maligna - Tumor mal delimitado, infiltrativo, com hemorragia e necrose. - São raros, mas muito agressivos - Microimportante para confirmação diagnóstica – células fusiformes com núcleos alongados (algumas em corte transversal ficam com os núcleos mais arredondados); diferença na coloração dos núcleos – mais escuros (hipercromáticos) do que os vistos no leiomioma, com variação de tamanho/formato nuclear (pleomorfismo); deve-se também contar o número de mitoses presentes - Nódulo ao lado com variação de coloração central – área central com necrose isquêmica (evidenciada na micro – área rosa mais clara), pleomorfismo, com alteração de tamanho e formato das células → mas elas sempre se estabelecem em aspecto fusiforme - Como todo sarcoma, são extremamente vascularizados, o que facilita uma disseminação hematogênica