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O leitor pode estar certo 
de que o doutor Gilberto não 
apresenta suas próprias 
teorias. Ao ler o seu livro, 
fiquei sobremodo feliz ao 
confirmar o fato de que o 
que ele expõe é mesmo o 
ensino de Jesus Cristo. O 
autor aborda assuntos como 
viver em função do Reino de 
Deus, discipulado, e outros, 
que fazem parte da 
estratégia do Evangelho. 
Entre outras coisas, ele 
ensina sobre finanças no 
Reino de Deus, o conceito de 
semente, de plantar, de 
receber para dar, de ser 
canal de bênção materiais 
para outros. Foi muito útil 
para mim mesmo, e o será 
para todos os que lerem este 
livro. Em nosso Brasil, 
temos de proclamar esse 
ensino, o que será de grande 
benefício para as vidas em 
particular, para os lares, 
para as igrejas locais, e para 
o ministério de missões 
exercido por brasileiros. 
Jonathan F. Santos 
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Nesta Batalha, 
a única opção é 
vencer. 
Aprenda a lutar 
corretamente! 
Gilberto Pickering 
Missionário, teólogo, 
doutor em lingüística 
pela Universidade de 
Toronto, Canadá, 
membro da Associação 
Wycliffe para a 
Tradução da Bíblia, 
autor dos livros: The 
Identity of lhe New 
Testament Text e A 
Framework for 
Discouse Analysis 
Gilberto Pickering 
GUERRA 
ESPIRITUAL 
CBO 
Todos os Direitos Reservados. Copyright © 1987 para a lingua portu­
guesa da Casa Publicadora das Assembléias de Deus. 
248.4 Pickering, Gilberto, 1934-
PIGg Guerra espiritual; estratégias missionárias de Cristo. 
Rio de Janeiro, CPAD, 1987. 
Iv. 
1. Vida Espiritual. 2. Vida cristã. 3. 
Missão. I. Pickering, Wilbur (Gilberto) 
Norman. II. Título. 
Casa Publicadora das Assembléias de Deus 
Caixa Postal 331 
20001, Rio de Janeiro, RJ, Brasil 
10.000/1987 
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1. R< . ao S « i o r por obreiros , 
A ir JeiBsaiém... e os confins da Terra H — 17 
ida oa 
; ' " i p ^ ^ não meramente convertidos 
ri. Viver in^Hclo reino, não para si 
p l H e s do poder de Satanás 
w. ^ H H 
Conclusão S m - • •••••• H ^ M 
Apêndice - A HeflBda vinda de Cristo — • • L ™™fll 
' 5 
ÍNDICE DAS ABREVIATURAS 
USADAS NESTE LIVRO 
VELHO TESTAMENTO 
Gn - Gênesis 
Ex - Êxodo 
Lv - Levítico 
Nm - Números 
Dt - Deuteronômki 
Js - Josué 
Jz - Juizes 
Rt - Rute 
1 Sm - 1 Samuel 
2 Sm - 2 Samuel 
1 Rs - 1 Reis 
2 Rs - 2 Reis 
1 Cr - 1 Crônicas 
2 Cr - 2 Crônicas 
Ed - Esdras 
Ne - Neemias 
Et - Ester 
Jo - Jo 
SI - Salmos 
Pv - Provérbios 
Ec - Eclesiastes 
Ct - Can tares 
Is - Isaías 
Jr - Jeremias 
Lm - Lamentações de Jeremias 
Ez - Ezequiel 
Dn - Daniel 
Os - Oséias 
Jl - Joel 
Am - Amos 
Ob - Obadias 
Jn - Jonas 
Mq - Miquéias 
Na - Naum 
He - Habacuque 
Sf - Sofonias 
Ag - Ageu 
Zc - Zacarias 
Ml - Malaquias 
NOVO TESTAMENTO 
Mt - M a t e u s 
Mc - Marcos 
Lc - Lucas 
Jo - João 
At - Atos 
Rm - Romanos 
1 Co - 1 Coríntios 
2 Co - 2 Coríntios 
Gi - Gaiatas 
Ef - Efésios 
Fp - Fiü penses 
Cl - Colossenses 
1 Ts - 1 Tessalonicensea 
2 TB 2 Teasaionicenses 
1 Tm - 1 Timóteo 
2 Tm - 2 Timóteo 
Tt - Ti to 
Fm - Filemon 
Hb - Hebreus 
Tg - Tiago 
1 Pe - 1 Pedro 
2 Pe - 2 Pedro 
1 Jo - 1 João 
2 rJo - 2 João 
3 Jo - 3 João 
Jd - Judas 
Ap - Apocalipse 
Prefácio 
Tenho o mais profundo respeito pelo doutor Gilberto 
Norman Pickering, autor deste livro. Nosso relacionamen­
to vem desde 1975, quando estava se formando a Missão 
Antíoquia, da qual ele é um dos fundadores. Nestes anos 
tenho aprendido muito com ele. Admiro-o por sua serieda­
de em tudo, e, muito especialmente, quando se trata do 
texto bíblico. Ele está sempre querendo saber o sentido 
exato das declarações bíblicas. Admiro-o por sua integri­
dade, por sua fé, por seu espírito de sacrifício ao se dar 
para a obra do Senhor. Admiro-o por sua paixão por mis­
sões. Ele é um dos homens que mais tem batalhado no 
Brasil nestes últimos doze anos para que as igrejas evangé­
licas brasileiras se envolvam de maneira ampla na evange-
lização mundial. Seus ensinamentos sobre este assunto 
têm sido transmitidos em praticamente todas as partes do 
Brasil, e em quase todas as denominações. Na verdade, ele 
tem percorrido o Brasil de ponta a ponta com a mensagem 
de missões. Se há alguém que possa ser chamado de "A-
póstolo de Missões", essa pessoa é o amado irmão Gilberto. 
Seus ensinamentos vêm sendo assimilados por grande nú-
5 
mero de obreiros, estudantes de teologia e membros de 
igrejas. E, então, começou a surgir a pergunta - "Por que 
não colocar estes ensinamentos de forma sistematizada em 
um livro que seria muito útil para os cursos de missões no 
Brasil epara as igrejas em geral?"E o doutor Gilberto res­
pondeu positivamente, brindando-nos com esta obra, que 
considero da maior importância no preparo de obreiros 
transculturais. 
GUERRA ESPIRITUAL - Estratégia Missionária de 
Cristo - é um manual de missões. Deve ser dotado pelas es­
colas teológicas e especialmente pelos cursos de missões. Ê 
um livro texto sobre o assunto. Contudo, o pastor e os cren­
tes em geral serão também grandemente enriquecidos com 
sua leitura. 
Ao tratar da estratégia missionária de Cristo, o autor 
traz o assunto para o seu devido lugar. Podemos ter muitas 
teorias, estratégias, conhecimentos e disposições para fa­
zer a obra do Senhor no campo missionário, mas se não 
guerrearmos segundo as normas estabelecidas pelo nosso 
General, vamos falhar. Na verdade, temos falhado muitas 
vezes, exatamente por fazermos a guerra segundo nossa 
própria sabedoria. Há um inimigo nesta guerra - Satanás. 
Quem o conhece bem é o Senhor Jesus. Quem sabe como 
ele pode ser vencido é também o Senhor Jesus. Se seguir­
mos a estratégia do Grande General, vamos ter a vitória. 
Se não a seguirmos, vamos só nos cansar e ser derrotados. 
E o leitor pode estar certo de que o doutor Gilberto 
não vai dar suas próprias teorias em vez de ensinar a estra­
tégia de Jesus. Garanto que não. Eu o ouvi várias vezes e 
sempre tive a convicção de que ele estava interpretando a 
Palavra de Deus. Agora, ao ler o seu livro, fiquei sobremo­
do feliz ao se confirmar o fato de que o que ele expõe é mes­
mo o ensino da estratégia de Jesus Cristo. 
O autor aborda assuntos como, viver em função do 
Reino de Deus, discipulado, e outros, que fazem parte da 
estratégia de Cristo. Entre outas coisas, ele ensina sobre fi­
nanças no Reino de Deus. O conceito de semente, de plan­
tar, de receber para dar, de ser canal de bênçãos materiais 
para outros, foi muito útil para mim mesmo, e o será para 
6 
todos os que lerem este livro. Em nosso Brasil temos de 
proclamar esse ensino, o que será de grande benefício para 
as vidas em parpicular, para os lares, para as igrejas locais, 
e para o ministério de missões exercido por brasileiros. 
Mas para mim, a chave da estratégia de Cristo está no 
capítulo seis - "Libertar as pessoas do poder de Satanás". 
Este livro mostra que nosso trabalho é prejudicado por não 
sabermos ou não reconhecermos que Satanás prende as 
pessoas em seu domínio. Elas precisam ser trazidas "de 
volta das trevas para a luz, e do poder de Satanás para 
Deus". Para isto é necessário que o "Valente" seja amarra­
do para que os que estão sob seu domínio sejam libertados. 
Antes de pregar ou falar é preciso proibir a ingerência do 
inimigo no pensamento do ouvinte. Ele menciona seu pró­
prio exemplo, trabalhando com a Tribo Apurinã (Rio Pu-
rus, Amazônia), sendo o primeiro a disputar com Satanás 
[e para Cristo) o domínio total sobre essa nação. Confessa 
que apesar do seu mestrado em teologia, ignorava estas 
verdades, e por isto o inimigo causou tremendos males 
para ele e sua família, ao passo que os resultados alcança­
dos com a Tribo Apurinã foram mínimos. 
Com conhecimento de causa, com profundo respeito 
ao texto, e com clareza meridiano, mostra como se trava a 
guerra espiritual e como o servo de Cristo pode estar arma­
do e capacitado para prevalecer. 
Nesse momento em que estamos nos preparando para 
a realização de COMIBAM 87, esse livro vempreencher 
uma lacuna no preparo de obreiros transculturais. 0 alvo 
de COMIBAM é que pelo menos 10.000 missionários trans­
culturais sejam enviados nos próximos anos. Estes missio­
nários precisam receber essa capacitação antes de sair 
para os campos. 
Ao Dr. Gilberto, o nosso reconhecimento pelo seu ex­
celente trabalho. A Deus, o nosso louvor pela inspiração e 
graça para que esta obra fosse produzida. 
Jonathan F. Santos 
São Paulo, 08 de Junho de 1987 
7 
Introdução 
Há quase dois mil anos, nosso Salvador e Soberano Je­
sus Cristo, pouco antes de voltar para o Céu, deixou certas 
ordens para seus súditos: "Fazei discípulos em todas as et­
nias", "Pregai o Evangelho a cada pessoa", "Ser-me-eis 
testemunhas até aos confins da terra". No entanto, "a esta 
altura do campeonato", os seguidores de Jesus nem a me­
tade têm conseguido. Pois provavelmente a metade das et­
nias do mundo está por conhecer o primeiro porta-voz de 
Cristo, e dificilmente nem um terço das etnias contará 
com um verdadeiro discípulo de Cristo entre seus compo­
nentes. Metade das pessoas também (sem pensar na etnia 
à qual possam pertencer) estão por ouvir o Evangelho pela 
primeira vez, Ouvir é entender - nem se comenta. 
Que pensar diante desse quadro?! Será que o Senhor 
Jesus não esperava ser obedecido? Falou por falar, pelo 
prazer de ouvir a própria voz? Não. Certamente Ele falou 
sério. Tanto assim que a primeira geração, a dos apóstolos, 
praticamente alcançou o seu mundo: fizeram proezas. 
(Cabe lembrar que não dispunham de automóveis, aviões, 
rádio, televisão, computadores, etc.) Mesmo assim alcan-
9 
çaram seu mundo, começando com um punhado de gente. 
Conseguiram tudo isso exatamente porque levaram a sério 
as ordens de Cristo, inclusive entendendo o efeito estraté­
gico dessas ordens. Mas, infelizmente, com o passar dos 
anos a Igreja foi perdendo essa visão das coisas que os 
apóstolos receberam de Jesus. Como conseqüência trágica, 
de lá para cá as ordens de Cristo nesse sentido caíram no 
desuso e na incompreensão. Sim, na incompreensão, pois 
hoje em dia muitos que imaginam estar obedecendo a uma 
ou a outra ordem não entendem o sentido certo da ordem e 
muito menos o efeito estratégico dela. 
Mas, se os apóstolos conseguiram alcançar seu mun­
do, numa geração, por que não fazermos nós o mesmo? Por 
que não repetimos a façanha? Creio, sinceramente, que 
para tanto bastará recuperarmos a estratégia missionária 
de Cristo, contidas nas suas ordens, e orientarmos nossas 
vidas e nossos ministérios nessa base. Creio que poderemos 
terminar de alcançar o mundo dentro de quinze anos! 
Aliás, tudo me leva a crer que Jesus vem aí e o tempo está 
ficando pouco. Bastaria para tanto, quem sabe, Lucas 
21.24, pois entendo que Jerusalém deixou de ser '"pisada 
pelos gentios", no sentido profético da palavra, no ano de 
1967 quando pela primeira vez desde que Jesus proferiu es­
sas palavras a cidade de Jerusalém voltou ao controle da 
nação de Israel. E, "quando virdes acontecer estas coisas, 
sabei que o reino de Deus está perto. Em verdade vos digo 
que não passará esta geração até que tudo aconteça" (Lc 
21.31,82). (Á interligação entre missões transculturais e a 
volta de Cristo é esmiuçada no Apêndice.) 
Torno a afirmar: Se, de forma geral, a partir de agora, 
o nosso povo evangélico acertar e seguir a estratégia mis­
sionária de Cristo, poderemos terminar de alcançar o mun­
do dentro de 15 anos. Senão, vejamos, 
10 
1 
Rogar ao 
Senhor por Obreiros 
Vamos começar com as palavras do Senhor Jesus 
Cristo que encontramos em Mateus 9.37,38: "A seara é 
realmente grande, mas poucos os ceifeiros. Rogai pois ao 
Senhor da seara que mande ceifeiros para a sua seara." 
A Grande Seara 
Esta palavra, endereçada a seus discípulos, começa 
por comentar a seara que temos pela frente - é muito gran­
de. Se foi grande há dois milênios, calcule agora! Em Ma­
teus 28.19, o Senhor Jesus manda fazer discípulos em "to­
das as nações". Essa palavra "nação" é tradução da pala­
vra grega que serve de base para as nossas palavras "et­
nia", "étnico", "etnólogo". Encontramos a mesma palavra 
em Apocalipse 5.9 associada às palavras "povo", "língua" 
e "tribo". (Ver também Ap 7.9; 11,9; 14.6). Quer dizer exa­
tamente uma etnia, um povo definido em termos étnicos. 
Qualquer povo que se distingue dos demais povos do mun­
do em matéria de línguas e cultura é uma "nação" para 
efeito da grande comissão missionária de Jesus contida em 
Mateus 28.19. 
11 
Pois bem, já que ele manda fazermos discípulos em 
todas elas, quantas será que existem no mundo hoje? De­
pende. A cifra muda, conforme a fonte consultada e os cri­
térios adotados. O grupo de estudiosos do Centro Estadu­
nidense para Missão Mundial, liderado por Ralph Winter, 
que tanto tem feito para conscientizar o povo de Deus 
acerca dos "povos não-alcançados" do mundo, nos afirma 
que deve haver por volta de 16 mil etnias, isso os não-
alcançados. Se acrescentássemos os povos onde já existe 
trabalho evangélico não sei que cifra daria. Sucede que 
esse grupo define "povo" em termos culturais e econômi­
cos. Com isso vários desses povos podem ter o mesmo idio­
ma. Já o grupo para tradução da Bíblia Wycliffe, que já 
trabalhou junto a mais de mil grupos lingüísticos ao redor 
do mundo, prefere definir um povo em termos de língua. 
Assim, o Ethnoloque publicado por eles traz nome por 
nome mais de 5.500 línguas faladas hoje no mundo. Acon­
tece que os colegas que preparam esse catálogo declarada­
mente preferem errar por baixo, trabalhando com dados 
mais ou menos seguros. Mas existe áreas do mundo onde 
faltam tais dados e a tendência é de acrescentar mais 
línguas. Pessoalmente não duvido existirem pelo menos 
6.000 línguas distintas no mundo, das quais umas 200 no 
Brasil. Entendo que para efetivamente cumprirmos Ma­
teus 28.19 teremos de traduzir a Palavra de Deus para to­
das essas línguas, por razões que explico no capítulo IV, e, 
assim, prefiro definir "nação" em termos de língua e cultu­
ra. São, pois, pelo menos 6.000 etnias no mundo hoje. 
Em Marcos 16.15, o Senhor Jesus mandou pregarmos 
o Evangelho a cada pessoa. Em julho de 1986, os jornais 
noticiaram que nesse mês a população do mundo teria 
atingido a casa de cinco bilhões de pessoas. Cinco bilhões; 
é difícil imaginar tanta gente! Mas aí estão. Eis a nossa 
seara. E como é grande! Seis mil etnias e cinco bilhões de 
pessoas. 
Os Poucos Ceifeiros 
Voltando a Mateus 9.37, o Senhor Jesus passa a decla­
rar que os ceifeiros são poucos. Bem, não é difícil imaginar 
que diante de tamanha seara os obreiros não deixariam 
12 
nunca de ser "poucos". Aiiás, parece-me que muitos cren­
tes estão conformados diante da expectativa de nunca al­
cançarmos o mundo: já "entregaram os pontos". 
O fato é que a esta altura dos acontecimentos os obrei­
ros não somente são poucos, mas para muitos lugares e po­
vos não existentes. Simplesmente não há obreiros. Creio 
ser verdade dizer que para a metade das etnias no mundo 
hoje, 3.000 das 6.000, portanto, não há um único porta-voz 
de Cristo sequer, ainda. No Brasil também, das 200 etnias 
indígenas do país, umas 100 não têm trabalho evangélico 
ainda. 
- E quanto às pessoas? - É o mesmo quadro calamito­
so. Os que pesquisam o assunto nos afirmam que a metade 
das pessoas no mundo hoje, dois bilhões e meio, portanto, 
estariam por ouvir o Evangelho de Cristo uma vez. Eis aí 
uma calamidade pública do tamanho do mundo. Quer me-
çamos por indivíduo, quer meçamos por etnia, é isso aí: 
meio mundo por ouvir, metade das nações étnicas sem 
obreiro. E isso após quase dois mil anos de a Igreja de Cris­
to estar na terra. 
É verdade que o quadro vem melhorando. As estatísti­
cas há 200 anos eram muito piores. Os esforços missioná­
rios dos últimos 200 anos têm produzido grande efeito. Na 
África e na Ásia, a Igreja cresce de forma impressionante. 
Só o grupo Wycliffe tem trabalhado junto a mais de mil et­
nias (um sexto do total), e isso nos últimos 50 anos. Atual­
menteo trabalho começa junto a mais uma etnia cada 
quinzena, em média. Embora essa informação possa repre­
sentar uma surpresa agradável para o leitor, temos de me­
lhorá-la, pois nessa marcha ainda vai nos custar mais de 
cem anos para alcançar a última nação. Temos de melho­
rar, pois dificilmente Deus nos dará esse tempo todo. 
A Estratégia Missionária 
Vem ao caso a ordem, a estratégia, que encontramos 
em Mateus 9,38: Rogar ao Senhor da seara por obreiros. É 
totalmente necessário que haja obreiros para cada povo, 
para cada lugar (por razões que explico nos capítulos III e 
VI), e o remédio que Jesus prescreve é rogar ao Senhor da 
13 
seara por obreiros. Observem que estamos diante duma or­
dem. Não é ponto facultativo. Jesus manda rogarmos por 
obreiros. - Mas será que estamos obedecendo a esta or­
dem? Ao menos a esta, pois, aparentemente, é uma ordem, 
à qual qualquer crente pode obedecer. Na sua igreja, vocês 
estão obedecendo a esta ordem? Ao menos dominicalmen­
te? Se não, por que não? - Então, vamos começar agora? E 
na sua vida particular, será que não daria para gastar um 
minuto por dia, digamos quando levanta, ao pentear o ca­
belo, clamar a Deus por obreiros para o mundo perdido, 
para as etnias que nunca foram alcançadas? Vejam que 
ninguém pode dizer que é pobre demais para poder orar, 
que não tem cultura suficiente para poder orar. Qualquer 
crente pode orar, por mais simples que possa ser. - Certo? 
Estamos, pois, diante de pelo menos urna ordem de Cristo 
que está ao alcance de todos, No entanto, parece existir al­
guma dificuldade, pois devem ser relativamente poucos os 
que estão obedecendo a esta ordem. Para entender melhor 
vamos à estratégia. 
Qual será o conteúdo estratégico da ordem? Bem, se 
eu vou rogar a Deus por obreiros eu devo ser sincero, não 
acha? Eu precisava ser coerente, será que não? Pois então, 
se eu, de forma sincera e coerente, clamar a Deus por 
obreiros tenho de estar pronto a ouvir, eu mesmo, a respos­
ta. Pois um belo dia Deus pode dizer para mim: "Está cer­
to, meu filho, estou ouvindo seu clamor. Agora, um dos 
que vou enviar é você!" Será que não? Ou então vem a voz 
de Deus: "Você não irá a outro povo, mas tem de contri­
buir mais do que vem contribuindo para ajudar a sustentar 
os que vão," E certamente Deus vai cobrar mais interces-
são de todos. Aí está o efeito estratégico desta ordem. Se 
cada crente evangélico obedecesse ao menos a esta ordem 
de maneira sincera e coerente, não faltaria obreiro, não fal­
taria dinheiro para sustentar os obreiros e nem faltaria in-
tercessão, apoio espiritual para garantir a obra. Tomaría­
mos o mundo de assalto! Só que não está acontecendo, não 
é? Eis o problema - obedecer a esta ordem requer compro­
misso. Refletindo um pouco, fica claro que nem a esta or­
dem de Jesus podemos obedecer, realmente, sem termos 
compromisso verdadeiro com Ele. 
14 
Creio que a cada passo vamos verificar que o proble­
ma essencial é esse: falta compromisso com Jesus e sua 
causa. Como conseqüência trágica, metade do mundo con­
tinua a perecer sem ouvir o Evangelho de Cristo Então, ir­
mãos vamos assumir compromisso total com Jesus e sua 
causa, no duro, para valer. Eis uma tremenda seara a nos­
sa espera - dois bilhões e meio de pessoas sem ouvir, J.OUO 
etnias sem obreiros - E Jesus vem ai! 
2 
Alcançar Jerusalém.., 
e os confins da terra 
Agora vamos atentar para as palavras do Senhor Jesus 
que encontramos em Atos 1.8: "Recebereis poder, ao vir 
sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tan­
to em Jerusalém, como era toda a Judéia e Samaria, e até 
aos confins da terra." São as últimas palavras que proferiu 
aqui na terra antes de voltar para o Céu, os pés já largando 
contato com o chão. Será que não escolheu com cuidado 
essas palavras? Certamente que sim e certamente Ele es­
pera que prestemos cuidadosa atenção a elas. Mesmo 
numa leitura superficial fica claro que a preocupação de 
Cristo é com o mundo inteiro. Mas além desse sentido ób­
vio, esta palavra de Jesus contém uma estratégia, uma tre­
menda estratégia, uma estratégia capaz de alcançar o 
mundo dentro de uma geração! 
A Estratégia 
Como muitas vezes acontece na Bíblia, o segredo está 
nas pequenas palavras, no caso "tanto... como., e". Obser­
ve, por favor, que Jesus não disse: "Ser-me-eis testemu­
nhas primeiro em Jerusalém, depois em toda a Judéia e 
17 
Samaria, e finalmente, se um dia sobrar tempo, mão de 
obra e dinheiro, até aos confins da terra." (Não é assim 
que estamos conduzindo a coisa, de modo geral?) Não, a 
expressão é "tanto... como... e", isto é, simultaneamente. 
Simultaneamente temos que nos esforçar para alcançar a 
nossa "Jerusalém, Judéia e Samaria" e os confins. Se um 
dia, de forma geral, as nossas igrejas evangélicas assumi­
rem efetivamente esta estratégia terminaremos de alcan­
çar o mundo nesta nossa geração. Se os Apóstolos conse­
guiram por que nós não podemos? 
Os Apóstolos, e presumivelmente a geração discípula-
da por eles, entenderam e obedeceram esta estratégia de 
Cristo. Tanto assim que naquela geração, começando com 
aquele punhado de gente (lembrando também que não dis­
punham da tecnologia moderna), praticamente consegui­
ram alcançar o seu mundo. O Apóstolo Paulo fez planos 
para alcançar a Península Ibérica. Se podemos confiar na 
tradição da Igreja, o Apóstolo Tome logrou chegar até ao 
sul da índia! Mas infelizmente após a era apostólica a Igre­
ja foi perdendo essa visão e assim ficou através dos séculos, 
até a época das missões modernas. 
Como conseqüência deplorável da perda dessa visão, 
de lá para cá, através dos séculos e até hoje a maioria das 
pessoas nascem, vivem e morrem sem uma vez ouvir falar 
de Jesus Cristo. É a maior calamidade pública de todos os 
tempos! 
Por outro lado, se através dos séculos a Igreja tivesse 
sempre seguido esta estratégia então sem muita demora a 
Palavra de Deus teria sido levada a cada povo no mundo, e 
daí para frente cada geração sucessiva que nascesse teria a 
opção de receber ou rejeitar o Evangelho. Já pensou que 
maravilha? Pois através dos séculos cada povo viria tendo 
acesso efetivo à Palavra de Deus, ao Evangelho de Cristo. 
E ainda dá, embora tarde (mas antes tarde do que 
nunca!). Vejam só. Se a partir de hoje, de forma geral, o 
povo de Deus assumir efetivamente esta estratégia então 
deve acontecer o seguinte: os muitos jovens que Deus está 
chamando receberão apoio e sustento de suas igrejas. De­
verão se preparar adequadamente, inclusive adquirindo as 
ferramentas para lidar com outras línguas e culturas 
18 
(lembrar que muitas ainda não foram estudadas). Uma 
vez preparados serão semeados pelo mundo inteiro, nas á-
reas e junto aos povos onde ainda não existe acesso efetivo 
ao Evangelho. Gastarão uns dois anos adquirindo domínio 
da língua e cultura local que permita começar a falar de 
Jesus sem perigo demasiado de promulgar heresias. Daí 
para frente deve haver conversões e o surgir de novas igre­
jas onde nunca havia. Agora, essas igrejas devem também 
abraçar a estratégia de Cristo, e com isso começarão a 
evangelizar não somente na sua "Jerusalém" mas também 
na "Judéia" e "Samaria". Dessa forma, dentro de uma ge­
ração não sobraria povo ou lugar sem acesso efetivo ao 
Evangelho de Cristo. Para exemplificar, existem tribos 
indígenas no Brasil que há poucos anos receberam pela 
primeira vez a Palavra de Deus onde os crentes já se preo­
cupam não somente com o resto da sua etnia, sua "Ju­
déia", mas inclusive, querem enviar missionários para ou­
tras tribos. (Sei que estou deixando de lado as barreiras 
políticas e religiosas que aí estão para dificultar o em­
preendimento, vou comentá-las no capítulo IV, mas nosso 
Chefe é o dono da Chave de Davi - Ap 3.7.) 
A Situação no Brasil 
Aqui eu gostaria de tecer algumas observações quanto 
à situação e ao potencial do Brasil. Será que nossas igrejas 
e lideranças evangélicas estão entendendo e seguindo esta 
estratégia missionária de Cristo? - Qual é o enfoque princi­pal das nossas igrejas? - Não seria o evangelismo local, a 
nossa "Jerusalém"? Tudo bem até aí. E a nossa "Judéia"? 
Bem, a coisa não anda totalmente mal; está havendo um 
esforço visível no sentido de abrir novos trabalhos no inte­
rior dos estados, em lugares onde ainda não tenha igreja da 
"nossa" denominação, etc. E a nossa "Samaria"? Já que a 
Samaria representava uma cultura diferente encravada no 
território judeu, proponho que consideremos os povos indí­
genas do país como sendo a nossa "Samaria". Assim sen­
do, como anda nosso desempenho? Para começar, dos mais 
de 200 grupos indígenas distintos que existem no país peío 
menos a metade não tem trabalho evangélico ainda (No 
Brasil, pois existem alguns casos onde uma etnia fronteiri-
19 
ça tem trabalho evangélico do outro lado da fronteira.) Se 
não me engano, até hoje a maioria dos missionários viven­
do e trabalhando com índios no país são de origem estran­
geira. Contudo, devem existir mais de 200 obreiros nacio­
nais agindo dessa forma. Já é alguma coisa, mas será que 
podemos ficar complacentes diante desse quadro? O in­
gresso no país de novos missionários estrangeiros vem sen­
do difícil, e os que já estão aqui muitas vezes encontram 
restrições diversas. A vantagem que o obreiro nacional leva 
é óbvia, e deve ser explorada. 
E os "confins da terra": as 3,000 etnias sem qualquer 
porta-voz de Cristo ainda, os mais de 15.000 "povos não-
alcançados"? - Como anda o empenho brasileiro nessa di­
reção? - Agora o quadro piora bastante. Pensando em mis­
sionários de carreira radicados no exterior, deixando de lado 
os estagiários e turistas diversos, creio que o total atual di­
ficilmente passará de 400. - E esses 400 estão onde e fazen­
do o quê? - A grande maioria está ministrando em língua 
portuguesa ou em espanhol. Quer dizer, ou estão na Amé­
rica do Norte (incluindo Canadá) ou na Europa pregando 
para as colônias de fala portuguesa por lá radicadas, ou es­
tão nos países vizinhos de fala espanhola, onde a língua e 
cultura é bastante parecida com a nossa. E há vários 
atuando nas outrora colônias portuguesas, pensando que a 
língua portuguesa vai resolver por lá. Creio que uma mão 
dá e sobra para contar os brasileiros que estão no exterior 
visando alcançar uma etnia até aqui abandonada. Está 
bom? 
Quero deixar bem claro que nada tenho contra o al­
cançar das colônias de fala portuguesa na Europa e na 
América do Norte, e nem dos países vizinhos. Ê certo e jus­
to que os brasileiros se preocupem com esses alvos; estou 
de pleno acordo. Poderíamos, inclusive, incrementar o es­
forço nessa direção, No entanto, parece-me necessário dar 
um alerta: "não devíamos enviar obreiros para os países 
vizinhos sem preparo específico para enfrentar uma situa­
ção transcultural. Tenho ouvido queixas amargas contra 
os nossos obreiros que lá ficam sem nunca se darem ao tra­
balho de realmente dominar a língua e se entrosar na cul­
tura. Se contentam em falar um "portunhol" qualquer, 
20 
anos a fio. Estão repetindo os mesmos erros que tanto criti­
camos da parte dos missionários que trouxeram o Evange­
lho até o Brasil. 
O Potencial do Brasil 
Meus irmãos, temos de mudar esse quadro; temos de 
nos esforçar no sentido de realizar o grande potencial que o 
povo evangélico do país representa em prol do Reino de 
Deus. Tenho ouvido estimativas um tanto variadas quanto 
ao número absoluto de crentes evangélicos no Brasil; vão 
de dez a vinte milhões, ou mais. Por formação, gosto de ser 
um pouco cauteloso com esse tipo de coisa. Vamos come­
çar pelo piso. Devem existir, sem dúvida razoável, pelo 
menos dez milhões de crentes evangélicos no país. Mas 
essa cifra coloca o Brasil no segundo lugar no mundo livre 
no que diz respeito ao número absoluto de crentes. O único 
país que tem mais é os E.U.A. (Ouço dizer que na China 
tem mais, e queira Deus que seja verdade, mas confesso 
não entender como se podem verificar tais dados.) Já pen­
sou, dez milhões de crentes? Se pudéssemos mobilizar e 
engajar todo esse pessoal em torno das estratégias missio­
nárias de Cristo, encheríamos o mundo de obreiros brasi­
leiros. 
Tem mais uma. Quem mais tem feito até aqui no ter­
reno de missões mundiais, os norte-americanos, já não en­
contram a mesma facilidade de antes. Andam um tanto 
"queimados" no conceito de muitos países. Tem país por 
lá onde o americano quase não entra, sequer como turista. 
Mas ninguém tem raiva do Brasil, pelo menos ainda. As 
portas estão abertas para o brasileiro; ele encontra mais fa­
cilidade do que muitos outros, no momento. Chegou a nos­
sa vez! 
Irmãos, vamos colaborar com o Espírito Santo! Va­
mos levar a sério as ordens de Cristo. Vamos dar respaldo a 
nossos jovens que Deus está chamando para o trabalho 
transcultural. Em vez daquele "balde dágua fria" ("O 
quê!? Pode já tirar da sua cabeça essa idéia boba! Você 
não vai ser missionário coisa alguma; precisamos de você é 
por aqui. Quando terminarmos de ganhar todo mundo em 
Sâo Paulo, aí será tempo suficiente de olhar mais longe", 
21 
etc.) vamos incentivá-los, incentivá-los a se prepararem 
adequadamente (dando o sustento necessário), a fim de se­
guirem efetivamente para os campos do mundo. Vamos 
ajudá-los a achar a infra-estrutura apropriada para pode­
rem trabalhar de forma eficiente. Talvez seja preciso, in­
clusive, colaborar com a manutenção de tais infra-
estruturas. Enfim, vamos fazer o necessário para alcançar 
os confins da terra durante esta nossa geração! 
3 
Pregar a cada pessoa 
Prosseguindo, vamos atentar para as palavras do Se­
nhor Jesus que encontramos em Marcos 16.15: "Indo por 
todo o mundo, pregai o Evangelho a cada pessoa". Nova­
mente são palavras dirigidas a seus discípulos. O efeito es­
tratégico é transparente, se de fato pregarmos a cada pes­
soa então cada pessoa terá recebido sua oportunidade de 
conhecer Jesus como Salvador e Senhor da vida. O proble­
ma não seria entender esta ordem, mas sim acreditar. 
Um Neo-universalismo Recrudescente 
Deus me tem permitido ministrar em muitas igrejas 
evangélicas pelo Brasil a fora, em igrejas de mais de vinte 
denominações. Tenho constatado um fato alarmante. 
Muitos crentes, e até pastores e líderes, simplesmente não 
crêem ser necessário pregar o Evangelho a cada pessoa no 
mundo. Existe um "neo-universalismo" recrudescente em 
nosso país. Podemos colocar a idéia nas palavras que ouvi 
de um certo pastor, há vários anos: "Um Deus bom, justo, 
de amor não poderá nunca condenar o índio inocente". E 
une eu andava conclamando os.brasileiros a se engajarem 
no esforço de alcançar os povos indígenas do país, pois o 
nosso Governo vinha restringindo a ação dos missionários 
estrangeiros nesse setor. Mas aquele pastor não quis saber. 
Não era preciso se preocupar com a salvação do índio. 
Deus iria dar um jeito. 
Estamos diante de uma hipótese que acarreta conse­
qüências gravíssimas. Não é necessário ser profeta para 
enxergar que essa história corta pela raiz qualquer senti­
mento de urgência, qualquer preocupação maior com a 
sorte espiritual das pessoas e dos povos que nunca ouviram 
falar de Jesus. Pois se Deus vai dar um jeito (daí se vê que 
deve ser brasileiro), então vai dar um jeito e podemos ficar 
despreocupados. Obviamente um jeito dado por Deus terá 
que ser adequado. Se o índio é inocente e se portanto não 
pode ser condenado, então Deus terá que salvá-lo (pois o 
espírito do ser humano é imortal, e só há dois destinos, ou 
ficar com Deus, que é vida eterna, ou ficar separado dEle, 
que é condenação eterna). Se existe "inocência" que impli­
ca em salvação, devemos reformular a nossa soteriologia, 
pois aí teria mais de uma maneira de alcançar a vida eter­
na. 
Afinal, nosso SENHOR Jesus Cristo mandou fazer­
mos discípulos em todas as etnias. Vamos obedecer ou não 
vamos? Mandou pregarmos o Evangelho a cada pessoa, 
indo pelo mundo inteiro. Vamos obedecer ou não vamos? 
Quem achar que não precisa obedecer, rejeitando inclusive 
os termos das ordens, deve ser coerente e pararde se apre­
sentar como servo de Jesus! Alguma dúvida? Bem, sei que 
não iremos resolver o problema de uma vez dessa forma, 
pois as pessoas nem sempre são coerentes. Então, vamos 
avaliar cuidadosamente essa hipótese neo-universalista. 
Não há "Inocente" 
Parece-me que a questão gira em torno da idéia de "i-
nocência". É porque o índio (por exemplo) seria "inocen­
te" que Deus não deveria condená-lo. Muito bem, como 
poderemos definir essa "inocência"? Vou conduzir a dis­
cussão em termos do índio por ter conhecimento de causa, 
por ter experiência íntima. Vivi numa aldeia de índios em 
plena selva amazônica, um total de 24 meses. (Trata-se da 
24 
nação indígena Apurinã do Rio Purus, no Amazonas.) 
Contudo, creio que as observações feitas a respeito do nosso 
índio são igualmente válidas para os povos indígenas da Á-
frica, da Ásia e das ilhas do Oceano Pacífico, onde se en­
contram as etnias não-alcançadas do mundo. Vamos então 
à "inocência". 
Muitos brasileiros duvidam da inteligência, da capa­
cidade mental e moral do índio, como se não passasse de 
criança. Aliás, a política federal do país parece retratar 
essa visão pois a Fundação Nacional do índio (FUNAI), ór­
gão federal, detém a tutela do índio. Quem precisa de tute­
la é menor, incapaz perante a lei. No Norte do país é co­
mum ouvir o índio tratado de "bicho". Já ouvi alguém ex­
pressar a idéia de que "a língua do índio" seria uma "bes­
teira" de uns 300 vocábulos, uma coisa pouco mais evoluí­
da do que o grunhir dos animais. (Observar de passagem 
que não existe "a língua" dos índios, pois são muitas: cada 
tribo tem uma língua diferente.) É engano total. São tão 
inteligentes quanto nós. Não faltam provas disso. 
Podemos começar pela língua. Tenho doutorado em 
lingüística. Domino o Português e o Inglês. Já estudei o 
Grego e o Hebraico, e, em escala bem menor, Latim e o 
Alemão. Tenho "triscado" em várias línguas ameríndias. 
Quero dizer que a língua Apurinã é a coisa mais complexa 
que já vi. Só para exemplificar, um verbo inglês é passível 
de até cinco flexões diferentes na estrutura interna da pa­
lavra, na morfologia. Já algum verbo português, dos bem 
irregulares, é passível de até 66 flexões diferentes na mor­
fologia da palavra. Mas um verbo Apurinã, com suas três 
ordens relativas de prefixos e 14 ordens relativas de sufixos 
(que comportam uns 60 afixos, até onde eu domino, pois 
existem outros mais), se cada combinação matematica­
mente possível pudesse ocorrer (existem umas poucas res­
trições de co-ocorrência), seria passível de pelo menos 20 
milhões de flexões diferentes dentro da morfologia da pa­
lavra. É isso mesmo, 20 milhões, e isso até onde eu domino 
tão-somente. Daí o leitor poderá entender que eu perco a 
paciência quando alguém chega perto de mim querendo 
lLfázer pouco" da inteligência do índio. 
25 
Queria que você estivesse na minha casinha de palha 
na aldeia a ouvir os homens discutindo os prós e os contras 
do Evangelho numa perfeita demonstração de compreen­
são e raciocínio. Ninguém se iluda, são seres humanos 
como nós, criados à imagem e semelhança de Deus. Às ve­
zes eles nos parecem lerdos quando se encontram eríl nosso 
meio, por não entenderem nossa língua e cultura. Assim 
como nós pareceríamos igualmente lerdos no meio deles, 
exatamente por não conhecermos a língua e cultura deles. 
Enfim, não podemos definir "inocência" em termos de fal­
ta de inteligência, raciocínio ou capacidade mental. Ou 
pelo menos, se assim fizermos nem o índio e nem os demais 
povos indígenas do mundo se enquadram nessa definição. 
Os povos indígenas do Brasil e, em grande parte, do 
mundo são animistas, isto é, o culto ou religião deles con­
siste na tentativa de apaziguar os demônios, os espíritos 
malignos que entendem ser os responsáveis por todos os 
males que lhes atingem. (Mesmo as etnias da África apa­
rentemente convertidas ao islamismo entendo ainda esta­
rem às voltas com os demônios numa espécie de sincretis-
fflo.) Sabem que existem espíritos bons também, mas 
conscientemente cultuam os maus. Não se trata de crendi­
ce ou superstição. É uma atitude lógica e inteligente den­
tro da realidade que eles vivem. São verdadeiramente per­
seguidos pelos espíritos malignos, pois estes existem e as­
sim atuam. Ignorando a existência dum poder benéfico 
maior capaz de livrá-los da perseguição dos demônios ou, 
no caso dos que sabem existir um Criador bom mas que há 
muito perderam contato com ele, não sabendo como acio­
ná-lo em seu favor, fazem o que sobra para fazer. Procu­
ram diálogo com os espíritos para ver se a coisa melhora, 
ao menos um pouco. 
Ora vejam, quem conscientemente cultua os demô­
nios, e por trás deles Satanás (pois sabem que os demônios 
têm um chefe), deixando de lado os espíritos bons e o pró­
prio Criador, não é "inocente" e nem deve ser assim consi­
derado. 
Depois têm a consciência, que Deus coloca em cada 
ser humano (ver Rm 2.14-16). Muito precioso neste sentido 
é o subsídio trazido por Don Richardson no seu livro, O 
26 
Fator Melquisedeque (Editora Vida Nova, 1986). Ele ar­
gumenta que não somente as pessoas, mas inclusive as cul­
turas trazem aspectos, tipo memória da antigüidade, que 
preparam os povos para a chegada do Evangelho, e de cer­
ta forma os predispõem a aceitá-lo. Ele cita um bom nú­
mero de exemplos bastante interessantes, 
E tem a luz da criação que deve levar cada ser cons­
ciente a se curvar diante do Criador (ver Rm 1.18-20), pois 
todo o processo cognitivo do ser humano parte do princípio 
de causa e efeito. Observamos um efeito e procuramos iso­
lar a causa que produziu esse efeito; pela lógica a causa 
tem de ser igual ou superior ao efeito que produziu, pois 
caso contrário não seria capaz de produzi-lo. Confesso não 
entender os cientistas que afirmam ser materialistas, pois 
toda experiência científica também se baseia no princípio 
de causa e efeito. Parecem-me incoerentes. 
Suponho existir apenas uma definição de "inocência" 
possivelmente capaz de suportar a luz do dia: seria a igno­
rância, a falta de ouvir. Quer dizer, um Deus justo não po­
deria condenar uma pessoa que nunca ouviu falar de Cris­
to. Só tem um pequeno problema: Deus não aceita. Rm 
1.18-20 deixa claro que todo ser racional tem a luz da cria­
ção, e Deus vai cobrar essa luz: "para que fiquem inescu-
sáveis" (ver também Salmo 19.1-4). Romanos 3.10-12 é 
mais do que claro: para Deus não existe "inocente"!! Se­
gundo Isaías 64.6, até nossas "justiças" Deus tem como 
"trapos imundos". 
Deus É Justo 
Contudo, Deus é justo. Ele reconhece a diferença en­
tre pouca luz e muita luz. "Para com Deus não há acepção 
de pessoas, porque todos os que sem lei pecaram sem lei 
também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram pela 
lei serão julgados" (Rm 2.11,12). Embora todos tenham a 
luz da criação, certamente ela não se compara com a luz 
da revelação escrita de Deus. Lucas 12.47,48 diz respeito 
ao Tribunal de Cristo, e não ao julgamento dos incrédulos, 
mas também deixa claro que Deus reconhece graus de res­
ponsabilidade. Observem, no entanto, que os sem lei 
27 
"perecerão" e os servos que não sabiam a vontade de Deus 
"serão castigados", embora menos. 
Agora vamos ao juízo final dos ímpios, o grande trono 
branco que é descrito em Apocalipse 20.11-15. "Vi um 
grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja 
presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para 
eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, pos­
tos em pé diante do trono. Então se abriram livros. Ainda 
outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram 
julgados segundo as suas obras, conforme o que se achava 
escrito nos livros. Deu o mar os mortos que nele estavam. A 
morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia. E 
foram julgados, um por um, segundo as suas obras. Então 
a Morte e Hades foram lançados para dentro do Lago de 
Fogo. Esta é a segunda morte, o Lago de Fogo. E se alguém 
não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado 
para dentro do Lagode Fogo." 
Gostaria de observar de passagem que não deverei 
comparecer diante do grande Trono Branco, mas se fosse 
comparecer e ser julgado segundo minhas obras fatalmen­
te eu seria lançado no Lago de Fogo. Pois pelas obras nin­
guém se salva (ver Is 64.6; Jr 17.9; Rm 3.20 e 23 entre ou­
tras: estou falando de salvação, não galardão). Não irei 
para o Lago porque pela graça de Deus meu nome está la­
vrado no livro da Vida. Muito obrigado, Senhor Jesus! 
Mas gostaria de imaginar que seja possível observar esse 
julgamento. Suponhamos que chega a vez dum índio e nós 
podemos acompanhar o caso. 
Ouve-se a bronca: "Mas Senhor Deus, como pode? 
Nunca jamais chegou alguém a nossa aldeia, a nosso povo 
para nos falar de Jesus. Todos nós nascemos, vivemos e 
morremos sem nenhuma vez ouvir o Evangelho de Cristo. 
Como poderá me julgar?" É claro que o que segue é 
mera especulação, mas imagino que a resposta de Deus se­
ria mais ou menos a seguinte: "É. Sei. Desgraçadamente 
você nunca ouviu. Através dos séculos cansei de mandar 
meus supostos servos mas nenhum deles prestou ouvidos e 
você ficou sem ouvir. Lamento profundamente! Mas quero 
que você saiba que não vou te julgar por um evangelho que 
você nunca ouviu. Vou te julgar, sim, segundo as tuas 
28 
obras." Duas vezes no texto em pauta repete-se a expres­
são, "foram julgados cada um segundo as suas obras". 
Agora, como é que se pode avaliar as obras de alguém? 
Tem de ser dentro do contexto que esse alguém viveu. É 
preciso saber o que ele estava sentindo, quais as pressões 
que estava sofrendo. É que cada povo tem lei, tem moral, 
tem normas de conduta. É claro que sua moral fica aquém 
da moral da Bíblia, mas tem moral. Eles entendem que 
certas coisas são boas e que outras são más. Então, Deus 
vai julgar aquele índio dentro de sua própria cultura, den­
tro da lei e moral que ele muito bem conhecia, reconhecia e 
abraçava. E Deus vai provar que mesmo dentro daquele 
contexto o índio não correspondeu {não esquecer da luz da 
criação e a consciência que também serão cobradas). Dian­
te do grande Trono Branco não haverá ninguém a dizer 
que Deus é injusto. 
Não, irmãos, que ninguém se iluda! O índio que nun­
ca ouviu o Evangelho está condenado. Para Deus não exis­
te "inocente". 
A Hipótese Neo-universalista 
Mas essa idéia "neo-universalista" exerce um fascínio 
tão grande sobre as pessoas em nossos dias que julgo con­
veniente tecer mais uns comentários a respeito. Vou partir 
da posição já exposta, que a única definição de "inocên­
cia" possivelmente válida seria a de ignorância. A saber, 
um Deus justo não poderia condenar a quem nunca ouviu. 
Pois bem, nesses termos o "cristão" neo-universalista tem 
um jesus "monstro" e um deus "sem inteligência". (Sei 
que o irmão talvez sinta um mal-estar diante desses ter­
mos, mas os escrevo de propósito pois a repulsa que o pró­
prio Deus sente diante da hipótese neo-universalista deve 
ser bem maior.) 
É claro. Se Deus não pode condenar a quem nunca ou­
viu (pela hipótese) então o ignorante terá que ser salvo 
(lembrar que só há dois destinos para o espírito do ser hu­
mano). Mas ai o Evangelho de Cristo passa a ser uma men­
sagem de condenação e não de salvação, uma mensagem 
de morte e não de vida. Pois enquanto alguém o ouvir é sal­
vo (pela hipótese), mas no momento que ouvir se não acei-
29 
tar fíca condenado. Já imaginou tamanha "fria" para o 
proclamador do Evangelho - andar acabando por aí com a 
"inocência" da8 pessoas?! Isso é fazer de Jesus um "mons­
tro", pois Ele mandaria pregar a cada pessoa condenando 
com isso multidões que, de outra forma, seriam salvas! Já 
pensou? 
E é também fazer de Deus um ser sem inteligência, 
pois enviar o seu Filho para assumir a forma de homem e 
sofrer tudo o que sofreu seria simplesmente desnecessário 
(pela hipótese). Mas não podemos cometer a irreverência 
de fazer de Deus um ser sem inteligência, nem de fazer de 
Jesus um monstro, assim o que está errado é a hipótese 
neo-universalista. 
_ (É estranho como as pessoas se julgam mais justas e 
mais sábias que o Criador. A Bíblia diz que Deus criou o 
homem à sua própria imagem e semelhança, mas de lá 
para cá parece que os homens estão empenhados em devol­
ver o favor, pois, a exemplo do neo-universalista, não gos­
tando do Deus da Bíblia, bolam um outro deus mais de seu 
agrado, um deus sem surpresas indesejadas, um deus bem 
do tamanho e do jeito deles. Só que, amigo neo-
universalista, um deus bolado por você será fatalmente 
menor que você, um deus pífio, um deus que não é nada.) 
Conclusão 
Conclusão: Temos de levar Marcos 16.15 a sério. O 
Evangelho de Cristo é a única saída para todas as pessoas. 
Já que não há inocente perante Deus, é totalmente neces­
sário pregar a cada um. Mas aí vem a pergunta: e se al­
guém corresponder realmente à luz da criação? Teorica­
mente é possível, mas na prática é impossível por causa da 
pressão exercida sobre a pessoa pela cultura. Como diz em 
1 Jo 5.19, o mundo "jaz no maligno": há forte influência 
satânica nas culturas do mundo. E como já expliquei, em 
geral as culturas das etnias não-alcançadas são exatamen­
te aquelas que giram em torno do culto aos demônios. 
Quer dizer, uma criança nascida dentro duma dessas cul­
turas é "programada" desde cedo com essa visão de mun­
do. Conseqüência: torna-se impossível para ela refletir li-
30 
vremente sobre a criação e tirar as devidas conclusões, cur-
vando-se assim diante do Criador. 
Novamente surge o problema da "justiça" de Deus. 
Como podia Ele criar uma raça que Ele muito bem sabia 
iria cair sob o domínio de Satanás, e, como conseqüência, 
nasceriam pessoas que seriam "programadas" por suas 
culturas e que ficariam sem condições de corresponder à 
luz da criação, pagando por isso o preço de passar a eterni­
dade no Lago de Fogo? Como pode? Não sei. Deus não ex­
plica. Quando Deus não explica uma coisa dessas temos só 
duas opções: aceitar ou rejeitar. Rebelar-nos contra Ele ou 
curvar-nos diante dele. Existem coisas que pertencem à 
soberania de Deus e quem entre nós for sábio as deixará 
com Ele! Não é isso que é declarado em Deuteronômio 
29.29: "As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nos­
so Deus"? Não temos o direito de entender tudo e nem a 
obrigação de explicar tudo. Parece-me ser a mensagem 
central do livro de Jo: no fim Deus não explicou, não satis­
fez a perplexidade de Jo. Ele disse em outras palavras, 
"Eu sou grande e você é pequeno, eu sou o Criador e você 
não tem condições de discutir comigo" (capítulos 38 a 41). 
E ficou por isso. Jo saiu-se bem porque reconheceu sua pe­
quenez e calou a boca (Jo 40.3-5; 42.1-6). 
Quando introduzimos nossas idéias humanísticas em 
qualquer questão é para mostrar mais uma vez a "queda" 
idolatra do nosso coração. Vejamos o caso da criancinha 
que morre. Vai para o Céu ou para o Inferno? A Bíblia não 
diz; simplesmente silencia perante esse assunto. (Nossas 
versões despistam ao traduzir "dos tais é o reino dos céus" 
em Mateus 19.14; Marcos 10.14,15 e Lucas 18.16,17; a tra­
dução correta seria "de tais..." Obviamente, não é verdade 
que só crianças entram no Reino, que parece-me ser o sen­
tido natural da frase "dos tais..."; adulto também pode. A 
"Corrigida" despista quando traduz Marcos 10.15 por "re­
ceber o reino de Deus como menino", a "Atualizada" está 
melhor quando diz "como uma criança". O que o texto es­
tá dizendo é que um adulto tem de receber o reino assim 
como uma criança o recebe, que parece-me ser o sentido 
natural da frase "de tais..." A criança é simples, a criança 
é literalista, a criança aceita cegamente a palavra dos pais. 
31 
No entanto, estou plenamente convicto de que pode­
mos confiar em nosso Deus: Ele sabe o que faz e um dia, 
uma vez glorificados, haveremos de entender a razão das 
coisas. Vejam o que está encravado exatamente no meio 
dos dez mandamentos, aquilo que foi gravado nas tábuas 
de pedra: "visito a iniqüidade dos pais no filhos até a ter­
ceira e quarta geração daqueles que me aborrecem,e faço 
misericórdia até mil gerações àqueles que me amam e 
guardam os meus mandamentos" (Êx 20.5,6)! Já parou 
para pensar? Vale dizer que a misericórdia de Deus é 250 
vezes maior que a punição! De Adão até aqui talvez não te­
nha havido 300 gerações ainda: a misericórdia de Deus é 
praticamente inesgotável. Pode confiar na justiça de Deus, 
meu irmão, pode confiar. 
Já ouvi comentar uns dois ou três casos na história das 
missões modernas onde Deus fez milagre para garantir que 
o conhecimento do Evangelho de Jesus chegasse a alguém 
que aparentemente fazia jus à luz da criação. O caso de 
Cornélio (Atos 10) quase chega a ser um exemplo bíblico, 
mas ele estava cercado de judeus e certamente não estava 
limitado à luz da criação. (Pessoalmente, suponho ser exa­
tamente assim que Deus faz frente aos eventuais casos 
onde alguém parece corresponder adequadamente à luz da 
criação. Remove céu e terra, se preciso, mas faz chegar a 
luz maior, e necessária, do Evangelho.) Muito bem, mas 
observe por favor que jamais no mundo devemos basear 
nossa estratégia missionária em dois ou três raríssimos ca­
sos. Certamente Jesus, Deus, o Filho, sabia que, eventual­
mente, poderiam surgir tais raríssimos casos, mas ao dar 
suas ordens nem sequer mencionou a possibilidade. Ao tra­
çar sua estratégia missionária, o Senhor Jesus mandou 
pregar o Evangelho a cada pessoa. Vamos obedecer? 
32 
4 
Fazer discípulos, não 
meramente convertidos 
Agora vamos atentar para as palavras do Senhor Jesus 
que encontramos em Mateus 28.18-20, a chamada Grande 
Comissão de Cristo, A primeira coisa que nos chama a 
atenção é a declaração feita no verso 18: "É-me dado todo 
o poder no céu e na terra." (Outra versão diz "autoridade" 
que resulta na mesma coisa, pois não há autoridade sem 
poder.) Em outras palavras, Jesus se declara como Sobera­
no do Universo, o Maior. Esta declaração tem pelo menos 
dois reflexos para os seguidores de Cristo. 
Primeiro, é condição básica de êxito sabermos que 
nosso Deus é o Maior. É esta certeza inabalável que nos 
dará as condições de enfrentar o inimigo e as circunstân­
cias adversas, sem temer e sem vacilar. 
Segundo, qualquer ordem dada pela Autoridade Má­
xima do Universo exige atenção e respeito total. Para co­
meçar, tal atenção e respeito tem de se manifestar numa 
exata atenção prestada ao exato sentido da ordem. Preci­
samos definir o conteúdo semântico da ordem de forma 
completa e perfeita, se possível. Pois, ao proferir uma or­
dem, nosso Deus obviamente quer ser obedecido, e de for-
33 
ma certa e completa. Então, vejamos agora o conteúdo se­
mântico da ordem. 
O Sentido da Ordem 
Uma tradução rigorosa seria mais ou menos a seguin­
te: "Ao irem, discipulai todas as etnias, batizando-as em 
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a 
guardar todas as coisas que vos tenho ordenado." (Tam­
bém poderíamos traduzir "fazei discípulos em todas as et­
nias".) Constatamos que só tem um verbo no imperativo, a 
saber "discipulai". Daí se vê que teremos de procurar a es­
sência da ordem nesse verbo. Sei que nossas principais ver­
sões traduzem o verbo "ir" como se também estivesse no 
imperativo, mas não está: está no particípio. Portanto, não 
pode representar a ação principal; é uma circunstância. 
Creio que, pensando um pouco, fica claro que o ir não pas­
sa de circunstância. A gente "vai" para chegar no lugar 
onde deve trabalhar. Alguém poderia passar o tempo todo 
indo e nada fazer, um eterno turista. O Senhor Jesus faz de 
conta que já estaremos indo, ou já teremos ido (ao pé da le­
tra a tradução seria "tendo ido"). Em outras palavras, 
onde quer que cada um esteja, conforme a vontade de Deus 
para cada qual, a ordem é fazer discípulos. 
A ordem é, fazer discípulos. Infelizmente a versão 
"Corrigida" despista ao traduzir "ensinai": o verbo ensi­
nar está, sim, no começo do verso seguinte, mas não no 
verso 19. (Observe-se, de passagem, que a maioria esmaga­
dora dos manuscritos gregos que contêm este trecho não 
tem a palavra "portanto", razão por que não a coloquei na 
minha tradução.) Já que a ordem é fazer discípulos, antes 
de mais nada precisamos entender a acepção exata que Je­
sus tinha do vocábulo "discípulo", pois aí está o cerne da 
ordem. 
Então, que entendia Jesus por "discípulo"? O contex­
to imediato fornece um bom subsídio, pois o verso 20 diz: 
"ensinando-os a guardaT todas as coisas que vos tenho or­
denado". Quer dizer que fazer discípulo implica em ensi­
nar (não meramente pregar). Mas ensinar o quê? Ensinar 
a guardar, isto é, a obedecer a todas as coisas que Jesus 
mandou. Mas obviamente ninguém pode obedecer a algu-
34 
ma coisa que ignora; daí teremos que ensinar as próprias 
coisas que Jesus mandou, e todas elas. Será exatamente 
isso que estamos fazendo nas nossas igrejas? 
Convido a atenção do leitor para Lucas 14.25-33, úni­
ca passagem onde se preserva nas próprias palavras de Je­
sus uma definição de discípulo, e onde Ele emprega a pala­
vra "discípulo" de sorte que não há como não entender (é 
claro que discipulado é abordado em outras passagens, 
mas como a palavra "discípulo" não se encontra aí poderia 
haver discussão a respeito). Três vezes encontramos a frase 
"não pode ser meu discípulo". A expressão é enfática, 
principalmente no texto original. Trata-se de condições 
absolutas que o Senhor coloca: quem não preencher não 
tem jeito. Vamos, pois, às condições: 
Aborrecer. A primeira se encontra no verso 26. "Se 
alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mu­
lher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda também a sua pró­
pria vida, não pode ser meu discípulo." Mas que palavra 
difícil! Será que tenho mesmo é que aborrecer (o verbo gre­
go é "odiar") inclusive aos entes mais queridos? Como po­
de? Deus não manda amar as pessoas? - Que será que Je­
sus quer dizer com essa palavra tão dura? - Deve ser en­
tendida de forma comparativa, assim como está na passa­
gem paralela, Mateus 10.37: "Quem ama o pai ou a mãe 
mais do que a mim não é digno de mim". 
Em outras palavras, Jesus exige de mim, caso me pro­
ponha segui-lo como discípulo, que eu coloque meu relacio­
na mento com Ele acima de todos os demais relacionamen­
tos na vida, quer seja com pai, com mãe, com mulher, com 
filhos ou com o próprio "eu". Jesus exige o primeiro lugar, 
sem concorrência. Agora, quem sustentar um relaciona­
mento assim com o Senhor Jesus se verá, vez por outra, 
"brigado (pelo próprio Jesus) a se comportar de uma ma­
neira que as pessoas que estão do lado de fora de um tal re­
lacionamento com Jesus não irão entender. Não saberão 
interpretar corretamente. Vão interpretar como descaso, 
desprezo, aborrecimento, ódio até. Senão, vejamos. 
Mais de uma vez já houve quem me dissesse bem ob-
lelivnmente, bem claramente, que eu certamente aborre-
olt minha esposa e minhas filhinhas por carregá-las selva 
35 
adentro, a fim de morarmos em plena aldeia de índios, 
como fiz, com efeito. Tais pessoas não conseguiam enten­
der meu comportamento. Não dava para entender que um 
chefe de família com as minhas condições iria expor essa 
família à vida difícil, primitiva, até perigosa de plena selva 
amazônica, inclusive dentro de aldeia indígena, privando-
a assim do conforto e das vantagens da cidade. Só podiam 
interpretar meu procedimento como falta de responsabili­
dade. 
E quantos missionários, cujos pais não compartilha­
vam o ideal do filho, na hora difícil da despedida, prestes a 
zarparem para outra terra, não têm ouvido dos lábios dos 
próprios pais palavras mais ou menos assim: "Mas meu fi­
lho, você odeia a gente, você vai abandonar a gente, vai se 
lascar sabe lá aonde, não faça isso meu filho!". Naquela 
hora de angústia os pais lançam mão de exatamente esse 
tipo de linguagem: interpretam o procedimento do filho 
como descaso, desprezo, ódio até. Daí se vê que ao fazer 
uso da palavra "aborrecer" Jesus não estava exagerando, 
não estava sendo ridículo. É isso mesmo: aborrecer. 
No entanto, gostaria de avaliar a questão daresponsa­
bilidade. Será que agi de forma irresponsável ao levar mi­
nha família selva adentro para morar com índios? Qual se­
ria melhor, a selva com Jesus ou a cidade sem Ele? Se levo 
a família para a selva obedecendo à ordem de Jesus, quem 
responde pelas conseqüências é Ele. Se permaneço na ci­
dade contra sua vontade aí quem responde sou eu. Sei que 
a questão é bastante séria como prática, pois conheço ho­
mens que sabiam perfeitamente ter um chamado missio­
nário mas não atenderam, alegando a esposa: não pode­
riam expor a mulher a esse tipo de vida. 
Aliás, o Antigo Testamento nos traz o relato de certos 
homens que fizeram opção semelhante. Refiro-me aos 
guerreiros de Israel em Cades-Barnéia, No cronograma de 
Deus estava na hora de invadir a Terra Prometida, mas 
dez dos doze espias desanimaram a turma e se rebelaram 
contra a ordem de Deus, ordem já dada e conhecida. Como 
justificativa, alegaram que se obedecessem seriam mortos 
e aí como seria o caso das suas mulheres e crianças. Não 
bastasse, ainda, fizeram uma contraproposta a Deus: seria 
36 
até melhor morrer por ali. (É muito perigoso fazer contra­
propostas a Deus, pois Ele é capaz de aceitá-las, como no 
caso em pauta.) Como resultado passaram mais 38 anos 
vagando no deserto. (Ver Dt 2.14) até que todos os homens 
que votaram contra Deus em Cades-Barnéia morressem. 
Não ficou um sequer para atravessar o rio Jordão. Já as 
mulheres e crianças, a suposta justificativa pela desobe­
diência, Deus fez entrar na Terra Prometida. 
Meus irmãos, enfrentemos qualquer perigo menos de­
sobedecer à vontade conhecida de Deus. Fazer contrapro­
postas nem se pense! Nosso Deus se responsabiliza pelas 
conseqüências das suas ordens, quando obedecidas. Privar 
a família da proteção de Deus, expondo-a às conseqüências 
da nossa desobediência, isso sim é ser irresponsável. O 
discípulo verdadeiro de Cristo deve sempre preferir "abor­
recer" a família, e sua própria pessoa, antes de desobede­
cer a Deus. É isso mesmo. 
Levar a cruz. A segunda condição se encontra no ver­
so 27 (Lc 14). "Qualquer que não levar a sua cruz, e não 
vier após mim, não pode ser meu discípulo." Que será que 
0 Senhor entende pela palavra "cruz"? Seria o adorno que 
alguém leva no pescoço? Algum problema na vida, ou 
aquele vizinho que você não agüenta? Não. Há dois mil 
anos cruz significava uma só coisa: morte. Representava 
maneira de matar, aliás a mais melindrosa da época. Creio 
que em Lucas 9.23 temos uma palavra que versa sobre o 
mesmo assunto. Jesus disse a todos: "Se alguém quer vir 
após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, 
e siga-me." O próprio conteúdo semântico do verbo "le­
var" (Lc 14.27) dá a idéia de uma ação contínua. Já aqui, 
em Lucas 9.23, temos de "tomar cada dia" a nossa cruz -
parece ser uma morte diária. 
Aliás, o apóstolo Paulo usa exatamente essa expressão 
• a 1 Coríntios 15.31, dizendo que ele morria cada dia. Mas 
como entender essa expressão? Obviamente não se trata 
de morte física. Como então? Creio que o "negar-se a si 
mesmo" (Lc 9.23) nos aponta o caminho certo. É uma 
morte para si, para as próprias idéias, ambições, desejos e 
qncreres; é um abrir mão do meu suposto direito de man-
Otr na própria vida. E esta atitude tem de ser renovada 
37 
cada dia, e quem sabe cada hora. Parece-me ser o efeito da 
expressão que achamos em Romanos 12,1 onde fala em 
apresentarmos os nossos corpos em "sacrifício vivo". 
- Mas essa expressão não lhe parece um pouco estra­
nha? No Antigo Testamento, no meio de tantos animais 
sacrificados, tantos holocaustos, houve alguma vez sacrifí­
cio vivo? Como e quando passava um animal a ser sacrifí­
cio? Não era no momento da degola, vertendo seu sangue? 
Logo, só teria sacrifícios mortos. Mas Paulo fala de sacrifí­
cio "vivo". Creio ser exatamente o "levar da cruz" que já 
notamos: é uma morte contínua, viver morrendo. É negar-
se a si mesmo a cada passo. E Jesus declara que sem esta 
disposição é impossível ser discípulo dele. 
Renunciar tudo. A terceira condição se encontra no 
verso 33 (Lc 14). "Assim, pois, qualquer de vós que não re­
nuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo." O 
"assim, pois" liga este verso às duas ilustrações dadas nos 
versos 28 a 32. Creio que essas ilustrações dizem mais res­
peito ao ato de entrar na condição de discípulo, que iremos 
examinar daqui a pouco, mas interessa observar aqui que 
se trata duma decisão consciente e estudada, um ato do 
arbítrio. E não pode ser diferente, pois aqui Jesus exige 
uma renúncia completa, uma entrega sem reservas - en­
fim, uma entrega de "tudo quanto tem". 
Avaliando as três condições juntas, podemos consta­
tar que, de certa forma, são três maneiras diferentes de di­
zer a mesma coisa. Embora uma condição focalize os rela­
cionamentos, outra as ambições e a terceira as coisas, são 
expressões de uma realidade básica. Nosso Senhor Jesus 
Cristo exige compromisso total! Agora podemos afirmar a 
definição que o Senhor deu à idéia de "discípulo". Para Je­
sus, discípulo é alguém que tem (e mantém) compromisso 
total com Ele. 
Voltando a Mateus 28.19, vamos ver se entendemos 
melhor a ordem. A ordem é fazer discípulos. Discípulos, 
não meramente "crentes" ou convertidos, mas discípulos, 
na acepção da palavra que o Senhor Jesus tinha, e tem. 
Discípulos, pessoas cujas vidas efetivamente giram em 
torno da causa e da vontade de Cristo, pessoas que vivem 
em função do Reino. 
38 
O Efeito Estratégico 
Que estão a fazer as nossas igrejas, em geral? 0 enfo­
que, quase exclusivo, é no evangelismo. Será que não? Es­
tamos a fim de "ganhar almas", de ver as pessoas converti­
das. (Isso nas igrejas que ainda têm compromisso com a 
Bíblia; certas outras não passam de clubes sociais e já es­
tão nas mãos do inimigo.) Nas igrejas "tradicionais" ou 
"históricas" o novo convertido deve freqüentar os cultos e 
participar da vida da igreja; querendo ser bom mesmo pas­
sa a ser dizimista. Já nas igrejas "pente eostais" ou "reno­
vadas" o novo convertido deve também procurar "a segun­
da bênção"; sendo "batizado no Espírito Santo", aí che­
gou mesmo. Mas quem está fazendo discípulos no sentido 
que Jesus mandou? 
Qual será o resultado prático desse enfoque nosso? É 
exatamente aquele quadro calamitoso que já comentamos: 
meio mundo sem ouvir uma vez o Evangelho de Cristo; 
metade das etnias tem sequer um porta-voz de Cristo ain­
da. É claro. O enfoque de apenas ganhar almas enche as 
igrejas de crianças, crianças espirituais (não tem nada a 
ver com a faixa etária da pessoa). Pois bem, e daí? Daí, 
criança trabalha? Criança não trabalha, dá trabalho (e 
como!) Amados irmãos, estamos diante duma questão do 
tamanho do mundo, literalmente. Embora possa doer, pre­
cisamos avaliar objetiva e corajosamente este assunto: o 
destino eterno do mundo está em jogo. 
Menor abandonado não é negócio. Que devemos 
pensar de um homem que no âmbito físico anda gerando 
filhos sem ter a menor preocupação com a alimentação, o 
abrigo^ a educação, enfim o cuidado desses filhos? Com 
toda justiça tacharemos este homem de irresponsável, de 
inimigo da nossa sociedade. Sim, porque ele está introdu­
zindo menores abandonados na sociedade, e, estatistica­
mente, muitos deles (provavelmente a maioria) passarão a 
Ber marginais e criminosos. Menor abandonado não é negó­
cio! Gostaria de sugerir para a reflexão cuidadosa do leitor 
que existe uma analogia quase perfeita entre o âmbito físi­
co e o âmbito espiritual nesta área. 
39 
Quando trazemos à luz filhos espirituais (por assim 
falar), mas não os discipulamos, não os levamos a fazer 
uma entrega sem reservas a Jesus, não os levamos à con­
dição de adultos na fé, então acarretamos uma série de 
conseqüências negativas. Que é que mais faz pastor enve­
lhecer antes da hora? São os incrédulos lá fora, ou é a 
criancice dentro da igreja? É claro que é a criancice espiri­
tual na igreja. (Observar de passagem que às vezes a justi­
ça se faz, pois quando o pastor só prega mensagens evan-gelísticas o maior culpado é ele mesmo, pois não apascenta 
as ovelhas. Comida de bodes não serve para ovelha.) 
Ao fazer evangelismo pessoal, qual a desculpa que 
mais se ouve quando alguém quer se livrar? Ele não apela 
para a vida do crente Fulano, Beltrano ou Cicrano? E a 
criancice espiritual na igreja. E depois tem os "gatos escal­
dados" - são aqueles que dizem, "já fui crente". Que será 
que aconteceu com ele? Presumivelmente ouviu a prega­
ção, atendeu ao apelo, seguiu as instruções dadas e deu si­
nais de vida, participando nas atividades da igreja. Mas aí 
Satanás deu em cima dele, a vida de crente não foi aquele 
"mar de rosas", houve mais problemas do que bênçãos. E 
como ninguém explicou a razão das coisas, como ninguém 
o discipulou aí ele começou a desanimar, ficar perplexo, 
sentir-se iludido e abandonado. Daí ele vai se distanciando 
e quando menos espera já está longe. Agora é "gato escal­
dado" pois já foi vacinado. Reconquistar uma pessoa as­
sim dá mão de obra, sem comentar todos os reflexos nega­
tivos que se espalham pela vizinhança. 
Quando pensamos nos povos não-alcançados o proble­
ma da criancice espiritual nas igrejas se faz sentir de forma 
bem aguda. Precisamos de soldados, e para isso criança 
não serve. Via de regra, nem vai se oferecer (ainda bem). 
Mas acontece que nem todos os que se apresentam, e que 
acabam sendo enviados aos campos missionários, são 
discípulos - alguns deles pouco passam de crianças. E se 
criança pega em serviço de homem, por acaso o serviço vai 
sair bem feito? Dificilmente. A criança, coitada, está fa­
zendo por onde, mas não tem a força, o saber, a experiên­
cia e a capacidade dum homem. É criança. O mundo per­
dido está a espera de adultos, gente grande, discípulos. 
40 
Amados irmãos, sejamos pais responsáveis! É sim­
plesmente uma falta de responsabilidade terrível trazer à 
luz filhos (no âmbito espiritual também) sem assumir as 
conseqüências naturais e necessárias: alimentar, proteger, 
educar e levá-los à condição de adultos. Menor abandona­
do não é negócio. Creio que vem muito ao caso o exemplo 
do nosso Mestre. 
O exemplo de Cristo, e de Paulo. - Como fez o Se­
nhor Jesus durante seus três anos de ministério público 
aqui na terra? Com quem Ele gastou a maior parte do tem­
po? Não foi com doze homens? Andaram juntos, comeram 
juntos, dormiram no mesmo lugar, e estavam a ouvir e ob­
servar tudo que o Mestre fazia, durante três anos. E Jesus 
jogou tudo naquele "time", naqueles homens. Quando Ele 
voltou para o Céu o futuro da Igreja estava nas mãos deles. 
Se tivessem fracassado, de uma vez a Igreja acabava por lá 
mesmo, logo no início. 
Mesmo quando Jesus lidava com o povo, como fazia? 
Ele promovia campanha evangelística? Não consta. O que 
o texto sagrado registra é que o que Ele fazia mais era ensi­
nar o povo, às vezes o dia inteiro. Pois Jesus queria discí­
pulos. Em qualquer época o bem-estar da Igreja depende 
dos discípulos que existirem. 
Parece que o apóstolo Paulo, pelo menos, entendeu o 
exemplo e a estratégia de Cristo, pois também cuidou de 
fazer discípulos. Ao despedir-se da igreja de Éfeso ele afir­
mou, "Nada que de útil seja deixei de vos anunciar e ensi­
nar, publicamente e de casa em casa" (Atos 20.20), e nova­
mente: "Nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de 
Deus" (Atos 20.27). Paulo não se detinha numa mensagem 
meramente evangelística - queria discípulos. Tudo indica 
que a motivação maior ao escrever suas cartas era levar os 
convertidos à condição de discípulos, Só para exemplifi­
car, podemos citar Colossenses 1.28, Falando de Cristo, 
Paulo escreve: "A quem anunciamos, admoestando a todo 
homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria, 
para que apresentemos todo homem perfeito em Jesus 
Cristo." 
Efésios 4.12,13 é ainda mais interessante nesse senti­
do, pois Paulo atribui o intuito ao próprio Cristo. Foi Ele 
mesmo que deu apóstolos, profetas, evangelistas, pastores 
e mestres à Igreja, "visando ao aperfeiçoamento dos santos 
para a obra do ministério, para a edificação do corpo de 
Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e ao pleno 
conhecimento do Pilho de Deus, a varão perfeito, à medida 
da estatura da plenitude de Cristo." Em outras palavras, 
Cristo quer discípulos, na acepção da palavra que já expli­
camos. Em 2 Timóteo 2.2 Paulo deixa claro que devem 
surgir gerações sucessivas de discípulos, presumivelmente 
até a volta de Cristo. 
E qual foi o resultado da aplicação desta estratégia 
pelos Apóstolos? Alcançaram seu mundo na sua geração. 
Se recuperarmos o mesmo enfoque, será que não podemos 
também alcançar o nosso mundo nesta geração? Creio que 
sim. Senão, vejamos: 
Como funciona. Fazer discípulo leva tempo e pode 
ser incômodo, mas é a maneira mais rápida, certa e segura 
de efetivamente alcançarmos o mundo. À primeira vista, 
pensando superficialmente, pode parecer que não. Aliás, a 
visão que parece prevalecer no mundo evangélico atual é 
de evangelismo em massa: temos de ganhar almas em nú­
mero o mais possível. Quanto mais almas em quanto me­
nos tempo, melhor. Só que não resolve. Pode dar um cres­
cimento rápido aparente a curto prazo, mas acaba ruindo 
por não existir o alicerce e a infra-estrutura para agüentar 
tamanho peso. Criança não trabalha; dá trabalho. 
Para fazer discípulos é preciso gastar tempo com eles, 
assim como fez Jesus. E é preciso "abrir o jogo"; não pode 
fingir ser um supercrente que não tem problemas, nunca 
peca, nunca é atacado por Satanás, etc. (É possível chegar 
a ser um discípulo sozinho, mas costuma ser um processo 
demorado e dolorido, exatamente por falta de assessor ia.) 
Ê preciso explicar a razão das coisas, dar assessoria efeti­
va, fundamentar mesmo. Parece ser demorado, mas acaba 
sendo mais rápido. Imaginemos que eu seja o único discí­
pulo verdadeiro de Cristo no mundo hoje (é claro que não é 
verdade, e graças a Deus por isso), só para efeito de raciocí­
nio, só para ver até onde a brincadeira leva. Digamos que 
neste ano de 1987 eu consiga fazer mais um discípulo, não 
somente ganho a alma, mas seguro, fundamento, doutrino, 
42 
levo a uma entrega sem reservas a Jesus, enfim: discípulo. 
Aí no final do ano seremos dois. Certo? 
(Talvez alguém esteja duvidando da possibilidade de 
fazer um discípulo dentro dum ano. O segredo maior está 
na entrega sem reservas a Jesus. Enquanto alguém não fi­
zer essa entrega, seu crescimento espiritual será paulatino, 
quando tem. É aquele quadro tão costumeiro: três passos 
para frente e dois e meio para trás, quando não são três ou 
três e meio para trás. A entrega total dá ao Espírito Santo 
o direito de agir livremente na vida da pessoa e com isso 
ela pode crescer rapidamente, alcançando patamares espi­
rituais que a maioria dos crentes sequer chega a vis­
lumbrar.) 
Muito bem. Durante o ano de 1988 cada um faz mais 
um discípulo: ganha e segura, fundamenta, doutrina, en­
fim discípula. Aí seremos quatro (dois mais dois). Certo? 
Durante o ano de 1989 repetimos a façanha: cada um ga­
nha mais um, e discípula. Aí seremos oito. (Você não tem 
que ser um evangelista de renome internacional; você não 
tem que ganhar 300 almas por ano; basta ganhar uma, des­
de que segure, discipule mesmo.) Durante 1990 dobramos 
de novo e aí seremos 16. Repetindo a dose, ano por ano, 
chegaremos ao final do ano de 1996 com nada menos que 
1.024 discípulos! Já pensou? Haverá algum pastor que não 
se daria por satisfeito se durante dez anos de ministério 
conseguisse criar uma igreja com 1.000 membros? Mas va­
mos em frente, vamos ver a segunda década. 
Prosseguindo no mesmo ritmo, terminaríamos o ano 
de 1997 com 2,048 discípulos. Dobrando cada ano termi­
naríamos a segunda década (isto é, em 2006) com nada 
menos que 1.048.576 discípulos! Pois bem, aí terminaría­
mos o ano de 2007 com 2.097.152 discípulos, e assim por 
diante até completar a terceira década com 1.073.741.824 
discípulos. É isso mesmo, mais de um bilhão como resul­
tado de apenas trinta anos de fazer discípulos, nabase de 
um por ano! Se continuássemos assim por mais quatro 
anos, alcançaríamos a cifra de mais de 17 bilhões de discí­
pulos. Sucede que só (?) temos cinco bilhões de pessoas no 
mundo hoje, de sorte que poderíamos perder a metade a 
caminho e ainda alcançar o mundo inteiro dentro de 34 
anos! Que tal, vamos lá? 
Mas, espere aí. Isso tudo começando com apenas um; 
mas não sou o único. Será que existem um milhão de discí­
pulos verdadeiros (não meros crentes) no mundo hoje? 
Creio que sim, e até mais. Muito bem, nesse caso podemos 
subtrair vinte anos dos 34 que seriam necessários para al­
cançar o mundo. É claro, pois segundo o modelo sugerido 
levaria vinte anos para chegar à casa de um milhão. Se já 
somos mais de um milhão poderemos terminar de alcançar 
o mundo dentro de 14 anos! Será que não? 
Sei que várias objeções já se apresentaram a seu pen­
samento. Esse quadro é muito idealizado; não leva em 
conta as barreiras diversas que existem: barreiras ideológi­
cas, políticas e religiosas, barreiras geográficas e de língua 
e cultura, a barreira da fraqueza humana com manifesta­
ções várias, e principalmente a barreira da atuação satâni­
ca e demoníaca no mundo. E agora, "José", como fica? 
Bem, reconheço existirem todas essas barreiras, e de fato 
são grandes, mas nosso Deus é maior. As barreiras de ideo­
logia, política e religião poderemos destruir usando as ar­
mas de 2 Coríntios 10.4,5, ao passo que a atuação de Sata­
nás e os demônios poderemos vencer fazendo uso dessas e 
das outras armas espirituais que o Senhor Jesus coloca à 
nossa disposição (ver capítulo VI). Não esquecer também 
da "chave de Davi" (Ap 3.7). Já as barreiras de geografia, 
língua e cultura deverão ceder diante da tecnologia moder­
na - temos ferramentas cada vez melhores para fazer fren­
te a esses problemas. E as fraquezas humanas? Bem, aí 
vem ao caso exatamente o discipulado e o poder e a capaci­
tação do Espírito de Deus. Um alerta se faz necessário 
aqui: por "discipulado" refiro-me ao processo de sermos e 
fazermos discípulos de Jesus, não de nós mesmos. Muitas 
vezes os "grilos" dum discipulador ou do fundador dum 
movimento passam a ser "doutrina" para os seguidores, e 
com isso vão parar no "brejo", mais dia menos dia. Faça­
mos discípulos de Jesus; levemos as pessoas a depende­
rem diretamente do Espírito Santo e da Palavra de Deus, e 
não de nós; com isso os nossos discipulandos poderão se li­
vrar dos nossos erros, pois todos os temos. 
44 
E ainda há algumas outras considerações que mere­
cem menção. Por exemplo, o modelo visa fazer só um discí­
pulo por ano, mas de fato podemos fazer mais: pensemos 
imediatamente nos muitos milhões de crentes que pode­
riam ser díscipulados com alguma rapidez. A estratégia 
apresentada no capítulo II vai ao encontro da má distribui­
ção geográfica dos discípulos atuais. É bom lembrar tam­
bém que nunca iremos ganhar todo mundo; sempre existi­
rão pessoas que conscientemente rejeitam o Evangelho de 
Jesus Cristo. Jesus não manda ganhar todo mundo (seria 
violar o arbítrio das pessoas), e sim fazer com que cada um 
ouça e tenha opção consciente. O modelo falou em ganhar 
o mundo inteiro dentro de 14 anos, o que não será o caso. 
Segundo a ordem em Mateus 28.19 e Marcos 16.15 o alvo é 
ver discípulos verdadeiros em cada etnia e cada pessoa 
com a opção consciente de abraçar o Evangelho. Então, 
com essas ressalvas todas, será que não podemos assumir o 
desafio de cumprir as ordens do nosso Mestre até o final 
deste século? Vamos para frente! 
A Implementação da Estratégia 
Agora vamos atentar para a implementação da estra­
tégia. Existem pelo menos três questões que devem ser 
consideradas, mas primeiro quero voltar à ordem em Ma­
teus 28.19: "Fazei discípulos em todas as etnias". A partir 
do que constatamos ao considerar o exato sentido da or­
dem, entendo duas coisas. Primeiro, a ordem é fazer discí­
pulos, nada mais e nada menos. Segundo, parece-me ób­
vio que para poder fazer discípulos é necessário primeiro 
ser discípulo (ou será que não?). Acaso eu teria condições 
de levar outrem a entregar-se sem reservas a Jesus se eu 
me recuso a fazê-lo? E como poderei assessorar alguém no 
discipulado se nunca andei por lá? Assim sendo, enquanto 
eu não for discípulo fico marginalizado: dificilmente pode­
rei ter ação efetiva para cumprir a Grande Comissão de 
Cristo. E você também. Daí a primeira coisa que devemos 
verificar é se somos de fato discípulos. E isso nos leva à pri­
meira questão: como ser discípulo. 
Como ser discípulo. A questão se divide naturalmen­
te em duas partes: como ingressar na condição de discípulo 
IS 
e como manter em pé essa condição. Como, então, ingres­
sar na condição de discípulo? Se podemos comparar o dis­
cipulado a um caminho a ser trilhado (diariamente) então 
ingressar seria como que passar pelo portão que dá acesso 
ao caminho. 
Entendo que ingressar na condição de discípulo de­
pende de uma entrega deliberada, um ato do arbítrio. Ima­
gino ser possível alguém se converter quase por impulso, 
tipo pulo no escuro. Está desesperado; alguém chega perto 
e explica por aíto o plano da salvação e ele aceita, sem en­
tender muito. Já ingressar na condição de discípulo é dife­
rente. Creio que as duas ilustrações que estão em Lucas 
14.28-32 vêm ao caso. Lembre-se que no verso 33, dando 
início à terceira condição, Jesus disse, "assim, pois". Ele 
referia-se aos dois casos que acabava de relatar. Uma pes­
soa queria construir uma torre, Um rei ouviu dizer que o 
vizinho já vinha contra ele com 20 mil soldados e ele só ti­
nha 10 mil. Que fizeram os dois? Em ambos os casos a pes­
soa estuda a situação, avalia suas próprias condições, cal­
cula quanto deverá custar, procura antever as prováveis 
conseqüências. Feito tudo, toma sua decisão; finca o pé. 
Ou vai construir, ou não vai; ou vai guerrear, ou não vai. 
Em qualquer das hipóteses ele tem que arcar com as conse­
qüências da sua decisão. É assim com o discipulado - o in­
gresso tem de ser um ato pensado, uma tomada de posição. 
Creio que é disso que Paulo escreve em Romanos 12.1 
quando fala em apresentar os nossos corpos em sacrifício 
vivo. A palavra "corpos" deve ser um caso de sinédoque, 
onde o corpo representa a vida (se dou o corpo acaso a 
alma pode ficar para trás?). O "apresentar" deve ser a en­
trega consciente, sem reservas. Meu irmão, você já se en­
tregou sem reservas a Jesus? Senão, não é discípulo dele, e 
nem pode fazer discípulos, 
Sei que esta discussão pode suscitar alguma inquieta­
ção no leitor. Parece que estou sendo um tanto radical. Re­
conheço. Ê que estou partindo duma definição radical de 
"discípulo"; exatamente a definição dada pelo Senhor Je­
sus conforme constatamos em Lucas 14.25-33. "Discípulo" 
tem compromisso total com Ele. 
46 
Gostaria de enfatizar novamente que a entrega abso­
luta é a chave do crescimento espiritual. Sem essa entrega 
o crente permanece criança (espiritualmente) e tem um 
crescimento paulatino (se é que tem). A. entrega, que deve 
ser renovada cada dia, permite ao Espírito Santo ação li­
vre na sua vida, e com isso ele pode crescer rapidamente. 
Tudo depende da entrega, pois Deus respeita o nosso arbí­
trio. Essa entrega sem reservas é também o fator principal 
no enchimento e capacitação do Espírito, indispensável 
para que possamos efetivamente alcançar o mundo perdi­
do. 
Ingressar na condição de discípulo é uma coisa, man­
tê-la em pé é outra. Não é nada automático. Já comenta­
mos o tomar da cruz cada dia e o sacrifício vivo. É total­
mente necessário renovarmos cada dia nossa disposição de 
abraçar a vontade de Deus em tudo. É uma atitude a ser 
renovada a cada hora, sempre que preciso. Agora, escrever 
estas palavras é fácil, mas fazer é outra coisa! A luta diária 
do discípulo está justamente aí, manter em pé o relaciona­
mento. O fato é que a gente precisa de ajuda. Um dos 
maiores benefícios de compartilhar o discipulado com ou­
tros é o exemplo e estímulo que os participantes recebem 
mutuamente. O compartilhartem um efeito fiscalizador 
que ajuda. E quando "abrimos o jogo" os outros podem in­
terceder especificamente pela gente, o qual é outra ajuda 
importante. Ser discípulo sozinho é possível, mas é difícil. 
Contudo, além dos benefícios do compartilhar, existe um 
ingrediente indispensável ao discipulado. 
Em João 8.31 Jesus disse a uns que haviam crido nele: 
"Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramen­
te sereis meus discípulos." E se alguém não permanecer? 
(E como permanecer se não existe, na língua da gente?) 
Em 2 Timóteo 3.16,17 lemos assim: "Toda Escritura é ins­
pirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, 
para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o 
homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado 
para toda boa obra." Um homem de Deus perfeito e perfei­
tamente habilitado só pode ser um discípulo que está le­
vando a sério mesmo. A expressão "a fim de que" nos faz 
entender que é o uso da Escritura Sagrada que leva a CHHII 
47 
condição. 1 Pedro 2.2 nos ensina que a Palavra é nosso ali­
mento; precisamos dela assim como um nenê precisa de 
leite. Salmo 1.2,3 deixa claro que nossa saúde espiritual 
depende da "lei do SENHOR"; é nossa água espiritual e 
necessitamos dela todos os dias. Aliás, devemos mesmo é 
meditar nela. Em Josué 1.8 o próprio Deus recomenda a 
Josué meditar no livro da lei dia e noite, e promete o resul­
tado seguinte: "Então farás prosperar o teu caminho e se­
rás bem sucedido". Enfim, é impossível ser discípulo de 
Cristo sem acesso efetivo à Palavra de Deus. 
Novamente estou sendo radical; por "ser discípulo" 
refiro-me ao manter em pé a condição. - Mas será mesmo 
necessário meditar na Palavra cada dia? - Bem, aí estão 
vários textos relevantes, entre outros. Se devemos nos 
exortar cada dia, "por causa do pecado que engana" (Hb 
3.13), quanto mais não devemos olhar em nosso "espelho" 
(Tg 1.22-25) e nos expor à "espada do Espírito" (Hb 4.12; 
Ef 6.17) cada dia? Mas como poderia o apóstolo Paulo dis-
cipular, e como ficaria a situação dos justos do Antigo Tes­
tamento? Devemos lembrar que Salmo 1.2,3 e Josué 1.8 e 
Deuteronômio 32.47 são do Antigo Testamento, mas creio 
que as "regras do jogo" mudam um pouco com a progres­
são da Revelação. Temos mais que os justos do Antigo Tes­
tamento, e certamente Deus vai nos cobrar mais. Para 
exemplificar, o padrão da graça é mais elevado que o pa­
drão da Lei. A Lei exigia o dízimo, a graça exige 100% (Lc 
14.33). A Lei exigia amar ao próximo como a si mesmo, a 
graça exige amar ao irmão assim como o Pai ama o Filho 
(João 13.34 e 15.9)! E temos o Espírito Santo que habita 
em nós. Creio também que a geração dos apóstolos foi de 
certa forma uma época de transição. Mesmo assim, Paulo 
se empenhou no sentido de escrever o que faltava, comple­
mentando o material neotestamentário que já existia e que 
vinha aparecendo. Despedindo-se dos efésios, ele não dei­
xou por menos, dizendo: "Encomendo-vos a Deus e à pa­
lavra da sua graça que é poderosa para vos edificar e dar 
herança entre todos os santificados" (At 20.32). Sei que 
embora os padrões que a Bíblia coloca sejam absolutos, ou 
pelo menos apresentados em termos absolutos, o nosso vi-
48 
ver não é absoluto. Mas o alvo aí está e não me atrevo a di­
minuí-lo. Vamos agora à segunda questão. 
Fazer discípulos de quem? Para começar, toda e 
qualquer pessoa se enquadra no âmbito das ordens de Cris­
to, e portanto é alvo legítimo da tentativa de díscipular. 
Claro. Isto posto, no entanto, gostaria de voltar à ordem 
em Mateus 28.19, "fazei discípulos em todas as e tn ias" . 
Através dos séculos e milênios Deus tem demonstrado sua 
preocupação com o bem-estar de todas as etnias do mun­
do. A primeira declaração aberta dessa preocupação está 
na aliança abraâmica: "Em ti serão benditas todas as 
famílias da terra" (Gn 12.3). Podemos vislumbrar a impor­
tância que Deus dá ao assunto pelo fato inédito de Ele re­
petir essa afirmação quatro vezes mais, a saber em Gênesis 
18.18; 22.18; 26.4 e 28.14, Hebreus 6.13-18 explica que ao 
jurar por si mesmo (ver Gn 22.16-18) Deus deu a garantia 
máxima ao propósito declarado. Todas as famílias da ter­
ra terão que ser abençoadas. Tanto Pedro (ver At 3.25) 
como Paulo (ver Gl 3.8) ligam o Evangelho de Cristo à pro­
messa divina de abençoar todas as famílias da terra. No 
Novo Testamento várias passagens reafirmam esse propó­
sito de Deus: Mateus 12.21 e 24.14, Marcos 13.10, Lucas 
2.32 e 24.47, grande parte de Atos e do ministério de Paulo 
de forma geral tem a ver com as nações. Apocalipse 5.9 
(onde todos os manuscritos gregos menos um dizem: "com 
o teu sangue nos compraste para Deus de toda a tribo, e 
língua, e povo, e etnia"), 7.9 e 14.6, que são enfáticos, e 
para terminar, Apocalipse 22.2. 
Muito bem, o Senhor Jesus quer discípulos em cada 
etnia. Já no primeiro capítulo explicamos que devem exis­
tir pelo menos 6.000 etnias no mundo, das quais umas 200 
no Brasil. E a metade delas, tanto no Brasil como no mun­
do, não tem porta-voz de Cristo ainda. Pior ainda, dois ter­
ços das etnias do mundo (e do Brasil) não têm sequer um 
versículo da Palavra de Deus na sua língua. Como já de­
monstramos, sem a Palavra é impossível manter em pé a 
condição de discípulo; de modo que, no momento, estamos 
sem jeito de fazer discípulos junto a 4.000 etnias. Dá para 
agüentar isso? 
49 
Quando falamos em 3.000 etnias sem obreiro, ou 4.000 
etnias sem Escritura, creio que devemos esclarecer um de­
talhe. As etnias ainda não-alcançadas são povos minoritá­
rios. Embora a maioria dessas etnias sejam compostas por 
milhares e dezenas de milhares de pessoas (e até centenas 
de milhares), existem etnias com menos de mil pessoas. 
No Brasil (e na Austrália) há muitas etnias bem reduzi­
das, às vezes com menos de cem pessoas. Imediatamente 
uma indagação invade a mente. Será que vale a pena ten­
tar alcançar um povo assim? (Lembrar que trabalho trans-
cultural pioneiro é pelo menos dez vezes mais difícil que 
evangelismo na sua própria língua e cultura: leva anos 
para conseguir discípulos.) 
Tamanho importa? Jesus mandou fazer discípulos só 
nas etnias com pelo menos mil pessoas, ou dez mil? Jesus 
não mandou pregar a cada pessoa? (Uma etnia reduzida a 
um único sobrevivente ainda estaria dentro do âmbito da 
ordem.) Aqui eu gostaria de fazer umas perguntas aparen­
temente simplórias. Alguém escolheu quem viria a ser seu 
pai ou sua mãe, onde viria nascer, de que cultura viria fa­
zer parte? Não escolhi nascer de pais seguidores do Senhor 
Jesus, para uma língua que tem a Bíblia há séculos, numa 
cultura que me permite escolher qualquer carreira que o 
mundo atual oferece. Não escolhi, nem mereci; Deus me 
deu. De igual modo, nenhum índio catauixi escolheu nas­
cer em plena selva amazônica, para um povo reduzido, 
desprezado, perseguido, explorado e quase acabado, com 
uma língua que sequer tem forma escrita (ainda), numa 
cultura que o condena a morrer na selva sem nenhum co­
nhecimento do Evangelho após uma vida de luta contra os 
demônios e o "inferno verde" (quem chamou a selva de 
"inferno verde" certamente andou por lá uma vez, pois 
acertou). Também ele não escolheu. Agora e gostaria que 
você pensasse em tudo quanto Jesus representa na sua vi­
da, não só agora mas no porvir. Pronto? Agora vou pedir 
uma ginástica da imaginação. Procure imaginar que nada 
disso você tem, que de repente você trocou lugar com um 
catauixi e você está lá sem Cristo, sem esperança e sem 
saída, e é ele que está aqui. Nessa hipótese você não gosta-
50 
ria que alguém achasse que valesse a pena chegar até você 
com a luz do Evangelho? 
Dito isso, quero deixar bem claro que não estou aqui 
para fazer um apelo emocionante. Não quero que todo 
mundo saia correndo selva adentro para ver se acha um 
índio para evangelizar. Antes, eu diria: "Não vá!", a não 
ser que tenha certeza que é a vontade de Deus para sua vi­
da. Trabalho transcultural é muito difícil e não se faz na 
base de apelo emocionante, e nem na basede romantismo, 
mas sim na certeza inabalável da vontade específica de 
Deus para sua vida. Não há emoção nem idéia romântica 
que agüente a realidade. 
Irmãos, temos de levar a sério o desafio das etnias não-
alcançadas. No momento que assim fizermos vamos en­
frentar várias implicações, mas antes de comentá-las veja­
mos a terceira questão. 
Como fazer discípulos. O primeiro passo é ser discí­
pulo. Vem ao caso tudo que já se expôs a esse respeito. 
Tudo o mais está resumido em Mateus 28.20: "Ensinando-
os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado". Dis-
cipular implica em ensinar. Ensinar o quê? Ensinar a 
guardar, isto é, obedecer. Obedecer o quê? Obedecer to­
das as coisas que Jesus ordenou. Como ninguém vai obe­
decer coisa que ignora, é necessário primeiro ensinar as 
próprias coisas que Jesus ordenou, nada melhor nesse sen­
tido do que seguir o exemplo de Paulo, ensinando "todo o 
conselho de Deus" (At 20.27). 
Será que se faz assim na maioria das nossas igrejas? 
Não é mais mensagens evangelísticas que se ouvem? Mas 
pregação evangelística é praticamente inútil para crente. 
Ele vai fazer o quê, salvar-se de novo cada domingo? Ali 
está um crente que tem freqüentado a igreja dominical-
mente durante vinte anos; mais uma vez ele vai e escuta o 
quê: ele ouve pela milésima vez como é que se salva. Mas 
ele já está salvo! Essa pregação é sem valor para ele; en­
trou com fome e sai com fome do mesmo jeito. Que tragé­
dia! Comida de bodes não serve para ovelha! (Refiro-me a 
crente e incrédulo, assim como em Mt 25.33.) No entanto, 
se há 300 ovelhas e três bodes num culto, já viu! A prega­
ção vai em cima dos três bodes. E se têm 300 ovelhas e ne-
51 
nhum bode a pregação vai em cima dos bodes que não es­
tão! É ou não é? Meus amados irmãos, comida de bode 
nâo serve para ovelha. Agora, comida de ovelha bode 
também pode comer. Se o pastor oferece uma refeição far­
ta, bem preparada e temperada, pode dar vontade de co­
mer em qualquer bode. Será que não? Mas o principal é 
que as ovelhas saiam bem alimentadas. Afinal, o negócio é 
fazer discípulos, e é esse o enfoque que deveria dominar os 
nossos cultos. 
Até aqui eu vinha pressupondo a existência da Bíblia 
na língua do povo. Para ensinar a Palavra ela tem que exis­
tir. Certo? Quando Jesus disse em João 8.31: "Se perma-
necerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus 
discípulos", fatalmente estava pressupondo a existência 
dessa Palavra, pois como permanecer numa coisa que não 
existe? Quer dizer, tem de existir para a pessoa; a pessoa 
tem de ter acesso efetivo à Palavra. Então, se Deus te man­
dar para uma das 4.000 etnias que nada têm da Bíblia ain­
da, como você vai fazer? 
Mesmo que você ache que basta evangelizar, com que 
autoridade vai falar se não existe Palavra de Deus na 
língua? E não estaria esquecendo da verdade que encon­
tramos em Romanos 10.17: "a fé é pelo ouvir e o ouvir pela 
Palavra de Deus"? E se você conseguir algum convertido 
mesmo assim, onde está o alimento para essa criança re­
cém-nascida? Como poderá chegar a ser discípulo? Se al­
guém não providenciar a Palavra de Deus nessa língua, 
esse convertido fica condenado a ser sempre criança. Está 
bom? Condenar um povo a ser sempre criança? Essa não! 
Entre as ordens de Cristo não há nenhuma que mande 
traduzir a Bíblia. Só há a Grande Comissão que manda fa­
zer discípulos. Mas no momento que entendemos que é im­
possível ser discípulo sem acesso efetivo às Escrituras, o 
fornecimento delas mesmas torna-se logicamente necessá­
rio. Não há como cumprir a Grande Comissão junto às 
4.000 etnias sem sequer um verso da Bíblia enquanto al­
guém não traduzir a Palavra para suas línguas. É por isso, 
diga-se de passagem, que o grupo Wycliffe para tradução 
da Bíblia, a nível internacional, e a missão brasileira 
ALEM {Associação Lingüística Evangélica Missionária) 
52 
fazem questão de ver a Palavra de Deus traduzida para 
cada língua que se fala no mundo (isso levando em consi­
deração fatores como bilingüismo e extinção de língua). 
Onde a Bíblia já existe mas há crentes analfabetos de­
vemos montar cursos de alfabetização nas igrejas para que 
cada um possa se alimentar em casa. Creio existir uma 
analogia bastante estreita entre os âmbitos físico e espiri­
tual no que diz respeito à alimentação. Já pensou, comer 
só aos domingos? Quem agüentaria fazer assim no âmbito 
físico? Mas multidões de crentes fazem exatamente assim 
no âmbito espiritual. Tem jeito? Crente que sabe ler e pos­
sui Bíblia passa fome porque quer: poderia ler e meditar 
na Palavra em casa. Já crente analfabeto está quase sem 
jeito, a não ser que alguém leia para ele em voz alta, ou a 
viva voz ou mediante uma gravação. Mas nesse caso como 
poderá estudar a Palavra, e meditar nela à vontade? Pare­
ce-me claro que a melhor opção é levar as pessoas a ler por 
conta própria, sempre que possível. Sei que existem mis-
siólogos que vão discordar da ênfase que estou dando à al­
fabetização e à leitura, principalmente para povos cujos 
idiomas eram ágrafos até há pouco e que estão acostuma­
dos a fazerem tudo oralmente. Respeito as opiniões contrá­
rias, mas por todos os argumentos já apresentados mante­
nho a posição aqui esboçada. Vamos ver se levamos todo 
mundo a meditar na Palavra em casa, diariamente. 
No que diz respeito a trabalho transcultural creio que 
só conseguiremos fazer discípulos se respeitarmos a língua 
e cultura do povo, assim como fez Jesus. Ele se identificou 
com a língua e a cultura dos judeus da época (Jo 1.14). No 
dia de Pentecoste, o Espírito Santo respeitou a língua ma­
terna de cada qual a ponto de fazer um milagre para ga­
rantir que cada um ouvisse mediante ela (Atos 2.4-11). En­
quanto um missionário não vestir a língua e cultura do po­
vo, e (mais importante ainda) enquanto a Palavra de Deus 
não for vertida para essa língua, o Evangelho fica condena­
do a ser sempre uma coisa estrangeira, uma coisa de fora. 
Será que qualquer porta-voz de Cristo não deveria se inte­
ressar por tornar seu ministério o mais eficiente possível? 
Não é difícil encontrar pessoas que andam ministran­
do através de intérprete. Mas eu gostaria que refletíssemos 
53 
um pouco na seguinte pergunta: E possível fazer discípulos 
mediante intérprete? Quem falar através de intérprete não 
tem como fiscalizar as alterações que o intérprete fatal­
mente vai introduzir. Fatalmente. Quando o intérprete é 
servo de Cristo, está por dentro do assunto da mensagem e 
é tranqüilamente bilíngüe, então o recado poderá ser en­
tregue de forma adequada (embofa quase nunca tão bem 
como se o preletor dominasse a língua dos ouvintes). Mes­
mo com um intérprete assim, no entanto, numa tentativa 
de discipular alguém, não seria o intérprete que discípula 
em vez do missionário? Agora, quando o intérprete nem é 
convertido, a mensagem será fatalmente deturpada, mui­
tas vezes de forma irreconhecível. O intérprete vai filtrar a 
mensagem por sua própria cosmovisão, inescapavelmente, 
mesmo inconscientemente. Se o missionário pudesse en­
tender o que o intérprete realmente está dizendo ficaria 
horrorizado e arrasado! Dificilmente se faz discípulo me­
diante intérprete. 
E cuidado com o bilingüismo. Muitos missionários se 
contentam em ministrar através duma língua franca ou 
nacional, mesmo quando lidando com pessoas que têm ou­
tra língua materna. Creio que raramente se conseguirá fa­
zer discípulo através de uma segunda língua (quer dizer, 
não a língua materna), por mais bilíngüe que o evangeli-
zando pareça ser (para comprar e vender ou tratar de as­
suntos corriqueiros ele pode até ser fluente na língua fran­
ca), pois quase sempre a vida espiritual de uma pessoa se 
processa na língua materna. Aqui eu poderia relatar vários 
exemplos dentro da minha própria experiência e do meu 
próprio conhecimento. Quando alguém é tão bilíngüe que 
tem praticamente duas línguas maternas (por assim di­
zer), ou se chegou até o nível superior (universidade) numa 
segunda língua, então essa línguapoderá servir - é que aí 
ele já conseguiu o domínio de idéias abstratas e filosóficas 
nessa língua. Mas tais casos são poucos diante dos 350 mi­
lhões de pessoas que compõem as 4.000 etnias sem um 
versículo da Palavra de Deus, É claro que devemos traçar 
os planos e as táticas, a fim de enfrentar e resolver o grosso, 
não as exceções. Cuidado com o bilingüismo! 
54 
Conclusão: Quem for fazer trabalho transcultural 
deve se esforçar para dominar a língua e a cultura do povo 
para o qual for enviado. Se não existe Escritura na língua 
ainda, deve providenciá-la. Onde já tem a Bíblia devemos 
incentivar o seu uso, por todos os meios. Enfim, devemos 
ensinar a obedecer todas as coisas que Jesus ordenou. E 
nós temos de dar o exemplo, pois para fazer discípulo é 
preciso ser discípulo. Vários ministérios e missões têm pre­
parado material que fornece instruções detalhadas acerca 
do discipulado. Qualquer livraria evangélica terá livros 
sobre o assunto, à disposição do interessado. 
Implicações 
Encerrando este capítulo gostaria de tecer umas rápi­
das observações sobre algumas implicações de tudo isso. 
Primeiro, sua compreensão da ordem e estratégia de Cristo 
vai determinar seu procedimento, sua maneira de traba­
lhar, fatalmente. Se alguém quer fazer uma barraca de pa­
lha, vai seguir um procedimento e utilizar material apro­
priado para tal. Se outrem quer edificar um prédio de vin­
te andares, aí o procedimento e o material vão ser bem di­
ferentes. É evidente que nem todo mundo tem condições 
de construir um prédio de vinte andares, requer preparo 
adequado. Similarmente, nem todo obreiro tem condições 
de alimentar as ovelhas. Muitos não sabem estudar, não 
sabem como analisar e interpretar o Texto Sagrado. Não 
sabem preparar comida para ovelha. (Comida para bode 
qualquer um faz; bode come quase tudo.) Quando um pas­
tor trabalha oito horas por dia numa atividade secular, se­
rá que vai ter tempo e energia para preparar refeições 
boas? Parece-me ser uma questão que merece ser estuda­
da. Se vamos levar a sério a estratégia de fazer discípulos 
poderemos enfrentar a necessidade de fazer algumas modi­
ficações nas nossas vidas. Fazer discípulo é uma coisa; me­
ramente ganhar almas é outra. 
Por favor, nâo me entendam mal! Não estou comba­
tendo o ganhar almas; não sou contra o evangelismo. É 
claro que temos de ganhar as almas: ninguém pode crescer 
sem nascer! Os problemas aparecem quando ficamos lá 
nisso, quando não criamos nossos filhos. Também nãO M 
55 
tou propondo desprezo para com o dom de evangelista. Se 
você tem esse dom, graças a Deus! Só gostaria de sugerir 
que ao exercitar o dom tenha o cuidado de não deixar um 
rasto de menor abandonado. Deve se associar a quem te­
nha o dom de ensino para que juntos possam fazer um ser­
viço melhor. 
Quando enfatizamos as 3.000 etnias sem porta-voz de 
Cristo, ou as 4.000 línguas sem versículo da Bíblia, não é 
para sugerir que todos devam ir a outro povo, absoluta­
mente. Imagino que se todo crente estivesse igualmente 
disponível na mão de Deus Ele não mandaria mais do que 
10% para outros povos. Primeiro, trabalho transcultural é 
muito difícil e nem todos têm capacidade para tanto. Se­
gundo, é preciso que alguém fique discipulando por aqui. 
Terceiro, trabalho transcultural pioneiro exige tempo inte­
gral e portanto os obreiros que enfrentarem esse serviço 
precisarão de sustento integral: alguém tem que trabalhar 
para produzir esse sustento. Nem todos devem ir, mas to­
dos têm obrigação perante a Grande Comissão de Cristo. 
Todos devemos interceder, contribuir, divulgar e incenti­
var. Tudo que fazemos deve ser em prol do reino de Cristo 
aqui na Terra. 
Já disse, nem todo mundo deve ser obreiro transcultu­
ral, mas todos devem ser discípulos e fazer discípulos, 
cada um no lugar e na função que Deus determinar. En­
tendo que Jesus quer seus discípulos atuando em todas as 
áreas e profissões honestas da nossa sociedade, sendo discí­
pulo e fazendo discípulo. Qualquer um pode vestir a facha­
da de "santinho" aos domingos, na igreja, mas refletir ade­
quadamente o caráter de Deus no "batente" durante os 
dias úteis, aí a coisa muda de aspecto. A dona de casa faz 
discípulos dos próprios filhos, das vizinhas e das crianças 
delas. Professor e aluno fazem discípulos na escola. Car­
pinteiro, motorista, advogado, bancário, comerciante, 
político, e t c , e t c , cada um sendo discípulo e fazendo 
discípulos no seu ambiente. Penso que é assim que deve­
mos fazer nosso evangelismo. Em vez de levar bode à igreja 
para ser evangelizado, devemos ganhá-Lo primeiro e então 
levar o novel cordeiro à igreja para ser alimentado e disci-
56 
pulado. Penso que o ministério da Palavra em nossas igre­
jas deve girar em torno das ovelhas, não dos bodes. 
Resumindo, a ordem (e estratégia) de Cristo é fazer 
discípulos, não meramente ganhar almas. Criança não 
trabalha; dá trabalho. 
57 
1 
5 
Viver em função 
do reino, não para si 
Prosseguindo, vamos atentar para as palavras do Se­
nhor Jesus que encontramos em Lucas 12,31: "Buscai an­
tes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescen­
tadas." Novamente é uma palavra endereçada a seus 
discípulos. Antes de ver o efeito estratégico desta ordem, 
vamos recordar o contexto imediato. Nosso texto se insere 
numa passagem maior que vai do versículo 13 ao versículo 
48. Jesus vinha discorrendo sobre certas verdades básicas 
quando um homem o interrompeu com uma questão de in­
teresse financeiro pessoal. Jesus aproveitou para dirigir 
uma alerta à multidão, uma palavra para todos. "Acaute-
lai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qual­
quer não consiste na abundância do que possui." Aí profe­
riu a parábola do rico louco, que diante, da fartura reagiu 
assim: "Direi à minha alma': Alma, tens| em depósito mui­
tos bens para muitos anos: descansa, come, bebe e regala-
te." Mas Deus the disse: "Louco, esta noite te pedirão a 
tua alma; e o que tens preparado para quem será?" Aí Je­
sus arrematou: "Assim é aquele que para si ajunta tesou­
ros e não é rico para com Deus." 
Na nossa sociedade há uma falta de compreensão ge­
ral quanto aos valores, os princípios básicos ou fundamen­
tais que regem a vida neste mundo; a vida de qualquer um, 
seja cristão ou não, quer acredite ou entenda, quer não. 
Aqui Jesus coloca dois desses princípios. Primeiro Ele aler­
ta contra o materialismo: a vida não consiste nas coisas (v 
15). Segundo, quem ajunta tesouro para si é louco (v 21), 
(até o fim do capítulo veremos porque). A partir do versí­
culo 22 o Senhor restringe o enfoque e dirige uma palavra a 
seus discípulos. 
A Mentalidade do Reino 
A ordem que fornece a estratégia em pauta dá um re­
sumo dos versículos 22 a 34. Esses versículos nos trazem 
nada menos que dez ordens, entre positivas e negativas, 
ordens que exprimem uma mentalidade, mentalidade que 
gira em torno do reino de Deus. Creio que devemos ler a 
passagem toda, antes de comentá-la. 
22-(Jesus) disse aos seus discípulos: "Portanto vos 
digo: Não estejais ansiosos pela vossa vida, sobre o 
que eomereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis. 
23 - Mais é a vida do que a comida, e o corpo mais do 
que a roupa. 
24 - Considerai os corvos, que não semeiam nem cei­
fam, não têm despensa nem celeiro, e Deus os ali­
menta: quanto mais vaieis vós do que as aves? 
25 - Pois qual de vós, por estar ansioso, pode acrescen­
tar um côvado (45 cm) à sua estatura? 
26 - Portanto, se nem podeis as coisas mínimas, por 
que estais ansiosos pelas outras? 
27 - Considerai os lírios, como crescem; não traba­
lham, nem fiam; digo-vos, porém, que nem Salomão, 
em toda a sua glória, se vestiu como um deles. 
28 - Ora, se Deus assim veste a erva que hoje está no 
campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais a 
vós, homens de pouca fé? 
29 - Não pergunteis, pois, que haveis de comer, ou que 
haveis de beber, e não andeis inquietos. 
30 - Porque todos os povos do mundo zelam por estas 
coisas; e vosso Pai sabe que necessitais delas.60 
31 - Buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas 
vos serão acrescentadas. 
32 - Não temas, ó pequeno rebanho, porque a vosso 
pai agradou dar-vos o reino. 
33 - Vendei os vossos bens e dai esmola. Fazei para 
vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus 
que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça 
não consome. 
34 - Porque, onde estiver o vosso tesouro, ali estará 
também o vosso coração." 
São dez ordens - "não estejais ansiosos", "considerai 
os corvos", "considerai os lírios", "não pergunteis" sobre 
comer e beber, "não andeis inquietos", "buscai antes o rei­
no", "não temas", "vendei", "dai", "fazei" - dez ordens. 
São ordens, não pontos facultativos. Elas requerem uma 
mentalidade que se desprende das coisas e dos valores do 
mundo que nos cerca, uma mentalidade que gira em torno 
do reino de Deus, que vive em função dele. Se todo crente 
evangélico tivesse esta mentalidade, não faltaria mão-de-
obra para alcançarmos o mundo e menos ainda o dinheiro, 
tanto para sustentar os obreiros como para custear todo o 
empreendimento. Aliás, bastaria os crentes do Brasil só e 
tomaríamos o mundo de assalto! 
Jesus iniciou a palavra no versículo 22 com o vocábulo 
"portanto". Ele estava partindo dos princípios básicos que 
acabara de anunciar nos versículo 15-21, O trecho em pau­
ta termina com estas palavras: "Onde estiver o vosso te­
souro, ali estará também o vosso coração". Eis a questão! 
Onde está o seu coração? Seu coração, meu irmão, onde es­
tá? Se está por aqui neste mundo, você é um coitado. Sim, 
porque isso vale dizer que seu tesouro está por aqui, e este 
mundo não é lugar certo de se ter tesouro. "Porque nada 
trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada pode­
mos levar dele! (1 Tm 6.7). (O versículo 8 prossegue: "Ten­
do sustento e com que nos vestir, estejamos contentes".) 
Podemos mandar na frente, investindo no Reino, mas não 
levar junto. Diante da eternidade, quem pensar unicamen­
te nos poucos anos que devemos passar aqui na terra é ver­
dadeiramente louco. 
61 
Atentando agora para o versículo 31 (Lc 12), verifica­
mos que Jesus fez uma promessa. Promete acrescentar 
"todas estas coisas" aos que vivem em função do reino. E 
quais são as ditas "estas coisas"? 0 contexto imediato dei­
xa claro que são exatamente o que comer, o que beber e o 
que vestir. E só! Curioso, não é? Jesus não promete luxo e 
nem conforto, só as coisas básicas para manter a vida. En­
xergo pelo menos dois motivos. Primeiro, não fosse assim 
seria ferir seu próprio exemplo (ver Fl 2.5-8). A começar 
pelo nascimento, Jesus levou uma vida humilde; traba­
lhou com as próprias mãos; andou a pé pelos caminhos em-
poeirados da Palestina; durante os três anos de ministério 
público dependia dos outros, literalmente. (Parece-me ser 
a resposta suficiente contra a filosofia "filhinhos do Rei". 
Eles argumentam assim: "Nós somos filhos de Deus; Deus 
é Rei; filho de rei é príncipe; príncipe tem direito de viver 
em palácio e passar muito bem, etc. Não é uma idéia 
atraente? Só que não procede; Jesus é muito mais Filho de 
Deus do que nós e Ele não viveu assim nesta terra.) 
Segundo, os estudiosos do assunto nos afirmam que no 
mundo hoje 50% das pessoas são subnutridas, não têm o 
básico necessário; outros 40% têm o suficiente, mas é só; 
apenas 10% das pessoas ora vivas neste planeta têm mais: 
são os privilegiados, materialmente falando. Parece-me 
uma questão de lógica: de cada dez obreiros disponíveis na 
mão de Jesus, nove devem ser destacados entre os necessi­
tados. E como diz a sabedoria do povo, "Comer sozinho é 
feio". Um porta-voz de Cristo que representa uma ilha de 
luxo num mar de miséria é uma contradição: Jesus não fez 
assim. Jesus identificou-se com o povo. É nosso exemplo. 
Quando eu morava numa aldeia indígena em plena selva 
amazônica nossa "casa" era de palha, a exemplo dos 
índios, comíamos o que eles comiam, etc. Procuramos ves­
tir a realidade deles. Já em Brasília temos um apartamen­
to (simples), mesmo porque o zoneamento não admite casa 
de palha, e dirigimos um carro (também simples), pois tra­
balhar em Brasília sem carro é difícil. Deus pode dar con­
forto, mas não promete. É questão de contexto. 
Bem, imagino que alguém vá pensar nas promessas 
feitas ao dizimista no Antigo Testamento. De fato, houve 
62 
promessa de prosperidade para o dizimista. Aliás, entendo 
que Deus ainda abençoa o dizimista, apesar de muitos de­
les aparentemente julgarem que os 90% lhes pertencem, 
que Deus nada tem a ver com isso. Mas o dízimo "já era". 
Jesus não está mais esperando 10%; agora Ele quer 100%, 
tudo! Não é isso mesmo que Ele disse em Lucas 14.33? 
"Qualquer de vós que não renuncia a tudo quanto tem, não 
pode ser meu discípulo." "Tudo" não é 100%? 100% não é 
tudo? Eu sei, você não está gostando. Parece um absurdo! 
E a gente, como fica? Vamos comer o quê? Enfim, como 
será possível dar 100%? É simples; basta ser escravo de Je­
sus! 
Sejamos Escravos de Cristo! 
Quando alguém pergunta como eu encaro meu rela­
cionamento com Jesus Cristo , e se temos tempo para uma 
resposta tranqüila, digo que sou escravo de Jesus. Estou 
em boa companhia, pois Paulo (Rm 1.1), Tiago (Tg 1.1), 
Pedro (2 Pe 1.1) e Judas (não o Iscariotes, Jd 1) assim se 
declararam. É uma escravidão que a gente abraça por 
amor (ver Êx 21.1-6), por amor a Jesus, de livre e espontâ­
nea vontade. Já sei, alguém não está gostando da idéia de 
ser um escravo. Tudo bem, mas nesta hipótese você está 
esquecendo de um pequeno detalhe. É que todo mundo é 
escravo; faz parte inerente da condição humana. Nasce­
mos escravos, vivemos escravos e morremos escravos. Em 
João 8.34 o Senhor Jesus declarou: "Em verdade, em ver­
dade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo 
do pecado." O ser humano sem Deus não tem opção; nasce 
pecador e continua escravo do pecado até a morte. Ser es­
cravo do pecado vale dizer ser escravo do "eu" é a nossa 
desgraça; somos egoístas (é o que nos leva a nos rebelar 
contra Deus) e ser escravo do nosso ego vale dizer ser es­
cravo de Satanás, pois sozinho ninguém pode contra ele. 
Mas Jesus oferece opção, aleluia! A opção não é deixar de 
ser escravo, essa não. A opção é trocar de dono! 
Passei a ser escravo de Jesus Cristo no dia 13 de abril 
de 1956, faltando poucos dias para o meu vigésimo segun­
do aniversário. Praticamente nasci crente, pois desde que 
me entendi sempre cria no Senhor Jesus: era crente, mas 
63 
não era discípulo; faltava a entrega sem reservas. Antes de 
13/04/56 ainda estava às voltas com minhas próprias idéias 
e ambições, meus desejos e quereres. Ê que ainda estava 
tentando escolher o próprio caminho, dirigir os próprios 
passos. Como era triste! Só "dava com os burros nágua". 
Não tinha nem burro nem água que chegasse. Pois então, 
aonde um jovem com seus vinte anos iria achar a sabedo­
ria, o conhecimento, a capacidade de mandar na própria 
vida? Teria aprendido quando e com quem? (E aos qua­
renta anos, ou aos sessenta, será que a coisa melhora o su­
ficiente?) A Bíblia deixa claro que o ser humano não tem 
condições de dirigir os próprios passos (ler, por favor, Jr 
10.23; 17.9; Pv 20.24; 28.26). Antes de me tornar escravo de 
Jesus, eu estava na mão de um dono sem saber, sem poder 
e sem condições, estava numa situação triste. Mas agora 
estou numa boa, na melhor delas, por sinal! Estou na mão 
dum Dono que tem todo saber, todo poder e que além do 
mais me quer bem, tanto prova que morreu por mim. Po­
deria existir um "galho" melhor? 
Vamos ver como funciona. Pensemos no caso dum es­
cravo no tempo de Jesus. Um escravo tinha direitos? Não. 
Para que existia um escravo? Para servir, servir a seu do­
no. Um escravo não passa de um escravo. Há mais de trinta 
anos eu vivo na base de Lucas 12.22-34. Há mais de trinta 
anos não sei de mês em mês o quanto que Deus vai me dar, 
pois quase nunca é a mesma quantia dois meses em segui­
da (é que não tenho salário ou ordenado fixo ou garantido). 
No entanto, nunca passei fome. A esposae as filhas tam­
bém nunca passaram fome. Já andei com quatro nós no ca-
darço (antes de casar), mas nunca andei sem sapato. A 
família anda bem vestida. Na verdade nunca passamos 
necessidades. 
E se o dono dá ordem que implica em despesas (cons­
truir uma casa, por exemplo), aí ele tem de fornecer o ma­
terial, etc. Quer dizer, o que o dono encomendar ele tem de 
pagar. O que Jesus encomenda Ele paga. No meu caso es­
pecífico, Jesus encomendou dois mestrados e um doutora­
do. Custaram bastante dinheiro - Jesus pagou tudo; eu 
não tenho nada. O que já andei de avião daria para circun-
64 
dar a terra mais de uma vez - Jesus pagou tudo; eu não te­
nho nada. O que Jesus encomenda Ele paga. 
De fato tenho só uma preocupação maior na vida: sa­
ber exatamente aquilo que meu Dono está encomendando. 
Uma vez que tenho certeza vou embora sem olhar para 
trás. A coisa está garantida. Posso imaginar que meu Dono 
vai faltar à sua palavra? Posso duvidar que meu Dono pos­
sa ou queira me sustentar (SI 24.1)? Qual a dúvida que 
pode restar? Confesso não entender, de certa forma, por­
que tantos crentes não querem ser escravos de Jesus, não 
querem se entregar sem reservas (espero que ninguém se 
espante com esta abordagem, pois quando falo de "escra­
vo" estou falando do discípulo verdadeiro que apresenta­
mos no capítulo anterior, nada mais). Pode ser que estejam 
fazendo a pergunta errada. Imagino que muitos pensem 
assim: "Quanto será que vai me custar ser escravo (ou 
discípulo) de Cristo?" Não é a pergunta certa. 
A pergunta certa seria: "Quanto vai me custar se eu 
nâo for um escravo de Cristo?" Em vez de pensar em tudo 
que Jesus possa exigir, no abrir mão das ambições e dos de­
sejos, na possibilidade de ser enviado para a selva a traba­
lhar com índios, deveríamos pensar nas conseqüências da 
falta duma entrega sem reservas a Jesus. O preço de não 
viver em função do Reino de Cristo é tão somente perder 
sua vida. É isso mesmo; custa a vida. Vejamos as palavras 
do Senhor Jesus em Lucas 9.24 e 25. Aliás, podemos come­
çar pelo verso 23. "Se alguém quer vir após mim, negue-se 
a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me, Porque, 
qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas, 
qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salva­
rá. Porque, que aproveita ao homem granjear o mundo to­
do, perdendo-se ou prejudicando-se a si mesmo?" Jesus 
fala em perder a vida (não pode ser a alma, como sugere o 
rodapé de alguma Bíblia, pois perder a alma por amor de 
Cristo é impossível). Não seria exatamente a vida que se 
perde quando alguém dá um tiro na cabeça; é a vida vivi­
da. E o que representa a minha vida, tudo que fiz até aqui 
e que irei fazer até a morte ou o arrebatamento da Igreja, o 
que ocorrer primeiro. É essa a vida que está em jogo. 
65 
Vamos ver se entendemos melhor essa palavra de Je­
sus. Parece ser quase uma contradição - se perder, salva; 
se quiser salvar, acaba perdendo. Como será que funciona? 
Voltemos ao texto para ver o contexto. No versículo que se­
gue à passagem em pauta (v. 26) Jesus se refere à sua se­
gunda vinda. A passagem paralela, Mateus 16.27, esclare­
ce melhor: "Porque o Filho do homem virá na glória de seu 
Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as 
suas obras." Cristo estava pensando na prestação de con­
tas. É que "todos havemos de comparecer ante o tribunal 
de Cristo" (Rm 14.10) onde "cada um de nós dará conta de 
si mesmo a Deus" (Rm 14.12). "Porque todos devemos 
comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um 
receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, 
ou mal" (2 Co 5.10). Entendo que 1 Coríntios 3.11-15, diz 
respeito ao mesmo acontecimento, a prestação de contas. 
Depois de declarar que o único fundamento é Jesus Cristo, 
Paulo fala de construir com "ouro, prata, pedras precio­
sas", ou com "madeira, feno, palha". (Embora a interpre­
tação primária deste texto deva referir-se à atuação dos 
obreiros na igreja, parece-me claro que aplica-se também 
ao viver de cada um, desde que convertido.) É que nossas 
obras serão provadas por fogo. Se o fogo tem efeito sobre 
ouro e prata, é apenas purificar; já o efeito sobre feno e pa­
lha é devastador. Muito bem, e daí? 
Vamos voltar à criação. Deus criou o ser humano para 
sua glória; para refleti-la e contribuir para ela. Creio que, 
por extensão, podemos entender Isaías 43.7 assim. Mas 
essa capacidade Adão jogou por terra quando rebelou-se 
contra Deus. É por isso que a condenação que pesa sobre o 
ser humano é que fica "aquém da glória de Deus" (Rm 
3.23). Mas o Filho veio ao mundo recuperar o potencial 
perdido. Efésios 1.12 e 14 explica que o plano da salvação 
visa a "o louvor da sua glória". E 1 Coríntios 10.31 traz a 
seguinte ordem: "Portanto, quer comais quer bebais, ou 
façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de 
Deus." É que fomos "criados em Cristo Jesus para as boas 
obras" (Ef 2.10). Com isso Deus não está querendo "estra­
gar" nossas vidas, tirando todo o prazer delas (como mui­
tos parecem imaginar). Ele não está sendo arrogante, exi-
66 
gente demais. Muito pelo contrário, Ele gostaria de evitar 
que percamos as nossas vidas. Sim, porque a glória de 
Deus é eterna (Salmo 104.31) e quando faço uma coisa 
para a glória dele essa coisa se transforma, adquirindo va­
lor eterno: passa a ser "ouro, prata, pedra preciosa". As 
obras feitas para a glória de Deus passarão pelo fogo sem 
prejuízo. Já as coisas feitas em função das próprias ambi­
ções e idéias são "palha". Certamente todos já ouviram fa­
lar em "fogo de palha", mas você já viu? É impressionan­
te! 
Pois é isso aí. Ser escravo de Jesus implica em viver 
em função do Reino, implica em fazer tudo para glória de 
Deus. Com isso o escravo "salva a vida" pois estará er­
guendo a vida com "ouro e prata" que passará pelo fogo do 
Tribunal de Cristo tranqüilamente. Já aquele crente que 
rejeita a condiçãp de escravo de Jesus vai erguer a vida 
com "feno e palha" que será consumido pelo fogo, e com 
isso ele "perde a vida" - ele viveu em vão; o potencial que 
representava sua vida foi jogado fora. Que tragédia! 
(Imagino que alguém possa dizer: "Pois não, pois não. 
Entendi. Estou perdendo minha vida. E daí, o que você 
tem a ver com isso? Se quero jogar fora minha vida, o 
problema é meu!" Bem, de fato, é verdade, o problema é 
seu. Mas eu gostaria que você refletisse numa coisa: o 
problema não é unicamente seu; não é só seu! É também 
das pessoas que deveriam ter sido alcançadas através da 
sua vida, e não o foram. É também do próprio Cristo que 
foi lesado naquilo a que tinha direito.) 
Entendo que cada crente deve viver em função do Rei­
no, deve ser um discípulo verdadeiro de Cristo, deve ser 
um escravo de Jesus. Mas não quero deixar a impressão de 
que todo mundo deve levar a vida exatamente como eu 
(nem quero deixar a impressão de que eu seja um escravo 
ou discípulo perfeito; não, infelizmente ainda me rebelo 
contra meu Dono, vez por outra sou pecador). Pelo contrá­
rio, imagino que muitos, até mesmo a maioria, vão exercer 
funções que implicam em salário ou ordenado, e isso se­
gundo a vontade de Deus. A questão fundamental é a men­
talidade. Sua vida gira em torno de quê? Você está vivendo 
67 
em função de quê? No íntimo você está dependendo de 
Deus, ou do salário? E esse salário, quem manda nele? 
Também não quero sugerir que todo mundo deva ser 
pobre. Não necessariamente. Entendo, inclusive, que cer­
tas pessoas têm o ministério de ganhar dinheiro. Eu ia di­
zer o "dom", mas já catei todas as listas dos dons espiri­
tuais e não achei, (Já pensou? Fosse dom, aí todo mundo 
iria querer!) Mas digo "ministério" porque Deus dá o di­
nheiro para investir no Reino. Estou pensando nominal­
mente em vários homens da geração próxima passada que 
tinham este ministério. Eram multimilionários em dóla­
res, Deus abençoava de maneira impressionante. Mas é 
que eles tinham a mentalidade do Reino. Sabiam que 
aquilo tudo não era para eles curtirem sozinhos. Investiam90% do lucro na causa de Cristo. Era sua função no reino 
de Deus. Importa é a mentalidade! 
Resumindo, ser escravo de Jesus é questão duma en­
trega sem reservas, dum compromisso total com Ele. Po­
rém, posso imaginar que alguém esteja pensando: "Bem, 
essa idéia toda talvez funcione para norte-americano, onde 
todo mundo tem dinheiro (e dólar), mas aqui no Brasil vai 
ser diferente. Aqui estamos em plena crise econômica, e 
além do mais a maioria dos crentes evangélicos do país são 
pobres." Essa colocação merece uma avaliação cuidadosa. 
Somos Pobres Demais? 
Quer dizer que somos pobres demais? Obedecer às or­
dens de Cristo é privilégio só de ricos? Será que nossa 
Bíblia traz Marcos 16.15 de forma completa? Talvez de­
veríamos ler assim: "Ide por todo o mundo, desde que seja 
norte-americano (ou sofrivelmente inglês, alemão ou sue­
co), pregai o Evangelho a toda a criatura." Que tal? Antes 
de aceitarmos essa tese, vamos examinar a questão com 
mais cuidado. Podemos voltar ao começo, 
Os primeiros crentes, lá em Jerusalém, eram ricos ou 
pobres? Parece que a grande maioria era pobre; tanto as­
sim que os poucos abastados começaram a vender proprie­
dades para alimentar os demais. Deu-se aí o caso de Ana-
nias e Safira (At 4.32; 5.11). É que os crentes não quiseram 
sair de Jerusalém, apesar das palavras do Senhor Jesus 
68 
que achamos em Lucas 24,49 e Atos 1.8. O próprio Deus 
mandou então as perseguições que dispersaram os crentes. 
Foi aquela turma de pobres que se espalhou pelo mundo 
pregando o Evangelho. 
Em 2 Coríntios 8.1-5 encontramos um relato interes­
sante que vem exatamente ao encontro do nosso assunto, 
01 - Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça 
de Deus dada às igrejas da Macedônia; 
02 - Como em muita prova de tribulação houve abun­
dância do seu gozo, e como a sua profunda pobreza 
abundou em riquezas da sua generosidade. 
03 - Porque, segundo o seu poder (o que eu mesmo tes­
tifico), e ainda acima do seu poder, deram voluntaria­
mente, 
04 - Pedindo-nos com muitos rogos a graça e a partici­
pação deste serviço, que se fazia para com os santos. 
05 - E não somente fizeram como nós esperávamos, 
mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor... 
Os crentes macedônios eram paupérrimos ("profunda 
pobreza"). Além do mais, estavam passando por muita tri­
bulação. Mesmo assim, fizeram questão de contribuir. 
Pelo versículo 4 podemos deduzir que o apóstolo sentiu-se 
um pouco constrangido diante da situação dos macedônios 
pois eles próprios precisavam de ajuda; como então levan­
tar uma oferta nesse contexto? Mas eles insistiram junto a 
Paulo: queriam dar. E deram mais do que podiam ("acima 
do seu poder"). Mas como seria possível isso? É que ti­
nham a mentalidade do Reino: No versículo 5 lemos que 
"a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor". E cer­
tamente estavam por dentro do segredo da economia de 
Deus, que está descrita em 2 Coríntios 9.8, Mas antes de 
atentar para esse segredo, gostaria de pensar mais um pou­
quinho sobre nossa pobreza diante dum mundo perecendo 
sem Cristo. 
Vem à mente o caso da multiplicação dos pães (Mt 
14.13-21; Mc 6.31-44; Lc 9.10-17; Jo 6.1-13). Jesus tentou 
se retirar (por água) para um lugar isolado, mas nada feito. 
Alguém percebeu e a multidão chegou na sua frente (por 
terra). Como sempre, Ele sentiu compaixão, pois eram 
como ovelhas sem pastor. Passou a ensiná-los, o dia todo. 
69 
Finalmente os discípulos chegaram ao pé dele sugerindo 
que a multidão fosse despedida, pois por ali não tinha 
como achar alimento. Você se lembra da resposta de Jesus 
àquela iniciativa? "Dai-lhes vós mesmos de comer!" Já 
pensou? Já parou mesmo para refletir? Diga-me aí por ca­
ridade, com quê? Como poderiam os discípulos obedecer à-
quela ordem? 
Vamos parar para relembrar o quadro. Diz o Texto 
Sagrado que eram quase 5.000 homens contados, sem cal­
cular as mulheres e as crianças. Agora, quando se vê 
qualquer multidão por ali, o que que mais tem? Não é mes­
mo mulher e criança? Quer dizer, imagino que aquela mul­
tidão tenha sido composta de 15.000 pessoas, no mínimo. 
Muito bem, procure imaginar que você seja um daqueles 
doze discípulos, e você acaba de ouvir o Mestre dizer: 
"Dai-lhes vós de comer". E agora, como fica? Os discípu­
los tinham alguma coisa? De fato, não. Nem dinheiro (que 
nada adiantaria, pois era um lugar isolado, sem mercado 
ou restaurante) e nem comida tinham. Mesmo os cinco 
pães e dois peixinhos eram dum rapaz na multidão. 
Será que Jesus falou sério, ou teria sido uma brinca­
deira (meio sem gosto a essa altura)? Não sei, mas prefiro 
pensar que Jesus não iria brincar dessa forma. Mas se fa­
lou sério, como poderiam os discípulos obedecer? Só ope­
rando milagre. Mas eles se sentiram sem condições e de­
volveram o "abacaxi" para Jesus descascar, e Ele o fez 
muito bem. Mas foi Jesus que entregou o pão e peixe à 
multidão? Não. Vamos pensar mais um pouco no quadro, 
pois devemos ainda sentir a fé dos discípulos. 
Diz o Texto Sagrado que a multidão saiu saciada. Não 
foi uma coisa só para enganar o estômago, ficaram satisfei­
tos. Agora, já pensou quanto pão e peixe precisaria para 
fartar 15.000 pessoas que estavam sem almoço? Certamen­
te quando Jesus abençoou e partiu aqueles pães e peixi­
nhos não houve uma multiplicação instantânea tamanha 
que daria para a multidão. Nesse caso a tremenda pilha de 
pão e peixe iria soterrar Jesus, os discípulos e quem mais 
por perto estivesse! Sério. Basta parar e pensar um pou­
quinho. Podemos ter certeza de que não foi assim. Quando 
70 
Jesus colocou pão e peixe nas mãos dos discípulos, era só o 
que tinham até esse momento. 
Agora, procure imaginar que você fosse um daqueles 
discípulos, e você com esse pouco de pão e peixe na mão ti­
nha que alimentar mais de mil pessoas (doze discípulos e 
quinze mil pessoas). Já pensou? Você não iria se sentir 
ridículo ao tomar o primeiro passo em direção ao povo? No 
entanto, sabe lá como, os discípulos acharam a coragem e 
se aproximaram do povo. O primeiro se serviu e, maravi­
lha, ficou no mesmo! O segundo se serviu, e ficou no mes­
mo. Aleluia, não acabava nunca! Ao passo que foram dis­
tribuindo, a comida foi multiplicando. Se tivesse desistido 
pela metade, metade do povo teria ficado sem comer. Se 
tivessem comido primeiro, imagino que a coisa teria estan­
cado logo no começo e a multidão ficava faminta. Os discí­
pulos comeram por último, mas comeram muito bem, 
obrigado. (Você já experimentou comer um cesto de pão?) 
Eu acho graça, pensando naquele quadro, até lembrar 
que o Senhor Jesus ainda está a nos dizer: "Dai-lhes vós 
mesmos de comer", só que desta vez são nada menos que 
8.000 etnias e 2,5 bilhões de pessoas perecendo diante 
duma falta absoluta do Pão da Vida. E nós, que nem os 
discípulos, a dizer, "Com que, Senhor?" Enquanto ficar­
mos olhando para as nossas mãos vazias não vamos achar 
a coragem para enfrentar o desafio do mundo perdido. Não 
depende das nossas mãos vazias, depende das mãos cheias 
de Jesus! Não depende da nossa fraqueza e pequenez, de­
pende de Jesus, do que Ele tem e pode. Temos de apren­
der como colaborar com Deus, e realmente fazê-lo. Enfim, 
precisamos entender como é que funciona a economia de 
Deus. 
A Economia de Deus 
Os capítulos 8 e 9, inteiros, de 2 Coríntios versam 
sobre oferta, dar, contribuir, enfim, dinheiro. Mas é a par­
tir de 2 Coríntios 9.6 que encontramos a descrição de como 
a economia de Deus funciona. Esse versículo enuncia um 
princípio básico, fundamental que é de aplicação geral, 
pois atinge a todos. "E isto afirmo: Aquele que semeia 
71 
pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com abun­
dância, com abundância também ceifará." 
Qualquer agricultor entende isso. Se ele plantar pouco 
feijão, vai colher pouco feijão. Se ele quer mais, tem de 
plantar mais. Qualquer homem de negócios também en­
tende. Se ele quer dinheiro, tem de plantar dinheiro, só 
que aí usamos o termo "investir". É o mesmo princípio. 
Mas tem um detalhe que às vezes podeser incômodo: é 
preciso plantar primeiro, para colher depois. É melhor 
apertar o cinto do que comer a semente, por mais fome que 
esteja sentindo. É claro, pois quem comer a semente não 
vai plantar nada, e quem planta nada, colhe nada! 
A natureza às vezes é pródiga. O campeão deve ser o 
milho. Imagino que muitos leitores já tenham plantado 
milho. A gente costuma colocar três ou quatro grãos numa 
cova, mas suponhamos que certa vez caia só um. Se esse 
grão germinar, nasce um pé. Certo? E esse pé deve produ­
zir duas espigas boas (a terceira costuma ser murcha). 
Agora, você já contou quantos caroços uma espiga tem? 
Pois eu já. Se ela for franzinha, talvez tenha 300 grãos. 
Uma boa espiga deve ter por volta de 500 grãos. Uma se­
nhora espiga pode ter até 800! Suponhamos que nosso pé 
de milho nos dê duas espigas boas. Plantamos um grão e 
receberemos de volta 1.000 grãos! Não é negócio? Mesmo 
um feijão que nos dê apenas umas dúzias por um não deixa 
de ser negócio. É assim que Deus faz. 
Como já observamos o contexto é financeiro, e o versí­
culo 7 deixa claro que ao falar sobre plantar e colher o au­
tor quer que apliquemos o princípio ao dar. "Deus ama ao 
que dá com alegria." Creio que podemos tranqüilamente 
entender o seguinte: quem dá muito, recebe muito; quem 
dá pouco, recebe pouco; quem dá nada, recebe nada. Tal­
vez seja por isso que muitos crentes, inclusive obreiros, es­
tão sempre apertados financeiramente. Não dão; nunca 
contribuem. Lucas 6.38 mostra a reação dos homens e Pro­
vérbios 3.9,10 a reação de Deus quando alguém dá. 
Agora vamos ao "segredo"; está no versículo 8 (2 Co 
9). "Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a gra­
ça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, 
abundeis em toda a boa obra." Vamos observar com cuida-
72 
do o conteúdo semântico. É Deus que é poderoso, não a 
gente. É Ele que vai fazer abundar em nós, não a gente 
que vai abundar. E Ele vai fazer abundar em nós "toda a 
graça"; a graça no caso é a graça de dar, de contribuir 
(lembrar 2 Co 8.1, "a graça de Deus dada às igrejas da Ma-
cedônia", que foi exatamente a graça de dar, inclusive 
mais do que podiam). Agora o Texto amontoa palavras en­
fáticas: "sempre", "tudo", "toda", "suficiência", "abun­
deis", "toda". Essa ênfase toda é para garantir dois resul­
tados: a gente deve sempre ter o suficiente (pelo menos), e 
a gente deve abençoar grandemente os outros. Vamos ver 
como funciona. 
Entendo que é o seguinte. Deus quer que sejamos ca­
nais, veículos ou canos através dos quais Ele pode encami­
nhar um fluxo de bênçãos, tanto materiais como espiri­
tuais, a terceiros. Muita coisa que a gente recebe não seria 
exatamente para o uso da gente (tem outro endereço), e a 
gente tem que reencaminhar a bênção (o outro endereço 
temos que discernir pelo Espírito). Quando a gente corres­
ponde e colabora com Deus, aí Ele manda mais. Quanto 
mais fiel e sensível a gente for, mais Deus vai mandar, um 
fluxo de bênção cada vez maior. Mas se Deus enviar uma 
bênção, digamos uma quantia de dinheiro, que tem outro 
endereço e a gente não quer entender, não quer colaborar, 
segura para si, aí a gente passa a ser um "cano entupido". 
Que coisa triste um cano entupido, é uma negação! Aí es­
tanca o fluxo da graça de Deus através da minha vida, pois 
Ele pára de mandar. É claro. Para que Deus vai continuar 
mandando se eu não deixo passar? Será que nossas igrejas 
não estão cheias de "canos entupidos"? 
Quando colaboramos com Deus, Ele ganha, os outros 
ganham e nós também ganhamos. Mas quem recuar, omi­
tir-se, estará prejudicando a si mesmo, aos outros e ao pró­
prio Deus. Vejamos os versículos que seguem: 9-14 (2 Co 
9). O versículo 9 diz respeito à última frase do versículo 8, 
sendo uma citação do Salmo 112.9. Os versículo 10 e 11: 
"Ora, aquele que dá semente ao que semeia, e pão para co­
mer, também suprirá e aumentará a vossa sementeira; em 
tudo sendo enriquecidos para toda a generosidade, a qual 
faz que por nós se dêem graças a Deus." Mas que maravi-
73 
lha! Deus dá até a semente para a gente plantar; e para 
evitar que alguém coma essa semente, ao mesmo tempo 
Ele dá o pão para a gente comer. Ele visa exatamente à se-
menteira, Ele está querendo ver os frutos. Quando a gente 
é fiel, colabora, aí Deus não somente supre mas aumenta 
nossa sementeira; em outras palavras, Ele aumenta a nos­
sa generosidade, ou pelo menos o fará ao passo e na medida 
que cooperamos com seu propósito. Como resultado certo e 
justo desse processo, Deus recebe aquilo a que faz jus: os 
beneficiados rendem graças a Ele. 
Os versículos 12 e 13 ampliam esse aspecto. "Porque o 
exercer deste ministério não só supre as necessidades dos 
santos, mas também redunda em muitas graças a Deus; 
através desta ministração aprovada, glorificam a Deus 
pela obediência que acompanha vossa profissão do Evan­
gelho de Cristo, pela liberalidade da partilha com eles, e 
com todos, e através da oração deles por vós, tendo de vós 
grande saudade por causa da superabundante graça de 
Deus que em vós há" (2 Co 9.12-14). Assim, quando nos as­
sociamos à economia de Deus Ele recebe a glória devida, as 
necessidades dos santos são supridas, e nós somos aben­
çoados. Primeiro, as pessoas que recebem os benefícios do 
nosso ministério oram a nosso favor, e certamente Deus há 
de atender a essas orações. Segundo, mesmo sem tal ora­
ção, nossa obediência há de receber os efeitos da fidelidade 
de Deus. Não somente temos as declarações e promessas 
desta passagem, mas o próprio interesse divino está em jo­
go, pois um "cano" fiel e útil não pode morrer de fome. 
Então, meus irmãos, é isso aí. Deus não fica devendo a 
ninguém. Vale a pena repetir: Deus não fica devendo a 
ninguém! Somos pequenos demais; não é à gente que 
Deus vai ficar devendo. Ele não aceita. Podemos confiar: 
quem dá muito, recebe muito; quem dá pouco, recebe pou­
co; quem dá nada, é porque quer receber nada. Parece-me 
ser verdade que este princípio, assim como o dízimo, fun­
ciona mesmo quando a motivação da pessoa é interesseira 
ou egoísta. No entanto, creio que o leitor há de convir que 
meu apelo todo tem sido contra o egoísmo. É devido às 
"compaixões de Deus" que devemos apresentar as vidas 
em, "sacrifício vivo" (Rm 12.1). É pelo privilégio e o prazer 
74 
de participar r a graça de Deus que devemos dar. Creio ser 
verdade dizer que nossa prosperidade está nas próprias 
mãos, pelo menos em parte (infelizmente é também verda­
de que podemos sofrer pela desobediência dos outros, as­
sim como eles podem sofrer pela nossa). Mais do que isso, 
a situação financeira do empreendimento missionário está 
também nas nossas mãos. Se colaborarmos com Deus não 
faltará dinheiro para sustentar os missionários que Ele es­
tá chamando e nem para custear todos os demais aspectos 
da obra. 
A "Promessa de Fé" 
Um procedimento que muito se usa em nossos dias 
para levantar fundos para missões é a chamada "promessa 
de fé" (no sentido de uma promessa feita pela fé). Entendo 
ser exatamente uma aplicação específica da verdade ex­
posta em 2 Coríntios 9.8. O procedimento funciona da for­
ma seguinte. Vamos colocar o assunto em termos de igreja 
local embora funcione também para indivíduo bem como 
para uma convenção. (Há vários anos apresentei este pro­
cedimento numa igreja e apenas um homem aceitou o de­
safio: ele, sozinho, passou a contribuir mais para missões 
do que o resto da igreja toda.) A aplicação do princípio in­
depende do tamanho do grupo que vai pô-lo em prática. 
Vejamos, então, o caso duma igreja local. 
Creio que quem mais popularizou o procedimento foi 
o saudoso doutor Oswald J. Smith e a "Igreja do Povo" em 
Toronto, no Canadá. Se não me engano, até hoje é a igreja 
local que mais contribui para missões num ano (desde o 
ano de 1975 a quantia tem ultrapassado a casa de um mi­
lhão de dólares, cada ano, parece-me, inclusive, que já vai 
perto de dois milhões!). Uma vez por ano eles fazem uma 
conferência missionária. (Fazer a conferência éopcional, 
pois o procedimento pode funcionar sem ela, mas serve 
para informar, orientar e entusiasmar o povo.) A essência 
da proposta é o que segue. 
Cada pessoa é convidada a procurar a face de Deus e 
fazer a seguinte indagação: "Senhor, quanto Tu queres en­
viar para missões através da minha mão neste ano?" Va-
75 
mos devagar para entender bem essa proposta. Observe 
que a pergunta é quanto Deus vai enviar. Não se trata de 
espremer seu minguado ordenado para ver se tira mais um 
tostão. Nem se trata de mexer com seu dízimo ou outros 
compromissos já assumidos com a igreja ou outras reparti­
ções do Reino. Eu iria ainda mais longe - nem é questão, 
necessariamente, de mexer com seu orçamento doméstico 
(se bem que se você tem três televisores Deus talvez mande 
vender um, ou mesmo dois, e t c ) . Não. É ver o que Deus 
vai fazer. Ele vai suprir de maneira surpreendente, avulsa, 
extra, até milagrosa. Mas tem um detalhe, o que Deus en­
viar nesses termos é sagrado, é para missões! (Não vá co­
mer a semente, por favor.) A proposta pode ser em termos 
mensais ou anuais, 
Muito bem. Então cada um faz sua consulta a Deus. 
Pede-se que cada um coloque num papel a quantia que ou­
viu de Deus e esses papéis são recolhidos. Atenção para um 
detalhe importante - quer coloque o nome no papel, quer 
não, não se trata dum compromisso legal que poderá ser 
cobrado depois. É justamente uma "promessa de fé"; é 
uma declaração, pela fé, daquilo que confia que Deus vai 
fazer durante o ano. Recolhem-se os papéis para que a co­
munidade possa ter uma idéia por alto do montante que 
deve entrar para missões durante o ano, a fim de assumir 
compromissos com obreiros e entidades onde o dinheiro se­
rá aplicado. É óbvio que tais compromissos também serão 
pela fé e os destinatários devem entender claramente a na­
tureza da proposta. 
Tenho dito que a "promessa de fé" é uma aplicação 
específica de 2 Co 9.8. Creio que sim, mas há uma varia­
ção. Na exposição da economia de Deus, feita acima, a ini­
ciativa estava com o Espírito Santo e cabia à gente estar 
atento e sensível para entender quando reencaminhar uma 
bênção. Com a "promessa de fé" a gente se coloca cons­
cientemente na mão de Deus visando a uma proposta es­
pecífica feita de antemão, que pode até incluir o destinatá­
rio. Acontece que funciona, e com efeitos tremendos. Já 
são centenas, se não milhares, de igrejas, que representam 
muitos anos de experiência com este procedimento, cujos 
testemunhos se avolumam. 
76 
Às vezes, quando uma igreja ouve pela primeira vez a 
proposta de sustentar missões através deste procedimento, 
a liderança dela fica com receio. Acham que deve ser um 
tipo de "conversa fiada", que qualquer dinheiro dado para 
missões vai sair mesmo é das contribuições destinadas ao 
orçamento da igreja. Mas quando se reitera que não é para 
ser nada disso, que ninguém deve tirar do dízimo ou das 
contribuições normais para a igreja, que deve ser dinheiro 
outro que o próprio Deus vai mandar, então às vezes acei­
tam fazer experiência para ver se funciona. Quando uma 
igreja resolve pôr a proposta em prática, acontece o seguin­
te, quase sempre. Todo o dinheiro prometido pela fé para 
missões efetivamente entra no caixa até o fim do ano (doze 
meses após a conferência), O orçamento normal da igreja, 
longe de levar prejuízo, prospera. Se a igreja está em cam­
panha de construção de templo, ou algum outro prédio, 
anda até mais depressa do que se esperava. O número de 
membros aumenta. Enfim, Deus abençoa esse povo de for­
ma geral. Para achar exemplos concretos não é preciso ir 
aos EEUU, pois os temos aqui no Brasil. Vez por outra as 
revistas denominacionais noticiam um exemplo. Um dos 
mais conhecidos deve ser o da Primeira Igreja Batista de 
Santo AndTé. 
Quero enfatizar que a coisa funciona até para um povo 
paupérrimo. No ano de 1975 participei da conferência mis­
sionária da Igreja do Povo em Toronto (justamente o ano 
quando romperam a barreira de um milhão de dólares). 
Um dos preletores foi um líder evangélico da Libéria, e ele 
relatou o resultado quando o seu povo resolveu pôr em prá­
tica a "promessa de fé". O povo dele vive no interior da Li­
béria, numa região semidesértica onde a vida é difícil. É 
um povo paupérrimo. Com lágrimas escorrendo pela face, 
ele contou que esse povo tinha dado o equivalente a oito 
mil dólares para missões num ano. Já imaginou? Um povo 
paupérrimo, mas cujo Deus é GRANDE. 
Volto a dizer que se cada crente evangélico do Brasil 
contribuísse com 1% de sua renda para missões podería­
mos semear até 100.000 missionários brasileiros pelo mun­
do. Mas tem igreja que faz bem mais do que isso. Há vários 
anos tomei conhecimento duma igreja nas Ilhas Filipinas. 
77 
Lembrem que as Filipinas também fazem parte do chama­
do "terceiro mundo". Aliás, eles não têm os recursos natu­
rais e o parque industrial que temos aqui. A situação eco­
nômica deles deve ser pior que a nossa. No entanto, aquela 
igreja, na época, com 500 membros sustentava 50 missio­
nários! Quer dizer, cada dez membros sustentavam um 
obreiro. Dá para fazer; basta dar o dízimo em vez de só 1%. 
Que tal, meus irmãos? Realmente o Brasil representa 
um potencial muito grande para a expansão do reino de 
Cristo pelo mundo. Temos os recursos necessários, tanto 
humanos como materiais. Está faltando compromisso com 
a causa; está faltando a mentalidade do Reino. Aliás, bas­
taríamos nós do Brasil: se conseguíssemos levar cada evan­
gélico do país a viver efetivamente para Cristo, ninguém 
mais segurava a Igreja, tomaríamos o mundo de assalto, 
Vamos lá? 
A Prestação de Contas 
Antes de encerrar este capítulo eu gostaria de voltar a 
Lc 12. Ao comentar "a mentalidade do reino" chegamos 
até o versículo 34. Mas o Senhor Jesus continuou falando e 
creio que devemos atentar ainda para o conteúdo dos versí­
culos 35 a 48. Têm alguma coisa a ver com nosso assunto. 
É que, ato contínuo, o Senhor começou a falar de sua vol­
ta, a segunda vinda. "Estejam cingidos os vossos lombos, e 
acesas as vossas candeias, e sejam vós semelhantes a ho­
mens que esperam o seu senhor, quando houver de voltar 
das bodas..." (Lc 12.35,36). "Portanto, ficai vós também 
apercebidos, porque virá o Filho do homem à hora que não 
imaginais" (v 40). Aí o apóstolo Pedro perguntou se essa 
última palavra era só para eles, ou para todos. A resposta 
de Jesus foi que quem recebe mordomia é mordomo e terá 
que prestar contas da mordomia. Aí no versículo 46 vem 
uma palavra dura - o mordomo delinqüente terá sua parte 
com os infiéis! 
Vejamos agora os versículos 47 e 48. "O servo que sou­
be a vontade do seu senhor e não se aprontou, nem fez se­
gundo a sua vontade, será castigado com muitos açoites; 
mas o que não soube e fez coisas dignas de golpes, levará 
78 
poucos açoites. Pois a qualquer que muito foi dado, muito 
lhe será exigido..." 
É a prestação de contas, é o Tribunal de Cristo. Ob­
servar que esta palavra é endereçada aos discípulos, e de 
forma mais explícita é dirigida a Pedro, em resposta à sua 
pergunta. É o servo que soube e não fez que será castigado 
com muitos açoites. {Não sei a natureza desses açoites, 
mas talvez tenha algo a ver com o prejuízo de ter a vida 
queimada - lembrar a esse respeito o que já se expôs sobre 
o preço de não ser um escravo de Jesus.) 
O servo que soube e não fez... E nós, meus irmãos, e 
nós os crentes evangélicos do Brasil? Nós não sabemos a 
vontade do nosso Mestre? Nossa Bíblia não tem Mateus 
28.19, Marcos 16.15 ou Atos 1.8? Nunca ouvimos falar das 
ordens de Cristo? "A Grande Comissão" é frase simples­
mente estranha a nossos ouvidos? Com que "cara" vamos 
ficar (desculpem-me a expressão), mas com que cara va­
mos ficar perante o Tribunal de Cristo quando Ele cobrar 
de nós as suas ordens; quando Ele indagar sobre as etnias 
do mundo que nunca receberam porta-voz de Cristo; quan­
do Ele quiser saber porque metade das pessoas no mundo 
continuam a morrer sem ouvir de Jesus? Como explicar 
nossa omissão,nosso terrível descaso? Que resposta pode­
remos dar? 
Devemos lembrar que nossa mordomia é bastante 
grande. O Evangelho chegou ao Brasil há mais de 150 
anos. Quase todas as capitais de estado do país contam 
com pelo menos um seminário teológico ou instituto bíbli­
co, e muitas outras cidades também têm. Quer dizer, o nú­
mero de pessoas com preparo teológico já é grande, e cresce 
cada vez mais. É a mão-de-obra disponível. A Palavra de 
Deus existe em nosso idioma há mais de 300 anos, e a lite­
ratura evangélica se torna cada vez mais farta. Dispomos 
de muitas "ferramentas" para estudo bíblico e teológico, e 
o quadro continua melhorando. O problema é que essa 
mordomia toda será cobrada. 
Somos pelo menos dez milhões de crentes evangélicos 
no país. Que potencial tremendo! Será que Deus não vai 
cobrar esse potencial? 2 Pedro 3.12 fala em "apressar a 
vinda" do dia de Deus. É que temos escolha, temos arbí-
79 
trio. Nossas decisões têm valor, fazem diferença. Podemos 
efetivamente apressar a vinda de Cristo. Decorre dali, fa­
talmente, que podemos atrasar a vinda também (tudo 
dentro dos limites impostos pela soberania de Deus). É por 
isso que terá prestação de contas. É por isso que Jesus vai 
cobrar a mordomia que a nossa vida representa, tudo que 
temos e somos. 
Tem mais uma. Deus tem nos colocado nas mãos uma 
tecnologia nunca vista, coisas que nossos pais não tiveram, 
com que nossos avós sequer sonharam. Será à-toa? Não 
acredito. Deus não é de fazer as coisas à-toa. Entendo que é 
esta nossa geração que tem o privilégio, e a responsabilida­
de, de terminar de cumprir a Grande Comissão, de termi­
nar de fazer o que se há de fazer antes que Jesus venha. Se 
a geração dos apóstolos, com pouca gente e com os recursos 
de então, conseguiu alcançar seu mundo, que nos impede 
de alcançar o nosso mundo, também numa geração? So­
mos tantos! Temos tanto! 
Meu pai andava a cavalo pela hinterlândia boliviana 
á cata dos moradores salpicados pelas matas. Trinta anos 
depois o filho andava pela selva amazônica de hidroavião e 
munido de radiofonia, à cata de grupos indígenas (tam­
bém andei a pé e de canoa, mas essa é outra história). Cer­
ta vez, numa dessas viagens, o pai adoeceu. Ainda conse­
guiu chegar até a casinha dum casal ''perdido" na selva. 
Caiu na rede e ficou fora de si durante duas semanas, com 
febre alta. O casal o agüentou com chá e canja, e ele sem 
saber. Finalmente Deus achou por bem restabelecê-lo e 
chegou em casa com um mês de atraso. Poderia ter morri­
do por lá e a notícia nos alcançar muito depois. Também já 
adoeci na selva, numa dessas viagens. Liguei a radiofonia e 
avisei aos colegas na cidade, pedindo oração (só isso já era 
um grande conforto que meu pai não tinha: eu não estava 
mais sozinho). Quando Deus não achou por bem me curar, 
pedi um avião para me resgatar e poucas horas depois es­
tava a caminho da cidade e recurso médico. Que diferença 
faz trinta anos! Agora colegas estão levando computadoies 
portáteis, à pilha, para a selva. Temos satélites, televisão, 
etc, etc. Está faltando apenas a mentalidade do Reino 
80 
para que terminemos de alcançar o mundo com o Evange­
lho. 
Pensando mais esta vez na mentalidade do Reino, eu 
gostaria de fazer um apelo aos amados irmãos. Meus ir­
mãos, vamos exorcizar o espírito denomina cionalista que 
grassa em nosso meio. Entendo que as diversas denomina­
ções podem ser úteis, e quem sabe até necessárias, por 
questões práticas. Se eu quero dar um banho completo no 
recém-convertido, mas um outro só quer molhar a cabeça, 
torna-se incômodo trabalharmos debaixo do mesmo teto. 
Escolheríamos tetos diferentes exatamente para preservar 
a paz e não ficarmos brigando a respeito de pormenores 
que não implicam na salvação. Mas nada disso deve impe­
dir que trabalhemos juntos no grosso, no básico, no cum­
prir das ordens de Cristo. Em vez de imaginar que somos 
donos da verdade e nos digladiar entre nós, vamos concen­
trar nosso fogo contra o inimigo das nossas almas. Diante 
do mundo perdido devemos somar nossas forças, pois ne­
nhuma denominação sozinha tem as condições necessá­
rias. Quando pensamos nas etnias nunca alcançadas e nas 
dificuldades que o trabalho transcultural nos apresenta, aí 
um esforço conjunto se nos impõe. Esse esforço conjunto 
vai incluir as entidades especializadas que Deus tem le­
vantado para colocar à disposição das igrejas a perícia, a 
experiência e a infra-estrutura específicas que estas não 
têm (e que levariam muitos anos para adquirir). Elas de­
vem ser consideradas como uma extensão das igrejas, não 
como "concorrência". Podemos nos respeitar mutuamen­
te, e reconhecer as convicções diferentes no tocante a ques­
tões secundárias, e ainda dar as mãos para enfrentar o 
mundo sem Cristo. Que Deus nos ajude! 
Para podermos alcançar o mundo inteiro e cumprir­
mos a Grande Comissão de Cristo está faltando a mentali­
dade do Reino! 
81 
6 
Libertar as pessoas 
do poder de Satanás 
Agora chegou a vez das palavras do Senhor Jesus que 
encontramos em Atos 26.18. Palavras de Jesus em Atos 26? 
Sim, porque Paulo está relatando, anos depois, seu encon­
tro com Ele a caminho de Damasco. Vejamos o relato todo: 
13 - Ao meio-dia, ó rei, pelo caminho, vi uma luz do 
céu, que excedia o esplendor do sol, que brilhou ao re­
dor de mim e dos que iam comigo. 
14 - E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que 
me falava, e em língua hebraica dizia: "Saulo, Saulo, 
por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar con­
tra os aguilhões." 
15 - E disse eu: "Quem és, Senhor?" E ele respondeu: 
"Eu sou Jesus, a quem tu persegues. 
16 - Mas levanta-te e põe-te sobre teus pés, porque te 
apareci por isto, para te constituir ministro e testemu­
nha tanto das coisas que tens visto como daquelas pe­
las quais te aparecerei ainda; 
17 - Hvrando-te do povo e das etnias, às quais te en­
vio, 
83 
18 - para lhes abrir os olhos e os trazer de volta, das 
trevas à luz e do poder de Satanás a Deus, a fim de 
que recebam eles a remissão dos pecados e lugar entre 
os santifiçados, pela fé em mim." 
O que nos interessa especificamente é a comissão mis­
sionária que Paulo recebeu (só que ainda era Saulo). Tal­
vez seja significante também lembrar que esta comissão se 
deu um tanto depois das outras que já comentamos. Ma­
teus 28.19, Marcos 16.15 e Atos 1.8 aconteceram entre a 
ressurreição e a ascensão de Jesus. Já para falar com Pau­
lo, Jesus voltou do Céu! Chama-nos a atenção mais um 
detalhe, para começar. A incumbência que Paulo recebeu 
dirigiu-se primordialmente às etnias ("gentios" é tradução 
da mesma palavra que em Mateus 28.19 é "nações"). Pa­
rece-me, por tudo isso, que esta comissão missionária se 
reveste de uma importância especial para nós, e mais ain­
da para quem for enfrentar trabalho transcultural. Atente­
mos então para a comissão em si. 
A Comissão Missionária de Paulo 
Paulo é enviado às etnias, "para lhes abrir os olhos e 
os trazer de volta, das trevas à luz e do poder de Satanás a 
Deus, a fim de que recebam eles a remissão dos pecados e 
lugar entre os santificados, pela fé em mim". Para enten­
dermos bem o efeito desta incumbência devemos ver a es­
trutura do versículo: 
A 
abrir-lhes W-. olhos 
das trevas á luz 
i trazer de volta 
< do poder de Satanás a Deus 
a remissão dos pecados \ 
ã fim de que recebam 
/
Uí- U 
A tradução "converter", que encontramos em nossas 
versões principais, não é feliz. A rigor, o sentido seria "tra­
zer de volta", quase "resgatar" - dá a impressão de que a 
pessoa está no lugar errado e deve ser trazida para o lugar 
certo. Agora, atenção para o fator principal: a conjunção 
"a fim de que" e o material dominado por ela depende ou 
decorre do efeito da frase verbal dominada por "trazer de 
84 
volta". Em outras palavras, para que alguém receba a re­
missão dos pecados, inclusive, é necessário que esse al­
guém seja primeiro liberto do poder de Satanás! Sabia 
dessa? Pois é isso mesmo. Alguém tem de dar um jeito no 
poder de Satanás sobreuma pessoa para que ela possa ser 
salva. 
O Senhor Jesus já tinha dito a mesma coisa em outras 
palavras, bem antes. Está em Marcos 3.27: "ninguém pode 
roubar os bens do valente, entrando-lhe em sua casa, se 
primeiro não amarrar o valente; só então poderá saquear-
lhe a casa." A gramática nos conduz seguramente à identi­
dade do "valente". O uso do artigo definido, "o valente", 
vale dizer que é um certo, já introduzido, já conhecido va­
lente. Caso contrário teríamos de encontrar o artigo indefi­
nido "um", fosse um valente qualquer fora do nosso conhe­
cimento. Quando encontramos o artigo definido, é porque 
esse valente já foi apresentado. No contexto imediato an­
terior Jesus vinha falando nominalmente de Satanás. (É 
que os líderes dos judeus tentaram explicar o poder de Je­
sus sobre os demônios dizendo que vinha de Belzebu, 
príncipe dos demônios. Ao retrucar, Jesus não perdeu tem­
po com esse nome mas chamou o inimigo logo de "Sata­
nás", que é o seu nome próprio.) 
Muito bem, Jesus afirma que é impossível roubar os 
bens de Satanás sem amarrá-lo primeiro. E quais seriam 
esses "bens"? No contexto Jesus tinha expulsado um de­
mônio de cegueira e mudez de uma pessoa, e no seu co­
mentário os fariseus, e escribas incluem outros casos de ex­
pulsão. Creio que podemos entender tranqüilamente que 
os "bens" são as pessoas que estão sob o poder de Satanás, 
de uma forma ou de outra. Imagino que não haja como ti­
rar alguém da "casa" de Satanás sem levar esse alguém 
para a "casa" de Jesus (ver Mt 12.43-45). Então, estamos 
diante da mesma verdade declarada em Atos 26.18. Temos 
de dar um jeito no poder de Satanás sobre uma pessoa 
para que ela possa ser salva! Mas porque seria preciso 
amarrar Satanás? O que ele faz? 
Vamos a 2 Coríntios 4.4; aliás, podemos começar com 
o versículo 3: "Se o nosso evangelho ainda está encoberto, 
para os que se perdem está encoberto, nos quais o deus 
85 
deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para 
que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de 
Cristo, que é a imagem de Deus." Diz aí, textualmente, 
que Satanás, "o deus deste mundo", está a cegar os enten­
dimentos dos incrédulos quando ouvem o Evangelho para 
que não venham a compreender, a se compenetrarem, a se 
arrependerem e a se converterem. Estamos diante de uma 
verdade terrível, a verdade mais terrível deste mundo, pelo 
menos a meu ver. É que o inimigo tem acesso às nossas 
mentes, acesso no sentido de poder invadi-las, ora inserin­
do pensamentos, ora atrapalhando nosso raciocínio. O Se­
nhor Jesus tinha declarado esta verdade antes, ao comen­
tar a parábola do semeador. "Os que estão junto do cami­
nho são aqueles em quem a palavra é semeada; mas, ten­
do-a eles ouvido, vem logo Satanás e tira a palavra que foi 
semeada nos seus corações" (Mc 4.15). Na passagem para­
lela, em Lucas 8.12, Jesus acrescenta o seguinte: "para que 
não se salvem, crendo". Observem que a Palavra já está na 
mente, ou no coração, da pessoa, mas aí vem Satanás, in­
vade a mente e "tira" essa palavra. Não sei exatamente 
como funciona essa ingerência do inimigo, talvez seja um 
bloqueio mental, mas o efeito prático é que a Palavra se 
torna infrutífera, como se a pessoa nem tivesse ouvido. 
O efeito estratégico. Parece-me óbvio que quem não 
levar em conta esta verdade estará se autocondenando a 
produzir pouco efeito no âmbito espiritual, a trabalhar 
muito e realizar pouco. E não é isso mesmo que mais se vê? 
A gente tanto prega, tanto evangeliza, tanto fala e faz, mas 
os resultados costumam ser parcos, principalmente os du­
radouros. Tanto assim que a gente facilmente desanima e 
fica até com vontade de desistir. Não é mesmo? Pois é, 
meu irmão, mas antes de pregar ou falar você se deu ao 
trabalho de proibir a ingerência do inimigo no pensamento 
de seu ouvinte? Se não, o que você ainda espera? Foi o pró­
prio Jesus, Deus - o Filho aqui na terra, que esclareceu que 
para tirar as pessoas da casa de Satanás temos primeiro 
que amarrá-lo. Temos de amarrar Satanás para evitar essa 
sua ingerência nas mentes dos evangelizandos. (Vou expli­
car o amarrar mais na frente quando comentar as armas 
que estão à nossa disposição.) Agora, essa "moeda" tem 
86 
dois lados: nossa eficiência e nosso sucesso dependem de 
amarrarmos o inimigo; mas se não o amarrarmos nos tor­
namos cúmplices dele, pois ao permitir sua ingerência sem 
nada fazer compactuamos com ele! Já pensou? Em verda­
de imagino que poucos tenham pensado, já que estas ver­
dades pouco ou nada se comentam em nossas igrejas e nos­
sos estabelecimentos de ensino teológico, pelo menos até 
aqui. Mas está na hora de pensar, minha gente, será que 
não? 
Fui para a selva amazônica em 1963, a fim de dar iní­
cio ao nosso ministério junto à etnia indígena Apurinã (Rio 
Purus, Amazonas). Que eu saiba fui o primeiro a disputar 
com Satanás o seu domínio total e secular sobre essa na­
ção. Fui lá exatamente para ver se tirava aquele povo da 
casa de Satanás e levava para a casa de Jesus, se tirava do 
reino das trevas e levava para o reino da luz. Mas infeliz­
mente, não obstante um mestrado em teologia e ter lido a 
Bíblia toda repetidas vezes, ignorava as verdades ora em 
pauta. Apanhei! Apanhei sem dó e sem piedade, até não 
querer mais. Satanás varreu o chão comigo. Pois ele não 
gostou da brincadeira e eu não sabia me defender. Aliás, 
nem entendia ao certo o que estava acontecendo. É que era 
cético quanto à atuação dos demônios. Sim, eu sabia exis­
tirem Satanás e os demônios, pois a Bíblia é clara e enfáti­
ca a esse respeito, mas pouco sabia sobre a atuação deles e 
nada sabia do uso das nossas armas, quer para defesa, quer 
para ofensiva. Minha formação teológica, tanto formal 
como informal, era nitidamente "tradicional". Expulsar 
demônios e coisas do gênero era negócio de "pentecostal". 
Meus professores me transmitiram a idéia de que servo de 
Cristo seria como que intocável ou isento dos ataques dos 
demônios; não seria problema para nós. 
Pois bem (ou então, pois mal), apanhei. Primeiro, eu e 
a esposa fomos atacados na mente, no corpo. Segundo, 
sendo cético a respeito, não consegui esconder meu ceticis­
mo. Já expliquei (capítulo II) que os povos indígenas estão 
às voltas com os demônios; esse relacionamento é central à 
cultura. Sabendo eles que os demônios existem e que os 
atacam de várias maneiras, como de fato existem e atacam 
(assino e dou fé), meu ceticismo me desqualificou. Estava 
87 
lá querendo ensinar a respeito de verdades espirituais, 
sobre coisas sobrenaturais, mas demonstrava ignorância 
perante a realidade central de sua existência. Perdi cartaz. 
Terceiro, como conseqüência (do ceticismo e da ignorân­
cia) não consegui ajudá-los ou livrá-los, dando provas do 
poder de Cristo e portanto do valor do Evangelho, enquan­
to estava aprendendo a língua e a cultura (que leva vários 
anos). Quarto, quando finalmente a gente conquista um 
domínio da língua e cultura que permita falar de Jesus 
como Ele é, o que Ele fez, o que Ele ensinou, aí, mais dia 
menos dia, vai dizer que Ele expulsava demônios e curava 
os efeitos produzidos pelos mesmos. Aí, finalmente, a gen­
te falou uma coisa que o povo queria saber. (Como já expli­
quei, eles cultuam os demônios por necessidade, não por 
gosto, ignorando um poder benéfico maior capaz de liber­
tá-los.) Vem a indagação: "Jesus tem poder sobre os demô­
nios?" Agora você tem uma escolha: vai dizer que Jesus 
tem poder, ou que Ele tinha? Qual será sua declaração? 
Imagino que você diria, "tem!" Certo? Só que aí um demô­
nio te desafia na cara, atacando alguém na aldeia. E agora, 
"José", e agora? Você não sabe expulsar demônio, você é 
cético a respeito dessas coisas, mas você afirma que Jesus 
tem poder sobre eles. Se não souber impor a vitória e o po­
der de Cristo naquela hora, se não puder provar que Jesus 
é maior, aí seu "papo" fica "furado". Você fica desmorali­
zado. Você mentiu! Pior ainda, Jesus fica desmoralizado 
também! É claro; você é o único porta-vozque Ele tem por 
lá, e não podendo provar que Jesus tem poder o povo irá 
concluir que Ele não tem. Alguma dúvida? Pois apanhei. 
Choro quando penso no pouco que consegui entre o povo 
Apurinâ, em prol do reino de Cristo, comparado com o que 
deveria e poderia ter conseguido, estivesse por dentro des­
ta estratégia missionária de Cristo: libertar as etnias do 
poder de Satanás. 
Tem mais uma. A grande maioria dos missionários 
atualmente trabalhando (e dos que já trabalharam) junto 
aos povos animistas do mundo é cética a respeito destas 
coisas, assim como era eu. Lamentavelmente as entidades 
missionárias não têm se preocupado com esta questão, via 
de regra. Os missionários estão lá apanhando, como eu 
apanhei, produzindo muito menos efeito do que poderiam 
produzir. Que lástima! Que desperdício, em todos os senti­
dos! A importância estratégica deste assunto é tremenda. 
Se um dia chegarmos ao ponto de enviarmos obreiros ade­
quadamente preparados neste terreno e de ter igrejas 
cheias de pessoas que também sabem conduzir a guerra es­
piritual, aí terminaremos de alcançar o mundo. (Mesmo o 
mundo muçulmano, que entendo ser o "osso" mais duro de 
roer que temos pela frente, deverá ceder desta forma, pois 
eles também estão às voltas com os demônios.) 
Não comentamos ainda a última frase da comissão de 
Paulo, "lugar entre os santificados". Suponho que o senti­
do primário dessa frase diga respeito à santificação final, à 
nossa posição em Cristo. Sucede, no entanto, que muito 
bem pode dizer respeito à experiência também, porque a 
atuação de Satanás e os demônios influi bastante em nossa 
vida espiritual e em nosso desempenho no ministério, as­
sim como em nossa vida de forma geral. Como o inimigo 
atrapalha nossas vidas, estraga nossos lares, dilui nossa 
eficiência na obra, enfim! Pudéssemos nos compenetrar do 
quanto eles fazem e aprender a manusear as armas espiri­
tuais que Cristo nos dá, poderíamos simplesmente trans­
formar as vidas, os lares e os ministérios. Das pessoas que 
Deus chama para missão transcultural Satanás derruba a 
maioria por aqui: nunca chegam ao campo. Dos poucos, re­
lativamente, que alcançam o campo missionário, a metade 
é tirada do páreo dentro de quatro anos - voltam derrota­
dos para seus países de origem e nunca mais. Assim tem 
sido a estatística das missões modernas, mas creio sincera­
mente que podemos melhorar esse quadro de forma dra­
mática. Basta assumirmos esta estratégia missionária de 
Jesus: libertar as pessoas do poder de Satanás. É total­
mente necessário que nos compenetremos que estamos 
numa guerra. 
A guerra espiritual. Estamos numa guerra de âmbi­
to universal e tudo que fazemos adquire sua importância 
maior no contexto desta guerra. Em Lucas 11.23, o Senhor 
Jesus disse: "Quem não é por mim é contra mim; e quem 
comigo não ajunta, espalha". Jesus não admite neutrali­
dade - ou você é por ou então é contra, das duas uma. Ou 
89 
estamos ajuntando ou espalhando, e portanto não existe 
terreno neutro, Podemos admitir que algum objeto seja 
neutro, mas o uso que dele fazemos não pode ser neutro. 
No fundo, ou fazemos as coisas em função do reino de Deus 
e sua glória ou então fazemos em outra função qualquer, e 
seja qual for essa outra função irá servir aos interesses do 
inimigo. "Quem comigo não ajunta, espalha." Daí se vê 
que tudo que fazemos adquire importância maior. Mesmo 
as coisas corriqueiras que costumamos fazer sem pensar 
têm reflexo no âmbito espiritual. Estamos numa guerra, 
quer saibamos quer não, quer queiramos, quer não. 
Podemos dar um enfoque mais nítido â questão. Não 
somente estamos numa guerra, estamos num campo de 
batalha. Quer dizer, tem chumbo zunindo por todos os la­
dos. Agora, andar num campo de batalha sem se precaver 
é burrice demais; é garantir que será ferido. Ainda mais 
quando estamos exatamente na mira do inimigo por ser­
mos "soldados" de Jesus. 
Uma das passagens principais que versam sobre a 
guerra espiritual é Efésios 6.10-19: 
10 - No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Se­
nhor e na força do seu poder. 
11 - Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para 
que possaís ficar firmes contra as astutas ciladas do 
diabo; 
12 - porque a nossa luta não é contra sangue e carne, 
mas sim contra os principados, contra as potestades, 
contra os dominadores das trevas deste mundo, contra 
as hostes espirituais do mal, nas regiões celestiais. 
13 - Portanto tomai toda a armadura de Deus, para 
que possais resistir no dia mal, e, havendo feito tudo 
(i.e. vestido todas as peças da armadura), ficar firmes. 
14 - Estai pois firmes, tendo-vos cingido com a verda­
de, e vestido da couraça da justiça, 
15 - e calçados os pés com a preparação do evangelho 
da paz; 
16 - tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual po-
dereis apagar todos os dardos inflamados do maligno. 
17 - Tomai também o capacete da salvação, e a espa­
da do Espírito, que é a palavra de Deus; 
90 
18 - orando com toda oração e súplica em todo o tem­
po no Espírito, e para isto vigiando com toda perseve­
rança e súplica por todos os santos, 
1 9 - e também por mim..." 
Diz textualmente que nossa luta não é contra as pes­
soas ("carne e sangue") e sim contra entes espirituais mal­
vados, organizados numa hierarquia, um verdadeiro exérci­
to. Fala das "astutas ciladas do diabo"; fala dos "dardos 
inflamados do maligno". Urge conhecermos o inimigo, 
mas primeiro quero comentar mais um detalhe. 
A garantia da estratégia. Em Hebreus 2.14 encon­
tramos a verdade que viabiliza a estratégia toda. "Visto 
pois que os filhos têm participação comum de carne e san­
gue, também ele [Jesus] igualmente participou das mes­
mas coisas, para que por sua morte destruísse aquele que 
tinha o poder da morte, isto é, o diabo," Para que morreu 
Jesus? Para destruir Satanás! Sabia dessa? Pois é; e con­
seguiu! Aleluia! João 16.11; Efésios 1.20-22 e Colossenses 
2.15 falam da derrota de Satanás e dos demônios. É por 
isso que lemos que ele "tinha" poder sobre a morte (não 
"tem" como versa alguma tradução), pois Hebreus foi es­
crito após a vitória de Cristo. Em Apocalipse 1.18, o Jesus 
glorificado declara: "Tenho as chaves da morte e de Ha-
des". Jesus ganhou! É a vitória de Cristo que viabiliza e 
garante esta estratégia. Podemos, sim, libertar as pessoas 
do poder de Satanás! Vamos lá? A caminho, convém co­
nhecermos o inimigo e entendermos como ele atua. 
Quem é o Inimigo? 
Interessa a qualquer comandante militar saber tudo 
quanto possível sobre o inimigo, inclusive sobre o coman­
dante oposto. O inimigo é Satanás. Em 1 Pedro 5.8 ele é 
expressamente colocado como nosso "adversário". "Sede 
sóbrios; vigiai; [porque] o diabo, vosso adversário, anda 
em derredor como leão que ruge, buscando a quem possa 
devorar." Observem que esta palavra é endereçada a cren­
tes. Temos de estar sempre vigilantes porque Satanás está 
rondando à nossa volta à espera do primeiro cochilo nosso. 
Em verdade a Bíblia diz muita coisa a respeito do ini­
migo. Satanás "engana todo o mundo" (Ap 12.9), se apre-
91 
senta como "anjo de luz" (2 Co 11.14), é "tentador" (1 Ts 
3.5), "acusador" (Ap 12.10), "príncipe das potestades do 
ar" (Ef 2.2), "o deus deste mundo" (2 Co 4.4), "o príncipe 
deste mundo" (Jo 16.11). 1 João 5.19 nos informa que "to­
do o mundo jaz no maligno", como dizendo que Satanás 
tem o mundo no colo, o que é uma figura bem expressiva 
que nos fala da influência maciça que ele exerce sobre este 
mundo. 
A Bíblia diz muita coisa a respeito de Satanás e dos 
demônios. O Senhor Jesus ensinou tão claramente sobre 
eles, que não consigo entender os crentes, inclusive pasto­
res e professores de teologia, que afirmam não acreditar na 
sua existência. Se alguém quer se apresentar como segui­
dor de Jesus, e ainda mais se for como representante dele, 
deve aceitar o que Ele ensinou. Caso contrário deve ser 
coerente e se apresentar como humanista, marxista ou 
qualquer outra coisa. Cabe aqui um alerta: o povo de Deus 
precisa se precaver contra os "lobos" vestidosde "ovelha" 
que se infiltram nas igrejas, começando pelos seminários 
teológicos. É uma estratégia preciosa ao inimigo que sem­
pre lhe rendeu resultados gratificantes. "E não é maravi­
lha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de 
luz" (2 Co 11.14). 
Sua origem. Mas quem será esse Satanás? De onde 
veio? Qual a sua natureza? Creio que existem duas passa­
gens bíblicas que versam sobre o assunto, Isaías 14.12-15 e 
Ezequiel 28.12-17. A palavra em Isaías é dirigida contra "o 
rei de Babilônia" ao passo que a palavra em Ezequiel é 
contra "o rei de Tiro". Mas acontece que a linguagem logo 
passa para um terreno que não pode dizer respeito a um 
mero homem, seja rei do reino que for. O capítulo dez de 
Daniel deixa muito claro que seres angelicais são apresen­
tados como reis e príncipes dos reinos e povos deste mun­
do. "O príncipe do reino da Pérsia" (Dn 10.13) tem de ser 
um demônio de alta patente, pois um mero homem nem 
saberia que tinha um anjo por perto e muito menos teria 
condições de empatá-lo. (Ele era de nível tão elevado que 
foi preciso vir o arcanjo Miguel para desempatar e deixar o 
primeiro anjo chegar até Daniel. Sendo a Pérsia o império 
de maior projeção no mundo na época, parece-me lógico 
92 
que Satanás iria entregar seus interesses nesse reino a um 
de seus subalternos mais graúdos, digamos um general de 
quatro estrelas.) O mesmo versículo 13 fala dos "reis da 
Pérsia". No versículo 20 o anjo esclarece que não somente 
teria de pelejar contra "o príncipe dos persas" mas que vi­
nha aí "o príncipe da Grécia" também. No versículo 21 
Miguel é apresentado como "vosso príncipe", quer dizer, 
do povo de Israel. 
Agora vejamos, Ezequiel 28. A lamentação contra "o 
rei de Tiro" ocupa os versículos 11 a 19, mas a parte que 
mais nos interessa ocupa os versículos 12 a 17: 
12 - Filho do homem, levanta uma lamentação contra 
o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor DEUS: 
Tu és sinete de perfeição, cheio de sabedoria e perfeito 
em formosura. 
13 - Estavas no Éden, jardim de Deus; toda a pedra 
preciosa era a tua cobertura, o sárdio, o topázio, o dia­
mante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo 
e a esmeralda, e ouro; a obra de teus engastes e de teus 
ornamentos foi preparada em ti no dia em que foste 
criado. 
14 - Tu eras o querubim ungido que protege, assim te 
estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio 
das pedras afogueadas andavas. 
15 - Perfeito eras em teus caminhos, desde o dia em 
que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti. 
16 - Na multiplicação do teu comércio se encheu o teu 
interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei 
profanado fora do monte de Deus, e te farei perecer, ó 
querubim protetor, do meio das pedras afogueadas. 
17 - Elevou-se o teu coração por causa da tua formo­
sura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu 
resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, 
para que te contemplem. 
É óbvio que os dizeres aqui não dizem respeito ao ho­
mem que ocupava o trono de Tiro quando Ezequiel escre­
veu estas palavras. O personagem descrito "estava no E-
den"; sua formosura e perfeição ele tinha desde "o dia em 
que foi criado"; era "querubim ungido" e tinha posição e 
função muito elevada no Céu. Tão elevada era a posição 
93 
dele que um dia achou pouco, se encheu de soberba e resol­
veu suplantar o próprio Criador. Vejamos Isaías 14. 
A profecia contra "o rei de Babilônia" ocupa os versí­
culos 4 a 23, mas vamos atentar agora apenas para os versí­
culos 12 a 15: 
12 - Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da 
alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas 
as nações! 
13 - Pois tu disseste no teu coração: Eu subirei ao céu; 
acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no 
monte da congregação me assentarei, nas extremida­
des do norte; 
14 - subirei acima das mais altas nuvens, e serei seme­
lhante ao Altíssimo. 
15 - Contudo serás precipitado para Xeol, no mais 
profundo do abismo. 
O personagem em pauta tinha o nome (em Hebraico) 
"estrela da manhã". (Esse nome foi traduzido em Latim 
como "Lúcifer" e assim chegou até nós. Mas "Lúcifer" já 
era. Esse nome diz respeito àquilo que o inimigo foi antes 
da queda. Os servos de Deus não devem mais tratá-lo as­
sim; agora ele é "o diabo", ou então, Satanás.) O crime 
dele foi querer ser "igual ao Altíssimo". É claro que não lo­
grou êxito. Quando poderia um ser criado se impor ao pró­
prio Criador? Ele será "levado ao inferno". Lembrar a pro­
pósito que o Lago de Fogo foi preparado justamente para 
Satanás e seus anjos (Mt 25.41). 
Sua queda. Pela linguagem dos dois textos, Ezequiel 
28 e Isaías 14, entendo que a figura que hoje conhecemos 
por Satanás foi criada o primeiro na hierarquia dos seres 
angelicais. Ele era o mais inteligente, o mais poderoso, 
quiçá o mais belo. Tinha a função mais elevada, era tipo 
"primeiro ministro" de Deus. Maior que ele só o próprio 
Criador, Um dia resolveu usurpar o lugar do Criador. (Há 
quem pense que tenha sido a criação do ser humano, que 
na sua essência é superior ao ser angelical, que encheu Lú­
cifer de ciúme, de despeito, e o levou à rebelião.) Conse­
guiu levar na onda aproximadamente a terça parte dos an­
jos originais (Ap 12.4) que fizeram causa comum com ele. 
É difícil entender como um ser tão inteligente poderia in-
94 
correr em semelhante asneira, mas o fez, e perdeu. Lúcifer 
passou a ser Satanás, o inimigo, o líder da oposição a Deus 
(uma oposição totalmente desleal e perversa). Os anjos 
que o seguiram passaram a ser os demônios, que agora 
atuam na terra. Não sabemos quantos são, mas como o nú­
mero dos anjos que permaneceram fiéis a Deus é mais de 
cem milhões (Ap 5.11, dez mil vezes dez mil), os demônios 
somam pelo menos 50 milhões, e olha lá! Quanta desgra­
ça! 
E daí? Bem, eu iria imaginar que ao ser derrotado e 
expulso das funções no Céu, pois acesso perante o Trono 
de Deus ele ainda tem (Jo 2.1; Ap 12.10), Satanás seria re­
baixado, perderia a patente, em termos militares; não se­
ria mais o primeiro na hierarquia dos seres angelicais. Infe­
lizmente minha imaginação não procede. Vejamos Judas 9 
(Judas é um dos cinco livros que têm só um capítulo). 
"Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e 
disputava a respeito do cadáver de Moisés, não se atreveu 
a proferir juízo afrontoso contra ele; mas disse: O Senhor 
te repreenda." Mas que relato mais esquisito! Sincera­
mente, até hoje não achei uma explicação que me satisfi­
zesse o porquê dos dois seres angelicais mais elevados da 
criação estarem a disputar o cadáver de Moisés! Mas que 
quadro insólito! Pois entendo que Miguel, que assumiu as 
funções outrora exercidas por Lúcifer e agora lidera os an­
jos fiéis a Deus (Ap 12.7), deve ter sido o segundo colocado 
na hierarquia original e permaneceu fiel a Deus quando 
Lúcifer se rebelou. De qualquer maneira, ali estão Satanás 
e Miguel disputando o cadáver. Como já disse, eu esperava 
que Miguel agora fosse maior que Satanás, que poderia se 
impor ao inimigo tranqüilamente, mas não! Em vez de 
mandar Satanás embora; em vez de dizer, "Sai daqui, seu 
safado; não quero nem te ver na minha frente; dá o fora!", 
ele teve de se contentar em dizer, "O Senhor te repreen­
da". Miguel não tinha condições de se impor a Satanás, 
não pôde dizer, "Eu te repreendo". (Agora, o que Miguel 
não pôde, nós podemos. Essa história vou contar mais na 
frente.) Quer dizer, Lúcifer foi criado maior que Miguel e 
continua maior, apesar de agora ser Satanás. Sou obriga­
do a deduzir que Satanás não perdeu a patente. E como 
95 
ele, os demais: e quem era general, continua; quem era co­
ronel, continua; quem era major, continua, e assim por 
diante. É por isso que Efésios 6.12 fala de "principados, 
potestades e príncipes" e Efésios 1.21 de "principado, po­
der, potestade e domínio": é a hierarquia dos oficiais no 
exército angelical caído. Aparentemente, os anjos rebela­
dos nada perderam da sua capacidade, fora o trocar da 
predisposição para o bem poroutra para o mal. Pois agora 
são malevolentes, perversos, terríveis. 
Conseqüência para nós. E daí? Que tem tudo isto a 
ver com a missão transcultural? Tem tudo a ver. Favor re­
cordar o que já se expôs sobre a comissão de Paulo, sobre 
Marcos 3.27; 4.15; Atos 26.18; 2 Coríntios 4.4. Quando ten­
tar arrancar um povo, ou uma pessoa, do poder de Satanás 
você tem pela frente tão-somente o ser criado mais podero­
so, mais inteligente e agora mais malevolente do Universo! 
É só isso. Quem enfrentar uma fera sem entender o perigo 
que representa, sem respeitar esse perigo e sem saber como 
lidar com a fera para dominá-la, esse alguém está fadado a 
apanhar (como eu apanhei!). 
Creio ser este o momento certo de examinar uma 
questão que freqüentemente se levanta. Por que Deus não 
protege seus servos? Por que permitiu Ele que eu apanhas­
se tanto, por exemplo? Bem, trata-se de entendermos as 
"regras do jogo". Ao criar um tipo de ser capaz de escolher, 
Deus tinha de aceitar as conseqüências das escolhas feitas 
por tais seres, e obrigar os ditos seres a também arcarem 
com as conseqüências das escolhas feitas. (Desgraçada­
mente temos de enfrentar não somente os efeitos das pró­
prias escolhas mas os das dos outros também. Passamos a 
vida vitimando e sendo vitimados. Embora seja um assun­
to palpitante, não é aqui que vou destrincá-lo.) Deus não 
pode, e nem vai, operar um milagre contínuo para me pro­
teger das conseqüências de minha ignorância cuipável. A 
Bíblia esclarece adequadamente o que precisamos saber a 
respeito da guerra espiritual. Se eu fecho os olhos, se não 
presto atenção para o Texto Sagrado, se dou mais valor à 
minha cultura religiosa do que à Palavra de Deus, aí eu te­
nho de sofrer. Mereço! Deus iria me proteger para quê? 
Para confirmar minha cegueira, minha idolatria? Paciên-
96 
cia! Aliás, entendo que Deus permitiu que eu apanhasse 
precisamente para me chamar à atenção, para me levar a 
abrir os olhos e pesquisar o assunto. O resultado é isto que 
estou colocando perante o leitor. 
Mas uma questão levanta a cabeça aqui, E a vitória 
de Cristo? Satanás não foi derrotado? Foi, fragorosamente 
(Cl 2.15). Pois então, como é que ele continua representan­
do esse perigo todo? Atendendo a seus próprios desígnios 
(Ele não explica porque) Deus permite que Satanás e os 
demônios continuem agindo no mundo, embora derrotados 
e tendo seu paradeiro final já definido. Atuam na base do 
blefe, fingindo que nada aconteceu. Compete a nós des­
mascará-los, "pagar para ver" como diz o outro. Compete 
a nós impor a vitória de Cristo ao inimigo. Enquanto nin­
guém desafia o blefe o inimigo continua levando e ganhan­
do, embora não esteja com a vitória. 
Está na hora de acordar, minha gente. Está na hora de 
agir à altura, minha gente. Chega de apanhar à toa, minha 
gente! Para tanto precisamos ter uma visão adequada de 
como o inimigo atua. 
Como Atuam Satanás e os Demônios? 
Vamos direto ao Texto Sagrado. Primeiro, Lucas 9.18-
22. 
18 - E aconteceu que, estando ele orando a sós, ajun-
taram-se a ele os discípulos; e perguntou-lhes dizen­
do: "Quem dizem as multidões que eu sou?" 
19 - Respondendo eles, disseram: "João Batista; ou­
tros, Elias; e outros que um dos antigos profetas res­
suscitou." 
20 - E disse-lhes: "Mas vós, quem dizeis que eu sou?" 
E respondendo Pedro, disse: "O Cristo de Deus." 
21 - E, admoestando-os, mandou que a ninguém refe­
rissem isso, 
22 - dizendo: "É necessário que o Filho do homem so­
fra muitas coisas, que seja rejeitado pelos anciãos, pe­
los principais sacerdotes e pelos escribas, que seja 
morto e que ressuscite ao terceiro dia." 
Aqui chamo atenção para a gramática: existem vários 
particípios no presente, "respondendo", "admoestando" e 
97 
"dizendo". O efeito desses particípios é indicar ato contí­
nuo. Os versículos 18 a 22 contêm uma só conversa. Eu 
quis primeiro estabelecer esse fato para agora ver a passa­
gem paralela que encontramos em Mateus 16.13-23, e que 
nos oferece uns detalhes a mais. Sem transcrever a passa­
gem toda, pois traz o mesmo quadro, chegamos à resposta 
de Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (v 16). Aí 
Jesus responde: "Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, 
porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu 
Pai que está nos céus" (v 17). Pulando os versículos 18 e 19 
que não vêm ao caso imediato, nos versículos 20 e 21 Jesus 
prossegue, falando que vai sofrer, morrer e ressuscitar 
(lembrar Lucas 9). Mas aí Pedro não gostou e começou a 
repreendê-lo: "Senhor, tem compaixão de ti; de modo ne­
nhum te acontecerá isso" (v 22). Ao que Jesus retrucou: 
"Para trás de mim, Satanás!..." (v 23). 
Isso aí me faz arrepiar, isso aí me mete medo. É que 
dentro de três minutos, cinco quando muito, Pedro falou 
duas vezes. A primeira vez quem colocou as palavras na 
boca de Pedro foi Deus. Quem explica é Jesus Cristo, ao 
declarar que Pedro não falou por si, e sim pelo Pai. Até aí 
tudo bem, pois que Deus faça isso não causa espécie ne­
nhuma. O problema surge com a segunda vez, pois aí 
quem colocou as palavras na boca de Pedro foi Satanás! 
Novamente quem interpreta o caso, quem declara a verda­
de é Jesus Cristo, Deus-Filho aqui na terra. Quando Ele 
utiliza o nome próprio do inimigo, Satanás, não deixa por 
onde fugir. Foi mesmo Satanás. Sei e quero afirmar que os 
nomes próprios das pessoas não são passíveis de sentido 
"espiritualizado" (a não ser num código secreto que propo­
sitadamente viola as normas da linguagem, o que não é o 
caso aqui). "Geraldo" sempre dirá respeito a alguém com 
esse nome, "Samuel" também, "Carlos" idem, etc. "Sata­
nás" diz respeito exata e precisamente a Satanás, e mais 
ninguém. Novamente estamos diante da verdade mais 
terrível que existe nesta vida, pelo menos a meu ver. O ini­
migo tem acesso a nossas mentes; pode colocar palavras 
em nossas bocas. Queria por tudo que não fosse verdade, 
mas meu querer não altera a realidade. 
98 
Atacam as mentes. Quando finalmente atinei para 
esta verdade passei a entender várias coisas que antes 
aconteciam comigo. Mais de uma vez estava conversando 
com alguém, conversa séria acerca das coisas de Deus, 
quando de repente saíram da minha boca palavras incabí-
veis, que não podia falar, que estragaram o terreno. No 
momento que falei sabia que não estava certo, mas já era 
tarde; o outro vira as costas e vai embora. Eu ficava abis­
mado e perplexo. Como podia falar uma coisa dessas? Veja 
bem: não era coisa que estava no meu pensamento, que vi­
nha mastigando; não, tomei conhecimento ao falar. Du­
rante anos não achei resposta, mas agora eu sei. Algum de­
mônio colocou aquele dizer na minha boca e como eu nem 
sabia que isso era possível caí na emboscada. Agora não 
acontece mais isso comigo. Agora sei me defender. 
Eu sei. Você não está gostando (como eu também não 
gosto), você está relutando contra esta idéia. Vamos com 
calma. Pode ser que você nunca tenha passado pela expe­
riência que acabo de descrever, mas talvez tenha observa­
do o seguinte. É previsível, rotina mesmo: em qualquer 
reunião que vise tratar do andamento da obra (seja do cor­
po diaconal ou conselho da igreja, da diretoria duma mis­
são ou duma escola, dum presbitério ou duma convenção; 
seja grande ou pequena enfim) acontece o seguinte. Está 
tudo indo muito bem, tudo "na santa paz", tudo naquela 
comunhão gostosa dos santos, quando de repente alguém 
abre a boca e diz uma coisa que não podia, sem necessida­
de, coisa que, às vezes, insulta algum outro irmão presen­
te. Certo é que estraga o ambiente de uma vez; a coisa vira 
de cabeça para baixo; pode ir embora que ninguém conse­
gue mais nada nessa reunião. Será que você nunca presen­
ciou uma dessas? Imagino que sim, pois é rotina. Às vezes 
a gente chama aquele que falou, após a reunião, e pergun­
ta: "Me diga aí por favor, porque você falou aquilo, hein?" 
E se ele for sincero, o que às vezes é, é capaz de responder 
assim: "Quer saber duma coisa? Sei não!" E será verdade, 
pois ele apenas foi um inocenteútil na mão do inimigo - al­
gum demônio colocou aquilo na sua boca, e pronto! 
Contra a oração. Você ainda não está gostando? Ain­
da está relutando? Então vamos à oração. Diga-me aí por 
99 
favor, quando se coloca a orar, a interceder, a buscar mes­
mo a face de Deus (quero dizer, quando vai passar pelo 
menos quinze minutos com Ele), tudo corre bem? Você 
consegue orar sem nenhuma dificuldade, consegue concen­
trar seus pensamentos na oração direitinho? Aposto que 
não. 0 pensamento não "voa"? De repente você pensa 
numa conversa, numa coisa que tem que fazer, num acon­
tecimento há seis meses. Será que não? Analisemos a si­
tuação juntos. Seus pensamentos estavam concentrados 
em Deus, certo? Não tinha pensamento seu sobrando para 
ir buscar essas outras coisas. De onde vieram então aqueles 
outros pensamentos? Não está "na cara"? Trata-se de in­
gerência demoníaca na sua mente. Não têm que ser coisas 
vis ou pesadas, basta desviar a gente da oração, e o inimigo 
conseguiu seu intuito. 
Por falar 8m oração, aproveito para colocar o seguinte. 
Quando começamos a orar ingressamos no âmbito espiri­
tual e aí o inimigo se mexe. É primordialmente na oração 
que travamos a guerra espiritual e o inimigo se sente dire­
tamente ameaçado. Por isso ele envida um esforço imedia­
to para nos desviar da oração. Podem ter certeza: ninguém 
consegue orar sozinho. No momento que você se põe a orar 
de forma séria vai sofrer "marcação" de pelo menos um de­
mônio (dependendo da periculosidade que o inimigo lhe 
atribui). Essa marcação pode se expressar de várias ma­
neiras. Quando não vêm pensamentos outros, dá sono. 
(Quando eu era menino tínhamos um "santo" remédio 
contra a insônia. Se eu não conseguia dormir a mãe dizia 
para mim, "basta orar, aí você dorme sem problema." Tiro 
e queda! Começava a orar e dentro de três minutos eu esta­
va roncando. "Contar ovelhas" não entra no mesmo pá­
reo.) Quando não é sono, dá desânimo, "branco" e até me­
do. A dona de casa acha uma "brecha" nos afazeres e põe 
joelho no chão, para quê? O telefone que não toca faz uma 
semana, dispara! Não recebe visita durante um mês mas 
nesse exato instante toca a campainha. As crianças esta­
vam brincando tranqüilamente, mas aí estoura uma briga 
das feias. Tudo quanto for cachorro dentro de meio quilô­
metro começa a latir. Pois não é isso mesmo? Impressio­
nante, não acha? Estamos em guerra, meu irmão! 
100 
Contra a vida, O acesso que o inimigo tem às nossas 
mentes pode ter conseqüências drásticas. Vejamos o caso 
de Ananias em Atos 5. Vamos recordar o contexto. "Era 
um o coração e a alma da multidão dos que creram, e nin­
guém dizia ser exclusivamente sua qualquer das coisas que 
possuía, mas tudo lhes era comum... Não havia pois entre 
eles necessitado algum, porque os que possuíam terras ou 
casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido e 
o depositavam aos pés dos apóstolos; então se repartia a 
cada um segundo a necessidade que tinha" (Atos 4.32-35). 
Foi esse o quadro quando aconteceu o que segue (At 5.1-
10). 
01 - Mas certo homem chamado Ananias, com sua 
mulher Safira, vendeu uma propriedade, 
02 - reteve parte do preço, sabendo-o também sua 
mulher, e levando o restante o depositou aos pés dos 
apóstolos. 
03 - Disse então Pedro: "Por que encheu Satanás o 
teu coração para que mentisses ao Espírito Santo, e 
retivesses parte do preço da terra? 
04 - Guardando-a não ficava para ti? E uma vez ven­
dida não estava em teu poder? Como, pois, assentaste 
no coração este desígnio? Não mentistes aos homens, 
mas a Deus," 
05 - Ouvindo Ananias estas palavras, caiu e expirou. 
(E sobreveio grande temor a todos os que isto ouvi­
ram.) 
06 - Levantando-se os moços o cobriram, e levando-o 
para fora o sepultaram. 
07 - Quase três horas depois entrou também a mulher, 
não sabendo o que havia acontecido, 
08 - Então Pedro perguntou-lhe: "Dize-me, ven destes 
por tanto aquela terra?" E ela disse: "Sim, por tan­
to." 
09 - Pedro então disse a ela: "Como é que combinas-
tes para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os 
pés dos que sepultaram o teu marido, e também te le­
varão." 
101 
10 - No mesmo instante ela caiu aos seus pés e expi­
rou. Entrando os moços acharam-na morta, e levan­
do-a para fora a sepultaram junto do marido. 
Como Pedro explica, eles não tinham de trazer nada; 
podiam trazer uma parte, querendo, desde que não fingis­
sem que fosse tudo. O problema é que mentiram, querendo 
ser badalados como quem trouxe tudo. O apóstolo Pedro 
afirma que quem colocou aquela linda idéia na cabeça , ou 
no coração, de Ananias foi Satanás (novamente o nome 
próprio). Aquilo valeu para Ananias o quê? A morte. Cer­
to? É barra pesada, minha gente! Pouco depois entrou a 
mulher: "Foi assim, Safira?" "Foi." Morreu na hora! Esse 
acesso que o inimigo tem às nossas mentes pode resultar 
na morte física - recordar que ele "tinha o império da mor­
te" e na base do blefe continua agindo a contento. Creio 
que ficaríamos pasmados se soubéssemos quantas pessoas 
já morreram como resultado direto de ação demoníaca. 
Mas tem outra conseqüência pior ainda. Vejamos o caso de 
Judas. 
Em João 13.2 lemos assim: "Acabada a ceia, tendo já 
o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Si-
mão , que traísse a Jesus..." Já em João 13.27 lemos assim: 
"E após o bocado entrou nele [Judas] Satanás. Disse-lhe 
pois Jesus: O que fazes, faze-o depressa." (Ver também 
Lucas 22.3.) A idéia de trair a Jesus foi colocada no cora­
ção de Judas pelo Diabo. Mas no momento nevrálgico Sa­
tanás, nominalmente, "entrou" nele, tomou conta dele 
para garantir que levasse a cabo. Aquilo valeu para Judas 
o quê? A morte física, pois pouco depois, tomado de remor­
so (não de arrependimento, que é bem diferente) enforcou-
se. E valeu mais o quê? A morte espiritual, pois orando ao 
próprio Pai, Jesus disse, "Tenho protegido aqueles que tu 
me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdi­
ção, para que a Escritura se cumprisse" (João 17.12). Ju­
das se perdeu! 
Às vezes não paramos para refletir adequadamente 
sobre o que Deus fez escrever. Gostamos de malhar o Ju­
das, não é? Só fazemos comentários negativos a seu respei­
to. Mas será que ele merece essa repulsa toda? Naquela 
mesma noite, lá no Cenáculo, a certa altura Jesus angus-
102 
tiou-se em espírito e afirmou: "Em verdade, em verdade 
vos digo que um dentre vós me trairá!" Aí os discípulos se 
entreolharam, sem saber a quem Ele se referia, e muito 
aflitos começaram a perguntar, um por um: "Senhor, serei 
eu?" "Senhor, serei eu?" Aí Jesus respondeu: "Ê um dos 
doze, que mete comigo a mão no prato." Aí Judas, por sua 
vez, perguntou: "Rabi, serei eu?" Aparentemente os ou­
tros ainda estavam confusos porque Pedro fez sinal a João 
para que indagasse quem era. Com isso João encostou-se 
em Jesus e perguntou: "Senhor, quem é?" Ele respondeu: 
"É aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado." Aí, 
molhando o pão o deu a Judas. Com isso Satanás entrou 
nele e então Jesus disse: "O que fazes, faze-o depressa." 
Confesso que o que segue me surpreende, pois lemos assim: 
"Mas nenhum dos que estavam à mesa compreendeu para 
que lhe dissera isto; pois como Judas era o tesoureiro supu­
nham alguns que Jesus lhe teria dito: 'Compra o que preci­
samos para a festa'; ou que desse alguma coisa aos 
pobres." Aí Judas saiu, "e era noite". (Ver Mt 26.21-25; 
Mc 14.18-21 e Jo 13.21-30.) 
Sinceramente, esse relato me surpreende. Lembre que 
há três anos os doze discípulos andavam juntos, comiam 
juntos, dormiam no mesmo lugar. Quer dizer, não haveria 
como enganar os outros quanto a seu caráter e sua persona­
lidade. Na igreja, aos domingos, a gente pode vestir aquela 
fachada de "santinho" e enganar as pessoas que só nos 
vêem naquele contexto, mas os que vivem ou trabalham 
com a gente sabem a verdade. Pois bem, eu iria esperar 
que no momento que Jesus disse, "Um de vocês vai me 
trair, "os outros olhassem atravessado para Judas dizendo, 
"Já sei!" Será que não? Se Judas semprefosse diferente, 
demonstrando um outro espírito, então os demais teriam 
sentido tudo isso, fatalmente. Mas o Texto Sagrado é mui­
to claro: nenhum dos outros sequer imaginou que pudesse 
ser Judas; tanto assim que mesmo depois que Jesus identi­
ficasse claramente, por duas vezes, que era Judas eles não 
se compenetraram. Parece que não conseguiram acreditar 
que fosse Judas. Sou obrigado a concluir que até aquele dia 
Judas tinha sido um discípulo exemplar, quem sabe até 
melhor do que alguns outros. Tesoureiro não é cargo de 
103 
confiança? Judas foi igual aos demais, até o dia em que Sa­
tanás o invadiu. Misericórdia! 
Na mesma noite, também no Cenáculo, Jesus disse a 
Pedro (Lc 22.31,32): "Simão, Simão, eis que Satanás vos 
pediu para peneirar como trigo; raas eu roguei por ti para 
que a tua fé não acabe..." Foi a valença! Como conseqüên­
cia desse "peneirar" Pedro negou a Jesus, mas porque Je­
sus orou por ele, Pedro foi recuperado. Já o Texto não diz 
que Jesus tenha orado por Judas. Aliás, já comentamos a 
passagem (Jo 17.12) onde Jesus disse que Judas iria se per­
der "para que a Escritura se cumprisse". Estamos diante 
dum assunto bastante delicado, um assunto que pertence 
à presciencia divina. A questão em pauta é o acesso que o 
inimigo tem ás nossas mentes e as conseqüências que esse 
acesso pode ter. 
A ingerência do inimigo nas mentes não somente pode 
levar à morte física mas também à morte espiritual. E não 
foi só Judas. Fosse apenas Judas talvez desse para agüen­
tar - afinal, o Judas! Mas não. Já constatamos através de 2 
Coríntios 4.4 (também Mc 4.15 e Lc 8.12) que-multidões 
vão para o inferno como resultado da atuação de Satanás e 
seus demônios nas mentes das pessoas. Estamos diante 
dum assunto dos mais sérios, pois qualquer coisa que im­
plica na salvação da alma ou na perda dessa salvação é de 
suma importância. Fechar os olhos ou virar as costas para 
este assunto é traição contra o nosso Rei. 
Evidências outras. Sei. Você ainda está relutando. Va­
mos novamente ao texto. Em 2 Coríntios 11,3 somos infor­
mados de que "a serpente" (Satanás) "corrompe as men­
tes"; no contexto são as mentes dos crentes. É a ingerên­
cia dos pensamentos. Em Tiago 3.1-12 achamos uma des­
crição interessantíssima para nosso assunto. 
01 - Meus irmãos, não queiram muito ser mestres, 
pois sabeis que havemos de receber maior juízo. 
02 - Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se al­
guém não tropeça em palavra, o tal é varão perfeito, 
capaz de refrear também todo o corpo. 
03 - Ora, pomos freio na boca dos cavalos para que nos 
obedeçam, e conseguimos dirigir-lhes o corpo inteiro. 
04-Observai também os navios; embora sendo tão 
104 
grandes e levados de ventos fortes, por um pequeníssi­
mo leme são dirigidos para onde queira o impulso do 
timoneiro. 
05 - Assim também a língua é um pequeno membro e 
gaba-se de grandes coisas. Vede quão grande floresta 
um pequeno fogo incendeia! 
06 - A língua também é fogo, um mundo de iniqüida­
de. É assim que a língua se situa entre os nossos 
membros, contaminando o corpo inteiro e inflamando 
todo o curso da nossa existência, sendo por sua vez in­
flamada pelo inferno. 
07 - Também toda espécie de feras e aves, de répteis e 
seres marinhos, se doma e tem sido domada pela na­
tureza humana; 
08 - mas a língua ninguém, entre os homens, é capaz 
de domar, mal incontrolável que é, cheia de veneno 
mortífero! 
09 - Com ela bendizemos a Deus Pai, e com ela amal­
diçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. 
10 - De uma só boca procede bênção e maldição. Não 
convém, meus irmãos, que estas coisas sejam assim. 
11 - Acaso pode a fonte jorrar do mesmo lugar água 
doce e água amargosa? 
12 - Será, meus irmãos, que a figueira pode produzir 
azeitonas, ou a videira figos? Assim tão pouco pode 
uma fonte dar água salgada e doce. 
De fato, na natureza nunca um manancial jorra alter-
nadamente água doce e salgada; não pode. Mas imagine­
mos que um dia encontrássemos um manancial assim: ora 
saía água doce, ora saía água salgada. Qual seria a explica­
ção para esse fato insólito? Fatalmente teriam de existir 
duas veias d'água alimentando o manancial, e teriam de se 
encontrar quase à flor da terra, ora vencendo uma ora ven­
cendo a outra. É exatamente isto que o Texto Sagrado afir­
ma acontecer com a nossa boca: ora procede bênção, ora 
procede maldição. Como pode? Por sinal, a linguagem dos 
versículos 2, 6 e 8 poderia nos causar espécie, até não tro­
peçar em palavra é ser perfeito; a língua contamina o corpo 
e inflama o curso da existência; a língua é fogo, mundo de 
iniqüidade, mal incontrolável, veneno mortífero! Como 
105 
podemos explicar essa linguagem? Que será que está ha­
vendo? Creio que a explicação se encontra na última frase 
do versículo 6. 
Que devemos entender quando o texto diz que a 
língua "é inflamada pelo inferno?" No mínimo quer dizer 
que a língua recebe sua capacidade inflamatória do "infer­
no", e portanto deve sua ação inflamatória ao "inferno". 
Mas que devemos entender por "inferno"? Creio estarmos 
diante dum caso de metonímia (uma figura da linguagem 
onde uma palavra é utilizada em lugar de outra com a qual 
é estreitamente associada). Com quem está o inferno mais 
intimamente associado? Com Satanás, pois foi preparado 
para ele e seus anjos (Mt 25.41). Entendo que esta passa­
gem atribui grande parte da desgraça que advém do mau 
uso da língua precisamente à atuação de Satanás e dos de­
mônios, influindo no pensar e no falar das pessoas. É claro 
que podemos fazer mau uso da língua por conta própria, é 
ponto pacífico, mas a linguagem do Texto exige uma expli­
cação a mais. Existem duas "fontes" alimentando o nosso 
falar, a nossa própria vontade e a ingerência maligna. Que 
ninguém se iluda. 
Quando você se encontra ao lado de uma pessoa estra­
nha no ônibus, trem ou avião, acha difícil conversar com 
essa pessoa? Sendo o assunto corriqueiro, digamos o tem­
po, a moda, política ou futebol? Bem, há pessoas inibidas, 
é verdade, mas suponho que a maioria não encontre difi­
culdade maior; conversam tranqüilamente. Mas se você 
resolve dar uma guinada na conversa e falar de Jesus, aí 
que acontece? Tudo continua na mesma tranqüilidade? 
Via de regra, não. Correto? Não dá medo, nervosismo, 
"branco", suor frio? Por que será? Esse medo de onde 
vem? Em 2 Timóteo 1.7 lemos assim: "Deus não nos tem 
dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de au-
tocontrole." Aí segue direto dizendo: "Portanto não te en­
vergonhes do testemunho de nosso Senhor." Esse espírito 
de medo que nos ataca quando queremos testemunhar de 
Cristo não vem de Deus. O Texto é claro. De onde vem en­
tão? Quem é o maior interessado em que não falemos de 
Cristo? Não é óbvio? Quando um crente acha difícil falar 
de Jesus, em vez de chamá-lo de covarde e cobri-lo de cul-
106 
pa deveríamos começar por repreender o espírito de medo. 
É claro que podemos ser covardes sem auxílio de demônio 
algum. Pacífico. Mas podem ter certeza que muitas vezes 
somos atacados por um espírito. 
Depois há os pesadelos horripilantes. Não raro a pes­
soa sente que esteja sendo sufocada. (Aliás, a palavra que 
em língua inglesa significa "pesadelo" dizia respeito, há 
400 anos, exatamente a um demônio que vinha e sufocava 
as pessoas enquanto dormiam.) Se os demônios podem 
atacar as nossas mentes quando estamos acordados, quan­
to mais quando estamos dormindo e de certa forma indefe­
sos (há defesa - temos de proibir essa ingerência antes de 
dormir). Fora o que acontece nos pensamentos, às vezes as 
pessoas sentem mesmo uma presença maligna no quarto. 
Cercados como estamos, neste Brasil, pela prática de 
espiritismo de todos os tipos, torna-se difícil entender como 
possa ter crente que ainda não acredita na existência e na 
atuação dos demônios, inclusive agindo nas mentes. Ima­
gino que num futuro não muito distante quase as únicas 
pessoas a manterem seu ceticismo a respeito destas coisas 
sejam os membros de certas igrejas protestantes. Que tra­
gédia!Os dons carismáticos. Outra área onde o inimigo 
aproveita o acesso que tem às mentes é falsificando os dons 
do Espírito Santo. O estrago que o inimigo faz nesta área é 
terrível! O Senhor Jesus disse em João 10.10: "O ladrão 
não vem senão para roubar, matar e destruir". Pois tem la­
drão no "curral das ovelhas". Os destroços são tantos! 
Agora, vamos com calma - sei que este terreno é minado e 
os ânimos facilmente se exaltam - vamos com calma, mui­
ta calma. Peço ainda que o leitor não forme uma opinião 
precipitada a respeito da minha posição, fechando assim a 
mente, pois creio que vou pisar num "calo" ou outro de 
quase todo mundo. Vamos ver, meus irmãos, se consegui­
mos nos humilhar perante a PALAVRA DE DEUS. 
O uso do vocábulo "falsificar" implica forçosamente 
na existência do artigo genuíno: não se pode falsificar uma 
coisa que não existe. Se Satanás falsifica os dons do Espíri­
to é porque os dons genuínos existem; até hoje. Vejamos 1 
Coríntios 13.8-12: 
107 
0 8 - " O amor nunca falha; mas havendo profecias, 
passarão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, 
passará; 
09 - porque em parte conhecemos, e em parte profeti­
zamos. 
10 - Quando, porém, vier o perfeito, então o em parte 
será aniquilado. 
11 - (Quando eu era menino, falava como menino, 
sentia como menino, pensava como menino, mas 
quando cheguei a ser homem, acabei com as coisas de 
menino.) 
12 - Porque agora vemos como em espelho [metálico], 
obscuramente, mas então veremos face a face; agora 
conheço em parte, mas então conhecerei como tam­
bém sou conhecido!" 
Existem várias interpretações improcedentes desta 
passagem. A chave está nos advérbios temporais "quan­
do" e "então". Mas primeiro, observemos que o motivo 
dado no versículo 9 pelo cessar ou passar dos dons citados 
no versículo 8 é que são "em parte". A deficiência desses 
dons é que são parciais, e portanto imperfeitos. Agora, 
atenção para o versículo 10! Quando vier "o perfeito", en­
tão o em parte será aniquilado. A questão toda é saber se 
"o perfeito" já chegou, certo? Pois só aí é que o "em parte" 
acaba. Que ou quem será esse "perfeito"? Não pode ser o 
Cânon completo da Bíblia porque nesse caso o "em parte" 
seria o Antigo Testamento que certamente não foi "aniqui­
lado" ainda. E não será, pois Salmo 119.89 versa assim: 
"Para sempre, ó SENHOR, está firmada a tua palavra no 
céu". (Quisesse ser "chato" eu diria que o "em parte" teria 
que incluir também os livros neotestamentários escritos 
antes de 1 Coríntios, ou mesmo antes de Apocalipse!) 
A solução está no versículo 12. (O versículo 11 é paren-
tético - o "quando" deste versículo no texto grego é pala­
vra diferente do "quando" no versículo 10.) Será que o "a-
gora" do versículo 12 já passou? Alguém entre nós ousaria 
dizer que não mais vê obscuramente, que tem visão perfei­
ta das coisas? Se alguém assim ousasse seria desmentido 
pelo Texto, pois continua: "entào veremos face a face". 
Qual é o antecedente semântico desse "então"? É o mesmo 
108 
do outro "então" no versículo 10, a saber, "quando vier o 
perfeito". Afinal, quando é que veremos "face a face"? 
Quando conheceremos "assim como somos conhecidos"? A 
resposta está em 1 João 3.2. "Amados, agora somos filhos 
de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. 
Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos se­
melhantes a ele, porque assim como ele é o veremos." É 
quando Jesus voltar que o veremos "face a face". Como 
Ele não voltou ainda os dons continuam em pé. Procede? 
Os dons do Espírito existem, mas "mexer" com eles 
requer discernimento. Como já disse, Deus tem me permi­
tido ministrar em igrejas de toda sorte, inclusive muitas 
que reconhecem os dons. Também tenho visitado muitas 
outras sem ministrar. Mas tenho constatado um fato in-
quietante: há falta de discernimento no uso dos dons, oca­
sionando imitações. 
O dom legítimo também existe. Parece-me que o Tex­
to Sagrado é suficientemente claro a esse respeito. Senão, 
vejamos em 1 Coríntios 12. 
04 - Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mes­
mo. 
05 - E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o 
mesmo. 
06 - E há diversidade de operações, mas é o mesmo 
Deus que opera tudo em todos. 
07 - A manifestação do Espírito é dada a cada um vi­
sando a um fim proveitoso. 
08 - Pois a um é dada a palavra de sabedoria, pelo 
Espírito; já a outro a palavra de conhecimento, pelo 
mesmo Espírito; 
09 - e a outro fé, pelo mesmo Espírito; e a outro dons 
de curar, pelo mesmo Espírito; 
10 - e a outro operações de milagres; e a outro profe­
cia; e a outro discernimento de espíritos; e a outro va­
riedade de línguas; e a outro interpretação de línguas. 
11 - Mas todas estas coisas é um só e o mesmo Espíri­
to que opera, repartindo, como lhe apraz, a cada um 
seu dom. 
Os espíritos influem em objetos físicos, Voltando ao 
assunto da atuação do inimigo, ele não somente ataca as 
109 
mentes das pessoas mas ataca também os corpos. Quem lê 
a Bíblia com um pouco de atenção não estará alheio a esta 
verdade. O caso de Jo vem à mente, Foi Satanás, nominal­
mente, que feriu a Jo com as chagas malignas pelo corpo 
inteiro (Jo 2.7). Foi ele também que enviou sabeus, cal-
deus, fogo e vento para acabar com os bens e os filhos de Jo 
(Jo 1.12-19). O problema físico que Paulo recebeu ele cha­
mou de "mensageiro de Satanás" (2 Co 12.7). Certo dia Je­
sus curou uma mulher que tinha "um espírito de enfermi­
dade, havia já dezoito anos"; como resultado, ela andava 
encurvada sem poder se endireitar. Comentando o caso Je­
sus disse que "Satanás a tinha presa" (Lc 13.11-16). 
A atuação dos demônios é repetidas vezes associada a 
problemas físicos (Mt 8.16, 10.1 e 12.22; Mc 1.26, 5.2-13 e 
9.17-27; Lc 6.18, 7.21 e 8.2; Atos 5.16 e 8.7, entre outras 
passagens). Tenho conhecimento pessoal de muitos casos, 
inclusive na própria família. É claro que existem as doen­
ças de origem orgânica; um caso de malária não será resol­
vido tentando expulsar demônio. Mas é igualmente verda­
de que um problema de origem demoníaca não será resol­
vido por remédios. Quero alertar para a possibilidade de 
uma mistura de sintomas. Certa vez fiquei às voltas com 
um caso durante dois anos e meio. Existia um problema 
orgânico que produzia certos sintomas, mas um demônio 
enfeitava o caso com outros sintomas a mais; eu repreen­
dia o demônio mas não resolvia por completo; a pessoa to­
mava remédio e também não resolvia por completo. Foi 
preciso agir adequadamente nas duas frentes. 
É necessário que entendamos que os demônios deve­
ras podem influir nos objetos físicos. Apanhamos muito, e 
de forma inútil, por não prestarmos atenção para este fato. 
É corriqueiro haver problemas com a luz ou com o serviço 
de som em grandes concentrações evangelísticas, por 
exemplo, que se resolvem repreendendo a ingerência do 
inimigo (só que muitas vezes não se resolvem porque o pes­
soal não está por dentro do assunto). Participei da Con­
venção Centenária Batista em Salvador, Bahia (outubro 
de 1982). O serviço de som foi um desastre, o tempo todo. 
Tinha hora que ninguém entendia nada; outras vezes algu­
mas áreas dentro do ginásio ouviam mais ou menos e ou-
110 
trás não. Pedi cinco minutos para falar sobre missões e 
com muita gentileza me atenderam. Antes de falar proibi 
qualquer interferência demoníaca no sistema de som, pe­
dindo também que Deus garantisse uma audição perfeita. 
Falei. Depois várias pessoas me disseram que ouviram mi­
nha palavra com perfeita clareza e que foi a única palavra 
que ficou tão clara assim, durante a convenção toda. 
Qualquer crente que já foi espírita, e ainda mais se 
chegou a ser médium, dará testemunho enfático quanto à 
atuação dos demônios nos objetos: portas batem sem ven­
to, aparelhos funcionam sem energia e sem alguém tocar, 
objetos se deslocam sem causa visível, etc. Não se trata de 
crendice; é pura verdade. Temos experiências de demônio 
interferir em computador! (Quando se pensa em tudo nes­
te mundo que é controlado por computadores, ese dá con­
ta de que Satanás pode mexer neles, passa um ligeiro cala­
frio pelo espinhaço da gente; será que não?) 
Ouvi o seguinte relato dum missionário que trabalhou 
junto a uma tribo indígena de Rondônia. Ele e um colega 
estavam numa cabana a menos de um quilômetro da al­
deia dos índios. Certa tarde veio um índio dizer: "Saiam 
correndo daqui, porque logo mais a noite o pajé vai enco­
mendar aos demônios que derrubem essa árvore tremenda 
em cima desta casa para matar vocês; escapem daqui!" 
Eles agradeceram a boa vontade do homem mas resolve­
ram ficar. Plantaram joelho no chão e vararam a noite cla­
mando a Deus por proteção. Perto do amanhecer deu um 
vendaval que derrubou exatamente aquela árvore monstro 
que tinha próximo da cabana, só que caiu ao lado, sem 
triscar nela. O estrondo da queda foi reverberando pela sel­
va e com pouco vieram os índios, correndo para ver o resul­
tado do "serviço". Qual não foi a surpresa deles ao consta­
tarem que os dois estavam ilesos e tranqüilos! A partir da­
quele dia os índios começaram a levar o Evangelho a sério, 
pois ficou provado que o poder de Deus era maior que o po­
der dos espíritos malignos. Embora Deus protegesse seus 
servos, os demônios efetivamente derrubaram aquela árvo­
re. Como nem sempre há aviso prévio, e nem oração es­
pecífica, muitas vezes somos atingidos. Estamos em guer-
111 
ra, quer saibamos ou queiramos que não. Andar num cam­
po de batalha sem se precaver é tolice em demasia! 
Tentação ao mal. Faço uma distinção entre as inge­
rências já discutidas e a tentação ao mal. Aquelas nos atin­
gem direta e efetivamente mas sem a gente perceber ou en­
tender (muitas vezes). Já esta é uma coisa que se apresen­
ta a nosso pensamento de forma consciente. Se o Senhor I 
Jesus foi tentado por Satanás (ver Mt 4.1-11 e Lc 4.1-13), 
ninguém pense que nós escaparemos. Aliás, nem é neces­
sário insistir neste ponto, pois certamente todos reconhe­
cem que sofrem tentações. Por isso a promessa que encon­
tramos em 1 Coríntios 10.13 se torna bastante preciosa: 
"Não vos sobreveio tentação que não fosse comum aos ho­
mens, e Deus é fiel, que não permitirá que sejais tentados 
além das vossas forças; antes com a tentação dará também 
a saída, para que possais suportá-la." Quer dizer, a saída 
existe, mas nem sempre nos valemos dela! 
Parece-me importante atentarmos para a verdade que 
se encontra em Tiago 1.13. "Ninguém, sendo tentado, di­
ga: É de Deus que sou tentado; porque Deus não pode ser 
tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta." O Texto 
é bem claro, tentação ao mal nunca vem de Deus. Resulta 
daí que ao sermos tentados não devemos hesitar sequer um 
segundo - não há porque ficar apreciando o gosto e nem 
perguntar se talvez venha de Deus, o que devemos é recha­
çar a idéia imediatamente, sabendo que não pode ser de 
Deus e portanto é do inimigo. Com fogo não se brinca. 
Implicações, Se pudéssemos nos compenetrar, real­
mente, do quanto os demônios atrapalham nossas vidas, j 
poderíamos simplesmente transformá-las, desde que 
aprendêssemos também a manusear as armas espirituais 
que Jesus coloca à nossa disposição. Porém, dois alertas se 
fazem necessários: primeiro, não enxergar demônio debai­
xo de cada pedra e atrás de cada pau; segundo, não jogar a 
culpa por tudo de mal que faço sobre o inimigo. Às vezes, 
quando alguém acorda para estas verdades se impressiona 
de forma exagerada e passa a ver demônio em tudo. Não é 
o caso - exige-se discernimento. Ou então alguém acha 
que pode eximir-se de responsabilidade por seus próprios 
pecados. Não funciona - somos pecadores por conta pró-
112 
pria e Deus irá cobrar de nós mesmos. Eu sozinho, sem 
auxílio de ninguém, sou capaz de pensar ou fazer tudo que 
não presta. Nasci pecador. Mesmo nas coisas que fazemos 
sob influência maligna existe a nossa parcela de culpa pela 
qual teremos de prestar contas a Deus. 
Tendo feito essas ressalvas, volto a insistir que somos 
atacados das formas mais variadas, nós os crentes. O que 
acontece lá fora no mundo deve ultrapassar aquilo que so­
mos capazes de imaginar. A participação demoníaca nos 
suicídios, na violência, no crime, na imoralidade, nos 
vícios, no homossexualismo, no "rock", e t c , e t c , não está 
"no gibi", como diz o outro. 
Cabe mais uma observação aqui: os ataques podem 
ser indiretos. O inimigo leva alguém a escrever uma carta, 
mandar um telegrama ou fazer um telefonema e a mensa­
gem nos abala. Nossa vida é assim tumultuada através de 
outra pessoa e nem sempre discernimos a origem verdadei­
ra do ataque. Outra coisa que o inimigo gosta de fazer é 
atacar um filho para atingir os pais, e funciona muito bem. 
Se meu filho pega uma doença esquisita, é óbvio que isso 
vai me distrair, me preocupar, e com isso traz prejuízo 
para meu ministério, para nem comentar o tempo e di­
nheiro que poderão ser gastos sem resultado. Cuidado com 
os ataques indiretos. 
Gastei esse tempo todo versando sobre o inimigo não 
para enaltecê-lo, e muito menos para cultuá-lo, e sim para 
que os irmãos se conscientizem, se compenetrem do perigo 
que ele representa. Quem for mexer com fera sem respeitar 
o perigo que representa, sem saber lidar, fatalmente apa­
nha. Não sei dos outros, mas pessoalmente já cansei de 
apanhar. Chega! Temos um inimigo terrível pela frente, a 
maior das feras, mas o nosso Mestre, Jesus, nos coloca à 
disposição armas perfeitamente adequadas não só para 
nos defender como para impor a derrota do inimigo. Antes 
de atentarmos para as armas, no entanto, creio ser aconse­
lhável considerarmos uma questão preliminar: Por que 
existe tanta ignorância no meio evangélico a respeito des­
tas coisas? 
113 
Por Que Tanta Ignorância? 
No momento em que a gente começa a se compenetrar 
do alcance do assunto em pauta, surge naturalmente uma 
perplexidade. Como é que estas verdades não são comen­
tadas nas igrejas e nem ensinadas nas escolas teológicas 
(descontadas as poucas exceções)? Não é uma coisa esqui­
sita? Pensando no efeito prático diário, esta área de verda­
de fica quase sem par quanto aos reflexos diretos em nos­
sas vidas. Deveria ocupar um iugar de destaque nos cardá­
pios dominicais, mas em vez disso sequer aparece. Por que 
será? Creio existirem diversos fatores que contribuem para 
a situação atual. 
A cultura envolvente. Somos influenciados pela cul­
tura envolvente que é muito materialista, descrente no 
sobrenatural. Já observamos que Satanás influi fortemen­
te nas culturas dos homens (1 Jo 5.19). Entendo que o ma-
terialismo é um dos "sofisrnas" (2 Co 10.4) que Satanás 
tem levantado para evitar que as pessoas cheguem a um 
conhecimento adequado do Deus verdadeiro. (Além do 
materialismo temos islamismo, marxismo, hinduísmo, bu­
dismo, animismo, humanismo, confucionismo, e outros -
cosmovisões que afastam o homem de Deus, todas elas.) 
Parece-me óbvio que o que mais ajuda o inimigo é uma in­
credulidade quanto à sua própria existência (quer dizer, 
da parte de pessoas que se dizem cristãs). Se alguém nem 
acredita que Satanás e os demônios existam, eles podem 
agir a contento já que o incrédulo nunca vai entender o que 
está acontecendo. O inimigo fica sozinho em campo fazen­
do o que bem quer e entende, sem sofrer "marcação" algu­
ma. 
É nada menos que uma tragédia que pessoas "cristãs" 
se deixem influir pela cultura envolvente a ponto de rejei­
tarem o que a Palavra de Deus claramente ensina. Na Eu­
ropa e na América do Norte o humanismo materialista já 
se tornou praticamente religião oficial. Domina o sistema 
escolar em todos os níveis. Predomina na televisão, no ci­
nema, no teatro, nos livros e jornais. Então não é de estra­
nhar que os fundamentos dessa cosmovisão estejam inva­
dindo as igrejas e influindo nelas, embora seja de lamen-
114 
tar. Poderíamos pensar que num Brasil cada vez mais 
espírita o preconceito contra o sobrenatural não seria uma 
ameaça, mas esse pensamento representaria uma avalia­
ção superficial. De onde vieram os professores que lecio­
nam em nossas faculdadesteológicas? Muitos são estran­
geiros, oriundos exatamente da Europa e da América do 
Norte? E os professores brasileiros, se formaram onde? 
Muitos vão ao exterior para cursar o mestrado ou o douto­
rado. E todos aprenderam sua teologia com professores es­
trangeiros e através de livros escritos por estrangeiros. 
Meu intuito em fazer esta colocação é tão-somente mostrar 
como uma mentalidade existente nos continentes supraci­
tados poderia se projetar facilmente no seio das nossas 
igrejas, a despeito da nossa cultura envolvente. Mas qual é 
a ideologia que predomina nas universidades do país - não 
é o marxismo, ou algum tipo de materialismo? Os profes­
sores não sofreram as mesmas influências estrangeiras que 
acabamos de comentar? Meus irmãos, precisamos abrir os 
olhos! Precisamos acordar para o perigo terrível que nos 
ronda. O humanismo, o materialismo e até o marxismo in­
filtram e penetram cada vez mais nas nossas igrejas. São 
"sofisrnas" satânicos que só dão prejuízo. Podem trazer as­
pectos que imitem aspectos próprios do Reino de Deus, en­
ganando os incautos e dando prejuízo maior no fim. 
Uma noção errada de culpa, Nas andanças, tenho 
observado em certos ambientes uma noção errada de culpa 
que dá "vergonha" de tocar no assunto. Isto é, eles enten­
dem que os demônios existem e atacam as pessoas, mas 
parecem ter a idéia de que ser atacado por demônio é uma 
coisa vergonhosa, isto porque a vítima teria convidado ou 
facilitado o ataque. Cria-se assim um mal-estar, um clima 
de "cerimônia" ou inibição que leva as pessoas a silenciar 
diante da problemática. Isso também favorece ao inimigo. 
As vítimas não recebem ajuda. Aliás, recebem uma carga 
de culpa por cima dos ataques. As pessoas não são preveni­
das. As armas de defesa não são explicadas. Enfim, o ini­
migo está à vontade quase o mesmo tanto quanto diante 
da incredulidade. 
Existe um engano nesse quadro. Nos diversos relatos 
nos Evangelhos nunca se diz que as vítimas eram culpadas 
115 
por serem atacadas. Trata-se de um assalto, uma violência 
praticada contra a gente. Se você está andando pela rua e 
de repente sofre um assalto por algum desconhecido, você 
sente vergonha como se fosse culpa sua? Não há porque. 
Mesmo em caso onde a natureza da agressão produz vergo­
nha o silêncio favorece o assaltante e incentiva a reincidên­
cia. Agora, é claro que a gente pode facilitar. Se você vai 
mexer com terreiro, com "búzios", com horóscopo, com 
coisas que são declaradamente do inimigo, paciência! Es­
tará se expondo gratuitamente aos ataques. É claro que 
pode. Contudo, creio que a maior parte dos ataques que so­
fremos vêm porque pertencemos a Jesus e temos um inimi­
go que nos odeia. Seja como for, meu desejo aqui é apelar 
contra o silêncio. Vamos romper o "tabu". Vamos falar 
abertamente da problemática. Vamos prevenir e alertar as 
pessoas contra o perigo. Vamos desmascarar o inimigo e 
ensinar como se defender contra seus ataques! 
A nossa Bíblia nos despista! Por incrível que possa 
parecer, nossas principais versões da Bíblia nos despistam 
neste terreno. O substantivo "demônio" nada mais é do 
que uma transliteração do grego, òm,\xovuav (uma transli-
teração é o aproveitamento duma palavra estrangeira, le­
tra por letra, apenas aportuguesando, no caso). Quisera 
que tivessem feito a mesma coisa com o verbo correspon­
dente, õctuiJovLÇüj . Nesse caso disporíamos do verbo "de-
monizar" na língua portuguesa. Mas não, os tradutores co­
locaram "endemoninhar". Sucede que o prefixo "en-" con­
duz o raciocínio fatalmente numa direção, Se eu disser, 
"Eis aí um homem endemoninhado!", qual é a idéia ime­
diata que você formula a respeito do dito "homem"? Ele 
tem que estar possesso. Certo? Alguém iria fazer outra 
idéia? Duvido. Para nós "endemoninhado!" diz respeito a 
possessão demoníaca. E daí, qual é o problema? Bem, é o 
seguinte: 
A possessão demoníaca certamente existe, mas repre­
senta uma pequena parte da ação do inimigo contra os ho­
mens, exatamente os casos mais extremos. (Embora exista 
a insanidade orgânica não me surpreenderia constatar que 
a maioria dos casos de insanidade decorre pelo menos par­
cialmente de ação demoníaca.) A maior parte da atuação 
116 
dos demônios contra nós não chega ao ponto de ser posses­
são. Existe o que poderíamos chamar de obsessão ou opres­
são, bem como problemas físicos, mas entendo que os ata­
ques mais freqüentes ingerem nas nossas mentes de formas 
menos óbvias; tanto assim que no mais das vezes nem da­
mos fé. Creio que devemos cunhar o vocábulo "demoni-
zar" para dizer respeito a toda e qualquer ingerência dire­
ta, quer na mente quer no corpo. Podemos visualizar o con­
ceito mediante um espectro contínuo: 
nas mentes | nos corpos obsessão opressão [possessão 
Como se vê, não incluo a tentação ao mal no espectro 
por entender que não chega a ser uma demonização, pelo 
motivo já exposto. O que fica para compor a idéia de de­
monização, porém, engloba um mundo de sofrimento. 
Vejamos agora algumas conseqüências da tradução 
"endemoninhar". Não sei até onde posso culpar essa tra­
dução, mas as igrejas e escolas "tradicionais"' dificilmente 
tocam no assunto; talvez por pensar só em possessão e 
imaginar que isso não seja problema para crente. Certo é 
que alguém poderia freqüentar certas igrejas durante vinte 
anos e não ouvir uma pregação sobre Satanás e os demô­
nios. Já as igrejas e escolas "pen tecos tais" pelo menos tra­
tam do assunto. Nos trabalhos de libertação, como versa a 
expressão, costumam lidar somente com os casos de pos­
sessão. Será que nâo? Num trabalho desses quando é que o 
obreiro vai expulsar demônio? Só quando se manifesta, 
certo? Alguém começa a gritar, rolar no chão, dar alguma 
manifestação de estar sob controle alheio e aí o responsável 
pelo andamento do trabalho confronta o demônio ou de­
mônios e os manda embora. Mas se algum demônio ficar 
quietinho no seu canto, que acontece? Nada, no mais das 
vezes - ninguém mexe com ele; passa despercebido. Sei 
que alguns obreiros ordenam aos demônios que se manifes­
tem, mas será que todos obedecem? Como saber? E se a 
manifestação nâo for de uma maneira que reconhecemos 
como sendo "possessão", quem vai identificar e rechaçar 
essa manifestação? Parece-me claro que mesmo nos am­
bientes onde há expulsão de demônios, a maior parte da 
117 
ação do inimigo contra nós passa despercebida. Estão às 
voltas com a possessão, e só. 
Vejo outro resultado que pode ter desdobramentos até 
sérios, Quando pensamos na ação demoníaca apenas em 
termos de possessão, e quando uma igreja ensina que cren­
te não pode ser possesso, acontece o seguinte. Não chega a 
ser uma "possessão", mas a pessoa sabe que está sendo 
atacada. Só que a única linguagem que conhece para tra­
tar do assunto de ataque demoníaco é "possessão" e a igre­
ja ensina que crente não pode ser possesso. Aí a pessoa en­
tra numa angústia terrível - sabe que é crente, mas crente 
não pode ser possesso; no entanto está sendo atacada e 
sabe que está. Como explicar e como escapar? Não pode 
dizer nada na igreja porque se admitir que esteja sendo 
"possessa" aí deixa de ser aceita como crente, pois crente 
não pode ser. Assim, a pessoa não pode nem receber ajuda 
porque não se atreve a falar. Mesmo que viesse a falar não 
receberia ajuda adequada porque os responsáveis só pen­
sam em termos de possessão. O pior da história é que esse 
sofrimento todo é simplesmente desnecessário. Precisamos 
aprender a falar em termos de demonização, entender que 
crente certamente é demonizado (sou atacado todos os 
dias) e explicar o uso das armas espirituais que estão à nos­
sa disposição. 
A idéia de que seríamos intocáveis. Em muitos am­
bientes evangélicos existe a idéia catastrófica de que sería­
mos como que isentos ou "intocáveis" - isto é, que demô­
nio não pode tocar em crente. Aliás, há um versículo que 
parece dizer exatamente isso, a saber 1 João 5.18. "Sabe­
mos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas 
o que de Deus é geradoconserva-se a si mesmo, e o maligno 
não lhe toca." Aí está, "o maligno não lhe toca" - poderia 
haver uma coisa mais clara? Bem, vamos com calma. Que 
conteúdo semântico podemos dar ao vocábulo "tocar" nes­
te caso? Não pode dizer respeito a tentação ao mal porque 
o Senhor Jesus foi tentado (Mt 4.1-11) e se Ele foi tentado 
é claro que nós também o seremos. Não pode dizer respeito 
a ataque contra o corpo físico porque o apóstolo Paulo foi 
assim atacado (2 Co 12.7) e se ele pôde ser atacado é claro 
que nós também podemos ser. Não pode dizer respeito a 
118 
ingerência na mente porque o apóstolo Pedro sofreu tal in­
gerência (Mt 16.22,23) e se ele pôde ser atingido assim, 
como imaginar que escaparemos nós? Se esse tal "tocar" 
não pode ser nenhuma dessas três coisas, que é que sobra? 
Mas a solução para o caso é outra. 
Qual é o antecedente do pronome "lhe"? Quem é que 
o maligno não pode tocar? No contexto fica claro, é "todo 
aquele que é nascido de Deus". Certo? Muito bem, você é 
nascido de Deus? Quem entre nós vai dizer que nasceu de 
Deus? Eu. E se já foi regenerado pelo Espírito Santo, você 
também. Mas quando aconteceu isso? quando nasceu fisi­
camente do ventre da mãe? Não. Só Jesus nasceu assim. 
Ele foi literalmente gerado por Deus na virgem Maria. E 
nós? nascemos de Deus no momento da regeneração. Mas 
não perdemos a identidade; todo mundo que nos conhecia 
antes de nascermos de novo nos conhece depois também. 
Então, o que há em mim que é nascido de Deus? Não pode 
ser tudo aquilo que eu, Gilberto, era antes do novo nasci­
mento. O que então? Entendo que é a "nova natureza" ou 
o "novo homem" que o Espírito Santo gera em mim. Não 
devemos igualar o "novo homem" ao Espírito Santo, exa­
tamente, mas existe uma interligação estreita entre am­
bos. Tanto assim que em Gaiatas 5.17 é "o Espírito" que 
milita contra a carne. O que em mim é "nascido de Deus" 
é o "novo homem" e é este, auxiliado pelo Espírito Santo 
em mim, que o maligno não pode tocar. Sucede que eu, 
Gilberto, sou uma mescla de duas naturezas agora (depois 
de convertido) e como um todo sou perfeitamente "tocá-
vel". Como já disse, sou atacado todos os dias. 
Ainda sobre 1 João 5.18, nossas versões nos apresen­
tam duas discrepâncias sérias. Onde a versão "Corrigida" 
traz "não peca" a versão "Atualizada" tem "não vive em 
pecado". Como pode? Traduziram textos gregos diferen­
tes? Neste caso, não; o texto é único. Encontramos o verbo 
"pecar" no presente do indicativo simples e negado. A tra­
dução natural e normal seria "não peca", Não existe nada 
absolutamente de "viver" no texto original. De onde então 
tirou a "Atualizada" a idéia de viver em pecado? Foi um 
preconceito teológico que os tradutores impuseram ao Tex­
to (fizeram a mesma coisa, em grau maior, com 1 João 3.9; 
119 
a "Corrigida" tem a tradução certa). O último verbo do 
versículo, "tocar", também se encontra no presente do in­
dicativo simples e negado - é a mesmíssima construção 
morfológica do verbo "pecar". E como é traduzida pela 
"Atualizada"? É "não vive tocando"? Não, é "não toca", 
que é a tradução certa. A "Corrigida" é coerente, e correta, 
quando traduz "não peca" e "não toca". O que o Texto Sa­
grado afirma é que o gerado de Deus não peca. Alguém en­
tre nós ousaria dizer que não peca? E o Espírito Santo que 
habita em nós, Ele peca? 
(A fim de fazer justiça aos tradutores da "Atualizada" 
devo dizer que certamente não explicariam seu procedi­
mento da mesma maneira que eu. Imagino que diriam 
aquilo que sempre se ouve na primeira aula sobre o tempo 
presente do verbo na língua grega. O professor afirma que 
em Grego o tempo presente tem força "linear". Bom, às 
vezes tem, mas nem sempre. Parece muito com o Portu­
guês. Se eu pergunto, "Você toma café?", e você responde, 
"Sim, tomo", que devo entender por sua resposta? Você 
vive tomando café? Não, não é? Você toma vez por outra, 
ou tem o hábito de tomar, mas não vive tomando. Correto? 
Mas se você responde, "Não, não tomo", aí que devo en­
tender? Você não vive tomando café? Bem, talvez podería­
mos chegar até íá, mas o sentido normal e direto é que você 
simplesmente não toma. Nas línguas em geral encontra­
mos que as normas que regem uma construção gramatical 
quando é positiva costumam mudar quando é negativa. É 
o caso da questão em pauta. Mesmo que o tempo presente 
do verbo grego tenha efeito linear quando positivo, nem 
por isso o terá quando negativo. Os tradutores da "Atuali­
zada" "pisaram na bola".) 
Agora vamos à segunda discrepância. A "Corrigida" 
traz "mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo" 
ao passo que a "Atualizada" tem "antes, Aquele que nas­
ceu de Deus o guarda", que é bem diferente. Desta vez o 
problema é que traduziram textos gregos diferentes - a di­
ferença é de uma letra! Essa letra faz a diferença entre um 
pronome demonstrativo ou reflexivo. O porquê da existên­
cia de vários textos gregos não posso explicar aqui. embora 
tenha alguma perícia nesta área (ver meu livro, The Iden-
120 
tity of the New Testament Text). Tenho de me contentar 
era dizer que a vasta maioria dos manuscritos gregos, a 
quase totalidade, traz a forma reflexiva, que entendo ser o 
texto original. Assim, mais esta vez a "Corrigida" está me­
lhor. Eu traduziria o versículo assim: "Sabemos que todo 
aquele que é gerado de Deus não peca, mas o gerado de 
Deus protege-se a si mesmo e o maligno não lhe toca." Será 
que sou capaz de me autoproteger? E o Espírito Santo? 
Enfim, somos vulneráveis aos ataques demoníacos -
que ninguém se iluda! Até onde eu imagino entender o as­
sunto, e reconheço que não é muito longe, creio que en­
quanto eu estiver com meu pensamento conscientemente 
submisso ao Espírito Santo minha mente deve ficar a salvo 
de ingerência maligna, mas no momento que essa submis­
são deixar de ser consciente, e pior ainda se deixar de ser, 
então é vulnerável. Mesmo com a mente a salvo, o corpo 
ainda é vulnerável. Pelo menos Paulo sofreu dum proble­
ma físico de origem satânica durante algum tempo e eu 
não me atreveria a sugerir que ele não estivesse submisso 
ao Espírito esse tempo todo. 
Suponho que muitos leitores estejam relutando contra 
essas colocações. Sei que contradizem certas idéias que 
têm gozado de ampla divulgação e aceitação no meio evan­
gélico. Mas que posso fazer? Tenho compromisso com a 
Palavra de Deus e me sinto obrigado a fazer exegese ínte­
gra. Vamos analisar a questão mais um pouco. Se fosse Sa­
tanás onde você concentraria seu fogo? Ãs vezes, quando 
estou ministrando num seminário teológico, escandalizo a 
turma ao indagar qual o lugar naquela cidade que deve ter 
a maior concentração de demônios. As pessoas costumam 
pensar na penitenciária, numa casa de prostituição, no 
terreiro mais importante da área, etc. "Nada disso," res­
pondo eu, "é aqui". Mas aqui, Professor?" "Pois então, 
que lugar na cidade representa o maior perigo para o ini­
migo? Isto aqui é uma 'fábrica' de soldados para o exército 
de Jesus: é aqui, fatalmente, que Satanás vai concentrar 
seu fogo. Não tem outra coisa na cidade de maior periculo-
sidade para ele." Alguma dúvida? Não está "na cara"? 
Aquele bêbado caído na sarjeta, alguma prostituta ou al­
gum drogado, eles estão "no papo". Os demônios não pre-
121 
cisam gastar mais tempo com eles. Pode ter certeza, meu 
irmão, quanto mais útil você se torna na mão de Deus, 
quanto mais você se projeta no Reino, tanto mais "chum­
bo" vai receber, e do grosso. Satanás é muita coisa, menos 
tolo. 
Pronto, não posso mais protelar - chegou a vez do "a-
bacaxi". Afinal, crente pode ser possesso ou não pode? De­
sarmar os espíritos por favor! Vamos com calma. Deus não 
é onisciente e onipresente? Então, onde quer que Satanás 
esteja Deus também está - tem de ser se Ele é onipresente. 
Jo 2.1 deixa claro que Satanás se apresenta perante o pró­
prio Trono de Deus! Apocalipse 12.10 deixa entender que 
ele ainda tem acesso lá e pelo jeito passa boa parcela do 
tempo, pois nos acusa "de dia e de noite". É oseguinte, 
muitas vezes se argumenta que se Deus está na minha vida 
então Satanás não pode entrar ao mesmo tempo. Como? 
Por quê? Se o inimigo consegue entrar no Santuário no 
Céu, entrar na minha vida é "café pequeno" - não deve ser 
problema algum. Vamos pensar na vida como se fosse uma 
casa. Qualquer pessoa genuinamente convertida tem o 
Espírito Santo na vida, ou na "casa". Mas infelizmente 
muitos crentes mantêm o Espírito na sala de visita. Ele es­
tá na casa (que é de máxima importância) mas não tem 
domínio da casa - tem armário lá no fundo trancado a sete 
chaves! Têm áreas da vida que nunca foram abertas e en­
tregues. Pois bem, se o Espírito fica confinado à sala de vi­
sita, se não tem a liberdade da casa toda, Satanás facil­
mente toma conta da cozinha. Tranqüilo. Perante a 
problemática ora em discussão a questão chave não é se eu 
tenho o Espírito Santo mas se Ele me tem! Não é a presen­
ça e sim o controle do Espírito. Temos de entregar todas 
as chaves da casa. 
Sei, você ainda não está gostando. Então vamos pen­
sar mais um pouco. Se eu pecar conscientemente numa 
coisa estou me rebelando contra Deus nessa coisa. Certo? 
Mas se me rebelo contra Deus estou fazendo causa comum 
com Satanás já que o negócio dele é rebelião contra Deus. 
Quer dizer, nessa coisa entrei na dele, essa área da vida en­
treguei de mão beijada ao inimigo. E se eu me rebelo numa 
segunda coisa; lá se vão duas áreas de mão beijada. E uma 
122 
terceira ou uma quarta? Meu irmão, sinceramente, se você 
entregar três ou quatro áreas de sua vida a Satanás ele 
pode tumultuá-la de forma tal que pouco me interessa o 
nome que queira dar à sua situação; estou mais preocupa­
do com a realidade. 
Voltemos ao espectro contínuo que já apresentei. As 
divisões e distinções são arbitrárias. Quem mandou fazer 
os riscos onde os fiz? Como sabemos se o limite entre pos­
sessão" e "opressão" não deve ser mais para cá ou mais 
para lá? Como essas distinções são arbitrárias, coisas que 
saem da cabeça dos homens e não do Texto Sagrado, julgo 
improcedente tentar fundamentar doutrina sobre tais con­
ceitos. Tais distinções podem ser úteis para descrever ca­
sos específicos, mas no momento que ingressamos no terre­
no da doutrina (doutrina bíblica ou teológica, não costu­
me) devemos deixá-las de lado, voltando para o Texto. O 
Texto fala de demonização que, por tudo que acabo de ex­
por, entendo abranger desde uma simples ingerência no 
pensamento até o controle da pessoa. 
Finalizando, temos de andar cheios do Espírito, con­
trolados conscientemente por Ele. Pessoa que anda assim 
nunca será "possessa". Agora, se facilitar, já sabe, o inimi­
go não perdoa! Nós, os soldados de Cristo, certamente so­
mos o alvo preferido. Estamos em guerra, guerra sem quar­
tel ou trégua. Como já expliquei lá pelo começo do capítu­
lo, Deus não vai operar um milagre contínuo para nos li­
vrar das conseqüências da nossa ignorância culpável. Te­
mos de pagar por nosso descaso. 
Os acovardados. Parece existir medo da parte de al­
guns (de muitos?) pregadores e doutrinadores de tocar no 
assunto. Não se trata de incredulidade ou ignorância; eles 
sabem que Satanás e os demônios existem e atuam, mas 
estão acovardados. Certa feita um novel pastor pregou 
uma bela mensagem contra o inimigo, desceu "lenha" 
mesmo, só que o contra-ataque não tardou! Como o prega­
dor não sabia se defender levou a pior, e agora ficou aco­
vardado. Com isso ele nunca mais fala do inimigo, e como 
resultado desse silêncio seus ouvintes permanecem na ig­
norância. Como muito bem está dito em 2 Timóteo 1.7, 
Deus não nos dá espírito de covardia. É óbvio que qualquer 
L23 
covardia nossa só pode ajudar o inimigo. Por mais medo 
que alguém tenha de Satanás, no entanto, não deveria ter 
mais "medo" de Deus? 
Em Salmo 78.9 encontramos um comentário triste. 
"Os filhos de Efraim, embora armados de arco, bateram 
em retirada no dia do combate. Não guardaram a aliança 
de Deus..." Que vergonha! Essa covardia é interpretada 
como traição à aliança. Deus não gostou. Lembremos que, 
na época, arco era arma privilegiada (ainda não existia 
arma de fogo) e assim eles ficaram com mais culpa. Em Je­
remias 48.10 encontramos uma palavra mais contundente. 
"Maldito aquele que fizer a obra do SENHOR relaxada-
mente, e maldito aquele que retém a sua espada do san­
gue!" Maldito! Maldito! Eis a opinião de Deus acerca da 
pessoa que possuindo arma se recusa a guerrear. Maldito! 
Ser pacifista na guerra espiritual é traição contra nosso 
Rei. Maldito! Está na hora de conhecer nossas armas e 
aprender seu manuseio. Primeiro as armas de defesa. 
As Armas de Defesa 
Jesus não nos mandaria e nem nos manda contra Sa­
tanás sem defesa. Temos um inimigo terrível pela frente, 
mas temos também as melhores armas. Mas que adianta 
ter as melhores armas se não as utilizarmos? Posso ter o 
melhor escudo do mundo mas se deixo no armário ao sair 
que adianta? Mesmo saindo com o escudo no braço é preci­
so estar atento para poder aparar a flechada no escudo e 
não no corpo. Vamos começar pela armadura descrita em 
Efésios 6. 
A armadura de Efésios 6. Parece-me que as peças 
aqui descritas servem principalmente para defesa. Cabe 
observar que nada tem para proteger as costas. Se mostrar 
as costas para o inimigo está "no papo"! Temos de enfren­
tar o inimigo, e ainda por cima ficar atentos. (Eis aí um as­
pecto da coisa que me maltrata, me dá raiva mesmo! É 
que nunca podemos descansar. Qualquer cochilo e "To­
ma!". A gente fica cansado mas os espíritos, não possuindo 
corpo, não têm esse problema.) Como já transcrevemos a 
passagem no começo do capítulo aqui me limito a comen­
tar as peças. 
124 
Primeiro o cinturão e a couraça (v 14): parece óbvio 
que qualquer falta de verdade ou justiça na vida fornece 
uma brecha que o inimigo pode aproveitar (e ele não dor­
me no ponto). Depois as botas (v 15): creio que falta de 
preparo para a obra é como andar descalço; qualquer pe­
dra pontiaguda ou caco de vidro corta o pé e a gente sai 
mancando (para soldado isso pode ter conseqüências sé­
rias). 
O escudo merece menção especial (v 16). Mas que 
arma tremenda, capaz de apagar "todos os dardos infla­
mados do maligno"! Qual será a exata natureza dessa ar­
ma? O simples fato de ter fé não pode ser porque todo 
mundo tem fé. Aliás, nada se faz nesta vida sem fé. Já pa­
rou para refletir nisso? Sentado estou confiando na cadei­
ra, que não vai ruir e me jogar no chão; já houve cadeira 
que não merecesse confiança. Em pé estou confiando nas 
pernas, que vão me sustentar; já houve vez que me traí­
ram. Tomar café hoje foi um ato de fé; já houve quem to­
masse café temperado, com arsênico! Enfim, nada se faz 
sem fé em alguma coisa. A questão é, em que ou em quem 
está depositada minha fé? Creio que nosso escudo tem de 
ser fé em Deus, mas fé nele como sendo o Maior: é esta a 
certeza que nos dá a condição de enfrentar o inimigo e apa­
gar todos seus "dardos". 
Depois vem o capacete e a espada (v 17). Parece claro 
que sem a salvação nem estaríamos no exército de Jesus, 
mas já que capacete protege exatamente a cabeça, pode 
ser que seja a consciência ou a convicção, a certeza da sal­
vação que está em foco. Sem tal certeza ficamos sem con­
dições íntimas de enfrentar o inimigo. Quanto à espada, o 
Senhor Jesus ilustrou como usar a Palavra de Deus para 
defesa ao rechaçar as tentações de Satanás (Mt 4.1-11). 
Certamente faremos uso da Palavra também ao tomar a 
ofensiva contra o inimigo. 
É na oração que ingressamos no âmbito espiritual e é 
primordialmente nesse âmbito que a guerra se trava, pois é 
essencialmente espiritual. Prestemos atenção para o versí­
culo 18. Fala de "súplica" e em "todo o tempo"; fala de 
"vigiar" e com "toda perseverança". Evidentemente, é 
para ser uma atividade que levamos a sério, que ocupa 
125 
tempo e na qual insistimos. Não é questão de orar uma vez 
e esquecer ou desistir. Devemos orar por "todos os santos", 
que vale dizer que é uma coisa bastante importante,se to­
dos precisam dela. Mas Paulo prossegue dizendo, "e por 
mim". Ora, se Paulo precisava, então calcule a gente! Cos­
tumo dizer a qualquer candidato a missionário que não 
deve partir para o campo sem que um bom número de pes­
soas se tenham comprometido a orar por ele. Uma andori­
nha só não faz verão. Como o uso das nossas armas quase 
sempre se expressa através de oração, ainda estaremos co­
mentando a oração ao comentar essas armas. Assim sendo, 
vamos às outras armas. 
A maior arma de defesa. É em Tiago 4.7 que encon­
tramos a maior e a melhor arma de defesa, pelo menos a 
meu ver: "Sujeitai-vos pois a Deus; mas resisti ao diabo, e 
ele fugirá de vós." Este verso contém dois verbos no impe­
rativo, duas ordens. A primeira é "sujeitai-vos" - é total­
mente necessário que estejamos efetivamente sujeitos a 
Deus antes de investir contra o inimigo (nada melhor nesse 
sentido do que ser um discípulo de Jesus nos termos que 
comentamos no capítulo IV). Não queira saber de enfren­
tar Satanás na sua própria força; você será esmagado. Vo­
cê deve lembrar de que ele é o ser mais poderoso que outro-
ra foi criado. E agora é inteligente e malevolente agindo no 
Universo. Para podermos ter o poder de Deus e para impor 
a vitória de Cristo ao inimigo, é imprescindível que esteja­
mos sujeitos a Deus. Mas uma vez satisfazendo a primei­
ra condição, ou ordem, enfrentamos logo a segunda, "Re­
sistir". E ordem; não ponto facultativo. Sempre que o ser­
vo de Cristo suspeitar da atuação do inimigo em determi­
nado caso tem a incumbência, a obrigação de resistir-lhe: é 
uma ordem. 
Vamos pensar um pouco nesse verbo "resistir". Pri­
meiro, tem de ser consciente, uma atitude que a gente to­
ma. Também, é uma reação contra alguma coisa. Creio 
que é exatamentee isso: temos de reagir conscientemente 
contra os ataques do inimigo. É um "repelir", quase um 
"rechaçar". Saí da selva em 1972 "por conta*1, de tanto 
apanhar. Afinal, não era "possível" que um servo de Cristo 
com a bagagem teológica que eu tinha apanhasse tanto. 
126 
Acabei entendendo que eu certamente estava por fora de 
alguma verdade importante. Saí à cata de subsídios. Li, 
ouvi e observei pessoas que diziam ter conhecimento e ex­
periência na área. Nunca aceito a experiência de ninguém 
como sendo norma; ouço com respeito mas vou direto ao 
Texto Sagrado para ver se a coisa procede, se tem Tespaldo 
na Bíblia. Aliás, diga-se de passagem que doutrina nunca 
se deve basear em experiência, jamais; doutrina se baseia é 
na Palavra de Deus. As experiências podem servir para 
ilustrar uma verdade ou doutrina, mas têm de ser peneira­
das - existem experiências enganadoras, pois Satanás é 
uma "fábrica" de experiências (se você quiser "experiên­
cias" ele dá muitas). Muito bem, voltemos à minha pes­
quisa. 
Essas pessoas diziam que o "resistir" de Tiago 4.7 
consiste em reconhecer a ação do inimigo em determinado 
caso e repreendê-lo em nome do Senhor Jesus. Isso "bate" 
com o sentido natural da palavra. Provei na própria expe­
riência da maneira seguinte. Estava cursando doutorado 
na cidade de Toronto, no Canadá. Na época dirigíamos um 
carro, emprestado, tipo Belina ou Veraneio, só que era 
mais comprido que a Veraneio. Deitávamos o banco trasei­
ro, fazendo aquele leito, forrávamos com colchonete para 
as crianças brincarem (e dormirem), amontoávamos a ba­
gagem no meio (para servir de isolamento - quem tem 
criança entende) e colocávamos as crianças na "cozinha". 
Um dia fomos visitar os sogros, uma viagem de oito horas. 
As duas filhas, que na época tinham dez e seis anos, res­
pectivamente, estavam na "cozinha", eu no volante e a es­
posa ao lado. A lei, no Canadá, permitia 110 km e eu esta­
va desenvolvendo mais ou menos isso - super-estrada, su­
per-carro, pouco movimento, dia bonito, você sabe. Quem 
já andou nessa velocidade sabe que o próprio carro fica ba­
rulhento: a zoada dos pneus no asfalto, o motor um pouco 
forçado. Pois bem, estava dirigindo tranqüilamente, as fi­
lhas brincando de maneira quieta, gostosa, quando de re­
pente estourou uma briga lá atrás das feias, "unhas e den­
tes". Mas foi de repente, sem aviso prévio. É natural que 
crianças confinadas assim durante algum tempo acabem 
perdendo a serenidade, mas nesse caso a coisa se desenvol-
127 
ve de forma previsível e a gente reage em tempo hábil. 
Dessa vez, não; me pegou completamente de surpresa. 
Passaram vários segundos para eu armar a reação. Antes 
de falar me deu aquele estalo, Deus me revelou: "Aquilo 
não é natural". Eu vinha pesquisando o assunto e estava 
preparado. Falei em inglês, mas traduzindo ao pé da letra 
disse: "Satanás, és tu. Te repreendo em nome de Jesus!" 
Agora, vamos recompor bem o quadro: o carro estava fa­
zendo barulho e as crianças estavam gritando; embora fa­
lasse em viva voz, não levantei a voz e estava olhando para 
a frente guiando o carro. Quer dizer, não havia como as 
meninas ouvirem o que eu disse, como de fato não ouvi­
ram. Pois bem, no momento que falei aquilo, imediata­
mente, cessou a briga entre as duas meninas; mas parou 
mesmo! Voltaram a brincar de maneira pacífica e gosto­
sa. Louvado seja Deus! 
Aquilo me ensinou duas coisas. Primeiro, o resistir 
funciona assim mesmo: reconheci a atuação do inimigo e 
repreendi em nome de Jesus. De passagem, devo observar 
que não imagino em momento algum que tenha sido o pró­
prio Satanás que atacou minhas filhas, certamente ele tem 
afazeres mais importantes. Foi um demoniozinho qual­
quer. Utilizei o nome próprio do inimigo porque assim me 
ensinaram, e funcionou. Mas como poderia se não foi Sata­
nás? Bem, imagino que ao repreender o chefe atingi por ex­
tensão o subalterno que agia diretamente no caso. Sendo 
Deus quem obriga o inimigo a obedecer, Ele se vale da nos­
sa intenção. Segundo, o inimigo não tem vergonha. Atacar 
duas crianças dessa maneira é muito baixo, muito mesqui­
nho, muito covarde; isso não é serviço de homem não! De 
fato, mas para demônio quanto mais baixo e sujo, melhor. 
É uma turma desgraçada. Já me convenci de que eles ata­
cam de preferência os mais fracos e indefesos; criancinha 
pequena é o prato predileto. Observem que foi um ataque 
às mentes das minhas filhas, provocando aquela briga. 
Creio que temos de associar o resistir com o conceito 
de demonização. Temos a incumbência de repelir qual­
quer ataque do inimigo contra nós, e não só os casos de 
possessão. No caso que contei foi exatamente uma ingerên­
cia nos pensamentos. A meu ver, o expulsar de demônios 
128 
nada mais é do que o resistir, só que fazendo frente à pos­
sessão. Quando é que alguém vai expulsar demônio? 
Quando se manifesta. Certo? Quer dizer, a atuação malig­
na é reconhecida como tal e em seguida repreendida. É o 
resistir. 
Voltando ao Texto, encontramos uma promessa. 
"...Ele fugirá de vós". Quando primeiro expus estas verda­
des para minha família, foi no culto doméstico, minha fi­
lha maior, que na época tinha quinze anos de idade, pres­
tou bem a atenção. Essa minha filha é o tipo da pessoa ani­
mada, entusiasta, expansiva. Não anda, pula. No dia se­
guinte quando voltou da escola não estava mais pulando, 
voava raso. "Papai, papai, funcionou!" "Mas, que é que 
funcionou, minha filha?" "Papai, resisti ao diabo e ele fu­
giu!" Chorei de alegria naquela tarde; até de uma mocinha 
de quinze anos ele tinha de fugir! Aleluia! Mas há um de­
talhe, essa filha já era discípulo verdadeiro de Jesus e por­
tanto tinha condições de enfrentar o inimigo. Torno a enfa­
tizar: é totalmente necessário estar efetivamente sujeito a 
Deus antes de investir contra Satanás, direta ou indireta­
mente. 
Como já dissemos, Satanás prefere manter as pessoas 
na incredulidade ou na ignorância. Porém, quando uma 
pessoa, ou uma igreja, quer acordar para estas coisas e co­
meçar a agir, aí ele se mexe. Corre atrás do prejuízo. Pro­
cura confundir as pessoas, procura mistificar, levar a ex­
tremos e abusos, vender idéias errôneas a respeito do as­
sunto. Com isso eíe consegue duas coisas. Primeiro,dimi­
nui a eficiência dos acordados, diminuindo assim o prejuí­
zo que vai sofrer. Segundo, os céticos vêem os abusos e se 
confirmam na incredulidade. Daí resulta uma discussão de 
surdos e as duas alas vão radicalizando as posições, polari-
zando-se cada vez mais. A verdade fica sozinha no meio e 
Satanás fica rindo de nós. Está bom? Certamente que não. 
Meus amados irmãos, quero declarar que não me con­
sidero como grande perito no assunto. Sei que muitos ir­
mãos já estavam atuando no terreno bem antes de eu acor­
dar. Reconheço tranqüilamente que posso estar enganado. 
Não sou dono da verdade. No entanto, creio que Deus tem 
permitido que eu aprenda e entenda algumas coisas e que é 
129 
da vontade dele que eu compartilhe essas coisas. Assim 
sendo, irmãos, com toda a humildade vou avaliar aqui vá­
rias áreas onde me parece que o inimigo tem conseguido 
vender idéias que diminuem nossa eficiência no conduzir 
da guerra espiritual. 
Alguns enganos - não é dom, é ordem. Em certos 
ambientes evangélicos parece-me existir a idéia de que ex­
pulsar demônios seria dom, ou da competência exclusiva 
dos pastores. Já catei todas as listas dos dons espirituais e 
não consta isso. Expulsar demônio não é dom, é ordem. 
Temos a ordem de "resistir" em Tiago 4.7 e novamente em 
1 Pedro 5.9: "Ao qual resisti firmes na fé". É claro que in­
teressa ao inimigo semear a idéia de que seria dom. Se ex­
pulsar demônio é dom, então o prejuízo que o inimigo leva 
se limita ao tempo e à disposição dos poucos "dotados"; 
quando eles cansam, esquecem ou dormem, o inimigo fica 
tranqüilo. Mas já imaginou se todos os crentes andassem 
resistindo à ação de Satanás e dos demônios, que prejuízo 
não iríamos dar a ele?! Já pensou? Pois é isso exatamente 
que Satanás quer evitar a qualquer custo; deve ser seu pior 
pesadelo. Dom é para os poucos dotados, ordem é para to­
dos. 
Existe um outro engano parecido. Quando alguém co­
meça a despertar para estas coisas, às vezes falta coragem 
para enfrentar Satanás diretamente. Então, quando reco­
nhece um ataque pede que Deus o resista. Ouvem-se ora­
ções assim: "Oh! Deus, repreende o demônio que está per­
turbando a vida de Fulano." Só que muitas vezes Ele não o 
faz. E por que não? Ele não faz porque é da nossa compe­
tência; Ele mandou que nós fizéssemos. E ao mandar nos 
deu o poder, as condições para podermos obedecer. Não se 
trata de humildade espiritual da parte de quem queira se 
omitir, é desacato a uma ordem já dada por Deus. Ele 
manda que nós resistamos ao diabo. 
Queria comentar aqui uma coisa que já mencionei ra­
pidamente, que o que Miguel não pôde (Judas 9) nós pode­
mos. É que, em princípio ou essência, somos superiores aos 
seres angelicais. Em Gênesis 1.26 aprendemos que fomos 
criados a imagem e semelhança de Deus, o mesmo não 
acontece com os anjos. Segundo Romanos 8.17 somos her-
130 
deiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, o mesmo não ocor­
re com os anjos. 1 Coríntios 6.3 informa que iremos julgar 
os anjos; isso leva a entender que eles devem ser inferiores 
a nós. Hebreus 1.14 diz que são nossos ministros, estão aí 
para nos servir. A "Corrigida" nos despista em Hebreus 2.7 
onde traduz "Tu o fizeste um pouco menor do que os an­
jos" pois o sentido certo é "por um pouco", como versa a 
"Atualizada". A interpretação certa de Salmo 8.5 também 
deve ser "por um pouco". É que enquanto ficarmos limita­
dos por nossos corpos físicos aqui na terra a nossa superio­
ridade não aparece. Para completar, Efésios 1.20-21 e 2.6 
deixam entender claramente que em Cristo estamos senta­
dos à destra do Pai, privilégio que Miguel não tem. Enfim, 
por posição, por autoridade, por tudo que temos em Cristo, 
é da nossa competência resistir ao inimigo. Deus vai cobrar 
essa ordem! 
Não pedir permissão. Por estranho que possa pare­
cer, tenho encontrado a idéia de que seria preciso pedir li­
cença para expulsar demônio. Já imaginou num campo de 
batalha a gente gritar: "Õ 'seu' inimigo, dá licença de ati­
rar em você?" Está doido! Antes de terminar já vem 
chumbo, pois pela voz o outro sabe onde a gente está. 
Guerra é guerra! Enxergou o inimigo, fogo nele! Mesmo 
que, se pedir licença, é claro que o demônio não vai dar. 
Onde já se viu? Gostaria de afirmar mais uma coisa. Não 
somente não devemos pedir permissão mas nem precisa­
mos estar presentes. 
Há vários anos participei duma conferência interna­
cional em Dallas, Texas. Ao chegar, fui visitar um casal 
amigo que mora lá. Durante o almoço, compartilhei com 
eles algumas coisas que vinha aprendendo sobre a guerra 
espiritual. Aí a dona da casa me contou o seguinte: Há três 
dias ela havia visitado um casal muito amigo deles (eu co­
nheço por alto). Ao entrar na casa parecia um velório, pois 
o casal estava bastante abatido. È que dos quatro filhos 
que eles têm um era uma moça de 16 anos, na época, e essa 
moça acabara de fugir com um homem entre os mais "pe­
sados" da cidade; ele era um criminoso conhecido por to­
dos, com seus trinta anos tinha praticado tudo quanto era 
crime, tinha passado pela prisão várias vezes, e t c ; era 
131 
"pesado" e conhecidamente "pesado". No entanto, a 
moça fugiu com ele; uma moça criada na igreja, num lar 
evangélico, e cujo pai é figura de destaque na sua igreja a 
nível de convenção estadual, Pois bem, vocês podem ima­
ginar o desespero dos pais. "Como pode? Que é que fize­
mos de errado?" Ouvi esse relato e achei esquisito. Que a 
moça arrumasse um namoro com algum rapaz qualquer, 
vá lá, ainda acontece; mas fugir exatamente com um sujei -
to assim e com o dobro da idade dela? fiquei desconfiado. 
Aí eu disse aos amigos: "Desconfio ter havido uma inge­
rência demoníaca no caso e se assim for há remédio; vocês 
querem pagar para ver?" "Queremos." Ali mesmo na copa 
expliquei ligeiramente as regras do jogo e passei a repreen­
der qualquer ação demoníaca junto àquela moça, mandan­
do cessar e proibindo qualquer reincidência. Aproveitei 
para fazer a mesma coisa a favor do homem. Ainda re­
preendi o espírito de depressão que assolava os pais. Me 
dei por satisfeito, rne despedi dos amigos e fui participar 
da conferência. Dez dias depois, finda a conferência, fui 
ver os amigos antes de viajar. Quem abriu a porta foi a 
dona da casa e ao me ver exclamou: "Gilberto, sabe o que 
aconteceu?" "Não, que foi?" "Se lembra da oração que fez 
no outro domingo?" "Lembro." "Pois quatro dias depois o 
telefone tocou na casa dos pais aflitos; atendeu a mãe; ou­
viu a voz da dita filha, 'Mamãe, queria voltar para casa, a 
senhora aceita?' 'Mas claro minha filha, venha correndo!' 
Na mesma noite ela chegou em casa". Voltou diferente. 
Antes, durante algum tempo, ela vinha sendo difícil, 
problemática, rebelde, mas agora estava calma, No dia se­
guinte procurou o diretor do colégio para saber como repor 
os estudos perdidos. Enfim, cuidou de colocar a vida nos 
eixos novamente. 
Agora veja bem, ninguém pediu licença. Não sabía­
mos do paradeiro dela. A rigor nem sabíamos se ainda es­
tava com vida. Nada dissemos aos pais. Trata-se duma 
guerra espiritual que se trava no âmbito espiritual. \ o 
mundo espiritual não existe barreira de espaço ou matéria. 
Resulta dali uma verdade tremenda com valor estratégico 
muito grande. É que no âmbito espiritual podemos guer­
rear ao redor do mundo! Meu corpo pode estar em Brasília, 
132 
mas no espírito, na oração posso amarrar Satanás na Chi­
na, na Nigéria, no Irã, enfim. Já pensou? Quantas vezes a 
gente ouve algum irmão idoso queixar-se da sorte porque 
não pode mais sair de casa, não pode fazer mais nada na 
igreja, etc. Esse irmão poderia se tornar um grande guer­
reiro na guerra espiritual. Exatamente, por não mais poder 
sair de casa, ele dispõe de muito tempo. Poderia conduzir a 
guerra ao redor do mundo, produzindo grande efeito. Ou 
uma dona de casa, cheia de filhos, que se queixa porque 
não pode sair a fazer evangelismo com os outros, etc. Bem, 
ser mãe já é a função mais importante da nossa sociedade, 
mas ela também pode ser uma guerreiratemível. Já lavei 
toneladas de louça (verdade mesmo) e sei como é as mãos 
trabalharem quase sozinhas, deixando a mente pratica­
mente desocupada; a gente pode conduzir a guerra en­
quanto lava. Já varri quilômetros de chão (verdade mes­
mo) e sei como é - novamente as mãos trabalham quase so­
zinhas; a gente pode conduzir a guerra. Podemos ter um 
raio de ação quase sem limites. 
Oração e jejum. Tenho a preocupação de desmistifi-
car o assunto em pauta. Devemos tratá-lo de maneira lúci­
da, objetiva, séria. Não consigo entender que Deus nos co­
locaria num campo de batalha do jeito que é, sem expor as 
regras do jogo de forma reconhecível e explicável; não nos 
deixaria tateando no escuro, à mercê das nossas imagina­
ções, cada um pensando de forma diferente e não havendo 
como definir a questão. 1 Coríntios 14.33 declara que Deus 
não é de confusão. 
Assim, tenho pedido a Deus que me ajude a reconhe­
cer e isolar princípios básicos para nortear nossa atuação 
na guerra espiritual. Creio que o fato fundamental é a vitó­
ria de Cristo. João 16.11, Efésios 1.20-22 e Colossenses 
2.15, entre outras, mostram que essa vitória foi total. Tia­
go 4.7 diz que o diabo fugirá quando eu resistir a ele, mas 
por que ele foge? Qual é o ingrediente ativo? Ele tem medo 
de mim? Duvido. É o poder de Deus, liberado pela vitória 
de Cristo. Deve ser por isso que Efésios 6.10 diz, "fortale­
cei-vos no Senhor e na força do seu poder". A propósito, 
expressões como "o nome de Jesus" e "o sangue de Cristo" 
não devem ter nenhum efeito mágico, só o pronunciar des-
133 
sas palavras não resolve. Temos de apelar conscientemen­
te para a realidade da vitória de Cristo. Se é isso que esta­
mos fazendo ao utilizar tais expressões, tudo bem. Agora 
vamos ao jejum. 
Em Marcos 9.29 Jesus disse que certa casta de demô­
nio só saía mediante oração e jejum. Antes de examinar o 
efeito do jejum em si, somos obrigados a comentar outro 
problema. È que a versão "Atualizada" traz as palavras "e 
jejum" entre colchetes, maneira de negar-lhes autenticida­
de. E por que fizeram isso? Porque dois manuscritos gregos 
omitem essas duas palavras, dois contra mais de 900 que 
as têm! Como pode? No mundo dos eruditos, durante os 
últimos cem anos, tem sido a moda dar um valor exagera­
do a esses dois manuscritos ("vaticanus" e "sinaiticus"), 
pois são os mais antigos que trazem mais ou menos o Novo 
testamento inteiro. Muitos eruditos têm dito que são tam­
bém os "melhores", mas eu discordo enfaticamente. Esses 
dois manuscritos estão cheios de erros; discordam entre si 
mais de 3.000 vezes só nos quatro Evangelhos, etc. O leitor 
pode ter certeza absoluta que as palavras "e jejum" fazem 
parte do Texto Original. Em Mateus 17.21 a mesma versão 
coloca o verso inteiro entre colchetes, pelo mesmo motivo 
(mais três manuscritos se ajuntam aos dois, ainda contra 
mais de 900, mas não fosse os dois o verso estaria em paz). 
O leitor pode apagar os colchetes e ler o versículo com ple­
na confiança. Já que Jesus disse mesmo "oração e jejum", 
vamos ao caso. 
Partindo do princípio básico de que é a vitória de Cris­
to que funciona, que obriga o diabo a fugir, aí eu indago: 
meu jejum acrescenta qualquer coisa à vitória de Cristo? 
Posso dizer que a vitória de Cristo foi incompleta? Se fôs­
semos admitir a hipótese, por onde argumentar que somos 
nós capazes de aprimorar essa vitória? O Texto parece-me 
claro: Jesus ganhou uma vitória completa; Satanás sofreu 
uma derrota fragorosa. Se o próprio chefe dos demônios foi 
derrotado como argumentar que qualquer casta abaixo 
dele tenha escapado? Sei que muitos irmãos experientes 
discordarão com a colocação que segue, e a apresento com 
humildade, mas peço que o leitor a avalie com cuidado. O 
que Jesus falou em Marcos 9.29 foi dito antes de sua morte 
134 
e ressurreição, antes da vitória portanto. Quer dizer, as re­
gras do jogo eram outras. Quando Jesus começou a expul­
sar demônios foi uma sensação tremenda. Depois Ele, 
Deus, o Filho na terra, deu a mesma autoridade aos doze e 
aos setenta (Lucas 9 e 10), mas deve ter sido na base da so­
berania de Deus, pois Satanás ainda estava em pé como 
deus deste mundo (em João 12.31 o Senhor Jesus disse, "a-
gora o príncipe deste mundo será deposto", na véspera da 
crucificação). 
Já que em Cristo estamos sentados à destra do Pai, no 
Céu, e portanto "acima de todo o principado, e poder, e 
potes tade e domínio" (Ef 1.20,21 e 2.6), creio que Deus es­
pera de nós que imponhamos a Satanás e aos demônios, to­
dos eles, a derrota já sofrida. Para tanto não deve ser ne­
cessário jejuar, desde que estejamos efetivamente sujeitos 
a Deus. Agora, com isso não quero "fazer pouco" do jejum; 
creio ser de valor. Não acrescenta nada à autoridade de 
Cristo, mas muito bem pode aumentar minha coragem 
para manusear o poder de Deus. O jejum aumenta minha 
sensibilidade para o mundo espiritual. É por isso que mui­
tos pajés indígenas e outros médiuns espíritas profissionais 
são magros - jejuam muito. Por que fazem isso? Para au­
mentar sua sensibilidade aos demônios. Já nós, jejuamos 
para aumentar nossa sensibilidade ao Espírito Santo. Até 
onde consigo enxergar o jejum tem esse valor, mas nada 
acrescenta à vitória de Cristo. 
Existem outras práticas que podemos avaliar da mes­
ma maneira. Há irmãos que gostam de gritar quando ex­
pulsam demônios. Não sei; demônio pode provocar surdez 
mas não é surdo, pelo menos que eu saiba.^ Meu grito acres­
centa qualquer coisa à vitória de Cristo? Às vezes tenho le­
vado a impressão de que o obreiro estava inseguro e gritava 
para inflar a própria coragem. Outras vezes parecia-me 
que o intuito era de sensacionalizar a coisa. Aproveito o en­
sejo para fazer um apelo aos amados irmãos: evitemos o 
sensacionalismo! A simples demonstração do poder de 
Deus, curando ou libertando, já é uma coisa maravilhosa, 
já vai produzir impacto, já vai sensibilizar o povo; não é 
necessário pintar e bordar por cima. Digo mais: não con­
vém! O milagre em si chama atenção a Deus e o glorifica; 
135 
qualquer tentativa de enfeitar, de sensacionalizar chama 
atenção ao homem, e isso é perigoso, Primeiro, Deus é ciu­
mento, não reparte sua glória com ninguém (Is 42.8). Se­
gundo, o homem facilmente se exalta, caindo na armadi­
lha do diabo. Quanto mais a pessoa se exalta, tanto mais 
se afasta de Deus e seu ministério caminha para o "brejo" 
a largos passos. Aliás, tem uma maneira certa e segura de 
fazer de Deus seu inimigo; é ensoberbecer-se, "Deus se 
opõe aos soberbos, mas dá graça aos humildes" (Tiago 4.6 
e 1 Pedro 5.5). Portanto irmãos, evitemos o sensacional is-
mo. 
Para completar, parece-me que impor mão ou quei­
mar objeto também não acrescenta nada à vitória de Cris­
to. Não vejo necessidade de impor a mão, basta falar (já 
houve quem recebesse pela mão o mal que estava tentando 
afastar). Queimar ou destruir um artefato associado a de­
mônio pode ser uma tomada de posição importante para 
quem está rejeitando essa associação, mas não deve ser ne­
cessário para expulsar o demônio (a importância que se 
deu à destruição dos lugares e objetos associados à idola­
tria no Antigo Testamento, pois atrás dos ídolos havia de­
mônios, parece-me prender-se à diferença nas regras do jo­
go). Creio que temos autoridade o suficiente para interdi­
tar objetos e casas, simplesmente mandar os espíritos em­
bora, proibindo que façam qualquer uso a mais deles - nos­
sa luta não é contra o objeto, que não tem culpa de nada, e 
sim contra o demônio. Por sinal, já há quem ande fechando 
terreiros; simplesmente interdita, proibindo qualquer ma­
nifestação dos demônios ali; com isso fica sem graça e fe­
cha. 
Demônio é enganador. Os demônios fazem tudo para 
nos despistar, embrulhar e desmoralizar. Se a gente re­
preende um demônio, ele vai, mas um outro pode tomar 
imediatamente o lugar do primeiro e produzir o mesmo 
efeito, levando a gente a pensar que nada aconteceu e a 
sentir-se desmoralizado. Se a gente repreende mas não 
proíbe a volta,ele sai mas poderá voltar, daí a uma hora, 
um dia ou uma semana. Hoje em dia quando tenho de re­
preender a ação do inimigo, repreendo não somente o que 
está agindo mas a todo e qualquer outro que queira atacar 
136 
a pessoa dessa forma. Também proíbo qualquer reincidên­
cia do ataque. 
Uma jogada muito comum que eles usam para nos 
embrulhar é puxar conversa com a gente. Há obreiros que 
gostam de bater papo com o inimigo. Confesso que não en­
tendo. Já pensou num campo de batalha: "Ó ^seu' inimi­
go! Vem cá, vamos bater um papo, tomar um cafezinho 
juntos; depois te mato. Tá bom?" Que tal? Sei que uns 
acham inclusive necessário saber o nome do demônio para 
expulsar, e com isso só podem expulsar de um em um. Às 
vezes o demônio faz alguma exigência para sair. Aconte­
cem as coisas mais absurdas. Ouvi o caso dum homem que 
quis expulsar um demônio. O demônio disse que só sairia 
se ele voltasse em casa e vestisse uma gravata. Aí o homem 
saiu correndo para buscar a gravata. Só que quando voltou 
o demônio riu na cara dele, "você acaba de me obedecer e 
agora pensa que pode me expulsar? Vai embora!" 
Certa noite quando terminava de palestrar sobre este 
assunto, várias pessoas vieram à frente e me contaram o 
seguinte caso. Numa cidade do interior goiano um certo 
pastor teve esta experiência: ele foi chamado às pressas 
para atender uma mulher bastante possessa. Levou alguns 
outros irmãos consigo e tentou expulsar o demônio. Não 
saiu. Após várias tentativas e alguma luta o demônio dis­
se; "Não vou sair porque ela tem um trem meu" (daí se vê 
que era mineiro). Finalmente foi induzido a dizer que o 
"trem" era o colchão dum "pai de santo" que ela ganhou 
quando ele morreu. Aí o pastor pulou no carro e saiu dispa­
rado em direção à casa da possessa. A caminho um moto-
queiro sai duma rua lateral e bate no carro do pastor. 
Apressado e nervoso o pastor promete pagar tudo (a culpa 
era do motoqueiro mas o pastor queria se livrar para dar 
cabo ao colchão) e prossegue. Entra na casa, acha o col­
chão, leva para o quintal e toca fogo! Aí voltou à casa onde 
a possessa se encontrava e o demônio saiu. Uma vitória 
para Jesus? Talvez, mas ouçamos o resto da história. Su­
cede que aquela mulher tinha marido e ele achou que tam­
bém tinha direito naquele colchão. Encurtando, o pastor 
acabou pagando o colchão e a moto. Levou bastante pre­
juízo, além do desgaste. Teria sido necessário tudo isso? 
137 
Creio que não. Certamente Jesus não entraria numa con­
versa dessas. 
Nos Evangelhos encontramos várias vezes onde os de­
mônios tentaram puxar conversa com Jesus, mas nenhu­
ma onde Ele puxou com eles. Uma só vez Jesus perguntou 
o nome, no caso da Legião (Mc 5.9). Por que será que per­
guntou, porque não sabia? Claro que sabia! Entendo que o 
fez para que ficasse registrado para nossa instrução que 
existe possessão múltipla. Podemos observar que Jesus 
não expulsou de um em um, expulsou os mil duma vez. 
Não é necessário saber o nome dum soldado inimigo para 
matá-lo, basta mandar uma bala certeira. Os demônios 
são mentirosos por formação. Satanás é o pai da mentira 
(Jo 8.44). É claro que um demônio eventualmente pode fa­
lar uma verdade, mas como reconhecer uma verdade entre 
cem mentiras? Existe uma denominação no Brasil que co­
meçou na liberdade do Espírito, mas descambou para um 
legalismo bastante fechado. Um pastor que participou do 
movimento me contou que alguma das regras surgiram da 
forma seguinte: diante duma pessoa possessa perguntava-
se ao demônio se certa prática não era do diabo; quando o 
demônio respondia que sim a prática passava a ser proibi­
da pela igreja! Satanás deve estar rindo até hoje. 
Os demônios gostam de "vender" experiências. Ouço 
dizer que tem igreja por aí onde se vomita demônio; cada 
domingo tem aquele poço de vômito diante do altar (pelo 
menos o zelador faz jus a seu salário). Sinceramente, será 
que Satanás não está ridicularizando o povo de Deus; será 
que não está debochando da vitória de Cristo? E tem mais 
uma, muitas vezes são as mesmas pessoas sendo libertas 
cada domingo, e do mesmo problema. Como pode? Jesus 
ganhou ou não ganhou? Olho vivo minha gente! Todo cui­
dado é pouco; demônio é enganador. 
Questões para pesquisas. Quero dizer que tem mui­
ta coisa que não entendo ainda. Têm coisas que me deixam 
perplexo, Ainda estou pesquisando e pedindo a Deus que 
me ilumine. Gostaria de expor algumas dessas questões 
aqui para que os irmãos me ajudem. Pode ser que alguém 
já tenha a resposta para uma coisa que ainda me é oculta. 
Peço que me comunique. Outras questões poderemos pes-
138 
quisar juntos e chegarmos às respostas mais rapidamente, 
quem sabe. 
Vou começar por uma questão onde creio já ter a res­
posta, mas gostaria de ouvir outros. Não raro acontece o 
seguinte: a pregação está chegando ao ponto culminante 
quando de repente uma criancinha dispara a chorar. A 
gente tem certeza que é um ataque demoníaco, mas não 
quer repreender abertamente (pode magoar os pais e tal­
vez causar estranheza nos outros; quer dizer, pode inter­
romper mais que o choro). Aí a gente repreende no pensa­
mento mas nada acontece. Por quê? Bem, imagino o se­
guinte: como o desafio é público, a repreensão também 
deve ser pública. Se consigo fazer o choro parar só com o 
pensamento ninguém vai entender o que foi, vão pensar 
que era um choro natural e que a criança resolveu parar. 
Para que a derrota do inimigo fique exposta aos olhos de 
todos é necessário repreendê-lo publicamente (quando o 
desafio também o foi; ainda podemos guerrear ao redor do 
mundo no pensamento, na oração). 
Outra coisa que me ilude é a questão do prazo. Posso 
libertar uma pessoa ou interditar um lugar para a vida to­
da? Existe limite? Só um mês ou um ano? Confesso que es­
tou em dúvida. Gostaria mesmo de receber subsídios dos 
irmãos a respeito. Por via das dúvidas procuro proteger 
minha família cada manhã ao acordar e cada noite ao dei­
tar. 
A coisa que mais me maltrata é a questão dos demô­
nios recalcitrantes. Suponho que todos já ouviram falar de 
casos onde alguém lutou durante horas para conseguir ex­
pulsar um demônio; finalmente sai, mas o obreiro está 
exausto, suou "em bicas". Recentemente tomei conheci­
mento dum caso onde a igreja toda lutou durante semanas 
tentando libertar uma moça possessa (o pastor garante que 
ela é convertida). Houve jejum, bastante; houve oração, 
muita; obreiros experientes de outras igrejas vieram aju­
dar, e nada! Pois é isso, meus irmãos! Que pensar diante 
desse quadro? Jesus ganhou ou não ganhou? 
Em vários lugares e de várias pessoas já ouvi uma so­
lução proposta para demônio recalcitante: é pedir fogo do 
céu para queimá-lo. Essas pessoas me disseram que com 
139 
isso o demônio sai gritando! Confesso que ao ouvir essa his­
tória pela primeira vez esbocei um sorriso; pensei que fosse 
sensacionalismo; mas, como é de meu costume, fui ao Tex­
to Sagrado para ver se porventura a idéia teria algum res­
paldo, Qual não foi a minha surpresa ao constatar que tal­
vez tenha. Perante Deus o Filho, aqui na terra os demônios 
demonstraram uma preocupação constante: "Viestes nos 
destruir?" (Mc 1.24), "Vieste aqui atormentar-nos antes 
de tempo?" (Mt 8.29). Eles bem sabem que vão parar no 
inferno (Mt 25.41), só não queriam chegar lá antes da ho­
ra! Pode ser que ameaçar demônio com fogo do céu faça 
com que ele vislumbre o Lago de Fogo e se amedronte, 
pode ser. Mas se é medo do Lago que está funcionando, en­
tão por que não apelar diretamente para o inferno. Um co­
lega meu teve experiência com um dos recalcitrantes e a 
certa altura pediu fogo do céu. O demônio gritou, mas dis­
se, "mesmo assim não vou sair". Quem sabe alguns fogem 
diante da ameaça de fogo para nos despistar e evitar que 
venhamos descobrir um recurso devastador, devastador 
para eles. 
Com todo respeito às opiniões em contrário, eu não 
aceito conversar com demônio; não aceito implorar que ele 
saia e nem aceito ficar horas a fio "lutando" com ele. Obe­
deço àsinstruções que Deus nos deu para tais casos, até 
onde entendo. Daí, se o demônio não obedecer devolvo o 
caso a Deus. Aí sim, se fiz tudo que me compete e ainda as­
sim o inimigo não obedece então o remédio é dar a obra 
para Deus fazer. Afinal, não é o meu nome, não é a minha 
honra que está em jogo, é da vitória e da autoridade de 
Cristo que o demônio está fazendo pouco caso. No entanto, 
ao passo que devolvo o caso a Deus ainda peço um favor: 
que Ele confine o demônio ou demônios imediatamente no 
Lago de Fogo ou então no "Tartaros" (ver 2 Pe 2.4) se o 
Lago não estiver aberto ainda, para que os demais apren­
dam a respeitar. Só tem um pequeno problema, não sei se 
funciona! Posso pedir, mas como saber se Deus o faz? Já 
encontrei com um pastor que afirma ter o ministério de 
mandar demônio para o Inferno. Que ministério abençoa­
do! Já pensou, se funcionasse? Aí sim, poderíamos dimi­
nuir as hostes que se nos opoêm. Quero que seja verdade, 
140 
mas confesso não saber como poderemos verificar se fun­
ciona ou não. Mesmo assim, por via das dúvidas, eu peço 
que Deus o faça (e já tentei fazer eu mesmo). 
Volto a bater na "tecla" da humildade. Deus é sobera­
no e não dá sua glória para outrem. Parece-me perfeita­
mente possível que Deus permita aos demônios recalcitra-
rem exatamente para nos ensinar alguma coisa, inclusive 
nos chamar à atenção por algum motivo (aliás, às vezes o 
próprio demônio se encarrega disso. Se existe algum peca­
do na vida do exorcista o demônio pode denunciar o fato 
perante todos os presentes, visando a humilhar a pessoa e 
fazê-la acovardar-se). É fácil alguém se exaltar neste terre­
no, se empolgar quando verifica que pode botar demônio 
para correr. Facilmente a pessoa começa a se introduzir no 
quadro, pensando que é ela que está operando. Com isso 
Deus se ofende e mais dias menos dia a pessoa vai 
"quebrar a cara". Um jovem obreiro se empolga porque 
"consegue "amarrar" demônio (o endemoninhado fica du­
ro), mas será que está resolvendo mesmo a situação? De­
mônio é esperto, todo cuidado é pouco. Creio ser muito im­
portante, necessário mesmo, manter uma postura de hu­
mildade perante Deus, não intrometer a nosso pessoa, pois 
assim Ele há de nos conduzir pela mão e nos mostar o que 
precisamos saber. Oh! Deus, ilumina-nos, por favor! 
Sei que existem subsídios que apontam para mais dois 
fatores, pelo menos: louvor e perdão. Pode ser que louvor a 
Deus faça diferença em algum caso recalcitrante - é ma­
neira de reafirmar nossa confiança nEle e mesmo quando 
diante de circunstâncias que nos deixam perplexos. Falta 
de perdão pode muito bem impedir a atuação de Deus. Se 
Ele condiciona o seu perdoar ao nosso (Mt 6.12 e 14.15), 
porque é um fator muito importante (ver também Jo 
42.10). 
Ao libertar alguém não convém deixar vácuo, Mateus 
12.43-45 explica o porquê. Embora seja perfeitamente 
possível expulsar demônio de uma pessoa incrédula, inclu­
sive sem estar presente e sem explicar, creio que devemos 
explicar a razão das coisas e tentar levar a pessoa a se en­
tregar a Jesus. Com isso adquire a possibilidade de se au-
todefender. Mas creio ser possível fazer mais do que isso. 
141 
Vejamos Mateus 18.18. "Em verdade vos digo que tudo o 
que amarrardes na terra terá sido amarrado no céu, e tudo 
o que soltardes na terra terá sido solto no céu". Desta vez é 
a "Atualizada" que está melhor; a "Corrigida" nos despis­
ta quando traduz "será ligado" e "será desligado" a tradu­
ção correta é "terá sido". Durante muitos anos eu não con­
seguia entender esse versículo. Não me entrava na cabeça, 
como se diz, que eu poderia fazer alguma coisa e depois di­
zer que já tinha sido feito antes no Céu, Não dava para en­
tender. Mas agora creio entender esse versículo. Ele tem a 
ver com a guerra espiritual. Quando amarramos Satanás 
por aqui, estamos fazendo uma coisa que já se fez no Céu. 
Se a primeira metade do versículo diz respeito ao afastar. 
de atuação maligna, então a segunda metade deve dizer 
respeito ao efeito contrário, ou seja introduzir uma atuação 
benéfica. Não diz Hebreus 1.14 que os anjos estão a nosso 
serviço, nós os herdeiros da salvação? Pois creio que o "sol­
tar" de Mateus 18.18 visa a reivindicarmos efeitos positi­
vos e ativos da vitória de Cristo, como por exemplo concla­
mar os anjos a atuarem na vida de quem acaba de ser li­
berto, predispondo a pessoa para abraçar o Evangelho. 
Agora gostaria que atentássemos para o versículo 19 
(Mt 18): "De novo em verdade vos digo que, se dois de vós 
concordarem na terra acerca de qualquer coisa que porven­
tura pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos 
céus". Esse "de novo em verdade vos digo" parece-me li­
gar de forma estreita este versículo ao versículo anterior, 
que começa com "em verdade vos digo". Se assim for, en­
tão este versículo também deve dizer respeito à guerra es­
piritual. Não vejo como duas pessoas concordando vão 
acrescentar qualquer coisa à vitória de Cristo para que 
possam reivindicar mais do que uma só. Mas não preciso 
entender; se a Palavra de Deus afirma então é isso mesmo. 
Então, quero propor uma pesquisa. Vamos ver se cada um 
acha pelo menos uma outra pessoa que aceite reunir pelo 
menos uma vez por semana, a fim de, juntos, conduzirem 
a guerra, em termos específicos. Pode ser que faça diferen­
te e pode ser que recebamos luz a mais. Mas cuidado com o 
revide; pode ficar sabendo desde já que o inimigo vai con­
tra-atacar. Não devia ser motivo de surpresa, mas tenho 
142 
observado pessoas serem pegas de surpresa. Aparentemen­
te imaginavam que o inimigo ia aceitar tudo passivamen­
te. Guerra é guerra! Acovardar-se não é opção válida. Va­
mos pois à luta, mas prevenidos e atentos. 
Conclusão. Resumindo, nossas armas de defesa são as 
melhores e perfeitamente adequadas (uma vez sabendo 
como manuseá-las) mas não convém ficarmos só numa 
postura defensiva, sempre na expectativa à espera da pró­
xima paulada, deixando assim a iniciativa com o inimigo. 
Vamos tomar a ofensiva, vamos atacar, vamos conduzir a 
guerra a nosso modo! 
Infelizmente existe a idéia em certos ambientes de 
que devemos ser passivos. Por sinal, há uma escola de mis-
siologia que fala em "confrontos de poder", dizendo respei­
to a situações no campo missionário onde o missionário é 
desafiado pelo inimigo de alguma forma e é obrigado a de­
monstrar que o poder de Deus é maior. Mas do jeito que 
eles apresentam a idéia é sempre o inimigo que provoca o 
confronto; o missionário não deve "comprar briga", deve 
limitar-se a se defender tão somente. É uma mentalidade 
de sítio. Mas as ordens de Cristo não admitem mentalida­
de de sítio. Se vamos levar o Evangelho pelo mundo intei­
ro, pregando a cada pessoa, fazendo discípulos em cada et­
nia, precisamos ter uma mentalidade bem diferente, uma 
mentalidade de conquista. Fatalmente temos de sair das 
quatro paredes e tomar a ofensiva. 
2 Coríntios 10.4 afirma que as nossas armas "não são 
carnais mas sim poderosas em Deus para destruir fortale­
zas". Isso implica numa ação ofensiva, em levar a batalha 
ao inimigo. Já comentei Salmo 78.9 e Jeremias 48.10. Nes­
te texto, quando diz "maldito aquele que retém a sua espa­
da do sangue!", parece-me claro que Deus está exigindo 
uma atuação ativa. Temos de levar nossas espadas em 
busca do inimigo (para acompanhar a figura). Vejamos 
pois como tomar a ofensiva. 
Tomando a Ofensiva 
Antes de mais nada precisamos ter certeza quanto à 
vitória que nosso chefe já ganhou e quanto ao poder, à 
autoridade que está à nossa disposição. 
143 
A Posição e Autoridade que Temos. A nossa posição 
e autoridade está descrita em Efésios 1.19-22 onde o após­
tolo está orando a nosso favor para que saibamos várias 
coisas, inclusive: 
19 - "...e qual a suprema grandeza do seu poder [de 
Deus] sobre nós, os que cremos, segundo a operação 
da força do seu poder 
20 - que ele manifestou em Cristo, ressuscitando-o 
dentre os mortos, até mesmo fazendo-o sentar à sua 
própria destra nos Céus, 
21 - acima detodo principado, e poder, e potestade, e 
domínio, e de todo nome que se nomeia, não só nesta' 
era mais também na vindoura. 
22 - Também ele colocou todas as coisas debaixo dos 
seus pés..." 
Quando lemos que Jesus agora está acima de todo 
principado, poder, autoridade, etc. (ver também 1 Pedro 
3.22) essa linguagem nos faz lembrar de lista semelhante 
em Efésios 6.12 que diz respeito à hierarquia dos demô­
nios, encabeçada por Satanás. É que Jesus efetivamente 
ganhou. Ele logrou êxito no propósito da encarnação con­
forme está dito em Hebreus 2.14. "Visto pois que os filhos 
têm participação cumum de carne e sangue, também ele 
igualmente participou das mesmas coisas, para que por 
sua morte destruísse aquele que tinha o poder da morte, 
isto é, o diabo." Jesus veio para destruir o Diabo e conse­
guiu. Aleluia! Vejamos também Colossenses2.15: "Desnu­
dando os principados e as potestades os expôs publicamen­
te à humilhação, triunfando deles na cruz". Satanás e suas 
hostes sofreram uma derrota completa. Em João 16.11 o 
Senhor Jesus disse que "o príncipe deste mundo já foi con­
denado". (Embora faltassem algumas horas para a sua 
morte, Jesus estava falando daquilo que o Consolador faria 
quando viesse - ver versículo 8 - e até o dia de Pentecoste 
Satanás efetivamente já tinha sido condenado.) É por isso 
que 1 João 4.4 afirma: "Maior é aquele que está em vós do 
que aquele que está no mundo". 
Voltando a Efésios vejamos agora 2.6: "ê juntamente 
com ele [Cristo [ nos ressuscitou e nos fez assentar nos lu­
gares celestiais em Cristo Jesus". Aí está, meu irmão. Se 
144 
você está em Cristo onde você está assentado agora? Nos 
"lugares celestiais"! Certo? Mas comparando este versícu­
lo com o 22 do capítulo anterior (1,22), se estamos em Cris­
to exatamente aonde estamos assentados? Pois então, 
onde está Cristo? À destra do Pai! Louvado seja Deus, que 
coisa maravilhosa! E se estamos à destra do Pai isso vale 
dizer que também estamos acima de todo principado, po­
der, potestade, e t c ! Eis aí a nossa posição e a nossa autori­
dade. Estamos diante duma verdade tremenda, maior que 
aquela verdade terrível dum inimigo que tem acesso a nos­
sas mentes. Em Cristo somos maiores que o inimigo! Dá 
até vontade de tripudiar um pouco, será que não? 
O inimigo foi derrotado, foi deposto, foi expulso da po­
sição de "príncipe deste mundo" (Jo 12.32). Porém, Deus, 
por seus próprios desígnios (que não nos tem revelado), 
permite que o inimigo continue agindo na base do blefe 
como se nada tivesse acontecido. Compete a nós "pagar 
para ver", apitar, chamar à atenção, impor a derrota ao 
inimigo. Ao resistir a ele estamos fazendo isso, em parte, 
mas podemos tomar a ofensiva e para tanto existem outras 
armas. 
Amarrar o inimigo. O ponto de partida aqui é Mar­
cos 3.27: "Ninguém pode roubar os bens do valente, en-
trando-lhe em casa, se primeiro não amarrar o valente; só 
então poderá saquear-lhe a casa." Este versículo já foi co­
mentado no início do capítulo. O Senhor Jesus declara que 
temos de "amarrar o valente". A "Corrigida" traduz "ma-
niatar" - há dois mil anos não existia algema (que eu sai­
ba), mas hoje em dia quase poderíamos traduzir "alge­
mar", ou seja, colocar fora de ação. Embora o verbo amar­
rar não esteja no imperativo, acaba tudo tendo o efeito de 
uma ordem. Se Ele manda pregar e fazer discípulos e se 
para tanto temos de amarrar o inimigo, como já expliquei, 
então vale por uma ordem. Como funciona esse "amar­
rar", em que consiste? 
No meu entender e na minha experiência, o amarrar 
consiste em assumir sua posição em Cristo, reivindicar a 
vitória e a autoridade dEle, e em tantas palavras proibir 
qualquer ingerência ou ação satânica ou demoníaca junto 
a determinada pessoa, ocasião ou lugar. Parece que temos 
145 
de ser específicos. Já tentei amarrar Satanás de uma vez 
por todas até o fim do mundo, mas não funcionou. Por 
quê? Bem, não sei, mas suponho ter sido o próprio Deus 
que não permitiu, pois se permitisse eu iria frustrar os 
desígnios pelos quais Ele deixa Satanás solto; para que o 
mundo acabe da maneira prevista na Bíblia é imprescindí­
vel a atuação de Satanás e dos demônios por aqui ainda. 
Temos de ser específicos, e aí funciona. 
0 Novo Testamento em língua Munduruku (etnia 
indígena do Pará) ficou "no prelo" em nossa gráfica duran­
te três anos. Aconteceu de tudo: máquina quebrava, fun­
cionário adoecia, o computador desobedeceu ao programa, 
a chapa novinha em folha ainda lacrada apresentou-se oxi­
dada ao ser aberto o pacote. Foi uma coisa. Finalmente es­
tava tudo praticamente pronto para colocar as chapas na 
impressora e imprimir. Eu estava para iniciar uma viagem 
de três semanas. Procurei o chefe da gráfica e expliquei 
que eu queria amarrar o inimigo para que nada mais acon­
tecesse para atrasar a impressão daquele Novo Testamen­
to. Ele concordou e reuniu as pessoas ligadas à gráfica. Ex­
pliquei as regras do jogo e passamos a proibir qualquer in­
gerência a mais no processo de imprimir o Novo Testa­
mento. Viajei. Ao voltar três semanas depois fui ter com o 
chefe da gráfica: "Que tal, como foi?" "Correu às mil ma­
ravilhas, o Novo Testamento está impresso." Louvado seja 
Deus! 
Como expliquei há pouco, considero que Mateus 18.18 
também diz respeito a esta "arma". Satanás já foi amarra­
do no Céu e compete a nós amarrá-lo por aqui. Sei que o 
contexto imediato anterior (v 15-17) trata de disciplina na 
igreja, mas eu indago: a quem mais interessa quando um 
irmão cai no pecado, não é ao inimigo? Observemos tam­
bém que o Texto prevê a hipótese de a pessoa persistir no 
pecado: não dá para ver o "dedo" de Satanás nesse quadro 
não? Aliás, diante de dois casos desse tipo a solução que o 
apóstolo Paulo achou foi "entregar a Satanás" esses impe-
nitentes (1 Co 5.5 e 1 Tm 1.20). Sei também que em certos 
ambientes utiliza-se esta passagem para impor costumes à 
igreja. Parece-me insustentável essa interpretação do nos­
so texto, pois se um pode "ligar" uma coisa assim um outro 
146 
pode levantar e "desligar" essa mesma coisa e dá em nada. 
Acontece também duas igrejas adotarem posição numa 
questão e cada uma insistir em que "ligou" a questão. Ora, 
certamente é gostoso impor nossa opinião aos outros mas 
será que vamos impor nossa opinião a Deus? Já sabemos 
que Deus "não é de confusão" (1 Co 14.33); como então im­
putar a Ele as confusões que inventamos por aqui? Como 
já disse, a única interpretação viável de Mateus 18.18 que 
tenho visto é a que associa o versículo à guerra espiritual. 
Creio que todos devem lembrar do "badernaço" que 
deu em Brasília quando da manifestação pública contra o 
Plano Cruzado II. Assim que o Governo verificou que seu 
partido tinha ganho uma vitória esmagadora no pleito de 
15/11/86, soltou um "pacote" - a revolta foi geral, o po­
vo sentiu-se traído. Pouco depois entidades trabalhistas 
decretaram uma "greve nacional" para um certo dia 
(12/12/86). A idéia era parar o país inteiro. Fiquei com re­
ceio de que o inimigo aproveitasse para incentivar violên­
cia e destruição pelo país todo pois parecia-me que o clima 
social, estava bastante propício. Propus a um grupo de ir­
mãos que orássemos especificamente proibindo qualquer 
ingerência maligna em todo o território nacional naquele 
dia, principalmente no que dizia respeito a violência ou a 
destruição. Oramos, amarrando Satanás e os demônios 
nesse sentido. Deu no que deu: não foi um dia surpreen­
dentemente tranqüilo? Agora, sei que não posso provar 
causa e efeito neste caso. Sei também que outros irmãos 
oraram naquele dia pedindo que Deus preservasse a nação. 
No entanto, creio que o amarrar funciona assim e propo­
nho aos irmãos que tentemos aplicar esta arma à solução 
dos problemas que assolam nosso país. 
Em primeira instância "amarrar o valente" em Mar­
cos 3.27 certamente diz respeito a Satanás, mas entendo 
que pode ter um sentido mais localizado, Já verificamos 
em Daniel 10 que demônios de alta patente "tomam con­
ta" de países de projeçãoe importância na terra. Parece-
me óbvio que é assim que Satanás controla o mundo. Ele 
não é onisciente e nem onipresente. Então, cada país, cada 
estado, cada cidade e vila terá um demônio responsável 
pela área - a patente do demônio deve condizer com a impor -
147 
tância do lugar. Ao palestrar sobre este assunto tenho su­
gerido que um missionário, ao chegar numa área onde ten-
ciona trabalhar, deve amarrar "o valente" daquele lugar, 
evitando assim muito sofrimento e dificuldade desnecessá­
rios. Alunas do Instituto Bíblico Betei Brasileiro (João Pes­
soa, PB) têm posto em prática esta proposta e me têm con­
firmado que funciona. Elas formam equipes e vão abrir 
trabalhos evangélicos em cidades e vilas do sertão, região 
árida num sentido espiritual também. Sempre encontra­
vam grande oposição: o sacerdote local dava ordem para 
ninguém alugar casa ou ter qualquer negócio com elas: não 
receber em casa, não dar ouvidos, etc. O trabalho costu­
mava ser bastante duro. Aí resolveram amarrar o valente 
do lugar para onde iam antes de chegar. Elas me contaram 
que foi bem diferente: o povo era mais aberto, havia quem 
colaborasse, havia aceitação do Evangelho num ritmo bem 
mais acelerado, enfim. Funcionou! Obrigado, Jesus! 
Vejam que diferença este procedimento produziria se 
o aplicássemos ao redor do mundo! Até aqui, de forma ge­
ral, temos enviado missionários para os povos do mundo 
sem pensar neste aspecto: nem os missionários, nem as 
juntas missionárias e nem as igrejas. Com isso tem aconte­
cido o seguinte: Quando o missionário pisa no solo do lugar 
onde quer trabalhar, lá está o inimigo em pé com as unhas 
para fora só esperando para dar o bote. Como o missionário 
não sabe se defender, costuma apanhar, às vezes severa­
mente, e em todo caso produz muito menos efeito do que 
poderia produzir. Temos de mudar esse quadro. Antes do 
missionário chegar sequer perto do campo, as igrejas e pes­
soas que o sustentam devem mandar artilharia pesada 
para lá, amassando o inimigo. E o próprio missionário tem 
de amarrar o valente do lugar antes de chegar, e estar aten­
to para resistir a ele a todo passo. Assim fazendo, certa­
mente encontrará menos dificuldades e logrará mais êxito. 
Tudo andará melhor ainda se as igrejas permanecerem 
atentas e conduzirem a guerra espiritual junto com o mis­
sionário, amarrando o inimigo mesmo de longe. 
Destruir Sofismas. Agora vamos a outro procedi­
mento ou "arma" de ofensiva, que encontramos em 2 
Coríntios 10.3-5. 
148 
03 - "...embora andando na carne, não guerreamos se-
gundo a carne, 
04 - porque as armas do nosso guerrear não são car­
nais, mas sim poderosas em Deus para destruir forta­
lezas; 
05 - destruindo sofismas e toda altivez que se levanta 
contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo 
pensamento à obediência de Cristo." 
A rigor, o conteúdo inteiro do versículo 5 explica o 
"destruir fortalezas" do versículo 4, mas quero chamar 
atenção para os "sofismas", pois as "fortalezas" que temos 
de destruir se fundamentam primordialmente nos sofis­
mas que Satanás tem confeccionado. Entendo que qual­
quer cosmovisão ou filosofia de vida que se opõe à cosmovi-
são da Bíblia é um desses sofismas. Gosto da definição que 
o Pequeno Dicionário dá ao termo: sofisma é "argumento 
falso intencionalmente feito para induzir outrem em erro". 
No caso são precisamente sistemas de pensamento que se 
levantam "contra o conhecimento de Deus". E quais são 
esses sofismas? São o islamismo, o marxismo, o hinduís-
mo, o humanismo, o espiritismo, o budismo, o materialis-
mo, o animismo, o xintoísmo, o confucionismo, entre ou­
tros. Será que não devemos avaliar com cuidado certos ou­
tros "ismos" também-protestantismo, catolicismo, deno-
minacionalismo, e t c , para ver se não despistam ou des­
viam as pessoas no que diz respeito ao "conhecimento de 
Deus"? 
O apóstolo afirma que "não guerreamos segundo a 
carne". Bem, não deveríamos não é? Mas quantas vezes 
lutamos é na base da carne mesmo! Será que não? É por 
isso que produzimos tão pouco efeito; é por isso que meta­
de do mundo continua perecendo sem ouvir de Cristo. O 
uso de armas carnais na guerra espiritual só produz efeito 
negativo, ajuda diretamente o iminigo. Para o nosso Deus, 
não somente o fim tem que ser digno, mas os meios tam­
bém. O argumento de que o fim justifica os meios é diabó­
lico. As armas do nosso guerrear têm de ser espirituais, 
pois só assim poderão ser poderosas e mesmo assim têm de 
ser "em Deus" (o inimigo também usa armas espirituais). 
Agora, as armas que Deus nos dá visam exatamente à des-
149 
truição de "fortalezas", e creio que podemos entender a 
natureza dessas fortalezas atentando para o versículo 5. 
Qualquer coisa que se levanta contra o conhecimento de 
Deus é uma "fortaleza", ou pelo menos faz parte de uma 
tal fortaleza. O alvo final do destruidor de fortalezas é que 
cada pensamento seja obediente a Cristo. 
Mas como funciona esse "destruir" de fortalezas? 
Confesso que não sei, ao certo. Ainda estou pesquisando o 
assunto. No entanto, vou tecer algumas idéias a respeito. 
Vamos pensar num "sofisma" que nos toca bem de perto, o 
espiritismo. Como podemos desmantelar esse sofisma e li­
bertar o nosso país dele? Bem, imagino que nosso procedi­
mento deva se ajustar àquilo que as pessoas têm como ver­
dade. Por exemplo, um macumbeiro convicto e consciente: 
ele lida conscientemente com demônios devido às demons­
trações de poder que eles dão. Zombar do macumbeiro, 
chamar de crendice e superstição os ritos dele, não vai 
atingi-lo; ele está às voltas com poder demoníaco e sabe 
que existe (como de fato existe). Exige-se um confronto de 
poder. Temos de provar ao macumbeiro que possuímos po­
der superior ao poder dos demônios; que podemos domá-
los e subjugá-los; que podemos libertar as pessoas do poder 
deles. Enquanto não provamos isso o resto é "papo fura­
do". 
Podemos libertar as pessoas de caso em caso e assim 
produziremos algum efeito, sem dúvida. Porém, estamos 
com pressa, Jesus vem aí! Proponho então o seguinte: va­
mos montar uma campanha para fechar todos os terreiros 
dentro do território nacional (para começar), de forma sis­
temática. Já disse que existem pessoas que têm fechado 
terreiro. Isso se faz literalmente interditando a área onde 
funciona o terreiro, isto é, proibindo na autoridade de Cris­
to qualquer manifestação demoníaca naquele lugar a par­
tir desse momento. Cessando as manifestações fatalmente 
o terreiro fecha por não haver mais porque reunir ali. Pre­
cisamos atalhar um protesto aqui; se fecharmos os terrei­
ros não estaremos violando a liberdade religiosa de nin­
guém; eles podem procurar os demônios o dia inteiro e a 
noite toda. Tudo bem, estamos "nem aí". Nossa bronca é 
150 
com os espíritos malignos; nosso caso é provar que Jesus é 
o maior; só isso. 
Agora vejamos o caso de um espírita que acha que está 
lidando com "mesa branca" e "anjo de luz". Acusá-lo de 
lidar com demônios não funciona, porque ele vai rechaçar 
essa afirmação e ainda desprezar nossa ignorância; quer 
dizer, ficamos mal colocados. Como convencê-los da ver­
dade? Novamente creio que o caminho mais curto é inves­
tir contra os espíritos, interditando os centros espíritas, a 
exemplo dos terreiros. Quando toda manifestação dos espí­
ritos cessar num determinado "centro" a coisa vai perder a 
"graça". Aí os freqüentadores vão querer entender o por­
quê. Aí podemos explicar que interditamos o lugar na au­
toridade de Cristo e o fato da cessação das manifestações 
seria uma prova presumível de que os "anjos" não eram 
exatamente de "luz"; em todo caso ficou provado que o po­
der de Jesus é maior. O resultado de uma campanha assim 
será a destruição desse sofisma; a força do sistema será 
abalada. 
No hinduísmo e no animismo as pessoas também es­
tão lidando com espíritos malignos e a abordagem mais 
eficiente da nossa parte será dar provas indisfarçáveis de 
que o poder de Cristo é maior. Entendo que o muçulmano 
também está às voltas com osdemônios, e sua religião não 
lhe dá solução. Então, em vez de jogar Jesus contra Mao-
mé ou a Bíblia contra o Alcorão, quem sabe produziria 
mais efeito chegar de mansinho e perguntar ao muçulma­
no: "Que tal os demônios hoje, hein?" Quer dizer, o negó­
cio é achar uma área da vida onde podemos mostrar de for­
ma clara e imediata que Jesus resolve onde Maomé e Alá 
não resolvem (para uma argumentação convincente de que 
Alá não é o Deus da Bíblia veja O Ocidente n a Encruzi­
lhada por Marius Baar - Núcleo-Queluz, 1981). Tratar 
caso por caso faz algum efeito, mas como desmantelarmos 
o sofisma, o sistema? Confesso que não sei, mas gostaria 
que pensássemos mais um pouquinho nas implicações de 
nosso texto. Quando fala em destruir "toda altivez" que se 
levanta contra o conhecimento de Deus e em "levar cativo 
todo pensamento" à obediência de Cristo, que é que deve­
mos entender? 
151 
Já que tudo faz parte do destruir de fortalezas são pro­
cedimentos que pertencem á ofensiva. Daí se vê que os 
"pensamentos" no caso têm de ser das pessoas que se 
opõem ao Evangelho. Somos obrigados a deduzir que é 
possível influir nos pensamentos de tais pessoas, alteran-
do-os a ponto de poder dizer que agora estão obedecendo a 
Cristo! Já pensou? Mesmo? Óh! louvado seja nosso Deus! 
Que arma tremenda! Se soubéssemos manusear esta arma 
tomaríamos o mundo de assalto! Ninguém mais segurava 
a Igreja! Mas, euforia de lado, será que sabemos como fun­
ciona esta arma? Como nunca ouvi alguém falar a respei­
to, e como nunca vi outrem fazê-lo, suponho que não. Eu 
mesmo estou apenas engatinhando nesta área, querendo 
aprender a andar. Mas soltemos as imaginações um pouco! 
Os primeiros problemas que um missionário enfrenta 
quando tenta ingressar num país estrangeiro são a nível de 
governo. Tem que conseguir visto, tem de explicar suas in­
tenções, tem de passar pela alfândega (o que nem sempre é 
fácil), nem sempre poderá transitar livremente dentro do 
país, etc. - E por que tantos problemas? - É devido à men­
talidade reinante no governo, por questões religiosas, ideo­
lógicas ou políticas, ou então devido à formação e ao pen­
samento particular da autoridade que está cuidando do ca­
so. E o porta-voz de Cristo, ele tem de se curvar diante do 
"inevitável"? ele tem de baixar a cabeça e voltar derrota­
do? Afirmo que não! São "altivezes" que temos de des­
truir; são pensamentos que têm de mudar, e nós é que te­
mos de impor essa mudança, com a autoridade de Cristo. 
Mas como funciona? Proponho o seguinte: devemos assu­
mir a nossa posição em Cristo à destra do Pai e reivindicar 
todo o poder e autoridade que essa posição representa ou 
confere; aí, em nome de Cristo, em tantas palavras deve­
mos exigir uma alteração no pensamento da autoridade ou 
do governo tal que as barreiras sejam removidas. Creio que 
podemos fazer isso em qualquer nível. Peço que os irmãos 
me comuniquem o que aprenderem neste terreno. 
Por falar em governos, não há porque não agir junto ao 
nosso. Num governo recente havia "xangô" na residência 
do Presidente e "mãe de santo" de plantão no Palácio; 
quer dizer, Satanás tinha acesso direto e privilegiado à cú-
152 
pula do nosso governo. E nós, devemos cruzar os braços 
diante de um quadro assim? Creio que não; podemos e de­
vemos fazer uso das nossas armas em prol da paz e do bem-
estar de nosso povo. Aliás, não é esse o teor de 1 Timóteo 
2.1-4? Somos exortados a interceder pelas autoridades 
para que possamos viver em paz; o versículo 3 esclarece 
que isto é bom e aceitável diante de Deus, ao passo que o 
versículo 4 liga esse quadro ao desejo de Deus de que todos 
os homens sejam salvos! Os problemas sociais e econômi­
cos que estamos vivendo solapam a nossa capacidade de 
exportar o Evangelho. Temos de dar um jeito nisso! Pode­
mos proibir toda e qualquer ingerência do inimigo junto ao 
Presidente e seus assessores, junto ao Congresso, etc. Mas 
não devemos ficar só nisso; podemos introduzir uma in­
fluência benéfica nos pensamentos dessas pessoas. Vamos 
lá? 
Impor a Autoridade de Cristo. Aqui convido a aten­
ção do leitor para duas passagens já comentadas, Mateus 
18.18 e 2 Coríntios 10.5. Essa fala de "amarrar" e "soltar" 
coisas que já o são no Céu. É o "soltar" que convida mais 
comentário agora. Já sugeri de leve que o soltar deve ser o 
contrário do amarrar, mas ambos os procedimentos depen­
dem ou decorrem da vitória de Cristo. Se o amarrar diz 
respeito a afastar uma atuação maligna então o soltar deve 
dizer respeito a introduzir um efeito benéfico ou positivo, 
do nosso ponto de vista, é claro. Creio que em determina­
das circunstâncias podemos impor a autoridade de Cristo 
a outras pessoas, aos animais, à natureza. 
Quando estava estudando em Toronto tomei conheci­
mento do seguinte caso. Uma senhora, irmã em Cristo, es­
tava a pé e tinha de passar debaixo dum viaduto que con­
duz doze vias, um viaduto bastante largo portanto. Tinha 
calçada para pedestre e alguma iluminação, mas não dei­
xava de ser lugar pouco convidativo. Ela estava pela meta­
de do viaduto quando foi abordada por dois marginais com 
o intuito aparente de assaltá-la. Ela falou em inglês, mas 
traduzindo ao pé da letra disse assim: "Eu tomo (ou então 
"reivindico") autoridade sobre vocês em nome de Jesus". 
Com isso os dois ficaram imobilizados e nossa irmã prosse­
guiu tranqüilamente. Ela ia se distanciando quando os ho-
153 
mens gritaram atrás dela: "Misericórdia, não nos deixe 
aqui deste jeito!" (estavam sem poder se mexer). Aí ela 
voltou para perto deles, explicou a razão das coisas e os li­
bertou. Não consigo lembrar se eles se converteram na 
hora ou não, mas certo é que não representavam mais ne­
nhum perigo para ela. Talvez eu esteja enganado, mas me 
parece que não deveria ser necessário termos medo de as­
salto, de cachorro bravo, de qualquer coisa que queira nos 
atacar, enfim. Exceção feita às dificuldades que o próprio 
Deus encomenda para o nosso exercício e crescimento, po­
demos nos valer da autoridade de Cristo (sempre em fun­
ção do reino de Deus e não do nosso egoísmo). 
0 Senhor Jesus fez coisa semelhante; está em Lucas 
4.28-30. Certo sábado estava ensinando na sinagoga de 
Nazaré; Ele foi pouco "diplomático" e os ouvintes ficaram 
enfurecidos. Pegando nele o arrastaram até o cume do 
monte "para de lá o precipitarem abaixo" (a cidade fica 
num lado do monte e no outro há alguns precipícios). Mas 
aí Jesus "passando pelo meio deles retirou-se". Agora, me 
digam por favor, como funcionou aquilo? Jesus estava cer­
cado por uma multidão enfurecida com alguns elementos 
inclusive segurando nele. Como conseguiu escapar? O Tex­
to não explica mas evidentemente Jesus deu um "jeito" 
qualquer naquele povo (ou ficaram cegos, ou paralisados, 
ou alguma coisa). Ele se valeu de poder sobrenatural para 
se livrar de um sofrimento, ou talvez uma morte, que não 
era de Deus. Em João 8.59 parece que Jesus se tornou in­
visível para se livrar dum apedrejamento. Em João 10.39 
livrou-se novamente, presumivelmente de forma sobrena­
tural. 
Agora voltemos a 2 Coríntios 10.5 novamente. Pense­
mos mais um pouco no "levar cativo todo pensamento à 
obediência de Cristo". Quando falei da "greve nacional" 
que sucedeu ao "badernaço" disse que amarramos qual­
quer ingerência maligna, mas deixei de explicar outra coi­
sa que fizemos. É que também assumimos autoridade, em 
Cristo, sobre os pensamentos das pessoas, todos os habi­
tantes do país, proibindo pensamentos de violência e con­
clamando pensamento de paz, respeito e tranqüilidade. 
Deu no que deu. Novamente não posso provar causa e efei-
154 
to, mas creio estarmos diante duma arma que representa 
um potencial tremendo. Creio ser o tipo da coisa que pode­
mos, e devemos, fazer junto a nosso Governo e junto aos 
Governos dos países para onde enviarmos missionários. E 
por que não agir contra a violência no Líbano, por exem­
plo, ou contra o ódio na África do Sul, e t c , e t c? Creio que 
com um pouco de "imaginação santificada" poderemosser 
guiados pelo Espírito Santo a tomarmos iniciativa em 
frentes diversas ao redor do mundo. 
"Coisas Maiores que Estas". Talvez algum irmão 
esteja se sentindo ura pouco atordoado pela audácia das 
minhas sugestões. Muito bem, reconheço ter proposto coi­
sas de fato inusitadas em nosso meio. Mas, meu amado ir­
mão, qual é a interpretação que você dá às palavras do Se­
nhor Jesus em João 14.12: "Em verdade, em verdade vos 
digo: aquele que crê em mim, as obras que eu faço também 
fará; até maiores que elas fará, porque eu vou para meu 
Pai."? Sinceramente, eu já achava difícil pensar em igua­
lar as obras de Jesus; superá-las então ficava fora de cogi­
tação. Mas aí está a declaração de Jesus: Ele não disse 
"talvez faça", disse "fará"; Ele não disse "uns poucos do­
tados", disse "aquele que crê". E agora, "José", como fi­
ca? Vamos crer, ou não vamos? Vamos fazer, ou não va­
mos? Entendo que é justamente a vitória de Cristo que tor­
na possível fazermos coisas "maiores". De certa forma Je­
sus teve de se reter, limitar-se, segurar-se enquanto não 
derrotasse Satanás na cruz e pela ressurreição, e enquanto 
não assumisse seu lugar à destra do Pai. Agora as regras do 
jogo são outras; aí está a vitória de Cristo esperando ser 
reivindicada e imposta por aqui. 
Embora disponhamos de televisão, computadores, sa­
télites, e t c , hoje em dia que torna possível fazermos coisas 
que não existiam no tempo de Jesus, parece-me que ape­
larmos para essas coisas (como interpretação do Texto) 
não satisfaz o intuito dele em João 14.12. Mesmo que al­
guém quisesse insistir nessa interpretação, ainda temos a 
incumbência de fazer as mesmas coisas que Ele fez, a sa­
ber, ressuscitar os mortos, curar os enfermos e libertar os 
demonizados, entre outras! Mas parece-me claro que 
quando Jesus disse "maiores que estas" Ele estava pen-
155 
sando no poder de Deus como a mola mestra, não a tecno­
logia moderna. 
Já disse, não sou dono da verdade; há muita coisa que 
não entendo; espero aprender com os irmãos. Dito e feito 
tudo é a Jesus que teremos que prestar contas pela mordo­
mia inteira que Ele nos coloca nas mãos. Apenas faço este 
apelo aos irmãos: prostremo-nos diante de Deus e de sua 
Palavra e pecamos sincera e humildemente a Deus que, 
pelo Espírito Santo nos oriente a respeito das coisas apre­
sentadas neste capítulo. Oh! Deus, seja feita a tua vonta­
de, seja glorificado o teu nome, venha o teu reino em nós e 
através de nós neste mundo! 
Desfazer as obras do Diabo. No apagar das luzes, 
gostaria de comentar mais um texto. Está em 1 João 3.8. 
"Para isto se manifestou o Filho de Deus: para desfazer as 
obras do diabo." Que devemos entender por "desfazer" as 
obras do diabo? Tenho para mim que tem de atingir as 
conseqüências dessas obras. Estamos diante de mais uma 
arma tremenda, arma capaz de desfazer os resultados, as 
conseqüências de ataques já desfechados contra nós. Pro­
vei na própria experiência da forma seguinte. 
Em novembro de 1984 estava em Teresina, Piauí, mi­
nistrando sobre as estratégias missionárias de Cristo. Uma 
noite, após falar da guerra espiritual, estava prestes a dei­
tar quando dei uma mordida feia na bochecha, quase tirei 
um pedaço, começou a escorrer sangue. É que durante vá­
rios meses vinha acontecendo uma coisa meio estranha co­
migo. Falando, mastigando ou mesmo à toa de repente 
dava um mal jeito no queixo, parecia que os músculos des­
governavam, e eu mordia a bochecha ou a língua. Quando 
abria uma ferida parecia que era sempre no mesmo lugar, 
de sorte que demorava a sarar. Parece uma pequena coisa, 
mas para quem andava palestrando muito acabava inco­
modando. Pois bem, até chegar em Teresina eu já estava 
ficando desconfiado de que se tratava de uma demoniza-
ção. E vinha meditando em 1 João 3.8 também. Assim 
que, quando dei aquela mordida na bochecha fiquei cha­
teado. "Encheu!" Passei a repreender a demonização, mas 
já era tarde; estava sangrando! Que fazer? Aí me lembrei 
do "desfazer as obras do diabo". Dito e feito, passei a rei-
156 
vindicar, em nome de Jesus, que as conseqüências do ata­
que fossem desfeitas. Para a glória de Jesus quero dizer 
que imediatamente o sangue estancou e a dor passou. Dor­
mi. Com a luz do novo dia fui ver no espelho o lugar da 
mordida: estava liso. Louvado seja Deus! 
Jesus fez coisa semelhante: está em Marcos 4.37-39 
(também Mt 8.24-26 e Lc 8.23,24). Foram atravessar o mar 
da Galiléia. Após um dia de ensinar e lidar com a multi­
dão, Jesus estava cansado e foi dormir na popa. Levantou-
se uma ventania violenta; as ondas chegaram a subir por 
cima do barco de maneira que já se enchia. Aí os discípu­
los, temendo a morte, o despertaram. Com isso Jesus le­
vantou-se e disse ao vento e ao mar, "Cala a boca, fica 
amordaçado!" E houve calmaria total. Pessoalmente não 
duvido ter sido aquela ventania trazida por Satanás. Os 
discípulos, pescadores profissionais, estavam cansados de 
ver temporais no mar; para meter medo neles precisava 
uma coisa fora de série. Fosse como fosse, Jesus operou um 
milagre duplo. Primeiro, fez o vento parar. No entanto, fi­
zesse só isso a água continuaria agitada por algum tempo. 
Efetivamente o que Jesus fez foi desfazer as conseqüên­
cias da ventania ao impor uma calmaria imediata. É isso 
ai! 
Não é preciso ser profeta para enxergar que esta arma 
nos permite vislumbrar efeitos maravilhosos. Nesta área 
também estou apenas engatinhando. Tem muita "terra" 
por ocupar, mas o potencial desta arma justifica bastante 
esforço para aprendermos como manuseá-la. Se conse­
guirmos reverter desgraças já encaminhadas, traumas 
emocionais e psicológicos devem ser curáveis desta manei­
ra, quantas vidas transformadas e quantos lares sanados 
não iremos ver! Novamente peço que os irmãos me comu­
niquem o que aprenderem neste terreno. 
Implicações Estratégicas 
Resumindo e concluindo a exposição desta estratégia 
vamos relembrar algumas implicações. O mundo verda­
deiro é o mundo espiritual (ver Rm 15.27; 1 Co 9.11; 2 Co 
4.18; Gl 6.6; Hb 9.8,9 e 22-24). Este mundo físico que tanto 
enche a nossa vista não passa de "sombra", de "figura do 
157 
verdadeiro". Portanto a guerra verdadeira se trava no âm­
bito espiritual. Precisamos aumentar a nossa sensibilidade 
para o espiritual, pois nossas igrejas estão cheias de "sol­
dados" feridos, sem o saber. 
Temos um inimigo terrível que nos odeia e nos ronda 
sempre. Os servos de Cristo são o alvo preferido; quanto 
mais útil você se tornar na mão de Deus mais assediado se­
rá pelo inimigo. Muitas vezes Satanás consegue fazer de 
nós utensílios para derrubar um colega e ainda pisoteá-lo 
para que não consiga levantar-se. Vêm à mente casos onde 
o irmão sofre ataques violentos e virulentos, sem freio, sem 
medida, sem nexo, totalmente desproporcionais ao delito 
que porventura tenha praticado, ataques desfechados por 
outros irmãos. Como pode? Às vezes transparece um espí­
rito de ódio; os outros procuram arrasar com o primeiro de 
sorte que nunca possa ser restabelecido. É obra de Satanás 
e devemos abrir os olhos para isso. Depois vêm as brigas 
acirradas acerca de minúcias doutrinárias, coisas que não 
levam a nada; no entanto resultam cismas nas igrejas, se­
paração permanente entre irmãos, estragos de diversos ti­
pos. Também é obra de Satanás, Olho vivo, minha gente! 
Mas temos armas adequadas, mesmo tremendas, tan­
to para defesa como para ofensiva. Temos de orientar o 
povo de Deus acerca destas coisas. Temos de nos tornar 
afoitos e peritos no manuseio das armas. Precisamos de 
obreiros que saibam conduzir a guerra espiritual, que sai­
bam impor a vitória de Cristo sobre Satanás e os demô­
nios. Se conseguirmos encher o mundo de tais obreiros po­
deremos terminar de alcançar o mundo, cumprindo a 
Grande Comissão de Cristo, dentro de poucos anos, relati­
vamente. Pois tais obreiros produzirão muito mais efeito 
do que os outros que não sabem como fazer. 
Precisamos igualmente de igrejas cheias de crentes 
que também saibam conduzir a guerra.Precisamos de ati­
radores de escoí, pessoas que saibam atingir um alvo es­
pecífico. Até aqui as orações do povo de Deus têm sido em 
termos mais gerais, como que mandando chumbo em dire­
ção geral do inimigo, que pode fazer com que ele se escon­
da momentaneamente mas que não produz baixas. Vere-
158 
mos muito mais efeito quando dermos tiros certeiros na ca­
beça do inimigo. 
Deixei por último uma verdade que me maltrata, que 
me dá raiva mesmo. É que junto a 3.000 nações étnicas nós 
é que estamos amarrados; junto a 3.000 etnias a vitória de 
Cristo pouco está valendo (ainda)! Dá para suportar isso, 
minha gente?! Pois não existe Evangelho ou testemunha 
de Cristo por lá e como resultado pouco adiantaria amar­
rar Satanás junto a tais povos. Sim, podemos amarrá-lo, 
mas resolveria o quê? Podemos minorar o sofrimento físico 
dum povo, talvez, mas a questão fundamental do destino e 
bem-estar espiritual desse povo não podemos solucionar 
enquanto o Evangelho não existir efetivamente dentro do 
seu alcance. É totalmente necessário termos obreiros junto 
a cada etnia! "Rogai pois ao Senhor da s e a r a " 
De todas as estratégias missionárias de Cristo apre­
sentadas até aqui a que ocupa este capítulo parece-me ser 
a mais importante. Se bem que bastaria o povo de Deus 
obedecer de verdade a qualquer uma delas que terminaría­
mos de alcançar o mundo dentro da nossa geração. Mas se 
todo crente aprendesse a conduzir a guerra espiritual nos 
termos aqui elaborados, arrasaríamos com Satanás. 
Transformaríamos nossas vidas, famílias, igrejas, a socie­
dade e quiçá o mundo! Que tal? Vamos lá? Vamos que va­
mos! Que Deus nos ajude! 
159 
7 
Seguir o exemplo de Jesus 
Para completar, vejamos as palavras do Senhor Jesus 
que encontramos em João 20.21, palavras endereçadas aos 
discípulos: "Disse-lhes pois Jesus outra vez: Paz seja con-
vosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio 
a vós." Como muitas vezes acontece, o "segredo" está nas 
pequenas palavras, no caso "assim como". "Assim como" 
o Pai me enviou, e como foi, como fez o Pai? Melhor, como 
fez o Filho ao ser enviado? Ele ficou em casa, para assim 
dizer? Deixou sua "casa", deixou sua "terra", veio parar 
por aqui. E que Ele fez por aqui? Encarnou, se fez gente, 
identificou-se conosco. "E o Verbo se fez carne e habitou 
entre nós" (Jo 1.14). Mais ainda do que o apóstolo Paulo, 
Jesus é o exemplo-mor daquilo que um missionário trans-
cultural deve ser e fazer. Ele que de mais longe veio; Ele 
que mais se humilhou. (Aliás, diga-se de passagem, quan­
do alguém escolhe uma carreira missionária para passar 
melhor do que passaria de outra sorte, da margem a dúvi­
da; qual seria a motivação verdadeira?) 
Como temos visto, as ordens e estratégias missioná­
rias de Cristo implicam em trabalho transcultural, neces-
161 
sariamente. As 3.000 etnias sem obreiro e os 2,5 bilhões de 
pessoas por ouvir representam precisamente um desafio 
transcultural; para que sejam alcançadas alguém terá de 
transpor uma barreira de língua e cultura. Ao enfrentar 
esse tipo de trabalho, devemos seguir o exemplo de Jesus, 
que nos fornece certas atitudes básicas. Todas as outras es­
tratégias que já comentamos atingem a todo o povo de 
Deus, e algumas talvez sejam mais importantes para os 
que ficam do que para os que vão aos campos, mas esta sé­
tima estratégia diz respeito primordialmente ao missioná­
rio. Se bem que, pensando com mais cuidado, pode ser que 
achemos aplicações bastante práticas também para os que 
não saem de sua cidade. Vejamos pois as atitudes básicas. 
Identificar-se 
O Verbo "se fez carne e habitou entre nós". Deus, o 
Filho, aceitou o corpo preparado (Hb 10.5), identificou-se 
efetivamente conosco. Pensando no tempo e no local es­
pecíficos, Jesus comeu o que o povo comia, falou a língua 
que eles falavam, andou como pobre em meio de pobres, 
enfim, vestiu a pele daquela gente. Temos também o 
exemplo do apóstolo Paulo. Ele declara seu procedimento 
em 1 Coríntios 9.20-22. 
20 - Tornei-me como que judeu para com os judeus, 
para ganhar judeus, sob lei para com os sob lei, para 
ganhar os sob lei, 
21 - s e m lei para com os sem lei (...) para ganhar os 
sem lei. 
22 - Tornei-me como que fraco para com os fracos, 
para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, 
para por todos os meios salvar alguns". 
Aí nos versículos 24 e 25 Paulo cita o exemplo de atle­
tas que se submetem a certas disciplinas para alcançar a 
meta. 
Fica claro que Paulo procurava identificar-se com o 
povo, com as pessoas, que ele estava querendo ganhar para 
Cristo. Na história das missões transculturais modernas 
tem havido muita falha nesta área. Muitas vezes o missio­
nário não tem sido sensível para com a cultura, e até mes­
mo a língua do povo que ele objetiva. Qualquer falha des-
162 
necessária (às vezes há aspectos da cultura que são objeti­
vamente pecaminosos, coisas que a Bíblia claramente con­
dena, e aí o porta-voz de Cristo não pode participar) dimi­
nui a eficiência do obreiro, pois atrasa a aceitação dele pelo 
povo o que fatalmente acarreta atraso na aceitação do 
Evangelho. Se o povo rejeitar o mensageiro, rejeitará a 
mensagem que ele leva também. O efeito estratégico desta 
atitude é de tanto alcance que merece mais atenção da 
nossa parte. 
Procurar "renascer". A maneira mais fácil de 
aprender a língua e a cultura dum povo é como criança, 
nascendo no meio deles. Sucede que nós não temos mais 
essa opção, temos de começar nossa carreira missionária já 
adultos. Contudo, creio que devemos colocar como meta 
como que "renascer" na língua e na cultura do povo objeti­
vado. Quer dizer, devemos nos esforçar conscientemente 
no sentido de dominar a língua e a cultura do povo, ver se 
um dia eles nem nos consideram mais como sendo "de fo­
ra". Para tanto será necessário abrir mão da nossa cultura, 
enquanto estivermos entre eles. Não seria questão de rejei­
tar a própria cultura, pois quando voltar para sua própria 
terra terá que "voltar" à cultura também. A gente se torna 
bilíngüe e bicultural, ou às vezes trilíngüe e tricultural-, e 
até mais. Mas enquanto no meio do outro povo devemos 
fazer por onde entender e assumir a cultura deles: é uma 
tática importante visando ganhá-los para Cristo. 
Muito bem, imaginemos que Deus dê à gente a incum­
bência de fazer discípulos entre um povo que até aqui nun­
ca ouviu de Cristo. E agora, como fazer? Por ser um povo 
que nunca foi estudado por pesquisadores de fora e por ser 
uma língua que nunca foi escrita, não existirá escola no 
mundo inteiro que ofereça um curso sobre essa língua ou 
cultura. O único "remédio" que há é se deslocar até lá e 
pedir licença para morar no meio deles. Quase sempre 
existe contato pacífico com pelo menos um povo vizinho, e 
mediante uma língua franca da região deve ser possível fa­
lar do seu desejo e receber permissão (nem sempre dada 
com entusiasmo). Tentar contato com um grupo arredio 
exige muita prudência e sabedoria, e a direção específica 
de Deus. 
163 
Viver numa aldeia indígena, por exemplo, é um outro 
mundo: comida diferente (às vezes bem diferente), "casa" 
de palha ou pau-a-pique, costumes diferentes e até cons­
trangedores, falta de higiene (pelo menos a nosso ver), e 
um idioma tão difícil e complexo que a gente facilmente 
perde a esperança de um dia poder comunicar o Evangelho 
a contento através dele. É uma "parada" dura, sem 
sombra de dúvida, mas o apóstolo tem de enfrentá-la. O 
próprio povo vai testar sua disposição de identificar-se 
com eles. Em nosso caso a esposa e eu fomos "obrigados" a 
comer a larva que se acha no tronco podre de uma certa 
palmeira (eles comem cru mas ainda permitiram que 
frigíssemos!). Disse "obrigados" entre aspas porque eles 
não teriam apelado para a força física (mas já houve caso 
onde a "prova" foi imposta a puiso), mas quais teriam sido 
as conseqüências de uma recusa nossa? Seríamos reprova­
dos, já que tratava-se duma prova. Teria sido uma derrota 
para nós, pois na melhor das hipóteses (poderiahaver rea­
ção víolenta) eles diriam: "Sendo assim, vocês ficam para 
lá e nós ficamos para cá!". Por mais que nos esforcemos, 
no início seremos estranhos e diferentes, mas interessas 
sobremaneira fazermos por onde diminuir a barreira cultu­
ral que nos separa do povo, diminuir e não aumentar. 
A chave que abre o coração dum povo é a sua língua 
materna. Apóstolo que se preze não descansará enquanto 
não dominar o idioma do povo objetivado. Enquanto não 
dominar continua sendo um elemento estranho, de fora. 
Pior ainda, um missionário que não domina a língua do 
povo condena o Evangelho também a ser sempre estranho, 
uma coisa de fora. Como pode? A língua do povo é a chave 
que abre o coração; ai do porta-voz de Cristo que não der o 
peso devido a este fator! 
Parece-me que a falha mais generalizada no compor­
tamento missionário é identificação a menos: por falta de 
preparo, orientação ou disposição o obreiro fica aquém da 
meta. Pode parecer uma contradição da minha parte, mas 
pode ser que alguém faça uma identificação muito seletiva 
que acabe sendo prejudicial: suponho que o prejuízo decor­
ra da falta de uma visão global exatamente porque a pes­
soa não se deu ao trabalho de aprender a língua e cultura 
164 
de forma abrangente. É fácil "sentir as dores" dum povo, 
se empolgar com problemas sociais, com questões políticas 
e econômicas, mas todo cuidado é pouco. 
Cuidado com Questões Políticas e Econômicas. 
Conseguir um domínio razoável duma língua e cultura 
(numa situação pioneira) costuma levar pelo menos dois 
anos, e olha lá. Diante da frustração de não ter condições 
de transmitir a Palavra de Deus durante esse tempo, é fá­
cil ver nos problemas de ordem política ou econômica uma 
válvula de escape, uma maneira de "ajudar" o povo. Mas 
aqui também sua ignorância quanto à cosmovisão do povo 
representa uma armadilha. E mais provável que acabe 
tentando impor "soluções" que devem sua "validade" à 
sua própria cosmovisão mas que não são sensíveis à deles ; 
é um tipo de imperialismo ou paternalismo. É necessário 
atentar também para o perigo de criar dependências. Às 
vezes a pessoa cai na aímadilha de forma "inocente", sem 
refletir nas implicações. Mas hoje em dia se propaga uma 
interpretação "social" do Evangelho, uma hermenêutica 
marxista que se impõe à Bíblia (quando não é ideologia 
marxista pura e simples), que ensina que é exatamente e 
de preferência na área social que o missionário deve con­
centrar seus esforços, fale ou não a língua, entenda ou não 
a cultura. 
Todo cuidado é pouco! Nosso ponto de vista deve ser 
teocêntrico e não antropocêntrico. Não cair na asneira de 
servir a interesses egoístas, e nem criar esperança falsa! 
Qualquer atividade nossa que parte de pressupostos hu­
manistas ou materialistas vai dar "com os burros nágua". 
Ihteresse egoísta é interesse egoísta, seja lá de quem for. O 
Evangelho de Cristo não existe para atender a nossos inte­
resses egoístas; existe sim para atender a glória de Deus. 
Vejamos a doutrina de Jesus. 
Primeiro vejamos as palavras dEle registradas em 
Mateus 5.38-41: 
38 - Ouvistes que foi dito: olho por olho e dente por 
dente. 
3 9 - E u , porém, vos digo que não resistais ao mal­
feitor; mas a qualquer que te bater na face direita, vol­
ta-lhe também a outra; 
165 
40 - e ao que quer litigar contigo e tirar-te a túnica, 
larga-lhe também a capa; 
41 - e se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, 
vai com ele duas. 
Já pensou? É uma doutrina um pouquinho difícil de 
se pôr em prática, será que não? Mas aí está. Convida co­
mentário maior o caso da segunda milha. No Império Ro­
mano, em qualquer país subjugado, um soldado romano 
podia obrigar um cidadão desse lugar a carregar seu bornal 
uma milha (os romanos colocavam marcos nas estradas de 
milha em milha). Ora vejam! Que situação mais injusta e 
humilhante! Coisa de conquistador e explorador! Por que 
Jesus não mandou cuspir na cara do soldado e lutar para li­
bertar a terra da opressão imperialista? 
Em Mateus 22.17-21, Jesus ensinou pagar tributo a 
César, César o conquistador. César o explorador, César o 
injusto. Em Lucas 12.14,15 alguém pediu que Jesus tomas­
se partido numa questão de interesse particular, e Ele ape­
nas aproveitou o ensejo para enunciar princípios fundamen­
tais capazes de transformar vidas e sociedades, mas esses 
princípios têm de ser abraçados de livre e espontânea von­
tade, não podem ser impostos a pulso. 
Agora vejamos Lucas 7.18-22. João Batista enviou ho­
mens para perguntar diretamente a Jesus se Ele era o Mes­
sias. Após presenciarem muitas curas Jesus disse (versícu­
lo 22): "Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes: os ce­
gos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os 
surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres 
anuncia-se o Evangelho. "Aos pobres anuncia-se o Evan­
gelho. Nada de distribuir espadas, de levantar contra o go­
verno, de gritar por uma distribuição mais eqüitativa dos 
bens materiais. Aos pobres anuncia-se o Evangelho. Ago­
ra, nesta mesma passagem Jesus demonstrou claramente 
sua compaixão perante o sofrimento físico das pessoas -
curou a todos os enfermos que o procurassem. Curar, sim; 
meter-se em encrenca política ou econômica, não. 
Obviamente não podemos dizer que Jesus não tinha 
fibra; sabia inclusive usar violência. Em João 2.14-17 Ele 
fez uso de violência física para "purificar" o templo. Pau­
lo, em Atos 13.6-11, foi "violento" no caso de Elimas. Po-
166 
deríamos dizer que Pedro foi "violento" com Ananias e Sa-
fira (At 5.1-10) e com Simão (At 8,18-24). Essas reações 
enérgicas da parte do Senhor Jesus e dos apóstolos sempre 
se deram em defesa de princípios espirituais, nunca ques­
tões econômicas ou políticas. Um princípio bíblico rele­
vante é que as autoridades são de Deus (por mais estranho 
que às vezes pareça) - ver Romanos 13.1,2 e 1 Pedro 2.13-
18, entre outras. Quem prega ódio e violência não é de 
Deus. Aliás, é impossível ser marxista e cristão ao mesmo 
tempo, são ideologias antagônicas (há vários anos encon­
trava-me no gabinete do Secretário de Missão da IECLB e 
ouvi-o dizer, cheio de prazer e satisfação, que estavam em­
penhados em bolar uma igreja que abrigasse harmoniosa­
mente ao mesmo tempo "cristão" e marxista. Olho vivo, 
minha gente!). 
Quero deixar bem claro que meus dizeres a respeito do 
envolvimento em questões políticas e econômicas se res­
tringem à atuação dum missionário no meio dum povo do 
qual ele não é nativo. Dentro da nossa própria sociedade 
podemos e devemos nos preocupar com a realidade econô­
mica e política, agindo de maneira responsável. 
Humilhar-se. Outra atitude básica exemplificada 
pelo Senhor Jesus está declarada em Filipenses 2.5-8. 
05 - Haja em vós a mesma atitude que houve também 
em Cristo Jesus, 
06 - que, embora subsistindo em forma de Deus, não 
intentou apegar-se ao ser igual a Deus, 
07 - mas esvaziou-se a si mesmo assumindo a forma 
de escravo, tornando-se em semelhança de homens; 
08 - e sendo achado em figura humana humilhou-se a 
si mesmo, tornando-se obediente até a morte, inclusi­
ve a morte de cruz! 
Humilhou-se a si mesmo! Quem não aceitar ser humilha­
do simplesmente não serve para missionário. Aliás, o 
egoísta, o orgulhoso, o soberbo pouco prestará em canto al­
gum, dentro do reino de Deus, pois a Bíblia é clara: "Deus 
resiste aos soberbos" (Tg 4.6 e 1 Pe 5.5). Ensoberbecer-se é 
maneira certa de fazer de Deus seu opositor e nenhum ser­
vo deve sequer pensar em fazer tal coisa. Mas no que diz 
respeito a trabalho transcultural nem é opção, pois o mis-
167 
sionário será humilhado, quer queira quer não, é várias ve­
zes ao dia. 
Quando fomos dar início ao nosso trabalho entre os 
Apurinãs, tanto a esposa como eu tínhamos curso de pós-
graduação. Alguém poderia imaginar que fomos à selva en­
sinar alguma coisa ao índio. Bem, talvez um dia, mas no 
início tínhamos de aprender com eles, pois na selva o mes­
tre é o índio - nossos graus pouco resolviam. Numa cultura 
reduzida, cada pessoatem seu papel, sua função, sua posi­
ção e é previsível que o povo procurará colocar a gente num 
"nicho" também. Quem levar assistência médica pode en­
trar no nicho de curandeiro; quem levar mercadorias pode 
ser visto como patrão, etc. Mas o primeiro papel que a gen­
te pega é de aprendiz, aprendiz de língua e cultura. E daí? 
É que aprendiz de língua e cultura é papel de criança! Ain­
da me lembro bem. Fazia pouco tempo que estávamos na 
aldeia quando alguém disse para mim: "Gilberto, que é 
que você tem? Nossas crianças com cinco anos de idade já 
estão falando nossa língua perfeitamente bem e você aí, 
grande desse jeito, não consegue falar. Qual é seu proble­
ma?!" Confesso que doeu um pouco, e isso aconteceu mais 
de uma vez. Minha esposa também sofreu: uma das mu­
lheres gostava de zombar de suas tentativas de falar; mas 
segurava no pé dela, não perdoava mesmo! Muitas vezes 
deixava a esposa angustiada, coitada, a ponto das outras 
mulheres ficarem revoltadas com a opressora. Não é fácil. 
Muitas vezes as pessoas pensam no índio (no caso) 
como sendo aquela figura exótica, esquisita, diferente, mas 
quero dizer que quando a gente primeiro chega por lá, nós 
é que somos diferentes, esquisitos e exóticos. È melhor que 
um circo! Há uma platéia constante a observar tudo que a 
gente faz, a observar e a comentar! Intercalam seus co­
mentários com risadas (quando não gargalhadas), e a gen­
te entendendo "patavina", quer dizer, sabemos que é a 
nosso respeito que estão rindo, mas não entendemos as pa­
lavras. Se o espaço permitisse, poderia colocar experiên­
cias várias, mas creio não ser necessário. Podem ter certeza 
que ignorância da língua e cultura imporá humilhações 
diárias ao missionário. Fora isso não faltarão também ou­
tras coisas a testar nossa humildade. É imprescindível ter-
168 
mos "a mesma atitude que houve também em Cristo Je­
sus". 
Limitar-se. Em Mateus 15.21-28 encontramos um re­
lato que me comove. Uma mulher cananéia clamou a Jesus 
pedindo libertação para a filha. Ele sequer respondeu. 
Como ela não parou de clamar, os discípulos pediram uma 
providência. Aí Jesus disse: "Eu não fui enviado senão às 
ovelhas perdidas da casa de Israel" (v 24). Com isso dá-se 
uma conversa entre a mulher e Jesus onde ela dá um 
exemplo de humildade e fé quase sem igual nas Escrituras, 
e ganhou sua "migalha". Mas interessa no momento é a 
declaração do Senhor Jesus que está no versículo 24. No 
seu ministério terreno Ele se limitou, concentrou-se no es­
forço de alcançar um só povo. Ele deixou cair umas poucas 
"migalhas" para os outros mas não chegou a interromper 
sua atuação junto ao povo de Israel. Na cruz é que Ele ia 
"atrair todos" (Jo 12.32), mas pouco antes de dizer isso 
aparentemente negou-se a receber uns gregos (Jo 12.20-
23), embora estivesse a poucos dias dessa cruz. 
Missionário transcultural precisa saber se limitar, 
mormente se for trabalho pioneiro. Será duro e demorado 
mesmo se concentrar seu esforço para alcançar um só po­
vo. Se fracíonar ou diluir seu esforço dificilmente consegui­
rá ganhar o povo objetivado. Tem havido caso de brasileiro 
intentar alcançar uma tribo indígena do país onde por fal­
ta de preparo e orientação adequados não suportou a frus­
tração de passar meses a fio sem poder evangelizar (não 
dominando a língua); aí foi evangelizar os civilizados que 
moravam na região e agora tem igreja entre eles mas entre 
os índios ainda não. Por isso também, a meu ver, trabalho 
pioneiro entre povos não-alcançados não poderá ser reali­
zado por "fazedores de tendas", i.é, pessoas que vão a ou­
tro país para exercer uma função profissional: O ofício 
apostólico exige esforço integral. 
É questão de propósito e incumbência. Se Jesus me 
manda fazer discípulos entre uma etnia então é essa a mi­
nha incumbência. Sucede que lidar com um povo minori­
tário sempre implica em enfrentar um terreno minado. 
Sempre os povos minoritários são explorados pelos majori­
tários. Sempre existem preconceitos de raça, de religião, 
169 
de cultura, de qualquer coisa - sempre! Sempre existem 
choques de interesses, interesses comerciais, políticos, pes­
soais, etc. Lidar com povo minoritário é sempre um terreno 
minado. A aldeia onde fomos morar ficava a uma hora, sel­
va adentro, duma vila {hoje sede de município) à beira do 
rio Purus. Quando escolhemos morar na aldeia o pessoal 
da vila tomou como insulto, não gostaram nem um pou­
quinho (pois nossa presença iria valorizar e proteger um 
povo que eles vinham deprezando e explorando). Mas a 
nossa incumbência era alcançar a aldeia e não a vila, mes­
mo porque já existia igreja evangélica na vila (com a qual 
não deixamos de colaborar), Se tivéssemos escolhido ficar 
na vila seria interpretado pelos índios como uma identifi­
cação com os exploradores, com os perpetradores de toda 
sorte de desgraça, e com isso iríamos criar uma barreira 
psicológica que nos atrapalharia durante bastante tempo. 
Mesmo contra o nosso gosto, às vezes somos obrigados a 
"tomar partido", obrigados pelo terreno estragado que 
existe e pelo próprio povo que queremos atingir. E questão 
de propósito e incumbência. 
Cabe aqui mais uma observação. Exatamente devido 
a esses terrenos estragados, muitas vezes um estrangeiro 
terá melhor aceitação do que um cidadão do país, junto a 
uma etnia minoritária, precisamente porque não está im­
plicado nos atritos da região. Em muitas áreas do mundo 
povos vizinhos vêm se digladiando há séculos e existem ó-
dios e rancores que só Deus pode sanar - num contexto as­
sim uma pessoa obviamente "de fora" pode encontrar 
mais facilidade do que uma outra que poderia ser "dos ini­
migos". Para complicar, o clima político a nível nacional 
costuma ser o contrário - o estrangeiro pode ser melhor 
aceito a nível tribal mas encontra rejeição a nível nacional, 
às vezes. Não tenho solução a propor, a não ser o uso das 
nossas armas espirituais; no momento só quero alertar 
para a problemática. Devemos andar prevenidos, e dispos­
tos a aceitar limitações. 
Rejeitar. Para sustentar esta atitude não tenho uma 
passagem bíblica a citar. No entanto é uma coisa óbvia 
que está implícita no identificar-se. Precisamos entender 
que cultura é necessária. Na sua essência cultura é o con-
170 
junto das normas de trato e procedimento que uma comu­
nidade adota. Só não precisa de cultura quem estiver sozi­
nho num deserto ou numa ilha perdida no oceano. Nenhu­
ma cultura é totalmetne boa, e nem totalmente má. O uso 
da expressão "cultura paga" pode levar as pessoas a imagi­
nar que uma tal cultura seja totalmente imprestável, o que 
não é o caso. Se comemos com garfo, colher, pauzinhos ou 
dedos, nada tem a ver com moral; se dormimos em cama, 
rede ou chão, idem. Muitas coisas nas culturas são neu­
tras, moralmente falando; apenas são costume. No mo­
mento que duas ou mais pessoas querem viver pacifica­
mente numa área, tem de existir cultura. 
Missionário transcultural precisa saber respeitar a 
cultura do povo objetivado. Não deve chegar querendo im­
por mudanças. O Evangelho não se impõe. O própprio 
Deus não quer saber de culto fingido, de "obediência" for­
çada (pelo menos nesta era da graça) - Ele quer culto sin­
cero, obediência que brota do coração. Quando logramos 
impor alguma mudança a um povo, mas que eles não en­
tendem ou que não representa convicção deles, além de 
criarmos hipócritas é arriscado criarmos um vácuo na cul­
tura. Quando o povo larga uma prática por imposição nos­
sa o propósito ou a função dessa prática cai no vazio, com 
conseqüências quase sempre negativas. 
Em todo caso, se achar que tem de mexer numa práti­
ca, por favor, procure saber a razão primeiro. É quase ine­
vitável que o missionário vai ver práticas que ele acha ab­
surdas, imorais, horrendas, até criminosas. Que fazer? 
Procure saber a razão! Vamos dar apenas um exemplo. 
Em muitas culturas indígenas do Brasil, e de outros países 
também, quando uma mulher dá à luz quem faz "resguar­
do" é o pai! Ele cai no fundo da rede e láfica, uma semana 
ou duas. Já a mulher tem de levantar e trabalhar como de 
costume. Imagino que você possa achar isso um absurdo, 
talvez chegue a se revoltar até. Suponhamos que você re­
solva "moralizar" essa situação; avança em cima do ho­
mem, chama de tudo quanto é nome, tanto fala e tanto faz 
que ele acaba levantando e indo trabalhar. Bom, acontece 
que teria sido interessante saber o porquê desse procedi­
mento. É que eles crêem que de uma maneira misteriosa, 
171 
nos primeiros dias de vida dum filho, quaisquer energias 
que o pai consegue poupar são transferidas para o fílhinho, 
garantindo assim a saúde e o bem-estar da criança. Se vo­
cê acredita ou não é fator irrelevante. É assim que eles 
crêem e é por isso que o homem age dessa forma. Pois bem, 
vejamos agora as seqüelas de sua interferência: se por infe­
licidade a criança adoecer, o pai será responsabilizado (ele 
privou seu filho das forças necessárias para enfrentar a vi­
da), e se por desgraça maior a criança vier a morrer, aí ele é 
tido por assassino. Tem mais uma: quando um homem faz 
resguardo ssim ele está reconhecendo a legitimidade do fi­
lho; se não fizer, é como que dizer para a comunidade: "Sei 
lá onde ela arrumou mas não foi comigo!". Os reflexos so­
ciais são sérios e vão longe. 
Irmãos, é melhor não mexer; é melhor deixar por con­
ta do Espírito Santo. Vamos nos esforçar para fornecer a 
Palavra de Deus o quanto antes para que eles possam se 
converter e chegar a ser verdadeiros discípulos de Jesus. Aí 
eles também terão o Espírito Santo na vida e Ele se encar­
regará de cobrar as mudanças necessárias. Quando proce­
demos dessa forma, acontece o seguinte: Ele deixa em paz 
algumas coisas que nós queríamos mudar e altera outras 
que nem nos incomodaram. Com isso cada cultura retrata 
a graça de Deus de forma um pouquinho diferente, que 
nem as facetas dum brilhante. 
Infelizmente, na história missionária têm havido ca­
sos onde missionário provocou estrago na cultura do povo 
(cabe observar de passagem que certos tipos que mais gos­
tam de criticar os missionários costumam eles mesmos 
provocar estragos maiores e piores quando lidam com po­
vos indígenas). Missionário pode provocar algum estrago, 
tem acontecido, mas ele não destrói culturas, como às ve­
zes é acusado. É importante fazermos uma distinção entre 
missionário e Evangelho. O Evangelho não destrói cultura, 
e nem mesmo danifica; o Evangelho aperfeiçoa a cultura, 
qualquer uma, inclusive a nossa. Um missionário even­
tualmente pode fazer algum mal, mas o Evangelho só faz 
bem. Precisamos urgentemente criar consciência e sensibi­
lidade no sentido de distinguir e separar entre o que é Pa­
lavra de Deus e a nossa própria cultura religiosa. Muita 
172 
coisa que pregamos e ensinamos tem base bíblica escassa, 
quando não inexistente. Vamos pregar o Evangelho, meus 
irmãos, e não nossa cultura religiosa! 
Devemos comentar mais uma coisa aqui. Temos de 
respeitar a cultura do povo objetivado, mas ao mesmo 
tempo temos de confrontar o reino das trevas. Devemos 
nos identificar com o povo, exceção feita a práticas que a 
Bíblia condena. Já que o missionário está lá precisamente, 
a fim de oferecer uma cosmo visão diferente, não deve com­
prometer essa cosmovisão. O culto aos espíritos malignos é 
ingrediente central de muitas culturas. Precisamos de dis­
cernimento espiritual para separarmos coisas "neutras" de 
coisas diretamente relacionadas com os espíritos. Nem 
sempre é fácil distinguir. Tenho citado Hebreus 2.14 várias 
vezes, mas o período inclui o versículo 15 também, que 
traz uma verdade triste mas de grande importância para 
nós. Em todas as culturas dos homens o medo da morte es­
craviza as pessoas. Muitas práticas se prendem ao intuito 
de afastar a morte. É impressionante ver quantas vezes 
tais práticas resultam em morte (lembrar que um dos pas­
satempos de Satanás é levar as pessoas à morte). Por 
exemplo, muito derramamento de sangue resulta da sus­
peita de feitiço; mata-se o "responsável" para evitar que 
ele mate. Poderíamos encher a página de exemplos. Não 
posso oferecer uma fórmula mágica para dirimir as dúvi­
das. Novamente tenho de me contentar em alertar para a 
problemática. Pecamos a Deus discernimento e respeito! 
Preparar-se 
O Senhor Jesus passou trinta anos preparando-se para 
três anos de ministério público. Trabalho transcultural pio­
neiro é pelo menos dez vezes mais difícil e demorado que 
evangelismo comum (i.é., na sua própria língua e cultura). 
É isso mesmo, dez vezes mais, e estou sendo moderado. 
Além do mais, mesmo com o melhor preparo e a melhor 
orientação disponível o obreiro que enfrentar uma situação 
transcultural fatalmente sofrerá "choque cultural". Cho­
que cultural é um mal-estar emocional e psicológico que 
resulta quando alguém mergulha numa língua e cultura 
estranha, desconhecida. Nosso equilíbrio psicológico de-
173 
pende muito do conhecido, da rotina, do previsível: ao nos 
encontrarmos numa situação onde é tudo estranho, onde 
não entendemos nada, onde não conhecemos as regras de 
comportamento ficamos desnorteados, ficamos "doentes". 
Sempre recomendo ao novel missionário que não fique 
mais que três meses na primeira estada na aldeia (no ca­
so). Deve sair para um contexto mais conhecido e reaver o 
equilíbrio psicológico. O obreiro tem de estar avisado para 
não ficar desesperado imaginando que esteja perdendo a 
sanidade. Cada vez que volta à aldeia sente menos choque. 
Por tudo isso declaro e insisto em que, para trabalho 
transcultural, o obreiro precisa receber preparo especial e 
específico. Mandar um missionário para outra terra sem 
tal preparo é um ato irresponsável, é um crime, pois o coi­
tado vai sofrer desnecessariamente e será muito menos efi­
ciente e produtivo do que poderia ser; e o risco de fracasso 
é bem maior. Um bacharelado em teologia não resolve. 
Preparo bíblico ou teológico é necessário, mas não é o sufi­
ciente. Ê preciso receber as ferramentas técnicas para en­
frentar outras línguas e culturas, inclusive partindo da es­
taca zero se necessário. No momento o melhor curso desse 
tipo que existe no Brasil é oferecido em Brasília pela Mis­
são ALÉM. 
Sei que alguém vai pensar na volta de Cristo e a pro­
vável escassez de tempo. Se Jesus vem aí até onde deve­
mos "perder" tempo com preparo? Baseado em tudo que 
sei acerca do assunto eu quase diria que todo preparo é 
pouco, mas obviamente se não sobra tempo para trabalhar 
o preparo perde a razão de ser; temos de achar um meio 
termo. Imaginemos que de alguma maneira Deus nos desse 
uma revelação segura dizendo que Jesus voltaria daqui a 
cinco anos. Assim ficaríamos sabendo que tínhamos só cin­
co anos para terminar de fazer o que ainda resta para fa­
zer. Digamos que haja dois jovens com idade, preparo 
bíblico (três anos de seminário), disposição e capacidade 
nativa mais ou menos iguais. Todos os dois sentem que de­
vem tentar alcançar uma das etnias não-alcançadas. Um 
diz: "Puxa vida, Jesus vem aí; só temos cinco anos; não 
posso perder mais um minuto com preparo; lá vou eu!", e 
se manda. Já o outro diz: "Puxa vida, Jesus vem aí; mas 
174 
não tenho condições de enfrentar um trabalho pioneiro; 
vou pegar as ferramentas primeiro." O segundo passa dois 
anos pegando preparo específico. Pois nos três anos que 
restam ele faz mais efeito que o primeiro faz em cinco. O 
primeiro fica lá se batendo sem saber como fazer. Se o pra­
zo for maior a vantagem do segundo aparece cada vez 
mais. Sem um nível mínimo de preparo específico quase 
não adianta seguir para o campo. 
Implicações 
Temos de criar uma nova mentalidade nos meios 
evangélicos, mentalidade que reconhece a realidade de 
trabalho transcultural. Às vezes não estamos acostumados 
com trabalho demorado e oneroso. Se um pastor resolve 
abrir um ponto de pregação para ver se surge uma congre­
gação, o que ele faz? Escolhe um jovem, talvez um semina­
rista, para liderar a equipe e tocar o trabalho. Dentro de 
poucas semanas o pastor já quer ouvirde resultados: "Gra­
ças a Deus houve três conversões hoje; já ganhamos cinco 
almas," etc. Certo? Se passa dois meses sem resultado 
aparente o que acontece? O pastor tira aquele e coloca ou­
tro, será que não? Se a mesma igreja enviar um jovem para 
um trabalho transcultural, e se ele escrever uma carta após 
um mês, essa carta não vai cantar as almas ganhas, não; 
vai versar mais ou menos assim: "Graças a Deus ainda es­
tou com vida; escapei até aqui! Já consegui aprender cem 
palavras," etc. É um outro mundo. 
Creio que um médico cirurgião pode entender o negó­
cio. Sacar o apêndice de alguém é uma operação simples 
(se não supurou) que custa relativamente pouco. Já um 
transplante de coração é uma operação bastante comple­
xa, delicada e cara e exige muito mais preparo e capacida­
de da parte do médico. Creio que um engenheiro civil tam­
bém pode entender. Construir uma casa é uma coisa; er­
guer um prédio de vinte andares é outra coisa: o tempo, a 
perícia, o material não se comparam! Quero dizer que tra­
balho transcultural pioneiro é como o prédio ou o trans­
plante; é mais demorado e custa bem mais caro que evan-
gelismo por aqui, e exige mais preparo. Se vamos levar a 
sério as ordens de Cristo temos de assumir essa realidade. 
175 
Quero contar a história dos colegas que trabalham 
com a tribo Lacandon no Sul do México. Deram início á 
obra por volta do ano 1940, creio, e os anos foram passan­
do. Passaram cinco anos de esforço e luta, e nada - ne­
nhum índio se converteu! Agora eu pergunto, quem agüen­
taria dar duro por cinco anos sem ver resultado? E qual a 
igreja que agüentaria mandar dinheiro mensalmente du­
rante cinco anos sem ouvir de resultado? Mas eles agüen­
taram e os mantenedores também, e lá se foram mais cinco 
anos, e nada - nenhum índio se converteu! Como pode? 
Quem agüenta uma coisa dessas? Sabe lá como, eles 
agüentaram, e os mantenedores também; e lá se foram 
mais cinco anos, e nada! Nada mesmo, nenhum índio se 
converteu! Já imaginou? Como agüentar uma coisa des­
sas? Por incrível que pareça, "seguraram a barra", e os 
mantenedores também! Se a memória não me falha, no 
décimo sexto ano o Espírito Santo varreu por lá e grande 
parte da tribo converteu-se quase de uma só vez, no déci­
mo sexto ano! E se eles tivessem desistido após dez anos, 
alguém criticaria? Graças a Deus não desistiram, e a safra 
veio! É claro que esse caso foi um exemplo fora de série; fe­
lizmente não costuma ser tão demorado assim, mas pode 
ser e precisamos estar preparados para pagar o preço. 
Como disse no começo do capítulo, esta estratégia se 
aplica primordialmente a trabalho transcultural, mas não 
exclusivamente. Quem for da classe média e quiser alcan­
çar uma favela vai enfrentar tudo que apresentei aqui, só 
que era grau menor. Há outras sub culturas: os roqueiros, os 
toxicômanos, as prostitutas, etc. Essas exigem uma abor­
dagem específica. Depois vêm os descendentes das diver­
sas colônias - a mentalidade alemã difere da italiana, e da 
japonesa, e da libanesa e assim por diante - cada grupo re­
quer uma abordagem específica. Além de tudo isso, todo 
mundo deve estar por dentro desta estratégia pelo seguin­
te. Os que não farão trabalho transcultural pessoalmente 
precisam entender o que os outros enfrentam, para poder 
orar inteligentemente, compreender, encorajar, incenti­
var, sustentar, conscientizar, enfim. Todo mundo deve 
participar ativamente, de alguma forma, no cumprir da 
Grande Comissão. 
176 
Conclusão 
Aí estão sete estratégias missionárias de Cristo. Po­
dem existir outras, tranqüilamente, mas são estas que 
Deus me impulsionou a comentar. O enfoque do livro é ni­
tidamente transcultural, reconheço, mas não peço descul­
pas por isso pois as ordens de Jesus e o coração de Deus 
abrangem o mundo. Se tudo estivesse correndo às mil ma­
ravilhas, se estivéssemos acertando o plano de Deus em 
cheio, não haveria porque escrever um livro; bastaria con­
tinuar continuando. Como nossa omissão maior diz respei­
to aos confins da terra, às etnias perdidas do mundo, como 
é esse aspecto das ordens de Jesus que mais temos despre­
zado, foi exatamente esse lado que enfatizei. Contudo, será 
que estas estratégias não têm implicações e aplicações di­
retas para as nossas igrejas, para a vida cotidiana, para o 
ministério e o evangelismo locais? Parece-me óbvio que 
sim. Torno a dizer que estas verdades têm o potencial e a 
capacidade de transformar as vidas, os lares, as igrejas, a 
sociedade, quiçá o mundo! 
Concluí a INTRODUÇÃO com este dizer: "se de for­
ma geral, a partir de agora, o nosso povo evangélico acertar 
177 
e seguir a estratégia missionária de Cristo, poderemos ter­
minar de alcançar o mundo dentro de 15 anos. Senão, veja­
mos." O resto do livro prendeu-se à tentativa de "ver". 
Agora a palavra está com o leitor. Consegui vindicar e vali­
dar a tese? Que tal? O irmão acha que podemos "terminar 
de alcançar o mundo dentro de 15 anos"? Se "não", por 
que não? As ordens de Cristo não têm o impacto estratégi­
co que apresentei? As estratégias não terão o alcance e o 
efeito que afirmei? Onde está o problema - não está em 
nós? Vamos rever a estratégia. 
1) Rogar ao Senhor da seara por obreiros, sendo coe­
rente. 2) Pregar o Evangelho a cada pessoa, pois não há 
inocente. 3) Alcançar, simultaneamente, a nossa Jerusa­
lém, a nossa Judéia e Samaria, e os confins da terra. 4) Fa­
zer discípulos, não meramente convertidos. 5) Viver em 
função do Reino de Deus, não para si. 6) Libertar as pes­
soas do poder de Satanás. 7) Seguir o exemplo de Jesus. 
Sinceramente, se de forma geral assumíssemos apenas 
uma parte, qualquer parte dessa estratégia bastaria, nin­
guém mais seguraria a Igreja. Mas se assumirmos duas, 
três ou todas as partes (por que não todas?), aí seguramen­
te poderíamos terminar de alcançar o mundo dentro de 15 
anos. Aliás, por que não terminar até o ano 2.000?! Já pen­
sou? Que lindo presente para o nosso Noivo! Vamos lá? 
Vamos que vamos! Vale a pena, meus irmãos! Vale a pe­
na! 
Vale a pena deixar de lado o nosso egoísmo, a nossa 
mesquinhez, o nosso bairrismo, o nosso etnocentrismo, as 
nossas ambições meramente pessoais, o nosso denomina-
cionalismo, enfim a nossa pequenez espiritual - coisas to­
das que Satanás aproveita para neutralizar nosso poten­
cial. Vale a pena deixarmos essas coisas de lado e somar­
mos as forças em torno do objetivo comum. Aprendamos 
com os outros. O tempo está pouco; não podemos mais nos 
dar ao "luxo" de aprendermos tudo por conta própria, re­
petindo os mesmos erros que nossos antecessores comete­
ram. Tenho lido subsídios importantíssimos oriundos da 
obra na América Central; entre eles quero comentar a se­
guinte análise da história missionária. Distinguem-se três 
fases no relacionamento entre os missionários estrangeiros 
178 
e a liderança nacional que surgia como fruto do esforço 
missionário, Na primeira fase predomina o paternalismo: 
os missionários tendem a desprezar a opinião dos irmãos 
naturais do lugar, impondo suas próprias idéias e a cultura 
religiosa de seus países de origem. Na segunda fase vem a 
reação nacionalista; a liderança nacional dá o troco, rejei­
tando as idéias (e às vezes a participação) dos missionários 
estrangeiros. Na terceira fase alcança-se um nível de ma­
turidade espiritual e emocional que permite trabalharem 
juntos num clima de respeito mútuo, cada um contribuin­
do com o que melhor pode. É natural que vítima de ação 
paternalista queira revidar, e talvez seja até necessário 
diante dum paternalista intransigente, mas temos de 
achar um jeito de alcançar a terceira fase sem demora. O 
desafio que temos pela frente exige um esforço comum, 
exige a melhor contribuição de cada qual. 
Proponho o seguinte. Precisamos nos humilhar peran­
te Deus e sua Palavra, tentando distinguir entre os verda­
deiros valores do Reino e os valores da nossa cultura nacio­
nal e religiosa. Amados irmãos, temos de chegar ao ponto 
de dar prioridade aos valores do Reino de Deus - sempreque houver conflito entre algum valor do Reino e algum va­
lor da nossa cultura (seja nacional ou religiosa), o valor do 
Reino tem de prevalecer. Por favor, irmãos, elevar valo­
res nossos acima dos valores de Deus também é idolatria! 
Que Deus nos ajude a parar com isso! Agora vejam, se pro­
cedermos dessa forma teremos um terreno comum onde 
nenhuma cultura humana é tida como superior a outra e 
com isso poderemos trabalhar juntos em harmonia. Que 
tal? Será que não valerá a pena? 
Há outras coisas que nos dividem; existem polariza­
ções que possivelmente vão além daquilo que o Texto Sa­
grado ensina. Quando impomos nossas idéias ao Texto e 
adotamos posições radicais sobre essas idéias, abrimos um 
bom espaço para a atuação de Satanás em nosso meio e fi­
camos sem vontade de respeitar os outros e sem o desejo de 
trabalharmos juntos. Vou citar várias polarizações, numa 
ordem arbitrária: fundamentalismo contra liberalismo, 
premilenismo contra amilenismo, salvação espiritual con­
tra libertação social, calvinismo contra arminianismo, 
179 
pentecostalismo contra tradicionalismo, lei contra graça, 
intelecto contra emoções ou sentidos, obras contra fé, hu­
manismo contra cristocentrismo, o poder e a atuação de 
Deus contra o poder e a atuação de Satanás. Os assuntos 
não são de importância uniforme, e os pares de assuntos 
não são de ambigüidade uniforme. Asseguro ao leitor que 
tenho convicções claras e estudadas a respeito de todos es­
ses assuntos. Não estou propondo um ecumenismo espú­
rio; muito pelo contrário. Devemos fechar questão em tor­
no das verdades fundamentais que definem a nossa fé. No 
entanto, convenhamos que ninguém entre nós é infalível e 
portanto ninguém entre nós é dono da verdade. Se pessoas 
inteligentes e de boa fé discordam na sua interpretação do 
Texto Sagrado é possível que exista alguma ambigüidade 
nesse Texto e devemos estudar a questão com respeito, 
cuidado e calma. Depois, se a questão não implica em sal­
vação, i.e., se alguém pode estar enganado e ainda vai para 
o Céu, então é uma questão de importância secundária e 
em torno de tais questões podemos fazer uso de alguma 
moderação e tolerância (reconheço que certas questões que 
eu definiria como secundárias têm alcance prática e estra­
tégico considerável). Novamente a solução é mantermos 
uma postura de humildade perante Deus e sua Palavra. 
Para encerrar, convido a atenção do leitor para um 
detalhe interessante. É que cada versão da Grande Comis­
são que encontramos nos quatro Evangelhos, e em Atos 
também, traz uma declaração de poder. "É-me dado todo 
o poder no céu e na terra" (Mt 28.18). "Estes sinais hão de 
acompanhar os que crêem" (Mc 16.17). "Até que do alto 
sejais revestidos de poder" (Lc 24.49). "Recebei o Espírito 
Santo" (Jo 20.22). "Recebereis poder" (Atos 1.8). A mola 
mestra é o poder que o Espírito Santo nos dá; sem esse po­
der, nada feito. Então, meus irmãos, vamos nos submeter 
conscientemente ao Espírito Santo para andarmos cheios 
do seu poder, pois assim teremos condições de cumprir as 
ordens de nosso Mestre, inclusive de terminar de alcançar 
o mundo até o ano 2.000! 
180 
Apêndice 
A segunda vinda de Cristo 
Na INTRODUÇÃO prometi tratar da interligação en­
tre missões transculturais e a volta de Cristo. Ao andar 
pelo Brasil discorrendo sobre missões transculturais tenho 
encontrado o seguinte: quando alguém levanta a questão 
da volta de Cristo o faz em termos de Mateus 24.14. Pare­
ce-me uma porta excelente para entrar no assunto. Vamos 
lá. "Este evangelho do reino será proclamado em todo o 
mundo para testemunho a todas as etnias, e então virá o 
fim." 
A pergunta que se faz com maior freqüência é se Cris­
to pode voltar antes de alcançarmos a última etnia. O ad­
vérbio "então" indica que alguma coisa tem de acontecer 
primeiro, no caso a pregação do Evangelho a cada etnia. 
Até aí parece-me que a linguagem é perfeitamente clara. A 
interpretação do versículo depende do sentido que deve­
mos dar à palavra "fim". "O fim" diz respeito a quê? Con­
venhamos que este dia tem fim, esta semana tem fim, este 
mês tem fim, este ano tem fim, esta década, e tc , mas são 
"fins" distintos e acontecem em datas diferentes (sei que 
se escolher o dia a dedo pode fazer vários desses fins coinci-
181 
direm, mas normalmente não é assim). Pois bem, na esca-
tologia há vários "fins". 0 mundo tem fim; o Milênio tem 
fim; a grande tribuiação tem fim; esta Era da Graça tem 
fim. No meu entender da Palavra de Deus, são fins distin­
tos e diferentes que não coincidem. Qual desses fins Jesus 
tinha em mente quando proferiu Mateus 24.14? 
Se for o fim do mundo ou o fim do Milênio a questão 
não influi na volta de Cristo, pois Ele já terá vindo. E não 
representará problema maior para nós porque durante o 
Milênio o próprio Deus vai garantir que todos ouçam. 
"Não ensinará a cada um ao seu próximo, nem cada um ao 
seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos 
me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o 
SENHOR" (Jr 31.34). "Não se fará mal nem dano algum 
em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do 
conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar" (Is 
11.9). Se existe alguma parte do mar sem água, então po­
derá ficar alguém sem conhecer o Senhor. (Ver também Ap 
21.24). 
Mas se o "fim" previsto por Jesus for o fim da Grande 
Tribulação, como fica? A volta de Cristo se prende a nossa 
ação missionária? Creio que não. Vejamos Apocalipse 14.6. 
"Vi um anjo voando pelo meio do céu, portador do evange­
lho eterno para evangelizar aos que habitam sobre a terra, 
a saber a cada etnia, e tribo, e língua e povo." Como o mi­
nistério deste anjo se processa durante a Grande Tribula­
ção, antes do fim dela cada povo terá sido "evangelizado", 
os falantes de cada língua saberão a verdade acerca de 
Deus e seu Reino. Então Cristo poderá voltar tranqüila­
mente, na hipótese. 
Unicamente se o "fim" previsto por Jesus disser res­
peito ao fim desta era da Graça, ou da Igreja, e se a posição 
pré-tribulacionista for a correta, temos problema - unica­
mente nessa hipótese a Segunda Vinda de Cristo depende 
da nossa ação missionária. Se o arrebatamento da Igreja 
antecede a Grande Tribulação e se a última etnia tem de 
ouvir o Evangelho para que o arrebatamento aconteça, aí 
estamos numa "fria"! Sendo que ainda têm umas 3.000 et­
nias por ouvir o Evangelho, está na hora de todo mundo ar­
regaçar as mangas e fazer por onde alcançar essas etnias! 
182 
Muitos missionários transculturais ora atuando ao redor 
do mundo têm exatamente esta visão das coisas e é por isso 
que são missionários - estão empenhando suas vidas no es­
forço de ver a última etnia alcançada para que Jesus possa 
voltar! Eu queria que todo mundo pensasse assim, contan­
to que reagisse também assim, empenhando a vida para 
ver a Grande Comissão de Cristo cumprida. Que me dera! 
Existe uma interpretação de Atos 1.8 que deve ser 
mencionada aqui. Geralmente entendemos esta palavra do 
Senhor Jesus como sendo uma declaração com o efeito prá­
tico duma ordem. No entanto, existem irmãos que enten­
dem que esta declaração tem efeito profético. É que a pala­
vra grega traduzida "confins" é singular; uma tradução ao 
pé da letra seria mais ou menos assim: "até ao último lu­
gar da terra". A essência da proposta é que esta palavra foi 
dirigida aos discípulos, e se tem efeito profético então são 
os discípulos que têm de alcançar esse "último lugar". Se 
essa interpretação for a correta então é a Igreja que tem 
que terminar de alcançar o mundo - não podemos apelar 
para o anjo de Apocalipse 14.6. 
Sucede, no entanto, que eu mesmo não entendo o Tex­
to exatamente dessas maneiras. Sou pré-tribulacionista -
quero dizer que entendo que a interpretação que melhor 
satisfaz a todas as passagens relevantes (escolher só uma 
ou duas a dedo não vale) é a que vê o arrebatamento da 
Igreja antecedendo à Grande Tribulação. Porém, existe 
ambigüidade no Texto; existe sim, razão porque ninguém 
deve querer fechar estaquestão, e muito menos excomun­
gar quem porventura discordar. Voltando a Mateus 24.14, 
entendo que "o fim" previsto por Jesus é o fim da Grande 
Tribulação pois imediatamente, no versículo seguinte, Je­
sus fala da "abominação da desolação" que acontecerá du­
rante esse período. Assim sendo, aquele anjo de Apocalipse 
14.6 vai resolver nossa situação. O que a Igreja porventura 
deixar inacabado, esse bendito anjo vai completar. Ah! 
bendito anjo! (quando chegar no Céu quero cumprimentá-
lo). Mas espera aí um momento! Que ninguém queira cru­
zar os braços e dizer: "Bem, já que aquele anjo vai garantir 
a situação podemos ficar despreocupados e cuidar da vida; 
183 
esses povos não alcançados ja esperaram aurante tanto 
tempo, podem continuar esperando; o problema é deles". 
Imaginemos que chegue a vez dum irmão que cruzou 
os braços; ele está em pé perante o Tribunal. Aí Jesus per­
gunta o que ele fez de efetivo visando cumprir as ordens 
que Ele deixou. Aí o irmão omisso começa a balbuciar: 
"Bom, quer dizer, sabe Senhor, aquele anjo, lá em Apoca­
lipse não fala dum anjo?..." Será que alguém é capaz de 
imaginar que Jesus possa aceitar uma estupidez tamanha? 
Que ninguém se iluda! Jesus vai cobrar as ordens! Since­
ramente, duvido que Ele vá exigir que tenhamos acertado 
cada detalhe do cronograma escatológico. Para quê? Se eu 
estou vivendo efetivamente como discípulo, como escravo 
de Cristo, se estou fazendo tudo para agradá-lo, se estou 
envidando todas as forças em prol de seu reino, que dife­
rença faz se estou enganado a respeito do arrebatamento? 
Agora, se minha visão das coisas me leva a relaxar, a ser 
omisso, aí é diferente. Infelizmente, muitos que defendem 
a posição pré-tribulacionista em vez de gastar tudo para 
"trazer o Rei de volta" ficam de braços cruzados esperando 
o arrebatamento; se os jornais noticiam uma desgraça 
maior e pior ficam satisfeitos porque com isso o arrebata­
mento deve estar mais perto. E uma aberração que não de­
corre da doutrina em si. Por estranho que possa parecer, 
muitos que criticam esses pré-tribulacionistas também 
pouco ou nada fazem para cumprir a Grande Comissão. 
Como pode? 
Irmãos, vamos correr atrás do prejuízo. Vamos dar de 
tudo para alcançar a última etnia. Se Cristo voltar antes 
de terminarmos, amém! Se terminarmos e com isso Ele 
vier, aleluia! Se terminarmos e Ele ainda não tiver vindo, 
pelo menos teremos a esperança de ouvir o "Muito bem, 
servo bom e fiel!" (Mt 25.21). Espero que ninguém queira 
ouvir o "Mau e negligente servo!" (Mt 25.26). Misericór­
dia ! Quero terminar por insistir novamente na necessidade 
imperiosa de levarmos a sério as ordens de Cristo! Pode 
ter certeza absoluta, meu irmão entre todas as coisas que 
serão cobradas perante o Tribunal de Cristo nada terá 
mais peso do que as ordens. Seja qual for sua posição es­
catológica, vamos cuidar de obedecer as ordens. Vamos lá 
irmãos? Vamos que vamos! 
184

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