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Ética, Direito e Justiça_ Sócrates e Platão contra os sofistas - Jus com br _ Jus Navigandi

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03/03/2022 00:09 Ética, Direito e Justiça: Sócrates e Platão contra os sofistas - Jus.com.br | Jus Navigandi
https://jus.com.br/artigos/20758/etica-direito-e-justica-socrates-e-platao-contra-os-sofistas 1/11
2F20758%2Fetica-direito-e-justica-socrates-e-platao-contra-os-
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%20Plat%C3%A3o%20contra%20os%20sofistas:%20https%3A%2F%2Fjus.com.br%2Fartigos%2F20758)
Ética, Direito e Justiça:
Sócrates e Platão contra os
sofistas
Ética, Direito e Justiça: Sócrates e
Platão contra os sofistas
Roger Moko Yabiku (https://jus.com.br/947976-roger-moko-
yabiku/publicacoes)
Publicado em 12/2011. Elaborado em 12/2011.

Filosofia do Direito (https://jus.com.br/artigos/filosofia-do-direito)
Conceito de Direito (https://jus.com.br/artigos/conceito-de-direito)
O conceito de justiça, para os sofistas, é igualado ao de lei. Já a Sócrates
pode ser atribuída a origem da ética (ou filosofia moral). Para Platão, a
justiça é a virtude do cidadão e do filósofo que tem predominância sobre as
outras.
No início da Filosofia, o foco era na origem da natureza, do mundo e, por
reflexo, as relações entre os homens. Porém, com o movimento dos
sofistas no século V antes de Cristo, houve uma ruptura, no qual o homem
é colocado no centro das discussões filosóficas. Os sofistas – sábios –
foram os primeiros professores, mas não formaram uma escola
propriamente dita, já que vários dos seus pensamentos divergiam entre si.
Com uma relativa estabilização política da Grécia Antiga (século V a.C.), no
chamado Século de Péricles, não havia tanta necessidade de cultivar as
virtudes (arete) dos guerreiros. Nessa época, floresceram as artes, a
mitologia, a filosofia, a literatura, a história e a política. Os fatores que
contribuíram para isso, segundo Bittar e Almeida (p. 92), foram a
participação popular nos instrumentos de poder, principalmente com a
estruturação da democracia de Atenas, a expansão das fronteiras gregas,
acúmulo de riquezas e intensificação do comércio, inclusive com outros
povos, e a utilização do "falar bem" para assemblear, além de se ter
conhecimentos gerais.
ARTIGOS (/ARTIGOS)
 
(https://jus.com.br/)
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whatsapp://send?text=%C3%89tica%2C%20Direito%20e%20Justi%C3%A7a%3A%20S%C3%B3crates%20e%20Plat%C3%A3o%20contra%20os%20sofistas:%20https%3A%2F%2Fjus.com.br%2Fartigos%2F20758
https://jus.com.br/947976-roger-moko-yabiku/publicacoes
https://jus.com.br/artigos/filosofia-do-direito
https://jus.com.br/artigos/conceito-de-direito
https://jus.com.br/artigos
https://jus.com.br/
03/03/2022 00:09 Ética, Direito e Justiça: Sócrates e Platão contra os sofistas - Jus.com.br | Jus Navigandi
https://jus.com.br/artigos/20758/etica-direito-e-justica-socrates-e-platao-contra-os-sofistas 2/11
Os sofistas e a democracia grega
Foram os sofistas uma resposta às necessidades da democracia grega, ou
seja, exercer a cidadania (https://jus.com.br/tudo/cidadania) por meio do
discurso. "Isso não há que se negar como dado comum a todos os sofistas:
são eles homens dotados de domínio da palavra, e que ensinam a seus
auditórios (auditórios abertos ou círculos de iniciados) a arte da retórica,
com vista no incremento da arte persuasiva (peitho)", escrevem Bittar e
Assis (p. 93).
O domínio da arte retórica, por parte de homens dotados da técnica
(techné) da utilização das palavras, explicam Bittar e Almeida (p. 94), era
necessário não somente na praça pública (agora), mas também para atuar
perante os magistrados, na tribuna: "As palavras tornaram-se o elemento
primordial para a definição do justo e do injusto. A técnica argumentativa
faculta ao orador, por mais difícil que seja sua causa jurídica, suplantar as
barreiras dos preconceitos sobre o justo e o injusto e demonstrar aquilo que
aos olhos vulgares não é imediatamente visível."
Talvez se tenha noção, vulgarmente, de que os sofistas – muitos deles
estrangeiros - formaram uma única escola, por estarem no cenário das
polêmicas com Sócrates (469-399 a.C) e seu discípulo Platão (427-347
a.C.). "Os sofistas sempre foram mal interpretados por causa das críticas
que a eles fizeram Sócrates e Platão. A imagem de certa forma caricatural
da sofística tem sido reelaborada na tentativa de resgatar a sua verdadeira
importância", assinalam Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires
Martins (p. 120)
Sócrates acusou os sofistas de "prostituição" simplesmente porque estes
ensinavam para aqueles que pudessem pagá-los, sendo os primeiros
"professores", na concepção atual da palavra, ensinam Aranha e Martins (p.
120): "Cabe aqui um reparo: na Grécia Antiga, apenas a aristocracia se
ocupava com o trabalho intelectual, pois gozava do ócio, ou seja, da
disponibilidade de tempo, já que o trabalho manual, de subsistência, era
ocupação de escravos. Ora, os sofistas, geralmente pertencentes à classe
média, fazem das aulas seu ofício, por não serem suficientemente ricos
para se darem ao luxo de filosofarem."
No entanto, os sofistas sistematizaram o ensino, formando um currículo,
explicam Aranha e Martins (p. 120): "gramática (da qual são iniciadores),
retórica e dialética; por influência dos pitagóricos, desenvolvem a aritmética,
a geometria, a astronomia e a música."
"O homem é a medida de todas as coisas", disse o
sofista Protágoras de Abdera (485-411 a.C.). Assim, o
ser humano passa a ser o centro das atenções, como
explicam Carlos Eduardo Bianca Bittar e Guilherme de
Assis Almeida (p. 90): "É esse o contexto de
florescimento do movimento sofístico, muito mais
ligado que está, portanto, à discussão de interesses
comunitários, a discursos e elocuções públicas, à
manifestação e à deliberação em audiências políticas,
ao convencimento dos pares, ao alcance da
notoriedade no espaço da praça pública, à
demonstração pelo raciocínio dos ardis do homem em
interação social."
Os sofistas foram os primeiros a estabelecer uma diferença entre natureza
(physis) e lei humana (nomos), sem, no entanto, contrapô-las, explica
Flamarion Tavares Leite (p. 23), na etapa original. O justo e o injusto, para
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(https://jus.com.br/)
https://jus.com.br/tudo/cidadania
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https://jus.com.br/artigos/20758/etica-direito-e-justica-socrates-e-platao-contra-os-sofistas 3/11
os sofistas, não se originará na natureza das coisas, mas nas opiniões e
convenções humanas, na forma da lei (nomos), oriunda da sua opinião
(doxa). Em semelhança ao que versa o positivismo
(https://jus.com.br/tudo/positivismo) jurídico atual, segundo eles, o justo é o
que está segundo a lei, e injusto o que a contraria. Numa segunda etapa,
os sofistas afirmariam que a natureza se opõe à lei humana. "Nesta,
encontra-se fundada a igualdade natural de todos os homens; naquela, sua
desigualdade antinatural", ensina Leite (p. 23).
Com os sofistas, opositores radicais da tradição, surgia o relativo, o
provável, o possível, o instável, o convencional, afirmam Bittar e Almeida (p.
94) Nessa segunda etapa, de predomínio da lei humana (nomos) sobre a
natureza, os sofistas optaram pela prevalência desta, que libertaria os
humanos dos laços de barbárie. A deliberação sobre o conteúdo das leis
não teria origem na natureza ou na divindade (nem mesmo com base nas
deusas da justiça, Thémis e Diké), mas na vontade humana. A justiça é
definida por critérios humanos, e não naturais. Se fossem naturais,todas as
leis seriam iguais. Pode parecer democrático tudo isso. Mas atenção.
Alguns cultores da sofística assinalavam, conforme Bittar e Almeida (p. 96),
que "os homens deveriam submeter-se ao poder daquele que ascendesse
ao controle da cidade por meio da força; a justiça é vantagem para aquele
que domina e não para aquele que é dominado (Trasímaco)".
O conceito de justiça, para os sofistas, é igualado ao de lei. Justo é o que
está na lei, o que foi dito pelo legislador. "Em outras palavras, a mesma
inconstância da legalidade (o que é lei hoje poderá não ser amanhã) passa
a ser aplicada à justiça (o que é justo hoje poderá não ser amanhã). Nada
do que se pode dizer absoluto (imutável, perene, eterno, incontestável...) é
aceito pela sofística. Está aberto campo para o relativismo da justiça", falam
Bittar e Almeida (p. 96).
Sócrates e o nascimento da ética
"Só sei que nada sei". O autor da frase, Sócrates – um opositor ferrenho
aos sofistas - deixou uma marca indiscutível no modo de se pensar no
Ocidente. Figura polêmica, por não ter deixado escritos, muitos dizem,
inclusive, que não existiu, foi apenas um personagem que teria sido
inventado por seus supostos alunos Platão e Xenofonte. Foi, então,
principalmente por meio dos escritos desses dois, que o legado de Sócrates
não pereceu. Convivendo na Era de Péricles (século V a.C.), de apogeu da
Grécia, junto ao povo nas praças públicas (agorá), da cidade (pólis) de
Atenas, Sócrates situou sua doutrina na natureza humana e seus
desdobramentos ético-sociais. Via na prudência (phónesis) uma virtude
essencial para a ordem social, visando uma educação
(https://jus.com.br/tudo/educacao) cidadã.
De origem simples, Sócrates era filho de um escultor e de uma parteira.
Estudou literatura, música, ginástica, retórica, geometria e astronomia, tal
como as obras dos outros filósofos e também dos sofistas, conta Andreas
Drosdek (p. 15). Enquanto conscrito no serviço militar, lutou com bravura
pela sua cidade. Participou por muito tempo da Assembléia de Atenas, mas
não apoiava normas que considerava injustas. "Não apoiou, por exemplo, o
governo dos Trinta Tiranos, no ano 404, que mandava para a prisão, por
simples capricho, vítimas inocentes. Provavelmente, só foi salvo da fúria
dos tiranos graças à contrarrevolução, ocorrida pouco tempo depois",
salienta Drosdek (p. 16).
Sócrates tinha um método baseado na ironia e na maiêutica. Na primeira
fase do método, a ironia, Sócrates – diante de outra pessoa que dizia
conhecer um assunto – dizia que nada sabia. Ele só fazia perguntas, até
desmontar o outro, que acabava por demonstrar, na verdade, sua
ignorância. Na segunda fase, a maiêutica (parto em grego, em homenagem
à sua mãe Fenareta), Sócrates dava luz às novas idéias, construindo novos
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conceitos, mesmo que não se chegasse a conclusões definitivas. Indagava
sobre o sentido dos costumes e as disposições de caráter dos atenienses,
dirigindo-se à sociedade e ao indivíduo.
A professora Marilena Chauí (p. 311) é contundente sobre o método de
Sócrates: "As perguntas socráticas terminavam sempre por revelar que os
atenienses respondiam sem pensar no que diziam. Repetiam o que lhes
fora ensinado desde a infância. Como cada um havia interpretado à sua
maneira o que aprendera, era comum, quando um grupo conversava com o
filósofo, uma pergunta receber respostas diferentes e contraditórias. Após
certo tempo de conversa com Sócrates, um ateniense via-se diante de duas
alternativas: ou zangar-se com a impertinência do filósofo perguntador e ir
embora irritado, ou reconhecer que não sabia o que imaginava saber,
dispondo-se a começar, na companhia de Sócrates, a busca filosófica da
virtude e do bem."
Devido a essa atitude, ao mesmo tempo em que arregimentava seguidores,
Sócrates teve um grande número de inimigos, que, posteriormente,
conseguiram articular politicamente a sua condenação à morte, com
respaldo popular, sob a acusação de negar as divindades (criando outras) e
de corromper a juventude. Condenado ao suicídio, Sócrates bebeu um
veneno chamado cicuta. Poderia ter optado pelo exílio de Atenas ou
apelado por misericórdia, mas não o fez. "No entanto, a ética de respeito às
leis, e, portanto, à coletividade, não permitia que assim agisse", narram
Bittar e Almeida (p. 102). "A fuga, portanto, era impensável para ele, pois se
assim agisse não estaria mais servindo a Atenas", completa Drosdek (p.
17).
Sócrates desafiava a ordem vigente nos círculos sociais da sua época, pois
questionava o relativismo dos sofistas, pregando uma verdade perene, que
influenciaria sistemas filosóficos posteriores como o platonismo, o
aristotelismo e o estoicismo.
Desse modo, para Sócrates, erro é fruto da ignorância, e toda virtude é
conhecimento. O filósofo, assim, tinha como missão "parir" o conhecimento
que está dentro das pessoas. "Daí a importância de reconhecer que a maior
luta humana deve ser pela educação (paidéia), e que a maior das virtudes
(areté) é a de saber que nada se sabe", escrevem Bittar e Almeida (p. 99)
De onde será que os partidos e os políticos tiraram a bandeira da
"educação" acima de tudo?
A Sócrates pode ser atribuída a origem da ética (ou filosofia moral), tendo
como ponto de partida a consciência do agente moral, arremata Chauí (p.
311): "É sujeito ético ou moral somente aquele que sabe o que faz, conhece
as causas e os fins de sua ação, o significado de suas intenções e de suas
atitudes e a essência dos valores morais. Sócrates afirma que apenas o
ignorante é vicioso ou incapaz de virtude, pois quem sabe o que o é bem
não poderá deixar de agir virtuosamente."
A ética de Sócrates reside no conhecimento e na felicidade. Como assim
conhecimento? Aquele que comete o mal crê praticar algo que o leve à
felicidade, por ter seu juízo enganado por meros "achismos". Por isso é
preciso, antes, conhecer a si mesmo. Depois de dotado de conhecimento,
aí, sim, valorar acerca do bem e do mal. A felicidade, para ele, não se
resumia a bens materiais, riquezas, conforto ou status perante os demais
homens. Conforme Bittar e Almeida (p. 101): "O cultivo da verdadeira
virtude, consistente no controle efetivo das paixões e na condução das
forças humanas para a realização do saber, é o que conduz o homem à
felicidade." Sua ética é, portanto, teleológica, ou seja, tem como fim da
ação a felicidade.
Para Sócrates o coletivo tinha primazia sobre o individual, mas se opunha à
concepção de que Direito é a expressão dos mais fortes, sendo melhor
sofrer uma injustiça do que cometê-la. A filosofia, de acordo com Sócrates,
é buscar a maior perfeição possível seja na vida, quanto na morte. "Para
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ele, a cidade e suas leis são necessárias e respondem às exigências da
natureza humana. A obediência às leis da cidade é um dever sempre e
para todos. Por isso Sócrates submete-se à condenação da cidade, ainda
que reconhecendo a injustiça de que é vítima", disserta Leite (p. 24-25).
Complementam Bittar e Almeida (p. 102): "E isso porque a ética socrática
não se aferra somente à lei e ao respeito dos deveres humanos em si e por
si. Transcende a isso tudo: inscreve-se como uma ética que se atrela ao
porvir (post mortem). (...) Isso ainda significa dizer que a verdade e a justiça
devem ser buscadas com vista em um fim maior, o bem viver post mortem.
E não há outra razão pela qual se deseje filosofar senão a de preparar-se
para a morte."
Embora tivesse conhecimento de que a lei humana (nomos) – artifício
humano e não da natureza– poderia ser justa ou injusta, Sócrates pregava
a irrestrita obediência à lei. O Direito – conjunto de leis, em termos
simplistas – seria um instrumento de coesão social que levaria à realização
do bem comum, entendido como o "desenvolvimento integral de todas as
potencialidades humanas, alcançadas por meio do cultivo das virtudes",
ensinam Bittar e Almeida (p. 104). A lei seria elemento de ordem no todo da
cidade (pólis) e, por isso, não deveria ser contrariada, mesmo que se
voltasse contra si mesmo, sob pena de se instalar a desordem social. "O
homem integrado enquanto integrado ao modo político de vida deve zelar
pelo respeito absoluto, mesmo em detrimento da própria vida, às leis
comuns a todos, às normas políticas (nómos póleos)", completam Bittar e
Almeida (p. 106-107).
O indivíduo nas suas elucubrações poderia questionar os critérios de justiça
de uma lei positiva (externa), mas somente criticá-la, sem desobedecê-la,
evitando, assim, o caos por levar outras pessoas a desobedecê-la. Dizem
Bittar e Almeida (p. 108): "Em outras palavras, para Sócrates, com base
num juízo moral, não se podem derrogar leis positivas. O foro interior e
individual deveria submeter-se ao exterior e geral em benefício da
coletividade." Prossegue Leite (p. 25): "Efetivamente, a justiça, para
Sócrates, consiste no conhecimento e, portanto, na observância das
verdadeiras leis que regem as relações entre os homens, tanto das leis da
cidade como das leis não-escritas. Segundo Sócrates, que propugna pela
obediência incondicional às leis da cidade, o justo não se esgota no legal,
posto que acima da justiça humana existe uma justiça natural e divina."
Bittar e Almeida (p. 109) enumeram os motivos que levaram Sócrates a
optar pelo suicídio: "concatenação da lei moral com a legislação cívica; o
respeito às normas e à religião (https://jus.com.br/tudo/religiao) que
governavam a comunidade, no sentido do sacrifício da parte pela
subsistência do todo; a importância e imperatividade da lei em favor da
coletividade e da ordem do todo; a substituição do princípio da
reciprocidade, segundo o qual se respondia ao injusto com injustiça, pelo
princípio da anulação de um mal com o seu contrário, assim, da injustiça
com um ato de justiça; o reconhecimento da sobrevivência da alma, para
um julgamento definitivo pelos deuses, responsável pelo verdadeiro
veredito dos atos humanos."
Platão, as idéias e a hierarquia social
Platão, o mais famoso dos discípulos de Sócrates, nasceu no seio de uma
das mais tradicionais famílias da aristocracia política de Atenas. Ao
completar 20 anos, conheceu seu mentor, que mudaria para sempre o rumo
da sua vida. "Platão era de família aristocrática, o que torna notável o fato
de ele acreditar que os governantes não deveriam ser escolhidos por sua
origem, e sim pela inteligência e força de caráter. Acima de tudo, o
oportunismo dos políticos atenienses, que acabou culminando no
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julgamento e na sentença de morte de Sócrates, convencera Platão a
considerar com muita seriedade as qualidades necessárias a um bom
líder", explica Drosdek (p. 26).
Em 387 a.C. Platão criou a Academia, o primeiro centro de ensino superior
do Ocidente, afirma Leite (p. 27): "Até então, a educação superior nunca
havia assumido essa forma corporativa, organizada, sedentária, com
distribuição de cursos e matérias, que imprimiu Platão à Academia." Seus
principais livros são "A República", "O político" e "As leis".
Com relação à sua doutrina, é interessante recorrer ao "mito da caverna",
incluído no livro VII de "A República", recomendam Aranha e Martins (p.
121): "Platão imagina uma caverna onde pessoas estão acorrentadas
desde a infância, de tal forma que, não podendo ver a entrada dela, apenas
enxergam o seu fundo, no qual são projetadas as sombras das coisas que
passam às suas costas, onde há uma fogueira. Se um desses indivíduos
conseguisse se soltar das correntes para contemplar à luz do dia os
verdadeiros objetos, ao regressar, relatando o que viu aos seus antigos
companheiros, esse o tomariam por louco e não acreditariam em suas
palavras."
Aqui, em termos relacionados ao conhecimento (epistemologia), faz uma
separação (https://jus.com.br/tudo/separacao) entre mundo sensível (dos
fenômenos) e mundo inteligível (das idéias gerais). O mundo sensível é
percebido pelos sentidos, sendo ilusório, múltiplo, com réplicas imperfeitas
do verdadeiro. Para Platão, o mundo das idéias gerais refletia a doutrina de
Parmênides, nos quais o ser é imóvel, enquanto o mundo sensível se
espelhava em Heráclito, que afirmava a mutabilidade essencial do ser. Na
vida terrena, se experimenta a mutabilidade; no Hades (além-vida), a
permanência. "As almas cumprem seus ciclos num longo período de
provas, durante o qual permanecem indo e vindo entre duas realidades",
asseveram Bittar e Almeida (p. 121).
Aliando o arsenal teórico de Parmênides e de Sócrates, Platão cria a
palavra "idéia", para denominar as intuições intelectuais, superiores às
sensíveis. O mundo real, para Platão, seria o mundo das idéias gerais (as
únicas verdades), que seria atingido pela contemplação e depuração dos
enganos dos sentidos. Asseveram Aranha e Martins (p. 122): "Para Platão
há uma dialética que fará a alma elevar-se das coisas múltiplas e mutáveis
às idéias unas e imutáveis. As idéias gerais são hierarquizadas, e no topo
delas está a idéia do Bem, a mais alta em perfeição e a mais geral de
todas: os seres e as coisas não existem senão enquanto participam do
Bem. E o Bem supremo é também a Suprema Beleza. É o Deus de Platão."
A alma humana recupera, as idéias que lhes estão latentes, por
reminiscência. O esquecimento se deu na passagem do pós-vida (Hades)
para a Terra. No pós-vida, as almas escolheriam um reencontro próximo
com um corpo carnal, com base em experiências e hábitos de vida
anteriores, explicam Bittar e Almeida (p. 119): "Nesse sentido, tendo em
vista a liberdade de escolha de cada alma, podiam ser escolhidas vidas
animais ou humanas; após a escolha, cada alma recebia seu demônio, que
lhes encaminharia nas dificuldades da vida."
Passa-se, agora, à interpretação política do "mito da caverna". O filósofo
(semelhante ao homem que conseguiu sair da caverna) contempla a
verdadeira realidade, passando da opinião (doxa) à ciência (episteme). Aí,
comentam Aranha e Martins (p. 122), deve "retornar ao meio dos outros
indivíduos, para orientá-los (...), ensiná-los e governá-los". Platão idealiza o
sábio (filósofo) como rei para que o Estado seja bem governado, sendo
preciso que "os filósofos se tornem reis, ou que os reis se tornem filósofos".
Como se lerá, a partir do parágrafo seguinte, isso norteou a teoria ético-
política de Platão.
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https://jus.com.br/artigos/20758/etica-direito-e-justica-socrates-e-platao-contra-os-sofistas 7/11
A justiça, escreve Platão em "A República", é a virtude do cidadão e do
filósofo que tem predominância sobre as outras (sabedoria, coragem e
temperança). É a justiça que ordena as virtudes que regem cada uma das
três partes (ou potências) da alma humana, a racional (possibilita o
conhecimento das idéias), a irrascibilidade (impulsos e afetos) e a
concupiscente (necessidades mais elementares). A razão seria governada
pela sabedoria ou prudência (sophia ou phrónesis), a irrascível pela
coragem (andreia). Tanto a irrascibilidade e a concupisciência deveriam
submeter-se à razão, por meio da temperança ou moderação (sophrosyne).
As virtudes, para Platão, dependem de aperfeiçoamento constante por
parte dos humanos, com a predominância – é claro, da alma racional sobreas tendências irascíveis e concupiscíveis. Existe harmonia (armonía) ao se
dominar os instintos ferozes, o descontrole sexual e a fúria dos
sentimentos, versam Bittar e Almeida (p. 114), permitindo que a alma frua
dos prazeres espirituais e intelectuais: "O vício, ao contrário da virtude, está
onde reina o caos entre as partes da alma. De fato, onde predomina o
levante das partes inferiores com relação à alma racional, aí está
implantado o reino do desgoverno, isso porque ora manda o peito, e suas
ordens e mandamentos são torrentes incontroláveis (ódio, rancor, inveja,
ganância...), ora manda a paixão ligada ao baixo ventre (sexualidade,
gula...)." O recado, completam Bittar e Almeida (p. 115), é claro: "Sacrificar-
se pela causa da verdade significa abandonar os desejos do corpo, e fazer
da alma o fulcro de condenação da conduta em si e por si."
Essa teoria da alma seria associada, por Platão, à teoria da cidade. Platão
dividiu a sociedade em três classes, cada qual com uma função. No topo da
sociedade estariam os governantes filósofos, guiados pela sabedoria
(sophia), em seguida, os guerreiros imiscuídos da coragem (andreia) e,
abaixo, os artesãos e agricultores, a base econômica. Os guerreiros e os
artesãos e agricultores aceitariam o governo dos que têm sabedoria, e a
temperança, que lhes é peculiar, lhes castraria o ímpeto de tomar o poder.
Em suma, os filósofos seriam a cabeça; os guerreiros, o peito; e os
artesãos e comerciantes o baixo ventre do corpo político.
A doutrina política de Platão é aristocrática: "Nesse contexto, a justiça
corresponde: aos magistrados (filósofos) devem governar; os guardiões,
defender a cidade das desordens internas e dos ataques externos; os
artesãos e agricultores, produzir. Devem fazer apenas isso, sem
intromissão naquilo que não lhes compete pelo ofício ou classe. Justiça,
pois, é cada um fazer o que lhe é cometido, sem intrometer-se na seara dos
demais. Isto significa que nenhuma das virtudes poderia existir sem a
justiça. A injustiça seria a ruptura desta ordem, a sedição das potências
inferiores contra a razão", escreve Leite (p. 29).
Justiça para Platão é manter essa ordem original, ou as formas de governo
(cinco, em "A República") degenerariam. Para ele, a única forma de
governo legítima e justa seria o governo dos sábios, que poderia ter a forma
de monarquia. As demais seriam formas degeneradas da pura, nas quais
não se efetivaria justiça. Com os guerreiros no poder, haveria a timocracia,
o governo que preza honrarias. Caso os ricos ficassem no comando, seria
uma oligarquia, que dividiria os cidadãos entre os mais abastados e os
pobres. A oligarquia provocaria maior acumulação de bens para os ricos,
desequilibrando e dividindo a cidade em duas, abrindo caminho para a
democracia (a desordem). Com a desordem da democracia, um único
homem tiraria proveito da situação para sagrar-se no poder, inaugurando a
tirania, a forma que mais se opõe à justiça.
Já, em "O Político", Platão descreve três formas legítimas de governo
(monarquia, aristocracia e democracia moderada, em ordem decrescente
de preferência) e três formas ilegítimas de governo (democracia turbulenta,
oligarquia e tirania, da menos para a mais corrupta). "Em "As Leis", Platão
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acrescenta uma forma à classificação exposta em ‘O Político’: a forma mista
de governo, que é uma mescla de monarquia e democracia", narra Leite (p.
32).
.Aliás, havendo uma realidade divina (mundo das idéias gerais), além desta
realidade (mundo sensível), implica-se, igualmente, na existência de uma
justiça divina, superior à justiça falha e imperfeita dos homens. Se é
inteligível, perfeita, absoluta e imutável essa justiça pode ser contemplada
para, daí, extrair princípios para governar e manter a saúde do corpo social.
Não se trata, pois, de uma justiça apenas dos homens, mas de uma outra,
metafísica, presente no Hades (além-vida), no qual a justiça universal se dá
pela doutrina da paga (punição para o mal cometido, recompensa para o
bem realizado. "A conduta ética e seu regramento possuem raízes no Além
(Hades), de modo que o sucesso terreno (homicidas, tiranos, libertinos...) e
o insucesso terreno (Sócrates...) não podem representar critérios de
mensurabilidade do caráter de um homem (se justo ou injusto). No reino
das aparências (mundo terreno, sensível), o que parece ser justo, em
verdade, não o é; o que parece ser injusto, em verdade, não o é",
comentam Bittar e Almeida (p. 121).
Em Platão, se viu que a alma racional deve controlar as outras partes da
alma, para que haja a harmonia da virtude. Caso isso não ocorra, prevalece
o vício. Porém, esse plano é metafísico, e não terreno. A paidéia (formação)
da alma deveria prepará-la para atingir o Bem Absoluto. Esta seria uma
tarefa do Estado, para que o cidadão pudesse melhor aproveitá-lo e
também melhor servi-lo. Essa visão de Platão sobre o papel do Estado na
vida do cidadão pode ser vista como paternalista. Para o filósofo Karl
Popper, a filosofia política de Platão é autoritária. Assunto para mais
polêmicas, enfim, que podem ser assunto para outro texto.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARANHA, M.L.A.; MARTINS, M.H.P. Filosofando. 3. ed. São Paulo:
Moderna, 2003.
BITTAR, C.E.B.; ALMEIDA, G.A. Curso de Filosofia do Direito. 8. ed. rev.
aum. São Paulo: Atlas, 2010.
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2006.
DROSDEK, A. Filosofia para executivos. Campinas: Versus, 2009.
LEITE, F. T. Manual de Filosofia Geral e Jurídica – das origens a Kant. 2.
ed. rev. amp. Rio de Janeiro: Forense, 2008.
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Roger Moko Yabiku
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Advogado, jornalista e professor universitário. Bacharel em Direito e
Jornalismo, graduado pelo Programa Especial de Formação
Pedagógica de Professores de Filosofia, MBA em Comércio Exterior,
Especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal e Mestre
em Filosofia (Ética). Professor do CEUNSP e da Faculdade de São
Roque - UNIESP.
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YABIKU, Roger Moko. Ética, Direito e Justiça: Sócrates e Platão contra os
sofistas (https://jus.com.br/artigos/20758/etica-direito-e-justica-socrates-e-
platao-contra-os-sofistas). Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862,
Teresina, ano 16 (https://jus.com.br/revista/edicoes/2011), n. 3104
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Trata-se de um texto filosófico?
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Thais Mendes (https://jus.com.br/919438-thais-mendes)
08/04/2013 11:19 (/artigos/20758#comment-4412)
Quais os vocabulários jurídicos presentes nesse texto?
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