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MÓDULO 5 A neurociência e as demandas do ensino de jovens e adultos Professor(a), o Módulo V corresponde à parte final deste curso de formação, que buscou integrar os conhecimentos advindos da neurociência e do funcionamento do cérebro aos questionamentos atuais a respeito das práticas pedagógicas na Educação Básica brasileira. Procurou-se, por meio de cada uma das etapas do ensino, desenvolver discussões, trazendo uma compreensão de como o cérebro se forma e é capaz de desempenhar suas diferentes funções, bem como refletir sobre práticas e estratégias pedagógicas em cada uma das fases do desenvolvimento. Como comentado no início e ao longo do módulo introdutório deste curso de formação (Módulo I), a intenção da neurociência aplicada à educação é auxiliar no entendimento dos processos que perpassam o aprendizado ao longo do curso do desenvolvimento, proporcionando conhecimentos de base científica aos educadores para que estes possam pensar e propor métodos de ensino e aprendizagem mais eficientes e alinhados ao funcionamento do nosso cérebro. No caso deste último módulo, em específico, será abordada a Educação de Jovens e Adultos (EJA), a qual corresponde à formação em um período posterior do desenvolvimento, quando comparado à infância e à adolescência. Considerando que a EJA compreende indivíduos em diferentes fases da vida, torna-se necessário conduzir discussões que possibilitem pensar nas oportunidades e desafios impostos para a aprendizagem dos conteúdos básicos formais na idade adulta. Uma das particularidades que podemos destacar, de início, a respeito desse período da vida refere-se à formação do nosso cérebro. Reconhece-se que, a partir da adolescência e com ingresso na fase adulta, nosso cérebro já percorreu a maior parte de sua trajetória do neurodesenvolvimento, portanto, temos diante de nós uma estrutura mais bem formada e acabada, com suas conexões e, consequentemente, funções cognitivas estabelecidas. Aprendemos ao longo do curso, no entanto, que isso não significa necessariamente dizer que a partir de então, na fase adulta de nossas vidas, não ocorrem mais transformações e modificações das estruturas e funções cerebrais, passando o cérebro a ser algo imutável. Sabe-se que processos de modificação (neuroplasticidade) seguem ocorrendo ao longo da vida e que, consequentemente, novas conexões e aprendizagens podem ser formadas. É importante destacarmos, entretanto, que a dinâmica da vida de um adulto difere significativamente da realidade vivida durante a infância e adolescência e, por esta razão, nem sempre o cérebro se encontra tão disponível para recuperar aprendizagens deixadas no passado. Em muitos casos, esses alunos da EJA foram adolescentes que precisaram desde muito cedo trabalhar e ajudar no sustento de suas famílias, deixando a escola em segundo plano. Neste novo momento, no entanto, tais alunos estão fazendo um movimento de reingresso, seja por demandas profissionais, cobrança da sociedade ou desejo pessoal de finalizar a formação básica. Cada aluno passa a ser único, por meio de sua trajetória, responsabilidades e valores pessoais. Nesse sentido, impõe-se para a educação um enorme desafio a fim de engajar e motivar esses estudantes jovens e adultos em uma sala de aula, contexto ao qual não foram habituados ou precisaram evadir em algum momento de suas vidas. Você, educador(a), deve se lembrar dos questionamentos levantados no módulo anterior a respeito do processo de desenvolvimento das habilidades de “aprender a aprender”. Pois então, é em face a isso que se discute que as práticas e metodologias a serem trabalhadas pelos educadores necessitam ser devidamente adaptadas a essa realidade. Muitos dos alunos da EJA precisaram abandonar ou não tiveram acesso à educação formal e acabaram desenvolvendo suas aprendizagens em contextos práticos e aplicados e não teóricos ou de sala de aula. Isto torna o ambiente de sala de aula um ambiente estranho, não familiar, o que desfavorece a disponibilidade para aprender do aluno jovem ou adulto. Como sabemos, para que as aprendizagens ocorram é exigido que o aluno consiga processar as informações apresentadas e, para tal, faz-se necessária a disponibilidade e presença do aluno, a fim de direcionar os esforços cognitivos e atencionais para o processo de aprendizagem. Percebe-se que nem sempre é possível tal esforço, considerando as diversas demandas de vida impostas a esses alunos. Reconhece-se que essa realidade para jovens e adultos compete com esforços e demandas profissionais, pessoais e familiares, o que inclui as mais diferentes responsabilidades pertencentes a essa etapa da vida. Nesse sentido, serão discutidas, ao longo deste módulo, as diferenças nos períodos do desenvolvimento e momentos de vida que fazem parte da realidade dos alunos nesta modalidade de ensino e que devem ser levadas em consideração pelos educadores. Além disso, será debatido o reconhecimento da persona do estudante da EJA, a partir de suas necessidades e dos desafios impostos. A ideia aqui é alinhar essas diferenças e necessidades específicas com o perfil cognitivo de jovens e adultos, enxergando oportunidades e desafios presentes no ato de aprender bem como as formas que podemos pensar em endereçar estratégias e transmitir os conhecimentos formais que compõem a estrutura curricular da EJA. Para isso, temos que olhar e compreender essa parcela da população-alvo, com características heterogêneas, sendo composta por indivíduos de diferentes idades e vivências. Aqui teremos um olhar para o funcionamento do cérebro adulto e sua interação em contextos e realidades que atravessam a vida dos jovens e adultos. 1 A Educação de Jovens e Adultos: reconhecendo as diferenças e a persona dos alunos jovens e adultos em sala de aula O projeto educacional para jovens e adultos reproduz, em parte, o currículo formal proposto pela Educação Básica, abrangendo conteúdo do Ensino Fundamental e Médio. A ideia por trás desses currículos da Educação Básica brasileira encontra-se muito atrelada à formação de jovens com conhecimentos e competências para ingressar e responder às demandas da sociedade (o que foi discutido principalmente no Módulo IV, que trata do Ensino Médio). São experiências e saberes que vêm sendo construídos ao longo do desenvolvimento, na infância e adolescência, e que se espera que possam ser aplicados para uma melhor adaptação à realidade do mundo adulto. Quando nos deparamos com a EJA, no entanto, temos uma significativa mudança de realidade imposta. Esses grupos de jovens e adultos são formados por uma diversidade de sujeitos com trajetórias de vida distintas, pertencendo, muitas vezes, a coletivos e/ou grupos minoritários ou, ainda, representando uma parcela da população que não teve acesso ou real oportunidade de trilhar o caminho da Educação Básica pelas mais diferentes razões. Segundo o modelo de educação de Paulo Freire, coloca-se na educação o objetivo de que o aluno (no caso de jovens e adultos) seja capaz de ler o mundo à sua volta a partir dos atravessamentos de sua história, experiência de vida, cultura e demandas da sociedade. Isso, nessa etapa do desenvolvimento, torna a formação libertadora para além dos próprios conhecimentos formais adquiridos. É nesse sentido que se coloca diante dos educadores uma das primeiras questões para a educação de jovens e adultos, isto é, a descoberta de quem são esses alunos e por quais razões ou necessidades eles estão buscando retomar o processo de aprendizagem formal que foi interrompido em algum momento no passado. Você, educador(a), seria capaz de responder a estas simples perguntas: Quem são os seus alunos? Quais as suas histórias de vida? Que aprendizagens, competências e habilidades estes alunos desenvolveram ao longo da sua trajetória de vida e nos seus respectivos contextos profissionais e laborais? Tais questionamentos sefazem importantes pela necessidade que se tem hoje de compreender quem são esses indivíduos que retomam seus estudos, possibilitando ao educador integrar as vivências e saberes e direcioná-las para o desenvolvimento das aprendizagens formais (aquelas que foram abandonadas ou nunca vivenciadas em períodos anteriores da vida). Sabemos que uma das propostas subjacentes, a (re)inserção de jovens e adultos na educação, busca torná- los mais bem preparados para o mercado de trabalho e para os desafios impostos por uma sociedade desigual. Além disso, reconhece-se que é essencial romper as diferentes formas de analfabetismo, como o analfabetismo político, para possibilitar o desenvolvimento de competências que estimulem os jovens e adultos a problematizarem seus lugares no mundo que os rodeia. Figura 1. Exemplo de reflexão pedagógica para formação política e social Fonte: Nossa autoria (2023). Por esta razão, uma das principais reflexões que se coloca diante dos educadores trata de como auxiliar nesse processo sem desconsiderar as experiências de vida e a forma pela qual várias aprendizagens foram consolidadas ao longo da vida destes alunos a fim de darem conta das demandas do ambiente e de sua realidade. Tudo isso sem que a prática pedagógica coloque o aluno em um lugar de “depositário” e, sim, passe a considerar a existência de diferentes saberes. Professor(a), na esteira desta reflexão, faz-se necessário pensar uma prática de ensino implicada que reconheça as singulares demandas dos jovens e adultos aprendizes. A fim de propor diferentes estratégias que abarquem tanto a diversidade quanto as identidades e saberes prévios destes alunos, é imperioso o reconhecimento de que estes sujeitos podem ser protagonistas no seu próprio processo de aprendizagem. A professora Raianny Araújo compartilha sua trajetória e experiência em processos formativos dentro da EJA no canal TEDxAltodoMouraED: https://www.youtube.com/watch?v=WK1TGm5oAuw https://www.youtube.com/watch?v=WK1TGm5oAuw Essa TED Talk propõe-se a unir pessoas comprometidas com a transformação social por meio da educação, compartilhando experiências e questionamentos que visam mudar a realidade do ensino em diferentes contextos. Ao contar sobre sua experiência, Raianny Araújo destaca o projeto desenvolvido com os alunos da EJA, denominado “Projetando o futuro”, cujo objetivo era ressignificar o lugar que os estudantes ocupavam no mundo do trabalho. Tal projeto, após um ano de trabalho, contribuiu para a redução dos índices de evasão escolar em, aproximadamente, 30%. A professora enfatiza, desta forma, a importância de, a partir da necessária consideração dos aspectos particulares deste momento de vida dos alunos, poder oferecer um processo educativo de excelência que considere a capacidade destes sujeitos de aprender e de “não deixá-los para trás”. 2 Pensar na EJA, portanto, exige, de antemão, uma revisão dos modelos pedagógicos existentes e aplicados nas diferentes fases da Educação Básica. Os educadores são desafiados a buscarem metodologias que possam ser adaptadas a esse público-alvo. O que pode ter sido uma estratégia básica para o ensino e aprendizagem de determinados conteúdos no passado pode não se apresentar da mesma forma para alunos da EJA. Portanto, passa a ser fundamental que os educadores considerem o desenvolvimento de um modelo pedagógico próprio e capaz de criar um ambiente educacional e formativo que atenda às necessidades de aprendizagem dos jovens e adultos. O papel do educador é de destacar e estimular a curiosidade dos educandos, trazendo questionamentos acerca das diferentes realidades e saberes, problematizando as experiências e exemplos práticos de vida trazidos pelos alunos. Tal reflexão vai de encontro com certas realidades com as quais nos deparamos no que se refere às práticas pedagógicas vigentes na EJA. O que se observa em alguns casos, por exemplo, é a manutenção da mesma lógica da formação básica, agora aplicada a uma outra faixa etária. Se nas demais etapas da educação havia o propósito de não separar as aprendizagens dos conteúdos formais das realidades de mundo, possibilitando o preparo da criança e adolescente para o ingresso na vida adulta; na EJA, essa segmentação de realidades aparece de forma marcada. O jovem e adulto já faz parte da realidade de mundo e, agora, precisa ir em busca dos conhecimentos e aprendizagens formais que não foram desenvolvidos anteriormente, ao longo da vida, em um contexto artificial, de laboratório ou sala de aula. Nesse contexto, nos deparamos com práticas pedagógicas por vezes infantilizadas e que seguem a mesma lógica de ensino escolar dos anos anteriores da formação básica. É comum observarmos que educadores tendem a usar termos e metodologias de ensino inadequadas para uma relação com adultos, que podem ter as mais diferentes idades. O que acontece na prática é uma lógica de reaproveitamento dos conteúdos dos anos iniciais do Ensino Fundamental, ministrados em um ambiente de aula com jovens e adultos. Figura 2. Práticas pedagógicas inadequadas para o público da EJA Fonte: Nossa autoria (2023). Um exemplo clássico discutido por vários autores refere-se à necessidade do uso de tarefas de casa ou atividades extraclasse a fim de complementar e reforçar os conteúdos apresentados em sala de aula. Tais práticas são propostas interessantes e fundamentais no processo formativo de crianças e adolescentes, de modo a não só organizar e revisar os conteúdos trabalhados em sala de aula como também desenvolver habilidades e competências de organização, autonomia e planejamento para realização de tarefas fora do contexto escolar. No entanto, frente à realidade de muitos adultos que frequentam a EJA — os quais não tiveram possibilidade de desenvolver tais competências no passado ou que não apresentam capacidade de organização e planejamento para executar atividades dentro de suas rotinas —, tais práticas podem se tornar ineficazes e gerar uma demanda excessiva para os alunos. Isso sem contar que a maior parte dos alunos da EJA tem uma carga horária de atividade profissional (seja formal ou informal) ou familiar elevada, o que faz com que suas capacidades e recursos cognitivos estejam comprometidos ao final da jornada de trabalho. Figura 3. Cotidiano do aluno da EJA e o baixo aproveitamento escolar Fonte: Nossa autoria (2023). Dados de investigações feitas com alunos da EJA têm corroborado essa ideia. Alguns estudos referem que pelo menos 40% dos alunos possuem dificuldade de acompanhar as aulas por conta do trabalho ou ocupação que exercem. Frequentemente esses alunos relatam que chegam atrasados, que não são capazes de acompanhar o início da aula e que apresentam excesso de cansaço, tanto físico quanto mental. Ainda, para cerca de 40% dos alunos também foi referida uma dificuldade de assimilar os conteúdos por conta da falta de oportunidade e desenvolvimento das capacidades cognitivas na infância e adolescência, ou pelo tempo que passaram distante de sala de aula. Uma parcela menor, cerca de 20% dos entrevistados pelo estudo, refere que possuem dificuldade de deslocamento, o que impacta no aproveitamento escolar. Todos esses fatores afetam a motivação e o engajamento dos alunos pertencentes à EJA. Então, o que devemos nos perguntar, Professor(a), é: o que e como fazer? Para termos estas respostas, precisamos retomar alguns conceitos importantes e modelos de práticas de ensino como aqueles propostos pela Andragogia. Nos princípios andragógicos é referido que educar jovens e adultos é uma prática de guiar os estudantes ao longo do seu processo de aprendizagem. Os saberes devem estar disponíveis de modo a serem compartilhados pelo grupo, incluindo os próprios educadores como sujeitos do processo de aprender e adquirir conhecimentos (como ilustrado na representação da figura abaixo). Figura 4.Diferença entre pedagogia e andragogia Fonte: Adaptada de Formigosa (2021). 3 A Andragogia é uma prática totalmente voltada para contextos nos quais se colocam, diante dos educadores, alunos/aprendizes heterogêneos e com trajetórias de vida das mais diversificadas. Segundo as premissas andragógicas, deve-se ter como parte do processo de desenvolvimento das diferentes aprendizagens: autonomia, humildade, ação, dúvida, argumentação e experiência de vida. Sendo assim, nessa modalidade de ensino faz-se necessária a constante atualização e a capacidade de resolução de problemas práticos, de modo a ser capaz de oferecer um campo de ensino rico e favorável para o desenvolvimento pessoal e profissional dos jovens e adultos. Para uma leitura mais detalhada sobre as premissas da Andragogia, sugere-se a leitura do texto “As Premissas do Modelo Andragógico” (2016), do autor Caio Beck. BECK, C. As Premissas do Modelo Andragógico. Andragogia Brasil, 27 jul. 2016. Disponível em: https://andragogiabrasil.com.br/as-premissas-do-modelo-andragogico/ Para podermos refletir um pouco a respeito desta prática na qual o estudante é ator de sua aprendizagem, coloca-se aqui uma Talk interessante da professora de literatura americana da seção internacional do Instituto Nelson Mandela de Nantes, França, Marie-Hélène Fasquel. No vídeo ela aborda diferentes estratégias, a partir de sua experiência prática, que podem ser adaptadas para o contexto do educador em sala de aula. https://www.youtube.com/watch?v=La2iRoLKFfM https://andragogiabrasil.com.br/as-premissas-do-modelo-andragogico/ https://www.youtube.com/watch?v=La2iRoLKFfM Diversos debates permeiam os temas das práticas pedagógicas e andragógicas, pois, de certa forma, se reconhece, na atualidade, os desafios, em conjunto com uma razoável carência, da formação dos educadores da EJA. Deve-se considerar os desafios para a manutenção e, até mesmo, para um melhoramento da qualidade do ensino e preparação dos educadores. Muitos deles possuem uma formação generalista, pedagógica, o que se mostra insuficiente diante de cenários tão complexos e diversificados. Possível dificuldade de aprendizagem Entre diversos destes cenários adversos, podemos ilustrar o caso de um aluno para além dos seus 50 anos que vem apresentando dificuldades em desenvolver operações matemáticas básicas correspondentes ao que é ensinado no segundo ano do Ensino Fundamental. O professor percebe que o aluno não se mostra capaz de desenvolver cálculos aritméticos que envolvem soma, subtração, multiplicação e divisão e que, frequentemente, não entrega as atividades propostas. Estamos diante de uma situação comum em sala de aula. Dissociação do conteúdo Para pensar a resolução de um problema como o ilustrado, precisamos recorrer a um olhar mais atento para o caso deste aluno. Trata-se de um aluno de mais de 50 anos, como comentado, que ao longo da sua vida toda, de alguma maneira, desempenhou a gestão e o controle financeiro de sua família. Essa realidade imposta pela vida nos revela que, mesmo sem conseguir desenvolver operações básicas de matemática em uma tarefa artificial de sala de aula, o aluno foi capaz, por anos, de aplicar tais operações a fim de promover a gestão e o sustento de sua família. Necessidade de se trabalhar a utilidade concreta dos conhecimentos escolares O que acontece aqui é o que podemos considerar como um problema de “dissociação do conteúdo” — proposto artificialmente — da forma como ele é aplicado na realidade de vida do aluno da EJA. Sendo assim, uma das primeiras reflexões necessárias para propor práticas com jovens e adultos é a de que se deve trabalhar a utilidade concreta dos conhecimentos aprendidos, envolvendo, inclusive, situações reais e que façam parte da rotina de vida do aluno como forma de exemplificar os conteúdos a serem aprendidos. Para isso, sempre, ao planejar suas práticas, o educador deve ter consigo o seguinte questionamento central, que deve permear o ato de ensinar na EJA: por que esse jovem ou adulto precisa aprender sobre isso neste momento da vida? A partir disso, surge um segundo questionamento: qual a maneira mais adequada de apresentar esses conteúdos formais a este aluno de modo que isso se torne significativo e útil para ele? 4 Uma das discussões levantadas por vários educadores aqui refere-se à relação da experiência de vida do aluno, suas vivências e práticas com o que está sendo estudado enquanto matéria curricular. Trata-se de tornar o conteúdo relevante para o jovem e adulto, de modo que esteja alinhado com suas experiências passadas ou que possa vir a ser útil em situações futuras. O cérebro de um adulto tende a funcionar a partir desta lógica, relacionando as informações novas aprendidas com aquilo que é conhecido, do campo da experiência ou prática. Isso faz com que o conteúdo passe a ter um papel importante, formativo, para o desenvolvimento daquele aluno e adquira potencial de melhorar sua condição de vida futura. Figura 5. Significação de conteúdos escolares Fonte: Nossa autoria (2023). Outro ponto a ser destacado enquanto característica presente no perfil de alunos jovens e adultos é a formação de sua personalidade. Alunos adultos tendem a ter um maior direcionamento dos seus investimentos e esforços pessoais para eles mesmos ou para seus propósitos e valores de vida já constituídos. Pode-se compreender que isto nos leva a nos tornarmos mais autocentrados e, inclusive, egoístas durante os processos de aprendizagem. Ou seja, nesse sentido, é preciso que determinado conteúdo ou aprendizagem tenha significado e aplicabilidade para “minha vida”. Isso de fato representa um desafio a mais para os educadores, pois requer que as estratégias de ensino e aprendizagem sejam centradas no aluno. Como comentado anteriormente na situação ilustrada, o uso de exemplos em sala de aula precisa ser direcionado para o aluno, de forma com que o conteúdo possa ser aplicado em seu contexto de vida. É esse tipo de movimento e estratégia pedagógica que o educador precisa adotar para favorecer a motivação e o engajamento do aluno em seu processo de aprendizagem, estimulando o uso e aplicação dos conhecimentos para além da sala de aula. Uma alternativa é a construção de projetos aplicados, os quais possam ser implementados (serem utilizados) fora de sala de aula, no contexto de trabalho e rotina dos alunos. Um cuidado, no entanto, na proposição de tais projetos é que estes devem se encaixar dentro do espaço e do tempo dos cronogramas e planos de ensino. Como comentado, um dos fatores desmotivadores para alunos da EJA é a percepção de excesso de demandas para além dos horários de aula, que acabam por tornar o processo de aprendizado mais exaustivo do que produtivo. Professor(a), os dois fatores citados anteriormente, motivação e engajamento, também representam elementos centrais do processo de aprendizagem na EJA. Para isso, você, educador, deve ser capaz de fornecer um feedback continuado ao longo das tarefas e atividades, tornando o aluno jovem e adulto dedicado e estimulando nele seu propósito de evolução. Aqui, temos um ponto central que deve ser considerado por todos os educadores: dar feedback. A pergunta que fica é: como serei capaz de fazer isso? Um ponto importante que diferencia o reforço positivo causado pelo feedback direcionado a um jovem ou adulto daquele direcionado aos processos de aprendizagem, principalmente na infância, refere-se à especificidade do elogio ou feedback. É necessário que fique claro para o aluno aquilo que está sendo reforçado, ou seja, que habilidades ou competências foram conquistadas e estão recebendo destaque. Esse detalhe é importante, pois tem sido sugerido que tal fato pode contribuir para um maior efeito na motivação e engajamento do indivíduo durante seu processo de aprendizagem. Figura 6. Especificidadede elogio do(a) docente para estudante Fonte: Nossa autoria (2023). Falando em motivação e engajamento, entende-se que também faz-se necessário o uso de práticas e metodologias ativas e que incentivam o papel participativo do aluno em sua formação, no intuito de aumentar o engajamento de jovens e adultos. Inclusive, é possível que essa necessidade seja mais importante na EJA do que em períodos anteriores da educação. Isso porque para um jovem ou adulto o aproveitamento e valor do seu tempo é algo importante. Neste mesmo sentido, a postura do educador deve permitir a criação de um ambiente amigável e, se possível, descontraído de aprendizagem. Aqui, encontra-se espaço para o lúdico e para o uso de humor enquanto estratégias que são sugeridas como facilitadoras de envolvimento e manutenção da atenção durante o processo de aprendizagem. Figura 7. Exemplo de práticas e metodologias ativas na EJA Fonte: Nossa autoria (2023). Como mencionado anteriormente, se o momento de aprender for algo entediante, descontextualizado e extremamente rígido e estruturado, o jovem ou adulto não irá querer estar em sala de aula, pois esse momento representará para ele um tempo perdido. As práticas pedagógicas lúdicas devem ser elaboradas considerando a criação de um espaço prazeroso e capaz de estimular recursos cognitivos, tais como: o raciocínio lógico e abstrato; o planejamento e a resolução de problemas; e a tomada de decisão. Além disso, por meio de atividades lúdicas se possibilita a apropriação do conhecimento de forma interacional, articulando aprendizagens de leitura, escrita, matemática, entre outras disciplinas. 5 Devemos ter a ideia de que, ainda que o aluno educando da EJA tenha o desejo de aprender, ele precisa que as estratégias ofertadas para sua educação sejam adaptadas a sua realidade. Esses jovens e adultos possuem um chamado “saber sensível”, pois estão em busca de aprendizagens, mas, ao mesmo tempo, carregam histórias e vivências das quais são atores principais. Ou seja, são capazes de agregar ao ambiente de sala de aula crenças, culturas, valores já construídos. Os gestores da educação e profissionais educadores precisam se conscientizar de que sua formação base, capaz de atender às demandas das outras etapas do desenvolvimento escolar, pode não ser suficiente para lidar com as demandas advindas da educação de alunos jovens e adultos. Os problemas de abandono e evasão enfrentados pela EJA parecem ser alguns dos reflexos dessa dificuldade de se adaptar metodologias de aprendizagem às demandas e necessidades desta população específica (assim como muito se discutiu as questões de necessidades e demandas de cada etapa do desenvolvimento nos módulos anteriores). Segundo as ideias de Paulo Freire em sua publicação “Educação e atualidade brasileira” (FREIRE, 2001), a educação não deve reproduzir apenas estratégias mecânicas de ensino a partir da transmissão de conteúdo. Esse pensamento, válido para as diferentes etapas do desenvolvimento, se faz ainda mais importante quando se refere à educação de jovens e adultos. A educação aqui, neste momento, necessita da presença de espaços para diálogos e trocas, sendo tanto o educador quanto o aluno agente ativo do processo. Ainda em suas considerações, Freire discute o quanto o ato de ensinar é aquele que possibilita um espaço para construção de diálogos entre professor e aluno. A relação professor-aluno revela-se chave. Portanto, como discutido, é necessário que o educador seja capaz de assumir um papel de mediador e incentivador de cada aluno, estimulando os estudantes a superarem os desafios de retomar sua formação básica de ensino. O próprio material a ser utilizado deve ter como objetivo auxiliar o aluno a concretizar seu processo de aprendizagem e não representar um desafio a mais para superação deste obstáculo que é a aprendizagem. Muito se refere ao uso de projetos aplicados como uma das principais vantagens a fim de aproveitar, enquanto recurso pedagógico, as experiências individuais de cada aluno. Nesse tipo de recurso, a aprendizagem passa a ter um significado, sendo possível vislumbrar uma aplicação prática para o conhecimento. Deste modo, também, é possível que o educador possa se aproximar e conhecer o aluno através de suas histórias e seu perfil, estabelecendo um ambiente leve de convivência e uma relação de confiança. Essa aproximação permite que o educador possa fazer uso da experiência e vivência do jovem ou adulto, a fim de consolidar um dos pilares do processo de ensino: a exemplificação e aplicação dos conceitos e conhecimento da realidade. Assim, o professor-mediador passa a ser um facilitador de práticas educativas que visam a valorização do conhecimento prévio, sendo capaz de transformar tais conhecimentos práticos em conhecimentos reflexivos, e vice-versa. As contribuições da neurociência para a Educação de Jovens e Adultos: os desafios da aprendizagem e do uso das funções cognitivas em sala de aula Professor(a), considerando os desafios impostos pela especificidade da população-alvo e pela presença da diversidade e diferença na EJA, compreendemos que o papel do educador nos processos de ensino- aprendizagem possui um caráter transformador na vida dos alunos. De forma distinta a outros períodos do desenvolvimento escolar, o envolvimento com os processos de alfabetização, aquisição de habilidades de leitura, escrita e matemática, entre outros conhecimentos que fazem parte da base curricular, irá incidir diretamente no cotidiano do jovem e adultos. Acompanhar e observar tais processos é gratificante tanto para os alunos como para os educadores, pois se refere à conquista de algo que até então havia sido abandonado em razão das demandas de vida. Para que as aprendizagens possam ocorrer, no entanto, sabe-se que há necessidade de recrutar e usar dos múltiplos recursos cognitivos disponíveis e já consolidados na idade adulta. Deve-se reconhecer de início que alguns destes processos talvez não tenham sido devidamente estimulados e reforçados ao longo da vida, pois nem sempre houve tempo e oportunidade suficiente para isso na trajetória desses alunos. Por essa razão, considera-se necessário que os educadores estejam preparados para auxiliar os jovens e adultos no resgate de algumas tarefas que envolvem desenvolvimento, estimulação e aplicação das suas capacidades cognitivas. Conhecermos um pouco mais do funcionamento do cérebro nos auxilia a pensar como seremos capazes de estimular diferentes funções cognitivas de nossos alunos e direcioná-las para a aprendizagem. Professor(a), neste ponto da formação, ao pensar a EJA, sugere-se a revisão do Módulo I, especialmente no que se refere aos tópicos relacionados às funções cognitivas. Estimular diferentes capacidades cognitivas do nosso cérebro durante o processo de aprendizagem torna-se uma ferramenta importante para superar os obstáculos anteriormente debatidos, que se fazem presentes na sala de aula na EJA. Como comentado no tópico anterior, a EJA pode ser vista a partir da finalidade de desenvolver novos conhecimentos que serão integrados ao repertório de aprendizagens prévias de vida, adquiridas de forma empírica, pela experiência. Dizer que um jovem ou adulto aprende é afirmar que ele foi capaz de adquirir conhecimentos formais e orientá-los para a resolução de problemas e tarefas reais utilizando atitudes, habilidades ou conhecimentos. Assim, considera-se que os alunos se tornam capazes de exibir novos comportamentos e transformar sua atuação nos diferentes contextos de vida. Para que o ambiente de sala de aula possa proporcionar tais experiências formativas, entende-se que as estratégias pedagógicas devem estar alinhadas com a ideia de um sujeito-aprendiz. Figura 8. Estudantes da EJA enquanto sujeitos-aprendizes Fonte: Nossa autoria (2023). 6 Podemos pegar como pontode partida um dos aspectos já discutidos no tópico anterior, que se refere à elevada carga e demanda de trabalho e exigência dos recursos cognitivos que perpassa a vida do aluno jovem ou adulto. Discutimos no Módulo I um pouco mais sobre o funcionamento dos nossos recursos atencionais. Entendemos que tais recursos não são ilimitados e que o grau de exigência ao longo do dia é capaz de diminuir sua eficiência. O cansaço e, por consequência, a perda do desempenho do foco atencional representam um desafio para o aprendizado do aluno. Para que haja uma aprendizagem, é necessário que os conteúdos possam ser devidamente processados com auxílio de determinadas funções cognitivas que fazem parte do fluxo de processamento da informação. Para que o adulto mantenha, ao final de uma jornada de trabalho, o seu foco atencional, é necessário um esforço adicional, por meio da ativação de diferentes circuitos cerebrais. Com o passar do tempo, rapidamente, essa capacidade de alocação já esgotada tende a ser perdida e o controle sobre os processos cognitivos diminuem consideravelmente. Isso implica em uma maior suscetibilidade a distrações ou desvios do foco atencional para outros fins. Ou seja, o aluno na EJA precisa que o educador seja capaz de usar de recursos adicionais a fim de resgatar e auxiliar na manutenção do foco atencional para os estímulos de aula. O cansaço e a perda do foco atencional são fatores que muitas vezes levam o aluno a evadir a sala de aula ou até mesmo a abandonar os estudos nessa etapa. É perceptível que o esforço aliado ao baixo desempenho acabam por ser fatores desmotivadores para a persistência na tarefa de aprender. Aliado a isso, a capacidade da memória operacional, essencial para manutenção e retenção das informações durante o processo de aprendizagem, pode ser especialmente afetada pelas demandas que perpassam o dia a dia dos jovens e adultos. Ela também se mostra sensível aos processos do envelhecimento, tendendo a ter uma curva de desempenho decrescente a partir do avançar da idade adulta. O estresse e o excesso de preocupação com eventos futuros ou mesmo com desfechos de eventos do passado tendem a dificultar também o uso dos recursos atencionais e da memória de trabalho. É como se a “cabeça do aluno estivesse em outro lugar” e não disponível para as aprendizagens. Os educadores precisam estar atentos a esses fatores, de modo a facilitar que suas estratégias de ensino favoreçam um menor esforço de tais componentes cognitivos. Por exemplo: Instruções claras e objetivas Ao proporem atividades, é essencial que se realize uma sequência clara e objetiva de instruções de modo a facilitar o entendimento da tarefa e não permitir que isso represente um esforço adicional para sua execução. Ambiente de aprendizagem que respeite limites dos recursos cognitivos O ambiente da aprendizagem precisa oferecer suporte para que o aluno reconheça os limites dos seus recursos cognitivos, incluindo quando eles estão sobrecarregados e sem um desempenho adequado. Já se sabe, por exemplo, que existe uma correlação entre uma maior dificuldade no desenvolvimento das atividades — como trabalhos entregues incompletos ou mal executados — e o tempo de esforço que o aluno precisou disponibilizar para sua realização. Por essa razão, o suporte do educador durante o reconhecimento dos limites se faz importante para que não haja a perda de engajamento e motivação para aprender. Instruir o aluno para desenvolvimento das habilidades de planejamento e organização Auxiliar o aluno a refletir sobre as estratégias utilizadas para resolução do problema bem como incentivá-lo a ter uma melhor organização e priorização do tempo pode impactar nos resultados e reduzir o estresse e esforço no futuro. Identificar o problema proposto, formular hipóteses, construir representações e transformá-las em planos de ação são proposições e tarefas que envolvem e estimulam os educandos a desenvolverem suas capacidades resolutivas. Portanto, para qualquer situação-problema ou projeto proposto em sala de aula, faz-se necessária uma orientação clara e objetiva em conjunto com o apoio de materiais e estratégias adequadas. A partir de uma organização dos planos de ensino e cronogramas com o apoio do educador, pode-se alcançar maiores índices de engajamento nas tarefas e aprendizagens, o que resulta num consequente sucesso acadêmico. Sucesso acadêmico O sucesso acadêmico está diretamente associado ao uso de estratégias eficientes para a aprendizagem dos conteúdos. O aluno capaz de desenvolver um repertório variado de estratégias para organização, aprendizagem e prática dos conteúdos conseguirá mais facilmente atingir seus objetivos. Não há uma fórmula única a ser aplicada, pois reconhecemos que os cérebros são diferentes e, também, as demandas que precisam ser gerenciadas se mostram variadas. O ambiente na EJA deve oportunizar o desenvolvimento e prática de diferentes estratégias a fim de encontrar aquela que melhor funciona para cada aluno. Isso significa o adequado uso das funções executivas em sala de aula. 7 Como estudado, as funções executivas referem-se aos processos que permitem ao indivíduo direcionar seus comportamentos a objetivos, avaliando a eficiência e adequação destes comportamentos ou estratégias, de modo a resolver os problemas de curto, médio ou longo prazo. Para que as funções executivas se tornem eficientes no processo de aprendizagem, deve-se buscar o funcionamento integrado de outros processos, como: • Recursos atencionais; • Manipulação de informações na memória de trabalho; • Controle de impulsos; • Planejamento; • Iniciação; • Flexibilidade cognitiva e comportamental; e • Automonitoramento. Discute-se muito o papel das funções executivas no desenvolvimento das aprendizagens em etapas anteriores da vida, como vimos nos Módulos II, III e IV. Entretanto, independente do período da aprendizagem elas se mostram essenciais e frequentemente exigidas no ambiente escolar. As habilidades de seleção, organização, elaboração, retenção e transformação da informação são exigidas a todo instante durante os processos de aprendizagem. O educador deve considerar que a capacidade de aprender de um jovem ou adulto se dá através do uso dessas habilidades aplicadas a contextos reais e práticos de sua vida. Muito embora tenhamos a visão da aprendizagem como um processo que é contínuo e sequencial, no qual informações vão sendo adquiridas desde suas formas mais simples até as mais complexas, observa-se que muitos contextos escolares da EJA tendem a reproduzir práticas de etapas anteriores, nas quais o ensino fica restrito à exposição dos conteúdos, memorização e raciocínio. As dificuldades de aprendizagem em um contexto assim podem representar um indicativo de que os métodos de ensino estão estimulando pouco o desenvolvimento da consciência e controle cognitivo por meio do uso da atenção, memória de trabalho e funções executivas direcionadas para a tarefa. Para auxiliar os educadores no manejo e direcionamento dos potenciais cognitivos dos jovens e adultos, algumas estratégias podem ser incorporadas aos métodos usados em sala de aula. Essas estratégias têm o objetivo de estimular ainda mais o potencial cognitivo e o uso dos recursos executivos e da memória de trabalho. Estratégias de repetição, ensaio e revisão Para estimular a memória e, consequentemente, a aquisição de conteúdo, é sugerido o uso de estratégias de repetição, ensaio e revisão, para que as informações sejam novamente analisadas e, preferencialmente, relacionadas a conteúdos práticos, de modo a dar significado para essas aprendizagens. Isso pode ser feito a partir da recapitulação de conteúdos e informações — como conceitos, definições, modelos matemáticos, situações problema — dentro de um mesmo tema, porém com um enunciado ou contextualizaçãodiferente. A prática da repetição pode também ser desenvolvida a partir de exercícios de evocação e recuperação dos conteúdos aprendidos e do que foi compreendido nos encontros anteriores. Uma revisão geral, livre, inicial é sempre um bom estímulo para a memória dos alunos. A partir disso, então, estimula-se também os processos de ensaio e revisão, durante os quais existe a possibilidade de se analisar novamente informações; estabelecer relações entre os conteúdos aprendidos; e, posteriormente, ao longo da apresentação de novos conteúdos informações, associar também esses novos conteúdos aos antigos. Todo esse processo é capaz de dar profundidade à aquisição e consolidação das informações aprendidas. 8 Mobilização de diferentes estímulos para a aprendizagem Outro importante método que pode ser utilizado pelos educadores é o de auxiliar os alunos a usarem e combinarem diferentes estímulos durante o processo de aprendizagem. Por exemplo, a prática — comum entre alunos em sala de aula — de realizarem cópias escritas pode ser eficiente até certo ponto, pois se sabe que esse processo permite a combinação de estímulos auditivos, visuais e motores. Ademais, desenvolver esquemas e figuras com os alunos pode representar outro recurso capaz de integrar caminhos neurais para a aprendizagem. Esse trabalho pode ser desafiador, uma vez que muitos dos alunos não possuem experiência no desenvolvimento dessas estratégias em razão da carência de estímulos ao longo da vida. Além disso, atualmente — em um contexto de ensino onde as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) se fazem presente —, torna-se um desafio muito maior adotar hábitos manuais de escrita e elaboração de esquemas e representações. Figura 9. Construção de mapa mental: possível estratégia para mobilização de diferentes estímulos e integração de caminhos neurais para a aprendizagem Fonte: Nossa autoria (2023). Discute-se muito o papel das funções executivas no desenvolvimento das aprendizagens em etapas anteriores da vida, como vimos nos Módulos II, III e IV. Entretanto, independente do período da aprendizagem elas se mostram essenciais e frequentemente exigidas no ambiente escolar. As habilidades de seleção, organização, elaboração, retenção e transformação da informação são exigidas a todo instante durante os processos de aprendizagem. Por outro lado, percebe-se que frente a dificuldades de retenção da informação e dos conteúdos expostos em sala de aula, os alunos tendem a apresentar uma maior desmotivação para com o processo de aprendizagem. Se considerarmos as diferentes estratégias de exposição e retenção de conteúdos, o uso excessivo de aulas expositivas, nas quais apenas se utiliza de estímulos audiovisuais, mostra-se insuficiente para garantir índices maiores de recordação a médio e longo prazo. Alcança-se um nível significativamente maior de retenção quando as estratégias envolvem um movimento ativo de aprender, aplicar e relacionar os conteúdos, abrindo espaço para a interação e troca entre os alunos. Em um nível ainda superior de retenção, podemos dizer que os alunos são estimulados não somente a aplicar os conteúdos mas também, ao mesmo tempo, a compreender tais aplicações de forma a exemplificar o uso dos conhecimentos frente às mais diversas situações. Esse processo trata-se da inclusão da “ação” (do pensar, aplicar e resolver) nas propostas e métodos pedagógicos da EJA. É o princípio da aprendizagem por competência, da aquisição na ação. Sendo os educadores capazes de fomentar tais práticas, pode-se afirmar que haverá um melhor aproveitamento e capacidade de retenção dos conhecimentos por parte dos alunos. O sentido dado às aprendizagens será fundamental para motivar e engajar os alunos, superando as adversidades impostas pelos desafios da aprendizagem na vida adulta, como por exemplo os desgastes citados anteriormente, referentes aos recursos cognitivos atencionais e mnemônicos. Metodologias ativas: planejamento, organização e instrução Outro enfoque refere-se ao planejamento e organização dos materiais e tarefas a serem executadas. A importância de orientação, adequada instrução e acompanhamento por parte do educador já foi abordada anteriormente. Deve-se estimular o aluno de modo a proporcionar uma aprendizagem ativa, reforçando as mudanças e adaptações de estratégias (flexibilidade cognitiva) bem como a reflexão sobre o uso e efeito de cada uma delas (automonitoramento). Os alunos necessitam de constante desafio de modo a ampliar o uso de suas estratégias e, ao mesmo tempo, serem capazes de desenvolver flexibilidade de cognição e de comportamento para os fins acadêmicos da aprendizagem. É comum que haja uma dificuldade referente à flexibilidade cognitiva e comportamental em muitos adultos que não tiveram adequado estímulo ou possibilidade de exercer tais capacidades ao longo dos períodos anteriores do desenvolvimento. O ponto de partida é reconhecermos quem são estes adolescentes. A Psicologia do Desenvolvimento nos sugere algumas respostas, compreendendo que as principais demandas destes adolescentes dizem respeito ao estabelecimento de relações sociais com os pares, à construção de sua identidade e autopercepção, ao desenvolvimento de maior autonomia e ao início de processos de tomada de decisão que poderão repercutir nos anos futuros. Uma vez que é possível auxiliar os jovens e adultos a superarem os diversos obstáculos impostos pelo processo de aprender em uma etapa posterior do desenvolvimento, abre-se um campo rico para o desenvolvimento das aprendizagens formais a serem trabalhadas na EJA. Ao contrário do que muitas vezes se pode pensar, o adulto está internamente motivado para aprender. De fato, uma das vantagens da educação de jovens e adultos e que precisa ser mais bem explorada pelos educadores reside numa capacidade que esta população-alvo já possui: a capacidade de se autogerir a partir de suas experiências e conhecimentos. Se bem orientados, os jovens e adultos são capazes de direcionar seus esforços a uma meta específica, diferenciando o que é relevante do que não é, dispondo de uma capacidade prática e de aplicação de conteúdo que deve ser estimulada. Essa é uma diferença marcada em relação a outros períodos do desenvolvimento escolar, nos quais a motivação e o engajamento se fazem muito dependentes de fatores externos, pois crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo seus recursos cognitivos capazes de direcionar esforços para objetivos e metas específicas. O papel central do educador Por fim, levando em consideração as discussões apresentadas no que se refere aos desafios e possibilidades da EJA, entende-se o papel do educador como chave para o sucesso dos alunos. Não somente por meio das estratégias e métodos de ensino, mas também pela forma como estes profissionais serão capazes de estabelecer vínculo em um ambiente próprio para aprendizagem. Por meio das atitudes e do reconhecimento das particularidades e expectativas de cada aluno, o educador terá de envolvê-los em seu processo de aprendizagem. Para que isso seja possível, é necessário romper com ideias existentes de que a EJA se limita a atender ao propósito de recuperar a escolaridade perdida. Como exposto ao longo deste módulo, a educação na EJA vai muito além dos conteúdos formais a serem ensinados. É um processo que envolve articulação das experiências de vida, conhecimentos práticos, diversidade e cultura. Além disso, envolve a capacidade do educador de estimular os recursos cognitivos dos educandos de modo a serem mais bem aplicados em seus contextos da vida real. 9 REFERÊNCIAS AMORIM, A.; DANTAS, T. R.; AQUINO, M. S. (Orgs.). Educação de jovens e adultos: políticas públicas, formação de professores, gestão e diversidade multicultural. Salvador: EDUFBA, 2017. BELEZA, J. O.; NOGUEIRA, E. M. L. Contexto histórico da Educação de Jovense Adultos no Brasil. Revista Ensino de Ciências e Humanidades, Manaus, v. 4, n. 2, p. 107-126, jul./dez. 2020. COSENZA, R. M.; GUERRA, L. Neurociência e Educação: como o cérebro funciona. Porto Alegre: Artmed, 2009. DANTAS, T. R.; AMORIM, A.; LEITE, G. O. (Orgs.). Pesquisa, formação, alfabetização e direitos em educação de jovens e adultos. Salvador: EDUFBA, 2016. DI PIERRO, M. C. Notas sobre a redefinição da identidade e das políticas públicas de educação de jovens e adultos no Brasil. 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