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Gastroenterologia – M7 Ana Laura Coradi T.XXII 1 Apresentação clínica e bioquímica hepática Exames laboratoriais de avaliação hepática Anatomia do fígado: O fígado é organizado em lóbulos, com áreas portais nas periferias e veias centrais ao centro de cada lóbulo. Funcionalmente é organizado em ácinos que recebem tanto sangue hepático quanto o sangue arterial e depois seguem pelos sinusóides até as veias hepáticas terminais. Cada área portal (vértice), apresenta um ramo da veia hepática, um ramo da artéria hepática e um ramo do ducto biliar. O lóbulo hepático apresenta 6 espaços porta, 1 veia ao centro lobular e hepatócitos. O espaço porta por sua vez apresenta: veia porta, artéria hepática, canalículo biliar (que drena a bile para o colédoco), e sinusóides fenestrados (na cirrose as fenestrações se perdem). São importantes para avaliação e seguimento de doenças hepáticas. Serão sempre complementares a história do paciente. Exame sensível: sensibilidade alta. Não ocorre falso negativo, confiar no negativo. Exame específico: confiar no positivo, ele dá o diagnóstico. Os exames laboratoriais: são sensíveis (exames de rastreio, se é negativo – tem que ser negativo mesmo), não invasivos e auxiliam no diagnóstico: inespecíficos. Função hepática: bilirrubinas (constitui a mensuração da conjugação e excreção hepáticas), albumina, INR (dizem se o fígado está melhorando, piorando, funcionando ou não). Bioquímica hepática: ALT –TGP, AST - TGO, Fosfatase alcalina (FA), GAMA-GT (GGT), 5- nucleotidase; biópsia hepática (não precisa para dar o diagnostico de cirrose, mas ele confirma/da o ponto final do diagnóstico); biomarcadores de fibrose. Obs: TGO: não é específico, pois temos TGO no músculo por exemplo. Obs 2:Uma doença hepática aguda tem menos que 6 meses e crônica mais que 6 meses. Injúria hepatocelular: aminotransferases Para isso utilizam-se de exames que medem a bioquímica hepática. É uma lesão nos hepatócitos, dosagem de enzimas no plasma e no fluido intersticial. São indicadores sensíveis de lesão/acometimento dos hepatócitos; TGO e TGP alterados é o diagnóstico sindrômico de hepatites (seja ela viral, medicamentosa, alcoólica, aguda ou crônica). - Dosagem de enzimas distribuídas no plasma e no fluido intersticial; - São representados pelas aminotransferases – estão dentro do hepatócito e quando lesadas são liberadas para o plasma: AST/TGO: aspartato aminotransferases; ALT/TGP: alanino aminotransferase; - O aumento de até 8 vezes o limite superior da normal pode ser inespecífico; - Valores normais: 30-40UI/L - Qualquer processo de lesão hepatocelular resulta em efluxo dessas enzinas para a corrente sanguínea; - Condições que elevam aminotransferases: Gastroenterologia – M7 Ana Laura Coradi T.XXII 2 1. infecções virais agudas e crônicas (hepatites virais) 2. sepse bacteriana 3. hepatites 4. carcinomas metastáticos 5. doenças metabólicas do fígado. ALT e AST • ALT - TGP: altera com sexo e idade; encontrada somente no parênquima hepático; mais especifica • AST - TGO: menos específica pois além do fígado é encontrada no miocárdio, se elevando em infartos, no músculo, aumentando em casos de rabdomiólise, nos rins, pâncreas e pulmão. Obs: Em miosites: TGO ≤300UI/L. Em rabdomiólise: TGO ≤1000UI/L Pacientes alcoólicos em abstinência realizam rabdomiólise, dessa forma a TGO pode vir alterada e a TGP(mais específico do fíagado) nem tanto, não indicando uma injúria hepática sim mas uma rabdomiólise extrema. Pacientes que são reanimados também podem após esse período apresentar enzimas elevadas devido a hepatite isquêmica. Algumas miosites não ultrapassam 300 UI/L (na rabdomiólise pode chegar a 1000UI/L). Na hepatite alcoólica temos alteração de TGO e TGP acima de 300UI/L, GGT – altera devido a ingestão de alcool e VCM (tamanho da hemacia, o alcool estimula o aumento das hemácias em tamanho) elevados; e a relação entre AST/ALT ≥ 2) Acima de 500UI/L: icterícias obstrutivas; hepatites agudas; hepatites relacionadas a AIDS. • Acima de 1000UI/L: obstrução aguda da via biliar; drogas; isquemia hepática aguda; hepatites virais agudas; hepatite autoimune – NÃO SE CORRELACIONAM COM EXTENSÃO DA NECROSE. TGO e TGP não são prognósticos. • Queda abrupta de transaminases pode ser um sinal de hepatite fulminante – sinal de destruição maciça dos hepatócitos. • Atividade física pode elevar as aminotransferases, especialmente a AST – TGO encontrada nos músculos; • Uremia: estão falsamente reduzidos e se elevam após diálise pois voltam ao estado basal do paciente; • Outras causas de elevação de transaminases: doenças tireoidianas, doença celíaca – doença do gluten, anorexia e doença de Addison (insuficiência adrenal autoimune primária). Colestase: enzimas caniculares (diagnostico sindrômico) São enzimas caniculares, como FA, GGT e nucleotidase. FOSFATASE ALCALINA - FA Encontrada dentro dos canalículos biliares ou próximo deles. Está presente em outros lugares além do fígado, como a placenta e os osteoblastos. Apresenta tempo de meia vida de 7 dias e o seu valor normal é de 100-120UI/L. Com uma eletroforese de isoenzimas FA pode-se saber de onde vem essa fosfatase aumentada, ou dosa o GGT. FA e GGT aumentadas junto indicam problemas no fígado. Pode estar elevada em crianças devido a alta atividade osteoblástica, pois está em crescimento. Um quadro de colestase pode estar estabelecido em caso de: FA > ou = 2 vezes o limite superior da normalidade. • Aumentam a FA: obstruções biliares intra ou extra-hepáticas – não reflete o grau de obstrução; alguns tumores sem metástases hepáticas (pois eles secretam a FA); crescimento; gravidez; anabolizantes (bilirrubina alta e FA elevada levemente); hormônios femininos; doenças ósseas. GAMAGLUTAMIL TRANSFERASE – GGT Encontrada em hepatócitos, epitélio biliar, túbulo renal proximal, pâncreas, intestino e baço; Gastroenterologia – M7 Ana Laura Coradi T.XXII 3 Valor normal: 0-40UI/L; Colestase: GGT > ou igual 5 vezes o limite superior da normalidade. É sensível em caso de alterações biliares. Confirma a origem hepática da FA se ela estiver alterada. Outras causas de elevação de GGT: pancreatites agudas ou crônica; IAM, IRA, DPOC, alcoolismo, DM; hipertireoidismo; medicações (fenitoína e barbitúricos). NUCLEOTIDASE Encontrada dentro ou perto da membrana dos canalículos biliares dos hepatócitos; Valor normal: 0,3 - 3 UI/L; Não influenciada pelo sexo. Eleva-se em doenças hepatometabólicas e no terceiro trimestre de gestação; Não é produzida em tecido ósseo: pode ser usada como diagnóstico diferencial de aumento de FA; Conduta na icterícia Pode ser causada por hemólise = aumento de BI ou por lesão hepática (hepatite ou colestase) = aumento de BD e investigar as enzimas hepáticas TGO e TGP. Quando o paciente chegar amarelo pedir: TGO, TGP, FA, GGT, albumina, INR e Bilirrubina. TGO e TGP: hepatites (medicamentos, hemocromatose, hepatites virais). FA e ou GGT: colestases – saber se é obstrução de via biliar realizar um US de abdome – colestase obstrutiva, para diferenciar de doenças hepáticas. Se obtivermos uma alteração de FA e GGP maior que o limite superior →investigar colestase. A primeira conduta é o US de abdome (detecta dilatações na via biliar – obstrução da via biliar - ou ausência de dilatação– pode ser uma doença autoimune da via biliar). O US não demonstra a causa propriamente dita. Quando temos uma dilatação de vias biliares -> colangioressonância – usa a bile como contraste. Em caso de ausência de dilatação de vias biliares → excluir CBP (doenças autoimunes como cirrose biliar primaria/colangite biliar primária), toxicidade por drogas e considerar biópsia quando não se consegue dar o diagnóstico; e também deve-se fazer colangioressonância para ver possibilidade de ser uma colangite esclerosante primária (doença autoimune também) Observação: TGO, TGP, FA e GGP podem se elevar juntos, mas um sempre será mais expressivo. Síntese hepática Observa a função hepática – bilirrubina, INR e albumina. Bilirrubina Hemácia rompe → libera grupo Heme → origina a bilirrubina livre, indireta e não conjugada → vai para o fígado → enzima glicuronil-transferase faz a conjugação da bilirrubina direta → ela é hidrossolúvel e pode ser transportada pelos rins →vai pelos canalículos biliares até a vesícula onde é armazenada→ liberada no intestino junto com a bile → que é convertida em urobilinogênio→ e aí segue dois caminhos: 1- É reabsorvida pelo intestino e transportado até o rim, sofrendo oxidação sendo convertida em urobilina sendo eliminado na urina 2- Permanece no intestino sofrendo mais modificações e é eliminado nas fezes na forma de estercobilina, dando coloração as fezes. Gastroenterologia – M7 Ana Laura Coradi T.XXII 4 Obs: em caso de obstrução de vias biliares, a bilirrubina direta não pode ser eliminada junto com a bile, cai na corrente sanguínea, assim o paciente não excretará nas fezes, que ficam sem cor- acolia fecal, e a urina fica escura – colúria, urina cor de coca cola. Bilirrubina Derivada do grupo heme da hemoglobina e de porfirinas. Pode estar elevada em colestases. Nos da ideia da função hepática, quanto maior o fracionamento da bilirrubina, maior a indicação de lesão hepática. Bilirrubina total varia de 1 a 1,2 mg/dl Bb indireta - não conjugada: Se aumentada: pode indicar hemólise/distúrbios hemolíticos. Valor normal: até 0.8mg/dL. Deficiência de vitamina B12 gera uma eritropoese ineficaz (aumenta a bilirrubina indireta (hemólise intramedular). Drogas podem aumentá-la também. Síndrome de Gilbert– hiperbilirrubina indireta → deficiência parcial (~50%) da glicuronil- transferase (enzima que conjuga a Bb livre no fígado) – em períodos de jejum, de estresse que tem uma queda maior dessa enzima causando esse amarelamento -> não representa agravos a saúde; Síndrome Crigler-Najjar: Tipo I = exige transplante hepático, é uma deficiência completa da glicuronil-transferase – risco de Kernicterus (Letal) . Tipo II = deficiência parcial (~ 80%) – ictérica neonatal e pode também evoluir para transplante. Bb direta – conjugada: aumentada em doenças hepáticas obstrutivas; doenças parenquimatosas do fígado, como hepatites (hepatócitos) e neoplasias (a maioria por conta de obstrução); Valor normal: bilirrubina direta: até 0,4 mg/dl; O fígado é o principal órgão produtor de proteínas: albumina; fibrinogênio; fatores de coagulação (INR); alfa e Beta globulinas; ceruloplasmina; alfa1-antitripsina; com exceção da gamaglobulina (IgG, IgA, IgM) → únicas que não são produzidas no fígado, sendo são produzidas por linfócitos B. Albumina Produzida exclusivamente no fígado; São mais usadas para a dosagem de hepatopatias crônicas, devido ao tempo de meia vida de 21 dias. Valor de referência: 3,5 - 4,5 Regulação da produção: fatores nutricionais → desnutrição (leva a alteração da albumina sem alterar o fígado); pressão oncótica; inflamação sistêmica = pacientes reumatológicos e oncológicos apresentam redução da albumina (cronicamente inflamados); Causas de hipoalbuminemia: cirrose – não produz; desnutrição; síndrome nefrótica; enteropatia perdedora de proteínas = doença da mucosa intestinal que provoca aumento da permeabilidade resultando em perda de albumina; Gastroenterologia – M7 Ana Laura Coradi T.XXII 5 Atividade de protrombina (TAP/INR) A maioria dos fatores de coagulação são produzidos pelo fígado. Um exemplo são os fatores vitamina K dependentes = II, VII, IX e X (a falta desses fatores, tem o alargamento do TAP); Apresentam tempo de meia vida mais curta que a da albumina, oscilando entre 6h para o fato VII a 5 dias para o fibrinogênio. Em caso de cirrose, o INR avaliará a função hepática e não a coagulação. Caso seja necessário saber a coagulação pedir tromboelastograma. INR é inversamente proporcional a atividade do fígado, sendo assim quanto maior o INR menor o TAP. Causas do aumento INR ou TP: 1- Cirrose 2- Colestase: impede a absorção de vitamina K, A, D, E. não ocorre emulsificação do quimo e as vitaminas lipossolúveis não são absorvidas, sendo assim os fatores de coagulação ficam sem ser formados, alargando o INR. 3- Desnutrição 4- Anticoagulação com cumarínos: antagonista de vitamina K, não tendo vitamina K, não são produzidos os fatores de coagulação, CIVD, alargando o TAP. O INR+ bilirrubina sérica total + creatinina= escore de MELD, que é utilizado para transplante de fígado. Imunoglobulinas Não refletem função hepática, pois não são produzidas no fígado. Elas são medidas pela eletroforese de proteinas, na parte gama do exame. Uma hipergamaglobulinemia indica que as gama proteinas estao aumentadas num geral. Para saber qual estpá aumentada tem que dosar o IgA, IgM e IgG. Refletem alterações no sistema reticuloendotelial dos sinusóides hepáticos ou shunts portais (hipertensão local na veia porta); - Hipergama (aumento de gamaglobulina): sugerem hepatites crônicas: HAI (hepatite autoimune) apresenta os níveis mais elevados: • IgA= cirrose alcoólica; • IgM= colestase; • IgG = doenças autoimunes, HAI (hepatite autoimune). No caso de Hepatites agudas as gamaglobulinas normais ou discretamente elevados. Valor normal: 1.5 (acima de 2 é Anormal). Biópsia hepática Sempre um método invasivo. Padrão ouro para doenças hepáticas, estadiamento da fibrose. Para a biópsia é necessário um fragmento de 1.5m contendo de 6-8 espaços porta, sendo um número perfeito 10. Tipos de biópsia: • Percutânea (guiada por ultrassom); • Transjugular: em casos onde a percutânea não pode ser usada - ascite, distúrbios da coagulação, fígado reduzido, obesidade mórbida e insuficiência hepática aguda grave (lesão de hepatócitos, muitas áreas de necrose); não tem representividade muito boa de espaços porta • Laparoscópica, com agulha de Trucute, é feita em ultimo caso por ser cirúrgica Biomarcadores de fibrose Exames ou métodos para definir a quantidade de fibrose presente no fígado sem precisar realizar biopsia. Marcadores séricos diretos (modificações na síntese e/ou degradação da matriz): só para saber que existe; isoladamente - baixa acurácia; • fibrotest e APRI (muito usado na hepatite C crônica); • fibrometer; • índice de Forns; • FIB-4; • hepascore; • NAFLD score; Gastroenterologia – M7 Ana Laura Coradi T.XXII 6 A fibrose do fígado vai de 0-4 sendo 4 fibrose hepática. Métodos de imagem não invasivos - Elastografia hepática transitória (Fibroscan): mede a elasticidade do parênquima hepático -> maior fibrose, menor elasticidade; limitações – se vai direto na costela, pacientes com ascite, obesidade, espaçointercostal estreito, grau de atividade necroinflamatória pode não funcionar (fígado fica “mais duro”) -> mesmas limitações da biopsia percutânea; mais usado em hepatite C e NASH/NAFLD; F0 a F4, sendo F4 cirrose e F0 normal -> atividade inflamatória pode alterar o exame - Elastografia AFRI (US ou RNM): estudo do lobo direito; pulsos acústicos que produzem deslocamentos (ondas de cisalhamento) do tecido examinado; maior rigidez: maior velocidade de propagação das ondas de cisalhamento