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Didática Aplicada à Pessoas com Deficiência Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Dr.ª Sueli Yngaunis Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Luciene Oliveira da Costa Granadeiro Didática na Educação Inclusiva: Reflexão e Prática • O Professor, o Aluno com Deficiência e a Diversidade. • Reconhecer a importância da interação entre o professor e aluno com defi ciência; • Reconhecer a diversidade como uma característica importante da sociedade humana; • Conhecer as sete dimensões da acessibilidade e refl etir sobre elas na educação inclusiva. OBJETIVOS DE APRENDIZADO Didática na Educação Inclusiva: Refl exão e Prática Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Didática na Educação Inclusiva: Reflexão e Prática O Professor, o Aluno com Deficiência e a Diversidade Quando atuamos na área da educação, é inevitável revisitarmos periodicamente algumas das teorias da aprendizagem para relembrarmos sobre as diferentes expli- cações que importantes teóricos deram sobre como a criança aprende. Para esta unidade, iremos abordar em linhas gerais as diferentes correntes teóricas, e como elas podem ser pensadas sob a ótica da educação inclusiva, lembrando que já men- cionamos sobre a necessidade de focar as potencialidades, e não as limitações. Reunimos, na tabela 1, as diferentes perspectivas citadas por Papalia (2006) sobre o desenvolvimento humano. Na sequência, abordamos as teorias da aprendi- zagem e como podemos compreender os caminhos pelos quais o aluno percorre, ou deve percorrer mediante o estímulo adequado do professor. Veja que estamos ressaltando a figura do professor como a pessoa que irá selecionar e utilizar os es- tímulos adequados, que ajudem seu aluno a aprender. Tabela 1 – Perspectivas do Desenvolvimento Humano Psicanalítica Aprendizagem Cognitiva Contextual Evolucionista Influência dos fatores internos e inconscientes Papel ativo do indivíduo Interação social Interação com o contexto Mecanismos adaptativos Fonte: PAPALIA, 2006 Diferentes forças atuam no desenvolvimento do indivíduo, e é a partir da iden- tificação e reconhecimento dessas forças que é possível pensar em estratégias de ensino, ou didática, que é nada mais que a seleção dos estímulos adequados às pos- sibilidades de cada aluno. Ao pensarmos no aluno com deficiência, é necessário re- conhecer as suas limitações no sentido de descartar estímulos e práticas de ensino com potencial de excluir esse aluno, e focar nas suas possibilidades de aprendizado, utilizando métodos que favoreçam o desenvolvimento do aluno a partir do que ele consegue fazer, de como ele apreende e processa as informações. Vejamos, por exemplo, a perspectiva cognitiva, que vê a interação social como parte importante do processo de aprendizagem. Sendo Piaget e Vygokstky os te- óricos que se dedicaram a estudar como a criança aprende, Piaget reconheceu os esforços que a criança faz para compreender e agir no mundo em que ela vive, e Vygostky reconheceu as experiências sociais que as crianças têm com o outro como parte importante no seu desenvolvimento. Para esse teórico, é a partir das intera- ções sociais que a criança consegue internalizar a maneira como a sociedade pensa, sendo a linguagem o meio que a criança utiliza para aprender e pensar o mundo. Quando pensamos em interação social e na linguagem, podemos fazer várias inferências sobre como cada indivíduo, com diferentes tipos de deficiência, pode conduzir o seu desenvolvimento e se situar no ambiente em que vive. Vamos falar, por exemplo, sobre o aluno surdo, que não percebe os estímulos sonoros, que não aprendeu a língua vernácula, que é a língua utilizada pela maioria das pessoas, no 8 9 nosso caso a Língua Portuguesa. Esse aluno pode dominar apenas a língua de sinais, que não é a língua da maioria ouvinte. Como fica então a questão da inte- ração social, a questão da linguagem como um meio de apreensão do mundo? Se quisermos, podemos nos prender a essa visão que se concentra apenas no que o surdo não consegue: O aluno não consegue falar O aluno não consegue ouvir Não sabe a língua portuguesa Figura 1 O professor não pode afirmar que o aluno surdo não consegue aprender. Se o professor focar a sua atenção apenas no que o aluno não faz, ele deixa de pensar nas possibilidades alternativas. Assim pensando, deixamos de reconhecer o canal principal que o surdo usa para absorver as informações: o canal visual – sim, as informações podem chegar até ele por meio de imagens, sejam figuras, dese- nhos, fotos, esquemas. Veja que esse foi apenas um simples exercício para que nós, professores, possamos refletir sobre os nossos métodos de aula. Leia, a seguir, o depoimento que um aluno surdo, matriculado no ensino supe- rior, concedeu para uma tese de doutorado: O professor sempre, como é o jeito dele, ele chega na sala de aula, ele pensa que todo mundo vai aprender igual, mas ele tem que entender que há pessoas diferentes, precisa ver que há algumas necessidades que são individuais. O professor está na área acadêmica, ele vai e pronto. [...] Já está resolvido. E não é. É preciso pensar na especificidade do surdo, ele precisa de uma educação surda. E não tem nada disso, agora a gente está tentando remanejar algumas coisas. Então o professor fica falando, falando, e passa os slides com aqueles tex- tos enormes para ler. Se o professor só falar não dá, ou eu foco no intérpre- te, e aí eu perco o que está lá no slide, ou o que ele está falando, é preciso de uma aula mais imagética, com imagens, com fotos, ele precisa entender que a experiência de educação de surdo é visual. (YNGAUNIS, 2019) Podemos identificar, pela fala desse aluno, que a questão não é conseguir ou não aprender, mas sim o método de comunicação adotado e os recursos utilizados em sala de aula. Ainda na perspectiva cognitiva do desenvolvimento humano que citamos acima, relacionando com a interação social, podemos refletir sobre as dificuldades que alunos com deficiência intelectual podem ter em sala de aula. Alguns podem ter dificuldades de interação social e, nesses casos, o professor precisa atentar em como ele se dirige a esse estudante, ou como apresentar esses alunos a uma brincadeiraou a uma tarefa. Vejamos, no quadro a seguir, alguns 9 UNIDADE Didática na Educação Inclusiva: Reflexão e Prática dos recursos sugeridos por um artigo que fala sobre deficiência intelectual. Tam- bém recomendamos a leitura desse artigo, o link para acessá-lo está na legenda da figura: Figura 2 Fonte: Adaptado de Getty Images Saiba mais com o artigo “Aluno com deficiência intelectual. E agora?”. Disponível em: http://bit.ly/2Cq9A8QE xp lo r Em uma sala de aula de educação inclusiva, práticas de ensino homogêneas devem ceder espaço para práticas de ensino que atendam à diversidade, e esse mo- vimento implica uma mudança da cultura escolar, e não simplesmente adotar prá- ticas adicionais de ensino. O sistema de ensino tradicional pressupõe que o aluno deve se adaptar ao sistema escolar vigente, e a proposta da educação inclusiva é a adoção da didática inclusiva que leve em conta as características dos alunos, sejam eles com deficiência ou não. A questão são as diferenças. Já que mencionamos a palavra diversidade, vamos conhecer alguns conceitos sobre o que significa diversidade: Diversidade: significa variedade, pluralidade, diferença. Caráter que distingue um ser do outro ser, uma coisa da outra coisa. Qualidade daquilo que é diverso, diferença, desseme- lhança, variação, variedade. Ex pl or Fontes: http://bit.ly/32m5bP7; http://bit.ly/2WRVlmM e http://bit.ly/2pPoxPh 10 11 O Portal da Educação traz um artigo muito interessante sobre diversidade, “cará- ter que distingue um ser do outro ser, uma coisa da outra coisa”, também provoca uma reflexão. Leiamos o trecho transcrito abaixo, e façamos uma reflexão: Diversidade não diz respeito somente ao reconhecimento do outro, mas significa pensar a relação entre o eu e o outro. Considerar o outro é manter o foco de atenção sobre o próprio grupo, mergulhado na sua história, no seu povo. Semelhanças e diferenças são continua- mente lembradas nas relações, e são marcas presentes nas definições dos valores sociais. Leia mais sobre Diversidade em: http://bit.ly/2WRVlmM Ex pl or Pensemos agora na criança com deficiência física, que tem comprometimento em uma função motora ou mais, o qual pode variar de leve, moderado até grave. Essa criança pode ter dificuldade na sua locomoção ou algum tipo de mobilidade reduzida, nas mãos por exemplo. Tarefas que requeiram movimentação no espaço escolar, ou alguma atividade que exija habilidade manual podem não ser produtivas para crianças com esse tipo de deficiência. Quais alternativas podem ser viáveis? Ao se perguntar quais alternativas são viáveis para ensinar esse aluno, o professor está se mobilizando para o que é diferente. Esse envolvimento é muito importante para a sua ação docente e também para a sua interação com o aluno. Ao manter o foco no aluno, o professor já se predispõe a buscar alternativas diferentes no seu jeito de ministrar uma aula. O professor irá enriquecer o seu repertório de métodos de aula, sua didática, suas estratégias. Esse movimento dá espaço para a expansão da criatividade do professor, e o aluno com deficiência é o seu grande parceiro nessa jornada. Existem adaptações idealizadas por terapeutas ocupacionais que auxiliam as crianças no desempenho de algumas tarefas. Veja alguns exemplos a seguir: • Aparelhos para prender o lápis; • Engrossamento do lápis, facilitando que o aluno consiga segurá-lo; • Capacete com ponteira. Órtese funcional favorecendo escrita: http://bit.ly/2JY8Hsr Ex pl or Em algumas das atividades propostas pelo professor, a criança precisará de auxí- lio e acompanhamento; em outras oportunidades, o professor pode adotar práticas que não excluam o aluno com deficiência. Por exemplo, em alguma atividade física, se há um aluno cadeirante, pode-se pensar em atividades em que todos participem da sentados. É importante que as brincadeiras e os jogos estejam presentes no pro- cesso de aprendizagem das crianças com deficiência. A importância do “brincar” é 11 UNIDADE Didática na Educação Inclusiva: Reflexão e Prática defendida por Vygotsky, pois são ferramentas importantes para o desenvolvimento da criança, pois, além de trabalhar com o cognitivo, também conta com as moti- vações internas do aluno. E é na brincadeira que a criança consegue se incluir sem julgamento, sem a pressão social pelo desempenho. Vejamos agora o depoimento de uma aluna com baixa visão, quando ela relata como foi a sua escolarização: Eu tinha uma professora de geografia que passava as coisas na lousa, aí ela escrevia falando também. Mas não era por minha causa, já era o jeito dela. Eu gostava porque eu não precisava copiar da lousa e se ela fosse ditando eu copiava a atividade enquanto ela falava. [Karen] (VILARONGA, 2013) O que podemos aprender a partir desse depoimento? Que a professora adotou como prática falar enquanto escrevia na lousa, permitindo que Karen, aluna com bai- xa visão, pudesse também anotar o que estava sendo escrito na lousa. A escolha do método ou da ação docente em sala de aula deve ser sempre pensada considerando as especificidades dos alunos, visando sempre os objetivos propostos para cada aula. O trabalho docente deve sempre estar permeado por um processo de reflexão-ação-reflexão, tarefa cada vez mais exigente, pois o professor precisa preparar sua aula e refletir sobre ela, ter claro os objetivos que quer alcançar com as atividades. Realidade às vezes adversa nas escolas, pois infelizmente convive-se com educadores que não preparam atividades, apenas seguem um livro didático e não refletem sobre o que realmente querem alcançar com aquele conteúdo. (FIGUEIRÓ, MOUSSA) Disponível em: http://bit.ly/2K0EzN5 Ex pl or O que é Pensar Didática na Diversidade? E se dissermos que não temos as respostas? E se dissermos que a inclusão na educação é um processo permanente de construção? E xp lo r A partir dos conceitos de diversidade, que transcrevemos no item anterior, podemos concluir que será difícil encontrarmos métodos padronizados, didática padronizada para ensinar. Não por causa da deficiência, mas as pessoas são dife- rentes, elas desenvolveram estratégias diferentes para viver, sobreviver, superar di- ficuldades, aprender. Os contextos sociais, econômicos, tecnológicos, entre outros, exercem uma influência importante na vida das pessoas, que em seus próprios ambientes, reagem de forma diferente às mesmas situações. Aqui, nesse ponto, retomamos uma das perspectivas do desenvolvimento humano citados por Papalia (2006), a perspectiva contextual. Essa perspectiva afirma que o desenvolvimento humano só pode ser compreendido em seu contexto social, e que o ser humano não 12 13 pode ser entendido como parte separada do ambiente onde ele vive, com o qual ele interage. Esse indivíduo é parte desse ambiente, e o constitui também. Dentro dessa linha, não podemos deixar de mencionar a teoria bioecológica de Brofenbrenner, que identifica cinco níveis de influência ambiental, e é preci- so entender os tipos de influências desses ambientes sobre o indivíduo. A seguir, elaboramos uma tabela que foi adaptado do livro da Papalia (2006), para que possamos incluir algumas reflexões pertinentes à nossa temática, que é a didática para pessoas com deficiência. Na primeira coluna do quadro, colocamos os con- ceitos de cada ambiente e como esses ambientes influenciam a vida do indivíduo; na segunda coluna, criamos um personagem que se chama Pedro, uma criança surda, e contamos algumas situações que se referem a cada ambiente citado na teoria bioecológica. Na terceira coluna, apresentamos João, também é surdo, tem a mesma idade de Pedro, mas mora no interior e na zona rural, e não consegue se comunicar, ninguém no seu rol de relações consegue se comunicar com ele e, na maioria das vezes, ele fica isolado. Vamos conhecer a história deles, e depois refletir sobre o que faríamos em cada situação? Tabela 2 Infl uências Ambientais Contexto 1 Contexto 2 Microssistema: ambiente do dia a dia, nolar, na escola, na vizinhança, inclui os relacionamentos faca a face, com os pais, irmãos, amigos, professor. Pedro, é surdo, e mora em uma grande cidade, família de classe média, mora em um bairro bem localizado. E tem acesso à tecnologia assistiva de que ele precisa. João, é surdo, e mora em uma pequena cidade no interior, mora só com a mãe e seus cinco irmãos. A mãe é trabalhadora do campo, e a renda familiar é inferior ao salário mínimo. Mesossistema: entrelaçamento entre vários microssistemas, como o relacionamento dos pais com a escola, influência do ambiente de trabalho dos pais sobre o ambiente da casa. A mãe de Pedro vai a todas as reuniões de pais na escola, e é amiga das mães de seus colegas de escola. Ela também frequenta um curso de Libras, e aprende sobre a cultura surda, para poder compreender o seu filho. A mãe de João é trabalhadora rural sem carteira assinada, e não consegue ir às poucas reuniões de pais que a escola rural faz. Ela não sabe que seu filho fica isolado na escola, e também não consegue se comunicar com ele. Exossistema: Relação entre um microssistema e sistemas de instituições externas, As condições de trânsito, os programas de TV, igrejas etc. A cidade onde Pedro mora tem condições viárias favoráveis, a família conta com metrô, o que facilita levar o Pedro para a escola, ele gosta de assistir televisão, e uma emissora de TV já colocou janela de Libras nos seus desenhos favoritos. João precisa caminhar 30 minutos para chegar até a escola rural, lá ele não tem intérprete de Libras, ele só vê as coisas acontecendo ao seu redor. A família não tem TV, o único passeio da família é para a igreja uma vez por semana. Macrossistema: Padrões culturais, crenças, sistemas econômicos e políticos. Pedro conta com o apoio do poder público que fiscaliza se as escolas oferecem intérpretes de Libras. O movimento da inclusão, largamente disseminado pelos meios de comunicação está mudando a forma como as pessoas o veem. Não há serviços públicos próximos ao local onde João mora. Ele não consegue ser atendido em suas necessidades, ele fica isolado, e as pessoas o chamam de “mudinho”, e acham que ele não é capaz de aprender, e que ele tem retardo mental. Cronossistema: Tem a ver com as mudanças pessoais e sociais ao longo da vida do indivíduo. Pedro frequentou uma escola especial no ensino infantil, depois foi para uma escola inclusiva, estudar com outros estudantes que não tinha deficiência. Mas ele consegue interagir com seus colegas, por que tem o intérprete de Libras. João sempre ficou isolado em casa, e brincava sozinho. Sua mãe não tinha tempo para ele, e seus irmãos não o compreendem. Agora que está no ensino fundamental, ele está mais confuso, porque não consegue entender nada do que acontece na sala de aula. Fonte: Adaptado de Papalia, 2013 13 UNIDADE Didática na Educação Inclusiva: Reflexão e Prática No contexto 1, seríamos professores em uma escola localizada em zona urbana, com fácil acesso à internet, poderíamos pesquisar por recursos de acessibilidade alternativos, poderíamos conversar com a mãe do Pedro. Contaríamos com o au- xílio do profissional intérprete de Libras, e o Pedro consegue estabelecer contato com você, ele usa a mímica, escreve bilhetes. Mas, mesmo assim, você encontrará algumas dificuldades, e terá que observar como o Pedro aprende, e aprender junto com ele. Já a professora que trabalha na zona rural, mora longe da escola, consegue che- gar após uma hora e meia de ônibus em estrada de terra e, quando chega à escola, descobre que o giz, que acabou na semana passada, ainda não chegou, e quando vê o João, fica aflita, porque não sabe como lidar com esse aluno. Nunca recebeu qualquer orientação sobre como agir. Ela não tem nenhuma noção de Libras, tenta fazer mímica com ele, mas ele não entende, e prefere ficar sozinho no canto da sala. Nessa altura dos acontecimentos, você deve estar se dando conta do peso do contexto sobre a vida desses alunos, e do quanto o contexto pode auxiliar ou difi- cultar o processo de ensino-aprendizagem, que não depende só do professor, mas também do aluno, cujo jeito de ser depende de todas as experiências que ele viveu até o momento. Neste momento em que podemos desanimar, assista ao vídeo a seguir e veja como podemos pensar na nossa ação docente de forma leve e tranquila. Afinal, merecemos um pouco de inspiração, não acha? Dicas para adaptar atividades para alunos com deficiência intelectual? Assista em: https://youtu.be/jcXybEOpAxEE xp lo r As Sete Dimensões da Acessibilidade Romeu Sassaki é um dos pesquisadores pioneiros no estudo da educação inclu- siva no Brasil. Muitos anos antes da Declaração de Salamanca, assinada em 1994, Sassaki começou a se preocupar com a inclusão de pessoas com deficiência na educação, ainda na década de 1960, e jamais parou. Trazemos aqui para você as sete dimensões da acessibilidade enumeradas por Sassaki, e que são obrigatórias por lei. Essas dimensões devem ser aplicadas em todos os campos da atividade humana. São elas: arquitetônica, comunicacional, atitudinal, programática, metodológica, instrumental e natural. 14 15 ARQUITETÔNICA COMUNICACIONALNATURAL INSTRUMENTAL ATITUDINAL PROGRAMÁTICAMETODOLÓGICA Figura 3 – As sete dimensões da acessibilidade Fonte: Adaptado de SASSAKI, 2019 A partir das referências de Sassaki, elaboramos a tabela a seguir, aplicando-as ao ambiente escolar: Tabela 3 Dimensões As Barreiras na Escola Dimensão Arquitetônica Acesso sem barreiras físicas Espaços internos em edificações Quais são as condições arquitetônicas da escola, seus laboratórios, sua biblioteca, salas de estudo, áreas de convivência? Espaços no entorno de edificações Como são as calçadas em volta da escola, as condições de acesso à es- cola, os jardins, o estacionamento? Elementos de urbanização Pavimentação, saneamento, iluminação pública, serviços de comunicação. Dimensão Atitudinal Acesso sem barreiras resultantes de preconceitos, estigmas, estereótipos e discriminação. A escola dificulta a matrícula de uma criança com deficiência? O profes- sor acredita que o seu aluno com deficiência pode aprender? Ele apre- senta estímulos adequados para a criança de acordo com a deficiência dela? A criança é incluída nas brincadeiras e atividades desenvolvidas em sala de aula? Dimensão Comunicacional Acesso sem barreiras na comunicação interpessoal, escrita ou à distância. A escola disponibiliza um intérprete de língua de sinais? O professor disponibiliza material com fonte ampliada para os alunos com baixa visão ou em Braille para os alunos cegos? Dimensão Instrumental Acesso sem barreiras nos instrumentos, ferramentas, utensílios e tecnologias. Os computadores da escola têm software de voz instalado para uso pe- los alunos cegos? A escola possui instrumento que permitam que uma criança com mobilidade reduzida nas mãos consiga segurar um lápis ou uma régua? Dimensão Metodológica Acesso sem barreiras nos métodos, teorias e técnicas. A escola e seus professores utilizam o conceito de inteligências múlti- plas? O professor explora novos estilos e conceitos de aprendizagem, com o objetivo de encontrar o mais adequado ao seu aluno? A escola possui métodos alternativos de avaliação de conhecimento e habilida- des de seus alunos com deficiência? 15 UNIDADE Didática na Educação Inclusiva: Reflexão e Prática Dimensões As Barreiras na Escola Dimensão Natural Acesso sem barreiras aos espaços criados pela natureza e existentes em terra e águas – em propriedades públicas ou privadas. A escola promove aprendizado junto à natureza, e acompanha o aluno cego em suas descobertas? A escola inclui os alunos com deficiência em visitas aos parques? A escola procura identificar parques que sejam acessíveis? Dimensão Programática Acesso sem barreiras invisíveis embutidas em textos normativos. A escola revisa seus programas, leis, regulamentos, portarias e normas, de formaa identificar pontos que possam impedir a plena participação do aluno na vida escolar? Em alguns de seus documentos normativos, há alguma orientação que pode obstar a participação do aluno nas atividades escolares? Fonte: Adaptado de Sassaki, 2019 Romeu Sassaki detalhou cada uma dessas dimensões em seu livro (consulte as referências bibliográficas), de maneira a nos alertar para aspectos aos quais muitos não atentariam. Para ser professor na Educação Inclusiva, é preciso desenvolver um olhar para as diferenças, considerando todos os aspectos da vida de um indi- víduo, seja na família, na escola, no trabalho, na sociedade. Um olhar que possa identificar barreiras que estão “invisíveis” sob o “véu da normalidade”. O professor de Educação Inclusiva é um eterno aprendiz, pois no dia a dia, ele e seu aluno com deficiência irão se deparar com inúmeros desafios, cujas respostas ainda não foram escritas. E eles irão escrever suas descobertas no diário das práticas docentes do professor, e quem sabe, um dia, compartilhar com a sociedade. 16 17 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Leitura Processos de Escolarização de Pessoas com Deficiência Visual http://bit.ly/2PWMJtQ A Deficiência Intelectual e o Processo de Ensino Aprendizagem http://bit.ly/2K0EzN5 Qual a Diferença entre Doença Mental e Deficiência Intelectual? http://bit.ly/2WS64xs Desenvolvimento e Aprendizagem de Crianças com Deficiência Física http://bit.ly/2NrfJbx 17 UNIDADE Didática na Educação Inclusiva: Reflexão e Prática Referências PAPALIA, D. E. et al. Desenvolvimento humano [recurso eletrônico]. 12. ed. Dados eletrônicos. Porto Alegre: AMGH, 2013. SASSAKI, R. As sete dimensões da acessibilidade. São Paulo: Larvatus Prodeo, 2019. VILARONGA, C. A. R.; CAIADO, K. R. M. Processos de escolarização de pessoas com deficiência visual. Rev. bras. educ. espec., Marília, v. 19, n. 1, p. 61-78, mar. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413- -65382013000100005&lng=pt&nrm=iso>. Acessos em: 25 set. 2019. YNGAUNIS, S. A singularidade da pessoa surda se evidencia por meio da comunicação. São Paulo, 2018. Tese (doutorado). Programa de Pós-Graduação – Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP da Universidade de São Paulo. 18