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O leitor pode estar certo
de que o doutor Gilberto não
apresenta suas próprias
teorias. Ao ler o seu livro,
fiquei sobremodo feliz ao
confirmar o fato de que o
que ele expõe é mesmo o
ensino de Jesus Cristo. O
autor aborda assuntos como
viver em função do Reino de
Deus, discipulado, e outros,
que fazem parte da
estratégia do Evangelho.
Entre outras coisas, ele
ensina sobre finanças no
Reino de Deus, o conceito de
semente, de plantar, de
receber para dar, de ser
canal de bênção materiais
para outros. Foi muito útil
para mim mesmo, e o será
para todos os que lerem este
livro. Em nosso Brasil,
temos de proclamar esse
ensino, o que será de grande
benefício para as vidas em
particular, para os lares,
para as igrejas locais, e para
o ministério de missões
exercido por brasileiros.
Jonathan F. Santos
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Nesta Batalha,
a única opção é
vencer.
Aprenda a lutar
corretamente!
Gilberto Pickering
Missionário, teólogo,
doutor em lingüística
pela Universidade de
Toronto, Canadá,
membro da Associação
Wycliffe para a
Tradução da Bíblia,
autor dos livros: The
Identity of lhe New
Testament Text e A
Framework for
Discouse Analysis
Gilberto Pickering
GUERRA
ESPIRITUAL
CBO
Todos os Direitos Reservados. Copyright © 1987 para a lingua portu
guesa da Casa Publicadora das Assembléias de Deus.
248.4 Pickering, Gilberto, 1934-
PIGg Guerra espiritual; estratégias missionárias de Cristo.
Rio de Janeiro, CPAD, 1987.
Iv.
1. Vida Espiritual. 2. Vida cristã. 3.
Missão. I. Pickering, Wilbur (Gilberto)
Norman. II. Título.
Casa Publicadora das Assembléias de Deus
Caixa Postal 331
20001, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
10.000/1987
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Conclusão S m - • •••••• H ^ M
Apêndice - A HeflBda vinda de Cristo — • • L ™™fll
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ÍNDICE DAS ABREVIATURAS
USADAS NESTE LIVRO
VELHO TESTAMENTO
Gn - Gênesis
Ex - Êxodo
Lv - Levítico
Nm - Números
Dt - Deuteronômki
Js - Josué
Jz - Juizes
Rt - Rute
1 Sm - 1 Samuel
2 Sm - 2 Samuel
1 Rs - 1 Reis
2 Rs - 2 Reis
1 Cr - 1 Crônicas
2 Cr - 2 Crônicas
Ed - Esdras
Ne - Neemias
Et - Ester
Jo - Jo
SI - Salmos
Pv - Provérbios
Ec - Eclesiastes
Ct - Can tares
Is - Isaías
Jr - Jeremias
Lm - Lamentações de Jeremias
Ez - Ezequiel
Dn - Daniel
Os - Oséias
Jl - Joel
Am - Amos
Ob - Obadias
Jn - Jonas
Mq - Miquéias
Na - Naum
He - Habacuque
Sf - Sofonias
Ag - Ageu
Zc - Zacarias
Ml - Malaquias
NOVO TESTAMENTO
Mt - M a t e u s
Mc - Marcos
Lc - Lucas
Jo - João
At - Atos
Rm - Romanos
1 Co - 1 Coríntios
2 Co - 2 Coríntios
Gi - Gaiatas
Ef - Efésios
Fp - Fiü penses
Cl - Colossenses
1 Ts - 1 Tessalonicensea
2 TB 2 Teasaionicenses
1 Tm - 1 Timóteo
2 Tm - 2 Timóteo
Tt - Ti to
Fm - Filemon
Hb - Hebreus
Tg - Tiago
1 Pe - 1 Pedro
2 Pe - 2 Pedro
1 Jo - 1 João
2 rJo - 2 João
3 Jo - 3 João
Jd - Judas
Ap - Apocalipse
Prefácio
Tenho o mais profundo respeito pelo doutor Gilberto
Norman Pickering, autor deste livro. Nosso relacionamen
to vem desde 1975, quando estava se formando a Missão
Antíoquia, da qual ele é um dos fundadores. Nestes anos
tenho aprendido muito com ele. Admiro-o por sua serieda
de em tudo, e, muito especialmente, quando se trata do
texto bíblico. Ele está sempre querendo saber o sentido
exato das declarações bíblicas. Admiro-o por sua integri
dade, por sua fé, por seu espírito de sacrifício ao se dar
para a obra do Senhor. Admiro-o por sua paixão por mis
sões. Ele é um dos homens que mais tem batalhado no
Brasil nestes últimos doze anos para que as igrejas evangé
licas brasileiras se envolvam de maneira ampla na evange-
lização mundial. Seus ensinamentos sobre este assunto
têm sido transmitidos em praticamente todas as partes do
Brasil, e em quase todas as denominações. Na verdade, ele
tem percorrido o Brasil de ponta a ponta com a mensagem
de missões. Se há alguém que possa ser chamado de "A-
póstolo de Missões", essa pessoa é o amado irmão Gilberto.
Seus ensinamentos vêm sendo assimilados por grande nú-
5
mero de obreiros, estudantes de teologia e membros de
igrejas. E, então, começou a surgir a pergunta - "Por que
não colocar estes ensinamentos de forma sistematizada em
um livro que seria muito útil para os cursos de missões no
Brasil epara as igrejas em geral?"E o doutor Gilberto res
pondeu positivamente, brindando-nos com esta obra, que
considero da maior importância no preparo de obreiros
transculturais.
GUERRA ESPIRITUAL - Estratégia Missionária de
Cristo - é um manual de missões. Deve ser dotado pelas es
colas teológicas e especialmente pelos cursos de missões. Ê
um livro texto sobre o assunto. Contudo, o pastor e os cren
tes em geral serão também grandemente enriquecidos com
sua leitura.
Ao tratar da estratégia missionária de Cristo, o autor
traz o assunto para o seu devido lugar. Podemos ter muitas
teorias, estratégias, conhecimentos e disposições para fa
zer a obra do Senhor no campo missionário, mas se não
guerrearmos segundo as normas estabelecidas pelo nosso
General, vamos falhar. Na verdade, temos falhado muitas
vezes, exatamente por fazermos a guerra segundo nossa
própria sabedoria. Há um inimigo nesta guerra - Satanás.
Quem o conhece bem é o Senhor Jesus. Quem sabe como
ele pode ser vencido é também o Senhor Jesus. Se seguir
mos a estratégia do Grande General, vamos ter a vitória.
Se não a seguirmos, vamos só nos cansar e ser derrotados.
E o leitor pode estar certo de que o doutor Gilberto
não vai dar suas próprias teorias em vez de ensinar a estra
tégia de Jesus. Garanto que não. Eu o ouvi várias vezes e
sempre tive a convicção de que ele estava interpretando a
Palavra de Deus. Agora, ao ler o seu livro, fiquei sobremo
do feliz ao se confirmar o fato de que o que ele expõe é mes
mo o ensino da estratégia de Jesus Cristo.
O autor aborda assuntos como, viver em função do
Reino de Deus, discipulado, e outros, que fazem parte da
estratégia de Cristo. Entre outas coisas, ele ensina sobre fi
nanças no Reino de Deus. O conceito de semente, de plan
tar, de receber para dar, de ser canal de bênçãos materiais
para outros, foi muito útil para mim mesmo, e o será para
6
todos os que lerem este livro. Em nosso Brasil temos de
proclamar esse ensino, o que será de grande benefício para
as vidas em parpicular, para os lares, para as igrejas locais,
e para o ministério de missões exercido por brasileiros.
Mas para mim, a chave da estratégia de Cristo está no
capítulo seis - "Libertar as pessoas do poder de Satanás".
Este livro mostra que nosso trabalho é prejudicado por não
sabermos ou não reconhecermos que Satanás prende as
pessoas em seu domínio. Elas precisam ser trazidas "de
volta das trevas para a luz, e do poder de Satanás para
Deus". Para isto é necessário que o "Valente" seja amarra
do para que os que estão sob seu domínio sejam libertados.
Antes de pregar ou falar é preciso proibir a ingerência do
inimigo no pensamento do ouvinte. Ele menciona seu pró
prio exemplo, trabalhando com a Tribo Apurinã (Rio Pu-
rus, Amazônia), sendo o primeiro a disputar com Satanás
[e para Cristo) o domínio total sobre essa nação. Confessa
que apesar do seu mestrado em teologia, ignorava estas
verdades, e por isto o inimigo causou tremendos males
para ele e sua família, ao passo que os resultados alcança
dos com a Tribo Apurinã foram mínimos.
Com conhecimento de causa, com profundo respeito
ao texto, e com clareza meridiano, mostra como se trava a
guerra espiritual e como o servo de Cristo pode estar arma
do e capacitado para prevalecer.
Nesse momento em que estamos nos preparando para
a realização de COMIBAM 87, esse livro vempreencher
uma lacuna no preparo de obreiros transculturais. 0 alvo
de COMIBAM é que pelo menos 10.000 missionários trans
culturais sejam enviados nos próximos anos. Estes missio
nários precisam receber essa capacitação antes de sair
para os campos.
Ao Dr. Gilberto, o nosso reconhecimento pelo seu ex
celente trabalho. A Deus, o nosso louvor pela inspiração e
graça para que esta obra fosse produzida.
Jonathan F. Santos
São Paulo, 08 de Junho de 1987
7
Introdução
Há quase dois mil anos, nosso Salvador e Soberano Je
sus Cristo, pouco antes de voltar para o Céu, deixou certas
ordens para seus súditos: "Fazei discípulos em todas as et
nias", "Pregai o Evangelho a cada pessoa", "Ser-me-eis
testemunhas até aos confins da terra". No entanto, "a esta
altura do campeonato", os seguidores de Jesus nem a me
tade têm conseguido. Pois provavelmente a metade das et
nias do mundo está por conhecer o primeiro porta-voz de
Cristo, e dificilmente nem um terço das etnias contará
com um verdadeiro discípulo de Cristo entre seus compo
nentes. Metade das pessoas também (sem pensar na etnia
à qual possam pertencer) estão por ouvir o Evangelho pela
primeira vez, Ouvir é entender - nem se comenta.
Que pensar diante desse quadro?! Será que o Senhor
Jesus não esperava ser obedecido? Falou por falar, pelo
prazer de ouvir a própria voz? Não. Certamente Ele falou
sério. Tanto assim que a primeira geração, a dos apóstolos,
praticamente alcançou o seu mundo: fizeram proezas.
(Cabe lembrar que não dispunham de automóveis, aviões,
rádio, televisão, computadores, etc.) Mesmo assim alcan-
9
çaram seu mundo, começando com um punhado de gente.
Conseguiram tudo isso exatamente porque levaram a sério
as ordens de Cristo, inclusive entendendo o efeito estraté
gico dessas ordens. Mas, infelizmente, com o passar dos
anos a Igreja foi perdendo essa visão das coisas que os
apóstolos receberam de Jesus. Como conseqüência trágica,
de lá para cá as ordens de Cristo nesse sentido caíram no
desuso e na incompreensão. Sim, na incompreensão, pois
hoje em dia muitos que imaginam estar obedecendo a uma
ou a outra ordem não entendem o sentido certo da ordem e
muito menos o efeito estratégico dela.
Mas, se os apóstolos conseguiram alcançar seu mun
do, numa geração, por que não fazermos nós o mesmo? Por
que não repetimos a façanha? Creio, sinceramente, que
para tanto bastará recuperarmos a estratégia missionária
de Cristo, contidas nas suas ordens, e orientarmos nossas
vidas e nossos ministérios nessa base. Creio que poderemos
terminar de alcançar o mundo dentro de quinze anos!
Aliás, tudo me leva a crer que Jesus vem aí e o tempo está
ficando pouco. Bastaria para tanto, quem sabe, Lucas
21.24, pois entendo que Jerusalém deixou de ser '"pisada
pelos gentios", no sentido profético da palavra, no ano de
1967 quando pela primeira vez desde que Jesus proferiu es
sas palavras a cidade de Jerusalém voltou ao controle da
nação de Israel. E, "quando virdes acontecer estas coisas,
sabei que o reino de Deus está perto. Em verdade vos digo
que não passará esta geração até que tudo aconteça" (Lc
21.31,82). (Á interligação entre missões transculturais e a
volta de Cristo é esmiuçada no Apêndice.)
Torno a afirmar: Se, de forma geral, a partir de agora,
o nosso povo evangélico acertar e seguir a estratégia mis
sionária de Cristo, poderemos terminar de alcançar o mun
do dentro de 15 anos. Senão, vejamos,
10
1
Rogar ao
Senhor por Obreiros
Vamos começar com as palavras do Senhor Jesus
Cristo que encontramos em Mateus 9.37,38: "A seara é
realmente grande, mas poucos os ceifeiros. Rogai pois ao
Senhor da seara que mande ceifeiros para a sua seara."
A Grande Seara
Esta palavra, endereçada a seus discípulos, começa
por comentar a seara que temos pela frente - é muito gran
de. Se foi grande há dois milênios, calcule agora! Em Ma
teus 28.19, o Senhor Jesus manda fazer discípulos em "to
das as nações". Essa palavra "nação" é tradução da pala
vra grega que serve de base para as nossas palavras "et
nia", "étnico", "etnólogo". Encontramos a mesma palavra
em Apocalipse 5.9 associada às palavras "povo", "língua"
e "tribo". (Ver também Ap 7.9; 11,9; 14.6). Quer dizer exa
tamente uma etnia, um povo definido em termos étnicos.
Qualquer povo que se distingue dos demais povos do mun
do em matéria de línguas e cultura é uma "nação" para
efeito da grande comissão missionária de Jesus contida em
Mateus 28.19.
11
Pois bem, já que ele manda fazermos discípulos em
todas elas, quantas será que existem no mundo hoje? De
pende. A cifra muda, conforme a fonte consultada e os cri
térios adotados. O grupo de estudiosos do Centro Estadu
nidense para Missão Mundial, liderado por Ralph Winter,
que tanto tem feito para conscientizar o povo de Deus
acerca dos "povos não-alcançados" do mundo, nos afirma
que deve haver por volta de 16 mil etnias, isso os não-
alcançados. Se acrescentássemos os povos onde já existe
trabalho evangélico não sei que cifra daria. Sucede que
esse grupo define "povo" em termos culturais e econômi
cos. Com isso vários desses povos podem ter o mesmo idio
ma. Já o grupo para tradução da Bíblia Wycliffe, que já
trabalhou junto a mais de mil grupos lingüísticos ao redor
do mundo, prefere definir um povo em termos de língua.
Assim, o Ethnoloque publicado por eles traz nome por
nome mais de 5.500 línguas faladas hoje no mundo. Acon
tece que os colegas que preparam esse catálogo declarada
mente preferem errar por baixo, trabalhando com dados
mais ou menos seguros. Mas existe áreas do mundo onde
faltam tais dados e a tendência é de acrescentar mais
línguas. Pessoalmente não duvido existirem pelo menos
6.000 línguas distintas no mundo, das quais umas 200 no
Brasil. Entendo que para efetivamente cumprirmos Ma
teus 28.19 teremos de traduzir a Palavra de Deus para to
das essas línguas, por razões que explico no capítulo IV, e,
assim, prefiro definir "nação" em termos de língua e cultu
ra. São, pois, pelo menos 6.000 etnias no mundo hoje.
Em Marcos 16.15, o Senhor Jesus mandou pregarmos
o Evangelho a cada pessoa. Em julho de 1986, os jornais
noticiaram que nesse mês a população do mundo teria
atingido a casa de cinco bilhões de pessoas. Cinco bilhões;
é difícil imaginar tanta gente! Mas aí estão. Eis a nossa
seara. E como é grande! Seis mil etnias e cinco bilhões de
pessoas.
Os Poucos Ceifeiros
Voltando a Mateus 9.37, o Senhor Jesus passa a decla
rar que os ceifeiros são poucos. Bem, não é difícil imaginar
que diante de tamanha seara os obreiros não deixariam
12
nunca de ser "poucos". Aiiás, parece-me que muitos cren
tes estão conformados diante da expectativa de nunca al
cançarmos o mundo: já "entregaram os pontos".
O fato é que a esta altura dos acontecimentos os obrei
ros não somente são poucos, mas para muitos lugares e po
vos não existentes. Simplesmente não há obreiros. Creio
ser verdade dizer que para a metade das etnias no mundo
hoje, 3.000 das 6.000, portanto, não há um único porta-voz
de Cristo sequer, ainda. No Brasil também, das 200 etnias
indígenas do país, umas 100 não têm trabalho evangélico
ainda.
- E quanto às pessoas? - É o mesmo quadro calamito
so. Os que pesquisam o assunto nos afirmam que a metade
das pessoas no mundo hoje, dois bilhões e meio, portanto,
estariam por ouvir o Evangelho de Cristo uma vez. Eis aí
uma calamidade pública do tamanho do mundo. Quer me-
çamos por indivíduo, quer meçamos por etnia, é isso aí:
meio mundo por ouvir, metade das nações étnicas sem
obreiro. E isso após quase dois mil anos de a Igreja de Cris
to estar na terra.
É verdade que o quadro vem melhorando. As estatísti
cas há 200 anos eram muito piores. Os esforços missioná
rios dos últimos 200 anos têm produzido grande efeito. Na
África e na Ásia, a Igreja cresce de forma impressionante.
Só o grupo Wycliffe tem trabalhado junto a mais de mil et
nias (um sexto do total), e isso nos últimos 50 anos. Atual
menteo trabalho começa junto a mais uma etnia cada
quinzena, em média. Embora essa informação possa repre
sentar uma surpresa agradável para o leitor, temos de me
lhorá-la, pois nessa marcha ainda vai nos custar mais de
cem anos para alcançar a última nação. Temos de melho
rar, pois dificilmente Deus nos dará esse tempo todo.
A Estratégia Missionária
Vem ao caso a ordem, a estratégia, que encontramos
em Mateus 9,38: Rogar ao Senhor da seara por obreiros. É
totalmente necessário que haja obreiros para cada povo,
para cada lugar (por razões que explico nos capítulos III e
VI), e o remédio que Jesus prescreve é rogar ao Senhor da
13
seara por obreiros. Observem que estamos diante duma or
dem. Não é ponto facultativo. Jesus manda rogarmos por
obreiros. - Mas será que estamos obedecendo a esta or
dem? Ao menos a esta, pois, aparentemente, é uma ordem,
à qual qualquer crente pode obedecer. Na sua igreja, vocês
estão obedecendo a esta ordem? Ao menos dominicalmen
te? Se não, por que não? - Então, vamos começar agora? E
na sua vida particular, será que não daria para gastar um
minuto por dia, digamos quando levanta, ao pentear o ca
belo, clamar a Deus por obreiros para o mundo perdido,
para as etnias que nunca foram alcançadas? Vejam que
ninguém pode dizer que é pobre demais para poder orar,
que não tem cultura suficiente para poder orar. Qualquer
crente pode orar, por mais simples que possa ser. - Certo?
Estamos, pois, diante de pelo menos urna ordem de Cristo
que está ao alcance de todos, No entanto, parece existir al
guma dificuldade, pois devem ser relativamente poucos os
que estão obedecendo a esta ordem. Para entender melhor
vamos à estratégia.
Qual será o conteúdo estratégico da ordem? Bem, se
eu vou rogar a Deus por obreiros eu devo ser sincero, não
acha? Eu precisava ser coerente, será que não? Pois então,
se eu, de forma sincera e coerente, clamar a Deus por
obreiros tenho de estar pronto a ouvir, eu mesmo, a respos
ta. Pois um belo dia Deus pode dizer para mim: "Está cer
to, meu filho, estou ouvindo seu clamor. Agora, um dos
que vou enviar é você!" Será que não? Ou então vem a voz
de Deus: "Você não irá a outro povo, mas tem de contri
buir mais do que vem contribuindo para ajudar a sustentar
os que vão," E certamente Deus vai cobrar mais interces-
são de todos. Aí está o efeito estratégico desta ordem. Se
cada crente evangélico obedecesse ao menos a esta ordem
de maneira sincera e coerente, não faltaria obreiro, não fal
taria dinheiro para sustentar os obreiros e nem faltaria in-
tercessão, apoio espiritual para garantir a obra. Tomaría
mos o mundo de assalto! Só que não está acontecendo, não
é? Eis o problema - obedecer a esta ordem requer compro
misso. Refletindo um pouco, fica claro que nem a esta or
dem de Jesus podemos obedecer, realmente, sem termos
compromisso verdadeiro com Ele.
14
Creio que a cada passo vamos verificar que o proble
ma essencial é esse: falta compromisso com Jesus e sua
causa. Como conseqüência trágica, metade do mundo con
tinua a perecer sem ouvir o Evangelho de Cristo Então, ir
mãos vamos assumir compromisso total com Jesus e sua
causa, no duro, para valer. Eis uma tremenda seara a nos
sa espera - dois bilhões e meio de pessoas sem ouvir, J.OUO
etnias sem obreiros - E Jesus vem ai!
2
Alcançar Jerusalém..,
e os confins da terra
Agora vamos atentar para as palavras do Senhor Jesus
que encontramos em Atos 1.8: "Recebereis poder, ao vir
sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tan
to em Jerusalém, como era toda a Judéia e Samaria, e até
aos confins da terra." São as últimas palavras que proferiu
aqui na terra antes de voltar para o Céu, os pés já largando
contato com o chão. Será que não escolheu com cuidado
essas palavras? Certamente que sim e certamente Ele es
pera que prestemos cuidadosa atenção a elas. Mesmo
numa leitura superficial fica claro que a preocupação de
Cristo é com o mundo inteiro. Mas além desse sentido ób
vio, esta palavra de Jesus contém uma estratégia, uma tre
menda estratégia, uma estratégia capaz de alcançar o
mundo dentro de uma geração!
A Estratégia
Como muitas vezes acontece na Bíblia, o segredo está
nas pequenas palavras, no caso "tanto... como., e". Obser
ve, por favor, que Jesus não disse: "Ser-me-eis testemu
nhas primeiro em Jerusalém, depois em toda a Judéia e
17
Samaria, e finalmente, se um dia sobrar tempo, mão de
obra e dinheiro, até aos confins da terra." (Não é assim
que estamos conduzindo a coisa, de modo geral?) Não, a
expressão é "tanto... como... e", isto é, simultaneamente.
Simultaneamente temos que nos esforçar para alcançar a
nossa "Jerusalém, Judéia e Samaria" e os confins. Se um
dia, de forma geral, as nossas igrejas evangélicas assumi
rem efetivamente esta estratégia terminaremos de alcan
çar o mundo nesta nossa geração. Se os Apóstolos conse
guiram por que nós não podemos?
Os Apóstolos, e presumivelmente a geração discípula-
da por eles, entenderam e obedeceram esta estratégia de
Cristo. Tanto assim que naquela geração, começando com
aquele punhado de gente (lembrando também que não dis
punham da tecnologia moderna), praticamente consegui
ram alcançar o seu mundo. O Apóstolo Paulo fez planos
para alcançar a Península Ibérica. Se podemos confiar na
tradição da Igreja, o Apóstolo Tome logrou chegar até ao
sul da índia! Mas infelizmente após a era apostólica a Igre
ja foi perdendo essa visão e assim ficou através dos séculos,
até a época das missões modernas.
Como conseqüência deplorável da perda dessa visão,
de lá para cá, através dos séculos e até hoje a maioria das
pessoas nascem, vivem e morrem sem uma vez ouvir falar
de Jesus Cristo. É a maior calamidade pública de todos os
tempos!
Por outro lado, se através dos séculos a Igreja tivesse
sempre seguido esta estratégia então sem muita demora a
Palavra de Deus teria sido levada a cada povo no mundo, e
daí para frente cada geração sucessiva que nascesse teria a
opção de receber ou rejeitar o Evangelho. Já pensou que
maravilha? Pois através dos séculos cada povo viria tendo
acesso efetivo à Palavra de Deus, ao Evangelho de Cristo.
E ainda dá, embora tarde (mas antes tarde do que
nunca!). Vejam só. Se a partir de hoje, de forma geral, o
povo de Deus assumir efetivamente esta estratégia então
deve acontecer o seguinte: os muitos jovens que Deus está
chamando receberão apoio e sustento de suas igrejas. De
verão se preparar adequadamente, inclusive adquirindo as
ferramentas para lidar com outras línguas e culturas
18
(lembrar que muitas ainda não foram estudadas). Uma
vez preparados serão semeados pelo mundo inteiro, nas á-
reas e junto aos povos onde ainda não existe acesso efetivo
ao Evangelho. Gastarão uns dois anos adquirindo domínio
da língua e cultura local que permita começar a falar de
Jesus sem perigo demasiado de promulgar heresias. Daí
para frente deve haver conversões e o surgir de novas igre
jas onde nunca havia. Agora, essas igrejas devem também
abraçar a estratégia de Cristo, e com isso começarão a
evangelizar não somente na sua "Jerusalém" mas também
na "Judéia" e "Samaria". Dessa forma, dentro de uma ge
ração não sobraria povo ou lugar sem acesso efetivo ao
Evangelho de Cristo. Para exemplificar, existem tribos
indígenas no Brasil que há poucos anos receberam pela
primeira vez a Palavra de Deus onde os crentes já se preo
cupam não somente com o resto da sua etnia, sua "Ju
déia", mas inclusive, querem enviar missionários para ou
tras tribos. (Sei que estou deixando de lado as barreiras
políticas e religiosas que aí estão para dificultar o em
preendimento, vou comentá-las no capítulo IV, mas nosso
Chefe é o dono da Chave de Davi - Ap 3.7.)
A Situação no Brasil
Aqui eu gostaria de tecer algumas observações quanto
à situação e ao potencial do Brasil. Será que nossas igrejas
e lideranças evangélicas estão entendendo e seguindo esta
estratégia missionária de Cristo? - Qual é o enfoque principal das nossas igrejas? - Não seria o evangelismo local, a
nossa "Jerusalém"? Tudo bem até aí. E a nossa "Judéia"?
Bem, a coisa não anda totalmente mal; está havendo um
esforço visível no sentido de abrir novos trabalhos no inte
rior dos estados, em lugares onde ainda não tenha igreja da
"nossa" denominação, etc. E a nossa "Samaria"? Já que a
Samaria representava uma cultura diferente encravada no
território judeu, proponho que consideremos os povos indí
genas do país como sendo a nossa "Samaria". Assim sen
do, como anda nosso desempenho? Para começar, dos mais
de 200 grupos indígenas distintos que existem no país peío
menos a metade não tem trabalho evangélico ainda (No
Brasil, pois existem alguns casos onde uma etnia fronteiri-
19
ça tem trabalho evangélico do outro lado da fronteira.) Se
não me engano, até hoje a maioria dos missionários viven
do e trabalhando com índios no país são de origem estran
geira. Contudo, devem existir mais de 200 obreiros nacio
nais agindo dessa forma. Já é alguma coisa, mas será que
podemos ficar complacentes diante desse quadro? O in
gresso no país de novos missionários estrangeiros vem sen
do difícil, e os que já estão aqui muitas vezes encontram
restrições diversas. A vantagem que o obreiro nacional leva
é óbvia, e deve ser explorada.
E os "confins da terra": as 3,000 etnias sem qualquer
porta-voz de Cristo ainda, os mais de 15.000 "povos não-
alcançados"? - Como anda o empenho brasileiro nessa di
reção? - Agora o quadro piora bastante. Pensando em mis
sionários de carreira radicados no exterior, deixando de lado
os estagiários e turistas diversos, creio que o total atual di
ficilmente passará de 400. - E esses 400 estão onde e fazen
do o quê? - A grande maioria está ministrando em língua
portuguesa ou em espanhol. Quer dizer, ou estão na Amé
rica do Norte (incluindo Canadá) ou na Europa pregando
para as colônias de fala portuguesa por lá radicadas, ou es
tão nos países vizinhos de fala espanhola, onde a língua e
cultura é bastante parecida com a nossa. E há vários
atuando nas outrora colônias portuguesas, pensando que a
língua portuguesa vai resolver por lá. Creio que uma mão
dá e sobra para contar os brasileiros que estão no exterior
visando alcançar uma etnia até aqui abandonada. Está
bom?
Quero deixar bem claro que nada tenho contra o al
cançar das colônias de fala portuguesa na Europa e na
América do Norte, e nem dos países vizinhos. Ê certo e jus
to que os brasileiros se preocupem com esses alvos; estou
de pleno acordo. Poderíamos, inclusive, incrementar o es
forço nessa direção, No entanto, parece-me necessário dar
um alerta: "não devíamos enviar obreiros para os países
vizinhos sem preparo específico para enfrentar uma situa
ção transcultural. Tenho ouvido queixas amargas contra
os nossos obreiros que lá ficam sem nunca se darem ao tra
balho de realmente dominar a língua e se entrosar na cul
tura. Se contentam em falar um "portunhol" qualquer,
20
anos a fio. Estão repetindo os mesmos erros que tanto criti
camos da parte dos missionários que trouxeram o Evange
lho até o Brasil.
O Potencial do Brasil
Meus irmãos, temos de mudar esse quadro; temos de
nos esforçar no sentido de realizar o grande potencial que o
povo evangélico do país representa em prol do Reino de
Deus. Tenho ouvido estimativas um tanto variadas quanto
ao número absoluto de crentes evangélicos no Brasil; vão
de dez a vinte milhões, ou mais. Por formação, gosto de ser
um pouco cauteloso com esse tipo de coisa. Vamos come
çar pelo piso. Devem existir, sem dúvida razoável, pelo
menos dez milhões de crentes evangélicos no país. Mas
essa cifra coloca o Brasil no segundo lugar no mundo livre
no que diz respeito ao número absoluto de crentes. O único
país que tem mais é os E.U.A. (Ouço dizer que na China
tem mais, e queira Deus que seja verdade, mas confesso
não entender como se podem verificar tais dados.) Já pen
sou, dez milhões de crentes? Se pudéssemos mobilizar e
engajar todo esse pessoal em torno das estratégias missio
nárias de Cristo, encheríamos o mundo de obreiros brasi
leiros.
Tem mais uma. Quem mais tem feito até aqui no ter
reno de missões mundiais, os norte-americanos, já não en
contram a mesma facilidade de antes. Andam um tanto
"queimados" no conceito de muitos países. Tem país por
lá onde o americano quase não entra, sequer como turista.
Mas ninguém tem raiva do Brasil, pelo menos ainda. As
portas estão abertas para o brasileiro; ele encontra mais fa
cilidade do que muitos outros, no momento. Chegou a nos
sa vez!
Irmãos, vamos colaborar com o Espírito Santo! Va
mos levar a sério as ordens de Cristo. Vamos dar respaldo a
nossos jovens que Deus está chamando para o trabalho
transcultural. Em vez daquele "balde dágua fria" ("O
quê!? Pode já tirar da sua cabeça essa idéia boba! Você
não vai ser missionário coisa alguma; precisamos de você é
por aqui. Quando terminarmos de ganhar todo mundo em
Sâo Paulo, aí será tempo suficiente de olhar mais longe",
21
etc.) vamos incentivá-los, incentivá-los a se prepararem
adequadamente (dando o sustento necessário), a fim de se
guirem efetivamente para os campos do mundo. Vamos
ajudá-los a achar a infra-estrutura apropriada para pode
rem trabalhar de forma eficiente. Talvez seja preciso, in
clusive, colaborar com a manutenção de tais infra-
estruturas. Enfim, vamos fazer o necessário para alcançar
os confins da terra durante esta nossa geração!
3
Pregar a cada pessoa
Prosseguindo, vamos atentar para as palavras do Se
nhor Jesus que encontramos em Marcos 16.15: "Indo por
todo o mundo, pregai o Evangelho a cada pessoa". Nova
mente são palavras dirigidas a seus discípulos. O efeito es
tratégico é transparente, se de fato pregarmos a cada pes
soa então cada pessoa terá recebido sua oportunidade de
conhecer Jesus como Salvador e Senhor da vida. O proble
ma não seria entender esta ordem, mas sim acreditar.
Um Neo-universalismo Recrudescente
Deus me tem permitido ministrar em muitas igrejas
evangélicas pelo Brasil a fora, em igrejas de mais de vinte
denominações. Tenho constatado um fato alarmante.
Muitos crentes, e até pastores e líderes, simplesmente não
crêem ser necessário pregar o Evangelho a cada pessoa no
mundo. Existe um "neo-universalismo" recrudescente em
nosso país. Podemos colocar a idéia nas palavras que ouvi
de um certo pastor, há vários anos: "Um Deus bom, justo,
de amor não poderá nunca condenar o índio inocente". E
une eu andava conclamando os.brasileiros a se engajarem
no esforço de alcançar os povos indígenas do país, pois o
nosso Governo vinha restringindo a ação dos missionários
estrangeiros nesse setor. Mas aquele pastor não quis saber.
Não era preciso se preocupar com a salvação do índio.
Deus iria dar um jeito.
Estamos diante de uma hipótese que acarreta conse
qüências gravíssimas. Não é necessário ser profeta para
enxergar que essa história corta pela raiz qualquer senti
mento de urgência, qualquer preocupação maior com a
sorte espiritual das pessoas e dos povos que nunca ouviram
falar de Jesus. Pois se Deus vai dar um jeito (daí se vê que
deve ser brasileiro), então vai dar um jeito e podemos ficar
despreocupados. Obviamente um jeito dado por Deus terá
que ser adequado. Se o índio é inocente e se portanto não
pode ser condenado, então Deus terá que salvá-lo (pois o
espírito do ser humano é imortal, e só há dois destinos, ou
ficar com Deus, que é vida eterna, ou ficar separado dEle,
que é condenação eterna). Se existe "inocência" que impli
ca em salvação, devemos reformular a nossa soteriologia,
pois aí teria mais de uma maneira de alcançar a vida eter
na.
Afinal, nosso SENHOR Jesus Cristo mandou fazer
mos discípulos em todas as etnias. Vamos obedecer ou não
vamos? Mandou pregarmos o Evangelho a cada pessoa,
indo pelo mundo inteiro. Vamos obedecer ou não vamos?
Quem achar que não precisa obedecer, rejeitando inclusive
os termos das ordens, deve ser coerente e pararde se apre
sentar como servo de Jesus! Alguma dúvida? Bem, sei que
não iremos resolver o problema de uma vez dessa forma,
pois as pessoas nem sempre são coerentes. Então, vamos
avaliar cuidadosamente essa hipótese neo-universalista.
Não há "Inocente"
Parece-me que a questão gira em torno da idéia de "i-
nocência". É porque o índio (por exemplo) seria "inocen
te" que Deus não deveria condená-lo. Muito bem, como
poderemos definir essa "inocência"? Vou conduzir a dis
cussão em termos do índio por ter conhecimento de causa,
por ter experiência íntima. Vivi numa aldeia de índios em
plena selva amazônica, um total de 24 meses. (Trata-se da
24
nação indígena Apurinã do Rio Purus, no Amazonas.)
Contudo, creio que as observações feitas a respeito do nosso
índio são igualmente válidas para os povos indígenas da Á-
frica, da Ásia e das ilhas do Oceano Pacífico, onde se en
contram as etnias não-alcançadas do mundo. Vamos então
à "inocência".
Muitos brasileiros duvidam da inteligência, da capa
cidade mental e moral do índio, como se não passasse de
criança. Aliás, a política federal do país parece retratar
essa visão pois a Fundação Nacional do índio (FUNAI), ór
gão federal, detém a tutela do índio. Quem precisa de tute
la é menor, incapaz perante a lei. No Norte do país é co
mum ouvir o índio tratado de "bicho". Já ouvi alguém ex
pressar a idéia de que "a língua do índio" seria uma "bes
teira" de uns 300 vocábulos, uma coisa pouco mais evoluí
da do que o grunhir dos animais. (Observar de passagem
que não existe "a língua" dos índios, pois são muitas: cada
tribo tem uma língua diferente.) É engano total. São tão
inteligentes quanto nós. Não faltam provas disso.
Podemos começar pela língua. Tenho doutorado em
lingüística. Domino o Português e o Inglês. Já estudei o
Grego e o Hebraico, e, em escala bem menor, Latim e o
Alemão. Tenho "triscado" em várias línguas ameríndias.
Quero dizer que a língua Apurinã é a coisa mais complexa
que já vi. Só para exemplificar, um verbo inglês é passível
de até cinco flexões diferentes na estrutura interna da pa
lavra, na morfologia. Já algum verbo português, dos bem
irregulares, é passível de até 66 flexões diferentes na mor
fologia da palavra. Mas um verbo Apurinã, com suas três
ordens relativas de prefixos e 14 ordens relativas de sufixos
(que comportam uns 60 afixos, até onde eu domino, pois
existem outros mais), se cada combinação matematica
mente possível pudesse ocorrer (existem umas poucas res
trições de co-ocorrência), seria passível de pelo menos 20
milhões de flexões diferentes dentro da morfologia da pa
lavra. É isso mesmo, 20 milhões, e isso até onde eu domino
tão-somente. Daí o leitor poderá entender que eu perco a
paciência quando alguém chega perto de mim querendo
lLfázer pouco" da inteligência do índio.
25
Queria que você estivesse na minha casinha de palha
na aldeia a ouvir os homens discutindo os prós e os contras
do Evangelho numa perfeita demonstração de compreen
são e raciocínio. Ninguém se iluda, são seres humanos
como nós, criados à imagem e semelhança de Deus. Às ve
zes eles nos parecem lerdos quando se encontram eríl nosso
meio, por não entenderem nossa língua e cultura. Assim
como nós pareceríamos igualmente lerdos no meio deles,
exatamente por não conhecermos a língua e cultura deles.
Enfim, não podemos definir "inocência" em termos de fal
ta de inteligência, raciocínio ou capacidade mental. Ou
pelo menos, se assim fizermos nem o índio e nem os demais
povos indígenas do mundo se enquadram nessa definição.
Os povos indígenas do Brasil e, em grande parte, do
mundo são animistas, isto é, o culto ou religião deles con
siste na tentativa de apaziguar os demônios, os espíritos
malignos que entendem ser os responsáveis por todos os
males que lhes atingem. (Mesmo as etnias da África apa
rentemente convertidas ao islamismo entendo ainda esta
rem às voltas com os demônios numa espécie de sincretis-
fflo.) Sabem que existem espíritos bons também, mas
conscientemente cultuam os maus. Não se trata de crendi
ce ou superstição. É uma atitude lógica e inteligente den
tro da realidade que eles vivem. São verdadeiramente per
seguidos pelos espíritos malignos, pois estes existem e as
sim atuam. Ignorando a existência dum poder benéfico
maior capaz de livrá-los da perseguição dos demônios ou,
no caso dos que sabem existir um Criador bom mas que há
muito perderam contato com ele, não sabendo como acio
ná-lo em seu favor, fazem o que sobra para fazer. Procu
ram diálogo com os espíritos para ver se a coisa melhora,
ao menos um pouco.
Ora vejam, quem conscientemente cultua os demô
nios, e por trás deles Satanás (pois sabem que os demônios
têm um chefe), deixando de lado os espíritos bons e o pró
prio Criador, não é "inocente" e nem deve ser assim consi
derado.
Depois têm a consciência, que Deus coloca em cada
ser humano (ver Rm 2.14-16). Muito precioso neste sentido
é o subsídio trazido por Don Richardson no seu livro, O
26
Fator Melquisedeque (Editora Vida Nova, 1986). Ele ar
gumenta que não somente as pessoas, mas inclusive as cul
turas trazem aspectos, tipo memória da antigüidade, que
preparam os povos para a chegada do Evangelho, e de cer
ta forma os predispõem a aceitá-lo. Ele cita um bom nú
mero de exemplos bastante interessantes,
E tem a luz da criação que deve levar cada ser cons
ciente a se curvar diante do Criador (ver Rm 1.18-20), pois
todo o processo cognitivo do ser humano parte do princípio
de causa e efeito. Observamos um efeito e procuramos iso
lar a causa que produziu esse efeito; pela lógica a causa
tem de ser igual ou superior ao efeito que produziu, pois
caso contrário não seria capaz de produzi-lo. Confesso não
entender os cientistas que afirmam ser materialistas, pois
toda experiência científica também se baseia no princípio
de causa e efeito. Parecem-me incoerentes.
Suponho existir apenas uma definição de "inocência"
possivelmente capaz de suportar a luz do dia: seria a igno
rância, a falta de ouvir. Quer dizer, um Deus justo não po
deria condenar uma pessoa que nunca ouviu falar de Cris
to. Só tem um pequeno problema: Deus não aceita. Rm
1.18-20 deixa claro que todo ser racional tem a luz da cria
ção, e Deus vai cobrar essa luz: "para que fiquem inescu-
sáveis" (ver também Salmo 19.1-4). Romanos 3.10-12 é
mais do que claro: para Deus não existe "inocente"!! Se
gundo Isaías 64.6, até nossas "justiças" Deus tem como
"trapos imundos".
Deus É Justo
Contudo, Deus é justo. Ele reconhece a diferença en
tre pouca luz e muita luz. "Para com Deus não há acepção
de pessoas, porque todos os que sem lei pecaram sem lei
também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram pela
lei serão julgados" (Rm 2.11,12). Embora todos tenham a
luz da criação, certamente ela não se compara com a luz
da revelação escrita de Deus. Lucas 12.47,48 diz respeito
ao Tribunal de Cristo, e não ao julgamento dos incrédulos,
mas também deixa claro que Deus reconhece graus de res
ponsabilidade. Observem, no entanto, que os sem lei
27
"perecerão" e os servos que não sabiam a vontade de Deus
"serão castigados", embora menos.
Agora vamos ao juízo final dos ímpios, o grande trono
branco que é descrito em Apocalipse 20.11-15. "Vi um
grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja
presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para
eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, pos
tos em pé diante do trono. Então se abriram livros. Ainda
outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram
julgados segundo as suas obras, conforme o que se achava
escrito nos livros. Deu o mar os mortos que nele estavam. A
morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia. E
foram julgados, um por um, segundo as suas obras. Então
a Morte e Hades foram lançados para dentro do Lago de
Fogo. Esta é a segunda morte, o Lago de Fogo. E se alguém
não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado
para dentro do Lagode Fogo."
Gostaria de observar de passagem que não deverei
comparecer diante do grande Trono Branco, mas se fosse
comparecer e ser julgado segundo minhas obras fatalmen
te eu seria lançado no Lago de Fogo. Pois pelas obras nin
guém se salva (ver Is 64.6; Jr 17.9; Rm 3.20 e 23 entre ou
tras: estou falando de salvação, não galardão). Não irei
para o Lago porque pela graça de Deus meu nome está la
vrado no livro da Vida. Muito obrigado, Senhor Jesus!
Mas gostaria de imaginar que seja possível observar esse
julgamento. Suponhamos que chega a vez dum índio e nós
podemos acompanhar o caso.
Ouve-se a bronca: "Mas Senhor Deus, como pode?
Nunca jamais chegou alguém a nossa aldeia, a nosso povo
para nos falar de Jesus. Todos nós nascemos, vivemos e
morremos sem nenhuma vez ouvir o Evangelho de Cristo.
Como poderá me julgar?" É claro que o que segue é
mera especulação, mas imagino que a resposta de Deus se
ria mais ou menos a seguinte: "É. Sei. Desgraçadamente
você nunca ouviu. Através dos séculos cansei de mandar
meus supostos servos mas nenhum deles prestou ouvidos e
você ficou sem ouvir. Lamento profundamente! Mas quero
que você saiba que não vou te julgar por um evangelho que
você nunca ouviu. Vou te julgar, sim, segundo as tuas
28
obras." Duas vezes no texto em pauta repete-se a expres
são, "foram julgados cada um segundo as suas obras".
Agora, como é que se pode avaliar as obras de alguém?
Tem de ser dentro do contexto que esse alguém viveu. É
preciso saber o que ele estava sentindo, quais as pressões
que estava sofrendo. É que cada povo tem lei, tem moral,
tem normas de conduta. É claro que sua moral fica aquém
da moral da Bíblia, mas tem moral. Eles entendem que
certas coisas são boas e que outras são más. Então, Deus
vai julgar aquele índio dentro de sua própria cultura, den
tro da lei e moral que ele muito bem conhecia, reconhecia e
abraçava. E Deus vai provar que mesmo dentro daquele
contexto o índio não correspondeu {não esquecer da luz da
criação e a consciência que também serão cobradas). Dian
te do grande Trono Branco não haverá ninguém a dizer
que Deus é injusto.
Não, irmãos, que ninguém se iluda! O índio que nun
ca ouviu o Evangelho está condenado. Para Deus não exis
te "inocente".
A Hipótese Neo-universalista
Mas essa idéia "neo-universalista" exerce um fascínio
tão grande sobre as pessoas em nossos dias que julgo con
veniente tecer mais uns comentários a respeito. Vou partir
da posição já exposta, que a única definição de "inocên
cia" possivelmente válida seria a de ignorância. A saber,
um Deus justo não poderia condenar a quem nunca ouviu.
Pois bem, nesses termos o "cristão" neo-universalista tem
um jesus "monstro" e um deus "sem inteligência". (Sei
que o irmão talvez sinta um mal-estar diante desses ter
mos, mas os escrevo de propósito pois a repulsa que o pró
prio Deus sente diante da hipótese neo-universalista deve
ser bem maior.)
É claro. Se Deus não pode condenar a quem nunca ou
viu (pela hipótese) então o ignorante terá que ser salvo
(lembrar que só há dois destinos para o espírito do ser hu
mano). Mas ai o Evangelho de Cristo passa a ser uma men
sagem de condenação e não de salvação, uma mensagem
de morte e não de vida. Pois enquanto alguém o ouvir é sal
vo (pela hipótese), mas no momento que ouvir se não acei-
29
tar fíca condenado. Já imaginou tamanha "fria" para o
proclamador do Evangelho - andar acabando por aí com a
"inocência" da8 pessoas?! Isso é fazer de Jesus um "mons
tro", pois Ele mandaria pregar a cada pessoa condenando
com isso multidões que, de outra forma, seriam salvas! Já
pensou?
E é também fazer de Deus um ser sem inteligência,
pois enviar o seu Filho para assumir a forma de homem e
sofrer tudo o que sofreu seria simplesmente desnecessário
(pela hipótese). Mas não podemos cometer a irreverência
de fazer de Deus um ser sem inteligência, nem de fazer de
Jesus um monstro, assim o que está errado é a hipótese
neo-universalista.
_ (É estranho como as pessoas se julgam mais justas e
mais sábias que o Criador. A Bíblia diz que Deus criou o
homem à sua própria imagem e semelhança, mas de lá
para cá parece que os homens estão empenhados em devol
ver o favor, pois, a exemplo do neo-universalista, não gos
tando do Deus da Bíblia, bolam um outro deus mais de seu
agrado, um deus sem surpresas indesejadas, um deus bem
do tamanho e do jeito deles. Só que, amigo neo-
universalista, um deus bolado por você será fatalmente
menor que você, um deus pífio, um deus que não é nada.)
Conclusão
Conclusão: Temos de levar Marcos 16.15 a sério. O
Evangelho de Cristo é a única saída para todas as pessoas.
Já que não há inocente perante Deus, é totalmente neces
sário pregar a cada um. Mas aí vem a pergunta: e se al
guém corresponder realmente à luz da criação? Teorica
mente é possível, mas na prática é impossível por causa da
pressão exercida sobre a pessoa pela cultura. Como diz em
1 Jo 5.19, o mundo "jaz no maligno": há forte influência
satânica nas culturas do mundo. E como já expliquei, em
geral as culturas das etnias não-alcançadas são exatamen
te aquelas que giram em torno do culto aos demônios.
Quer dizer, uma criança nascida dentro duma dessas cul
turas é "programada" desde cedo com essa visão de mun
do. Conseqüência: torna-se impossível para ela refletir li-
30
vremente sobre a criação e tirar as devidas conclusões, cur-
vando-se assim diante do Criador.
Novamente surge o problema da "justiça" de Deus.
Como podia Ele criar uma raça que Ele muito bem sabia
iria cair sob o domínio de Satanás, e, como conseqüência,
nasceriam pessoas que seriam "programadas" por suas
culturas e que ficariam sem condições de corresponder à
luz da criação, pagando por isso o preço de passar a eterni
dade no Lago de Fogo? Como pode? Não sei. Deus não ex
plica. Quando Deus não explica uma coisa dessas temos só
duas opções: aceitar ou rejeitar. Rebelar-nos contra Ele ou
curvar-nos diante dele. Existem coisas que pertencem à
soberania de Deus e quem entre nós for sábio as deixará
com Ele! Não é isso que é declarado em Deuteronômio
29.29: "As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nos
so Deus"? Não temos o direito de entender tudo e nem a
obrigação de explicar tudo. Parece-me ser a mensagem
central do livro de Jo: no fim Deus não explicou, não satis
fez a perplexidade de Jo. Ele disse em outras palavras,
"Eu sou grande e você é pequeno, eu sou o Criador e você
não tem condições de discutir comigo" (capítulos 38 a 41).
E ficou por isso. Jo saiu-se bem porque reconheceu sua pe
quenez e calou a boca (Jo 40.3-5; 42.1-6).
Quando introduzimos nossas idéias humanísticas em
qualquer questão é para mostrar mais uma vez a "queda"
idolatra do nosso coração. Vejamos o caso da criancinha
que morre. Vai para o Céu ou para o Inferno? A Bíblia não
diz; simplesmente silencia perante esse assunto. (Nossas
versões despistam ao traduzir "dos tais é o reino dos céus"
em Mateus 19.14; Marcos 10.14,15 e Lucas 18.16,17; a tra
dução correta seria "de tais..." Obviamente, não é verdade
que só crianças entram no Reino, que parece-me ser o sen
tido natural da frase "dos tais..."; adulto também pode. A
"Corrigida" despista quando traduz Marcos 10.15 por "re
ceber o reino de Deus como menino", a "Atualizada" está
melhor quando diz "como uma criança". O que o texto es
tá dizendo é que um adulto tem de receber o reino assim
como uma criança o recebe, que parece-me ser o sentido
natural da frase "de tais..." A criança é simples, a criança
é literalista, a criança aceita cegamente a palavra dos pais.
31
No entanto, estou plenamente convicto de que pode
mos confiar em nosso Deus: Ele sabe o que faz e um dia,
uma vez glorificados, haveremos de entender a razão das
coisas. Vejam o que está encravado exatamente no meio
dos dez mandamentos, aquilo que foi gravado nas tábuas
de pedra: "visito a iniqüidade dos pais no filhos até a ter
ceira e quarta geração daqueles que me aborrecem,e faço
misericórdia até mil gerações àqueles que me amam e
guardam os meus mandamentos" (Êx 20.5,6)! Já parou
para pensar? Vale dizer que a misericórdia de Deus é 250
vezes maior que a punição! De Adão até aqui talvez não te
nha havido 300 gerações ainda: a misericórdia de Deus é
praticamente inesgotável. Pode confiar na justiça de Deus,
meu irmão, pode confiar.
Já ouvi comentar uns dois ou três casos na história das
missões modernas onde Deus fez milagre para garantir que
o conhecimento do Evangelho de Jesus chegasse a alguém
que aparentemente fazia jus à luz da criação. O caso de
Cornélio (Atos 10) quase chega a ser um exemplo bíblico,
mas ele estava cercado de judeus e certamente não estava
limitado à luz da criação. (Pessoalmente, suponho ser exa
tamente assim que Deus faz frente aos eventuais casos
onde alguém parece corresponder adequadamente à luz da
criação. Remove céu e terra, se preciso, mas faz chegar a
luz maior, e necessária, do Evangelho.) Muito bem, mas
observe por favor que jamais no mundo devemos basear
nossa estratégia missionária em dois ou três raríssimos ca
sos. Certamente Jesus, Deus, o Filho, sabia que, eventual
mente, poderiam surgir tais raríssimos casos, mas ao dar
suas ordens nem sequer mencionou a possibilidade. Ao tra
çar sua estratégia missionária, o Senhor Jesus mandou
pregar o Evangelho a cada pessoa. Vamos obedecer?
32
4
Fazer discípulos, não
meramente convertidos
Agora vamos atentar para as palavras do Senhor Jesus
que encontramos em Mateus 28.18-20, a chamada Grande
Comissão de Cristo, A primeira coisa que nos chama a
atenção é a declaração feita no verso 18: "É-me dado todo
o poder no céu e na terra." (Outra versão diz "autoridade"
que resulta na mesma coisa, pois não há autoridade sem
poder.) Em outras palavras, Jesus se declara como Sobera
no do Universo, o Maior. Esta declaração tem pelo menos
dois reflexos para os seguidores de Cristo.
Primeiro, é condição básica de êxito sabermos que
nosso Deus é o Maior. É esta certeza inabalável que nos
dará as condições de enfrentar o inimigo e as circunstân
cias adversas, sem temer e sem vacilar.
Segundo, qualquer ordem dada pela Autoridade Má
xima do Universo exige atenção e respeito total. Para co
meçar, tal atenção e respeito tem de se manifestar numa
exata atenção prestada ao exato sentido da ordem. Preci
samos definir o conteúdo semântico da ordem de forma
completa e perfeita, se possível. Pois, ao proferir uma or
dem, nosso Deus obviamente quer ser obedecido, e de for-
33
ma certa e completa. Então, vejamos agora o conteúdo se
mântico da ordem.
O Sentido da Ordem
Uma tradução rigorosa seria mais ou menos a seguin
te: "Ao irem, discipulai todas as etnias, batizando-as em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a
guardar todas as coisas que vos tenho ordenado." (Tam
bém poderíamos traduzir "fazei discípulos em todas as et
nias".) Constatamos que só tem um verbo no imperativo, a
saber "discipulai". Daí se vê que teremos de procurar a es
sência da ordem nesse verbo. Sei que nossas principais ver
sões traduzem o verbo "ir" como se também estivesse no
imperativo, mas não está: está no particípio. Portanto, não
pode representar a ação principal; é uma circunstância.
Creio que, pensando um pouco, fica claro que o ir não pas
sa de circunstância. A gente "vai" para chegar no lugar
onde deve trabalhar. Alguém poderia passar o tempo todo
indo e nada fazer, um eterno turista. O Senhor Jesus faz de
conta que já estaremos indo, ou já teremos ido (ao pé da le
tra a tradução seria "tendo ido"). Em outras palavras,
onde quer que cada um esteja, conforme a vontade de Deus
para cada qual, a ordem é fazer discípulos.
A ordem é, fazer discípulos. Infelizmente a versão
"Corrigida" despista ao traduzir "ensinai": o verbo ensi
nar está, sim, no começo do verso seguinte, mas não no
verso 19. (Observe-se, de passagem, que a maioria esmaga
dora dos manuscritos gregos que contêm este trecho não
tem a palavra "portanto", razão por que não a coloquei na
minha tradução.) Já que a ordem é fazer discípulos, antes
de mais nada precisamos entender a acepção exata que Je
sus tinha do vocábulo "discípulo", pois aí está o cerne da
ordem.
Então, que entendia Jesus por "discípulo"? O contex
to imediato fornece um bom subsídio, pois o verso 20 diz:
"ensinando-os a guardaT todas as coisas que vos tenho or
denado". Quer dizer que fazer discípulo implica em ensi
nar (não meramente pregar). Mas ensinar o quê? Ensinar
a guardar, isto é, a obedecer a todas as coisas que Jesus
mandou. Mas obviamente ninguém pode obedecer a algu-
34
ma coisa que ignora; daí teremos que ensinar as próprias
coisas que Jesus mandou, e todas elas. Será exatamente
isso que estamos fazendo nas nossas igrejas?
Convido a atenção do leitor para Lucas 14.25-33, úni
ca passagem onde se preserva nas próprias palavras de Je
sus uma definição de discípulo, e onde Ele emprega a pala
vra "discípulo" de sorte que não há como não entender (é
claro que discipulado é abordado em outras passagens,
mas como a palavra "discípulo" não se encontra aí poderia
haver discussão a respeito). Três vezes encontramos a frase
"não pode ser meu discípulo". A expressão é enfática,
principalmente no texto original. Trata-se de condições
absolutas que o Senhor coloca: quem não preencher não
tem jeito. Vamos, pois, às condições:
Aborrecer. A primeira se encontra no verso 26. "Se
alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mu
lher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda também a sua pró
pria vida, não pode ser meu discípulo." Mas que palavra
difícil! Será que tenho mesmo é que aborrecer (o verbo gre
go é "odiar") inclusive aos entes mais queridos? Como po
de? Deus não manda amar as pessoas? - Que será que Je
sus quer dizer com essa palavra tão dura? - Deve ser en
tendida de forma comparativa, assim como está na passa
gem paralela, Mateus 10.37: "Quem ama o pai ou a mãe
mais do que a mim não é digno de mim".
Em outras palavras, Jesus exige de mim, caso me pro
ponha segui-lo como discípulo, que eu coloque meu relacio
na mento com Ele acima de todos os demais relacionamen
tos na vida, quer seja com pai, com mãe, com mulher, com
filhos ou com o próprio "eu". Jesus exige o primeiro lugar,
sem concorrência. Agora, quem sustentar um relaciona
mento assim com o Senhor Jesus se verá, vez por outra,
"brigado (pelo próprio Jesus) a se comportar de uma ma
neira que as pessoas que estão do lado de fora de um tal re
lacionamento com Jesus não irão entender. Não saberão
interpretar corretamente. Vão interpretar como descaso,
desprezo, aborrecimento, ódio até. Senão, vejamos.
Mais de uma vez já houve quem me dissesse bem ob-
lelivnmente, bem claramente, que eu certamente aborre-
olt minha esposa e minhas filhinhas por carregá-las selva
35
adentro, a fim de morarmos em plena aldeia de índios,
como fiz, com efeito. Tais pessoas não conseguiam enten
der meu comportamento. Não dava para entender que um
chefe de família com as minhas condições iria expor essa
família à vida difícil, primitiva, até perigosa de plena selva
amazônica, inclusive dentro de aldeia indígena, privando-
a assim do conforto e das vantagens da cidade. Só podiam
interpretar meu procedimento como falta de responsabili
dade.
E quantos missionários, cujos pais não compartilha
vam o ideal do filho, na hora difícil da despedida, prestes a
zarparem para outra terra, não têm ouvido dos lábios dos
próprios pais palavras mais ou menos assim: "Mas meu fi
lho, você odeia a gente, você vai abandonar a gente, vai se
lascar sabe lá aonde, não faça isso meu filho!". Naquela
hora de angústia os pais lançam mão de exatamente esse
tipo de linguagem: interpretam o procedimento do filho
como descaso, desprezo, ódio até. Daí se vê que ao fazer
uso da palavra "aborrecer" Jesus não estava exagerando,
não estava sendo ridículo. É isso mesmo: aborrecer.
No entanto, gostaria de avaliar a questão daresponsa
bilidade. Será que agi de forma irresponsável ao levar mi
nha família selva adentro para morar com índios? Qual se
ria melhor, a selva com Jesus ou a cidade sem Ele? Se levo
a família para a selva obedecendo à ordem de Jesus, quem
responde pelas conseqüências é Ele. Se permaneço na ci
dade contra sua vontade aí quem responde sou eu. Sei que
a questão é bastante séria como prática, pois conheço ho
mens que sabiam perfeitamente ter um chamado missio
nário mas não atenderam, alegando a esposa: não pode
riam expor a mulher a esse tipo de vida.
Aliás, o Antigo Testamento nos traz o relato de certos
homens que fizeram opção semelhante. Refiro-me aos
guerreiros de Israel em Cades-Barnéia, No cronograma de
Deus estava na hora de invadir a Terra Prometida, mas
dez dos doze espias desanimaram a turma e se rebelaram
contra a ordem de Deus, ordem já dada e conhecida. Como
justificativa, alegaram que se obedecessem seriam mortos
e aí como seria o caso das suas mulheres e crianças. Não
bastasse, ainda, fizeram uma contraproposta a Deus: seria
36
até melhor morrer por ali. (É muito perigoso fazer contra
propostas a Deus, pois Ele é capaz de aceitá-las, como no
caso em pauta.) Como resultado passaram mais 38 anos
vagando no deserto. (Ver Dt 2.14) até que todos os homens
que votaram contra Deus em Cades-Barnéia morressem.
Não ficou um sequer para atravessar o rio Jordão. Já as
mulheres e crianças, a suposta justificativa pela desobe
diência, Deus fez entrar na Terra Prometida.
Meus irmãos, enfrentemos qualquer perigo menos de
sobedecer à vontade conhecida de Deus. Fazer contrapro
postas nem se pense! Nosso Deus se responsabiliza pelas
conseqüências das suas ordens, quando obedecidas. Privar
a família da proteção de Deus, expondo-a às conseqüências
da nossa desobediência, isso sim é ser irresponsável. O
discípulo verdadeiro de Cristo deve sempre preferir "abor
recer" a família, e sua própria pessoa, antes de desobede
cer a Deus. É isso mesmo.
Levar a cruz. A segunda condição se encontra no ver
so 27 (Lc 14). "Qualquer que não levar a sua cruz, e não
vier após mim, não pode ser meu discípulo." Que será que
0 Senhor entende pela palavra "cruz"? Seria o adorno que
alguém leva no pescoço? Algum problema na vida, ou
aquele vizinho que você não agüenta? Não. Há dois mil
anos cruz significava uma só coisa: morte. Representava
maneira de matar, aliás a mais melindrosa da época. Creio
que em Lucas 9.23 temos uma palavra que versa sobre o
mesmo assunto. Jesus disse a todos: "Se alguém quer vir
após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz,
e siga-me." O próprio conteúdo semântico do verbo "le
var" (Lc 14.27) dá a idéia de uma ação contínua. Já aqui,
em Lucas 9.23, temos de "tomar cada dia" a nossa cruz -
parece ser uma morte diária.
Aliás, o apóstolo Paulo usa exatamente essa expressão
• a 1 Coríntios 15.31, dizendo que ele morria cada dia. Mas
como entender essa expressão? Obviamente não se trata
de morte física. Como então? Creio que o "negar-se a si
mesmo" (Lc 9.23) nos aponta o caminho certo. É uma
morte para si, para as próprias idéias, ambições, desejos e
qncreres; é um abrir mão do meu suposto direito de man-
Otr na própria vida. E esta atitude tem de ser renovada
37
cada dia, e quem sabe cada hora. Parece-me ser o efeito da
expressão que achamos em Romanos 12,1 onde fala em
apresentarmos os nossos corpos em "sacrifício vivo".
- Mas essa expressão não lhe parece um pouco estra
nha? No Antigo Testamento, no meio de tantos animais
sacrificados, tantos holocaustos, houve alguma vez sacrifí
cio vivo? Como e quando passava um animal a ser sacrifí
cio? Não era no momento da degola, vertendo seu sangue?
Logo, só teria sacrifícios mortos. Mas Paulo fala de sacrifí
cio "vivo". Creio ser exatamente o "levar da cruz" que já
notamos: é uma morte contínua, viver morrendo. É negar-
se a si mesmo a cada passo. E Jesus declara que sem esta
disposição é impossível ser discípulo dele.
Renunciar tudo. A terceira condição se encontra no
verso 33 (Lc 14). "Assim, pois, qualquer de vós que não re
nuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo." O
"assim, pois" liga este verso às duas ilustrações dadas nos
versos 28 a 32. Creio que essas ilustrações dizem mais res
peito ao ato de entrar na condição de discípulo, que iremos
examinar daqui a pouco, mas interessa observar aqui que
se trata duma decisão consciente e estudada, um ato do
arbítrio. E não pode ser diferente, pois aqui Jesus exige
uma renúncia completa, uma entrega sem reservas - en
fim, uma entrega de "tudo quanto tem".
Avaliando as três condições juntas, podemos consta
tar que, de certa forma, são três maneiras diferentes de di
zer a mesma coisa. Embora uma condição focalize os rela
cionamentos, outra as ambições e a terceira as coisas, são
expressões de uma realidade básica. Nosso Senhor Jesus
Cristo exige compromisso total! Agora podemos afirmar a
definição que o Senhor deu à idéia de "discípulo". Para Je
sus, discípulo é alguém que tem (e mantém) compromisso
total com Ele.
Voltando a Mateus 28.19, vamos ver se entendemos
melhor a ordem. A ordem é fazer discípulos. Discípulos,
não meramente "crentes" ou convertidos, mas discípulos,
na acepção da palavra que o Senhor Jesus tinha, e tem.
Discípulos, pessoas cujas vidas efetivamente giram em
torno da causa e da vontade de Cristo, pessoas que vivem
em função do Reino.
38
O Efeito Estratégico
Que estão a fazer as nossas igrejas, em geral? 0 enfo
que, quase exclusivo, é no evangelismo. Será que não? Es
tamos a fim de "ganhar almas", de ver as pessoas converti
das. (Isso nas igrejas que ainda têm compromisso com a
Bíblia; certas outras não passam de clubes sociais e já es
tão nas mãos do inimigo.) Nas igrejas "tradicionais" ou
"históricas" o novo convertido deve freqüentar os cultos e
participar da vida da igreja; querendo ser bom mesmo pas
sa a ser dizimista. Já nas igrejas "pente eostais" ou "reno
vadas" o novo convertido deve também procurar "a segun
da bênção"; sendo "batizado no Espírito Santo", aí che
gou mesmo. Mas quem está fazendo discípulos no sentido
que Jesus mandou?
Qual será o resultado prático desse enfoque nosso? É
exatamente aquele quadro calamitoso que já comentamos:
meio mundo sem ouvir uma vez o Evangelho de Cristo;
metade das etnias tem sequer um porta-voz de Cristo ain
da. É claro. O enfoque de apenas ganhar almas enche as
igrejas de crianças, crianças espirituais (não tem nada a
ver com a faixa etária da pessoa). Pois bem, e daí? Daí,
criança trabalha? Criança não trabalha, dá trabalho (e
como!) Amados irmãos, estamos diante duma questão do
tamanho do mundo, literalmente. Embora possa doer, pre
cisamos avaliar objetiva e corajosamente este assunto: o
destino eterno do mundo está em jogo.
Menor abandonado não é negócio. Que devemos
pensar de um homem que no âmbito físico anda gerando
filhos sem ter a menor preocupação com a alimentação, o
abrigo^ a educação, enfim o cuidado desses filhos? Com
toda justiça tacharemos este homem de irresponsável, de
inimigo da nossa sociedade. Sim, porque ele está introdu
zindo menores abandonados na sociedade, e, estatistica
mente, muitos deles (provavelmente a maioria) passarão a
Ber marginais e criminosos. Menor abandonado não é negó
cio! Gostaria de sugerir para a reflexão cuidadosa do leitor
que existe uma analogia quase perfeita entre o âmbito físi
co e o âmbito espiritual nesta área.
39
Quando trazemos à luz filhos espirituais (por assim
falar), mas não os discipulamos, não os levamos a fazer
uma entrega sem reservas a Jesus, não os levamos à con
dição de adultos na fé, então acarretamos uma série de
conseqüências negativas. Que é que mais faz pastor enve
lhecer antes da hora? São os incrédulos lá fora, ou é a
criancice dentro da igreja? É claro que é a criancice espiri
tual na igreja. (Observar de passagem que às vezes a justi
ça se faz, pois quando o pastor só prega mensagens evan-gelísticas o maior culpado é ele mesmo, pois não apascenta
as ovelhas. Comida de bodes não serve para ovelha.)
Ao fazer evangelismo pessoal, qual a desculpa que
mais se ouve quando alguém quer se livrar? Ele não apela
para a vida do crente Fulano, Beltrano ou Cicrano? E a
criancice espiritual na igreja. E depois tem os "gatos escal
dados" - são aqueles que dizem, "já fui crente". Que será
que aconteceu com ele? Presumivelmente ouviu a prega
ção, atendeu ao apelo, seguiu as instruções dadas e deu si
nais de vida, participando nas atividades da igreja. Mas aí
Satanás deu em cima dele, a vida de crente não foi aquele
"mar de rosas", houve mais problemas do que bênçãos. E
como ninguém explicou a razão das coisas, como ninguém
o discipulou aí ele começou a desanimar, ficar perplexo,
sentir-se iludido e abandonado. Daí ele vai se distanciando
e quando menos espera já está longe. Agora é "gato escal
dado" pois já foi vacinado. Reconquistar uma pessoa as
sim dá mão de obra, sem comentar todos os reflexos nega
tivos que se espalham pela vizinhança.
Quando pensamos nos povos não-alcançados o proble
ma da criancice espiritual nas igrejas se faz sentir de forma
bem aguda. Precisamos de soldados, e para isso criança
não serve. Via de regra, nem vai se oferecer (ainda bem).
Mas acontece que nem todos os que se apresentam, e que
acabam sendo enviados aos campos missionários, são
discípulos - alguns deles pouco passam de crianças. E se
criança pega em serviço de homem, por acaso o serviço vai
sair bem feito? Dificilmente. A criança, coitada, está fa
zendo por onde, mas não tem a força, o saber, a experiên
cia e a capacidade dum homem. É criança. O mundo per
dido está a espera de adultos, gente grande, discípulos.
40
Amados irmãos, sejamos pais responsáveis! É sim
plesmente uma falta de responsabilidade terrível trazer à
luz filhos (no âmbito espiritual também) sem assumir as
conseqüências naturais e necessárias: alimentar, proteger,
educar e levá-los à condição de adultos. Menor abandona
do não é negócio. Creio que vem muito ao caso o exemplo
do nosso Mestre.
O exemplo de Cristo, e de Paulo. - Como fez o Se
nhor Jesus durante seus três anos de ministério público
aqui na terra? Com quem Ele gastou a maior parte do tem
po? Não foi com doze homens? Andaram juntos, comeram
juntos, dormiram no mesmo lugar, e estavam a ouvir e ob
servar tudo que o Mestre fazia, durante três anos. E Jesus
jogou tudo naquele "time", naqueles homens. Quando Ele
voltou para o Céu o futuro da Igreja estava nas mãos deles.
Se tivessem fracassado, de uma vez a Igreja acabava por lá
mesmo, logo no início.
Mesmo quando Jesus lidava com o povo, como fazia?
Ele promovia campanha evangelística? Não consta. O que
o texto sagrado registra é que o que Ele fazia mais era ensi
nar o povo, às vezes o dia inteiro. Pois Jesus queria discí
pulos. Em qualquer época o bem-estar da Igreja depende
dos discípulos que existirem.
Parece que o apóstolo Paulo, pelo menos, entendeu o
exemplo e a estratégia de Cristo, pois também cuidou de
fazer discípulos. Ao despedir-se da igreja de Éfeso ele afir
mou, "Nada que de útil seja deixei de vos anunciar e ensi
nar, publicamente e de casa em casa" (Atos 20.20), e nova
mente: "Nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de
Deus" (Atos 20.27). Paulo não se detinha numa mensagem
meramente evangelística - queria discípulos. Tudo indica
que a motivação maior ao escrever suas cartas era levar os
convertidos à condição de discípulos, Só para exemplifi
car, podemos citar Colossenses 1.28, Falando de Cristo,
Paulo escreve: "A quem anunciamos, admoestando a todo
homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria,
para que apresentemos todo homem perfeito em Jesus
Cristo."
Efésios 4.12,13 é ainda mais interessante nesse senti
do, pois Paulo atribui o intuito ao próprio Cristo. Foi Ele
mesmo que deu apóstolos, profetas, evangelistas, pastores
e mestres à Igreja, "visando ao aperfeiçoamento dos santos
para a obra do ministério, para a edificação do corpo de
Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e ao pleno
conhecimento do Pilho de Deus, a varão perfeito, à medida
da estatura da plenitude de Cristo." Em outras palavras,
Cristo quer discípulos, na acepção da palavra que já expli
camos. Em 2 Timóteo 2.2 Paulo deixa claro que devem
surgir gerações sucessivas de discípulos, presumivelmente
até a volta de Cristo.
E qual foi o resultado da aplicação desta estratégia
pelos Apóstolos? Alcançaram seu mundo na sua geração.
Se recuperarmos o mesmo enfoque, será que não podemos
também alcançar o nosso mundo nesta geração? Creio que
sim. Senão, vejamos:
Como funciona. Fazer discípulo leva tempo e pode
ser incômodo, mas é a maneira mais rápida, certa e segura
de efetivamente alcançarmos o mundo. À primeira vista,
pensando superficialmente, pode parecer que não. Aliás, a
visão que parece prevalecer no mundo evangélico atual é
de evangelismo em massa: temos de ganhar almas em nú
mero o mais possível. Quanto mais almas em quanto me
nos tempo, melhor. Só que não resolve. Pode dar um cres
cimento rápido aparente a curto prazo, mas acaba ruindo
por não existir o alicerce e a infra-estrutura para agüentar
tamanho peso. Criança não trabalha; dá trabalho.
Para fazer discípulos é preciso gastar tempo com eles,
assim como fez Jesus. E é preciso "abrir o jogo"; não pode
fingir ser um supercrente que não tem problemas, nunca
peca, nunca é atacado por Satanás, etc. (É possível chegar
a ser um discípulo sozinho, mas costuma ser um processo
demorado e dolorido, exatamente por falta de assessor ia.)
Ê preciso explicar a razão das coisas, dar assessoria efeti
va, fundamentar mesmo. Parece ser demorado, mas acaba
sendo mais rápido. Imaginemos que eu seja o único discí
pulo verdadeiro de Cristo no mundo hoje (é claro que não é
verdade, e graças a Deus por isso), só para efeito de raciocí
nio, só para ver até onde a brincadeira leva. Digamos que
neste ano de 1987 eu consiga fazer mais um discípulo, não
somente ganho a alma, mas seguro, fundamento, doutrino,
42
levo a uma entrega sem reservas a Jesus, enfim: discípulo.
Aí no final do ano seremos dois. Certo?
(Talvez alguém esteja duvidando da possibilidade de
fazer um discípulo dentro dum ano. O segredo maior está
na entrega sem reservas a Jesus. Enquanto alguém não fi
zer essa entrega, seu crescimento espiritual será paulatino,
quando tem. É aquele quadro tão costumeiro: três passos
para frente e dois e meio para trás, quando não são três ou
três e meio para trás. A entrega total dá ao Espírito Santo
o direito de agir livremente na vida da pessoa e com isso
ela pode crescer rapidamente, alcançando patamares espi
rituais que a maioria dos crentes sequer chega a vis
lumbrar.)
Muito bem. Durante o ano de 1988 cada um faz mais
um discípulo: ganha e segura, fundamenta, doutrina, en
fim discípula. Aí seremos quatro (dois mais dois). Certo?
Durante o ano de 1989 repetimos a façanha: cada um ga
nha mais um, e discípula. Aí seremos oito. (Você não tem
que ser um evangelista de renome internacional; você não
tem que ganhar 300 almas por ano; basta ganhar uma, des
de que segure, discipule mesmo.) Durante 1990 dobramos
de novo e aí seremos 16. Repetindo a dose, ano por ano,
chegaremos ao final do ano de 1996 com nada menos que
1.024 discípulos! Já pensou? Haverá algum pastor que não
se daria por satisfeito se durante dez anos de ministério
conseguisse criar uma igreja com 1.000 membros? Mas va
mos em frente, vamos ver a segunda década.
Prosseguindo no mesmo ritmo, terminaríamos o ano
de 1997 com 2,048 discípulos. Dobrando cada ano termi
naríamos a segunda década (isto é, em 2006) com nada
menos que 1.048.576 discípulos! Pois bem, aí terminaría
mos o ano de 2007 com 2.097.152 discípulos, e assim por
diante até completar a terceira década com 1.073.741.824
discípulos. É isso mesmo, mais de um bilhão como resul
tado de apenas trinta anos de fazer discípulos, nabase de
um por ano! Se continuássemos assim por mais quatro
anos, alcançaríamos a cifra de mais de 17 bilhões de discí
pulos. Sucede que só (?) temos cinco bilhões de pessoas no
mundo hoje, de sorte que poderíamos perder a metade a
caminho e ainda alcançar o mundo inteiro dentro de 34
anos! Que tal, vamos lá?
Mas, espere aí. Isso tudo começando com apenas um;
mas não sou o único. Será que existem um milhão de discí
pulos verdadeiros (não meros crentes) no mundo hoje?
Creio que sim, e até mais. Muito bem, nesse caso podemos
subtrair vinte anos dos 34 que seriam necessários para al
cançar o mundo. É claro, pois segundo o modelo sugerido
levaria vinte anos para chegar à casa de um milhão. Se já
somos mais de um milhão poderemos terminar de alcançar
o mundo dentro de 14 anos! Será que não?
Sei que várias objeções já se apresentaram a seu pen
samento. Esse quadro é muito idealizado; não leva em
conta as barreiras diversas que existem: barreiras ideológi
cas, políticas e religiosas, barreiras geográficas e de língua
e cultura, a barreira da fraqueza humana com manifesta
ções várias, e principalmente a barreira da atuação satâni
ca e demoníaca no mundo. E agora, "José", como fica?
Bem, reconheço existirem todas essas barreiras, e de fato
são grandes, mas nosso Deus é maior. As barreiras de ideo
logia, política e religião poderemos destruir usando as ar
mas de 2 Coríntios 10.4,5, ao passo que a atuação de Sata
nás e os demônios poderemos vencer fazendo uso dessas e
das outras armas espirituais que o Senhor Jesus coloca à
nossa disposição (ver capítulo VI). Não esquecer também
da "chave de Davi" (Ap 3.7). Já as barreiras de geografia,
língua e cultura deverão ceder diante da tecnologia moder
na - temos ferramentas cada vez melhores para fazer fren
te a esses problemas. E as fraquezas humanas? Bem, aí
vem ao caso exatamente o discipulado e o poder e a capaci
tação do Espírito de Deus. Um alerta se faz necessário
aqui: por "discipulado" refiro-me ao processo de sermos e
fazermos discípulos de Jesus, não de nós mesmos. Muitas
vezes os "grilos" dum discipulador ou do fundador dum
movimento passam a ser "doutrina" para os seguidores, e
com isso vão parar no "brejo", mais dia menos dia. Faça
mos discípulos de Jesus; levemos as pessoas a depende
rem diretamente do Espírito Santo e da Palavra de Deus, e
não de nós; com isso os nossos discipulandos poderão se li
vrar dos nossos erros, pois todos os temos.
44
E ainda há algumas outras considerações que mere
cem menção. Por exemplo, o modelo visa fazer só um discí
pulo por ano, mas de fato podemos fazer mais: pensemos
imediatamente nos muitos milhões de crentes que pode
riam ser díscipulados com alguma rapidez. A estratégia
apresentada no capítulo II vai ao encontro da má distribui
ção geográfica dos discípulos atuais. É bom lembrar tam
bém que nunca iremos ganhar todo mundo; sempre existi
rão pessoas que conscientemente rejeitam o Evangelho de
Jesus Cristo. Jesus não manda ganhar todo mundo (seria
violar o arbítrio das pessoas), e sim fazer com que cada um
ouça e tenha opção consciente. O modelo falou em ganhar
o mundo inteiro dentro de 14 anos, o que não será o caso.
Segundo a ordem em Mateus 28.19 e Marcos 16.15 o alvo é
ver discípulos verdadeiros em cada etnia e cada pessoa
com a opção consciente de abraçar o Evangelho. Então,
com essas ressalvas todas, será que não podemos assumir o
desafio de cumprir as ordens do nosso Mestre até o final
deste século? Vamos para frente!
A Implementação da Estratégia
Agora vamos atentar para a implementação da estra
tégia. Existem pelo menos três questões que devem ser
consideradas, mas primeiro quero voltar à ordem em Ma
teus 28.19: "Fazei discípulos em todas as etnias". A partir
do que constatamos ao considerar o exato sentido da or
dem, entendo duas coisas. Primeiro, a ordem é fazer discí
pulos, nada mais e nada menos. Segundo, parece-me ób
vio que para poder fazer discípulos é necessário primeiro
ser discípulo (ou será que não?). Acaso eu teria condições
de levar outrem a entregar-se sem reservas a Jesus se eu
me recuso a fazê-lo? E como poderei assessorar alguém no
discipulado se nunca andei por lá? Assim sendo, enquanto
eu não for discípulo fico marginalizado: dificilmente pode
rei ter ação efetiva para cumprir a Grande Comissão de
Cristo. E você também. Daí a primeira coisa que devemos
verificar é se somos de fato discípulos. E isso nos leva à pri
meira questão: como ser discípulo.
Como ser discípulo. A questão se divide naturalmen
te em duas partes: como ingressar na condição de discípulo
IS
e como manter em pé essa condição. Como, então, ingres
sar na condição de discípulo? Se podemos comparar o dis
cipulado a um caminho a ser trilhado (diariamente) então
ingressar seria como que passar pelo portão que dá acesso
ao caminho.
Entendo que ingressar na condição de discípulo de
pende de uma entrega deliberada, um ato do arbítrio. Ima
gino ser possível alguém se converter quase por impulso,
tipo pulo no escuro. Está desesperado; alguém chega perto
e explica por aíto o plano da salvação e ele aceita, sem en
tender muito. Já ingressar na condição de discípulo é dife
rente. Creio que as duas ilustrações que estão em Lucas
14.28-32 vêm ao caso. Lembre-se que no verso 33, dando
início à terceira condição, Jesus disse, "assim, pois". Ele
referia-se aos dois casos que acabava de relatar. Uma pes
soa queria construir uma torre, Um rei ouviu dizer que o
vizinho já vinha contra ele com 20 mil soldados e ele só ti
nha 10 mil. Que fizeram os dois? Em ambos os casos a pes
soa estuda a situação, avalia suas próprias condições, cal
cula quanto deverá custar, procura antever as prováveis
conseqüências. Feito tudo, toma sua decisão; finca o pé.
Ou vai construir, ou não vai; ou vai guerrear, ou não vai.
Em qualquer das hipóteses ele tem que arcar com as conse
qüências da sua decisão. É assim com o discipulado - o in
gresso tem de ser um ato pensado, uma tomada de posição.
Creio que é disso que Paulo escreve em Romanos 12.1
quando fala em apresentar os nossos corpos em sacrifício
vivo. A palavra "corpos" deve ser um caso de sinédoque,
onde o corpo representa a vida (se dou o corpo acaso a
alma pode ficar para trás?). O "apresentar" deve ser a en
trega consciente, sem reservas. Meu irmão, você já se en
tregou sem reservas a Jesus? Senão, não é discípulo dele, e
nem pode fazer discípulos,
Sei que esta discussão pode suscitar alguma inquieta
ção no leitor. Parece que estou sendo um tanto radical. Re
conheço. Ê que estou partindo duma definição radical de
"discípulo"; exatamente a definição dada pelo Senhor Je
sus conforme constatamos em Lucas 14.25-33. "Discípulo"
tem compromisso total com Ele.
46
Gostaria de enfatizar novamente que a entrega abso
luta é a chave do crescimento espiritual. Sem essa entrega
o crente permanece criança (espiritualmente) e tem um
crescimento paulatino (se é que tem). A. entrega, que deve
ser renovada cada dia, permite ao Espírito Santo ação li
vre na sua vida, e com isso ele pode crescer rapidamente.
Tudo depende da entrega, pois Deus respeita o nosso arbí
trio. Essa entrega sem reservas é também o fator principal
no enchimento e capacitação do Espírito, indispensável
para que possamos efetivamente alcançar o mundo perdi
do.
Ingressar na condição de discípulo é uma coisa, man
tê-la em pé é outra. Não é nada automático. Já comenta
mos o tomar da cruz cada dia e o sacrifício vivo. É total
mente necessário renovarmos cada dia nossa disposição de
abraçar a vontade de Deus em tudo. É uma atitude a ser
renovada a cada hora, sempre que preciso. Agora, escrever
estas palavras é fácil, mas fazer é outra coisa! A luta diária
do discípulo está justamente aí, manter em pé o relaciona
mento. O fato é que a gente precisa de ajuda. Um dos
maiores benefícios de compartilhar o discipulado com ou
tros é o exemplo e estímulo que os participantes recebem
mutuamente. O compartilhartem um efeito fiscalizador
que ajuda. E quando "abrimos o jogo" os outros podem in
terceder especificamente pela gente, o qual é outra ajuda
importante. Ser discípulo sozinho é possível, mas é difícil.
Contudo, além dos benefícios do compartilhar, existe um
ingrediente indispensável ao discipulado.
Em João 8.31 Jesus disse a uns que haviam crido nele:
"Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramen
te sereis meus discípulos." E se alguém não permanecer?
(E como permanecer se não existe, na língua da gente?)
Em 2 Timóteo 3.16,17 lemos assim: "Toda Escritura é ins
pirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão,
para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o
homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado
para toda boa obra." Um homem de Deus perfeito e perfei
tamente habilitado só pode ser um discípulo que está le
vando a sério mesmo. A expressão "a fim de que" nos faz
entender que é o uso da Escritura Sagrada que leva a CHHII
47
condição. 1 Pedro 2.2 nos ensina que a Palavra é nosso ali
mento; precisamos dela assim como um nenê precisa de
leite. Salmo 1.2,3 deixa claro que nossa saúde espiritual
depende da "lei do SENHOR"; é nossa água espiritual e
necessitamos dela todos os dias. Aliás, devemos mesmo é
meditar nela. Em Josué 1.8 o próprio Deus recomenda a
Josué meditar no livro da lei dia e noite, e promete o resul
tado seguinte: "Então farás prosperar o teu caminho e se
rás bem sucedido". Enfim, é impossível ser discípulo de
Cristo sem acesso efetivo à Palavra de Deus.
Novamente estou sendo radical; por "ser discípulo"
refiro-me ao manter em pé a condição. - Mas será mesmo
necessário meditar na Palavra cada dia? - Bem, aí estão
vários textos relevantes, entre outros. Se devemos nos
exortar cada dia, "por causa do pecado que engana" (Hb
3.13), quanto mais não devemos olhar em nosso "espelho"
(Tg 1.22-25) e nos expor à "espada do Espírito" (Hb 4.12;
Ef 6.17) cada dia? Mas como poderia o apóstolo Paulo dis-
cipular, e como ficaria a situação dos justos do Antigo Tes
tamento? Devemos lembrar que Salmo 1.2,3 e Josué 1.8 e
Deuteronômio 32.47 são do Antigo Testamento, mas creio
que as "regras do jogo" mudam um pouco com a progres
são da Revelação. Temos mais que os justos do Antigo Tes
tamento, e certamente Deus vai nos cobrar mais. Para
exemplificar, o padrão da graça é mais elevado que o pa
drão da Lei. A Lei exigia o dízimo, a graça exige 100% (Lc
14.33). A Lei exigia amar ao próximo como a si mesmo, a
graça exige amar ao irmão assim como o Pai ama o Filho
(João 13.34 e 15.9)! E temos o Espírito Santo que habita
em nós. Creio também que a geração dos apóstolos foi de
certa forma uma época de transição. Mesmo assim, Paulo
se empenhou no sentido de escrever o que faltava, comple
mentando o material neotestamentário que já existia e que
vinha aparecendo. Despedindo-se dos efésios, ele não dei
xou por menos, dizendo: "Encomendo-vos a Deus e à pa
lavra da sua graça que é poderosa para vos edificar e dar
herança entre todos os santificados" (At 20.32). Sei que
embora os padrões que a Bíblia coloca sejam absolutos, ou
pelo menos apresentados em termos absolutos, o nosso vi-
48
ver não é absoluto. Mas o alvo aí está e não me atrevo a di
minuí-lo. Vamos agora à segunda questão.
Fazer discípulos de quem? Para começar, toda e
qualquer pessoa se enquadra no âmbito das ordens de Cris
to, e portanto é alvo legítimo da tentativa de díscipular.
Claro. Isto posto, no entanto, gostaria de voltar à ordem
em Mateus 28.19, "fazei discípulos em todas as e tn ias" .
Através dos séculos e milênios Deus tem demonstrado sua
preocupação com o bem-estar de todas as etnias do mun
do. A primeira declaração aberta dessa preocupação está
na aliança abraâmica: "Em ti serão benditas todas as
famílias da terra" (Gn 12.3). Podemos vislumbrar a impor
tância que Deus dá ao assunto pelo fato inédito de Ele re
petir essa afirmação quatro vezes mais, a saber em Gênesis
18.18; 22.18; 26.4 e 28.14, Hebreus 6.13-18 explica que ao
jurar por si mesmo (ver Gn 22.16-18) Deus deu a garantia
máxima ao propósito declarado. Todas as famílias da ter
ra terão que ser abençoadas. Tanto Pedro (ver At 3.25)
como Paulo (ver Gl 3.8) ligam o Evangelho de Cristo à pro
messa divina de abençoar todas as famílias da terra. No
Novo Testamento várias passagens reafirmam esse propó
sito de Deus: Mateus 12.21 e 24.14, Marcos 13.10, Lucas
2.32 e 24.47, grande parte de Atos e do ministério de Paulo
de forma geral tem a ver com as nações. Apocalipse 5.9
(onde todos os manuscritos gregos menos um dizem: "com
o teu sangue nos compraste para Deus de toda a tribo, e
língua, e povo, e etnia"), 7.9 e 14.6, que são enfáticos, e
para terminar, Apocalipse 22.2.
Muito bem, o Senhor Jesus quer discípulos em cada
etnia. Já no primeiro capítulo explicamos que devem exis
tir pelo menos 6.000 etnias no mundo, das quais umas 200
no Brasil. E a metade delas, tanto no Brasil como no mun
do, não tem porta-voz de Cristo ainda. Pior ainda, dois ter
ços das etnias do mundo (e do Brasil) não têm sequer um
versículo da Palavra de Deus na sua língua. Como já de
monstramos, sem a Palavra é impossível manter em pé a
condição de discípulo; de modo que, no momento, estamos
sem jeito de fazer discípulos junto a 4.000 etnias. Dá para
agüentar isso?
49
Quando falamos em 3.000 etnias sem obreiro, ou 4.000
etnias sem Escritura, creio que devemos esclarecer um de
talhe. As etnias ainda não-alcançadas são povos minoritá
rios. Embora a maioria dessas etnias sejam compostas por
milhares e dezenas de milhares de pessoas (e até centenas
de milhares), existem etnias com menos de mil pessoas.
No Brasil (e na Austrália) há muitas etnias bem reduzi
das, às vezes com menos de cem pessoas. Imediatamente
uma indagação invade a mente. Será que vale a pena ten
tar alcançar um povo assim? (Lembrar que trabalho trans-
cultural pioneiro é pelo menos dez vezes mais difícil que
evangelismo na sua própria língua e cultura: leva anos
para conseguir discípulos.)
Tamanho importa? Jesus mandou fazer discípulos só
nas etnias com pelo menos mil pessoas, ou dez mil? Jesus
não mandou pregar a cada pessoa? (Uma etnia reduzida a
um único sobrevivente ainda estaria dentro do âmbito da
ordem.) Aqui eu gostaria de fazer umas perguntas aparen
temente simplórias. Alguém escolheu quem viria a ser seu
pai ou sua mãe, onde viria nascer, de que cultura viria fa
zer parte? Não escolhi nascer de pais seguidores do Senhor
Jesus, para uma língua que tem a Bíblia há séculos, numa
cultura que me permite escolher qualquer carreira que o
mundo atual oferece. Não escolhi, nem mereci; Deus me
deu. De igual modo, nenhum índio catauixi escolheu nas
cer em plena selva amazônica, para um povo reduzido,
desprezado, perseguido, explorado e quase acabado, com
uma língua que sequer tem forma escrita (ainda), numa
cultura que o condena a morrer na selva sem nenhum co
nhecimento do Evangelho após uma vida de luta contra os
demônios e o "inferno verde" (quem chamou a selva de
"inferno verde" certamente andou por lá uma vez, pois
acertou). Também ele não escolheu. Agora e gostaria que
você pensasse em tudo quanto Jesus representa na sua vi
da, não só agora mas no porvir. Pronto? Agora vou pedir
uma ginástica da imaginação. Procure imaginar que nada
disso você tem, que de repente você trocou lugar com um
catauixi e você está lá sem Cristo, sem esperança e sem
saída, e é ele que está aqui. Nessa hipótese você não gosta-
50
ria que alguém achasse que valesse a pena chegar até você
com a luz do Evangelho?
Dito isso, quero deixar bem claro que não estou aqui
para fazer um apelo emocionante. Não quero que todo
mundo saia correndo selva adentro para ver se acha um
índio para evangelizar. Antes, eu diria: "Não vá!", a não
ser que tenha certeza que é a vontade de Deus para sua vi
da. Trabalho transcultural é muito difícil e não se faz na
base de apelo emocionante, e nem na basede romantismo,
mas sim na certeza inabalável da vontade específica de
Deus para sua vida. Não há emoção nem idéia romântica
que agüente a realidade.
Irmãos, temos de levar a sério o desafio das etnias não-
alcançadas. No momento que assim fizermos vamos en
frentar várias implicações, mas antes de comentá-las veja
mos a terceira questão.
Como fazer discípulos. O primeiro passo é ser discí
pulo. Vem ao caso tudo que já se expôs a esse respeito.
Tudo o mais está resumido em Mateus 28.20: "Ensinando-
os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado". Dis-
cipular implica em ensinar. Ensinar o quê? Ensinar a
guardar, isto é, obedecer. Obedecer o quê? Obedecer to
das as coisas que Jesus ordenou. Como ninguém vai obe
decer coisa que ignora, é necessário primeiro ensinar as
próprias coisas que Jesus ordenou, nada melhor nesse sen
tido do que seguir o exemplo de Paulo, ensinando "todo o
conselho de Deus" (At 20.27).
Será que se faz assim na maioria das nossas igrejas?
Não é mais mensagens evangelísticas que se ouvem? Mas
pregação evangelística é praticamente inútil para crente.
Ele vai fazer o quê, salvar-se de novo cada domingo? Ali
está um crente que tem freqüentado a igreja dominical-
mente durante vinte anos; mais uma vez ele vai e escuta o
quê: ele ouve pela milésima vez como é que se salva. Mas
ele já está salvo! Essa pregação é sem valor para ele; en
trou com fome e sai com fome do mesmo jeito. Que tragé
dia! Comida de bodes não serve para ovelha! (Refiro-me a
crente e incrédulo, assim como em Mt 25.33.) No entanto,
se há 300 ovelhas e três bodes num culto, já viu! A prega
ção vai em cima dos três bodes. E se têm 300 ovelhas e ne-
51
nhum bode a pregação vai em cima dos bodes que não es
tão! É ou não é? Meus amados irmãos, comida de bode
nâo serve para ovelha. Agora, comida de ovelha bode
também pode comer. Se o pastor oferece uma refeição far
ta, bem preparada e temperada, pode dar vontade de co
mer em qualquer bode. Será que não? Mas o principal é
que as ovelhas saiam bem alimentadas. Afinal, o negócio é
fazer discípulos, e é esse o enfoque que deveria dominar os
nossos cultos.
Até aqui eu vinha pressupondo a existência da Bíblia
na língua do povo. Para ensinar a Palavra ela tem que exis
tir. Certo? Quando Jesus disse em João 8.31: "Se perma-
necerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus
discípulos", fatalmente estava pressupondo a existência
dessa Palavra, pois como permanecer numa coisa que não
existe? Quer dizer, tem de existir para a pessoa; a pessoa
tem de ter acesso efetivo à Palavra. Então, se Deus te man
dar para uma das 4.000 etnias que nada têm da Bíblia ain
da, como você vai fazer?
Mesmo que você ache que basta evangelizar, com que
autoridade vai falar se não existe Palavra de Deus na
língua? E não estaria esquecendo da verdade que encon
tramos em Romanos 10.17: "a fé é pelo ouvir e o ouvir pela
Palavra de Deus"? E se você conseguir algum convertido
mesmo assim, onde está o alimento para essa criança re
cém-nascida? Como poderá chegar a ser discípulo? Se al
guém não providenciar a Palavra de Deus nessa língua,
esse convertido fica condenado a ser sempre criança. Está
bom? Condenar um povo a ser sempre criança? Essa não!
Entre as ordens de Cristo não há nenhuma que mande
traduzir a Bíblia. Só há a Grande Comissão que manda fa
zer discípulos. Mas no momento que entendemos que é im
possível ser discípulo sem acesso efetivo às Escrituras, o
fornecimento delas mesmas torna-se logicamente necessá
rio. Não há como cumprir a Grande Comissão junto às
4.000 etnias sem sequer um verso da Bíblia enquanto al
guém não traduzir a Palavra para suas línguas. É por isso,
diga-se de passagem, que o grupo Wycliffe para tradução
da Bíblia, a nível internacional, e a missão brasileira
ALEM {Associação Lingüística Evangélica Missionária)
52
fazem questão de ver a Palavra de Deus traduzida para
cada língua que se fala no mundo (isso levando em consi
deração fatores como bilingüismo e extinção de língua).
Onde a Bíblia já existe mas há crentes analfabetos de
vemos montar cursos de alfabetização nas igrejas para que
cada um possa se alimentar em casa. Creio existir uma
analogia bastante estreita entre os âmbitos físico e espiri
tual no que diz respeito à alimentação. Já pensou, comer
só aos domingos? Quem agüentaria fazer assim no âmbito
físico? Mas multidões de crentes fazem exatamente assim
no âmbito espiritual. Tem jeito? Crente que sabe ler e pos
sui Bíblia passa fome porque quer: poderia ler e meditar
na Palavra em casa. Já crente analfabeto está quase sem
jeito, a não ser que alguém leia para ele em voz alta, ou a
viva voz ou mediante uma gravação. Mas nesse caso como
poderá estudar a Palavra, e meditar nela à vontade? Pare
ce-me claro que a melhor opção é levar as pessoas a ler por
conta própria, sempre que possível. Sei que existem mis-
siólogos que vão discordar da ênfase que estou dando à al
fabetização e à leitura, principalmente para povos cujos
idiomas eram ágrafos até há pouco e que estão acostuma
dos a fazerem tudo oralmente. Respeito as opiniões contrá
rias, mas por todos os argumentos já apresentados mante
nho a posição aqui esboçada. Vamos ver se levamos todo
mundo a meditar na Palavra em casa, diariamente.
No que diz respeito a trabalho transcultural creio que
só conseguiremos fazer discípulos se respeitarmos a língua
e cultura do povo, assim como fez Jesus. Ele se identificou
com a língua e a cultura dos judeus da época (Jo 1.14). No
dia de Pentecoste, o Espírito Santo respeitou a língua ma
terna de cada qual a ponto de fazer um milagre para ga
rantir que cada um ouvisse mediante ela (Atos 2.4-11). En
quanto um missionário não vestir a língua e cultura do po
vo, e (mais importante ainda) enquanto a Palavra de Deus
não for vertida para essa língua, o Evangelho fica condena
do a ser sempre uma coisa estrangeira, uma coisa de fora.
Será que qualquer porta-voz de Cristo não deveria se inte
ressar por tornar seu ministério o mais eficiente possível?
Não é difícil encontrar pessoas que andam ministran
do através de intérprete. Mas eu gostaria que refletíssemos
53
um pouco na seguinte pergunta: E possível fazer discípulos
mediante intérprete? Quem falar através de intérprete não
tem como fiscalizar as alterações que o intérprete fatal
mente vai introduzir. Fatalmente. Quando o intérprete é
servo de Cristo, está por dentro do assunto da mensagem e
é tranqüilamente bilíngüe, então o recado poderá ser en
tregue de forma adequada (embofa quase nunca tão bem
como se o preletor dominasse a língua dos ouvintes). Mes
mo com um intérprete assim, no entanto, numa tentativa
de discipular alguém, não seria o intérprete que discípula
em vez do missionário? Agora, quando o intérprete nem é
convertido, a mensagem será fatalmente deturpada, mui
tas vezes de forma irreconhecível. O intérprete vai filtrar a
mensagem por sua própria cosmovisão, inescapavelmente,
mesmo inconscientemente. Se o missionário pudesse en
tender o que o intérprete realmente está dizendo ficaria
horrorizado e arrasado! Dificilmente se faz discípulo me
diante intérprete.
E cuidado com o bilingüismo. Muitos missionários se
contentam em ministrar através duma língua franca ou
nacional, mesmo quando lidando com pessoas que têm ou
tra língua materna. Creio que raramente se conseguirá fa
zer discípulo através de uma segunda língua (quer dizer,
não a língua materna), por mais bilíngüe que o evangeli-
zando pareça ser (para comprar e vender ou tratar de as
suntos corriqueiros ele pode até ser fluente na língua fran
ca), pois quase sempre a vida espiritual de uma pessoa se
processa na língua materna. Aqui eu poderia relatar vários
exemplos dentro da minha própria experiência e do meu
próprio conhecimento. Quando alguém é tão bilíngüe que
tem praticamente duas línguas maternas (por assim di
zer), ou se chegou até o nível superior (universidade) numa
segunda língua, então essa línguapoderá servir - é que aí
ele já conseguiu o domínio de idéias abstratas e filosóficas
nessa língua. Mas tais casos são poucos diante dos 350 mi
lhões de pessoas que compõem as 4.000 etnias sem um
versículo da Palavra de Deus, É claro que devemos traçar
os planos e as táticas, a fim de enfrentar e resolver o grosso,
não as exceções. Cuidado com o bilingüismo!
54
Conclusão: Quem for fazer trabalho transcultural
deve se esforçar para dominar a língua e a cultura do povo
para o qual for enviado. Se não existe Escritura na língua
ainda, deve providenciá-la. Onde já tem a Bíblia devemos
incentivar o seu uso, por todos os meios. Enfim, devemos
ensinar a obedecer todas as coisas que Jesus ordenou. E
nós temos de dar o exemplo, pois para fazer discípulo é
preciso ser discípulo. Vários ministérios e missões têm pre
parado material que fornece instruções detalhadas acerca
do discipulado. Qualquer livraria evangélica terá livros
sobre o assunto, à disposição do interessado.
Implicações
Encerrando este capítulo gostaria de tecer umas rápi
das observações sobre algumas implicações de tudo isso.
Primeiro, sua compreensão da ordem e estratégia de Cristo
vai determinar seu procedimento, sua maneira de traba
lhar, fatalmente. Se alguém quer fazer uma barraca de pa
lha, vai seguir um procedimento e utilizar material apro
priado para tal. Se outrem quer edificar um prédio de vin
te andares, aí o procedimento e o material vão ser bem di
ferentes. É evidente que nem todo mundo tem condições
de construir um prédio de vinte andares, requer preparo
adequado. Similarmente, nem todo obreiro tem condições
de alimentar as ovelhas. Muitos não sabem estudar, não
sabem como analisar e interpretar o Texto Sagrado. Não
sabem preparar comida para ovelha. (Comida para bode
qualquer um faz; bode come quase tudo.) Quando um pas
tor trabalha oito horas por dia numa atividade secular, se
rá que vai ter tempo e energia para preparar refeições
boas? Parece-me ser uma questão que merece ser estuda
da. Se vamos levar a sério a estratégia de fazer discípulos
poderemos enfrentar a necessidade de fazer algumas modi
ficações nas nossas vidas. Fazer discípulo é uma coisa; me
ramente ganhar almas é outra.
Por favor, nâo me entendam mal! Não estou comba
tendo o ganhar almas; não sou contra o evangelismo. É
claro que temos de ganhar as almas: ninguém pode crescer
sem nascer! Os problemas aparecem quando ficamos lá
nisso, quando não criamos nossos filhos. Também nãO M
55
tou propondo desprezo para com o dom de evangelista. Se
você tem esse dom, graças a Deus! Só gostaria de sugerir
que ao exercitar o dom tenha o cuidado de não deixar um
rasto de menor abandonado. Deve se associar a quem te
nha o dom de ensino para que juntos possam fazer um ser
viço melhor.
Quando enfatizamos as 3.000 etnias sem porta-voz de
Cristo, ou as 4.000 línguas sem versículo da Bíblia, não é
para sugerir que todos devam ir a outro povo, absoluta
mente. Imagino que se todo crente estivesse igualmente
disponível na mão de Deus Ele não mandaria mais do que
10% para outros povos. Primeiro, trabalho transcultural é
muito difícil e nem todos têm capacidade para tanto. Se
gundo, é preciso que alguém fique discipulando por aqui.
Terceiro, trabalho transcultural pioneiro exige tempo inte
gral e portanto os obreiros que enfrentarem esse serviço
precisarão de sustento integral: alguém tem que trabalhar
para produzir esse sustento. Nem todos devem ir, mas to
dos têm obrigação perante a Grande Comissão de Cristo.
Todos devemos interceder, contribuir, divulgar e incenti
var. Tudo que fazemos deve ser em prol do reino de Cristo
aqui na Terra.
Já disse, nem todo mundo deve ser obreiro transcultu
ral, mas todos devem ser discípulos e fazer discípulos,
cada um no lugar e na função que Deus determinar. En
tendo que Jesus quer seus discípulos atuando em todas as
áreas e profissões honestas da nossa sociedade, sendo discí
pulo e fazendo discípulo. Qualquer um pode vestir a facha
da de "santinho" aos domingos, na igreja, mas refletir ade
quadamente o caráter de Deus no "batente" durante os
dias úteis, aí a coisa muda de aspecto. A dona de casa faz
discípulos dos próprios filhos, das vizinhas e das crianças
delas. Professor e aluno fazem discípulos na escola. Car
pinteiro, motorista, advogado, bancário, comerciante,
político, e t c , e t c , cada um sendo discípulo e fazendo
discípulos no seu ambiente. Penso que é assim que deve
mos fazer nosso evangelismo. Em vez de levar bode à igreja
para ser evangelizado, devemos ganhá-Lo primeiro e então
levar o novel cordeiro à igreja para ser alimentado e disci-
56
pulado. Penso que o ministério da Palavra em nossas igre
jas deve girar em torno das ovelhas, não dos bodes.
Resumindo, a ordem (e estratégia) de Cristo é fazer
discípulos, não meramente ganhar almas. Criança não
trabalha; dá trabalho.
57
1
5
Viver em função
do reino, não para si
Prosseguindo, vamos atentar para as palavras do Se
nhor Jesus que encontramos em Lucas 12,31: "Buscai an
tes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescen
tadas." Novamente é uma palavra endereçada a seus
discípulos. Antes de ver o efeito estratégico desta ordem,
vamos recordar o contexto imediato. Nosso texto se insere
numa passagem maior que vai do versículo 13 ao versículo
48. Jesus vinha discorrendo sobre certas verdades básicas
quando um homem o interrompeu com uma questão de in
teresse financeiro pessoal. Jesus aproveitou para dirigir
uma alerta à multidão, uma palavra para todos. "Acaute-
lai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qual
quer não consiste na abundância do que possui." Aí profe
riu a parábola do rico louco, que diante, da fartura reagiu
assim: "Direi à minha alma': Alma, tens| em depósito mui
tos bens para muitos anos: descansa, come, bebe e regala-
te." Mas Deus the disse: "Louco, esta noite te pedirão a
tua alma; e o que tens preparado para quem será?" Aí Je
sus arrematou: "Assim é aquele que para si ajunta tesou
ros e não é rico para com Deus."
Na nossa sociedade há uma falta de compreensão ge
ral quanto aos valores, os princípios básicos ou fundamen
tais que regem a vida neste mundo; a vida de qualquer um,
seja cristão ou não, quer acredite ou entenda, quer não.
Aqui Jesus coloca dois desses princípios. Primeiro Ele aler
ta contra o materialismo: a vida não consiste nas coisas (v
15). Segundo, quem ajunta tesouro para si é louco (v 21),
(até o fim do capítulo veremos porque). A partir do versí
culo 22 o Senhor restringe o enfoque e dirige uma palavra a
seus discípulos.
A Mentalidade do Reino
A ordem que fornece a estratégia em pauta dá um re
sumo dos versículos 22 a 34. Esses versículos nos trazem
nada menos que dez ordens, entre positivas e negativas,
ordens que exprimem uma mentalidade, mentalidade que
gira em torno do reino de Deus. Creio que devemos ler a
passagem toda, antes de comentá-la.
22-(Jesus) disse aos seus discípulos: "Portanto vos
digo: Não estejais ansiosos pela vossa vida, sobre o
que eomereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis.
23 - Mais é a vida do que a comida, e o corpo mais do
que a roupa.
24 - Considerai os corvos, que não semeiam nem cei
fam, não têm despensa nem celeiro, e Deus os ali
menta: quanto mais vaieis vós do que as aves?
25 - Pois qual de vós, por estar ansioso, pode acrescen
tar um côvado (45 cm) à sua estatura?
26 - Portanto, se nem podeis as coisas mínimas, por
que estais ansiosos pelas outras?
27 - Considerai os lírios, como crescem; não traba
lham, nem fiam; digo-vos, porém, que nem Salomão,
em toda a sua glória, se vestiu como um deles.
28 - Ora, se Deus assim veste a erva que hoje está no
campo e amanhã é lançada no forno, quanto mais a
vós, homens de pouca fé?
29 - Não pergunteis, pois, que haveis de comer, ou que
haveis de beber, e não andeis inquietos.
30 - Porque todos os povos do mundo zelam por estas
coisas; e vosso Pai sabe que necessitais delas.60
31 - Buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas
vos serão acrescentadas.
32 - Não temas, ó pequeno rebanho, porque a vosso
pai agradou dar-vos o reino.
33 - Vendei os vossos bens e dai esmola. Fazei para
vós bolsas que não se envelheçam; tesouro nos céus
que nunca acabe, aonde não chega ladrão e a traça
não consome.
34 - Porque, onde estiver o vosso tesouro, ali estará
também o vosso coração."
São dez ordens - "não estejais ansiosos", "considerai
os corvos", "considerai os lírios", "não pergunteis" sobre
comer e beber, "não andeis inquietos", "buscai antes o rei
no", "não temas", "vendei", "dai", "fazei" - dez ordens.
São ordens, não pontos facultativos. Elas requerem uma
mentalidade que se desprende das coisas e dos valores do
mundo que nos cerca, uma mentalidade que gira em torno
do reino de Deus, que vive em função dele. Se todo crente
evangélico tivesse esta mentalidade, não faltaria mão-de-
obra para alcançarmos o mundo e menos ainda o dinheiro,
tanto para sustentar os obreiros como para custear todo o
empreendimento. Aliás, bastaria os crentes do Brasil só e
tomaríamos o mundo de assalto!
Jesus iniciou a palavra no versículo 22 com o vocábulo
"portanto". Ele estava partindo dos princípios básicos que
acabara de anunciar nos versículo 15-21, O trecho em pau
ta termina com estas palavras: "Onde estiver o vosso te
souro, ali estará também o vosso coração". Eis a questão!
Onde está o seu coração? Seu coração, meu irmão, onde es
tá? Se está por aqui neste mundo, você é um coitado. Sim,
porque isso vale dizer que seu tesouro está por aqui, e este
mundo não é lugar certo de se ter tesouro. "Porque nada
trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada pode
mos levar dele! (1 Tm 6.7). (O versículo 8 prossegue: "Ten
do sustento e com que nos vestir, estejamos contentes".)
Podemos mandar na frente, investindo no Reino, mas não
levar junto. Diante da eternidade, quem pensar unicamen
te nos poucos anos que devemos passar aqui na terra é ver
dadeiramente louco.
61
Atentando agora para o versículo 31 (Lc 12), verifica
mos que Jesus fez uma promessa. Promete acrescentar
"todas estas coisas" aos que vivem em função do reino. E
quais são as ditas "estas coisas"? 0 contexto imediato dei
xa claro que são exatamente o que comer, o que beber e o
que vestir. E só! Curioso, não é? Jesus não promete luxo e
nem conforto, só as coisas básicas para manter a vida. En
xergo pelo menos dois motivos. Primeiro, não fosse assim
seria ferir seu próprio exemplo (ver Fl 2.5-8). A começar
pelo nascimento, Jesus levou uma vida humilde; traba
lhou com as próprias mãos; andou a pé pelos caminhos em-
poeirados da Palestina; durante os três anos de ministério
público dependia dos outros, literalmente. (Parece-me ser
a resposta suficiente contra a filosofia "filhinhos do Rei".
Eles argumentam assim: "Nós somos filhos de Deus; Deus
é Rei; filho de rei é príncipe; príncipe tem direito de viver
em palácio e passar muito bem, etc. Não é uma idéia
atraente? Só que não procede; Jesus é muito mais Filho de
Deus do que nós e Ele não viveu assim nesta terra.)
Segundo, os estudiosos do assunto nos afirmam que no
mundo hoje 50% das pessoas são subnutridas, não têm o
básico necessário; outros 40% têm o suficiente, mas é só;
apenas 10% das pessoas ora vivas neste planeta têm mais:
são os privilegiados, materialmente falando. Parece-me
uma questão de lógica: de cada dez obreiros disponíveis na
mão de Jesus, nove devem ser destacados entre os necessi
tados. E como diz a sabedoria do povo, "Comer sozinho é
feio". Um porta-voz de Cristo que representa uma ilha de
luxo num mar de miséria é uma contradição: Jesus não fez
assim. Jesus identificou-se com o povo. É nosso exemplo.
Quando eu morava numa aldeia indígena em plena selva
amazônica nossa "casa" era de palha, a exemplo dos
índios, comíamos o que eles comiam, etc. Procuramos ves
tir a realidade deles. Já em Brasília temos um apartamen
to (simples), mesmo porque o zoneamento não admite casa
de palha, e dirigimos um carro (também simples), pois tra
balhar em Brasília sem carro é difícil. Deus pode dar con
forto, mas não promete. É questão de contexto.
Bem, imagino que alguém vá pensar nas promessas
feitas ao dizimista no Antigo Testamento. De fato, houve
62
promessa de prosperidade para o dizimista. Aliás, entendo
que Deus ainda abençoa o dizimista, apesar de muitos de
les aparentemente julgarem que os 90% lhes pertencem,
que Deus nada tem a ver com isso. Mas o dízimo "já era".
Jesus não está mais esperando 10%; agora Ele quer 100%,
tudo! Não é isso mesmo que Ele disse em Lucas 14.33?
"Qualquer de vós que não renuncia a tudo quanto tem, não
pode ser meu discípulo." "Tudo" não é 100%? 100% não é
tudo? Eu sei, você não está gostando. Parece um absurdo!
E a gente, como fica? Vamos comer o quê? Enfim, como
será possível dar 100%? É simples; basta ser escravo de Je
sus!
Sejamos Escravos de Cristo!
Quando alguém pergunta como eu encaro meu rela
cionamento com Jesus Cristo , e se temos tempo para uma
resposta tranqüila, digo que sou escravo de Jesus. Estou
em boa companhia, pois Paulo (Rm 1.1), Tiago (Tg 1.1),
Pedro (2 Pe 1.1) e Judas (não o Iscariotes, Jd 1) assim se
declararam. É uma escravidão que a gente abraça por
amor (ver Êx 21.1-6), por amor a Jesus, de livre e espontâ
nea vontade. Já sei, alguém não está gostando da idéia de
ser um escravo. Tudo bem, mas nesta hipótese você está
esquecendo de um pequeno detalhe. É que todo mundo é
escravo; faz parte inerente da condição humana. Nasce
mos escravos, vivemos escravos e morremos escravos. Em
João 8.34 o Senhor Jesus declarou: "Em verdade, em ver
dade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo
do pecado." O ser humano sem Deus não tem opção; nasce
pecador e continua escravo do pecado até a morte. Ser es
cravo do pecado vale dizer ser escravo do "eu" é a nossa
desgraça; somos egoístas (é o que nos leva a nos rebelar
contra Deus) e ser escravo do nosso ego vale dizer ser es
cravo de Satanás, pois sozinho ninguém pode contra ele.
Mas Jesus oferece opção, aleluia! A opção não é deixar de
ser escravo, essa não. A opção é trocar de dono!
Passei a ser escravo de Jesus Cristo no dia 13 de abril
de 1956, faltando poucos dias para o meu vigésimo segun
do aniversário. Praticamente nasci crente, pois desde que
me entendi sempre cria no Senhor Jesus: era crente, mas
63
não era discípulo; faltava a entrega sem reservas. Antes de
13/04/56 ainda estava às voltas com minhas próprias idéias
e ambições, meus desejos e quereres. Ê que ainda estava
tentando escolher o próprio caminho, dirigir os próprios
passos. Como era triste! Só "dava com os burros nágua".
Não tinha nem burro nem água que chegasse. Pois então,
aonde um jovem com seus vinte anos iria achar a sabedo
ria, o conhecimento, a capacidade de mandar na própria
vida? Teria aprendido quando e com quem? (E aos qua
renta anos, ou aos sessenta, será que a coisa melhora o su
ficiente?) A Bíblia deixa claro que o ser humano não tem
condições de dirigir os próprios passos (ler, por favor, Jr
10.23; 17.9; Pv 20.24; 28.26). Antes de me tornar escravo de
Jesus, eu estava na mão de um dono sem saber, sem poder
e sem condições, estava numa situação triste. Mas agora
estou numa boa, na melhor delas, por sinal! Estou na mão
dum Dono que tem todo saber, todo poder e que além do
mais me quer bem, tanto prova que morreu por mim. Po
deria existir um "galho" melhor?
Vamos ver como funciona. Pensemos no caso dum es
cravo no tempo de Jesus. Um escravo tinha direitos? Não.
Para que existia um escravo? Para servir, servir a seu do
no. Um escravo não passa de um escravo. Há mais de trinta
anos eu vivo na base de Lucas 12.22-34. Há mais de trinta
anos não sei de mês em mês o quanto que Deus vai me dar,
pois quase nunca é a mesma quantia dois meses em segui
da (é que não tenho salário ou ordenado fixo ou garantido).
No entanto, nunca passei fome. A esposae as filhas tam
bém nunca passaram fome. Já andei com quatro nós no ca-
darço (antes de casar), mas nunca andei sem sapato. A
família anda bem vestida. Na verdade nunca passamos
necessidades.
E se o dono dá ordem que implica em despesas (cons
truir uma casa, por exemplo), aí ele tem de fornecer o ma
terial, etc. Quer dizer, o que o dono encomendar ele tem de
pagar. O que Jesus encomenda Ele paga. No meu caso es
pecífico, Jesus encomendou dois mestrados e um doutora
do. Custaram bastante dinheiro - Jesus pagou tudo; eu
não tenho nada. O que já andei de avião daria para circun-
64
dar a terra mais de uma vez - Jesus pagou tudo; eu não te
nho nada. O que Jesus encomenda Ele paga.
De fato tenho só uma preocupação maior na vida: sa
ber exatamente aquilo que meu Dono está encomendando.
Uma vez que tenho certeza vou embora sem olhar para
trás. A coisa está garantida. Posso imaginar que meu Dono
vai faltar à sua palavra? Posso duvidar que meu Dono pos
sa ou queira me sustentar (SI 24.1)? Qual a dúvida que
pode restar? Confesso não entender, de certa forma, por
que tantos crentes não querem ser escravos de Jesus, não
querem se entregar sem reservas (espero que ninguém se
espante com esta abordagem, pois quando falo de "escra
vo" estou falando do discípulo verdadeiro que apresenta
mos no capítulo anterior, nada mais). Pode ser que estejam
fazendo a pergunta errada. Imagino que muitos pensem
assim: "Quanto será que vai me custar ser escravo (ou
discípulo) de Cristo?" Não é a pergunta certa.
A pergunta certa seria: "Quanto vai me custar se eu
nâo for um escravo de Cristo?" Em vez de pensar em tudo
que Jesus possa exigir, no abrir mão das ambições e dos de
sejos, na possibilidade de ser enviado para a selva a traba
lhar com índios, deveríamos pensar nas conseqüências da
falta duma entrega sem reservas a Jesus. O preço de não
viver em função do Reino de Cristo é tão somente perder
sua vida. É isso mesmo; custa a vida. Vejamos as palavras
do Senhor Jesus em Lucas 9.24 e 25. Aliás, podemos come
çar pelo verso 23. "Se alguém quer vir após mim, negue-se
a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me, Porque,
qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas,
qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salva
rá. Porque, que aproveita ao homem granjear o mundo to
do, perdendo-se ou prejudicando-se a si mesmo?" Jesus
fala em perder a vida (não pode ser a alma, como sugere o
rodapé de alguma Bíblia, pois perder a alma por amor de
Cristo é impossível). Não seria exatamente a vida que se
perde quando alguém dá um tiro na cabeça; é a vida vivi
da. E o que representa a minha vida, tudo que fiz até aqui
e que irei fazer até a morte ou o arrebatamento da Igreja, o
que ocorrer primeiro. É essa a vida que está em jogo.
65
Vamos ver se entendemos melhor essa palavra de Je
sus. Parece ser quase uma contradição - se perder, salva;
se quiser salvar, acaba perdendo. Como será que funciona?
Voltemos ao texto para ver o contexto. No versículo que se
gue à passagem em pauta (v. 26) Jesus se refere à sua se
gunda vinda. A passagem paralela, Mateus 16.27, esclare
ce melhor: "Porque o Filho do homem virá na glória de seu
Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as
suas obras." Cristo estava pensando na prestação de con
tas. É que "todos havemos de comparecer ante o tribunal
de Cristo" (Rm 14.10) onde "cada um de nós dará conta de
si mesmo a Deus" (Rm 14.12). "Porque todos devemos
comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um
receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem,
ou mal" (2 Co 5.10). Entendo que 1 Coríntios 3.11-15, diz
respeito ao mesmo acontecimento, a prestação de contas.
Depois de declarar que o único fundamento é Jesus Cristo,
Paulo fala de construir com "ouro, prata, pedras precio
sas", ou com "madeira, feno, palha". (Embora a interpre
tação primária deste texto deva referir-se à atuação dos
obreiros na igreja, parece-me claro que aplica-se também
ao viver de cada um, desde que convertido.) É que nossas
obras serão provadas por fogo. Se o fogo tem efeito sobre
ouro e prata, é apenas purificar; já o efeito sobre feno e pa
lha é devastador. Muito bem, e daí?
Vamos voltar à criação. Deus criou o ser humano para
sua glória; para refleti-la e contribuir para ela. Creio que,
por extensão, podemos entender Isaías 43.7 assim. Mas
essa capacidade Adão jogou por terra quando rebelou-se
contra Deus. É por isso que a condenação que pesa sobre o
ser humano é que fica "aquém da glória de Deus" (Rm
3.23). Mas o Filho veio ao mundo recuperar o potencial
perdido. Efésios 1.12 e 14 explica que o plano da salvação
visa a "o louvor da sua glória". E 1 Coríntios 10.31 traz a
seguinte ordem: "Portanto, quer comais quer bebais, ou
façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de
Deus." É que fomos "criados em Cristo Jesus para as boas
obras" (Ef 2.10). Com isso Deus não está querendo "estra
gar" nossas vidas, tirando todo o prazer delas (como mui
tos parecem imaginar). Ele não está sendo arrogante, exi-
66
gente demais. Muito pelo contrário, Ele gostaria de evitar
que percamos as nossas vidas. Sim, porque a glória de
Deus é eterna (Salmo 104.31) e quando faço uma coisa
para a glória dele essa coisa se transforma, adquirindo va
lor eterno: passa a ser "ouro, prata, pedra preciosa". As
obras feitas para a glória de Deus passarão pelo fogo sem
prejuízo. Já as coisas feitas em função das próprias ambi
ções e idéias são "palha". Certamente todos já ouviram fa
lar em "fogo de palha", mas você já viu? É impressionan
te!
Pois é isso aí. Ser escravo de Jesus implica em viver
em função do Reino, implica em fazer tudo para glória de
Deus. Com isso o escravo "salva a vida" pois estará er
guendo a vida com "ouro e prata" que passará pelo fogo do
Tribunal de Cristo tranqüilamente. Já aquele crente que
rejeita a condiçãp de escravo de Jesus vai erguer a vida
com "feno e palha" que será consumido pelo fogo, e com
isso ele "perde a vida" - ele viveu em vão; o potencial que
representava sua vida foi jogado fora. Que tragédia!
(Imagino que alguém possa dizer: "Pois não, pois não.
Entendi. Estou perdendo minha vida. E daí, o que você
tem a ver com isso? Se quero jogar fora minha vida, o
problema é meu!" Bem, de fato, é verdade, o problema é
seu. Mas eu gostaria que você refletisse numa coisa: o
problema não é unicamente seu; não é só seu! É também
das pessoas que deveriam ter sido alcançadas através da
sua vida, e não o foram. É também do próprio Cristo que
foi lesado naquilo a que tinha direito.)
Entendo que cada crente deve viver em função do Rei
no, deve ser um discípulo verdadeiro de Cristo, deve ser
um escravo de Jesus. Mas não quero deixar a impressão de
que todo mundo deve levar a vida exatamente como eu
(nem quero deixar a impressão de que eu seja um escravo
ou discípulo perfeito; não, infelizmente ainda me rebelo
contra meu Dono, vez por outra sou pecador). Pelo contrá
rio, imagino que muitos, até mesmo a maioria, vão exercer
funções que implicam em salário ou ordenado, e isso se
gundo a vontade de Deus. A questão fundamental é a men
talidade. Sua vida gira em torno de quê? Você está vivendo
67
em função de quê? No íntimo você está dependendo de
Deus, ou do salário? E esse salário, quem manda nele?
Também não quero sugerir que todo mundo deva ser
pobre. Não necessariamente. Entendo, inclusive, que cer
tas pessoas têm o ministério de ganhar dinheiro. Eu ia di
zer o "dom", mas já catei todas as listas dos dons espiri
tuais e não achei, (Já pensou? Fosse dom, aí todo mundo
iria querer!) Mas digo "ministério" porque Deus dá o di
nheiro para investir no Reino. Estou pensando nominal
mente em vários homens da geração próxima passada que
tinham este ministério. Eram multimilionários em dóla
res, Deus abençoava de maneira impressionante. Mas é
que eles tinham a mentalidade do Reino. Sabiam que
aquilo tudo não era para eles curtirem sozinhos. Investiam90% do lucro na causa de Cristo. Era sua função no reino
de Deus. Importa é a mentalidade!
Resumindo, ser escravo de Jesus é questão duma en
trega sem reservas, dum compromisso total com Ele. Po
rém, posso imaginar que alguém esteja pensando: "Bem,
essa idéia toda talvez funcione para norte-americano, onde
todo mundo tem dinheiro (e dólar), mas aqui no Brasil vai
ser diferente. Aqui estamos em plena crise econômica, e
além do mais a maioria dos crentes evangélicos do país são
pobres." Essa colocação merece uma avaliação cuidadosa.
Somos Pobres Demais?
Quer dizer que somos pobres demais? Obedecer às or
dens de Cristo é privilégio só de ricos? Será que nossa
Bíblia traz Marcos 16.15 de forma completa? Talvez de
veríamos ler assim: "Ide por todo o mundo, desde que seja
norte-americano (ou sofrivelmente inglês, alemão ou sue
co), pregai o Evangelho a toda a criatura." Que tal? Antes
de aceitarmos essa tese, vamos examinar a questão com
mais cuidado. Podemos voltar ao começo,
Os primeiros crentes, lá em Jerusalém, eram ricos ou
pobres? Parece que a grande maioria era pobre; tanto as
sim que os poucos abastados começaram a vender proprie
dades para alimentar os demais. Deu-se aí o caso de Ana-
nias e Safira (At 4.32; 5.11). É que os crentes não quiseram
sair de Jerusalém, apesar das palavras do Senhor Jesus
68
que achamos em Lucas 24,49 e Atos 1.8. O próprio Deus
mandou então as perseguições que dispersaram os crentes.
Foi aquela turma de pobres que se espalhou pelo mundo
pregando o Evangelho.
Em 2 Coríntios 8.1-5 encontramos um relato interes
sante que vem exatamente ao encontro do nosso assunto,
01 - Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça
de Deus dada às igrejas da Macedônia;
02 - Como em muita prova de tribulação houve abun
dância do seu gozo, e como a sua profunda pobreza
abundou em riquezas da sua generosidade.
03 - Porque, segundo o seu poder (o que eu mesmo tes
tifico), e ainda acima do seu poder, deram voluntaria
mente,
04 - Pedindo-nos com muitos rogos a graça e a partici
pação deste serviço, que se fazia para com os santos.
05 - E não somente fizeram como nós esperávamos,
mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor...
Os crentes macedônios eram paupérrimos ("profunda
pobreza"). Além do mais, estavam passando por muita tri
bulação. Mesmo assim, fizeram questão de contribuir.
Pelo versículo 4 podemos deduzir que o apóstolo sentiu-se
um pouco constrangido diante da situação dos macedônios
pois eles próprios precisavam de ajuda; como então levan
tar uma oferta nesse contexto? Mas eles insistiram junto a
Paulo: queriam dar. E deram mais do que podiam ("acima
do seu poder"). Mas como seria possível isso? É que ti
nham a mentalidade do Reino: No versículo 5 lemos que
"a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor". E cer
tamente estavam por dentro do segredo da economia de
Deus, que está descrita em 2 Coríntios 9.8, Mas antes de
atentar para esse segredo, gostaria de pensar mais um pou
quinho sobre nossa pobreza diante dum mundo perecendo
sem Cristo.
Vem à mente o caso da multiplicação dos pães (Mt
14.13-21; Mc 6.31-44; Lc 9.10-17; Jo 6.1-13). Jesus tentou
se retirar (por água) para um lugar isolado, mas nada feito.
Alguém percebeu e a multidão chegou na sua frente (por
terra). Como sempre, Ele sentiu compaixão, pois eram
como ovelhas sem pastor. Passou a ensiná-los, o dia todo.
69
Finalmente os discípulos chegaram ao pé dele sugerindo
que a multidão fosse despedida, pois por ali não tinha
como achar alimento. Você se lembra da resposta de Jesus
àquela iniciativa? "Dai-lhes vós mesmos de comer!" Já
pensou? Já parou mesmo para refletir? Diga-me aí por ca
ridade, com quê? Como poderiam os discípulos obedecer à-
quela ordem?
Vamos parar para relembrar o quadro. Diz o Texto
Sagrado que eram quase 5.000 homens contados, sem cal
cular as mulheres e as crianças. Agora, quando se vê
qualquer multidão por ali, o que que mais tem? Não é mes
mo mulher e criança? Quer dizer, imagino que aquela mul
tidão tenha sido composta de 15.000 pessoas, no mínimo.
Muito bem, procure imaginar que você seja um daqueles
doze discípulos, e você acaba de ouvir o Mestre dizer:
"Dai-lhes vós de comer". E agora, como fica? Os discípu
los tinham alguma coisa? De fato, não. Nem dinheiro (que
nada adiantaria, pois era um lugar isolado, sem mercado
ou restaurante) e nem comida tinham. Mesmo os cinco
pães e dois peixinhos eram dum rapaz na multidão.
Será que Jesus falou sério, ou teria sido uma brinca
deira (meio sem gosto a essa altura)? Não sei, mas prefiro
pensar que Jesus não iria brincar dessa forma. Mas se fa
lou sério, como poderiam os discípulos obedecer? Só ope
rando milagre. Mas eles se sentiram sem condições e de
volveram o "abacaxi" para Jesus descascar, e Ele o fez
muito bem. Mas foi Jesus que entregou o pão e peixe à
multidão? Não. Vamos pensar mais um pouco no quadro,
pois devemos ainda sentir a fé dos discípulos.
Diz o Texto Sagrado que a multidão saiu saciada. Não
foi uma coisa só para enganar o estômago, ficaram satisfei
tos. Agora, já pensou quanto pão e peixe precisaria para
fartar 15.000 pessoas que estavam sem almoço? Certamen
te quando Jesus abençoou e partiu aqueles pães e peixi
nhos não houve uma multiplicação instantânea tamanha
que daria para a multidão. Nesse caso a tremenda pilha de
pão e peixe iria soterrar Jesus, os discípulos e quem mais
por perto estivesse! Sério. Basta parar e pensar um pou
quinho. Podemos ter certeza de que não foi assim. Quando
70
Jesus colocou pão e peixe nas mãos dos discípulos, era só o
que tinham até esse momento.
Agora, procure imaginar que você fosse um daqueles
discípulos, e você com esse pouco de pão e peixe na mão ti
nha que alimentar mais de mil pessoas (doze discípulos e
quinze mil pessoas). Já pensou? Você não iria se sentir
ridículo ao tomar o primeiro passo em direção ao povo? No
entanto, sabe lá como, os discípulos acharam a coragem e
se aproximaram do povo. O primeiro se serviu e, maravi
lha, ficou no mesmo! O segundo se serviu, e ficou no mes
mo. Aleluia, não acabava nunca! Ao passo que foram dis
tribuindo, a comida foi multiplicando. Se tivesse desistido
pela metade, metade do povo teria ficado sem comer. Se
tivessem comido primeiro, imagino que a coisa teria estan
cado logo no começo e a multidão ficava faminta. Os discí
pulos comeram por último, mas comeram muito bem,
obrigado. (Você já experimentou comer um cesto de pão?)
Eu acho graça, pensando naquele quadro, até lembrar
que o Senhor Jesus ainda está a nos dizer: "Dai-lhes vós
mesmos de comer", só que desta vez são nada menos que
8.000 etnias e 2,5 bilhões de pessoas perecendo diante
duma falta absoluta do Pão da Vida. E nós, que nem os
discípulos, a dizer, "Com que, Senhor?" Enquanto ficar
mos olhando para as nossas mãos vazias não vamos achar
a coragem para enfrentar o desafio do mundo perdido. Não
depende das nossas mãos vazias, depende das mãos cheias
de Jesus! Não depende da nossa fraqueza e pequenez, de
pende de Jesus, do que Ele tem e pode. Temos de apren
der como colaborar com Deus, e realmente fazê-lo. Enfim,
precisamos entender como é que funciona a economia de
Deus.
A Economia de Deus
Os capítulos 8 e 9, inteiros, de 2 Coríntios versam
sobre oferta, dar, contribuir, enfim, dinheiro. Mas é a par
tir de 2 Coríntios 9.6 que encontramos a descrição de como
a economia de Deus funciona. Esse versículo enuncia um
princípio básico, fundamental que é de aplicação geral,
pois atinge a todos. "E isto afirmo: Aquele que semeia
71
pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com abun
dância, com abundância também ceifará."
Qualquer agricultor entende isso. Se ele plantar pouco
feijão, vai colher pouco feijão. Se ele quer mais, tem de
plantar mais. Qualquer homem de negócios também en
tende. Se ele quer dinheiro, tem de plantar dinheiro, só
que aí usamos o termo "investir". É o mesmo princípio.
Mas tem um detalhe que às vezes podeser incômodo: é
preciso plantar primeiro, para colher depois. É melhor
apertar o cinto do que comer a semente, por mais fome que
esteja sentindo. É claro, pois quem comer a semente não
vai plantar nada, e quem planta nada, colhe nada!
A natureza às vezes é pródiga. O campeão deve ser o
milho. Imagino que muitos leitores já tenham plantado
milho. A gente costuma colocar três ou quatro grãos numa
cova, mas suponhamos que certa vez caia só um. Se esse
grão germinar, nasce um pé. Certo? E esse pé deve produ
zir duas espigas boas (a terceira costuma ser murcha).
Agora, você já contou quantos caroços uma espiga tem?
Pois eu já. Se ela for franzinha, talvez tenha 300 grãos.
Uma boa espiga deve ter por volta de 500 grãos. Uma se
nhora espiga pode ter até 800! Suponhamos que nosso pé
de milho nos dê duas espigas boas. Plantamos um grão e
receberemos de volta 1.000 grãos! Não é negócio? Mesmo
um feijão que nos dê apenas umas dúzias por um não deixa
de ser negócio. É assim que Deus faz.
Como já observamos o contexto é financeiro, e o versí
culo 7 deixa claro que ao falar sobre plantar e colher o au
tor quer que apliquemos o princípio ao dar. "Deus ama ao
que dá com alegria." Creio que podemos tranqüilamente
entender o seguinte: quem dá muito, recebe muito; quem
dá pouco, recebe pouco; quem dá nada, recebe nada. Tal
vez seja por isso que muitos crentes, inclusive obreiros, es
tão sempre apertados financeiramente. Não dão; nunca
contribuem. Lucas 6.38 mostra a reação dos homens e Pro
vérbios 3.9,10 a reação de Deus quando alguém dá.
Agora vamos ao "segredo"; está no versículo 8 (2 Co
9). "Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a gra
ça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência,
abundeis em toda a boa obra." Vamos observar com cuida-
72
do o conteúdo semântico. É Deus que é poderoso, não a
gente. É Ele que vai fazer abundar em nós, não a gente
que vai abundar. E Ele vai fazer abundar em nós "toda a
graça"; a graça no caso é a graça de dar, de contribuir
(lembrar 2 Co 8.1, "a graça de Deus dada às igrejas da Ma-
cedônia", que foi exatamente a graça de dar, inclusive
mais do que podiam). Agora o Texto amontoa palavras en
fáticas: "sempre", "tudo", "toda", "suficiência", "abun
deis", "toda". Essa ênfase toda é para garantir dois resul
tados: a gente deve sempre ter o suficiente (pelo menos), e
a gente deve abençoar grandemente os outros. Vamos ver
como funciona.
Entendo que é o seguinte. Deus quer que sejamos ca
nais, veículos ou canos através dos quais Ele pode encami
nhar um fluxo de bênçãos, tanto materiais como espiri
tuais, a terceiros. Muita coisa que a gente recebe não seria
exatamente para o uso da gente (tem outro endereço), e a
gente tem que reencaminhar a bênção (o outro endereço
temos que discernir pelo Espírito). Quando a gente corres
ponde e colabora com Deus, aí Ele manda mais. Quanto
mais fiel e sensível a gente for, mais Deus vai mandar, um
fluxo de bênção cada vez maior. Mas se Deus enviar uma
bênção, digamos uma quantia de dinheiro, que tem outro
endereço e a gente não quer entender, não quer colaborar,
segura para si, aí a gente passa a ser um "cano entupido".
Que coisa triste um cano entupido, é uma negação! Aí es
tanca o fluxo da graça de Deus através da minha vida, pois
Ele pára de mandar. É claro. Para que Deus vai continuar
mandando se eu não deixo passar? Será que nossas igrejas
não estão cheias de "canos entupidos"?
Quando colaboramos com Deus, Ele ganha, os outros
ganham e nós também ganhamos. Mas quem recuar, omi
tir-se, estará prejudicando a si mesmo, aos outros e ao pró
prio Deus. Vejamos os versículos que seguem: 9-14 (2 Co
9). O versículo 9 diz respeito à última frase do versículo 8,
sendo uma citação do Salmo 112.9. Os versículo 10 e 11:
"Ora, aquele que dá semente ao que semeia, e pão para co
mer, também suprirá e aumentará a vossa sementeira; em
tudo sendo enriquecidos para toda a generosidade, a qual
faz que por nós se dêem graças a Deus." Mas que maravi-
73
lha! Deus dá até a semente para a gente plantar; e para
evitar que alguém coma essa semente, ao mesmo tempo
Ele dá o pão para a gente comer. Ele visa exatamente à se-
menteira, Ele está querendo ver os frutos. Quando a gente
é fiel, colabora, aí Deus não somente supre mas aumenta
nossa sementeira; em outras palavras, Ele aumenta a nos
sa generosidade, ou pelo menos o fará ao passo e na medida
que cooperamos com seu propósito. Como resultado certo e
justo desse processo, Deus recebe aquilo a que faz jus: os
beneficiados rendem graças a Ele.
Os versículos 12 e 13 ampliam esse aspecto. "Porque o
exercer deste ministério não só supre as necessidades dos
santos, mas também redunda em muitas graças a Deus;
através desta ministração aprovada, glorificam a Deus
pela obediência que acompanha vossa profissão do Evan
gelho de Cristo, pela liberalidade da partilha com eles, e
com todos, e através da oração deles por vós, tendo de vós
grande saudade por causa da superabundante graça de
Deus que em vós há" (2 Co 9.12-14). Assim, quando nos as
sociamos à economia de Deus Ele recebe a glória devida, as
necessidades dos santos são supridas, e nós somos aben
çoados. Primeiro, as pessoas que recebem os benefícios do
nosso ministério oram a nosso favor, e certamente Deus há
de atender a essas orações. Segundo, mesmo sem tal ora
ção, nossa obediência há de receber os efeitos da fidelidade
de Deus. Não somente temos as declarações e promessas
desta passagem, mas o próprio interesse divino está em jo
go, pois um "cano" fiel e útil não pode morrer de fome.
Então, meus irmãos, é isso aí. Deus não fica devendo a
ninguém. Vale a pena repetir: Deus não fica devendo a
ninguém! Somos pequenos demais; não é à gente que
Deus vai ficar devendo. Ele não aceita. Podemos confiar:
quem dá muito, recebe muito; quem dá pouco, recebe pou
co; quem dá nada, é porque quer receber nada. Parece-me
ser verdade que este princípio, assim como o dízimo, fun
ciona mesmo quando a motivação da pessoa é interesseira
ou egoísta. No entanto, creio que o leitor há de convir que
meu apelo todo tem sido contra o egoísmo. É devido às
"compaixões de Deus" que devemos apresentar as vidas
em, "sacrifício vivo" (Rm 12.1). É pelo privilégio e o prazer
74
de participar r a graça de Deus que devemos dar. Creio ser
verdade dizer que nossa prosperidade está nas próprias
mãos, pelo menos em parte (infelizmente é também verda
de que podemos sofrer pela desobediência dos outros, as
sim como eles podem sofrer pela nossa). Mais do que isso,
a situação financeira do empreendimento missionário está
também nas nossas mãos. Se colaborarmos com Deus não
faltará dinheiro para sustentar os missionários que Ele es
tá chamando e nem para custear todos os demais aspectos
da obra.
A "Promessa de Fé"
Um procedimento que muito se usa em nossos dias
para levantar fundos para missões é a chamada "promessa
de fé" (no sentido de uma promessa feita pela fé). Entendo
ser exatamente uma aplicação específica da verdade ex
posta em 2 Coríntios 9.8. O procedimento funciona da for
ma seguinte. Vamos colocar o assunto em termos de igreja
local embora funcione também para indivíduo bem como
para uma convenção. (Há vários anos apresentei este pro
cedimento numa igreja e apenas um homem aceitou o de
safio: ele, sozinho, passou a contribuir mais para missões
do que o resto da igreja toda.) A aplicação do princípio in
depende do tamanho do grupo que vai pô-lo em prática.
Vejamos, então, o caso duma igreja local.
Creio que quem mais popularizou o procedimento foi
o saudoso doutor Oswald J. Smith e a "Igreja do Povo" em
Toronto, no Canadá. Se não me engano, até hoje é a igreja
local que mais contribui para missões num ano (desde o
ano de 1975 a quantia tem ultrapassado a casa de um mi
lhão de dólares, cada ano, parece-me, inclusive, que já vai
perto de dois milhões!). Uma vez por ano eles fazem uma
conferência missionária. (Fazer a conferência éopcional,
pois o procedimento pode funcionar sem ela, mas serve
para informar, orientar e entusiasmar o povo.) A essência
da proposta é o que segue.
Cada pessoa é convidada a procurar a face de Deus e
fazer a seguinte indagação: "Senhor, quanto Tu queres en
viar para missões através da minha mão neste ano?" Va-
75
mos devagar para entender bem essa proposta. Observe
que a pergunta é quanto Deus vai enviar. Não se trata de
espremer seu minguado ordenado para ver se tira mais um
tostão. Nem se trata de mexer com seu dízimo ou outros
compromissos já assumidos com a igreja ou outras reparti
ções do Reino. Eu iria ainda mais longe - nem é questão,
necessariamente, de mexer com seu orçamento doméstico
(se bem que se você tem três televisores Deus talvez mande
vender um, ou mesmo dois, e t c ) . Não. É ver o que Deus
vai fazer. Ele vai suprir de maneira surpreendente, avulsa,
extra, até milagrosa. Mas tem um detalhe, o que Deus en
viar nesses termos é sagrado, é para missões! (Não vá co
mer a semente, por favor.) A proposta pode ser em termos
mensais ou anuais,
Muito bem. Então cada um faz sua consulta a Deus.
Pede-se que cada um coloque num papel a quantia que ou
viu de Deus e esses papéis são recolhidos. Atenção para um
detalhe importante - quer coloque o nome no papel, quer
não, não se trata dum compromisso legal que poderá ser
cobrado depois. É justamente uma "promessa de fé"; é
uma declaração, pela fé, daquilo que confia que Deus vai
fazer durante o ano. Recolhem-se os papéis para que a co
munidade possa ter uma idéia por alto do montante que
deve entrar para missões durante o ano, a fim de assumir
compromissos com obreiros e entidades onde o dinheiro se
rá aplicado. É óbvio que tais compromissos também serão
pela fé e os destinatários devem entender claramente a na
tureza da proposta.
Tenho dito que a "promessa de fé" é uma aplicação
específica de 2 Co 9.8. Creio que sim, mas há uma varia
ção. Na exposição da economia de Deus, feita acima, a ini
ciativa estava com o Espírito Santo e cabia à gente estar
atento e sensível para entender quando reencaminhar uma
bênção. Com a "promessa de fé" a gente se coloca cons
cientemente na mão de Deus visando a uma proposta es
pecífica feita de antemão, que pode até incluir o destinatá
rio. Acontece que funciona, e com efeitos tremendos. Já
são centenas, se não milhares, de igrejas, que representam
muitos anos de experiência com este procedimento, cujos
testemunhos se avolumam.
76
Às vezes, quando uma igreja ouve pela primeira vez a
proposta de sustentar missões através deste procedimento,
a liderança dela fica com receio. Acham que deve ser um
tipo de "conversa fiada", que qualquer dinheiro dado para
missões vai sair mesmo é das contribuições destinadas ao
orçamento da igreja. Mas quando se reitera que não é para
ser nada disso, que ninguém deve tirar do dízimo ou das
contribuições normais para a igreja, que deve ser dinheiro
outro que o próprio Deus vai mandar, então às vezes acei
tam fazer experiência para ver se funciona. Quando uma
igreja resolve pôr a proposta em prática, acontece o seguin
te, quase sempre. Todo o dinheiro prometido pela fé para
missões efetivamente entra no caixa até o fim do ano (doze
meses após a conferência), O orçamento normal da igreja,
longe de levar prejuízo, prospera. Se a igreja está em cam
panha de construção de templo, ou algum outro prédio,
anda até mais depressa do que se esperava. O número de
membros aumenta. Enfim, Deus abençoa esse povo de for
ma geral. Para achar exemplos concretos não é preciso ir
aos EEUU, pois os temos aqui no Brasil. Vez por outra as
revistas denominacionais noticiam um exemplo. Um dos
mais conhecidos deve ser o da Primeira Igreja Batista de
Santo AndTé.
Quero enfatizar que a coisa funciona até para um povo
paupérrimo. No ano de 1975 participei da conferência mis
sionária da Igreja do Povo em Toronto (justamente o ano
quando romperam a barreira de um milhão de dólares).
Um dos preletores foi um líder evangélico da Libéria, e ele
relatou o resultado quando o seu povo resolveu pôr em prá
tica a "promessa de fé". O povo dele vive no interior da Li
béria, numa região semidesértica onde a vida é difícil. É
um povo paupérrimo. Com lágrimas escorrendo pela face,
ele contou que esse povo tinha dado o equivalente a oito
mil dólares para missões num ano. Já imaginou? Um povo
paupérrimo, mas cujo Deus é GRANDE.
Volto a dizer que se cada crente evangélico do Brasil
contribuísse com 1% de sua renda para missões podería
mos semear até 100.000 missionários brasileiros pelo mun
do. Mas tem igreja que faz bem mais do que isso. Há vários
anos tomei conhecimento duma igreja nas Ilhas Filipinas.
77
Lembrem que as Filipinas também fazem parte do chama
do "terceiro mundo". Aliás, eles não têm os recursos natu
rais e o parque industrial que temos aqui. A situação eco
nômica deles deve ser pior que a nossa. No entanto, aquela
igreja, na época, com 500 membros sustentava 50 missio
nários! Quer dizer, cada dez membros sustentavam um
obreiro. Dá para fazer; basta dar o dízimo em vez de só 1%.
Que tal, meus irmãos? Realmente o Brasil representa
um potencial muito grande para a expansão do reino de
Cristo pelo mundo. Temos os recursos necessários, tanto
humanos como materiais. Está faltando compromisso com
a causa; está faltando a mentalidade do Reino. Aliás, bas
taríamos nós do Brasil: se conseguíssemos levar cada evan
gélico do país a viver efetivamente para Cristo, ninguém
mais segurava a Igreja, tomaríamos o mundo de assalto,
Vamos lá?
A Prestação de Contas
Antes de encerrar este capítulo eu gostaria de voltar a
Lc 12. Ao comentar "a mentalidade do reino" chegamos
até o versículo 34. Mas o Senhor Jesus continuou falando e
creio que devemos atentar ainda para o conteúdo dos versí
culos 35 a 48. Têm alguma coisa a ver com nosso assunto.
É que, ato contínuo, o Senhor começou a falar de sua vol
ta, a segunda vinda. "Estejam cingidos os vossos lombos, e
acesas as vossas candeias, e sejam vós semelhantes a ho
mens que esperam o seu senhor, quando houver de voltar
das bodas..." (Lc 12.35,36). "Portanto, ficai vós também
apercebidos, porque virá o Filho do homem à hora que não
imaginais" (v 40). Aí o apóstolo Pedro perguntou se essa
última palavra era só para eles, ou para todos. A resposta
de Jesus foi que quem recebe mordomia é mordomo e terá
que prestar contas da mordomia. Aí no versículo 46 vem
uma palavra dura - o mordomo delinqüente terá sua parte
com os infiéis!
Vejamos agora os versículos 47 e 48. "O servo que sou
be a vontade do seu senhor e não se aprontou, nem fez se
gundo a sua vontade, será castigado com muitos açoites;
mas o que não soube e fez coisas dignas de golpes, levará
78
poucos açoites. Pois a qualquer que muito foi dado, muito
lhe será exigido..."
É a prestação de contas, é o Tribunal de Cristo. Ob
servar que esta palavra é endereçada aos discípulos, e de
forma mais explícita é dirigida a Pedro, em resposta à sua
pergunta. É o servo que soube e não fez que será castigado
com muitos açoites. {Não sei a natureza desses açoites,
mas talvez tenha algo a ver com o prejuízo de ter a vida
queimada - lembrar a esse respeito o que já se expôs sobre
o preço de não ser um escravo de Jesus.)
O servo que soube e não fez... E nós, meus irmãos, e
nós os crentes evangélicos do Brasil? Nós não sabemos a
vontade do nosso Mestre? Nossa Bíblia não tem Mateus
28.19, Marcos 16.15 ou Atos 1.8? Nunca ouvimos falar das
ordens de Cristo? "A Grande Comissão" é frase simples
mente estranha a nossos ouvidos? Com que "cara" vamos
ficar (desculpem-me a expressão), mas com que cara va
mos ficar perante o Tribunal de Cristo quando Ele cobrar
de nós as suas ordens; quando Ele indagar sobre as etnias
do mundo que nunca receberam porta-voz de Cristo; quan
do Ele quiser saber porque metade das pessoas no mundo
continuam a morrer sem ouvir de Jesus? Como explicar
nossa omissão,nosso terrível descaso? Que resposta pode
remos dar?
Devemos lembrar que nossa mordomia é bastante
grande. O Evangelho chegou ao Brasil há mais de 150
anos. Quase todas as capitais de estado do país contam
com pelo menos um seminário teológico ou instituto bíbli
co, e muitas outras cidades também têm. Quer dizer, o nú
mero de pessoas com preparo teológico já é grande, e cresce
cada vez mais. É a mão-de-obra disponível. A Palavra de
Deus existe em nosso idioma há mais de 300 anos, e a lite
ratura evangélica se torna cada vez mais farta. Dispomos
de muitas "ferramentas" para estudo bíblico e teológico, e
o quadro continua melhorando. O problema é que essa
mordomia toda será cobrada.
Somos pelo menos dez milhões de crentes evangélicos
no país. Que potencial tremendo! Será que Deus não vai
cobrar esse potencial? 2 Pedro 3.12 fala em "apressar a
vinda" do dia de Deus. É que temos escolha, temos arbí-
79
trio. Nossas decisões têm valor, fazem diferença. Podemos
efetivamente apressar a vinda de Cristo. Decorre dali, fa
talmente, que podemos atrasar a vinda também (tudo
dentro dos limites impostos pela soberania de Deus). É por
isso que terá prestação de contas. É por isso que Jesus vai
cobrar a mordomia que a nossa vida representa, tudo que
temos e somos.
Tem mais uma. Deus tem nos colocado nas mãos uma
tecnologia nunca vista, coisas que nossos pais não tiveram,
com que nossos avós sequer sonharam. Será à-toa? Não
acredito. Deus não é de fazer as coisas à-toa. Entendo que é
esta nossa geração que tem o privilégio, e a responsabilida
de, de terminar de cumprir a Grande Comissão, de termi
nar de fazer o que se há de fazer antes que Jesus venha. Se
a geração dos apóstolos, com pouca gente e com os recursos
de então, conseguiu alcançar seu mundo, que nos impede
de alcançar o nosso mundo, também numa geração? So
mos tantos! Temos tanto!
Meu pai andava a cavalo pela hinterlândia boliviana
á cata dos moradores salpicados pelas matas. Trinta anos
depois o filho andava pela selva amazônica de hidroavião e
munido de radiofonia, à cata de grupos indígenas (tam
bém andei a pé e de canoa, mas essa é outra história). Cer
ta vez, numa dessas viagens, o pai adoeceu. Ainda conse
guiu chegar até a casinha dum casal ''perdido" na selva.
Caiu na rede e ficou fora de si durante duas semanas, com
febre alta. O casal o agüentou com chá e canja, e ele sem
saber. Finalmente Deus achou por bem restabelecê-lo e
chegou em casa com um mês de atraso. Poderia ter morri
do por lá e a notícia nos alcançar muito depois. Também já
adoeci na selva, numa dessas viagens. Liguei a radiofonia e
avisei aos colegas na cidade, pedindo oração (só isso já era
um grande conforto que meu pai não tinha: eu não estava
mais sozinho). Quando Deus não achou por bem me curar,
pedi um avião para me resgatar e poucas horas depois es
tava a caminho da cidade e recurso médico. Que diferença
faz trinta anos! Agora colegas estão levando computadoies
portáteis, à pilha, para a selva. Temos satélites, televisão,
etc, etc. Está faltando apenas a mentalidade do Reino
80
para que terminemos de alcançar o mundo com o Evange
lho.
Pensando mais esta vez na mentalidade do Reino, eu
gostaria de fazer um apelo aos amados irmãos. Meus ir
mãos, vamos exorcizar o espírito denomina cionalista que
grassa em nosso meio. Entendo que as diversas denomina
ções podem ser úteis, e quem sabe até necessárias, por
questões práticas. Se eu quero dar um banho completo no
recém-convertido, mas um outro só quer molhar a cabeça,
torna-se incômodo trabalharmos debaixo do mesmo teto.
Escolheríamos tetos diferentes exatamente para preservar
a paz e não ficarmos brigando a respeito de pormenores
que não implicam na salvação. Mas nada disso deve impe
dir que trabalhemos juntos no grosso, no básico, no cum
prir das ordens de Cristo. Em vez de imaginar que somos
donos da verdade e nos digladiar entre nós, vamos concen
trar nosso fogo contra o inimigo das nossas almas. Diante
do mundo perdido devemos somar nossas forças, pois ne
nhuma denominação sozinha tem as condições necessá
rias. Quando pensamos nas etnias nunca alcançadas e nas
dificuldades que o trabalho transcultural nos apresenta, aí
um esforço conjunto se nos impõe. Esse esforço conjunto
vai incluir as entidades especializadas que Deus tem le
vantado para colocar à disposição das igrejas a perícia, a
experiência e a infra-estrutura específicas que estas não
têm (e que levariam muitos anos para adquirir). Elas de
vem ser consideradas como uma extensão das igrejas, não
como "concorrência". Podemos nos respeitar mutuamen
te, e reconhecer as convicções diferentes no tocante a ques
tões secundárias, e ainda dar as mãos para enfrentar o
mundo sem Cristo. Que Deus nos ajude!
Para podermos alcançar o mundo inteiro e cumprir
mos a Grande Comissão de Cristo está faltando a mentali
dade do Reino!
81
6
Libertar as pessoas
do poder de Satanás
Agora chegou a vez das palavras do Senhor Jesus que
encontramos em Atos 26.18. Palavras de Jesus em Atos 26?
Sim, porque Paulo está relatando, anos depois, seu encon
tro com Ele a caminho de Damasco. Vejamos o relato todo:
13 - Ao meio-dia, ó rei, pelo caminho, vi uma luz do
céu, que excedia o esplendor do sol, que brilhou ao re
dor de mim e dos que iam comigo.
14 - E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que
me falava, e em língua hebraica dizia: "Saulo, Saulo,
por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar con
tra os aguilhões."
15 - E disse eu: "Quem és, Senhor?" E ele respondeu:
"Eu sou Jesus, a quem tu persegues.
16 - Mas levanta-te e põe-te sobre teus pés, porque te
apareci por isto, para te constituir ministro e testemu
nha tanto das coisas que tens visto como daquelas pe
las quais te aparecerei ainda;
17 - Hvrando-te do povo e das etnias, às quais te en
vio,
83
18 - para lhes abrir os olhos e os trazer de volta, das
trevas à luz e do poder de Satanás a Deus, a fim de
que recebam eles a remissão dos pecados e lugar entre
os santifiçados, pela fé em mim."
O que nos interessa especificamente é a comissão mis
sionária que Paulo recebeu (só que ainda era Saulo). Tal
vez seja significante também lembrar que esta comissão se
deu um tanto depois das outras que já comentamos. Ma
teus 28.19, Marcos 16.15 e Atos 1.8 aconteceram entre a
ressurreição e a ascensão de Jesus. Já para falar com Pau
lo, Jesus voltou do Céu! Chama-nos a atenção mais um
detalhe, para começar. A incumbência que Paulo recebeu
dirigiu-se primordialmente às etnias ("gentios" é tradução
da mesma palavra que em Mateus 28.19 é "nações"). Pa
rece-me, por tudo isso, que esta comissão missionária se
reveste de uma importância especial para nós, e mais ain
da para quem for enfrentar trabalho transcultural. Atente
mos então para a comissão em si.
A Comissão Missionária de Paulo
Paulo é enviado às etnias, "para lhes abrir os olhos e
os trazer de volta, das trevas à luz e do poder de Satanás a
Deus, a fim de que recebam eles a remissão dos pecados e
lugar entre os santificados, pela fé em mim". Para enten
dermos bem o efeito desta incumbência devemos ver a es
trutura do versículo:
A
abrir-lhes W-. olhos
das trevas á luz
i trazer de volta
< do poder de Satanás a Deus
a remissão dos pecados \
ã fim de que recebam
/
Uí- U
A tradução "converter", que encontramos em nossas
versões principais, não é feliz. A rigor, o sentido seria "tra
zer de volta", quase "resgatar" - dá a impressão de que a
pessoa está no lugar errado e deve ser trazida para o lugar
certo. Agora, atenção para o fator principal: a conjunção
"a fim de que" e o material dominado por ela depende ou
decorre do efeito da frase verbal dominada por "trazer de
84
volta". Em outras palavras, para que alguém receba a re
missão dos pecados, inclusive, é necessário que esse al
guém seja primeiro liberto do poder de Satanás! Sabia
dessa? Pois é isso mesmo. Alguém tem de dar um jeito no
poder de Satanás sobreuma pessoa para que ela possa ser
salva.
O Senhor Jesus já tinha dito a mesma coisa em outras
palavras, bem antes. Está em Marcos 3.27: "ninguém pode
roubar os bens do valente, entrando-lhe em sua casa, se
primeiro não amarrar o valente; só então poderá saquear-
lhe a casa." A gramática nos conduz seguramente à identi
dade do "valente". O uso do artigo definido, "o valente",
vale dizer que é um certo, já introduzido, já conhecido va
lente. Caso contrário teríamos de encontrar o artigo indefi
nido "um", fosse um valente qualquer fora do nosso conhe
cimento. Quando encontramos o artigo definido, é porque
esse valente já foi apresentado. No contexto imediato an
terior Jesus vinha falando nominalmente de Satanás. (É
que os líderes dos judeus tentaram explicar o poder de Je
sus sobre os demônios dizendo que vinha de Belzebu,
príncipe dos demônios. Ao retrucar, Jesus não perdeu tem
po com esse nome mas chamou o inimigo logo de "Sata
nás", que é o seu nome próprio.)
Muito bem, Jesus afirma que é impossível roubar os
bens de Satanás sem amarrá-lo primeiro. E quais seriam
esses "bens"? No contexto Jesus tinha expulsado um de
mônio de cegueira e mudez de uma pessoa, e no seu co
mentário os fariseus, e escribas incluem outros casos de ex
pulsão. Creio que podemos entender tranqüilamente que
os "bens" são as pessoas que estão sob o poder de Satanás,
de uma forma ou de outra. Imagino que não haja como ti
rar alguém da "casa" de Satanás sem levar esse alguém
para a "casa" de Jesus (ver Mt 12.43-45). Então, estamos
diante da mesma verdade declarada em Atos 26.18. Temos
de dar um jeito no poder de Satanás sobre uma pessoa
para que ela possa ser salva! Mas porque seria preciso
amarrar Satanás? O que ele faz?
Vamos a 2 Coríntios 4.4; aliás, podemos começar com
o versículo 3: "Se o nosso evangelho ainda está encoberto,
para os que se perdem está encoberto, nos quais o deus
85
deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para
que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de
Cristo, que é a imagem de Deus." Diz aí, textualmente,
que Satanás, "o deus deste mundo", está a cegar os enten
dimentos dos incrédulos quando ouvem o Evangelho para
que não venham a compreender, a se compenetrarem, a se
arrependerem e a se converterem. Estamos diante de uma
verdade terrível, a verdade mais terrível deste mundo, pelo
menos a meu ver. É que o inimigo tem acesso às nossas
mentes, acesso no sentido de poder invadi-las, ora inserin
do pensamentos, ora atrapalhando nosso raciocínio. O Se
nhor Jesus tinha declarado esta verdade antes, ao comen
tar a parábola do semeador. "Os que estão junto do cami
nho são aqueles em quem a palavra é semeada; mas, ten
do-a eles ouvido, vem logo Satanás e tira a palavra que foi
semeada nos seus corações" (Mc 4.15). Na passagem para
lela, em Lucas 8.12, Jesus acrescenta o seguinte: "para que
não se salvem, crendo". Observem que a Palavra já está na
mente, ou no coração, da pessoa, mas aí vem Satanás, in
vade a mente e "tira" essa palavra. Não sei exatamente
como funciona essa ingerência do inimigo, talvez seja um
bloqueio mental, mas o efeito prático é que a Palavra se
torna infrutífera, como se a pessoa nem tivesse ouvido.
O efeito estratégico. Parece-me óbvio que quem não
levar em conta esta verdade estará se autocondenando a
produzir pouco efeito no âmbito espiritual, a trabalhar
muito e realizar pouco. E não é isso mesmo que mais se vê?
A gente tanto prega, tanto evangeliza, tanto fala e faz, mas
os resultados costumam ser parcos, principalmente os du
radouros. Tanto assim que a gente facilmente desanima e
fica até com vontade de desistir. Não é mesmo? Pois é,
meu irmão, mas antes de pregar ou falar você se deu ao
trabalho de proibir a ingerência do inimigo no pensamento
de seu ouvinte? Se não, o que você ainda espera? Foi o pró
prio Jesus, Deus - o Filho aqui na terra, que esclareceu que
para tirar as pessoas da casa de Satanás temos primeiro
que amarrá-lo. Temos de amarrar Satanás para evitar essa
sua ingerência nas mentes dos evangelizandos. (Vou expli
car o amarrar mais na frente quando comentar as armas
que estão à nossa disposição.) Agora, essa "moeda" tem
86
dois lados: nossa eficiência e nosso sucesso dependem de
amarrarmos o inimigo; mas se não o amarrarmos nos tor
namos cúmplices dele, pois ao permitir sua ingerência sem
nada fazer compactuamos com ele! Já pensou? Em verda
de imagino que poucos tenham pensado, já que estas ver
dades pouco ou nada se comentam em nossas igrejas e nos
sos estabelecimentos de ensino teológico, pelo menos até
aqui. Mas está na hora de pensar, minha gente, será que
não?
Fui para a selva amazônica em 1963, a fim de dar iní
cio ao nosso ministério junto à etnia indígena Apurinã (Rio
Purus, Amazonas). Que eu saiba fui o primeiro a disputar
com Satanás o seu domínio total e secular sobre essa na
ção. Fui lá exatamente para ver se tirava aquele povo da
casa de Satanás e levava para a casa de Jesus, se tirava do
reino das trevas e levava para o reino da luz. Mas infeliz
mente, não obstante um mestrado em teologia e ter lido a
Bíblia toda repetidas vezes, ignorava as verdades ora em
pauta. Apanhei! Apanhei sem dó e sem piedade, até não
querer mais. Satanás varreu o chão comigo. Pois ele não
gostou da brincadeira e eu não sabia me defender. Aliás,
nem entendia ao certo o que estava acontecendo. É que era
cético quanto à atuação dos demônios. Sim, eu sabia exis
tirem Satanás e os demônios, pois a Bíblia é clara e enfáti
ca a esse respeito, mas pouco sabia sobre a atuação deles e
nada sabia do uso das nossas armas, quer para defesa, quer
para ofensiva. Minha formação teológica, tanto formal
como informal, era nitidamente "tradicional". Expulsar
demônios e coisas do gênero era negócio de "pentecostal".
Meus professores me transmitiram a idéia de que servo de
Cristo seria como que intocável ou isento dos ataques dos
demônios; não seria problema para nós.
Pois bem (ou então, pois mal), apanhei. Primeiro, eu e
a esposa fomos atacados na mente, no corpo. Segundo,
sendo cético a respeito, não consegui esconder meu ceticis
mo. Já expliquei (capítulo II) que os povos indígenas estão
às voltas com os demônios; esse relacionamento é central à
cultura. Sabendo eles que os demônios existem e que os
atacam de várias maneiras, como de fato existem e atacam
(assino e dou fé), meu ceticismo me desqualificou. Estava
87
lá querendo ensinar a respeito de verdades espirituais,
sobre coisas sobrenaturais, mas demonstrava ignorância
perante a realidade central de sua existência. Perdi cartaz.
Terceiro, como conseqüência (do ceticismo e da ignorân
cia) não consegui ajudá-los ou livrá-los, dando provas do
poder de Cristo e portanto do valor do Evangelho, enquan
to estava aprendendo a língua e a cultura (que leva vários
anos). Quarto, quando finalmente a gente conquista um
domínio da língua e cultura que permita falar de Jesus
como Ele é, o que Ele fez, o que Ele ensinou, aí, mais dia
menos dia, vai dizer que Ele expulsava demônios e curava
os efeitos produzidos pelos mesmos. Aí, finalmente, a gen
te falou uma coisa que o povo queria saber. (Como já expli
quei, eles cultuam os demônios por necessidade, não por
gosto, ignorando um poder benéfico maior capaz de liber
tá-los.) Vem a indagação: "Jesus tem poder sobre os demô
nios?" Agora você tem uma escolha: vai dizer que Jesus
tem poder, ou que Ele tinha? Qual será sua declaração?
Imagino que você diria, "tem!" Certo? Só que aí um demô
nio te desafia na cara, atacando alguém na aldeia. E agora,
"José", e agora? Você não sabe expulsar demônio, você é
cético a respeito dessas coisas, mas você afirma que Jesus
tem poder sobre eles. Se não souber impor a vitória e o po
der de Cristo naquela hora, se não puder provar que Jesus
é maior, aí seu "papo" fica "furado". Você fica desmorali
zado. Você mentiu! Pior ainda, Jesus fica desmoralizado
também! É claro; você é o único porta-vozque Ele tem por
lá, e não podendo provar que Jesus tem poder o povo irá
concluir que Ele não tem. Alguma dúvida? Pois apanhei.
Choro quando penso no pouco que consegui entre o povo
Apurinâ, em prol do reino de Cristo, comparado com o que
deveria e poderia ter conseguido, estivesse por dentro des
ta estratégia missionária de Cristo: libertar as etnias do
poder de Satanás.
Tem mais uma. A grande maioria dos missionários
atualmente trabalhando (e dos que já trabalharam) junto
aos povos animistas do mundo é cética a respeito destas
coisas, assim como era eu. Lamentavelmente as entidades
missionárias não têm se preocupado com esta questão, via
de regra. Os missionários estão lá apanhando, como eu
apanhei, produzindo muito menos efeito do que poderiam
produzir. Que lástima! Que desperdício, em todos os senti
dos! A importância estratégica deste assunto é tremenda.
Se um dia chegarmos ao ponto de enviarmos obreiros ade
quadamente preparados neste terreno e de ter igrejas
cheias de pessoas que também sabem conduzir a guerra es
piritual, aí terminaremos de alcançar o mundo. (Mesmo o
mundo muçulmano, que entendo ser o "osso" mais duro de
roer que temos pela frente, deverá ceder desta forma, pois
eles também estão às voltas com os demônios.)
Não comentamos ainda a última frase da comissão de
Paulo, "lugar entre os santificados". Suponho que o senti
do primário dessa frase diga respeito à santificação final, à
nossa posição em Cristo. Sucede, no entanto, que muito
bem pode dizer respeito à experiência também, porque a
atuação de Satanás e os demônios influi bastante em nossa
vida espiritual e em nosso desempenho no ministério, as
sim como em nossa vida de forma geral. Como o inimigo
atrapalha nossas vidas, estraga nossos lares, dilui nossa
eficiência na obra, enfim! Pudéssemos nos compenetrar do
quanto eles fazem e aprender a manusear as armas espiri
tuais que Cristo nos dá, poderíamos simplesmente trans
formar as vidas, os lares e os ministérios. Das pessoas que
Deus chama para missão transcultural Satanás derruba a
maioria por aqui: nunca chegam ao campo. Dos poucos, re
lativamente, que alcançam o campo missionário, a metade
é tirada do páreo dentro de quatro anos - voltam derrota
dos para seus países de origem e nunca mais. Assim tem
sido a estatística das missões modernas, mas creio sincera
mente que podemos melhorar esse quadro de forma dra
mática. Basta assumirmos esta estratégia missionária de
Jesus: libertar as pessoas do poder de Satanás. É total
mente necessário que nos compenetremos que estamos
numa guerra.
A guerra espiritual. Estamos numa guerra de âmbi
to universal e tudo que fazemos adquire sua importância
maior no contexto desta guerra. Em Lucas 11.23, o Senhor
Jesus disse: "Quem não é por mim é contra mim; e quem
comigo não ajunta, espalha". Jesus não admite neutrali
dade - ou você é por ou então é contra, das duas uma. Ou
89
estamos ajuntando ou espalhando, e portanto não existe
terreno neutro, Podemos admitir que algum objeto seja
neutro, mas o uso que dele fazemos não pode ser neutro.
No fundo, ou fazemos as coisas em função do reino de Deus
e sua glória ou então fazemos em outra função qualquer, e
seja qual for essa outra função irá servir aos interesses do
inimigo. "Quem comigo não ajunta, espalha." Daí se vê
que tudo que fazemos adquire importância maior. Mesmo
as coisas corriqueiras que costumamos fazer sem pensar
têm reflexo no âmbito espiritual. Estamos numa guerra,
quer saibamos quer não, quer queiramos, quer não.
Podemos dar um enfoque mais nítido â questão. Não
somente estamos numa guerra, estamos num campo de
batalha. Quer dizer, tem chumbo zunindo por todos os la
dos. Agora, andar num campo de batalha sem se precaver
é burrice demais; é garantir que será ferido. Ainda mais
quando estamos exatamente na mira do inimigo por ser
mos "soldados" de Jesus.
Uma das passagens principais que versam sobre a
guerra espiritual é Efésios 6.10-19:
10 - No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Se
nhor e na força do seu poder.
11 - Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para
que possaís ficar firmes contra as astutas ciladas do
diabo;
12 - porque a nossa luta não é contra sangue e carne,
mas sim contra os principados, contra as potestades,
contra os dominadores das trevas deste mundo, contra
as hostes espirituais do mal, nas regiões celestiais.
13 - Portanto tomai toda a armadura de Deus, para
que possais resistir no dia mal, e, havendo feito tudo
(i.e. vestido todas as peças da armadura), ficar firmes.
14 - Estai pois firmes, tendo-vos cingido com a verda
de, e vestido da couraça da justiça,
15 - e calçados os pés com a preparação do evangelho
da paz;
16 - tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual po-
dereis apagar todos os dardos inflamados do maligno.
17 - Tomai também o capacete da salvação, e a espa
da do Espírito, que é a palavra de Deus;
90
18 - orando com toda oração e súplica em todo o tem
po no Espírito, e para isto vigiando com toda perseve
rança e súplica por todos os santos,
1 9 - e também por mim..."
Diz textualmente que nossa luta não é contra as pes
soas ("carne e sangue") e sim contra entes espirituais mal
vados, organizados numa hierarquia, um verdadeiro exérci
to. Fala das "astutas ciladas do diabo"; fala dos "dardos
inflamados do maligno". Urge conhecermos o inimigo,
mas primeiro quero comentar mais um detalhe.
A garantia da estratégia. Em Hebreus 2.14 encon
tramos a verdade que viabiliza a estratégia toda. "Visto
pois que os filhos têm participação comum de carne e san
gue, também ele [Jesus] igualmente participou das mes
mas coisas, para que por sua morte destruísse aquele que
tinha o poder da morte, isto é, o diabo," Para que morreu
Jesus? Para destruir Satanás! Sabia dessa? Pois é; e con
seguiu! Aleluia! João 16.11; Efésios 1.20-22 e Colossenses
2.15 falam da derrota de Satanás e dos demônios. É por
isso que lemos que ele "tinha" poder sobre a morte (não
"tem" como versa alguma tradução), pois Hebreus foi es
crito após a vitória de Cristo. Em Apocalipse 1.18, o Jesus
glorificado declara: "Tenho as chaves da morte e de Ha-
des". Jesus ganhou! É a vitória de Cristo que viabiliza e
garante esta estratégia. Podemos, sim, libertar as pessoas
do poder de Satanás! Vamos lá? A caminho, convém co
nhecermos o inimigo e entendermos como ele atua.
Quem é o Inimigo?
Interessa a qualquer comandante militar saber tudo
quanto possível sobre o inimigo, inclusive sobre o coman
dante oposto. O inimigo é Satanás. Em 1 Pedro 5.8 ele é
expressamente colocado como nosso "adversário". "Sede
sóbrios; vigiai; [porque] o diabo, vosso adversário, anda
em derredor como leão que ruge, buscando a quem possa
devorar." Observem que esta palavra é endereçada a cren
tes. Temos de estar sempre vigilantes porque Satanás está
rondando à nossa volta à espera do primeiro cochilo nosso.
Em verdade a Bíblia diz muita coisa a respeito do ini
migo. Satanás "engana todo o mundo" (Ap 12.9), se apre-
91
senta como "anjo de luz" (2 Co 11.14), é "tentador" (1 Ts
3.5), "acusador" (Ap 12.10), "príncipe das potestades do
ar" (Ef 2.2), "o deus deste mundo" (2 Co 4.4), "o príncipe
deste mundo" (Jo 16.11). 1 João 5.19 nos informa que "to
do o mundo jaz no maligno", como dizendo que Satanás
tem o mundo no colo, o que é uma figura bem expressiva
que nos fala da influência maciça que ele exerce sobre este
mundo.
A Bíblia diz muita coisa a respeito de Satanás e dos
demônios. O Senhor Jesus ensinou tão claramente sobre
eles, que não consigo entender os crentes, inclusive pasto
res e professores de teologia, que afirmam não acreditar na
sua existência. Se alguém quer se apresentar como segui
dor de Jesus, e ainda mais se for como representante dele,
deve aceitar o que Ele ensinou. Caso contrário deve ser
coerente e se apresentar como humanista, marxista ou
qualquer outra coisa. Cabe aqui um alerta: o povo de Deus
precisa se precaver contra os "lobos" vestidosde "ovelha"
que se infiltram nas igrejas, começando pelos seminários
teológicos. É uma estratégia preciosa ao inimigo que sem
pre lhe rendeu resultados gratificantes. "E não é maravi
lha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de
luz" (2 Co 11.14).
Sua origem. Mas quem será esse Satanás? De onde
veio? Qual a sua natureza? Creio que existem duas passa
gens bíblicas que versam sobre o assunto, Isaías 14.12-15 e
Ezequiel 28.12-17. A palavra em Isaías é dirigida contra "o
rei de Babilônia" ao passo que a palavra em Ezequiel é
contra "o rei de Tiro". Mas acontece que a linguagem logo
passa para um terreno que não pode dizer respeito a um
mero homem, seja rei do reino que for. O capítulo dez de
Daniel deixa muito claro que seres angelicais são apresen
tados como reis e príncipes dos reinos e povos deste mun
do. "O príncipe do reino da Pérsia" (Dn 10.13) tem de ser
um demônio de alta patente, pois um mero homem nem
saberia que tinha um anjo por perto e muito menos teria
condições de empatá-lo. (Ele era de nível tão elevado que
foi preciso vir o arcanjo Miguel para desempatar e deixar o
primeiro anjo chegar até Daniel. Sendo a Pérsia o império
de maior projeção no mundo na época, parece-me lógico
92
que Satanás iria entregar seus interesses nesse reino a um
de seus subalternos mais graúdos, digamos um general de
quatro estrelas.) O mesmo versículo 13 fala dos "reis da
Pérsia". No versículo 20 o anjo esclarece que não somente
teria de pelejar contra "o príncipe dos persas" mas que vi
nha aí "o príncipe da Grécia" também. No versículo 21
Miguel é apresentado como "vosso príncipe", quer dizer,
do povo de Israel.
Agora vejamos, Ezequiel 28. A lamentação contra "o
rei de Tiro" ocupa os versículos 11 a 19, mas a parte que
mais nos interessa ocupa os versículos 12 a 17:
12 - Filho do homem, levanta uma lamentação contra
o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor DEUS:
Tu és sinete de perfeição, cheio de sabedoria e perfeito
em formosura.
13 - Estavas no Éden, jardim de Deus; toda a pedra
preciosa era a tua cobertura, o sárdio, o topázio, o dia
mante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo
e a esmeralda, e ouro; a obra de teus engastes e de teus
ornamentos foi preparada em ti no dia em que foste
criado.
14 - Tu eras o querubim ungido que protege, assim te
estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio
das pedras afogueadas andavas.
15 - Perfeito eras em teus caminhos, desde o dia em
que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti.
16 - Na multiplicação do teu comércio se encheu o teu
interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei
profanado fora do monte de Deus, e te farei perecer, ó
querubim protetor, do meio das pedras afogueadas.
17 - Elevou-se o teu coração por causa da tua formo
sura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu
resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus,
para que te contemplem.
É óbvio que os dizeres aqui não dizem respeito ao ho
mem que ocupava o trono de Tiro quando Ezequiel escre
veu estas palavras. O personagem descrito "estava no E-
den"; sua formosura e perfeição ele tinha desde "o dia em
que foi criado"; era "querubim ungido" e tinha posição e
função muito elevada no Céu. Tão elevada era a posição
93
dele que um dia achou pouco, se encheu de soberba e resol
veu suplantar o próprio Criador. Vejamos Isaías 14.
A profecia contra "o rei de Babilônia" ocupa os versí
culos 4 a 23, mas vamos atentar agora apenas para os versí
culos 12 a 15:
12 - Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da
alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas
as nações!
13 - Pois tu disseste no teu coração: Eu subirei ao céu;
acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no
monte da congregação me assentarei, nas extremida
des do norte;
14 - subirei acima das mais altas nuvens, e serei seme
lhante ao Altíssimo.
15 - Contudo serás precipitado para Xeol, no mais
profundo do abismo.
O personagem em pauta tinha o nome (em Hebraico)
"estrela da manhã". (Esse nome foi traduzido em Latim
como "Lúcifer" e assim chegou até nós. Mas "Lúcifer" já
era. Esse nome diz respeito àquilo que o inimigo foi antes
da queda. Os servos de Deus não devem mais tratá-lo as
sim; agora ele é "o diabo", ou então, Satanás.) O crime
dele foi querer ser "igual ao Altíssimo". É claro que não lo
grou êxito. Quando poderia um ser criado se impor ao pró
prio Criador? Ele será "levado ao inferno". Lembrar a pro
pósito que o Lago de Fogo foi preparado justamente para
Satanás e seus anjos (Mt 25.41).
Sua queda. Pela linguagem dos dois textos, Ezequiel
28 e Isaías 14, entendo que a figura que hoje conhecemos
por Satanás foi criada o primeiro na hierarquia dos seres
angelicais. Ele era o mais inteligente, o mais poderoso,
quiçá o mais belo. Tinha a função mais elevada, era tipo
"primeiro ministro" de Deus. Maior que ele só o próprio
Criador, Um dia resolveu usurpar o lugar do Criador. (Há
quem pense que tenha sido a criação do ser humano, que
na sua essência é superior ao ser angelical, que encheu Lú
cifer de ciúme, de despeito, e o levou à rebelião.) Conse
guiu levar na onda aproximadamente a terça parte dos an
jos originais (Ap 12.4) que fizeram causa comum com ele.
É difícil entender como um ser tão inteligente poderia in-
94
correr em semelhante asneira, mas o fez, e perdeu. Lúcifer
passou a ser Satanás, o inimigo, o líder da oposição a Deus
(uma oposição totalmente desleal e perversa). Os anjos
que o seguiram passaram a ser os demônios, que agora
atuam na terra. Não sabemos quantos são, mas como o nú
mero dos anjos que permaneceram fiéis a Deus é mais de
cem milhões (Ap 5.11, dez mil vezes dez mil), os demônios
somam pelo menos 50 milhões, e olha lá! Quanta desgra
ça!
E daí? Bem, eu iria imaginar que ao ser derrotado e
expulso das funções no Céu, pois acesso perante o Trono
de Deus ele ainda tem (Jo 2.1; Ap 12.10), Satanás seria re
baixado, perderia a patente, em termos militares; não se
ria mais o primeiro na hierarquia dos seres angelicais. Infe
lizmente minha imaginação não procede. Vejamos Judas 9
(Judas é um dos cinco livros que têm só um capítulo).
"Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e
disputava a respeito do cadáver de Moisés, não se atreveu
a proferir juízo afrontoso contra ele; mas disse: O Senhor
te repreenda." Mas que relato mais esquisito! Sincera
mente, até hoje não achei uma explicação que me satisfi
zesse o porquê dos dois seres angelicais mais elevados da
criação estarem a disputar o cadáver de Moisés! Mas que
quadro insólito! Pois entendo que Miguel, que assumiu as
funções outrora exercidas por Lúcifer e agora lidera os an
jos fiéis a Deus (Ap 12.7), deve ter sido o segundo colocado
na hierarquia original e permaneceu fiel a Deus quando
Lúcifer se rebelou. De qualquer maneira, ali estão Satanás
e Miguel disputando o cadáver. Como já disse, eu esperava
que Miguel agora fosse maior que Satanás, que poderia se
impor ao inimigo tranqüilamente, mas não! Em vez de
mandar Satanás embora; em vez de dizer, "Sai daqui, seu
safado; não quero nem te ver na minha frente; dá o fora!",
ele teve de se contentar em dizer, "O Senhor te repreen
da". Miguel não tinha condições de se impor a Satanás,
não pôde dizer, "Eu te repreendo". (Agora, o que Miguel
não pôde, nós podemos. Essa história vou contar mais na
frente.) Quer dizer, Lúcifer foi criado maior que Miguel e
continua maior, apesar de agora ser Satanás. Sou obriga
do a deduzir que Satanás não perdeu a patente. E como
95
ele, os demais: e quem era general, continua; quem era co
ronel, continua; quem era major, continua, e assim por
diante. É por isso que Efésios 6.12 fala de "principados,
potestades e príncipes" e Efésios 1.21 de "principado, po
der, potestade e domínio": é a hierarquia dos oficiais no
exército angelical caído. Aparentemente, os anjos rebela
dos nada perderam da sua capacidade, fora o trocar da
predisposição para o bem poroutra para o mal. Pois agora
são malevolentes, perversos, terríveis.
Conseqüência para nós. E daí? Que tem tudo isto a
ver com a missão transcultural? Tem tudo a ver. Favor re
cordar o que já se expôs sobre a comissão de Paulo, sobre
Marcos 3.27; 4.15; Atos 26.18; 2 Coríntios 4.4. Quando ten
tar arrancar um povo, ou uma pessoa, do poder de Satanás
você tem pela frente tão-somente o ser criado mais podero
so, mais inteligente e agora mais malevolente do Universo!
É só isso. Quem enfrentar uma fera sem entender o perigo
que representa, sem respeitar esse perigo e sem saber como
lidar com a fera para dominá-la, esse alguém está fadado a
apanhar (como eu apanhei!).
Creio ser este o momento certo de examinar uma
questão que freqüentemente se levanta. Por que Deus não
protege seus servos? Por que permitiu Ele que eu apanhas
se tanto, por exemplo? Bem, trata-se de entendermos as
"regras do jogo". Ao criar um tipo de ser capaz de escolher,
Deus tinha de aceitar as conseqüências das escolhas feitas
por tais seres, e obrigar os ditos seres a também arcarem
com as conseqüências das escolhas feitas. (Desgraçada
mente temos de enfrentar não somente os efeitos das pró
prias escolhas mas os das dos outros também. Passamos a
vida vitimando e sendo vitimados. Embora seja um assun
to palpitante, não é aqui que vou destrincá-lo.) Deus não
pode, e nem vai, operar um milagre contínuo para me pro
teger das conseqüências de minha ignorância cuipável. A
Bíblia esclarece adequadamente o que precisamos saber a
respeito da guerra espiritual. Se eu fecho os olhos, se não
presto atenção para o Texto Sagrado, se dou mais valor à
minha cultura religiosa do que à Palavra de Deus, aí eu te
nho de sofrer. Mereço! Deus iria me proteger para quê?
Para confirmar minha cegueira, minha idolatria? Paciên-
96
cia! Aliás, entendo que Deus permitiu que eu apanhasse
precisamente para me chamar à atenção, para me levar a
abrir os olhos e pesquisar o assunto. O resultado é isto que
estou colocando perante o leitor.
Mas uma questão levanta a cabeça aqui, E a vitória
de Cristo? Satanás não foi derrotado? Foi, fragorosamente
(Cl 2.15). Pois então, como é que ele continua representan
do esse perigo todo? Atendendo a seus próprios desígnios
(Ele não explica porque) Deus permite que Satanás e os
demônios continuem agindo no mundo, embora derrotados
e tendo seu paradeiro final já definido. Atuam na base do
blefe, fingindo que nada aconteceu. Compete a nós des
mascará-los, "pagar para ver" como diz o outro. Compete
a nós impor a vitória de Cristo ao inimigo. Enquanto nin
guém desafia o blefe o inimigo continua levando e ganhan
do, embora não esteja com a vitória.
Está na hora de acordar, minha gente. Está na hora de
agir à altura, minha gente. Chega de apanhar à toa, minha
gente! Para tanto precisamos ter uma visão adequada de
como o inimigo atua.
Como Atuam Satanás e os Demônios?
Vamos direto ao Texto Sagrado. Primeiro, Lucas 9.18-
22.
18 - E aconteceu que, estando ele orando a sós, ajun-
taram-se a ele os discípulos; e perguntou-lhes dizen
do: "Quem dizem as multidões que eu sou?"
19 - Respondendo eles, disseram: "João Batista; ou
tros, Elias; e outros que um dos antigos profetas res
suscitou."
20 - E disse-lhes: "Mas vós, quem dizeis que eu sou?"
E respondendo Pedro, disse: "O Cristo de Deus."
21 - E, admoestando-os, mandou que a ninguém refe
rissem isso,
22 - dizendo: "É necessário que o Filho do homem so
fra muitas coisas, que seja rejeitado pelos anciãos, pe
los principais sacerdotes e pelos escribas, que seja
morto e que ressuscite ao terceiro dia."
Aqui chamo atenção para a gramática: existem vários
particípios no presente, "respondendo", "admoestando" e
97
"dizendo". O efeito desses particípios é indicar ato contí
nuo. Os versículos 18 a 22 contêm uma só conversa. Eu
quis primeiro estabelecer esse fato para agora ver a passa
gem paralela que encontramos em Mateus 16.13-23, e que
nos oferece uns detalhes a mais. Sem transcrever a passa
gem toda, pois traz o mesmo quadro, chegamos à resposta
de Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (v 16). Aí
Jesus responde: "Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas,
porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu
Pai que está nos céus" (v 17). Pulando os versículos 18 e 19
que não vêm ao caso imediato, nos versículos 20 e 21 Jesus
prossegue, falando que vai sofrer, morrer e ressuscitar
(lembrar Lucas 9). Mas aí Pedro não gostou e começou a
repreendê-lo: "Senhor, tem compaixão de ti; de modo ne
nhum te acontecerá isso" (v 22). Ao que Jesus retrucou:
"Para trás de mim, Satanás!..." (v 23).
Isso aí me faz arrepiar, isso aí me mete medo. É que
dentro de três minutos, cinco quando muito, Pedro falou
duas vezes. A primeira vez quem colocou as palavras na
boca de Pedro foi Deus. Quem explica é Jesus Cristo, ao
declarar que Pedro não falou por si, e sim pelo Pai. Até aí
tudo bem, pois que Deus faça isso não causa espécie ne
nhuma. O problema surge com a segunda vez, pois aí
quem colocou as palavras na boca de Pedro foi Satanás!
Novamente quem interpreta o caso, quem declara a verda
de é Jesus Cristo, Deus-Filho aqui na terra. Quando Ele
utiliza o nome próprio do inimigo, Satanás, não deixa por
onde fugir. Foi mesmo Satanás. Sei e quero afirmar que os
nomes próprios das pessoas não são passíveis de sentido
"espiritualizado" (a não ser num código secreto que propo
sitadamente viola as normas da linguagem, o que não é o
caso aqui). "Geraldo" sempre dirá respeito a alguém com
esse nome, "Samuel" também, "Carlos" idem, etc. "Sata
nás" diz respeito exata e precisamente a Satanás, e mais
ninguém. Novamente estamos diante da verdade mais
terrível que existe nesta vida, pelo menos a meu ver. O ini
migo tem acesso a nossas mentes; pode colocar palavras
em nossas bocas. Queria por tudo que não fosse verdade,
mas meu querer não altera a realidade.
98
Atacam as mentes. Quando finalmente atinei para
esta verdade passei a entender várias coisas que antes
aconteciam comigo. Mais de uma vez estava conversando
com alguém, conversa séria acerca das coisas de Deus,
quando de repente saíram da minha boca palavras incabí-
veis, que não podia falar, que estragaram o terreno. No
momento que falei sabia que não estava certo, mas já era
tarde; o outro vira as costas e vai embora. Eu ficava abis
mado e perplexo. Como podia falar uma coisa dessas? Veja
bem: não era coisa que estava no meu pensamento, que vi
nha mastigando; não, tomei conhecimento ao falar. Du
rante anos não achei resposta, mas agora eu sei. Algum de
mônio colocou aquele dizer na minha boca e como eu nem
sabia que isso era possível caí na emboscada. Agora não
acontece mais isso comigo. Agora sei me defender.
Eu sei. Você não está gostando (como eu também não
gosto), você está relutando contra esta idéia. Vamos com
calma. Pode ser que você nunca tenha passado pela expe
riência que acabo de descrever, mas talvez tenha observa
do o seguinte. É previsível, rotina mesmo: em qualquer
reunião que vise tratar do andamento da obra (seja do cor
po diaconal ou conselho da igreja, da diretoria duma mis
são ou duma escola, dum presbitério ou duma convenção;
seja grande ou pequena enfim) acontece o seguinte. Está
tudo indo muito bem, tudo "na santa paz", tudo naquela
comunhão gostosa dos santos, quando de repente alguém
abre a boca e diz uma coisa que não podia, sem necessida
de, coisa que, às vezes, insulta algum outro irmão presen
te. Certo é que estraga o ambiente de uma vez; a coisa vira
de cabeça para baixo; pode ir embora que ninguém conse
gue mais nada nessa reunião. Será que você nunca presen
ciou uma dessas? Imagino que sim, pois é rotina. Às vezes
a gente chama aquele que falou, após a reunião, e pergun
ta: "Me diga aí por favor, porque você falou aquilo, hein?"
E se ele for sincero, o que às vezes é, é capaz de responder
assim: "Quer saber duma coisa? Sei não!" E será verdade,
pois ele apenas foi um inocenteútil na mão do inimigo - al
gum demônio colocou aquilo na sua boca, e pronto!
Contra a oração. Você ainda não está gostando? Ain
da está relutando? Então vamos à oração. Diga-me aí por
99
favor, quando se coloca a orar, a interceder, a buscar mes
mo a face de Deus (quero dizer, quando vai passar pelo
menos quinze minutos com Ele), tudo corre bem? Você
consegue orar sem nenhuma dificuldade, consegue concen
trar seus pensamentos na oração direitinho? Aposto que
não. 0 pensamento não "voa"? De repente você pensa
numa conversa, numa coisa que tem que fazer, num acon
tecimento há seis meses. Será que não? Analisemos a si
tuação juntos. Seus pensamentos estavam concentrados
em Deus, certo? Não tinha pensamento seu sobrando para
ir buscar essas outras coisas. De onde vieram então aqueles
outros pensamentos? Não está "na cara"? Trata-se de in
gerência demoníaca na sua mente. Não têm que ser coisas
vis ou pesadas, basta desviar a gente da oração, e o inimigo
conseguiu seu intuito.
Por falar 8m oração, aproveito para colocar o seguinte.
Quando começamos a orar ingressamos no âmbito espiri
tual e aí o inimigo se mexe. É primordialmente na oração
que travamos a guerra espiritual e o inimigo se sente dire
tamente ameaçado. Por isso ele envida um esforço imedia
to para nos desviar da oração. Podem ter certeza: ninguém
consegue orar sozinho. No momento que você se põe a orar
de forma séria vai sofrer "marcação" de pelo menos um de
mônio (dependendo da periculosidade que o inimigo lhe
atribui). Essa marcação pode se expressar de várias ma
neiras. Quando não vêm pensamentos outros, dá sono.
(Quando eu era menino tínhamos um "santo" remédio
contra a insônia. Se eu não conseguia dormir a mãe dizia
para mim, "basta orar, aí você dorme sem problema." Tiro
e queda! Começava a orar e dentro de três minutos eu esta
va roncando. "Contar ovelhas" não entra no mesmo pá
reo.) Quando não é sono, dá desânimo, "branco" e até me
do. A dona de casa acha uma "brecha" nos afazeres e põe
joelho no chão, para quê? O telefone que não toca faz uma
semana, dispara! Não recebe visita durante um mês mas
nesse exato instante toca a campainha. As crianças esta
vam brincando tranqüilamente, mas aí estoura uma briga
das feias. Tudo quanto for cachorro dentro de meio quilô
metro começa a latir. Pois não é isso mesmo? Impressio
nante, não acha? Estamos em guerra, meu irmão!
100
Contra a vida, O acesso que o inimigo tem às nossas
mentes pode ter conseqüências drásticas. Vejamos o caso
de Ananias em Atos 5. Vamos recordar o contexto. "Era
um o coração e a alma da multidão dos que creram, e nin
guém dizia ser exclusivamente sua qualquer das coisas que
possuía, mas tudo lhes era comum... Não havia pois entre
eles necessitado algum, porque os que possuíam terras ou
casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido e
o depositavam aos pés dos apóstolos; então se repartia a
cada um segundo a necessidade que tinha" (Atos 4.32-35).
Foi esse o quadro quando aconteceu o que segue (At 5.1-
10).
01 - Mas certo homem chamado Ananias, com sua
mulher Safira, vendeu uma propriedade,
02 - reteve parte do preço, sabendo-o também sua
mulher, e levando o restante o depositou aos pés dos
apóstolos.
03 - Disse então Pedro: "Por que encheu Satanás o
teu coração para que mentisses ao Espírito Santo, e
retivesses parte do preço da terra?
04 - Guardando-a não ficava para ti? E uma vez ven
dida não estava em teu poder? Como, pois, assentaste
no coração este desígnio? Não mentistes aos homens,
mas a Deus,"
05 - Ouvindo Ananias estas palavras, caiu e expirou.
(E sobreveio grande temor a todos os que isto ouvi
ram.)
06 - Levantando-se os moços o cobriram, e levando-o
para fora o sepultaram.
07 - Quase três horas depois entrou também a mulher,
não sabendo o que havia acontecido,
08 - Então Pedro perguntou-lhe: "Dize-me, ven destes
por tanto aquela terra?" E ela disse: "Sim, por tan
to."
09 - Pedro então disse a ela: "Como é que combinas-
tes para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os
pés dos que sepultaram o teu marido, e também te le
varão."
101
10 - No mesmo instante ela caiu aos seus pés e expi
rou. Entrando os moços acharam-na morta, e levan
do-a para fora a sepultaram junto do marido.
Como Pedro explica, eles não tinham de trazer nada;
podiam trazer uma parte, querendo, desde que não fingis
sem que fosse tudo. O problema é que mentiram, querendo
ser badalados como quem trouxe tudo. O apóstolo Pedro
afirma que quem colocou aquela linda idéia na cabeça , ou
no coração, de Ananias foi Satanás (novamente o nome
próprio). Aquilo valeu para Ananias o quê? A morte. Cer
to? É barra pesada, minha gente! Pouco depois entrou a
mulher: "Foi assim, Safira?" "Foi." Morreu na hora! Esse
acesso que o inimigo tem às nossas mentes pode resultar
na morte física - recordar que ele "tinha o império da mor
te" e na base do blefe continua agindo a contento. Creio
que ficaríamos pasmados se soubéssemos quantas pessoas
já morreram como resultado direto de ação demoníaca.
Mas tem outra conseqüência pior ainda. Vejamos o caso de
Judas.
Em João 13.2 lemos assim: "Acabada a ceia, tendo já
o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Si-
mão , que traísse a Jesus..." Já em João 13.27 lemos assim:
"E após o bocado entrou nele [Judas] Satanás. Disse-lhe
pois Jesus: O que fazes, faze-o depressa." (Ver também
Lucas 22.3.) A idéia de trair a Jesus foi colocada no cora
ção de Judas pelo Diabo. Mas no momento nevrálgico Sa
tanás, nominalmente, "entrou" nele, tomou conta dele
para garantir que levasse a cabo. Aquilo valeu para Judas
o quê? A morte física, pois pouco depois, tomado de remor
so (não de arrependimento, que é bem diferente) enforcou-
se. E valeu mais o quê? A morte espiritual, pois orando ao
próprio Pai, Jesus disse, "Tenho protegido aqueles que tu
me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdi
ção, para que a Escritura se cumprisse" (João 17.12). Ju
das se perdeu!
Às vezes não paramos para refletir adequadamente
sobre o que Deus fez escrever. Gostamos de malhar o Ju
das, não é? Só fazemos comentários negativos a seu respei
to. Mas será que ele merece essa repulsa toda? Naquela
mesma noite, lá no Cenáculo, a certa altura Jesus angus-
102
tiou-se em espírito e afirmou: "Em verdade, em verdade
vos digo que um dentre vós me trairá!" Aí os discípulos se
entreolharam, sem saber a quem Ele se referia, e muito
aflitos começaram a perguntar, um por um: "Senhor, serei
eu?" "Senhor, serei eu?" Aí Jesus respondeu: "Ê um dos
doze, que mete comigo a mão no prato." Aí Judas, por sua
vez, perguntou: "Rabi, serei eu?" Aparentemente os ou
tros ainda estavam confusos porque Pedro fez sinal a João
para que indagasse quem era. Com isso João encostou-se
em Jesus e perguntou: "Senhor, quem é?" Ele respondeu:
"É aquele a quem eu der o pedaço de pão molhado." Aí,
molhando o pão o deu a Judas. Com isso Satanás entrou
nele e então Jesus disse: "O que fazes, faze-o depressa."
Confesso que o que segue me surpreende, pois lemos assim:
"Mas nenhum dos que estavam à mesa compreendeu para
que lhe dissera isto; pois como Judas era o tesoureiro supu
nham alguns que Jesus lhe teria dito: 'Compra o que preci
samos para a festa'; ou que desse alguma coisa aos
pobres." Aí Judas saiu, "e era noite". (Ver Mt 26.21-25;
Mc 14.18-21 e Jo 13.21-30.)
Sinceramente, esse relato me surpreende. Lembre que
há três anos os doze discípulos andavam juntos, comiam
juntos, dormiam no mesmo lugar. Quer dizer, não haveria
como enganar os outros quanto a seu caráter e sua persona
lidade. Na igreja, aos domingos, a gente pode vestir aquela
fachada de "santinho" e enganar as pessoas que só nos
vêem naquele contexto, mas os que vivem ou trabalham
com a gente sabem a verdade. Pois bem, eu iria esperar
que no momento que Jesus disse, "Um de vocês vai me
trair, "os outros olhassem atravessado para Judas dizendo,
"Já sei!" Será que não? Se Judas semprefosse diferente,
demonstrando um outro espírito, então os demais teriam
sentido tudo isso, fatalmente. Mas o Texto Sagrado é mui
to claro: nenhum dos outros sequer imaginou que pudesse
ser Judas; tanto assim que mesmo depois que Jesus identi
ficasse claramente, por duas vezes, que era Judas eles não
se compenetraram. Parece que não conseguiram acreditar
que fosse Judas. Sou obrigado a concluir que até aquele dia
Judas tinha sido um discípulo exemplar, quem sabe até
melhor do que alguns outros. Tesoureiro não é cargo de
103
confiança? Judas foi igual aos demais, até o dia em que Sa
tanás o invadiu. Misericórdia!
Na mesma noite, também no Cenáculo, Jesus disse a
Pedro (Lc 22.31,32): "Simão, Simão, eis que Satanás vos
pediu para peneirar como trigo; raas eu roguei por ti para
que a tua fé não acabe..." Foi a valença! Como conseqüên
cia desse "peneirar" Pedro negou a Jesus, mas porque Je
sus orou por ele, Pedro foi recuperado. Já o Texto não diz
que Jesus tenha orado por Judas. Aliás, já comentamos a
passagem (Jo 17.12) onde Jesus disse que Judas iria se per
der "para que a Escritura se cumprisse". Estamos diante
dum assunto bastante delicado, um assunto que pertence
à presciencia divina. A questão em pauta é o acesso que o
inimigo tem ás nossas mentes e as conseqüências que esse
acesso pode ter.
A ingerência do inimigo nas mentes não somente pode
levar à morte física mas também à morte espiritual. E não
foi só Judas. Fosse apenas Judas talvez desse para agüen
tar - afinal, o Judas! Mas não. Já constatamos através de 2
Coríntios 4.4 (também Mc 4.15 e Lc 8.12) que-multidões
vão para o inferno como resultado da atuação de Satanás e
seus demônios nas mentes das pessoas. Estamos diante
dum assunto dos mais sérios, pois qualquer coisa que im
plica na salvação da alma ou na perda dessa salvação é de
suma importância. Fechar os olhos ou virar as costas para
este assunto é traição contra o nosso Rei.
Evidências outras. Sei. Você ainda está relutando. Va
mos novamente ao texto. Em 2 Coríntios 11,3 somos infor
mados de que "a serpente" (Satanás) "corrompe as men
tes"; no contexto são as mentes dos crentes. É a ingerên
cia dos pensamentos. Em Tiago 3.1-12 achamos uma des
crição interessantíssima para nosso assunto.
01 - Meus irmãos, não queiram muito ser mestres,
pois sabeis que havemos de receber maior juízo.
02 - Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se al
guém não tropeça em palavra, o tal é varão perfeito,
capaz de refrear também todo o corpo.
03 - Ora, pomos freio na boca dos cavalos para que nos
obedeçam, e conseguimos dirigir-lhes o corpo inteiro.
04-Observai também os navios; embora sendo tão
104
grandes e levados de ventos fortes, por um pequeníssi
mo leme são dirigidos para onde queira o impulso do
timoneiro.
05 - Assim também a língua é um pequeno membro e
gaba-se de grandes coisas. Vede quão grande floresta
um pequeno fogo incendeia!
06 - A língua também é fogo, um mundo de iniqüida
de. É assim que a língua se situa entre os nossos
membros, contaminando o corpo inteiro e inflamando
todo o curso da nossa existência, sendo por sua vez in
flamada pelo inferno.
07 - Também toda espécie de feras e aves, de répteis e
seres marinhos, se doma e tem sido domada pela na
tureza humana;
08 - mas a língua ninguém, entre os homens, é capaz
de domar, mal incontrolável que é, cheia de veneno
mortífero!
09 - Com ela bendizemos a Deus Pai, e com ela amal
diçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus.
10 - De uma só boca procede bênção e maldição. Não
convém, meus irmãos, que estas coisas sejam assim.
11 - Acaso pode a fonte jorrar do mesmo lugar água
doce e água amargosa?
12 - Será, meus irmãos, que a figueira pode produzir
azeitonas, ou a videira figos? Assim tão pouco pode
uma fonte dar água salgada e doce.
De fato, na natureza nunca um manancial jorra alter-
nadamente água doce e salgada; não pode. Mas imagine
mos que um dia encontrássemos um manancial assim: ora
saía água doce, ora saía água salgada. Qual seria a explica
ção para esse fato insólito? Fatalmente teriam de existir
duas veias d'água alimentando o manancial, e teriam de se
encontrar quase à flor da terra, ora vencendo uma ora ven
cendo a outra. É exatamente isto que o Texto Sagrado afir
ma acontecer com a nossa boca: ora procede bênção, ora
procede maldição. Como pode? Por sinal, a linguagem dos
versículos 2, 6 e 8 poderia nos causar espécie, até não tro
peçar em palavra é ser perfeito; a língua contamina o corpo
e inflama o curso da existência; a língua é fogo, mundo de
iniqüidade, mal incontrolável, veneno mortífero! Como
105
podemos explicar essa linguagem? Que será que está ha
vendo? Creio que a explicação se encontra na última frase
do versículo 6.
Que devemos entender quando o texto diz que a
língua "é inflamada pelo inferno?" No mínimo quer dizer
que a língua recebe sua capacidade inflamatória do "infer
no", e portanto deve sua ação inflamatória ao "inferno".
Mas que devemos entender por "inferno"? Creio estarmos
diante dum caso de metonímia (uma figura da linguagem
onde uma palavra é utilizada em lugar de outra com a qual
é estreitamente associada). Com quem está o inferno mais
intimamente associado? Com Satanás, pois foi preparado
para ele e seus anjos (Mt 25.41). Entendo que esta passa
gem atribui grande parte da desgraça que advém do mau
uso da língua precisamente à atuação de Satanás e dos de
mônios, influindo no pensar e no falar das pessoas. É claro
que podemos fazer mau uso da língua por conta própria, é
ponto pacífico, mas a linguagem do Texto exige uma expli
cação a mais. Existem duas "fontes" alimentando o nosso
falar, a nossa própria vontade e a ingerência maligna. Que
ninguém se iluda.
Quando você se encontra ao lado de uma pessoa estra
nha no ônibus, trem ou avião, acha difícil conversar com
essa pessoa? Sendo o assunto corriqueiro, digamos o tem
po, a moda, política ou futebol? Bem, há pessoas inibidas,
é verdade, mas suponho que a maioria não encontre difi
culdade maior; conversam tranqüilamente. Mas se você
resolve dar uma guinada na conversa e falar de Jesus, aí
que acontece? Tudo continua na mesma tranqüilidade?
Via de regra, não. Correto? Não dá medo, nervosismo,
"branco", suor frio? Por que será? Esse medo de onde
vem? Em 2 Timóteo 1.7 lemos assim: "Deus não nos tem
dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de au-
tocontrole." Aí segue direto dizendo: "Portanto não te en
vergonhes do testemunho de nosso Senhor." Esse espírito
de medo que nos ataca quando queremos testemunhar de
Cristo não vem de Deus. O Texto é claro. De onde vem en
tão? Quem é o maior interessado em que não falemos de
Cristo? Não é óbvio? Quando um crente acha difícil falar
de Jesus, em vez de chamá-lo de covarde e cobri-lo de cul-
106
pa deveríamos começar por repreender o espírito de medo.
É claro que podemos ser covardes sem auxílio de demônio
algum. Pacífico. Mas podem ter certeza que muitas vezes
somos atacados por um espírito.
Depois há os pesadelos horripilantes. Não raro a pes
soa sente que esteja sendo sufocada. (Aliás, a palavra que
em língua inglesa significa "pesadelo" dizia respeito, há
400 anos, exatamente a um demônio que vinha e sufocava
as pessoas enquanto dormiam.) Se os demônios podem
atacar as nossas mentes quando estamos acordados, quan
to mais quando estamos dormindo e de certa forma indefe
sos (há defesa - temos de proibir essa ingerência antes de
dormir). Fora o que acontece nos pensamentos, às vezes as
pessoas sentem mesmo uma presença maligna no quarto.
Cercados como estamos, neste Brasil, pela prática de
espiritismo de todos os tipos, torna-se difícil entender como
possa ter crente que ainda não acredita na existência e na
atuação dos demônios, inclusive agindo nas mentes. Ima
gino que num futuro não muito distante quase as únicas
pessoas a manterem seu ceticismo a respeito destas coisas
sejam os membros de certas igrejas protestantes. Que tra
gédia!Os dons carismáticos. Outra área onde o inimigo
aproveita o acesso que tem às mentes é falsificando os dons
do Espírito Santo. O estrago que o inimigo faz nesta área é
terrível! O Senhor Jesus disse em João 10.10: "O ladrão
não vem senão para roubar, matar e destruir". Pois tem la
drão no "curral das ovelhas". Os destroços são tantos!
Agora, vamos com calma - sei que este terreno é minado e
os ânimos facilmente se exaltam - vamos com calma, mui
ta calma. Peço ainda que o leitor não forme uma opinião
precipitada a respeito da minha posição, fechando assim a
mente, pois creio que vou pisar num "calo" ou outro de
quase todo mundo. Vamos ver, meus irmãos, se consegui
mos nos humilhar perante a PALAVRA DE DEUS.
O uso do vocábulo "falsificar" implica forçosamente
na existência do artigo genuíno: não se pode falsificar uma
coisa que não existe. Se Satanás falsifica os dons do Espíri
to é porque os dons genuínos existem; até hoje. Vejamos 1
Coríntios 13.8-12:
107
0 8 - " O amor nunca falha; mas havendo profecias,
passarão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência,
passará;
09 - porque em parte conhecemos, e em parte profeti
zamos.
10 - Quando, porém, vier o perfeito, então o em parte
será aniquilado.
11 - (Quando eu era menino, falava como menino,
sentia como menino, pensava como menino, mas
quando cheguei a ser homem, acabei com as coisas de
menino.)
12 - Porque agora vemos como em espelho [metálico],
obscuramente, mas então veremos face a face; agora
conheço em parte, mas então conhecerei como tam
bém sou conhecido!"
Existem várias interpretações improcedentes desta
passagem. A chave está nos advérbios temporais "quan
do" e "então". Mas primeiro, observemos que o motivo
dado no versículo 9 pelo cessar ou passar dos dons citados
no versículo 8 é que são "em parte". A deficiência desses
dons é que são parciais, e portanto imperfeitos. Agora,
atenção para o versículo 10! Quando vier "o perfeito", en
tão o em parte será aniquilado. A questão toda é saber se
"o perfeito" já chegou, certo? Pois só aí é que o "em parte"
acaba. Que ou quem será esse "perfeito"? Não pode ser o
Cânon completo da Bíblia porque nesse caso o "em parte"
seria o Antigo Testamento que certamente não foi "aniqui
lado" ainda. E não será, pois Salmo 119.89 versa assim:
"Para sempre, ó SENHOR, está firmada a tua palavra no
céu". (Quisesse ser "chato" eu diria que o "em parte" teria
que incluir também os livros neotestamentários escritos
antes de 1 Coríntios, ou mesmo antes de Apocalipse!)
A solução está no versículo 12. (O versículo 11 é paren-
tético - o "quando" deste versículo no texto grego é pala
vra diferente do "quando" no versículo 10.) Será que o "a-
gora" do versículo 12 já passou? Alguém entre nós ousaria
dizer que não mais vê obscuramente, que tem visão perfei
ta das coisas? Se alguém assim ousasse seria desmentido
pelo Texto, pois continua: "entào veremos face a face".
Qual é o antecedente semântico desse "então"? É o mesmo
108
do outro "então" no versículo 10, a saber, "quando vier o
perfeito". Afinal, quando é que veremos "face a face"?
Quando conheceremos "assim como somos conhecidos"? A
resposta está em 1 João 3.2. "Amados, agora somos filhos
de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser.
Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos se
melhantes a ele, porque assim como ele é o veremos." É
quando Jesus voltar que o veremos "face a face". Como
Ele não voltou ainda os dons continuam em pé. Procede?
Os dons do Espírito existem, mas "mexer" com eles
requer discernimento. Como já disse, Deus tem me permi
tido ministrar em igrejas de toda sorte, inclusive muitas
que reconhecem os dons. Também tenho visitado muitas
outras sem ministrar. Mas tenho constatado um fato in-
quietante: há falta de discernimento no uso dos dons, oca
sionando imitações.
O dom legítimo também existe. Parece-me que o Tex
to Sagrado é suficientemente claro a esse respeito. Senão,
vejamos em 1 Coríntios 12.
04 - Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mes
mo.
05 - E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o
mesmo.
06 - E há diversidade de operações, mas é o mesmo
Deus que opera tudo em todos.
07 - A manifestação do Espírito é dada a cada um vi
sando a um fim proveitoso.
08 - Pois a um é dada a palavra de sabedoria, pelo
Espírito; já a outro a palavra de conhecimento, pelo
mesmo Espírito;
09 - e a outro fé, pelo mesmo Espírito; e a outro dons
de curar, pelo mesmo Espírito;
10 - e a outro operações de milagres; e a outro profe
cia; e a outro discernimento de espíritos; e a outro va
riedade de línguas; e a outro interpretação de línguas.
11 - Mas todas estas coisas é um só e o mesmo Espíri
to que opera, repartindo, como lhe apraz, a cada um
seu dom.
Os espíritos influem em objetos físicos, Voltando ao
assunto da atuação do inimigo, ele não somente ataca as
109
mentes das pessoas mas ataca também os corpos. Quem lê
a Bíblia com um pouco de atenção não estará alheio a esta
verdade. O caso de Jo vem à mente, Foi Satanás, nominal
mente, que feriu a Jo com as chagas malignas pelo corpo
inteiro (Jo 2.7). Foi ele também que enviou sabeus, cal-
deus, fogo e vento para acabar com os bens e os filhos de Jo
(Jo 1.12-19). O problema físico que Paulo recebeu ele cha
mou de "mensageiro de Satanás" (2 Co 12.7). Certo dia Je
sus curou uma mulher que tinha "um espírito de enfermi
dade, havia já dezoito anos"; como resultado, ela andava
encurvada sem poder se endireitar. Comentando o caso Je
sus disse que "Satanás a tinha presa" (Lc 13.11-16).
A atuação dos demônios é repetidas vezes associada a
problemas físicos (Mt 8.16, 10.1 e 12.22; Mc 1.26, 5.2-13 e
9.17-27; Lc 6.18, 7.21 e 8.2; Atos 5.16 e 8.7, entre outras
passagens). Tenho conhecimento pessoal de muitos casos,
inclusive na própria família. É claro que existem as doen
ças de origem orgânica; um caso de malária não será resol
vido tentando expulsar demônio. Mas é igualmente verda
de que um problema de origem demoníaca não será resol
vido por remédios. Quero alertar para a possibilidade de
uma mistura de sintomas. Certa vez fiquei às voltas com
um caso durante dois anos e meio. Existia um problema
orgânico que produzia certos sintomas, mas um demônio
enfeitava o caso com outros sintomas a mais; eu repreen
dia o demônio mas não resolvia por completo; a pessoa to
mava remédio e também não resolvia por completo. Foi
preciso agir adequadamente nas duas frentes.
É necessário que entendamos que os demônios deve
ras podem influir nos objetos físicos. Apanhamos muito, e
de forma inútil, por não prestarmos atenção para este fato.
É corriqueiro haver problemas com a luz ou com o serviço
de som em grandes concentrações evangelísticas, por
exemplo, que se resolvem repreendendo a ingerência do
inimigo (só que muitas vezes não se resolvem porque o pes
soal não está por dentro do assunto). Participei da Con
venção Centenária Batista em Salvador, Bahia (outubro
de 1982). O serviço de som foi um desastre, o tempo todo.
Tinha hora que ninguém entendia nada; outras vezes algu
mas áreas dentro do ginásio ouviam mais ou menos e ou-
110
trás não. Pedi cinco minutos para falar sobre missões e
com muita gentileza me atenderam. Antes de falar proibi
qualquer interferência demoníaca no sistema de som, pe
dindo também que Deus garantisse uma audição perfeita.
Falei. Depois várias pessoas me disseram que ouviram mi
nha palavra com perfeita clareza e que foi a única palavra
que ficou tão clara assim, durante a convenção toda.
Qualquer crente que já foi espírita, e ainda mais se
chegou a ser médium, dará testemunho enfático quanto à
atuação dos demônios nos objetos: portas batem sem ven
to, aparelhos funcionam sem energia e sem alguém tocar,
objetos se deslocam sem causa visível, etc. Não se trata de
crendice; é pura verdade. Temos experiências de demônio
interferir em computador! (Quando se pensa em tudo nes
te mundo que é controlado por computadores, ese dá con
ta de que Satanás pode mexer neles, passa um ligeiro cala
frio pelo espinhaço da gente; será que não?)
Ouvi o seguinte relato dum missionário que trabalhou
junto a uma tribo indígena de Rondônia. Ele e um colega
estavam numa cabana a menos de um quilômetro da al
deia dos índios. Certa tarde veio um índio dizer: "Saiam
correndo daqui, porque logo mais a noite o pajé vai enco
mendar aos demônios que derrubem essa árvore tremenda
em cima desta casa para matar vocês; escapem daqui!"
Eles agradeceram a boa vontade do homem mas resolve
ram ficar. Plantaram joelho no chão e vararam a noite cla
mando a Deus por proteção. Perto do amanhecer deu um
vendaval que derrubou exatamente aquela árvore monstro
que tinha próximo da cabana, só que caiu ao lado, sem
triscar nela. O estrondo da queda foi reverberando pela sel
va e com pouco vieram os índios, correndo para ver o resul
tado do "serviço". Qual não foi a surpresa deles ao consta
tarem que os dois estavam ilesos e tranqüilos! A partir da
quele dia os índios começaram a levar o Evangelho a sério,
pois ficou provado que o poder de Deus era maior que o po
der dos espíritos malignos. Embora Deus protegesse seus
servos, os demônios efetivamente derrubaram aquela árvo
re. Como nem sempre há aviso prévio, e nem oração es
pecífica, muitas vezes somos atingidos. Estamos em guer-
111
ra, quer saibamos ou queiramos que não. Andar num cam
po de batalha sem se precaver é tolice em demasia!
Tentação ao mal. Faço uma distinção entre as inge
rências já discutidas e a tentação ao mal. Aquelas nos atin
gem direta e efetivamente mas sem a gente perceber ou en
tender (muitas vezes). Já esta é uma coisa que se apresen
ta a nosso pensamento de forma consciente. Se o Senhor I
Jesus foi tentado por Satanás (ver Mt 4.1-11 e Lc 4.1-13),
ninguém pense que nós escaparemos. Aliás, nem é neces
sário insistir neste ponto, pois certamente todos reconhe
cem que sofrem tentações. Por isso a promessa que encon
tramos em 1 Coríntios 10.13 se torna bastante preciosa:
"Não vos sobreveio tentação que não fosse comum aos ho
mens, e Deus é fiel, que não permitirá que sejais tentados
além das vossas forças; antes com a tentação dará também
a saída, para que possais suportá-la." Quer dizer, a saída
existe, mas nem sempre nos valemos dela!
Parece-me importante atentarmos para a verdade que
se encontra em Tiago 1.13. "Ninguém, sendo tentado, di
ga: É de Deus que sou tentado; porque Deus não pode ser
tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta." O Texto
é bem claro, tentação ao mal nunca vem de Deus. Resulta
daí que ao sermos tentados não devemos hesitar sequer um
segundo - não há porque ficar apreciando o gosto e nem
perguntar se talvez venha de Deus, o que devemos é recha
çar a idéia imediatamente, sabendo que não pode ser de
Deus e portanto é do inimigo. Com fogo não se brinca.
Implicações, Se pudéssemos nos compenetrar, real
mente, do quanto os demônios atrapalham nossas vidas, j
poderíamos simplesmente transformá-las, desde que
aprendêssemos também a manusear as armas espirituais
que Jesus coloca à nossa disposição. Porém, dois alertas se
fazem necessários: primeiro, não enxergar demônio debai
xo de cada pedra e atrás de cada pau; segundo, não jogar a
culpa por tudo de mal que faço sobre o inimigo. Às vezes,
quando alguém acorda para estas verdades se impressiona
de forma exagerada e passa a ver demônio em tudo. Não é
o caso - exige-se discernimento. Ou então alguém acha
que pode eximir-se de responsabilidade por seus próprios
pecados. Não funciona - somos pecadores por conta pró-
112
pria e Deus irá cobrar de nós mesmos. Eu sozinho, sem
auxílio de ninguém, sou capaz de pensar ou fazer tudo que
não presta. Nasci pecador. Mesmo nas coisas que fazemos
sob influência maligna existe a nossa parcela de culpa pela
qual teremos de prestar contas a Deus.
Tendo feito essas ressalvas, volto a insistir que somos
atacados das formas mais variadas, nós os crentes. O que
acontece lá fora no mundo deve ultrapassar aquilo que so
mos capazes de imaginar. A participação demoníaca nos
suicídios, na violência, no crime, na imoralidade, nos
vícios, no homossexualismo, no "rock", e t c , e t c , não está
"no gibi", como diz o outro.
Cabe mais uma observação aqui: os ataques podem
ser indiretos. O inimigo leva alguém a escrever uma carta,
mandar um telegrama ou fazer um telefonema e a mensa
gem nos abala. Nossa vida é assim tumultuada através de
outra pessoa e nem sempre discernimos a origem verdadei
ra do ataque. Outra coisa que o inimigo gosta de fazer é
atacar um filho para atingir os pais, e funciona muito bem.
Se meu filho pega uma doença esquisita, é óbvio que isso
vai me distrair, me preocupar, e com isso traz prejuízo
para meu ministério, para nem comentar o tempo e di
nheiro que poderão ser gastos sem resultado. Cuidado com
os ataques indiretos.
Gastei esse tempo todo versando sobre o inimigo não
para enaltecê-lo, e muito menos para cultuá-lo, e sim para
que os irmãos se conscientizem, se compenetrem do perigo
que ele representa. Quem for mexer com fera sem respeitar
o perigo que representa, sem saber lidar, fatalmente apa
nha. Não sei dos outros, mas pessoalmente já cansei de
apanhar. Chega! Temos um inimigo terrível pela frente, a
maior das feras, mas o nosso Mestre, Jesus, nos coloca à
disposição armas perfeitamente adequadas não só para
nos defender como para impor a derrota do inimigo. Antes
de atentarmos para as armas, no entanto, creio ser aconse
lhável considerarmos uma questão preliminar: Por que
existe tanta ignorância no meio evangélico a respeito des
tas coisas?
113
Por Que Tanta Ignorância?
No momento em que a gente começa a se compenetrar
do alcance do assunto em pauta, surge naturalmente uma
perplexidade. Como é que estas verdades não são comen
tadas nas igrejas e nem ensinadas nas escolas teológicas
(descontadas as poucas exceções)? Não é uma coisa esqui
sita? Pensando no efeito prático diário, esta área de verda
de fica quase sem par quanto aos reflexos diretos em nos
sas vidas. Deveria ocupar um iugar de destaque nos cardá
pios dominicais, mas em vez disso sequer aparece. Por que
será? Creio existirem diversos fatores que contribuem para
a situação atual.
A cultura envolvente. Somos influenciados pela cul
tura envolvente que é muito materialista, descrente no
sobrenatural. Já observamos que Satanás influi fortemen
te nas culturas dos homens (1 Jo 5.19). Entendo que o ma-
terialismo é um dos "sofisrnas" (2 Co 10.4) que Satanás
tem levantado para evitar que as pessoas cheguem a um
conhecimento adequado do Deus verdadeiro. (Além do
materialismo temos islamismo, marxismo, hinduísmo, bu
dismo, animismo, humanismo, confucionismo, e outros -
cosmovisões que afastam o homem de Deus, todas elas.)
Parece-me óbvio que o que mais ajuda o inimigo é uma in
credulidade quanto à sua própria existência (quer dizer,
da parte de pessoas que se dizem cristãs). Se alguém nem
acredita que Satanás e os demônios existam, eles podem
agir a contento já que o incrédulo nunca vai entender o que
está acontecendo. O inimigo fica sozinho em campo fazen
do o que bem quer e entende, sem sofrer "marcação" algu
ma.
É nada menos que uma tragédia que pessoas "cristãs"
se deixem influir pela cultura envolvente a ponto de rejei
tarem o que a Palavra de Deus claramente ensina. Na Eu
ropa e na América do Norte o humanismo materialista já
se tornou praticamente religião oficial. Domina o sistema
escolar em todos os níveis. Predomina na televisão, no ci
nema, no teatro, nos livros e jornais. Então não é de estra
nhar que os fundamentos dessa cosmovisão estejam inva
dindo as igrejas e influindo nelas, embora seja de lamen-
114
tar. Poderíamos pensar que num Brasil cada vez mais
espírita o preconceito contra o sobrenatural não seria uma
ameaça, mas esse pensamento representaria uma avalia
ção superficial. De onde vieram os professores que lecio
nam em nossas faculdadesteológicas? Muitos são estran
geiros, oriundos exatamente da Europa e da América do
Norte? E os professores brasileiros, se formaram onde?
Muitos vão ao exterior para cursar o mestrado ou o douto
rado. E todos aprenderam sua teologia com professores es
trangeiros e através de livros escritos por estrangeiros.
Meu intuito em fazer esta colocação é tão-somente mostrar
como uma mentalidade existente nos continentes supraci
tados poderia se projetar facilmente no seio das nossas
igrejas, a despeito da nossa cultura envolvente. Mas qual é
a ideologia que predomina nas universidades do país - não
é o marxismo, ou algum tipo de materialismo? Os profes
sores não sofreram as mesmas influências estrangeiras que
acabamos de comentar? Meus irmãos, precisamos abrir os
olhos! Precisamos acordar para o perigo terrível que nos
ronda. O humanismo, o materialismo e até o marxismo in
filtram e penetram cada vez mais nas nossas igrejas. São
"sofisrnas" satânicos que só dão prejuízo. Podem trazer as
pectos que imitem aspectos próprios do Reino de Deus, en
ganando os incautos e dando prejuízo maior no fim.
Uma noção errada de culpa, Nas andanças, tenho
observado em certos ambientes uma noção errada de culpa
que dá "vergonha" de tocar no assunto. Isto é, eles enten
dem que os demônios existem e atacam as pessoas, mas
parecem ter a idéia de que ser atacado por demônio é uma
coisa vergonhosa, isto porque a vítima teria convidado ou
facilitado o ataque. Cria-se assim um mal-estar, um clima
de "cerimônia" ou inibição que leva as pessoas a silenciar
diante da problemática. Isso também favorece ao inimigo.
As vítimas não recebem ajuda. Aliás, recebem uma carga
de culpa por cima dos ataques. As pessoas não são preveni
das. As armas de defesa não são explicadas. Enfim, o ini
migo está à vontade quase o mesmo tanto quanto diante
da incredulidade.
Existe um engano nesse quadro. Nos diversos relatos
nos Evangelhos nunca se diz que as vítimas eram culpadas
115
por serem atacadas. Trata-se de um assalto, uma violência
praticada contra a gente. Se você está andando pela rua e
de repente sofre um assalto por algum desconhecido, você
sente vergonha como se fosse culpa sua? Não há porque.
Mesmo em caso onde a natureza da agressão produz vergo
nha o silêncio favorece o assaltante e incentiva a reincidên
cia. Agora, é claro que a gente pode facilitar. Se você vai
mexer com terreiro, com "búzios", com horóscopo, com
coisas que são declaradamente do inimigo, paciência! Es
tará se expondo gratuitamente aos ataques. É claro que
pode. Contudo, creio que a maior parte dos ataques que so
fremos vêm porque pertencemos a Jesus e temos um inimi
go que nos odeia. Seja como for, meu desejo aqui é apelar
contra o silêncio. Vamos romper o "tabu". Vamos falar
abertamente da problemática. Vamos prevenir e alertar as
pessoas contra o perigo. Vamos desmascarar o inimigo e
ensinar como se defender contra seus ataques!
A nossa Bíblia nos despista! Por incrível que possa
parecer, nossas principais versões da Bíblia nos despistam
neste terreno. O substantivo "demônio" nada mais é do
que uma transliteração do grego, òm,\xovuav (uma transli-
teração é o aproveitamento duma palavra estrangeira, le
tra por letra, apenas aportuguesando, no caso). Quisera
que tivessem feito a mesma coisa com o verbo correspon
dente, õctuiJovLÇüj . Nesse caso disporíamos do verbo "de-
monizar" na língua portuguesa. Mas não, os tradutores co
locaram "endemoninhar". Sucede que o prefixo "en-" con
duz o raciocínio fatalmente numa direção, Se eu disser,
"Eis aí um homem endemoninhado!", qual é a idéia ime
diata que você formula a respeito do dito "homem"? Ele
tem que estar possesso. Certo? Alguém iria fazer outra
idéia? Duvido. Para nós "endemoninhado!" diz respeito a
possessão demoníaca. E daí, qual é o problema? Bem, é o
seguinte:
A possessão demoníaca certamente existe, mas repre
senta uma pequena parte da ação do inimigo contra os ho
mens, exatamente os casos mais extremos. (Embora exista
a insanidade orgânica não me surpreenderia constatar que
a maioria dos casos de insanidade decorre pelo menos par
cialmente de ação demoníaca.) A maior parte da atuação
116
dos demônios contra nós não chega ao ponto de ser posses
são. Existe o que poderíamos chamar de obsessão ou opres
são, bem como problemas físicos, mas entendo que os ata
ques mais freqüentes ingerem nas nossas mentes de formas
menos óbvias; tanto assim que no mais das vezes nem da
mos fé. Creio que devemos cunhar o vocábulo "demoni-
zar" para dizer respeito a toda e qualquer ingerência dire
ta, quer na mente quer no corpo. Podemos visualizar o con
ceito mediante um espectro contínuo:
nas mentes | nos corpos obsessão opressão [possessão
Como se vê, não incluo a tentação ao mal no espectro
por entender que não chega a ser uma demonização, pelo
motivo já exposto. O que fica para compor a idéia de de
monização, porém, engloba um mundo de sofrimento.
Vejamos agora algumas conseqüências da tradução
"endemoninhar". Não sei até onde posso culpar essa tra
dução, mas as igrejas e escolas "tradicionais"' dificilmente
tocam no assunto; talvez por pensar só em possessão e
imaginar que isso não seja problema para crente. Certo é
que alguém poderia freqüentar certas igrejas durante vinte
anos e não ouvir uma pregação sobre Satanás e os demô
nios. Já as igrejas e escolas "pen tecos tais" pelo menos tra
tam do assunto. Nos trabalhos de libertação, como versa a
expressão, costumam lidar somente com os casos de pos
sessão. Será que nâo? Num trabalho desses quando é que o
obreiro vai expulsar demônio? Só quando se manifesta,
certo? Alguém começa a gritar, rolar no chão, dar alguma
manifestação de estar sob controle alheio e aí o responsável
pelo andamento do trabalho confronta o demônio ou de
mônios e os manda embora. Mas se algum demônio ficar
quietinho no seu canto, que acontece? Nada, no mais das
vezes - ninguém mexe com ele; passa despercebido. Sei
que alguns obreiros ordenam aos demônios que se manifes
tem, mas será que todos obedecem? Como saber? E se a
manifestação nâo for de uma maneira que reconhecemos
como sendo "possessão", quem vai identificar e rechaçar
essa manifestação? Parece-me claro que mesmo nos am
bientes onde há expulsão de demônios, a maior parte da
117
ação do inimigo contra nós passa despercebida. Estão às
voltas com a possessão, e só.
Vejo outro resultado que pode ter desdobramentos até
sérios, Quando pensamos na ação demoníaca apenas em
termos de possessão, e quando uma igreja ensina que cren
te não pode ser possesso, acontece o seguinte. Não chega a
ser uma "possessão", mas a pessoa sabe que está sendo
atacada. Só que a única linguagem que conhece para tra
tar do assunto de ataque demoníaco é "possessão" e a igre
ja ensina que crente não pode ser possesso. Aí a pessoa en
tra numa angústia terrível - sabe que é crente, mas crente
não pode ser possesso; no entanto está sendo atacada e
sabe que está. Como explicar e como escapar? Não pode
dizer nada na igreja porque se admitir que esteja sendo
"possessa" aí deixa de ser aceita como crente, pois crente
não pode ser. Assim, a pessoa não pode nem receber ajuda
porque não se atreve a falar. Mesmo que viesse a falar não
receberia ajuda adequada porque os responsáveis só pen
sam em termos de possessão. O pior da história é que esse
sofrimento todo é simplesmente desnecessário. Precisamos
aprender a falar em termos de demonização, entender que
crente certamente é demonizado (sou atacado todos os
dias) e explicar o uso das armas espirituais que estão à nos
sa disposição.
A idéia de que seríamos intocáveis. Em muitos am
bientes evangélicos existe a idéia catastrófica de que sería
mos como que isentos ou "intocáveis" - isto é, que demô
nio não pode tocar em crente. Aliás, há um versículo que
parece dizer exatamente isso, a saber 1 João 5.18. "Sabe
mos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas
o que de Deus é geradoconserva-se a si mesmo, e o maligno
não lhe toca." Aí está, "o maligno não lhe toca" - poderia
haver uma coisa mais clara? Bem, vamos com calma. Que
conteúdo semântico podemos dar ao vocábulo "tocar" nes
te caso? Não pode dizer respeito a tentação ao mal porque
o Senhor Jesus foi tentado (Mt 4.1-11) e se Ele foi tentado
é claro que nós também o seremos. Não pode dizer respeito
a ataque contra o corpo físico porque o apóstolo Paulo foi
assim atacado (2 Co 12.7) e se ele pôde ser atacado é claro
que nós também podemos ser. Não pode dizer respeito a
118
ingerência na mente porque o apóstolo Pedro sofreu tal in
gerência (Mt 16.22,23) e se ele pôde ser atingido assim,
como imaginar que escaparemos nós? Se esse tal "tocar"
não pode ser nenhuma dessas três coisas, que é que sobra?
Mas a solução para o caso é outra.
Qual é o antecedente do pronome "lhe"? Quem é que
o maligno não pode tocar? No contexto fica claro, é "todo
aquele que é nascido de Deus". Certo? Muito bem, você é
nascido de Deus? Quem entre nós vai dizer que nasceu de
Deus? Eu. E se já foi regenerado pelo Espírito Santo, você
também. Mas quando aconteceu isso? quando nasceu fisi
camente do ventre da mãe? Não. Só Jesus nasceu assim.
Ele foi literalmente gerado por Deus na virgem Maria. E
nós? nascemos de Deus no momento da regeneração. Mas
não perdemos a identidade; todo mundo que nos conhecia
antes de nascermos de novo nos conhece depois também.
Então, o que há em mim que é nascido de Deus? Não pode
ser tudo aquilo que eu, Gilberto, era antes do novo nasci
mento. O que então? Entendo que é a "nova natureza" ou
o "novo homem" que o Espírito Santo gera em mim. Não
devemos igualar o "novo homem" ao Espírito Santo, exa
tamente, mas existe uma interligação estreita entre am
bos. Tanto assim que em Gaiatas 5.17 é "o Espírito" que
milita contra a carne. O que em mim é "nascido de Deus"
é o "novo homem" e é este, auxiliado pelo Espírito Santo
em mim, que o maligno não pode tocar. Sucede que eu,
Gilberto, sou uma mescla de duas naturezas agora (depois
de convertido) e como um todo sou perfeitamente "tocá-
vel". Como já disse, sou atacado todos os dias.
Ainda sobre 1 João 5.18, nossas versões nos apresen
tam duas discrepâncias sérias. Onde a versão "Corrigida"
traz "não peca" a versão "Atualizada" tem "não vive em
pecado". Como pode? Traduziram textos gregos diferen
tes? Neste caso, não; o texto é único. Encontramos o verbo
"pecar" no presente do indicativo simples e negado. A tra
dução natural e normal seria "não peca", Não existe nada
absolutamente de "viver" no texto original. De onde então
tirou a "Atualizada" a idéia de viver em pecado? Foi um
preconceito teológico que os tradutores impuseram ao Tex
to (fizeram a mesma coisa, em grau maior, com 1 João 3.9;
119
a "Corrigida" tem a tradução certa). O último verbo do
versículo, "tocar", também se encontra no presente do in
dicativo simples e negado - é a mesmíssima construção
morfológica do verbo "pecar". E como é traduzida pela
"Atualizada"? É "não vive tocando"? Não, é "não toca",
que é a tradução certa. A "Corrigida" é coerente, e correta,
quando traduz "não peca" e "não toca". O que o Texto Sa
grado afirma é que o gerado de Deus não peca. Alguém en
tre nós ousaria dizer que não peca? E o Espírito Santo que
habita em nós, Ele peca?
(A fim de fazer justiça aos tradutores da "Atualizada"
devo dizer que certamente não explicariam seu procedi
mento da mesma maneira que eu. Imagino que diriam
aquilo que sempre se ouve na primeira aula sobre o tempo
presente do verbo na língua grega. O professor afirma que
em Grego o tempo presente tem força "linear". Bom, às
vezes tem, mas nem sempre. Parece muito com o Portu
guês. Se eu pergunto, "Você toma café?", e você responde,
"Sim, tomo", que devo entender por sua resposta? Você
vive tomando café? Não, não é? Você toma vez por outra,
ou tem o hábito de tomar, mas não vive tomando. Correto?
Mas se você responde, "Não, não tomo", aí que devo en
tender? Você não vive tomando café? Bem, talvez podería
mos chegar até íá, mas o sentido normal e direto é que você
simplesmente não toma. Nas línguas em geral encontra
mos que as normas que regem uma construção gramatical
quando é positiva costumam mudar quando é negativa. É
o caso da questão em pauta. Mesmo que o tempo presente
do verbo grego tenha efeito linear quando positivo, nem
por isso o terá quando negativo. Os tradutores da "Atuali
zada" "pisaram na bola".)
Agora vamos à segunda discrepância. A "Corrigida"
traz "mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo"
ao passo que a "Atualizada" tem "antes, Aquele que nas
ceu de Deus o guarda", que é bem diferente. Desta vez o
problema é que traduziram textos gregos diferentes - a di
ferença é de uma letra! Essa letra faz a diferença entre um
pronome demonstrativo ou reflexivo. O porquê da existên
cia de vários textos gregos não posso explicar aqui. embora
tenha alguma perícia nesta área (ver meu livro, The Iden-
120
tity of the New Testament Text). Tenho de me contentar
era dizer que a vasta maioria dos manuscritos gregos, a
quase totalidade, traz a forma reflexiva, que entendo ser o
texto original. Assim, mais esta vez a "Corrigida" está me
lhor. Eu traduziria o versículo assim: "Sabemos que todo
aquele que é gerado de Deus não peca, mas o gerado de
Deus protege-se a si mesmo e o maligno não lhe toca." Será
que sou capaz de me autoproteger? E o Espírito Santo?
Enfim, somos vulneráveis aos ataques demoníacos -
que ninguém se iluda! Até onde eu imagino entender o as
sunto, e reconheço que não é muito longe, creio que en
quanto eu estiver com meu pensamento conscientemente
submisso ao Espírito Santo minha mente deve ficar a salvo
de ingerência maligna, mas no momento que essa submis
são deixar de ser consciente, e pior ainda se deixar de ser,
então é vulnerável. Mesmo com a mente a salvo, o corpo
ainda é vulnerável. Pelo menos Paulo sofreu dum proble
ma físico de origem satânica durante algum tempo e eu
não me atreveria a sugerir que ele não estivesse submisso
ao Espírito esse tempo todo.
Suponho que muitos leitores estejam relutando contra
essas colocações. Sei que contradizem certas idéias que
têm gozado de ampla divulgação e aceitação no meio evan
gélico. Mas que posso fazer? Tenho compromisso com a
Palavra de Deus e me sinto obrigado a fazer exegese ínte
gra. Vamos analisar a questão mais um pouco. Se fosse Sa
tanás onde você concentraria seu fogo? Ãs vezes, quando
estou ministrando num seminário teológico, escandalizo a
turma ao indagar qual o lugar naquela cidade que deve ter
a maior concentração de demônios. As pessoas costumam
pensar na penitenciária, numa casa de prostituição, no
terreiro mais importante da área, etc. "Nada disso," res
pondo eu, "é aqui". Mas aqui, Professor?" "Pois então,
que lugar na cidade representa o maior perigo para o ini
migo? Isto aqui é uma 'fábrica' de soldados para o exército
de Jesus: é aqui, fatalmente, que Satanás vai concentrar
seu fogo. Não tem outra coisa na cidade de maior periculo-
sidade para ele." Alguma dúvida? Não está "na cara"?
Aquele bêbado caído na sarjeta, alguma prostituta ou al
gum drogado, eles estão "no papo". Os demônios não pre-
121
cisam gastar mais tempo com eles. Pode ter certeza, meu
irmão, quanto mais útil você se torna na mão de Deus,
quanto mais você se projeta no Reino, tanto mais "chum
bo" vai receber, e do grosso. Satanás é muita coisa, menos
tolo.
Pronto, não posso mais protelar - chegou a vez do "a-
bacaxi". Afinal, crente pode ser possesso ou não pode? De
sarmar os espíritos por favor! Vamos com calma. Deus não
é onisciente e onipresente? Então, onde quer que Satanás
esteja Deus também está - tem de ser se Ele é onipresente.
Jo 2.1 deixa claro que Satanás se apresenta perante o pró
prio Trono de Deus! Apocalipse 12.10 deixa entender que
ele ainda tem acesso lá e pelo jeito passa boa parcela do
tempo, pois nos acusa "de dia e de noite". É oseguinte,
muitas vezes se argumenta que se Deus está na minha vida
então Satanás não pode entrar ao mesmo tempo. Como?
Por quê? Se o inimigo consegue entrar no Santuário no
Céu, entrar na minha vida é "café pequeno" - não deve ser
problema algum. Vamos pensar na vida como se fosse uma
casa. Qualquer pessoa genuinamente convertida tem o
Espírito Santo na vida, ou na "casa". Mas infelizmente
muitos crentes mantêm o Espírito na sala de visita. Ele es
tá na casa (que é de máxima importância) mas não tem
domínio da casa - tem armário lá no fundo trancado a sete
chaves! Têm áreas da vida que nunca foram abertas e en
tregues. Pois bem, se o Espírito fica confinado à sala de vi
sita, se não tem a liberdade da casa toda, Satanás facil
mente toma conta da cozinha. Tranqüilo. Perante a
problemática ora em discussão a questão chave não é se eu
tenho o Espírito Santo mas se Ele me tem! Não é a presen
ça e sim o controle do Espírito. Temos de entregar todas
as chaves da casa.
Sei, você ainda não está gostando. Então vamos pen
sar mais um pouco. Se eu pecar conscientemente numa
coisa estou me rebelando contra Deus nessa coisa. Certo?
Mas se me rebelo contra Deus estou fazendo causa comum
com Satanás já que o negócio dele é rebelião contra Deus.
Quer dizer, nessa coisa entrei na dele, essa área da vida en
treguei de mão beijada ao inimigo. E se eu me rebelo numa
segunda coisa; lá se vão duas áreas de mão beijada. E uma
122
terceira ou uma quarta? Meu irmão, sinceramente, se você
entregar três ou quatro áreas de sua vida a Satanás ele
pode tumultuá-la de forma tal que pouco me interessa o
nome que queira dar à sua situação; estou mais preocupa
do com a realidade.
Voltemos ao espectro contínuo que já apresentei. As
divisões e distinções são arbitrárias. Quem mandou fazer
os riscos onde os fiz? Como sabemos se o limite entre pos
sessão" e "opressão" não deve ser mais para cá ou mais
para lá? Como essas distinções são arbitrárias, coisas que
saem da cabeça dos homens e não do Texto Sagrado, julgo
improcedente tentar fundamentar doutrina sobre tais con
ceitos. Tais distinções podem ser úteis para descrever ca
sos específicos, mas no momento que ingressamos no terre
no da doutrina (doutrina bíblica ou teológica, não costu
me) devemos deixá-las de lado, voltando para o Texto. O
Texto fala de demonização que, por tudo que acabo de ex
por, entendo abranger desde uma simples ingerência no
pensamento até o controle da pessoa.
Finalizando, temos de andar cheios do Espírito, con
trolados conscientemente por Ele. Pessoa que anda assim
nunca será "possessa". Agora, se facilitar, já sabe, o inimi
go não perdoa! Nós, os soldados de Cristo, certamente so
mos o alvo preferido. Estamos em guerra, guerra sem quar
tel ou trégua. Como já expliquei lá pelo começo do capítu
lo, Deus não vai operar um milagre contínuo para nos li
vrar das conseqüências da nossa ignorância culpável. Te
mos de pagar por nosso descaso.
Os acovardados. Parece existir medo da parte de al
guns (de muitos?) pregadores e doutrinadores de tocar no
assunto. Não se trata de incredulidade ou ignorância; eles
sabem que Satanás e os demônios existem e atuam, mas
estão acovardados. Certa feita um novel pastor pregou
uma bela mensagem contra o inimigo, desceu "lenha"
mesmo, só que o contra-ataque não tardou! Como o prega
dor não sabia se defender levou a pior, e agora ficou aco
vardado. Com isso ele nunca mais fala do inimigo, e como
resultado desse silêncio seus ouvintes permanecem na ig
norância. Como muito bem está dito em 2 Timóteo 1.7,
Deus não nos dá espírito de covardia. É óbvio que qualquer
L23
covardia nossa só pode ajudar o inimigo. Por mais medo
que alguém tenha de Satanás, no entanto, não deveria ter
mais "medo" de Deus?
Em Salmo 78.9 encontramos um comentário triste.
"Os filhos de Efraim, embora armados de arco, bateram
em retirada no dia do combate. Não guardaram a aliança
de Deus..." Que vergonha! Essa covardia é interpretada
como traição à aliança. Deus não gostou. Lembremos que,
na época, arco era arma privilegiada (ainda não existia
arma de fogo) e assim eles ficaram com mais culpa. Em Je
remias 48.10 encontramos uma palavra mais contundente.
"Maldito aquele que fizer a obra do SENHOR relaxada-
mente, e maldito aquele que retém a sua espada do san
gue!" Maldito! Maldito! Eis a opinião de Deus acerca da
pessoa que possuindo arma se recusa a guerrear. Maldito!
Ser pacifista na guerra espiritual é traição contra nosso
Rei. Maldito! Está na hora de conhecer nossas armas e
aprender seu manuseio. Primeiro as armas de defesa.
As Armas de Defesa
Jesus não nos mandaria e nem nos manda contra Sa
tanás sem defesa. Temos um inimigo terrível pela frente,
mas temos também as melhores armas. Mas que adianta
ter as melhores armas se não as utilizarmos? Posso ter o
melhor escudo do mundo mas se deixo no armário ao sair
que adianta? Mesmo saindo com o escudo no braço é preci
so estar atento para poder aparar a flechada no escudo e
não no corpo. Vamos começar pela armadura descrita em
Efésios 6.
A armadura de Efésios 6. Parece-me que as peças
aqui descritas servem principalmente para defesa. Cabe
observar que nada tem para proteger as costas. Se mostrar
as costas para o inimigo está "no papo"! Temos de enfren
tar o inimigo, e ainda por cima ficar atentos. (Eis aí um as
pecto da coisa que me maltrata, me dá raiva mesmo! É
que nunca podemos descansar. Qualquer cochilo e "To
ma!". A gente fica cansado mas os espíritos, não possuindo
corpo, não têm esse problema.) Como já transcrevemos a
passagem no começo do capítulo aqui me limito a comen
tar as peças.
124
Primeiro o cinturão e a couraça (v 14): parece óbvio
que qualquer falta de verdade ou justiça na vida fornece
uma brecha que o inimigo pode aproveitar (e ele não dor
me no ponto). Depois as botas (v 15): creio que falta de
preparo para a obra é como andar descalço; qualquer pe
dra pontiaguda ou caco de vidro corta o pé e a gente sai
mancando (para soldado isso pode ter conseqüências sé
rias).
O escudo merece menção especial (v 16). Mas que
arma tremenda, capaz de apagar "todos os dardos infla
mados do maligno"! Qual será a exata natureza dessa ar
ma? O simples fato de ter fé não pode ser porque todo
mundo tem fé. Aliás, nada se faz nesta vida sem fé. Já pa
rou para refletir nisso? Sentado estou confiando na cadei
ra, que não vai ruir e me jogar no chão; já houve cadeira
que não merecesse confiança. Em pé estou confiando nas
pernas, que vão me sustentar; já houve vez que me traí
ram. Tomar café hoje foi um ato de fé; já houve quem to
masse café temperado, com arsênico! Enfim, nada se faz
sem fé em alguma coisa. A questão é, em que ou em quem
está depositada minha fé? Creio que nosso escudo tem de
ser fé em Deus, mas fé nele como sendo o Maior: é esta a
certeza que nos dá a condição de enfrentar o inimigo e apa
gar todos seus "dardos".
Depois vem o capacete e a espada (v 17). Parece claro
que sem a salvação nem estaríamos no exército de Jesus,
mas já que capacete protege exatamente a cabeça, pode
ser que seja a consciência ou a convicção, a certeza da sal
vação que está em foco. Sem tal certeza ficamos sem con
dições íntimas de enfrentar o inimigo. Quanto à espada, o
Senhor Jesus ilustrou como usar a Palavra de Deus para
defesa ao rechaçar as tentações de Satanás (Mt 4.1-11).
Certamente faremos uso da Palavra também ao tomar a
ofensiva contra o inimigo.
É na oração que ingressamos no âmbito espiritual e é
primordialmente nesse âmbito que a guerra se trava, pois é
essencialmente espiritual. Prestemos atenção para o versí
culo 18. Fala de "súplica" e em "todo o tempo"; fala de
"vigiar" e com "toda perseverança". Evidentemente, é
para ser uma atividade que levamos a sério, que ocupa
125
tempo e na qual insistimos. Não é questão de orar uma vez
e esquecer ou desistir. Devemos orar por "todos os santos",
que vale dizer que é uma coisa bastante importante,se to
dos precisam dela. Mas Paulo prossegue dizendo, "e por
mim". Ora, se Paulo precisava, então calcule a gente! Cos
tumo dizer a qualquer candidato a missionário que não
deve partir para o campo sem que um bom número de pes
soas se tenham comprometido a orar por ele. Uma andori
nha só não faz verão. Como o uso das nossas armas quase
sempre se expressa através de oração, ainda estaremos co
mentando a oração ao comentar essas armas. Assim sendo,
vamos às outras armas.
A maior arma de defesa. É em Tiago 4.7 que encon
tramos a maior e a melhor arma de defesa, pelo menos a
meu ver: "Sujeitai-vos pois a Deus; mas resisti ao diabo, e
ele fugirá de vós." Este verso contém dois verbos no impe
rativo, duas ordens. A primeira é "sujeitai-vos" - é total
mente necessário que estejamos efetivamente sujeitos a
Deus antes de investir contra o inimigo (nada melhor nesse
sentido do que ser um discípulo de Jesus nos termos que
comentamos no capítulo IV). Não queira saber de enfren
tar Satanás na sua própria força; você será esmagado. Vo
cê deve lembrar de que ele é o ser mais poderoso que outro-
ra foi criado. E agora é inteligente e malevolente agindo no
Universo. Para podermos ter o poder de Deus e para impor
a vitória de Cristo ao inimigo, é imprescindível que esteja
mos sujeitos a Deus. Mas uma vez satisfazendo a primei
ra condição, ou ordem, enfrentamos logo a segunda, "Re
sistir". E ordem; não ponto facultativo. Sempre que o ser
vo de Cristo suspeitar da atuação do inimigo em determi
nado caso tem a incumbência, a obrigação de resistir-lhe: é
uma ordem.
Vamos pensar um pouco nesse verbo "resistir". Pri
meiro, tem de ser consciente, uma atitude que a gente to
ma. Também, é uma reação contra alguma coisa. Creio
que é exatamentee isso: temos de reagir conscientemente
contra os ataques do inimigo. É um "repelir", quase um
"rechaçar". Saí da selva em 1972 "por conta*1, de tanto
apanhar. Afinal, não era "possível" que um servo de Cristo
com a bagagem teológica que eu tinha apanhasse tanto.
126
Acabei entendendo que eu certamente estava por fora de
alguma verdade importante. Saí à cata de subsídios. Li,
ouvi e observei pessoas que diziam ter conhecimento e ex
periência na área. Nunca aceito a experiência de ninguém
como sendo norma; ouço com respeito mas vou direto ao
Texto Sagrado para ver se a coisa procede, se tem Tespaldo
na Bíblia. Aliás, diga-se de passagem que doutrina nunca
se deve basear em experiência, jamais; doutrina se baseia é
na Palavra de Deus. As experiências podem servir para
ilustrar uma verdade ou doutrina, mas têm de ser peneira
das - existem experiências enganadoras, pois Satanás é
uma "fábrica" de experiências (se você quiser "experiên
cias" ele dá muitas). Muito bem, voltemos à minha pes
quisa.
Essas pessoas diziam que o "resistir" de Tiago 4.7
consiste em reconhecer a ação do inimigo em determinado
caso e repreendê-lo em nome do Senhor Jesus. Isso "bate"
com o sentido natural da palavra. Provei na própria expe
riência da maneira seguinte. Estava cursando doutorado
na cidade de Toronto, no Canadá. Na época dirigíamos um
carro, emprestado, tipo Belina ou Veraneio, só que era
mais comprido que a Veraneio. Deitávamos o banco trasei
ro, fazendo aquele leito, forrávamos com colchonete para
as crianças brincarem (e dormirem), amontoávamos a ba
gagem no meio (para servir de isolamento - quem tem
criança entende) e colocávamos as crianças na "cozinha".
Um dia fomos visitar os sogros, uma viagem de oito horas.
As duas filhas, que na época tinham dez e seis anos, res
pectivamente, estavam na "cozinha", eu no volante e a es
posa ao lado. A lei, no Canadá, permitia 110 km e eu esta
va desenvolvendo mais ou menos isso - super-estrada, su
per-carro, pouco movimento, dia bonito, você sabe. Quem
já andou nessa velocidade sabe que o próprio carro fica ba
rulhento: a zoada dos pneus no asfalto, o motor um pouco
forçado. Pois bem, estava dirigindo tranqüilamente, as fi
lhas brincando de maneira quieta, gostosa, quando de re
pente estourou uma briga lá atrás das feias, "unhas e den
tes". Mas foi de repente, sem aviso prévio. É natural que
crianças confinadas assim durante algum tempo acabem
perdendo a serenidade, mas nesse caso a coisa se desenvol-
127
ve de forma previsível e a gente reage em tempo hábil.
Dessa vez, não; me pegou completamente de surpresa.
Passaram vários segundos para eu armar a reação. Antes
de falar me deu aquele estalo, Deus me revelou: "Aquilo
não é natural". Eu vinha pesquisando o assunto e estava
preparado. Falei em inglês, mas traduzindo ao pé da letra
disse: "Satanás, és tu. Te repreendo em nome de Jesus!"
Agora, vamos recompor bem o quadro: o carro estava fa
zendo barulho e as crianças estavam gritando; embora fa
lasse em viva voz, não levantei a voz e estava olhando para
a frente guiando o carro. Quer dizer, não havia como as
meninas ouvirem o que eu disse, como de fato não ouvi
ram. Pois bem, no momento que falei aquilo, imediata
mente, cessou a briga entre as duas meninas; mas parou
mesmo! Voltaram a brincar de maneira pacífica e gosto
sa. Louvado seja Deus!
Aquilo me ensinou duas coisas. Primeiro, o resistir
funciona assim mesmo: reconheci a atuação do inimigo e
repreendi em nome de Jesus. De passagem, devo observar
que não imagino em momento algum que tenha sido o pró
prio Satanás que atacou minhas filhas, certamente ele tem
afazeres mais importantes. Foi um demoniozinho qual
quer. Utilizei o nome próprio do inimigo porque assim me
ensinaram, e funcionou. Mas como poderia se não foi Sata
nás? Bem, imagino que ao repreender o chefe atingi por ex
tensão o subalterno que agia diretamente no caso. Sendo
Deus quem obriga o inimigo a obedecer, Ele se vale da nos
sa intenção. Segundo, o inimigo não tem vergonha. Atacar
duas crianças dessa maneira é muito baixo, muito mesqui
nho, muito covarde; isso não é serviço de homem não! De
fato, mas para demônio quanto mais baixo e sujo, melhor.
É uma turma desgraçada. Já me convenci de que eles ata
cam de preferência os mais fracos e indefesos; criancinha
pequena é o prato predileto. Observem que foi um ataque
às mentes das minhas filhas, provocando aquela briga.
Creio que temos de associar o resistir com o conceito
de demonização. Temos a incumbência de repelir qual
quer ataque do inimigo contra nós, e não só os casos de
possessão. No caso que contei foi exatamente uma ingerên
cia nos pensamentos. A meu ver, o expulsar de demônios
128
nada mais é do que o resistir, só que fazendo frente à pos
sessão. Quando é que alguém vai expulsar demônio?
Quando se manifesta. Certo? Quer dizer, a atuação malig
na é reconhecida como tal e em seguida repreendida. É o
resistir.
Voltando ao Texto, encontramos uma promessa.
"...Ele fugirá de vós". Quando primeiro expus estas verda
des para minha família, foi no culto doméstico, minha fi
lha maior, que na época tinha quinze anos de idade, pres
tou bem a atenção. Essa minha filha é o tipo da pessoa ani
mada, entusiasta, expansiva. Não anda, pula. No dia se
guinte quando voltou da escola não estava mais pulando,
voava raso. "Papai, papai, funcionou!" "Mas, que é que
funcionou, minha filha?" "Papai, resisti ao diabo e ele fu
giu!" Chorei de alegria naquela tarde; até de uma mocinha
de quinze anos ele tinha de fugir! Aleluia! Mas há um de
talhe, essa filha já era discípulo verdadeiro de Jesus e por
tanto tinha condições de enfrentar o inimigo. Torno a enfa
tizar: é totalmente necessário estar efetivamente sujeito a
Deus antes de investir contra Satanás, direta ou indireta
mente.
Como já dissemos, Satanás prefere manter as pessoas
na incredulidade ou na ignorância. Porém, quando uma
pessoa, ou uma igreja, quer acordar para estas coisas e co
meçar a agir, aí ele se mexe. Corre atrás do prejuízo. Pro
cura confundir as pessoas, procura mistificar, levar a ex
tremos e abusos, vender idéias errôneas a respeito do as
sunto. Com isso eíe consegue duas coisas. Primeiro,dimi
nui a eficiência dos acordados, diminuindo assim o prejuí
zo que vai sofrer. Segundo, os céticos vêem os abusos e se
confirmam na incredulidade. Daí resulta uma discussão de
surdos e as duas alas vão radicalizando as posições, polari-
zando-se cada vez mais. A verdade fica sozinha no meio e
Satanás fica rindo de nós. Está bom? Certamente que não.
Meus amados irmãos, quero declarar que não me con
sidero como grande perito no assunto. Sei que muitos ir
mãos já estavam atuando no terreno bem antes de eu acor
dar. Reconheço tranqüilamente que posso estar enganado.
Não sou dono da verdade. No entanto, creio que Deus tem
permitido que eu aprenda e entenda algumas coisas e que é
129
da vontade dele que eu compartilhe essas coisas. Assim
sendo, irmãos, com toda a humildade vou avaliar aqui vá
rias áreas onde me parece que o inimigo tem conseguido
vender idéias que diminuem nossa eficiência no conduzir
da guerra espiritual.
Alguns enganos - não é dom, é ordem. Em certos
ambientes evangélicos parece-me existir a idéia de que ex
pulsar demônios seria dom, ou da competência exclusiva
dos pastores. Já catei todas as listas dos dons espirituais e
não consta isso. Expulsar demônio não é dom, é ordem.
Temos a ordem de "resistir" em Tiago 4.7 e novamente em
1 Pedro 5.9: "Ao qual resisti firmes na fé". É claro que in
teressa ao inimigo semear a idéia de que seria dom. Se ex
pulsar demônio é dom, então o prejuízo que o inimigo leva
se limita ao tempo e à disposição dos poucos "dotados";
quando eles cansam, esquecem ou dormem, o inimigo fica
tranqüilo. Mas já imaginou se todos os crentes andassem
resistindo à ação de Satanás e dos demônios, que prejuízo
não iríamos dar a ele?! Já pensou? Pois é isso exatamente
que Satanás quer evitar a qualquer custo; deve ser seu pior
pesadelo. Dom é para os poucos dotados, ordem é para to
dos.
Existe um outro engano parecido. Quando alguém co
meça a despertar para estas coisas, às vezes falta coragem
para enfrentar Satanás diretamente. Então, quando reco
nhece um ataque pede que Deus o resista. Ouvem-se ora
ções assim: "Oh! Deus, repreende o demônio que está per
turbando a vida de Fulano." Só que muitas vezes Ele não o
faz. E por que não? Ele não faz porque é da nossa compe
tência; Ele mandou que nós fizéssemos. E ao mandar nos
deu o poder, as condições para podermos obedecer. Não se
trata de humildade espiritual da parte de quem queira se
omitir, é desacato a uma ordem já dada por Deus. Ele
manda que nós resistamos ao diabo.
Queria comentar aqui uma coisa que já mencionei ra
pidamente, que o que Miguel não pôde (Judas 9) nós pode
mos. É que, em princípio ou essência, somos superiores aos
seres angelicais. Em Gênesis 1.26 aprendemos que fomos
criados a imagem e semelhança de Deus, o mesmo não
acontece com os anjos. Segundo Romanos 8.17 somos her-
130
deiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, o mesmo não ocor
re com os anjos. 1 Coríntios 6.3 informa que iremos julgar
os anjos; isso leva a entender que eles devem ser inferiores
a nós. Hebreus 1.14 diz que são nossos ministros, estão aí
para nos servir. A "Corrigida" nos despista em Hebreus 2.7
onde traduz "Tu o fizeste um pouco menor do que os an
jos" pois o sentido certo é "por um pouco", como versa a
"Atualizada". A interpretação certa de Salmo 8.5 também
deve ser "por um pouco". É que enquanto ficarmos limita
dos por nossos corpos físicos aqui na terra a nossa superio
ridade não aparece. Para completar, Efésios 1.20-21 e 2.6
deixam entender claramente que em Cristo estamos senta
dos à destra do Pai, privilégio que Miguel não tem. Enfim,
por posição, por autoridade, por tudo que temos em Cristo,
é da nossa competência resistir ao inimigo. Deus vai cobrar
essa ordem!
Não pedir permissão. Por estranho que possa pare
cer, tenho encontrado a idéia de que seria preciso pedir li
cença para expulsar demônio. Já imaginou num campo de
batalha a gente gritar: "Õ 'seu' inimigo, dá licença de ati
rar em você?" Está doido! Antes de terminar já vem
chumbo, pois pela voz o outro sabe onde a gente está.
Guerra é guerra! Enxergou o inimigo, fogo nele! Mesmo
que, se pedir licença, é claro que o demônio não vai dar.
Onde já se viu? Gostaria de afirmar mais uma coisa. Não
somente não devemos pedir permissão mas nem precisa
mos estar presentes.
Há vários anos participei duma conferência interna
cional em Dallas, Texas. Ao chegar, fui visitar um casal
amigo que mora lá. Durante o almoço, compartilhei com
eles algumas coisas que vinha aprendendo sobre a guerra
espiritual. Aí a dona da casa me contou o seguinte: Há três
dias ela havia visitado um casal muito amigo deles (eu co
nheço por alto). Ao entrar na casa parecia um velório, pois
o casal estava bastante abatido. È que dos quatro filhos
que eles têm um era uma moça de 16 anos, na época, e essa
moça acabara de fugir com um homem entre os mais "pe
sados" da cidade; ele era um criminoso conhecido por to
dos, com seus trinta anos tinha praticado tudo quanto era
crime, tinha passado pela prisão várias vezes, e t c ; era
131
"pesado" e conhecidamente "pesado". No entanto, a
moça fugiu com ele; uma moça criada na igreja, num lar
evangélico, e cujo pai é figura de destaque na sua igreja a
nível de convenção estadual, Pois bem, vocês podem ima
ginar o desespero dos pais. "Como pode? Que é que fize
mos de errado?" Ouvi esse relato e achei esquisito. Que a
moça arrumasse um namoro com algum rapaz qualquer,
vá lá, ainda acontece; mas fugir exatamente com um sujei -
to assim e com o dobro da idade dela? fiquei desconfiado.
Aí eu disse aos amigos: "Desconfio ter havido uma inge
rência demoníaca no caso e se assim for há remédio; vocês
querem pagar para ver?" "Queremos." Ali mesmo na copa
expliquei ligeiramente as regras do jogo e passei a repreen
der qualquer ação demoníaca junto àquela moça, mandan
do cessar e proibindo qualquer reincidência. Aproveitei
para fazer a mesma coisa a favor do homem. Ainda re
preendi o espírito de depressão que assolava os pais. Me
dei por satisfeito, rne despedi dos amigos e fui participar
da conferência. Dez dias depois, finda a conferência, fui
ver os amigos antes de viajar. Quem abriu a porta foi a
dona da casa e ao me ver exclamou: "Gilberto, sabe o que
aconteceu?" "Não, que foi?" "Se lembra da oração que fez
no outro domingo?" "Lembro." "Pois quatro dias depois o
telefone tocou na casa dos pais aflitos; atendeu a mãe; ou
viu a voz da dita filha, 'Mamãe, queria voltar para casa, a
senhora aceita?' 'Mas claro minha filha, venha correndo!'
Na mesma noite ela chegou em casa". Voltou diferente.
Antes, durante algum tempo, ela vinha sendo difícil,
problemática, rebelde, mas agora estava calma, No dia se
guinte procurou o diretor do colégio para saber como repor
os estudos perdidos. Enfim, cuidou de colocar a vida nos
eixos novamente.
Agora veja bem, ninguém pediu licença. Não sabía
mos do paradeiro dela. A rigor nem sabíamos se ainda es
tava com vida. Nada dissemos aos pais. Trata-se duma
guerra espiritual que se trava no âmbito espiritual. \ o
mundo espiritual não existe barreira de espaço ou matéria.
Resulta dali uma verdade tremenda com valor estratégico
muito grande. É que no âmbito espiritual podemos guer
rear ao redor do mundo! Meu corpo pode estar em Brasília,
132
mas no espírito, na oração posso amarrar Satanás na Chi
na, na Nigéria, no Irã, enfim. Já pensou? Quantas vezes a
gente ouve algum irmão idoso queixar-se da sorte porque
não pode mais sair de casa, não pode fazer mais nada na
igreja, etc. Esse irmão poderia se tornar um grande guer
reiro na guerra espiritual. Exatamente, por não mais poder
sair de casa, ele dispõe de muito tempo. Poderia conduzir a
guerra ao redor do mundo, produzindo grande efeito. Ou
uma dona de casa, cheia de filhos, que se queixa porque
não pode sair a fazer evangelismo com os outros, etc. Bem,
ser mãe já é a função mais importante da nossa sociedade,
mas ela também pode ser uma guerreiratemível. Já lavei
toneladas de louça (verdade mesmo) e sei como é as mãos
trabalharem quase sozinhas, deixando a mente pratica
mente desocupada; a gente pode conduzir a guerra en
quanto lava. Já varri quilômetros de chão (verdade mes
mo) e sei como é - novamente as mãos trabalham quase so
zinhas; a gente pode conduzir a guerra. Podemos ter um
raio de ação quase sem limites.
Oração e jejum. Tenho a preocupação de desmistifi-
car o assunto em pauta. Devemos tratá-lo de maneira lúci
da, objetiva, séria. Não consigo entender que Deus nos co
locaria num campo de batalha do jeito que é, sem expor as
regras do jogo de forma reconhecível e explicável; não nos
deixaria tateando no escuro, à mercê das nossas imagina
ções, cada um pensando de forma diferente e não havendo
como definir a questão. 1 Coríntios 14.33 declara que Deus
não é de confusão.
Assim, tenho pedido a Deus que me ajude a reconhe
cer e isolar princípios básicos para nortear nossa atuação
na guerra espiritual. Creio que o fato fundamental é a vitó
ria de Cristo. João 16.11, Efésios 1.20-22 e Colossenses
2.15, entre outras, mostram que essa vitória foi total. Tia
go 4.7 diz que o diabo fugirá quando eu resistir a ele, mas
por que ele foge? Qual é o ingrediente ativo? Ele tem medo
de mim? Duvido. É o poder de Deus, liberado pela vitória
de Cristo. Deve ser por isso que Efésios 6.10 diz, "fortale
cei-vos no Senhor e na força do seu poder". A propósito,
expressões como "o nome de Jesus" e "o sangue de Cristo"
não devem ter nenhum efeito mágico, só o pronunciar des-
133
sas palavras não resolve. Temos de apelar conscientemen
te para a realidade da vitória de Cristo. Se é isso que esta
mos fazendo ao utilizar tais expressões, tudo bem. Agora
vamos ao jejum.
Em Marcos 9.29 Jesus disse que certa casta de demô
nio só saía mediante oração e jejum. Antes de examinar o
efeito do jejum em si, somos obrigados a comentar outro
problema. È que a versão "Atualizada" traz as palavras "e
jejum" entre colchetes, maneira de negar-lhes autenticida
de. E por que fizeram isso? Porque dois manuscritos gregos
omitem essas duas palavras, dois contra mais de 900 que
as têm! Como pode? No mundo dos eruditos, durante os
últimos cem anos, tem sido a moda dar um valor exagera
do a esses dois manuscritos ("vaticanus" e "sinaiticus"),
pois são os mais antigos que trazem mais ou menos o Novo
testamento inteiro. Muitos eruditos têm dito que são tam
bém os "melhores", mas eu discordo enfaticamente. Esses
dois manuscritos estão cheios de erros; discordam entre si
mais de 3.000 vezes só nos quatro Evangelhos, etc. O leitor
pode ter certeza absoluta que as palavras "e jejum" fazem
parte do Texto Original. Em Mateus 17.21 a mesma versão
coloca o verso inteiro entre colchetes, pelo mesmo motivo
(mais três manuscritos se ajuntam aos dois, ainda contra
mais de 900, mas não fosse os dois o verso estaria em paz).
O leitor pode apagar os colchetes e ler o versículo com ple
na confiança. Já que Jesus disse mesmo "oração e jejum",
vamos ao caso.
Partindo do princípio básico de que é a vitória de Cris
to que funciona, que obriga o diabo a fugir, aí eu indago:
meu jejum acrescenta qualquer coisa à vitória de Cristo?
Posso dizer que a vitória de Cristo foi incompleta? Se fôs
semos admitir a hipótese, por onde argumentar que somos
nós capazes de aprimorar essa vitória? O Texto parece-me
claro: Jesus ganhou uma vitória completa; Satanás sofreu
uma derrota fragorosa. Se o próprio chefe dos demônios foi
derrotado como argumentar que qualquer casta abaixo
dele tenha escapado? Sei que muitos irmãos experientes
discordarão com a colocação que segue, e a apresento com
humildade, mas peço que o leitor a avalie com cuidado. O
que Jesus falou em Marcos 9.29 foi dito antes de sua morte
134
e ressurreição, antes da vitória portanto. Quer dizer, as re
gras do jogo eram outras. Quando Jesus começou a expul
sar demônios foi uma sensação tremenda. Depois Ele,
Deus, o Filho na terra, deu a mesma autoridade aos doze e
aos setenta (Lucas 9 e 10), mas deve ter sido na base da so
berania de Deus, pois Satanás ainda estava em pé como
deus deste mundo (em João 12.31 o Senhor Jesus disse, "a-
gora o príncipe deste mundo será deposto", na véspera da
crucificação).
Já que em Cristo estamos sentados à destra do Pai, no
Céu, e portanto "acima de todo o principado, e poder, e
potes tade e domínio" (Ef 1.20,21 e 2.6), creio que Deus es
pera de nós que imponhamos a Satanás e aos demônios, to
dos eles, a derrota já sofrida. Para tanto não deve ser ne
cessário jejuar, desde que estejamos efetivamente sujeitos
a Deus. Agora, com isso não quero "fazer pouco" do jejum;
creio ser de valor. Não acrescenta nada à autoridade de
Cristo, mas muito bem pode aumentar minha coragem
para manusear o poder de Deus. O jejum aumenta minha
sensibilidade para o mundo espiritual. É por isso que mui
tos pajés indígenas e outros médiuns espíritas profissionais
são magros - jejuam muito. Por que fazem isso? Para au
mentar sua sensibilidade aos demônios. Já nós, jejuamos
para aumentar nossa sensibilidade ao Espírito Santo. Até
onde consigo enxergar o jejum tem esse valor, mas nada
acrescenta à vitória de Cristo.
Existem outras práticas que podemos avaliar da mes
ma maneira. Há irmãos que gostam de gritar quando ex
pulsam demônios. Não sei; demônio pode provocar surdez
mas não é surdo, pelo menos que eu saiba.^ Meu grito acres
centa qualquer coisa à vitória de Cristo? Às vezes tenho le
vado a impressão de que o obreiro estava inseguro e gritava
para inflar a própria coragem. Outras vezes parecia-me
que o intuito era de sensacionalizar a coisa. Aproveito o en
sejo para fazer um apelo aos amados irmãos: evitemos o
sensacionalismo! A simples demonstração do poder de
Deus, curando ou libertando, já é uma coisa maravilhosa,
já vai produzir impacto, já vai sensibilizar o povo; não é
necessário pintar e bordar por cima. Digo mais: não con
vém! O milagre em si chama atenção a Deus e o glorifica;
135
qualquer tentativa de enfeitar, de sensacionalizar chama
atenção ao homem, e isso é perigoso, Primeiro, Deus é ciu
mento, não reparte sua glória com ninguém (Is 42.8). Se
gundo, o homem facilmente se exalta, caindo na armadi
lha do diabo. Quanto mais a pessoa se exalta, tanto mais
se afasta de Deus e seu ministério caminha para o "brejo"
a largos passos. Aliás, tem uma maneira certa e segura de
fazer de Deus seu inimigo; é ensoberbecer-se, "Deus se
opõe aos soberbos, mas dá graça aos humildes" (Tiago 4.6
e 1 Pedro 5.5). Portanto irmãos, evitemos o sensacional is-
mo.
Para completar, parece-me que impor mão ou quei
mar objeto também não acrescenta nada à vitória de Cris
to. Não vejo necessidade de impor a mão, basta falar (já
houve quem recebesse pela mão o mal que estava tentando
afastar). Queimar ou destruir um artefato associado a de
mônio pode ser uma tomada de posição importante para
quem está rejeitando essa associação, mas não deve ser ne
cessário para expulsar o demônio (a importância que se
deu à destruição dos lugares e objetos associados à idola
tria no Antigo Testamento, pois atrás dos ídolos havia de
mônios, parece-me prender-se à diferença nas regras do jo
go). Creio que temos autoridade o suficiente para interdi
tar objetos e casas, simplesmente mandar os espíritos em
bora, proibindo que façam qualquer uso a mais deles - nos
sa luta não é contra o objeto, que não tem culpa de nada, e
sim contra o demônio. Por sinal, já há quem ande fechando
terreiros; simplesmente interdita, proibindo qualquer ma
nifestação dos demônios ali; com isso fica sem graça e fe
cha.
Demônio é enganador. Os demônios fazem tudo para
nos despistar, embrulhar e desmoralizar. Se a gente re
preende um demônio, ele vai, mas um outro pode tomar
imediatamente o lugar do primeiro e produzir o mesmo
efeito, levando a gente a pensar que nada aconteceu e a
sentir-se desmoralizado. Se a gente repreende mas não
proíbe a volta,ele sai mas poderá voltar, daí a uma hora,
um dia ou uma semana. Hoje em dia quando tenho de re
preender a ação do inimigo, repreendo não somente o que
está agindo mas a todo e qualquer outro que queira atacar
136
a pessoa dessa forma. Também proíbo qualquer reincidên
cia do ataque.
Uma jogada muito comum que eles usam para nos
embrulhar é puxar conversa com a gente. Há obreiros que
gostam de bater papo com o inimigo. Confesso que não en
tendo. Já pensou num campo de batalha: "Ó ^seu' inimi
go! Vem cá, vamos bater um papo, tomar um cafezinho
juntos; depois te mato. Tá bom?" Que tal? Sei que uns
acham inclusive necessário saber o nome do demônio para
expulsar, e com isso só podem expulsar de um em um. Às
vezes o demônio faz alguma exigência para sair. Aconte
cem as coisas mais absurdas. Ouvi o caso dum homem que
quis expulsar um demônio. O demônio disse que só sairia
se ele voltasse em casa e vestisse uma gravata. Aí o homem
saiu correndo para buscar a gravata. Só que quando voltou
o demônio riu na cara dele, "você acaba de me obedecer e
agora pensa que pode me expulsar? Vai embora!"
Certa noite quando terminava de palestrar sobre este
assunto, várias pessoas vieram à frente e me contaram o
seguinte caso. Numa cidade do interior goiano um certo
pastor teve esta experiência: ele foi chamado às pressas
para atender uma mulher bastante possessa. Levou alguns
outros irmãos consigo e tentou expulsar o demônio. Não
saiu. Após várias tentativas e alguma luta o demônio dis
se; "Não vou sair porque ela tem um trem meu" (daí se vê
que era mineiro). Finalmente foi induzido a dizer que o
"trem" era o colchão dum "pai de santo" que ela ganhou
quando ele morreu. Aí o pastor pulou no carro e saiu dispa
rado em direção à casa da possessa. A caminho um moto-
queiro sai duma rua lateral e bate no carro do pastor.
Apressado e nervoso o pastor promete pagar tudo (a culpa
era do motoqueiro mas o pastor queria se livrar para dar
cabo ao colchão) e prossegue. Entra na casa, acha o col
chão, leva para o quintal e toca fogo! Aí voltou à casa onde
a possessa se encontrava e o demônio saiu. Uma vitória
para Jesus? Talvez, mas ouçamos o resto da história. Su
cede que aquela mulher tinha marido e ele achou que tam
bém tinha direito naquele colchão. Encurtando, o pastor
acabou pagando o colchão e a moto. Levou bastante pre
juízo, além do desgaste. Teria sido necessário tudo isso?
137
Creio que não. Certamente Jesus não entraria numa con
versa dessas.
Nos Evangelhos encontramos várias vezes onde os de
mônios tentaram puxar conversa com Jesus, mas nenhu
ma onde Ele puxou com eles. Uma só vez Jesus perguntou
o nome, no caso da Legião (Mc 5.9). Por que será que per
guntou, porque não sabia? Claro que sabia! Entendo que o
fez para que ficasse registrado para nossa instrução que
existe possessão múltipla. Podemos observar que Jesus
não expulsou de um em um, expulsou os mil duma vez.
Não é necessário saber o nome dum soldado inimigo para
matá-lo, basta mandar uma bala certeira. Os demônios
são mentirosos por formação. Satanás é o pai da mentira
(Jo 8.44). É claro que um demônio eventualmente pode fa
lar uma verdade, mas como reconhecer uma verdade entre
cem mentiras? Existe uma denominação no Brasil que co
meçou na liberdade do Espírito, mas descambou para um
legalismo bastante fechado. Um pastor que participou do
movimento me contou que alguma das regras surgiram da
forma seguinte: diante duma pessoa possessa perguntava-
se ao demônio se certa prática não era do diabo; quando o
demônio respondia que sim a prática passava a ser proibi
da pela igreja! Satanás deve estar rindo até hoje.
Os demônios gostam de "vender" experiências. Ouço
dizer que tem igreja por aí onde se vomita demônio; cada
domingo tem aquele poço de vômito diante do altar (pelo
menos o zelador faz jus a seu salário). Sinceramente, será
que Satanás não está ridicularizando o povo de Deus; será
que não está debochando da vitória de Cristo? E tem mais
uma, muitas vezes são as mesmas pessoas sendo libertas
cada domingo, e do mesmo problema. Como pode? Jesus
ganhou ou não ganhou? Olho vivo minha gente! Todo cui
dado é pouco; demônio é enganador.
Questões para pesquisas. Quero dizer que tem mui
ta coisa que não entendo ainda. Têm coisas que me deixam
perplexo, Ainda estou pesquisando e pedindo a Deus que
me ilumine. Gostaria de expor algumas dessas questões
aqui para que os irmãos me ajudem. Pode ser que alguém
já tenha a resposta para uma coisa que ainda me é oculta.
Peço que me comunique. Outras questões poderemos pes-
138
quisar juntos e chegarmos às respostas mais rapidamente,
quem sabe.
Vou começar por uma questão onde creio já ter a res
posta, mas gostaria de ouvir outros. Não raro acontece o
seguinte: a pregação está chegando ao ponto culminante
quando de repente uma criancinha dispara a chorar. A
gente tem certeza que é um ataque demoníaco, mas não
quer repreender abertamente (pode magoar os pais e tal
vez causar estranheza nos outros; quer dizer, pode inter
romper mais que o choro). Aí a gente repreende no pensa
mento mas nada acontece. Por quê? Bem, imagino o se
guinte: como o desafio é público, a repreensão também
deve ser pública. Se consigo fazer o choro parar só com o
pensamento ninguém vai entender o que foi, vão pensar
que era um choro natural e que a criança resolveu parar.
Para que a derrota do inimigo fique exposta aos olhos de
todos é necessário repreendê-lo publicamente (quando o
desafio também o foi; ainda podemos guerrear ao redor do
mundo no pensamento, na oração).
Outra coisa que me ilude é a questão do prazo. Posso
libertar uma pessoa ou interditar um lugar para a vida to
da? Existe limite? Só um mês ou um ano? Confesso que es
tou em dúvida. Gostaria mesmo de receber subsídios dos
irmãos a respeito. Por via das dúvidas procuro proteger
minha família cada manhã ao acordar e cada noite ao dei
tar.
A coisa que mais me maltrata é a questão dos demô
nios recalcitrantes. Suponho que todos já ouviram falar de
casos onde alguém lutou durante horas para conseguir ex
pulsar um demônio; finalmente sai, mas o obreiro está
exausto, suou "em bicas". Recentemente tomei conheci
mento dum caso onde a igreja toda lutou durante semanas
tentando libertar uma moça possessa (o pastor garante que
ela é convertida). Houve jejum, bastante; houve oração,
muita; obreiros experientes de outras igrejas vieram aju
dar, e nada! Pois é isso, meus irmãos! Que pensar diante
desse quadro? Jesus ganhou ou não ganhou?
Em vários lugares e de várias pessoas já ouvi uma so
lução proposta para demônio recalcitante: é pedir fogo do
céu para queimá-lo. Essas pessoas me disseram que com
139
isso o demônio sai gritando! Confesso que ao ouvir essa his
tória pela primeira vez esbocei um sorriso; pensei que fosse
sensacionalismo; mas, como é de meu costume, fui ao Tex
to Sagrado para ver se porventura a idéia teria algum res
paldo, Qual não foi a minha surpresa ao constatar que tal
vez tenha. Perante Deus o Filho, aqui na terra os demônios
demonstraram uma preocupação constante: "Viestes nos
destruir?" (Mc 1.24), "Vieste aqui atormentar-nos antes
de tempo?" (Mt 8.29). Eles bem sabem que vão parar no
inferno (Mt 25.41), só não queriam chegar lá antes da ho
ra! Pode ser que ameaçar demônio com fogo do céu faça
com que ele vislumbre o Lago de Fogo e se amedronte,
pode ser. Mas se é medo do Lago que está funcionando, en
tão por que não apelar diretamente para o inferno. Um co
lega meu teve experiência com um dos recalcitrantes e a
certa altura pediu fogo do céu. O demônio gritou, mas dis
se, "mesmo assim não vou sair". Quem sabe alguns fogem
diante da ameaça de fogo para nos despistar e evitar que
venhamos descobrir um recurso devastador, devastador
para eles.
Com todo respeito às opiniões em contrário, eu não
aceito conversar com demônio; não aceito implorar que ele
saia e nem aceito ficar horas a fio "lutando" com ele. Obe
deço àsinstruções que Deus nos deu para tais casos, até
onde entendo. Daí, se o demônio não obedecer devolvo o
caso a Deus. Aí sim, se fiz tudo que me compete e ainda as
sim o inimigo não obedece então o remédio é dar a obra
para Deus fazer. Afinal, não é o meu nome, não é a minha
honra que está em jogo, é da vitória e da autoridade de
Cristo que o demônio está fazendo pouco caso. No entanto,
ao passo que devolvo o caso a Deus ainda peço um favor:
que Ele confine o demônio ou demônios imediatamente no
Lago de Fogo ou então no "Tartaros" (ver 2 Pe 2.4) se o
Lago não estiver aberto ainda, para que os demais apren
dam a respeitar. Só tem um pequeno problema, não sei se
funciona! Posso pedir, mas como saber se Deus o faz? Já
encontrei com um pastor que afirma ter o ministério de
mandar demônio para o Inferno. Que ministério abençoa
do! Já pensou, se funcionasse? Aí sim, poderíamos dimi
nuir as hostes que se nos opoêm. Quero que seja verdade,
140
mas confesso não saber como poderemos verificar se fun
ciona ou não. Mesmo assim, por via das dúvidas, eu peço
que Deus o faça (e já tentei fazer eu mesmo).
Volto a bater na "tecla" da humildade. Deus é sobera
no e não dá sua glória para outrem. Parece-me perfeita
mente possível que Deus permita aos demônios recalcitra-
rem exatamente para nos ensinar alguma coisa, inclusive
nos chamar à atenção por algum motivo (aliás, às vezes o
próprio demônio se encarrega disso. Se existe algum peca
do na vida do exorcista o demônio pode denunciar o fato
perante todos os presentes, visando a humilhar a pessoa e
fazê-la acovardar-se). É fácil alguém se exaltar neste terre
no, se empolgar quando verifica que pode botar demônio
para correr. Facilmente a pessoa começa a se introduzir no
quadro, pensando que é ela que está operando. Com isso
Deus se ofende e mais dias menos dia a pessoa vai
"quebrar a cara". Um jovem obreiro se empolga porque
"consegue "amarrar" demônio (o endemoninhado fica du
ro), mas será que está resolvendo mesmo a situação? De
mônio é esperto, todo cuidado é pouco. Creio ser muito im
portante, necessário mesmo, manter uma postura de hu
mildade perante Deus, não intrometer a nosso pessoa, pois
assim Ele há de nos conduzir pela mão e nos mostar o que
precisamos saber. Oh! Deus, ilumina-nos, por favor!
Sei que existem subsídios que apontam para mais dois
fatores, pelo menos: louvor e perdão. Pode ser que louvor a
Deus faça diferença em algum caso recalcitrante - é ma
neira de reafirmar nossa confiança nEle e mesmo quando
diante de circunstâncias que nos deixam perplexos. Falta
de perdão pode muito bem impedir a atuação de Deus. Se
Ele condiciona o seu perdoar ao nosso (Mt 6.12 e 14.15),
porque é um fator muito importante (ver também Jo
42.10).
Ao libertar alguém não convém deixar vácuo, Mateus
12.43-45 explica o porquê. Embora seja perfeitamente
possível expulsar demônio de uma pessoa incrédula, inclu
sive sem estar presente e sem explicar, creio que devemos
explicar a razão das coisas e tentar levar a pessoa a se en
tregar a Jesus. Com isso adquire a possibilidade de se au-
todefender. Mas creio ser possível fazer mais do que isso.
141
Vejamos Mateus 18.18. "Em verdade vos digo que tudo o
que amarrardes na terra terá sido amarrado no céu, e tudo
o que soltardes na terra terá sido solto no céu". Desta vez é
a "Atualizada" que está melhor; a "Corrigida" nos despis
ta quando traduz "será ligado" e "será desligado" a tradu
ção correta é "terá sido". Durante muitos anos eu não con
seguia entender esse versículo. Não me entrava na cabeça,
como se diz, que eu poderia fazer alguma coisa e depois di
zer que já tinha sido feito antes no Céu, Não dava para en
tender. Mas agora creio entender esse versículo. Ele tem a
ver com a guerra espiritual. Quando amarramos Satanás
por aqui, estamos fazendo uma coisa que já se fez no Céu.
Se a primeira metade do versículo diz respeito ao afastar.
de atuação maligna, então a segunda metade deve dizer
respeito ao efeito contrário, ou seja introduzir uma atuação
benéfica. Não diz Hebreus 1.14 que os anjos estão a nosso
serviço, nós os herdeiros da salvação? Pois creio que o "sol
tar" de Mateus 18.18 visa a reivindicarmos efeitos positi
vos e ativos da vitória de Cristo, como por exemplo concla
mar os anjos a atuarem na vida de quem acaba de ser li
berto, predispondo a pessoa para abraçar o Evangelho.
Agora gostaria que atentássemos para o versículo 19
(Mt 18): "De novo em verdade vos digo que, se dois de vós
concordarem na terra acerca de qualquer coisa que porven
tura pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos
céus". Esse "de novo em verdade vos digo" parece-me li
gar de forma estreita este versículo ao versículo anterior,
que começa com "em verdade vos digo". Se assim for, en
tão este versículo também deve dizer respeito à guerra es
piritual. Não vejo como duas pessoas concordando vão
acrescentar qualquer coisa à vitória de Cristo para que
possam reivindicar mais do que uma só. Mas não preciso
entender; se a Palavra de Deus afirma então é isso mesmo.
Então, quero propor uma pesquisa. Vamos ver se cada um
acha pelo menos uma outra pessoa que aceite reunir pelo
menos uma vez por semana, a fim de, juntos, conduzirem
a guerra, em termos específicos. Pode ser que faça diferen
te e pode ser que recebamos luz a mais. Mas cuidado com o
revide; pode ficar sabendo desde já que o inimigo vai con
tra-atacar. Não devia ser motivo de surpresa, mas tenho
142
observado pessoas serem pegas de surpresa. Aparentemen
te imaginavam que o inimigo ia aceitar tudo passivamen
te. Guerra é guerra! Acovardar-se não é opção válida. Va
mos pois à luta, mas prevenidos e atentos.
Conclusão. Resumindo, nossas armas de defesa são as
melhores e perfeitamente adequadas (uma vez sabendo
como manuseá-las) mas não convém ficarmos só numa
postura defensiva, sempre na expectativa à espera da pró
xima paulada, deixando assim a iniciativa com o inimigo.
Vamos tomar a ofensiva, vamos atacar, vamos conduzir a
guerra a nosso modo!
Infelizmente existe a idéia em certos ambientes de
que devemos ser passivos. Por sinal, há uma escola de mis-
siologia que fala em "confrontos de poder", dizendo respei
to a situações no campo missionário onde o missionário é
desafiado pelo inimigo de alguma forma e é obrigado a de
monstrar que o poder de Deus é maior. Mas do jeito que
eles apresentam a idéia é sempre o inimigo que provoca o
confronto; o missionário não deve "comprar briga", deve
limitar-se a se defender tão somente. É uma mentalidade
de sítio. Mas as ordens de Cristo não admitem mentalida
de de sítio. Se vamos levar o Evangelho pelo mundo intei
ro, pregando a cada pessoa, fazendo discípulos em cada et
nia, precisamos ter uma mentalidade bem diferente, uma
mentalidade de conquista. Fatalmente temos de sair das
quatro paredes e tomar a ofensiva.
2 Coríntios 10.4 afirma que as nossas armas "não são
carnais mas sim poderosas em Deus para destruir fortale
zas". Isso implica numa ação ofensiva, em levar a batalha
ao inimigo. Já comentei Salmo 78.9 e Jeremias 48.10. Nes
te texto, quando diz "maldito aquele que retém a sua espa
da do sangue!", parece-me claro que Deus está exigindo
uma atuação ativa. Temos de levar nossas espadas em
busca do inimigo (para acompanhar a figura). Vejamos
pois como tomar a ofensiva.
Tomando a Ofensiva
Antes de mais nada precisamos ter certeza quanto à
vitória que nosso chefe já ganhou e quanto ao poder, à
autoridade que está à nossa disposição.
143
A Posição e Autoridade que Temos. A nossa posição
e autoridade está descrita em Efésios 1.19-22 onde o após
tolo está orando a nosso favor para que saibamos várias
coisas, inclusive:
19 - "...e qual a suprema grandeza do seu poder [de
Deus] sobre nós, os que cremos, segundo a operação
da força do seu poder
20 - que ele manifestou em Cristo, ressuscitando-o
dentre os mortos, até mesmo fazendo-o sentar à sua
própria destra nos Céus,
21 - acima detodo principado, e poder, e potestade, e
domínio, e de todo nome que se nomeia, não só nesta'
era mais também na vindoura.
22 - Também ele colocou todas as coisas debaixo dos
seus pés..."
Quando lemos que Jesus agora está acima de todo
principado, poder, autoridade, etc. (ver também 1 Pedro
3.22) essa linguagem nos faz lembrar de lista semelhante
em Efésios 6.12 que diz respeito à hierarquia dos demô
nios, encabeçada por Satanás. É que Jesus efetivamente
ganhou. Ele logrou êxito no propósito da encarnação con
forme está dito em Hebreus 2.14. "Visto pois que os filhos
têm participação cumum de carne e sangue, também ele
igualmente participou das mesmas coisas, para que por
sua morte destruísse aquele que tinha o poder da morte,
isto é, o diabo." Jesus veio para destruir o Diabo e conse
guiu. Aleluia! Vejamos também Colossenses2.15: "Desnu
dando os principados e as potestades os expôs publicamen
te à humilhação, triunfando deles na cruz". Satanás e suas
hostes sofreram uma derrota completa. Em João 16.11 o
Senhor Jesus disse que "o príncipe deste mundo já foi con
denado". (Embora faltassem algumas horas para a sua
morte, Jesus estava falando daquilo que o Consolador faria
quando viesse - ver versículo 8 - e até o dia de Pentecoste
Satanás efetivamente já tinha sido condenado.) É por isso
que 1 João 4.4 afirma: "Maior é aquele que está em vós do
que aquele que está no mundo".
Voltando a Efésios vejamos agora 2.6: "ê juntamente
com ele [Cristo [ nos ressuscitou e nos fez assentar nos lu
gares celestiais em Cristo Jesus". Aí está, meu irmão. Se
144
você está em Cristo onde você está assentado agora? Nos
"lugares celestiais"! Certo? Mas comparando este versícu
lo com o 22 do capítulo anterior (1,22), se estamos em Cris
to exatamente aonde estamos assentados? Pois então,
onde está Cristo? À destra do Pai! Louvado seja Deus, que
coisa maravilhosa! E se estamos à destra do Pai isso vale
dizer que também estamos acima de todo principado, po
der, potestade, e t c ! Eis aí a nossa posição e a nossa autori
dade. Estamos diante duma verdade tremenda, maior que
aquela verdade terrível dum inimigo que tem acesso a nos
sas mentes. Em Cristo somos maiores que o inimigo! Dá
até vontade de tripudiar um pouco, será que não?
O inimigo foi derrotado, foi deposto, foi expulso da po
sição de "príncipe deste mundo" (Jo 12.32). Porém, Deus,
por seus próprios desígnios (que não nos tem revelado),
permite que o inimigo continue agindo na base do blefe
como se nada tivesse acontecido. Compete a nós "pagar
para ver", apitar, chamar à atenção, impor a derrota ao
inimigo. Ao resistir a ele estamos fazendo isso, em parte,
mas podemos tomar a ofensiva e para tanto existem outras
armas.
Amarrar o inimigo. O ponto de partida aqui é Mar
cos 3.27: "Ninguém pode roubar os bens do valente, en-
trando-lhe em casa, se primeiro não amarrar o valente; só
então poderá saquear-lhe a casa." Este versículo já foi co
mentado no início do capítulo. O Senhor Jesus declara que
temos de "amarrar o valente". A "Corrigida" traduz "ma-
niatar" - há dois mil anos não existia algema (que eu sai
ba), mas hoje em dia quase poderíamos traduzir "alge
mar", ou seja, colocar fora de ação. Embora o verbo amar
rar não esteja no imperativo, acaba tudo tendo o efeito de
uma ordem. Se Ele manda pregar e fazer discípulos e se
para tanto temos de amarrar o inimigo, como já expliquei,
então vale por uma ordem. Como funciona esse "amar
rar", em que consiste?
No meu entender e na minha experiência, o amarrar
consiste em assumir sua posição em Cristo, reivindicar a
vitória e a autoridade dEle, e em tantas palavras proibir
qualquer ingerência ou ação satânica ou demoníaca junto
a determinada pessoa, ocasião ou lugar. Parece que temos
145
de ser específicos. Já tentei amarrar Satanás de uma vez
por todas até o fim do mundo, mas não funcionou. Por
quê? Bem, não sei, mas suponho ter sido o próprio Deus
que não permitiu, pois se permitisse eu iria frustrar os
desígnios pelos quais Ele deixa Satanás solto; para que o
mundo acabe da maneira prevista na Bíblia é imprescindí
vel a atuação de Satanás e dos demônios por aqui ainda.
Temos de ser específicos, e aí funciona.
0 Novo Testamento em língua Munduruku (etnia
indígena do Pará) ficou "no prelo" em nossa gráfica duran
te três anos. Aconteceu de tudo: máquina quebrava, fun
cionário adoecia, o computador desobedeceu ao programa,
a chapa novinha em folha ainda lacrada apresentou-se oxi
dada ao ser aberto o pacote. Foi uma coisa. Finalmente es
tava tudo praticamente pronto para colocar as chapas na
impressora e imprimir. Eu estava para iniciar uma viagem
de três semanas. Procurei o chefe da gráfica e expliquei
que eu queria amarrar o inimigo para que nada mais acon
tecesse para atrasar a impressão daquele Novo Testamen
to. Ele concordou e reuniu as pessoas ligadas à gráfica. Ex
pliquei as regras do jogo e passamos a proibir qualquer in
gerência a mais no processo de imprimir o Novo Testa
mento. Viajei. Ao voltar três semanas depois fui ter com o
chefe da gráfica: "Que tal, como foi?" "Correu às mil ma
ravilhas, o Novo Testamento está impresso." Louvado seja
Deus!
Como expliquei há pouco, considero que Mateus 18.18
também diz respeito a esta "arma". Satanás já foi amarra
do no Céu e compete a nós amarrá-lo por aqui. Sei que o
contexto imediato anterior (v 15-17) trata de disciplina na
igreja, mas eu indago: a quem mais interessa quando um
irmão cai no pecado, não é ao inimigo? Observemos tam
bém que o Texto prevê a hipótese de a pessoa persistir no
pecado: não dá para ver o "dedo" de Satanás nesse quadro
não? Aliás, diante de dois casos desse tipo a solução que o
apóstolo Paulo achou foi "entregar a Satanás" esses impe-
nitentes (1 Co 5.5 e 1 Tm 1.20). Sei também que em certos
ambientes utiliza-se esta passagem para impor costumes à
igreja. Parece-me insustentável essa interpretação do nos
so texto, pois se um pode "ligar" uma coisa assim um outro
146
pode levantar e "desligar" essa mesma coisa e dá em nada.
Acontece também duas igrejas adotarem posição numa
questão e cada uma insistir em que "ligou" a questão. Ora,
certamente é gostoso impor nossa opinião aos outros mas
será que vamos impor nossa opinião a Deus? Já sabemos
que Deus "não é de confusão" (1 Co 14.33); como então im
putar a Ele as confusões que inventamos por aqui? Como
já disse, a única interpretação viável de Mateus 18.18 que
tenho visto é a que associa o versículo à guerra espiritual.
Creio que todos devem lembrar do "badernaço" que
deu em Brasília quando da manifestação pública contra o
Plano Cruzado II. Assim que o Governo verificou que seu
partido tinha ganho uma vitória esmagadora no pleito de
15/11/86, soltou um "pacote" - a revolta foi geral, o po
vo sentiu-se traído. Pouco depois entidades trabalhistas
decretaram uma "greve nacional" para um certo dia
(12/12/86). A idéia era parar o país inteiro. Fiquei com re
ceio de que o inimigo aproveitasse para incentivar violên
cia e destruição pelo país todo pois parecia-me que o clima
social, estava bastante propício. Propus a um grupo de ir
mãos que orássemos especificamente proibindo qualquer
ingerência maligna em todo o território nacional naquele
dia, principalmente no que dizia respeito a violência ou a
destruição. Oramos, amarrando Satanás e os demônios
nesse sentido. Deu no que deu: não foi um dia surpreen
dentemente tranqüilo? Agora, sei que não posso provar
causa e efeito neste caso. Sei também que outros irmãos
oraram naquele dia pedindo que Deus preservasse a nação.
No entanto, creio que o amarrar funciona assim e propo
nho aos irmãos que tentemos aplicar esta arma à solução
dos problemas que assolam nosso país.
Em primeira instância "amarrar o valente" em Mar
cos 3.27 certamente diz respeito a Satanás, mas entendo
que pode ter um sentido mais localizado, Já verificamos
em Daniel 10 que demônios de alta patente "tomam con
ta" de países de projeçãoe importância na terra. Parece-
me óbvio que é assim que Satanás controla o mundo. Ele
não é onisciente e nem onipresente. Então, cada país, cada
estado, cada cidade e vila terá um demônio responsável
pela área - a patente do demônio deve condizer com a impor -
147
tância do lugar. Ao palestrar sobre este assunto tenho su
gerido que um missionário, ao chegar numa área onde ten-
ciona trabalhar, deve amarrar "o valente" daquele lugar,
evitando assim muito sofrimento e dificuldade desnecessá
rios. Alunas do Instituto Bíblico Betei Brasileiro (João Pes
soa, PB) têm posto em prática esta proposta e me têm con
firmado que funciona. Elas formam equipes e vão abrir
trabalhos evangélicos em cidades e vilas do sertão, região
árida num sentido espiritual também. Sempre encontra
vam grande oposição: o sacerdote local dava ordem para
ninguém alugar casa ou ter qualquer negócio com elas: não
receber em casa, não dar ouvidos, etc. O trabalho costu
mava ser bastante duro. Aí resolveram amarrar o valente
do lugar para onde iam antes de chegar. Elas me contaram
que foi bem diferente: o povo era mais aberto, havia quem
colaborasse, havia aceitação do Evangelho num ritmo bem
mais acelerado, enfim. Funcionou! Obrigado, Jesus!
Vejam que diferença este procedimento produziria se
o aplicássemos ao redor do mundo! Até aqui, de forma ge
ral, temos enviado missionários para os povos do mundo
sem pensar neste aspecto: nem os missionários, nem as
juntas missionárias e nem as igrejas. Com isso tem aconte
cido o seguinte: Quando o missionário pisa no solo do lugar
onde quer trabalhar, lá está o inimigo em pé com as unhas
para fora só esperando para dar o bote. Como o missionário
não sabe se defender, costuma apanhar, às vezes severa
mente, e em todo caso produz muito menos efeito do que
poderia produzir. Temos de mudar esse quadro. Antes do
missionário chegar sequer perto do campo, as igrejas e pes
soas que o sustentam devem mandar artilharia pesada
para lá, amassando o inimigo. E o próprio missionário tem
de amarrar o valente do lugar antes de chegar, e estar aten
to para resistir a ele a todo passo. Assim fazendo, certa
mente encontrará menos dificuldades e logrará mais êxito.
Tudo andará melhor ainda se as igrejas permanecerem
atentas e conduzirem a guerra espiritual junto com o mis
sionário, amarrando o inimigo mesmo de longe.
Destruir Sofismas. Agora vamos a outro procedi
mento ou "arma" de ofensiva, que encontramos em 2
Coríntios 10.3-5.
148
03 - "...embora andando na carne, não guerreamos se-
gundo a carne,
04 - porque as armas do nosso guerrear não são car
nais, mas sim poderosas em Deus para destruir forta
lezas;
05 - destruindo sofismas e toda altivez que se levanta
contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo
pensamento à obediência de Cristo."
A rigor, o conteúdo inteiro do versículo 5 explica o
"destruir fortalezas" do versículo 4, mas quero chamar
atenção para os "sofismas", pois as "fortalezas" que temos
de destruir se fundamentam primordialmente nos sofis
mas que Satanás tem confeccionado. Entendo que qual
quer cosmovisão ou filosofia de vida que se opõe à cosmovi-
são da Bíblia é um desses sofismas. Gosto da definição que
o Pequeno Dicionário dá ao termo: sofisma é "argumento
falso intencionalmente feito para induzir outrem em erro".
No caso são precisamente sistemas de pensamento que se
levantam "contra o conhecimento de Deus". E quais são
esses sofismas? São o islamismo, o marxismo, o hinduís-
mo, o humanismo, o espiritismo, o budismo, o materialis-
mo, o animismo, o xintoísmo, o confucionismo, entre ou
tros. Será que não devemos avaliar com cuidado certos ou
tros "ismos" também-protestantismo, catolicismo, deno-
minacionalismo, e t c , para ver se não despistam ou des
viam as pessoas no que diz respeito ao "conhecimento de
Deus"?
O apóstolo afirma que "não guerreamos segundo a
carne". Bem, não deveríamos não é? Mas quantas vezes
lutamos é na base da carne mesmo! Será que não? É por
isso que produzimos tão pouco efeito; é por isso que meta
de do mundo continua perecendo sem ouvir de Cristo. O
uso de armas carnais na guerra espiritual só produz efeito
negativo, ajuda diretamente o iminigo. Para o nosso Deus,
não somente o fim tem que ser digno, mas os meios tam
bém. O argumento de que o fim justifica os meios é diabó
lico. As armas do nosso guerrear têm de ser espirituais,
pois só assim poderão ser poderosas e mesmo assim têm de
ser "em Deus" (o inimigo também usa armas espirituais).
Agora, as armas que Deus nos dá visam exatamente à des-
149
truição de "fortalezas", e creio que podemos entender a
natureza dessas fortalezas atentando para o versículo 5.
Qualquer coisa que se levanta contra o conhecimento de
Deus é uma "fortaleza", ou pelo menos faz parte de uma
tal fortaleza. O alvo final do destruidor de fortalezas é que
cada pensamento seja obediente a Cristo.
Mas como funciona esse "destruir" de fortalezas?
Confesso que não sei, ao certo. Ainda estou pesquisando o
assunto. No entanto, vou tecer algumas idéias a respeito.
Vamos pensar num "sofisma" que nos toca bem de perto, o
espiritismo. Como podemos desmantelar esse sofisma e li
bertar o nosso país dele? Bem, imagino que nosso procedi
mento deva se ajustar àquilo que as pessoas têm como ver
dade. Por exemplo, um macumbeiro convicto e consciente:
ele lida conscientemente com demônios devido às demons
trações de poder que eles dão. Zombar do macumbeiro,
chamar de crendice e superstição os ritos dele, não vai
atingi-lo; ele está às voltas com poder demoníaco e sabe
que existe (como de fato existe). Exige-se um confronto de
poder. Temos de provar ao macumbeiro que possuímos po
der superior ao poder dos demônios; que podemos domá-
los e subjugá-los; que podemos libertar as pessoas do poder
deles. Enquanto não provamos isso o resto é "papo fura
do".
Podemos libertar as pessoas de caso em caso e assim
produziremos algum efeito, sem dúvida. Porém, estamos
com pressa, Jesus vem aí! Proponho então o seguinte: va
mos montar uma campanha para fechar todos os terreiros
dentro do território nacional (para começar), de forma sis
temática. Já disse que existem pessoas que têm fechado
terreiro. Isso se faz literalmente interditando a área onde
funciona o terreiro, isto é, proibindo na autoridade de Cris
to qualquer manifestação demoníaca naquele lugar a par
tir desse momento. Cessando as manifestações fatalmente
o terreiro fecha por não haver mais porque reunir ali. Pre
cisamos atalhar um protesto aqui; se fecharmos os terrei
ros não estaremos violando a liberdade religiosa de nin
guém; eles podem procurar os demônios o dia inteiro e a
noite toda. Tudo bem, estamos "nem aí". Nossa bronca é
150
com os espíritos malignos; nosso caso é provar que Jesus é
o maior; só isso.
Agora vejamos o caso de um espírita que acha que está
lidando com "mesa branca" e "anjo de luz". Acusá-lo de
lidar com demônios não funciona, porque ele vai rechaçar
essa afirmação e ainda desprezar nossa ignorância; quer
dizer, ficamos mal colocados. Como convencê-los da ver
dade? Novamente creio que o caminho mais curto é inves
tir contra os espíritos, interditando os centros espíritas, a
exemplo dos terreiros. Quando toda manifestação dos espí
ritos cessar num determinado "centro" a coisa vai perder a
"graça". Aí os freqüentadores vão querer entender o por
quê. Aí podemos explicar que interditamos o lugar na au
toridade de Cristo e o fato da cessação das manifestações
seria uma prova presumível de que os "anjos" não eram
exatamente de "luz"; em todo caso ficou provado que o po
der de Jesus é maior. O resultado de uma campanha assim
será a destruição desse sofisma; a força do sistema será
abalada.
No hinduísmo e no animismo as pessoas também es
tão lidando com espíritos malignos e a abordagem mais
eficiente da nossa parte será dar provas indisfarçáveis de
que o poder de Cristo é maior. Entendo que o muçulmano
também está às voltas com osdemônios, e sua religião não
lhe dá solução. Então, em vez de jogar Jesus contra Mao-
mé ou a Bíblia contra o Alcorão, quem sabe produziria
mais efeito chegar de mansinho e perguntar ao muçulma
no: "Que tal os demônios hoje, hein?" Quer dizer, o negó
cio é achar uma área da vida onde podemos mostrar de for
ma clara e imediata que Jesus resolve onde Maomé e Alá
não resolvem (para uma argumentação convincente de que
Alá não é o Deus da Bíblia veja O Ocidente n a Encruzi
lhada por Marius Baar - Núcleo-Queluz, 1981). Tratar
caso por caso faz algum efeito, mas como desmantelarmos
o sofisma, o sistema? Confesso que não sei, mas gostaria
que pensássemos mais um pouquinho nas implicações de
nosso texto. Quando fala em destruir "toda altivez" que se
levanta contra o conhecimento de Deus e em "levar cativo
todo pensamento" à obediência de Cristo, que é que deve
mos entender?
151
Já que tudo faz parte do destruir de fortalezas são pro
cedimentos que pertencem á ofensiva. Daí se vê que os
"pensamentos" no caso têm de ser das pessoas que se
opõem ao Evangelho. Somos obrigados a deduzir que é
possível influir nos pensamentos de tais pessoas, alteran-
do-os a ponto de poder dizer que agora estão obedecendo a
Cristo! Já pensou? Mesmo? Óh! louvado seja nosso Deus!
Que arma tremenda! Se soubéssemos manusear esta arma
tomaríamos o mundo de assalto! Ninguém mais segurava
a Igreja! Mas, euforia de lado, será que sabemos como fun
ciona esta arma? Como nunca ouvi alguém falar a respei
to, e como nunca vi outrem fazê-lo, suponho que não. Eu
mesmo estou apenas engatinhando nesta área, querendo
aprender a andar. Mas soltemos as imaginações um pouco!
Os primeiros problemas que um missionário enfrenta
quando tenta ingressar num país estrangeiro são a nível de
governo. Tem que conseguir visto, tem de explicar suas in
tenções, tem de passar pela alfândega (o que nem sempre é
fácil), nem sempre poderá transitar livremente dentro do
país, etc. - E por que tantos problemas? - É devido à men
talidade reinante no governo, por questões religiosas, ideo
lógicas ou políticas, ou então devido à formação e ao pen
samento particular da autoridade que está cuidando do ca
so. E o porta-voz de Cristo, ele tem de se curvar diante do
"inevitável"? ele tem de baixar a cabeça e voltar derrota
do? Afirmo que não! São "altivezes" que temos de des
truir; são pensamentos que têm de mudar, e nós é que te
mos de impor essa mudança, com a autoridade de Cristo.
Mas como funciona? Proponho o seguinte: devemos assu
mir a nossa posição em Cristo à destra do Pai e reivindicar
todo o poder e autoridade que essa posição representa ou
confere; aí, em nome de Cristo, em tantas palavras deve
mos exigir uma alteração no pensamento da autoridade ou
do governo tal que as barreiras sejam removidas. Creio que
podemos fazer isso em qualquer nível. Peço que os irmãos
me comuniquem o que aprenderem neste terreno.
Por falar em governos, não há porque não agir junto ao
nosso. Num governo recente havia "xangô" na residência
do Presidente e "mãe de santo" de plantão no Palácio;
quer dizer, Satanás tinha acesso direto e privilegiado à cú-
152
pula do nosso governo. E nós, devemos cruzar os braços
diante de um quadro assim? Creio que não; podemos e de
vemos fazer uso das nossas armas em prol da paz e do bem-
estar de nosso povo. Aliás, não é esse o teor de 1 Timóteo
2.1-4? Somos exortados a interceder pelas autoridades
para que possamos viver em paz; o versículo 3 esclarece
que isto é bom e aceitável diante de Deus, ao passo que o
versículo 4 liga esse quadro ao desejo de Deus de que todos
os homens sejam salvos! Os problemas sociais e econômi
cos que estamos vivendo solapam a nossa capacidade de
exportar o Evangelho. Temos de dar um jeito nisso! Pode
mos proibir toda e qualquer ingerência do inimigo junto ao
Presidente e seus assessores, junto ao Congresso, etc. Mas
não devemos ficar só nisso; podemos introduzir uma in
fluência benéfica nos pensamentos dessas pessoas. Vamos
lá?
Impor a Autoridade de Cristo. Aqui convido a aten
ção do leitor para duas passagens já comentadas, Mateus
18.18 e 2 Coríntios 10.5. Essa fala de "amarrar" e "soltar"
coisas que já o são no Céu. É o "soltar" que convida mais
comentário agora. Já sugeri de leve que o soltar deve ser o
contrário do amarrar, mas ambos os procedimentos depen
dem ou decorrem da vitória de Cristo. Se o amarrar diz
respeito a afastar uma atuação maligna então o soltar deve
dizer respeito a introduzir um efeito benéfico ou positivo,
do nosso ponto de vista, é claro. Creio que em determina
das circunstâncias podemos impor a autoridade de Cristo
a outras pessoas, aos animais, à natureza.
Quando estava estudando em Toronto tomei conheci
mento do seguinte caso. Uma senhora, irmã em Cristo, es
tava a pé e tinha de passar debaixo dum viaduto que con
duz doze vias, um viaduto bastante largo portanto. Tinha
calçada para pedestre e alguma iluminação, mas não dei
xava de ser lugar pouco convidativo. Ela estava pela meta
de do viaduto quando foi abordada por dois marginais com
o intuito aparente de assaltá-la. Ela falou em inglês, mas
traduzindo ao pé da letra disse assim: "Eu tomo (ou então
"reivindico") autoridade sobre vocês em nome de Jesus".
Com isso os dois ficaram imobilizados e nossa irmã prosse
guiu tranqüilamente. Ela ia se distanciando quando os ho-
153
mens gritaram atrás dela: "Misericórdia, não nos deixe
aqui deste jeito!" (estavam sem poder se mexer). Aí ela
voltou para perto deles, explicou a razão das coisas e os li
bertou. Não consigo lembrar se eles se converteram na
hora ou não, mas certo é que não representavam mais ne
nhum perigo para ela. Talvez eu esteja enganado, mas me
parece que não deveria ser necessário termos medo de as
salto, de cachorro bravo, de qualquer coisa que queira nos
atacar, enfim. Exceção feita às dificuldades que o próprio
Deus encomenda para o nosso exercício e crescimento, po
demos nos valer da autoridade de Cristo (sempre em fun
ção do reino de Deus e não do nosso egoísmo).
0 Senhor Jesus fez coisa semelhante; está em Lucas
4.28-30. Certo sábado estava ensinando na sinagoga de
Nazaré; Ele foi pouco "diplomático" e os ouvintes ficaram
enfurecidos. Pegando nele o arrastaram até o cume do
monte "para de lá o precipitarem abaixo" (a cidade fica
num lado do monte e no outro há alguns precipícios). Mas
aí Jesus "passando pelo meio deles retirou-se". Agora, me
digam por favor, como funcionou aquilo? Jesus estava cer
cado por uma multidão enfurecida com alguns elementos
inclusive segurando nele. Como conseguiu escapar? O Tex
to não explica mas evidentemente Jesus deu um "jeito"
qualquer naquele povo (ou ficaram cegos, ou paralisados,
ou alguma coisa). Ele se valeu de poder sobrenatural para
se livrar de um sofrimento, ou talvez uma morte, que não
era de Deus. Em João 8.59 parece que Jesus se tornou in
visível para se livrar dum apedrejamento. Em João 10.39
livrou-se novamente, presumivelmente de forma sobrena
tural.
Agora voltemos a 2 Coríntios 10.5 novamente. Pense
mos mais um pouco no "levar cativo todo pensamento à
obediência de Cristo". Quando falei da "greve nacional"
que sucedeu ao "badernaço" disse que amarramos qual
quer ingerência maligna, mas deixei de explicar outra coi
sa que fizemos. É que também assumimos autoridade, em
Cristo, sobre os pensamentos das pessoas, todos os habi
tantes do país, proibindo pensamentos de violência e con
clamando pensamento de paz, respeito e tranqüilidade.
Deu no que deu. Novamente não posso provar causa e efei-
154
to, mas creio estarmos diante duma arma que representa
um potencial tremendo. Creio ser o tipo da coisa que pode
mos, e devemos, fazer junto a nosso Governo e junto aos
Governos dos países para onde enviarmos missionários. E
por que não agir contra a violência no Líbano, por exem
plo, ou contra o ódio na África do Sul, e t c , e t c? Creio que
com um pouco de "imaginação santificada" poderemosser
guiados pelo Espírito Santo a tomarmos iniciativa em
frentes diversas ao redor do mundo.
"Coisas Maiores que Estas". Talvez algum irmão
esteja se sentindo ura pouco atordoado pela audácia das
minhas sugestões. Muito bem, reconheço ter proposto coi
sas de fato inusitadas em nosso meio. Mas, meu amado ir
mão, qual é a interpretação que você dá às palavras do Se
nhor Jesus em João 14.12: "Em verdade, em verdade vos
digo: aquele que crê em mim, as obras que eu faço também
fará; até maiores que elas fará, porque eu vou para meu
Pai."? Sinceramente, eu já achava difícil pensar em igua
lar as obras de Jesus; superá-las então ficava fora de cogi
tação. Mas aí está a declaração de Jesus: Ele não disse
"talvez faça", disse "fará"; Ele não disse "uns poucos do
tados", disse "aquele que crê". E agora, "José", como fi
ca? Vamos crer, ou não vamos? Vamos fazer, ou não va
mos? Entendo que é justamente a vitória de Cristo que tor
na possível fazermos coisas "maiores". De certa forma Je
sus teve de se reter, limitar-se, segurar-se enquanto não
derrotasse Satanás na cruz e pela ressurreição, e enquanto
não assumisse seu lugar à destra do Pai. Agora as regras do
jogo são outras; aí está a vitória de Cristo esperando ser
reivindicada e imposta por aqui.
Embora disponhamos de televisão, computadores, sa
télites, e t c , hoje em dia que torna possível fazermos coisas
que não existiam no tempo de Jesus, parece-me que ape
larmos para essas coisas (como interpretação do Texto)
não satisfaz o intuito dele em João 14.12. Mesmo que al
guém quisesse insistir nessa interpretação, ainda temos a
incumbência de fazer as mesmas coisas que Ele fez, a sa
ber, ressuscitar os mortos, curar os enfermos e libertar os
demonizados, entre outras! Mas parece-me claro que
quando Jesus disse "maiores que estas" Ele estava pen-
155
sando no poder de Deus como a mola mestra, não a tecno
logia moderna.
Já disse, não sou dono da verdade; há muita coisa que
não entendo; espero aprender com os irmãos. Dito e feito
tudo é a Jesus que teremos que prestar contas pela mordo
mia inteira que Ele nos coloca nas mãos. Apenas faço este
apelo aos irmãos: prostremo-nos diante de Deus e de sua
Palavra e pecamos sincera e humildemente a Deus que,
pelo Espírito Santo nos oriente a respeito das coisas apre
sentadas neste capítulo. Oh! Deus, seja feita a tua vonta
de, seja glorificado o teu nome, venha o teu reino em nós e
através de nós neste mundo!
Desfazer as obras do Diabo. No apagar das luzes,
gostaria de comentar mais um texto. Está em 1 João 3.8.
"Para isto se manifestou o Filho de Deus: para desfazer as
obras do diabo." Que devemos entender por "desfazer" as
obras do diabo? Tenho para mim que tem de atingir as
conseqüências dessas obras. Estamos diante de mais uma
arma tremenda, arma capaz de desfazer os resultados, as
conseqüências de ataques já desfechados contra nós. Pro
vei na própria experiência da forma seguinte.
Em novembro de 1984 estava em Teresina, Piauí, mi
nistrando sobre as estratégias missionárias de Cristo. Uma
noite, após falar da guerra espiritual, estava prestes a dei
tar quando dei uma mordida feia na bochecha, quase tirei
um pedaço, começou a escorrer sangue. É que durante vá
rios meses vinha acontecendo uma coisa meio estranha co
migo. Falando, mastigando ou mesmo à toa de repente
dava um mal jeito no queixo, parecia que os músculos des
governavam, e eu mordia a bochecha ou a língua. Quando
abria uma ferida parecia que era sempre no mesmo lugar,
de sorte que demorava a sarar. Parece uma pequena coisa,
mas para quem andava palestrando muito acabava inco
modando. Pois bem, até chegar em Teresina eu já estava
ficando desconfiado de que se tratava de uma demoniza-
ção. E vinha meditando em 1 João 3.8 também. Assim
que, quando dei aquela mordida na bochecha fiquei cha
teado. "Encheu!" Passei a repreender a demonização, mas
já era tarde; estava sangrando! Que fazer? Aí me lembrei
do "desfazer as obras do diabo". Dito e feito, passei a rei-
156
vindicar, em nome de Jesus, que as conseqüências do ata
que fossem desfeitas. Para a glória de Jesus quero dizer
que imediatamente o sangue estancou e a dor passou. Dor
mi. Com a luz do novo dia fui ver no espelho o lugar da
mordida: estava liso. Louvado seja Deus!
Jesus fez coisa semelhante: está em Marcos 4.37-39
(também Mt 8.24-26 e Lc 8.23,24). Foram atravessar o mar
da Galiléia. Após um dia de ensinar e lidar com a multi
dão, Jesus estava cansado e foi dormir na popa. Levantou-
se uma ventania violenta; as ondas chegaram a subir por
cima do barco de maneira que já se enchia. Aí os discípu
los, temendo a morte, o despertaram. Com isso Jesus le
vantou-se e disse ao vento e ao mar, "Cala a boca, fica
amordaçado!" E houve calmaria total. Pessoalmente não
duvido ter sido aquela ventania trazida por Satanás. Os
discípulos, pescadores profissionais, estavam cansados de
ver temporais no mar; para meter medo neles precisava
uma coisa fora de série. Fosse como fosse, Jesus operou um
milagre duplo. Primeiro, fez o vento parar. No entanto, fi
zesse só isso a água continuaria agitada por algum tempo.
Efetivamente o que Jesus fez foi desfazer as conseqüên
cias da ventania ao impor uma calmaria imediata. É isso
ai!
Não é preciso ser profeta para enxergar que esta arma
nos permite vislumbrar efeitos maravilhosos. Nesta área
também estou apenas engatinhando. Tem muita "terra"
por ocupar, mas o potencial desta arma justifica bastante
esforço para aprendermos como manuseá-la. Se conse
guirmos reverter desgraças já encaminhadas, traumas
emocionais e psicológicos devem ser curáveis desta manei
ra, quantas vidas transformadas e quantos lares sanados
não iremos ver! Novamente peço que os irmãos me comu
niquem o que aprenderem neste terreno.
Implicações Estratégicas
Resumindo e concluindo a exposição desta estratégia
vamos relembrar algumas implicações. O mundo verda
deiro é o mundo espiritual (ver Rm 15.27; 1 Co 9.11; 2 Co
4.18; Gl 6.6; Hb 9.8,9 e 22-24). Este mundo físico que tanto
enche a nossa vista não passa de "sombra", de "figura do
157
verdadeiro". Portanto a guerra verdadeira se trava no âm
bito espiritual. Precisamos aumentar a nossa sensibilidade
para o espiritual, pois nossas igrejas estão cheias de "sol
dados" feridos, sem o saber.
Temos um inimigo terrível que nos odeia e nos ronda
sempre. Os servos de Cristo são o alvo preferido; quanto
mais útil você se tornar na mão de Deus mais assediado se
rá pelo inimigo. Muitas vezes Satanás consegue fazer de
nós utensílios para derrubar um colega e ainda pisoteá-lo
para que não consiga levantar-se. Vêm à mente casos onde
o irmão sofre ataques violentos e virulentos, sem freio, sem
medida, sem nexo, totalmente desproporcionais ao delito
que porventura tenha praticado, ataques desfechados por
outros irmãos. Como pode? Às vezes transparece um espí
rito de ódio; os outros procuram arrasar com o primeiro de
sorte que nunca possa ser restabelecido. É obra de Satanás
e devemos abrir os olhos para isso. Depois vêm as brigas
acirradas acerca de minúcias doutrinárias, coisas que não
levam a nada; no entanto resultam cismas nas igrejas, se
paração permanente entre irmãos, estragos de diversos ti
pos. Também é obra de Satanás, Olho vivo, minha gente!
Mas temos armas adequadas, mesmo tremendas, tan
to para defesa como para ofensiva. Temos de orientar o
povo de Deus acerca destas coisas. Temos de nos tornar
afoitos e peritos no manuseio das armas. Precisamos de
obreiros que saibam conduzir a guerra espiritual, que sai
bam impor a vitória de Cristo sobre Satanás e os demô
nios. Se conseguirmos encher o mundo de tais obreiros po
deremos terminar de alcançar o mundo, cumprindo a
Grande Comissão de Cristo, dentro de poucos anos, relati
vamente. Pois tais obreiros produzirão muito mais efeito
do que os outros que não sabem como fazer.
Precisamos igualmente de igrejas cheias de crentes
que também saibam conduzir a guerra.Precisamos de ati
radores de escoí, pessoas que saibam atingir um alvo es
pecífico. Até aqui as orações do povo de Deus têm sido em
termos mais gerais, como que mandando chumbo em dire
ção geral do inimigo, que pode fazer com que ele se escon
da momentaneamente mas que não produz baixas. Vere-
158
mos muito mais efeito quando dermos tiros certeiros na ca
beça do inimigo.
Deixei por último uma verdade que me maltrata, que
me dá raiva mesmo. É que junto a 3.000 nações étnicas nós
é que estamos amarrados; junto a 3.000 etnias a vitória de
Cristo pouco está valendo (ainda)! Dá para suportar isso,
minha gente?! Pois não existe Evangelho ou testemunha
de Cristo por lá e como resultado pouco adiantaria amar
rar Satanás junto a tais povos. Sim, podemos amarrá-lo,
mas resolveria o quê? Podemos minorar o sofrimento físico
dum povo, talvez, mas a questão fundamental do destino e
bem-estar espiritual desse povo não podemos solucionar
enquanto o Evangelho não existir efetivamente dentro do
seu alcance. É totalmente necessário termos obreiros junto
a cada etnia! "Rogai pois ao Senhor da s e a r a "
De todas as estratégias missionárias de Cristo apre
sentadas até aqui a que ocupa este capítulo parece-me ser
a mais importante. Se bem que bastaria o povo de Deus
obedecer de verdade a qualquer uma delas que terminaría
mos de alcançar o mundo dentro da nossa geração. Mas se
todo crente aprendesse a conduzir a guerra espiritual nos
termos aqui elaborados, arrasaríamos com Satanás.
Transformaríamos nossas vidas, famílias, igrejas, a socie
dade e quiçá o mundo! Que tal? Vamos lá? Vamos que va
mos! Que Deus nos ajude!
159
7
Seguir o exemplo de Jesus
Para completar, vejamos as palavras do Senhor Jesus
que encontramos em João 20.21, palavras endereçadas aos
discípulos: "Disse-lhes pois Jesus outra vez: Paz seja con-
vosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio
a vós." Como muitas vezes acontece, o "segredo" está nas
pequenas palavras, no caso "assim como". "Assim como"
o Pai me enviou, e como foi, como fez o Pai? Melhor, como
fez o Filho ao ser enviado? Ele ficou em casa, para assim
dizer? Deixou sua "casa", deixou sua "terra", veio parar
por aqui. E que Ele fez por aqui? Encarnou, se fez gente,
identificou-se conosco. "E o Verbo se fez carne e habitou
entre nós" (Jo 1.14). Mais ainda do que o apóstolo Paulo,
Jesus é o exemplo-mor daquilo que um missionário trans-
cultural deve ser e fazer. Ele que de mais longe veio; Ele
que mais se humilhou. (Aliás, diga-se de passagem, quan
do alguém escolhe uma carreira missionária para passar
melhor do que passaria de outra sorte, da margem a dúvi
da; qual seria a motivação verdadeira?)
Como temos visto, as ordens e estratégias missioná
rias de Cristo implicam em trabalho transcultural, neces-
161
sariamente. As 3.000 etnias sem obreiro e os 2,5 bilhões de
pessoas por ouvir representam precisamente um desafio
transcultural; para que sejam alcançadas alguém terá de
transpor uma barreira de língua e cultura. Ao enfrentar
esse tipo de trabalho, devemos seguir o exemplo de Jesus,
que nos fornece certas atitudes básicas. Todas as outras es
tratégias que já comentamos atingem a todo o povo de
Deus, e algumas talvez sejam mais importantes para os
que ficam do que para os que vão aos campos, mas esta sé
tima estratégia diz respeito primordialmente ao missioná
rio. Se bem que, pensando com mais cuidado, pode ser que
achemos aplicações bastante práticas também para os que
não saem de sua cidade. Vejamos pois as atitudes básicas.
Identificar-se
O Verbo "se fez carne e habitou entre nós". Deus, o
Filho, aceitou o corpo preparado (Hb 10.5), identificou-se
efetivamente conosco. Pensando no tempo e no local es
pecíficos, Jesus comeu o que o povo comia, falou a língua
que eles falavam, andou como pobre em meio de pobres,
enfim, vestiu a pele daquela gente. Temos também o
exemplo do apóstolo Paulo. Ele declara seu procedimento
em 1 Coríntios 9.20-22.
20 - Tornei-me como que judeu para com os judeus,
para ganhar judeus, sob lei para com os sob lei, para
ganhar os sob lei,
21 - s e m lei para com os sem lei (...) para ganhar os
sem lei.
22 - Tornei-me como que fraco para com os fracos,
para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos,
para por todos os meios salvar alguns".
Aí nos versículos 24 e 25 Paulo cita o exemplo de atle
tas que se submetem a certas disciplinas para alcançar a
meta.
Fica claro que Paulo procurava identificar-se com o
povo, com as pessoas, que ele estava querendo ganhar para
Cristo. Na história das missões transculturais modernas
tem havido muita falha nesta área. Muitas vezes o missio
nário não tem sido sensível para com a cultura, e até mes
mo a língua do povo que ele objetiva. Qualquer falha des-
162
necessária (às vezes há aspectos da cultura que são objeti
vamente pecaminosos, coisas que a Bíblia claramente con
dena, e aí o porta-voz de Cristo não pode participar) dimi
nui a eficiência do obreiro, pois atrasa a aceitação dele pelo
povo o que fatalmente acarreta atraso na aceitação do
Evangelho. Se o povo rejeitar o mensageiro, rejeitará a
mensagem que ele leva também. O efeito estratégico desta
atitude é de tanto alcance que merece mais atenção da
nossa parte.
Procurar "renascer". A maneira mais fácil de
aprender a língua e a cultura dum povo é como criança,
nascendo no meio deles. Sucede que nós não temos mais
essa opção, temos de começar nossa carreira missionária já
adultos. Contudo, creio que devemos colocar como meta
como que "renascer" na língua e na cultura do povo objeti
vado. Quer dizer, devemos nos esforçar conscientemente
no sentido de dominar a língua e a cultura do povo, ver se
um dia eles nem nos consideram mais como sendo "de fo
ra". Para tanto será necessário abrir mão da nossa cultura,
enquanto estivermos entre eles. Não seria questão de rejei
tar a própria cultura, pois quando voltar para sua própria
terra terá que "voltar" à cultura também. A gente se torna
bilíngüe e bicultural, ou às vezes trilíngüe e tricultural-, e
até mais. Mas enquanto no meio do outro povo devemos
fazer por onde entender e assumir a cultura deles: é uma
tática importante visando ganhá-los para Cristo.
Muito bem, imaginemos que Deus dê à gente a incum
bência de fazer discípulos entre um povo que até aqui nun
ca ouviu de Cristo. E agora, como fazer? Por ser um povo
que nunca foi estudado por pesquisadores de fora e por ser
uma língua que nunca foi escrita, não existirá escola no
mundo inteiro que ofereça um curso sobre essa língua ou
cultura. O único "remédio" que há é se deslocar até lá e
pedir licença para morar no meio deles. Quase sempre
existe contato pacífico com pelo menos um povo vizinho, e
mediante uma língua franca da região deve ser possível fa
lar do seu desejo e receber permissão (nem sempre dada
com entusiasmo). Tentar contato com um grupo arredio
exige muita prudência e sabedoria, e a direção específica
de Deus.
163
Viver numa aldeia indígena, por exemplo, é um outro
mundo: comida diferente (às vezes bem diferente), "casa"
de palha ou pau-a-pique, costumes diferentes e até cons
trangedores, falta de higiene (pelo menos a nosso ver), e
um idioma tão difícil e complexo que a gente facilmente
perde a esperança de um dia poder comunicar o Evangelho
a contento através dele. É uma "parada" dura, sem
sombra de dúvida, mas o apóstolo tem de enfrentá-la. O
próprio povo vai testar sua disposição de identificar-se
com eles. Em nosso caso a esposa e eu fomos "obrigados" a
comer a larva que se acha no tronco podre de uma certa
palmeira (eles comem cru mas ainda permitiram que
frigíssemos!). Disse "obrigados" entre aspas porque eles
não teriam apelado para a força física (mas já houve caso
onde a "prova" foi imposta a puiso), mas quais teriam sido
as conseqüências de uma recusa nossa? Seríamos reprova
dos, já que tratava-se duma prova. Teria sido uma derrota
para nós, pois na melhor das hipóteses (poderiahaver rea
ção víolenta) eles diriam: "Sendo assim, vocês ficam para
lá e nós ficamos para cá!". Por mais que nos esforcemos,
no início seremos estranhos e diferentes, mas interessas
sobremaneira fazermos por onde diminuir a barreira cultu
ral que nos separa do povo, diminuir e não aumentar.
A chave que abre o coração dum povo é a sua língua
materna. Apóstolo que se preze não descansará enquanto
não dominar o idioma do povo objetivado. Enquanto não
dominar continua sendo um elemento estranho, de fora.
Pior ainda, um missionário que não domina a língua do
povo condena o Evangelho também a ser sempre estranho,
uma coisa de fora. Como pode? A língua do povo é a chave
que abre o coração; ai do porta-voz de Cristo que não der o
peso devido a este fator!
Parece-me que a falha mais generalizada no compor
tamento missionário é identificação a menos: por falta de
preparo, orientação ou disposição o obreiro fica aquém da
meta. Pode parecer uma contradição da minha parte, mas
pode ser que alguém faça uma identificação muito seletiva
que acabe sendo prejudicial: suponho que o prejuízo decor
ra da falta de uma visão global exatamente porque a pes
soa não se deu ao trabalho de aprender a língua e cultura
164
de forma abrangente. É fácil "sentir as dores" dum povo,
se empolgar com problemas sociais, com questões políticas
e econômicas, mas todo cuidado é pouco.
Cuidado com Questões Políticas e Econômicas.
Conseguir um domínio razoável duma língua e cultura
(numa situação pioneira) costuma levar pelo menos dois
anos, e olha lá. Diante da frustração de não ter condições
de transmitir a Palavra de Deus durante esse tempo, é fá
cil ver nos problemas de ordem política ou econômica uma
válvula de escape, uma maneira de "ajudar" o povo. Mas
aqui também sua ignorância quanto à cosmovisão do povo
representa uma armadilha. E mais provável que acabe
tentando impor "soluções" que devem sua "validade" à
sua própria cosmovisão mas que não são sensíveis à deles ;
é um tipo de imperialismo ou paternalismo. É necessário
atentar também para o perigo de criar dependências. Às
vezes a pessoa cai na aímadilha de forma "inocente", sem
refletir nas implicações. Mas hoje em dia se propaga uma
interpretação "social" do Evangelho, uma hermenêutica
marxista que se impõe à Bíblia (quando não é ideologia
marxista pura e simples), que ensina que é exatamente e
de preferência na área social que o missionário deve con
centrar seus esforços, fale ou não a língua, entenda ou não
a cultura.
Todo cuidado é pouco! Nosso ponto de vista deve ser
teocêntrico e não antropocêntrico. Não cair na asneira de
servir a interesses egoístas, e nem criar esperança falsa!
Qualquer atividade nossa que parte de pressupostos hu
manistas ou materialistas vai dar "com os burros nágua".
Ihteresse egoísta é interesse egoísta, seja lá de quem for. O
Evangelho de Cristo não existe para atender a nossos inte
resses egoístas; existe sim para atender a glória de Deus.
Vejamos a doutrina de Jesus.
Primeiro vejamos as palavras dEle registradas em
Mateus 5.38-41:
38 - Ouvistes que foi dito: olho por olho e dente por
dente.
3 9 - E u , porém, vos digo que não resistais ao mal
feitor; mas a qualquer que te bater na face direita, vol
ta-lhe também a outra;
165
40 - e ao que quer litigar contigo e tirar-te a túnica,
larga-lhe também a capa;
41 - e se qualquer te obrigar a caminhar uma milha,
vai com ele duas.
Já pensou? É uma doutrina um pouquinho difícil de
se pôr em prática, será que não? Mas aí está. Convida co
mentário maior o caso da segunda milha. No Império Ro
mano, em qualquer país subjugado, um soldado romano
podia obrigar um cidadão desse lugar a carregar seu bornal
uma milha (os romanos colocavam marcos nas estradas de
milha em milha). Ora vejam! Que situação mais injusta e
humilhante! Coisa de conquistador e explorador! Por que
Jesus não mandou cuspir na cara do soldado e lutar para li
bertar a terra da opressão imperialista?
Em Mateus 22.17-21, Jesus ensinou pagar tributo a
César, César o conquistador. César o explorador, César o
injusto. Em Lucas 12.14,15 alguém pediu que Jesus tomas
se partido numa questão de interesse particular, e Ele ape
nas aproveitou o ensejo para enunciar princípios fundamen
tais capazes de transformar vidas e sociedades, mas esses
princípios têm de ser abraçados de livre e espontânea von
tade, não podem ser impostos a pulso.
Agora vejamos Lucas 7.18-22. João Batista enviou ho
mens para perguntar diretamente a Jesus se Ele era o Mes
sias. Após presenciarem muitas curas Jesus disse (versícu
lo 22): "Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes: os ce
gos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os
surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres
anuncia-se o Evangelho. "Aos pobres anuncia-se o Evan
gelho. Nada de distribuir espadas, de levantar contra o go
verno, de gritar por uma distribuição mais eqüitativa dos
bens materiais. Aos pobres anuncia-se o Evangelho. Ago
ra, nesta mesma passagem Jesus demonstrou claramente
sua compaixão perante o sofrimento físico das pessoas -
curou a todos os enfermos que o procurassem. Curar, sim;
meter-se em encrenca política ou econômica, não.
Obviamente não podemos dizer que Jesus não tinha
fibra; sabia inclusive usar violência. Em João 2.14-17 Ele
fez uso de violência física para "purificar" o templo. Pau
lo, em Atos 13.6-11, foi "violento" no caso de Elimas. Po-
166
deríamos dizer que Pedro foi "violento" com Ananias e Sa-
fira (At 5.1-10) e com Simão (At 8,18-24). Essas reações
enérgicas da parte do Senhor Jesus e dos apóstolos sempre
se deram em defesa de princípios espirituais, nunca ques
tões econômicas ou políticas. Um princípio bíblico rele
vante é que as autoridades são de Deus (por mais estranho
que às vezes pareça) - ver Romanos 13.1,2 e 1 Pedro 2.13-
18, entre outras. Quem prega ódio e violência não é de
Deus. Aliás, é impossível ser marxista e cristão ao mesmo
tempo, são ideologias antagônicas (há vários anos encon
trava-me no gabinete do Secretário de Missão da IECLB e
ouvi-o dizer, cheio de prazer e satisfação, que estavam em
penhados em bolar uma igreja que abrigasse harmoniosa
mente ao mesmo tempo "cristão" e marxista. Olho vivo,
minha gente!).
Quero deixar bem claro que meus dizeres a respeito do
envolvimento em questões políticas e econômicas se res
tringem à atuação dum missionário no meio dum povo do
qual ele não é nativo. Dentro da nossa própria sociedade
podemos e devemos nos preocupar com a realidade econô
mica e política, agindo de maneira responsável.
Humilhar-se. Outra atitude básica exemplificada
pelo Senhor Jesus está declarada em Filipenses 2.5-8.
05 - Haja em vós a mesma atitude que houve também
em Cristo Jesus,
06 - que, embora subsistindo em forma de Deus, não
intentou apegar-se ao ser igual a Deus,
07 - mas esvaziou-se a si mesmo assumindo a forma
de escravo, tornando-se em semelhança de homens;
08 - e sendo achado em figura humana humilhou-se a
si mesmo, tornando-se obediente até a morte, inclusi
ve a morte de cruz!
Humilhou-se a si mesmo! Quem não aceitar ser humilha
do simplesmente não serve para missionário. Aliás, o
egoísta, o orgulhoso, o soberbo pouco prestará em canto al
gum, dentro do reino de Deus, pois a Bíblia é clara: "Deus
resiste aos soberbos" (Tg 4.6 e 1 Pe 5.5). Ensoberbecer-se é
maneira certa de fazer de Deus seu opositor e nenhum ser
vo deve sequer pensar em fazer tal coisa. Mas no que diz
respeito a trabalho transcultural nem é opção, pois o mis-
167
sionário será humilhado, quer queira quer não, é várias ve
zes ao dia.
Quando fomos dar início ao nosso trabalho entre os
Apurinãs, tanto a esposa como eu tínhamos curso de pós-
graduação. Alguém poderia imaginar que fomos à selva en
sinar alguma coisa ao índio. Bem, talvez um dia, mas no
início tínhamos de aprender com eles, pois na selva o mes
tre é o índio - nossos graus pouco resolviam. Numa cultura
reduzida, cada pessoatem seu papel, sua função, sua posi
ção e é previsível que o povo procurará colocar a gente num
"nicho" também. Quem levar assistência médica pode en
trar no nicho de curandeiro; quem levar mercadorias pode
ser visto como patrão, etc. Mas o primeiro papel que a gen
te pega é de aprendiz, aprendiz de língua e cultura. E daí?
É que aprendiz de língua e cultura é papel de criança! Ain
da me lembro bem. Fazia pouco tempo que estávamos na
aldeia quando alguém disse para mim: "Gilberto, que é
que você tem? Nossas crianças com cinco anos de idade já
estão falando nossa língua perfeitamente bem e você aí,
grande desse jeito, não consegue falar. Qual é seu proble
ma?!" Confesso que doeu um pouco, e isso aconteceu mais
de uma vez. Minha esposa também sofreu: uma das mu
lheres gostava de zombar de suas tentativas de falar; mas
segurava no pé dela, não perdoava mesmo! Muitas vezes
deixava a esposa angustiada, coitada, a ponto das outras
mulheres ficarem revoltadas com a opressora. Não é fácil.
Muitas vezes as pessoas pensam no índio (no caso)
como sendo aquela figura exótica, esquisita, diferente, mas
quero dizer que quando a gente primeiro chega por lá, nós
é que somos diferentes, esquisitos e exóticos. È melhor que
um circo! Há uma platéia constante a observar tudo que a
gente faz, a observar e a comentar! Intercalam seus co
mentários com risadas (quando não gargalhadas), e a gen
te entendendo "patavina", quer dizer, sabemos que é a
nosso respeito que estão rindo, mas não entendemos as pa
lavras. Se o espaço permitisse, poderia colocar experiên
cias várias, mas creio não ser necessário. Podem ter certeza
que ignorância da língua e cultura imporá humilhações
diárias ao missionário. Fora isso não faltarão também ou
tras coisas a testar nossa humildade. É imprescindível ter-
168
mos "a mesma atitude que houve também em Cristo Je
sus".
Limitar-se. Em Mateus 15.21-28 encontramos um re
lato que me comove. Uma mulher cananéia clamou a Jesus
pedindo libertação para a filha. Ele sequer respondeu.
Como ela não parou de clamar, os discípulos pediram uma
providência. Aí Jesus disse: "Eu não fui enviado senão às
ovelhas perdidas da casa de Israel" (v 24). Com isso dá-se
uma conversa entre a mulher e Jesus onde ela dá um
exemplo de humildade e fé quase sem igual nas Escrituras,
e ganhou sua "migalha". Mas interessa no momento é a
declaração do Senhor Jesus que está no versículo 24. No
seu ministério terreno Ele se limitou, concentrou-se no es
forço de alcançar um só povo. Ele deixou cair umas poucas
"migalhas" para os outros mas não chegou a interromper
sua atuação junto ao povo de Israel. Na cruz é que Ele ia
"atrair todos" (Jo 12.32), mas pouco antes de dizer isso
aparentemente negou-se a receber uns gregos (Jo 12.20-
23), embora estivesse a poucos dias dessa cruz.
Missionário transcultural precisa saber se limitar,
mormente se for trabalho pioneiro. Será duro e demorado
mesmo se concentrar seu esforço para alcançar um só po
vo. Se fracíonar ou diluir seu esforço dificilmente consegui
rá ganhar o povo objetivado. Tem havido caso de brasileiro
intentar alcançar uma tribo indígena do país onde por fal
ta de preparo e orientação adequados não suportou a frus
tração de passar meses a fio sem poder evangelizar (não
dominando a língua); aí foi evangelizar os civilizados que
moravam na região e agora tem igreja entre eles mas entre
os índios ainda não. Por isso também, a meu ver, trabalho
pioneiro entre povos não-alcançados não poderá ser reali
zado por "fazedores de tendas", i.é, pessoas que vão a ou
tro país para exercer uma função profissional: O ofício
apostólico exige esforço integral.
É questão de propósito e incumbência. Se Jesus me
manda fazer discípulos entre uma etnia então é essa a mi
nha incumbência. Sucede que lidar com um povo minori
tário sempre implica em enfrentar um terreno minado.
Sempre os povos minoritários são explorados pelos majori
tários. Sempre existem preconceitos de raça, de religião,
169
de cultura, de qualquer coisa - sempre! Sempre existem
choques de interesses, interesses comerciais, políticos, pes
soais, etc. Lidar com povo minoritário é sempre um terreno
minado. A aldeia onde fomos morar ficava a uma hora, sel
va adentro, duma vila {hoje sede de município) à beira do
rio Purus. Quando escolhemos morar na aldeia o pessoal
da vila tomou como insulto, não gostaram nem um pou
quinho (pois nossa presença iria valorizar e proteger um
povo que eles vinham deprezando e explorando). Mas a
nossa incumbência era alcançar a aldeia e não a vila, mes
mo porque já existia igreja evangélica na vila (com a qual
não deixamos de colaborar), Se tivéssemos escolhido ficar
na vila seria interpretado pelos índios como uma identifi
cação com os exploradores, com os perpetradores de toda
sorte de desgraça, e com isso iríamos criar uma barreira
psicológica que nos atrapalharia durante bastante tempo.
Mesmo contra o nosso gosto, às vezes somos obrigados a
"tomar partido", obrigados pelo terreno estragado que
existe e pelo próprio povo que queremos atingir. E questão
de propósito e incumbência.
Cabe aqui mais uma observação. Exatamente devido
a esses terrenos estragados, muitas vezes um estrangeiro
terá melhor aceitação do que um cidadão do país, junto a
uma etnia minoritária, precisamente porque não está im
plicado nos atritos da região. Em muitas áreas do mundo
povos vizinhos vêm se digladiando há séculos e existem ó-
dios e rancores que só Deus pode sanar - num contexto as
sim uma pessoa obviamente "de fora" pode encontrar
mais facilidade do que uma outra que poderia ser "dos ini
migos". Para complicar, o clima político a nível nacional
costuma ser o contrário - o estrangeiro pode ser melhor
aceito a nível tribal mas encontra rejeição a nível nacional,
às vezes. Não tenho solução a propor, a não ser o uso das
nossas armas espirituais; no momento só quero alertar
para a problemática. Devemos andar prevenidos, e dispos
tos a aceitar limitações.
Rejeitar. Para sustentar esta atitude não tenho uma
passagem bíblica a citar. No entanto é uma coisa óbvia
que está implícita no identificar-se. Precisamos entender
que cultura é necessária. Na sua essência cultura é o con-
170
junto das normas de trato e procedimento que uma comu
nidade adota. Só não precisa de cultura quem estiver sozi
nho num deserto ou numa ilha perdida no oceano. Nenhu
ma cultura é totalmetne boa, e nem totalmente má. O uso
da expressão "cultura paga" pode levar as pessoas a imagi
nar que uma tal cultura seja totalmente imprestável, o que
não é o caso. Se comemos com garfo, colher, pauzinhos ou
dedos, nada tem a ver com moral; se dormimos em cama,
rede ou chão, idem. Muitas coisas nas culturas são neu
tras, moralmente falando; apenas são costume. No mo
mento que duas ou mais pessoas querem viver pacifica
mente numa área, tem de existir cultura.
Missionário transcultural precisa saber respeitar a
cultura do povo objetivado. Não deve chegar querendo im
por mudanças. O Evangelho não se impõe. O própprio
Deus não quer saber de culto fingido, de "obediência" for
çada (pelo menos nesta era da graça) - Ele quer culto sin
cero, obediência que brota do coração. Quando logramos
impor alguma mudança a um povo, mas que eles não en
tendem ou que não representa convicção deles, além de
criarmos hipócritas é arriscado criarmos um vácuo na cul
tura. Quando o povo larga uma prática por imposição nos
sa o propósito ou a função dessa prática cai no vazio, com
conseqüências quase sempre negativas.
Em todo caso, se achar que tem de mexer numa práti
ca, por favor, procure saber a razão primeiro. É quase ine
vitável que o missionário vai ver práticas que ele acha ab
surdas, imorais, horrendas, até criminosas. Que fazer?
Procure saber a razão! Vamos dar apenas um exemplo.
Em muitas culturas indígenas do Brasil, e de outros países
também, quando uma mulher dá à luz quem faz "resguar
do" é o pai! Ele cai no fundo da rede e láfica, uma semana
ou duas. Já a mulher tem de levantar e trabalhar como de
costume. Imagino que você possa achar isso um absurdo,
talvez chegue a se revoltar até. Suponhamos que você re
solva "moralizar" essa situação; avança em cima do ho
mem, chama de tudo quanto é nome, tanto fala e tanto faz
que ele acaba levantando e indo trabalhar. Bom, acontece
que teria sido interessante saber o porquê desse procedi
mento. É que eles crêem que de uma maneira misteriosa,
171
nos primeiros dias de vida dum filho, quaisquer energias
que o pai consegue poupar são transferidas para o fílhinho,
garantindo assim a saúde e o bem-estar da criança. Se vo
cê acredita ou não é fator irrelevante. É assim que eles
crêem e é por isso que o homem age dessa forma. Pois bem,
vejamos agora as seqüelas de sua interferência: se por infe
licidade a criança adoecer, o pai será responsabilizado (ele
privou seu filho das forças necessárias para enfrentar a vi
da), e se por desgraça maior a criança vier a morrer, aí ele é
tido por assassino. Tem mais uma: quando um homem faz
resguardo ssim ele está reconhecendo a legitimidade do fi
lho; se não fizer, é como que dizer para a comunidade: "Sei
lá onde ela arrumou mas não foi comigo!". Os reflexos so
ciais são sérios e vão longe.
Irmãos, é melhor não mexer; é melhor deixar por con
ta do Espírito Santo. Vamos nos esforçar para fornecer a
Palavra de Deus o quanto antes para que eles possam se
converter e chegar a ser verdadeiros discípulos de Jesus. Aí
eles também terão o Espírito Santo na vida e Ele se encar
regará de cobrar as mudanças necessárias. Quando proce
demos dessa forma, acontece o seguinte: Ele deixa em paz
algumas coisas que nós queríamos mudar e altera outras
que nem nos incomodaram. Com isso cada cultura retrata
a graça de Deus de forma um pouquinho diferente, que
nem as facetas dum brilhante.
Infelizmente, na história missionária têm havido ca
sos onde missionário provocou estrago na cultura do povo
(cabe observar de passagem que certos tipos que mais gos
tam de criticar os missionários costumam eles mesmos
provocar estragos maiores e piores quando lidam com po
vos indígenas). Missionário pode provocar algum estrago,
tem acontecido, mas ele não destrói culturas, como às ve
zes é acusado. É importante fazermos uma distinção entre
missionário e Evangelho. O Evangelho não destrói cultura,
e nem mesmo danifica; o Evangelho aperfeiçoa a cultura,
qualquer uma, inclusive a nossa. Um missionário even
tualmente pode fazer algum mal, mas o Evangelho só faz
bem. Precisamos urgentemente criar consciência e sensibi
lidade no sentido de distinguir e separar entre o que é Pa
lavra de Deus e a nossa própria cultura religiosa. Muita
172
coisa que pregamos e ensinamos tem base bíblica escassa,
quando não inexistente. Vamos pregar o Evangelho, meus
irmãos, e não nossa cultura religiosa!
Devemos comentar mais uma coisa aqui. Temos de
respeitar a cultura do povo objetivado, mas ao mesmo
tempo temos de confrontar o reino das trevas. Devemos
nos identificar com o povo, exceção feita a práticas que a
Bíblia condena. Já que o missionário está lá precisamente,
a fim de oferecer uma cosmo visão diferente, não deve com
prometer essa cosmovisão. O culto aos espíritos malignos é
ingrediente central de muitas culturas. Precisamos de dis
cernimento espiritual para separarmos coisas "neutras" de
coisas diretamente relacionadas com os espíritos. Nem
sempre é fácil distinguir. Tenho citado Hebreus 2.14 várias
vezes, mas o período inclui o versículo 15 também, que
traz uma verdade triste mas de grande importância para
nós. Em todas as culturas dos homens o medo da morte es
craviza as pessoas. Muitas práticas se prendem ao intuito
de afastar a morte. É impressionante ver quantas vezes
tais práticas resultam em morte (lembrar que um dos pas
satempos de Satanás é levar as pessoas à morte). Por
exemplo, muito derramamento de sangue resulta da sus
peita de feitiço; mata-se o "responsável" para evitar que
ele mate. Poderíamos encher a página de exemplos. Não
posso oferecer uma fórmula mágica para dirimir as dúvi
das. Novamente tenho de me contentar em alertar para a
problemática. Pecamos a Deus discernimento e respeito!
Preparar-se
O Senhor Jesus passou trinta anos preparando-se para
três anos de ministério público. Trabalho transcultural pio
neiro é pelo menos dez vezes mais difícil e demorado que
evangelismo comum (i.é., na sua própria língua e cultura).
É isso mesmo, dez vezes mais, e estou sendo moderado.
Além do mais, mesmo com o melhor preparo e a melhor
orientação disponível o obreiro que enfrentar uma situação
transcultural fatalmente sofrerá "choque cultural". Cho
que cultural é um mal-estar emocional e psicológico que
resulta quando alguém mergulha numa língua e cultura
estranha, desconhecida. Nosso equilíbrio psicológico de-
173
pende muito do conhecido, da rotina, do previsível: ao nos
encontrarmos numa situação onde é tudo estranho, onde
não entendemos nada, onde não conhecemos as regras de
comportamento ficamos desnorteados, ficamos "doentes".
Sempre recomendo ao novel missionário que não fique
mais que três meses na primeira estada na aldeia (no ca
so). Deve sair para um contexto mais conhecido e reaver o
equilíbrio psicológico. O obreiro tem de estar avisado para
não ficar desesperado imaginando que esteja perdendo a
sanidade. Cada vez que volta à aldeia sente menos choque.
Por tudo isso declaro e insisto em que, para trabalho
transcultural, o obreiro precisa receber preparo especial e
específico. Mandar um missionário para outra terra sem
tal preparo é um ato irresponsável, é um crime, pois o coi
tado vai sofrer desnecessariamente e será muito menos efi
ciente e produtivo do que poderia ser; e o risco de fracasso
é bem maior. Um bacharelado em teologia não resolve.
Preparo bíblico ou teológico é necessário, mas não é o sufi
ciente. Ê preciso receber as ferramentas técnicas para en
frentar outras línguas e culturas, inclusive partindo da es
taca zero se necessário. No momento o melhor curso desse
tipo que existe no Brasil é oferecido em Brasília pela Mis
são ALÉM.
Sei que alguém vai pensar na volta de Cristo e a pro
vável escassez de tempo. Se Jesus vem aí até onde deve
mos "perder" tempo com preparo? Baseado em tudo que
sei acerca do assunto eu quase diria que todo preparo é
pouco, mas obviamente se não sobra tempo para trabalhar
o preparo perde a razão de ser; temos de achar um meio
termo. Imaginemos que de alguma maneira Deus nos desse
uma revelação segura dizendo que Jesus voltaria daqui a
cinco anos. Assim ficaríamos sabendo que tínhamos só cin
co anos para terminar de fazer o que ainda resta para fa
zer. Digamos que haja dois jovens com idade, preparo
bíblico (três anos de seminário), disposição e capacidade
nativa mais ou menos iguais. Todos os dois sentem que de
vem tentar alcançar uma das etnias não-alcançadas. Um
diz: "Puxa vida, Jesus vem aí; só temos cinco anos; não
posso perder mais um minuto com preparo; lá vou eu!", e
se manda. Já o outro diz: "Puxa vida, Jesus vem aí; mas
174
não tenho condições de enfrentar um trabalho pioneiro;
vou pegar as ferramentas primeiro." O segundo passa dois
anos pegando preparo específico. Pois nos três anos que
restam ele faz mais efeito que o primeiro faz em cinco. O
primeiro fica lá se batendo sem saber como fazer. Se o pra
zo for maior a vantagem do segundo aparece cada vez
mais. Sem um nível mínimo de preparo específico quase
não adianta seguir para o campo.
Implicações
Temos de criar uma nova mentalidade nos meios
evangélicos, mentalidade que reconhece a realidade de
trabalho transcultural. Às vezes não estamos acostumados
com trabalho demorado e oneroso. Se um pastor resolve
abrir um ponto de pregação para ver se surge uma congre
gação, o que ele faz? Escolhe um jovem, talvez um semina
rista, para liderar a equipe e tocar o trabalho. Dentro de
poucas semanas o pastor já quer ouvirde resultados: "Gra
ças a Deus houve três conversões hoje; já ganhamos cinco
almas," etc. Certo? Se passa dois meses sem resultado
aparente o que acontece? O pastor tira aquele e coloca ou
tro, será que não? Se a mesma igreja enviar um jovem para
um trabalho transcultural, e se ele escrever uma carta após
um mês, essa carta não vai cantar as almas ganhas, não;
vai versar mais ou menos assim: "Graças a Deus ainda es
tou com vida; escapei até aqui! Já consegui aprender cem
palavras," etc. É um outro mundo.
Creio que um médico cirurgião pode entender o negó
cio. Sacar o apêndice de alguém é uma operação simples
(se não supurou) que custa relativamente pouco. Já um
transplante de coração é uma operação bastante comple
xa, delicada e cara e exige muito mais preparo e capacida
de da parte do médico. Creio que um engenheiro civil tam
bém pode entender. Construir uma casa é uma coisa; er
guer um prédio de vinte andares é outra coisa: o tempo, a
perícia, o material não se comparam! Quero dizer que tra
balho transcultural pioneiro é como o prédio ou o trans
plante; é mais demorado e custa bem mais caro que evan-
gelismo por aqui, e exige mais preparo. Se vamos levar a
sério as ordens de Cristo temos de assumir essa realidade.
175
Quero contar a história dos colegas que trabalham
com a tribo Lacandon no Sul do México. Deram início á
obra por volta do ano 1940, creio, e os anos foram passan
do. Passaram cinco anos de esforço e luta, e nada - ne
nhum índio se converteu! Agora eu pergunto, quem agüen
taria dar duro por cinco anos sem ver resultado? E qual a
igreja que agüentaria mandar dinheiro mensalmente du
rante cinco anos sem ouvir de resultado? Mas eles agüen
taram e os mantenedores também, e lá se foram mais cinco
anos, e nada - nenhum índio se converteu! Como pode?
Quem agüenta uma coisa dessas? Sabe lá como, eles
agüentaram, e os mantenedores também; e lá se foram
mais cinco anos, e nada! Nada mesmo, nenhum índio se
converteu! Já imaginou? Como agüentar uma coisa des
sas? Por incrível que pareça, "seguraram a barra", e os
mantenedores também! Se a memória não me falha, no
décimo sexto ano o Espírito Santo varreu por lá e grande
parte da tribo converteu-se quase de uma só vez, no déci
mo sexto ano! E se eles tivessem desistido após dez anos,
alguém criticaria? Graças a Deus não desistiram, e a safra
veio! É claro que esse caso foi um exemplo fora de série; fe
lizmente não costuma ser tão demorado assim, mas pode
ser e precisamos estar preparados para pagar o preço.
Como disse no começo do capítulo, esta estratégia se
aplica primordialmente a trabalho transcultural, mas não
exclusivamente. Quem for da classe média e quiser alcan
çar uma favela vai enfrentar tudo que apresentei aqui, só
que era grau menor. Há outras sub culturas: os roqueiros, os
toxicômanos, as prostitutas, etc. Essas exigem uma abor
dagem específica. Depois vêm os descendentes das diver
sas colônias - a mentalidade alemã difere da italiana, e da
japonesa, e da libanesa e assim por diante - cada grupo re
quer uma abordagem específica. Além de tudo isso, todo
mundo deve estar por dentro desta estratégia pelo seguin
te. Os que não farão trabalho transcultural pessoalmente
precisam entender o que os outros enfrentam, para poder
orar inteligentemente, compreender, encorajar, incenti
var, sustentar, conscientizar, enfim. Todo mundo deve
participar ativamente, de alguma forma, no cumprir da
Grande Comissão.
176
Conclusão
Aí estão sete estratégias missionárias de Cristo. Po
dem existir outras, tranqüilamente, mas são estas que
Deus me impulsionou a comentar. O enfoque do livro é ni
tidamente transcultural, reconheço, mas não peço descul
pas por isso pois as ordens de Jesus e o coração de Deus
abrangem o mundo. Se tudo estivesse correndo às mil ma
ravilhas, se estivéssemos acertando o plano de Deus em
cheio, não haveria porque escrever um livro; bastaria con
tinuar continuando. Como nossa omissão maior diz respei
to aos confins da terra, às etnias perdidas do mundo, como
é esse aspecto das ordens de Jesus que mais temos despre
zado, foi exatamente esse lado que enfatizei. Contudo, será
que estas estratégias não têm implicações e aplicações di
retas para as nossas igrejas, para a vida cotidiana, para o
ministério e o evangelismo locais? Parece-me óbvio que
sim. Torno a dizer que estas verdades têm o potencial e a
capacidade de transformar as vidas, os lares, as igrejas, a
sociedade, quiçá o mundo!
Concluí a INTRODUÇÃO com este dizer: "se de for
ma geral, a partir de agora, o nosso povo evangélico acertar
177
e seguir a estratégia missionária de Cristo, poderemos ter
minar de alcançar o mundo dentro de 15 anos. Senão, veja
mos." O resto do livro prendeu-se à tentativa de "ver".
Agora a palavra está com o leitor. Consegui vindicar e vali
dar a tese? Que tal? O irmão acha que podemos "terminar
de alcançar o mundo dentro de 15 anos"? Se "não", por
que não? As ordens de Cristo não têm o impacto estratégi
co que apresentei? As estratégias não terão o alcance e o
efeito que afirmei? Onde está o problema - não está em
nós? Vamos rever a estratégia.
1) Rogar ao Senhor da seara por obreiros, sendo coe
rente. 2) Pregar o Evangelho a cada pessoa, pois não há
inocente. 3) Alcançar, simultaneamente, a nossa Jerusa
lém, a nossa Judéia e Samaria, e os confins da terra. 4) Fa
zer discípulos, não meramente convertidos. 5) Viver em
função do Reino de Deus, não para si. 6) Libertar as pes
soas do poder de Satanás. 7) Seguir o exemplo de Jesus.
Sinceramente, se de forma geral assumíssemos apenas
uma parte, qualquer parte dessa estratégia bastaria, nin
guém mais seguraria a Igreja. Mas se assumirmos duas,
três ou todas as partes (por que não todas?), aí seguramen
te poderíamos terminar de alcançar o mundo dentro de 15
anos. Aliás, por que não terminar até o ano 2.000?! Já pen
sou? Que lindo presente para o nosso Noivo! Vamos lá?
Vamos que vamos! Vale a pena, meus irmãos! Vale a pe
na!
Vale a pena deixar de lado o nosso egoísmo, a nossa
mesquinhez, o nosso bairrismo, o nosso etnocentrismo, as
nossas ambições meramente pessoais, o nosso denomina-
cionalismo, enfim a nossa pequenez espiritual - coisas to
das que Satanás aproveita para neutralizar nosso poten
cial. Vale a pena deixarmos essas coisas de lado e somar
mos as forças em torno do objetivo comum. Aprendamos
com os outros. O tempo está pouco; não podemos mais nos
dar ao "luxo" de aprendermos tudo por conta própria, re
petindo os mesmos erros que nossos antecessores comete
ram. Tenho lido subsídios importantíssimos oriundos da
obra na América Central; entre eles quero comentar a se
guinte análise da história missionária. Distinguem-se três
fases no relacionamento entre os missionários estrangeiros
178
e a liderança nacional que surgia como fruto do esforço
missionário, Na primeira fase predomina o paternalismo:
os missionários tendem a desprezar a opinião dos irmãos
naturais do lugar, impondo suas próprias idéias e a cultura
religiosa de seus países de origem. Na segunda fase vem a
reação nacionalista; a liderança nacional dá o troco, rejei
tando as idéias (e às vezes a participação) dos missionários
estrangeiros. Na terceira fase alcança-se um nível de ma
turidade espiritual e emocional que permite trabalharem
juntos num clima de respeito mútuo, cada um contribuin
do com o que melhor pode. É natural que vítima de ação
paternalista queira revidar, e talvez seja até necessário
diante dum paternalista intransigente, mas temos de
achar um jeito de alcançar a terceira fase sem demora. O
desafio que temos pela frente exige um esforço comum,
exige a melhor contribuição de cada qual.
Proponho o seguinte. Precisamos nos humilhar peran
te Deus e sua Palavra, tentando distinguir entre os verda
deiros valores do Reino e os valores da nossa cultura nacio
nal e religiosa. Amados irmãos, temos de chegar ao ponto
de dar prioridade aos valores do Reino de Deus - sempreque houver conflito entre algum valor do Reino e algum va
lor da nossa cultura (seja nacional ou religiosa), o valor do
Reino tem de prevalecer. Por favor, irmãos, elevar valo
res nossos acima dos valores de Deus também é idolatria!
Que Deus nos ajude a parar com isso! Agora vejam, se pro
cedermos dessa forma teremos um terreno comum onde
nenhuma cultura humana é tida como superior a outra e
com isso poderemos trabalhar juntos em harmonia. Que
tal? Será que não valerá a pena?
Há outras coisas que nos dividem; existem polariza
ções que possivelmente vão além daquilo que o Texto Sa
grado ensina. Quando impomos nossas idéias ao Texto e
adotamos posições radicais sobre essas idéias, abrimos um
bom espaço para a atuação de Satanás em nosso meio e fi
camos sem vontade de respeitar os outros e sem o desejo de
trabalharmos juntos. Vou citar várias polarizações, numa
ordem arbitrária: fundamentalismo contra liberalismo,
premilenismo contra amilenismo, salvação espiritual con
tra libertação social, calvinismo contra arminianismo,
179
pentecostalismo contra tradicionalismo, lei contra graça,
intelecto contra emoções ou sentidos, obras contra fé, hu
manismo contra cristocentrismo, o poder e a atuação de
Deus contra o poder e a atuação de Satanás. Os assuntos
não são de importância uniforme, e os pares de assuntos
não são de ambigüidade uniforme. Asseguro ao leitor que
tenho convicções claras e estudadas a respeito de todos es
ses assuntos. Não estou propondo um ecumenismo espú
rio; muito pelo contrário. Devemos fechar questão em tor
no das verdades fundamentais que definem a nossa fé. No
entanto, convenhamos que ninguém entre nós é infalível e
portanto ninguém entre nós é dono da verdade. Se pessoas
inteligentes e de boa fé discordam na sua interpretação do
Texto Sagrado é possível que exista alguma ambigüidade
nesse Texto e devemos estudar a questão com respeito,
cuidado e calma. Depois, se a questão não implica em sal
vação, i.e., se alguém pode estar enganado e ainda vai para
o Céu, então é uma questão de importância secundária e
em torno de tais questões podemos fazer uso de alguma
moderação e tolerância (reconheço que certas questões que
eu definiria como secundárias têm alcance prática e estra
tégico considerável). Novamente a solução é mantermos
uma postura de humildade perante Deus e sua Palavra.
Para encerrar, convido a atenção do leitor para um
detalhe interessante. É que cada versão da Grande Comis
são que encontramos nos quatro Evangelhos, e em Atos
também, traz uma declaração de poder. "É-me dado todo
o poder no céu e na terra" (Mt 28.18). "Estes sinais hão de
acompanhar os que crêem" (Mc 16.17). "Até que do alto
sejais revestidos de poder" (Lc 24.49). "Recebei o Espírito
Santo" (Jo 20.22). "Recebereis poder" (Atos 1.8). A mola
mestra é o poder que o Espírito Santo nos dá; sem esse po
der, nada feito. Então, meus irmãos, vamos nos submeter
conscientemente ao Espírito Santo para andarmos cheios
do seu poder, pois assim teremos condições de cumprir as
ordens de nosso Mestre, inclusive de terminar de alcançar
o mundo até o ano 2.000!
180
Apêndice
A segunda vinda de Cristo
Na INTRODUÇÃO prometi tratar da interligação en
tre missões transculturais e a volta de Cristo. Ao andar
pelo Brasil discorrendo sobre missões transculturais tenho
encontrado o seguinte: quando alguém levanta a questão
da volta de Cristo o faz em termos de Mateus 24.14. Pare
ce-me uma porta excelente para entrar no assunto. Vamos
lá. "Este evangelho do reino será proclamado em todo o
mundo para testemunho a todas as etnias, e então virá o
fim."
A pergunta que se faz com maior freqüência é se Cris
to pode voltar antes de alcançarmos a última etnia. O ad
vérbio "então" indica que alguma coisa tem de acontecer
primeiro, no caso a pregação do Evangelho a cada etnia.
Até aí parece-me que a linguagem é perfeitamente clara. A
interpretação do versículo depende do sentido que deve
mos dar à palavra "fim". "O fim" diz respeito a quê? Con
venhamos que este dia tem fim, esta semana tem fim, este
mês tem fim, este ano tem fim, esta década, e tc , mas são
"fins" distintos e acontecem em datas diferentes (sei que
se escolher o dia a dedo pode fazer vários desses fins coinci-
181
direm, mas normalmente não é assim). Pois bem, na esca-
tologia há vários "fins". 0 mundo tem fim; o Milênio tem
fim; a grande tribuiação tem fim; esta Era da Graça tem
fim. No meu entender da Palavra de Deus, são fins distin
tos e diferentes que não coincidem. Qual desses fins Jesus
tinha em mente quando proferiu Mateus 24.14?
Se for o fim do mundo ou o fim do Milênio a questão
não influi na volta de Cristo, pois Ele já terá vindo. E não
representará problema maior para nós porque durante o
Milênio o próprio Deus vai garantir que todos ouçam.
"Não ensinará a cada um ao seu próximo, nem cada um ao
seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos
me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o
SENHOR" (Jr 31.34). "Não se fará mal nem dano algum
em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do
conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar" (Is
11.9). Se existe alguma parte do mar sem água, então po
derá ficar alguém sem conhecer o Senhor. (Ver também Ap
21.24).
Mas se o "fim" previsto por Jesus for o fim da Grande
Tribulação, como fica? A volta de Cristo se prende a nossa
ação missionária? Creio que não. Vejamos Apocalipse 14.6.
"Vi um anjo voando pelo meio do céu, portador do evange
lho eterno para evangelizar aos que habitam sobre a terra,
a saber a cada etnia, e tribo, e língua e povo." Como o mi
nistério deste anjo se processa durante a Grande Tribula
ção, antes do fim dela cada povo terá sido "evangelizado",
os falantes de cada língua saberão a verdade acerca de
Deus e seu Reino. Então Cristo poderá voltar tranqüila
mente, na hipótese.
Unicamente se o "fim" previsto por Jesus disser res
peito ao fim desta era da Graça, ou da Igreja, e se a posição
pré-tribulacionista for a correta, temos problema - unica
mente nessa hipótese a Segunda Vinda de Cristo depende
da nossa ação missionária. Se o arrebatamento da Igreja
antecede a Grande Tribulação e se a última etnia tem de
ouvir o Evangelho para que o arrebatamento aconteça, aí
estamos numa "fria"! Sendo que ainda têm umas 3.000 et
nias por ouvir o Evangelho, está na hora de todo mundo ar
regaçar as mangas e fazer por onde alcançar essas etnias!
182
Muitos missionários transculturais ora atuando ao redor
do mundo têm exatamente esta visão das coisas e é por isso
que são missionários - estão empenhando suas vidas no es
forço de ver a última etnia alcançada para que Jesus possa
voltar! Eu queria que todo mundo pensasse assim, contan
to que reagisse também assim, empenhando a vida para
ver a Grande Comissão de Cristo cumprida. Que me dera!
Existe uma interpretação de Atos 1.8 que deve ser
mencionada aqui. Geralmente entendemos esta palavra do
Senhor Jesus como sendo uma declaração com o efeito prá
tico duma ordem. No entanto, existem irmãos que enten
dem que esta declaração tem efeito profético. É que a pala
vra grega traduzida "confins" é singular; uma tradução ao
pé da letra seria mais ou menos assim: "até ao último lu
gar da terra". A essência da proposta é que esta palavra foi
dirigida aos discípulos, e se tem efeito profético então são
os discípulos que têm de alcançar esse "último lugar". Se
essa interpretação for a correta então é a Igreja que tem
que terminar de alcançar o mundo - não podemos apelar
para o anjo de Apocalipse 14.6.
Sucede, no entanto, que eu mesmo não entendo o Tex
to exatamente dessas maneiras. Sou pré-tribulacionista -
quero dizer que entendo que a interpretação que melhor
satisfaz a todas as passagens relevantes (escolher só uma
ou duas a dedo não vale) é a que vê o arrebatamento da
Igreja antecedendo à Grande Tribulação. Porém, existe
ambigüidade no Texto; existe sim, razão porque ninguém
deve querer fechar estaquestão, e muito menos excomun
gar quem porventura discordar. Voltando a Mateus 24.14,
entendo que "o fim" previsto por Jesus é o fim da Grande
Tribulação pois imediatamente, no versículo seguinte, Je
sus fala da "abominação da desolação" que acontecerá du
rante esse período. Assim sendo, aquele anjo de Apocalipse
14.6 vai resolver nossa situação. O que a Igreja porventura
deixar inacabado, esse bendito anjo vai completar. Ah!
bendito anjo! (quando chegar no Céu quero cumprimentá-
lo). Mas espera aí um momento! Que ninguém queira cru
zar os braços e dizer: "Bem, já que aquele anjo vai garantir
a situação podemos ficar despreocupados e cuidar da vida;
183
esses povos não alcançados ja esperaram aurante tanto
tempo, podem continuar esperando; o problema é deles".
Imaginemos que chegue a vez dum irmão que cruzou
os braços; ele está em pé perante o Tribunal. Aí Jesus per
gunta o que ele fez de efetivo visando cumprir as ordens
que Ele deixou. Aí o irmão omisso começa a balbuciar:
"Bom, quer dizer, sabe Senhor, aquele anjo, lá em Apoca
lipse não fala dum anjo?..." Será que alguém é capaz de
imaginar que Jesus possa aceitar uma estupidez tamanha?
Que ninguém se iluda! Jesus vai cobrar as ordens! Since
ramente, duvido que Ele vá exigir que tenhamos acertado
cada detalhe do cronograma escatológico. Para quê? Se eu
estou vivendo efetivamente como discípulo, como escravo
de Cristo, se estou fazendo tudo para agradá-lo, se estou
envidando todas as forças em prol de seu reino, que dife
rença faz se estou enganado a respeito do arrebatamento?
Agora, se minha visão das coisas me leva a relaxar, a ser
omisso, aí é diferente. Infelizmente, muitos que defendem
a posição pré-tribulacionista em vez de gastar tudo para
"trazer o Rei de volta" ficam de braços cruzados esperando
o arrebatamento; se os jornais noticiam uma desgraça
maior e pior ficam satisfeitos porque com isso o arrebata
mento deve estar mais perto. E uma aberração que não de
corre da doutrina em si. Por estranho que possa parecer,
muitos que criticam esses pré-tribulacionistas também
pouco ou nada fazem para cumprir a Grande Comissão.
Como pode?
Irmãos, vamos correr atrás do prejuízo. Vamos dar de
tudo para alcançar a última etnia. Se Cristo voltar antes
de terminarmos, amém! Se terminarmos e com isso Ele
vier, aleluia! Se terminarmos e Ele ainda não tiver vindo,
pelo menos teremos a esperança de ouvir o "Muito bem,
servo bom e fiel!" (Mt 25.21). Espero que ninguém queira
ouvir o "Mau e negligente servo!" (Mt 25.26). Misericór
dia ! Quero terminar por insistir novamente na necessidade
imperiosa de levarmos a sério as ordens de Cristo! Pode
ter certeza absoluta, meu irmão entre todas as coisas que
serão cobradas perante o Tribunal de Cristo nada terá
mais peso do que as ordens. Seja qual for sua posição es
catológica, vamos cuidar de obedecer as ordens. Vamos lá
irmãos? Vamos que vamos!
184