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GESTÃO DA QUALIDADE HOSPITALAR Programa de Pós-Graduação EAD UNIASSELVI-PÓS Autora: Carla Eunice Gomes Corrêa CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Coordenadora da Pós-Graduação EAD: Prof.ª Cláudia Regina Pinto Michelli Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Prof.ª Bárbara Pricila Franz Prof.ª Cláudia Regina Pinto Michelli Prof. Ivan Tesck Revisão de Conteúdo: Sofia Eliane dos Santos Revisão Gramatical: Iara de Oliveira Revisão Pedagógica: Ivan Tesck Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI 362.11068 C824g Corrêa, Carla Eunice Gomes Gestão da qualidade hospitalar / Carla Eunice Gomes Corrêa. Indaial : UNIASSELVI, 2016. 96 p. : il. ISBN 978-85-69910-28-2 1. Administração de Hospital. I. Centro Universitário Leonardo da Vinci Copyright © UNIASSELVI 2016 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Carla Eunice Gomes Corrêa Doutora em Ciência e Tecnologia Ambiental pela UNIVALI (2014), Mestre em Desenvolvimento Regional pela FURB (2008), Especialista em Gestão e Educação Ambiental pela UNIASSELVI (2010), Especialista em Formação Integrada Multiprofissional em Educação Permanente em Saúde pela UFRGS (2015), MBA em Gestão Hospitalar (UNINTER) e Graduada em Ciências Econômicas pela FURB (2004). Membro dos Grupos de Pesquisa: Análise Ambiental através do Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto, Gestão em Saúde Pública e PRAESA-SC. Atualmente, é docente na Universidade Regional de Blumenau (FURB), nos cursos de graduação em Ciências Econômicas e Medicina Veterinária; UNIASSELVI NEAD, UNIASSELVI Pós-graduação na área de gestão e saúde. Atua nas áreas de gestão ambiental; economia do meio ambiente; saúde ambiental; responsabilidade socioambiental; economia da saúde e gestão hospitalar. Possui experiência no ensino da área da saúde, projetos de residência médica e captação de recursos para instituições de saúde. Autora dos cadernos de estudos para graduação: Gestão e Qualidade Hospitalar, Desenvolvimento e Planejamento em Saúde, Hotelaria e Arquitetura Hospitalar. Sumário APRESENTAÇÃO ......................................................................7 CAPÍTULO 1 Conceitos e princípios da qualidade ....................................9 CAPÍTULO 2 Acreditação hospitalar ........................................................25 CAPÍTULO 3 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar ..........45 CAPÍTULO 4 Gerenciamento do risco hospitalar...................................67 APRESENTAÇÃO Caro(a) Pós-Graduando(a), Atualmente, vivemos em meio a muitas mudanças e com elas muda o comportamento das pessoas, ou seja, o nível de exigência de nossos clientes. A necessidade de constantes atualizações e aperfeiçoamento das ferramentas de trabalhos é vivenciada em todas as instituições. Na área da saúde não poderia ser diferente. Lidar com todas as inovações tecnológicas, que garantem a integridade da saúde do paciente, é algo desafiador para os profissionais da área da saúde e, também, para os futuros gestores, uma vez que nosso paciente se moldou às mudanças e passou a ser um cliente exigente e bem informado. Dessa forma, a gestão de qualidade em instituições hospitalares se tornou fundamental hoje. Com base nisso, pensamos o presente caderno da Disciplina de Gestão da Qualidade Hospitalar em quatro capítulos. O primeiro capítulo tem o objetivo de familiarizá-lo(a) com a evolução, conceitos e princípios da qualidade. No segundo capítulo são demonstradas as certificações existentes na área da saúde que poderão ajudar o gestor no processo de implantação de melhorias em sua instituição. O terceiro capítulo apresenta as ferramentas que o gestor poderá utilizar com sua equipe para atender aos critérios das normas certificadoras. Mostraremos, também, a importância da auditoria no processo de gestão da qualidade. O quarto e último capitulo está voltado à gestão de risco em instituições de saúde. Hoje, a gestão de risco e a segurança do paciente são assuntos muito discutidos no âmbito da saúde. Trata-se de uma preocupação frequente, uma vez que envolve diretamente a assistência prestada ao paciente. Esperamos que você aproveite ao máximo os estudos desta disciplina e que possa contribuir com o processo de ensino e aprendizagem, pois a qualidade nas instituições de saúde ainda é um desafio muito grande. A cada dia dependemos mais da capacidade, eficiência e eficácia dos processos de trabalhos e isso envolve diversos fatores, como tecnológicos, emocionais e técnicos. Aproveite os conteúdos e bons estudos! CAPÍTULO 1 Conceitos e Princípios da Qualidade A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Compreender os conceitos básicos da qualidade. � Entender os princípios da qualidade. � Compreender o desdobramento do conceito de qualidade. � Aplicar os conceitos de qualidade estudados. 10 Gestão da Qualidade Hospitalar 11 Conceitos e princípios da qualidade Capítulo 1 Contextualização Nunca se falou tanto em “Qualidade” como hoje, principalmente devido às transformações que ocorrem no mundo, fomentadas pelo avanço da tecnologia, e que geram uma grande quantidade de informações e dados. Tais informações e dados permitem que as pessoas adquiram novos conhecimentos e, com isso, aprimorem seus desejos e também as exigências por produtos e serviços de qualidade. Na área da saúde, busca-se oferecer aos clientes serviços de qualidade, que atendam não apenas as suas necessidades de saúde como a cura de doenças. Dessa forma, a disciplina Gestão da Qualidade Hospitalar tem por objetivo desenvolver no aluno competências essenciais para aplicabilidade das técnicas e ferramentas do sistema de gestão no gerenciamento da qualidade no ambiente hospitalar. Neste capítulo, caro(a) pós-graduando(a), vamos relembrar a evolução histórica do conceito da qualidade e a sua implantação pelos serviços de saúde. Estudaremos o processo evolutivo da sua aplicabilidade e como essa ferramenta está sendo fundamental para os serviços de saúde aprimorarem seus processos de trabalho. Vamos lá! Evolução do Conceito de Qualidade No decorrer dos anos, houve diversas transformações nos métodos de produção em consequência da mecanização do trabalho. O modelo tradicional do sistema produtivo fazia com que o empregado não tivesse visão da imensidão do seu trabalho e do reflexo de suas ações no produto final. Em cada uma das épocas, o trabalho foi sendo aperfeiçoado e especializado, desenvolvido de forma repetitiva e permitia uma visão parcial do processo de produção. Como o passar dos anos, os modos de produção foram se estruturando a procura de modelos ideais de gestão dos processos produtivos em busca de melhorias contínuas para a satisfação das necessidades dos clientes. A partir disso, as empresas também passaram a se preocupar com a Gestão da Qualidade. 12 Gestão da Qualidade Hospitalar Surgimento da Gestão da Qualidade A gestão da qualidade teve sua origem na década de 30, baseada nos processos operacionais da indústria. Em 1950, surgiu o conceito de qualidade total, a partir da visão japonesa e, também, da visão norte-americana, Total Quality Control. Processo: É uma sequência organizada de atividades que transforma as entradas dos fornecedores em saídas para os clientes, com um valor agregado gerado pela unidade. (MIGUEL,2005). O período pós-guerra trouxe ainda dimensões novas ao planejamento das empresas. Em virtude da incompatibilidade entre seus produtos e as necessidades do mercado, passaram a adotar um planejamento estratégico, porque caracterizava uma preocupação com o ambiente externo das empresas. (RODRIGUES et al., 2011, p. 20). Figura 1 – Organização do fluxo produtivo Fonte: Adaptado de Rodrigues et al. (2011). Mas, para você compreender melhor essa origem da qualidade, cabe salientar que esses modelos apresentavam diferentes objetivos. Os norte-americanos, por exemplo, estavam preocupados com a identificação de problemas na produção; os japoneses tinham por objetivo o desenvolvimento de processos produtivos mais eficazes. (MIGUEL, 2005). Nas décadas de 1950/60, Edward Deming e Joseph Juran ensinaram aos japoneses as mais modernas técnicas de produção com qualidade e produtividade. Neste período, era muito comum os japoneses apresentarem produtos com baixa qualidade e os índices de retrabalhos eram consideravelmente altos, o que implicava também baixa produtividade. (RODRIGUES et al., 2011). 13 Conceitos e princípios da qualidade Capítulo 1 Os esforços para a melhoria da qualidade receberam forte impulso com a introdução progressiva do controle estatístico dos resultados que desejam atingir, num sistema produtivo planejado para alcançar a qualidade do produto final. (COUTO; PEDROSA, 2011). Nesse contexto, algumas épocas marcaram o surgimento da qualidade na indústria. Garvin (1997) denominou tais períodos como sendo as “Eras da Qualidade”. Observe, no quadro que segue, as características específicas de cada uma das eras da qualidade. Quadro 1 – Eras da qualidade Fonte: Adaptado de Garvin (1997). Atualmente, as características da qualidade estão relacionadas ao atendimento das necessidades dos clientes, e, por isso, a implantação de programas de qualidade não é mais uma exclusividade. (MARSHAL JUNIOR, 2003). Eras Descrição Era da inspeção A era da inspeção surgiu a partir da produção em massa (Revolução Industrial) e tinha por objetivo a verificação do produto, mantendo a uniformidade, por meio de instrumentos de medição que se resumiam à inspeção, à classificação, à contagem, à avaliação e ao reparo. Era do controle esta- tístico A era do controle estatístico do processo foi desenvolvida por Shewhart, na década de 1930, com o objetivo de monitorar o processo produtivo e identificar a necessida- de de fazer ações de melhoria por meio de técnicas estatísticas básicas. Era da gestão estratégica Na era da gestão estratégica, a prevenção de problemas continuava sendo o foco principal, porém os instrumentos de controle estatísticos foram associados à quan- tificação de custos da qualidade por Joseph Juran, em 1951. Era da gestão total da qualidade A era da gestão total da qualidade foi marcada pela utilização do planejamento estratégico, com o desenvolvimento de metas, capacitação das equipes, contra- tação de consultorias especializadas, investimentos em programas e sistemas de informática. Os esforços para a melhoria da qualidade receberam forte impulso com a introdução progressiva do controle estatístico dos resultados. 14 Gestão da Qualidade Hospitalar Para aprofundar seu conhecimento sobre as Eras da Qualidade, sugere-se a leitura do capítulo 1 do livro de: GARVIN, D. A. Gerenciando a qualidade: a visão estratégica e competitiva. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997. A qualidade também é marcada por alguns pensadores, cujos projetos foram destaque em cada um desses períodos. São os chamados “Gurus da Qualidade”. O que eles têm em comum? Podemos “[...] dizer que eles fizeram parte da história, tanto pela contribuição teórica, como pela intervenção em empresas.”. (CARVALHO, 2005, p. 10). O quadro a seguir apresenta os principais nomes citados na literatura acadêmica e profissional a respeito dos “Gurus da Qualidade”: Walter A. Shewhart, Joseph M. Juran, Philip B. Crosby, W. Ewards Deming e Kaoru Ishikawa. Quadro 2 – Principais gurus da qualidade Fonte: Adaptado de Carvalho (2005) e Garvin (1997). Guru Formação Contribuição Walter A. Shewhart Americano graduado em Engenharia com doutorado em Física. Conhecido como pai do controle estatístico do processo. Controle estatístico do processo (CEP). Propõe o ciclo PDCA (plan- -do-check-act). W. Ewards Deming Americano, Engenheiro Elétrico e doutor em Matemática e Física. Pai do controle da quali- dade no Japão. Seu nome tornou-se o Prêmio Japonês da Qualidade – Deming Prize. Os 14 princípios de Demming. De- senvolvimento do controle estatístico do processo (CEP). Joseph M. Juran Natural da Romênia, graduou-se em Enge- nharia e Direito. Colaborador da Revolução da Qualidade Japonesa. Os 10 pontos de Juran. Trilogia do plano de melhoria da qualidade. Philip B. Crosby Americano formado em Engenharia. Especia- lista na área da qualidade. Os 14 pontos de Crosby. Quality is Free (1979). Defeito Zero. Kaoru Ishi- kawa Natural do Japão, graduou-se em Química Aplicada. Desempenhou importante papel no modelo japonês. Controle da Qualidade por toda a empresa (Company Wide Quality Control – CWQC). As sete ferramen- tas da qualidade. 15 Conceitos e princípios da qualidade Capítulo 1 O século XX foi marcado pela conformidade dos produtos fabricados, devido à produção em massa, que levou a indústria a desenvolver sistemas de produção baseados em inspeção, em que um ou mais atributos eram examinados, testados e controlados. (RODRIGUES et al., 2011). Em 1946 era fundada a JUSE (Japanese Union of Scientists and Engineers) com objetivo de agregar estudiosos que pudessem contribuir para a recuperação [...]. Demming foi convidado para ensinar engenheiros e técnicos japoneses o controle estatístico da qualidade. A partir de então, centrado na JUSE, essas técnicas administrativas foram determinadas pelas empresas japonesas, tornando-se as ferramentas gerenciais que permitiram aos produtos japoneses sair do ruim e barato para o melhor do mundo e ainda barato, o que viabilizou o milagre japonês. (COUTO; PEDROSA, 2011, p. 103). A aplicabilidade da qualidade incorpora um conceito mais amplo, que extrapola o produto, e suas ferramentas se voltam para setores como, por exemplo, o de serviços, e isso tem se tornado um desafio dos gestores pela complexidade das organizações. Conceito da Qualidade A literatura apresenta amplo significado ao conceito de qualidade e, por isso, surgem várias interpretações para a qualidade. Muitos autores vêm a qualidade como uma satisfação do cliente pelo produto e/ou serviço adquirido, para outros, engloba, também, a busca da excelência para todas as atividades de um processo. (RODRIGUES et al., 2011). Essa situação torna difícil atribuir um conceito definitivo para a ideia do que realmente seja qualidade, principalmente porque o termo é associado às necessidades, às percepções, às expectativas e à aplicabilidade de cada agente. A qualidade é um atributo intrínseco às coisas, muitas vezes, difícil de ser quantificável e possui uma dimensão subjetiva, e que pode ser uma forma de diferenciação. Pode-se dizer que qualidade é o que determina a natureza das coisas. Ela permite avaliação, aprovação, aceitação ou a recusa de um bem ou serviço. [...] a qualidade é um conceito abstrato, que varia de acordo com o tempo, os costumes, a tecnologia e a cultura. (RODRIGUES et al., p. 23, grifo nosso). O século XX foi marcado pela conformidade dos produtos fabricados, devido à produção em massa, que levou a indústria a desenvolver sistemas de produção baseados em inspeção, em que um ou mais atributoseram examinados, testados e controlados. 16 Gestão da Qualidade Hospitalar Garvin (1997) a partir de alguns questionamentos: A qualidade é objetiva ou subjetiva? É relativa ou absoluta? Independe do tempo ou é socialmente determinada? Pode ser dividida em categorias mais restritas e de maior significado?, apresenta cinco abordagens do conceito para a qualidade. Quadro 3 - Definições da qualidade a partir das abordagens de Garvin Fonte: Adaptado de Garvin (1997). ABORDAGENS DEFINIÇÃO CONCEITO TRANSCENDEN- TAL Qualidade é sinônimo de excelência inata. A qualidade não é uma coisa concreta, mas uma terceira identidade indepen- dente das duas; embora não possa definir qualidade, sabe-se o que ela é. (PIRSING, 1974, p. 185). BASEADO NO PRODUTO A qualidade é vista como uma variável precisa e mensurável. Melhor quali- dade somente com custo elevado. É vista como característica inerente ao produto, e não como algo atribuído a ele. Diferenças de qualidade correspon- dem a diferenças de quantidade de algum ingrediente ou atributo deseja- do. (ABBOUT, 1955, p. 126-127). BASEADA NO USUÁRIO Qualidade é uma variável subjetiva. Parte da premissa de que a qualida- de está diante dos olhos de quem observa. Qualidade é a adequação de uso. (JURAN, 1968, p. 37). BASEADA NO VALOR A qualidade é definida em termos de custos e preços. Qualidade é o grau de excelência a um preço aceitável e o controle da variabilidade a um custo aceitável. (BROH, 1982, p. 3). BASEADA NA PRODUÇÃO A qualidade tem como base o produto final. Qualidade é o grau em que um produ- to específico está de acordo com um projeto ou especificação. (GILMORE, 1974, p. 16). 17 Conceitos e princípios da qualidade Capítulo 1 Para Feigenbaum (1961 apud MARSHAL JÚNIOR, 2003) a qualidade é a determinação do cliente e não da engenharia, nem do marketing e nem da alta direção. A qualidade deve ser baseada na expectativa do cliente com o produto ou serviço. Para saber mais sobre o conceito de qualidade, sugere-se a leitura do livro: CARPINETTI, L. C. R. Gestão da qualidade: conceitos e técnicas. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2016. Atividade de Estudos: 1) Agora que você estudou sobre os conceitos de qualidade, responda: O que é qualidade? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Qualidade nos Serviços de Saúde Geralmente, a qualidade é associada às atividades desenvolvidas pelas organizações de saúde, já que se trata de um setor cujo propósito é a prevenção, a promoção e a reabilitação da saúde das pessoas. Florence Nightingale já demonstrava a preocupação com a qualidade em procedimentos assistenciais. (MIRANDA, 2011). FLORENCE HIGHTINGALE Florence Nightingale é considerada a fundadora da enfermagem moderna. Sua família considerava a enfermagem algo inapropriado para uma dama de boa estirpe, por isso, começou seus estudos após os 31 anos, em um curso de treinamento na Alemanha. Na Inglaterra, Florence abriu o primeiro curso de treinamento, em 1860. Florence não conhecia o conceito de contato por micro- organismos, uma vez que este ainda não tinha sido descoberto, A qualidade deve ser baseada na expectativa do cliente com o produto ou serviço. 18 Gestão da Qualidade Hospitalar porém já acreditava em um meticuloso cuidado quanto à limpeza do ambiente e pessoal, ar fresco e boa iluminação, calor adequado, boa nutrição e repouso, com manutenção do vigor do paciente para a cura. Ao longo de toda a Guerra da Criméia, Florence conseguiu reduzir as taxas de mortalidade entre os soldados britânicos, através de seus esforços como enfermeira e, provando a eficiência das enfermeiras treinadas para a recuperação da saúde. Até o momento, só homens e mulheres religiosos podiam cuidar dos soldados no exército Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/eU3qdl>. Acesso em: 28 jun. 2016. Atualmente, as discussões sobre qualidade nos serviços de saúde abrangem tanto o Sistema Único de Saúde (SUS) como também os sistemas privados (planos de saúde e convênios). Você sabia que o Brasil se destaca por ter um dos sistemas privados mais abrangentes do mundo? Segundo Rodrigues et al. (2011), a iniciativa privada se destaca em adotar medidas de qualidade na assistência privada, uma vez que estas aumentam a satisfação dos clientes, melhoram os processos e, consequentemente, aumentam a relação custo-efetividade. Na Coreia do Sul, o setor privado é responsável pelo atendimento de 90% da população. O país é detentor de tecnologia da informação (TI) e garante a qualidade da atenção em saúde, por meio do monitoramento domiciliar de pacientes. Quando falamos em qualidade, geralmente nos referimos aos sete pilares que são amplamente discutidos há décadas: aceitabilidade, efetividade, eficácia, eficiência, equidade, legitimidade e otimização. 19 Conceitos e princípios da qualidade Capítulo 1 Figura 2 – Pilares da qualidade Fonte: Adaptado de Miranda (2011). De acordo com Miranda (2011), esses pilares significam: • Aceitabilidade: adaptação da assistência às expectativas e aos valores dos pacientes, familiares e acompanhantes; • Efetividade: o que se pode esperar; • Eficácia: o melhor que se pode fazer em condições favoráveis (tecnologia e competência técnica); • Eficiência: medida do custo pelo qual a melhoria na saúde é alcançada (relação de parâmetro); • Equidade: principio pelo qual se determina o que é razoável e/ou justo à sociedade; • Legitimidade: aceitabilidade do cuidado tal como é visto pela comunidade ou sociedade; • Otimização: relação mais favorável entre custo e benefício. A discussão sobre o que é qualidade em saúde, bem como sobre a diversidade de conceitos, muitas vezes, diverge de acordo com o entendimento e aplicabilidade do termo pelos gestores. (RODRIGUES et al., 2011; LUONGO, 2011; BURMESTER, 2012). 20 Gestão da Qualidade Hospitalar Rodrigues et al. (2011) afirma que a qualidade passou a ser um diferencial competitivo e uma forma de as organizações alcançarem melhores resultados financeiros. Os programas de qualidade se tornaram habituais, fazendo do cliente um consumidor mais exigente. Atualmente, observamos que adotar programas de qualidade também passou a ser um diferencial nas instituições públicas de saúde, que buscam melhorar a eficiência financeira com adoção de melhoria dos processos de trabalho, porém se deparam com muitos desafios. Na contramão da tendência mundial de enxugamento e agilidade das funções do Estado, o Brasil se encontra mergulhado em burocracia, que impede uma melhoria na produtividade, eficiência e eficácia dos serviços públicos ofertados. Existe uma lista imensa de problemas e os que nos ocorrem são a existência de uma legislação complexa, problemas financeiros, problemas de pessoal, muitas vezes relacionados a baixos salários, poucos incentivos a uma formação adequada à realidade social e falta de programa de capacitação continuada. (RODRIGUES et al., 2011. p. 39). Para o desenvolvimento de uma política de qualidade em organizações de saúde, é necessário o conhecimento das diretrizes e estratégias institucionais. O desafio, no entanto, está na forma de planejar de maneira mais adequada, levando em consideração as necessidades da organização. (MIRANDA, 2011). Vimos anteriormente que a palavra qualidade sofre diversas definições. Alguns autores, como Couto e Pedrosa (2011), ao falar de qualidade em hospitais, classificam a qualidade em: 1. Qualidadeessencial: é o tipo de qualidade que não pode faltar ao produto e/ou serviço. Possui qualidade intrínseca, ou seja, o produto e/ou serviço deve ser realmente bom para o que se propõe. Além disso, apresenta como características marcantes, também, a entrega, a segurança e o custo operacional. Para melhor entendimento, vamos exemplificar. Imagine um paciente que tomará uma “medicação venosa”. Ele deverá receber um medicamento de qualidade, que apresente eficácia no tratamento, na hora correta, na quantidade adequada e com o menor custo para a instituição e para o cliente. 2. Qualidades atrativas: são características que determinam a preferência do cliente e que incentivam a competitividade. Por exemplo, o “atendimento domiciliar”, ofertado por alguns planos de saúde. 3. Qualidade defensiva: é aquela que desagrada ao cliente, como, por exemplo, tempo de espera para o atendimento em unidades de urgência e Adotar programas de qualidade também passou a ser um diferencial nas instituições públicas de saúde, que buscam melhorar a eficiência financeira com adoção de melhoria dos processos de trabalho, porém se deparam com muitos desafios. 21 Conceitos e princípios da qualidade Capítulo 1 emergência. Entretanto, nem sempre é possível eliminar essa característica por completo, visto que estas unidades são portas de entradas nos hospitais e voltadas para atendimentos em estado de saúde grave. 4. Qualidade ofensiva: é antecipar características da qualidade que satisfaçam o cliente e que, muitas vezes, eles nem esperam, por exemplo, ofertar a um tratamento de beleza sem custo adicional. A finalidade da instituição de saúde é satisfazer a necessidade do cliente, garantido a ele a excelência na qualidade do serviço ofertado e executado. Assim, é necessário conhece-lo, saber de suas necessidades, suas expectativas e seu perfil, assumindo com ele um compromisso. Para assumir um compromisso com o cliente é preciso conhecer as próprias falhas. Não basta excluir-se e culpar a instituição e sua estrutura organizacional; é necessário se colocar no lugar do cliente, entendendo suas razões e procurando soluções para seus anseios e problemas [...] (MIRANDA, 2011, p. 37). Qual a motivação do cliente? A motivação do cliente é oriunda da qualidade do serviço, da relação custo-benefício, da satisfação de suas necessidades, da possibilidade de escolha e da diversidade dos serviços oferecidos. Atividade de Estudos: 1) Você, em algum momento da vida, já deve ter procurado pelos serviços das instituições de saúde, seja por um problema de doença, seja para acompanhar algum familiar, seja, ainda, para visitar alguém. Neste momento, quais atributos observou em relação à qualidade dos serviços? __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ A finalidade da instituição de saúde é satisfazer a necessidade do cliente, garantido a ele a excelência na qualidade do serviço ofertado e executado. 22 Gestão da Qualidade Hospitalar Algumas Considerações Prezado(a) pós-graduando(a), chegamos ao final do capítulo 1 da disciplina de Gestão da Qualidade. Ele nos proporcionou aprimorar o conhecimento sobre a história de qualidade e sua evolução ao longo do tempo. Além disso, foi possível compreender como estes conceitos, oriundos das indústrias, foram adaptados para atender à necessidade das organizações de saúde, com o objetivo de melhorar os serviços prestados. Por tratar-se de um assunto amplo, o objetivo neste caderno não foi de esgotar o assunto, e sim fazer com que você compreenda que, embora a qualidade seja muito voltada ao setor de produção, trata-se de uma ferramenta que pode e deve ser aplicada ao setor de serviços. Dessa forma, sugerimos que aprofunde seus conhecimentos com as leituras sugeridas ao longo do capítulo, para que possa alcançar sucesso no processo de aprendizagem. No próximo capitulo, veremos quais são as certificações da qualidade aplicadas às organizações de saúde e quais os critérios estabelecidos para a concessão destas. Referências BURMESTER, H. Manual de gestão hospitalar. Rio de Janeiro: FGV, 2012. CARVALHO, M. M. (Org.). Gestão da Qualidade: teoria e casos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. COUTO, R. C.; PEDROSA, T. M. G. Qualidade total aplicada a hospitais. In: COUTO, R. C.; PEDROSA, T. M. G. Hospital: acreditação e gestão em saúde. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. GARVIN, D. A. Gerenciando a qualidade: a visão estratégica e competitiva. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1997. LUONGO, J. Gestão da qualidade em saúde. São Paulo: Ridell, 2011. MARSHALL JUNIOR, I. (Org.). Gestão da Qualidade. Rio de Janeiro: FGV, 2003. 23 Conceitos e princípios da qualidade Capítulo 1 ______ et al. Gestão da qualidade. 10. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2010. MIGUEL, P. A. C. Gestão da qualidade: TQM e modelos de excelência. In: CARVALHO, M. M. (Org.). Gestão da qualidade: teoria e casos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. MIRANDA, V. M. Aspectos históricos da qualidade em saúde. In: LUONGO, J. Gestão da qualidade em saúde. São Paulo: Rideel, 2011. RODRIGUES, M. V. et al. Qualidade e acreditação em saúde. Rio de Janeiro, FGV, 2011. 24 Gestão da Qualidade Hospitalar CAPÍTULO 2 Acreditação Hospitalar A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Compreender os processos de acreditação. � Conhecer as certificadoras no Brasil. � Conhecer os critérios de cada um dos tipos de certificação. 26 Gestão da Qualidade Hospitalar 27 Acreditação hospitalar Capítulo 2 Contextualização Prezado(a) pós-graduando(a), neste capitulo vamos estudar a evolução das instituições acreditadoras no mundo e no Brasil. Atualmente, várias empresas já são especializadas em prestar serviços para as empresas certificadoras de instituições de saúde. Estes institutos utilizam-se da metodologia desenvolvida pelas acreditadoras para avaliar as instituições de saúde. Estudaremos, também, os critérios estabelecidos pelas acreditadoras para a certificação das instituições de saúde. Bons estudos! Conceito de Acreditação Hospitalar Antes de estudarmos os sistemas de acreditação e sua evolução com o passar dos anos, é importante diferenciarmos alguns dos termos utilizados pelos sistemas de acreditação. Você sabia que certificação e acreditação são terminologias diferentes? A certificação da qualidade é o reconhecimento da instituição por uma unidade certificadora da conformidade do sistema de qualidade. Estas conformidades podem incluir: os processos; requisitos da assistência ao cliente/paciente; normatização das ações. (ALVES, 2012). A acreditação é um processo de avaliação externa, por meio do qual uma organização avalia periodicamente as instituições de saúde para determinar se elas atendem aos critérios estabelecidos para a melhoria dos serviços prestados no cuidado ao paciente. (ALVES, 2012). Você também encontrará na literatura sobre avaliação da qualidade na atenção e na assistência em saúde outros instrumentos reguladores, como: • Habilitação: realizada principalmente por autoridade sanitária, necessária para o funcionamento do serviço; A certificação da qualidade é o reconhecimento da instituição por uma unidade certificadora da conformidade do sistema de qualidade. 28 Gestão da Qualidade Hospitalar • Categorização: é a divisão e classificação das unidadesde saúde de acordo com as especialidades e complexidades. Atualmente, a qualidade faz parte de um conjunto de atributos essenciais para que as empresas sejam competitivas no seu mercado de atuação, e, por isso, é de fundamental importância que gestores, líderes do processo, envolvam- se e envolvam seus subordinados na elaboração do planejamento estratégico, estabelecimento de objetivos, mobilização de toda organização para a busca da melhoria contínua de processos. Evolução da Acreditação Hospitalar no Mundo As organizações hospitalares da Europa foram as percursoras em implantar a qualidade dos serviços, a partir do século XVIII, devido à inadequação dos prédios hospitalares da época. (MADUREIRA; OLIVEIRA, 2014). A partir do século XX, dois eventos foram considerados marco para avaliação dos serviços de saúde: o Council on Medical Education da American Medical, em 1906, que iniciou com um processo de avaliação de 163 escolas médicas, das quais 124 foram fechadas por não apresentarem condições de estrutura e processos de trabalho; e a proposta do cirurgião americano Ernst Amory Codmann, do Massachussetts General Hospital, em padronizar a avaliação dos resultados, primeira iniciativa de avaliação de tratamento em que o hospital deveria acompanhar o paciente o tempo suficiente para determinar se o tratamento alcançara seus objetivos. (MADUREIRA; OLIVEIRA, 2014; RODRIGUES et al., 2011). Em 1913, o Colégio Americano de Cirurgiões desenvolveu uma padronização mínima para hospitais (Minimum Standard for Hospitais) com os requisitos básicos a serem avaliados: organização do corpo clínico; conselho diretor do hospital; regulamentação e normas para os trabalhadores do hospital; guarda de prontuários; padronização de check-list de avaliação do paciente; solicitação de exames laboratoriais e específicos; disponibilidade de equipamentos para diagnósticos e terapêuticos. Essa inspeção iniciou em 1918, e dos 692 hospitais apenas 89 preencheram os requisitos. No início, a padronização tinha por finalidade criar um ambiente adequado para proteger o médico do ambiente de trabalho adverso, mas, em seguida, passou a enfatizar a prática clínica. À medida que o sucesso do programa se 29 Acreditação hospitalar Capítulo 2 espalhou, um número crescente de hospitais quis se submeter ao processo. (RODRIGUES et al., 2011, p. 89). Em 1951, da parceria entre o Colégio Americano de Cirurgiões, o Colégio Americano de Clínicos, a Associação Americana de Hospitais e a Associação Médica Canadense, formou-se a Joint Commission on Hospital Acreditation (JCHA). Em 1958, a Associação Médica Canadense se separou da JCHA e fundou a Canadian Council on Hospital Accreditation (CCHA). (DONAHUE; O´ LEARY, 2000). Em 1974, a Austrália criou o conselho de padronizações de Hospitais. Em seguida, Nova Zelândia, Reino Unido e França criaram seus próprios critérios de padronização. Além das normas da JCHA, também foram relevantes os critérios criados pela European Foundation for Quality Management (EFQM). Em 1988, a JCHA expande seus objetivos, abrangendo organizações de saúde em geral, não mais somente instituições hospitalares, e forma-se a Joint Comissiono n Acreditation of Healthcare Organizations (JCAHO). E, em 1999, criou-se a Joint Comission Internacional, responsável em desenvolver padrões internacionais para sua atuação fora dos Estados Unidos. (RODRIGUES et al., 2011; MALIK; SCHIESARI, 2014). Os Sistemas de Acreditação na América Latina e Brasil A partir de 1990, intensificou-se a implantação de sistemas de acreditação na América Latina, organizada pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). Em 1991, através da parceria entre a OPAS e a Federação Latino Americana de Hospitais, elaborou-se um instrumento de avaliação hospitalar para a América Latina e Caribe. A estruturação deste documento foi realizada por meio de padrões e níveis de complexidade. (RODRIGUES et al., 2011). Desde 1970, o Brasil vem desenvolvendo portarias e resoluções com critérios para avaliar a assistência à saúde. Uma das primeiras iniciativas não- 30 Gestão da Qualidade Hospitalar governamentais ocorreu em 1986, inspirada no modelo americano desenvolvido pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões. O Ministério da Saúde elaborou, em 1992, o projeto Garantia da Qualidade em Saúde junto com o Banco Mundial. Sua estrutura compreendeu quatro componentes básicos: rede de informações, desenvolvimento gerencial, regulação e controle da utilização de tecnologias e controle social, informados por sistemas específicos ligados à vigilância epidemiológica, vigilância sanitária e instrumentos de ação para o Sistema Único de Saúde, nos três níveis de governo. (MADUREIRA; OLIVEIRA, 2014, p. 321, grifo nosso). Em 1994, a Academia Nacional de Medicina, o Colégio Brasileiro de Cirurgiões e a Universidade do Estado de Rio de Janeiro se reuniram para criar o programa de Avaliação e Certificação da Qualidade em Saúde (PACQS). Em 1997, o PACQS transformou-se no Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), que representa a JCI no Brasil. (RODRIGUES et al., 2011). Tais esforços evoluíram com o passar dos anos e, atualmente, o Brasil possui quatro modelos de acreditação hospitalar: Programa de Controle de Qualidade do Atendimento Médico Hospitalar (CHQ); International Organization for Standardization (ISO); Organização Nacional de Acreditação (ONA); Joint Comission International (JCI). Programa de Controle de Qualidade Hospitalar – CHQ O Programa de Controle de Qualidade do Atendimento Médico-Hospitalar (CHQ) está vinculado à Associação Paulistana de Medicina e ao Conselho Regional de Medicina. O programa envolve a coleta e análise regular de informações sobre a gestão dos hospitais. Além disso, o CHQ prevê a visita in loco para verificação dos padrões estabelecidos para a concessão da certificação. O objetivo do CHQ é o estimulo à melhoria da qualidade nos hospitais do Estado de São Paulo, ajudando-os a cumprir sua função social e seu compromisso com as comunidades. (MIRANDA, 2011). De acordo com Alves (2012), as instituições que adotam o modelo CHQ têm os seguintes benefícios: � Têm à disposição um modelo de gestão da qualidade; 31 Acreditação hospitalar Capítulo 2 � Podem compartilhar experiências com pelo menos 100 instituições hospitalares do Estado de São Paulo através de reuniões periódicas; � Participação de eventos da qualidade; � Assessoria específica voltada à infecção hospitalar; � Pesquisas de satisfação com usuários; � Visitas periódicas para avaliação das equipes; � Selo de reconhecimento de conformidade; � Participação do Prêmio de Gestão em Saúde – PNGS. PRÊMIO DE GESTÃO EM SAÚDE – PNGS. Este é um prêmio anual que reconhece e qualifica as organizações da área da saúde que buscam excelência em sua gestão, resultando em um atendimento adequado à população e resultados superiores de desempenho. A visão do PNGS é servir como modelo referência para avaliação e orientação da gestão das organizações de saúde em todo o Brasil. A rigorosa metodologia de avaliação do PNGS está alinhada com as diretrizes do Prêmio Nacional da Qualidade. O prêmio consistirá de um troféu, diploma de reconhecimento e ampla divulgação na mídia. A missão do prêmio é contribuir para o aprimoramento das práticas de gestão na área da saúde, por meio da avaliação e reconhecimento das melhores práticas no setor. Há quatro categorias distintas, nas quais pode haver mais de um vencedor: hospitais, laboratórios de patologia clínica, clínicas de especialidades médicas (clínicas de imagem, hemoterapia, ortopedia, oncologia, diálise, etc.) e atendimento domiciliar. Poderão concorrer entidades de qualquer parte do território nacional e que tenham:pelo menos um ano de existência; pelo menos dez pessoas na sua força de trabalho; registro no Conselho Regional de Medicina do seu Estado; estar inscrito no CNPJ e que não sejam operadoras de planos de saúde. As entidades para concorrer, deverão submeter ao PNGS um relatório de gestão que será avaliado por uma banca avaliadora e por 32 Gestão da Qualidade Hospitalar um corpo de juízes; o processo de avaliação terá duas fases, sendo a segunda, uma visita às instalações. Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/RdzDCw>. Acesso em: 10 ago. 2016. Joint Comission International - JCI A Joint Commission on Acreditation foi criada nos Estados Unidos, em 1951, e, aos poucos, foi evoluindo para outros países. O processo de acreditação americano é coordenado pela Joint Comisson international - JCI. O objetivo do programa é estimular a demonstração de uma melhoria contínua e sustentada nas instituições de saúde, por meio do emprego de padrões de consenso internacional de Metas Internacionais de Segurança do Paciente. No Brasil, a JCI é representada pela Comissão Brasileira de Acreditação, que detém o direito de utilização da metodologia. Além da CBA, estão autorizados a fazer uso da metodologia a Fundação para a Acreditação e o Desenvolvimento Assistencial (FADA), instituição ligada à Fundação Avedis Donabedian, na Espanha. A Fundação Avedis Donabedian (FAD) foi fundada em 1989 e é a entidade gestora do Instituto Universitário Donabedian Avedis, criada em 2006. Ele está ligado à Universidade Autónoma de Barcelona, como um centro com personalidade jurídica própria. Sua missão é colaborar com os profissionais, instituições, administrações públicas, os cidadãos e as organizações profissionais e outras instituições públicas e privadas, com o objetivo de melhorar a qualidade de saúde e serviços sociais recebidos pelos cidadãos. Melhorar a qualidade promove uma atitude e um desempenho científico e profissional que utiliza elementos da teoria de avaliação, as disciplinas de gestão e outras metodologias quantitativas e qualitativas, para fazer o trabalho de profissionais cada vez com maior qualidade científica e técnica e que os usuários recebam um serviço adequado às suas necessidades e expectativas. Fonte: Disponível em: <www.fadq.org>. Acesso em: 15 jul. 2016. 33 Acreditação hospitalar Capítulo 2 A CBA é uma agência acreditadora, formada pela Academia Nacional de Medicina, pelo Colégio Brasileiro de Cirurgiões, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pela Fundação Cesgranio. (MADUREIRA; OLIVEIRA, 2014). A JCI, assim como as outras agências certificadoras, desenvolveu um manual internacional de padrões de acreditação hospitalar, constituído de quatro seções, conforme quadro a seguir: Quadro 4 – Seções do Manual da ONA Fonte: Adaptado de Brasil (2012). Embora a metodologia internacional JCI tenha chegado ao Brasil na mesma época em que foi estabelecido o Programa Brasileiro de Acreditação, a quantidade de organizações acreditadas por essa metodologia corresponde a 10% das acreditadas pela ONA. A maior parte das organizações são de São Paulo, Rio de janeiro e Rio Grande do Sul. Seção Critérios Avaliados Seção I Requisitos para participação na acreditação Seção II Padrões centrados no paciente - Metas internacionais de segurança do paciente (IPSG). - Acesso ao cuidado e continuidade do cuidado (ACC). - Direitos dos pacientes e familiares (PFR). - Avaliação do paciente (AOP). - Cuidado ao paciente (COP). - Anestésicos e cirurgias (ASC). - Gerenciamento e uso de medicamentos (MMU). - Educação dos pacientes e familiares (PFE). Seção III Padrões de Gestão da Organização de Saúde - Melhoria da qualidade e segurança do paciente (QPS). - Prevenção e controle de infecções (PCI). - Governo, Liderança e Direção (GLD). - Gerenciamento e segurança das instalações (SQE). - Gerenciamento da informação (MOI). Seção IV Padrões para Hospitais de Ensino - Educação Médica (MPE). - Programa de Pesquisas Seres Humanos (HRP). 34 Gestão da Qualidade Hospitalar Organização Nacional de Acreditação A Organização Nacional de Acreditação é um sistema brasileiro voltado ao sistema de certificação de terceira parte, ou seja, utiliza instituições acreditadoras para realização do processo de certificação. Esse processo é muito semelhante às normas da ISO. O processo de avaliação está fundamentado nos critérios estabelecidos pela Fundação Nacional da Qualidade, nos setes pilares da qualidade em saúde, descritos por Donabedian no manual publicado pela OPA, no sistema Americano Joint Commission e em outros sistemas desenvolvidos por países como Canadá, Austrália, Nova Zelândia, França e Argentina. (MADUREIRA; OLIVEIRA, 2014). Figura 3 - Elementos básicos do sistema de acreditação ONA Fonte: A autora. O Ministério da Saúde e a ONA tornaram-se parceiros em todo o processo de elaboração, desde a habilitação de empresas acreditadoras até as certificações das unidades de saúde. Para que as empresas possam organizar-se para serem certificadas e atender aos critérios estabelecidos, a ONA desenvolveu um manual. O manual foi editado a partir da experiência acumulada em dez anos da avaliação de vários hospitais brasileiros. (HELITO, 2010). O manual é dividido em seções e subseções. Nas seções estão reunidos os serviços, setores e unidades que possuem afinidades entre si. Nas subseções estão descritos os respectivos padrões, cada um deles com a definição do que se busca avaliar e com uma lista de itens e orientações. A Organização Nacional de Acreditação é um sistema brasileiro voltado ao sistema de certificação de terceira parte, ou seja, utiliza instituições acreditadoras para realização do processo de certificação. O Ministério da Saúde e a ONA tornaram-se parceiros em todo o processo de elaboração, desde a habilitação de empresas acreditadoras até as certificações das unidades de saúde. 35 Acreditação hospitalar Capítulo 2 Quadro 5 - Seções e subseções do manual da ONA Fonte: Rodrigues et al. (2011, p. 96-97). A ONA realiza a certificação tendo como base 03 níveis: • Nível 1 – Segurança e Estrutura. • Nível 2 – Organização. • Nível 3 – Práticas de Gestão da Qualidade. Agora, caro(a) pós-graduando(a), veremos o que cada um desses níveis exige. Nível 1 – As exigências contemplam o atendimento aos requisitos básicos Seções Descrição Liderança e administração Direção e liderança, gestão de pessoas, gestão administrativa financeira, gestão de materiais e suprimentos e gestão da qualidade. Serviços profissionais e organização da assistência Corpo clínico e enfermagem. Serviços de atenção ao paciente/cliente Internação, recepção, transferência, referência e contrarreferência, aten- dimento ambulatorial e emergência, centro cirúrgico, anestesiologia, obs- tetrícia, neonatologia, tratamento intensivo, hemoterapia, reabilitação, medicina nuclear e radioterapia. Serviço de apoio diagnós- tico e terapêutico Laboratório clínico, diagnóstico por imagem, métodos gráficos e anato- mia patológica. Serviços de apoio técnico e abastecimento Sistema de informação do paciente, prevenção e controle de infecções, assistência farmacêutica, assistência nutricional, lavanderia, central de processamento de materiais e esterilização, higiene, segurança e saúde ocupacional, serviço social e materiais e suprimentos. Serviços de apoio admi- nistrativo e infraestrutura Gestão de projetos físicos, gestão da infraestrutura fisco-funcional, ges- tão de manutenção predial, gestão de resíduos, gestão de equipamentos médico-hospitalares e gestão de segurança. Ensino e pesquisa Educação continuada, ensino e pesquisa.36 Gestão da Qualidade Hospitalar da qualidade na assistência prestada ao cliente, nas especialidades e nos serviços das organizações de saúde a serem avaliadas, com recursos humanos compatíveis com a complexidade, qualificação adequada dos profissionais e responsáveis técnicos com habilitação correspondente para as áreas de atuação institucional. (HELITO, 2010). Neste nível, é avaliada a segurança necessária exigida pelas normas sanitárias e técnicas e pelas boas práticas assistenciais, por isso, assemelha-se à lógica da Agência Nacional da Vigilância Sanitária (ANVISA). (RODRIGUES et al., 2011; HELITO, 2010; ALVES, 2012). Nível 2 – As exigências deste nível contemplam evidências de adoção de planejamento na organização da assistência, referentes à documentação, ao corpo funcional, ao treinamento, ao controle, às estatísticas, às estatísticas básicas para a tomada de decisão clínica e gerencial e às práticas de auditoria interna. (FELDMAN, 2010). Neste nível, a organização cumpre os requisitos do nível 1 e utiliza uma metodologia com seus processos, protocolos clínicos e toda uma estratégia de padronização dos processos assistenciais, administrativos e gerenciais. (HELITO, 2010; ALVES, 2012). Aqui, a organização é o atributo a ser alcançado, os critérios são bem semelhantes ao da ISO 9000. Nível 3 – As exigências deste nível contêm evidências de políticas institucionais de melhoria contínua em termos de estrutura, novas tecnologias, atualização técnico-profissional, ações assistenciais e procedimentos médico- sanitários. Neste nível, a assistência em saúde deve ser segura e com processos padronizados. A fase apresenta, também, ciclos de melhoria compactos, sistêmicos e uma gestão voltada para a excelência, ou seja, tem estratégias de benchmaketing, indicadores comparativos de desempenho, processos de ciclos de melhoria nos quais se observam tendência e resultados positivos. (HELITO, 2010). Aqui, o objetivo principal é alcançar a excelência, assemelhando-se ao Prêmio Nacional da Qualidade (PNQ). Após a avaliação, a organização de saúde poderá obter o seguinte resultado: Não acreditada. 37 Acreditação hospitalar Capítulo 2 Acreditada – nível 1. Acreditada plena – nível 2. Acreditada com excelência – nível 3. Mas quais são as organizações acreditadas no Brasil? No Brasil, atualmente, há 253 instituições acreditadas, divididas nos diversos Estados brasileiros, com destaque para São Paulo, Minas gerais, Espirito Santo, Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Maranhão, Goiás, Mato Grosso e Rio de Janeiro. Accreditation Canada International O Canadian Council on Hospital Accreditation (CCHA) foi formado em 1958, passando por várias modificações nos últimos 50 anos. Em 2000, o Conselho Canadense de Acreditação - Canadian Council on Health Services Accreditation (CCHSA) - lançou o programa internacional, estendendo sua atuação a outros países. A partir de 2008, passou a chamar-se Accreditation Canada. (RODRIGUES et al., 2011). A metodologia foi implantada no Brasil pelo Instituto Qualisa de Gestão (IQG). Da mesma forma que o CBA, o IQG desenvolve a dimensão educacional e participa junto ao Accreditation Canada da avaliação. A Accreditation Canada não adota nenhum tipo de manual específico. Para eles, a acreditação deve ser feita por um programa customizado de acordo com as características de cada instituição com uma abordagem centrada no cliente. (HELITO, 2010; ALVES, 2012). No Brasil, atualmente, há 253 instituições acreditadas, divididas nos diversos Estados brasileiros, com destaque para São Paulo, Minas gerais, Espirito Santo, Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Maranhão, Goiás, Mato Grosso e Rio de Janeiro. 38 Gestão da Qualidade Hospitalar Quadro 6 – Padrões da avaliação da Accreditation Canada International Fonte: Adaptado de Rodrigues et al. (2011). No Brasil, apenas 45 hospitais são acreditados pelo Accreditation Canada, sendo dois no Rio de Janeiro, um em São Paulo e um em Curitiba. Esses hospitais também são acreditados pela ONA. (RODRIGUES et al., 2011). Padrões clínicos Atenção ambulatorial. Cuidado ao paciente com câncer. Cuidados especializados e contínuos em geriatria. Serviços comunitários. Serviços de emergência e atendimento ao trauma. Atenção domiciliar. Atenção materna infantil. Cuidado em saúde mental. Reabilitação. Cuidados intensivos. Serviços de atenção ao paciente cirúrgico. Padrões administrativos Liderança e parcerias. Recursos humanos. Ambiente. Gestão da informação. Outros padrões Farmácia. Laboratório biomédico. Diagnóstico por imagem. No Brasil, apenas 45 hospitais são acreditados pelo Accreditation Canada, sendo dois no Rio de Janeiro, um em São Paulo e um em Curitiba. 39 Acreditação hospitalar Capítulo 2 Figura 4 - Mapa das instituições acreditadas pela ACI no Brasil Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/JyBqRI>. Acesso em: 16 jul. 2016. International Organization for Standarzation (ISO) A International Organization for Standarzation (ISO) foi fundada em 1947 como uma instituição não governamental sediada em Genebra. Em 1987, foi publicada a primeira ISO série 9000 para certificação da qualidade total. A primeira versão brasileira publicada da ISO 9000 foi a série NBR ISO-9000, publicada em 1994 pela Norma Brasileira de Acreditação (NBR). Essa versão passou por diversas modificações e foi transformada na NBR–ISO 9000:2000, a qual foi compactada em três normas: 9000:2000; 9001:2000, 9004:2004. (HELITO, 2010). A International Organization for Standarzation (ISO) foi fundada em 1947 como uma instituição não governamental sediada em Genebra. 40 Gestão da Qualidade Hospitalar A ABNT é o Foro Nacional de Normalização por reconhecimento da sociedade brasileira desde a sua fundação, em 28 de setembro de 1940, e confirmado pelo governo federal por meio de diversos instrumentos legais. Entidade privada e sem fins lucrativos, a ABNT é membro fundador da International Organization for Standardization (Organização Internacional de Normalização - ISO), da Comisión Panamericana de Normas Técnicas (Comissão Pan-Americana de Normas Técnicas - Copant) e da Asociación Mercosur de Normalización (Associação Mercosul de Normalização - AMN). Desde a sua fundação, é também membro da International Electrotechnical Commission (Comissão Eletrotécnica Internacional - IEC). A ABNT é responsável pela elaboração das Normas Brasileiras (ABNT/NBR), elaboradas por seus Comitês Brasileiros (ABNT/CB), Organismos de Normalização Setorial (ABNT/ONS) e Comissões de Estudo Especiais (ABNT/CEE). Desde 1950, a ABNT atua também na avaliação da conformidade e dispõe de programas para certificação de produtos, sistemas e rotulagem ambiental. Esta atividade está fundamentada em guias e princípios técnicos internacionalmente aceitos e alicerçada em uma estrutura técnica e de auditores multidisciplinares, garantindo credibilidade, ética e reconhecimento dos serviços prestados. Fonte: Disponível em: <http://goo.gl/uAMVV5>. Acesso em: 16 jul. 2016. Esta norma está baseada em 08 princípios fundamentais: • Princípio 1 – Foco no cliente; • Princípio 2 – Liderança; • Princípio 3 – Envolvimento das pessoas; • Princípio 4 – Abordagem do processo; • • Princípio 5 – Abordagem sistêmica para a gestão; • Princípio 6 – Melhoria contínua; • Princípio 7 – Abordagem factual para tomada de decisão; • Princípio 8 – Benefícios mútuos nas relações com fornecedores. 41 Acreditação hospitalar Capítulo 2 Para você melhor compreender a aplicação das normas da série BNR- ISO-9000:2000,apresentamos, no quadro que segue, uma breve descrição de cada uma das normas: Quadro 7 – Resumos das principais normas da série ISO-9000 Fonte: Adaptado de Rodrigues et al. (2011, p. 29). A ISO promove nas instituições de saúde o processo de certificação de acordo com as conformidades estabelecidas nas normas. (HELITO, 2010). A certificação ISO tem como base quatro objetivos estratégicos: a) Aceitação universal; b) Compatibilidade atual; c) Compatibilidade futura; d) Documentação e manutenção. Caro(a) pós-graduando(a), a série ISO 9000 é uma norma que se aplica a qualquer tipo de empresa, dessa forma, grande parte das indústrias (principalmente por empresas de natureza complexa – indústria bélica, naval, aeronáutica), empresas que necessitam da máxima segurança e qualidade, e, por isso, adotam a norma ISO 9000 para a melhoria de seus processos e, consequentemente, a melhoria da qualidade de seus produtos. Normas Descrição NBR-ISO-9000:2000 (Sistemas de Gestão da Qualidade – fundamen- tais e vocabulários) Define os termos fundamentais empregados na série ISO. NBR-ISO-900:2000 (Sistemas de Gestão da Qualidade – requisitos) É a norma que estabelece os requisitos utilizados pela organização para avaliar sua capacidade de atender tanto aos requisitos do cliente como os decorrentes de regulamentação aplicável as suas atividades. NBR-ISO-9004:2000 (Sistemas de Gestão da Qualidade – diretriz para melhoria do desempenho) Esta norma fornece diretrizes para a organização obter melhorias contínuas em seu sistema de ges- tão da qualidade e trazer benefícios para a organi- zação através da satisfação dos clientes. 42 Gestão da Qualidade Hospitalar Atividade de Estudos: 1) Caro(a) pós-graduando(a), na sua carreira profissional você jaz fez parte de uma equipe de certificação? Descreva como foi a sua experiência. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Algumas Considerações Grande parte das instituições de saúde tem adotado a certificação da qualidade como forma para melhorar os serviços ofertados. Embora, muitas vezes, os gestores não façam esta associação, mas a gestão da qualidade é fundamental para melhoria da produtividade, evitando que sejam realizados retrabalhos. Diante desse contexto, observa-se um número cada vez maior de instituições de saúde que tem visto na qualidade uma poderosa estratégia para a competitividade frente à concorrência. Tanto para alavancar parte do mercado como na minimização de custos, a qualidade oferece a melhoria de rentabilidade do negócio. Porém, para que se alcance este grau de qualidade, é necessário cumprir critérios estabelecidos pelos órgãos certificadores. Assim, o objetivo, neste capítulo, foi apresentar os principais órgãos certificadores e os critérios estabelecidos por cada um deles para que se conceda a certificação em seus diversos níveis de qualificação. No próximo capítulo, veremos quais as ferramentas da qualidade poderão ser utilizadas pelo gestor hospitalar para alcançar os critérios da certificação. Bons estudos! 43 Acreditação hospitalar Capítulo 2 Referências ALVES, V. L. de S. Gestão da Qualidade: ferramentas utilizadas no contexto contemporâneo da saúde. 2. ed. São Paulo: Martinari, 2012. BRASIL. Manual brasileiro de acreditação hospitalar/Secretaria de assistência à saúde. 3. ed. rev. e atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. DONAHUE K. T.; O’LEARY D. S. A evolução dos sistemas de acreditação de instituições de saúde. Ensaio: Avaliação de Políticas Públicas em Educação, 2000. FELDMAN, L. B. Auditoria de gestão de risco com foco profissional. In: D´INOCENZZO, M. (Coord.). Indicadores, auditoria, certificações: ferramentas de qualidade para gestão em saúde. 2. ed. São Paulo: Martinari, 2010. HELITO, R. A. B. Processos de qualificação e avaliação de serviços de saúde. In: D´INOCENZZO, M. (Coord.). Indicadores, auditoria, certificações: ferramentas de qualidade para gestão em saúde. 2. ed. São Paulo: Martinari, 2010. MADUREIRA, M. C.; OLIVEIRA, S. C. Qualidade e acreditação em Saúde. In: ANDRÉ, A. M. (Coord.). Gestão estratégica de clínicas e hospitais. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2014. MALIK, A. M.; SCHIESARI, L. M. C. Qualidade e acreditação. In: VECINA N. Gestão em saúde. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. MIRANDA, V. de M. Aspectos históricos da qualidade em Saúde. In: LUONGO, J. Gestão da qualidade em saúde. São Paulo: Rideel, 2011. RODRIGUES, M. V. et al. Qualidade e acreditação em saúde. Rio de Janeiro: FGV, 2011. 44 Gestão da Qualidade Hospitalar CAPÍTULO 3 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Compreender a aplicabilidade das ferramentas da qualidade. � Entender o funcionamento do programa 5S. � Conhecer os métodos de análise da qualidade. � Identificar situações-problema ocorridas nos processos de trabalho. � Implantar métodos de solução de problemas nos processos de trabalho. � Entender as etapas de melhorias nos processos de trabalho. � Compreender a elaboração de documentos da qualidade. � Entender o processo de auditoria da qualidade. 46 Gestão da Qualidade Hospitalar 47 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar Capítulo 3 Contextualização Nos capítulos anteriores, você estudou sobre a evolução do conceito de qualidade e sua aplicabilidade, tendo por base alguns pesquisadores. Agora, veremos, neste capitulo, as ferramentas de qualidade disponíveis e que podem ser utilizadas para proporcionar a melhoria dos processos de trabalho, alcançando a qualidade total almejada pelas instituições de saúde. Até mesmos as instituições públicas de saúde estão buscando a implantação de programas de qualidade, como, por exemplo, o 5S para alcançar a satisfação dos clientes e melhorar a produtividade das esquipes assistenciais e administrativas. Ao longo deste capitulo, veremos alguns exemplos de como é possível utilizar estas ferramentas. Ferramentas da Qualidade A palavra ferramenta significa um utensilio utilizado pelo trabalhador para desenvolver uma arte e/ou um ofício. No contexto da qualidade, as ferramentas representam um apoio que conduz à manutenção e à melhoria dos processos de trabalho. De acordo com Bohomol (2010), as ferramentas da qualidade são técnicas aplicadas na definição, na mensuração, na análise e no monitoramento dos processos, bem como são capazes de propor soluções aos problemas que interferem direta ou indiretamente no desempenho destes. As ferramentas da qualidade podem ser aplicadas pelos diversos níveis da organização, ou seja, operacional, técnico e gerencial, fazendo parte da rotina no desenvolvimento de diversas funções. No decorrer deste capítulo, serão apresentadas diversas ferramentas para prevenir e corrigir possíveis erros ou falhas nos processos. Algumas delas são bem simples de serem aplicadas e outras mais complexas, necessitando de um conhecimento técnico ou de softwares específicos para processar as informações. (BOHOMOL, 2010; ALVES, 2012). 48 Gestão da Qualidade Hospitalar FOLHA DE VERIFICAÇÃO A folha de verificação é utilizada para coletar dados sobre diversos fatos que ocorrem com maior frequência na prestação de serviços, em um curto período de tempo, permitindo uma percepção da realidade e minimizando a ocorrência de eventos adversos. A aplicabilidade desta ferramenta está no controle da identificaçãocorreta dos pacientes, como, por exemplo, a falta de etiquetas de identificação em pacientes com risco de queda, ou, ainda, pacientes sem a identificação de cabeceira de leito. (ALVES, 2012). A folha de verificação pode ser simples, composta de uma lista de itens pré- estabelecidos, como se fosse um check-list. Quadro 8 – Lista de verificação simples utilizada na auditoria de identificação correta do paciente Fonte: A autora. Além disso, o gestor da qualidade poderá utilizar a folha de verificação para acompanhar e monitorar com que frequência ocorre determinado evento adverso no processo. Podem ser coletados dados de eventos que estejam ocorrendo ou que já ocorreram, formando, assim, uma série histórica dos acontecimentos. Quadro 9 – Modelo de folha de verificação de frequência utilizada para aprazamento de medicamentos Fonte: Adaptado de Alves (2012). A folha de verificação é utilizada para coletar dados sobre diversos fatos que ocorrem com maior frequência na prestação de serviços. Item Ótimo Bom Regular Ruim NA Possui pulseira de identificação? Possui pulseira de risco de queda? Possui pulseira de alergia? Cabeceira do leito está identificada corretamente? Ocorrência Frequência Total Medicamento administrado e não checado. IIII IIII IIII IIII 16 Medicamento prescrito e não aprazado. IIII IIII IIII 12 Medicamento não aprazado devido à dificuldade de entendimento da letra. IIII 4 Medicamento prescrito “se necessário” e aprazado em horários fixos. II 2 49 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar Capítulo 3 Embora pareça uma tarefa fácil registrar os dados nesta ferramenta, lembre-se de que se trata de uma atividade que exige muita atenção, pois o lançamento equivocado acarretará um resultado incorreto e isso poderá prejudicar a melhoria dos processos de trabalho. DIAGRAMA DE PARETO Geralmente, o diagrama de Pareto é representado por um gráfico de barras, cujo objetivo é demonstrar, de forma estratificada, as várias causas dos efeitos ou falhas no processo, auxiliando na resolução do problema. O diagrama de Pareto foi criado pelo economista italiano Vilfredo Pareto, em 1897, inicialmente para demonstrar a desigualdade na distribuição de salários. (LUONGO; ROCHA, 2011). Para a construção do “diagrama de Pareto”, você poderá seguir os seguintes passos, descritos por Alves (2012): • Definir o que será analisado; • Selecionar e definir o período de tempo da coleta de dados; • Coletar os dados de acordo com o período de tempo definido (horas, dias, semanas); • Agrupar os dados em categorias; • Traçar dois eixos (vertical e horizontal); • Colocar os dados em ordem decrescente, com a causa principal vista do lado esquerdo e as causas menores do lado direito do diagrama. • Geralmente, o diagrama de Pareto é representado por um gráfico de barras, cujo objetivo é demonstrar, de forma estratificada, as várias causas dos efeitos ou falhas no processo, auxiliando na resolução do problema. 50 Gestão da Qualidade Hospitalar Figura 5 – Modelo do gráfico de Pareto para identificação dos problemas com maior relevância no aprazamento de medicamentos Fonte: Alves (2012). Assim, a utilização do diagrama de Pareto possibilita que os gestores selecionem as situações mais frequentes e busquem soluções para resolver os problemas identificados. (LUONGO; ROCHA, 2011). DIAGRAMA DE ISHIKAWA O diagrama de Ishikawa também é chamado de diagrama de causa e efeito ou espinha de peixe, devido ao seu formato. Trata-se de uma ferramenta gráfica que possibilita o acesso às informações das causas e efeitos de determinado evento adverso. (ALVES, 2012). O processo reúne as causas que produzem determinados efeitos. Principalmente nos hospitais, cada processo resulta num efeito ou, ainda, em diversos efeitos. Para que o processo seja executado e apresente o efeito desejado, é preciso avaliar cada uma das ações que nele interferem. Essas ações são chamadas de itens de verificação, que devem ser analisados para ter a qualidade assegurada. (LUONGO; ROCHA, 2011). O diagrama de Ishikawa também é chamado de diagrama de causa e efeito ou espinha de peixe, devido ao seu formato. Trata-se de uma ferramenta gráfica que possibilita o acesso às informações das causas e efeitos de determinado evento adverso. 51 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar Capítulo 3 Figura 6 – Modelo do diagrama de Ishikawa ou causa e efeito Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/vaOAYw>. Acesso em: 05 ago. 2016. Lembre-se de que para cada um dos efeitos descritos, existem diversas categorias que poderão ser alocadas, como, por exemplo, procedimentos, pessoas, medição e ambiente. 5W2H A partir da construção do diagrama de Ishikawa ou causa e efeito, é possível elaborar um plano de ação do controle do processo, evitando que um novo evento adverso se repita. Geralmente, nesses casos, utiliza-se a ferramenta 5W2H. O 5W2H é basicamente um check-list que apresenta as atividades as quais precisam ser desenvolvidas para a correção do efeito adverso identificado. Trata- se de um mapeamento com a definição clara das tarefas dos setores e/ou cargos envolvidos, bem como dos valores que deverão ser desprendidos pela empresa para tal correção. (MALIK; SCHIESARI, 2011; ALVES, 2012). O nome dessa ferramenta foi assim estabelecido por juntar as primeiras letras dos nomes (em inglês) das diretrizes utilizadas no processo. Veja, na sequência, cada uma delas e o que representam: • What – O que será feito (etapas); • Why – Por que será feito (justificativa); • Where – Onde será feito (local); • When – Quando será feito (tempo); • Who – Por quem será feito (responsabilidade); • How – Como será feito (método); • How much – Quanto custará fazer (custo). 52 Gestão da Qualidade Hospitalar Figura 7 – Modelo de plano de ação: metodologia 5W2H Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/CHvaOO>. Acesso em: 05 ago. 2016. Você encontrará na literatura diversos modelos de plano de ação. Mas lembre-se de que o melhor modelo é aquele que atende às suas necessidades e que ajude você a concluir e alcançar seus objetivos. Porém não basta apenas elaborar o plano de ação, é necessário realizar o acompanhamento constante de suas ações. OS CINCO SENSOS DA QUALIDADE – 5S Em 1950, o Japão criou o programa 5S como um projeto de qualidade total. A base do programa 5S são cinco palavras japonesas que iniciam com a letra “s” no alfabeto ocidental: seiri, seiton, seiso, seiketsu e shitsuke. O programa possui esse nome por que se trata de um sistema que utiliza cinco conceitos básicos e simples, mas que fazem diferença no dia a dia da organização, uma vez que resultam em mudanças de atitudes e comportamentos. Países como Espanha e Inglaterra adotaram metodologias semelhantes com objetivo de organizar e diminuir o desperdício, mas com outros nomes: “Teoria da escova” e Housekeeping (cuidar da casa). (ALVES, 2012). No Brasil, o programa 5S foi introduzido pela Fundação Cristiano Ottoni em 1991. (NOGUEIRA, 2003). 53 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar Capítulo 3 a) Senso da utilização (seiri): O senso da utilização é o primeiro “s” do programa e visa identificar, selecionar e eliminar os objetos que se encontram no local de trabalho e não são mais utilizados. A mesma separação pode ser feita com o material de uso pessoal: quantas vezes guardamos papéis e documentos que não são mais úteis e só ficam ocupando espaço? Muitas vezes, o que é inútil para nós pode servir para outra pessoa ou outro departamento da empresa. Você também pode doar, vender ou encaminhar o materialpara o lixo reciclável quando possível. Lembre-se: É preciso consultar as legislações vigentes da ANVISA para descartar corretamente os materiais e/ou objetos oriundos de instituições de saúde. b) Senso da ordenação (seiton) O senso da ordenação tem por objetivo arrumar os objetos que sobram após a seleção e seu lema é “um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar”. A legislação impõe que as instituições de saúde guardem os prontuários dos pacientes por no mínimo 20 anos, pois a qualquer momento eles podem ser solicitados. Imaginem como será difícil encontrá-los se o arquivo não estiver organizado! O senso da ordenação também pode/deve ser utilizado para organizar os arquivos de computador. Colocar os arquivos em pastas facilita seu acesso, bem como organiza o backup para encontrar sempre a versão mais atualizada. c) Senso da limpeza (seiso) Este senso consiste em aplicar regras referentes à limpeza do local de trabalho. Sua principal vantagem está em proporcionar um ambiente agradável, sadio e melhorar a imagem interna e externa da organização. d) Senso da saúde (seiketsu) Este senso compreende a saúde, a higiene e a padronização. Seu objetivo é criar uma cultura de hábitos saudáveis entre os membros da organização e, ainda, a preocupação com a prevenção de acidentes. 54 Gestão da Qualidade Hospitalar e) Senso da autodisciplina (shitsuke) Seu objetivo é manter o local de trabalho em ordem. A regra básica consiste em desenvolver as tarefas de forma correta, segundo os padrões e normas da organização. OS DEZ SENSOS DA QUALIDADE – 10S O programa 5S passou por um processo evolutivo e, atualmente, as empresas estão colocando em prática os 10S, ou seja, estão acrescentando mais 5S aos anteriores. a) Senso da constância (shikakhi) Diz respeito à firmeza de ânimo, multiplicar o que aprendeu e ajudar quem precisa. b) Senso do compromisso (shitsukoku) Corresponde à dedicação, à obrigação assumida por todos, ao comprometimento com o sucesso do processo 5S. c) Senso da coordenação (seisho) Diz respeito às questões de liderança e à coordenação do sistema 5S dentro dos setores da empresa. d) Senso da padronização (seido) Corresponde à ação simultânea, aos procedimentos e às normas que regimentem o sistema 5S nas áreas e na empresa. e) Senso de responsabilidade social (sekinin shakai) Trata do compromisso que a organização e as pessoas que dela fazem parte devem ter para com a sociedade. Aqui está incluída toda e qualquer ação que possa contribuir para a melhoria da qualidade de vida da sociedade. MÉTODOS DE ANÁLISE E SOLUÇÃO DE PROBLEMAS - MASP O Método de Análise e Solução de Problemas (MASP) é um processo de melhoria que apresenta 8 etapas. Cada uma delas contribui para a identificação dos problemas e a elaboração de ações corretivas/preventivas para eliminá-los ou minimizá-los. 55 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar Capítulo 3 Esse método auxilia os gerentes na solução de problemas, fornecendo subsídios para analisá-los e priorizá-los, identificando situações que não foram bem definidas e exigem atenção. Estabelece rápido controle das situações e planeja o trabalho que será realizado, apresentando respostas que ajudam na priorização de problemas que exigem atenção, dividindo-os em partes para serem analisados. Figura 8 – Sequência de etapas do MASP Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/Pdznt5>. Acesso em: 05 ago. 2016. A ferramenta MASP é importante na tomada de decisão, pois contribui para alcançar resultados positivos nos processos de diagnóstico e avaliação da qualidade. PDCA O PDCA (Plan – Do - Check – Action), também conhecido como “ciclo PDCA”, é uma ferramenta de gestão utilizada para monitorar e melhorar os processos de forma contínua e sem interrupções. O percursor na divulgação do PDCA como ferramenta de apoio para gestão da qualidade foi William Edwards Deming, na década de 1950. (ALVES, 2012). 56 Gestão da Qualidade Hospitalar Figura 9 – Etapas do ciclo PDCA Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/uBcreB>. Acesso em: 05 ago. 2016. O ciclo PDCA inicia pela etapa do planejamento (PLAN) com o levantamento e análise das informações da organização. Em seguida, ocorre a execução (DO), em que são efetivadas todas as atividades planejadas. Na sequência, ocorre a checagem do processo (CHECK), na qual é verificado se a execução e o resultado estão conforme o planejado ou se no decorrer do processo ocorreu alguma falha. A última etapa consiste na ação (ACT), na qual ocorre a correção dos problemas e/ou falhas identificados na etapa anterior. (MIRANDA, 2011). A ferramenta PDCA pode ser aplicada em qualquer nível de atividade dentro da organização, desde processos assistenciais até as atividades de apoio, como, por exemplo, as administrativas. O PDCA é uma ferramenta muito útil, uma vez que contempla várias etapas para solucionar problemas e planejar a melhoria nos processos de trabalho. Padronização dos Documentos A padronização dos documentos é de fundamental importância na gestão da qualidade. 57 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar Capítulo 3 A documentação da qualidade é uma ferramenta necessária para que os setores envolvidos possam se comunicar sobre as decisões tomadas, bem como fornecer as informações necessárias para que a gestão da qualidade seja implantada de forma clara. (OLIVEIRA, 1994). De acordo com Silva et al. (2010, p. 7): O objetivo principal da documentação do sistema da qualidade é apresentar um modelo que esteja voltado para o desenvolvimento, implementação e melhoria da eficácia do sistema de gestão da qualidade, tendo como prioridade aumentar a satisfação do cliente através do atendimento de seus requisitos. O documento de maior valor agregado do sistema da qualidade é a política da qualidade. Nela, estabelecem-se as diretrizes que a organização deve seguir, bem como a definição da missão, visão e valores da gestão da qualidade dentro da organização. Carpinetti et al. (2007) sustentam que a documentação da qualidade é um conjunto de documentos que serão utilizados pela organização, como, por exemplo, formulários, modelos de manuais e normas que darão suporte para as equipes de trabalho. Esses documentos poderão ser disponibilizados por meio físico ou digital, porém recomenda-se que seja realizado um controle rigoroso das cópias existentes na organização. Geralmente, as empresas optam por disponibilizar os documentos de forma digital, com restrição para impressões. Os documentos impressos recebem uma tarja de “cópia” e são controlados pelo setor da qualidade. Quando há qualquer tipo de alteração, eles são imediatamente recolhidos e substituídos pela versão mais atual do documento. Não existe um modelo padrão para os referidos documentos, porém Tjara (2010, p. 32) esclarece que são necessários os seguintes dados: • Nome do procedimento, rotina de trabalho e instrução de trabalho/manual; • Código do documento (geralmente se usa um número sequencial de controle); • Número de páginas; • Data da elaboração; • Data da revisão; • Número da revisão; • Responsável pela elaboração. Todos os documentos elaborados pela organização deverão passar por revisões constantes. Em geral, os prazos médios das revisões podem variar de 12 a 24 meses, conforme o órgão certificador e/ou necessidade da organização. 58 Gestão da Qualidade Hospitalar FLUXOS E MAPEAMENTO DO PROCESSO O fluxograma é uma representação gráfica muito utilizada no mapeamento dos processos organizacionais. Processos são maneiras de fazer alguma coisa. Envolvem a transformação de um insumo em produto final. No interior dos processos ocorrem transformações, que incluem as etapasnecessárias para a obtenção do produto final com valor agregado. (SCARTEZINI, 2009). Entende-se por mapeamento de processos a primeira etapa, que tem por função o estudo e entendimento das lógicas inseridas na cadeia de informações e insumos. (PAVANI JUNIOR; SCUCUGLIA, 2011). Para Scartezini (2009), o mapeamento de processos é uma ferramenta gerencial, analítica e de comunicação, utilizada para melhorar os processos existentes ou, ainda, na implantação de um novo processo, visando à redução das falhas durante a execução, melhorando, assim, a produtividade e a implantação de padronização das atividades de forma simplificada e fácil de entender. O fluxograma é um gráfico que representa o fluxo sequencial de um trabalho de maneira analítica ou sintética, facilitando o entendimento das operações e dos membros executores. Analisar o fluxo do processo com base no fluxograma é uma das maneiras rápidas, lógicas, simples e eficientes para perceber oportunidades de melhoria. Fonte: Tjara (2010, p. 89). Geralmente, ao desenvolver um fluxograma de processo, é necessário que o documento apresente questões básicas em relação ao modo de análise. De acordo com Tjara (2010, p. 90), essas informações são: • O que é? • Quem faz? • Como faz? • Quando faz? Além disso, para melhor entendimento dos usuários, as normas de qualidade exigem que se utilize uma padronização universal na elaboração do fluxograma de símbolos. Veja no quadro que segue: O fluxograma é uma representação gráfica muito utilizada no mapeamento dos processos organizacionais. 59 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar Capítulo 3 Quadro 10 - Os principais símbolos utilizados na elaboração do fluxograma Fonte: Tjara (2010, p. 92). Quanto ao tipo de fluxograma, você poderá utilizar aquele que atender à necessidade da organização no mapeamento dos processos. Os principais tipos são: • Fluxograma vertical: utilizado para descrever processos simples; • Fluxograma parcial ou descritivo: geralmente utilizado para descrever procedimentos operacionais; • Fluxograma global ou de colunas: utilizado para descrever diversos processos organizacionais e suas interfaces; • Fluxograma pictorial: utiliza símbolos e figuras de acordo com a necessidade da organização. Para conseguir alcançar todos os resultados previstos com a elaboração do fluxograma, é importante observar as orientações do quadro a seguir. Veja: Símbolos Significados Indica o início e fim do processo. Indica ação. Indica a tomada de decisão de uma determinada ação. Indica a conexão entre as páginas ou partes de um processo. Indica que o processo está aguardando. Indica que o processo foi arquivado definitivamente. Indica a entrada e saída de uma informação a partir de um documento. Indica o caminho a ser seguido no processo. 60 Gestão da Qualidade Hospitalar Quadro 11 - Recomendações para elaboração do fluxograma Fonte: Scartezini (2009, p. 15). Faça os fluxogramas finais em formulários próprios, usando o gabarito padrão e baseado nos rascu- nhos verificados ou modificados. Os fluxogramas devem ser legíveis para terceiros. O fato de os fluxogramas serem exatos não é o bastante. Eles devem ser inteligíveis para um revisor ou para um novo membro da equipe nos anos posteriores. Os fluxogramas devem ser claros, concisos, logicamente dispostos e sem ambiguidades. Assegure que os fluxogramas respondem às questões básicas de controle interno. A avaliação do controle interno será demonstrada nos fluxogramas pelo assistente ao encarregado e por este ao gerente. Os fluxogramas devem, conseguintemente, oferecer o suporte necessário para as conclusões sobre o controle interno. O bom senso, naturalmente, deverá ser utilizado na aplicação das técnicas. Inovações pessoais e variações do método adotado são admitidas, mas com ressalvas. Os fluxogra- mas serão úteis se forem padronizados e se puderem ser lidos por qualquer pessoa. Símbolos espe- ciais poderão eliminar as vantagens de uma linguagem padrão. Os fluxogramas podem e devem ser modificados, mas apenas quando necessário. Todas as palavras que apareçam nos fluxogramas devem ser escritas em letras claras e legíveis. Faça fluxogramas simples e diretos. Evite disposições que levem o leitor através de uma floresta de traços e setas. Evite o cruzamento de linhas. Um semicírculo, indicando a independência das linhas ao se cruzarem é um recurso imperfeito. Evite o problema logo de início. Isto normalmente pode ser obtido com uma nova disposição das informações no papel. Coloque os funcionários ou departamentos que tenham grande troca de documentos ou informações entre si em colunas adjacentes. Evite o aparecimento de longas setas que cruzam o papel de um lado para outro sobre colunas não utilizadas. Assegure-se de que o início e o término de um fluxo são claramente visíveis, de forma que o leitor saiba para onde ir antes de descer aos detalhes. Evite detalhes excessivos, mas assegure-se de cobrir todos os pontos importantes de controle. 61 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar Capítulo 3 PAVANI JUNIOR, Orlando; SCUCUGLIA, Rafael. Mapeamento e gestão por processos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2011. O mapeamento de processos é uma atividade que se baseia totalmente no conhecimento da pessoa entrevistada ou responsável pelo setor. Por isso, o conhecimento do negócio e suas etapas é fundamental para obter êxito no mapeamento, bem como evita retrabalhos. Auditoria da Qualidade Hospitalar A auditoria da qualidade é um exame sistemático e independente das ações e decisões das pessoas em relação à qualidade. Seu objetivo é determinar se as atividades realizadas estão de acordo com as exigências operacionais planejadas e implementadas para alcançar os objetivos iniciais. O processo de auditoria permite avaliar todo o sistema de qualidade por meio de uma atividade documentada. No ambiente hospitalar o sistema de qualidade pode ser observado por meio de um programa de atividades integradas, implantado pela administração para avaliar a eficácia do sistema existente e identificar as áreas carentes de correções ou aperfeiçoamentos. (LUONGO, 2011). Você encontrará na literatura diversas técnicas que poderão ser adotadas pelas equipes de auditores. As técnicas mais usuais, de acordo com Luongo (2011), são: • Árvore funcional: meio de garantir que cada função de um setor auditado seja dividida em elementos fundamentais. Cada um dos elementos identificados é analisado, buscando saber se a finalidade das normas é obedecida; • Fluxograma de decisão: mostra a sequência de eventos dos processos que estão sendo avaliados. As atividades são demonstradas no fluxograma conforme a sequência em que elas ocorrem, permitindo a identificação do nível em que acontecem as falhas; A auditoria da qualidade é um exame sistemático e independente das ações e decisões das pessoas em relação à qualidade. 62 Gestão da Qualidade Hospitalar • Rede caminho crítico (PERT – Project evaluation and review technique): é uma ferramenta de controle da programação que pode ser adaptada para análise do fluxo dos serviços prestados. Mostra cada atividade, identificando seu início e fim. Permite avaliar cada atividade individualmente e outras relacionadas; • Matriz de responsabilidades: este método permite a identificação das decisões que devem ser tomadas em diversos procedimentos e situações. É possível avaliar a conformidade entre as ações e os procedimentos determinados pelas instituições; • Tabelas de funções: de acordo com este método, divide-se a instituição em unidades e avaliam-se as funções e responsabilidades de cada uma, buscando as devidas soluções. As instituiçõespodem optar por utilizar o serviço de uma equipe interna de auditores ou, ainda, contratar uma equipe de auditores externos. Independente do modelo adotado, os princípios da auditoria devem ser observados. A auditoria é caracterizada pela confiança em princípios como a ética, em que a discrição e a confidencialidade são os pilares para uma boa apresentação, justa e independente. Caro(a) pós-graduando(a), você encontrará várias metodologias para realizar a auditoria da qualidade. Com base nas lições de Rodrigues et al. (2011), a seguir, será apresentado um roteiro que pode ser utilizado e adequado às diferentes necessidades. Veja: • 1ª etapa (planejamento): identificação do universo que deve ser auditado e dos documentos necessários (referencial, materiais orientativos e normas técnicas). Análise e cruzamentos de dados, inclusive os indicativos de não conformidade; • 2ª etapa (visita in loco): para verificar a veracidade das informações coletadas em relatórios gerenciais e assistenciais. Nesta visita, o auditor e/ou equipe de auditoria verificará se a disposição dos móveis e equipamentos, bem como a estrutura física estão de acordo com as normas e legislações vigentes. Também verificará se as atividades estão sendo executadas dentro das normas e procedimentos operacionais padrões; • 3ª etapa: após visita, a equipe elabora um relatório de auditoria contendo as não conformidades encontradas no processo in loco. 63 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar Capítulo 3 A ISO 19011:2012 não se restringe às auditorias de qualidade/ ambientais e pode ser utilizada por auditores de variados sistemas de gestão, como, por exemplo, empresas de consultoria que implementam sistemas e organizações que necessitam realizar auditorias por razões contratuais ou regulamentares. EQUIPE DE AUDITORIA A equipe de auditores é formada de acordo com o tamanho da instituição que será auditada. Os auditores devem ser neutros para não afetar a objetividade do trabalho. As equipes de trabalho envolvidas com uma auditoria devem respeitar e apoiar a independência dos auditores. Independentemente do tamanho da equipe de auditores, sempre haverá um auditor líder responsável pelo andamento dos serviços. Luongo (2011) sustenta que ter uma equipe de auditores pode garantir melhores resultados na auditoria. Isso porque há possibilidade de discussão entre a equipe, podendo juntos identificar situações de risco que necessitam de intervenções imediatas, as quais nem sempre seriam identificadas caso a auditoria fosse realizada por apenas um indivíduo. INDICADORES DE QUALIDADE Indicadores são dados ou informações numéricas que quantificam a entrada/ saída de insumos e o desempenho dos processos da organização. Geralmente os indicadores são utilizados para acompanhar e melhorar os resultados ao longo de um período. (FAZENDA; FELDMAN; RUTHES, 2010). Os indicadores possibilitam conhecer verdadeiramente a situação que se deseja modificar, estabelecer as prioridades, escolher os beneficiados, identificar os objetivos e traduzi-los em metas e, assim, melhor acompanhar o andamento dos trabalhos, avaliar os processos, adotar os redirecionamentos necessários e verificar os resultados e os impactos obtidos. Com isso, aumentam as chances de serem tomadas decisões corretas e de se potencializar o uso dos recursos. (SESI, 2010, p. 10). De acordo com Fazenda, Feldman e Ruthes (2010), os indicadores poderão apresentar algumas características específicas, como: 64 Gestão da Qualidade Hospitalar • Exatidão: possibilidade mínima de erros; • Confiabilidade: as mesmas medidas podem ser obtidas de formas diferentes diante do mesmo evento; • Simplicidade: registros e medidas claros e objetivos; • Pertinência: está relacionada com o fenômeno ou critério examinado; • Validade: medir efetivamente o fenômeno ou critério; • Sensibilidade: detectar as variações no comportamento do fenômeno ou critério. Os indicadores são marcadores da situação de saúde, desempenho dos serviços ou disponibilidade de recursos para monitorar os objetivos. Fazenda, Feldman e Ruthes (2010) dividem os indicadores de saúde em três tipos: • Resultado: situação de saúde; • Processo: assistência à saúde; • Determinante: fatores comportamentais e conhecimento público. Você encontrará diversos tipos de indicadores na literatura que são voltados para a área da saúde ou utilizados pelos órgãos certificadores. A metodologia da utilização de indicadores tem sido cada vez mais utilizada pelos programas de qualidade, pois através dela é possível realizar o monitoramento das metas estabelecidas. Algumas Considerações Este capítulo proporcionou compreender um pouco sobre as ferramentas de melhoria da qualidade que podem ser aplicadas aos sistemas de qualidade de instituições de saúde, objetivando melhorar a gestão das empresas. Outro aspecto relevante estudado foi o Método de Avaliação e Solução de Problemas, que com o PDCA apresenta excelentes resultados de gestão nas organizações. O objetivo deste capítulo não foi esgotar os assuntos tratados, mas sim fazer com que você entenda que as ferramentas apresentadas estão disponíveis e contribuem muito na gestão da qualidade. Embora a aplicabilidade dessas ferramentas tenha sido inicialmente nas indústrias, com o passar dos anos passaram a ser adotadas, também, no setor de serviços para melhorar os processos de trabalho. 65 Padronização e auditoria da qualidade hospitalar Capítulo 3 Assim, sugere-se que você aprofunde seus conhecimentos com as leituras indicadas ao longo do capitulo. O próximo capitulo será dedicado à discussão sobre o gerenciamento de risco nas instituições de saúde. Referências ALVES, V. L. de S. Gestão da qualidade: ferramentas utilizadas no contexto contemporâneo da saúde. São Paulo: Martinari, 2012. BOHOMOL, E. Padrões para avaliação da qualidade da assistência de enfermagem. In: D’ INOCENZZO, M. (Coord.). Indicadores, auditorias, certificações: ferramentas de qualidade para gestão em saúde. São Paulo: Martinari, 2010. CARPINETTI, L. C. et al. Gestão da qualidade ISSO 9000:2000: princípios e requisitos. São Paulo: Atlas, 2007. FAZENDA, N. R. dos R.; FELDMAN, L. B.; RUTHES, R. M. Programa de saúde da família: indicadores para a saúde da criança. In: D´ INOCENZZO, M. (Coord.). Indicadores, auditoria, certificações: ferramentas de qualidade para gestão em saúde. São Paulo: Martinari, 2010. LUONGO, J. Auditoria da qualidade. In: LUONGO, J. (Org.). Gestão da qualidade em saúde. São Paulo: Rideel, 2011. ______.; ROCHA, M. R. da. Métodos e instrumentos da qualidade. In: LUONGO, J. (Org.). Gestão da qualidade em saúde. São Paulo: Rideel, 2011. MALIK, A. M.; SCHIESARI, L. M. C. Qualidade e acreditação. In: VECINA NETO, G. Gestão em saúde. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. MIRANDA, V. de M. Aspectos históricos da qualidade em Saúde. In: LUONGO, J. Gestão da qualidade em saúde. São Paulo: Rideel, 2011. NOGUEIRA, L. C. L. Gerenciando pela qualidade total na saúde. Belo Horizonte: Desenvolvimento Gerencial, 2003. OLIVEIRA, M. A. L. Documentação para a ISO 9000. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1994. 66 Gestão da Qualidade Hospitalar PAVANI JÚNIOR, O.; SCUCUGLIA, R. Mapeamento e gestão por processos – BPM. São Paulo: M. Books, 2011. RODRIGUES, M. V. et al. Qualidade e acreditação em saúde. Rio de Janeiro: FGV, 2011. SCARTEZINI, L. M. B. Análise e melhoria de processos. Goiânia, 2009. Disponível em: <https://goo.gl/5foH8>. Acesso em: 05 ago. 2016. SESI. Serviço Social da Indústria. Construção e análise de indicadores. Curitiba: [s.n.], 2010. SILVA, A. S. et al. A importância da documentação da qualidade para o setor produtivo: um estudo decaso. 2010. Disponível em: <https://goo.gl/hgYWpk>. Acesso em: 05 ago. 2016. TJARA, S. F. Gestão estratégica na saúde: reflexões e práticas para uma administração voltada para a excelência. São Paulo: Iátria, 2010. CAPÍTULO 4 Gerenciamento do risco hospitalar A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Conhecer o panorama da gestão de risco hospitalar. � Compreender as metas de segurança do paciente. � Avaliar a importância da rede sentinela na gestão do risco hospitalar. � Desenvolver habilidades para implantação do núcleo de segurança do paciente. � Compreender a importância da prática do full disclosure. 68 Gestão da Qualidade Hospitalar 69 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 Contextualização Com a revolução no papel dos hospitais, associada ao avanço tecnológico, este deixou de ser um local onde pobres e doentes eram deixados para morrer, transformando-se num local importante para o tratamento e prevenção da saúde humana. Dessa forma, os hospitais também acabam enfrentando riscos que podem causar prejuízos diretos e indiretos a seus pacientes. O gerenciamento de risco hospitalar é um processo complexo, que envolve a atuação de diversos profissionais da saúde com o objetivo de prevenir a ocorrência de eventos adversos na assistência à saúde do paciente. É nesse contexto que estudaremos o gerenciamento de risco nas unidades hospitalares e as ferramentas utilizadas na mitigação deste. Bons estudos! Gerenciamento de Risco em Saúde O gerenciamento de risco hospitalar está integrado à qualidade da assistência prestada ao paciente. A administração de risco começou a se desenvolver nos EUA na década de 1950. Com o passar dos anos, a gestão de risco começou a ser adotada por outros países. De acordo com Feldman (2008), a gestão ou gerenciamento de risco são sinônimos da administração de risco. Esse processo pode ser aplicado em qualquer situação que possa gerar consequência ou resultado não mapeado e/ ou esperado. Inicialmente, a gestão de risco em saúde era voltada para a contratação de seguros de responsabilidade civil para cobrir os custos econômicos das ações judiciais contra os profissionais e hospitais em relação às falhas na assistência prestada. Atualmente, a gestão de risco está voltada para o acompanhamento, monitoramento e mitigação de eventos adversos à saúde dos pacientes. Mas o que é um risco? 70 Gestão da Qualidade Hospitalar Para Santos (2002), risco é um grau de incerteza em relação à possibilidade de ocorrer um determinado evento, que, em caso afirmativo, redundará em prejuízos. Pode-se dizer, também, que o risco é a possibilidade de perda decorrente de um determinado evento. De acordo com Mendes et al. (2008), o evento adverso é definido como uma lesão ou dano de caráter não intencional que resulta em incapacidade/disfunção temporária/permanente, prolongamento do tempo de permanência no hospital ou morte como consequência do cuidado prestado. O fenômeno dos eventos adversos, ou seja, os problemas na qualidade dos serviços de saúde em hospitais têm causado discussões no meio acadêmico e profissional em relação à segurança do paciente, principalmente pelos impactos financeiros que estes representam para as instituições de saúde. No Reino Unido e na Irlanda do Norte, o prolongamento do tempo de permanência no hospital devido aos EAS custa cerca de dois bilhões de libras ao ano e o gasto do Sistema Nacional de Saúde com questões litigiosas associadas a EAS é de 400 milhões de libras ao ano. Nos EUA, os custos anuais provocados por EAS estão estimados entre 17 e 29 bilhões de dólares anuais. (MENDES et al., 2005, p. 394). EAS: Estabelecimentos Assistenciais de Saúde. Segundo Feldman (2008), as falhas e/ou erros são decorrentes de: • Ações automáticas; • Distração; • Memória longa; • Especificações insuficientes; • Falta de conhecimento. Além disso, Feldman (2008) aduz que esses erros podem ser derivados de: • Capacidades; • Regras; • Conhecimento. 71 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 Feldman (2008) coloca, ainda, que a fonte dos problemas, na maioria das vezes, é desencadeada por diversos fatores, podendo a sua origem resultar em erros, falhas e/ou deficiência no processo. De acordo com Laurindo e Lima (2012), os princípios norteadores da gestão de risco na instituição hospitalar são: • Foco na prevenção e nos processos; • Sistemática estruturada e oportuna; • Dinâmica interativa e capaz de reagir às mudanças; • Parte integrante dos processos organizacionais; • Alinhada ao planejamento estratégico da organização; • Orientada para a tomada de decisões; • Gerencia eventos sentinela; • Baseada em evidências. O principal objetivo da política de gerenciamento de risco é monitorar a assertividade do trabalho, utilizando como parâmetro a possibilidade ou ocorrência de situações adversas, como, por exemplo, erro na administração de medicamentos, extravasamento de quimioterápico, úlcera por pressão, quedas, acidentes de trabalho, infecção hospitalar, diagnóstico errado, etc. (LAURINDO; LIMA, 2012). De acordo com a ANVISA (2014), há algumas características do sistema de saúde que predispõem a ocorrência de falhas: • Ambientes incertos e dinâmicos; • Várias fontes de informação; • Mudanças, imprecisões e objetivos que se confundem; • Necessidade de processar informações atualizadas em situações e circunstâncias que mudam rapidamente; • Dependência de indicadores indiretos; • Problemas podem ser imprecisos; • Ações têm consequências imediatas e múltiplas; • Momentos de intenso estresse, permeados por longos períodos de atividade rotineira e repetitiva; • Tecnologia sofisticada com muitas redundâncias; • Interface entre operador e equipamentos complexa e, muitas vezes, confusa; • Alto risco; • Múltiplos indivíduos com diferentes prioridades. A gestão de riscos integra e envolve diversas áreas, como, por exemplo, hemovigilância, tecnovigilância, farmacovigilância, prevenção de infecção 72 Gestão da Qualidade Hospitalar hospitalar, prevenção de eventos assistenciais (queda e úlcera por pressão), saúde ocupacional e gerenciamento de resíduos. Figura 10 - Áreas integradas na gestão de risco Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/5vE15e>. Acesso em: 28 ago. 2016. Na área da saúde, os riscos podem ser ambientais (estrutura física adequada) e biológicos (materiais perfurocortantes, radiação ionizante, resíduos/ lixo contaminado e outros). (LUONGO, 2011). Além dos riscos para o próprio profissional de saúde, outros riscos são inerentes à assistência em saúde e, portanto, devem ser analisados e prevenidos. Esses riscos ocorrem no ambiente hospitalar, são oriundos de erros profissionais e estão relacionados com quedas, erros de medicação, administração de dietas e outros que comprometem o estado de saúde do paciente. (LUONGO, 2011). Você pode acessar a Norma Regulamentadora n. 9 (NR9), expedida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, que trata sobre a prevenção de riscos ambientais, no seguinte endereço eletrônico: <https://goo.gl/iMqHTG> 73 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 Nesse contexto, as instituições de saúde, mais especificamente os hospitais, devem estabelecer Programas de Gerenciamento de Risco (PGR). Geralmente, esses programas têm como base as diretrizes e as legislações impostas pela Vigilância Sanitária e pelo Ministério do Trabalho e Emprego. As estratégias de intervenção para gerenciar riscos e prevenir situações de perigo são realizadas por meio de ações direcionadas para maior observação/ identificação de fatos/eventos e melhor prática de assistênciaà saúde do paciente/ profissionais da instituição. De acordo com Luongo (2011), a instituição de saúde pode traçar várias estratégias de intervenção para gerenciar e prevenir situações de perigo, entretanto, é necessário observar alguns requisitos descritos no quadro que segue. Quadro 12 - Requisitos para intervenção na gestão de risco Fonte: Adaptado de Luongo (2011, p. 125-126). CONDUTA INTERVENÇÃO Política Busca relacionar a política institucional e os planos estratégicos/operacionais, encontrando meios aceitáveis para identificar e intervir nas situações de risco. Deve-se monitorar/analisar o desempenho organizacional e os fatores que levam à ocorrência das situações indesejadas. Comprometimento da instituição A instituição, representada pelos executivos e dirigentes, deve estar compro- metida com sua missão. Ao identificar as situações de risco, deve-se analisar suas causas e sugerir medidas interventivas. Responsabilidade A responsabilidade deve estar evidente e clara para todos os colaboradores, evitando que situações de risco se concretizem em eventos e fatos negativos à instituição. Mudanças As mudanças na estrutura organizacional, nas ações e nos padrões estipula- dos, podem ser medidas adequadas para a gestão de riscos. Na análise dos eventos que levam ao risco, descobre-se que as ações e a estrutura orga- nizacional são responsáveis pelo seu aumento e, por isso, são necessárias mudanças para garantir a segurança. Recursos A intervenção na gestão de risco pode ocorrer pelos recursos materiais e hu- manos da instituição. A análise crítica das situações de risco pode demonstrar que a reorganização dos recursos atuais solucionará os riscos identificados e passiveis de transformarem-se em problemas futuros. 74 Gestão da Qualidade Hospitalar Segundo Luongo (2011), as estratégias de intervenção para gerenciar os ricos geralmente são pautadas em ações preventivas e um dos maiores desafios está na manutenção dos programas de gestão de risco. Em regra, o profissional de saúde não almeja o malefício do paciente, mas este pode acontecer por falta de atenção, atitude precipitada, falta de treinamento ou de conhecimento e destreza no momento da execução das atividades. A medicina, enfermagem, odontologia, fisioterapia e, consequentemente, a saúde, são cercados por riscos perfeitamente reconhecidos. Lembre-se: tais riscos podem resultar em responsabilidade civil. (FELDMAN, 2008). Um estudo divulgado pela Folha de São Paulo, em 29/07/2013 pela Jornalista Claudia Collucci, demonstra que 73% dos erros que acontecem dentro dos hospitais brasileiros, como medicações trocadas ou operações em membros errados, poderiam ser evitados. De acordo com a reportagem, no Brasil é alto o índice de problemas evitáveis: de 66,7% a 73%. Nos demais países, a evidência variou de 27% (França) a 51% (Austrália). Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/L0KLKV>. Acesso em: 28 ago. 2016. 75 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 Atividade de Estudos: 1) Explique a importância da identificação de riscos para as instituições hospitalares. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ Observa-se, nesse contexto, que a identificação do risco tem sido uma ferramenta de constante monitoramento, sendo útil para o gerenciamento da prevenção de danos e a segurança institucional. Metas de Segurança do Paciente A assistência à saúde sempre envolverá riscos, mas estes podem ser reduzidos quando são analisados e combatidos, evitando que sejam possíveis causas de eventos adversos. Para tanto, é necessário conhecer esses riscos, pois os profissionais de saúde devem informar quando há um problema nos processos assistenciais do hospital, ou seja, devem observar melhor as situações do dia a dia e notificar falhas nos processos. Essas atitudes fazem parte da cultura de segurança do paciente. A cultura de segurança faz com que os profissionais sejam responsáveis pelos seus atos por meio de uma liderança proativa, assegurando o entendimento e deixando claros seus benefícios. Assegura, também, a imparcialidade no tratamento dos eventos adversos, sem tomar medidas de punição frente à ocorrência destes. (ANVISA, 2013). Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), segurança do paciente corresponde a reduzir ao mínimo aceitável o risco de dano desnecessário associado ao cuidado de saúde. (BRASIL, 2014). Estudos mostram que um em cada dez pacientes atendidos em hospital sofre pelo menos um evento adverso, como, por exemplo, queda, administração incorreta de medicamentos, falhas na identificação do paciente, erros em procedimentos cirúrgicos, infecções, mau uso de dispositivos e equipamentos médicos. 76 Gestão da Qualidade Hospitalar A questão do erro e dos eventos adversos tem sido descrita e estudada há bem mais de um século. Entretanto, com raras exceções, sendo a anestesiologia uma delas, não se reconhecia a gravidade do problema até cerca de 10 anos quando foi publicado o relatório “Errar é humano”. Cabe destacar o pioneirismo de Lucian Leape em seu artigo “Erros em Medicina”, publicado em 1994, quando já destacava a questão do erro no cuidado de saúde e indicava as contribuições de disciplinas, como o fator humano, no campo da engenharia e a psicologia cognitiva, para uma melhor compreensão do erro humano e de seus fatores contribuintes. Argumentava que, para reduzir a ocorrência de erro no cuidado de saúde, seria necessário mudar a forma como se pensava o erro, isto é, reconhecer a falibilidade humana e a importância do sistema para a prevenção do erro. (TRAVASSOS; CALDAS, 2013, p. 24). Erro é definido como uma falha ao executar um plano de ação como pretendido ou como a aplicação de um plano incorreto. Os erros podem ocorrer por se fazer a coisa errada (erro de ação) ou por falhar em fazer a coisa certa (erro de omissão) na fase de planejamento ou na fase de execução. (TRAVASSOS; CALDAS, 2013, p. 25). De acordo com Travassos e Caldas (2013), são contribuições necessárias para a segurança do paciente: • Mostrar com clareza que o cuidado de saúde pode ser danoso para os pacientes; • Chamar a atenção para o impacto do erro e as consequências do dano; • Abordar diretamente a questão do erro no cuidado de saúde, sua natureza e suas causas; • Ampliar a atenção sobre o desempenho humano; • Ampliar a atenção nas questões colocadas pela ergonomia e psicologia; • Utilizar uma ampla variedade de modelos de segurança e qualidade da indústria, principalmente aqueles de alto risco; • Introduzir novas ferramentas e técnicas para a melhoria do cuidado de saúde. Nesse sentido, Gama e Saturno (2013) colocam que a experiência em outros setores com tradição em gestão da segurança (aviação, indústria nuclear e outros) demonstra que algo essencial para o sucesso nessa área é intervir na psicologia da organização por meio da criação e manutenção de uma cultura de segurança entre os profissionais. Muitos pesquisadores têm proposto que as estratégias para segurança do paciente devam seguir os modelos utilizados na aviação e nas indústrias de energia nuclear, acreditando que se obterá o mesmo sucesso. Todavia, a realidade é 77 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 provavelmente mais complexa. Muitas indústrias, como, por exemplo, a indústria química ou de segurança rodoviária têm adaptado as ferramentas de segurança de sistemas avançados e obtiveram ganhos importantes nas últimas duas décadas. No entanto, o resultado de segurança da maioria destes esforçosfoi abaixo do nível atingido pela aviação civil e pelas indústrias de energia nuclear. Este limite não parece ter relação com insuficiência de ferramentas, baixa competência dos trabalhadores ou uso de ingênuas estratégias de segurança; parece ser consequência de uma troca consciente entre os objetivos de segurança, metas de desempenho e organização profissional. (ANVISA, 2014, p. 43). As portarias do Ministério da Saúde n. 529 (01/04/2013) e n. 941 (17/05/2013), estabelecem o Programa Nacional de Segurança do Paciente para o monitoramento e prevenção de danos na assistência à saúde. Entre as ações propostas, destacam-se a implementação de Protocolos de Segurança do Paciente com foco nos problemas de maior incidência e a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n. 36 (25/07/2013), da Agência Nacional da Vigilância Sanitária (ANVISA), que estabelece a obrigatoriedade da criação de Núcleos de Segurança do Paciente nos serviços de saúde e de notificação de eventos adversos associados à assistência do paciente. A ANVISA (2013) e Thomas et al. (2000), ao discorrer sobre risco e segurança, destacam que a área da saúde é um dos sistemas mais complexos considerando: • O tipo de desempenho que se espera de todos os profissionais, desde atividades rotineiras, padronizadas e repetitivas, até as altamente inovadoras; • A relação entre os profissionais de saúde e os pacientes, da total autonomia do paciente até a total necessidade de supervisão; • Os tipos de regulamentações, desde atividades que não possuem regramento algum até aquelas altamente especificadas; • A pressão por justiça após um incidente, desde simples caso legal até grandes e complexos processos contra pessoas e instituições; • A supervisão/transparência da mídia e das pessoas quanto às questões relacionadas à área, desde pouca preocupação até demanda por fiscalização e ação nacional. Segundo Brasil (2014), as metas internacionais para segurança do paciente são: 1) Identificar os pacientes corretamente; 2) Melhorar a comunicação entre as equipes; 3) Melhorar o gerenciamento de medicamentos de alto risco; As portarias do Ministério da Saúde n. 529 (01/04/2013) e n. 941 (17/05/2013), estabelecem o Programa Nacional de Segurança do Paciente para o monitoramento e prevenção de danos na assistência à saúde. 78 Gestão da Qualidade Hospitalar 4) Eliminar cirurgias em membros ou em pacientes errados; 5) Reduzir os riscos de infecções; 6) Reduzir os riscos de lesões decorrentes de quedas. Para tanto, o Ministério da Saúde lançou uma campanha de divulgação em todo território nacional, utilizando o cartaz representado na figura que segue. Figura 11 – Cartaz das metas para segurança do paciente Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/5iYaHz>. Acesso em: 28 ago. 2016. 79 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 META 1 - Identificação correta dos pacientes: a identificação correta é fundamental para o cuidado seguro ao paciente. Consiste em utilizar pulseiras de identificação para minimizar erros nos cuidados à saúde dos pacientes internados em unidades de atendimento de urgência e emergência hospitalar para classificar o tipo de risco em pacientes que se encontram em observação e nos pacientes em cuidados ambulatoriais. META 2 - Melhorar a efetividade da comunicação entre os profissionais da saúde: observa-se uma lacuna na comunicação entre os profissionais e isso pode ocasionar danos ao paciente. Essa melhoria vai desde a comunicação de um diagnóstico até o repasse de informações para o paciente referentes a exames ou cuidados com a saúde. É necessário que o profissional se certifique de que a informação foi clara/objetiva e que esta tenha sido compreendida corretamente pelo receptor. META 3 - Melhorar a segurança na prescrição, no uso e na administração de medicamentos: atualmente se observa que falhas no processo de medicação é um problema frequente em alguns hospitais do mundo. Um dos principais erros é a administração equivocada de medicamentos relacionada à dose, via de administração e tipo de droga. META 4 - Assegurar cirurgia em local de intervenção, procedimento e paciente corretos: o conceito de cirurgia segura está sendo difundido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no mundo inteiro. Esse conceito envolve a adoção de medidas que pretendem reduzir o risco de eventos adversos antes, durante e depois das cirurgias. Os eventos adversos cirúrgicos são incidentes que resultam em dano ao paciente. Dessa forma, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu um programa para garantir a segurança em cirurgias, que consiste na verificação de itens essenciais do processo cirúrgico. O objetivo é garantir que o procedimento seja realizado conforme o planejado, atendendo aos cinco certos: paciente, procedimento, lateralidade (lado que deve ser operado), posicionamento e equipamentos. O Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (COREN-SP), em sua cartilha sobre os dez passos para segurança do paciente, informa que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda implantar uma lista de verificação composta por três fases distintas: checar imediatamente antes (sign in - realizado antes da indução anestésica); checar antes (time out - realizado antes da incisão na pele) e checar depois (sign out - realizado antes do paciente sair da sala de cirurgia). Veja: 80 Gestão da Qualidade Hospitalar a) Checar imediatamente antes (Sign in - antes da indução anestésica): • Confirmação do paciente: identificação do paciente, do local da cirurgia, do procedimento a ser realizado e preenchimento do consentimento informado. • Marcação do local da intervenção cirúrgica pelo profissional que irá realizar o procedimento e/ou pelo paciente. • Realização dos procedimentos de segurança para anestesia, pelo anestesista, como a conferência do equipamento de anestesia. • Monitoramento de oximetria. • Verificação de alergias. • Verificação das dificuldades de ventilação ou risco de aspiração. • Avaliação de possíveis perdas sanguíneas ou risco de aspiração. b) Checar antes (Time out - antes da incisão na pele): • Confirmação de todos os membros que compõem a equipe, apresentando-se pelo nome e função. • Confirmação do paciente, local da cirurgia e tipo de procedimento. • Verificação pelo cirurgião dos pontos críticos da cirurgia, duração do procedimento e perdas sanguíneas. • Verificação pelo anestesista dos pontos críticos da anestesia. • Verificação pela enfermagem dos pontos críticos da assistência, como indicadores de esterilização e equipamentos necessários para a cirurgia. • Realização de antibioticoterapia profilática. • Verificação da necessidade de equipamentos radiográficos. c) Checar depois (Sign out - antes do paciente sair da sala de cirurgia): • Confirmação do procedimento realizado. • Conferência dos instrumentais, compressas e agulhas. • Conferência, identificação e armazenamento correto de material para biópsia. • Anotação e encaminhamento de problemas com algum equipamento. • Cuidados necessários na recuperação anestésica. (COREN-SP, 2010, grifo nosso). A utilização do check-list cirúrgico ou time out é de fundamental importância para a realização da cirurgia segura. Esse instrumento envolve um conjunto de ações que são realizadas nas diversas fases da cirurgia, desde o agendamento até o período pós-operatório. 81 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 Figura 12 – Modelo de check-list ou time out de cirurgia segura Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/DcCT9X>. Acesso em: 28 ago. 2016. META 5 – Higienizar as mãos para evitar infecções: a higiene correta das mãos é considerada a ação isolada mais importanteno controle de infecções em serviços de saúde. Porém a falta de adesão dos profissionais de saúde a esta prática é uma realidade que vem sendo constatada ao longo dos anos e tem sido objeto de estudos em diversas partes do mundo. (BELELA-ANACLETO et al., 2013). A higienização das mãos é como um pilar da prevenção e controle de infecções dentro dos serviços de saúde, principalmente nos hospitais. As infecções em unidades hospitalares podem ocorrer por diversos motivos, incluindo aquelas decorrentes da transmissão cruzada de microrganismos multirresistentes. 82 Gestão da Qualidade Hospitalar Figura 13 – Demonstração dos 5 momentos para higienização das mãos Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/STXo5F>. Acesso em: 28 ago. 2016. De acordo com a ANVISA (2009), os estudos realizados mundialmente demonstram que a adesão dos profissionais à prática da higienização das mãos de forma constante e rotineira ainda é baixa, devendo ser estimulada e conscientizada pelas instituições de saúde. Diversas campanhas vêm sendo realizadas para incentivar e conscientizar as pessoas sobre a importância da lavagem das mãos. Veja: Figura 14 – Dia mundial de higienização das mãos Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/qOraBn>. Acesso em: 28 ago. 2016. 83 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 META 6 – Reduzir o risco de quedas e úlceras por pressão: a implantação do protocolo para prevenção ao risco de quedas do paciente hospitalizado tem sido difundida por diversas instituições, como a OMS e o Ministério da Saúde, cuja finalidade principal é minimizar os riscos e danos assistenciais durante a permanência na instituição de saúde. O objetivo desse protocolo é promover uma assistência segura, gerando ao paciente e a família uma sensação de segurança e de atendimento com qualidade. As taxas de incidência e prevalência de úlceras por pressão são consideradas como um indicativo da qualidade do cuidado de enfermagem. De acordo com a American Nursing Association (ANA), quando o paciente desenvolve uma úlcera por pressão ou há algum tipo de queda após a admissão hospitalar, esses eventos adversos agregam um valor negativo à qualidade da assistência. (PINTO, 2012). Para ampliar seus conhecimentos sobre o assunto ora debatido, consulte o documento produzido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) intitulado “Assistência segura: uma reflexão teórica aplicada à prática” no seguinte endereço eletrônico: <https:// goo.gl/yQ2P7w>. Atividade de Estudo: 1) Agora que você já estudou sobre as seis metas de segurança do paciente, escolha um hospital e explique as ações que esta instituição realizou para implementar as referidas metas de segurança. __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ As metas de segurança do paciente têm se destacado nas ações de prevenção das instituições hospitalares, entretanto, cabe aos sistemas de saúde avançar no desenvolvimento de ferramentas de monitoramento e nas atividades de capacitação das equipes de saúde para que o alcance das metas seja prioridade em todos os níveis de atendimento do paciente. A implantação do protocolo para prevenção ao risco de quedas do paciente hospitalizado tem sido difundida por diversas instituições, como a OMS e o Ministério da Saúde, cuja finalidade principal é minimizar os riscos e danos assistenciais durante a permanência na instituição de saúde. 84 Gestão da Qualidade Hospitalar Núcleo de Segurança do Paciente Conforme dito anteriormente, a gestão de risco em instituições hospitalares tem sido frequente devido à quantidade de erros que ocorrem de forma involuntária na assistência à saúde. A partir das estatísticas levantadas pelos órgãos de saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) estabeleceu a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n. 36/2013, fixando ações que devem ser observadas pelas instituições hospitalares, entre elas, inclusive, está a necessidade da criação do núcleo de segurança do paciente. Mas o que é o núcleo de segurança do paciente? De acordo com o artigo 3º, inciso VIII, da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n. 36/2013, o núcleo de segurança do paciente é a instância do serviço de saúde criada para promover e apoiar a implementação de ações voltadas à segurança do paciente, consistindo num componente extremamente importante na busca pela qualidade das atividades desenvolvidas nos serviços de saúde. (BRASIL, 2013). O objetivo do núcleo é promover e apoiar a implementação de iniciativas voltadas à segurança do paciente em diferentes áreas da atenção, organização e gestão dos serviços de saúde, por meio da implantação da gestão de risco nos estabelecimentos. (BRASIL, 2014). O núcleo de segurança do paciente é a instância do serviço de saúde criada para promover e apoiar a implementação de ações voltadas à segurança do paciente. 85 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 Figura 15 – Princípios e diretrizes do núcleo de segurança do paciente Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/1GsL9Z>. Acesso em: 28 ago. 2016. O núcleo de segurança do paciente deve ser implantado por todas as instituições de saúde, sejam elas públicas, privadas ou filantrópicas e, principalmente, naquelas que desenvolvem atividades de ensino e pesquisa. Compete à direção da instituição indicar os membros que constituirão o núcleo de segurança do paciente, bem como conferir a estes autoridade, responsabilidade e poder para executar as ações do plano de segurança do paciente. (BRASIL, 2014). O núcleo deverá ser estruturado de acordo com o porte e necessidade de cada instituição. De acordo com o art. 5º, incisos I e II, da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n. 36/2013, para o funcionamento sistemático e contínuo do Núcleo de Segurança do Paciente (NSP), a direção do serviço de saúde deve disponibilizar: a) recursos humanos, financeiros, equipamentos, insumos e materiais; b) um Garantia das boas práticas de funcionamento do Serviço de Saúde A disseminação sistemática da cultura de segurança A articulação e a integração dos processos de gestão de risco A melhoria contínua dos processos do cuidado e do uso de tecnologias em saúde NSP 86 Gestão da Qualidade Hospitalar profissional responsável pelo NSP com participação nas instâncias deliberativas do serviço de saúde. (BRASIL, 2013). Esse núcleo deve ser constituído por uma equipe multiprofissional, comprovadamente capacitada em conceitos de melhoria da qualidade, segurança do paciente e ferramentas de gerenciamento de riscos em serviços de saúde. Geralmente, o núcleo de segurança do paciente é constituído por profissionais que conhecem bem os processos de trabalho, que tenham perfil de liderança e que possuem experiência nas áreas de controle de infecção, gerência de risco, epidemiologia, qualidade, microbiologia, farmácia hospitalar, engenharia clínica, segurança do paciente, etc. (BRASIL, 2014). O artigo 10, parágrafo único, da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n. 36/2013, determina a responsabilidade do núcleo de segurança do paciente acerca da notificação dos eventos adversos. Veja: Art. 10 A notificação dos eventos adversos, para fins desta resolução, deve ser realizada mensalmente pelo NSP, até o 15º (décimo quinto) dia útil do mês subsequente ao mês de vigilância, por meio das ferramentas eletrônicas disponibilizadas pela Anvisa. Parágrafo único. Os eventos adversos que evoluírem paraóbito devem ser notificados em até 72 (setenta e duas) horas a partir do ocorrido. (BRASIL, 2013). As notificações de eventos adversos pelos núcleos de segurança do paciente devem ser realizadas por meio do Sistema de Notificações em Vigilância Sanitária (NOTIVISA), disponível no seguinte endereço eletrônico: <https://goo.gl/eWVOSJ>. O acesso ao sistema NOTIVISA é realizado mediante cadastro do núcleo de segurança do paciente no seguinte endereço eletrônico: <https://goo.gl/qKXKSq>. Mas quais são os eventos que devem ser notificados pelo núcleo de segurança do paciente por meio do sistema NOTIVISA? Deverão ser notificados todos os eventos adversos que ocorrem na instituição de saúde e que possuem relação com medicamentos, reações, doenças transmissíveis e outros. Farmacovigilância: deverão ser notificadas as reações adversas aos medicamentos, ou seja, qualquer efeito nocivo, não intencional e indesejado dos 87 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 medicamentos, observado em doses terapêuticas habituais, utilizadas em seres humanos para fins de profilaxia, diagnóstico ou tratamento. Além disso, deverão ser notificadas as situações de inefetividade terapêutica dos medicamentos/queixa técnica em medicamentos, ou seja, alterações físico-químicas e organolépticas, adulterações, falsificações, problemas de rotulagem/embalagem e outros. Tecnovigilância: notificar os eventos adversos e as queixas técnicas envolvendo produtos para a saúde (equipamentos, materiais, artigos médico- hospitalares, implantes e produtos para diagnóstico). Esses eventos podem ser uma falha do produto, defeito de fabricação, funcionamento inadequado e rotulagem incorreta, como, por exemplo, ausência do número de lote, falta do prazo de validade, ausência de registro na ANVISA/MS e instruções de uso/ embalagens impróprias ou inadequadas. Hemovigilância: serão notificados os eventos adversos envolvendo incidentes transfusionais ocorridos durante a transfusão ou em até 24 horas, como, por exemplo, reação hemolítica aguda, reação febril não hemolítica, reação alérgica leve, moderada ou grave, contaminação bacteriana, edema pulmonar não cardiogênico, reação hipotensiva, hemólise não imune e outros. Também devem ser notificados os incidentes transfusionais tardios, ou seja, aqueles ocorridos após 24 horas da transfusão (reação hemolítica tardia, hepatite B e C, AIDS/HIV, chagas, sífilis, malária e HTLV-I/II). Para obter mais informações sobre a implantação do Núcleo de Segurança do Paciente (NSP), acesse na íntegra a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) n. 36/2013, no seguinte endereço eletrônico: <https://goo.gl/BSMHNa>. Atividade de Estudos: 1) Pesquise e depois transcreva quais são os desafios para os gestores na implantação do Núcleo de Segurança do Paciente (NSP). __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ __________________________________________________ 88 Gestão da Qualidade Hospitalar A gestão de riscos e a melhoria da qualidade nos cuidados dos pacientes têm evoluído nas últimas décadas e, com isso, unindo esforços nas organizações para garantir a segurança do paciente. Sendo assim, a criação do NSP vem fortalecer o cuidado com o paciente e o cumprimento das práticas de vigilância e monitoramento das ações de saúde. REDE SENTINELA E A GESTÃO DE RISCO A ANVISA é responsável, com as vigilâncias sanitárias estaduais e municipais, pela vigilância sanitária no país. Uma das suas atribuições é acompanhar os registros das notificações realizadas pelas empresas em relação aos produtos e equipamentos de saúde. Entretanto, esse registro ainda é um desafio, pois nem sempre as instituições o fazem. Diante desse contexto, a ANVISA criou a Rede Sentinela para obter informações qualificadas enquanto cria um meio intra-hospitalar favorável ao desenvolvimento de ações de vigilância sanitária em hospitais, resultando em ganhos significativos de qualidade para os serviços e pacientes. HISTÓRICO DA REDE SENTINELA A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), a partir 2001, começou a investir na estruturação de Ações de Vigilância Sanitária Pós-uso/Pós-Comercialização de Produtos (Vigipós), como forma de obter informações necessárias para a retroalimentação dos processos de revalidação de registros, publicação de alertas, retirada de produtos do mercado e inspeção em empresas. A estratégia adotada foi a criação e capacitação de uma rede de hospitais, denominada Rede Brasileira de Hospitais Sentinela, composta por hospitais de ensino e/ou alta complexidade, para atuarem como observatórios ativos do desempenho e segurança de produtos de saúde sob vigilância sanitária regularmente usados (Medicamentos; Vacinas e Imunoglobulinas; Artigos Médico- Hospitalares; Equipamentos Médico-Hospitalares; Kits Reagente para Diagnóstico In Vitro; Pesquisas Clínicas; Cosméticos; Produtos de Higiene Pessoal ou Perfumes; Sangue ou Componentes; Saneantes e Agrotóxico). Em sua fase inicial, a rede constituiu-se em um projeto voltado para a capacitação de profissionais dos hospitais participantes, visando favorecer a organização de gerências de risco sanitário hospitalar. Nas fases seguintes foram implementados planos de melhoria voltados para o Uso Racional de Medicamentos e Uso Racional de Tecnologias. 89 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 Nos serviços que passaram a compor a Rede Sentinela, gerências de risco foram instituídas para realizar diversas atividades no seu dia a dia, entre elas a divulgação do seu papel, a busca de informações de eventos adversos e de queixas técnicas relacionados aos produtos de saúde, bem como notificá-los no sistema on-line para a Anvisa, por meio do Sistema de Notificações em Vigilância Sanitária (Notivisa). Para que essas atividades acontecessem, a Anvisa destinava recursos aos hospitais da Rede Sentinela, mediante relatórios enviados pelos gerentes, que registravam como estava ocorrendo a implantação da gerência de risco e quais os trabalhos desenvolvidos pela equipe desta gerência. Os recursos enviados pela Anvisa eram utilizados para o pagamento de ações desenvolvidas pela gerência de risco, tais como: atividades de divulgação e confecção de boletins informativos; capacitação, atualização e treinamento de técnicos para a vigilância de produtos de saúde e a utilização correta destes produtos nos serviços hospitalares. Essas atividades visavam à melhoria do processo de gestão assistencial. Outros gastos foram custeados, como assinatura anual de internet, pagamento de telefone, honorários, pagamento de pró-labore, incluindo gratificação para a gerência do projeto, pagamento de bolsistas, viagens de intercâmbio e aquisição ou locação de equipamentos imprescindíveis ao trabalho da equipe da gerência de risco. Em reconhecimento aos esforços da rede, em 2006, a Anvisa e o Projeto Sentinela foram premiados com o terceiro lugar no 11º Concurso “Inovação na Gestão Pública” da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), como umas das mais importantes e inovadoras iniciativas do Governo Federal. Essa premiação e a consequente visibilidade reforçaram ainda mais o papel central da Rede Sentinela na construção da atenção hospitalar eficiente, da inovação tecnológica segura, além de reafirmar o compromisso do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS) e dos estabelecimentos que compõem a Rede com o Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2009, foi publicada a Portaria Ministerial MS n° 1660, que institui o Sistema de Notificação e Investigação em Vigilância Sanitária, no âmbito do SNVS, como parte integrantedo SUS. Essa norma reforça o papel da Rede Sentinela como importante observatório do uso de tecnologias em saúde e notificador para o Vigipós. No entanto, com a iminência de término do Projeto BRA04/010, foi iniciada, ao final de 2009, uma discussão sobre novas estratégias que conferissem perenidade, sustentabilidade e aumentassem a abrangência dos serviços da Rede Sentinela. Assim, a partir de maio de 2010, reuniões com representantes das instituições participantes da Rede Sentinela e do SNVS 90 Gestão da Qualidade Hospitalar definiram diretrizes para a busca destas três condições: perenidade, sustentabilidade e abrangência. Dentre as diretrizes, surgiu a necessidade do estabelecimento de critérios de inclusão e permanência de instituições na Rede Sentinela. Em dezembro de 2010, em um encontro presencial, de caráter nacional, com representantes das instituições da Rede e do SNVS, foram apresentadas as perspectivas para o credenciamento, bem como discutidos os encaminhamentos para a proposta de perenidade, sustentabilidade e abrangência da Rede Sentinela. Em 2011, foi publicado o documento “Critérios para Credenciamento de Instituições na Rede Sentinela” (Ano 2011), onde foram apresentados todos os itens a serem cumpridos pelos serviços candidatos à entrada e manutenção na rede. Importante destacar que nesse momento ampliou-se a composição da Rede Sentinela, possibilitando a entrada de outros serviços, como hemocentros e estabelecimentos de diferentes portes assistenciais, ampliando a Vigilância Sanitária Pós-Uso/Pós- Comercialização de Produtos (Vigipós) no âmbito da assistência em saúde. Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/I6Yr01>. Acesso em: 28 ago. 2016. A REDE SENTINELA Os estabelecimentos de saúde podem credenciar-se para participar da Rede Sentinela em quatro diferentes perfis: • Participante: perfil de entrada na Rede Sentinela. Requer a existência e o funcionamento de uma gerência de risco, com alimentação regular dos bancos de dados da Vigipós. • Colaborador: perfil que requer capacidade para o desenvolvimento de estudos de interesse do Sistema de Saúde brasileiro. • Centro de Cooperação: perfil que requer capacidade para realização de ações de formação e capacitação de pessoal para a Rede ou para elaboração de material instrucional. • Centro de Referência: perfil que requer capacidade para coordenar ou supervisionar sub-redes com foco em temas ou tecnologias específicas. 91 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 COMPOSIÇÃO DA REDE SENTINELA Fonte: Disponível em: <https://goo.gl/MNQH4M>. Acesso em: 28 ago. 2016. Atividade de Estudos: 1) Identifique e depois transcreva quais são os hospitais do seu Estado que pertencem a Rede Sentinela. _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ _____________________________________________________ Embora o objetivo principal da rede sentinela seja alimentar o sistema de informação da ANVISA, trata-se, também, de uma ferramenta que visa à melhoria da qualidade de serviços hospitalares oferecidos à população. 92 Gestão da Qualidade Hospitalar A Prática do Full Disclosure nos Processos Assistenciais A segurança do paciente é fundamental para qualidade da assistência à saúde. Entretanto, a cultura de segurança envolve a compreensão de valores, crenças e normas da instituição, bem como o entendimento de que atitudes e comportamentos relacionados à segurança do paciente são esperados por parte dos envolvidos no processo de cuidar. (PAESE; DAL SASSO, 2013). A prática do “disclosure” foi consagrada na década de 1990 no mercado financeiro e de capitais como determinante no processo de orientação e decisão de investimentos, cujo significado é “transparência de informações”. Com o passar dos anos, essa ferramenta vem sendo crescentemente introduzida no segmento da saúde como uma importante e decisiva ação na estratégia de relacionamento das instituições médicas com seus pacientes. O termo “disclosure” é uma palavra da língua inglesa e costuma ser traduzida como “revelação” ou “abertura”. Trata-se de um processo estruturado de comunicação com o paciente e seus familiares quando existe um dano não intencional grave ou potencialmente grave durante o processo de assistência. Preocupados com a questão da transparência na comunicação entre instituição e paciente, o Comitê para a Qualidade do Cuidado à Saúde na América (Committee on Quality of Health Care in América) publicou, em 2000, um inquietante estudo sobre o verdadeiro cenário de insegurança vivido no setor da saúde, intitulado “Errar é Humano: Construindo um Sistema Seguro de Saúde (To Err Is Human: Building A Safer Health System). 93 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 Dados revelados pelo estudo “Errar é Humano: Construindo um Sistema Seguro de Saúde”, demonstram que na década de 90, em Nova York, foram registradas 98 mil mortes/ano e nos estados do Colorado e Utah, 44 mil mortes/ano, devido a erros no processo assistencial. Ou seja, dos números registrados em Nova York, 3,7% são atribuídos a eventos adversos e destes, 13,6% dos pacientes foram a óbito. Da mesma forma, dos números registrados nos estados do Colorado e Utah, 2,9% foram eventos adversos e destes, 6,6% dos pacientes foram a óbito. Porém, a revelação mais inquietante desse estudo mostra que mais da metade desses eventos adversos poderiam ser prevenidos. Disponível em: <https://goo.gl/19KghR>. Acesso em: 28 ago. 2016. Embora pareça algo novo nas instituições de saúde, a prática de comunicação entre paciente e instituição já vem sendo direito garantido desde a publicação da Portaria do Ministério da Saúde n. 1.286, de 26 de outubro de 1993. 94 Gestão da Qualidade Hospitalar Algumas Considerações Prezado pós-graduando(a), neste capítulo o objetivo foi promover a reflexão sobre a importância da gestão de risco nas unidades hospitalares. Também foi possível apresentar as metas de segurança dos pacientes e a relevância desse assunto quando falamos em qualidade hospitalar. Como em diversos segmentos econômicos, a prestação de serviços de qualidade na área da saúde tem se tornado componente primordial para o atendimento do paciente. Dessa forma, diante de tantas evoluções e tecnologias na área da saúde, espera-se que o gestor hospitalar seja competente e desenvolva uma equipe de trabalho focada na assistência de qualidade com menos risco à saúde do paciente. Além disso, você poderá utilizar as ferramentas apresentadas para o mapeamento de competências que lhe ajudarão no desenvolvimento de planos de ação que possam contribuir significativamente para a melhoria da qualidade nos serviços de saúde, uma vez que geram uma confiança mútua, capaz de proporcionar crescimento em todos os processos institucionais com segurança. Referências ANVISA. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Implantação do núcleo de segurança do paciente em serviços de saúde. Brasília: ANVISA, 2014. ______. Assistência segura: uma reflexão teórica aplicada à prática. Brasília: ANVISA, 2013. ______. Segurança do paciente em serviços de saúde: higienização das mãos. Brasília: ANVISA, 2009. BELELA-ANACLETO, A. S. C. et al. Higienização das mãos e a segurança do paciente: perspectiva de docentes e universitários. Texto & Contexto Enfermagem, Florianópolis, v. 22, n. 4, p. 907-908, out./dez. 2013. BRASIL. Ministério da Saúde. Documento de referência para o programa nacional de segurança do paciente. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.95 Gerenciamento do risco hospitalar Capítulo 4 ______. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução - RCD n. 36, de 25 de julho de 2013. Institui ações para segurança do paciente em serviços de saúde e dá outras providências. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, 26 jul. 2013, p. 32. COREN-SP. Conselho Regional de Enfermagem do Estado de São Paulo. 10 passos para a segurança do paciente. São Paulo: COREN, 2010. FELDMAN, L. B. Panorama da gestão de risco no mundo. In: FELDMAN, L. B. (Org.). Gestão de risco e segurança hospitalar: auditoria de risco, aplicabilidade de ferramentas e monitoramento. São Paulo: Martinari, 2008. GAMA, Z. A. S.; SATURNO, P. J. A segurança do paciente inserida na gestão da qualidade dos serviços de saúde. In: ANVISA. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Assistência segura: uma reflexão teórica aplicada à prática. Brasília: ANVISA, 2013. LAURINDO, M. C.; LIMA, C. F. de. Gerenciamento de risco traz mais segurança no atendimento à saúde no HEAB. Disponível em: <https://goo.gl/ vlzYVW>. Acesso em: 28 ago. 2016. LUONGO, J. Gestão de qualidade em saúde. São Paulo: Rideel, 2011. MENDES, W. et al. Adaptação dos instrumentos de avaliação de eventos adversos para uso em hospitais brasileiros. 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