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Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC Revista do Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo Saúde Integrada REVISTA DA SAÚDE DO INSTITUTO CENECISTA ISSN: 1983-2230 VOL. 1, Nº 5, JANEIRO/JUNHO DE 2010 VOL. 1, Nº 6, JULHO/DEZEMBRO DE 2010 IESA Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 1 06/10/2014 16:28:08 Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 2 06/10/2014 16:28:08 Campanha Nacional de Escolas da Comunidade – CNEC Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo – IESA Diretor Presidente: Deputado Federal Alexandre José dos Santos Diretor Vice-Presidente: Dr. Juarez de Magalhães Rigon Diretora Secretária: Profa Anita Ortiz Corrêa Diretor Conselheiro: Irapuan Diniz de Aguiar Diretor Conselheiro: José Lima Santana Diretor Conselheiro: Rogério Auto Teófilo Diretor Conselheiro: Sérgio Feltrin Corrêa Conselho Fiscal e de Assuntos Econômicos Conselheiro Presidente: Edivaldo Dantas Conselheiro Secretário: Júlio César Souza Baltharejo Conselheiro: Laércio Segundo de Oliveira Primeiro Conselheiro Suplente: Ernani Soares Maia Segundo Conselheiro Suplente: Maria da Guia Lima Cruz Diretor do IESA: Prof. Júlio César Lindemann Coordenador do Curso de Biomedicina: Emanuelle Kerber Vieira Mallet Coordenador do Curso de Fisioterapia: Lisandra de Oliveira Carrilho Comissão Editorial: Emanulle Mallet, Lisandra Carrilho, Armindo Holler, Débora Pedroso. Conselho Editorial: Dra. Salete Oro Boff (IESA/UNISC), Dr. Doglas Cesar Lucas (IESA/UNIJUI), Dr. José Hermes Ribas do Nascimento (IESA), Dr. Renato Przyczynski (IESA), Matias Nunes (IESA/UNIJUI), Emanuelle Mallet (IESA); Armindo Heller (IESA), Débora Pedroso (IESA). Revisão: Thaí�s Gomes e Yana Picinin Capa: Endereço do Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo A� ngelo Rua Dr. João Augusto Rodrigues, 471CEP: 98801-015 – Santo A� ngelo – RS Fone: 55 3313 1922 – Fax 55 3313 1922 e-mail: revistasaude@iesanet.com.br Assinatura da revista via on-line http://www.iesanet.com.br A revisão dos textos é de inteira responsabilidade dos autores Direitos de publicação, capa, programação visual, editoração e impressão:Editora e Gráfica Cenecista Dr. José Ferreira Av. Frei Paulino, 530 – Bairro Abadia PABX: (34) 2103-0700 – Fax: (34) 3312-5133 CEP: 38025-180 – Uberaba, MG – e-mail: cnecedigraf@cneconline.com.br IESA Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 3 06/10/2014 16:28:08 FICHA CATALOGRÁFICA Editora e Gráica Cenecista Dr. José Ferreira Av. Frei Paulino, 530 - Bairro Abadia PABX: (34) 2103-0700 FAX: (34) 3312-5133 CEP: 38025-180 - Uberaba, MG e-mail: cnecedigraf@cneconline.com.br Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo DADOS INTERNACIONAIS DE CATAGOLOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) Saúde Integrada: revista da saúde/Instituto Cenecista de Santo Ângelo. Vol.1, n.5 (jan./jun. 2010. Vol.1, n.6 (jul/dez. 2010) – Uberaba: CNEC Edigraf, 2010. Semestral ISSN: 1983-2230 1. Biomedicina. 2. Fisioterapia. I. Instituto Cenecista de Santo Ângelo. CDU: 612 615.82 Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 4 06/10/2014 16:28:08 SUMÁRIOAPRESENTAÇA� O .................................................................................................................................................. 7 RELAÇA� O DO ESTRESSE OXIDATIVO NA DOENÇA DIABE� TICA TIPO 2 ...................................... 9 Andressa Holsbach Berwanger Matias Nunes FrizzoESTUDO SOBRE A APLICABILIDADE DE PROTOCOLOS DE REABILITAÇA� O NO PO� S-OPERATO� RIO DE ARTROPLASTIA TOTAL DE JOELHO ....................................................................... 27 Vanessa Machado Thais do Nascimento Gomes TESTE DE PATERNIDADE: UMA ANA� LISE DAS QUESTO� ES TE� CNICAS E LEGAIS ENVOLVIDAS NO EXAME ...................... 39 Alice Kunzler Emanuelle Kerber Viera Mallet FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA ........................................ 55 Marcelo Anderson Bracht Armindo HollerA RELAÇA� O DA EPIGENE� TICA NA GE� NESE TUMORAL ...................................................................... 75 Günther de Menezes Sott Matias Nunes FrizzoO TRATAMENTO DA DOR LOMBAR ATRAVE� S DA ESTABILIZAÇA� O CENTRAL PE� LVICA ..... 93 Juliane Pukall Bezerra Fontana Thaís do Nascimento Gomes A RELAÇA� O DO ESTRESSE OXIDATIVO COM A ATEROSCLEROSE ................................................. 103 Belisa Avila Rodrigues Caroline Brandão Quines Matias Nunes Frizzo Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 5 06/10/2014 16:28:08 OS BENEFI�CIOS DO REFORÇO MUSCULAR EM PORTADORES DE GONARTROSE .................. 123 Aline Fróes Tavares Thais do Nascimento GomesPREVALE� NCIA DE ENTEROPARASITOSES NA POPULAÇA� O ATENDIDA EM PROJETO DE EXTENSA� O DO CURSO SE BIOMEDICINA IESA – RS ............................................................................ 135 Djonattan Patrick Sinhorini Alexandre Novicki Débora PedrosoPREVALE� NCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO A� NGELO - RS, BRASIL.............................................................................................................................................................. 153 Katiúscia Aozani Munareto Emanuelle Kerber Viera MalletPOTENCIAL TOXICIDADE DO CARBONATO DE LI�TIO ........................................................................ 179 Letícia Aparecida Nascimento do Carmo Juliana Foletto Fredo Roncato Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 6 06/10/2014 16:28:08 7 APRESENTAÇÃO APRESENTAÇÃO Apresentamos a Revista Saúde Integrada, uma publicação anu- al, que integra os cursos de Biomedicina e Fisioterapia do Instituto Cenecista de Santo Ângelo, que tem por missão disseminar estudos e pesquisas realizadas na área de saúde. Desta forma, é com satisfação que apresentemos os assuntos abordados nesta edição da revista: a relação entre Diabetes Mellitus tipo 2, suas complicações e o estresse oxidativo; análise comparativa entre a aplicabilidade dos protocolos reabilitativos de pós-operatório de artroplastia total de joelho osteoartrose; demonstrar como são realizados os testes de paternidade em laboratórios clínicos; des- crever a anatomia funcional da coluna cervical, o entendimento da cervicalgia e a aplicação da terapia manipulativa; a relação existente entre a epigenética e a gênese tumoral; mecanismos utilizados pela estabilização central pélvica através da análise de seu funcionamen- to; relação do estresse oxidativo com a aterosclerose; benefícios do reforço muscular na gonartrose, através das respostas fisiológicas dos recursos fisioterapêuticos empregados; verificar a prevalência de hepatite B e C em pacientes atendidos no Pronto Atendimento de Santo Ângelo; e por fim um estudo de caso sobre carbonato de lítio e os danos que este medicamento pode causar no organismo quando utilizado por longo período e em doses altas. Assim, esperamos que a leitura destes escritos possa propor- cionar ao leitor, a elucidação de possíveis dúvidas, bem como gerar ponderações e questionamentos. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 7 06/10/2014 16:28:08 Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 8 06/10/2014 16:28:08 9 RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO NA DOENÇA DIABÉTICA TIPO 2 RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO NA DOENÇA DIABÉTICA TIPO 2 RELATIONSHIP OF OXIDATIVE STRESS IN DISEASE TYPE 2 DIABETIC Andressa Holsbach Berwanger1 Matias Nunes Frizzo2 RESUMO A Diabetes Mellitus caracteriza-se por anormalidades endócrinas e metabólicas. O objeivo deste trabalho é descrever a relação entre diabetes, suas complicações e o estresse oxidaivo. Foi realizada uma pesquisa em literatura especiica da área, abrangendo uma extensa seleção de arigos. A Diabetes ipo 2 é uma deiciência parcial da secreção de insulina, e suas complicações apresentam origem mulifatorial, em que mecanismos bioquímicos e patológicos as associam à hiperglicemia crônica e ao estresse oxidaivo como principais desencadeadores.O estresse oxidaivo é o desequilíbrio entre os sistemas oxidantes e anioxidantes. Devido à capacidade de oxidar lipídios, proteínas e DNA, sabe-se que o estresse oxidaivo tem um papel fundamental nas complicações diabéicas. Há evidências que o aumento na formação de radicais livres e a redução da capacidade de defesa anioxidante, pelo estado hiperglicêmico, estão envolvidos na patogênese das complicações da diabetes. O mecanismo mais aceito para o desenvolvimento das complicações consiste que o estado hiperglicêmico e o aumento dos ácidos graxos livres, resultem, na isiopatologia inicial da diabetes, aivando as EROs e ERNs através do dano macromolecular, levando à aivação de diversas vias celulares sensíveis ao estresse oxidaivo. O estresse oxidaivo tem recebido cada vez mais importância, e o maior conhecimento sobre sua gênese e seus efeitos faz com que haja uma associação com a eiologia de diversas doenças, que no passado não possuíam fatores desencadeantes bem esclarecidos, auxiliando na busca por novos e mais eicazes tratamentos. Palavras-chave: Diabetes Mellitus ipo 2. Estresse Oxidaivo. Complicações diabéicas. ABSTRACT Diabetes mellitus is characterized by metabolic and endocrine abnormaliies.The objecive is describe the relaionship between diabetes, their complicaions with the oxidaive stress. Performed a literature search in speciic area, covering a wide selecion of items. Diabetes type 2 is a parial deiciency of insulin secreion, and its complicaions appear to be mulifactorial, in which the pathological and biochemical mechanisms associated with chronic hyperglycemia and oxidaive stress as the main triggers. The oxidaive stress is the imbalance between oxidant and anioxidant systems. Because of the ability to oxidize lipids, proteins and DNA, it is known that oxidaive stress plays a key role in diabeic complicaions. There is evidence that increased formaion of free radicals and reduced anioxidant defense capability, because the hyperglycemic state, are involved in the pathogenesis of diabeic complicaions. The most accepted mechanism for the development of complicaions is that the state of hyperglycemia and increased free faty acids, resuling in the iniial pathophysiology of diabetes, ROS and acivaing RNSs by macromolecular damage, leading to acivaion of several cellular pathways sensiive to oxidaive stress. Oxidaive stress has received increasing importance and greater knowledge about its genesis and its efect is such that there an associaion with the eiology of several diseases in the past had no precipitaing factors elucidated by assising in the search for new and more efecive treatments. Keywords: Diabetes mellitus type 2. Oxidaive Stress. Diabeic complicaions. 1 Acadêmica Concluinte do Curso de Biomedicina, 2010. Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo. andy.berwanger@ uol.com.br 2 Mestre em Biologia Celular e Molecular (PUCRS); Professor do Curso de Biomedicina CNEC/IESA. mmfrizzo@hotmail.com Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 9 06/10/2014 16:28:08 10 ANDRESSA HOLSBACH BERWANGER - MATIAS NUNES FRIZZO 1. INTRODUÇÃO O Diabetes Mellitus (DM), é conhecido como uma síndrome clí- nica heterogênea, que se caracteriza por anormalidades endócrinas e metabólicas. Disfunções das células β-pancreáticas e disfunções quanto à resistência insulínica estão associadas ao desenvolvimen- to do diabetes (WHO, 2009). Existem muitos tipos de Diabetes, as mais comuns são a Diabetes tipo 1 e a Diabetes tipo 2. A diabetes tipo 1 é o resultado de uma destruição das células beta da ilhota de Langerhans do pâncreas. A Diabetes tipo 2 é uma deficiência parcial da secreção de insulina, associado com a resistência insulínica (BE- CKMAN et al., 2002; NORWOOD; INLANDER, 2000). Os outros tipos de diabetes que podemos citar aqui são: diabe- tes gestacional, diabetes relacionada a defeitos genéticos na função das células β (MODY 1, 2, 3, 4, 5 e 6), defeitos genéticos na ação da insulina, relacionada a doenças do pâncreas exócrino, relacionada a endocrinopatias, induzido por medicamentos ou agentes químicos, relacionada a infecções e diabetes relacionada a síndromes genéti- cas (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2009). O diabetes está entre as cinco doenças que mais matam no mun- do. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), na primeira metade do século XXI, havia cerca de 171 milhões de pessoas com diabetes no mundo, sendo que a organização prevê que, em 2030, metade da população mundial possua a patologia (WHO, 2009). Uma estimativa realizada nos Estados Unidos demonstrou que fo- ram gastos US$132 bilhões de dólares com pacientes diabéticos, durante um ano (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2007). O DM e suas complicações apresentam origem multifatorial, me- canismos bioquímicos e patológicos tem associado a hiperglicemia crônica e o estresse oxidativo como os principais desencadeadores das complicações diabéticas (REIS et al., 2008). Dentre as principais complicações do diabetes relacionadas com o estresse oxidativo e a hiperglicemia destacam-se, a níveis micro- vasculares, como a retinopatia diabética, a nefropatia diabética e a neuropatia diabética, e as complicações macrovasculares, que são as disfunções endoteliais como doença isquêmica do coração, a do- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 10 06/10/2014 16:28:08 11 RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO NA DOENÇA DIABÉTICA TIPO 2 ença arterial periférica e o pé diabético (RODRIGUES et al., 2005; WAJCHENBERG, 2002). O estresse oxidativo é uma condição biológica em que ocorre um desequilíbrio entre a produção de Espécies Reativas de Oxigê- nio (EROs) e a sua desintoxicação através de sistemas biológicos que as removam ou reparem os danos por elas causados. Devido à capacidade de oxidar diretamente lipídios, proteínas e DNA, sabe-se que o estresse oxidativo tem um papel fundamental nas complica- ções diabéticas (LOPES et al., 2008). Todos os organismos vivos possuem um ambiente intracelular de natureza redutora, existindo um equilíbrio entre as formas oxidada e reduzida de moléculas como o NADH, equilíbrio esse mantido por enzimas à custa de energia metabólica. Perturbações neste equilí- brio podem provocar a produção de peróxidos e radicais livres que danificam todos os componentes celulares, incluindo proteínas, lípi- dios, entre outros (WAJCHENBERG, 2002). O presente trabalho tem como objetivo avaliar a relação do es- tresse oxidativo com o DM tipo 2, descrevendo as relações entre o estado hiperglicêmico e as complicações do diabetes com o estado de estresse oxidativo. 2. DIABETES MELLITUS O DM é um grupo de doenças metabólicas caracterizadas pela hiperglicemia e associada a complicações, disfunções e insuficiência de vários órgãos, especialmente olhos, rins, nervos, cérebro, cora- ção e vasos sangüíneos. Pode resultar de defeitos de secreção e/ou ação da insulina envolvendo processos patogênicos específicos, por exemplo, destruição das células beta do pâncreas (produtoras de insulina), resistência à ação da insulina, distúrbios da secreção da insulina, entre outros (BRASIL, 2006). Existem dois tipos de diabetes, o tipo 1 e o tipo 2, com fisio- patologias diferentes, porém com as mesmas complicações finais (RESENDE, 2006). O DM tipo 1, presente em 5 a 10% dos casos, é uma doença auto-imune, em que geralmente é resultado de uma destruição das células beta da ilhota de Langerhans do pâncreas, Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 11 06/10/2014 16:28:09 12 ANDRESSA HOLSBACH BERWANGER - MATIAS NUNES FRIZZO causando na maioria das vezes uma deficiência absoluta de insulina (BRASIL, 2001; BECKMAN et al., 2002). Ainda, não se sabe ao certo como as pessoas desenvolvem o diabetes tipo 1. A prevalência do Diabetes tipo 1 ocorre em pessoas com menos de 35 anos de idade, porém, vale lembrar que ela pode aparecer em qualquer idade (NO- RWOOD; INLANDER, 2000). O DM tipo 2, presente em 90 a 95% dos casos de diabetes, é resultado de uma deficiênciaparcial da secreção de insulina em re- lação aos níveis de glicose sanguínea, associado a uma resistên- cia insulínica (BRASIL, 2001; BECKMAN, 2002). O diabetes tipo 2 possui um fator hereditário maior do que a do tipo 1, e ainda está relacionado com a obesidade e o sedentarismo. Estima-se que 60% a 90% dos portadores da doença sejam obesos, e a sua incidência ocorre geralmente após os 40 anos (NORWOOD; INLANDER, 2000; POITOUT; ROBERTSON, 2002). As conseqüências sociais e econômicas do diabetes são devas- tadoras: são 4 milhões de mortes por ano relativas ao diabetes e suas complicações, o que representa 9% da mortalidade mundial total. O grande impacto econômico ocorre notadamente nos serviços de saúde, como conseqüência dos crescentes custos do tratamento da doença e, sobretudo das complicações, como a doença cardio- vascular, a diálise por insuficiência renal crônica e as cirurgias para amputações de membros inferiores (BRASIL, 2006). O diabetes apresenta alta morbi-mortalidade, com perda impor- tante na qualidade de vida. É uma das principais causas de mor- talidade, insuficiência renal, amputação de membros inferiores, ce- gueira e doença cardiovascular. A OMS estimou em 1997 que, após 15 anos de doença, 2% dos indivíduos acometidos estarão cegos e 10% terão deficiência visual grave. Além disso, estimou que, no mes- mo período de doença, 30 a 45% terão algum grau de retinopatia, 10 a 20%, de nefropatia, 20 a 35%, de neuropatia e 10 a 25% terão desenvolvido doença cardiovascular (WHO, 2009). As complicações do DM podem ser divididas de acordo com os tipos de vasos que são acometidos, podem ser microvasculares, como a Retinopatia Diabética, que consiste na principal forma de cegueira irreversível no Brasil, é assintomática nas suas fases ini- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 12 06/10/2014 16:28:09 13 RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO NA DOENÇA DIABÉTICA TIPO 2 ciais, mas evolui ao longo do tempo, acometendo a maioria dos por- tadores de diabetes após 20 anos de doença, a Nefropatia Diabética constitui-se por alterações nos vasos dos rins, ocorrendo a perda de proteína na urina, é uma situação onde o órgão reduz sua fun- ção lentamente, porém de forma progressiva, até a paralisação total, e a Neuropatia Diabética que é uma degeneração nos axônios, as complicações podem ser também macrovasculares como a Doenças Cardiovasculares que são complicações com maiores morbimortali- dade, as doenças isquêmicas cardiovasculares são mais freqüentes e mais precoces em indivíduos com diabetes, comparativamente aos demais e pra finalizar temos o Pé diabético que consiste em úlceras nos pés e logo mais amputação de extremidades (GOLDMAN; AU- SIELLO, 2005). A expectativa de vida é reduzida, em média, em 15 anos para o diabetes tipo 1 e em 5 a 7 anos na do tipo 2. Hoje em dia as compli- cações do Diabetes tem sido muito incidentes, o risco de acidente vascular cerebral é de 2 a 4 vezes maior entre pessoas com diabe- tes em relação as pessoas hígidas. No ano de 2004, a doença car- díaca foi observada em 68% dos atestados de óbitos de pacientes com Diabetes. Em 2005, 46.739 pessoas com diabetes começaram o tratamento para doença renal e diálise. Cerca de 70% das pes- soas com diabetes tem formas leves e graves de danos no sistema nervoso central. Mais de 60% das amputações não traumáticas dos membros inferiores ocorrem em pessoas com diabetes (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2007). 3. ESTRESSE OXIDATIVO O estresse oxidativo é deinido como um desequilíbrio entre os sistemas oxidantes e antioxidantes, sempre em favor do primeiro. São geradas inúmeras espécies reativas: os radicais livres, no qual obtemos um elétron desemparelhado na última camada eletrônica, e as espécies reativas, não radicais, favorecendo assim a ocorrência de danos oxidativos (HALLIWELL; WHITEMAN, 2004). Por sua vez, são desenvolvidos os mecanismos protetores, que têm a função de neutralizar os compostos reativos e, conseqüentemente prevenir os efeitos adversos do estresse oxidativo, os chamados antioxidantes (MAYNE, 2003). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 13 06/10/2014 16:28:09 14 ANDRESSA HOLSBACH BERWANGER - MATIAS NUNES FRIZZO Os Radicais Livres são átomos ou moléculas altamente reativas, que contêm um número ímpar de elétrons em sua última camada eletrônica. As camadas eletrônicas de um elemento químico são denominadas K, L, M e N, e seus subníveis são s, p, d, f. É este não-emparelhamento de elétrons da última camada que confere alta reatividade a esses átomos ou moléculas (HALLIWELL, 1992). Os radicais livres por serem altamente reativos podem reagir com estru- turas celulares, dentre elas as proteínas, os lipídeos, os carboidratos e o DNA. Dentre os principais radicais livres destacam-se o oxigênio singlete, o radical superóxido, o radical hidroxila, o oxido nítrico, o peroxinitrito e o radical semiquinona (ANDERSON, 1996). Uma célula normalmente é capaz de superar os efeitos deletérios do estresse oxidativo se as perturbações forem pequenas, restabe- lecendo o equilíbrio normal intracelular, mas perturbações de maior escala podem levar à morte celular, apoptose e até necrose (LOPES et al., 2008). Existem duas fontes de radicais livres, os que se originam de for- ma endógena, que são os produzidos pelo próprio organismo como resultado de uma reação metabólica como as produzidas na mito- côndria, nos peroxissomos e na atividade de algumas enzimas como citocromo P450-oxidase, xantina oxidase, e as fontes exógenas que são provenientes das condições do meio externo ao sistema bioló- gico como o tabaco, poluição do ar, solventes, radiações gama e ultravioleta (FERREIRA; MATSUBARA, 1997). A produção excessiva de radicais livres durante os processos metabólicos levam ao desenvolvimento de muitos mecanismos de defesa antioxidante para impedir os danos do estresse oxidativo (SIES, 1993). Os antioxidantes são responsáveis pela inibição e re- dução das lesões causadas pelos radicais livres nas células (SIES; STAHL, 1995). Esses agentes que protegem as células contra os efeitos dos radicais livres são classificados em antioxidantes enzimá- ticos ou não-enzimáticos (SIES, 1993). Para se proteger, o sistema de defesa da célula atua em duas formas, uma como detoxificadora do agente antes que ele cause le- são. Esta forma é constituída por glutationa reduzida (GSH), superó- xido-dismutase (SOD), catalase, glutationa-peroxidase (GSH-Px) e vitamina E. A outra forma de defesa tem a função de reparar a lesão Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 14 06/10/2014 16:28:09 15 RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO NA DOENÇA DIABÉTICA TIPO 2 ocorrida, sendo constituída pelo ácido ascórbico, pela glutationa-re- dutase (GSH-Rd) e pela GSH-Px, entre outros. Com exceção da vita- mina E (α-tocoferol), que é um antioxidante estrutural da membrana, a maior parte dos agentes antioxidantes está no meio intracelular (FERREIRA; MATSUBARA, 1997). Os radicais livres e os danos oxidativos induzidos nas células e tecidos têm sido relacionados com a etiologia de várias doenças, além do diabetes está relacionado à doença de Parkinson, Alzhei- mer, doenças neurovegetativas, aterosclerose, acidente vascular ce- rebral, isquemia e ainda pode se relacionar com o envelhecimento (LOPES et al., 2008). 4. RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO COM O DM TIPO 2 Mecanismos bioquímicos têm sido propostos para explicar as anormalidades estruturais e funcionais associadas com a exposição prolongada dos tecidos vasculares à hiperglicemia com indícios de que a capacidade antioxidante endógena esteja prejudicada nos in- divíduos diabéticos, dificultando a remoção dos radicais livres (SIES; STAHL, 1995). Espécies Reativas de Oxigênio (EROs) e Espécies Reativas de Nitrogênio (ERNs) funcionam como moléculas que sinalizam a regu- lação da função celular, sendo que é o aumento de sua produção ou diminuição de sua eliminação que causa o estresse oxidativo. Com o desequilíbrio entre a produçãode EROs e ERNs, e as defesas antio- xidantes, o estresse oxidativo conduz frequentemente a uma lesão tecidual (RÖSEN et al., 2001; BEISSWENGER, 2005). Os radicais livres atuam diretamente oxidando as moléculas ou indiretamente ativando vias de sinalização celular que são sensíveis a mecanismos de estresse oxidativo (LAIGHT et al., 2000). Estudos in vivo revelam que o estresse oxidativo, ocorrido após a hiperglice- mia, ocorre antes das complicações tardias do diabetes se manifes- tarem, sugerindo que o estresse oxidativo desempenha um papel relevante na patogênese das complicações desta doença (LOPES et al., 2008; HAMILTON et al., 2007). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 15 06/10/2014 16:28:09 16 ANDRESSA HOLSBACH BERWANGER - MATIAS NUNES FRIZZO A importância da formação de EROs na indução do dano celular induzido pela hiperglicemia tem sido apontada em diferentes estu- dos, a hiperglicemia apresenta várias vias de sinalização sensíveis ao estresse oxidativo. Existem algumas vias que são as principais responsáveis pelas complicações do diabetes, entre elas destacam- se a via do NF-kB, a Via Celular da p38 MAPK, Via Celular da PKC, a Via Celular dos AGE, a Via Celular das Hexosaminase a Via Celular do Poliol (LOPES et al., 2008). A Via do NF-Kb (fator de transcrição que participa de respostas inflamatórias) é uma das vias intracelulares alvo da hiperglicemia, das EROs e do estresse oxidativo mais estudadas, ela é ativada através de ácidos graxos, fator de necrose tumoral e interleucinas 1 e responsável pela regulação da expressão de um grande número de genes, incluindo os genes ligados às complicações da diabetes (BARNES; KARIN, 1997). A Via Celular da p38 MAPK (inibidor da Proteína Quinase Ativa- da por Mitógeno p38) tem sua ativação influenciada por um grande número de processos celulares envolvidos na inflamação, imunida- de, crescimento celular, apoptose, respostas teciduais específicas ao estresse oxidativo. No caso da diabetes tipo 2, esta via é ativada por episódios de hiperglicemia (EVANS et al., 2002). A Via Celular da PKC (Proteína C Quinase) a sua concentração de diacilglicerol (um ativador da PKC) encontra-se aumentada nos tecidos, a produção de EROs pela oxidase, em pequenas quantida- des, pode funcionar na sinalização metabólica e, em grandes quanti- dades, originando o dano oxidativo e subsequente as complicações diabéticas (KOYA; KING, 1998). Já, a Via Celular dos AGE (produtos de reações não enzimáticas), referem-se a um grupo heterogêneo de proteínas, lipídeos e ácidos nucléicos que se formam por glicosilação não enzimática, sendo que a sua formação é estimulada na presença de estresse oxidativo e hiperglicemia podendo causar o estresse oxidativo (EVANS et al., 2003). A Via Celular das Hexosaminas a ativação da via biossintética das hexosaminas é desencadeada pelo influxo excessivo de glico- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 16 06/10/2014 16:28:09 17 RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO NA DOENÇA DIABÉTICA TIPO 2 se ou ácidos graxo para vários tipos de células, o que leva, por sua vez, a insulino-resistência e ao desenvolvimento das complicações tardias da diabetes (EVANS et al., 2003). Por fim, a Via Celular do Poliol esta via é iniciada a partir do momento em que os níveis glicêmicos aumentam, a hiperglicemia condiciona uma estimulação da enzima aldose redutase, e forma- ção subsequente de sorbitol, a acumulação intracelular de sorbitol os efeitos do sorbitol são exacerbados, aumentando o estresse oxidati- vo que desencadeia as complicações diabéticas como a retinopatia, nefropatia, neuropatia, bem como contribuir para o desenvolvimento de cataratas (HAMILTON et al., 2007). O estado hiperglicêmico faz com que o processo de estresse oxi- dativo desencadeie suas vias de ativação, relacionando-se assim as complicações do diabetes, a níveis microvasculares, como a retino- patia diabética, a nefropatia diabética e a neuropatia diabética, e as complicações macrovasculares, que são as disfunções endoteliais como doença isquêmica do coração, a doença arterial periférica e o pé diabético (RODRIGUES et al., 2005, MONNIER et al., 2006). Complicações Microvasculares são conhecidas também como microangiopatia. O estresse oxidativo, é o processo final de lesão celular da grande maioria dos fatores de risco cardiovascular, que se caracteriza por uma produção aumentada de EROs, ou por uma redução das defesas anti-oxidantes. Estas alterações resultam em inativação da produção do oxido nítrico endotelial, com conseqüente diminuição do seu efeito endotélio-protetor, que pode ser reproduzi- da, do ponto de vista de pesquisa clínica, na diminuição da respos- ta vasodilatadora endotélio-dependente. A disfunção endotelial está definitivamente relacionada com estados pró-oxidantes, diretamente relacionados com o processo inflamatório vascular. Não só o DM, mas também a obesidade estão associados a estados inflamatório e de estresse oxidativo, reversíveis com restrição dietética (WAJ- CHENBERG, 2002; BIERMAN, 1999). Entre elas podemos citar a neuropatia, a nefropatia e a retinopa- tia. Com relação a neuropatia Diabética, que é uma das principais complicações que aparecem com o tempo de evolução crônica do DM, caracterizada pela degeneração progressiva dos axônios das Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 17 06/10/2014 16:28:09 18 ANDRESSA HOLSBACH BERWANGER - MATIAS NUNES FRIZZO fibras nervosas. Existem evidências sugerindo que o estresse oxi- dativo causado pelo aumento de radicais livres ajudam como me- canismo patogênico importante. O mecanismo que explica a possí- vel relação do estresse oxidativo com a Neuropatia Diabética é que ocorre a hiperglicemia a qual leva a oxidação da glicose e lipídeos, ocorre formação de AGEs, através da via dos polióis, que causam um estresse oxidativo, assim ocorrendo logo após o dano Neural (BOULTON, 2005). A Nefropatia Diabética aparece alguns anos após o início do dia- betes, estima-se que 20 a 30% dos portadores de DM tipo 2, apresen- tem algum grau de problema no rim depois de 10 a 20 anos do apa- recimento da doença. Apesar de ser potencialmente tratável, muitos pacientes não conseguem atingir as metas de tratamento propostas e acabam progredindo para fases mais avançadas da doença, com risco de insuficiência renal mais grave e necessidade de diálise. Sua relação com o estresse oxidativo é através da via PKC, na qual o dia- cilglicerol mais EROs, formam o estresse oxidativo desencadeando a Nefropatia Diabética (LOCATELLI et al., 2003; TAKEBAYASHI et al., 2006). Já a retinopatia diabética é uma complicação crônica do diabete mellitus que 60% dos pacientes diabéticos adquirem mais ou menos após 20 anos de duração da doença, sendo a principal causa de ce- gueira em adultos, glicose e pressão arterial elevados, ligados com um longo tempo de duração do DM, são os principais fatores de risco da retinopatia diabética, esta complicação também é ativada pela via dos polióis, ela é uma complicação que ocorre geralmente após a Neuropatia (RAMOS et al., 1999; BOELTER, 2003). Nas complicações macrovasculares temos o Infarto Agudo do Miocárdio e o Acidente Vascular Cerebral (AVC) que aparecem como conseqüência de uma aterosclerose. O estresse oxidativo é um fa- tor comum subjacente a diabetes e a doença aterosclerótica, onde ocorre um defeito mitocondrial primário ou induzido por excesso de glicose ou por muitos ácidos graxos, onde vai aumentar os radicais livres, e ativar a via dos poliois onde irá gerar o desenvolvimento das complicações diabéticas (TRICHES et al., 2009). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 18 06/10/2014 16:28:09 19 RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO NA DOENÇA DIABÉTICA TIPO 2 Entre as complicações macrovasculares podemos citar: Infarto Agudo do Miocárdio é causado pela redução do fluxo san- guíneo coronariano de magnitude e duração suficiente para não ser compensado pelas reservas orgânicas. A causa habitual da morte celularé uma isquemia (deficiência de oxigênio) no músculo cardía- co, por oclusão de uma artéria coronária. A relação desta complica- ção com o estresse oxidativo esta na lipoproteína de baixa densida- de oxidada (LDL-ox), que é gerada durante a peroxidação lipídica, resultando da reação entre radicais livres e lipídios séricos, existem evidências do envolvimento da LDL-ox na formação e ruptura de pla- cas ateroscleróticas, também sendo biomarcador nas síndromes co- ronarianas agudas (SANTOS et al., 2009). Acidente Vascular Cerebral (AVC), particularmente o isquêmi- co, além de mais prevalente, em pacientes portadores de Diabetes a recuperação é mais difícil, onde ocorre mais mortalidade. O AVC isquêmico é a diminuição ou privação do aporte sanguíneo em de- terminado órgão ou estrutura, com consequente redução do supri- mento de oxigênio e nutrientes, sua relação com o estresse oxidativo se da quando o radical hidroxila formado nos tecidos pode causar danos às proteínas, lipídios e ácidos nucléicos e o radical superóxi- do produzido pela xantina oxidase durante a reperfusão pode reagir rapidamente com o radical óxido nitroso, fazendo com que ocorra o AVC (TRICHES et al., 2009). 5. MATERIAL E MÉTODO O presente artigo foi realizado através de uma pesquisa biblio- gráfica em literatura especifica da área, abrangendo DM e estresse oxidativo, a partir de uma extensa seleção de artigos, obtidos junto aos principais bancos de dados e bibliotecas virtuais de saúde e me- dicina, como o PubMed, Scielo, Bireme, Elsevier, além de revistas, periódicos e livros da Biblioteca do Instituto Cenecista de Ensino Su- perior de Santo Ângelo. A busca foi realizada no período de agosto de 2009 a outubro de 2010, privilegiando artigos datados a partir do ano de 1993, não havendo restrições de idioma. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 19 06/10/2014 16:28:09 20 ANDRESSA HOLSBACH BERWANGER - MATIAS NUNES FRIZZO 6. RESULTADOS E DISCUSSÃO O principal causador das complicações do diabetes é a exposi- ção dos tecidos a altos níveis de glicose, além de uma provável perda da capacidade antioxidante nos indivíduos diabéticos. A resistência a insulina também é um ponto muito importante no diabetes tipo 2, indivíduos com obesidade abdominal são mais resistentes a insulina, pois há vários depósitos de gordura abdominal (WAJCHENBERG, 2002; GOSTTSCHALL; BUSNELLO, 2009). O estresse oxidativo funciona como uma ligação entre um es- tado hiperglicêmico e as características fisiopatológicas associadas ao início e à progressão das complicações do diabetes (GANDHI et al., 2009). Há evidências de que o aumento na formação de radicais livres e a redução da capacidade dos sistemas fisiológicos de defe- sa antioxidante estão envolvidos na patogênese e desenvolvimento das complicações da diabetes. A patogenicidade multifatorial da DM requer uma abordagem terapêutica baseada em diferentes agentes para atuar nas diferentes características da doença e nos seus di- ferentes estágios de evolução (LOPES et al., 2008: BRASIL, 2006). As complicações do diabetes ocorrem pela junção de diversos fatores, mas o estado hiperglicêmico que desencadeia o processo de estresse oxidativo é fundamental para tal. A importância da forma- ção de EROs na indução do dano celular induzido pela hiperglicemia tem sido apontada em diferentes estudos, a hiperglicemia apresenta várias vias de sinalização sensíveis ao estresse oxidativo (REIS et al., 2008; AGUIAR et al., 2007). O mecanismo mais aceito para o desenvolvimento das complica- ções (figura 1) consiste em que com o estado hiperglicêmico e o aumento dos ácidos graxos livres, resultem, então, na fisiopatologia inicial da diabetes, ativando assim as EROs e ERNs através do dano macromolecular diretamente ou indiretamente, levando à ativação de diversas vias celulares sensíveis ao estresse oxidativo. Na diabe- tes tipo 2 existe uma evidência crescente que as vias sensíveis ao estresse oxidativo (NF-kB, o P38MAPK e JNK/SAPK), que são ativa- das através da hiperglicemia, levem a um estado de insulinoresistên- cia, bem como a diminuição da excreção de insulina. Assim, os EROS Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 20 06/10/2014 16:28:09 21 RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO NA DOENÇA DIABÉTICA TIPO 2 e ERNS, induzidos pela hiperglicemia e altos níveis de ácidos graxos tem um papel importante na ativação das cascatas de sinalização do estresse oxidativo (LOPES et al., 2008). Figura 1 – Mecanismo da gênese das complicações da DM Fonte: Adaptada de LOPES et al., 2008. A ação do estresse oxidativo se difere em cada tipo de compli- cação do diabetes, como na neuropatia diabética e na retinopatia diabética, em que sugere-se que a hiperglicemia leve a oxidação da ↑ ERO MITOCONDRIAL ESTRESSE OXIDATIVODANOMACROMOLECULAR DISFUNÇÃO DAS CÉLULAS βINSULINO-RESISTÊNCIA NF-kB p38 MAPK JNK/SAPK COMPLICAÇÕES DIABÉTICAS HIPERGLICEMIA ↑ ÁCIDOS GRAXOS LIVRES Diretamente Indiretamente Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 21 06/10/2014 16:28:09 22 ANDRESSA HOLSBACH BERWANGER - MATIAS NUNES FRIZZO glicose e lipídeos, ocorrendo a formação de AGEs, através da via dos polióis, e assim, fazendo com que ocorra o processo de estresse oxidativo, causando o dano neural e o dano dos microvasos ocula- res (BOULTON, 2005). Na Nefropatia Diabética, sua relação com o estresse oxidativo se da através da via PKC, na qual o diacilglicerol mais EROs, iniciam o processo do estresse oxidativo, desencade- ando as alterações vasculares dos glomérulos renais, ou seja, a Ne- fropatia diabética (LOCATELLI et al., 2003; SCHENA; GESUALDO, 2005). No Infarto Agudo do Miocárdio, a relação está quando o esta- do hiperglicêmico faz com que a LDL-oxidase seja gerada, durante a peroxidação lipídica, resultando da reação entre radicais livres e lipídios séricos, ocasionando a formação e ruptura de placas ate- roscleróticas nas artérias coronarianas (SANTOS et al., 2009). No Acidente Vascular Cerebral (AVC), o radical hidroxila formado nos tecidos pode causar danos às proteínas, lipídios e ácidos nucléicos, e o radical superóxido produzido pela xantina oxidase durante a re- perfusão pode reagir rapidamente com o radical óxido nitroso (TRI- CHES et al., 2009). 7. CONCLUSÃO Com o passar dos anos o estresse oxidativo tem recebido cada vez mais importância, visto que, o maior conhecimento sobre sua gênese e seus efeitos fazem com que haja, cada vez mais, uma as- sociação com a etiologia de diversas doenças, que no passado não possuíam causas, ou fatores desencadeantes, bem esclarecidas. O aumento na prevalência da DM na população, e principalmen- te, o incremento dos gastos para seu tratamento e do tratamento de suas complicações, tornaram a DM um grande problema de saúde pública a ser resolvido, ou ao menos, contido. Diversos medicamentos são usados para o controle glicêmico de pacientes diabéticos, em sua grande maioria para compensar a deficiência insulínica causada pela doença, e evitar, assim, o estado hiperglicêmico. No entanto, a elucidação das origens das complica- ções através do estresse oxidativo pode fazer com que sejam desco- bertas novas formas de combate as complicações da DM. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 22 06/10/2014 16:28:09 23 RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO NA DOENÇA DIABÉTICA TIPO 2 A avaliação da literatura é clara em reconhecer que existe uma relação do estresse oxidativo no desenvolvimento das complicações diabéticas. Inúmeros autores demonstram que quando ocorre o au- mento da hiperglicemia e ácidos graxos, elevam-se os níveis de ra- dicais livres nos tecidos, levando a um quadro de estresse oxidativo e, dessa forma, provocando lesões nos tecidos que participam na gênese das complicações do diabetes. Cabe destacar ainda a importância de novos estudos que ava- liem as associações entre o DM e suas complicações com o estresse oxidativo na busca de novas formas de tratamento e redução na in- cidência das complicações da doença. Alémdisso, tais estudos po- dem contribuir no entendimento de diversas outras doenças. 8. REFERÊNCIAS AGUIAR, Luiz G. et al. A microcirculação no diabetes: implica- ções nas complicações crônicas e tratamento da doença. 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Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 26 06/10/2014 16:28:10 27 ESTUDO SOBRE A APLICABILIDADE DE PROTOCOLOS DE REABILITAÇÃO NO PÓS-OPERATÓRIO DE ARTROPLASTIA TOTAL DE JOELHO ESTUDO SOBRE A APLICABILIDADE DE PROTOCOLOS DE REABILITAÇÃO NO PÓS-OPERATÓRIO DE ARTROPLASTIA TOTAL DE JOELHO STUDY ON THE APPLICABILITY OF THE PROTOCOLS OF THE REHABILITATION OF POST-OPERATIVE TOATL KNEE ARTHROPLASTY Vanessa Machado1 Thais do Nascimento Gomes2 RESUMO A evolução patológica da osteoartrose do joelho podelevar à indicação cirúrgica de artroplasia total de joelho, quando o tratamento conservador não é mais efeivo. Os protocolos de reabilitação pós-operatórios são recursos que podem ser uilizados para guiar a conduta isioterapêuica pós-operatória quando se quer trabalhar sobre os déicits funcionais como a amplitude de movimento (ADM), força muscular (FM) e marcha. A pesquisa objeivo fazer uma análise comparaiva sobre a aplicabilidade dos protocolos reabilitaivos de pós-operatório de artroplasia total de joelho e foi baseada em bibliograias disponíveis em livros e no meio eletrônico através de sites de busca como Google, Bireme, Scielo. A comparação dos protocolos mostrou que os autores têm uma abordagem bastante semelhante ao tempo de duração de cada fase e dos exercícios aplicados na reabilitação pós-operatório. Ambos concordam com o início precoce da isioterapia pós-operatório e a gradual inserção de exercícios para a ADM passivos, aivo-assisidos e aivos, a MPC (mobilização passiva conínua), de reforço muscular e de treino de marcha, inicialmente com apoio parcial, evoluindo para apoio total. Ainda referem sobre a importância do treino de coordenação, propriocepção e das aividades de vida diárias. Embora haja mínima diferença quanto ao tempo para o avanço de cada fase reabilitaiva e alta do paciente nos protocolos analisados, percebe-se a relevante necessidade de avaliar a resposta isiológica de cada indivíduo após a cirurgia e a cada fase do tratamento, levando em conta suas paricularidades. Palavras-chave: osteoartrose, artroplasia, protocolos de reabilitação. ABSTRACT Pathological changes of knee osteoarthriis can lead to surgical indicaion of total knee arthroplasty when conservaive treatment is no longer. The protocols of post-operaive rehabilitaion are resources that can be used to guide the conduct in post-operaive physiotherapy when we want to work on the funcional deicits and the Range Of Moion (ROM), muscular strength (MS) and march. The study was based on bibliographies available in books and electronic media through search websites like Google, BIREME, Scielo. Comparison of protocols showed that the authors has a very similar approach to the duraion of each phase and to the exercises applied in rehabilitaion ater surgery. Both agree with the early onset of post-operaive physiotherapy and the gradual inserion of exercises for passive ROM, acive-assisted and acive, the CPM (Coninuous Passive Mobilizaion) of muscle strengthening and march training, iniially with parial support, evolving for full support. The authors also show concern about the importance of training coordinaion, propriocepion and the daily life aciviies. Although there are minimal diference in the ime to advance the phases of the paient and high in the analyzed protocols, we ind relevant the need to evaluate the physiological response of individuals ater surgery and every phase of treatment, taking into account their pariculariies. Keywords: osteoarthriis, arthroplasty, rehabilitaion protocols. 1 Acadêmica Concluinte do Curso de Fisioterapia, 2010. Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo. vanessamachado. mv@gmail.com 2 Mestre em Educação nas Ciências. Orientadora. Professora do Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo, IESA- RS. gomesnthais@gmail.com Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 27 06/10/2014 16:28:10 28 VANESSA MACHADO - THAIS DO NASCIMENTO GOMES 1. INTRODUÇÃO O joelho constitui-se de uma articulação de ossos, músculos, ligamentos, meniscos e demais componentes, em que cada parte atua para sustentação do corpo e movimentos de deslocamento. A osteoartrose, também conhecida como osteoartrite ou artrose, é uma doença reumática degenerativa que atinge o joelho, causando principalmente dores e limitações no decorrer das atividades de vida diária. Ela ocorre com maior freqüência a partir da terceira década de vida, tendo como indicação a artroplastia total de joelho, quando o tratamento conservador para esta patologia não faz mais efeito. A artroplastia total de joelho é um procedimento cirúrgico, no qual se realiza a substituição de todos os componentes da articulação do joelho, fixando-se uma prótese total. O procedimento é bastante complexo, exigindo muitos cuidados antes e depois da cirurgia. No tratamento pós-operatório de cirurgias como a artroplastia total de joelho dispõe-se de diversos recursos fisioterapêuticos, entre eles a utilização de protocolos de reabilitação que são planos de tratamen- to pré-determinados e que servem como base para cada fase deste processo, tendo em vista um melhor resultado funcional e mais pre- coce possível (BARBOSA, 2005). Pelas limitações que a artroplastia total do joelho causa, após o procedimento, a fisioterapia deve inter- vir de forma a desenvolver protocolos pós-operatórios criteriosos e embasados teoricamente para garantir efetividade em sua prática, alcançando assim resolutividade no processo reabilitativo. Por isso, o presente trabalho buscou, através de fundamentação teórica, ana- lisar e comparar dois protocolos pós-operatórios de artroplastia total de joelho do tipo cimentada nas diferentes fases do processo reabi- litativo, objetivando verificar os ganhos funcionais de amplitude de movimento, força muscular e marcha. A busca teórica e a reflexão sobre a adequação de protocolos é importante pela multiplicidade de casos e diferentes reações ao tratamento, pois cada organismo responde aos estímulos de uma forma diferenciada e fatores como idade, sexo, atividade funcional e estilo de vida devem ser conside- rados. 2. MATERIAL E MÉTODOS Este trabalho se desenvolveu através de estudo bibliográfico descritivo, buscando fundamentar teoricamente os protocolos de re- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 28 06/10/2014 16:28:10 29 ESTUDO SOBRE A APLICABILIDADE DE PROTOCOLOS DE REABILITAÇÃO NO PÓS-OPERATÓRIO DE ARTROPLASTIA TOTAL DE JOELHO abilitação no pós-operatório de artroplastia total de joelho em relação à suas abordagens no ganho de amplitude de movimento (ADM), força muscular (FM) e restauração da marcha. Procurou-se referen- dar-se a partir de critérios como: idade acima de 60 anos, indepen- dente de sexo, tendo por etiologia determinante a artroplastia e a osteoartrite ou osteoartrose, elegendo o estudo pelo procedimento cirúrgico e intervenção pós-operatória de prótese do tipo cimentada, sem objetivar associar ao estudo de outras intervenções cirúrgicas ou doenças associadas. Sendo esses indivíduos sem distúrbios, al- terações neurológicas e/ou alterações cognitivas. A revisão de literatura baseou-se aos anos de 1993 a 2009 e a fundamentação teórica buscada foi relacionada a diversos recursos como livros, revistas e meios eletrônicos, entre eles artigos, sites de busca, como exemplo Google e Google Acadêmico, Scielo e Bireme. A discussão foi pautada pela análise específica de dois protoco- los de reabilitação de Artroplastia Total de Joelho (ATJ). Esses pro- tocolos serão comparativamente verificados sobre os aspectos dos seus efeitos na reabilitação, buscando refletir sobre a adequação de uso destes protocolos de forma a atingir a maior eficácia na fisiotera- pia a partir das particularidades de cada paciente. Realizou-se um estudo comparativo entre dois protocolos de re- abilitação pós-operatórios de artroplastia total de joelho (ATJ) dos autores Kisner e Colby (2005) e Maxey e Magnusson (2003). Ambos abordam o tratamento utilizado com o paciente em recuperação, di- vidido em fases do processo reabilitativo. Procurou-se fazer o levan- tamento destes instrumentos voltando-se ao procedimento cirúrgico de substituição total do joelho do tipo cimentada. Objetivando-se, assim, refletir sobre a adequação destes protocolos na reabilitação de cada paciente, tendo em vista suas particularidades. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO A fisioterapia no pré e no pós-operatório de artroplastia total de joelho deve ser incentivada, pois a possibilidade destaprática garan- te mais rapidamente o retorno físico funcional do paciente às suas atividades da vida diária, atividades laborais, grupos sociais, entre outros. A reabilitação pós-operatória da artroplastia total de joelho Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 29 06/10/2014 16:28:10 30 VANESSA MACHADO - THAIS DO NASCIMENTO GOMES torna-se mais eficaz quando começada precocemente com movi- mentos de flexão e extensão do joelho durante exercícios e transfe- rências de peso. Deve-se ter cuidado de não deitar sobre o membro operado e não colocar almofada em baixo do joelho a fim de evitar deformidade em flexão (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2003). O tratamento após a cirurgia é progressivo, as caminhadas co- meçam com auxílio de muletas e passam para bengalas. Nos primei- ros dias é feita a transferência de peso de uma perna para outra len- tamente, os exercícios devem ser praticados freqüentemente, porém respeitando os limites do paciente. Se existir dor, pode-se aplicar téc- nicas de analgesia como crioterapia e massagem (PORTER, 2005). Ainda quanto às técnicas terapêuticas, a termoterapia é utilizada no relaxamento de músculos contraturados e exercícios isométricos in- dicados no reforço muscular em fase aguda, objetivando melhora na sustentação de peso e absorção de choques. Entretanto, faz obser- vação quanto ao uso de calçados apropriados no treino da marcha (LIANZA,2001). Para tanto, a fisioterapia se baseia em protocolos de reabilita- ção que são planos de tratamento pré-estabelecidos para alcance de melhores resultados ao curto prazo. Tais instrumentos procuram eleger recursos físico-funcionais para cada etapa do tratamento, le- vando em conta as fases do reparo pós-cirúrgico. Entre os diversos protocolos existentes, estão os dos autores Kisner e Colby (2005) e o do Maxey e Magnusson (2003), abordando as diferentes fases do processo de reabilitação com enfoque no reestabelecimento da ADM, FM e demais funções como retorno à marcha entre outras ati- vidades (KISNER; COLBY, 2005; MAXEY; MAGNUSSON, 2003) Neste contexto, a amplitude de movimento (ADM) serve para manter a mobilidade das articulações e ajudar na regeneração de te- cidos em condições patológicas ou pós-operatórias (KISNER; COL- BY, 2005). Para uma melhor qualidade de vida, o indivíduo necessita ter no mínimo 90° de flexão do joelho para ser considerado funcional e para subir escadas, por exemplo, é preciso 105° de flexão (PREN- TICE; VOIGHT, 2003). No procedimento de artroplastia total de joelho ou imobilização pós-operatória, os tecidos moles e estrutura óssea são um pouco Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 30 06/10/2014 16:28:10 31 ESTUDO SOBRE A APLICABILIDADE DE PROTOCOLOS DE REABILITAÇÃO NO PÓS-OPERATÓRIO DE ARTROPLASTIA TOTAL DE JOELHO prejudicados, entre eles o tecido conjuntivo, músculos, tendões e pele. Portanto, após a sutura da operação ficam tecidos fibrosados e cicatricial impedindo a ADM completa de extensão e flexão do joelho, sendo então importante o alongamento para liberação da ADM na cápsula articular (KISNER; COLBY, 2005). A movimentação passiva é benéfica ao indivíduo que não conse- gue mover ativamente o membro com a articulação comprometida, como no caso dos pacientes pós-operatório de ATJ. A mobilização da articulação evita contraturas, aderências e degeneração da carti- lagem durante o período de imobilização no leito, devendo ser usada preferentemente antes do alongamento passivo. A mobilização pas- siva contínua (MPC) é utilizada para trabalhar o ganho de amplitude de movimento de maneira rápida e precisa. Estudos relatam obter resultados mais rápidos do que com as técnicas convencionais (KIS- NER; COLBY, 2005). Há diversas maneiras de restaurar a força muscular perdida após períodos de imobilização, cirurgia ou patologia. Dentre estas, o exer- cício isométrico ou estático que se baseia na contração do músculo contra uma carga imóvel, sem aumento de comprimento. Este tipo é muito utilizado na reabilitação de pacientes pós-operatórios ou pro- cessos patológicos agudos nos quais possivelmente existe diminui- ção de ADM. Durante a realização da contração isométrica, deve-se orientar o paciente a realizar a expiração. Pois manobra como a de Valsalva, em que se faz uma apnéia com a glote fechada, aumen- tam a pressão intratecal, que pode aumentar a chance de ocasionar aumento da pressão arterial sistólica e acidentes cardiovasculares (KISNER; COLBY, 2005; PRENTICE; VOIGHT, 2003). O exercício dinâmico inclui exercícios concêntricos ocorren- do contração e encurtamento do músculo e exercícios excêntricos em que o músculo se alonga sob tensão. Os exercícios de cadeia cinética fechada são especialmente utilizados para fortalecimento de membros inferiores, já que oferecem sustentação de peso. Estes exercícios visam trabalhar a força muscular nos movimentos neces- sários nas AVD’s e nas demais atividades funcionais, como cami- nhar, subir escadas, as quais exigem o bom condicionamento dos músculos quadríceps e isquiotibiais (PRENTICE; VOIGHT, 2003). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 31 06/10/2014 16:28:10 32 VANESSA MACHADO - THAIS DO NASCIMENTO GOMES O ganho de força muscular deve estar associado também à con- quista do controle neuromuscular, já que não basta ao paciente a aquisição de força sem a possibilidade de controlar sua ativação. Por isso, a propriocepção é também um objetivo da fisioterapia no trata- mento de artroplastias, já que ao ser iniciada precocemente garan- te ao paciente mais noção de movimento, posicionamento espacial, velocidade, distribuição de peso corporal e alerta de receptores na prevenção de quedas e organização corporal. Os recursos técnicos utilizados são através do treino em apoio bipodal e posteriormente unipodal que exercitam o equilíbrio estático e dinâmico com o uso de pranchas proprioceptivas, balancins, através do feedback visual, comando verbal do terapeuta entre outros (KISNER; COLBY, 2005; PRENTICE; VOIGHT, 2003). Entretanto, chama-se a atenção no que se refere ao treinamento de força com exercícios resistidos para pacientes em idade adulta avançada. Pois, há diversos fatores como o declínio da força, flexi- bilidade, velocidade, tamanho e número de fibras musculares. Por isso, deve-se ter cuidado no momento da aplicação da carga e reali- zação dos exercícios (KISNER; COLBY, 2005). Os estudos sobre a marcha apontam para diversos fatores que comprometem a locomoção normal. Entre eles está diminuição da amplitude de movimento de flexão do joelho, realizada pelos múscu- los posteriores da coxa como os isquiotibiais, necessária na fase de balanço do ciclo da marcha. Também a diminuição da ADM de ex- tensão do joelho pela ação da contração do quadríceps, importante na fase de apoio. Além desses, a fraqueza muscular e falta de equi- líbrio, todos provenientes de uma situação patológica, incapacida- des e imobilizações como é o caso dos pacientes com osteoartrose ou pós-operatórios de artroplastia total de joelho (KISNER; COLBY, 2005; PRENTICE; VOIGHT, 2003). A reabilitação da marcha no pós-operatório trata-se da atuação do fisioterapeuta a partir da liberação médica. Inicialmente, é tra- balhada a transferência de peso parcial com auxilio de andador ou muleta e realizado treino da marcha progressivamente, e de forma repetida ao longo do dia (PORTER, 2005). A Fase Aguda ou de Proteção Máxima é a primeira fase de rea- bilitação num processo patológico ou pós artroplastia total de joelho, Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 32 06/10/2014 16:28:10 33 ESTUDO SOBRE A APLICABILIDADE DE PROTOCOLOS DE REABILITAÇÃO NO PÓS-OPERATÓRIO DE ARTROPLASTIA TOTAL DE JOELHO quando se deve proporcionar ao paciente proteção máxima, pois o tecido lesado encontra-se em estágio de reação inflamatória. Tendo duração de 4 a 6 dias ou 1 a 2 semanas. Complementandoa ideia sobre a fase de cuidado agudo, relata-se que esta tem duração de 1 a 5 dias e a abordagem fisioterapêutica deve buscar prevenir compli- cações do pós-operatório e recuperação funcional. A restauração da ADM de flexão e extensão completa até 90°, transferências de peso e em seguida treino da marcha e independências nas atividades de vida diária (AVD’s) são algumas das metas (MAXEY; MAGNUSSON, 2003). A proteção é exercida deixando o paciente em repouso, isto é, imobilizando o membro operado para melhor cicatrização sem correr riscos de nova lesão. Porém, a não movimentação precoce prejudica no sucesso de ganho da amplitude de movimento (ADM) e conse- qüentemente no retorno às atividades. Por isso, é incluído movimen- to passivo do membro inferior, precisamente da articulação do joelho operado, para que possa haver circulação dos fluídos e organização dos fibroblastos responsáveis pela formação do tecido cicatricial, evitando-se aderências e alterações da cartilagem (KISNER; COL- BY, 2005). A intensidade do movimento de ADM passiva é suave, no limite suportado pelo paciente. Por se tratar de um estágio agudo de rea- bilitação, a dor é mais intensa pela possível presença de inflamação no local. A amplitude alcançada com o movimento passivo contínuo varia de 0 a 40° de flexão que, conforme as condições do paciente, aumenta 5 a 10° por dia (KISNER; COLBY, 2005; MAXEY; MAG- NUSSON, 2003). Em um estudo comparativo de dois grupos de pacientes pós -operatório de ATJ do tipo cimentada, relacionam o ganho de ADM. Encontrou-se resultados de que um grupo que recebeu MPC na 1ª semana teve um ganho maior de ADM e alta antecipada do que o outro que permaneceu imobilizado e só realizou na 2ª semana. O motivo foi melhora da drenagem de líquidos na articulação (MAR- QUES; KONDO, 1998). Os exercícios devem ser iniciados no segundo ou terceiro dia pós-operatório (MAXEY; MAGNUSSON, 2003). Nesta fase é permi- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 33 06/10/2014 16:28:10 34 VANESSA MACHADO - THAIS DO NASCIMENTO GOMES tido iniciar exercícios de fortalecimento muscular, desde que sejam realizados com pouca carga e dentro da tolerância do paciente. Os exercícios isométricos em vários ângulos são escolhidos para for- talecimento do membro inferior cujo joelho foi operado e para bom- beamento sanguíneo através da contração muscular. Exercícios de resistência podem ser aplicados moderadamente nos demais seg- mentos corporais, preparando o paciente para o uso de dispositi- vos auxiliares na deambulação, como muletas ou andador. Nesses casos, o alongamento é contra-indicado por causa da inflamação (KISNER; COLBY, 2005). Quanto a Fase Subaguda ou de Proteção Moderada, a prote- ção do joelho operado nesse estágio ocorre durante a realização de exercícios para manter os tecidos moles em boas condições de re- generação. Nesta fase a inflamação diminui, dando espaço a produ- ção de tecidos de granulação e colágeno. Por isso, deve-se respeitar o limite do paciente, não indo além deste para prevenir o retorno da inflamação. A fase subaguda ou de proteção moderada ocorre 14 a 21 dias após a lesão ou de 3 a 6 semanas (KISNER; COLBY, 2005). Já no protocolo de Maxey e Magnusson (2003) a duração é de 6 a 14 dias fase IIa subaguda ou 1 a 3 semanas subaguda avançada IIb. A realização de exercícios ativos é permitida, mas o paciente pode não conseguir realizar em toda sua amplitude devido à fraque- za muscular decorrente da imobilização no estágio agudo. Mesmo assim, é preciso informá-lo quanto aos sintomas, como dor que pode ser normal nesta fase, causada pela retração dos tecidos moles ou associada a edema, indicando inflamação decorrente da progressão muito rápida do exercício (KISNER; COLBY, 2005; MAXEY; MAG- NUSSON, 2003). A partir daí, são inseridos exercícios em cadeia aberta e fechada para membros inferiores e resistidos, tendo cuidado em relação à intensidade e amplitude exagerada, pois, através da formação de colágeno, a cicatriz se desenvolve com mobilidade, sendo por isso frágil e facilmente rompida (KISNER; COLBY, 2005; MAXEY; MAG- NUSSON, 2003). O exercício em cadeia fechada é usado de forma a restaurar as capacidades de equilíbrio e coordenação alteradas pelo dano cau- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 34 06/10/2014 16:28:10 35 ESTUDO SOBRE A APLICABILIDADE DE PROTOCOLOS DE REABILITAÇÃO NO PÓS-OPERATÓRIO DE ARTROPLASTIA TOTAL DE JOELHO sado aos mecanoceptores, ligamentos, tendões ou cápsula (SILVA, 2006). É indicado como modalidade fisioterapêutica, o uso da massa- gem de fricção transversa para mobilização de tecidos moles e lo- cais de incisão. Ela influi na mobilidade do tecido cicatricial, libe- rando aderências e melhorando a amplitude de movimento pelo deslizamento dos tecidos através da articulação do joelho (KISNER; COLBY, 2005). Durante a fase subaguda avançada, os protocolos de reabilitação de ATJ incluem a iniciação do retorno às atividades funcionais. Para isso, é colocado em exercício o treino da marcha com apoio de peso total com ou sem dispositivos auxiliares, progredindo para avanço de alguns passos e em pequenas distâncias conforme o equilíbrio do paciente (KISNER; COLBY, 2005; MAXEY; MAGNUSSON, 2003). Já a Fase Crônica ou de Retorno às Atividades, neste estágio não há inflamação, os tecidos já estão em remodelamento cicatricial e ocorre alinhamento do colágeno à sobrecarga. Acontece do 21° dia ao 60° dia ou após a 6ª semana de pós-operatório de artroplastia to- tal do joelho do tipo cimentada. Há presença de dor ao alongamento devido à resistência imposta pela contratura do tecido cicatricial que causa aderências e limitações (KISNER; COLBY, 2005). Na última fase de reabilitação ou fase crônica, trabalham-se di- versas formas de exercícios e objetos que irão ajudar na comple- mentação e finalização da reabilitação do paciente pós-operatório de artroplastia total de joelho. Por exemplo, normalizar a marcha de maneira a realizar sem dispositivos de apoio, aumentar a ADM, me- lhorar o equilíbrio e sustentação de peso (KISNER; COLBY, 2005; MAXEY; MAGNUSSON, 2003). O retorno às atividades de vida diárias (AVD’s) e profissionais exige um bom fortalecimento muscular, feito através de exercícios de forma segura e com bom equilíbrio que pode ser adquirido como resposta ao treino do sistema neuromuscular. O alongamento de is- quiotibiais e quadríceps são utilizados com uma sobrecarga contro- lada para diminuir a contratura dos tecidos aderidos e aumentar a ADM, porque se faz necessário uma amplitude de 110 a 125° de fle- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 35 06/10/2014 16:28:10 36 VANESSA MACHADO - THAIS DO NASCIMENTO GOMES xão para atividades funcionais como subir e descer escadas e uma amplitude de 0 a 110° de extensão para normalizar o ciclo da marcha (KISNER; COLBY, 2005; MAXEY; MAGNUSSON, 2003). A redução de peso tem grande influência no sucesso do trata- mento pós-operatório de artroplastia total de joelho do tipo cimenta- da, já que o sobrepeso está associado ao precursor deste processo. Pois, o excesso de peso é um dos fatores que predispõem o surgi- mento de osteoartrite, sendo esta a causa da ATJ e conseqüente reabilitação pós-cirúrgica. Para tanto, pode-se trabalhar a condição aeróbica ou cardiovascular deste paciente, através de exercícios na bicicleta estacionária ou aquáticos (MAXEY; MAGNUSSON, 2003). No programa de reabilitação, a diminuição do repouso na cama, os cuidados com os tecidos moles evitando contraturas são enfatiza- dos para melhora do ganho de flexão (LENSSEN, 2006). Também, o incentivo de fisioterapeuta e enfermeiros aos pacientes pós-operató- rio de ATJ na realização dos exercícios e continuação do tratamento após a alta (MAXEY; MAGNUSSON, 2003). 4. CONCLUSÃO A fisioterapia pós-operatória baseou-se em protocolos de reabili- tação, os quais propuseram exercícios para ganho de amplitude de movimento, restauração da força, marcha e retorno às atividades. Os estágiosda cicatrização tecidual são considerados importantes no estabelecimento das fases do tratamento pós artroplastia total de joelho. Durante a busca, por um motivo da aplicação de protocolos de reabilitação no pós-operatório de artroplastia total de joelho do tipo cimentada, diversos fatores que interferem no sucesso ou não do processo reabilitativo foram encontrados. Entre eles está a adesão do paciente pelo plano de tratamento, o respeito às limitações de cada paciente e a escolha por seguir um programa de fisioterapia após ser submetido a uma substituição total da articulação do joelho por uma prótese decorrente da osteoartrose. Na comparação dos protocolos não houve grandes discordâncias entre os autores, ambos são muito semelhantes. Contudo, alguma Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 36 06/10/2014 16:28:10 37 ESTUDO SOBRE A APLICABILIDADE DE PROTOCOLOS DE REABILITAÇÃO NO PÓS-OPERATÓRIO DE ARTROPLASTIA TOTAL DE JOELHO variação de tempo de permanência em cada fase deverá levar em consideração a idade do paciente, a forma como se desencadeou a patologia deste e os estágios de cicatrização, pois estes podem apresentar comportamento diferente, relacionando às suas respos- tas fisiológicas desde quando surgiram, no pré-operatório, passando pelo procedimento cirúrgico até o pós-operatório. Portanto, há pos- sibilidade dessa situação ter ocorrido na construção de cada um dos dois protocolos utilizados neste estudo. Enfim, protocolos de reabilitação existem para guiar condutas fi- sioterapêuticas, como exemplo no pós-operatório de artroplastia to- tal de joelho. Por isso, eles não devem ser seguidos rigorosamente, já que cada indivíduo responde de uma maneira particular. 5. REFERENCIAS BARBOSA, D; FARIA, ETB. Fisioterapia em Artroplastias Totais de Joelho: IX Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e V Encontro Latino Americano de Pós-Graduação. São José dos Campos: Universidade do Vale do Paraíba; 2005. BRASIL, Ministério da Saúde: Instituto Nacional de Ortopedia e Traumatologia. Rio de Janeiro: CEI; 2003. KISNER, C; COLBY, LA. Exercícios Terapêuticos: Fundamen- tos e Técnicas. 4ª ed. Barueri: Manole; 2005. LENSSEN, AF. et al. Efficiency of immediate postoperative inpatient physical therapy following total knee arthroplasty: an RCT. BMC Musculoskeletal Disorders. Maastricht: BioMed Cen- tral Ltd; 2006. Lianza S. Medicina Física e Reabilitação. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2001. MARQUES, AP; KONDO, A. A fisioterapia na osteoartrose: uma revisão da literatura. Rev bras reumatol 1998; 38 (2): 83 - 90. MAXEY, L;, MAGNUSSON, J. Reabilitação: pós-cirúrgica para o paciente ortopédico. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2003. PRENTICE, WE; VOIGHT, ML. Técnicas em Reabilitação Mus- culoesquelética. Trad: Terezinha Oppido e Maria Alice Quartim Bar- bosa de Araújo. Porto Alegre: Artmed; 2003. PORTER, SB. Fisioterapia de Tidy. Tradução: Eliane Ferreira Et. Al. 13ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2005. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 37 06/10/2014 16:28:10 38 VANESSA MACHADO - THAIS DO NASCIMENTO GOMES SILVA, ALPE. Estudo Comparativo entre dois Métodos de Re- abilitação Fisioterapêutica na Artroplastia Total de Joelho: Pro- tocolo Padrão do IOT e Protocolo Avançado [dissertação]. São Paulo: USP; 2006. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 38 06/10/2014 16:28:10 39 TESTE DE PATERNIDADE: UMA ANÁLISE DAS QUESTÕES TÉCNICAS E LEGAIS ENVOLVIDAS NO EXAME TESTE DE PATERNIDADE: UMA ANÁLISE DAS QUESTÕES TÉCNICAS E LEGAIS ENVOLVIDAS NO EXAME PATERNITY TESTING: AN ANALYSIS OF TECHNICAL AND LEGAL ISSUES INVOLVED IN EXAM Alice Kunzler1 Emanuelle Kerber Viera Mallet2 RESUMO Diante dos grandes avanços sofridos nos úlimos anos na área da biologia molecular, os testes de paternidade podem hoje presumir de fato uma paternidade legíima. Este fato se deve graças ao surgimento de várias técnicas de análise em DNA, que permitem que este seja um teste relaivamente rápido e preciso. No entanto, a solicitação deste teste possui exigências e cuidados especiais que devem ser tomados por parte do laboratório, já que pode servir como prova pericial. A parir destes dados o objeivo do trabalho é demonstrar como são realizados os testes de paternidade em laboratórios clínicos e quando o laboratório tem a autorização legal para fazê-lo. Palavras-Chave: Impressões digitais de DNA; técnicas de diagnósico molecular; genéica forense; paternidade. ABSTRACT Facing the great advances that the molecular biology area had sufer in the last few years, paternity tesing can now assume indeed a legiimate paternity. This fact is due to the emergence of many analyical techniques in DNA that allows it to be a relaively fast and accurate test. However, the solicitaion of this test has requirements and special cares which has to be taken by the laboratory, because the results can be used as forensics evidence. From this informaion, this work aimed to show how paternity tesing is performed and when the laboratory has the legal authorizaion to do it. Keywords: DNA ingerprints; molecular diagnosics techniques; forensics geneics; paternity 1. INTRODUÇÃO Atualmente no Brasil, existe uma onda de testes de DNA em labo- ratórios públicos, com dinheiro do estado e em clínicas particulares. A iniciativa de fazer o teste muita vezes provem de mães desespe- radas, que nos levam a crer que são elas as que mais se beneficiam da nova tecnologia. Este fato coincide com o surgimento de novas leis de paternidade, como um meio para fortalecer e ampliar laços 1 Acadêmica Concluinte em Biomedicina (IESA, 2010); Mestranda em Bioquímica e Bioprospecção (UFPel). alice.bio@hotmail.com 2 Mestre em Genética e Diagnóstico Molecular (ULBRA, 2008); Graduação em Biomedicina (FEEVALE,2006); Coordenadora do Curso de Biomedicina e professora titular (IESA).emanuelle@iesanet.com.br Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 39 06/10/2014 16:28:10 40 ALICE KUNZLER - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET familiares, através de uma paternidade e maternidade responsável (FONSECA, 2005). Desde 1999, começando em São Paulo, o poder público aceitou arcar com a demanda popular, pagando os testes com dinheiro dos cofres públicos. No Rio Grande do Sul, na segunda metade de 2002, ingressaram no sistema gaúcho de justiça uma média de mil pedidos de investigação paterna por mês. Marcando aproximadamente 500 testes por mês, o Serviço Médico Jurídico ainda tem uma lista de espera de mais de 8 mil pedidos – o que representa cerca de um ano e dez meses de fila, sendo que o mesmo fenômeno se repete em quase todos os estados da União (FONSECA, 2005). Desta maneira, um aumento exponencial na solicitação de tes- tes de paternidade vem ocorrendo no Brasil, já que esta é a melhor maneira de praticamente confirmar uma paternidade e tem sido am- plamente utilizada pelo sistema judiciário. Existem diversas manei- ras de realizar o exame, e estas variam de acordo com o número de pessoas disponíveis para análise, principais técnicas utilizadas e materiais biológicos passíveis de se obter informações, nestes ca- sos, DNA. Apesar de ser um teste que necessite de técnicas e aparelhos modernos, não são estes os maiores empecilhos para o desenvolvi- mento do teste, já que laboratórios que não realizam estes exames podem realizar as coletas e enviar os materiais para análise em la- boratórios de apoio. Porém, existem várias normas legais que regem o exame, e que devem ser de conhecimento do laboratorista. Neste sentido, existe uma deficiência de materiais que abordam todos os procedimentos, tanto técnicos, mas principalmente os legais envolvi- dos no teste, e que possam servir de base técnica para os laborató- rios que oferecem este serviço. Embora pareça um simples exame utilizando DNA, o teste de pa- ternidade enfrenta seus maiores desafios na área jurídica, pois pode ser utilizado como prova pericial. Os laboratórios que realizam estes serviços possuem a responsabilidadede conhecer as leis que asse- guram o teste, obrigações legais e cuidados técnicos, para saber em que situações o exame pode ser realizado ou quando é necessária a apresentação de autorização legal para fazê-lo. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 40 06/10/2014 16:28:10 41 TESTE DE PATERNIDADE:UMA ANÁLISE DAS QUESTÕES TÉCNICAS E LEGAIS ENVOLVIDAS NO EXAME Com isso, o objetivo deste trabalho é demonstrar como são rea- lizados os testes de paternidade em laboratórios clínicos. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1. Condições Legais A família é a base da sociedade, pois a partir dela acontecem as outras relações sociais. A paternidade é um fator determinante na vida do indivíduo, gerando fortes conseqüências em sua formação sócio-afetiva, e está diretamente ligada ao estado em que se en- contra o pai e o filho. Assim, surgiram os testes de paternidade, que permitem a constituição legal entre duas pessoas, do laço de paren- tesco de primeiro grau (DALVI, 2008). A pesquisa genética da paternidade é permitida no nosso sistema jurídico. A lei n° 8.560/92 regula a investigação de paternidade dos filhos obtidos fora do casamento, os quais terão os mesmos direitos e qualificações e sendo proibidas quaisquer designações discrimi- natórias relativas à filiação, nos termos do art. 1.596 do Código Ci- vil. Em 2001, a lei n° 10.317 estabeleceu normas para a concessão de assistência judiciária aos necessitados, concedendo gratuidade do exame de DNA nos casos que especifica (CROCE; CROCE JR, 2009). A prova pericial do exame de DNA em um teste de paternidade só deve ser aceita quando observados os critérios indispensáveis de segurança tanto na coleta quanto na manipulação posterior das amostras, ou seja, desde a etapa de identificação dos indivíduos até a elaboração e entrega do laudo. Para tanto, um rígido esquema é estabelecido no momento da colheita dos materiais. Primeiramente é necessário que os sujeitos envolvidos apresentem documentos de identificação com foto, para garantir a comprovação da identidade dos mesmos. A coleta deve ser testemunhal, ou seja, realizada na presença de todos os envolvidos, para que os mesmos se identifi- quem mutuamente e assinem confirmando que a coleta foi efetuada na pessoa correta. Todos os envolvidos devem preencher e assinar o formulário de identificação e coleta e assinar declarações padro- nizadas autorizando a realização do exame, e declarando não te- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 41 06/10/2014 16:28:10 42 ALICE KUNZLER - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET rem se submetido a transplante de medula óssea nem a transfusão sanguínea recente. Neste momento também são coletadas provas datilográficas (letra e assinatura), datiloscópica (impressão digital), e, por fim, fotográfica e datilográfica (é tirada uma foto, datada e assinada). Estas provas são realizadas com todos os envolvidos, in- clusive crianças. Obtidas estas provas, realiza-se a coleta de sangue através de punção venosa. São colhidos rotineiramente, pelo menos dois tubos por pessoa, em que um tubo fica estocado no laboratório e o outro/ outros seguem para a extração de DNA. Os testes podem ser realizados e analisados por duas equipes diferentes e depois ter os resultados confrontados. Sempre que existir exclusão de paterni- dade, repete-se a análise com a amostra que tinha sido congelada, sendo confirmadas, dessa maneira, todas as exclusões (RASKIN, 2009; FIGINI et al., 2003). Antes de se realizar o teste propriamente dito, todas as amostras são testadas para sequências de DNA específicos do sexo feminino e do sexo masculino. Assim, a amostra da mãe deve apresentar as sequências compatíveis com o sexo feminino, o pai sequências com- patíveis com o sexo masculino e a criança sequências compatíveis com seu sexo. Este procedimento é realizado como forma de contro- le para que não ocorra troca de amostras, e após esta verificação as amostras são encaminhadas para as análises finais. Outro controle adicional de qualidade é feito antes da liberação do laudo, o teste de maternidade, no qual são comparados o DNA do filho e da mãe, antes da análise do DNA do filho e do pai. Por fim, se os dois exa- mes demonstrarem que o suposto pai não é o pai biológico, o exame é repetido novamente, para a certificação dos resultados (RASKIN, 2009). O teste também pode ser feito na ausência de uma pessoa en- volvida. A mãe de registro que quiser investigar a paternidade de seu filho (a) pode realizar o exame sem o consentimento do pai, pois ele não estará sendo investigado. A recíproca também é verdadeira. Casos que não estão enquadrados em processos jurídicos e em que a situação exija a presença de um menor de idade, é necessária au- torização do responsável e apresentação de certidão de nascimento ou declaração da maternidade. O requerimento do teste de pater- nidade só pode ser realizado por pai e mãe de registro, e o próprio Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 42 06/10/2014 16:28:10 43 TESTE DE PATERNIDADE:UMA ANÁLISE DAS QUESTÕES TÉCNICAS E LEGAIS ENVOLVIDAS NO EXAME filho após a maioridade. Neste caso, o filho investiga o vínculo e paternidade com um terceiro, sem que ocorra a anulação do registro de nascimento (RASKIN, 2009). 2.2. Técnicas A biologia molecular é uma área que tem sofrido muitos avanços nos últimos anos. O surgimento de novas técnicas e de novos mar- cadores para análise em DNA para identificação pessoal tem apri- morado e facilitado os testes, uma vez que cada vez menos material é necessário, sem que ocorra perda da qualidade das análises. Dentre as técnicas disponíveis para a análise de paternidade, três se destacam: PCR- STR, sondas unilocais e sondas multilocais. Estes testes têm substituído os tradicionais métodos de investiga- ção de paternidade: marcadores sanguíneos, séricos, enzimáticos e leucocitários HLA, pois esses marcadores apresentam uma varia- bilidade pequena entre os indivíduos. Já o DNA se constitui de uma extrema variabilidade de seqüências gênicas, fazendo com que a freqüência de cada marcador seja extremamente baixa na popula- ção. No ano de 2006, de acordo com a AABB (American Association of Blood Banks), que regula e realiza a acreditação dos laboratórios, a tecnologia da PCR foi utilizada em 98,53% dos testes de paterni- dade realizados, e em contra - partida não foi relatado nenhum caso de teste realizado com utilização de HLA (JOBIM, 2008). Nos últimos anos, a maioria dos laboratórios que disponibilizam este exame o realiza através da técnica de PCR-STR. A PCR, ou reação em cadeia da polimerase, é um método muito eficaz na ava- liação da individualidade humana. Esta técnica se baseia na amplifi- cação do material genético, ou seja, através do uso de uma enzima – DNA polimerase- o fragmento desejado durante vários ciclos é co- piado e replicado, gerando bilhões de cópias da seqüência desejada em um espaço curto de tempo. Por ser uma técnica muito específica, a PCR determina que se conheça a seqüência a ser copiada. As principais regiões do genoma utilizadas, portanto, são as denomina- das microssatélites, constituídas por STRs (short tandem repeats), ou “fingerprints”, que são seqüências curtas de nucleotídeos que se repetem em tandem por todo genoma. Para análise de paternidade utiliza-se em média mais que 12 locos gênicos. Já técnicas utilizando Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 43 06/10/2014 16:28:11 44 ALICE KUNZLER - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET sondas uni e multilocais são técnicas em que utiliza-se como mar- cadores os minissatélites, ou VNTRs (variable number of tandem re- peats). Estes são fragmentos mais longos que os STRs, e, portanto, exigem que se tenha mais material disponível para análise (JOBIM, 2008; BORGES-OSÓRIO; ROBINSON, 2001). As bases para utilização dos testes de identificação da indivi- dualidade humana, através dos estudo do DNA, encontram-se nos polimorfismos dos diversos loci de minissatélites e microssatélites. Cada pessoa apresentaum cromossomo materno e um paterno, e as segregações destas estruturas repetitivas seguem a lei de Men- del, em que um alelo é de origem materna e outro de origem paterna para cada locus (DOLYNSKI; PEREIRA, 2007). Depois de amplificado pela técnica de PCR, os materiais são submetidos à eletroforese de DNA ou a um seqüenciador automá- tico. A eletroforese é uma técnica simples e rápida, utilizada para a separação, visualização e também purificação do DNA de diferentes tamanhos. O material amplificado é aplicado em um gel e submetido a um campo elétrico, permitindo a separação do material de acordo com o seu tamanho. Já os seqüenciadores automáticos necessitam que os primers utilizados na PCR sejam marcados com fluorocro- mos, gerando picos de tamanhos e cores diferentes conforme os alelos que passam pelo laser, permitindo desta forma a identificação e a comparação dos alelos dos materiais amplificados (ROSSETTI et al., 2006). Na eletroforese, a análise do peso das bandas, ou alelos, o que se observa é a existência, no filho, da banda (ou alelo) de origem materna, que é idêntica a uma das de sua mãe. A outra banda pre- sente deverá ser de origem paterna e idêntica a presente no DNA do investigado. A ausência de pelo menos duas bandas idênticas entre o filho e o suposto pai confirma uma exclusão de paternidade, já que uma única banda não é capaz de confirmar a exclusão devido à pos- sibilidade de ter ocorrido uma mutação. Quando o possível pai não é excluído, calcula-se o índice de paternidade (IP), a probabilidade positiva de paternidade para cada sonda e a probabilidade cumula- tiva de paternidades dos diversos testes. O índice de paternidade é baseado no teorema de Bayes que compara as chances do filho her- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 44 06/10/2014 16:28:11 45 TESTE DE PATERNIDADE:UMA ANÁLISE DAS QUESTÕES TÉCNICAS E LEGAIS ENVOLVIDAS NO EXAME dar o alelo compartilhado com o suposto pai, 50%, quando o supos- to pai possui dois alelos distintos, ou 100%, quando possui apenas um com a freqüência deste alelo na população. Países desenvolvi- dos, como os EUA e a Alemanha utilizam a seguinte classificação em relação ao índice de paternidade: 90-95%-paternidade provável; 95-99%-paternidade muito provável; 99-99,73% - paternidade extre- mamente provável e acima de 99,73% - paternidade praticamente provada (RASKIN, 1997; FIGINI et al., 2003; JOBIM, 2008; SAM- PAIO et al., 2002). 2.3. Materiais O DNA humano está disponível em quantidade suficiente para análise em todas as células nucleadas do sangue e tecidos, em me- nor concentração no soro ou no plasma, e no líquido amniótico pla- centário. No cabelo, ele está bem representado nos bulbos capilares, enquanto que nos ossos fica enclausurado nas células conhecidas como osteoclastos. No caso de pessoas falecidas há mais tempo, em que os materiais dos tecidos já se encontram degradado, os os- sos e os dentes são de grande importância para a obtenção de DNA (JOBIM, 2008). Na realização do teste de paternidade, pode-se fazer uso de diversos materiais biológicos, com os quais o único objetivo é a obtenção de uma amostra de DNA. Os materiais mais comumen- te utilizados são sangue, esperma, saliva e cabelos. O sangue é o material preferencial de escolha, visto que ele representa uma fonte abundante de informação genética e por fornecer DNA íntegro e de boa qualidade para análise. A escolha de cabelo como material é utilizada quando um dos envolvidos realizou transplante de medula óssea ou transfusão sanguínea nos últimos noventa dias. Pessoas que fazem uso de medicamentos ou drogas podem fazer o exame, pois o seu padrão genético não será afetado, assim como não há necessidade de jejum nem mudanças na rotina (CROCE; CROCE JR, 2009; RASKIN, 2009). A coleta do material exige um controle extremo, já que as amos- tras passam a ter uma cadeia de custódia, na qual todos técnicos que realizaram provas, e todas as análises são documentadas, para que o material colhido possa ser passível de confiança e possua Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 45 06/10/2014 16:28:11 46 ALICE KUNZLER - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET legalidade perante a justiça. Desta forma, os documentos da cadeia de custódia devem possibilitar que sejam registradas todas as fases, desde o recebimento, aliquotagem, preparação, testes realizados até a disposição final. Laboratórios que oferecem o serviço, mas de forma terceirizada, devem ter cuidados extras, com profissional es- pecializado responsável, já que a coleta e o envio deste exame se- guem normas muito diferentes de outros exames de patologia clínica (CHASIN, 2008; RASKIN, 1997). 2.4. Número de pessoas envolvidas A investigação de paternidade pode ser realizada de acordo com a quantidade de pessoas envolvidas, ou de acordo com as possi- bilidades de cada caso. Os casos mais comuns e de mais fácil re- solução são os testes trio, em que há a presença do possível pai, do filho e da mãe. Nestes casos, o leque de marcadores genéticos disponíveis para análise é tão grande, que fica impossível a falta de conclusão (FIGINI et al., 2003). Outros tipos de testes são os que envolvem apenas o possível pai e o filho, quando na impossibilidade da presença da mãe, e são chamados testes duo. Nestes casos, as provas são realizadas com o DNA entre o suposto filho e possível pai, porém um número maior de alelos será analisado, sendo os resultados estatísticos bastante confiáveis. São observados metade dos alelos em comum entre o autor e o investigado. Uma exclusão consiste na ausência de alelos em comum (FIGINI et al., 2003; RASKIN, 2009). Testes post-mortem são aqueles em que o possível pai é faleci- do, e então analisa- se os ascendentes e descendentes, ou parte-se para a exumação do corpo. Nestes casos, a identificação de pater- nidade pode sofrer limitações devido à escassez de indivíduos para análise, tanto na parte da autora quanto na do suposto pai (FIGINI et al., 2003; JOBIM et al., 2008). Quando no estudo da família existem várias possibilidades. A pri- meira é se ambos os possíveis avós paternos são disponíveis. Os resultados são como se o falecido estivesse vivo, pois os alelos exis- tentes no suposto filho de origem paterna devem obrigatoriamente estar presentes no avô ou na avó. Se não existir partilha entre os ale- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 46 06/10/2014 16:28:11 47 TESTE DE PATERNIDADE:UMA ANÁLISE DAS QUESTÕES TÉCNICAS E LEGAIS ENVOLVIDAS NO EXAME los, conclui-se como uma exclusão, enquanto que a inclusão por ser de fácil detecção fornece resultados estatisticamente importantes. A segunda maneira é através na análise dos filhos legítimos e irmãos do possível pai. Quando os filhos legítimos são analisados é impor- tante o estudo da mãe e da viúva do investigado. Entre os irmãos, só é possível observar o máximo de quatro alelos ou bandas diferentes. Nestes casos a exclusão de paternidade se dá na presença de mais de quatro alelos diferentes entre os irmãos e o alelo paterno do autor. Analisando a viúva e seus filhos a exclusão ocorre quando os dois alelos paternos forem identificados nos filhos do falecido e não forem identificados no autor. A maioria destes casos são resolvidos, sen- do a conclusão proporcional a quantidade de pessoas disponíveis para análise, ou seja, quanto mais filhos ou tios disponíveis, maior a possibilidade de resultados conclusivos. É sempre mais desejável que se faça a análise do maior número possível de ascendentes e descendentes, pois pode ocorrer de que o alelo paterno presente no autor não seja o mesmo existente nos suposto irmãos (FIGINI et al., 2003). Em situações nas quais o investigado falecido não deixou des- centes para análise, parte-se para a exumação do corpo. São ana- lisados os dentes molares, pré-molares e fêmur. Em caso de mor- te recente, de horas ou dias, pode-se recolher amostras de sangue puncionando veias ou o coração, ou coletar cabelos, com bulbo, em umaamostra de pelo menos 20 fios. Até quatro semanas de morte pode-se usar amostras de músculo esquelético (FIGINI et al., 2003; JOBIM et al., 2008). 3. MATERIAL E MÉTODOS Este estudo constitui-se de uma revisão da literatura cujo enfo- que é testes de paternidade realizados em laboratórios clínicos. Para tanto, foram consultados livros, periódicos e artigos científicos. 4. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Embora o teste de paternidade seja um exame bastante difun- dido na nossa sociedade, ele exige alguns cuidados por parte dos laboratoristas. O teste pode ser solicitado por alguma pessoa física, Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 47 06/10/2014 16:28:11 48 ALICE KUNZLER - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET como o pai ou a mãe, ou como parte de um processo judicial. Em ambos os casos, o teste exige cuidados, mas estes devem ser refor- çados quando a solicitação não provém sem solicitação jurídica. De acordo com Raskin (2009), algumas precauções devem ser toma- das, desde a solicitação do teste até a coleta dos materiais. Todos os materiais devem possuir uma cadeia de custódia; o teste pode ser realizado na ausência de uma pessoa envolvida; quando na presen- ça de menor é exigida a certidão de nascimento e o requerimento só pode ser realizado por pai ou mãe de registro. Dalvi (2008) entende que na colheita do material, é importante obter autorização de todos os envolvidos, assim como todas as amostras devem ser codificadas para garantir a confiabilidade do teste. Desta forma, resguardam-se os direitos da criança e os direitos da família, e apesar de não se ter muitos autores dissertando a respeito, é de consenso na grande maioria dos laboratórios que prestam este serviço que sejam respei- tadas essas normas. De acordo com Dalvi (2008), o reconhecimento da paternidade pode ser feito de várias formas. A mais comum é a realizada pela declaração no termo de paternidade. No entanto, o artigo 2° da Lei 8560/92 expõe o reconhecimento da paternidade por suprimento. Neste caso, havendo um registro de nascimento no qual apareça somente o nome da mãe, o escrivão deve remeter ao juiz uma certi- dão do ato e das declarações da mãe sobre endereço do pai e outras possibilidades de encontrá-lo. Com isso, o juiz determina, caso en- tenda que tenham indícios suficientes para presumir a paternidade do suspeito pai e que este confirme a paternidade, a remessa de um termo de reconhecimento. Contudo, se ocorrer a negativa paterna de comparecer em juízo, ou ocorrer a negação da paternidade, o caso é encaminhado ao Ministério Público para que se proponha a ação de investigação de paternidade. Ainda conforme Dalvi (2008), todo ano no Brasil são feitos 6000 testes de DNA para comprovação de paternidade. Em cada teste, há laços familiares que se dissolvem pela comprovação de que alguém não era filho do pai que imaginava ter, ou relacionamentos começam a ser construídos a partir da descoberta de que uma pessoa tinha um filho que não julgava ser seu. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 48 06/10/2014 16:28:11 49 TESTE DE PATERNIDADE:UMA ANÁLISE DAS QUESTÕES TÉCNICAS E LEGAIS ENVOLVIDAS NO EXAME Fonseca (2005), afirma que muitos casos nem chegam a ser jul- gados. Alguns processos acabam sendo arquivados porque não foi possível localizar o suposto pai, e mesmo quando localizado é co- mum o homem não comparecer na primeira convocação para fazer o exame. Nos casos que são julgados na Vara de Família, a criança consegue colocar na certidão o nome de algum “pai”. Se menor, a criança ainda tem o direito de receber pensão. Porém, essa identida- de oficial nem sempre traz consequências no plano prático e muito menos no plano afetivo. Desta forma, nada garante que o homem declarado pela corte como pai cumpra seu compromisso paterno, pois a afirmação de um fato biogenético, o cumprimento de uma lei e o desenvolvimento de uma relação social são processos muitos distintos. Pode – se afirmar que com o advento do teste em DNA é hoje praticamente possível garantir se um indivíduo é ou não filho bioló- gico de um determinado casal. Da mesma forma, é possível excluir pessoas falsamente acusadas e obter probabilidades de inclusão extremamente próximas a 100%. Com a nova geração de testes em DNA, é muito difícil encontrar duas pessoas iguais em diversos locos genéticos analisados, ficando a única exceção a cargo dos gêmeos univitelinos que possuem, a princípio, 100% de seu DNA igual. Muitas técnicas são hoje disponíveis para análises em DNA. Em relação a testes de paternidade, a técnica PCR – STR se destaca como sendo utilizada majoritariamente por laboratórios que prestam este serviço. De acordo com Jobim (2008), a técnica de PCR – STR tem sido muito utilizada na análise pericial de casos de identificação humana, pois é um método extremamente poderoso na avaliação da individualidade humana. A abundância de STRs no genoma hu- mano é uma fonte inesgotável de variabilidade, e não encontram problemas como as altas taxas de mutações encontradas nos locos utilizados por sondas uni e multi-locais, já que os STRs apresentam baixa taxa de mutação (RASKIN, 1997). Ainda de acordo com Raskin (2009), a escolha da técnica deve ficar a critério de cada laboratório, pois não existe metodologia melhor ou pior, qualquer uma utilizada – sondas unilocais, sondas multilocais ou STRs (microssatélites)-, é capaz de esclarecer absolutamente todos os casos, cada uma com suas facilidades ou dificuldades. A utilização de sondas apresenta Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 49 06/10/2014 16:28:11 50 ALICE KUNZLER - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET custo relativamente baixo, mas encontra dificuldades visto que uti- liza material radioativo, é uma técnica extremamente trabalhosa, e o DNA a ser analisado deve estar em uma quantidade suficiente e não degradado. Já os STRs apresentam algumas vantagens, como o DNA é amplificado via PCR, a amostra a ser analisada pode ter uma quantidade inicial pequena e mesmo existindo contaminação da amostra por DNA de outras espécies a técnica de PCR é específica o suficiente para amplificar apenas o DNA humano. Para a análise do DNA, faz-se uso de qualquer material humano constituído por células nucleadas. De acordo com Raskin (2009), o material de preferência para a realização do teste de paternidade é sangue total, coletado através de punção venosa. Neste caso, o ma- terial é abundante e coletado em condições ideais, evitando contami- nações, além de ser obtido mediante autorização prévia de todos os envolvidos. Embora, dependendo da situação, como em transfusões sanguíneas ou transplante de medula óssea, possa se fazer uso de outros materiais como cabelo (bulbo), saliva, esperma, ossos. De acordo com Jobim et al. (2008), quando um dos indivíduos envolvi- dos é falecido há mais tempo, os cabelos são inadequados visto que já perderam a raiz e os tecidos remanescentes costumam apresentar material degradado. Sendo assim, os ossos e os dentes costumam ser os materiais de escolha para a obtenção de DNA. Em casos en- volvendo crianças em estado fetal, Raskin (2009) afirma que o teste pode ser feito analisando o DNA presente nas células do líquido am- niótico ou das vilosidades coriônicas da placenta, quando a gestação encontra-se próxima do quarto mês. O mesmo autor acredita que este tipo de exame só deve ser feito com o consentimento do casal e declaração de que o resultado não será utilizado para interrupção da gestação, a não ser casos de estupro confirmado. O teste de paternidade pode ser realizado de diversas formas, de acordo com a quantidade de pessoas disponíveis para a ava- liação. De acordo com Figini e cols (2003), os casos de mais fácil resolução são os que se apresentam disponíveis para análise o trio: mãe, filho e suposto pai. Raskin (2009) sugere que este tipo de teste é o mais preciso, no entanto, quando o DNA do pai ou da mãe está indisponível ocorre um acréscimo de locos analisados, ocasionando maior tempoe custo, mas sem alterar a precisão do teste. Quando Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 50 06/10/2014 16:28:11 51 TESTE DE PATERNIDADE:UMA ANÁLISE DAS QUESTÕES TÉCNICAS E LEGAIS ENVOLVIDAS NO EXAME o material da mãe está disponível o exame é ao mesmo tempo um teste de paternidade e maternidade, e pode ser usado para esclare- cer situações como uma possível troca de crianças na maternidade, ou com crianças desaparecidas e que são encontradas muitos anos mais tarde. Figini e cols (2003) afirmam ainda que em um teste com suposto pai e filho, observam-se metade dos alelos em comum entre o autor e o investigado, sendo os resultados estatísticos bastante confiáveis. Caso não são observados alelos em comum, ocorre uma exclusão. No caso em que o possível pai é falecido, é de consenso entre Figini e cols (2003) e Jobim et al. (2008), que parte-se para a análise dos ascendentes e descendentes do falecido ou exumação do corpo. Desta forma, quando no estudo da família ainda é possível a análise dos avós paternos, ou na sua ausência, da maior quanti- dade de filhos e irmãos do investigado, maior é a probabilidade de conclusão. De acordo com Sampaio et al. (2002), ainda quando se recons- titui o perfil genético do suposto pai através de parentes de primeiro grau, a análise pode resultar inconclusiva. Em casos de exumação, a análise dos dentes molares e pré-mo- lares e do osso fêmur devem ser o material de escolha, para que a quantidade de material seja suficiente para análise, visto que grande parte já pode estar degradada. Em casos de morte recente, Figini e cols (2003) afirmam que se pode utilizar qualquer material, preferen- cialmente músculo, mais os dentes molares e pré-molares e fios de cabelo contendo bulbo. 5. CONCLUSÃO Desta forma, conclui-se que a técnica mais utilizada em testes de paternidade é a PCR através da análise dos microssatélites, por ser uma técnica mais prática e eficiente. Dentre os materiais disponíveis para análise, recomenda-se a utilização de sangue para a extração de DNA, e a situação preferencial é aquela que constam os três en- volvidos no caso, suposto pai, mãe e filho. Os testes de paternidade podem ser realizados em laboratórios clínicos quando solicitado por meio de um processo jurídico, ou quando solicitado por uma pessoa física, nestes casos, com algumas precauções e exigência de docu- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 51 06/10/2014 16:28:11 52 ALICE KUNZLER - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET mentos comprobatórios de filiação. O teste de paternidade através do DNA foi amplamente aceito pelo poder judiciário podendo resol- ver de forma prática, e talvez precipitada, questões muito comple- xas. Assim, este teste pode tanto ser utilizado para firmar um laço de parentesco, como também para negar laços já existentes, já que a certeza genética não significa cumprimento das questões sociais dos envolvidos. 6. REFERENCIAS AABB (American Association of Blood Banks). Annual Report Summary for Testing in 2006. Disponível em: < www.aabb.org>. Acesso em: 30 jul 2010. BORGES-OSÓRIO, Maria R; ROBINSON, Wanyce M. Genética Humana. 2 ed. 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Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 53 06/10/2014 16:28:11 Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 54 06/10/2014 16:28:11 55 FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA MANIPULATIVE PHYSIOTHERAPY TREATMENT NECK PAIN Marcelo Anderson Bracht1 Armindo Holler2 RESUMO A dor cervical é uma queixa relaivamente comum e afeta cerca de 70% dos indivíduos em algum momento de suas vidas. A coluna cervical é considerada o elo lexível entre o crânio e o tronco. Possui uma função que combina mobilidade e ao mesmo tempo estabilidade, dando suporte a cabeça, além de proteção para as estruturas vasculares e nervosas. Por ser uma área de grande mobilidade tem uma grande propensão à lesão. Para aingir sucesso em sua intervenção clínica o Fisioterapeuta necessita de um amplo entendimento da anatomia funcional e da biomecânica clínica a im de realizar uma avaliação precisa e aplicar corretamente as técnicas manipulaivas. Este estudo tem como objeivo descrever a anatomia funcional da coluna cervical, o entendimento da cervicalgia e a aplicação da terapia manipulaiva. Foi feita uma revisão da literatura em livros, arigos cieníicos e sites relacionados com o assunto. Palavras-chave: coluna cervical. Cervicalgia. isioterapia manipulaiva. ABSTRACT Cervical pain is a relaively common complaint, afecing about 70% of individuals at some point in their lives. The cervical spine is considered a lexible link between the skull and torso. It has a funcion that combines mobility and stability at the same ime, supporing his head, and protecion for the vascular and nervous structures. Being anarea of great mobility has a high propensity to injury. To achieve success in their clinical intervenion the physiotherapist needs a broad understanding of funcional anatomy and biomechanics clinic in order to perform an accurate and correctly apply the manipulaive techniques. This study aims to describe the funcional anatomy of the cervical spine,neck of the understanding and applicaion of manipulaive therapy. A review of the literature in books, scieniic aricles and sites related to the subject. Keywords: cervical spine, neck and manipulaive physiotherapy. 1. INTRODUÇÃO A coluna cervical tem como função primordial suportar e orientar a cabeça no espaço relativamente ao tórax para servir os sistemas sensoriais (JULL et al., 2008). Esta tarefa exige um sistema muscu- loesquelético complexo a fim de combinar mobilidade e estabilidade. A grande mobilidade associada a fatores extrínsecos e intrínsecos propiciam a instalação de disfunções na região cervical. 1 Fisioterapeuta, FURB; Mestre em Fisioterapia, UDESC; Especialista em Fisioterapia Ortopédica, ACE; Aperfeiçoamento em Fisioterapia Manipulativa. E-mail: mabracht@gmail.com. 2 Fisioterapeuta, Mestre em Educação, Professor no curso de Fisioterapia do IESA – Santo Ângelo – RS. E-mail: riegerhol@yahoo.com. br. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 55 06/10/2014 16:28:11 56 MARCELO ANDERSON BRACHT - ARMINDO HOLLER Um número significativo da população é acometido por cervical- gia e por esse motivo, com freqüência, osFisioterapeutas são con- frontados com a necessidade de selecionar terapias eficazes para o tratamento da disfunção cervical. A Terapia manipulativa vem sendo utilizada há longa data no alívio das mais variadas manifestações de dor. O estudo é uma revisão bibliográfica das principais estruturas da coluna cervical, a sua anatomia funcional e biomecânica com o objetivo de contribuir para o entendimento dos efeitos da Fisioterapia Manipulativa no tratamento da Cervicalgia. 2. METODOLOGIA O trabalho consistiu numa revisão bibliográfica sobre a aborda- gem da Fisioterapia Manipulativa no tratamento da cervicalgia. Foram consultadas bases de dados através da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) da BIREME, bibliografia atualizada utilizando os descritores: “Cervicalgia” and “Terapia Manual” or “Fisioterapia Manipulativa”. 3. DISCUSSÃO A região cervical é dotada de grande mobilidade permitindo mo- vimentos de 45º de flexão e extensão. Flexiona-se lateralmente 45º e é capaz de girar aproximadamente 60º (THOMPSON; FLOYD, 1997). Devido a sua mobilidade a cervical sofre mecanicamente pe- los esforços a que é submetida no trabalho e na vida diária. Para minimizar o impacto é constituída de uma lordose fisiológica de con- cavidade posterior (SOBOTTA, 2008). Segundo Hoppenfeld (2001), a coluna cervical possui as funções de suporte, estabilidade e mobi- lidade para a cabeça; abriga e conduz a medula espinhal, a artéria vertebral e as veias jugulares internas; a cadeia simpática do siste- ma nervoso autônomo. A coluna cervical se constitui em duas categorias anatômicas e funcionais distintas, ou seja, em coluna cervical superior, suboccipital ou atípica (C0,C1, C2) e coluna cervical inferior ou vértebras típicas ( C3 a C7) (GOULD, 1993). A coluna cervical superior que é composta pelo atlas e áxis, isto é, as duas primeiras vértebras, as quais estão unidas entre si, além do occipital, por uma complexa cadeia articu- lar com três eixos e três graus de liberdade. As demais vértebras Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 56 06/10/2014 16:28:11 57 FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA cervicais são todas do mesmo tipo (KAPANDJI, 2000). Segundo o mesmo autor, a coluna cervical inferior se estende do platô inferior do áxis até o platô superior da primeira vértebra torácica. Possuem dois tipos de movimentos: sendo um movimento de flexão - extensão e por outro lado movimentos mistos de inclinação - rotação. Fun- cionalmente as colunas cervical, superior e inferior, trabalham em uníssono para realizar movimentos puros de rotação, inclinação ou de flexão e extensão da cabeça. A parte inferior da coluna cervical é caracterizada pelas vértebras (C3- C7), cujos processos espinhosos tornam-se progressivamente maiores em ordem descendente. A sétima vertebral cervical é deno- minada proeminente por apresentar o maior processo espinhoso na região cervical. Abaixo do áxis cada unidade tem vértebras adjacen- tes separadas por discos intervertebrais (KAPANDJI, 2000). O atlas diferencia se das demais vértebras principalmente por não apresentar corpo vertebral, por ser um anel mais largo transver- sal que sagitalmente. Contém duas massas laterais ovaladas com uma face articular superior e uma face articular inferior; o arco an- terior tem por face posterior uma face articular cartilaginosa ovalada que se articula com a apófise odontóide do áxis (GOULD, 1993). O áxis, por sua vez, apresenta um corpo vertebral cuja face superior recebe em seu centro o processo odontóide, que serve de pivô para a articulação atlantoaxial. Possui duas faces articulares, que se so- bressaem lateralmente para fora do corpo vertebral. O arco posterior está constituído por duas lâminas estreitas. A apófise espinhosa é composta por dois tubérculos como as demais espinhosas cervicais. As apófises transversas apresentam um orifício pelo qual ascende à artéria vertebral, que leva o sangue oxigenado à região mais nobre do corpo que é o cérebro (KAPANDJI, 2000). Conforme o mesmo autor, a terceira vértebra cervical é seme- lhante às quatro últimas vértebras cervicais, portanto é uma vértebra cervical padrão: possui um corpo vertebral alongado transversalmen- te, sua face comporta o platô vertebral superior, limitada lateralmente pelos processos unciformes. As facetas cervicais estão localizadas em pilares articulares pequenos angulados em torno de 45 graus obliquamente, posteriormente e inferiormente. O ângulo aumenta Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 57 06/10/2014 16:28:11 58 MARCELO ANDERSON BRACHT - ARMINDO HOLLER nos níveis descendentes e torna-se vertical em C7. A superfície da faceta superior é convexa, e a superfície da faceta inferior é cônca- va. Esta estrutura anatômica das facetas articulares permite os movi- mentos de flexão, extensão, lateroflexão e rotação (BRUNNSTROM, 1989). Entre as vértebras encontram-se os discos intervertebrais que são estruturas fibrocartilaginosas consistindo de uma parte periféri- ca, anel fibroso e de uma parte central, núcleo pulposo. Atua como amortecedor elástico que equilibra as pressões transmitidas pelo nú- cleo pulposo. O conteúdo aquoso diminui progressivamente, com o correr da idade. Assim sendo, possuem dupla função para articula- ção, que permite a flexibilidade da coluna, e age como um amorte- cedor, prevenindo traumatismos e lesões ósseas. O disco suporta e distribui as cargas na coluna vertebral assim como restringe os movimentos bruscos. São capazes de suportar forças compressivas, bem como forças de torção e curvatura aplicadas sobre a coluna (KISNER; COLBY, 2004). Os ligamentos são estruturas fibrosas não contráteis, que unem um osso a outro e promovem estabilidade. Os ligamentos são flexí- veis, porém não extensíveis, contêm terminações nervosas que são importantes nos mecanismos reflexos e na percepção de movimento e posição (KENDAL; McCREARY; PROVANCE, 1995). Encontram- se ao longo de toda a coluna e apresentam um suprimento sanguí- neo pobre, mas um bom suprimento nervoso (GOULD, 1993). São de extrema importância, na coluna cervical, os forames in- tervertebrais, pequenos orifícios, dirigidos anterior, inferior e lateral- mente que se constituem pelos arcos, corpos e processos articulares vertebrais adjacentes. Com exceção das duas primeiras todas as raízes cervicais transitam pelos forames intervertebrais. Além disso, contem também tecido areolar, pequenas artérias, vênulas e nervos (HOPPENFELD, 2002). Os músculos do pescoço podem ser funcionalmente divididos em dois grandes grupos musculares: os anteriores e os posteriores. Segundo Knoplich (2003), a maior massa de músculos flexores está localizada na região cervical média C4 a C6, onde C5 e C6 são a região da cervical inferior que tem o maior grau de movimento e Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 58 06/10/2014 16:28:11 59 FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA conseqüentemente sendo a área de maior desgaste mecânico e de exposição a traumas. Os músculos escaleno anterior, médio e poste- rior têm como funções a estabilização da primeira e segunda costela durante a respiração e estabilização do pescoço, durante a rotação (TEIXEIRA; SOUZA, 2001b). Através desta breve revisão das principais estruturas anatômicas que compõe a coluna cervical percebemos a complexidade e a im- portância da mesma. Não nos aprofundamos, pois o nosso objetivo é fazer uma revisão para um melhor entendimento das estruturas, pois as técnicas de terapia manual devem ser aplicadas com preci- são, caso contrário, não são efetivas. Assim sendo, a seguir faremos algumas considerações sobre a cinésiologia e biomecânica da cer- vical. O movimento de uma unidade estrutural da coluna em qualquer direção causa alguma distorção do disco intervertebral. Tal distorção provoca algum alongamento das fibras anulares quando a totalidade do disco se deforma, seja em flexão, em extensão, em movimento lateral ou em rotação (HOPPENFELD,2001). Segundo Edmound (2000), a flexão anterior e posterior são os movimentos primários que ocorrem na articulação atlanto-occipital. Essa articulação é responsável por 15º de movimento no plano sagi- tal. O movimento ocorre primariamente através de rolamento do oc- cipital sobre o atlas. Ocorrem cerca de 10º de flexão anterior e pos- terior na articulação atlanto-axial. O movimento completo é realizado pela coluna cervical inferior. Todas as vértebras cervicais realizam os movimentos de flexão, extensão, inclinação lateral e rotação, po- rém alguns segmentos realizam movimentos maiores do que outros. O movimento maior de flexão ocorre na interface C4-C5, ao passo que a extensão é razoavelmente bem difundida. Esse fato contribui para que a rotação maior ocorra ao nível de C5-C6, já a inclinação é maior entre C2-C5 diminuindo á medida que se aproxima da coluna torácica. Além disso, o arco do movimento lateral é definido pelos planos das fissuras uncovertebrais ou juntas de Luschka (OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2009). A maior parte do movimento de flexão lateral corre na coluna cervical inferior. A flexão lateral excessiva é bloqueada pelas articulaões uncovertebrais. A coluna cervical inferior também Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 59 06/10/2014 16:28:11 60 MARCELO ANDERSON BRACHT - ARMINDO HOLLER é responsável por, aproximadamente, 45º de rotação para cada lado (EDMOND, 2000). Durante o movimento de extensão, o corpo da vértebra supraja- cente se inclina e desliza para trás; o espaço entre os platôs verte- brais se estreita mais para trás que para diante, o núcleo pulposo se desloca levemente para diante e, deste modo, as fibras anteriores do anel fibroso entram em tensão. Este movimento de deslizamen- to para trás do corpo vertebral não realiza ao redor do centro de curvatura das faces articulares e, conseqüentemente, aparece uma abertura na articulação interapofisária. O movimento de extensão é limitado pela tensão de ligamento vertebral comum anterior e pelos ressaltos ósseos (KAPANDJI, 2000). O movimento da coluna cervical inferior é guiado pelas facetas articulares, que formam um ângulo de 45 graus ventralmente a partir do plano frontal. Devido a essa angulação, a flexão anterior ocorre quando a faceta caudal da vértebra mais cranial desliza para cima e para frente sobre a faceta cranial da vértebra caudal. A angulação oblíqua das facetas articulares também produz uma translação ven- tral da vértebra mais cranial com flexão anterior, e o inverso, uma translação dorsal da vértebra mais cranial com a flexão posterior (EDMOND, 2000). Com a flexão de um segmento vertebral, a porção anterior do disco é comprimida e a posterior é liberada. O núcleo pul- poso é deslocado posteriormente, potencialmente para redistribuir a carga através do disco. Cargas assimétricas em flexão resultam em distorções do núcleo em direção ao canto contralateral póstero-late- ral onde as fibras do anel estão mais alongadas (KISNER; COLBY, 2004). O movimento de flexão não é limitado pelos ressaltos ósseos, mas somente pelas tensões ligamentares do ligamento vertebral co- mum posterior (ligamento longitudinal posterior), da cápsula da ar- ticulação interapofisária, dos ligamentos amarelos, dos ligamentos interespinhais e do ligamento supra-espinhal ou ligamento cervical posterior (HAMILL; KNUTZEN, 1999). Na inclinação, ocorre a imbri- cação homolateral, deslocamento discal contralateral, deslizamento da vértebra superior, porém este movimento limita-se pela cápsula contralateral, ligamento intertransverso, processos unciformes e pe- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 60 06/10/2014 16:28:11 61 FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA las facetas articulares. Na rotação, assim como na inclinação, ocorre a imbricação e inclinação homolateral. O movimento é bloqueado por facetas articulares, cápsulas homolaterais, ligamento intertrans- verso contra-lateral e por tecidos moles (FERRETTI, 2006). Além destes movimentos, temos os conjugados de inclinação e de rotação na coluna cervical inferior que estão determinados pela orientação das faces das apófises articulares, que não permitem nem movimentos de rotação pura, nem movimentos de inclinação pura (KNOPLICH, 2003). Para um melhor entendimento dos movimentos Fryette descre- veu duas leis que afirmam: na primeira lei quando uma vértebra ou um grupo de vértebras está em posição neutra das facetas, para realizar uma rotação de um lado, a vértebra ou grupo de vértebras é obrigada a realizar primeiro uma látero flexão do lado oposto; a segunda lei quando uma vértebra ou um grupo de vértebras encon- tra-se em estado de flexão ou extensão para formar uma látero-fle- xão de um lado, esta vértebra ou este grupo vertebral é obrigado a realizar primeiro uma rotação do mesmo lado (MAKOFSKY, 2006). Depois desta breve revisão da anotomia e biomecânica da cervi- cal passamos para o entendimento de uma das principais patologias desta região que é a cervicalgia. Caracteriza-se pela dor ao nível da coluna cervical alta, sendo aí incluída a cefaléia da nuca. Quando a dor dessa região se irradia para ombro, braço e mão passam a denominar-se cervicobraquialgia, admitindo-se que o plexo braquial formado das terminações C2 a C8 tenha sido afetado (KNOPLICH, 1986). Pesquisa epidemiológica Internacional sugere que 40% da po- pulação sofrerão de dor cervical em qualquer ano com um ponto de prevalência entre 10 e 20% (FEJER, 2006). A cervicalgia tende a se tornar persistente e recorrente em mais de 60% das pessoas que podem esperar algum grau of OINGOING dor por muitos anos após o primeiro episódio (GORE, 1987). Se- gundo Teixeira et al.(2001), a dor cervical é uma das condições ál- gicas mais prevalentes na prática médica, acomete, acometeu ou acometerá 55% da população em algum momento da vida. Estima- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 61 06/10/2014 16:28:11 62 MARCELO ANDERSON BRACHT - ARMINDO HOLLER se que 12% das mulheres e 9% dos homens apresentam cervicalgia crônica. São mais propensos a desenvolvê-la os idosos, trabalhado- res braçais, indivíduos tensos ou que executem atividade adotando vícios posturais. Ferretti (2006) em seu estudo afirma que 15% da população sofrem dor cervical e 43% dessa população são enca- minhados para tratamento fisioterápico. Segundo o mesmo autor a patologia é uma das queixas mais comuns no cotidiano da clínica de fisioterapia e tem sido observada em 25% das pessoas entre 25 a 29 anos de idade, mas essa proporção aumenta para 50% da popula- ção acima de 45 anos de idade. A origem da cervicalgia pode estar ligada a transtornos endócri- nos, metabólicos, vasculares, disfunção dos condrócitos, perturba- ção da fibra colágena da cartilagem, aumento da tensão muscular e microtraumatismo. Processos degenerativos como espondilite an- quilosante, artrose da coluna vertebral, também alterações mecâ- nicas como hérnia discal, espondilolistese cervical, infecções ósse- as, deformidades, tumores benignos e malignos, posturas viciosas, desvios das posições das vértebras, má postura, posições forçadas e tensão emocional (KNOPLICH, 1986). Na região cervical, encon- tram-se localizadas parte da estrutura do esôfago, a laringe, a glân- dula tireóide, a traquéia, as artérias carótidas e vertebrais e as veias jugulares, que também podem ser causa de dor, quando acometidas por afecções de natureza variada (TEIXEIRA et al., 2001). O esta- do emocional do paciente tem uma influência significativa sobre o pescoço tanto em sua curvatura como em relação ao centro de gra- vidade. Por exemplo, a postura do ombro caído no indivíduo deprimi- do é compensada com o aumento do tônus muscular para mantê-lo excentricamente. A pessoa hostil e agressiva geralmente centraliza suas tensões nos músculos cervicais (HERBERT et al., 1995). Deve se considerar também a dor isquêmica e muscular em conseqüência da falta de oxigênio acumulando catabólitos irritantes.Este quadro desencadeia um processo inflamatório dos tecidos que finalmente conduz a reação fibrosa dentro dos músculos e tecidos contíguos. Desta forma fechando um ciclo que produz a dor e a incapacidade (KENDAL; McCREARY; PROVANCE, 1995). Portanto a cervicalgia pode ter várias causas como traumas re- petitivos, secundários a erros posturais ou ergonômicos da coluna Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 62 06/10/2014 16:28:12 63 FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA cervical ou ainda ser uma sintomatologia secundária que pode ser por alterações do forame intervertebral, do canal vertebral ou arté- rias vertebrais ou por problemas viscerais. Porém na grande maio- ria dos pacientes a dor é desencadeada não pelas artropatias ou discopatias, mas sim por comprometimento de síndrome dolorosa miofacial da musculatura cervical e da cintura escapular, que é uma afecção álgica do aparelho locomotor, que acomete músculos, ten- dões, fáscias e ligamentos e é caracterizada por dor e aumento de tensão dos músculos afetados (FERRETTI, 2006). Esta idéia tam- bém é reforçada por Teixeira et al. (2001) afirmando que a síndrome dolorosa miofascial é a causa mais comum da cervicalgia crônica. Porém em alguns casos constitui um fator revelador de uma doença local, regional ou sistêmica mais grave. O resultado final das patologias é a sensação de dor denominada de cervicalgia por se manifestar nesta região do corpo. A dor é um estado de consciência com um componente afetivo desagradável e que desempenha um papel de proteção para o organismo. Portan- to a dor tem um valor fundamental, pois alerta o indivíduo sobre a ocorrência de alguma forma de lesão orgânica instalada ou em vias de instalar-se (TEIXEIRA et al, 2001a). O conceito de dor, do comi- tê de taxonomia da International Association for the Study of Pain (IASP), como experiência sensorial e emocional desagradável, que é associada ou descrita em termos de lesões teciduais. A dor é sem- pre subjetiva. Cada indivíduo utiliza a palavra dor de acordo com o aprendizado frente a suas experiências prévias. “É uma sensação desagradável localizada em uma parte do corpo; constitui adicional- mente uma experiência emocional” (TEIXEIRA et al., 2001a, p.14). A dor pode ser classificada como superficial, profunda, visceral, central e psicogênicas. Mas também pode ser classificada confor- me duração como dor aguda ou crônica (FERRETTI, 2006). A dor também se manifesta de diferentes formas dependendo o órgão ou tecido acometido. Este entendimento é importante para auxiliar na avaliação e diagnóstico da lesão. Assim sendo, descreveremos as características da dor cervical nos diferentes tecidos. A dor óssea é precisa, centrada sobre a vér- tebra danificada. É uma dor surda, contínua e aumenta com os mo- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 63 06/10/2014 16:28:12 64 MARCELO ANDERSON BRACHT - ARMINDO HOLLER vimentos. A dor discal é aguda, se manifesta quando o peso do corpo é colocado sobre o disco intervertebral danificado. Aumenta com a anteflexão que provoca a retropulsão discal, e tenciona o liga- mento longitudinal posterior ricamente inervado. A dor aparece ime- diatamente, sem tempo de latência. Ao nível cervical esta dor pode ampliar-se com esforços, pois aumenta a pressão intrameníngea. A dor ligamentar aparece quando uma postura é mantida durante muito tempo. Não se manifesta de forma imediata, aparece ao final de amplitudes articulares. É descrita quase sempre como uma sen- sação de queimação (FERRETTI, 2006). Para o mesmo autor, a dor muscular manifesta-se com os movimentos e está relacionada com a contração muscular. O movimento doloroso indica músculo lesado. O movimento oposto, que coloca em tensão o músculo, é respon- sável por um rebote causado por um espasmo muscular. A dor é do tipo isquêmica, é surda, difusa e se intensifica com a contração isométrica. A dor nervosa ou dor radicular é do tipo filiforme, poden- do o paciente indicar o trajeto da mesma. É intensificada com certos movimentos, e na maioria das vezes, pelo apoio sobre o processo transverso da vértebra implicada (FERRETTI, 2006). Outro ponto fundamental é a avaliação do doente com cervicalgia, para que possamos determinar com precisão as estruturas acometi- das para então eleger a técnica adequada e aplicá-la com eficiência. Os principais pontos a serem contemplados no exame clínico são: dados da história, antecedentes individuais e familiares, hábitos, am- biente de trabalho, padrão de sono, uso de medicamentos e o exame físico incluindo aparelho locomotor e do sistema nervoso. Também deve ser observado a localização, intensidade, distribuição, irradia- ção, fatores de melhora e de piora da dor, dentre outros aspectos. O exame físico deve incluir a inspeção e a palpação das estruturas cervicais, das vísceras e dos músculos, a percussão das apófises espinhosas, a movimentação passiva e ativa do pescoço. Avaliar a dinâmica e a arquitetura da região cervical em relação ao resto do corpo. Examinar a sensibilidade superficial e profunda, a motricidade voluntária, automática, involuntária e reflexa. A avaliação da coor- denação dos movimentos e das anormalidades neurovegetativas e tróficas é fundamental para aferir ocorrência de neuropatias. Além de exames laboratoriais visando esclarecer dúvidas (TEIXEIRA; SOU- ZA, 2001b). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 64 06/10/2014 16:28:12 65 FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA Uma das técnicas de tratamento é a terapia manual. O termo terapia manual pode referir-se a diferentes métodos de tratamen- to na fisioterapia abrangendo a mobilização, manipulação, massa- gem, tração, alongamento entre outras (LADEIRA, 2007). Conforme o mesmo autor a origem da Terapia Manual vem da Grécia Antiga. A manipulação articular faz parte da medicina desde o conhecimento de seu relato histórico, pois há evidências de que técnicas manuais eram utilizadas na Tailândia em 2000 a.C. bem como no Egito Antigo (EDMOND, 2000). Por um período a terapia manual perdeu força, porém sua prática voltou nas últimas décadas e atualmente é um grande auxílio da medicina (MAKOFSKY, 2006). Esta aceitação mé- dica se deu em razão dos resultados satisfatórios quando de sua uti- lização científica no tratamento de disfunções músculo-esqueléticas. Este sucesso pode ser observado na United States Clinical Practice Guideline, Acute Low Back Problems in Adults, um guia publicado por um painel de especialistas e pesquisadores do governo ameri- cano, o qual recomenda o uso de terapia manual (LADEIRA, 2007). Segundo Ladeira (2007), o termo terapia manual refere-se aos diferentes métodos de tratamento utilizados na fisioterapia como a mobilização e manipulação articular, massagem do tecido conectivo, massagem de fricção transversa, entre outras. Mobilização e mani- pulação articular são métodos conservativos de tratamento de dor, restrição de amplitude de movimento articular e outras disfunções de movimento do sistema músculo-esquelético. Alguns profissionais definem de forma mais limitada a manipulação articular como sendo uma técnica específica na qual a cápsula articular é alongada por meio de uma manobra brusca na articulação. Edmond (2000), tem uma definição mais abrangente de manipulação ao afirmar em seu livro que “essa definição é tão ampla que permite incluir qualquer técnica manual aplicada à articulação em uma disfunção que movi- mente as duas superfícies, uma em relação à outra”. Portanto não faz uma diferenciação entre mobilização e manipulação. Ladeira (2007) diferencia mobilização e manipulação. Segundo o autor, mobilização “refere-se a movimentos passivos acessórios de jogo articular executados gentilmente em baixa velocidade pelo tera- peuta”, enquanto que manipulação “refere-se à execução de movi- mentos acessórios de jogo articular executados em alta velocidade”. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 65 06/10/201416:28:12 66 MARCELO ANDERSON BRACHT - ARMINDO HOLLER Este último entendimento está baseado na definição de Maitland et al. (2003). Segundo o mesmo autor, a palavra manipulação pode ser usada de várias formas e esclarece estas duas definições. O termo manipulação pode ser utilizado de forma mais abrangente como ci- tado por Edmond “ou pode ser visto, mais especificamente, como uma técnica de manipulação forçada, realizada com velocidade” (MAITLAND et al., 2003). A alta velocidade de aplicação de técnicas de manipulação não permite que o paciente tenha controle da execu- ção das mesmas. Quando realizadas com movimentos passivos de tal forma que podem ser evitadas pelo paciente são definidas como mobilização (MAITLAND et al., 2003). Existem dois tipos de movimentos passivos que podem ser exe- cutados por terapeutas: movimentos acessórios e movimentos fisio- lógicos. Os movimentos fisiológicos realizados ativamente sem au- xílio são: extensão, flexão, rotação, adução, abdução, pronação e supinação. Movimentos acessórios podem apenas ser executados pelo terapeuta. Os movimentos acessórios são: aproximação, se- paração, deslizamento, rolamento e girar (MAITLAND et al., 2003). Qualquer um destes movimentos pode ser realizado em baixa ou alta velocidade, gentil ou vigorosamente, em grandes ou pequenas amplitudes e mesmo assim serem denominados de movimentos passivos (MAITLAND et al., 2003). Na mobilização há dois tipos: movimentos passivos oscilatórios e os movimentos passivos em estiramento sustentado. Os movimen- tos passivos oscilatórios podem ser realizados de forma vagarosa, rapidamente, suavemente ou em staccato. Estes movimentos podem ser realizados enquanto a articulação estiver tracionada ou compri- mida. Os movimentos passivos em estiramento são realizados no limite do arco de movimento com oscilações de pequena amplitude (MAITLAND et al., 2003). Os movimentos acessórios dividem-se em composto e jogo ar- ticular. Movimento de jogo articular ocorre como resultado de uma força externa aplicada nas articulações. O movimento de jogo articu- lar pode ser utilizado tanto para o tratamento quanto para a avalia- ção. Movimentos compostos, ao contrário de movimentos acessó- rios de jogo articular ocorrem involuntariamente como resultado de Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 66 06/10/2014 16:28:12 67 FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA movimentos ativos executados pelo próprio paciente. Movimentos acessórios compostos são essenciais para movimentos fisiológicos ocorrerem sem anomalias (LADEIRA, 2007). Quando a ADM de um movimento acessório estiver limitada, o movimento fisiológico asso- ciado a este movimento acessório também estará limitada. Da mes- ma forma, quando o movimento acessório tiver uma ADM excessiva e a articulação não tiver um bom controle muscular, o movimento fisiológico da mesma será disfuncional. Somente movimentos aces- sórios limitados requerem alongamento, os movimentos acessórios excessivos requerem exercícios de estabilização (LADEIRA, 2007). A artrocinemática é a área da cinemática que investiga os movi- mentos acessórios que ocorrem entre superfícies articulares durante movimentos fisiológicos. Os terapeutas manuais estão particular- mente interessados nos movimentos artrocinemáticos de deslize e o rolar. A direção do deslize vai depender do formato da superfície ar- ticular: côncava ou convexa. Se a superfície articular em movimento for convexa, o deslizamento vai sempre ocorrer na direção oposta de movimento da diáfise do osso. Se a superfície em movimento for côncava, o deslize vai sempre ocorrer na direção de movimento da diáfise do osso, a lei do côncavo e convexo (LADEIRA, 2007). Esta alteração do espaço intra-articular durante movimentos de separação e aproximação é importante para que movimentos fisio- lógicos ocorram sem anomalias. “A perda do jogo articular resultará Figura 1 – Manipulação Cervical Alta - C1/C2 – “Chin Hold” Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 67 06/10/2014 16:28:12 68 MARCELO ANDERSON BRACHT - ARMINDO HOLLER em dor articular e espasmo da musculatura circunvizinha” (OLIVEI- RA; OLIVEIRA, 2009, p. 40). Fisioterapeutas devem entender cada tipo de articulação sinovial que eles pretendem aplicar técnicas de mobilização, porque cada articulação sinovial pode requerer uma técnica diferente de tratamento (LADEIRA, 2007). A perda de movimento acessório pode ocorrer gradualmente após um trauma físico, após um período de imobilização, ou após um desuso articular prolongado. Geralmente está associada com o encurtamento de estruturas periarticulares (LADEIRA, 2007). No momento em que uma articulação encontra-se hipomóvel, ou seja, a mesma mantém-se temporariamente impedida de realizar sua fun- ção de movimento normalmente, outra articulação irá executar um movimento compensatório provocando geralmente uma hipermobili- dade na mesma a fim de manter as atividades habituais do organis- mo (OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2009). Assim sendo, o objetivo mecânico principal da terapia manual é restaurar movimentos acessórios limi- tados e prevenir as complicações associadas com o desuso articular (LADEIRA, 2007). Antes da aplicação de qualquer técnica de terapia manual o te- rapeuta deve fazer uma minuciosa avaliação. Edmond (2009) re- comenda que é importante que o profissional avalie se há oclusão potencial da artéria vertebral antes de continuar com algumas das técnicas descritas para a coluna cervical que envolva movimento do pescoço. Indagar o paciente sobre qualquer sintoma que sugira pro- blemas da artéria vertebral como tontura ou vertigem com a posição da cabeça (MAITLAND et al., 2003). “O fisioterapeuta deve rodar gentilmente o pescoço do paciente, em ambas as direções e manter cada posição por alguns segundos, para estar certo de que isto não produz sintomas” (MAITLAND et al., 2003, p. 17). Segundo o mesmo autor, os principais sintomas no teste da artéria vertebrobasilar são: parestesia facial, diplopia, embaçamento da visão, náuseas, vômi- tos, tremores e nistagmo. As técnicas fisioterápicas de manipulação só têm valor, como for- ma de tratamento, se forem acompanhadas de uma avaliação conti- nua bem apurada. A escolha correta da direção do grau, da velocida- de, do ritmo e da duração das técnicas deverá ser feita de maneira Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 68 06/10/2014 16:28:12 69 FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA correta. A avaliação é constante, isto é, realizada antes, durante e depois de cada técnica. “A avaliação continuada que envolve a ava- liação das mudanças, nos sintomas do paciente e nos sinais (...) que acontecem como resultado de técnica(s) de tratamento” (MAITLAND et al., 2003, p. 4). Segundo o mesmo autor o tratamento por ma- nipulação pode ser dividido em quatro principais partes que são: o exame do paciente, modo de planejamento, técnicas de tratamento e avaliação continuada. As técnicas são discutidas segundo a sua importância, porém nunca serão definitivas. Não existe técnica ou grupo de técnicas invariável, por isso não existe lugar para o dogmático, o terapeuta deve sempre estar aberto. Mesmo que haja técnicas básicas que devem ser ensinadas, o pressuposto é que o terapeuta seja tão eclé- tico que possa modificar suas técnicas, até que tenha alcançado seu objetivo. As técnicas de tratamento devem incluir todos os movimen- tos possíveis da articulação, movimentos fisiológicos, movimentos acessórios e todas as possibilidades de movimentos combinados. “Basicamente, o ‘conceito’ demanda conhecer como relacionar o rit- mo, a velocidade, a posição no espaço, a amplitude e a tensão da técnica a ser utilizada” (MAITLAND et al., 2003). Segundo Jull et al. (2008) possivelmente o maior benefício deri- vado dos procedimentos de terapia manipulativa seja o seu efeito na dor. Giona (2003) aplicou uma combinação de técnicas de deslize e separação no tratamento de contraturas periarticularesna muscula- tura posterior da cervical em pacientes com cefaléia tensional. Com o trabalho percebeu que a fisioterapia com a terapia manual pode ser eficaz no tratamento da patologia tanto de forma coadjuvante como opção única no tratamento. Em um estudo randomizado e controlado realizado por Jull (2001) demonstrou-se a eficácia clínica da terapia manual para as disfunções cervicais. Este estudo comparou um programa específico de exercícios de estabilização, terapia manual e terapia manual com exercícios em pacientes com cefaléia cervicogênica. A autora cons- tatou uma redução significante da cefaléia no grupo terapia manual e exercícios, sendo que os resultados foram mantidos após 12 meses. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 69 06/10/2014 16:28:12 70 MARCELO ANDERSON BRACHT - ARMINDO HOLLER Oliveira e Oliveira (2009) utilizou a manipulação cervical a fim de observar a variação da amplitude de movimento, analisar a cor- relação entre o lado dominante e o lado acometido e a diminuição da sintomatologia dolorosa. Observou-se redução significativa no quadro álgico e ganho na ADM. Portanto, uma correção articular “fei- ta em qualquer parte da coluna, ou em qualquer lugar do sistema esqueletal tem influência no sistema neuromúsculoesqueletal total” (OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2009, p. 41). Também Wright (apud DEEG, 2009) fez uma revisão na literatura sobre a terapia de mobilização e seus efeitos neurofisiológicos em pacientes com cervicalgia e epi- condilalgia lateral e encontrou fortes evidências para uma analge- sia provocada pela terapia manual que ocorre após a manipulação. Deeg (2009), investigou os efeitos da técnica de deslizamento lateral cervical no segmento C5/C6 sobre a percepção da dor e na função autonômica. No estudo encontraram uma forte correlação entre o efeito analgésico e simpatoexcitação. Esta mesma teoria também é coroborada por Marinzeck (2001), segundo o autor após a aplicação da Terapia Manipulativa Espinhal existe uma produção de analgesia e simpatoexcitação, mesmo que os mecanismos pelos quais isso acontece ainda não são totalmente compreendidos. O argumento aceito é que a analgesia induzida pela manipulação é uma resposta neurofisiológica específica ao estímulo “produzido pelos sistemas descendentes inibitórios da dor, com um papel principal provido pela coluna lateral da substância periaquedu- tal cinza”. Conforme o autor, diversos realizados com animais medi- ram mudanças na atividade do sistema nervoso simpático periférico e central após a terapia manipulativa espinhal. Segundo Jull et al. (2008) possivelmente o maior benefício de- rivado dos procedimentos de terapia manipulativa seja o seu efei- to na dor. Em uma revisão sobre a manipulação e mobilização no tratamento de desordens mecânicas cervicais demonstrou-se que a terapia manipulativa pode reduzir a dor cervical, embora um melhor resultado seja alcançado quando a terapia é combinada com o exer- cício (GROSS et al, 2004). Benassi et al. (2010) realizaram um estudo com pacientes que apresentavam cervicalgia aplicando a terapia manual, onde foi pos- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 70 06/10/2014 16:28:12 71 FISIOTERAPIA MANIPULATIVA NO TRATAMENTO DA CERVICALGIA sível atingir resultados positivos entre 80 e 100% logo após o estudo, constatando a diminuição da tensão muscular, da algia e o ganho de amplitude de movimento. Também Ferretti (2006), realizou um estudo com tratamento de “pompage” cervical associado a alongamentos cervicais e de cintura escapular associado a ondas curtas e obteve resultados mais favo- ráveis o paciente que associou a terapia manual. Natali (2004) fez um estudo comparativo aplicando técnicas de Terapia Manual e de RPG, analisando os dados obtidos constatou que as técnicas mani- pulativas promovem um ganho maior na diminuição da dor e melhora da flexão ativa. Constatou-se a redução do quadro doloroso e evo- lução das amplitudes de movimento tanto da coluna cervical, quanto do membro superior sintomático. 4. CONCLUSÃO Através deste estudo percebemos o grande número de estrutu- ras envolvidas na coluna cervical as quais possibilitam os diversos movimentos dessa região com o objetivo de dar suporte ao crânio. Um número significativo da população é acometido com cervicalgia em algum momento da vida. Um dos fatores causais é a grande quantidade de movimento da região cervical o que gera uma grande propensão de lesão. Com base na bibliografia consultada constatou-se que terapia manipulativa é uma das possíveis alternativas no tratamento da cer- vicalgia caracterizando-se como uma das ferramentas da fisioterapia no controle da dor. A Terapia Manipulativa é uma técnica de ação direta que trabalha com o objetivo de melhorar a amplitude de mo- vimento fisiológico e acessório, reduzindo a dor e tensão muscular em pacientes que apresentam o quadro de cervicalgia. Consideran- do que cada indivíduo possui diversos fatores causais e respondem de maneira diferenciada ao tratamento é necessária uma avaliação constante dos sinais e sintomas a fim de nos certificarmos da efi- cácia das técnicas manipulativas. Tendo em vista os estudos que demonstram a eficácia da Fisioterapia Manipulativa no tratamento da cervicalgia, sugere-se que as técnicas de manipulação e mobiliza- ção sejam inseridas dentro dos currículos acadêmicos de Fisiotera- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 71 06/10/2014 16:28:12 72 MARCELO ANDERSON BRACHT - ARMINDO HOLLER pia aumentando a gama de ferramentas de trabalho para os futuros profissionais. 5. REFERÊNCIAS BENASSI, Angélica C. T. et al. A Eficácia da Terapia Ma- nual no Tratamento da Cervicalgia. INESUL, Londrina – PR, 2010. Disponível em: www.inesul.edu.br/revista/arquivos/arq-id- vol_13_1305745912. Acesso em: maio de 2010. BRUNNSTROM. Cinesiologia Clínica. São Paulo: Manole, 1989. DEEG, Thomas. A terapia manual é uma forma eficaz de tra- tamento provida por fisioterapeutas. 2009. Disponível em: www. terapiamanual.com.br/site/noticias/.../200912101650060.artigo_3. pdf. Acessado em 21 de maio de 2010. EDMOND, Susan L. 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Método: Foi realizado um levantamento de produções na base de dados eletrônica PubMed, e de 90 arigos selecionados, 25 foram escolhidos para a presente revisão integraiva baseada na relevância estaísica e apresentação de maior numero de genes. Resultados: Notou-se que a origem do câncer, bem como a metástase, apresentam ligações diretas com a meilação do DNA, seja ela como fator desencadeante para alterações genéicas, ou, seus efeitos, como resultado inal de alterações epigenéicas, como silenciamento ou superexpressão. As alterações epigenéicas aparecem mais cedo do que as genéicas, e esse fato altera a idéia de que todos os tumores surgem de mutações genéicas e colocam as modiicações epigenéicas como as possíveis alterações seminais para a iniciação do tumor. Conclusão: O trabalho mostrou que ainda há importantes lacunas à cerca da epigenéica que devem ser esclarecidas para que se tenha um conhecimento mais amplo da dos processos biomoleculares envolvidos na tumorigênese. Palavras-chave: Epigenéica; Gênese tumoral; Câncer; Meilação do DNA; Aceilação da Histona. ABSTRACT Introducion: Due to high mortality and high cost involved in the diagnosis and treatment of cancer, it is necessary to adopt new techniques for diagnosis and treatment of tumors. Faced with this issue comes the applicaion of epigeneics, which is the study of all reversible heritable changes in the genome that do not alter the nucleoide sequence of DNA. Objecives: Assess the relaionship between epigeneics and tumor genesis, rise into account staisical data on the inluence of Hipermeilações hipomeilações and in tumorigenesis. Method: We conducted a survey of producion in the electronic database PubMed, and selected 90 aricles, 25 were chosen for this integraive review based on the staisical relevance and presentaion of a greater number of genes. Results: It was noted that the origin of cancer and metastasis, have direct links with DNA methylaion, whether as a triggering factor for geneic alteraions, or its efects, as the inal result of epigeneic changes, such as silencing or overexpression . Epigeneic changes appear earlier than geneic ones, and this fact changes the idea that all tumors arise from geneic mutaions and epigeneic modiicaions pose as the seminal possible changes for the iniiaion of the tumor. Conclusion: The study showed that there are sill important gaps in the fence of epigeneics to be clariied in order to have a broader knowledge of the molecular processes involved in tumorigenesis. Keywords: Epigeneics; Genesis tumor, cancer, DNA methylaion, histone acetylaion. 1 Biomédico com Habilitação em Análises Clínicas pelo Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo- CNEC/IESA. Enviar correspondência E-mail: gunthersott@hotmail.com São Luiz Gonzaga, RS, Brasil. CEP: 97800000.2 Mestre em Biologia Celular e Molecular na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, Professor do curso de Biomedicina, Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo CNEC-IESA, Santo Ângelo, RS, Brasil. CEP 98801-015. Enviar correspondência E-mail: mnfrizzo@hotmail.com. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 75 06/10/2014 16:28:12 76 GÜNTHER DE MENEZES SOTT - MATIAS NUNES FRIZZO 1. INTRODUÇÃO Segundo a American Cancer Socciety (ACS) o câncer é um gru- po de doenças caracterizadas por crescimento celular descontrolado que tem como causa tanto fatores endógenos como estado imune e alterações genéticas, quanto exógenos, que compreendem desde substâncias químicas, tabagismo, radiação entre outros (GARCIA, 2007). Estima-se que uma a cada oito mortes ocorridas no mundo seja causada por algum tipo de câncer, isso significa que o câncer mata mais pessoas do que a AIDS, Tuberculose e Malária juntos. Nos países com economia desenvolvida ele é a segunda maior causa de mortalidade, logo atrás de doenças coronarianas e está em terceiro nos países com economia subdesenvolvida, superado pelas mes- mas doenças coronarianas e diarréia (GARCIA et al., 2007). No Brasil, o câncer foi responsável por 17% dos óbitos com cau- sa conhecida em 2007, atingindo o segundo lugar em mortalidade naquele ano.Para os anos de 2010 e 2011 a projeção é de que se- jam diagnosticados 489.270 pacientes com câncer, sendo desses 236.240 casos novos para o sexo masculino e 253.030 para sexo feminino (BRASIL, 2009). Segundo dados do DATASUS, somente no intervalo de 2001 à 2005 o Brasil gastou cerca de 4,35 bilhões de reais em procedimen- tos cirúrgicos, radio e quimioterápicos com pacientes portadores de câncer, excluindo-se aqui os demais gastos gerados com o diagnós- tico, medicação e atividades indiretas (BRASIL, 2006). Devido a essa elevada mortalidade e o alto custo que envolve o diagnostico e tratamento do câncer é necessário à adoção de no- vas técnicas para diagnostico e tratamento dos tumores. Frente a esse problema surge a aplicação da epigenética, que é o estudo de todas as mudanças reversíveis e herdáveis no genoma que não alteram a sequência de nucleotídeos do DNA. Essas alterações se dão por mecanismos físicos, comoo estiramento ou a compactação da cromatina, possibilitando ou evitando a transcrição, assim como por maneiras químicas que compreendem a adição ou subtração de radicais metil em sítios genômicos próximos de regiões promotoras que respectivamente silenciam ou ativam genes (ESTELLER, 2007). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 76 06/10/2014 16:28:13 77 A RELAÇÃO DA EPIGENÉTICA NA GÊNESE TUMORAL Alguns estudos comprovam que na maioria dos tumores os me- canismos epigenéticos estão inseridos na fase inicial do processo de alteração celular, comumente afetando supressores tumorais, ge- nes que estimulam o ciclo celular, apoptose entre outros (JONES; BAYLIN, 2002). Quanto mais cedo se descobre os distúrbios celulares, as chan- ces de cura aumentam, principalmente quando esses distúrbios são causados por alterações epigenéticas, já que seus mecanismos, ao contrario das mutações, são totalmente reversíveis (MANOHARAN et al., 2007). Dessa forma, estudos que avaliam a relação entre a epigenéti- ca e a gênese tumoral são de grande relevância visto que o câncer é uma doença prevalente, e a necessidade do esclarecimento dos mecanismos moleculares que acarretam sua formação é vital para a objetividade e antecipação do tratamento. O presente trabalho tem como objetivo avaliar a relação entre os fenômenos epigenéticos e a gênese tumoral. 2. MATERIAL E MÉTODO Trata-se de uma revisão sistemática da literatura. Para tanto, foi realizada busca eletrônica na base de dados PubMed (http://www. ncbi.nlm.nih.gov/sites/entrez/) entre Março e Agosto de 2010, utili- zando os descritores: epigenetic, methylation, cancer. A busca primaria foi feita com os descritores isolados, afim da obtenção de informações acerca de cada assunto. Após isso, foram cruzadas as três palavras-chave, sendo encontrados 594 artigos pu- blicados no espaço de 1990 a 2010. Desses, 90 artigos foram selecionados para leitura analítica, nos quais se empregou os critérios de elegibilidade: contemplar o maior número possível de proto-oncogenes e supressores tumorais envol- vidos no estudo; apresentar variados tipos de neoplasias relaciona- das com as epimutações. Já os critérios exclusivos foram: pesquisas com linhagens celulares e animais e demais artigos que não orbita- vam no objetivo geral desse trabalho. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 77 06/10/2014 16:28:13 78 GÜNTHER DE MENEZES SOTT - MATIAS NUNES FRIZZO Assim, ao final da busca, 34 publicações foram selecionadas para compor este artigo. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1. Epigenética Estamos acostumados com a idéia de que o potencial codifica- dor do genoma está restrito apenas ao arranjo de quatro bases ni- trogenadas: Adenina, Timina, Citosina e Guanina. Entretanto tem se descoberto alguns mecanismos adicionais que interagem com o genótipo de forma flexível e que tem o poder de alterar o fenótipo sem causar qualquer tipo de mutação ou alteração na sequência já estabelecida do DNA (DIMITRIJEVIC, 2005). Esses mecanismos foram agrupados em uma nova área de es- tudo da Biologia Molecular denominada Epigenética, palavra que descende do Grego e significa ‘’Sobre a genética’’.Os dois principais mecanismos epigenéticos conhecidos são a metilação do DNA, no qual ocorre uma modificação química covalente na base nitrogenada citosina e a acetilação da Histona, uma proteína responsável pelo enovelamento do DNA (DIMITRIJEVIC, 2005; MANOHARAN et al., 2007). A metilação da citosina foi descoberta em 1948 e desde então tem gerado muitas duvidas sobre a sua real função fisiológica, che- gando a ser até chamada de a quinta base nitrogenada: 5-Metilcito- sina. Esse processo químico envolve a adição de um radical metil (CH3) na posição 5 – C da citosina. Essa reação é catalisada por um grupo de enzimas denominadas DNA Metiltransferases (DNMT) e é flexível e herdável (SANTOS; MAZZOLA; CARVALHO, 2005). Mas, o que chama a atenção é que a 5-Metilcitosina é quase que exclusivamente encontrada em regiões genômicas que possuem por característica uma longa repetição dos nucleotídeos Citosina e Gua- nina. Essas regiões são chamadas CpG islands, e são muitas vezes encontradas próximas a promotores gênicos, mais precisamente em quase todos os genes de controle celular e em cerca da metade dos outros promotores humanos (ANSELMO et al., 2006). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 78 06/10/2014 16:28:13 79 A RELAÇÃO DA EPIGENÉTICA NA GÊNESE TUMORAL A metilação de promotores tem o poder de silenciamento pois quando ela ocorre, trás consigo um grupo de proteínas, denomina- dos Methyl-CpG binding protein. Esse grupo de proteínas não se fixa em uma região específica do DNA, mas tem uma grande afinidade por regiões metiladas. Tais proteínas ao se ligarem ao DNA metilado podem competir com fatores de transcrição pelos seus respectivos domínios ou, ainda, promover um rearranjo na estrutura do DNA, devido o recrutemento da Histona deacetylase originando cromatina de alta densidade, a qual se torna incompatível com o processo de transcrição (BOYES; BIRD, 1991). O genoma humano é composto por cerca de três bilhões de pares de base, que apesar de serem estruturas de tamanho ínfimo ocupam um espaço nuclear relativamente grande. Isso se evidencia quando observamos um núcleo celular em fase de interfase, no qual seu material genético está descondensado, possibilitando o acesso à maquinaria de replicação celular (DIMITRIJEVIC, 2005). Mas existem ocasiões na qual o DNA deve estar compactado, e o controle dessa condensação compõe o segundo material de estudo da epigenética, a Acetilação da Histona (MCKENNA et al., 2008). As Histonas formam uma família de proteínas de cabeça glo- bular com uma cauda carregada positivamente, que quando juntas servem de matriz para o enovelamento do DNA. Cada complexo de histona possibilita a ancoragem de cerca de 150 pares de base (pb) em seu entorno, formando um complexo denominado nucleossomo (MANOHARAN et al., 2007). O conjunto de nucleossomos dá origem a cromatina, que pode adotar duas características diferentes dentro do domínio subcromos- somal: Heterocromatina quando está em um estágio muito compac- tado, impedindo a atividade transcritora; e Eucromatina, quando está mais relaxada possibilitando assim o acesso aos genes e facilitando a transcrição (SHIAH; TAI; WU,2008). O DNA é carregado negativamente, e esse é o motivo pelo qual a histona consegue ancorá-lo de forma eficaz, pois possui uma cauda positiva. Mas acetilações reversíveis nesta cauda a deixam próxima da neutralidade, fazendo com que essa proteína perca a capacidade Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 79 06/10/2014 16:28:13 80 GÜNTHER DE MENEZES SOTT - MATIAS NUNES FRIZZO de interação com o DNA e possibilite a abertura da cromatina. Essa característica faz com que a acetilação da histona seja considerado um meio de controle da expressão gênica (DIMITRIJEVIC, 2005). A acetilação ocorre no aminoácido Lisina, e é catalisada pela en- zima Histona Acetiltransferase (HAT). Como é um processo epigené- tico, portanto, tendo reversão, a enzima Histona Deacetilase (HDAC) catalisa o processo contrario, devolvendo a Lisina a carga positiva, possibilitando a ancoragem do DNA e resultando na formação da Heterocromatina (SANTOS; MAZZOLA; CARVALHO, 2005). 3.2. Gênese tumoral As células se diferenciam umas das outras devido à expressão de diferentes combinações de genes que são necessários para a re- alização correta da função a qual estão destinadas, já que o material genético contido em todas as células corporais é o mesmo. O produ- to dessa combinação, que é modulada por diversos fatores, acarreta em modificações morfológicas, bioquímicas e fisiológicas dessas cé- lulas, tornando - a peculiar as demais devido a esse processo cha- mado de diferenciação celular (SANTOS; MAZZOLA; CARVALHO, 2005). No mecanismo de diferenciação celular, assim como na repli- cação, existem alguns fatores reguladores, na maioria das vezesenzimas que apresentam funções de manutenção da informação genética, evitando alguma mutação, e regulação do ciclo celular, impedindo o crescimento descontrolado de um tecido ou evitando que células senescentes e sem função permaneçam vivas (WARD, 2002). Quando esses mecanismos de controle são perdidos, existe a chance de que aconteça uma replicação celular descontrolada, pois a célula se torna independente de seus genes e fatores reguladores, dando origem então a uma doença denominada Câncer (RIVOIRE et al., 2001). O câncer pode ser causado tanto por fatores externos: como ta- baco, dieta, radiação química e agentes infecciosos; como interno, por mutações hereditárias ou não, fatores imunológicos e hormonais e alterações no metabolismo. Esses fatores podem agir juntos ou em sequência para dar origem ao tumor, que requer muitos passos Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 80 06/10/2014 16:28:13 81 A RELAÇÃO DA EPIGENÉTICA NA GÊNESE TUMORAL e pode demorar anos para se manifestar clinicamente (GARCIA et al., 2007). Considera-se o câncer uma doença genética no sentido de que o fenótipo maligno é resultado de alguma alteração genética que é transmitido as células filhas e confere a essas algumas vantagens fisiológicas (WARD, 2002). Entre os genes humanos existem duas classes deles, pequenas em relação a todo o genoma que são de grande importância na tu- morigênese: protooncogenes e supressores tumorais. Esses genes em suas configurações normais regem todo o ciclo celular através de uma intrincada sequência de eventos que resultam no crescimento e divisão celular (RIVOIRE et al., 2001). Proto-oncogenes estimulam, enquanto genes supressores tu- morais inibem os processos de divisão celular. Coletivamente, es- tas duas classes de genes são responsáveis pela proliferação des- controlada encontrada nos cânceres em humanos (RIVOIRE et al., 2001). Os Proto-oncogenes codificam oncoproteinas que controlam o ciclo normal de proliferação celular, apoptose, ou ambos. Por sua vez o termo oncogene refere-se a um protooncogene alterado que quando ativo codifica produtos que superestimulam a proliferação celular anormal (VIDEIRA et al., 2002). Proto-oncogenes podem transformar-se em oncogenes através de 2 formas: mudanças na estrutura do gene, resultando na síntese de oncoproteínas anormais, tendo função aberrante, e, por mudan- ças na regulação da expressão do gene, resultando um aumento ou produção inadequada de proteínas promotoras de crescimento celular (CARLO; CROCE, 2008). Quando ocorre alguma dessas alterações na célula, ela não res- ponde aos mecanismos regulatórios e começa a se multiplicar em demasia devido a essa vantagem fisiológica (WARD, 2002). O produto dos oncogenes pode ser classificado em seis grupos: fatores de transcrição, remodelador de cromatina, fatores de cres- cimento, receptor de fator de crescimento, transdutores de sinal e Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 81 06/10/2014 16:28:13 82 GÜNTHER DE MENEZES SOTT - MATIAS NUNES FRIZZO reguladores de apoptose (CARLO; CROCE, 2008). Alguns dos oncogenes mais conhecidos são: SIS, RAS, ABL/ BCR, MYC, HER2, BCL2, MET E RET. Cada um está envolvido em um tipo de tumor diferente, como Mama, tireóide, leucemia, linfomas e outros (KOPNIN, 2000; SHARMA; SETTLEMAN, 2007). Os genes supressores de tumores, em contraste, contribuem para o desenvolvimento de câncer quando são inativados, genética ou epigenéticamente. O resultado é perda da ação de genes supres- sores funcionais, o que depriva a célula de controles cruciais para a prevenção de crescimento inapropriado (RIVOIRE et al., 2001). Os supressores de tumor codificam proteínas que inibem a divi- são celular. Por desempenharem esta função e terem sido descober- tos em estudo de tumores receberam esta denominação. O primeiro gene supressor de tumor descrito foi o Rb, que codifica uma proteína que regula a transição celular para a fase S e está associado ao de- senvolvimento do retinoblastoma (KOPNIN, 2000). Sem duvidas o supressor tumoral mais conhecido é o p53, que codifica uma fosfoproteína denominada proteína p53, que desempe- nha um importante papel nocontrole do ciclo celular e previne o apa- recimento de câncer (EISENBER; KOIFMAN, 2001; FIGUEIREDO et al., 2003). A proteína p53 bloqueia a divisão em células que sofreram in- júrias no seu DNA, dando tempo para a sua reparação. A perda da função desse gene pode estar relacionada tanto à iniciação quanto à progressão tumoral (ALMEIDA et al., 2007). Para demonstrar sua importância, cita-se o fato de que muta- ções na proteína p53 são encontradas em cerca de 50% de todos os cânceres humanos, ou mais de 50 tipos de tumores (MATTOS et al.,2005) A alteração de um único gene raramente é suficiente para o de- senvolvimento de um tumor maligno. A maioria das evidencias mos- tra um processo de múltiplas alterações, em proto-oncogenes e su- pressores tumorais (CARLO; CROCE, 2008). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 82 06/10/2014 16:28:13 83 A RELAÇÃO DA EPIGENÉTICA NA GÊNESE TUMORAL 3.3. Relação da Epigenética na Gênese tumoral Os dois principais mecanismos epigenéticos, metilação do DNA e acetilação da histona, ocorrem normalmente em nosso corpo e são importantíssimos para a regulação gênica eestabilidade cromossô- mica, mas quando perdem o controle representam um risco à saúde celular, pois estudos recentes apontam que em todos os tipos de câncer humano, as alterações epigenéticas ou são a causa, ou estão contribuindo com as alterações genéticas para a evolução tumoral (TING; MCGARVEY; BAYLIN, 2006). As alterações epigenéticas que exercem maior influência na gê- nese tumoral são as alterações no padrão de metilação do DNA, incluindo desmetilações em massa e metilação especifica de certos promotores, fazendo com que o ácido nucléico altere sua estrutu- ra e função, possibilitando a ocorrência de transcrições indevidas de repetidos elementos e ativação de genes específicos que podem predispor o genoma à instabilidade devido a perca do controle de replicação cromossomal (TING; MCGARVEY; BAYLIN, 2006). A maioria dos genes de supressores tumorais, remodelamento tecidual, reparo do DNA, controle celular e anti-apoptóticos tem seu promotor precedido de CpG islands, e em qualquer tipo de câncer todos eles podem estar silenciados e isso se deve mais a causas epigenéticas do que.Asmutações e epimutações, no entanto podem ocorrer de maneira simultânea nas células, pois já foi demonstrado que alguns genes mutados têm também o seu correspondente, no outro alelo, silenciado por hipermetilação nos seus promotores (JO- NES; BAYLIN, 2002). Foi realizado um estudo comparativo no qual é apontado que,a hipermetilação de promotores de supressores tumorais é tão, ou mais comum quanto as mutações no silenciamento desses genes (JO- NES; BAYLIN, 2002). A Figura 1 aponta a localização dealguns dos principais supressores tumorais e de que maneira eles comumente são silenciados. Em verde estão os genes que são silenciados por mutações; em vermelho, os que são afetados por epimutações, e em roxo os que podem sofrer ambas as alterações. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 83 06/10/2014 16:28:13 84 GÜNTHER DE MENEZES SOTT - MATIAS NUNES FRIZZO Um estudo realizado em 2006 determinou o perfil de metilação de 55 tumores cerebrais levando em consideração 7 genes especí- ficos que frequentemente se mostram metilados em uma série de neoplasias, como mama, cérebro, pulmão estomago e colo. Esses genes eram: DAPK, MGMT, p14ARF, p16INK4a , TP73, RB1, TIMP-3, e em 83,6%das amostras havia ao menos um dos sete genes com um perfil aberrante de metilação (ANSELMO et al., 2006). Dentre os genes analisados, o que apresentou resultados mais significantes foi o p14ARF, um supressor tumoral que inibe a degrada- ção da p53 durante a progressão do ciclo celular, que se apresenta- va hipermetilado em 40% das amostras tumorais (XING et al., 1999; ANSELMO et al., 2006).Cerca de 50% dos genes que causam câncer familiar quando mutados na sua linha de germinação são encontrados silenciados por metilação nos mesmos tipos de câncer esporádicos.No processo de metilação o gene é silenciado devido a migração de um grupo de 5 proteínas denominado Methyl-CpG binding protein domains. São elas: MeCP2, MBD1, MBD2, MBD3 e MBD4 (JONES; BAYLIN, 2002; ESTELLER, 2007). Essas proteínas alem de competir com sítios de fatores de trans- crição também servem como tradutores do que acontece no DNA - TP73 - MSH2 - VHL - APC - P15 - P14, P16 - PTCH - PTEN - ATM - BRCA2 - GSTP1 - RB - MLH1 - FHIT - RASSFIA - SMARCA3 - SSI1 - CDH1 - HIC1 - TP53 - NF1 - BRCA1 - SMAD4 - STK11 - NF2 - SMARCB1 - TIMP3 1 2 3 4 5 6 7 8 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 9 10 11 12 13 Figura 1 - Supressores tumorais e as causas de seu silenciamento. Fonte:JONES; BAYLIN, 2002. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 84 06/10/2014 16:28:13 85 A RELAÇÃO DA EPIGENÉTICA NA GÊNESE TUMORAL para a cromatina, pois elas têm a capacidade de atrair a enzima HDAC, que atua desacetilando à histona. Essa alteração química faz com que a histona retome sua carga positiva e ancore novamente o DNA, fazendo com que a cromatina tome o arranjo de Heterocro- matina, mais densa, e por isso dificultando fisicamente o acesso de fatores transcricionais aos genes ali contidos, mostrando que os dois principais fenômenos epigenéticos estão interligados (DUCASSE; BROWN, 2006). Para entendermos o impacto que as mudanças epigenéticas sur- tem no câncer, dependemos do detalhamento de qual passo surge à evolução neoplásica e como essa causa eleva os estágios até o sur- gimento de células invasivas. As alterações genéticas e epigenéticas podem ocorrer em qualquer um desses passos, mas essas últimas aparecem preferencialmente mais cedo, às vezes com anormalida- des naestrutura da cromatina ou silenciando/ativando determinados genes, surgindo muito antes dos sinais clínicos. Esse fato altera a idéia de que todos os tumores surgem de mutações genéticas e co- locam as modificações epigenéticas como as possíveis alterações seminais para a iniciação do tumor (TING; MCGARVEY; BAYLIN, 2006). O motivo pelo qual a epigenética chama tanto a atenção dos cientistas hoje em dia pode se resumir no fato de que as suas altera- ções são totalmente reversíveis. Esse fato abre o caminho para uma nova abordagem sobre o tratamento do câncer na sua fase inicial e também explica algumas das questões que não se podem solucio- nar pensando no câncer como um fenômeno mutacional, apenas. Por exemplo, quando alterações genéticas são as responsáveis pela inativação de ambos os alelos de um determinado gene, o nível de decréscimo dessa proteína se torna fixo. Por outro lado, quando o silenciamento se dá por metilação, a perda da função do gene é reversível e proporcional a densidade de CpG islands presentes na região promotora. Portanto, densidades intermediárias de metilação significam níveis intermediários de supressão tumoral. Sendo assim, enquanto a via genética determina uma supressão fixa e imediata, a via epigenética se manifesta como uma forma gradual, progressiva e flexível (HSIEH, 1994; PIETENPOL, 1995). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 85 06/10/2014 16:28:13 86 GÜNTHER DE MENEZES SOTT - MATIAS NUNES FRIZZO Com essa idéia foi possível esclarecer uma questão bastante discutida acerca do gene daE – Cadherin , proteína importantíssima para a adesividade intracelular,encontrado com atividade diminuída ou silenciada na maioria dos cânceres epiteliais, como o de beixiga. Esse gene está localizado no cromossomo 16q22.1 e codifica uma glicoproteína transmembrânica, cuja função é de grande importância, tanto para a adesividade intercelular como para o desenvolvimento e manutenção do fenótipo epitelial (GRAFF et al., 2000; CHRISTO- FORI; SEMB, 1999). Para iniciar o processo invasivo e produzir células metastáticas, as células tumorais devem, primeiramente, se desprender das cone- xões que as mantêm unidas à massa tumoral original e migrar para os focos distantes. Mas para que essas células consigam se instalar no interior do órgão alvo, essas conexões devem ser reativadas (RI- BEIRO FILHO, 2005). Uma analise realizada em focos metastáticos de carcinomas resultantes de células tumorais epiteliais revelou que nestas amos- tras ocorre a reexpressão da E-cadherin. Isso implica no fato de que deve haver algum mecanismo reversível comandando a ativação e silenciamento do gene desta proteína, pois a alteração na sequência deste gene, seja por mutação ou deleção, configura uma alteração definitiva e dificilmente poderia ser revertida. Já o mecanismo de silenciamento por hipermetilação preenche adequadamente o requi- sito de reversibilidade aqui encontrada (GRAFF et al., 2000). Grande parte dos carcinomas exibe um padrão celular diferen- te no que diz respeito à expressão da E-cadherin. Por isso, células de um mesmo tumor possuem diferentes graus de metilação deste gene e consequentemente diferentes graus de expressão desta mo- lécula de adesão. Com a progressão da hipermetilação, surgem cé- lulas que perdem suas conexões intracelulares devido ao baixo nível dessa importante proteína e se desprendem dos órgãos primários e migram para os tecidos-alvo. Mas no tecido alvo ela deve voltar a ser expressa para conseguir se adaptar ao novo microambiente e conseguir sobreviver (GRAFF et al., 2000; RIBEIRO-FILHO, 2005). O mesmo tipo de estudo foi feito em cima da glicoproteína Epi- thelial Cell Adhesion Molecule (EpCAM) que tem a mesma carac- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 86 06/10/2014 16:28:13 87 A RELAÇÃO DA EPIGENÉTICA NA GÊNESE TUMORAL terística da E-cadherin e o resultado encontrado foi semelhante ao anterior (SHIAH; TAI; WU, 2008). Isso mostra que a epigenética não aparece apenas na gênese tumoral, mas também se envolve com todo o processo carcinogêni- co, deixando claro que não se pode mais ignorar a sua importância para com a elucidação dos processos moleculares da tumorigênese e munindo também a ciência de novas ferramentas para a facilita- ção do diagnóstico precoce e tratamentos menos agressivos para o câncer. CpG Islands hipermetiladas podem ser encontradas em pacien- tes oncológicos em amostras de DNA derivadas de Escarro, Urina e Soro. Esse DNA, presume-se que venha de células tumorais que sofreram necrose ou apoptose (SIDRANSKY, 2002). Em câncer de próstata, por exemplo, o gene GSTP1 metilado foi identificado em 72% das amostras de soro dos pacientes aco- metidos. Já na urina identificou-se o mesmo gene metilado em 68% dos casos de inicio do tumor e em 72% dos quadros de câncer local avançado. Portanto, tem se considerado que o uso do padrão de metilação deste e de alguns outros genes encontrados nos fluídos biológicos, juntamente com a analise histológica facilita a especifici- dade diagnóstica (GOESSL et al., 2000; MANOHARAN et al., 2007). No entanto já foi demonstrado aqui que a maioria dos genes que se apresentam metilados em algum tipo de tumor não são especí- ficos, ou seja, aparecem também em outros tipos de câncer.Esse é ainda o maior problema enfrentado quando se fala em diagnósti- co epigenético, mas já se sabe que alguns genes têm uma diferen- ciação tecidual específica, como o caso do CDKN2B, geneque está quase que sempre metilado em alterações linfóides, ao contrario dos tumores sólidos (JONES; BAYLIN, 2002). Com isso a analise dos padrões de metilação de certos genes, como o CDKN2B, nos casos de Leucemia começam a servir como marcador tumoral e detector de doença residual mínima após o tra- tamento de quimioterapia, pois foi constatada uma queda nos níveis de metilação do CDKN2B na medula óssea de pacientes comleuce- mias agudas em remissão clinica, e alguns estudos apontam que o Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 87 06/10/2014 16:28:13 88 GÜNTHER DE MENEZES SOTT - MATIAS NUNES FRIZZO aparecimento de um padrãode metilação aberrante nesse processo representa um grande risco de retorno da doença (LIMA et al., 2008; AGRAWAL et al., 2007). A detecção dos padrões de metilação da citosina iniciou com a técnica de conversão do bissulfeto, que consiste na modificação for- çada da citosina não metilada em uracil. Dessa forma, utiliza-se em conjunto com uma técnica de PCR para a ampliação e outra técnica de seqüenciamento. Como toda e qualquer citosina não metilada, devido à conversão do bissulfeto se transformou em uracil, as cito- sinas visíveisno seqüenciamento representam a 5-Metilcitosina, ou seja, a citosina metilada (LIMA et al., 2008). No entanto por esta medodologia, as analises se tornavam longas e cansativas e seus dados, sozinhos não se concretizavam como um indicativo tumoral, pois como já foi descrito a metilação de apenas um gene não é especifico a nenhum câncer. Então, a tecnologia do Microarrays se torna a mais importante ferramenta para essa análi- se, pois contém uma imensa quantidade de marcadores epigenéti- cos que sozinho não dizem muito, mas quando refletem um padrão de metilação, se torna uma forte ferramenta de diagnóstico precoce. E com a preconização do diagnóstico, flagrando a célula ainda em processo de transformação tumoral é possível lançar mão de algum tipo de tratamento epigenético curativo, pois esses processos são reversíveise herdáveis. O tratamento epigenético do câncer tem um potencial relativa- mente maior do que o tratamento genético, pois possui copias in- tactas de supressores tumorais que não precisam ser transfectadas para a célula, pois eles já estão lá, prontos, só precisam ser reativa- das. Além disso, se uma abordagem a um gene específico é usada para reativar um supressor tumoral, ela apresenta uma toxicidade tecidual relativamente baixa. Se for difícil conceber uma estratégia terapêutica para substituir um gene mutante em pacientes, é muito menos fantástico imaginar a restauração de um padrão de metilação em células tumorais (DIMITRIJEVIC, 2005). Um dos maiores alvos farmacológicos associados com essas modificações epigenéticas é a DNMT. O inibidor da DNMT mais co- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 88 06/10/2014 16:28:13 89 A RELAÇÃO DA EPIGENÉTICA NA GÊNESE TUMORAL nhecido até agora é o 5aza-2-deoxycytidine (5-azaC), que tem uma caracteristica quimica similar à citosina e acaba por se ligar de uma forma irreversível na DNMT, seqüestrando essa enzima e causando uma alteração na balança DNMT – desmetylases, a favor dessas ultimas, levando a uma Hipometilação (MANOHARAN et al., 2007; DIMITRIJEVIC, 2005). Mas para que isso ocorra, primeiramente a 5-azaC precisa ser incorporada ao DNA, e isso pode levar a um aumento da mutagenici- dade local, que em alguns efeitos colaterais já relatados leva a uma mielosupressão (MANOHARAN et al., 2007). Há, além da 5-azaC outras drogas inibidoras da DNMT em testes que apresentam uma menor toxicidade tecidual.Mas até que pon- to a hipometilação causada por essas drogas se torna sustentável? Adianta reativar os supressores tumorais e na mesma manobra faci- litar a surgimento de oncogenes? Como todos os tratamentos experimentais, estas ainda são algu- mas das questões que devem ser mais bem esclarecidas para que o tratamento epigenético, teoricamente mais brando que os convencio- nais possam ser adotados, não em exclusividade, mas em conjuntos com os demais, pois, apesar do que aqui foi descrito, o câncer é sim uma doença com múltiplas causas que interagem constantemente e para que o seu tratamento seja bem sucedido é necessário encarar todas essas frentes. 4. CONCLUSÃO Alguns pesquisadores acreditam que a epigenética representa a ultima fronteira para o domínio total da informação genética, outros preferem tratá-la com mais cautela, mas o fato é que ela se con- solidou como um importante mecanismo molecular no controle da expressão, regulação e transmissão da informação gênica e causa até hoje a excitação em alas da ciência. Hoje, a epigenética é apontada como uma das formas nas quais o meio ambiente consegue modular o biológico, estreitando assim a relação entre o estilo de vida e as suas conseqüências, bem como deixando as suas marcas na evolução e perpetuação celular. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 89 06/10/2014 16:28:13 90 GÜNTHER DE MENEZES SOTT - MATIAS NUNES FRIZZO Em relação ao câncer, sabe-se que está presente na fase mais precoce das alterações moleculares, precedendo e possibilitando mutações, silenciando ou ativando genes, alterando a conformação cromossômica podendo levá-lo a instabilidade e até coreografando a expressão de determinados genes quando assim precisos para o processo de metástase. O uso da epigenética está voltado para o diagnóstico precoce dos tumores devido aos padrões alterados de metilação e para o tra- tamento dos mesmos, visto que a característica mais importante dos processos epigenéticos é a sua reversibilidade e flexibilidade, não encontrada nas alterações genéticas. Isso possibilita uma aborda- gem terapêutica considerada teoricamente mais simples e segura ao paciente, mas que não deve ser vista como soberana, afinal os pro- cessos biomoleculares de tumorigênese ainda não estão bem elu- cidados e não se deve abrir mão de nenhuma tática para vencê-lo. 5. REFERÊNCIAS AGRAWAL, S; et al. DNA methylation of tumor supressor genes in clinical remission predicts the relapse risk in acute myeloid leuke- mia. Cancer Research. v.67. p. 1370 – 1377. 2007. ALMEIDA, José Ricardo et al. Marcadores tumorais: Revisão da literatura. Revista Brasileira de Cancerologia. v.53, n.3, p. 305 – 316. 2007. ANSELMO, Nilson Praia; et al. 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Nesta pesquisa que teve por objeivo invesigar os mecanismos uilizados pela estabilização central pélvica através da análise de seu funcionamento, de suas inter-relações com a dor lombar e com o desequilíbrio muscular estáico e dinâmico da musculatura do tronco veriicou que a melhora nos desequilíbrios da musculatura extensora e lexora do tronco e dos músculos paravertebrais e abdominais podem auxiliar na estabilização e sustentação da coluna lombar para uma movimentação ampla e saudável. Por isso, o tratamento da dor lombar através da estabilização central pélvica visa trabalhar o equilíbrio estáico e dinâmico nas disfunções musculoesqueléicas. O estudo evidenciou que a estabilização central pélvica pode permiir que seu praicante retorne a suas aividades diárias em um nível alto de funcionalidade, melhorando o controle postural, o sistema neuromuscular, garanindo o equilíbrio da musculatura do tronco e do abdômen. Palavras-chave: Dor Lombar. Estabilização Central Pélvica. Método Pilates. ABSTRACT This study was completed by using the technique of central pelvic stabilizaion in the treatment of low back pain. Lumbar pain is mulifactorial causes may lead to physical, emoional and funcional wear impairing quality of life. This research aimed to invesigate the mechanisms used by the central pelvic stabilizaion through the analysis of its operaion, its interrelaions with backache and the staic and dynamic muscle imbalance of the trunk musculature found that the improvement in muscle imbalances extension and lexion of the trunk and paraspinal and abdominal muscles can help stabilize and support the spine for a wide and healthy movement. Therefore the treatment of low back pain through the pelvic core stabilizaion work aims staic and dynamic balance in musculoskeletal disorders. The study showed that the central pelvic stabilizaion may allow the praciioner to return to their daily aciviies at a high level of funcionality, improving postural control, neuromuscular system, ensuring the balance of the muscles of the trunk and abdomen. Key-words: Back Pain. Central Pelvic Stabilizaion. Pilates Method. 1. INTRODUÇÃO Atualmente diversos estudos vêm demonstrando preocupação com distúrbios relacionados à coluna lombar. Nota-se que cerca de 2,4% homens e 1,7% mulheres da população economicamente ati- va já presenciou ou presencia episódios de algias lombares. A dor 1 Fisioterapeuta, Pós-Graduanda em Fisioterapia Dermatofuncional- CBES- Porto Alegre- RS. E-mail: bezerra.juliane@yahoo.com.br 2 Mestre em Educação nas Ciências. Orientadora. Professora do Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo, IESA- RS. E-mail: gomesnthais@gmail.com Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 93 06/10/2014 16:28:14 94 JULIANE PUKALL BEZERRA FONTANA - THAÍS DO NASCIMENTO GOMES instalada de forma contínua ou por longos períodos facilita o desen- volvimento de distúrbios psicomotores podendo vir acompanhado de outros sintomas como: desconforto, fadiga e rigidez articular (SILVA; FASSA; VALLE, 2004; REINEHR; CARPES; MOTA, 2008). Das diversas técnicas utilizadas pela fisioterapia no tratamento da dor lombar as que se baseiam na estabilização central pélvica objetivam fortalecer o centro de força ou “power house” que é cons- tituído por grupos musculares da região da cintura pélvica que se estendem da base das costelas até a região inferior da pelve e que geram um regime preventivo e terapêutico essencial para o alívio da dor lombar. Esse centro localiza-se junto ao centro de gravidade cor- poral e fornece através de sua ação uma “cinta muscular” que traba- lha estabilizando a coluna, o tronco e os movimentos dos membros (REINEHR; CARPES; MOTA, 2008). Os músculos paravertebrais e abdominais devem manter-se equilibrados com as demais estruturas para que constituam um sis- tema dinâmico que forneça força, estabilidade e auxilie na estabiliza- ção e sustentação da coluna lombar em uma movimentação ampla e saudável. Este estudo buscou investigar os mecanismos utilizados pela es- tabilização central pélvica através da análise de seu funcionamento, de suas inter-relações com a dor lombar e com o desequilíbrio mus- cular estático e dinâmico da musculatura do tronco. 2. MATERIAIS E MÉTODOS O estudo desenvolveu-se como uma pesquisa bibliográfica base- ado em artigos científicos, livros e demais periódicos. Foram utiliza- das para a pesquisa as palavras-chave: Dor Lombar, Estabilização Central Pélvica e Método Pilates. 3. DISCUSSÃO A dor lombar é uma resposta adaptativa e protetora ao estresseimposto a coluna vertebral e que se reflete através de resposta irri- tável dos músculos quando realizam movimentos rápidos de torção Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 94 06/10/2014 16:28:14 95 O TRATAMENTO DA DOR LOMBAR ATRAVÉS DA ESTABILIZAÇÃO CENTRAL PÉLVICA ou de levantamento causando déficit funcionais (DUFOUR, 2004). Vários são os mecanismos de resposta do organismo à dor além das alterações na excitabilidade do sistema motor como a reação do sis- tema sensorial e nervoso central (HODGES; MOSELEY; LORIMER, 2003). A musculatura encurtada ou enfraquecida da coluna lombar vai restringir a capacidade da pelve e da região lombar em manter seu alinhamento correto causando déficit no desempenho funcional e físico devido ao efeito dos músculos em suas fixações (DILLMAN, 2004). Os músculos do tronco, principalmente os músculos transverso do abdômen e multífido lombar, devem fornecer endurece, força e resistência suficiente para uma ótima eficácia do sistema musculo- esquelético (CRAIG, 2000; HODGES; MOSELEY; LORIMER, 2003). Segundo O’Sulivan e Darren, o multífido lombar e o transverso do abdômen tem com funções:O músculo multífido fornece controle dinâmico para o movimento segmentado na zona neutra. E o transverso do abdômen auxilia na manutenção da pressão intra-abdominal, agindo em co-contração com o multifidio lombar através do seu apego toracolombar (2002 p. 06). Muitos pacientes com dor lombar apresentam diminuição da contração dos músculos do tronco, dos discos intervertebrais, do controle muscular e um maior depósito de gordura na região lom- bar (PARKKOLA 1993). A atividade elétrica em pacientes com dor lombar apresenta-se aumentada e a fadiga dos eretores da espinha mostra-se evidentes. Ocorre a perda da mobilidade no segmento L5 e S1 com o aumento subseqüente na mobilidade de outros segmen- tos (DUFOUR, 2004). A instabilidade lombar é uma evidente alteração encontrada em indivíduos com dor lombar (HODGES; GANDEVIA, 2000). Sendo definida por Bisschop: É um prejuízo na capacidade do sistema estabilizador da coluna lombar em manter a zona neutra da amplitude do movimento de um segmento dentro dos limites fisiológicos. Que muitas vezes pode alterar-se devido a um desequilíbrio muscular (2003, p. 122). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 95 06/10/2014 16:28:14 96 JULIANE PUKALL BEZERRA FONTANA - THAÍS DO NASCIMENTO GOMES Por isso a co-contração da musculatura extensora e flexora do tronco antagonista é imprescindível para possibilitar uma estabilida- de mecânica à coluna lombar para manter-se em uma posição neu- tra (CHOLEWICKI; PANJABI; KHACHATRYAN, 1997). A estabilização central pélvica ocorre pelo controle mecânico arti- cular onde os músculos agem como limitadores e controladores dos movimentos evitando desequilíbrios musculares, padrões de distor- ção, dominância sinérgica e adequando o controle postural dinâmi- co ideal para a realização dos movimentos funcionais (PRENTICE; VOIGHT, 2003). O mecanismo utilizado na estabilização central é a concentração que ajuda o sistema nervoso central (SNC) na solicitação dos mús- culos adequados para a realização das atividades funcionais promo- vendo ativação antecipatória dos músculos profundos, aperfeiçoan- do a estabilidade lombar ocasionando alívio da dor (GUEDES, 2000). A estabilização ocorre por três sistemas: sistema passivo, ativo e neural que devem manter-se em equilíbrio e interligado trabalhando a conscientização corporal para que as estruturas forneçam estabi- lizações necessárias para a movimentação. Sendo assim, a esta- bilização central pélvica visa fortalecer o centro de força ou “power house” prevenindo ou tratando a dor lombar (GUEDES, 2000). A contração dos músculos do tronco deve ser aprendida com certo nível de consciência uma vez que estes músculos agem de forma involuntária (LIEBENSON, 2000). O treino muscular para garantia da estabilidade deve estar asso- ciada a posição neutra da pelve, ou seja, a pelve não deve estar nem na anteversão ou na retroversão pélvica, mas neutra a estas duas posições. A amplitude de movimento fisiológica total durante o treino divide-se em duas zonas: a zona neutra que corresponde a posição inicial da amplitude de movimento contra o mínimo de resistência e a zona elástica que é a porção da amplitude de movimento mais próxima a amplitude final dentro da zona neutra com uma resistência interna maior (PALASTANGA; FIELD; SOAMES, 2000). A estabilização central pélvica divide-se em cinco estágios com níveis progressivos de dificuldade conforme a consciência corporal do indivíduo. Gradualmente a contração deve ser mantida por 6, 10 e Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 96 06/10/2014 16:28:14 97 O TRATAMENTO DA DOR LOMBAR ATRAVÉS DA ESTABILIZAÇÃO CENTRAL PÉLVICA 20 segundos para que após seja aumentado o número de repetições e evolução para o próximo estágio. O estágio I os exercícios dão ênfase no recrutamento de músculos abdominais, glúteos, posterio- res de coxa e transverso do abdômen, sem anterversão ou retrover- são pélvica durante as contrações. Envolvem neste primeiro estágio exercícios como a ponte, flexão lateral, cinturão abdominal. No es- tágio II ocorrem os exercícios de correção do desequilíbrio de força e resistência muscular, progredindo os exercícios do estágio I com maior nível de exigência. No estágio III o objetivo é a reeducação dos músculos estabilizadores abdominais e escapulares em cadeia cinética, com exigência ainda maior que a anterior. O estágio IV se dá através de exercícios avançados de estabilização dinâmica onde se incluem os exercícios pliométricos (REINEHR; CARPES; MOTA, 2008). Através da orientação das fibras musculares a contração do mús- culo transverso do abdômen resulta na diminuição da circunferência abdominal causando aumento da tensão na fáscia toracolombar e aumento da pressão intra-abdominal. Por isso a compressão axial e as forças de cisalhamento são reduzidas e transmitidas por uma área maior, tornando a região lombar mais estável durante o levan- tamento de cargas externas. Portanto o fortalecimento dos músculos que constituem o “centro” pode dar maior estabilidade à coluna atu- ando como se fosse uma “plataforma biomecânica” que se tornando mais sólida e eficiente e ajusta os músculos periféricos ligados a co- luna lombar e a pelve distribuindo as forças na pelve e nos membros inferiores (HODGES; MOSELEY; LORIMER, 2003). A reabilitação musculoesquelética tradicional enfatiza a mecâni- ca articular isolada com a melhora da ADM, flexibilidade, aumento da força e da resistência muscular, ao invés de trabalhar as informações aferentes obtidas pelas articulações que são processadas pelo siste- ma de controle postural. Recentemente tem-se dado ênfase as mo- dalidades cinesioterapêuticas que enfatizam o treino proprioceptivo destacando o sistema neural da articulação (PRENTICE; VOIGHT, 2003). Dentre os recursos cinesioterapêuticos que auxiliam no reequilí- brio muscular e na normatização dos músculos do tronco através da Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 97 06/10/2014 16:28:14 98 JULIANE PUKALL BEZERRA FONTANA - THAÍS DO NASCIMENTO GOMES estabilização central estão: o método Pilates, a contrologia, o alon- gamento pós-facilitação e os exercícios específicos em cadeia ciné- tica funcional. O Método Pilates utiliza exercícios que favorecem o trabalho dos músculos estabilizadores, promovendo a eliminação da tensão ex- cessiva em certos grupos musculares evitando dessa forma as com- pensações causadas por desequilíbrios musculares (CRAIG, 2005; GUEDES, 2000; DAVIS, 2006; FERNANDES, 2006). A atividade harmônica entre músculos locais e globais permite a estabilização da coluna lombar. Estudos evidenciam que o mús- culo transverso do abdômen é o primeiro a ser ativado durante os movimentos do tronco e membros tendo ação sinergista e adotando uma reação antecipatória aos movimentos produzindo assim a firme- za necessária à colunalombar. A desativação deste músculo-chave pode gerar desequilíbrios musculares importantes e consequente- mente levar à dor (PEREIRA et al., 2008). O alongamento pós-facilitação utiliza no tratamento de múscu- los encurtados através de contração isométrica sustentada durante 7 segundos seguida de 12 segundos de alongamento (HAMMER, 2003). Este tipo de modalidade reabilitativa pode auxiliar na reequili- bração muscular beneficiando a estabilização central. A reabilitação em cadeia cinética funcional que visa melhorar a capacidade do sistema nervoso central (SNC) de permitir que os músculos agonistas, antagonistas, sinergistas, estabilizadores e neutralizadores atuem de forma eficiente para manter-se em equilí- brio e por isso pode ser um método coadjuvante ao da estabilização central (PRENTICE; VOIGHT, 2003). As modalidades que derivam da estabilização central pélvica ou a associam durante os exercícios proporcionam benefícios sem pre- judicar a flexibilidade, enfatizando a contração isotônica (concêntrica e excêntrica) e isométrica nos músculos do tronco e abdominais que formam o centro de força (GUEDES, 2000). Pelo fato de desenvol- verem a conscientização corporal aprimorando o seu desempenho em tarefas funcionais, melhorando o condicionamento físico, a ca- pacidade cardiovascular e a reeducando a respiração diafragmática. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 98 06/10/2014 16:28:14 99 O TRATAMENTO DA DOR LOMBAR ATRAVÉS DA ESTABILIZAÇÃO CENTRAL PÉLVICA Por isso pode ser um excelente recurso indicado no controle da dor lombar (TEIXEIRA; SAKAMOTO; SIQUEIRA, 2004). 4. CONCLUSÃO Através do presente estudo pode-se constatar que o desequilí- brio muscular e a deficiência do controle neuromuscular ocasiona- dos na musculatura extensora e flexora do tronco são uma das mais importantes causas dos distúrbios que ocorrem na coluna lombar e que por sua conseqüência levam a dor desta região. Para mante- rem-se funcionais estes músculos devem estar fortes e capazes de fornecer sustentação a pelve e a coluna lombar auxiliando também na proteção e suporte as demais estruturas. A estabilização central pélvica se dá pelo controle mecânico arti- cular, através da contração muscular isométrica considerando como um centro de força que estabiliza a coluna e conseqüentemente ali- viando a dor. Assim a técnica visa manter ou restabelecer um centro neuromuscular integro fornecendo força e resistência para impedir movimentos compensatórios. Portanto, a estabilização central pélvica permite que o indivíduo em tratamento retorne as suas atividades diárias em um nível alto de funcionalidade, melhorando todo o sistema postural, neuromus- cular e reequilibrando a musculatura que dá suporte e sustentação a coluna lombar consequentemente diminuindo a dor e permitindo a normatização da estabilidade lombar. 5. REFERÊNCIAS BISSCHOP, Pierre. Instabilidade Lombar: Implicações para o fisioterapeuta. Revista Terapia Manual, Londrina, v.1, n4, p.122- 126, abr-junh/2003. CHOLEWICKI, Jacek PhD; PANJABI, Manohar M. PhD; KHA- CHATRYAN, Armen MD. Função dos músculos flexores e exten- sores do tronco na estabilização da coluna em uma posição neutra. Revista Volume 22(19), 1 Outubro, 1997, pp. 2207-2212. CRAIG, C. A função do transverso do abdômen na promoção da Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 99 06/10/2014 16:28:14 100 JULIANE PUKALL BEZERRA FONTANA - THAÍS DO NASCIMENTO GOMES estabilidade vertebral. Revista de Terapia Manual, v.4, n.2, p. 113. Paraná. 2000. CRAIG, C. Pilates na Bola. 2.ed. São Paulo: Phorte, 2005. DILLMAN, E. O pequeno livro de Pilates: guia prático que dis- pensa professores e equipamentos. Rio de Janeiro: Editora Re- cord, 2004. DUFOUR, Michel. Anatomia do aparelho motor: cabeça e tronco. Rio de Janeiro, v.3, Guanabara Koogan, 2004. GUEDES, S. R. Brenda. Desequilíbrios musculares: fortaleci- mento, alongamento e relaxamento com o método pilates. 2000. HAMMER, I. Warren. Exame Funcional dos tecidos moles e tratamento por métodos manuais. 2ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. HODGES P.; GANDEVIA S.; Mudanças na pressão intra- abdo- minal durante postural e respiratório humano ativação do diafragma. Revista Fisioterapia, v. 89, p. 967-76. 2000. 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Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 101 06/10/2014 16:28:14 Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 102 06/10/2014 16:28:14 103 A RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO COM A ATEROSCLEROSE A RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO COM A ATEROSCLEROSE RELATION OF OXIDATIVE STRESS WITH ATHEROSCLEROSIS Belisa Avila Rodrigues1 Caroline Brandão Quines2 Matias Nunes Frizzo3 RESUMO Tema de muitos estudos nas úlimas décadas, os radicais livres são foco de interesse por pariciparem de processos isiológicos e patológicos. Uma produção exacerbada desses radicais livres gera um desequilíbrio no organismo, já que o sistema anioxidante não é capaz de neutralizar todas as substâncias produzidas. Esse ipo de desequilíbrio denomina- se estresse oxidaivo, um fenômeno relacionado a várias patologias, como câncer, diabetes, envelhecimento, Alzheimer, Parkinson e aterosclerose. A aterosclerose é a principal fonte de morbidade e mortalidade nos países desenvolvidos. Considerada uma patologia mulifatorial, está relacionada ao enrijecimento dos vasos sanguíneos, causando obstrução do luxo, estenose e redução da chegada de oxigênio a diferentes regiões do corpo. Dessa maneira, esse estudo tem como objeivo, através de uma pesquisa bibliográica, avaliar a relação do estresse oxidaivo com a aterosclerose. Os principais eventos na aterosclerose compreendem disfunção endotelial e inlamação, os quais podem ser causados pelo estresse oxidaivo, através da oxidação das lipoproteínas de baixa densidade (LDL) e diminuição da biodisponibilidade de oxido nítrico (NO). Além disso, o estresse oxidaivo atua na progressão da doença e contribui para a formação e ruptura da placa ateroscleróica. Diante dos estudos realizados, embora alguns autores ainda discordem desta relação, torna-se inegável a paricipação do estresse oxidaivo em processos bioquímicos ligados a aterosclerose. Palavras-chave: Estresse oxidaivo. Aterosclerose. Oxidação da LDL. Espécies reaivas. Radicais livres. ABSTRACT Topic of many studiesin the latest decades, free radicals are focus of interest for paricipaing in physiological and pathological processes. An exacerbated producion of free radicals causes instability in the body, since the anioxidant system is unable to neutralize all the substances produced. This kind of instability is named oxidaive stress, a phenomenon related to several diseases such as cancer, diabetes, aging, Alzheimer’s, Parkinson’s and atherosclerosis. Atherosclerosis is the major source of morbidity and mortality in developed countries. Considered a mulifactorial disease, it is related to blood vessels’ hardening, causing low obstrucion, stenosis and reducion of oxygen’s arrival to diferent parts of the body. This way, the goal of this study is, through a bibliographic research, evaluate the relaion between oxidaive stress and atherosclerosis. Its main events include endothelial dysfuncion and inlammaion which may be caused by oxidaive stress, through low density lipoproteins (LDL) oxidaion and nitric oxide (NO) bioavailability reducion. Besides, oxidaive stress acts in the disease’s progression and contributes to the formaion and rupture of atheroscleroic plaque. Considering studies performed, although some authors sill disagree with this relaion, it is undeniable the role of oxidaive stress in biochemical processes linked to atherosclerosis. Keywords: Oxidaive stress. Atherosclerosis. LDL oxidaion. Reacive species. Free radicals. 1. INTRODUÇÃO Os radicais livres tornaram-se foco de interesse nas últimas dé- cadas pelo papel desempenhado por essas moléculas em mecanis- 1 Acadêmica Concluinte do curso de Biomedicina do Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo- CNEC/IESA. 2 Acadêmica Concluinte do curso de Biomedicina do Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo- CNEC/IESA. 3 Mestre em Biologia Celular e Molecular na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, Professor do curso de Biomedicina, Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo CNEC-IESA, Santo Ângelo, RS, Brasil. CEP 98801-015. Enviar correspondência E-mail: mnfrizzo@hotmail.com. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 103 06/10/2014 16:28:15 104 BELISA AVILA RODRIGUES - CAROLINE BRANDÃO QUINES - MATIAS NUNES FRIZZO mos fisiológicos e patológicos. Sendo assim, diversos estudos têm sido realizados para esclarecer esse papel dos radicais livres no or- ganismo (FERREIRA; MATSUBARA, 1997; ANDRADE et al., 2005 ). No metabolismo de seres aeróbicos, a oxidação é fundamental. Por esse motivo, radicais livres podem ser produzidos de modo na- tural, ou como consequência de algum distúrbio biológico. Podem ter origem do oxigênio, sendo chamados de espécies reativas de oxigênio (ERO), ou originarem-se do nitrogênio, denominados de es- pécies reativas de nitrogênio (ERN) (BARREIROS et al., 2006). O estresse oxidativo resulta de um desequilíbrio nos sistemas pró e antioxidante, com predomínio dos oxidantes. Está relacionado com várias patologias, nas quais pode ser a causa ou o fator agra- vante do quadro geral. Dentre essas patologias, destacam-se a ar- trite, choque hemorrágico, catarata, disfunções cognitivas, diabetes, câncer e aterosclerose (CAVALCANTE; BRUIN, 2009). A aterosclerose é a principal fonte de morbidade e mortalidade no mundo desenvolvido, sendo considerada um problema de saúde pública. A Organização Mundial de Saúde (OMS) prevê que a pros- peridade econômica global pode levar a uma epidemia da ateroscle- rose (STOCKER; KEANEY, 2004). No Brasil, aproximadamente 300 mil óbitos por ano, são causados por doenças cardiovasculares, as- sociadas à aterosclerose. Dados ainda mais alarmantes são encon- trados nos Estados Unidos, onde as doenças cardiovasculares são responsáveis por cerca de 80% das mortes de pessoas com mais de 65 anos (GIROLDO et al., 2007). A aterosclerose caracteriza-se por uma resposta inflamatória crônica da parede arterial, processo que pode ser causado por in- flamação ou uma disfunção endotelial. Considerada uma patologia de natureza multifatorial, compreende processos oxidativos de lipo- proteínas, alterações celulares (em macrófagos, monócitos, células musculares lisas, células endoteliais e plaquetas) e envolvimento de moléculas de adesão liberadas por processos inflamatórios (ROSS, 1999; GIROLDO et al., 2007). A doença está relacionada ao enrije- cimento dos vasos sanguíneos, causando obstrução do fluxo pelas placas ateroscleróticas, o que resulta em estenose e reduz a che- gada de oxigênio a diferentes regiões do corpo. Em conseqüência Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 104 06/10/2014 16:28:15 105 A RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO COM A ATEROSCLEROSE dessa obstrução, pode ocorrer infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e aneurisma da aorta (PINHO et al., 2010). Diversas evidências tentam explicar a relação do estresse oxida- tivo com a aterosclerose, na qual ERO e ERN, principalmente as de- rivadas do óxido nítrico (NO), são cada vez mais reconhecidas como responsáveis pelo comprometimento da função endotelial celular e pela implicação na aterogênese (PAPAHARALAMBUS; GRIEN- DLING, 2007). Compreender os mecanismos envolvidos na formação e evolu- ção da aterosclerose torna-se cada vez mais importante, uma vez que os índices apontam a aterosclerose como a principal causa de mortalidade no mundo. O melhor entendimento da gênese e pro- gressão da aterosclerose pode proporcionar o desenvolvimento de novas terapias, inclusive com antioxidantes, que possam retardar a progressão da patologia ou preveni-la (GIEHL et al., 2007). O presente estudo tem por objetivo avaliar a relação do estresse oxidativo com a aterosclerose, incluindo a relação entre as espécies reativas e a oxidação das lipoproteínas de baixa densidade (LDL), bem como a relação das mesmas com a inflamação dos endotélios, formação e evolução da aterosclerose. 2. Estresse Oxidativo O estresse oxidativo é um fenômeno relacionado a ação de ra- dicais livres no organismo (ĎURAČKOVÁ, 2010). Compreende-se como radical livre, átomo ou molécula que possui elétrons não em- parelhados na sua camada orbital externa (VASCONCELOS et al., 2007). Entretanto, o termo radical livre não é ideal para designar os agentes reativos patogênicos, pois muitos deles não possuem elé- trons desemparelhados na última camada (FERREIRA; MATSUBA- RA, 1997). Assim, os termos ERO e ERN são considerados mais apropriados para descrever melhor esses agentes químicos (CA- VALCANTE; BRUIN, 2009; ĎURAČKOVÁ, 2010). As ERO são divi- didas em dois grupos: radicalares, nos quais estão o hidroxila (HO-), superóxido (O2 -), peroxila (ROO.) e alcoxila (RO-); e não radicalares, Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 105 06/10/2014 16:28:15 106 BELISA AVILA RODRIGUES - CAROLINE BRANDÃO QUINES - MATIAS NUNES FRIZZO formados pelo oxigênio (O2), peróxido de hidrogênio (H2O2) e ácido hipocloroso (BARREIROS et al., 2006). A maior via de produção de ERO compreende o transporte de elétrons através da mitocôndria. Além disso, podem ser formadas através de fontes citoplasmáticas, a partir de enzimas como a xan- tina oxidase e a NADPH oxidase (ANDRADE et al., 2005). Macró- fagos ativados e neutrófilos, por exemplo, podem produzir grandes quantidades de superóxido e seus derivados, além de oxigênio sin- glete, através da NADPH oxidase (DRÖGE, 2002). As ERN, em sua maioria, são formadas a partir da síntese do NO, através da conversão da L-arginina a L-citrulina pelas sintases do óxido nítrico (CAVALCANTE & BRUIN, 2009). Entre elas, as mais encontradas são: óxido nítrico (NO), óxido nitroso (N2O2), ácido ni- troso (HNO2), nitritos (NO2), nitratos (NO3) e peroxinitritos (ONOO -) (BARREIROS et al., 2006). A produção acentuada dessas espécies reativas, tanto as deri- vadas do nitrogênio quanto as de oxigênio, pode gerar efeitos preju- diciais como peroxidação dos lipídios de membrana e agressão às proteínas dos tecidos e das membranas, às enzimas,carboidratos e DNA (RIBEIRO et al., 2005; ĎURAČKOVÁ, 2010; ANDRADE et al., 2005 ). A oxidação do colesterol LDL, no sangue, causa dano as paredes das artérias e veias, além de facilitar o acúmulo de lipídios e colaborar com a formação da placa aterosclerótica, que posterior- mente pode formar trombos. Os trombos podem migrar pela circula- ção e causar infarto ou acidente vascular cerebral (BARREIROS et al., 2006). No entanto, as ERO e as ERN nem sempre são prejudiciais ao organismo, sendo necessárias em processos biológicos como sina- lização celular, contração muscular, produção de energia, regulação do crescimento celular e sistema imune (PINHO et al., 2010). Um exemplo desta dupla função exercida pelas ERN e ERO consiste no radical NO, que possui variadas funções fisiológicas nos sistemas cardiovascular, imune, reprodutivo e nervoso, além de seu papel na hemostasia, inibindo plaquetas e impedindo a formação do trombo. Porém, como característica de um radical, possui um elétron desem- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 106 06/10/2014 16:28:15 107 A RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO COM A ATEROSCLEROSE parelhado na sua última camada orbital, o que lhe confere alta rea- tividade com outros radicais, e ainda com moléculas como lipídios, proteínas e ácidos nucléicos (VANNI et al., 2007). Para a produção acentuada das espécies reativas, tanto de oxigênio quanto nitrogênio, o organismo dispõe de um sistema de defesa conhecido como sistema antioxidante. Os antioxidantes do organismo são divididos em dois grupos: os não enzimáticos e os enzimáticos (VASCONCELOS et al., 2007). Os antioxidantes enzimáticos são produzidos pelo organismo e compreendem três sistemas. O primeiro é composto por enzimas superóxido dismutase (SOD), que catalisam a lise do radical ânion superóxido (O2•−), convertendo-o em oxigênio e peróxido de hidro- gênio. O segundo, formado pela enzima catalase (CAT), que atua na dismutação do peróxido de hidrogênio (H2O2) em oxigênio e água. E o terceiro é composto pela glutationa (GSH) em conjunto com duas enzimas, a glutationa peroxidase (GPx) e glutationa redutase (GR) e também catalisa a dismutação do peróxido de hidrogênio em água e oxigênio, sendo que a glutationa opera em ciclos entre sua forma oxidada e sua forma reduzida (BARREIROS et al., 2006). O sistema antioxidante não enzimático é formado por diversas substâncias, que podem ser produzidas in vivo ou adquiridas na dieta. Dentre os principais antioxidantes não enzimáticos, podemos citar a glutationa (GSH), tocoferóis, ascorbato, ácido úrico e β-caro- teno, além de proteínas de transporte de metais de transição, como a transferrina (transporte do ferro) e ceruloplasmina (transporte do cobre e oxidação do ferro para ser captado pela transferrina) (VAS- CONCELOS et al., 2007; RIBEIRO et al., 2005). A célula, em condições fisiológicas, necessita de um equilíbrio entre os sistemas pro-oxidante e antioxidante. O desequilíbrio en- tre esses sistemas é denominado estresse oxidativo e ocorre, ge- ralmente, quando os antioxidantes não são suficientes para conter a produção exacerbada de ERO e ERN. Está relacionado a diversas patologias, dentre elas a aterosclerose, artrite, isquemia, envelhe- cimento, diabetes, câncer e doenças neurodegenerativas como Al- zheimer e Parkinson (RIBEIRO et al., 2005; ĎURAČKOVÁ, 2010). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 107 06/10/2014 16:28:15 108 BELISA AVILA RODRIGUES - CAROLINE BRANDÃO QUINES - MATIAS NUNES FRIZZO 3. Aterosclerose A aterosclerose é uma doença inflamatória crônica, bem como um distúrbio do metabolismo lipídico, que afeta essencialmente to- das as artérias do organismo, principalmente a aorta (LIBBY, 2002; SHIBATA & GLASS, 2010). Caracteriza-se como uma doença pro- gressiva, na qual ocorre acúmulo de lipídios e elementos fibrosos nas artérias, que leva ao enrijecimento dos vasos e pode comprometer o fluxo sanguíneo, desencadeando diversas doenças cardiovascu- lares como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e aneurisma da aorta (GIROLDO et al., 2007; AIKAWA; LIBBY, 2004). O desenvolvimento dessa doença é lento, podendo iniciar na in- fância, a partir dos três anos de idade quando surgem estrias gordu- rosas que são precursoras das placas ateroscleróticas. Mas, de ma- neira geral, suas manifestações clínicas evoluem silenciosamente, e os sintomas começam a aparecer a partir dos 50 anos (GIROLDO et al., 2007). Alguns fatores de risco podem contribuir para o desenvolvimen- to da aterosclerose como dislipidemia, tabagismo, diabetes mellitus, obesidade, hipertensão arterial, histórico familiar e sedentarismo. Outros fatores não tradicionais, como inflamação, estresse oxidativo, infecção persistente, proteinúria e hiperfosfatemia, parecem exercer um papel relevante no desenvolvimento do processo aterosclerótico (DUMMER et al., 2007; HALPERN et al., 2010). Os principais eventos da aterosclerose são disfunção endotelial e inflamação. O endotélio tem função de regulação do tônus vagal, modulação da inflamação, da agregação plaquetária e promoção e inibição do crescimento neovascular. Além de ser responsável pela síntese de fatores vasoconstritores e vasodilatadores (PINHO et al., 2010). Nas fases iniciais da doença, um acúmulo de LDL e radi- cais livres estimulam as células endoteliais a expressar moléculas de adesão específicas, como a molécula de adesão da célula vascular (VCAM-1), que participa do processo inflamatório mediando a en- trada de leucócitos, como monócitos para a camada íntima do vaso (HULTE; FABERGER., 2002; TSUBOSAKA et al., 2010). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 108 06/10/2014 16:28:15 109 A RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO COM A ATEROSCLEROSE Na presença de fatores inflamatórios há perda da ação protetora do endotélio que passa a ser fonte de elementos que participam da progressão da aterosclerose (CASELLA-FILHO et al., 2003). Uma disfunção endotelial caracteriza-se por uma resposta inflamatória da parede vascular a injúria, levando a um desequilíbrio entre as subs- tâncias vasodilatadoras e vasoconstritoras, secreção e produção de fatores de crescimento (LUZ et al., 2006). Entre os mecanismos que levam a uma disfunção endotelial, a oxidação da LDL, caracteriza-se como o principal evento na atero- gênese. Essa lipoproteína modificada causa danos ao endotélio e a parede vascular, comprometendo a elasticidade da artéria e contri- buindo para a evolução do processo aterosclerótico (POHJANTÄHTI -MAAROOS et al., 2010). A oxidação da LDL pode ocorrer através de radicais livres, de células endoteliais, células musculares lisas e macrófagos, os quais secretam produtos oxidativos por múltiplas vias, e difundem as LDL aprisionadas no espaço subendotelial, iniciando a oxidação lipídica. As modificações na LDL pelos monócitos parece ocorrer em dois estágios, o primeiro antes dos monócitos serem ativados por alte- rações na apoproteína B (ApoB), o segundo quando os monócitos ativos, convertidos em macrófagos, vão oxidar a LDL (SIQUEIRA et al., 2006; BATLOUNI, 1997). Esse processo de oxidação pode ser mediado por diferentes mecanismos, como mieloperoxidação, lipoperoxidação lipídica, íons metálicos e ERN. O processo de mieloperoxidação ocorre quando monócitos liberam a enzima mieloperoxidase que converte a LDL em sua forma aterogênica. Essa LDL modificada vai degradar ma- crófagos transformando-os em células espumosas (SIQUEIRA et al., 2006; MERTENS; HOLVOET, 2001). Na lipoperoxidação lipídica, células endoteliais, macrófagos e monócitos produzem a 15–lipoxigenase, uma proteína que converte ácidos graxos poliinsaturados em hidroperóxidos lipídicos, que oxi- dam a LDL, transformando-a em sua forma aterogênica (MERTENS; HOLVOET, 2001). Além disso, íons metálicos também regulam a oxi- dação da LDL, sendo importantes na formação das ERO, através das reações de Fenton e de Haber-Weiss. Entre os íons metálicos o mais importante é o ferro (FERREIRA; MATSUBARA,1997). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 109 06/10/2014 16:28:15 110 BELISA AVILA RODRIGUES - CAROLINE BRANDÃO QUINES - MATIAS NUNES FRIZZO A molécula de LDL modificada é citotóxica para as células endo- teliais, nas quais promove a expressão de citocinas pró-inflamató- rias, vasoconstrição, causa inibição do NO e aumento da agregação plaquetária (LUZ et al., 2006). Acredita-se que a principal relação do estresse oxidativo com a aterosclerose, consiste na perda da bioati- vidade do NO, com conseqüente redução da capacidade vasodilata- dora dependente do endotélio (BAHIA et al., 2004). O NO é a principal substância antiaterogênica produzida pelo en- dotélio, com a função de regular a hemostasia (VANNI et al., 2007). Desse modo, uma insuficiência na produção de NO leva a uma au- sência de inibição plaquetária, uma proliferação de monócitos e ma- crófagos, e consequentemente a complicações para a patogênese da aterosclerose (DUSSE et al., 2003). Este acúmulo de macrófagos dentro da camada íntima significa o primeiro estágio, que predispõe à progressão do ateroma e à evo- lução para a placa (SHIMADA, 2009). A placa aterosclerótica é cons- tituída por elementos celulares, núcleo lipídico e por componentes da matriz extracelular, promovendo a estenose e comprometendo o fluxo sanguíneo (CASELLA-FILHO et al., 2003). As placas ateroscleróticas podem ser caracterizadas como está- veis ou vulneráveis a ruptura. Placas estenosantes, são considera- das estáveis, pois são mais fibrosas, e menos suscetíveis à ruptura e trombose. Ao contrário, nas placas vulneráveis à ruptura, há uma grande quantidade de macrófagos que liberam enzimas capazes de degradar o colágeno presente na camada fibrosa, tornando-a mais fina (STOCKER; KEANEY, 2004; VILAHUR et al., 2006). A ruptura da placa provoca a formação de trombos que podem ou não migrar através da circulação. Quando esses trombos atingem as artérias coronárias, podem ocasionar infarto agudo do miocárdio e nas arté- rias carótidas poderá provocar uma isquemia cerebral ou um aciden- te vascular cerebral (LIBBY, 2002; CHEN et al., 2010). 4. A Relação do Estresse Oxidativo com a Aterosclerose Durante as últimas décadas, vários estudos vêm investigando o papel do estresse oxidativo na aterosclerose. De acordo com a teoria Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 110 06/10/2014 16:28:15 111 A RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO COM A ATEROSCLEROSE do estresse oxidativo, a aterosclerose resulta de uma modificação nas LDL na parede vascular, pelas ERO e ERN (VOGIATZI et al., 2009). A oxidação dessas lipoproteínas leva a inflamação e conse- quente dano endotelial. Isso ocorre através da expressão de molécu- las de adesão, quimiocinas, citocinas pró-inflamatórias, e outros me- diadores da inflamação em macrófagos e células da parede vascular (LIBBY et al., 2002). Assim, as moléculas de colesterol LDL oxidadas ativam o recrutamento de monócitos circulantes para o espaço in- timal da artéria e inibem a capacidade dos macrófagos residentes para deixar à íntima (STOCKER; KEANEY, 2004). Os macrófagos podem gerar um acréscimo de ERO (especialmente o superóxido) através da enzima NADP(H) oxidase (VOGIATZI et al., 2009). O radical superóxido reage rapidamente com o NO, e a conse- quência dessa interação é a produção de outras espécies reativas oxidantes, como o peroxinitrito (ONOO-) (BAHIA et al., 2004). Molé- culas de peroxinitrito geram dano direto ao DNA celular. Além disso, oxidam o tetrahidrobiopterina (BH4) e induzem o desacoplamento da eNOS (óxido nítrico sintase endotelial) (STOCKER; KEANEY, 2005; PAPAHARALAMBUS; GRIENDLING, 2007). A eNOS é ativada por pequeno estresse na interface da célula endotelial e pelo sangue. É responsável pela produção de NO e seu desacoplamento gera uma produção adicional de superóxido e dimi- nuição da biodisponibilidade do NO levando a perpetuação do dano endotelial (BAHIA et al., 2006). O NO atua no endotélio promovendo dilatação vascular, o que interfere na atuação dos leucócitos na in- flamação e reduz a adesão dos mesmos à parede vascular (VANNI et al., 2007). A biodisponibilidade reduzida de NO leva a vasocons- trição, agregação de plaquetas e adesão de neutrófilos ao endotélio, o que leva a formação da placa aterosclerótica (PINHO et al., 2010). As placas vulneráveis caracterizam-se por uma camada fibrosa mais fina, pelo excesso de células espumosas e linfócitos, núcleo necrótico e pouco colágeno (SIQUEIRA et al., 2006). A formação desse núcleo necrótico da placa aterosclerótica decorre da apoptose das células da placa, especialmente das células musculares lisas e células do sistema imune (LIBBY, 2009). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 111 06/10/2014 16:28:15 112 BELISA AVILA RODRIGUES - CAROLINE BRANDÃO QUINES - MATIAS NUNES FRIZZO As ERO contribuem para a vulnerabilidade da placa como in- dutores de apoptose e desempenham papel importante no controle da expressão e da atividade das metaloproteinases de matriz (VI- LAHUR et al., 2006). As metaloproteinases participam em diversos dos processos envolvidos na aterogênese, como angiogênese e re- modelamento, e têm papel fundamental na ruptura da placa ateros- clerótica (SOUZA; LAURINDO, 2002). Além da eNOS, outras fontes enzimáticas que contribuem para o aumento da produção de ERO e consequente estresse oxidativo, são as enzimas NADPH oxidase, xantina oxidase e mieloperoxidase (CAI; HARRISON, 2000). A NADPH oxidase é uma fonte importante de ERO em células vasculares e processos inflamatórios e catalisa a redução do oxigênio molecular através da transferência de um elé- tron dos substratos NADH ou NADPH (MADAMANCHI et al., 2005; GRIENDLING et al., 2000). A xantina oxidase atua oxidando a xantina e a hipoxantina a áci- do úrico, o que leva a uma produção de superóxido e peróxido de hidrogênio. Alguns estudos apontam que o superóxido derivado da xantina oxidase também pode atuar na diminuição do NO (CAI; HAR- RISON, 2000). Já a mieloperoxidase é produzida por macrófagos ativados e utiliza o peróxido de hidrogênio para produzir substâncias ainda mais oxidantes. Há três mecanismos pelos quais essa enzima participa de modificações oxidativas: consumo de NO, oxidação da LDL e inibição da eNOS (STOCKER; KEANEY, 2004). Outro mecanismo relacionado a aterogênese compreende o pé- roxido de hidrogênio, ERO que em condições de estresse oxidativo atua em mecanismos relacionados à produção de fatores de trans- crição como o fator nuclear kappaB (NF- kB) e ativador de proteí- na 1 (AP-1), que participam na expressão de moléculas de adesão, tais como as moléculas de adesão vasculares (VCAM-1), moléculas de adesão intracelular (ICAM-1) e citocinas. É estabelecido que o NF- kB atua nas células musculares lisas de vasos ateroscleróticos e é inativado por antioxidantes e anti-inflamatórios (VOGIATZI et al., 2009). Assim, espécies reativas são responsáveis não só por iniciarem um processo de aterosclerose, culminando com dano endotelial e Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 112 06/10/2014 16:28:15 113 A RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO COM A ATEROSCLEROSE inflamação, mas também estão relacionadas a progressão da do- ença. Atuam na formação e ruptura da placa aterosclerótica e são relacionados a fatores de transcrição e indução de apoptose. Os da- nos causados predispõem a um aumento na formação de espécies reativas o que agrava ainda mais o curso da doença (KONDO et al., 2009; SOUZA; LAURINDO, 2002). 5. MATERIAL E MÉTODO O presente estudo constitui-se de uma pesquisa bibliográfica a respeito do tema estresse oxidativo e aterosclerose, realizada atra- vés de artigos de periódicos, revistas e materiais científicos disponi- bilizados em bibliotecas médicas virtuais e portais de busca. Sendo assim, foram utilizados portais como PubMed, Scielo, Bireme, PNAS e Elsevier. 6. RESULTADOS E DISCUSSÃO A aterosclerose é uma doença relacionada a doenças cardiovas- culares e constitui-se como a principalcausa de morbidade e mor- talidade nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Segundo Ross (1999) inicialmente era considerada uma doença de acúmulo de lipídios e cálcio na parede celular, mas durante as últimas dé- cadas vem sendo reconhecida como uma patologia complexa que envolve inflamação e disfunção endotelial. Acredita-se que a infla- mação esteja intimamente ligada a disfunção endotelial e ao estres- se oxidativo. Segundo Pinho et al (2010) o estresse oxidativo tem papel fundamental na fisiopatologia da disfunção endotelial e atua na migração de células e na formação da placa aterosclerótica. Além disso, são ERO e ERN, produzidas demasiadamente, as responsá- veis pela oxidação da LDL. Dentre as teorias que explicam a aterosclerose a mais encon- trada na literatura é a hipótese oxidativa. A modificação oxidativa da LDL é um evento precoce na aterosclerose e contribui para a aterogênese. Para comprovar essa teoria, Stocker e Keaney (2004) apontam estudos nos quais há presença de LDL oxidada in vivo e estruturas antioxidantes inibindo a aterosclerose em animais. Singh e Jialal (2006) afirmam que a evidência mais direta para o papel do Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 113 06/10/2014 16:28:15 114 BELISA AVILA RODRIGUES - CAROLINE BRANDÃO QUINES - MATIAS NUNES FRIZZO estresse oxidativo na aterogênese vem de estudos com apoE-/- em ratos. Esses estudos apresentam modelos com alta concentração de colesterol, aumento da peroxidação lipídica, diminuição da bio- disponibilidade de NO e desenvolvimento de aterosclerose de modo semelhante aos humanos. Segundo Luz et al (2006) vários estudos experimentais in vitro e em modelos animais demonstram que o es- tresse oxidativo é um fenômeno central em muitas fases da ateros- clerose. A oxidação dessa LDL provoca efeitos biológicos severos. Além de ser pró-inflamatória, causa inibição da enzima eNOS, promoven- do vasoconstrição e adesão de moléculas. Estimula citocinas como a interleucina-1 (IL-1) e aumento da agregação plaquetária. Outra propriedade da LDL oxidada vem do fato de ser imunogênica. Se- gundo Ross (1999) isso faz com que além de atrair macrófagos até a parede do vaso, a mesma também tenha a capacidade de reter os macrófagos ali presentes, inibindo sua mobilidade. Esse acúmulo de macrófagos causa um aumento das ERO, que são produzidas atra- vés das enzimas que esses possuem. Sendo assim, durante o processo de inflamação do vaso, o endo- télio fica suscetível a uma grande variedade de ERO por um período prolongado. Lum e Roebuck (2001) apontam que neutrófilos polimor- fonucleares (PMN), encontrados aderidos ao endotélio ou migrando através do tecido, são capazes de produzir grande quantidade de superóxidos. Com a geração de superóxidos, outra espécie ainda mais reativa é formada, o peroxinitrito. Esse atua diretamente no DNA celular e também é capaz de causar uma perpetuação do dano endotelial, através do desacoplamento da enzima eNOS. Segundo Cai e Harrison (2000) uma grande quantidade de estudos sugerem que o dano endotelial pode ser resultado de uma aceleração da ina- tivação do NO causada pelas ERO. Além da LDL oxidada, novas espécies reativas atuarão inibindo a biodisponibilidade de NO e criando ou agravando um processo de disfunção endotelial. Segundo Singh e Jialal (2006) dentre os fatores que danificam o endotélio, espécies reativas, principalmente as deri- vadas do oxigênio, são as principais responsáveis por comprometer as células do endotélio. Lakshmi et al (2009) comprovam essa idéia Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 114 06/10/2014 16:28:15 115 A RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO COM A ATEROSCLEROSE e afirmam que um aumento na produção de ERO é a maior causa de disfunção endotelial na aterosclerose clínica e experimental. O estresse oxidativo influencia na aterogênese, mas também contribui na progressão da doença através da oxidação da LDL que gera uma resposta inflamatória, na qual são liberados fatores que re- gulam o equilíbrio da placa, podendo torná-la estável ou vulnerável. Um estudo realizado por Siqueira et al (2006) envolvendo pacientes coronariopatas demonstra que altas concentrações de LDL modifi- cadas na placa ou no plasma do paciente predispõe a ruptura da placa, o que resulta na formação de trombos que podem migrar pela circulação e atingir inclusive artérias coronárias e carótidas. Outra relação importante é observada com as metaloproteina- ses de matriz, que participam em vários momentos da aterosclerose, principalmente no que se refere a ruptura da placa aterosclerótica. Segundo Souza e Laurindo (2002) o estresse oxidativo seria um im- portante modulador dessas metaloproteinases, com isso, desequilí- brios redox seriam capazes de afetar negativamente a remodulação vascular e espécies reativas poderiam degradar a matriz extracelular causando uma instabilidade na placa, tornando-a mais suscetível a ruptura. Apesar da grande maioria dos estudos estarem de acordo com a hipótese oxidativa e a utilizarem para explicar a fisiopatologia da ate- rosclerose, alguns autores apontam falhas nessa hipótese. Segundo Libby (2002) a hipótese oxidativa da LDL é voltada para estudos in vitro e seus achados não, necessariamente, corresponderiam a pro- cessos in vivo. Porém, existem fortes evidências da oxidação da LDL in vivo. Stocker e Keaney (2005) apontam estudos em que ácidos gra- xos poliinsaturados oxidados, por ERO, decompõem-se em aldeídos reativos que facilmente se ligam a resíduos de lisina da apolipoprote- ína B-100, gerando uma LDL alterada. Anticorpos que reconhecem essa apolipoproteína oxidada aparecem em lesões ateroscleróticas em coelhos, ratos com apolipoproteína E deficiente e em humanos, mas não aparecem em artérias normais. Além disso, biomarcado- res da peroxidação lipídica (que gera LDL oxidada) podem ser en- contrados em fluídos biológicos. Segundo Abdalla e Sena (2008) Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 115 06/10/2014 16:28:15 116 BELISA AVILA RODRIGUES - CAROLINE BRANDÃO QUINES - MATIAS NUNES FRIZZO a determinação destes biomarcadores pode ser realizada através de técnicas cromatográficas ou enzimoimunoensaios. Dessa forma, embora alguns autores ainda discordem desta relação é inegável a participação do estresse oxidativo em processos bioquímicos liga- dos a aterosclerose. 7. CONCLUSÃO Patologia importante nas sociedades modernas, a aterosclerose encontra-se entre as principais causas de morte no mundo. Fatores de risco, relacionados ao estilo de vida, são alguns entre os muitos motivos que levam à patologia nos indivíduos. Porém, é necessário descobrir outros mecanismos pelos quais a aterosclerose se desen- volve, dentre eles o estresse oxidativo. Diante dos estudos demonstrados, verificou-se que, em inúme- ros trabalhos, é descrita uma relação entre o estresse oxidativo e a aterosclerose. A hipótese oxidativa da aterosclerose tem sua consis- tência pela grande quantidade de estudos nos quais é validada atra- vés da avaliação do estresse oxidativo desde o início da aterogênese até a progressão e ruptura da placa. São muitas as evidências que apontam as modificações oxidativas na LDL como um importante mecanismo para o desenvolvimento das lesões, sendo observadas em pacientes com doenças cardiovasculares e obrigatoriamente em todos os estágios da aterogênese. Também fica claro que não é só através da oxidação da LDL que o estresse oxidativo atua na patolo- gia. Como já evidenciado, ERO e ERN contribuem para o desenvol- vimento de uma disfunção do endotélio, bem como são relacionados aos processos inflamatórios do vaso. Além disso, inúmeras doenças estão relacionadas ao estresse oxidativo, nas quais, também, evi- dencia-se uma relação de dano aos tecidos mediado pelo acúmulo de ERO e ou ERN. Portanto, torna-se importante o esclarecimento dos processos que envolvem o estresse oxidativo, seus mecanismos e atuação nas patologias. Do mesmo modo, a expansão dos conhecimentos so- breos diferentes fatores relacionados à aterosclerose torna-se in- dispensável, bem como compreender os mecanismos envolvidos na formação e evolução dessa patologia. Uma nova visão do papel da Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 116 06/10/2014 16:28:15 117 A RELAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO COM A ATEROSCLEROSE inflamação na aterosclerose e também a sua relação com o estresse oxidativo podem fornecer uma nova estrutura na compreensão clí- nica dessa doença, o que possibilitaria o desenvolvimento de novos tratamentos para prevenir e evitar sua progressão. 8. REFERÊNCIAS ABDALLA, Dulcinéia Saes P.; SENA, Karine Cavalcanti M.. Bio- marcadores de peroxidação lipídica na aterosclerose. Rev. Nutrição, Campinas, v.21, n.6, p. 749-756, nov./dez. 2008. AIKAWA, Masanori; LIBBY, Peter. Atherosclerotic plaque in- flammation: The final frontier? Can J. Cardiol, Boston, v.20, n.6, p. 631-634, fev. 2004. ANDRADE, D. R.; SOUZA, R. B.; SANTOS, S. 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Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 119 06/10/2014 16:28:16 120 BELISA AVILA RODRIGUES - CAROLINE BRANDÃO QUINES - MATIAS NUNES FRIZZO POHJANTÄHTI-MAAROOS, Hanna; PALOMÄKI, Ari; KANKKU- NEN, Päivi; LAITINEN, Ruth; HUSGAFVEL, Sari; OKSANEN, Kale- vi. Circulating oxidized low-density lipoproteins and arterial elasticity: comparison between men with metabolic syndrome and physically active counterparts. Cardiovascular Diabetology, Hämeenlinna, v.9, n.41, p. 1-7, fev. 2010. RIBEIRO, Sônia M. R.; QUEIROZ, José Humberto de; PELÚZO, Maria do Carmo G.; COSTA, Neuza MariaB.; ATTA, Sérgio Luiz P. da; QUEIROZ, Maria Eliana L. R. de.. A Formação e os feitos das espécies reativas de oxigênio no meio biológico. Biosci. J., Uberlân- dia, v.21, n.3, p. 133-149, set./dez. 2005. ROSS, Russel. Atherosclerosis – na inflammatory disease. The New England Journal of Medicine, Massachusetts, v.340, n.2, p. 115-126, jan.1999. SHIBATA, Norihito; GLASS, Christopher K.. 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Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 121 06/10/2014 16:28:16 Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 122 06/10/2014 16:28:16 123 OS BENEFÍCIOS DO REFORÇO MUSCULAR EM PORTADORES DE GONARTROSE OS BENEFÍCIOS DO REFORÇO MUSCULAR EM PORTADORES DE GONARTROSE THE BENEFITS OF SUPPORT IN PATIENTS WITH MUSCULAR GONARTHROSIS Aline Fróes Tavares1 Thais do Nascimento Gomes2 RESUMO A gonartrose é uma patologia reumatológica que afeta a ariculação do joelho, manifestando-se devido a muitos fatores como o processo natural do envelhecimento ou ao acúmulo excessivo de carga que a ariculação suporta o que desequilibra as forças musculares e aumenta a exigência do joelho. O reforço muscular é uma alternaiva preveniva e/ ou curaiva para o restabelecimento das funções normais do joelho. Este estudo teve como objeivo realizar uma revisão bibliográica sobre os beneícios do reforço muscular na gonartrose, através das respostas isiológicas dos recursos isioterapêuicos empregados. Evidenciou-se através desta pesquisa que objeivou veriicar os beneícios do reforço muscular em pacientes com gonartrose, que o cálcio tem um papel importante na contração e principalmente na geração de força, sendo que sua falta é fator de fraqueza muscular e desequilíbrios que tornam susceíveis patologias como a gonartrose. Os ipos de contração muscular, de acordo com cada músculo, podem favorecer o ipo de exercício mais indicado, acelerando os beneícios frente ao tratamento de reforço muscular. Dessa forma tal análise permiiu concluir que as mudanças isiológicas causadas pela gonartrose podem ser prevenidas ou amenizadas a parir do reforço muscular quando uilizado através do conhecimento do ipo de musculatura e do exercício, que deve ser personalizado e adaptado ao esilo de vida. Palavras-chave: contração muscular, gonartrose, reforço muscular. ABSTRACT The gonarthrosis is a rheumaic disease that afects the knee joint, manifesing due to many factors such as the natural process of aging or excessive accumulaion of load that the joint support which impairs muscle strength and increases the requirement knee. Muscle strengthening is a prevenive and / or curaive alternaive for the restoraion of normal knee funcions. This study aims to review literature on the beneits of muscle strengthening in gonarthrosis by the physiological responses of physiotherapy resources employees. It was evident through this research aimed to verify the beneits of muscle strengthening in paients with gonarthrosis, that calcium plays an important role in contracion and mainly in power generaion, with its absence of muscle weakness and imbalances factor that makes them suscepible pathologies as gonarthrosis . The types of muscle contracion, according to every muscle, may favor the most appropriate type of exercise, acceleraing the beneits to the treatment of muscle strengthening. Thus this analysis concluded that physiological changes caused by gonarthrosis can be prevented or miigated from muscle strengthening when used through knowledge of muscles and the type of exercise, which should be personalized and tailored to the lifestyle. Keywords: twitch, gonarthrosis, muscle strengthening 1. INTRODUÇÃO O sistema musculoesquelético com o passar do tempo sofre mui- tas modificações, seja pelo processo natural de envelhecimento ou 1 Fisioterapeuta, pós-graduada em ortopedia e traumatologia com ênfase em atendimento na Clínica de Fisioterapia (CBES). E-mail: alifroes@yahoo.com.br 2 Mestre em educação nas ciências. Docente do Curso no Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo CNEC/IESA. E-mail:gomesnthais@gmail.com Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 123 06/10/2014 16:28:16 124 ALINE FRÓES TAVARES - THAIS DO NASCIMENTO GOMES pela associação de movimentos repetitivos, estilo de vida, posturas viciosas e mantidas durante a jornada de trabalho o que sobrecarre- ga as diferentes estruturas corporais (SILVA; TARANTO; PIASECKI, 2006). Essas alterações preocupam já que podem acarretar uma série de lesões e déficits funcionais importantes como as rupturas de meniscos e ligamentos, perda de equilíbrio, fraqueza muscular, bursites e artrites (JACOB; FRANCONE, LOSSOW, 1990). Dentre as doenças que acometem o sistema musculoesqueléti- co, as chamadas patologias reumatológicas são as mais constantes, e têm na osteoartrose suas maiores incidências. São consideradas um problema mundial que acomete os países desenvolvidos e em desenvolvimento, atingindo cerca de 16,2% da população brasileira (SEDA; SEDA, 2001). A osteoartrose é a degeneração dos componentes articulares que leva à destruição progressiva da cartilagem hialina, da cápsu- la articular, da membrana sinovial e que pode atingir de forma se- cundária os tecidos moles. Pode ser agravada pela perda de força muscular consequência geralmente do sedentarismo, gerando per- da de funcionalidade, de estabilidade, de flexibilidade,diminuição de amplitude de movimento (ADM) e propriocepção, o que causa maior instabilidade muscular levando a outras patologias associadas (RO- DRIGUES, 2007). A gonartrose, osteoartrose de joelho, é dentre as osteoartroses, as que mais se manifestam devido ao acúmulo de carga que supor- tam o que faz aumentar significativamente a exigência do joelho, de- sequilibrando assim as forças musculares, e por isso necessitando de reforço muscular (WANNMACHER, 2006). A evolução da gonartrose pode lev ar a substituição total da articulação, mas o tratamento conser- vador é a alternativa inicial para evitar os agravos da patologia. As técnicas fisioterapêuticas neste caso devem melhoram os sinais e sintomas dolorosos, prevenir atrofias e perdas de amplitude de mo- vimento sendo fundamentais as orientações posturais, de ativida- des de vida diária e a inclusão de atividade física específica (RADL, 2005). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 124 06/10/2014 16:28:16 125 OS BENEFÍCIOS DO REFORÇO MUSCULAR EM PORTADORES DE GONARTROSE 2. MATERIAIS E MÉTODOS Foram utilizados no presente artigo os seguintes materiais: arti- gos, livros, revistas, revistas online, sites relacionados da web. Atra- vés do método de consulta, leitura e análise do conteúdo para ela- boração do artigo. 3. DISCUSSÃO Na gonartrose, a diminuição de líquido pela inatividade funcional e pela fraqueza muscular gera tensão articular, sobrecarga, fricção e desgaste dos elementos presentes no joelho. O reforço muscular faz com que seja preservado o movimento funcional e a produção de líquido de forma adequada, fazendo com que as estruturas se- jam preservadas e as forças continuem agindo corretamente. A ge- ração de força muscular se dá através de dois tipos de contração: a contração isotônica, gerando movimento de forma concêntrica e excêntrica, e de forma isométrica quando não acontece movimento (SILVERTHORN, 2003). Devido a hipotrofia muscular ocorre o desequilíbrio muscular e ação incorreta de agonistas e antagonistas. A ação agonista do reto femoral fica prejudicada, pela compensação gerada no movimento, os vastos laterais e médios precisam entrar em ação no movimento de extensão de joelho e os isquiotibiais acabam por funcionar como sinergistas ao auxiliar o movimento. Os músculos, quadríceps e is- quiotibiais tornam-se hipotróficos geralmente devido ao desuso ou quadro álgico, que limita o movimento e a função (OLIVEIRA; CAR- VALHO; SILVA, 2008). A gonartrose é responsável por 50-60% de redução de torque máximo de quadríceps, aliado a dor e a rigidez muscular são deter- minantes da diferença de torque e trabalho isocinético nos pacientes portadores de gonartrose. Por isso, a diminuição de torque demons- tra a perda de força muscular, principalmente em quadríceps, que pacientes com gonartrose apresentam o que leva a um desequilíbrio muscular e alteração funcional. Para geração de torque, movimento e de força, deve haver a ação das musculaturas agonistas e antago- nistas que de forma recíproca e ordenada trabalhem para que estas Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 125 06/10/2014 16:28:16 126 ALINE FRÓES TAVARES - THAIS DO NASCIMENTO GOMES ações aconteçam, tal fenômeno é denominado de inervação recípro- ca (MELO et al., 2008). O agonista tem papel principal na execução do movimento e na manutenção de uma postura contraindo-se ativamente. Os antago- nistas possuem ação anatômica oposta ao agonista regulando a po- tência ou a rapidez da ação. Usualmente os antagonistas não estão se contraindo e nem auxiliando ou resistindo ao movimento (ALBU- QUERQUE, 2003). Somente os músculos que atuam sobre uma única articulação são considerados verdadeiros antagonistas. Os músculos que atu- am sobre mais de uma articulação agem como antagonistas e outras vezes como sinergistas. A articulação do joelho tem como antagonis- ta o reto femoral dos isquiotibiais, porém quando o quadril e joelho fletem simultaneamente o reto femoral funcionará como sinergista (ALBUQUERQUE, 2003). A potência funciona como a taxa de trabalho ou a produção de potência que descreve a intensidade do exercício. Através da com- preensão do termo potência é que se consegue calcular o trabalho realizado e a eficiência do exercício associado (POWERS; HOWLEY, 2000). A força da contração aumenta com a somação das contrações musculares. A força gerada pela contração de uma fibra muscular simples pode ser aumentada pelo incremento da velocidade (fre- qüência) com que os potenciais de ação estimulam a fibra muscular (SILVERTHORN, 2003). O treinamento físico rigoroso acarreta alterações nos tipos de fi- bra muscular. Tanto no treinamento de endurance quanto o de resis- tência (peso) acarretam uma conversão das fibras rápidas em fibras mais lentas. A perda muscular passa por duas fases, uma lenta, em que 10% da massa é perdida entre os 25 e os 50 anos de idade, e uma rápida entre os 50 e os 80 anos onde ocorre uma perda adicio- nal de 40%, portanto aos 80 anos metade da massa muscular total foi perdida. Ainda ocorre durante este processo a perda de fibras rápidas e o aumento de fibras lentas (POWERS; HOWLEY, 2004). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 126 06/10/2014 16:28:16 127 OS BENEFÍCIOS DO REFORÇO MUSCULAR EM PORTADORES DE GONARTROSE A perda do trofismo e força não são observadas somente nos idosos e inativos, mas também, por exemplo, em períodos de imo- bilização por gesso quando se percebe a redução do tamanho do músculo. Logo o músculo esquelético é um tecido altamente plástico que responde tanto ao uso quanto ao desuso. Embora o exercício regular não possa eliminar completamente a perda muscular rela- cionada à idade pode-se aumentar a endurance e a força muscular nos idosos de maneira similar à observada nos indivíduos jovens. O reforço muscular neste contexto tem papel relevante para garan- tia de músculos fortes que gerem melhora da estabilidade funcional articular e proprioceptiva proporcionando proteção articular, equilí- brio muscular, contração correta e movimento ideal do seguimento (POWERS; HOWLEY, 2004). Os exercícios isométricos trabalham de forma eficiente os mús- culos através de contração muscular que desenvolve tensão sem provocar a alteração do comprimento do músculo. Este tipo de exer- cício não provoca grande hipertrofia (aumento de massa muscular), mas desenvolve força em escala moderada. Seu benefício é de não comprometer a postura durante sua execução (SILVA; TARANTO; PIASECKI, 2008). O aumento de força e de massa muscular é observado através deste tipo de exercício na reabilitação de problemas musculoesque- léticos, inclusive em pacientes que apresentem limitação articular como, por exemplo, os pacientes com gonartrose. Já que na isome- tria não existe solicitação de movimentos com amplitudes como os que são solicitados em exercícios mais dinâmicos. O aumento de for- ça irá depender do regime de treinamento, o tipo de ação muscular, a intensidade, o volume, o posicionamento, a ordem dos exercícios e o período de repouso entre as séries e freqüência (COUTRIN; GUE- DES; MOTTA, 2008). O isostreching trabalha de maneira benéfica por bloquear as rota- ções compensatórias, o que acontece com portadores de gonartrose, que perdem a mobilidade e a rotação, compensando os movimentos. O bloqueio é dado por uma forte contração muscular dos agonistas, fazendo com que aconteça o reforço, e o alongamento dos antago- nistas. Pela dificuldade imposta ao corpo há o reforço muscular. A Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 127 06/10/2014 16:28:16 128 ALINE FRÓES TAVARES - THAIS DO NASCIMENTO GOMES forma com que age na coluna, reforçando seus músculos profundos e tornando-a móvel e tonificada, faz com que mantenha uma retidão por contração de todos os músculos (REDONDO, 2001). O método DeLorme foi criada por Delorme em 1945 e se baseia em exercícios resistidos com aumento progressivo de carga sobre o músculo, uma sobrecarga. Entre as diversas maneirasde formu- lar o princípio da sobrecarga, de uma forma ampla, o desempenho muscular não pode ser melhorado a não ser que o músculo seja exi- gido além da capacidade diária usual. Basicamente, “a parte distal do membro movido pelo músculo ou grupo muscular a ser treinado é submetido a peso de diversos modos (RAMALHO et al., 2004). É um método que se baseia na quantidade de peso que se pode conduzir por toda a amplitude de movimento em dez repetições. En- tão se trata de um exercício de alta resistência em que os pesos são distribuídos de maneira que, na primeira série de dez repetições máximas, seja colocado 50% do peso, na segunda série de dez re- petições máximas coloca-se 75% e na terceira coloca-se 100%. As repetições são o número de execuções completas e contínuas do exercício (MATTOSO, 2006). A musculação orientada pode trazer inúmeros benefícios, este- ticamente como modelação do corpo e a diminuição de gordura e ainda fisiologicamente com a geração de força muscular. Há melho- ra da circulação sanguínea, treino do coração, melhora da postura, aumento da flexibilidade, melhora da auto-estima, e na osteoartrite a musculatura fortalecida propicia estabilidade articular, promoven- do menor desgaste entre os ossos (OLIVEIRA; CARVALHO; SILVA, 2008). A força é aumentada pela sustentação de carga, podendo ser be- néfica no aumento de massa óssea e tem se demonstrado ser muito eficaz em pacientes com doenças articulares inflamatórias (PRENTI- CE; VOIGHT, 2003). No método Pilates é preconizado o condicionamento físico e mental, trabalhando dessa forma o corpo globalmente. Desenvolvido por Joseph Pilates em 1920, através de um equipamento específico e um método para balancear e fortalecer os músculos e articulações. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 128 06/10/2014 16:28:16 129 OS BENEFÍCIOS DO REFORÇO MUSCULAR EM PORTADORES DE GONARTROSE São exercícios que focalizam a melhora da flexibilidade e a força total do corpo sem a hipertrofia da musculatura. É usado como con- dicionamento físico, reabilitação e a busca pelo bem-estar físico e mental entre pessoas de todas as idades (DAVIS, 2006). O método propicia melhora da circulação, do condicionamento físico geral, da flexibilidade, da amplitude muscular e do alinhamen- to postural adequado, melhorando também os níveis de conscien- tização corporal e coordenação motora. Mostra-se muito eficiente no alívio de dores crônicas, diminui o risco de lesões, fortalecendo, alongando e equilibrando a musculatura ajudando a preparar a rea- bilitação de áreas com fraqueza muscular (PEREIRA, 2008). A hidroterapia é um dos recursos para o tratamento de portado- res de gonartrose, podendo ser realizado em piscinas, tanque de Hubbard e balneários. A piscina pode ser profunda, em banheiras com redemoinhos de água, banhos de contraste e duchas escoce- sas onde se alterna água quente e fria (CAMPION, 2000). A água possui propriedades que auxiliam no tratamento da osteo- artrite de joelho. Em águas aquecidas, a temperatura de, em média, 36° estimula o relaxamento muscular e alivia a dor das articulações. A flutuação promove a diminuição da sobrecarga articular, ajudando com que os exercícios de fortalecimento sejam feitos sem a com- pressão óssea, logo, não há dor. A viscosidade, fricção e tensão su- perficial causam resistência ao movimento promovendo aumento da força muscular (CAROMANO, 2001). Nesse método, o terapeuta fornece estabilidade para o paciente e a posição de suas mãos influencia na movimentação do paciente e na quantidade de trabalho isométrico e isotônico realizado. Pode- se conseguir a irradiação dos músculos mais fortes para os que se encontram mais fracos (SKINNER; THOMSON, 2000). O método Qi Gong é uma terapia alternativa que faz a conexão entre corpo e mente. Constituída por um grupo de técnicas da espe- cialidade da medicina energética, baseando-se que a cura do corpo depende de um equilíbrio de energia vital, da mente tranqüila e das emoções controladas. Semelhante aos exercícios de Tai Chi, com movimentos lentos, posturas controladas e isentas de impacto que Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 129 06/10/2014 16:28:16 130 ALINE FRÓES TAVARES - THAIS DO NASCIMENTO GOMES deslocam e estimulam o centro de gravidade do corpo, mostram-se benéficos ao fortalecimento, principalmente em portadores de go- nartrose que apresentam limitações de movimento e devem evitar a impactação articular (DAVIS, 2006). O biofeedback refere-se a integração da mente e do corpo, sig- nificando “retroalimentação da vida”, utilizando eletronicamente as informações emitidas pelo corpo para que o indivíduo perceba o que está acontecendo dentro do seu cérebro, do sistema nervoso e de seus músculos, transmitindo sinais imediatos e contínuos das alterações corporais que ele nem percebe, como pressão arterial, atividade das ondas cerebrais ou tensão muscular. O Biofeedback mensura, por um aparelho, uma resposta fisiológica melhorando o componente sensorial de um mecanismo de retroalimentação (fe- edback), para que a sensibilidade compensada e a força perdida, forneçam respostas apropriadas, com uma associação nova entre estímulo e resposta (BOTTOMLEY, 2006). Este método é amplamente utilizado na reeducação muscular, para que o paciente visualize o movimento, muitas vezes nas ampli- tudes que ele não consegue mais realizar, como nos casos em que a musculatura está fraca. Pode ser colocado em músculos normais ou no correspondente da extremidade saudável, realizando os mo- vimentos em todas as amplitudes ou a contração e o relaxamento. Durante a aplicação do aparelho para ajudar a resposta do paciente, podem ser aplicadas todas as formas de exercício, facilitação neu- romuscular proprioceptiva (FNP) e o posicionamento corporal, para que se alcance o objetivo de recrutar as unidades motoras que estão funcionais. Trata-se então de um aparelho auxiliar na função do for- talecimento para detectar qual a capacidade do músculo ou grupo muscular, para que seja então realizado um programa adequado e mais eficaz de fortalecimento (DAVIS, 2006). O método Kabat ou FNP desenvolvido nos Estados Unidos pelo Dr. Kabat consiste no uso de padrões funcionais de movimento para aceleração das respostas neuromusculares, em que o fisioterapeuta dá vários estímulos sensoriais para facilitar o movimento, como pres- são e toque com as mãos sobre o corpo e no sentido do movimento, estiramento rápido do músculo a ser estimulada (facilitado), tração Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 130 06/10/2014 16:28:16 131 OS BENEFÍCIOS DO REFORÇO MUSCULAR EM PORTADORES DE GONARTROSE ou compressão conforme objetivo e comando de voz do fisiotera- peuta para estímulo ao movimento. A técnica pode ser utilizada para início de contração, fortalecimento muscular, aumentar a mobilidade e melhorar a coordenação motora (FAVARÃO; PIERETTI, 2004). Os padrões de facilitação neurofuncional proprioceptiva (FNP) de fortalecimento utilizados para joelho são os que destacam a rota- ção tibial manualmente resistidos, essenciais para o treino da função normal. Os movimentos são realizados em cadeia cinética aberta, devendo incluir apenas contração ativa, utilizando o padrão de movi- mento funcional. Padrões resistidos são feitos em períodos em que o músculo já está mais fortalecido Os exercícios são feitos sempre em diagonais, seguindo os movimentos funcionais, em todos os ângulos que a articulação permite (PRENTICE; VOIGHT, 2003). A vantagem do FNP/Kabat é que a parte mais forte da muscula- tura fortalece as debilitadas e por serem atividades alternadas a fadi- ga demora mais tempo para ocorrer. A posição em alongamento é o estímulo de estiramento, o contato manual é o estímulo visual, ainda conta com o estímulo verbal e a máxima resistência é a seqüência de movimento. A contração gera o movimento, trabalha função, ge- rando atividade (PRENTICE; VOIGHT, 2003). Na utilização da corrente Russa Para é preciso conhecer asfi- bras que serão estimuladas. Como com o enfraquecimento perdemos mais fibras rápidas (contrações fortes e rápidas, com fadiga rápida) e aumentam as fibras lentas (resistentes à fadiga, mas necessitam maior tempo para gerar força) é preciso escolher dentro da corrente russa a estimulação correta para nossos objetivos. À medida que a intensidade da estimulação elétrica aumenta mais fibras musculares são estimuladas, dando lugar a contrações mais fortes. O trabalho se torna muito mais eficaz se, junto com a corrente elétrica, for realizada contração muscular ativa contra uma resistência. As fibras muscu- lares tônicas e fásicas devem ser estimuladas para que se obtenha um trabalho muscular mais efetivo. Porém dependendo do objetivo funcional é que se determina qual delas deve ser priorizada. No caso dos portadores de gonartrose enfatizam-se as fibras fásicas, respon- sáveis pelas contrações rápidas e potentes que atuarão diretamente no fortalecimento do quadríceps (PRENTICE; VOIGHT 2003). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 131 06/10/2014 16:28:16 132 ALINE FRÓES TAVARES - THAIS DO NASCIMENTO GOMES 4. CONCLUSÃO Dentre os benefícios do reforço muscular em portadores de go- nartrose estão: a redução de alterações funcionais, a facilitação das atividades diárias, a redução da dor, o aumento de amplitude de mo- vimento e força muscular e a melhora da postura e do condiciona- mento físico. Os tipos de exercícios, de acordo com cada músculo, podem favorecer o fortalecimento, acelerando os benefícios que o mesmo proporciona frente à gonartrose. Como no caso da contração tipo isotônica que aumenta a resistência e a isocinética que vai propor- cionar ao paciente graduar a mesma. Entre os apresentados, o método DeLorme foi o que menos pa- receu viável já que necessita de um elevado tempo de duração para que seja realizado, apresenta a utilização de cargas com pesos in- definidos, exige alta resistência do indivíduo praticante, além de se- rem restritas a alguns usuários em vistas as suas contra-indicações. Já o Biofeedback foi considerado um auxílio para que os exercícios dentro de cada técnica sejam mais bem aproveitados e indique qual a deficiência ou a condição da musculatura trabalhada. Tem gran- de importância para a reeducação dos pacientes e treino, mas nem sempre é um recurso disponível ao paciente. A musculatura dos joelhos deve ser priorizada, mas não deve ser esta apenas o foco reabilitativo, uma vez que toda musculatura de forma global deve ser estimulada. As técnicas que se enquadraram nestes quesitos foram: os exercícios isométricos, o Isostreching, a musculação, o método Pilates, a hidroterapia, o método Qi Gong, o método Kabat ou FNP e a corrente russa. 5. REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, Leiliane. Músculos agonistas e antagonis- tas. Fisioweb WGate, dez 2003. BOTTOMLEY, Jennifer M. Biofeedback: Mente e corpo conec- tados. In: DAVIS, Carol M. Fisioterapia e Reabilitação: Terapias Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 132 06/10/2014 16:28:16 133 OS BENEFÍCIOS DO REFORÇO MUSCULAR EM PORTADORES DE GONARTROSE Complementares. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. CAMPION, Margaret Reid. Hidroterapia: Princípios e prática. São Paulo: Manole, 2000. COUTRIN G. C.; GUEDES L.U.; MOTTA, A. R., Treinamento muscular na face: a prática dos fonoaudiólogos de Belo Horizonte. Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia. v.13, n.2, p.127-135, abr./jun. 2008 DAVIS, Carol M. Fisioterapia e Reabilitação: Terapias Comple- mentares. 2 ed. 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Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 133 06/10/2014 16:28:16 134 ALINE FRÓES TAVARES - THAIS DO NASCIMENTO GOMES RADL, André. Osteoartrose. In: CHIARELLO, Berenice; DRIUS, Patrícia; RADL, André L. Fisioterapia Reumatológica. Barueri: Ma- nole, 2005. RAMALHO, Marcelo. et al. Exercício de Delorme e Oxfort (uma breve abordagem). Fisioweb WGate. 02 de dezembro de 2004. REDONDO, Bernard. Isostretching: A ginástica da coluna. Pi- racicaba: Skin, 2001. RODRIGUES, Brena G. de S. Desequilíbrios Musculares: Forta- lecimento, alongamento e relaxamento com o método pilates. AB- DOSD Musculares. 2007. SEDA, Hilton; SEDA, Antonio C. Osteoartrite.. In: Moreira, Caio & Carvalho, Marco Antonio P. Reumatologia: Diagnóstico e trata- mento. 2 ed. Rio de Janeiro: Medsi, 2001. SILVA, Jacqueline; TARANTO, Isabel; PIASECKI, Fernanda. Gi- nástica Laboral: Alongamento X Flexionamento. SaBios – Rev. Saú- de e Biol. Campo Mourão, v. 1, n. 2, p.6-12, jul./ dez., 2006. 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Afetam principalmente as populações de baixa renda, que vivem em condições precárias de saneamento básico e aumenta o risco de contaminação e proliferação de doenças na população infanil. Esse trabalho objeivou registrar quais as parasitoses intesinais que ocorreram entre outubro de 2009 a outubro de 2010, nas crianças entre 6 a 15 anos incompletos alunas de Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). Foram analisadas 198 amostras fecais de 66 crianças e observou-se posiividade em 31(46,9%) dos exames realizados. Os parasitos encontrados foram Ascaris lumbricóides (25%), Entamoeba coli (21,1%), Trichuris trichiura (19,2%), Endolimax nana (15,40%) entre outros. As crianças posiivas ao exame foram proporcionadas tratamento médico. O alto índice de infecção parasitária no presente estudo é relexo da falta de saneamento básico da região estudada. Com este estudo ica registrado a prevalência das parasitoses intesinais encontradas na população de estudo e a possibilidade de novos trabalhos de extensão visando à prevenção e controle das enteroparasitoses. Palavras- Chave: Prevalência, Parasitoses Intesinais, Parasiismo. ABSTRACT Intesinal parasiic infecion is an important public health problem, especially in developing countries where play an important role between the neglected diseases. Mainly afect the poor populaion that live in low sanitaion condiions increasing the infecion risk and spread of diseases mainly in children. The present study was carried out between the period of October 2009 toOctober 2010 and an invesigaion about the intesinal parasites occurring in children between 6-15 years old, students of the Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). One hundred ninety eight fecal samples were analyzed of 66 children and posiivity rates were observed in 31 (46.9%) theirs. The most prevalent parasites were Ascaris lumbricoides (25%), Entamoeba coli (21.1%), Trichuris trichiura (19.2%), Endolimax nana (15.4%). Infected children received medical treatment. In this study, the high parasiic infecion rates relect the lack of sanitaion in the studied region. Here is noiied the intesinal parasites prevalence in this populaion and further extension’s work aiming at the prevenion and control of intesinal parasites. Keywords: Prevalency, Intesinal Parasitasis, Parasiism 1 Acadêmico concluinte do curso de Biomedicina, 2010. Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo 2 Mestrado em Física (UFRGS); Especialista em Docência no Ensino Superior (IESA); Físico e Matemático (URI). Docente do curso de Biomedicina do Instituto Cenecista de Santo Ângelo. 3 Mestre em Parasitologia (UFPEL); Especialista em Análises Clínicas (UFRGS); Biomédica (FEEVALE); Docente do curso de Biomedicina do Instituto Cenecista de Santo Ângelo. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 135 06/10/2014 16:28:17 136 DJONATTAN PATRICK SINHORINI - ALEXANDRE NOVICKI - DÉBORA PEDROSO 1. INTRODUÇÃO As parasitoses intestinais constituem um grave problema de saú- de pública, sobretudo em países em desenvolvimento, onde ocu- pam lugar de destaque entre as doenças negligenciadas. Estudos de diferentes regiões do Brasil mostram freqüências diferentes entre espécies de helmintos e protozoários. Variam de acordo com as ca- racterísticas da amostra estudada, localidade, fatores climáticos, só- cio-econômicos, educacionais e de saneamento (SILVA; SANTOS, 2001; BASSO et al., 2008; FONSECA; SILVEIRA, 2010). Em relação á ocorrência, estudos demonstram que as enteropa- rasitoses acometem principalmente crianças e adultos jovens, cons- tituindo um fator agravante na subnutrição, refletindo diretamente no rendimento escolar (FONSECA; SILVEIRA, 2010). Segundo Andreis, Schuh e Tavares (2008), apesar de isoladamente não apresenta- rem alta letalidade, as parasitoses intestinais podem ser analisadas como co-fatores da mortalidade infantil, podendo afetar o equilíbrio nutricional, induzir sangramento intestinal , além de competir pela absorção de nutrientes e interferindo o desenvolvimento cognitivo da criança. A escolha do tema de pesquisa teve como justificativa dois as- pectos importantes, (I) vivências adquiridas no projeto de extensão Parasitologia na Comunidade: Uma Prática de Educação em Saúde no curso de Biomedicina (II) a gravidade que assumem as parasito- ses intestinais na infância. O presente trabalho estima a prevalência de enteroparasitos em crianças de 6 a 15 anos incompletos, atendidas em Centro de Refe- rência de Assistência Social (CRAS), analisa alguns aspectos epide- miológicos, sociais e sanitários da população atendida no projeto de extensão da disciplina de Parasitologia. 2. Relações parasito hospedeiro e ambiente O parasitismo é uma associação entre seres vivos com unilate- ralidade de benefícios, sendo o hospedeiro um dos associados e o Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 136 06/10/2014 16:28:17 137 PREVALÊNCIA DE ENTEROPARASITOSES NA POPULAÇÃO ATENDIDA EM PROJETO DE EXTENSÃO DO CURSO SE BIOMEDICINA IESA – RS prejudicado nesta associação. O hospedeiro é indispensável ao pa- rasita que, dele separado, morrerá por falta de nutrição. O parasito obtém alimento as expensas de seu hospedeiro (tecidos, humores e conteúdo intestinal) e abrigo. Assim, a parasitose é o estado de in- fecção cuja agressão repercute prejudicialmente sobre o hospedeiro (CIMERMAN; CIMERMAN, 2005; SILVA; SANTOS, 2001). Para que ocorra a infecção três fatores da clássica tríade epi- demiológica das doenças parasitárias são indispensáveis: as con- dições do hospedeiro, o parasito e o meio ambiente. Em relação ao hospedeiro os fatores predisponentes incluem: idade, estado nutri- cional, fatores genéticos, culturais, comportamentais e profissionais. Pesa para o lado do parasito: a resistência ao sistema imune do hos- pedeiro e os mecanismos de escape vinculados as transformações bioquímicas e imunológicas verificadas ao longo do ciclo de cada parasito. As condições ambientais associadas aos fatores anteriores irão favorecer e definir a ocorrência de infecção e doença (FREI; JUNCANSEN; PAES, 2008). As parasitoses intestinais são transmitidas aos hospedeiros por várias fontes de contaminação. Geralmente a transmissão ocorre por via passivo-oral, onde ocorre ingestão de alimentos ou água conta- minados com estruturas parasitárias, sendo sua maior prevalência vinculada a áreas que se apresentam com condições higiênico-sani- tárias precárias associadas à falta de tratamento adequado de água e esgoto, logo estes fatores facilitam a disseminação de ovos, cis- tos e larvas, sendo a transmissão também facilitada pelo aumento do contato pessoa a pessoa propiciado pelos ambientes fechados como creches, escolas, asilos, presídios, pois o grande número de indivíduos presentes nesses ambientes não permite, muitas vezes, obedecer às normas de higiene e assim, contribuem para o alto grau de parasitoses intestinais (AFIUNE; RIBEIRO; COSTA, 2009). As enteroparasitoses também estão associadas à locais de níveis socioeconômicos baixos, esgotos, lagos, córregos, riachos contami- nados, pois estes podem acumular grande quantidade de dejetos e fezes contaminados por pessoas enfermas, bem como o lixo que atrai numerosos insetos e roedores, facilitando a proliferação dos parasitas (CORREIA; BRANDÃO; RIBEIRO, 2005). O desconheci- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 137 06/10/2014 16:28:17 138 DJONATTAN PATRICK SINHORINI - ALEXANDRE NOVICKI - DÉBORA PEDROSO mento deste problema de saúde pública esbarra na necessidade de conhecimento da realidade e dos fatores de risco que favorecem o surgimento, a manutenção e a propagação desses agentes (ZAIDEN et al., 2008). Pelo menos em uma das fase do ciclo evolutivo as parasitoses intestinais encontram-se no aparelho digestivo do homem e podem provocar diversas alterações patológicas, sobretudo a diarréia crôni- ca e desnutrição (BAPTISTA et al., 2006). Em relação aos sintomas clínicos eles podem ou não estar pre- sentes, e variam de ausência de sintomas a estado subagudo ou crônico. Geralmente os sintomas são vagos e sem explicações, o que dificulta o diagnóstico clínico, salvas exceções como, por exem- plo: de prurido anal no caso de enterobiose, quando há eliminações de vermes adultos na ascaridíase, ou quando evoluem para suas complicações, com manifestações clínicas mais específicas (MAN- FROI; STEIN; CASTRO FILHO, 2009). Os sinais clínicos são variáveis, diferindo conforme a fase e du- ração da infecção e o número de parasitas. Em conseqüência da migração do parasita imaturo (larva) no organismo do hospedeiro, pode ocorrer dor abdominal, febre, vômito, diarréia, urticária, má di- gestão e absorção, icterícia, hepatomegalia e alterações de enzimas hepáticas, leucocitose e eosinofilia (OLIVEIRA et al., 2007; MAN- FROI, 2009). Em preocupação com a saúde, sobretudo, e das repercussões econômicas, vários programas foram criados para o controle das pa- rasitoses intestinais em diferentes países, mas infelizmente, verifi- cou-se um descompasso entre o êxito alcançado nos países mais desenvolvidos e aquele verificado nas economias mais pobres. Exis- te falta de projetos educativos com a participação da comunidade que dificulta a implantação das ações de controles, além, do custo financeiro das medidas técnicas. Há de se considerar, portanto, que além da melhoria das condições sócio-econômicas e de infraestrutu- ra geral, o engajamento comunitário é um dos aspectos fundamen- tais para a implantação, desenvolvimento e sucessodos programas de controle (SILVA; SANTOS, 2001). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 138 06/10/2014 16:28:17 139 PREVALÊNCIA DE ENTEROPARASITOSES NA POPULAÇÃO ATENDIDA EM PROJETO DE EXTENSÃO DO CURSO SE BIOMEDICINA IESA – RS 3. Prevalência das Enteroparasitoses em crianças É estimado que mais de 100 tipos de parasitos sejam capazes de infectar o ser humano, e as parasitoses infantis são causas impor- tantes de morbidade e mortalidade em todo o mundo (FERREIRA et al., 2006). No Brasil existe uma grande diversidade geográfica, climática, social e econômica, que contribui para uma ampla variedade de enteropatógenos, presentes em zonas rurais ou urbanas de vários estados, com intensidade variável, segundo o ambiente e espécie parasitária, prevalecendo, geralmente, em altos níveis na população das regiões com condições sócio-econômicas mais precárias (OR- LANDINI; MATSUMOTO, 2003). Das helmintoses intestinais huma- nas, que mais se destacam são ascaridiose, tricuríose, enterobiose, ancilostomose e estrongiloidose. Já dentro das protozooses intesti- nais, a de maior freqüência em crianças está giardíase (SILVA; SAN- TOS, 2001). No Município de Guarapuava-PR, Pittner et al. (2006), analisan- do a prevalência de enteroparasitoses em 203 crianças de creches e escolas, cuja idade variava de 0 a 15 anos, sendo 50% meninos e 50% meninas, diagnosticaram 123 (60,59%) amostras positivas. Os parasitas de maior freqüência foram Giardia lamblia 103(50,73%), Ascaris lumbricoides 31(15,27%), e ainda encontraram os para- sitas Strongyloides stercoralis, Entamoba coli, Criptospodirium sp, Ancylostoma duodenali, Hymenolepis nana, Hymenolepis diminuta, Trichuris trichiuria, Entamoeba histolytica, Endolimax nana e Entero- bius vermicularis em menor freqüência. Zochio (2006) ao determinar a prevalência de parasitos em crian- ças atendidas em uma escola e em um centro de convivência da cidade de Bauru, SP, analisaram 76 crianças de ambos os sexos, entre zero a seis anos. Observaram a prevalência de 19,7% de po- sitividade. No total foram encontrados: Entamoeba coli 10(58,8%), Endolimax nana 11(73,3%) de monoparasitos, enquanto que as as- sociações de parasitas foram: 1(25%) Giardia lamblia e Entamoeba coli e 3 (75%) Entamoeba coli e Endolimax nana. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 139 06/10/2014 16:28:17 140 DJONATTAN PATRICK SINHORINI - ALEXANDRE NOVICKI - DÉBORA PEDROSO No município de Tangará Serra – MG, Tiago et al. (2005) anali- sando a prevalência de enteroparasitoses em pacientes da Unidade Mista de Saúde do município, analisaram 1596 prontuários de exa- mes coproparasitológicos nos meses de março e agosto do ano de 2004, sendo que o percentual de positividade foi de 51,4 %. Os para- sitas de maior freqüência foram Endolimax nana 278 (17.4%), Enta- moeba coli 205 (12,8%), Giardia lamblia 139 (8,7%) e Strongyloides stercoralis 25 (1,6%). Ainda encontraram 28 (1.7%) de associações duplas e 3(0,2%) de associações triplas. No município de Salvador-BH, Prado et al. (2001), fizeram a ava- liação de helmintos e protozoários intestinais em crianças de 7 a 14 anos de idade e a prevalência de infectados por pelo menos um protozoário/helminto foi de 66,1%. Trichuris trichiuria, Ascaris lum- brioides, Endolimax nana, Entamoeba coli foram os parasitos com positividade acima de 20%, porém em menor freqüência foram diag- nosticados: Giardia lamblia, Ancilostomídeos, Enterobius vermicula- res, Entamoeba histolytica, Schistosoma mansoni, Iodamoeba buts- chilii e Hymenolepis nana. A distribuição das enteroparasitoses mais freqüentes foi tam- bém estudada na população de um assentamento de sem-terras em Campo Florido, MG. Foram realizados exames coproparasitológicos em 72 crianças com 5 a 14 anos e evidenciaram 59,7% de positivi- dade. A prevalência dos parasitas foi de Giardia lamblia 22(30,5%), Entamoeba coli 13(18%), Hymenolepis nana 7(9,7%), Hymenolepis diminuta 6(8,3%), Ancilostomídeos 5(6,9%), Enterobius vermicularis 5(6,9%), Endolimax nana 3(4,2%), Iodamoeba butschlii 2(2,8%) e Schistosoma mansoni 1(1,4%) (FERREIRA et al., 2003). 4. MATERIAIS E MÉTODOS 4.1. Caracterização e local do estudo Trata-se de um estudo descritivo com coleta de dados, realiza- do no período de outubro de 2009 a outubro de 2010, no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) em 66 crianças de 06 (seis) até 15 (quinze) anos incompletos, cujo os pais ou responsável consentiram em enviar amostras múltiplas de fezes para análise no Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 140 06/10/2014 16:28:17 141 PREVALÊNCIA DE ENTEROPARASITOSES NA POPULAÇÃO ATENDIDA EM PROJETO DE EXTENSÃO DO CURSO SE BIOMEDICINA IESA – RS Laboratório de Parasitologia do Instituto Cenecista de Ensino Supe- rior de Santo Ângelo (IESA). O CRAS está situado na zona Sul da cidade de Santo Ângelo - RS, com 108 alunos matriculados entre 6 a 15 anos de idade. Atende crianças no turno inverso da escola cujas famílias são beneficiárias do programa Federal Bolsa Família. 4.2. Instrumentos de Pesquisa Após autorização da direção do CRAS o estudo dividiu-se em três fases: (I) Reunião com os pais e/ou responsáveis pelas crianças, com explicação dos objetivos do estudo; Aplicação de questionário epidemiológico, distribuição de frascos de coleta de fezes, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; (II) Ativi- dades educativas às crianças e pais e execução do exame de fezes para diagnóstico; (III) Articulação com PSF Programa de Saúde da Família para avaliação médica e tratamento. 4.3. Procedimentos de laboratório Foram analisadas três amostras fecais de cada paciente no se- tor de Parasitologia por dois métodos qualitativos: Hoffman, Pons e Janner (HPJ); e FAUST e cols. Totalizando ao final do trabalho de pesquisa, a análise de 198 amostras de fezes. Os resultados do estudo foram analisados pelo programa Micro- soft Office Word 2007 e Microsoft Office Excel 2007. 5. RESULTADOS 5.1. Aspectos Sanitários Foram aplicados 66 questionários (Tabela 1), os quais os res- ponsáveis pelas crianças responderam a perguntas sobre ambiente doméstico, hábito das crianças, sinais clínicos. Em média cada residência possui cinco moradores e a maioria dos responsáveis pelas crianças tem o 1º grau incompleto (74,2%), enquanto que apenas 15,1% dos responsáveis haviam concluído o Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 141 06/10/2014 16:28:17 142 DJONATTAN PATRICK SINHORINI - ALEXANDRE NOVICKI - DÉBORA PEDROSO ensino médio. Quanto ao tipo de moradia, 50 % das famílias moram em casa de madeira, 31,8% moram em casas de alvenaria e 18,1% em casas mistas. Com referência a presença de animais doméstico, apenas 9(13,6%) das 66 das famílias, não tinham animais, enquanto que 57(86,6%) das famílias possuíam algum tipo de animal. Dessas, 51,1% possuíam apenas cão em sua residência e 24,2% possuíam duas espécies, gato e cão. Dos 66 questionários respondidos, apro- ximadamente 69% dos animais viviam no pátio, 18% nas residências e 13% não possuíam animais. Em relação ao dejeto da casa 23(34,8%) famílias possuem fossa, enquanto que 20 (30,3%) das famílias jogavam em um rio que passa próximo das residências. Os resultados dos questionários mostram ainda que, as crian- ças que não tem quadro de diarréia com freqüência, 24(36,3%) os pais tem o hábito de usar chá como tratamento e não fazem uso de automedicação, pois preferem procurar a Unidade de Saúde do Mu- nicípio. TABELA 1: Fatores de risco a enteroparasitoses em crianças 6 e 15 anos incompletos atendidos pelo Centro de Referência de Assistência Social, do município de Santo Ângelo, RS, no período de outubro de 2009 a outubro de 2010 Variáveis analisadas Respostas Número Porcentagem Escolaridade do responsável 1º Grau Incompleto 49 74,2% 2º Grau Incompleto 10 15,1% Utiliza tratamento de água? Outros 7 10,6% Não usa tratamento 60 90,9% Usa tratamento 6 9,0% As crianças andam de pés descalços? Costume 2131,8% As vezes 29 43,9% Nunca 16 24,2% Alguém na casa roe unhas? Sim 37 56,1% Não 29 43,9% As crianças tem diarréia com frequência? Sim 11 16,7% Não 55 83,3% Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 142 06/10/2014 16:28:17 143 PREVALÊNCIA DE ENTEROPARASITOSES NA POPULAÇÃO ATENDIDA EM PROJETO DE EXTENSÃO DO CURSO SE BIOMEDICINA IESA – RS A residência possui rede de agosto? Sim 42 63,6% Não 24 36,4% Qual o tipo de depósito do dejeto casa? Fossa fechada 23 34,8% Rio 20 30,3% Outros 23 34,8% Possui animais domésticos em casa? Quantos? Não 9 13,6 Sim 57 86,6% Quais animais estão presentes? Cão 34 51,5% Cão e gato 16 24,2 Outros 7 10,6% Não possui animal 9 13,6% Onde vivem? Pátio 45 68,2% Casa 12 18,2% Não possui animal 9 13,6% 5.2. Prevalência das Parasitoses Intestinais Das 66 crianças com idade entre 6 e 15 anos incompletos que tiveram suas fezes analisadas, 31 crianças estavam positivas para ao menos um enteroparasita (Tabela 2). Os meninos foram os mais acometidos por parasitos intestinais, estando 27,2% positivos, enquanto as meninas foram positivas em 19,6 % dos casos (Grafico 3). As helmintoses intestinais foram mais freqüentes do que as proto- zooses, os protozoários intestinais encontrados nas amostras fecais das crianças estudadas foram: Entamoeba coli(21,1%), Endolimax nana(15,4%), Iodamoeba butschlii(1,9%), Giardia lamblia(9,6%), e os helmintos intestinais: Ascaris lumbricóides(25,2%), Trichuris trichiura(19,2%), Hymenolepis nana(3,8%), Hymenolepis diminu- ta(1,9%), Strongyloides stercoralis(1,9%), (Tabela 4.). O parasito mais freqüente foi o Ascaris lumbricoides, estando este presente em 13 das 66 crianças analisadas (Tabela 4). Crianças acometidas por dois ou mais parasitos intestinais, re- presentaram 22,7% do total de casos positivo (Gráfico 5), sendo a associação Ascaris lumbricoides – Trichuris trichiuria a mais freqüen- te, representando 12,2% dos casos. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 143 06/10/2014 16:28:17 144 DJONATTAN PATRICK SINHORINI - ALEXANDRE NOVICKI - DÉBORA PEDROSO TABELA 2. Freqüência de amostras de fezes analisadas em crianças 6 a 15 anos incompletos atendidos pelo Centro de Referência de Assistência Social, do município de Santo Ângelo, RS, no período de outubro de 2009 a outubro de 2010 Amostras Número Percentual Positivos 31 46,9% Negativos 35 53,1% TOTAL 66 100% GRÁFICO 3. Relação entre as amostras fecais de meninos e meninas de 6 e 15 anos incompletos atendidos pelo Centro de Referência de Assistência Social, do município de Santo Ângelo, RS, no período de outubro de 2009 a outubro de 2010 TABELA 4. Freqüência de parasitos encontrados nas amostras fecais analisadas de meninos e meninas entre 6 a 15 anos incompletos atendidos pelo Centro de Referência de Assistência Social, do município de Santo Ângelo, RS, no período de outubro de 2009 a outubro de 2010. Parasitos Indivíduos parasitados Frequência Masc. Fem. Total Positivos Ascaris lumbricoides 9 4 13 25,2% Entamoeba coli 6 5 11 21,1% Trichuris trichiuria 6 4 10 19,2% Endolimax nana 3 5 8 15,4% Giardia lamblia 4 1 5 9,6% Hymenolepis nana - 2 2 3,8% Strongyloides stercoralis 1 - 1 1,9% Iodamoeba butschlii - 1 1 1,9% Hymenolepis diminuta - 1 1 1,9% Feminino Positivos 19,60% 27,20% 24,20% 28,70% Negativos Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 144 06/10/2014 16:28:17 145 PREVALÊNCIA DE ENTEROPARASITOSES NA POPULAÇÃO ATENDIDA EM PROJETO DE EXTENSÃO DO CURSO SE BIOMEDICINA IESA – RS GRÁFICO 5. Percentual de amostras fecais monoparasitadas e poliparasitadas em crianças de 6 a 15 anos incompletos atendidos pelo Centro de Referência de Assistência Social, do município de Santo Ângelo, RS, no período de outubro de 2009 a outubro de 2010. Todas as crianças que participaram e mostraram resultados posi- tivos foram encaminhados para tratamento médico no ESF. 6. DISCUSSÃO Em nosso país as taxas de prevalência de parasitoses sempre foram altas, como foi relatado por Chieff et al. (1992), que referem o estudo epidemiológico das enteroparasitoses brasileiras realizado na década de 10, quando as prevalência foram de 78,2% a 99,4% conforme a região do país. Estudos posteriores mostravam taxas mais altas, nos anos de 50 e 60, que variavam entre 20 e 98% (RO- QUE et al., 2005). Em comparação a estudos realizados com crianças de idades parecidas no Rio Grande do Sul, a prevalência de parasitoses in- testinais positivas neste estudo (46,9%) mostrou-se semelhante. De acordo com BIASSI et al. (2009) de 235 amostras analisadas foi en- contrado em 2008 na cidade de Erechim (RS), 37,9 % de positivida- de em crianças, já em Passo Fundo foram analisadas 36 amostras (RS), Silva (2009) obteve um total de 38,8% de casos positivos. Já em Caxias do Sul RS, Pezzi e Tavares (2007) obtiveram um total 53,10% 24,20% 22,70% MONOPARASITISMO POLIPARASITISMO NEGATIVISMO Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 145 06/10/2014 16:28:17 146 DJONATTAN PATRICK SINHORINI - ALEXANDRE NOVICKI - DÉBORA PEDROSO de 55,4% de positividade em 276 nas crianças. Em outro estudo realizado na mesma cidade que a análise, Trevisan et al., 2004 en- contraram um percentual de amostras positivas de (36,4%) em 22 crianças de 0 a 10 anos. Foram encontradas amostras positivas para algum tipo de para- sito intestinal em 29 (27,2%) sexo masculino e 23 (19,6%) do sexo feminino. Concordando com outros estudos que mostram maior po- sitividade nos meninos (FONSECA et al., 2010; BAPTISTA et al., 2006). Os meninos apresentam maior índice de infecção por para- sitas intestinais quando comparados as meninas, o que pode ser explicado pelo fato de os meninos estarem mais expostos ao âmbito peridomiciliar durante atividades de lazer, ficando mais vulneráveis a infecções (PRADO et al., 2001). As parasitoses intestinais mais freqüentes neste estudo foram Ascaris lumbricoides, Entamoeba coli, Trichuris trichiuria e Endoli- max nana. Esta freqüência reforça o fato de que neste período de vida os hábitos alimentares, sociais e pessoais tais como introdução de alimentos crus nas refeições, maior contato com o solo e animais facilitam a transmissão (ZAIDEN et al., 2008). A prevalência de Ascaris lumbricoides (25,2%) verificada no pre- sente estudo concorda com estudos de varias outras regiões estu- dadas no Brasil como Ferreira et al. (2003), Basso et al. (2008) e Barreto (2008), que justificam a presença deste helminto pelo fato deve-se à própria biologia deste parasita que tem ovos muito resis- tentes com grande capacidade de aderência a superfícies, fato que representa um fator importante na sua transmissão, uma vez que, presente no ambiente e em alimentos, tais ovos não são removidos com facilidade por lavagens e podem permanecer por anos. No Bra- sil, levantamentos coproparasitológicos têm demonstrado que o As- caris lumbricoides é o helminto que ocorre com maior freqüência en- tre as diferentes comunidades estudadas (MACEDO, 2005). Porém, a freqüência encontrada neste estudo, discorda com os resultados obtido por Trevisan et al., 2004) na mesma região. Onde analisa- ram 22 exames de fezes com crianças em idades entre 2 a 10 anos, e encontraram 9,% de Ascaris lumbricóides, 54,4% de Entamoeba Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 146 06/10/2014 16:28:17 147 PREVALÊNCIA DE ENTEROPARASITOSES NA POPULAÇÃO ATENDIDA EM PROJETO DE EXTENSÃO DO CURSO SE BIOMEDICINA IESA – RS coli e 9,% de Endolimax nana. Esta diferencia por estar associada a diferença do números de amostras analisadas. A associação de Trichuris trichiuria e Ascaris lumbricoides foi freqüente 8(25%), o que também foi verificado por ROQUE et al. (2005), BIASSI et al. (2009) e FERRI et al. (2009). O que é devido, além da similaridade dos ciclos de vida, pela grande eliminação de ovos pelas fêmeas e pela resistência destes no meio ambiente po- dendo dar-se no peridomicílio, atuando este meio, como um impor- tante foco de manutenção e transmissão destasenteroparasitoses (BASSO et al., 2008). Nas amostras estudadas, observou-se a freqüência da ameba Entamoeba coli 21.1% seguido pela freqüência de Endolimax nana 15.4%. Essas duas espécies são comensais não patogênicas, mas com importante implicação na epidemiologia das doenças parasitá- rias (MACEDO, 2005; FERREIRA et al., 2003). Estes enterocomen- sais apresentam o mesmo mecanismo de transmissão de outros pro- tozoários patogênicos como a Giardia lamblia, ainda podem sugerir do não tratamento da água, lavagem inadequada das mãos, e ocor- rência de alimentos contaminados (MACEDO, 2005). A taxa de prevalência encontrada para a Giardia lamblia (7,6%) foi relativamente baixa comparada à outros estudos realizados em vários estados. (KOMAGOME et al., 2007; CASTRO et al., 2004). Essa baixa prevalência do estudo, pode se justificar em que a maior freqüência de Giardia lamblia acontece em crianças de até 4 anos na maioria dos casos. Encontraram-se altos índices de analfabetismo ou ensino fun- damental incompleto dos responsáveis na população es tudada (74,2%), o que pode estar contribuindo com a freqüência das parasi- tas intestinais nesta população. Assim, torna-se necessária a implantação de programas de con- trole e educação para melhorar a qualidade de vida desses indiví- duos, considerando a grave repercussão desses parasitas e a de- ficiência no sistema de sanea mento básico e estado nutricional da população, pois a carência destes colabora para o aumenta do risco de contaminação e proliferação de doenças na população infantil (FERREIRA; ANDRADE, 2005). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 147 06/10/2014 16:28:18 148 DJONATTAN PATRICK SINHORINI - ALEXANDRE NOVICKI - DÉBORA PEDROSO 7. CONCLUSÃO Através deste estudo constatou-se que existe forte relação entre as condições de vida destas crianças e que na maioria das vezes é precária, com a frequência de parasitos intestinais. As condições higiênico-sanitárias do ambiente, dos hábitos higiê- nicos, do grau de escolaridade do responsável, podem contribuir de forma significativa para uma maior prevalência de enteroparasitoses na faixa etária considerada e que existe forte relação. Os resultados encontrados nesse trabalho se assemelham bas- tante aos encontrados a nível nacional, esse trabalho serve também para conscientizar da necessidade de melhoria de investimentos á saúde, saneamento básico, escolaridade e infra-estrutura, além da continuidade das atividades de extensão pelos novos alunos da dis- ciplina de Parasitologia, visando à prevenção e controle das entero- parasitoses. 8. REFERÊNCIAS AFIUNE, Luana A. F. de; RIBEIRO, Hidelberto S. de; COSTA, C. V. 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Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 149 06/10/2014 16:28:18 150 DJONATTAN PATRICK SINHORINI - ALEXANDRE NOVICKI - DÉBORA PEDROSO MANFROI, A; STEIN, A.T; CASTRO, Filho E.D. Abordagem das parasitoses intestinais prevalentes na infância. Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina, Projeto Diretrizes, p.1-26, nov. 2009. OLIVEIRA, Adriana A. et al. Estudo da prevalência e fatores as- sociados á fasciolose no Município de Canutana, Amazonas, Brasil. Revista de Epidemiologia, Serviço e Saúde, v.16, n.4, p.251-259, 2007. ORLANDINI, Miriam R; MATSUMOTO, Leopoldo S. Prevalência de Parasitoses Intestinais em Escolares. Paraná, 2003. PEZZI, Natália C.; TAVARES, Rejane G. Relação de aspectos sócio-econômicos e ambientais com parasitoses intestinais e eosi- nofilia em crianças do ENCA, Caxias do Sul-RS. Revista Estudos, v.34, n.11/12, p.1041-1055, 2007. PITTNER, Elaine et al. Enteroparasitoses em crianças de uma comunidade escolar na cidade de Guarapuava, PR. 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Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 151 06/10/2014 16:28:18 Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 152 06/10/2014 16:28:18 153 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL PREVALENCE OF HEPATITIS B AND C IN PATIENTS TREATED IN READY CALL DR. ERNESTO NEPHEW BORN IN THE CITY OF SANTO ANGELO - RS, BRAZIL Katiúscia Aozani Munareto1 Emanuelle Kerber Viera Mallet2 RESUMO Este trabalho tem como objeivo veriicar a prevalência de hepaite B e C em pacientes atendidos no Pronto Atendimento Dr. Ernesto Nascimento Sobrinho, na cidade de Santo Ângelo. A população de estudo foi composta por pacientes atendidos pelo SUS entre janeiro de 2008 a julho de 2010, que buscaram atendimento primário para avaliar a infecção por hepaite B ou C, e os dados de natureza clínica e laboratorial obidos em prontuários médicos. Do total de 45 pacientes, a prevalência de infecção pelo VHB foi de 26,6% e de VHC foi 73,3%, com distribuição no sexo masculino 66,6% para o vírus VHB e 63,64% para o vírus VHC. Comparado com o sexo feminino a prevalência foi 33,33% e 36,36%, respecivamente. A prevalência das infecções segundo a faixa etária foi predominante nas faixas compreendidas entre 24-29 anos (25%), 29-34 anos (25%) e 34-39 (25%) para o VHB e 41-49 anos (30,30%) para o VHC. Na análise das dosagens enzimáicas prevaleceram transaminases aumentadas para ambas as infecções. Na análise das alterações de bilirrubina total e bilirrubina direta foi encontrado média de 3,1 mg/dL e 2,43 mg/dL para o VHB e 1,22 mg/dL e 0,7 mg/dL para o VHC. Nas analise das plaquetas foi encontrado média de 121.500 mm3 para o VHB e 108.272 mm3 para o VHC. Na análise do tempo de protrombina a média para o VHB e VHC foram 12,2 s e 15,3 s, respecivamente. O genóipo 3 do VHC foi predominante. Os fatores de risco observados foram uso de drogas ilícitas, transfusão sanguínea antes da década de 90 e o eilismo crônico. Diante da freqüência de infecções e das complicações que podem acarretar, torna-se importante a realização de analises semelhante para que se possa monitorar o comportamento da hepaite B e da hepaite C no município de Santo Ângelo. Palavras-chaves: Hepaite B, Hepaite C, alterações laboratoriais. ABSTRACT This work aims to verify the prevalence of hepaiis B and C in paients assisted at Dr. Ernesto Nascimento Sobrinho Emergency Care Post, in the city of Santo Ângelo. The populaion studied has been assisted by public health service, between January, 2008 and July, 2010, who looked for primary atendance in order to evaluate the infecion caused by hepaiis B or C and the clinical and laboratory data obtained in medical records. From 45 paients, the prevalence of infecion by HVB was 26,6% and by HCV was 73,3%, with 66,6 % of distribuion in the male gender , the virus HVB and 63,64% for the virus HCV. Compared to the female gender, the prevalence was 33,33% and 36,36%, respecively. The prevalence of infecions according to the age group was predominant in the age group between 24-29 years old(25%), 29-34 years old (25%) and 34-39 years old(25%) for the HVB and 41-49 years old (30%) for HCV. In the analysis of the enzyme dosage, transaminase has prevailed increased for both infecions. In the analysis of changes in total bilirubin 1 Acadêmica Concluinte do curso de Biomedicina, 2010. Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo. 2 Mestre em Diagnóstico Genético e Molecular (ULBRA), Biomédica (FEEVALE); Coordenadora do curso de Biomedicina e Professora Titular (IESA) e Responsável técnica pelo Laboratório Hemoclin. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 153 06/10/2014 16:28:18 154 KATIÚSCIA AOZANI MUNARETO - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET and direct bilirubin an average of 3,1 mg/ml and 2,43 mg/dL for HVB has been found and 1,22 mg/dL and 0,7 mg/dL for HCV. In the analysis of the platelets an average of 121.500 mm3 for HVB and 108.272 mm3 for HCV has been found. In the analysis of prthrombin ime the average for HVB and HCV were 12,2 s and 15,3 s, respecively. The genotype of HCV 3 was predominant. The risk factors observed were illicit drug use, blood transfusion before the 90s and chronic alcoholism. Given the frequency of infecions and complicaions it may lead to, it becomes important to perform similar analysis in order to monitor the behavior of hepaiis B and C in the city of Santo Ângelo. Keywords: Hepaiis B, Hepaiis C, laboratory abnormaliies. 1. INTRODUÇÃO As hepatites virais são doenças causadas por diferentes agentes etiológicos, que possuem tropismo primário pelas células hepáticas, apresentando características epidemiológicas, clínicas e laborato- riais semelhantes, porém, com importantes particularidades (BRA- SIL, 2008). A distribuição das hepatites é universal e sua extensão difere de região para região. No Brasil, também há grande variação na preva- lência de cada um dos agentes etiológicos. A importância das hepa- tites virais não se retrata apenas ao grande número de pessoas in- fectadas; expande-se também às complicações das formas agudas e crônicas (CARVALHO; ARAÚJO, 2008). No Brasil, o Ministério da Saúde estima que 15% da população já foram expostas ao vírus da hepatite B, e que 1% sofra de hepatite crônica. Quanto à hepatite C ainda não existem estudos capazes de estabelecer sua real prevalência no país. Um estudo de base populacional realizado na região Sudeste revelou 1,42% de portado- res do vírus da hepatite C na cidade de São Paulo (BRASIL, 2005a; BRASIL, 2005b). Fatores como custo elevado do diagnóstico precoce e a inefici- ência do sistema de saúde, a ausência de sintomas das infecções pelo VHB (hepatite B) e VHC (hepatite C), o crescimento do número de usuários de drogas injetáveis e inaláveis, o compartilhamento de objetos perfurocortantes e a precariedade ou a não existência de sistemas de esgotos e de abastecimento de água contribuem para a disseminação das hepatites. Esses fatores fazem com que as hepa- tites tornem-se preocupantes endemias, especialmente nas regiões mais pobres do Brasil (TURA et al., 2008). Os vírus das hepatites B e C compartilham do mesmo mecanis- mo de transmissão, ou seja, através da troca de fluídos corporais. A Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 154 06/10/2014 16:28:18 155 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOSNO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL prevalência do VHB e VHC permanece alta em populações de alto risco, como usuários de drogas, profissionais da saúde, pacientes de hemodiálise e aqueles sujeitos a transfusões sanguíneas (LA- DEHOF; BUENO, 2005; SCHUMARRY, 2008). Sendo assim, apesar dos avanços diagnósticos e terapêuticos, a prevalência das hepatites B e C continuam elevadas e relevante é o estudo de suas distribuições na população. Informações atualizadas sobre a prevalência da circulação dos vírus são essenciais para o de- senvolvimento de estratégias de saúde pública. A realização desse tipo de pesquisa permite estabelecer os grupos e os fatores de risco e conseqüentemente elaborar estratégias de controle, diagnóstico precoce da infecção e medidas preventivas eficazes, proporcionado melhor acesso ao tratamento, bem estar e saúde desses pacientes (MARTINS et al., 2008). A vista do exposto este trabalho teve como objetivo geral verificar a prevalência das hepatites B e C em pacientes que buscaram aten- dimento no Pronto Atendimento Dr. Ernesto Nascimento Sobrinho, popularmente conhecido como Posto 22 de Março, no município de Santo Ângelo-RS, Brasil. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA As hepatites virais constituem doença de notificação compulsória e representam um grave problema de saúde pública mundial devido à elevada prevalência. A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de 2 bilhões de pessoas já se infectaram com o vírus HBV e 350 milhões destes são portadores crônicos. Estudos relatam a ocor- rência de 600 mil mortes por ano relacionadas à hepatite B. Quanto à hepatite C, estima-se que aproximadamente 150 a 200 milhões de pessoas estão infectadas com o VHC e 130 milhões evoluíram para hepatite crônica e cirrose, com cerca de um a dois milhões de óbitos ao ano (AQUINO et al., 2008; CRUZ et al., 2009; MORAES et al., 2010). As hepatites são doenças que se caracterizam pela agressão ao tecido hepático. Está agressão se manifesta pela inflamação do fígado e dos hepatócitos, sendo responsáveis pelas manifestações clínicas e laboratoriais. As infecções causadas pelos vírus VHB e Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 155 06/10/2014 16:28:18 156 KATIÚSCIA AOZANI MUNARETO - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET VHC lesam o fígado provocando o aparecimento de sintomas clás- sicos como icterícia e a liberação de enzimas hepáticas. Os indi- víduos infectados podem tornar-se transmissores mesmo antes de apresentarem os sintomas, devido à facilidade de transmissão dos vírus (BABINSKI et al., 2008). A hepatite aguda pode ser auto-limitada e regredir ou progredir para uma infecção crônica, como as hepatites B e C. Geralmente, o curso típico de uma hepatite viral aguda é apresentar primeiramente o período de incubação que varia de duas a vinte semanas, podendo variar este período de acordo com a etiologia e a carga viral. Após este período, inicia-se a fase pré-ictérica desta hepatopatia, caracte- rizada pelo aparecimento de sintomas como: fadiga, náuseas, falta de apetite e leve dor no quadrante superior direito. Logo, vem à fase ictérica, marcada pelo aparecimento de icterícia e os sintomas de fadiga e náusea se acentuam (GOLDMAN; AUSIELO, 2005). Após um período variável de uma semana a um mês surge a fase de recuperação ou convalescência com melhora do estado ge- ral e a volta do apetite com desaparecimento dos sinais de mal-estar, colúria e icterícia. Normalmente, o fígado apresenta-se doloroso a palpação e com borda romba ou lisa de consistência normal. Cerca de 20% dos casos apresentam o baço também palpável. Nos casos mais graves pode ocorrer o aparecimento de aranhas vasculares e adenopatias cervicais (CRUZ et al., 2000). A infecção pelo VHC pode acometer diversos órgãos, como a pele, o sistema músculo-articular, os nervos periféricos e os rins. Entretanto, o mecanismo das implicações extra-hepáticas é incerto. Acredita-se que as manifestações cutâneas são causadas por an- tígenos virais ou por linfócitos infectados pelo VHC depositados na pele (CONTE, 2000; GARAMEZ et al., 2010). O vírus da hepatite B é um hepadnavírus transmitido principal- mente através de transfusões sanguíneas, transplante de órgãos, uso de hemoderivados, compartilhamento de seringas entre usuá- rios de drogas injetáveis, materiais intravenosos, relações sexuais, destacando-se o papel de fluidos orgânicos, como o sêmen e a sali- va, ou ainda verticalmente, seja por via transplacentária, no momen- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 156 06/10/2014 16:28:18 157 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL to do parto ou durante o aleitamento materno (VALENTE et al., 2005; ANASTÁCIO et al., 2008; CONCEIÇÃO et al., 2009). O vírus da hepatite C é um vírus de RNA envelopado da família flaviridae. É transmitido através da exposição parenteral por agulhas contaminadas, transfusão de sangue, hemodiálise, além de drogas injetáveis e transmissão vertical. Contudo, a transmissão perinatal depende da quantidade de vírus circulante no momento do parto e da coinfecção com o HIV, ocorrendo em 0 a 35,5% dos casos de mães infectadas. O HCV é encontrado principalmente no sangue to- tal, papa de hemácias, plaquetas, plasmas e nos concentrados de fatores de coagulação. Assim, é considerado a principal forma de he- patite transmitida por hemoderivados (VALENTE et al., 2005; SATO; BERTOLINI, 2006; GONÇALVES et al., 2008). Devido ao grande número de contaminações em pacientes trans- fundidos foi criada a lei 7.649, de 25 de janeiro de 1988, que estabe- leceu a obrigatoriedade do cadastramento dos doadores de sangue e a realização de exames laboratoriais no sangue coletado, visando prevenir a propagação de doenças, como hepatite B, sífilis, doença de Chagas, malária e AIDS. Entretanto, em 1993, a Portaria 1.376 tornou obrigatória a inclusão de testes para anticorpos contra o VHC nos exames de triagem. Essas medidas reduziram a transmissão dessas duas formas de hepatite por transfusão e hemoderivados (DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO, 1988; BRASIL, 1993). O diagnóstico laboratorial da hepatite B, em qualquer uma das formas clínicas é realizado através da pesquisa de marcadores so- rológicos. Esses marcadores são fundamentais não apenas para o diagnóstico, mas também são úteis no seguimento da infecção vi- ral, na avaliação do estado clínico do paciente e na monitorização do tratamento específico. Para analisar se há replicação viral deve- se incluir a pesquisa de DNA do vírus VHB (FERREIRA, 2000; LA- DEHOF; BUENO, 2005; MINCIS; MINCIS, 2007). O teste inicial para determinar a infecção da hepatite C é a pes- quisa de anti-HCV. Os testes comercializados para a detecção do VHC são os ELISA (Enzyme Linked ImmunoSorbent Assay), pois apresentam vantagens como rapidez, facilidade de automação, alta confiabilidade e custo relativamente baixo. Entretanto, a baixa espe- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 157 06/10/2014 16:28:18 158 KATIÚSCIA AOZANI MUNARETO - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET cificidade dos ELISA determinou o desenvolvimento de testes suple- mentares para a confirmação do diagnóstico da infecção pelo VHC em indivíduos positivos, assim, a confirmação do diagnóstico é feita através da técnica de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) pela presença de RNA do VHC. A técnica de PCR também tem sido uti- lizada para avaliar a resposta terapêutica. A quantificação da carga viral auxilia na avaliação dos fatores preditivos da resposta terapêuti- ca, mas não é indicativa de progressão da doença (BRANDÃO et al. 2001; MINCIS; MINCIS, 2005; MINCIS; MINCIS, 2007). Os testes bioquímicos são importantes porque permitem estabe- lecer o tipo de lesão hepática, seja hepatocelular ou colestática. Os resultados dos testes laboratoriais podem ser usados para confirmar a existência da lesão ao fígado; avaliara função dos hepatócitos, a drenagem biliar e o sistema reticuloendotelial, e também determinar a causa da doença hepática (MINCIS; MINCIS, 2007). A confirmação da agressão ao tecido hepático é através dos tes- tes bioquímicos. A elevação sérica das aminotransferases possibilita estabelecer o tipo de lesão hepática. Na infecção pelo VHC é co- mum encontrar ALT (alanina aminotransferase) e a AST (aspartato aminotransferase) 10 a 100 vezes o valor normal, com atividade de ALT maior que AST. Na fase aguda de infecção pelo VHB a ALT e a AST encontram-se aumentadas. Essas enzimas são importantes no diagnóstico das formas anictéricas, elevando-se no início do quadro, indicando lesão hepatocelular. A diminuição das aminotransferases ocorre no início da fase ictérica, podendo permanecer com os valores elevados por até seis meses. Entretanto, na análise das dosagens enzimáticas da ALT e AST na fase crônica de infecção pelo VHB as aminotransferases encontram-se normais. A elevação dos níveis sé- ricos dessas enzimas ocorre devido ao aumento de permeabilidade dos hepatócitos, decorrente do processo inflamatório hepático (FER- REIRA; SILVEIRA, 2004; MINCIS; MINCIS, 2007; PELEGRINI et al., 2007; SANTOS et al., 2010). A bilirrubina é um pigmento biliar que tem seu metabolismo alte- rado nas lesões hepatocelulares, tendo importância prognóstica nas hepatites e insuficiência hepática fulminante. Nas hepatites virais as bilirrubinas elevam-se após o aumento das transaminases e nas for- mas agudas, podem alcançar valores 20 a 25 vezes acima do nor- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 158 06/10/2014 16:28:18 159 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL mal. Se elevam nas formas ictéricas da doença, com predomínio da bilirrubina direta sobre a indireta. Na urina pode ser detectada preco- cemente, antes mesmo do surgimento da icterícia (MISZPUTEN et al., 2003; GARCIA, 2008). Para avaliar a coagulação sanguínea nos pacientes portadores dos vírus VHB e VHC pode-se realizar os exames de Tempo de Pro- trombina (TP) e a contagem de plaquetas. Em pacientes com hepa- topatia crônica há plaquetopenia devido ao aumento do seqüestro e ao baixo nível de trombopoetina produzida pelo fígado (VASCONCE- LOS et al., 2006; ROCHA et al., 2009). De acordo com o Ministério da Saúde, nas formas agudas be- nignas o tempo de protrombina sofre poucas alterações, exceto nos quadros de hepatite fulminante. Nos casos de hepatite crônica, o alargamento do tempo de protrombina indica a deterioração da fun- ção hepática e em associação com alguns outros fatores clínicos e laboratoriais compõe a classificação de Child (importante meio de avaliar o grau de deterioração da função hepática, além de um mar- cador prognóstico) (BRASIL, 2005a). Resultados laboratoriais indicativos de mau prognóstico nas he- patites virais agudas e crônicas consistem na elevação do tempo de protrombina, queda brusca das transaminases e elevação das bilir- rubinas (MISZPUTEN et al., 2003). Outra técnica molecular que tem trazido informações sobre as infecções pelos vírus HBV e HCV é a genotipagem. A caracterização molecular dos genótipos e dos sub-genótipos permite estabelecer orientações quanto à resposta ao tratamento e prognóstico das do- enças. Estudos têm demonstrado a ocorrência variada dos genóti- pos do HBV em diferentes regiões. Entre os já encontrados, estão o B, C, D e F, e recentemente um caso E isolado em um viajante na cidade de São Paulo. A prevalência do genótipo do HCV também va- ria de acordo com a região geográfica. O genoma do HCV apresenta seis genótipos e múltiplos subtipos têm sido identificados. Em um es- tudo realizado em diferentes regiões do Brasil foram encontrados os genótipos 1, 2, 3, 4 e 5 em pacientes com hepatite crônica C (PARIS et al., 2000; RONCATO et al., 2008; GONZAGA et al., 2008; LOPES et al., 2009). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 159 06/10/2014 16:28:18 160 KATIÚSCIA AOZANI MUNARETO - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET O padrão-ouro para investigação diagnóstica e para o estadia- mento da doença hepática é a biópsia hepática. O diagnóstico de hepatite crônica é histológico e a biópsia deve ser realizada quando houver aumento de transaminases ou evidência de replicação viral por mais de seis meses. O diagnóstico histológico é importante para a decisão terapêutica e também fornece subsídios quanto à confir- mação da etiologia dos vírus. Atualmente, as hepatites crônicas são classificadas segundo o grau de inflamação e do estágio de fibro- se (STRAUSS, 2001; MINCIS; MINCIS, 2005; CALLEGARO et al., 2006; CODES et al., 2006). Para combater as hepatites virais o Ministério da Saúde criou em 2002 o programa para a prevenção e controle das hepatites tor- nando mais intenso as ações de vacinação contra a hepatite B. A prevenção para o vírus do VHB se dá com aplicação de três doses da vacina: a primeira é administrada ao nascer, a segunda ao final do primeiro mês de vida e a terceira aos seis meses. A vacina também é disponível para pessoas na faixa etária de 1 a 19 anos e aos indi- víduos que fazem parte de grupos de risco, como imunodeprimidos, profissionais da saúde e profissionais do sexo (CARLO et al., 2008). A prevenção da hepatite B através da imunização foi um grande progresso. Estima-se que mais de 1 bilhão de pessoas já tenham recebido a vacina em todo o mundo. A vacina contra a hepatite B é altamente imunogênica e protetora contra a infecção desencadeada pelo VHB. Antígenos do vírus situados na camada superficial sem partículas infectantes são aplicados para estimular o sistema imune a produzir anticorpos protetores que impedem a infecção. Conside- ra-se proteção quando os títulos de anticorpos ao HBsAg (anti-HBs) são maiores que 10 mUI/mL. A série completa de três ou quatro doses da vacina induz uma resposta protetora em mais de 90% dos adultos e em mais de 95% das crianças e adolescentes saudáveis (FERRERIA; SILVEIRA, 2006; BABINSKI et al., 2008; MORAES et al., 2010). O “American College of Obstetricians and Gynecologists” tem recomendado a vacina nas gestantes com alto risco de infecção, como as pacientes usuárias de drogas ilícitas, com histórias de he- motransfusão, com múltiplos parceiros, com histórias familiar de he- patite B, ou ainda, grávidas com sorologia negativa, mas que estão Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 160 06/10/2014 16:28:18 161 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL em contato com indivíduos portadores da infecção aguda ou crônica (CONCEIÇÃO et al., 2009). A vacinação contra o VHB é a principal medida de prevenção contra a hepatite B ocupacional, entre os profissionais da área de saúde. A vacina deve ser realizada na admissão do profissional, no estudante ou no estagiário. O profissional que apresentar lesão cor- tante tem uma probabilidade de 40% em adquirir o vírus da hepatite B. Comparado com a hepatite C este risco cai para 10%. Os fatores de risco para a transmissão do HCV ainda não estão bem definidos. O risco da infecção está correlacionada com o tempo de trabalho, realizações de procedimentos invasivos e com a ocorrência de aci- dentes com perfurocortantes. Assim, a imunização é uma medida fundamental para a prevenção e controle das infecções na equipe de saúde, nas famílias e também nos pacientes (CIORLIA; ZANETTA, 2007; SOUZA et al., 2008; CAVALCANTI et al., 2009). Além da vacinação é importante orientar os indivíduos que fazem parte dos grupos de risco e a população em geral sobre os cuidados de contaminação, tanto na hepatite B quanto na hepatite C. A educa- ção sexual deve enfatizar o uso de preservativos. Outra medida de prevenção é a esterilização de materiais ou uso descartável. Trans- fusões sanguíneas só devem ser feitas com sangue analisado. Entre osprofissionais da saúde é importante a realização de programas de reciclagem e levantamento de questões de precauções universais e educação continuada visando à prevenção de acidentes (CRUZ et al., 2000; CIORLIA; ZANETTA, 2007). Ainda não há vacina contra o vírus da hepatite C e nem medidas preventivas eficazes pós-exposição ao vírus. É necessário reduzir a incidência da infecção e conseqüentemente diminuir o risco de he- patopatia e de outras doenças relacionadas aos portadores do vírus. Para que se inicie as atividades de prevenção é preciso identificar os indivíduos contaminados e assim reduzir o risco de transmissão e a evolução para hepatopatia crônica. Também devem-se ter cuidados com as transfusões de sangue e hemoderivados, e atenção para o perigo da disseminação entre profissionais da saúde e com todos os meios de transmissão, seja saliva, sêmen, urina, lágrimas (SILVA et al. 2003; FERREIRA; SILVEIRA, 2004). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 161 06/10/2014 16:28:18 162 KATIÚSCIA AOZANI MUNARETO - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET 3. MATERIAL E MÉTODOS 3.1. Caracterização da Pesquisa O presente estudo constitui uma pesquisa descritiva, com estudo de prevalência das hepatites B e C em pacientes atendidos no Pron- to Atendimento Dr. Ernesto Nascimento Sobrinho na cidade de Santo Ângelo-RS. 3.2. Amostra Composta por pacientes atendidos pelo SUS entre janeiro de 2008 a julho de 2010, que buscaram atendimento primário para ava- liar a infecção por hepatite B ou C. 3.3. Procedimentos Os dados de natureza clínica e laboratorial foram coletados nos prontuários médicos de pacientes que buscaram atendimento pri- mário no Pronto Atendimento Dr. Ernesto Nascimento Sobrinho, no município de Santo Ângelo-RS, Brasil. Os dados obtidos foram digitados em planilha, e posteriormente foram submetidos à estatística. Para a construção dos gráficos uti- lizou-se o software BR Office 3.2. A análise estatística dos exames foi realizada apenas nos prontuários que apresentavam o resultado dos mesmos. 3.4. Aspectos éticos Este trabalho, baseado na revisão de prontuários médicos, foi realizado após consentimento do Responsável Técnico e Responsá- vel Clínico do Pronto Atendimento Dr. Ernesto Nascimento Sobrinho por meio de um termo de autorização oficializado pelos mesmos. O modelo do termo de consentimento segue em anexo. 3.5. RESULTADOS E DISCUSSÃO Em um total de 45 prontuários revisados, 26,6% pacientes apre- sentaram infecção pelo vírus da hepatite B e 73,3% estavam infecta- dos com o vírus da hepatite C, conforme o gráfico 1. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 162 06/10/2014 16:28:18 163 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL Gráico 1: Prevalência de Hepatite B e C na população estudada Quanto à distribuição das hepatites verificamos maior prevalência do vírus VHC. O aumento da prevalência da hepatite C no município de Santo Ângelo segue a tendência nacional. Um estudo envolvendo clínicas de hemodiálise em Fortaleza, no estado de Ceará, obteve alta prevalência de hepatite C (52%) (MEDEIROS et al., 2004). Se- gundo Gonçalves et al. (2008), isto se deve, supostamente, devido a falta de atenção básica à saúde como prevenção, triagem soroló- gica, exames confirmatórios e acompanhamento dos pacientes as- sintomáticos. A distribuição desigual dos recursos financeiros pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para os municípios também pode ter ocasionado maior prevalência do vírus da hepatite C. Cháves et al. (2003), traçaram um panorama da infecção no Bra- sil no período entre 1996 e 2000 e encontraram prevalência de casos confirmados de 25% para a hepatite B e 12% para a hepatite C. Em um estudo realizado em um município de Mato Grasso, Souto et al. (2001), constataram presença da infecção pelo VHB em 31% da amostra analisada. Frente a esses resultados percebe-se as diver- gências entre os achados das prevalências encontradas em diferen- tes regiões do país. Esta situação pode ser justificada por diferenças geográficas, climáticas, econômicas e étnicas que interferem na epi- demiologia das doenças (CLEMENS et al., 2000). 26,60% 73,30% Hepatite B Hepatite C Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 163 06/10/2014 16:28:18 164 KATIÚSCIA AOZANI MUNARETO - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET A relação da distribuição das infecções segundo o sexo demons- trou prevalência no sexo masculino de 66,66% para o vírus VHB e 63,64% para o vírus VHC. Já no sexo feminino a prevalência foi 33,33% para o vírus VHB e 36,36% para o vírus VHC, totalizando os 45 prontuários estudados, conforme mostra a tabela 1. Tabela 1. Prevalência do vírus da hepatite B e C segundo o sexo Infecção Masculino Feminino Total n (%) n (%) n (%) Hepatite B 66,66 33,33 100 Hepatite C 63,64 36,36 100 Ao analisarmos a prevalência das infecções segundo o sexo, houve maior prevalência no sexo masculino. O que pode explicar tal achado são os aspectos comportamentais adotados por esses indi- víduos, tais como uso de drogas ilícitas, condições sociais diversas e a não utilização de preservativos (PELEGRINE et al., 2007). No estudo realizado na cidade de Florianópolis também foi ob- servado maior incidência de hepatite C no sexo masculino. Gonçal- ves et al. (2008), afirma não há evidências que comprovem maior suscetibilidade nos homens à infecção viral. Este resultado deve-se, provavelmente, a fatores comportamentais. O predomínio maior de indivíduos do sexo masculino com VHB (66,66%) e VHC (63,64%) no município de Santo Ângelo no período estudado confirma outros achados, como no município de Maringá, onde a prevalência de he- patite B e C também foram predominantes no sexo masculino (BA- BINSKI et al., 2008). Ao verificarmos a prevalência da infecção pelo VHB segundo a faixa etária, estas foram predominantes nas faixas compreendidas entre 24-29 anos (25%), 29-34 anos (25%) e 34-39 (25%), conforme o gráfico 2. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 164 06/10/2014 16:28:19 165 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL Gráico 2: Contaminação com VHB segundo a faixa etária Já no gráfico 3 observamos que a prevalência da hepatite C é mais elevada em indivíduos entre 41-49 anos (30,30%) (10). Gráico 3: Contaminação com o VHC segundo a faixa etária Estes dados encontrados no município de Santo Ângelo mos- tram que as infecções tanto de hepatite B quanto de hepatite C aca- bam acometendo muito mais adultos jovens principalmente por este grupo estar mais suscetível aos fatores de risco. 25% 25%25% 8% 17% 24 l - - 29 29 l - - 34 34 l - - 39 39 l - - 44 44 l - - 150 12% 15% 15% 9% 18% 31% 17 l - - 25 25 l - - 33 33 l - - 41 41 l - - 49 49 l - - 57 57 l - - 65 Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 165 06/10/2014 16:28:19 166 KATIÚSCIA AOZANI MUNARETO - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET A predominância das infecções nas faixas etárias encontradas se relaciona com dados da literatura internacional em que as maio- res infecções pelo HCV são encontradas em indivíduos entre 30- 49 anos, indicando que o risco de transmissão afeta primariamente adultos jovens. Em um estudo realizado no Brasil e no Estado de Santa Catarina também pode se observar que a faixa etária acima dos 30 anos foi a mais acometida pela hepatite B e C (CHÁVEZ et al., 2003; THOMSON; FINCH, 2005). Para Aquino et al. (2008), a faixa etária de 29 a 39 anos foi a mais acometida pelos vírus HBV e HCV, indicando que provavelmente a atividade sexual foi à principal forma de transmissão. A maior preva- lência das sorologias encontrada nesta faixa etária e no sexo mas- culino mostra que esses indivíduos podem ser mais expostos aos vírus, principalmente devido ao comportamento sexual. Outro fator que pode ser apontado é que neste período os homens acabam se relacionando commais de uma parceira. Na análise das dosagens das enzimas AST e ALT, a média dos pacientes alterados contaminados com o VHB encontrada nesse es- tudo foi 574 U/L e 977 U/L, respectivamente. Já para os indivíduos infectados com o VHC a média para os pacientes alterados para a AST foi 121,7 U/L e para a ALT a média encontrada foi 169,72 U/L, dados apresentados na tabela 2 e tabela 3. Tabela 2. Resultados dos exames analisados dos pacientes infectados com o vírus VHB Exames analisados Pacientes analisados Pacientes alterados Média n n (%) TGO 10 30 574 U/L TGP 10 30 977 U/L Bilirrubina Total 8 37,5 3,1 mg/dL Bilirrubina Direta 4 50 2,43 mg/dL Plaquetas 7 28,5 121.500 mm3 TP 8 0 12,2 s *Valores de referência: TGO –5 a 38 U/L; TGP – 10 a 40 U/L; BT – até 1,2 mg/dL; BD – até 0,4 mg/dL; Plaquetas – 150.000 a 450.000 mm3; TP – 10 a 14 s. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 166 06/10/2014 16:28:19 167 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL Tabela 3. Resultados dos exames analisados dos pacientes infectados com o vírus VHC Exames analisados Pacientes analisados Pacientes alterados Média n n (%) TGO 22 45,45 121,7 U/L TGP 23 47,82 169,72 U/L Bilirrubina Total 16 37,5 1,22 mg/dL Bilirrubina Direta 10 60 0,7 mg/dL Plaquetas 21 52,38 108.272 mm3 TP 18 16,6 15,3 s *Valores de referência: TGO –5 a 38 U/L; TGP – 10 a 40 U/L; BT – até 1,2 mg/dL; BD – até 0,4 mg/dL; Plaquetas – 150.000 a 450.000 mm3; TP – 10 a 14 s. Na análise das dosagens enzimáticas de AST e ALT verificamos a predominância de aminotransferases aumentadas. De acordo com Vranjac (2002), na fase inicial das hepatites virais o aumento das transaminases pode variar de 10 a 100 vezes o limite superior da normalidade. As transaminases são de fundamental importância, visto que podem ser consideradas marcadores específicos de dano hepático. Na fase ictérica há diminuição dos níveis séricos das ami- notransferases, entretanto, seus valores podem permanecer altera- dos por até seis meses, mesmo em pacientes que apresentar boa recuperação clínica (CRUZ et al., 2000; MINCIS; MINCIS, 2006). As transaminases AST e ALT, sendo a primeira a aparecer no plasma, são enzimas celulares que melhor representam os fenôme- nos necróticos nos hepatócitos durante a agressão pelos vírus VHB e VHC. A AST está presente na mitocôndria e no citosol dos he- patócitos, enquanto que a ALT é exclusiva do citosol e encontra-se presente principalmente no fígado. Nas formas crônicas, geralmente não ultrapassam 15 vezes o normal e nos indivíduos assintomáticos é o único exame laboratorial sugestivo de doença hepática. Nos ca- sos de hepatite fulminante a queda das aminotransferases pode re- presentar falência progressiva do fígado pela destruição extensa do tecido (SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE MINAS GERAIS, 2007). Na análise das alterações de bilirrubina total e bilirrubina direta, a média encontrada para os pacientes alterados infectados com o Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 167 06/10/2014 16:28:19 168 KATIÚSCIA AOZANI MUNARETO - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET VHB foi 3,1 mg/dL e 2,43 mg/dL, respectivamente. Quanto aos pa- cientes alterados infectados com o VHC a média dos resultados para a bilirrubina total foi 1,22 mg/dL e para a bilirrubina direta foi 0,7 mg/ dL, conforme tabela 2 e 3. As alterações das bilirrubinas apresentaram valores superiores aos de referência (BT: até 1,2 mg/dL e BI: até 0,4 mg/dL). Contudo, a média das alterações encontrada nos pacientes contaminados com o vírus da hepatite C mostrou valores inferiores aos encontrados na literatura. Estudos relatam que as bilirrubinas podem encontrar-se elevadas nas hepatites crônicas e avançadas, podendo alcançar níveis de até 20% superior a normalidade (GARCIA; JOVILIANO, 2006; FILHO; GALIZZI, 2008). Ao analisarmos as alterações de plaquetas a média para os pa- cientes alterados infectados com o VHB foi 121.500 mm3. Dos sete pacientes analisados, apenas 28,5% (2) apresentaram plaquetope- nia. Quanto aos pacientes alterados com hepatite C, a média de pla- quetas foi 108.272 mm3. Dos 21 pacientes observados, 52,2% (11) revelaram plaquetopenia, conforme mostra a tabela 2 e 3. A plaquetopenia é uma das mais freqüentes alterações hemato- lógicas encontradas em pacientes com hepatite crônica. Segundo o trabalho revisado, as causas de trombocitopenia podem estar rela- cionadas à produção ineficiente de trombopoetina pelo fígado, uso de fármacos depressores da medula óssea como interferon e ribavi- rina e ligação dos vírus aos receptores de membrana nas plaquetas (THOFEHRN; MUNHOZ, 2006). Mesmo sendo uma manifestação comum em pacientes com do- enças hepáticas crônicas, os mecanismos envolvidos na tromboci- topenia não estão completamente elucidados. Um estudo realizado por Fusegawa et al. (2002), demonstrou maior ativação de plaque- tas, que podem contribuir para os mecanismos de trombocitopenia nos pacientes analisados e que a fibrose também pode ter um papel na ativação de plaquetas na hepatite crônica. Ao examinarmos o tempo de protrombina a média dos resultados para os pacientes alterados contaminados com o vírus da hepatite B foi 12,2 segundos. Já para os pacientes alterados contaminados Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 168 06/10/2014 16:28:19 169 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL com o vírus da hepatite C a média do tempo de protrombina foi 15,3 segundos, conforme dados da tabela 2 e 3. Os resultados do tempo de protrombina em ambas as infecções não sofreram alterações significativas, visto que o alargamento des- te exame ocorre nos casos de hepatite fulminante e cirrose. Nas formas agudas benignas desta patologia esta prova sofre poucas al- terações, assim como nas formas crônicas, quando pode não haver alterações significativas até as fases terminais. Nos quadros de insu- ficiência hepática, encontradas tanto nas formas agudas fulminantes quanto nas cirroses descompensadas, a avaliação da atividade da protrombina adquire importância, uma vez que os níveis detectados vão decrescendo diretamente à gravidade do quadro, constituindo- se, por isso, o melhor marcador prognóstico (BRASIL, 2005a; SE- CRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE MINAS GERAIS, 2007). Ao verificarmos no gráfico a distribuição dos genótipos do VHC nos 13 pacientes que apresentaram genotipagem foram encontra- dos os genótipos 1, 2 e 3, sendo predominantes o genótipo 3 (70%) (9), como demonstra o gráfico 4. Esses resultados se relacionam com dados da literatura, que mostram que na América do Sul, in- cluindo o Brasil, Estados Unidos e Japão, os genótipos 1, 2 e 3 são responsáveis pela maioria das infecções. A caracterização dos genó- tipos é importante no direcionamento do tratamento, já que os dife- rentes genótipos influenciam as taxas de resposta (PELEGRINE et al., 2007). Gráico 4: Distribuição dos genótipos do vírus VHC 15% 15% 70% 1 2 3 Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 169 06/10/2014 16:28:19 170 KATIÚSCIA AOZANI MUNARETO - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET A genotipagem do VHC tem importância na prática clínica para orientar nas decisões terapêuticas dos pacientes portadores de he- patite C crônica. Estudos clínicos têm relatado respostas virológicas variáveis ao tratamento da hepatite C crônica com interferon pegui- lado ou convencional associado a ribavirina com base na infecção por distintos genótipos. Segundo o estudo de Alves at al. (2003), os pacientes com genótipo não-1 apresentaram taxa de resposta sus- tentada significativamente maior que os infectados com o genótipo 1. Os pacientes infectados pelos genótipos 2 ou 3 têm 80% de chan- ces a mais de erradicar a doença. A genotipagem tem importância também em investigações imunológicas para o desenvolvimento de vacinas (PERONEet al., 2008). Ao considerar a associação entre os diversos fatores de risco com as infecções pelo VHB e VHC observados nos prontuários que trouxeram a informação, foi observado que os principais fatores de risco para os pacientes estudados são o uso de drogas ilícitas, trans- fusão sanguínea antes da década de 90 e o etilismo crônico. Quanto a associação entre a história de transfusão sanguínea e a infecção pelo VHC, Lopes et al. (2009), relataram uma tendên- cia entre essa associação entre usuários de drogas no município de Goiânia, principalmente, quando as transfusões eram realizadas antes da implantação da triagem anti-HCV nos bancos de sangue em novembro de 1993 no Brasil. Este trabalho também mostrou uma prevalência elevada da infecção pelo HCV em usuários de drogas ilícitas, além do uso injetável de drogas como principal fator de risco para essa infecção. Em um estudo realizado na cidade de Blumenau, no estado de Santa Catarina, a freqüência da contaminação por transfusão san- guínea foi 3,3% na população estudada. O estudo também mostrou que o consumo de álcool torna mais suscetível à infecção pelo VHB. O alcoolismo é uma prática potencialmente influenciável pelo am- biente social, onde são promovidas atividades de risco para a infec- ção pelos vírus da hepatite B e C, bem como a prática desprotegida de relações sexuais ou uso de drogas injetáveis (LIVRAMENTO et al., 2009). Ao avaliar as vias de transmissão da hepatite B percebe-se que os principais modos de contaminação são através da exposição Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 170 06/10/2014 16:28:19 171 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL parenteral, sexual, vertical, sangue contaminado ou fluídos corpo- rais. Já o vírus da hepatite C, normalmente, é transmitido através de sangue contaminado. Os fatores de risco para ambas as infecções incluem usuários de drogas, transfusão, tatuagens, transplante de órgãos e comportamento sexual ativo (LADEHOF; BUENO, 2005; BLATT et al, 2009). Verificamos que o diagnóstico das hepatites B e C é feito atra- vés de técnicas sorológicas. Essas técnicas são fundamentais não apenas para o diagnóstico em si, mas também no seguimento da infecção viral, na avaliação do estado clínico do paciente e na moni- torização da terapêutica específica. Os testes comercializados para a detecção do VHC são os ELISA. Entretanto, deve haver a confir- mação do diagnóstico através da técnica de PCR pela presença de RNA do VHC (MINCIS; MINCIS, 2007; BABINSKI et al. 2008). A biópsia hepática é considerada o padrão-ouro para o diagnósti- co da fibrose na hepatite crônica. No entanto, é um procedimento de custo elevado, com complicações como dor, hemorragia e, em raros casos, morte. Para Lima et al. (2008), a biópsia para os indivíduos com hepatite crônica é necessária, visando avaliações prognóstica e terapêutica desses pacientes. Os pacientes que apresentam esta- diamento avançado podem progredir rapidamente para cirrose e he- patocarcinoma, enquanto que pacientes sem fibrose ou apenas com fibrose portal apresentam progressão mais lenta, não sendo preciso à terapia antiviral na maioria dos casos. Alguns marcadores bioquímicos estudados em diferentes popu- lações confirmam ter elevado valor preditivo no diagnóstico da fi- brose significativa. A AST, ALT, a gama-glutamiltransferase e a con- tagem de plaquetas podem apresentar correlação com a histologia hepática (LIMA et al., 2008). Segundo Fusegawa et al. (2002), o ín- dice APRI (obtido pelo quociente AST/plaquetas) tem sido aplicado devido a sua elevada acurácia como preditor da fibrose hepática nos portadores de hepatite crônica. Ao identificarmos os principais modos de prevenção das doen- ças, conclui-se que a melhor forma de prevenção contra a hepatite B é uso da vacina, visto que é considerada a maneira mais eficaz de prevenir infecção aguda ou crônica e também controlar a trans- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 171 06/10/2014 16:28:19 172 KATIÚSCIA AOZANI MUNARETO - EMANUELLE KERBER VIERA MALLET missão do vírus, sendo sua eficácia superior a 90% em indivíduos imunocompetentes (FILHO; GALIZZI, 2008; BENTO et al., 2010). Recentemente foi criada nova portaria pelo Ministério da Saú- de que contempla não apenas as crianças, que recebem a vacina da hepatite B sistematicamente fazendo parte do calendário vacinal, mas também profissionais da saúde, manicures, gestantes e homos- sexuais (BRASIL, 2005b). Quanto à hepatite C ainda não existem meios capazes de pro- porcionar imunização ativa ou passiva, sendo as imunoglobulinas ineficazes e há grandes obstáculos na variabilidade genética do VHC. Assim, medidas que visam reduzir a exposição a situações de risco, bem como mudanças comportamentais, são as melhores con- dutas para a prevenção primária (FILHO; GALIZZI, 2008; BENTO et al., 2010). 4. CONCLUSÃO A análise final deste trabalho mostra que os resultados das pre- valências das hepatites B e C se relacionam com outros estudos epidemiológicos realizados no Brasil, em que há maior prevalência de hepatite C, sendo o sexo masculino o mais acometido por ambas as infecções. Os vírus das hepatites B e C são transmitidos através da troca de fluídos corporais e o diagnóstico das infecções pode ser feito através de testes imunológicos e moleculares. A biópsia hepá- tica é considerada o padrão-ouro para o diagnóstico da fibrose na hepatite crônica. A prevenção da hepatite B pode ocorrer por vacina- ção. Para os casos de hepatite C ainda não existe vacina disponível, e a única forma de profilaxia é orientação aos indivíduos que fazem parte dos grupos de risco. Na análise dos exames pode-se concluir que os resultados en- contrados nos mostram que a grande maioria dos pacientes estuda- dos se encontrava na fase crônica da infecção desencadeada pelo VHB e VHC, em estágios iniciais. Portanto, diante da freqüência de infecções e das complicações que podem acarretar, torna-se importante a realização de análises semelhante para que se possa monitorar o comportamento da hepa- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 172 06/10/2014 16:28:19 173 PREVALÊNCIA DE HEPATITE B E C EM PACIENTES ATENDIDOS NO PRONTO ATENDIMENTO DR. ERNESTO NASCIMENTO SOBRINHO NA CIDADE DE SANTO ÂNGELO - RS, BRASIL tite B e da hepatite C no município de Santo Ângelo, e assim, buscar propostas de prevenção e diminuir os riscos de contaminação e evo- lução para as formas mais graves das infecções estudadas. 5. REFERÊNCIAS ALVES, A. et al. 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Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 177 06/10/2014 16:28:20 Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 178 06/10/2014 16:28:20 179 POTENCIAL TOXICIDADE DO CARBONATO DE LÍTIO POTENCIAL TOXICIDADE DO CARBONATO DE LÍTIO POTENTIAL TOXICITY OF LITHIUM CARBONATE Letícia Aparecida Nascimento do Carmo1 Juliana Foletto Fredo Roncato2 RESUMO O Carbonato de Líio é muito uilizado na área psiquiátrica, por sua excelente eicácia terapêuica. Este relato de caso clínico trata-se de uma paciente que sofreu intoxicação pelo Líio, tendo como objeivo descrever os danos que este medicamento pode causar no organismo quando uilizado por longo período e em doses altas. Embora se trate de um medicamento de efeito comprovado no tratamento do Transtorno Bipolar, o arigo visa demonstrar as diversas alterações e riscos que podem ocorrer, enfaizando a importância de um rigoroso controle laboratorial desses pacientes, uma vez que somente através do monitoramento periódico é possível evitar um processo intoxicante e potencialmente fatal. Dessa forma, observa-se que o Carbonato de Líio tem um efeito benéico nos tratamentos psiquiátricos, mas para que se possa alcançar uma melhor qualidade no tratamento, faz-se necessário uma perfeita adesão do paciente ao tratamento e um rigoroso monitoramento clínico através de dosagens bioquímicas e hematológicas para evitar uma intoxicação medicamentosa. Palavras-Chave: Diagnósico Laboratorial. Intoxicação. Líio. Transtorno Afeivo Bipolar. ABSTRACT The Lithium Carbonate is very used in the psychiatric area, for its excellent therapeuic eicacy. This related clinical case it’s about a paient who sufered poisoning by lithium, which is aimed to describe the damage that this drug can cause at the body when it´s used for long periods and at high doses. Although this is a drug proven efecive in the treatment of bipolar disorder, the paper aims to demonstrate the various changes and risks that can occur. Emphasizing the importance of a thorough laboratory control of these paients, since only through regular screening is possible prevent a intoxicaing and potenially fatal process. Thus, it is observed that the lithium carbonate has a beneicial efect on psychiatric treatments, but so that we can achieve a beter quality of care, it is necessary to perfect adherence to the treatment and strict clinical monitoring with biochemical and hematological dosages to avoid a drug intoxicaion. Keywords: Diagnosis laboratory. intoxicaion. lithium. Afecive Bipolar Disorder. 1. INTRODUÇÃO O Carbonato de Lítio é um medicamento amplamente utilizado na área psiquiátrica há vários anos. Sua eficácia foi comprovada através de diversos experimentos durante o decorrer do século XX e, desde então tem sido utilizado por especialistas do mundo todo como a droga de escolha no tratamento do (TAB) Transtorno Afetivo Bipolar, CID 10 - F: 31. O Carbonato de Lítio é um medicamento de índice terapêutico muito baixo e farmacocinética individualizada. A margem entre a 1 Acadêmica concluinte do Curso de Biomedicina, ano 2010. Instituto Cenecista de Ensino Superiror de Santo Ângelo.2 Professora da disciplina de Toxicologia do IESA; Farmacêutica e Bioquímica - UNICRUZ, 2000; Especialista em Toxicologia Aplicada – PUCRS, 2002; Mestre em Biologia Celular e Molecular – PUCRS, 2007; Pós-graduanda em Docência para o Ensino Superior - IESA. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 179 06/10/2014 16:28:20 180 LETÍCIA APARECIDA NASCIMENTO DO CARMO - JULIANA FOLETTO FREDO RONCATO dose terapêutica e a dose tóxica é estreita, e por esse motivo, faz- se necessário uma rigorosa monitorização terapêutica e laboratorial, por meio da determinação da concentração sérica e hemática, como forma de auxiliar no controle das doses a serem administradas ao paciente, uma vez que ele pode tornar-se tóxico ao organismo, já que sua excreção varia de indivíduo para indivíduo. É de conhecimento dos profissionais da área médica os benefí- cios do Lítio no tratamento do TAB e na fase maníaca de doenças maníaco-depressivas, bem como, a importância do rigoroso acom- panhamento desses pacientes, uma vez que uma intoxicação aguda por lítio pode causar diversas alterações no organismo, como mani- festações neurológicas leves (tremor, perda da coordenação dos mo- vimentos musculares voluntários, dificuldades na fala, convulsões, encefalopatia, coma); manifestações neuromusculares (fraqueza muscular proximal, rabdomiólise, miastenia gravis e neuropatia axo- nal). Estas manifestações são em geral reversíveis com a suspensão ou diminuição das doses do medicamento. O uso do Carbonato de Lítio por um longo período também pode desencadear as chamadas patologias associadas, como o Diabetes Mellitus (DM), disfunções renal, hepática, cardíaca, hipertensão ar- terial, sobrepeso e, até mesmo uma intoxicação por uso excessivo do medicamento. Dados estatísticos apontaram que o TAB tem maior incidência em pessoas do sexo feminino. A interação do Carbonato de Lítio com os anticoncepcionais orais aumenta muito o risco de gravidez entre essas pacientes, devido à redução do efeito do anticoncepcional oral causada pelo lítio. A puérpera em uso do lítio deve evitar a amamentação, pois cer- ca de 40% da concentração sérica do lítio é passada através do leite, podendo causar intoxicação no recém-nascido. Nesse trabalho, o questionamento é: o Carbonato de Lítio quan- do usado em excesso em paciente com sofrimento psíquico, é tóxico para o organismo? Para isso far-se-á uma revisão da literatura, visando apontar os danos que o medicamento Carbonato de Lítio causa ao organismo Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 180 06/10/2014 16:28:20 181 POTENCIAL TOXICIDADE DO CARBONATO DE LÍTIO do paciente. Além disso, no presente trabalho realizamos um estudo de caso clínico de uma paciente que sofreu intoxicação pelo medi- camento. Abordaremos ainda, a importância dos exames laboratoriais no monitoramento deste medicamento,visto que através dos resultados dos níveis séricos se consegue administrar melhor as dosagens do mesmo, evitando assim danos ao paciente. 1.1. Fundamentação Teórica O Carbonato de Lítio é uma droga utilizada em diferentes pato- logias da área psiquiátrica; porém no TAB seu uso é indispensável, pois trata-se de um transtorno severo, freqüente, que surge ao longo da vida adulta afetando o campo emocional da pessoa com emoções violentas, sentimentos persistentes, picos de depressão e euforia. Acomete em média 2% da população geral; onde deste percentual cerca de 12,5% a 30% tem sua sintomatologia confundida com de- pressão em um primeiro momento; o que requer a avaliação de um especialista para um diagnóstico fidedigno (VIEIRA; GAUER, 2003; ARANTES, 2007). Atinge ambos os sexos, com maior incidência de casos no sexo feminino, onde o quadro sintomatológico é mais severo do que nos homens. Nas mulheres entre os fatores de risco, destacam-se as oscilações hormonais, o ciclo menstrual, o período puerperal e a me- nopausa; enquanto que nos homens o fator de maior relevância está no risco de suicídio, o qual pode estar associado à dependência de álcool. Em ambos os sexos essa disfunção pode estar ligada a alte- rações bioquímicas (DIAS et al., 2006). O Lítio foi introduzido na medicina como substância terapêutica por Garrod no ano de 1863, tendo sido utilizado para tratamento de diversas patologias durante mais de um século, sem muito sucesso. Já em 1949, Cade introduziu a droga no tratamento de pacientes psi- quiátricos; porém em 1954 Schou, através do primeiro estudo duplo- cego realizado com medicação psiquiátrica, comprovou a eficácia do mesmo no tratamento da mania e, desde então o Carbonato de Lítio passou a ser utilizado nos tratamentos de desordens maníacas nos países europeus e posteriormente pelos EUA (ROSA et al., 2006; TEIXEIRA; ROCHA, 2006; LEAL; FERNANDES, 2010). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 181 06/10/2014 16:28:20 182 LETÍCIA APARECIDA NASCIMENTO DO CARMO - JULIANA FOLETTO FREDO RONCATO Em 1970 a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o lítio como primeiro fármaco eficaz no tratamento das fases agudas e na manutenção da doença bipolar, a partir de então, há mais de 5 déca- das ele vêm sendo utilizado pelos especialistas como a droga de es- colha no tratamento do TAB e outras patologias associadas pela sua grande atuação como estabilizador de humor (ROSA et al., 2006). Sua eficácia terapêutica nas crises maníacas e depressivas de pacientes bipolares é indiscutível, e para que haja uma melhor ade- são ao tratamento, a formulação mais utilizada é a de comprimidos, por ser menos higroscópica e menos irritante à mucosa gástrica, quando comparada ao Cloridrato; porém essa formulação produz grande concentração da droga no soro, podendo causar efeitos co- laterais e até reações tóxicas ao organismo (VISMARI et al., 2002; CERQUEIRA et al., 2008). Seu pico plasmático varia entre 2 a 6 horas após sua absorção, com meia vida de 18 a 36 horas, e o estado de equilíbrio se dá entre 90 a 120 horas (PARDINI, 2003; SOARES, 2010). Se a adesão ao tratamento não é 100% efetiva, o reflexo do uso incorreto acaba acarretando complicações da doença, efeitos cola- terais variados, e oscilações dos níveis séricos nos resultados dos exames laboratoriais. Quando o paciente faz o uso correto e continu- ado do Lítio, geralmente os níveis séricos em seu organismo estarão entre 0,6 mEq/L e 1,2 mEq/L, enquanto que os pacientes que fazem uso de forma irregular apresentam níveis inferiores a 0,6 mEq/L ou superiores a 1,2 mEq/L (ROSA et al., 2006). Segundo Teixeira e Rocha (2006) o FDA, órgão regulador do uso de medicamento nos EUA, no ano de 2004 estabeleceu que todo paciente usuário do Carbonato de Lítio deveria ser monitorado, uma vez que existem efeitos adversos relacionados ao metabolismo como o DM, obesidade e dislipidemia. O lítio utiliza-se da bomba sódio-potásio para transpor a mem- brana do eritrócito; não se liga as proteínas, passando direto do san- gue para os tecidos, chegando de forma mais rápida aos rins, fígado e pele; e de forma mais lenta aos ossos, músculos e cérebro. Ele é muito ágil na passagem pelas membranas celulares e também em Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 182 06/10/2014 16:28:20 183 POTENCIAL TOXICIDADE DO CARBONATO DE LÍTIO sua distribuição pelos fluídos corporais intra e extracelulares; possui um equilíbrio dinâmico entre os tecidos e o soro, o que torna possível realizar a dosagem sérica do lítio presente no organismo (VIEIRA et al., 2006; LEAL; FERNANDES, 2010). Os medicamentos antipsicóticos, podem aumentar a entrada do lítio no interior das células vermelhas do sangue levando a um au- mento da concentração eritrocitária de lítio e a uma possível toxici- dade celular (CERQUEIRA et al., 2008). É um sal altamente solúvel em água e não metabolizado pelo organismo, sua excreção é basicamente renal (variando conforme o peso e a idade do paciente); sendo que 80% do lítio filtrado é reab- sorvido, e cerca de 1% excretado nas fezes; sua clearance é de cer- ca de 15 a 30 ml/mim (aproximadamente 20% da creatinina) (VIEIRA et al., 2006; MENDES, 2008; LEAL; FERNANDES, 2010). Ele possui uma similaridade com elementos como o sódio, potás- sio, cálcio e magnésio; hipótese que justificaria a elevação dos níveis de serotonina e diminuição dos níveis de norepinefrina, alterando as- sim as concentrações de dopamina, ácido g-aminobutírico (GABA) e acetilcolina do metabolismo (MACHADO-VIEIRA, 2003). Para Soares (2010), o excesso de lítio no organismo pode decor- rer em três situações: níveis de (1,5 mEq/L a 2 mEq/L) pode ocasio- nar náuseas, tremores finos e diarréia; de (2 mEq/L a 3 mEq/L) pode apresentar vômitos, diarréia, sedação, ataxia, polidipsia e poliúria; e por fim níveis séricos acima de 3 mEq/L que são potencialmente fatais e passíveis de hemodiálise em regime de internação intensiva, podendo ocorrer dano neurológico irreversíveis com seqüelas gra- ves. Já Pardini (2003) considera tóxicos níveis acima de 1,5 mEq/L através das dosagens do método eletrodo sedativo. Os efeitos colaterais observados por Dias et al. (2006), apontam que os maiores danos se referem ao sexo feminino, podendo ser comparado nos seguintes dados: tremores (homens 54% e mulheres 26%), ganho de peso no primeiro ano de tratamento (homens 18% e mulheres 47%), desenvolvimento de hipotireoidismo (homens 9% e mulheres 37%). Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 183 06/10/2014 16:28:20 184 LETÍCIA APARECIDA NASCIMENTO DO CARMO - JULIANA FOLETTO FREDO RONCATO O lítio produz diversos efeitos colaterais, que variam de acordo com o sexo, a idade e o metabolismo de cada paciente; os mais comuns descritos são o DM, aumento do peso corporal, hipertensão arterial, tremores finos, diarréia, náuseas, tonturas, fraqueza muscu- lar, poliúria e dislipidemia (MARCOLAN; URASAKI, 1998; ROSA et al., 2006; VIEIRA et al., 2006). Para que se possa prevenir alguns efeitos colaterais e até mes- mo a intoxicação, o monitoramento do lítio através de exames labo- ratoriais é de fundamental importância, pois somente através deles o médico consegue analisar os efeitos que o mesmo está produzindo no organismo do paciente; uma vez que esses níveis estejam acima do pré-estabelecido como normal (0,6 mEq/L a 1,2 mEq/L) na cor- rente sanguínea pode tornar-se tóxico ou fatal ao paciente (ROSA et al., 2006; CERQUEIRA et al., 2008). Essas dosagens podem ser feitas do plasma, do soro, da urina e dos fluídos corporais, através da fotometria de chama e espectrofotometria de absorção atômica (LEAL; FERNANDES, 2010). Conforme Pardini (2003), a dosagem dos sais de lítio são úteis na monitorização dos níveis terapêuticos e toxicidade, porém a co- leta deve ser realizada 12 horas após a ingesta da última dose do medicamento. Em gestantes é grande a preocupação quanto ao uso do lítio, uma vez que estas pacientes não podem deixar de fazeruso do medicamento neste período. A exposição do feto ao lítio no primeiro trimestre da gestação aumenta o risco de malformações cardíacas, distúrbios do ritmo cardíaco, dificuldade respiratória, cianose, diabe- tes insipidus nefrogênico, disfunção da tireóide, hipoglicemia, hipo- tonia, letargia, hiperbilirrubinemia e bebês grandes para idade ges- tacional. É importante o monitoramento sérico destas pacientes do início até o último mês de gestação (BLAYA, 2005; DIAS et al., 2006). Embora se diga que a amamentação traz benefícios ao recém- nascido, há casos em que se dever medir o risco/benefício, uma vez que cerca de 40% da concentração sérica do lítio da mãe passa para o bebê através do leite e por esse motivo que a American Academy of Pediatrics Commitee on Drugs contra-indica a amamentação nes- ses casos. Ressaltamos que é recomendado também que se faça o Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 184 06/10/2014 16:28:20 185 POTENCIAL TOXICIDADE DO CARBONATO DE LÍTIO monitoramento nas crianças que tiveram contato com o lítio durante sua vida embrionária e/ou amamentação, a cada seis a oito sema- nas, bem como os níveis de TSH, uréia e creatinina, com a finalidade de evitar efeitos nocivos do medicamento as mesmas (BLAYA, 2005; BRASIL, 2010). 2. MATERIAIS E MÉTODOS 2.1. Caracterização da Pesquisa O presente estudo trata-se de uma pesquisa exploratória, com estudo de caso de uma paciente que sofreu intoxicação por Lítio. 2.2. Amostra A amostra do estudo de caso será constituída por uma paciente com 42 anos de idade, sexo feminino, portadora da doença classifi- cada no CID 10 sob o código F 31 (TRANSTORNO AFETIVO BIPO- LAR). 2.3. Procedimentos O quadro clínico da paciente será avaliado com base em exames laboratoriais, como Hemograma, Creatinina, Sódio, Lítio e TSH. 2.4. Relato de Caso Clínico Paciente do sexo feminino, 42 anos, branca, interna no Hospital de Caridade da cidade de Santo Ângelo, no dia 03 de novembro de 2009. Diagnóstico de Transtorno Afetivo Bipolar com episódio atual de- pressivo grave, alucinações auditivas e visuais, idéias delirantes per- sistentes, tontura e Pressão Arterial (P.A.) de 90 mmHg x 50 mmHg. Submetida à exames laboratoriais constatou-se as seguintes al- terações: Hemácias 3,25 milhões/mm3 e Hemoglobina 10,8 g/dl (ane- mia); Leucócitos Totais 16.400 mm3 (leucocitose); Creatinina 2,2 mg/ dl; Sódio 128 mEq/L (Hiponatremia); Lítio 2,50 mEq/L (intoxicação); TSH Ultra-sensível 8,97 µUI/mL. Nos demais exames solicitados os resultados foram considerados dentro dos valores de referência: Gli- Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 185 06/10/2014 16:28:20 186 LETÍCIA APARECIDA NASCIMENTO DO CARMO - JULIANA FOLETTO FREDO RONCATO cose 78 mg/dl; Transaminase Oxalacética (AST) 17 U/L; Transami- nase Pirúvica (ALT) 11 U/L; Potássio 3,7 mEq/L. Na prescrição médica constava a administração total diária de Imipramina 150mg; Carbolitium 900mg; Clorpromazina 25mg; Ris- peridona 6mg; Enalapril 10mg pela manhã; Furosemida 20mg pela manhã e Haldol I.M. se agitação. Com base no resultado dos exames laboratoriais realizados no dia da internação, fez-se necessário suspender a Furosemida e o Carbolitium e, encaminhar a paciente para seção de hemodiálise já no dia seguinte a internação devido a intoxicação por lítio associada à interação medicamentosa com diurético e anti-hipertensivo. No terceiro dia da internação a paciente começou a apresentar melhora no quadro clínico, após a primeira seção de hemodiálise; o Carbolitium 300mg foi suspenso e substituído pela Carbamazepina 100mg a noite como estabilizador do humor; foi suspenso o Enalapril 10mg e manteve-se as demais medicações prescritas na internação. Foi realizada a segunda seção de hemodiálise e sua P.A. era de 160mmHg x 100mmHg. No quarto dia de internação continuou apresentando evolução do quadro clínico, respondeu bem a segunda seção de hemodiálise, porém P.A. permanece 160mmHg x 100mmHg. No quinto dia a paciente permanece tomando a medicação ha- bitual e realizando seções de hemodiálise diária, evoluindo em seu quadro clínico. No sexto dia de internação paciente estava melhor clinicamente; foi solicitado as dosagens de Uréia 15 mg/dl; Creatinina 1,0 mg/dl; Lítio 0,60 mEq/L e TSH Ultra-sensível 8,97 µUI/mL com o intúito de averiguar se o processo de desintoxicação estava funcionando. Devido a resposta orgânica positiva ao tratamento e as seções de hemodiálise, os níveis séricos da Creatinina e do Lítio normali- zaram e a paciente recebeu alta médica; passando a utilizar a Car- bamazepina 100mg em substituição ao Carbolitium 300mg desde o terceiro dia de internação. Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 186 06/10/2014 16:28:20 187 POTENCIAL TOXICIDADE DO CARBONATO DE LÍTIO 3. DISCUSSÃO Desde meados do século XX o Lítio é usado como o estabilizador de humor clássico, por conter propriedades anti-maníacas (VIEIRA et al., 2006). Embora haja outras opções terapêuticas para o trata- mento do TAB, nenhum dessas drogas causam efeito superior ao do Lítio, o qual apresenta um efeito benéfico em cerca de 60% a 80% dos pacientes (MENDES, 2008). O caso clinico em questão trata de uma paciente do sexo femi- nino, adulta, portadora de sofrimento psíquico há muitos anos, em acompanhamento médico, que passa a apresentar quadro de aluci- nações auditivas, visuais, idéias de perseguição, oscilações na P.A. e; nos resultados dos exames laboratoriais realizados ao primeiro dia de sua internação, foram observadas diversas alterações, dentre elas, uma intoxicação pelo Carbonato de Lítio. Pardini (2003) afirma que os níveis de lítio aumentado podem es- tar relacionados a insuficiência renal, desidratação, hiponatremia; e ao uso de alguns medicamentos, tais como: diuréticos, inibidores da ECA, haloperidol, clorpromazina e antiinflamatórios não esteróides. Soares (2010) descreve que o lítio em níveis superiores a 3 mEq/L é potencialmente fatal e passível de seções de hemodiálise em ca- ráter de internação intensiva. A paciente em estudo, no momento da internação fazia uso de diurético, anti-hipertensivo, clorpromazina e haloperidol quando em estado de agitação, dentre suas medicações de uso contínuo; fato que justificaria os níveis elevados de lítio em seu organismo 2,50 mEq/L e as seções de hemodiálise que foram realizadas para desintoxicar o organismo da paciente. Os rins tem papel fundamental na absorção e excreção do lítio, pois cerca de 80% do lítio é reabsorvido pelo organismo e a clearan- ce do lítio cerca de 20% da creatinina (LEAL; FERNANDES, 2010). Sendo por esse motivo que a Creatinina da paciente apresentava-se elevada: 2,2 mg/dl, uma vez que os rins não estavam em seu funcio- namento normal. Quando o sódio está em seus níveis normais no organismo, os rins conseguem fazer a excreção do lítio com uma meia vida apro- ximada de 24 horas; porém, se o sódio estiver com níveis baixos o Saúde Integrada 2010_Biomedicina.indd 187 06/10/2014 16:28:20 188 LETÍCIA APARECIDA NASCIMENTO DO CARMO - JULIANA FOLETTO FREDO RONCATO lítio é depurado com menos efetividade do organismo (MARCOLAN; URASAKI,1998). Conforme os resultado dos exames laboratoriais solicitados pelo médico no primeiro dia da internação da paciente em relato, observou-se que a mesma estava com hiponatremia, pois seu nível de sódio encontrava-se a baixo do valor de referência, com re- sultado de 128 mEq/L e também apresentava hipercreatinemia uma vez que os valores de referência para idade e sexo são de 0,5 mg/dL a 1,1 mg/dL e o resultado de sua dosagem era de 2,2 mg/dL. O tratamento com lítio provoca alterações na função tireoidiana, podendo afetar cerca de 35% dos usuários. Trata-se de um medi- camento que altera os níveis do TSH; e é responsável por 4% a 60% dos relatos de bócio (LEAL; FERNANDES, 2010; DEMÉTRIO, 2010). A literatura aponta que o lítio causa alterações na função ti- reoideana, induzindo a diminuição da sua produção. Observou-se no caso estudado