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Os tumores das células linfoides incluem desde as mais indolentes até as mais agressivas neoplasias malignas humanas. Originam-se de células do sistema imune em diferentes estágios de diferenciação, resultando em uma ampla variedade de achados morfológicos, imunológicos e clínicos. Algumas neoplasias malignas de células linfoides quase sempre se apresentam na forma de leucemia (isto é, acometimento primário da medula óssea e do sangue), enquanto outras geralmente ocorrem como linfomas (isto é, tumores sólidos do sistema imune). Entretanto, outras neoplasias malignas de células linfoides podem manifestar-se como leucemia ou como linfoma. Além disso, o padrão clínico pode mudar durante a evolução da doença. Essa mudança é observada mais frequentemente em um paciente que parece ter um linfoma e, a seguir, apresenta as manifestações de leucemia durante a evolução da doença. A classificação dos tumores linfoides evoluiu constantemente durante o século XX. A distinção entre leucemia e linfoma foi estabelecida desde o início, e criaram-se sistemas separados de classificação para cada um deles. Em 1994 surgiu a classificação Revisada Europeia-Americana das Neoplasias Linfoides (REAL). Nessa classificação, os linfomas foram divididos em linfomas de células B, linfomas de células T e linfoma de Hodgkin, baseado em critérios morfológicos, imunofenotípicos e citogenéticos. Após inúmeros avanços nas bases biológicas e moleculares dos LNH, a classificação REAL foi revisada pela OMS, sendo publicada a classificação da OMS dos tumores dos tecidos hematopoiéticos e linfoides em 2001, que foi atualizada em 2008. Atualmente, essa é a base da classificação das neoplasias hematológicas. De grande importância é a avaliação imunofenotípica/imunohistoquímica, que permite classificar o LNH na maior parte dos casos, em conjunto com dados clínicos, morfológicos, genéticos e moleculares. Utilizando o sistema FAB de classificação: • L1: Neoplasias linfoides com blastos pequenos e uniformes (p. ex., leucemia linfoblástica aguda típica da infância); • L2: Tumores linfoides com células maiores e de tamanho mais variável; • L3: Tumores linfoides de células uniformes com citoplasma basofílico e, algumas vezes, vacuolizado (p. ex., células típicas do linfoma de Burkitt). As leucemias agudas de células linfoides também foram subdivididas com base na presença de anormalidades imunológicas (isto é, célula T versus célula B) e citogenéticas. Os principais subgrupos citogenéticos consistem em t(9;22) (p. ex., leucemia linfoblástica aguda positiva para o cromossomo Filadélfia) e t(8;14), encontrado na leucemia L3 ou de Burkitt. Os linfomas não Hodgkin foram separados da doença de Hodgkin com a identificação das células de Sternberg-Reed no início do século XX. A classificação histológica dos linfomas não Hodgkin tem sido uma das questões mais controversas em oncologia. Sistemas morfológicos imperfeitos foram suplantados por sistemas imunológicos imperfeitos, e uma reprodutibilidade fraca do diagnóstico tem prejudicado o progresso. Em 1999, a classificação dos tumores linfoides da Organização Mundial da Saúde (OMS) foi concebida por meio de um consenso entre líderes internacionais em hematopatologia e oncologia clínica. A classificação da OMS leva em consideração as informações morfológicas, clínicas, imunológicas e genéticas e procura dividir os linfornas não Hodgkin e outros tumores linfoides em entidades clínicas/patológicas que têm relevância clínica e terapêutica. Esse sistema é clinicamente relevante e tendo maior grau de acurácia diagnóstica do que os utilizados anteriormente. É grande a possibilidade de subdividir os tumores linfoides. hematologia: linfoma Igor Mecenas O linfoma de Hodgkin (LH) é um tipo singular de linfoma que, por diversas razões, tornou-se um modelo da abordagem diagnóstica e terapêutica em hemato-oncologia. O estadiamento clínico nessa doença é um bom indicador prognóstico e um elemento fundamental a considerar na escolha do tratamento. As duas principais modalidades terapêuticas, a radioterapia e a quimioterapia, tiveram os seus princípios estabelecidos inicialmente no linfoma de Hodgkin. Devido a essa sólida fundamentação e às suas características biológicas, o linfoma de Hodgkin tornou-se um dos melhores exemplos de neoplasia curável, quando abordada corretamente. Estima-se que, em 2010, houve aproximadamente 8.500 casos novos LH nos EUA e 1.300 mortes pela doença. Essa incidência representa aproximadamente 12% dos casos de linfomas não Hodgkin e 1% do total das neoplasias malignas. Os dados de registro de câncer nos EUA indicam estabilidade na taxa de incidência entre 1975 e 2006, em contraste com o aumento na taxa de incidência de linfomas não Hodgkin no mesmo período. A curva idade-incidência do linfoma de Hodgkin apresenta, nos países desenvolvidos, um padrão bimodal caracterizado por baixa incidência na infância, rápida elevação com um primeiro pico em torno dos 20 anos, um platô de baixa incidência ao longo da meia- idade e um aumento progressivo da incidência a partir dos 55 anos. O primeiro pico é formado, em sua ampla maioria, por casos de esclerose nodular. Já nos países pobres, com economias agrícolas, não se verifica o padrão bimodal: há uma incidência um pouco maior na primeira infância, não há o pico em jovens, e ocorre um aumento contínuo a partir dos 40 anos. Nesses países, o tipo histológico predominante é a celularidade mista. Alguns estudos recentes sugerem que a transição de uma economia agrícola para uma industrial é acompanhada de uma mudança no perfil epidemiológico do linfoma de Hodgkin. O fator etiológico mais estudado e mais provavelmente implicado na etiologia do linfoma de Hodgkin é o vírus Epstein-Barr (EBV). Nos EUA e na Europa ocidental, as células do linfoma de Hodgkin contêm o EBV em aproximadamente 20 a 50% dos casos. No Brasil, apesar dos poucos estudos disponíveis, a prevalência parece ser de aproximadamente 50% em adultos e 80% em crianças. A positividade é maior nos casos de celularidade mista. Nos casos positivos, o EBV é monoclonal, o que indica que a célula foi infectada antes de sua transformação neoplásica. Dados epidemiológicos e sorológicos sugerem que o EBV desempenha um papel na patogenia do linfoma de Hodgkin: o antecedente de mononucleose infecciosa, confirmado através de sorologia, confere um risco três vezes maior de linfoma de Hodgkin, e esse linfoma ocorre nos mesmos grupos socioeconômicos que apresentam um risco elevado de mononucleose. Proteínas e ácidos nucleicos do EBV têm sido identificados em células RS de um subgrupo de pacientes com LH clássico. Cerca de 30% dos casos nos EUA são comprovadamente EBV+, enquanto em algumas áreas da América Latina, África e Ásia, virtualmente todos os casos contêm genoma viral, situação em que a doença é chamada “LH endêmico”. O tempo mediano entre o diagnóstico de mononucleose e o desenvolvimento de LH EBV-positivo foi de aproximadamente 4 anos. Como o EBV pode imortalizar células B in vitro, e como as células RS nos casos positivos carregam o genoma viral, indicando um evento precoce no desenvolvimento do linfoma de Hodgkin clássico, o EBV provavelmente interfere na patogênese da doença. Mesmo que apenas alguns dos genes do vírus sejam expressos nas células RS, eles podem ter um papel muito importante. Duas proteínas de membrana, LMP1 e LMP2a são expressas, além do EBNA1 (antígeno nuclear 1 do EBV), o qual é essencial para a replicação do genoma viral durante a proliferação celular. Chama a atenção o fato de que a LMP1 é muito semelhante a um receptor de CD40 ativado, e a LMP2a, a um B-cell receptor (BCR). Dessa maneira, o EBV consegue simular duas sinalizações que são fundamentais para a sobrevivência de células B do centro germinativo - as quais, acredita- se, seriam a “versão nomal”da célula de RS. O papel específico do EBV na patogênese do LH clássico é reforçado pelo achado de que virtualmente todos os casos que apresentam mutações destrutivas da região variável da cadeia de imunoglobulina impedem a expressão do BCR são EBV+. Assim, células B do centro germinativo que estariam “condenadas” à apoptose podem sobreviver e em alguns casos originar células RS pela expressão de LMP2a. No entanto, a maioria dos adultos é portadora do EBV sem nunca desenvolver LH. Parece haver também um componente genético na etiologia do linfoma de Hodgkin, indicado pela ocorrência de agregação familiar e de uma incidência duas a três vezes mais elevada em judeus. A incidência em irmãos gêmeos monozigóticos é maior do que em gêmeos dizigóticos. Essas evidências apontam para uma base puramente genética da agregação familiar. Entretanto, em vista da baixa incidência do linfoma de Hodgkin, a agregação familiar observada representa um risco muito baixo de que um familiar de um paciente com linfoma de Hodgkin venha a desenvolver a doença. Vários mecanismos foram propostos para explicar a linfomagênese em indivíduos afetados, incluindo instabilidade genética e alterações dos processos normais de apoptose. Perdas de função de uma ou mais proteínas supressoras de tumor (p16, p53, Rb) podem estar envolvidas em regulação celular defeituosa das células HRS. Se a positividade para EBV tem algum significado prognóstico ainda permanece controverso. A apresentação mais comum do linfoma de Hodgkin é o aparecimento de uma tumoração cervical indolor, com consistência de borracha, causada pelo aumento de um gânglio ou de um grupo de gânglios linfáticos. A tumoração pode ter sido observada recentemente ou estar presente há vários meses, e seu tamanho pode flutuar de forma traiçoeira. Em três quartos dos casos, o primeiro gânglio é percebido na região cervical; no quarto restante, o gânglio é axilar ou inguinal. A frequência de envolvimento das diversas cadeias ganglionares e de outros órgãos pelo linfoma de Hodgkin está indicada na Tabela: Ocasionalmente, o gânglio é levemente doloroso à palpação, ou torna-se dolorido com a ingestão de álcool, uma queixa incomum, mas muito sugestiva de linfoma de Hodgkin. A maioria dos pacientes que se apresentam sem linfadenomegalia periférica tem uma massa mediastinal revelada em radiografia de tórax solicitada devido a sintomas respiratórios, ou raramente um prurido intenso e disseminado. Outra apresentação menos comum é o envolvimento dos gânglios abdominais ou retroperitoneais de um paciente que apresenta inicialmente febre sem linfadenomegalia periférica. Aproximadamente um terço dos pacientes apresenta sintomas sistêmicos por ocasião do diagnóstico: emagrecimento, sudorese noturna e febre estão presentes em um quarto dos pacientes, e prurido em um oitavo. A febre é manifestação característica do linfoma de Hodgkin e se desenvolve na maioria dos pacientes que não são curados. Inicialmente é baixa, vespertina, e pode passar despercebida, mas progride para uma febre alta e debilitante quando o linfoma não é controlado. Seu padrão pode ser constante ou remitente. A defervescência da febre, durante a noite, é acompanhada de sudorese profusa, que pode encharcar as roupas de cama. Raramente vista hoje é a clássica “febre de Pel- Ebstein”, caracterizada por períodos de uma a duas semanas de febre alta, separados por intervalos afebris da mesma duração. O envolvimento mediastinal ocorre em dois terços dos casos. Inicialmente, o linfoma de Hodgkin torácico envolve o mediastino anterior e os gânglios paratraqueiais e traqueobrônquicos. Com a progressão, os hilos pulmonares e a parede torácica podem ser acometidos. Diversos sintomas podem indicar a presença de uma massa expansiva intratorácica: tosse seca e dispneia que pioram com a posição supina, dor torácica, rouquidão, pneumonite obstrutiva e síndrome da veia cava superior. Contudo, o envolvimento mediastinal pode ser inteiramente assintomático. O baço, envolvido em um terço dos pacientes, é a estrutura intra-abdominal mais comumente acometida pelo linfoma de Hodgkin. Entretanto, cumpre alertar que a avaliação do envolvimento esplênico através do exame físico é pouco confiável: apenas 60 a 65% dos baços aumentados à palpação apresentam de fato envolvimento pelo linfoma, e 25 a 30% dos baços de tamanho normal ao exame físico estão acometidos. O envolvimento da medula óssea ocorre em 3 a 15% dos pacientes. A maioria desses pacientes apresenta sintomas constitucionais. A disseminação para os ossos também ocorre em 5 a 15% dos pacientes, mas não tem a mesma gravidade do envolvimento da medula óssea. Caracteriza-se por dor óssea e pelo aspecto radiográfico, que pode ser lítico, blástico ou misto. Os ossos mais acometidos são a coluna vertebral, a pelve, arcos costais, fêmur e esterno. A coluna torácica é a mais comumente acometida, e a dor é o primeiro sintoma. Áreas extralinfáticas raramente envolvidas no linfoma de Hodgkin incluem a pele, o trato gastrintestinal e o sistema nervoso central. Essas áreas são mais comumente envolvidas em linfomas não Hodgkin e em pacientes com linfoma de Hodgkin associado à infecção pelo HIV. A compressão medular é a principal forma de envolvimento do sistema nervoso, e embora tenha se tornado rara, requer menção pela gravidade e pela necessidade de intervenção terapêutica imediata. Fraqueza muscular, alterações sensoriais e disfunção esfincteriana são sinais indicativos de compressão medular grave. O diagnóstico do linfoma de Hodgkin é feito por meio da avaliação histopatológica de tecido acometido pela doença, obtido por biópsia. Para um diagnóstico confiável, é essencial que o material obtido na biópsia seja adequado e entregue imediatamente a um hematopatologista qualificado. Sempre que possível, um gânglio linfático inteiro deve ser retirado para avaliação. O tecido a ser biopsiado deve ser escolhido pelo clínico e pelo cirurgião. Em geral, o maior gânglio palpável deve ser o escolhido para a biópsia, e sempre que possível deve ser tentada a excisão completa do gânglio. Deve-se evitar a biópsia de gânglios inguinais se houver outras cadeias periféricas acometidas. Se houver somente envolvimento de órgãos ou gânglios linfáticos profundos, recomenda-se abordá-los por toracoscopia ou laparoscopia, se possível. Outra opção é a core-needle biopsy guiada por imagem. Uma vantagem desse procedimento é que pode ser feito com anestesia local e em regime ambulatorial. Entretanto, o método tem como desvantagem principal a obtenção, por vezes, de material pouco representativo. Alterações hematológicas Anemia de doença crônica, de moderada intensidade, pode ser encontrada em pacientes com doença avançada e sintomas constitucionais. Ocasionalmente, alguns pacientes apresentam anemia grave, que pode estar relacionada à infiltração extensa da medula óssea, à fibrose medular, ao hiperesplenismo ou, raramente, a uma anemia hemolítica Coombs-positiva. A elevação da Velocidade de Hemossedimentação (VHS) correlaciona-se com diversos indicadores de progressão da doença: o número de áreas linfoides envolvidas, a presença de sintomas sistêmicos e a presença de grande massa. A persistência de VHS elevada após o tratamento pode ser evidência de doença residual. Pacientes com linfoma em atividade também podem apresentar leucocitose neutrofílica, eosinofilia e trombocitose. Neutrofilia e linfopenia estão associadas a um pior prognóstico. A eosinofilia é usualmente discreta, mas pode ser acentuada, sobretudo em pacientes com prurido. Outras manifestações raras incluem neutropenia autoimune, síndrome hemofagocítica e púpura trombocitopênica trombótica. A história natural do linfoma de Hodgkin sugere que ele surge em uma única área linfoide e dissemina-se de forma ordenada e razoavelmente previsível para as áreaslinfoides contíguas e também para estruturas não linfoides contíguas. O sistema de estadiamento de Ann Arbor foi proposto com base nessas observações em 1971, e recebeu algumas modificações em uma conferência internacional realizada em 1988 na região de Cotswolds, Inglaterra. Pacientes com estádio IIIA, IIIB, IVA e IVB eram tradicionalmente denominados como “estádios avançados”, mas atualmente há forte tendência a incluir também o estádio IIB nessa categoria. Biópsia de medula óssea no estadiamento do linfoma de Hodgkin A Biópsia de Medula Óssea (BMO) é o procedimento-padrão para avaliar o envolvimento da medula óssea no linfoma de Hodgkin. Como esse envolvimento não é difuso, mas sim multifocal, a recomendação por muitos anos foi de biópsia bilateral, que aumenta em aproximadamente 10 a 20% a sensibilidade do exame. No entanto, devido à dor associada ao procedimento, muitos preferem realizar apenas a biópsia unilateral. Ademais, foram identificados subgrupos de pacientes nos quais a probabilidade de acometimento medular é baixa. Isto levou muitos experts a recomendar que a BMO seja obtida somente quando há febre ou citopenias ao diagnóstico (leucócitos < 4000/µL, hemoglobina < 12 g/dL para mulheres e < 13 g/dL para homens, ou contagem de plaquetas < 125.000/µL). É possível formular duas recomendações sobre a realização de BMO no LH. Em pacientes cujo estadiamento não inclui um PET/TC, a BMO está indicada quando há sintomas B ou citopenia. Se o PET/TC fizer parte dos exames de estadiamento, a BMO pode ser dispensada. Métodos de imagem no estadiamento do linfoma de Hodgkin A Tomografia Computadorizada (TC) é hoje o procedimento radiológico padrão. Deve-se solicitar TC de tórax, abdome e pelve. A tomografia do pescoço, embora não seja imprescindível, vem sendo solicitada com mais frequência. A administração intravenosa de contraste permite melhor distinção entre gânglios linfáticos e vasos. Ocasionalmente, a TC de abdômen apresenta achados duvidosos no fígado e baço. O aumento desses órgãos não implica necessariamente envolvimento pelo linfoma. Por vezes é necessário complementar a avaliação com ultrassonografia, para descartar a presença de lesões sólidas, ou com ressonância nuclear magnética, que pode caracterizar melhor as anormalidades hepáticas quando há imagens ambíguas na TC. Uma limitação da TC é não prover informação funcional, o que impede a identificação de doença quando não há aumento de volume nas estruturas acometidas. A Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) supera essa limitação. Utiliza como traçador moléculas de desoxiglicose marcadas com um isótopo radiativo de meia-vida curta, o flúor-18, que emite pósitrons. As células neoplásicas têm uma alta atividade metabólica, e as moléculas de 18F-fluorodeoxiglicose concentram-se preferencialmente no tecido neoplásico. Recomenda-se, sempre que possível, a solicitação do PET/TC para o estadiamento. Com o PET/TC é possível identificar mais lesões que com outros exames de imagem e verifica-se progressão do estádio em aproximadamente 25% dos casos. Ademais, a obtenção de um PET/TC antes do tratamento permite uma melhor interpretação dos achados posteriores. Por outro lado, a falta de correlação dos achados de imagem com os achados histopatológicos nos estudos sobre estadiamento com PET/TC é uma limitação que persiste na literatura. Também não há ainda dados que comprovem que a progressão do estádio proporcionada pelo exame se traduza em vantagem na sobrevida dos pacientes. Doença localizada Diversos fatores clínicos estão associados ao prognóstico nos pacientes com doença localizada, entre eles a presença de sintomas B, VHS elevada, número de áreas linfonodais acometidas, idade e grande massa de mediastino. A Organização Europeia para a Pesquisa e o Tratamento do Câncer (EORTC), o grupo alemão de estudos sobre o Linfoma de Hodgkin (GHSG), o National Cancer Institute Canadense (NCIC-Canadá) e o National Comprehensive Cancer Network (NCCN) desenvolveram sistemas de avaliação prognóstica que incorporam diversos desses fatores e estratificam os pacientes em doença localizada favorável e doença localizada desfavorável. Doença avançada Sete fatores independentes relacionados a uma menor sobrevida livre de falha foram identificados por meio de análise de variáveis múltiplas: o sexo masculino, idade superior a 45 anos, estádio IV, albumina sérica inferior a 4 g/dL, hemoglobina inferior a 10,5 g/dL, contagem de leucócitos acima de 15.000/µL e contagem de linfócitos inferior a 600/µL ou inferior a 8% do total de leucócitos. Foi possível estabelecer um índice prognóstico com base nesses sete fatores: cada fator diminui a sobrevida livre de falha em aproximadamente 8%. É de interesse observar que a presença de sintomas B, a VHS e a LDH tiveram valor preditivo na análise de cada variável em separado, mas deixaram de apresentar valor preditivo independente na análise conjunta de múltiplas variáveis. A presença de massa mediastinal só teve efeito adverso quando ocupava mais de 45% do diâmetro intratorácico, e o único subtipo histológico com resultados inferiores foi a rara “depleção linfocítica”. O valor prognóstico de diversos fatores biológicos foi avaliado, entre eles receptores de superfície celular, proteínas intracelulares, citocinas e anormalidades genéticas nas células RS e nas células inflamatórias do microambiente tumoral. Contudo, muitas das técnicas empregadas não são facilmente reprodutíveis, e a grande maioria dos estudos positivos não foi validada em outros coortes. Em decorrência dessas limitações, nenhum desses fatores biológicos é atualmente usado na prática clínica para a definição da estratégia terapêutica. Recentemente, a presença de macrófagos CD68+ que infiltram o tumor foi associada com um pior prognóstico, mas esses achados não foram confirmados em um estudo com pacientes do Rio de Janeiro. O tratamento do linfoma de Hodgkin foi um dos grandes triunfos da medicina no século XX. A doença respondia por 30% dos óbitos por linfoma em 1950, proporção que caiu para 6% no final do século. No entanto, o aparecimento de segundas neoplasias e outros efeitos colaterais graves décadas após o tratamento do LH levou a uma intensa reavaliação das estratégias de tratamento. Introdução à radioterapia no linfoma de Hodgkin O linfoma de Hodgkin é muito sensível à radiação ionizante e a diversas drogas citostáticas. Todos os pacientes, qualquer que seja a sua idade ou o estádio de apresentação do linfoma, devem ser tratados com intenção curativa. A abordagem tradicional do linfoma de Hodgkin localizado era o tratamento radioterápico. Introdução à quimioterapia no linfoma de Hodgkin Até meados da década de 60, o linfoma de Hodgkin avançado era invariavelmente fatal, com 80% dos óbitos ocorrendo nos três primeiros anos após o diagnóstico. Os estudos de DeVita et al. do National Cancer Institute americano com a combinação de drogas MOPP revolucionaram esse prognóstico e representam um marco da medicina moderna. Com o MOPP, foram introduzidos alguns princípios essenciais do tratamento quimioterápico: 1. utilização simultânea de diversas drogas com diferentes mecanismos de ação; 2. seleção de drogas sem superposição de efeitos tóxicos; 3. administração do tratamento em ciclos, compostos por períodos de tratamento seguidos de períodos de repouso, de modo a permitir a recuperação dos tecidos normais, e 4. padronização de uma escala de redução de doses em função da toxicidade observada. Uma atualização dos resultados da série original de pacientes tratados com MOPP após um período mediano de acompanhamento de 14 anos evidenciou que 84% dos pacientes obtiveram remissão completa e que 66% destes permaneceram sem linfoma por períodos superiores a dez anos. Assim, nada menos que 54% dos pacientes inicialmente tratadosficaram aparentemente curados. Para tratar os pacientes que apresentavam falha ao tratamento MOPP, Bonadonna et al., do Instituto Nacional do Câncer de Milão, Itália, testaram com sucesso o ABVD, uma combinação de drogas sem resistência cruzada com o MOPP. Esse estudo foi liderado por um grande grupo cooperativo americano (Cancer and Leukemia Group B, CALGB). Os tratamentos MOPP, ABVD e MOPP/ABVD foram testados em 361 pacientes. Os resultados demonstraram de forma definitiva a inferioridade do MOPP em relação aos outros dois tratamentos, que apresentaram resultados muito semelhantes. Uma outra alternativa desenvolvida por Connors et al., do Instituto Nacional do Câncer do Canadá, foi a incorporação das sete drogas mais ativas desses dois protocolos em um novo protocolo MOPP/ABV, também conhecido como híbrido. No MOPP/ABV, as drogas do MOPP são administradas no primeiro dia, e o ABV é administrado no oitavo dia de cada ciclo, de modo a expor as células neoplásicas ao maior número possível de drogas no menor período tempo, reduzindo assim a probabilidade de seleção de clones com resistência espontânea ao tratamento. Entretanto, em um outro estudo do CALGB, foi demonstrada a equivalência de eficácia entre o híbrido e o ABVD. A escolha do ABVD como o padrão atual para o tratamento do linfoma de Hodgkin decorreu da comparação do perfil de toxicidades entre o ABVD e as combinações de MOPP com ABVD. • MOPP: Mecloretamina, Vincristina, Procarbazina, Prednisona. • ABVD: Adriamicina, Bleomicina, Vimblastina, Dacarbazina. Tratamento do linfoma de Hodgkin localizado favorável O tratamento-padrão da doença localizada favorável compreende uma combinação de quimioterapia e radioterapia do campo envolvido. O estudo HD7 do Grupo Alemão para o Estudo do Linfoma de Hodgkin (German Hodgkin Study Group, GHSG) evidenciou que a adição de dois ciclos de ABVD à radioterapia com campo estendido melhorou substancialmente a sobrevida livre de falha em cinco anos, de 75 para 91%. Outro estudo, o H8-F, conduzido pelos grupos cooperativos EORTC e GELA, mostrou a superioridade da terapia combinada com três ciclos de MOPP/ABVD seguidos de radioterapia em campo envolvido sobre o tratamento com irradiação subtotal nodal. Os resultados de alguns entre os principais estudos clínicos publicados permitem algumas conclusões: (1) os resultados são excelentes, com sobrevida global em cinco anos superior a 90% na maioria dos estudos; (2) pacientes que recebem somente uma modalidade de tratamento (sobretudo radioterapia) apresentam taxas de recaída maiores que aqueles que recebem terapia combinada. Entretanto, a disponibilidade de tratamentos eficazes de resgate resulta em taxas similares de sobrevida global. Recentemente foram publicados os resultados finais de um fundamental ensaio clínico conduzido pelo grupo alemão em quase 1.200 pacientes com doença localizada favorável estabeleceu o novo padrão no tratamento da doença localizada favorável, que passou a ser dois ciclos de ABVD seguidos de 20 Gy sobre o campo envolvido. No entanto, uma alternativa radicalmente diferente tem sido estudada: a possibilidade de tratar a doença localizada favorável tão somente com quimioterapia, poupando os pacientes, muitos deles jovens, dos riscos a longo prazo da radioterapia. Em estudo do NCI do Canadá em colaboração com o Eastern Cooperative Oncology Group (ECOG), foi observada uma vantagem de 6% na sobrevida livre de falha em cinco anos no braço da quimioterapia combinada com radioterapia, quando comparado com quatro a seis ciclos de ABVD, mas sem benefício quanto à sobrevida global. Já em estudo do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, 152 pacientes em estágios IA-IIIA foram randomizados para receber seis ciclos de ABVD com ou sem radioterapia (36 Gy). Não houve diferenças quanto à progressão e sobrevida global. Há estudos em andamento, com incorporação de PET, para melhor definição do papel dessa modalidade de tratamento na doença localizada favorável. Tratamento da doença localizada desfavorável Para a maioria dos experts, quatro ciclos de ABVD seguidos de radioterapia com 30 Gy sobre os campos envolvidos constituem o padrão de tratamento do linfoma de Hodgkin localizado desfavorável. Em estudo recente da EORTC/ GELA (H9-U), não se observou diferença na sobrevida global para aqueles que receberam quatro ou seis ciclos de ABVD seguidos de radioterapia em campo envolvido (87 e 91% em quatro anos).Também foi recentemente demonstrado que o BEACOPP não traz vantagens para esses pacientes. O ABVD foi comparado com 2 BEACOPPesc + 2 ABVD, ambos os braços seguidos de radioterapia dos campos envolvidos. Os resultados preliminares sugerem um benefício de 6% na sobrevida livre de progressão para o segundo tratamento. Esse estudo levou os alemães a definirem 2 BEACOPPesc + 2 ABVD como a quimioterapia-padrão para esses pacientes, conclusão não compartilhada em outros países devido aos riscos aumentados de infertilidade e segunda neoplasia. Tratamento da doença avançada O regime ABVD é o mais aceito atualmente como tratamento-padrão de pacientes em estádio avançado. É um regime seguro, de fácil administração ambulatorial, que não requer monitoramento rigoroso das contagens de glóbulos brancos. Diversas alternativas ao ABVD têm sido avaliadas em pacientes com doença avançada. Dentre essas, a mais relevante foi o desenvolvimento, pelo German Hodgkin´s Lymphoma Study Group, do BEACOPP. O ABVD permanece o regime padrão de tratamento da doença avançada, pois poupa a grande maioria dos pacientes da exposição e riscos causados pelo BEACOPP escalado. Dados sobre resultados do tratamento em países em desenvolvimento são escassos. Uma estimativa representativa dos resultados atuais do tratamento do LH avançado em instituições públicas no Brasil foi recentemente publicada. Em 216 pacientes com LH em estádio avançado tratados com ABVD em instituições públicas no Rio de Janeiro, a probabilidade de sobrevida livre de progressão em cinco anos e a probabilidade de sobrevida global em cinco anos foram de 69 e 83%, respectivamente. Novas estratégias Os dois anticorpos monoclonais quem vêm sendo estudados em LH recaído/refratário são anti-CD30 e anti-CD20. O CD30 é fortemente expresso na superfície da célula de RS, não sendo expresso pela maioria dos tecidos normais. Os estudos iniciais com o anticorpo monoclonal anti-CD30 isolado ou em combinação com quimioterapia não foram muito promissores, com baixas taxas de resposta e toxicidade pulmonar. A conjugação do anticorpo anti-CD30 ao agente antitubulina monometil auristatin E resultou em 86% de resposta global e 20% de resposta completa, em pacientes amplamente tratados previamente, em um promissor estudo de fase I. Um estudo multicêntrico de fase II está sendo conduzido. O Rituximab, anticorpo monoclonal anti-CD20, não é expresso pelas células RS do LH clássico, porém está bastante presente no microambiente que as circunda, com grande quantidade de linfócitos CD20+. A droga foi testada isoladamente e em combinação com gemcitabina, com taxas de resposta global de 22% e 48%, respectivamente. Células CAR-T. Avaliação da resposta e acompanhamento a longo prazo Os pacientes que alcançam remissão completa ao fim do tratamento devem ser acompanhados com consultas a cada dois a quatro meses nos primeiros dois anos, e a cada quatro a seis meses entre três e cinco anos. A maioria das recaídas é detectada pelo paciente ou pelo médico, durante o exame clínico. Não há evidência que corrobore a necessidade de acompanhamento a longo prazo com exames de imagem. Após o fim do tratamento, um PET negativo é fortemente preditivo de ausência de linfoma em atividade. Já um PET positivo deve ser cuidadosamente avaliado, devido à frequência maior de resultados falso-positivos. Em caso de suspeita clínica de recaída da doença, o PETpode ser útil, uma vez que o seu valor preditivo negativo é alto. Monitorização e diagnóstico precoce das complicações tardias do tratamento Com as altas taxas de cura hoje alcançadas, os sobreviventes do LH podem viver por décadas. Esses indivíduos têm um risco aumentado de complicações tardias, que incluem segundas neoplasias, doença cardíaca, infertilidade e alterações hormonais. Um plano de monitorização e diagnóstico precoce dessas complicações é fortemente recomendado. Neoplasias secundárias O regime ABVD não está associado com um risco aumentado de leucemia aguda ou mielodisplasia. As drogas mais associadas a esse risco são o etoposide e os alquilantes, sobretudo quando associados à radioterapia. Os tumores sólidos são a principal causa de morbidade e mortalidade a longo prazo nos sobreviventes de LH, e se desenvolvem em aproximadamente 1% dos sobreviventes por ano. A maioria dos tumores sólidos aparece após uma latência de cinco a dez anos, e o risco é maior nos pacientes irradiados. Os tumores mais comuns acometem a mama, o pulmão e a tireoide, além de sarcomas de partes moles e ossos. O screening para câncer de mama deve ser iniciado oito anos após a irradiação mediastinal, desde que a paciente esteja com idade igual ou superior a 25 anos. Nas pacientes com menos de 30 anos, deve ser feita ressonância magnética bilateral anualmente. Em pacientes acima de 50 anos, são recomendadas mamografias. Entre 30 e 59 anos de idade, uma mamografia inicial deve ser feita e avaliada; se a paciente apresentar tecido mamário denso, os exames subsequentes devem ser feitos com ressonância magnética. Além disso, as mulheres devem fazer autoexames mensais e uma consulta anual ao ginecologista. Os sobreviventes de LH devem ser enfaticamente aconselhados a não fumar, devido ao risco de câncer de pulmão e de doença coronariana. Radiografias de tórax para screening não são recomendadas, mas um alto índice de suspeição deve ser adotado para quaisquer sintomas sugestivos, como tosse seca persistente. Da mesma forma, qualquer dor óssea e nódulos de tireoide devem ser avaliados de forma ativa por métodos de imagem e, se preciso, com a obtenção de material para exame citológico ou histopatológico. Doença cardiovascular A doença cardiovascular é a segunda causa mais frequente de morbidade e mortalidade em pacientes com LH tratados com radioterapia, associada ou não à quimioterapia. Há um risco de três a cinco vezes aumentado de doença cardiovascular, que inclui alterações valvulares, angina pectoris, infarto agudo do miocárdio e insuficiência cardíaca congestiva. As alterações valvulares são em geral decorrentes de fibrose, e podem surgir 15 a 20 anos após a radioterapia. A melhor forma de avaliação é por meio de ecocardiogramas. Os fatores de risco cardiovascular, entre eles o fumo, hipertensão arterial, hipercolesterolemia e diabetes, devem ser monitorados e controlados. A cardiomiopatia é uma complicação do tratamento com a Doxorrubicina, que se correlaciona com a dose total administrada e raramente ocorre quando essa é inferior a 400 mg/m2. Os pacientes tratados com seis ciclos de ABVD recebem apenas 300 mg/m2, o que torna a cardiomiopatia uma manifestação incomum, mas que pode ser potencializada pela radioterapia. Hipotireoidismo O hipotireoidismo acomete até 50% dos pacientes irradiados no pescoço, embora seja subclínico na maioria. A monitorização anual dos níveis de TSH deve ter início ao final do primeiro ano pós-tratamento. Se houver elevação do TSH, dosagens de T3 e T4 devem ser obtidas. Não é necessário iniciar a reposição sempre que houver elevação do TSH. Recomenda-se iniciar se o TSH estiver acima de 10 UI/mL, ou se estiver entre 5 e 10 UI/ mL na presença de bócio ou de anticorpos antiperoxidade tireoideana, porque esses pacientes estão em risco aumentado de desenvolver franco hipotireoidismo. Complicações pulmonares Pacientes tratados com Bleomicina ou radioterapia mediastinal podem apresentar infiltrados pulmonares persistentes, que podem ou não ter significado clínico. Uma avaliação da função pulmonar deve ser obtida seis meses após o término do tratamento e repetida caso o paciente venha a apresentar dispneia, tosse persistente ou pneumonias de repetição. Sempre que possível, convém evitar a exposição a oxigênio suplementar, seja para fins médicos ou para mergulho, nos dois anos que sucedem à administração de Bleomicina, devido ao risco de pneumonite. Fadiga Aproximadamente um terço dos sobreviventes queixa-se de fadiga. A natureza desse sintoma por vezes é obscura, embora seja apropriado avaliar se há concomitância de anemia, hipotireoidismo ou depressão. Na ausência desses fatores, recomenda-se atividade física aeróbica regular, mas musculação não é recomendada por alguns experts, porque acarreta sobrecarga cardíaca. Os linfomas não Hodgkin (LNH) representam um grupo amplo e heterogêneo de neoplasias linfoides, abrangendo desde linfomas agressivos, com rápido crescimento e alta mortalidade se não tratados, até doenças indolentes, geralmente incuráveis, mas com longa sobrevida. Caracterizam-se por proliferação de células linfoides anômalas, que podem comprometer os linfonodos, órgãos linfoides, medula óssea, sangue periférico e, menos frequentemente, outros órgãos. Surgem a partir de anormalidades das células linfoides B, células T ou, raramente, células NK, em qualquer etapa do seu desenvolvimento, dando origem a clones neoplásicos com características moleculares, genotípicas e fenotípicas distintas, traduzindo- se em diferentes subtipos de LNH. Os subtipos mais comuns da prática clínica são o linfoma difuso de grandes células B (LDGCB) e o linfoma folicular (LF). O linfoma linfoblástico de células B ou T é considerado um linfoma altamente agressivo e espectro da leucemia linfoblástica aguda B ou T e, portanto, discutido em outro capítulo desse livro. O LNH atualmente representa a neoplasia hematológica mais comum e a 6ª neoplasia mais frequente, perfazendo de 4 a 5% dos novos casos de câncer nos EUA. No Brasil, assim como em outros países, observa-se incidência crescente, com estimativa de 9.640 novos casos em 2012, este valor corresponde a um risco estimado de 5 casos novos a cada 100 mil homens e 4 a cada 100 mil mulheres. Outro aspecto importante é a variabilidade geográfica na incidência de alguns subtipos de LNH. Em geral, os subtipos associados etiologicamente a infecções virais ocorrem com maior frequência nas regiões endêmicas para a infecção viral relacionada como, por exemplo, os linfomas associados ao vírus Epstein-Barr (EBV): linfoma de Burkitt, forma endêmica, na África Equatorial, e o linfoma de células T/NK tipo nasal, na China. Diferenças ambientais são postuladas como fator relacionado à diferença na incidência de alguns subtipos de LNH como, por exemplo, do linfoma folicular, que é menor em países em desenvolvimento e na Ásia. Em geral, homens e indivíduos da raça branca têm maior incidência da maioria dos subtipos de LNH. Apesar da associação de vários fatores genéticos, ambientais e infecciosos ao desenvolvimento dos linfomas, a maioria dos casos permanece sem um fator etiológico identificável. O risco de desenvolver LNH parece ser maior em pessoas com irmãos ou parentes de primeiro grau portadores da doença, embora ainda exista controvérsia a esse respeito. Várias síndromes de imunodeficiência têm sido associadas a maior risco de desenvolver LNH (até 25%) como, por exemplo, a imunodeficiência comum variável, hipogamaglobulinemia, síndrome de Wiskott- Aldrich e ataxia-telangiectasia. Outro grupo de pacientes com maior risco de apresentar LNH é o de portadores de doenças autoimunes, como artrite reumatoide, psoríase e síndrome de Sjogren. Existe grande associação de agentes infecciosos com aumento do risco de desenvolver certos subtipos de LNH, sendo os principaisagentes envolvidos: • vírus Epstein-Barr (EBV): o EBV está associado ao desenvolvimento de linfoma de Burkitt em cerca de 95% dos casos endêmicos e menos comumente nos casos esporádicos. Além disso, esse vírus também está associado à desordem linfoproliferativa pós-transplante, linfoma T/NK tipo nasal e linfomas associados à infecção pelo HIV. Juntamente com o HHV- 8 também está envolvido na etiologia do linfoma primário de efusão; • vírus da imunodeficiência adquirida (HIV): pacientes infectados apresentam risco aumentado para desenvolver LNH, sendo que os linfomas de grandes células e o LNH primário de SNC são considerados doenças definidoras da SIDA. Virtualmente, 100% dos casos de LNH primário de SNC e cerca de 50% dos demais subtipos são associados à infecção pelo EBV nesses pacientes; • vírus T-linfotrópico humano (HTLV-1): foi o primeiro retrovírus associado ao desenvolvimento de neoplasia, sendo classicamente envolvido na etiologia da leucemia/linfoma de células T do adulto (LLTA). Apesar do risco de desenvolver a doença ser de cerca de 5% nos indivíduos infectados, mais de 50% dos casos de LNH em áreas endêmicas são LLTA; • herpesvírus humano tipo 8 (HHV-8): inicialmente implicado no sarcoma de Kaposi em pacientes portadores de AIDS e, também, associado à doença de Castleman, o HHV-8 foi recentemente reconhecido como fator etiológico do linfoma primário de efusão; • vírus da hepatite C (HCV): em países com incidência elevada de infecção crônica pelo HCV, observa-se maior incidência de LNH de baixo grau nesses indivíduos infectados quando comparados a um grupo controle, provavelmente secundário à estimulação antigênica crônica de células B; • H. pylori: bactéria encontrada com frequência em associação à LNH MALT gástrico. Existe a hipótese de que a estimulação antigênica crônica pelo H. pylori e gastrite poderiam levar ao desenvolvimento de clones neoplásicos de células B. Fatores ambientais também podem estar envolvidos na fisiopatologia dos LNH, entretanto, essa associação é difícil de ser demonstrada, sendo que a maior parte dos fatores de risco ambientais apresenta associação controversa. Alguns estudos demonstraram aumento de risco em fazendeiros e agricultores, além de pessoas com a exposição a herbicidas e solventes orgânicos. Entretanto, essa associação causa- efeito ainda permanece incerta. A associação com dieta também é questionável, e alguns estudos encontraram maior risco em pessoas com alta ingestão de carne e gordura na dieta. O cigarro também foi descrito como fator de risco em alguns estudos, especialmente em linfoma folicular. O diagnóstico diferencial entre o linfoma de Hodgkin e os linfomas não-Hodgkin só pode ser definido pelo patologista. Entretanto, algumas características clínicas que ajudam a diferenciar o linfoma de Hodgkin dos linfomas não Hodgkin estão descritas na Tabela. Todos os pacientes devem ser classificados quanto à presença (B) ou ausência (A) de sintomas sistêmicos, conhecidos como “sintomas B”: febre não explicada acima de 38ºC, sudorese noturna e emagrecimento maior que 10% do peso nos 6 meses anteriores ao diagnóstico. Outros sintomas como prurido, calafrios e fadiga não são considerados sintomas “B”; • designação “E”: refere-se à extensão extranodal contígua • lesões com diâmetro acima de 10 cm são consideradas bulky, designadas pela letra “X”. • Sítios ou regiões nodais: linfonodos, anel de Waldeyer, timo e baço; • sítios ou regiões extranodais: medula óssea, TGI, pele, osso, sistema nervoso central, gônadas, fígado, etc. O prognóstico dos pacientes é diretamente relacionado ao subtipo de LNH, extensão da doença, idade ao diagnóstico e ao índice de desempenho. De forma geral, o índice prognóstico mais utilizado e com maior validação nos estudos é o Índice Prognóstico Internacional (IPI), que é a ferramenta mais acurada para predizer a evolução dos pacientes portadores de LNH agressivos. O IPI original consiste de 5 variáveis: • idade > 60 anos; • DHL acima do valor de referência; • performance clínico (ECOG) ≥ 2; • estadiamento Ann Arbor III ou IV; • número de sítios extranodais envolvidos ≥ 2. Baseado nesses fatores, os pacientes são estratificados em 4 grupos com prognósticos distintos após tratamento com quimioterapia associada à rituximabe: baixo risco (0 a 1 fator), com SG em 3 anos de 91,4%, risco intermediário-baixo (2), com SG em 3 anos de 80,9%, intermediário-alto (3) com SG em 3 anos de 65,1% e de alto risco (4 ou 5 fatores), com SG em 3 anos de 59%. Outro escore prognóstico foi desenvolvido para ser aplicado no LNH folicular e é chamado FLIPI, com 5 fatores de prognóstico adverso: • idade > 60 anos; • estadiamento Ann Arbor III ou IV; • hemoglobina < 12 g/dL; • número de áreas nodais envolvidas > 4; • DHL acima do valor de referência. Os pacientes são estratificados em 3 grupos com diferentes prognósticos: baixo risco (0 ou 1 fator), com sobrevida em 5 e 10 anos de 91% e 71%, respectivamente; risco intermediário (2 fatores), com 78% de sobrevida em 5 anos e 51% em 10 anos; e alto risco (3 ou mais fatores), com SG em 5 e 10 anos de 52% e 36%, respectivamente. Estudos recentes de análise de microarranjos do DNA identificaram subtipos de LNH DGCB de diferentes prognósticos, o tipo centro germinativo, de melhor prognóstico, e o tipo célula B ativada, que apresenta pior evolução, mesmo com tratamento incluindo rituximabe.