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DIÁLOGO ECUMÊNICO E INTER-RELIGIOSO CURSOS DE GRADUAÇÃO – EAD Diálogo Ecumênico e Inter-religioso – Prof. Ms. Antonio Salvador Coelho. Meu nome é Antonio Salvador Coelho. Sou mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP, 1996) e licenciado em Filosofia e Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unidades de Lorena e de Americana). Também sou graduado em Teologia pelo Instituto Teológico Pio XI (São Paulo). Atuo como professor no curso de Ciências da Religião das Faculdades Integradas Claretianas (São Paulo) e no curso de Relações Internacionais das Faculdades Santa Marcelina. Faço parte da pastoral do Curso Supletivo (EJA) do Colégio Santa Cruz (São Paulo) e do Centro Ecumênico de Serviço à Educação Popular (CESEEP). Tenho experiência acadêmica nas áreas de Filosofia, Antropologia e Diálogo Inter-religioso. Trabalhei nas décadas de 1980 e 1990 na Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo e Nacional e, posteriormente, na Pastoral Indigenista junto à comunidade guarani do Pico do Jaraguá em São Paulo. e-mail: ascoelho@santacruz.g12.br Fazemos parte do Claretiano - Rede de Educação DIÁLOGO ECUMÊNICO E INTER-RELIGIOSO Caderno de Referência de Conteúdo Antonio Salvador Coelho Batatais Claretiano 2014 © Ação Educacional Claretiana, 2007 – Batatais (SP) Trabalho realizado pelo Centro Universitário Claretiano de Batatais (SP) Curso: Graduação Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso Versão: fev./2014 Reitor: Prof. Dr. Pe. Sérgio Ibanor Piva Vice-Reitor: Prof. Ms. Pe. José Paulo Gatti Pró-Reitor Administrativo: Pe. Luiz Claudemir Botteon Pró-Reitor de Extensão e Ação Comunitária: Prof. Ms. Pe. José Paulo Gatti Pró-Reitor Acadêmico: Prof. Ms. Luís Cláudio de Almeida Coordenador Geral de EaD: Prof. Ms. Artieres Estevão Romeiro Coordenador de Material Didático Mediacional: J. Alves Corpo Técnico Editorial do Material Didático Mediacional Preparação Aline de Fátima Guedes Camila Maria Nardi Matos Carolina de Andrade Baviera Cátia Aparecida Ribeiro Dandara Louise Vieira Matavelli Elaine Aparecida de Lima Moraes Josiane Marchiori Martins Lidiane Maria Magalini Luciana A. Mani Adami Luciana dos Santos Sançana de Melo Luis Henrique de Souza Patrícia Alves Veronez Montera Raquel Baptista Meneses Frata Rosemeire Cristina Astolphi Buzzelli Simone Rodrigues de Oliveira Revisão Cecília Beatriz Alves Teixeira Felipe Aleixo Filipi Andrade de Deus Silveira Paulo Roberto F. M. Sposati Ortiz Rafael Antonio Morotti Rodrigo Ferreira Daverni Sônia Galindo Melo Talita Cristina Bartolomeu Vanessa Vergani Machado Projeto gráfico, diagramação e capa Eduardo de Oliveira Azevedo Joice Cristina Micai Lúcia Maria de Sousa Ferrão Luis Antônio Guimarães Toloi Raphael Fantacini de Oliveira Tamires Botta Murakami de Souza Wagner Segato dos Santos Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, a transmissão total ou parcial por qualquer forma e/ou qualquer meio (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação e distribuição na web), ou o arquivamento em qualquer sistema de banco de dados sem a permissão por escrito do autor e da Ação Educacional Claretiana. Claretiano - Centro Universitário Rua Dom Bosco, 466 - Bairro: Castelo – Batatais SP – CEP 14.300-000 cead@claretiano.edu.br Fone: (16) 3660-1777 – Fax: (16) 3660-1780 – 0800 941 0006 www.claretianobt.com.br SUMÁRIO CADERnO DE REfERênCIA DE COnTEúDO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 9 2 ORIENTAÇÕES PARA ESTUDO .......................................................................... 10 3 REFERênCiAS BiBLioGRáFiCAS ..................................................................... 32 UniDADE 1 – DiáLoGo E ALTERiDADE 1 oBJETivoS ........................................................................................................ 33 2 CONTEúDOS ..................................................................................................... 33 3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 34 4 INTRODUÇÃO à UNIDADE .............................................................................. 35 5 DIALOGAR: EXIGÊNCIA DO UNIVERSO E DO PLANETA TERRA ..................... 36 6 DiáLoGo: nATUREZA E HUMAniDADE EnTRE o SiMBÓLiCo E DiABÓLiCo ...... 37 7 DiáLoGo E ALTERiDADE: o EnConTRo CoM o DiFEREnTE ....................... 42 8 DiáLoGo EnTRE AS RELiGiÕES ....................................................................... 50 9 AFiRMAÇÕES inSPiRADoRAS PARA o DiáLoGo ........................................... 52 10 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................ 53 11 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 54 12 E-REFERênCiAS ................................................................................................ 54 13 REFERênCiAS BiBLioGRáFiCAS ...................................................................... 55 UniDADE 2 – FUNDAMENTALISMOS E INTOLERâNCIAS 1 oBJETivoS ........................................................................................................ 57 2 CONTEúDOS ..................................................................................................... 57 3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 58 4 INTRODUÇÃO à UNIDADE .............................................................................. 58 5 TRADIÇÕES RELIGIOSAS E FUNDAMENTALISMOS NO SÉCULO 20 ............... 62 6 CARACTERÍSTICAS DOS FUNDAMENTALISMOS CONTEMPORâNEOS ......... 74 7 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................ 82 8 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 82 9 E-REFERênCiAS ................................................................................................ 83 10 REFERênCiAS BiBLioGRáFiCAS ...................................................................... 83 UniDADE 3 – ECUMENISMO 1 oBJETivoS ........................................................................................................ 85 2 CONTEúDOS ..................................................................................................... 85 3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 86 4 INTRODUÇÃO à UNIDADE .............................................................................. 87 5 MUITOS CRISTIANISMOS E DIVISÕES ............................................................. 88 6 Do ConCEiTo ÀS PRáTiCAS Do CRiSTiAniSMo ........................................... 91 7 DESAFioS HiSTÓRiCoS nA REALiDADE MUnDiAL ........................................ 102 8 CAMINHOS ECUMÊNICOS COM PROTAGONISMO PROTESTANTE .............. 105 9 CAMinHoS ECUMêniCoS CoM PRoTAGoniSMo CATÓLiCo ...................... 112 10 CooRDEnADoRiA ECUMêniCA DE SERviÇoS (CESE) ................................... 120 11 inSTiTUTo DE ESTUDoS DA RELiGião (iSER) E DEPARTAMEnTo ECUMêniCo DE invESTiGAÇÕES (DEi) .......................................................... 121 12 CEnTRo ECUMêniCo DE SERviÇoS À EvAnGELiZAÇão E EDUCAÇão PoPULAR (CESEEP) ........................................................................................... 121 13 FÓRUM ECUMêniCo BRASiL .......................................................................... 122 14 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................ 122 15 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 123 16 E-REFERênCiAS ................................................................................................ 123 17 REFERênCiAS BiBLioGRáFiCAS ......................................................................124 UniDADE 4 – DiáLoGo inTER-RELiGioSo 1 oBJETivoS ........................................................................................................ 127 2 CONTEúDOS ..................................................................................................... 127 3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 128 4 INTRODUÇÃO à UNIDADE ............................................................................... 129 5 PERCoRREnDo A HiSTÓRiA ............................................................................ 133 6 DiáLoGo inTER-RELiGioSo: URGênCiA DA MUnDiALiZAÇão ................... 142 7 DiáLoGo inTER-RELiGioSo CoM AS TRADiÇÕES inDÍGEnAS E DE ORIGEM AFRICANA ......................................................................................... 145 8 MACROECUMENISMO ..................................................................................... 154 9 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................ 157 10 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 157 11 E-REFERênCiAS ................................................................................................ 158 12 REFERênCiAS BiBLioGRáFiCAS ...................................................................... 159 UniDADE 5 – ECoLoGiA E ÉTiCA: HoRiZonTES PARA o EnConTRo DAS RELIGIÕES 1 oBJETivoS ........................................................................................................ 161 2 CONTEúDOS ..................................................................................................... 161 3 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE ............................................... 162 4 INTRODUÇÃO à UNIDADE ............................................................................... 162 5 A CRiAÇão ESTá EM PERiGo........................................................................... 164 6 REENCANTAMENTO DA CRIAÇÃO .................................................................. 176 7 CUIDADO, ÉTICA E DIGNIDADE HUMANA ..................................................... 185 8 ConCLUSão: SEMPRE o CAMinHo inACABADo Do DiáLoGo .................. 200 9 QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS ........................................................................ 204 10 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 205 11 E- REFERênCiAS ................................................................................................ 206 12 REFERênCiAS BiBLioGRáFiCAS ...................................................................... 207 Claretiano - Centro Universitário EA D CRC Caderno de Referência de Conteúdo Ementa ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Panorama dos fundamentos e vivências do ecumenismo e do diálogo inter-religio- so, com especial ênfase nos últimos 50 anos de vivência do encontro das tradições religiosas. Momentos de desencontro e diálogo dentro do cristianismo e entre as diversas tradições religiosas no mundo. Paradigma da alteridade e da inter-relacio- nalidade constitutiva do cosmos com uma espiritualidade planetária. Obstáculos dos fundamentalismos, dos dogmatismos e da intolerância religiosa. Construção de critérios epistemológicos, éticos e religiosos para a atitude de abertura mútua entre as religiões e as possibilidades de encontro e de projetos comuns em defesa da vida e construção de um mundo de paz, convivialidade e fraternura. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– 1. InTRODUÇÃO Sinta-se acolhido ao estudo de Diálogo Ecumênico e Inter- -religioso. A realização das atividades e interatividades propostas, bem como a sua participação no ambiente virtual (SGA – SAV), são condições necessárias para a apreensão não só dos conteúdos aqui propostos, mas também para a ampliação dos seus conheci- mentos. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso10 Nesta parte, chamada Caderno de Referência de Conteúdo, você encontrará o referencial teórico que será discutido ao lon- go das cinco unidades. Nosso objetivo é oferecer elementos que possam lhe ajudar na compreensão da diversidade das igrejas e da necessidade do diálogo entre as diferentes tradições religiosas. Nesse estudo não estarão presentes apenas as implicações éticas contemporâneas do diálogo, pois também colocaremos em discus- são as grandes questões mundiais que impactam nas pequenas, e não menos importantes, questões cotidianas. Este Caderno de Referência de Conteúdo propõe apresentar o panorama atual do ecumenismo e do macroecumenismo, assim como os possíveis caminhos para o futuro. Entretanto, é necessá- rio que você não se atenha apenas ao conteúdo desse caderno, uma vez que se trata somente de uma referência para o seu estu- do. Procure ler a bibliografia indicada e pesquise em bibliotecas virtuais ou físicas outras fontes sobre o diálogo ecumênico e inter- -religioso. Esperamos que este programa de estudo atenda às suas ex- pectativas e que possa lhe ajudar a atingir os objetivos propostos. Bom estudo! 2. oRIENTAÇÕES PARA ESTUDo Abordagem Geral Aqui, você entrará em contato com os assuntos principais deste conteúdo de forma breve e geral e terá a oportunidade de aprofundar essas questões no estudo de cada unidade. Desse modo, essa Abordagem Geral visa fornecer-lhe o conhecimento básico necessário a partir do qual você possa construir um refe- rencial teórico com base sólida – científica e cultural – para que, no futuro exercício de sua profissão, você a exerça com competência cognitiva, ética e responsabilidade social. Claretiano - Centro Universitário 11© Caderno de Referência de Conteúdo Desde o começo da humanidade, que se deu no coração da mãe áfrica, os seres humanos migraram em todas as direções. Houve uma dispersão necessária e arriscada e, por conta disso, as línguas, os gestos, as criações artísticas, as formas de viver, as expressões religiosas, os mitos, os ritos e a ética foram diversifica- dos e formaram todas as culturas humanas: muitas casas, muitas habitações culturais e muitas moradas espirituais. Esse processo de interação, com os interfluxos decorrentes dos encontros culturais, não terminou. Ainda que estejamos dian- te de grandes complexos culturais e religiosos, há mutações inter- nas e assimilações mútuas que ocorrem no curso da história. Den- tro de uma perspectiva, as religiões estão separadas e em explícita luta entre si para conquistar espaços quantitativos e qualitativos no cenário das culturas: podemos citar o Budismo, o Cristianismo, a Umbanda, o Hinduísmo, o Candomblé, o Islamismo, as múltiplas tradições indígenas, entre outras. As tradições religiosas mencio- nadas estão divididas e separadas. Por outro lado, olhando de ou- tro ângulo, cada tradição tem um campo de abertura às outras religiões. O que fazer? Fechar-se na sua própria casa e defender-se das outras, ou dispor-se a tomar o caminho, a sair de casa, a fazer a experiência do encontro? A diversidade religiosa clama pelo diálogo a caminho. Mas essa exigência dialogal não se restringe somente às religiões. As tradições religiosas redescobrem o diálogo, que vai para além delas: atinge toda a criação, toda a comunidade de vida, toda a humanidade, pois em tudo há uma exigência dialógica, ainda que nem sempre acentuada e levada a bom termo. O universo inteiro, do microcosmo ao macrocosmo, é feito de diálogo. O planeta terra é uma complexa trama dialogal. A co- munidade da vida é uma refinadíssima experiência de diálogo. A humanidade, feita da terra, é comunicação dialogal com toda a natureza. Mulheres e homens, feitos do sopro do Espírito, são diá- logo espiritual com o Mistério Divino. Em cada núcleo comunitário humano está o chamado à comunhão dialogal. Em cada distancia- © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso12 mento e fragilidade está um reclamo por encontro e diálogosoli- dário. Em cada criatura caída na estrada está um clamor para que alguém se torne próximo. A Carta da Terra elaborada no contexto da ECO 92, no Rio de Janeiro, com representantes de todos os continentes e com a participação ativa de mais de cem mil pessoas, é um documento inspirado nessa perspectiva dialogal. Há uma convocação para unir as forças em prol de uma sociedade mundial sustentável, baseada na cultura de paz, nos direitos humanos, na justiça econômica, na participação política, no respeito à natureza. A responsabilidade com a grande comunidade de vida, com todos os seres humanos e com as futuras gerações emerge como exigência ética inescapável. Acontece que grande parte da ciência e da nossa linguagem está marcada por um jeito dominador e não dialogal de olhar e tomar a natureza como uma coisa à nossa disposição. Quebramos o diálogo e, em vez de nos relacionarmos com a Comunidade da Vida, destruímos e abusamos dos recursos e das matérias-primas. Perdemos a atitude de profundo cuidado com nossa casa comum e nos tornamos predadores vorazes. Para uma melhor reflexão sobre os temas tratados neste CRC, veremos alguns tópicos que serão estudados em Diálogo Ecu- mênico e Inter-religioso. Muitas religiões: convocação ao diálogo Os primeiros textos que estudaremos tratam do diálogo como um desafio às religiões. Cada povo vive com intensidade uma riqueza imensa de espiritualidade, de símbolos de religação com o mistério. Trata-se da memória sagrada das ancoragens pro- visórias da humanidade. Navegando nos oceanos infinitos, cheios de sinais cósmicos de orientação, os humanos encontram algumas ilhas, alguns portos seguros para abastecer a esperança. As religiões não são sistemas de ideias, mas dinamismos e energias que põem em movimento forças mobilizadoras para a ação Claretiano - Centro Universitário 13© Caderno de Referência de Conteúdo no mundo. A força maior de cada religião é projetar a totalidade da esperança. "onde há religião, aí há esperança" (E.Bloch). Aos pou- cos, vão sendo suscitados os sonhos de ver todos sentados à mesa gratuita dos sabores temperados de ternura, todos realizando proje- tos plenificados de sabedoria partilhada e acolhidos na casa comum do mistério do amor. Todos dançando nas melodias, cores e formas das artes brincantes, gratuidade do Criador e das criaturas. A força simbólica e mobilizadora das religiões ajuda a plas- mar, na atualidade, outros modos de viver. Ainda que estejamos em tempo de mutações e vivendo em meio às contradições graves de uma globalização mercantil, a consciência planetária e cósmica emerge justamente na complexidade da comunidade humana. No final do século 20, percebemos a importância do trânsito das pessoas e das informações na vida das pessoas quando nos da- mos conta de que nossos avós, ou mesmo nossos pais, talvez não tenham conhecido nenhuma pessoa de outra religião. Havia uma distância significativa entre as religiões das sociedades humanas, de tal modo que não se colocava a questão do diálogo. Quando muito, existia uma curiosidade intelectual ou imaginação literária, apesar de mesquitas, templos hindu, baha'i, sinagogas, capelas, terreiros das religiões dos orixás, templos evangélicos comparti- lharem o mesmo espaço urbano e, muitas vezes, com excessiva proximidade. Pela primeira vez na história da humanidade, vive- mos em um contexto tão plural, pois convivem no mesmo espaço etnias, culturas, tradições religiosas muito distintas. A pluralidade das religiões está no trabalho, na cidade, nos bairros, nos prédios residenciais, e até dentro de uma mesma família. A oportunidade bate à nossa porta, não somente porque há de fato pessoas de outras denominações religiosas andando de casa em casa, mas também porque religiões diferentes das nossas ganharam rosto de vizinhança, traços de proximidade nos parentes e amigos, modos de habitação entre os moradores de uma mesma região. Os humanos vivem oscilando entre a ruptura e o encontro, a negação e a aproximação, a inclusão e a rejeição, a fraternura e a do- © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso14 minação, o convívio e o apoderamento. Parte da humanidade se colo- cou no horizonte das grandes metas, das grandes causas, dos grandes projetos de integridade humano-cósmica pelos quais vale a pena em- penhar e arriscar a vida. Outra parte transforma em coisa tudo o que aparece pela frente. Escolhas decisivas: as causas ou as coisas. Riscos do fundamentalismo Na continuidade do estudo, devemos compreender o grande contraponto ao diálogo, que toca diretamente às religiões: a into- lerância. Apesar da sua capacidade de ternura imensa, o ser huma- no pode cometer as mais perversas crueldades. As comunidades humanas não só presenciam e realizam gestos violentos, como também institucionalizam formas deploráveis de viver, modos aviltantes da dignidade humana. Há tradições religiosas alheias às estruturas de morte e que fazem parte de um silêncio conivente. Com isso, as religiões correm o risco de se reduzir às espertezas medíocres e às vantagens egoístas, em vez de olharem para o bem comum da humanidade. Vivemos uma época marcada pelas afirmações de identida- de e pela recusa de reconhecer a diversidade. Os acontecimentos do início do milênio ampliaram a percepção defensiva e a into- lerância, e o destaque na comunicação mundial para agressão e assassinatos em nome de Deus potenciou o direcionamento das atenções para as religiões como fonte de violência. Houve até mesmo quem acusasse as religiões de serem as portadoras dos germes da violência. Richard Dawkins não poupou sequer as religiões mais pacíficas, e afirmou que até mesmo as mais moderadas "são um convite aberto ao extremismo" (2007, p.292), e que seu papel mais abominável é o de serem silenciado- ras do saber da humanidade. Diferentemente de Dawkins, Edward Schillebeeckx afirma que "a relação autêntica com o Absoluto como tal não é violenta Claretiano - Centro Universitário 15© Caderno de Referência de Conteúdo sob nenhum aspecto, antes pelo contrário. Ela desperta a coragem inabalável para produzir mais humanidade em todos os setores da vida" (1997, p. 171). As religiões são chamadas a fazer opções. Não há como ficar neutro diante das questões de vida e de morte na humanidade. Nes- se contexto, surgem inúmeros questionamentos: por que o projeto amoroso de cada tradição religiosa não se desenvolve e crescem projetos poderosamente opressores? Por que o diálogo entre as tra- dições religiosas não se desenvolve? Por que são encubadas ener- gias destruidoras que emergem, potentesos desacertos políticos ou econômicos? Por que a atitude agressiva cresce entre as tradições religiosas e os conflitos humanos e sociais se tornam incontroláveis? Por que a religião se transformou em instrumento de poder para alguns grupos violentos à custa da liberdade de espírito? Ao examinar o fundamentalismo poderemos lançar luzes so- bre esta problemática cheia de ambiguidades. O fundamentalismo é um movimento que nasceu no pro- testantismo norte-americano no início do século 20, diante do re- lativismo de valores na época. Ele se firmou reunindo, sob forte impulso carismático-autoritário, uma rede de fiéis aguerridos em busca da legitimação de uma ordem sociorreligiosa defensiva con- tra os que eram apontados como inimigos. Ali o fundamentalismo foi testado e comprovado pela eficiência dos resultados. A leitura literal do texto sagrado, a eleição divina, a sensação de segurança e a atribuição dos resultados a este procedimento criaram um cír- culo capaz de obscurecer qualquer visão dialogal. Podemos dizer que o próprio fundamentalismo dos meios de comunicação também pode estigmatizar, generalizando para a religião como um todo as atitudes de alguns grupos radicais den- tro das tradições. Assim, sabemos que nem todos os protestan- tes/evangélicos estão alinhados com a defesa da hegemonia cristã norte-americana, armada contra os 'inimigos' externos dosEUA e os inimigos internos que defendem os direitos das mulheres, dos homossexuais, dos imigrantes. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso16 Da mesma forma, os muçulmanos não podem ser caricatura- dos como terroristas, barbudos, com ‘bombas embaixo do turban- te’, que obrigam mulheres à submissão e exageram na aplicação da pena de morte. Também a ultraortodoxia judaica, que exige severa- mente o cumprimento das leis religiosas e o combate com violência aos palestinos, não é a única forma de ser religiosamente judeu. Cada tradição religiosa está diante da escolha histórica de ser produtora de vida ou ser instrumentalizada para interesses de poder que contrariam suas origens. Ao dar-se conta do descaminho da intolerância, é possível buscar as veredas do diálogo. Um dos campos onde cresceu a sen- sibilidade capaz de superar os fundamentalismos foi no diálogo entre os cristãos de várias denominações. Sentar à mesa do ecumenismo Será importante transitar pela história e compreender os ca- minhos dos desencontros e reencontros dos cristãos. A palavra ecumenismo – na sua referência original grega, oikoumene – traz a dimensão dialogal de estar em casa, à mesa, de conviver harmoniosamente em uma mesma habitação, aldeia, cidade, mundo. O mundo é a casa comum onde a diversidade está presente e carrega o chamado ao respeito e à unidade. Para a tradição cristã, trata-se de uma comunidade onde todos e todas cabem. Esse projeto de tornar o mundo uma habitação sagrada, sacramento do reinado de Deus, faz de cada lugar uma realidade humano-divina de acolhimento e de cada tempo uma eternidade no reconhecimento mútuo. O cristianismo, como habitação espiritual dos cristãos, foi abalado historicamente por divisões. A maior gravidade, porém, não está na diversidade, mas nas atitudes mútuas de arrogância e condenação, na falta de comunhão, nas contendas e perseguições. Claretiano - Centro Universitário 17© Caderno de Referência de Conteúdo Ao lado dos movimentos desagregadores de todas as ordens, causados por vários motivos e desacertos de parte a parte, hou- ve também muitas buscas pelo diálogo e tentativas de reencontro para refazer a oikoumene. A riqueza está na diversidade espiritual, pois em cada igreja são encontradas sensibilidades que não existem em outras. Isso já aconteceu nas igrejas primordiais, com diferenças entre as comu- nidades de Pedro, de João, de Tiago, de Paulo, e, posteriormente, com as tradições agostinianas, beneditinas, franciscanas e jesuí- ticas. Vieram as igrejas orientais, as ortodoxas, as anglicanas, as luteranas, as reformadas, as batistas, as congregacionais, as me- todistas, as adventistas, as pentecostais e a católica romana. Não sem conflitos, estas grandes famílias confessionais se constituíram no cristianismo com um pluralismo enriquecedor. Os movimentos do século 20 apontam para o reconhecimen- to da diversidade espiritual das várias igrejas cristãs, que agora se sentem mais católicas à medida que reconhecem como irmãs aquelas comunidades que consideravam antes como inimigas. As- sim, a Igreja Metodista se sente mais católica à medida que vive sua tradição em comunhão com os luteranos, com os católicos ro- manos ou com os ortodoxos. Do mesmo modo, a Igreja Católica é mais católica ao apoiar os anglicanos na sua tradição ou ao acolher os batistas em sua eclesialidade. As organizações ecumênicas, as conferências, os encontros mundiais ou locais, o compartilhamento das sensibilidades espiri- tuais com a criação e o reinado de Deus, assim como as tomadas de posição conjuntas sobre temas religiosos e da dignidade huma- na no mundo, são marcas de um movimento fecundo, especial- mente na segunda metade do século 20. Do lado evangélico-protestante, o Conselho Mundial de Igrejas foi o grande propulsor do movimento ecumênico. Do lado © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso18 católico-romano, o Concílio Vaticano II e seus desdobramentos impulsionaram os católicos ao diálogo fecundo com a diversidade das igrejas cristãs. Sentar à mesa do diálogo inter-religioso Agora é o momento de ampliar o horizonte do campo reli- gioso para estudar o diálogo entre as múltiplas tradições. Quando a religião é diminuída, ela se transforma em instru- mento de poder para alguns grupos e aquela liberdade de espírito capaz de religar os humanos ao que há de especial no cosmos é perdida, inviabilizando o diálogo. Para que a humanidade possa sentar-se à mesa do pão e da cultura, do trabalho e da poesia, da ciência e da espiritualidade, as religiões precisam se dispor ao diálogo. Ali, será oferecido às culturas o melhor de cada uma, pois na tradição de cada pessoa existem elementos de estímulo capazes de conduzir a experiência religiosa para além de suas próprias fronteiras. Realizou-se em 1893, na cidade de Chicago (EUA), o primeiro Parlamento Mundial das Religiões. No entanto, somente 100 anos depois, em 1993, foi realizada sua segunda edição, quando seus participantes aprovaram a Declaração por uma Ética Mundial. Em 1999, o III Parlamento das Religiões aconteceu na Cidade do Cabo, na áfrica do Sul, com mais de 7.000 pessoas. Em 2004, o iv Parla- mento das Religiões do Mundo reuniu 8.000 líderes religiosos em Barcelona, na Espanha. Um episódio interessante foi a fundação do Templo da Com- preensão – com as alas budista, cristã, chinesa, hindu, judaica e muçulmana –, próximo a Washington, em 1960. Judith Hollister teve a iniciativa e colocou entre os membros fundadores o patriar- ca ecumênico Atenágoras, o Dalai Lama, Thomas Merton, Saver- palli Radhakrishnan, Albert Schweitzer, U. Thant e os papas João XXIII e Paulo VI. Claretiano - Centro Universitário 19© Caderno de Referência de Conteúdo Em 1995, na celebração inter-religiosa que marcou os 50 anos da ONU, lançou-se a ideia de uma organização das religiões para trabalhar na erradicação de toda violência feita em nome da religião, na criação de culturas de paz, justiça social, direitos hu- manos, no cuidado com a Terra e a comunidade de vida. Em junho do ano seguinte, realizou-se a I Conferência Mundial da URI (Inicia- tiva das Religiões Unidas). O Fórum Social Mundial (FSM) que se reuniu pela primeira vez na cidade de Porto Alegre, (RS, Brasil), de 25 a 30 de janeiro de 2001, teve a participação de religiosos desde sua preparação. Gradativamente, as religiões, em sua pluralidade, tomam seu lu- gar nesse Fórum: Iniciativa das Religiões Unidas (URI), Caritas, Red Cono Sur de Centros Laicos, Ameríndia, Conselho Mundial de Igre- jas (CMI), Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI). Em 2009, o III Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL), em Belém do Pará, trouxe o tema "água, Terra, Teologia: para outro mundo possível". O primeiro eixo temático foi Religi- ões, Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso. Em outubro de 1970, aconteceu em Kyoto a Conferência Mundial de Religiões pela Paz. Desde então, uma rede mundial foi se formando com essas iniciativas. Só para exemplificar, em 2007 foi realizado em Teresópolis o III Encontro da Rede Inter-religiosa Latino Americana de Educação para a Paz (RILEP) e em 2008 esti- veram em Hiroshima, no Japão, 1.300 líderes religiosos no iii Fó- rum da Rede Mundial de Religiões para as Crianças (GNRC). na década de 1960, com Concílio vaticano ii (1962-1965), a Igreja Católica, com a declaração Nostrae Aetate, assumiu oficialmen- te a abertura de caminhos para o diálogo com as religiões não cristãs. Um marco mundial do encontro das religiões foi a Jornada Mundial de Oração pela Paz, em Assis, iniciativa do papa João Pau- lo II. A repetição do encontro em 2002 e uma rede de celebrações permanentes contribuem para o avanço do diálogo. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso20 São muitos os documentos da Igreja Católica, mas pode-se dizer que o mais representante foi o Diálogo e Anúncio, do Conse- lho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, onde foi postulada a disposição para compartilhar os valores cristãos e paradescobrir juntos os caminhos para a humanidade. Na América Latina floresceu um movimento inter-religioso denominado Macroecumenismo, cujo principal foco foi o diálogo com as várias tradições indígenas e com as tradições dos afrodes- cendentes. Assim, após essa breve exposição, podemos afirmar que há uma presença do Espírito de Deus que possibilita o diálogo inter- -religioso fecundante da humanidade e da natureza. A sabedoria dos povos compartilhada Para concluir esta etapa do estudo do diálogo, será importan- te colher alguns conteúdos das múltiplas sabedorias das tradições religiosas, pois é com eles que as religiões partem para o diálogo. Gandhi, na primeira metade do século 20, foi o grande profe- ta do diálogo e da paz. A harmonia entre natureza e cultura, entre as sociedades humanas e as religiões, foi uma busca persistente e contagiante. Para ele, a paz no mundo estava ligada à paz entre as religiões, e a paz entre as religiões dependia da compreensão e do diálogo. Hans Küng popularizou esta expressão na busca de uma ética que possibilitasse a união da humanidade ao redor das cau- sas fundamentais da vida e da paz. Se não houver paz entre as reli- giões, por meio do diálogo, as nações não alcançarão a concórdia. A busca é por um pensamento ético global para a sobrevivência da humanidade e do planeta. No entanto, há dúvidas sobre a instauração de um padrão de ética global, uma vez que a diversidade é imensa e o conhecimen- to intelectual não é o primeiro referencial para as religiões, mas o percurso feito de respeito e hospitalidade. Assim, se as religi- ões viverem relações compreensivas entre si, em uma pluralidade Claretiano - Centro Universitário 21© Caderno de Referência de Conteúdo sadia, poderão ensinar as pessoas a viver respeitando o outro, a reconhecer seu valor e o mistério de suas experiências sagradas. As religiões têm acesso ao coração humano, àquelas cordas mais sensíveis para a musicalidade espiritual mais encantatória. É com esta sensibilidade que se fecunda a paz no mundo e que é possível o diálogo das religiões que tecerá uma ética mundial, ainda que sempre plural e inacabada. Podemos dizer que para esse diálogo concorrem o reconhe- cimento do dinamismo da comunhão presente da natureza, a gra- tuidade nas relações, a disposição para o encontro face-a-face, a abertura à alteridade irredutível do outro, a sensibilidade em re- lação à riqueza vinda do próximo, a profunda compaixão com o sofrimento e com a luta dos mais fragilizados, a quebra dos pre- conceitos excludentes e do sentimento de superioridade, a humil- dade que permite a hospitalidade mútua, a fidelidade às próprias convicções sem torná-las absolutas, a busca conjunta da verdade, da beleza, da bondade, da unidade, a espiritualidade dialogal. Cada tradição pode trazer o melhor de si para o diálogo. Não se trata, pois, de anular os referenciais simbólicos fundacionais, mas de buscar neles as inspirações para os passos contemporâ- neos. Na grande aventura histórica, com todos os percalços, cada tradição religiosa guardou uma semente de que precisamos para o replantio dos sonhos, para restaurar a criação, para rejuntar o que está quebrado, para as necessárias ações benfazejas no planeta. Sem a pretensão de completude, sinalizamos aqui alguns traços de tradições religiosas que indicam muitos caminhos para a tessitura de novas possibilidades ecoteológicas. Para o encontro com a sabedoria dos povos, é preciso com- preender que se articulam dialogicamente um movimento que aponta para a originalidade e diferenciação de cada religião, e ou- tro que aponta para pontos de convergência. Numa tentativa pa- norâmica, com toda a sua provisoriedade, podemos dizer que os Guaranis valorizam a pessoa humana com palavra divina e trazem © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso22 o mito fundante da Terra Sem Males (Yvý Marane'y) como horizon- te de toda sua relação com a natureza, com a humanidade e com o Mistério Divino; os Zapotecas trazem a perspectiva de fazer de toda a terra (Guidxilayú) uma casa digna da humanidade inteira em plena harmonia; os Quéchuas têm uma profunda relação com a Mãe-Terra (Pachamama), manifestação fecunda da dádiva de Deus, e trazem na ligação com os antepassados a compreensão do mistério da vida; os Aimara trazem o universo cheio de vida, as re- lações com montanhas, planaltos e vales intermináveis, o carinho com todos os seres, especialmente com o momento do nascimen- to; os Maias acreditam em uma dimensão cósmica da vida, atentos à respiração dos astros e construção da felicidade sustentável aqui na terra, buscando harmonia pessoal na família, na comunidade e no cosmo; os Raramuris trazem a consciência da fragilidade e a de- cidida recusa à contaminação pela violência de defesa preventiva, enquanto fazem da festa o bem mais precioso; o Hinduísmo traz o princípio da não violência, o respeito profundo por todas as for- mas de vida, e o conhecimento aberto ao infinito; o Budismo tem o princípio da compaixão, a prática das ações virtuosas, a busca do estado de plena iluminação na simplicidade da vida e a afirmação da paz; o Islã nos traz a prática da misericórdia, o esforço de vida regrada, a irmandade dos humanos com a natureza comum, o re- conhecimento das dádivas do Criador; o Judaísmo oferece a expe- riência nômade do deserto com a busca da terra prometida, traz a afirmação do direito e da justiça direcionados ao órfão, à viúva e ao estrangeiro, além do descanso da terra, com o perdão das dí- vidas; o Cristianismo contribui com o amor ao inimigo, a ética das bem-aventuranças, a gratuidade das aves e dos lírios do campo, a atenção à criança e a todo o fragilizado, a promoção da justiça e da paz; o Candomblé traz a reverência a cada planta, a cada cria- tura. Apresenta a retidão dos caminhos, o respeito pelo outro, a sabedoria compartilhada e a imensa reverência aos mais velhos. O Espiritismo traz um convite à coerência entre fé e vida, uma cari- dade amorosa e gratuita e a insistência no desenvolvimento moral da pessoa e da sociedade, além de um respeito grande às religiões. Claretiano - Centro Universitário 23© Caderno de Referência de Conteúdo O caminho da compaixão, a ligação entre os humanos e to- das as formas de vida, o reconhecimento do dom divino, a sabedo- ria ancestral, a gratuidade, a veneração e a ética são riquezas que poderão tecer a fraternura e a sororidade, amplas e profundas, com toda a criação. Como você pôde perceber, o itinerário deste curso está per- meado de provocações ao estudo e ao debate. Estamos apenas no começo de uma história de diálogo entre as tradições religiosas. Bons estudos! Glossário de Conceitos O Glossário de Conceitos permite a você uma consulta rá- pida e precisa das definições conceituais, possibilitando-lhe um bom domínio dos termos técnico-científicos utilizados na área de conhecimento dos temas tratados em Diálogo Ecumênico e Inter- -religioso. Veja, a seguir, a definição dos principais conceitos: 1) Alteridade: concepção segundo a qual se reconhece o outro como diferente em presença. Não se trata de uma atitude genérica de respeito a todos na indiferença. É acolher o outro na diferença e na plenitude da dignidade de seu mistério singular. Quando eu digo Tu, o Eu já está implicado; porém quando eu digo Eu, talvez seja neces- sário alguém perguntar: onde está o teu irmão? Assim, na alteridade o ponto de partida é o outro na infinita surpresa que ele reserva. 2) Antropocentrismo: trata-se de uma falsa percepção da realidade, na qual se lida com a natureza e com o univer- so como se estivessem submetidos à utilidade humana. Dessa forma, não resta espaço para a autonomia e senti- do próprio dos outros seres. 3) Antropogênese: refere-se à origem do ser humano. Tra- ta-se da compreensão de que o ser humano está inseri- do em um processo de evolução com ampla abertura, ou seja, não está completo e, por isso, engaja-se para que a humanidade se expanda em direçãoà plenitude. An- tropos, em grego, é "ser humano" e genesis é "geração". © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso24 4) Corão: livro sagrado dos muçulmanos, recitado por Ma- omé após vários momentos de experiência espiritual. Foi compilado após sua morte em 632 d.C. Corão ou Alcorão são equivalentes (Al-Quran = o Corão) e tem o sentido de Recitação na língua árabe. 5) Cosmogênese: refere-se à gênese do universo. Enquanto o cosmos continua sua gestação, o universo continua sua ex- pansão criativa, aperfeiçoando-se e criando novas inter-rela- ções. Cosmos, em grego, é "universo" e genesis é "geração". 6) Ecologia: é a compreensão das relações entre os seres na natureza. Trata-se de um estudo (logos) que se dire- ciona à casa comunitária (oikos), com a intenção de fazê- -la a mais equilibradamente habitável. Pode-se falar de ecologia ambiental, social, mental e integral, pois todas as dimensões humanas concorrem para as inter-relações no universo. 7) Ecumene: trata-se da compreensão da vida como morada cultural e espiritual. Oikos, em grego, é casa e Oikoumene traz o sentido da morada de todos, da casa habitada comu- nitariamente, do mundo como habitação de todas pessoas, grande casa da humanidade e de toda a natureza. 8) Ética: valores referenciais que orientam a vida em socie- dade. Do grego ethos, é o modo de viver em determinada sociedade. Tais valores impactam no desejo humano e o coloca diante de caminhos que podem destruir ou cons- truir, produzir vida ou morte. A Ética se mantém como uma instância crítica diante da moral, dos costumes e das leis que, por sua vez, não podem ser tomados como absolutos. 9) Etnocentrismo: atitude de autossuficiência de uma et- nia ou de uma cultura que se considera superior e que, quando tem força suficiente, sobrepõe-se às expressões de outros grupos étnicos. 10) fundamentalismo: refere-se a modos intransigentes de estar diante do outro. O excesso de zelo pela identidade provoca a intolerância. O termo foi amplamente utiliza- do, nos Estados Unidos no início do século 20, como uma forma de autodesignar os que se consideravam eleitos por Deus para enfrentar os inimigos da nação e da reli- Claretiano - Centro Universitário 25© Caderno de Referência de Conteúdo gião. Assim, as convicções de um grupo religioso podem se tornar instrumento de violência contra as convicções e práticas de outros grupos. 11) Integrismo: autodesignação positiva que alguns grupos cristãos fizeram para denominar sua superioridade, sua leitura infalível dos textos e verdades de sua religião. A autoafirmação das tradições tornou-se instrumento in- transigente contra o que se apresenta como ameaça ao patrimônio religioso. 12) Panenteísmo: é a compreensão de que há uma presença divina em todas as realidades. Na língua grega, pan é "to- talidade" e Theós é Deus. Tudo está em Deus e Deus está em todas as coisas sem, contudo, haver confusão entre Criador e criatura, entre o mundo e o mistério divino. 13) Religião: modo de viver a realidade em conexão com o mis- tério sagrado. Duas palavras do latim dão dimensões do fato religioso: a religião aparece com a tarefa de refazer tudo o que está rompido, fragmentado ou fraturado (religare = reli- gar) e, também, tem a missão de compreender a natureza e a vida sob a ótica do mistério sagrado (relegere = reler). 14) Sustentabilidade: é a perspectiva de equilíbrio no campo da sobrevivência. O termo veio da biologia e se direciona para a manutenção da biodiversidade. A ecologia acolheu a palavra para aplicá-la a questões locais (como a preserva- ção de espécies em extinção), a questões regionais (como os biomas), e a questões planetárias (como o aquecimento global), colocando em foco o cuidado com os ecossistemas e a preservação do planeta para as futuras gerações. Esquema dos Conceitos-chave Para que você tenha uma visão geral dos conceitos mais importantes deste estudo, apresentamos, a seguir (Figura 1), um Esquema dos Conceitos-chave. O mais aconselhável é que você mesmo faça o seu esquema de conceitos-chave ou até mesmo o seu mapa mental. Esse exercício é uma forma de você construir o seu conhecimento, ressignificando as informações a partir de suas próprias percepções. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso26 É importante ressaltar que o propósito desse Esquema dos Conceitos-chave é representar, de maneira gráfica, as relações en- tre os conceitos por meio de palavras-chave, partindo dos mais complexos para os mais simples. Esse recurso pode auxiliar você na ordenação e na sequenciação hierarquizada dos conteúdos de ensino. Com base na teoria de aprendizagem significativa, entende-se que, por meio da organização das ideias e dos princípios em esque- mas e mapas mentais, o indivíduo pode construir o seu conhecimen- to de maneira mais produtiva e obter, assim, ganhos pedagógicos significativos no seu processo de ensino e aprendizagem. Aplicado a diversas áreas do ensino e da aprendizagem es- colar (tais como planejamentos de currículo, sistemas e pesquisas em Educação), o Esquema dos Conceitos-chave baseia-se, ainda, na ideia fundamental da Psicologia Cognitiva de Ausubel, que es- tabelece que a aprendizagem ocorre pela assimilação de novos conceitos e de proposições na estrutura cognitiva do aluno. Assim, novas ideias e informações são aprendidas, uma vez que existem pontos de ancoragem. Tem-se de destacar que "aprendizagem" não significa, ape- nas, realizar acréscimos na estrutura cognitiva do aluno; é preci- so, sobretudo, estabelecer modificações para que ela se configure como uma aprendizagem significativa. Para isso, é importante con- siderar as entradas de conhecimento e organizar bem os materiais de aprendizagem. Além disso, as novas ideias e os novos concei- tos devem ser potencialmente significativos para o aluno, uma vez que, ao fixar esses conceitos nas suas já existentes estruturas cog- nitivas, outros serão também relembrados. Nessa perspectiva, partindo-se do pressuposto de que é você o principal agente da construção do próprio conhecimento, por meio de sua predisposição afetiva e de suas motivações internas e externas, o Esquema dos Conceitos-chave tem por objetivo tor- nar significativa a sua aprendizagem, transformando o seu conhe- Claretiano - Centro Universitário 27© Caderno de Referência de Conteúdo cimento sistematizado em conteúdo curricular, ou seja, estabele- cendo uma relação entre aquilo que você acabou de conhecer com o que já fazia parte do seu conhecimento de mundo (adaptado do site disponível em: <http://penta2.ufrgs.br/edutools/mapascon- ceituais/utilizamapasconceituais.html>. Acesso em: 16 fev. 2012). Dimensão Dialogal DIÁLOGO ECUMÊNICO DIÁLOGO INTERRELIGIOSO Do universo, do cosmos Da natureza no planeta Dos humanos Das religiões Nas tramas das culturas e no face a face Com risco de identidades auto-centradas Polarizações convocatórias para o diálogo Fundamentalismos - Evangélico - Judaico - Islâmico - Católico Fiéis fascinados, submissos, aguerridos Lideranças seguras, envolventes, sagradas Verdades reduzidas, absolutas, moralizantes Gestão autoritária, fanatizante, fatalista Diabólico – Simbólico Demens – Caminho – Casa Dispersão – Concentração Alteridade – Identidade © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso28 Ecumenismo Cristão Divisões Busca de reencontro PROTESTANTE CATÓLICO ORGANISMOS ECUMÊNICOS CMI CLAI CONIC Vaticano II CELAM CNBB CEDI CESE CESEP FE-BRASIL Igrejas Orientais Igreja Ortodoxa Igreja Católica Igreja Anglicana Igrejas da Reforma Luterana Calvinista Reformada Presbiteriana Batista Metodista DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO Organizações Inter-religiosas Pela PAZ Pela INFÂNCIA Pela ECOLOGIA Conferências Mundiais Caminhos de inter-relacionamento Estudos e Documentos conjuntos Parlamentos das Religiões Iniciativa das Religiões Unidas (URI) Grandes TradiçõesTradições Étnicas Religiões historicamente perseguidas Religiões de Mútua Fecundação De origem africana De origem indígena Claretiano - Centro Universitário 29© Caderno de Referência de Conteúdo BUSCA DO ENCONTRO NA SABEDORIA DOS POVOS Receptividade no Pluralismo Antigas sabedorias Paradigma do Cuidado Alerta às ameaças à vida no Planeta Biodiversidade Diversidade cultural Teodiversidade Injustiça crescente Voracidade predatória Fascínio do consumo Produtivismo iluminado e ofuscante Novas opções Novos projetos Novas atitudes Zapoteca: Mundo: casa digna da humanidade Hinduismo: Não-violência inclusivista Guarani: Terra sem males Quéchua: Terra-mãe dadivosa Cristianismo: Amor ao inimigo Maia: Harmonia na comunidade e no cosmos Islamismo: Misericórdia e vida regrada Candomblé: Reverência a cada criatura Figura 1 Esquema dos Conceitos-chave do Caderno de Referência de Conteúdo Diálogo Ecumênico e Inter-religioso. Como você pode observar, esse Esquema dá a você, como dissemos anteriormente, uma visão geral dos conceitos mais im- portantes deste estudo. Ao segui-lo, você poderá transitar entre um e outro conceito e descobrir o caminho para construir o seu processo de ensino-aprendizagem. No Esquema há uma série de acontecimentos e organismos ecumênicos e inter-religiosos que apontam para concepções reli- giosas dialogais. Para que você compreenda o sentido e alcance de vários movimentos históricos de diálogo entre as tradições religio- © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso30 sas, será preciso lidar bem com os conceitos de pluralismo, ética, alteridade, multiculturalidade, fundamentalismo, etnocentrismo – conceitos sem os quais o estudo correrá o risco de ser apenas um aglomerado de informações. O Esquema dos Conceitos-chave é mais um dos recursos de aprendizagem que vem se somar àqueles disponíveis no ambien- te virtual, por meio de suas ferramentas interativas, bem como àqueles relacionados às atividades didático-pedagógicas realiza- das presencialmente no polo. Lembre-se de que você, aluno EaD, deve valer-se da sua autonomia na construção de seu próprio co- nhecimento. Questões Autoavaliativas No final de cada unidade, você encontrará algumas questões autoavaliativas sobre os conteúdos ali tratados, as quais podem ser de múltipla escolha, abertas objetivas ou abertas dissertati- vas. Responder, discutir e comentar essas questões, bem como relacioná-las com as vivências ecumênicas e inter-religiosas locais, incipientes ou já mais consolidadas, pode ser uma forma de você avaliar o seu conhecimento. Assim, mediante a resolução de ques- tões pertinentes ao assunto tratado, você estará se preparando para a avaliação final, que será dissertativa. Além disso, essa é uma maneira privilegiada de você testar seus conhecimentos e adquirir uma formação sólida para a sua prática profissional. As questões de múltipla escolha são as que têm como respos- ta apenas uma alternativa correta. Por sua vez, entendem-se por questões abertas objetivas as que se referem aos conteúdos matemáticos ou àqueles que exigem uma resposta determinada, inalterada. Já as questões abertas dissertativas obtêm por res- posta uma interpretação pessoal sobre o tema tratado; por isso, normalmente, não há nada relacionado a elas no item Gabarito. Você pode comentar suas respostas com o seu tutor ou com seus colegas de turma. Claretiano - Centro Universitário 31© Caderno de Referência de Conteúdo Bibliografia Básica É fundamental que você use a Bibliografia Básica em seus es- tudos, mas não se prenda só a ela. Consulte, também, as bibliogra- fias apresentadas no Plano de Ensino e no item Orientações para o estudo da unidade. Figuras (ilustrações, quadros...) Neste material instrucional, as ilustrações fazem parte inte- grante dos conteúdos, ou seja, elas não são meramente ilustra- tivas, pois esquematizam e resumem conteúdos explicitados no texto. Não deixe de observar a relação dessas figuras com os con- teúdos, pois relacionar aquilo que está no campo visual com o con- ceitual faz parte de uma boa formação intelectual. Dicas (motivacionais) Este estudo convida você a olhar, de forma mais apurada, a Educação como processo de emancipação do ser humano. É importante que você se atente às explicações teóricas, práticas e científicas que estão presentes nos meios de comunicação, bem como partilhe suas descobertas com seus colegas, pois, ao com- partilhar com outras pessoas aquilo que você observa, permite-se descobrir algo que ainda não se conhece, aprendendo a ver e a notar o que não havia sido percebido antes. Observar é, portanto, uma capacidade que nos impele à maturidade. você, como aluno do curso de Bacharelado em Teologia na modalidade EaD, necessita de uma formação conceitual sólida e consistente. Para isso, você contará com a ajuda do tutor a dis- tância, do tutor presencial e, sobretudo, da interação com seus colegas. Sugerimos, pois, que organize bem o seu tempo e realize as atividades nas datas estipuladas. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso32 É importante, ainda, que você anote as suas reflexões em seu caderno ou no Bloco de Anotações, pois, no futuro, elas pode- rão ser utilizadas na elaboração de sua monografia ou de produ- ções científicas. Leia os livros da bibliografia indicada, para que você amplie seus horizontes teóricos. Coteje-os com o material didático, discuta a unidade com seus colegas e com o tutor e assista às videoaulas. No final de cada unidade, você encontrará algumas questões autoavaliativas, que são importantes para a sua análise sobre os conteúdos desenvolvidos e para saber se estes foram significativos para sua formação. Indague, reflita, conteste e construa resenhas, pois esses procedimentos serão importantes para o seu amadure- cimento intelectual. Lembre-se de que o segredo do sucesso em um curso na modalidade a distância é participar, ou seja, interagir, procurando sempre cooperar e colaborar com seus colegas e tutores. Caso precise de auxílio sobre algum assunto relacionado a este Caderno de Referência de Conteúdo, entre em contato com seu tutor. Ele estará pronto para ajudar você. 3. REFERêNCIAS BIBlIoGRáFICAS DAWKinS, R. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. SCHiLLEBEECKX, E. Religião e violência. Concilium, v. 272, n. 4, p. 171, 1997. 1 EA D Diálogo e Alteridade 1. oBjETIvoS • Interpretar e compreender as tramas das relações huma- nas que se desdobram na dinâmica da identidade e da alteridade. • Analisar e interpretar o dinamismo oscilante entre a or- dem provisória e a instabilidade criativa, bem como as suas repercussões no diálogo. • Reconhecer e compreender a problemática ambiental contemporânea em sua conexão com o tema do diálogo. • Interpretar e entender a temática antropológica do diálo- go e os desafios às relações entre as religiões. 2. COnTEúDOS • As exigências do universo e do planeta Terra. • Natureza e humanidade entre o simbólico e o diabólico. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso3434 • Diálogo e alteridade: o encontro com o diferente. • Diálogo entre as religiões. • Afirmações inspiradoras para o diálogo. 3. oRIENTAÇÕES PARA o ESTUDo DA UNIDADE Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que você leia as orientações a seguir: 1) Antes de trabalhar diretamente o tema das religiões e do diálogo, você pode acessar sites sobre o diálogo ecumê- nico e inter-religioso. Um site interessante com muitos artigos sobre o tema é o do Portal Amai-vos. Disponível em: <http://amaivos.uol.com.br/templates/amaivos/ amaivos07/noticia/noticia_list.asp?cod>.Acesso em: 3 abr. 2012. 2) Leia os livros da bibliografia indicada para que você am- plie e aprofunde seus horizontes teóricos. Esteja sempre com o material didático em mãos e discuta a unidade com seus colegas e tutor. 3) Tenha sempre à mão o significado dos conceitos expli- citados no Glossário esuas ligações pelo Esquema de Conceitos-chave para o estudo de todas as unidades deste CRC. Isso poderá facilitar sua aprendizagem e seu desempenho. 4) Antes de iniciar o estudo da unidade, leia, a seguir, al- gumas informações preliminares que serão de grande importância para nosso estudo: ECO-92 ou RIO-92 ECO-92 ou RIO-92 – A Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD) foi realizada entre 3 e 14 de junho de 1992, na cidade do Rio de Janeiro. A ECO-92 teve papel fundamental para a consolidação do conceito de desenvolvimento sustentável e para a conscientização dos problemas relacionados ao meio ambiente (adaptado do texto disponível em: <http:// www.brasilescola.com/geografia/eco-92.htm>. Acesso em: 3 abr. 2012). Imagem disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/_iWG2VyBhVcQ/SqD-nngR_6I /AAAAAAAAABs/WeJ7Mt56Sew/s320/foto_botao_18a.jpg>. Acesso em 3 abr. 2012. Claretiano - Centro Universitário 35© U1 - Diálogo e Alteridade 4. InTRODUÇÃO à UnIDADE Você pode observar que, nas últimas décadas, estamos cada vez mais expostos a um mundo de várias realidades. às vezes resisti- mos, e outras vezes desistimos de tomar posição diante do que nos chega. Somos invadidos por tantas imagens, informações e atitudes que não sabemos distinguir o que nos afeta e o que passa ao largo. É nesse contexto que vamos estudar o diálogo ecumênico e in- ter-religioso. De um lado, há preocupações, defesas e medo; de outro, uma indiferença paralisante. O pluralismo, no entanto, pode ser assu- mido como um momento propício para fazer avançar a humanidade. A geração em que vivemos está colocada diante de uma imensa variedade de cenários culturais, de catástrofes e de ternu- ras, de violações e de acolhimentos, de fundamentalismos agressi- vos e de diálogo criativo. Somos pequenos aprendizes neste mundo. Mas em nosso esquecimento e arrogância, agimos para dominar a natureza, os outros humanos e até Deus e, dessa forma, rejeitamos o diálogo. Somos, também, a primeira geração que põe em questão a sobre- vivência da comunidade de vida no planeta Terra. Tudo clama pelo diálogo Muitos povos antigos, tais como os da Palestina, do Egito, da Mesopotâmia, da Índia e da Grécia, nos legaram contribuições importantes no campo do diálogo. Antes de abordar diretamente o tema do diálogo nas tra- dições religiosas, vamos buscar as origens gregas desse vocábu- lo para depois extrair elementos significativos à nossa reflexão. Como nos apresenta Faustino Teixeira, um dos maiores estudiosos brasileiros do diálogo inter-religioso: Com base na etimologia grega do vocábulo diálogo, é importante ressaltar a presença de dois termos: "dia" e "logos". A expressão "logos" cobre uma vasta gama de significados, mas indica em par- © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso3636 ticular o dinamismo racional do ser humano, a capacidade humana de pensamento e raciocínio. O termo "dia", por sua vez, expres- sa uma dupla idéia: alude ao que separa e divide, mas igualmente à ultrapassagem de um limite. Faz parte da natureza do diálogo a busca de uma unidade que preserve e salvaguarde a diferença e a liberdade. O diálogo autêntico traduz um encontro de interlocu- tores pontuado pela dinâmica da alteridade, do intercâmbio e da reciprocidade. É no processo dialogal que os interlocutores vivem e celebram o reconhecimento de sua individualidade e liberdade, estando ao mesmo tempo disponibilizados pelo enriquecimento da alteridade (TEIXEIRA, 2008, p. 124). De todas as partes brota o clamor pelo reconhecimento, pela dignidade, pela alteridade e pelo diálogo, uma vez que: a) O universo inteiro, do microcosmo ao macrocosmo, é feito de diálogo. b) O planeta Terra é uma complexa trama dialogal. c) A comunidade da vida é uma refinadíssima experiência de diálogo. d) A humanidade, feita da terra, é comunicação dialogal com toda a natureza. e) Mulheres e homens expressam-se em diálogo espiritual com o Mistério Divino. f) Em cada núcleo comunitário humano está presente o chamado à comunhão dialogal. g) Em cada fragilidade está um reclamo por encontro e di- álogo solidário. h) Em cada criatura caída na estrada está um clamor para que alguém se torne próximo. 5. DIAloGAR: EXIGêNCIA Do UNIvERSo E Do PlA- nETA TERRA Iniciaremos nosso tópico com um trecho extraído da Carta da Terra, que foi lavrada após a ECO-92, no Rio de Janeiro, com representantes de todos os continentes e a participação ativa de mais de cem mil pessoas. Claretiano - Centro Universitário 37© U1 - Diálogo e Alteridade Informação complementar: Carta da Terra –––––––––––––––– Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo se torna cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a esse propósito, é imperativo que nós, povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações. (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2012) –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– O diálogo mundial é possível na busca de compreensão da urgência solidária com a comunidade da vida e do compromisso com a sustentabilidade do planeta. Isso é necessário para quebrar a separação exagerada entre os humanos e a comunidade de vida que criamos nos últimos séculos. Grande parte da ciência e da nos- sa linguagem está marcada por um estilo dominador e não dialogal de olhar e tomar a natureza como algo à nossa disposição. Quebramos o diálogo e, em vez de nos relacionarmos com a comunidade da vida, destruímos e abusamos dos recursos e das matérias-primas. Perdemos a atitude de profundo cuidado com a nossa casa comum e nos tornamos predadores vorazes. O planeta Terra, com sua comunidade de vida, não é um conjunto de bens em estado bruto para a ação exploratória. Ele é um corpo vivo e espiritual que, em seus diversificados organismos, se assemelha a características humanas e se compõe e recompõe continuamente. Nós também somos a Terra de um modo próprio, podendo viver de modo consciente cada estremecimento desse encantado corpo. 6. DIáloGo: NATUREZA E HUMANIDADE ENTRE o SIMBÓlICo E DIABÓlICo Na natureza tudo se entrelaça. Matéria e energia não são duas realidades autônomas, mas intercambiáveis. A teoria da rela- © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso3838 tividade de Einstein apontou para a conexão entre matéria e ener- gia, e as redes de energia vibracional expandem-se e aglutinam-se em um permanente intercâmbio criativo. O que nos desafia, humanos tragicamente presentes no mundo, é a nossa fratura radical. O corte do cordão umbilical é uma metáfora de tantas outras rupturas. Participantes do cosmos, nós nos surpreendemos ao perceber que estamos desligados de toda a criação e sós. Os humanos vivem oscilando entre a ruptura e o encontro, a negação e a aproximação, a inclusão e a rejeição, a fraternura (ternura de irmãos) e a dominação, o convívio e o apo- deramento. Parte da humanidade levantou as causas da integrida- de pelas quais vale a pena empenhar e arriscar a vida. A outra par- te tratou como coisa tudo o que aparece pela frente. Uma vez que somos seres fraturados, cindidos da natureza e dos outros seres do universo, só podemos ligar provisoriamente nossa existência ao universo e aos outros seres pelos caminhos dos símbolos. A sabedoria dos povos criou uma infinidade de mitos em busca das "terras sem males", do paraíso terrestre, do novo céu e da nova terra, das áfricas primordiais, doselos cósmicos, das alianças libertárias, das terras prometidas. o diabólico e o simbólico As palavras diabólico e simbólico estão, por vezes, desgastadas. A primeira, enquanto dimensão do caos criativo, ficou obs- curecida pela condenação histórica e persistente de tudo o que, sendo novo, podia desestabilizar as certezas tranquilizantes. As- sim, foram cerceadas as vertentes utópicas e anuladas as capaci- dades críticas e as divergências criativas. A segunda, enquanto dimensão harmônica e agregadora e convocação à religação, foi perdendo seu potencial para a arro- gância instrumental que desprezou a linguagem do mistério inde- cifrável e que pretendeu anular o simbólico, apresentando-o como mera fantasia representativa. Claretiano - Centro Universitário 39© U1 - Diálogo e Alteridade Na obra O despertar da águia, Leonardo Boff faz uma exposi- ção longa e multidimensional desta dinâmica, e afirma: Nunca o dia-bólico e o sim-bólico se anulam ou um suplanta total- mente o outro. Eles convivem sempre em equilíbrios difíceis, dan- do dinamismo à vida [...]. Sim, podemos ir mais longe e afirmar: dia-bólico e sim-bólico são princípios estruturadores da natureza e do cosmos, dos comportamentos sociais e da própria natureza humana (BoFF, 1998, p. 13). Para Boff, a dimensão águia aponta para a busca de hori- zontes mais amplos, enquanto a dimensão galinha nos remete ao cotidiano da vida. Ambas são importantes para a completude do humano. Além dessa abordagem, uma análise das raízes gregas des- ses termos pode nos ajudar a compreender a dinâmica do nosso tempo e a urgência do diálogo. Raízes gregas dos termos diabólico e simbólico –––––––––– • Diabólico: movimento da desagregação sem rumo definido. • Dia (disperso) ballein (lançar). É o caos criativo, o universo inteiro em expan- são, a divergência sem fim, a dispersividade que não deixa as coisas como estão. • Simbólico: em grego, significa o movimento adiante que mantém a união. Reunião das realidades que correm o risco de se desagregar. • Sym (unido) ballein (lançar). O sentido dos símbolos é, justamente, o de re- compor o que se perdeu. • Religião: "re-ligar", refazer, retomar o sentido primeiro, juntar o que está dis- perso. É caminho e risco, equilíbrio no movimento. Para mais informações, consultar BOFF (1998: 11-12). –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Casa e caminho Os filhos crescem e vão cortando os cordões umbilicais (risco necessário da dispersão), ao mesmo tempo em que estabelecem outros elos de união (harmonia do movimento). Ou seja, há ruptu- ras e alianças. Casa e caminho são modos de estar no mundo, em um vaivém cheio de surpresas. Se for somente a casa , esta pode atrofiar. Se for apenas o caminho, desenraizado das origens, corre o risco de percorrer estradas destrutivas. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso4040 Somos sapiens e demens, seres simbólicos e diabólicos. So- mos capazes de ternuras e de violações. Vivemos gestos de amor, de amizade, de solidariedade, de convergências e experimenta- mos atrocidades, desavenças, ódios, inimizades. Vemos guerras, injustiças, explorações, e experimentamos acordos e negociações, convivências entre povos. Este é um tema muito caro a um dos grandes intelectuais contemporâneos, Edgar Morin: O humano é um ser a um tempo plenamente biológico e plena- mente cultural, que traz em si a unidualidade originária. É super e hipervivente: desenvolveu de modo surpreendente as potencia- lidades da vida. Exprime de maneira hipertrofiada as qualidades egocêntricas e altruístas do indivíduo, alcança paroxismos de vida em êxtases e na embriaguez [...] e é nesta hipervitalidade que o Homo sapiens é também Homo demens (MoRin, 2000, p. 52). Capazes da crueldade mais absurda e da ternura mais encan- tadora, somos chamados a direcionar a história para projetos em que todas as pessoas caibam solidariamente. Para isso, é preciso diálogo. Desintegração ou encontro foram desafios com os quais a humanidade sempre se deparou. A dinâmica do universo inteiro e de toda a criação é de expansão e concentração. Uma energia cria- tiva vai desagregando em direção ao novo e outra energia produz as harmonias provisórias. Só desagregação é o caos destrutivo. Só harmonia é paralisia sufocante. A dinâmica da criação é, ao mes- mo tempo, um caos criativo e um cosmos ordenador. Desse modo, pode-se dizer que a paz é a harmonia do movimento. Não se trata de mal (diabólico) e de bem (simbólico), mas de dois dinamismos, próprios do universo e da vida, que precisam estar harmonizados sempre. Muitas buscas, muitas moradas Desde o surgimento da humanidade, que se deu no coração da mãe áfrica, os seres humanos migraram para todas as direções. Claretiano - Centro Universitário 41© U1 - Diálogo e Alteridade Houve uma dispersão necessária e arriscada e, por conta disso, as línguas, os gestos, as criações artísticas, as formas de viver, as ex- pressões religiosas, os mitos, os ritos e a ética foram diversificados e formaram todas as culturas humanas: muitas casas, muitas habi- tações culturais, muitas moradas espirituais. Casa e caminho são dinâmicas da natureza e dos humanos. Mas o excesso de um dos polos torna-os perigosamente destrutivos. O exagero do simbólico imposto ou do diabólico destrutivo põe em risco toda a criação. Dispersão e unificação foram dois movimentos constantes na história. Com seus riscos de desagregação exagerada ou de con- centração imperial anuladora das diferenças, além de suas possibi- lidades de buscas novas e de vivências comunitárias, a humanida- de esteve, em cada período, diante do desafio de criar um mundo habitável. Erramos muitas vezes e também teimamos em procurar novos caminhos. De um lado, podemos perceber uma certa desordem no mo- vimento de dispersão, ao observarmos os desacertos familiares e sociais, as vidas sem rumo de crianças nas ruas, o esfacelamento de comunidades indígenas no Brasil, a desagregação proposital de povos africanos trazidos como escravos e separados de suas etnias de origem etc. Vemos, ainda, os perigos históricos da imposição uniformiza- dora feita pelos impérios antigos e contemporâneos, como o colo- nialismo, o nazismo, as ditaduras militares e a atual globalização, na qual não se admitem vozes divergentes e só são permitidos os sonhos iguais de consumo mercantil. De outro lado, porém, notamos não apenas a imensa criati- vidade que é fruto da dispersão, da divergência, da utopia e dos caminhos novos, mas também a beleza da integridade, da casa, dos consensos, do diálogo e da unidade. O diálogo é a possibilidade sempre criativa de harmonização que une casa e caminho, sapiens e demens, simbólico e diabólico, unidade e dispersão. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso4242 7. DIáloGo E AlTERIDADE: o ENCoNTRo CoM o DI- fEREnTE Para se refazer a comunidade da vida, que está gravemente fraturada, é necessário aprender a "encontrar o outro como ou- tro". As várias mortes precoces e as guerras impedem o outro de viver. Tanto a destruição como a assimilação são formas comple- mentares de negação do outro. No entanto, para que exista o diá- logo, é preciso existir o outro. Hypnos e Tanatos são dois irmãos na mitologia grega: o pri- meiro "anestesia" a vida e o segundo "termina" com ela. Quando a morte de outro ser humano não desperta interesse nem tem signi- ficado à parcela acomodada da humanidade, há cumplicidade por indiferença. Hipnotizados, não nos incomodamos nem criamos as defesas necessárias para que a voz do outro seja efetiva no mundo. Há uma ligação visceral entre o diálogo e a defesa da vida. Diversas práticas pastorais surgiram na década de 1970. nes- se tempo, com Dom Luciano Mendes de Almeida, Julio Lancelotti, Maria do Rosário, Ruth Pistori e muitos educadores e educadoras, iniciou-se a Pastoral para a Defesa da Criança e do Adolescente. Esse pequeno sinal divino nasceu em Belém (distrito de São Pau- lo), em Belém do Pará e em muitos outroslugares escondidos e frágeis. O grande estimulador do diálogo com meninas e meninos empobrecidos foi Dom Paulo Evaristo Arns que, em palestra na iii Semana Ecumênica do Menor, em 1983, afirmou: "Se a criança não fala, os adultos não dizem nada que preste". Ele também va- lorizou a criança viva como sacramento da sociedade justa e a sua escuta como um critério para reconhecer o acerto de caminho da comunidade (COELHO, 1996). Quando se assume que o outro não pode morrer só, no abandono, tem início a consistente arte de reconhecer a alterida- de, base do diálogo verdadeiro. Claretiano - Centro Universitário 43© U1 - Diálogo e Alteridade O outro irredutível – com sua posição constituída de uma alteridade na qual se rejeita ser assimilado – exige relações ama- durecidas para o diálogo. Trata-se da busca de viver a relação com o outro antes de reduzi-lo ao "aparentado" com o eu, com o meu, com o já constituído e sob controle. Consiste em uma atitude cultural que assume arriscadas aproximações, visto que não será possível assimilar o outro a si, mas manter-se-á a exterioridade do outro em presença. Desse modo, trata-se do outro que não cabe no paradigma do interesse, que não está integrado aos modelos vigentes: do encon- tro do deficiente com uma confederação de atletas, do escravo com uma sociedade livre, da criança com o mundo adulto, do estrangeiro com um grupo de autoctonia vitoriosa, da mulher com um paradig- ma patriarcal, da pessoa comum com uma sociedade aristocrática, do trabalhador rural com uma urbanização prestigiosa, do sem-terra com a primazia do latifúndio e do agronegócio, dos empobrecidos com a hegemonia do capital, dos povos comunitários em face da privatização máxima com os Estados modernos. Ao outro, não se lhe calarão a vida e a voz Um dos maiores profetas brasileiros do diálogo foi Dom Hél- der Câmara (Figura 1), que certa vez afirmou: Eu tenho fome e sede de paz. Dessa paz do Cristo que se apoia na justiça. Eu tenho fome e sede de diálogo e é por isso que eu cor- ro por todos os lados de onde me acenam à procura do que pode aproximar os homens em nome do essencial [...]. E falar em nome daqueles que são impedidos de fazê-lo (apud BE- oZZo, 2009, p. 3). Dom Hélder Câmara (1909-1999) foi um dos fundadores da Conferência nacional dos Bispos do Brasil (CnBB). Defensor dos direitos humanos durante o regime militar brasileiro, pregava uma igreja simples voltada aos pobres e à não violência. Para ele, a melhor maneira de ajudar os outros é lhes provar que são capazes; é apoiar o voo sem tomar o lugar das asas; é aju- © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso4444 dar a redescobrir a dimensão águia que mora em cada um, é lutar pela dignidade do outro, pela qualificação de seu projeto sem as- similação anulatória: "não são os pobres que devem compartilhar minha esperança. Sou eu quem tenho que compartilhar a deles. Eu aprendi muito daqueles que são chamados pobres, mas que são ricos do espírito do Senhor" (idem, p. 19). Figura 1 Dom Hélder Câmara. o diálogo, a alteridade e a rua Você pode observar que um dos grupos humanos com o qual a sociedade tem muita dificuldade em dialogar é o do povo que está nas ruas. A presença de homens, mulheres e crianças na rua é um fenômeno dramático cada vez mais intenso no cenário das me- trópoles. Abandonados e desamparados em suas próprias terras Claretiano - Centro Universitário 45© U1 - Diálogo e Alteridade de origem, os moradores de rua estão excluídos da sociedade e se deslocam para as grandes cidades na esperança de realizarem seus sonhos. Em vez do diálogo, encontram altas "paredes de concre- to", de leis, de preconceitos, de distanciamento. A primeira coisa com a qual se depara é o incômodo. Quem se põe a dialogar, escuta e faz perguntas: qual é o sen- timento das pessoas que vivem nas ruas, que moram nas praças, que dormem nas marquises? Seus corações são de pedra? Nada sentem? São seres espaciais? Serão anjos ou plantas? Serão pássa- ros? Vivem neste mundo ou são eternos? Foram quatro décadas de luta para que a voz desse povo ti- vesse alguma ressonância pública. Há quem estranhe o fato de não se perguntar aos moradores de rua suas histórias, seus sonhos, seus desejos. O Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, porém, é o testemunho da fecundidade do diálogo verdadeiro, que não se reduz a promover a fila dos famintos, mas a abrir os espaços para a voz dos que estão calados. Este diálogo é difícil e exigente. Enquanto muitos se distanciam de quem vive nas ruas e re- alizam suas pequenas satisfações sociais e também religiosas em grandes avenidas, shoppings, templos e palcos, a ágape se faz pre- sente nas ruas onde os povos crucificados são reconhecidos como profetas, como servos sofredores, como preferidos do Deus da vida (PASToRAL Do Povo DE RUA, 2003, p. 54). Na Figura 2, você pode observar uma manifestação do MNCR: © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso4646 Figura 2 História do MNCR (Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis. Diálogo e reconhecimento do outro Para discutir esse tema, podemos formular algumas ques- tões: Haverá espíritos dialogais capazes de escutar a vida em sua pujante fragilidade? Existirá espaço para o diálogo com quem é diferente de nós? Muitas das práticas sociais, ao invés de ouvirem o outro e reconhecerem sua contribuição à humanidade, anulam sua voz, impondo-lhes os modelos de um mundo já pronto. Claretiano - Centro Universitário 47© U1 - Diálogo e Alteridade Isso acontece com os povos indígenas, os portadores de de- ficiência, as crianças, as mulheres, os jovens, as pessoas sem estu- do, os moradores das periferias, os sem-teto, os desempregados, os migrantes, os estrangeiros, os afrodescendentes, os campone- ses, entre outros. Muitas vezes, essas pessoas são tratadas como objetos da ação social, de intervenção, de acusação, de políticas assistenciais. Assim, em nome da solução dos problemas, o diálo- go é preterido. No entanto, muitos são os que, nas últimas décadas, se de- dicaram ao diálogo. Na contramão do "cale-se" da ditadura militar, há várias experiências participativas em curso em todos os âmbi- tos da vida social. Cresce a amorosidade ativa que traz para o meio as pessoas que foram excluídas da sociedade. Paulo Freire deixou um legado imenso sobre a Pedagogia do Diálogo: Preciso, agora, saber ou abrir-me à realidade desses alunos com quem partilho a minha atividade pedagógica. Preciso tornar-me, se não absolutamente íntimo de sua forma de estar sendo, no mí- nimo, menos estranho e distante dela. E a diminuição de minha estranheza ou de minha distância da realidade hostil em que vivem meus alunos não é uma questão de pura geografia. Minha aber- tura à realidade negadora de seu projeto de gente é uma questão de real adesão de minha parte a eles e a elas, a seu direito de ser (FREiRE, 2005, p. 137). O que acontece nos processos educacionais não é alheio à visão de mundo que temos e às múltiplas relações sociais nas quais estamos implicados. Algumas convicções desbordam dessa Pedagogia do Diálogo: a) A fé como impulso dinamizador da ação humana: acredi- tar intensamente no outro. b) A confiança como aposta de fé na luta. c) A esperança que não espera, mas antecipa esperançosa- mente a utopia urgente de um mundo novo e possível. d) A humildade como possibilidade de estar face a face no diálogo. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso4848 e) A criticidade que percebe a realidade como conflituosa e inserida em um contexto histórico e dinâmico. f) A amorosidade para com todos os seres, em especial com os humanos, como um ato de criação e recriação. O amor rompe fronteiras e compartilha sua presença ativa com quem tem a vida mais ameaçada. Esse amor ultrapassa os limites de família, de amigos, de origem étnica, de nacionalidade, de mercado, de gênero, de classe, de instituições e de aparências. Só o amor sem medidas é capaz de se aproximar, comternura, dos que estão desprezados. Todavia, isso não cabe nas telas de imagens superficiais da sociedade do espetáculo. Para que esse diálogo se efetue, é necessário o amor com desmesura, que foge dos cálculos racionais e escapa dos discursos acadêmicos. Na convivência com o outro, vamos tecendo nossa sensibi- lidade ética e estética. O bom e o belo vão enchendo de encan- tamentos os tempos e os lugares em que transitamos com nos- sos sonhos, nossa palavra, nossa expressividade, nossos desejos, nossa autoria, nossa autonomia. Enquanto, de um lado, parte da humanidade centra-se no indivíduo com sua gana excludente, de outro, os braços, os olhares, os abraços e os cantares produzem o "nós", tramam a comunidade e criam a solidariedade. Desse modo, no reconhecimento profundo da alteridade está um horizonte amplo para o diálogo. Condições para uma comunidade humana dialogal Até o momento, abordamos o tema do diálogo em várias pers- pectivas: do cosmos, da natureza, da humanidade, do face a face, do re- conhecimento do outro e da necessidade do diálogo entre as culturas. Ao analisarmos as reflexões mais aprofundadas de grandes pensadores contemporâneos como Martin Buber, Paul Ricoeur, Enrique Dussel, Jacques Derrida, Emmanuel Lévinas e Hans Gada- mer, poderíamos avançar muito em tais temas. Todos esses filó- sofos apontam para a ética solidária como critério para o diálogo. Claretiano - Centro Universitário 49© U1 - Diálogo e Alteridade Entretanto, o diálogo restrito não basta aos condicionamen- tos de grupos que ajustam suas diferenças na convivência para tirar vantagens corporativas dessa realidade. Para esses pensadores, o compromisso ético com a comunidade humana não é apenas uma decorrência possível do diálogo, mas constitutivo do próprio diálo- go. A ética é uma ótica e um ponto de partida, não um acessório. Enrique Dussel, filósofo argentino de vastíssima obra, tem trazido esta reflexão à realidade latino-americana: O pobre, o dominado, o índio massacrado, o negro escravo, o asi- ático das guerras do ópio, o judeu nos campos de concentração, a mulher objeto sexual, a criança sujeita a manipulações [...] o opri- mido, o torturado, o que vê ser destruída a sua carne sofredora, todos eles simplesmente gritam, clamando por justiça. [...] O grito – enquanto ruído, rugido, clamor, protopalavra ainda não articu- lada, interpretada de acordo com o seu sentido apenas por quem "tem ouvidos para ouvir" – indica simplesmente que alguém está sofrendo e que do íntimo da sua dor nos lança um grito, um pranto, uma súplica. É a "interpelação primitiva" (Ricoeur). É evidente que alguém deverá possuir "uma resposta responsável ao apelo do ou- tro". É toda uma questão de consciência ética e para isso ele terá de afirmar a si mesmo. Mas, julgo eu, o "eu próprio" do "ouvinte res- ponsável" só se afirma como um valor à medida que "antes" tiver sentido o impacto da súplica do outro, com anterioridade a qual- quer reflexão possível. A "responsabilidade" ou o "assumir o outro" é anterior a qualquer consciência reflexa. Só respondemos com "responsabilidade" à presença do infeliz quando este já nos "co- moveu". É no "ato de justiça" para com o outro, enquanto resposta e cumprimento do ato de justiça exigido antes pelo outro, que o "nosso próprio eu" se autocompreende, reflexivamente, como um valor. Ricoeur continua moderno colocando-se sob o "eu próprio" enquanto origem; mas foi Lévinas que nos permitiu situar o "ou- trem" como origem e raiz do "eu próprio" (DUSSEL, 1995, p. 19). Podemos afirmar que para o diálogo acontecer e abraçar a comunidade humana inteira com ética solidária algumas condi- ções fundamentais são necessárias: a) Reconhecimento do dinamismo da comunhão presente da natureza. b) Despojamento e gratuidade nas relações. c) Disposição para o encontro face a face. d) Abertura à alteridade irredutível do outro. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso5050 e) Sensibilidade aprendente para com a riqueza vinda do outro. f) Capacidade de se surpreender com as realidades que parecem pequenas. g) Profunda compaixão com o sofrimento e a luta dos mais fragilizados. h) Quebra dos preconceitos excludentes e do sentimento de superioridade. i) Humildade que permite viver a hospitalidade mútua. j) Fidelidade às próprias convicções sem absolutizá-las. k) Busca conjunta da verdade, da beleza, da bondade e da unidade. l) Espiritualidade dialogal. Você pode acrescentar outras condições e características ao diá- logo, uma vez que já temos elementos significativos para introduzir a reflexão sobre esse tema nas religiões. 8. DIáloGo ENTRE AS RElIGIÕES A humanidade conheceu as mais belas elaborações da ter- nura e das utopias dignificantes em liberdade solidária, mas viveu também as mais cruéis ações e instituições devastadoras da na- tureza e dos humanos. A religião, que brotou para a religação das pessoas com o objetivo de restabelecer o diálogo, foi também, al- gumas vezes, capturada para as dominações desintegradoras. Foi Gandhi quem disse, inicialmente, que não haverá paz no mundo sem que haja paz entre as religiões e que não haverá paz entre as religiões se não houver diálogo. Hans Küng, na busca de uma ética que possibilite a união da humanidade ao redor das cau- sas fundamentais da vida e da paz, popularizou esta expressão: "ou a rivalidade entre as religiões, o choque de culturas e a guerra de nações ou o diálogo das culturas e a paz entre as religiões como condições para a paz entre as nações!" (KÜnG, 2005 p. 104). Claretiano - Centro Universitário 51© U1 - Diálogo e Alteridade Para que a humanidade possa se sentar à mesa do pão e da cultura, do trabalho e da poesia, da ciência e da espiritualidade, as religiões precisam se dispor a sentar à mesa do diálogo. Giuseppe Barbaglio diz: [...] Toda religião deve voltar-se para sua própria tradição, para oferecer à cultura dos humanos as riquezas até agora conservadas em redomas fechadas. Nessa operação, alguns dados serão modi- ficados, outros enriquecidos com as contribuições de culturas dife- rentes, outros ainda serão oferecidos em sua integridade às outras religiões. Nenhuma religião pode renunciar a essa tarefa universal porque todas parecem hoje invadidas por uma nostalgia de pro- jetos vislumbrados no passado e nunca realizados. Muitos inter- pretam essa nostalgia como retomo a promessas antigas e como esperança de reivindicações reprimidas. Na verdade, testemunhar Deus hoje talvez seja mostrar que essa nostalgia é uma chamada para outros espaços de humanidade e que o outro é o lugar da possível resposta por parte de todas as re- ligiões. Elas poderão exercer a sua missão somente com a condição de que saibam viver uma fidelidade nova. Isto é, com a condição de que acolham os estímulos da própria tradição, mas ao mesmo tem- po exige que ela seja superada na modalidade com que foi acolhida e compreendia até este momento. Para essa superação é necessá- rio que cada um encontre na própria tradição os estímulos necessá- rios para sair fora dela. Toda tradição contém necessariamente tais estímulos, porque faz parte da experiência religiosa conduzir para além das próprias fronteiras, instigar a difícil fidelidade aos profetas (apud CAnTonE, 1995, p. 544). Quando a religião se torna um projeto a serviço da huma- nidade, há muita esperança em jogo. Entretanto, quando essa se torna um projétil contra a humanidade, há muito perigo em cena. As religiões têm acesso ao coração humano, àquelas cordas mais sensíveis à musicalidade espiritual mais encantatória. É com essa sensibilidade que se fecunda a paz no mundo. É com a mo- bilização dos sonhos mais belos das comunidades humanas que o diálogo das religiões que tecerá uma ética mundial. Esse é nosso tema central, que será estudado nas próximas unidades. © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso5252 9. AFIRMAÇÕES INSPIRADoRAS PARA o DIáloGo Algumas afirmações podem servir de inspiração ao diálogo: a) "Apenas pelas palavraso ser humano alcança a compre- ensão mútua. Por isso, quem quebra sua palavra atrai- çoa toda a sociedade humana" (Michel de Montaigne). b) "Aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes; mas não aprendemos a simples arte de vivermos juntos como irmãos" (Martin Luther King). c) "Veja tudo, deixe passar muita coisa, corrija um pouco, dialogue sempre" (Papa João XXIII). d) "A regra de ouro consiste em sermos amigos do mundo e em considerarmos como uma toda a família humana. Quem faz distinção entre os fiéis da própria religião e os de outra, deseduca os membros da sua religião e abre caminho para o abandono, a irreligião" (Gandhi). e) "Deus está em mim para você e em você, para mim. Ele está em mim, mas eu o encontro melhor em você e, então, você o revela presente em mim, assim como eu o mostro presente e atuante em você" (Dietrich Bonhoeffer). f) "O meu amor não é exclusivo. Não posso amar os muçul- manos ou os hindus e odiar os ingleses. [...] Tudo o que vive é teu próximo" (Gandhi). g) "Quando alguém adquire uma quantidade infinitesimal de Amor, esquece de ser muçulmano, mago, cristão ou infiel" (Ibn’Arabi). h) "Se sentes no mais profundo de ti mesmo que isso que te incita ao bem é teu amor a Deus e teu amor aos seres humanos que Deus ama; se pensas que o mal consiste em apartar-te das pessoas, porque Deus ama-as como ama a ti, e que perderás teu amor a Deus se causares dano àqueles a quem Ele ama, ou seja, a todos os seres humanos [...] então, tu és discípulo de Jesus, qualquer que seja a religião que professes" (Kamil Husayn). i) "Cada um deve seguir a regra de ouro e conceder à ex- periência religiosa de outras tradições a mesma presun- ção de verdade cognitiva que justamente reclama para a própria religião" (John Hick). Claretiano - Centro Universitário 53© U1 - Diálogo e Alteridade j) "Creio na verdade fundamental de todas as grandes re- ligiões do mundo. Creio que são todas concedidas por Deus e creio que eram necessárias para os povos a quem essas religiões foram reveladas" (Ghandi). 10. QUESTÕES AUToAvAlIATIvAS Sugerimos, neste tópico, que você procure responder às questões a seguir que tratam da temática desenvolvida nesta uni- dade, ou seja, do diálogo e da alteridade. A autoavaliação pode ser uma ferramenta importante para testar seu desempenho. Se encontrar dificuldades em responder a essas questões, procure revisar os conteúdos estudados para sanar suas dúvidas. Este é o momento ideal para você fazer uma revisão do estudo desta unidade. Lembre-se de que, na Educação a Distância, a construção do conhecimento ocorre de forma coo- perativa e colaborativa. Portanto, compartilhe com seus colegas de curso suas descobertas. Confira, na sequência, as questões propostas para verificar seu desempenho no estudo desta unidade: 1) Quais as polaridades apresentadas no texto em que o diálogo é reclamado para a harmonização criativa? 2) Que nome você dá para o princípio dialogal implícito nesta frase de Enrique Dussel? "É no ‘ato de justiça’ para com o outro, enquanto resposta e cum- primento do ato de justiça exigido antes pelo outro, que o ‘nosso próprio eu’ se auto-compreende, reflexivamente, como um valor. Ricoeur continua moderno colocando-se sob o ‘eu próprio’ enquanto origem; mas foi Lévinas que nos permitiu situar o ‘outrem’ como origem e raiz do ‘eu próprio’." (Cf. DUSSEL, 1995, p. 19). 3) Faça três exercícios de memória: I – Fale de cor, para alguém, duas frases citadas no item 9. II – Peça que alguém leia cada frase do item 9 para ver se você reconhece o autor. III – Cite algumas das condições para o diálogo, elencadas no final do item 7. 4) Afirmar o pluralismo religioso é: © Diálogo Ecumênico e Inter-religioso5454 a) Entrar no indiferentismo e no relativismo próprios da sociedade que exa- cerba o descartável. b) Assumir o valor da diversidade de tradições e um modo próprio de com- preender a própria religião. c) Enfraquecer a religião do outro para possibilitar o direito ao reconheci- mento do próprio valor. d) Abdicar de sua tradição para manter-se aberto a todas as "novidades religiosas". e) Colocar novamente em pauta as condenações históricas e aplicá-las a todos. 11. COnSIDERAÇõES Chegamos ao fim da primeira unidade e percebemos que o assunto não é simples. Estudamos referências importantes sobre a dimensão dialogal do universo e do ser humano. Refletimos sobre o dinamismo diabólico-simbólico das rela- ções na natureza e na humanidade. Vimos, também, que a identi- dade e a alteridade são dimensões decisivas para a grandeza ou a destrutividade dos encontros. A dedicação ao diálogo, sem se afogar nos conflitos e nem fugir deles, cria um sem-número de possibilidades criativas que penetram, gradativamente, no coração das culturas humanas. 12. E-REFERêNCIAS lista de figuras Figura 1 – Dom Hélder Câmara. Disponível em: <http://www.ccpg.puc-rio.br/ nucleodememoria/dhc/textos/2009catalogoexposicaocentenario.pdf>. Acesso em: 3 abr. 2012. Figura 2 – História do MNCR (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis). Disponível em: <http://www.mncr.org.br/box_1/sua-historia>. Acesso em: 3 abr. 2012. Sites pesquisados MiniSTÉRio Do MEio AMBiEnTE. A Carta da Terra. Disponível em: <http://www.mma. gov.br/estruturas/agenda21/_arquivos/carta_terra.doc>. Acesso em: 3 abr. 2012. Claretiano - Centro Universitário 55© U1 - Diálogo e Alteridade MoviMEnTo nACionAL DE CATADoRES DE MATERiAS RECiCLávEiS (MnCR). Disponível em: <http://www.mncr.org.br/box_1/sua-historia> Acesso em: 3 abr. 2012. nÚCLEo DE MEMÓRiA DA PUC-Rio. Dom Helder, 2009. Disponível em: <http://www. ccpg.puc-rio.br/nucleodememoria/dhc/textos/2009catalogoexposicaocentenario.pdf>. Acesso em: 3 abr. 2012. 13. REFERêNCIAS BIBlIoGRáFICAS BEoZZo, J. o. (org.). Dom Helder Câmara: memória e profecia no seu centenário – 1909- 2009. São Paulo: Paulinas, 2008. BoFF, L. O despertar da águia. O dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. Petrópolis: Vozes, 1998. ______. A voz do arco-íris. Brasília: Letraviva, 2000. ______. Do iceberg à Arca de Noé. O nascimento de uma ética planetária. Rio de Janeiro: Mar de Idéias, 2002. CANTONE, C. (Org.). A revolta planetária de Deus. São Paulo: Paulinas, 1995. CARDENAL, E. Cântico cósmico. São Paulo: Hucitec, 1996. COELHO, A. S. Inversões sacrificiais: uma perspectiva interpretativa das Semanas Ecumênicas do Menor. 1996. Dissertação. 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