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Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 
 
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G- A dêixis na semântica da enunciação 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 
 
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Identifique o referente de ‘você’ e ‘aqui’ (1a. coluna, 1ª. linha), de ‘hoje’ e ‘meu’ (2a. coluna, 1ª. linha), de ‘amanhã’ (3a. 
coluna, 1ª. linha), de ‘nós’, ‘aqui’ e ‘vós’ (4a. coluna, 1ª. linha), do sujeito nulo e do evento de ficar cansado (2a. coluna, 
2ª. linha), do sujeito nulo e do pronome ‘sua’(2a. coluna, 2ª. linha), do sujeito de ‘acredite’, do evento de acreditar e de 
‘você’ (3a. coluna, 3ª. linha), e do sujeito nulo da forma verbal ‘respeite’ (4a. coluna, 2ª. linha). Esses referentes não são 
fixos, mas variam conforme a situacão de uso dessa expressão linguística. Como descobrimos a que uma expressão 
dêitica se refere? Precisamos conhecer o contexto de enunciação. Por exemplo, para saber que dia é ‘amanhã’, temos 
de saber em que dia essa palavra foi usada; para sabermos quem é você, temos de ver a quem se dirige o falante que 
proferiu o pronome de segunda pessoa. 
 
Dêixis - faculdade que tem a linguagem de designar mostrando, em vez de conceituar. A designação dêitica, ou 
mostrativa, figura assim ao lado da designação simbólica ou conceptual em qualquer sistema linguístico. (...). O pronome 
é justamente o vocabulário que se refere aos seres por dêixis em vez de o fazer por simbolização como os nomes. Essa 
dêixis se baseia no esquema linguístico das três pessoas gramaticais que norteia o discurso: a que fala, a que ouve e 
todos os mais situados fora do eixo falante-ouvinte. (CÂMARA JUNIOR, 2002:90) 
Benveniste estudou os pronomes detalhadamente: Estrutura das relações de pessoa no verbo (1946), A natureza dos 
pronomes (1956), Da subjetividade na linguagem (1958) e A linguagem e a experiência humana (1965) entre outros. 
Para a semântica da enunciação, a ideia de uma realidade extralinguistica ou prelinguística, ou seja, fora da lingua, é 
uma ilusão criada pela dêixis. A referência dêitica é entendida como sui-referencial, ou seja, como fazendo referencia 
aos próprios participantes da enunciação. O contexto dêitico não é exterior (ontológico), mas subjetivo. A dêixis comporta 
as categorias de pessoa, espaço e tempo. 
Para Barthes (1988: 182): “(...) Benveniste (...) funda uma linguística nova (...), da interlocução; a linguagem, e, portanto, 
o mundo inteiro, articula-se sobre essa forma eu-tu.” 
 
Exemplo 
 
 Um novo gerente, determinado a fazer subir a produtividade, queria punir os vagabundos e 
recompensar os muito aplicados. Em certo departamento, todos estavam ocupados, menos um jovem, que não 
fazia nada de útil, só olhava o celular, encostado à parede, junto à porta. Pensando em fazer dele um caso 
exemplar, o gerente o chamou e propôs: – 
 – Eu te dou agora R$1.000,00 e você vai para casa, o.k.? 
 – Só se for agora! - respondeu o rapaz. 
 O gerente tirou o dinheiro da carteira e deu ao jovem, dizendo bem alto, para que todos os demais 
ouvissem: 
 – É isso o que ganha quem não faz nada aqui! 
 O rapaz pegou o dinheiro e saiu rapidinho, bem contente. 
 O gerente ficou bem satisfeito, pensando que agora todos os acomodados teriam medo de demissão e 
não encostariam mais o corpo. Por curiosidade, perguntou a um funcionário, que estava mais próximo: 
 – Ei, você! Pode me dizer o que aquele jovem fazia aqui na empresa? 
 – Ele veio entregar uma pizza, respondeu o funcionário. 
 
Identifique, nos momentos de discurso direto sublinhados, as marcas linguísticas que permitem completar a tabela 
fornecida. 
 
Questões Marcas Linguísticas Identificação Referencial 
Quem fala? Eu (implícito no diálogo) Designa o Gerente. 
Com quem fala? Teu (Tu) 
 Você 
Designa o entregador de pizzas. 
Designa o trabalhador mais próximo dele. 
Onde fala? Aqui, daqui Designa a sala da empresa em que o gerente estava (espaço na 
vizinhança do locutor). 
Quando fala? Agora Designa o momento em que a frase é produzida, pelo locutor (o 
gerente). 
 
 
Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 
 
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G.1- Eu, aqui e agora 
 
(...) como se coloca a língua em funcionamento? Alguém assume a palavra e dirige-se a outra pessoa e, ao fazer isso, 
instaura-se como um eu e erige a pessoa a quem se endereça como “tu” (que, na maior parte do Brasil, é realizado como 
“você”). Esse ato de dizer realiza-se num tempo (agora) e num espaço (aqui). Por isso, a enunciação é a instância, 
denominada por Benveniste, do ego, hic et nunc, ou seja, do eu, do aqui e do agora. A partir dessa instância do falante, 
do seu espaço e do seu tempo, criam-se todas as distinções de pessoa, espaço e tempo na língua. O linguista francês 
nomeia as categorias da enunciação com palavras latinas, para indicar que elas existem em todas as línguas, em todas 
as linguagens (por exemplo, as visuais). 
Benveniste vai chamar aparelho formal da enunciação as categorias de pessoa, de espaço e de tempo, que são centrais 
no exercício da língua. Os elementos dessas categorias foram denominados embreadores, termo tirado da mecânica. 
Embreagem é um mecanismo que permite unir um motor em rotação ao sistema de rodas que não estão girando. 
Palavras como “eu”, “tu”, “aqui”, “aí”, “ali”, “agora”, “então” são chamados embreadores, embreantes ou dêiticos, porque 
só ganham referência quando se conecta a língua à situação de comunicação. Se lermos, num quadro de recados, o 
seguinte texto: “Estive procurando-o hoje. Esteja lá amanhã sem falta”, não saberemos quem é que esteve procurando, 
quem ele esteve buscando, quando esteve fazendo isso, quando e onde a pessoa procurada deve estar sem falta. Isso, 
porque alguém deve ter apagado os elementos da situação de comunicação que permitiriam ancorar os dêiticos: nome 
do destinatário do recado, local e data em que a mensagem foi escrita, nome do destinador. Esses dados são 
obrigatórios, por exemplo, numa carta, exatamente para que possamos saber os referentes dos dêiticos que aparecem 
no texto. 
Benveniste (1995) mostra que a enunciação é a instância do “ego, hic et nunc”. O “eu” é instaurado no ato de dizer: “eu” 
é quem diz “eu”. A pessoa a quem o “eu” se dirige é estabelecida como “tu”. O “eu” e o “tu” são os participantes da ação 
enunciativa. “Ele” é a não-pessoa, aquele ausente sobre quem se fala. “Aqui” é o espaço do “eu”, a partir do qual todos 
os espaços são ordenados “aí”, “lá” etc.; “agora” é o momento em que o “eu” toma a palavra e, a partir dele, toda a 
temporalidade linguística é organizada. A enunciação deixa marcas no enunciado e, com elas, pode-se reconstruir o ato 
enunciativo. O enunciado é o produto da enunciação, despido das marcas enunciativas. A enunciação é a instância 
linguística logicamente pressuposta pela existência do enunciado. Se existe um dito, obviamente há um dizer que o 
produziu. 
O mecanismo básico com que se instauram no texto pessoas, tempos e espaços é a debreagem. Ela pode ser de dois 
tipos: a enunciativa e a enunciva. A primeira projeta no enunciado o “eu-aqui-agora” da enunciação, ou seja, instala no 
interior do enunciado os actantes enunciativos “eu/tu”, os espaços enunciativos “aqui, aí etc.” e os tempos enunciativos 
(presente, pretérito perfeito 1, futuro do presente2). A debreagem enunciva constrói-se com o “ele, o alhures e o então”, 
o que significa que, nesse caso, ocultam-se os actantes, os espaços e os tempos da enunciação. A debreagem 
enunciativa produz, basicamente, um efeito de sentido de subjetividade, enquanto a enunciva gera, fundamentalmente, 
um efeito de sentido de objetividade. Como se vê, A debreagem enunciativa produz, basicamente, um efeito de sentido 
de subjetividade, enquanto a enunciva gera, fundamentalmente, um efeito de sentido de objetividade. (Trecho do artigo 
“Maravilhas da enunciação”, de José Fiorin – http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12024). 
 
H- A categoria de tempo 
 
É preciso distinguirbem entre três noções de tempo: 
Tempo físico: intervalo entre o princípio e o fim de um movimento 
Tempo cronológico: sucessão de acontecimentos desde um marco 
Tempo linguístico: estabelecido em função do momento da enunciação 
 
Só nos interessa o tempo linguístico. Quando alguém está falando sobre um acontecimento, todos nós compreendemos 
quando ele ocorreu. Como isso funciona? Como localizamos no tempo os eventos/acontecimentos sobre os quais 
conversamos? Tempo é a categoria linguística que localiza os acontecimentos na fala. O ponto de partida é o momento 
em que se fala. A enunciação estabelece um eu-tu, um aqui e um agora. Os acontecimentos são localizados a partir 
desse agora: ou o fato é simultâneo à conversa /concomitante ou não é. Se o fato não é concomitante à conversa, é 
preciso sinalizar sua anterioridade ou posteridade. Temos assim três tempos linguísticos gerais: PRESENTE (evento 
concomitante à conversa), PASSADO (evento não concomitante à conversa, anterior a ele – primeiro acontece algo, 
depois falamos sobre aquilo que ainda vai acontecer). 
http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12024
 
 
Professora Ana Paula Quadros Gomes _ 2020-1 _ anpola@gmail.com 
 
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Na tirinha, no primeiro quadrinho, a multidão fala de uma pegada / um evento de pegar que não é concomitante com o 
momento da fala, que não ocorreu ainda. O evento ocorre depois. No segundo quadrinho, vemos o autor da façanha 
informando em sua fala justamente isso: que a pegada ocorreu num momento anterior a ele contar isso aos outros (a 
pegada é posterior à fala do quadrinho um, mas anterior à do quadrinho dois). O mesmo acontecimento é FUTURO no 
primeiro quadrinho, e PASSADO no segundo quadrinho. 
No primeiro verso do poema “motivo”, de Cecília Meireles, temos um acontecimento, um cantar, que acontece enquanto 
o poema se desenvolve: o eu lírico fala do motivo de seu canto no próprio canto. A fala é simultânea com o ato de cantar. 
O tempo linguístico é o PRESENTE. 
 
Eu canto porque o instante existe 
e a minha vida está completa. 
Não sou alegre nem sou triste: 
sou poeta. 
 
Temos de tomar cuidado para não confundir as formas da língua (e aqueles nomes do nosso sistema de conjugação 
verbal) com o tempo linguístico. Na teoria de Benveniste, há 9 tempos linguísticos possíveis, em qualquer língua natural. 
A mesma forma linguística (um verbo conjugado de certo jeito) pode ser interpretada como tempos diferentes. Para 
chegar a essas possibilidades lógicas, combina-se um momento de referência a um momento do evento e ao momento 
da fala. O Momento de Referência é um marco temporal da concomitância (presente), da anterioridade (passado) ou da 
posteridade (futuro), geralmente realizado na forma de um adjunto adverbial de tempo, como, por exemplo, ‘agora’ em 
‘O ônibus está saindo agora’. Nesse caso, o momento do evento (a saída do ônibus) o momento da fala (um agora 
instaurado pela conversação) e o momento de referência dado pelo adjunto adverbial ‘agora’ são concomitantes. Temos 
então o esquema: MR = MF = ME. O momento de referência pode não vir explícito, mas implícito no texto, como na 
sentença ‘O ônibus está saindo’; aí não vemos a palavra ‘agora’, mas podemos entender as duas sentenças da mesma 
maneira, quanto à localização temporal do evento de saída, o que indica a utilidade de considerar que é como se aí 
estivesse um MR implícito simultâneo ao ME. 
 
Relação entre o MF e o MR: 
MR = MF (concomitantes) resulta em MR presente (ex.: ‘agora’) 
MR < MF (anterioridade) resulta em MR passado (ex.: ‘ontem’) 
MR  MF (posterioridade) resulta em MR futuro (ex.: ‘amanhã’) 
 
Tempos formados com MR presente (ex.: ‘agora’) 
MA = MR presente (concomitantes) resulta em PRESENTE DO PRESENTE (ex.: ‘Estou no Rio agora’) 
MA < MR presente (anterioridade) resulta em PASSADO DO PRESENTE (ex.: ‘Agora já gastei o dinheiro’) 
MA  MR presente (posterioridade) resulta em FUTURO DO PRESENTE (ex.: ‘Eu vou dormir’) 
 
Acima, vemos que a estada no Rio ocorre ao mesmo tempo em que se fala nela, que o gasto do dinheiro ocorreu antes 
de se falar sobre ele e que a dormida será depois de ela ser mencionada. 
 
Tempos formados com MR passado (ex.: ‘ontem’) 
MA = MR passado (concomitantes) resulta em PRESENTE DO PASSADO (ex.: ‘Fui à praia ontem’) 
MA < MR passado (anterioridade) resulta em PASSADO DO PASSADO (ex.: ‘Em 1985, ao completar 15 anos, ele já 
tinha escrito 32 poemas’)

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