Prévia do material em texto
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 4 Funções da linguagem 100 Texto para a questão 6. A pergunta era imprudente, na ocasião em que eu cuidava de transferir o embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal ou único da minha repulsa ao seminário era Capitu, e fazer crer improvável a viagem. Compreendi isto depois que falei; quis emendar-me, mas nem soube como, nem ele me deu tempo. — Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela... Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo. A notícia de que ela vivia alegre, quan- do eu chorava todas as noites, produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se entendermos que a audiên- cia aqui não é das orelhas senão da memória, chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro amor. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria de Capitu, o que é que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando, mas retive-me a tempo, e depois outra ideia... Outra ideia, não, ― um sentimento cruel e desconhe- cido, o puro ciúme, leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo as palavras de José Dias: «Algum peralta da vizinhança». Em verdade, nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nela, dela e para ela, que a intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade; nunca me acudiu que havia peraltas na vizinhança, vária idade e feitio, grandes passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capi- tu, ― e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim, um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do outro pelo espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas certo. “Uma ponta de Iago”, Dom Casmurro, Machado de Assis 6 Mackenzie 2018 Assinale em qual trecho podemos en- contrar o recurso da metalinguagem. A “Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo as pa- lavras de José Dias: «Algum peralta da vizinhança». b “A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante.” C “Há alguma exageração nisto; mas o discurso hu- mano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se.” d “Em verdade, nunca pensara em tal desastre.” E “Separados um do outro pelo espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas certo.” 7 Comente os recursos que caracterizam a função poética no texto a seguir. O não me irrita O sim me excita 8 ITA Assinale a opção que apresenta a função da linguagem predominante nos fragmentos a seguir. Sentavam-se no que é de graça: banco de praça pú- blica. E ali acomodados, nada os distinguia do resto do nada. Para a grande glória de Deus. Ele: – Pois é. Ela: – Pois é o quê? Ele: – Eu só disse “pois é”! Ela: – Mas “pois é” é o quê? Ele: – Melhor mudar de conversa porque você não me entende. Ela: – Entender o quê? Ele: – Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto e já. Clarice Lispector. A hora da estrela. A Poética b Fática C Referencial d Emotiva E Conativa 9 Aponte a função da linguagem predominante nos tex- tos a seguir. a) O termo hesitar dá margem a uma ambiguidade: ele pode simplesmente descrever que, naquele momento preciso, houve uma pausa, e, ainda, que essa pausa tem um valor semântico específico: eu faço uma pausa, eu hesito, para criar um determinado efeito de sentido sobre o meu interlocutor, que pode ser, por exemplo, o de envolver a frase em um certo suspense. Na verdade, sempre é assim: toda pausa, ou, de modo mais geral, todo acontecimento linguístico participa do sentido que possa vir a ter; se eu ouço uma frase, que, portan- to, é enunciada de uma determinada maneira, eu não a interpreto como se eu a ouvisse de uma outra maneira, dita em outra situação, por um outro interlocutor [...] Alcir Pécora. Problemas de redação, Martins Fontes, p. 33. b) Amarás a Deus sobre todas as coisas Não tomarás seu santo nome em vão Guardarás os domingos e feriados Honrarás pai e mãe Não matarás Não pecarás contra a castidade Não furtarás... Os Dez Mandamentos. c) Ligue-se! Com o Palm III, dá para mandar e-mail, checar a agen- da, consultar bancos de dados, navegar pela Web... tudo por menos de 1.000 reais. Revista Info, capa, n. 150, set. 1998. Texto para as questões de 10 a 12. Sexa – Pai... – Hmmm? – Como é o feminino de sexo? – O quê? – O feminino de sexo. – Não tem. PV_2021_LU_ITX_FU_CAP4_LA.INDD / 15-09-2020 (09:16) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL PV_2021_LU_ITX_FU_CAP4_LA.INDD / 15-09-2020 (09:16) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL FR EN TE Ú N IC A 101 – Sexo não tem feminino? – Não. – Só tem masculino? – É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino. – E como é feminino de sexo? – Não tem feminino. Sexo é sempre masculino. – Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino e feminino. – O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra “sexo” é masculina. O sexo masculino, o sexo feminino. – Não devia ser “a sexa”? – Não. – Por que não? – Porque não! Porque não. “Sexo” é sempre mas- culino. – O sexo da mulher é masculino? – É. Não! O sexo da mulher é feminino. – E como é o feminino? – Sexo mesmo. Igual ao do homem. – O sexo da mulher é igual ao do homem? – É. Quer dizer... Olha aqui. Tem o sexo masculino e o sexo feminino, certo? – Certo. – São duas coisas diferentes. – Então como é o feminino de sexo? – É igual ao masculino. – Mas não são diferentes? – Não. Ou, são! Mas a palavra é a mesma. Muda o sexo, mas não muda a palavra. – Mas então não muda o sexo. É sempre masculino. – A palavra é masculina. – Não. A “palavra” é feminina. Se fosse masculino seria “o pal...” – Chega! Vai brincar, vai. O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta: – Temos que ficar de olho nesse guri... – Por quê? – Ele só pensa em gramática. Luis Fernando Veríssimo. “Sexa”. In: Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 53-4. © by Luis Fernando Veríssimo. 10 Aponte os trechos em que se empregou a função fática. 11 Qual é o significado da expressão “ficar de olho”, pre- sente na antepenúltima fala? A que nível de linguagem pertence tal expressão? 12 Sobre o que se sustenta o humor do texto? Texto para a questão 13. A imagem da negra e do negro em produtos de beleza e a estética do racismo Resumo: Este artigo tem por finalidade discutir a re- presentação da população negra, especialmente da mulher negra, em imagens de produtos de beleza presentes em comércios do nordeste goiano. Evidencia-se que a presen- ça de estereótipos negativos nessas imagens dissemina um imaginário racista apresentado sob a forma de uma estética racista que camufla a exclusão e normaliza a inferiorização sofrida pelos(as) negros(as) na sociedade brasileira. A análise do material imagético aponta a desvalorização estética do negro, especialmente da mulher negra, e a idealização da beleza e do branqueamento a serem alcançados por meio do uso dos produtos apresentados. O discurso midiático- -publicitário dos produtos de beleza rememora e legitima a prática de uma ética racista construída e atuante no co- tidiano. Frente a essa discussão, sugere-se que o trabalho antirracismo, feito nos diversos espaços sociais, considere o uso de estratégias para uma “descolonização estética” que empodere os sujeitos negros por meio de sua valo- rização estética e protagonismo na construção de uma ética da diversidade. Palavras-chave: Estética, racismo, mídia, educação, diversidade. SANT'ANA, J. A imagem da negra e do negro em produtos de beleza e a estética do racismo. Dossiê: trabalho e educação básica. Margens Interdisciplinar. Versão digital.Abaetetuba, n. 16. jun. 2017 (adaptado). 13 Enem 2018 O cumprimento da função referencial da linguagem é uma marca característica do gênero re- sumo de artigo acadêmico. Na estrutura desse texto, essa função é estabelecida pela A impessoalidade, na organização da objetividade das informações, como em “Este artigo tem por fi- nalidade” e “Evidencia-se”. b seleção lexical, no desenvolvimento sequencial do tex- to, como em “imaginário racista” e “estética do negro”. C metaforização, relativa à construção dos sentidos figurados, como nas expressões “descolonização estética” e “discurso midiático-publicitário”. d nominalização, produzida por meio de processos derivacionais na formação de palavras, como “infe- riorização” e “desvalorização”. E adjetivação, organizada para criar uma terminolo- gia antirracista, como em “ética da diversidade” e “descolonização estética”. Texto para a questão 14. Ciência é uma das formas de busca de conhecimen- to desenvolvida pelo homem moderno. Sob seu escopo inserem-se as mais diferentes realidades físicas, sociais e psíquicas, entre outras. A linguagem, manifestação presente em todos os momentos de nossas vidas e em todas as nossas atividades, podendo até ser tomada como definidora da pró- pria natureza humana, passou a ser tratada sob a perspectiva dessa forma de conhecimento, ou seja, passou a ser objeto de investigação científica, a partir do início do século XX. Por ter um papel central na vida dos seres humanos, a linguagem tem como sua característica primordial ser multifacetada. Tal característica exige que, ao submeter-se ao tratamento científico, essa realidade multifacetada sofra cortes e abstrações, tendo como consequência o fato de que ela só pode ser entendida a partir de diferentes pers- pectivas, gerando uma pluralidade de teorias que buscam compreendê-la e explicá-la. Esmeralda Vailati Negrão, “A cartografia sintática”, em Novos caminhos da Linguística PV_2021_LU_ITX_FU_CAP4_LA.INDD / 15-09-2020 (09:16) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL PV_2021_LU_ITX_FU_CAP4_LA.INDD / 15-09-2020 (09:16) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 4 Funções da linguagem 102 14 Mackenzie 2017 Assinale a alternativa correta. A O texto encontra na exploração das possibilidades estéticas de uso da linguagem sua principal característica. b Marcas de interação com o leitor evidenciam que a função fática é a predominante no texto. C A presença de índices de subjetividade, como o uso destacado da 1ª pessoa, indica que a função expressiva está em destaque no texto. d A linguagem objetiva e direta é uma das características que possibilitam definir a função referencial como a pre- dominante no texto. E Como o texto trata de características da própria linguagem humana, pode-se afirmar que a função conativa é a predominante, dando prioridade a dados concretos e fatos. Texto para a questão 15. Em 1934, um redator de Nova York chamado Robert Pirosh largou o emprego bem remunerado numa agência de pu- blicidade e rumou para Hollywood, decidido a trabalhar como roteirista. Lá chegando, anotou o nome e o ende- reço de todos os diretores, produtores e executivos que conseguiu encontrar e enviou-lhes o que certamente é o pedido de emprego mais eficaz que alguém já escreveu, pois resultou em três entrevistas, uma das quais lhe rendeu o cargo de roteirista assistente na MGM. Prezado senhor: Gosto de palavras. Gosto de palavras gordas, untuosas, como lodo, torpitude, glutinoso, bajulador. Gosto de palavras solenes, como pudico, ranzinza, pecunioso, valetudinário. Gosto de palavras espúrias, enganosas, como mortiço, liquidar, tonsura, mundana. Gosto de suaves palavras com “V”, como Svengali, avesso, bravura, verve. Gosto de palavras crocantes, quebradiças, crepitantes, como estilha, croque, esbarrão, crosta. Gosto de palavras emburradas, carrancudas, amuadas, como furtivo, macambúzio, escabioso, sovina. Gosto de palavras chocantes, exclamativas, enfáticas, como astuto, estafante, requintado, horrendo. Gosto de palavras elegantes, rebuscadas, como estival, peregrinação, Elísio, Alcíone. Gosto de pala- vras vermiformes, contorcidas, farinhentas, como rastejar, choramingar, guinchar, gotejar. Gosto de palavras escorregadias, risonhas, como topete, borbulhão, arroto. Gosto mais da palavra roteirista que da palavra redator, e por isso resolvi largar meu emprego numa agência de publici- dade de Nova York e tentar a sorte em Hollywood, mas, antes de dar o grande salto, fui para a Europa, onde passei um ano estudando, contemplando e perambulando. Acabei de voltar e ainda gosto de palavras. Posso trocar algumas com o senhor? Robert Pirosh Madison Avenue, 385 Quarto 610 Nova York Eldorado 5-6024. (USHER, Shaun .(Org) Cartas extraordinárias: a correspondência inesquecível de pessoas notáveis. Trad. de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 48.) 15 AFA 2020 Analisando a forma e o objetivo do texto, é correto afirmar que A a linguagem utilizada é acentuadamente formal, já que o remetente está em um contexto que necessita desse tipo de tratamento. b para convencer o destinatário, Robert utilizou, ao longo da carta, discurso direto, caracterizando assim um tom de proximidade e amizade com o receptor. C o texto é marcadamente denotativo, possibilitando ao destinatário perceber a versatilidade linguística do reme- tente. d a carta se utiliza de elementos da função emotiva – centrada no emissor – ainda que a intenção predominante do autor seja a função apelativa – conquistar o receptor. PV_2021_LU_ITX_FU_CAP4_LA.INDD / 15-09-2020 (09:16) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL PV_2021_LU_ITX_FU_CAP4_LA.INDD / 15-09-2020 (09:16) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL