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Insuficiência venosa crônica (IVC) Insuficiência venosa crônica (IVC) pode ser definida como o conjunto de manifestações clínicas causadas pela anormalidade (refluxo, obstrução ou ambos) do sistema venoso periférico (superficial, profundo ou ambos), geralmente acometendo os membros inferiores. A insuficiência venosa crônica (IVC) dos membros inferiores é uma afecção bastante comum, que tem sua prevalência aumentada com a idade e apresenta uma incidência maior no sexo feminino. É um conjunto de manifestações clínicas causadas por anormalidades (refluxo, obstrução ou ambos) do sistema venoso periférico (superficial, profundo ou ambos), geralmente acometendo membros inferiores. Epidemiologia 1/5 mulheres 1/15 homens Fatores de risco • Aumento da idade • Sexo feminino (principalmente no CEAP C1 e 2) • Número de gestações • Obesidade • Histórico familiar • Os dados quanto a participação do fumo, dos contraceptivos orais e da terapia de reposição hormonal na origem da doença venosa permanecem controversos. Conceitos Telangiectasias Capilares, arteríolas ou vênulas < 2mm Assintomáticas Microvarizes/veias reticulares Veias dilatadas entre 2 e 4 mm Sem elevação no plano de pele Geralmente assintomáticas Varizes Veias dilatadas >4mm Elevadas em relação ao plano da pele Geralmente sintomáticas Classificação Fisiopatologia Independente da causa, a hipertensão venosa é o núcleo central dos sintomas apresentados na IVC. Medindo-se a pressão venosa superficial distal nos membros inferiores de indivíduos normais encontramos valores de aproximadamente 80 a 90mmHg no repouso. Durante o exercício esta pressão decresce, chegando a valores como 30- 40mmHg. Já indivíduos que apresentam IVC, apesar da pressão inicial ser idêntica durante o repouso, a mesma diminui significantemente menos (para algo como 70mmHg) ou mesmo aumenta, como na ocorrência de veias perfurantes insuficientes onde a pressão do compartimento muscular pode ser transmitida à superfície. Na IVC a ocorrência de varizes primárias com disfunção da parede venosa, focal ou generalizada, parece causar a insuficiência das válvulas por afastamento de suas cúspides secundariamente a essa dilatação. A coluna de sangue formada gera uma pressão hidrostática progressivamente maior, que, com ou sem a participação de veias perfurantes insuficientes termina por transmitir-se aos capilares sanguíneos. Num primeiro momento, ocorre apenas o aumento da saída de líquido e pequenas proteínas para o espaço extra-vasal. Nesta fase, isto é compensado pela reabsorção dos mesmos pelo próprio capilar durante o repouso, bem como pela capacidade de absorção do sistema linfático o que evita alterações maiores como o edema, caracterizando assim a fase CEAP II. Com a continuidade ou piora do quadro de hipertensão venosa, a entrada de líquido e proteínas no interstício ultrapassa a capacidade de captação capilar e linfática ocorrendo o edema que caracteriza a fase CEAP III. Há participação do sistema imunológico, mediada pelas moléculas de adesão intercelular, e citocinas como interleucina e fator de necrose tumoral, ocorre um estímulo local a resposta inflamatória através de macrófagos e neutrófilos. Paradoxalmente, a presença destes fatores determina localmente um aumento da permeabilidade capilar com aumento do extravasamento que agora passa a ser acompanhado de macromoléculas e mesmo de elementos figurados do sangue como as hemácias. Os fagócitos na tentativa de absorver estes elementos aumentam a produção de grânulos citoplasmáticos contendo radicais livres de oxigênio potencializando ainda mais a resposta inflamatória local. O ambiente tecidual nas regiões mais acometidas começa a se tornar deletério as próprias células e paralelamente a isso o progressivo aumento da pressão no interstício passa a causar a diminuição de fluxo na microcirculação com consequente diminuição de oxigenação e trocas metabólicas. A lise das hemácias libera hemoglobina que no espaço extracelular é degradada a um subproduto, a hemossiderina, extremamente irritante aos tecidos. A somatória de hipoperfusão tecidual relativa e agressão celular com depósito de hemossiderina culminam na expressão da fase CEAP IV. Suas principais características incluem o eczema de estase com ressecamento, descamação, adelgaçamento e prurido na pele, sinais inequívocos da alteração inflamatória. Uma dermatite “ocre” também é observada sendo o resultado dos depósitos dérmicos e subcutâneos de hemossiderina. O próximo estágio clínico passa diretamente ao CEAP VI, quando o agravamento da condição tecidual é tal que proporciona a destruição da pele e solução de continuidade com os tecidos mais profundos, a denominada “úlcera de estase” ou “úlcera varicosa”. Tal situação deve ser evitada ao máximo visto que de 50 a 75% destas úlceras demoram de 4 a 6 meses para cicatrização enquanto pelo menos 1/5 delas permanecem abertas por mais de 2 anos. Quadro clínico Principais sinais e sintomas: • Formigamento; • Dor; • Queimação; • Câimbras musculares; • Inchaço; • Sensação de peso ou de latejamento; • Prurido cutâneo; • Pernas inquietas; • Cansaço das pernas e fadiga. De forma geral tais sintomas tendem a se acentuar durante o dia, especialmente após longos períodos em ortostase e melhoram com a elevação dos membros. Diagnóstico Anamnese O histórico do paciente pode ajudar na diferenciação de varizes primárias, secundárias ou congênitas. Deverá ser questionado ao paciente para afastar causas secundárias: - Presença de tromboflebite ou TVP anterior; - Diagnóstico de trombofilia; Traumatismo prévio; - Mulheres na pré-menopausa com veias varicosas devem ser questionadas sobre sintomas da síndrome de congestão pélvica (dor pélvica, sensação de peso, dispareunia). - Histórico familiar de varizes Cirurgias ou procedimentos para tratar varizes prévios Exame físico Recomenda-se avaliação clínica a procura dos sinais de IVC, preferencialmente com a exposição dos membros inferiores desde os pés até a virilha, mas também com a possibilidade de avaliar o abdome e região a genital em casos específicos. O exame físico deve ser iniciado com paciente em pé, após alguns minutos de ortostatismo, em uma sala com temperatura ambiente adequada, com boa iluminação, afim de facilitar para o médico definir o tamanho, localização e distribuição das veias varicosas, presença e quantificação do edema, eventuais alterações de pele como hiperpigmentação, eczema, atrofia branca e úlceras cicatrizadas ou abertas. Após o exame em ortostatismo, o doente pode deitar e o restante do exame é concluído, incluindo palpação de pulsos para afastar alterações arteriais grosseiras. A avaliação inclui todas as faces de ambos os membros inferiores, que são avaliados individualmente e depois comparativamente, incluindo medidas nos pontos principais como tornozelo, panturrilha e coxa. Exames complementares Ultrassonografia: A ultrassonografia Doppler venosa de MMII permite o diagnóstico anatômico e topográfico dos refluxos venosos patológicos, constituindo-se no padrão-ouro para a investigação atual dos pacientes com insuficiência venosa crônica. Além do mapeamento venoso, por meio de manobras, podem-se avaliar a função das válvulas e o seu funcionamento, indicando os locais de refluxo e obstrução. Flebografia: Exame invasivo considerado padrão- ouro no estudo da IVC, a flebografia é feita em duas etapas: ascendente e descendente. A primeira mostra aspectos morfológicos, como paredes, válvulas e luz, e a segunda, aspectos funcionais, particularmente o refluxo venoso. Por ser invasivo, esse exame é raramente utilizado. Tomografia computadorizada: Atualmente, pode- se obter, utilizandoinjeção de contraste, boa visualização do sistema venoso. É preciso técnica apropriada para o tempo do contraste, o que permite não só a análise do sistema venoso, mas também possíveis causas de compressão. Atualmente a principal indicação da tomografia nos pacientes com insuficiência venosa é para investigação de síndrome de Cockett. Tratamento É importante lembrar que pacientes com maiores riscos de desenvolver insuficiência venosa devem ser orientados a seguir medidas para a prevenção da doença. São medidas preventivas o uso de meias de compressão, realização de exercícios físicos regulares, perda de peso, elevar os membros inferiores e evitar períodos longos em pé. Para os pacientes já com sinais e sintomas de insuficiência venosa, existem diferentes tipos de tratamento. Sintomático Atividades físicas e medicamentos flebotômicos auxiliam no controle da sintomatologia. Esses medicamentos aumentam o tônus venoso e reduzem a permeabilidade e a fragilidade capilar. Alguns exemplos são a castanha-da-índia, a diosmina associada à hesperidina, a aminaftona, o tribenosídio e os fitoterápicos. As medicações não devem substituir o tratamento de compressão elástica nem os hábitos de vida que amenizem a estase venosa. Meias de compressão Meias de compressão elásticas são práticas e eficientes. Exercem maior compressão no maléolo, com redução no sentido proximal. Assim, diminuem a capacitância dos sistemas venosos superficial e profundo e corrigem alguns refluxos e distúrbios de pressões teciduais, promovendo o fluxo venoso fisiológico. A prescrição da meia de compressão deve respeitar a patologia em tratamento com as seguintes indicações de intensidade de compressão: • 15 a 20 mmHg: profilaxia, viagens de longa distância; • 20 a 30 mmHg: CEAP 2 e 3; • 30 a 40 mmHg: CEAP 3, 4 e 5, linfedemas leves, síndrome pós-trombótica, TVP. Escleroterapia A finalidade é eliminar as pequenas microvarizes e telangiectasias por meio de injeção de substância que provoca irritação no endotélio venoso e induz a transformação da veia em um cordão fibroso. As substâncias mais utilizadas são: • Glicose hipertônica a 75%: principalmente em telangiectasias, pode ser resfriada com nitrogênio líquido; • Oleato de monoetanolamina (Ethamolin®): pouco utilizado; • Polidocanol: seu uso na forma de espuma tem sido amplamente divulgado. Pode ser usado tanto em veias reticulares como em varizes e, em alguns casos, na veia safena magna. Causa uma inflamação local e oclusão da luz venosa. É a principal indicação como forma alternativa ao fechamento de úlceras venosas em idosos. Pode causar manchas definitivas na pele. É recomendada a monitorização do procedimento por meio de ultrassonografia para evitar complicações e melhorar a técnica. Laser transdérmico Tem demonstrado eficácia clínica para telangiectasias, principalmente quando associado à escleroterapia. Cirúrgico Têm indicação de tratamento cirúrgico os portadores de varizes primárias dos membros inferiores com os objetivos de remover os pontos de refluxo e as veias varicosas, aliviar a sintomatologia e evitar a evolução da hipertensão venosa crônica. As técnicas mais utilizadas são: • Retirada de microvarizes: pode ser feita com anestesia local e microincisões escalonadas; • Retirada de colaterais: retiram-se as veias por incisões escalonadas, de pequeno tamanho; • Safenectomia: retira-se a veia safena magna ou parva quando há sintomatologia importante e insuficiência comprovada por exame de imagem. É contraindicada a casos de trombose venosa profunda; • Ablação térmica da veia safena: técnica utilizada para tratamento da safena em substituição à safenectomia, podendo ser realizada com cateter de radiofrequência ou laser. O cateter provoca uma lesão térmica do endotélio venoso, causando a oclusão da veia. Esta técnica requer monitorização com ultrassonografia; • Ligadura de veias perfurantes insuficientes – técnicas de Linton, Felder ou ligadura videoassistida: cirurgia para ligadura das veias perfurantes insuficientes; • Valvuloplastia: está indicada na insuficiência do sistema venoso profundo quando há safenectomia e a erradicação das colaterais não foi suficiente para o controle dos sintomas. É mais utilizada na IVC primária; • Implante de stent: técnica endovascular utilizada para o tratamento das doenças venosas obstrutivas das veias ilíacas, decorrentes de compressão extrínseca, principalmente síndrome de May-Thurner. São complicações possíveis nas cirurgias de varizes: hemorragias, linforragias, lesão de estruturas vasculares (artéria ou veia femoral, artéria ou veia poplítea), lesão de nervo motor (fibular), lesão de nervos sensitivos (safeno, sural ou nervos cutâneos), trombose venosa profunda, infecção, tromboflebite e linfedema. Tratamento das úlceras varicosas O tratamento das úlceras baseia-se na correção do refluxo venoso, na realização de curativos locais e no controle da infecção. O refluxo venoso pode ser corrigido com meias de compressão e, se possível, cirurgia. Os curativos visam proporcionar um meio favorável à cicatrização. A infecção deve ser tratada com antibioticoterapia sistêmica oral ou intravenosa. A bota de Unna é um tipo de curativo muito usado em úlceras avançadas. Consiste em uma atadura inelástica impregnada com uma pasta de zinco aplicada em toda a perna, como um gesso. Além de atuar sobre a úlcera, a compressão inelástica reduz a estase venosa crônica, principalmente durante a deambulação do paciente.