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+
História 
Quando a Espanha 
quis invadir Portugal
Ciência 
Vida e obra de 
Stephen Jay Gould
Entrevista 
Louis Menand, 
arte e poder
Por Sebastião Bugalho
A vitória 
amarga de
 Montenegro
A Revista do Expresso
EDIÇÃO 2681
15/MARÇO/2024
E 3
E O ÓSCAR VAI PARA... ANDRÉ VENTURA
O PSD TEVE O AZAR DE GANHAR AS ELEIÇÕES. O PS TEVE A SORTE DE PERDER AS ELEIÇÕES
o discurso de 
agradecimento pela 
vitória, Ventura 
poderia dizer que 
agradece o triunfo 
ao povo português. 
O mesmo povo que, 
50 anos depois do 
25 de Abril, celebra 
a ideia de que a 
democracia falhou. 
E passou ao lado 
da sua vida. Um milhão de fascistas? O Chega nem é 
um partido fascista, embora tenha uns exemplares. 
O Chega é um partido populista, autoritário na 
génese e no conteúdo, com uma ideologia orgânica e 
embrionária, em processo formativo, por afirmação 
negativa e combate das ideologias dominantes, estando 
alinhado com o resto dos partidos populistas europeus. 
Pode dizer-se que, comparado com os ultramontanos 
do partido Republicano nos Estados Unidos, o Chega é 
um partido civilizado.
Pode. Mas não deve. Porque o Chega vai continuar 
a crescer, e como vai crescer e para onde é uma 
incógnita. Crescerá tanto quanto o deixarem e vão 
deixá-lo crescer muito. Estamos a ver um adolescente 
anormalmente alto e forte que não sabemos como 
será em adulto. É isto o Chega, um rapaz que começa 
a transformar-se num homem. Será um desordeiro e 
um bully, sempre à tareia, ou tornar-se-á um adulto 
responsável que defende um modelo de sociedade 
diferente e é capaz de o concretizar por eliminação 
impiedosa dos adversários? A idade adulta do Chega 
só será evidente quando acontecer o que acontece 
em França, quando aparecer um partido ainda mais 
radical à direita do que o Chega. Quando o Chega 
tiver dissidências com características assustadoras, 
totalitárias e exterminadoras como as do século XX.
Agora, são as dores do crescimento, mas o crescimento 
é uma força da natureza. Os outros partidos não o 
podem deixar sem alimento ou a morrer de fome. Quer 
isto dizer, não o podem ilegalizar. Também não lhe 
devem dar vitaminas, o que decerto acontecerá pelo 
mútuo desentendimento entre PS e PSD.
O povo, não todo, mas uma parte substantiva, votou e 
votará no Chega, e reparem neste tempo futuro porque 
ele é uma possibilidade a contar. PS e PSD juntos têm 
mais de metade do país, têm quase 60 por cento. Assim 
calculados, os 18 por cento do Chega não parecem 
muito, são claramente inferiores a 60 por cento. Com 
mais ou menos números dos pequenos partidos, o que 
percebemos é que o Chega precisa de um parceiro, não 
vai lá sozinho. Por enquanto.
Pode escolher entre dois modelos de existência 
democrática. Um seria o combate puro e simples, 
o insulto diário, a humilhação dos partidos 
liberais, a perpétua vituperação da “esquerda”, o 
aproveitamento da insatisfação com dois partidos 
que não conseguiriam governar um sem o outro em 
miúdos concertamentos de mútua vantagem. Mesmo 
assim, o Chega cresceria, mas demoraria. E Ventura é 
impaciente e, iluminado pelo seu génio político nestes 
meses, no qual acredita, perder tempo e esperar não é a 
sua missão. O segundo modelo é mais complexo e traria 
mais poder imediato e menor autonomia. Consiste em 
derrotas da chamada ingovernabilidade, a incapacidade 
de aprovar e executar um programa e um orçamento. 
O PSD continua a prometer o que não pode dar, uns 
amanhãs que cantam, e a não dizer a verdade. A tarefa 
é ciclópica. O PSD teve o azar de ganhar as eleições, não 
com margem suficiente.
O que conhecemos de Ventura é exasperação e 
impaciência. E eficácia, agora com um milhão de pessoas 
atrás dele. Entretanto, por essa Europa fora, a direita vai 
ganhando terreno. Ventura ainda nem sequer se meteu 
na política internacional e lá chegará o dia de alinhar 
com a família europeia.
Bruxelas tinha um único trabalho, deixar a Europa de 
fora de uma guerra fratricida e fazer valer a diplomacia. 
Em vez disso, atirou a Ucrânia para uma guerra que 
nunca ganharia, em nome de uma NATO disfuncional 
e de promessas de armas e dinheiro sem fim. E quer 
rearmar a Alemanha para entrar em guerra com a Rússia. 
Um plano que agrada aos militares neutralizados, ao 
lobby da indústria das armas e aos pupilos do Pentágono.
Quando os políticos começarem a dizer que o futuro 
que reservam aos jovens europeus é o serviço militar 
e a guerra perpétua, veremos o que estes respondem 
num planeta devastado. A Europa não é Israel, não 
está preparada para a militarização da juventude e da 
sociedade produtiva. A guerra perpétua contra a maior 
potência nuclear, não faz sentido. Jovens de extrema-
esquerda e extrema-direita, e retirem o extrema da 
equação, teriam um terreno comum, a oposição ao 
militarismo compulsivo e à destruição do continente. As 
ruas estariam cheias.
A propaganda liberal numa América onde Trump ganhe 
move-se no teatro do absurdo. E mesmo que Trump não 
ganhe, o problema não desaparece. Biden pode ter o azar 
de ganhar as eleições e assistiremos à agonia violenta 
da democracia americana. O problema não desaparece 
com a vitória de um homem no fim da vida ou a derrota 
de um Trump enjaulado ou arruinado. Pelo contrário, o 
problema torna-se medonha ameaça. Ganhar as eleições 
começou a ser má sorte.
O carro da democracia liberal precisa de revisão. Os 
liberais, lá como cá, acham que têm sempre razão. 
Nenhuma humildade preside às derrotas gerais.
E assim, circulando entre ruínas, incluindo as do 
jornalismo convencional, os descontentes crescem. Sem 
precisarem de governar, são invencíveis. Se governarem, 
serão irreconhecíveis. b
N
minar o PSD e o seu chefe até o tornar refém do seu 
poder, apeando-o e substituindo-o, ou convencendo-o 
a governar com o seu apoio, impondo as drásticas 
condições e isolando a esquerda de vez.
O PSD teve o azar de ganhar as eleições. O PS teve 
a sorte de perder as eleições. Um ganhou por pouco 
e outro perdeu por pouco. Estranhamente, e por 
hábito, os respetivos prosélitos passaram uma parte 
da noite a acusar o outro de ter perdido, enquanto 
o elefante na sala ia partindo a loiça toda. Fizeram 
dois bons discursos de vitória e de derrota, vazios de 
conteúdo prático. O PS insiste que vai ser oposição, 
mas se um governo da AD for ao chão, o Chega 
ganhará mais votos. Se olhar bem para os resultados, 
o partido perceberá que o PS perdeu mais do que 
votos e eleitores, perdeu o país depois de uma maioria 
absoluta. O discurso da superioridade moral da 
esquerda, em que o PS continuará a insistir, não 
lhe trará votos no futuro. Teria sido um ato político 
de qualidade reconhecer isto, dizer a verdade para 
variar, mas o PS tem dificuldade em perder. Não está 
habituado.
Procurará ainda um bode expiatório para a derrota, e 
se o achar no Presidente, cometerá mais erros. Pedro 
Nuno Santos, que é inteligente e tático embora os 
adversários o queiram fazer passar por leviano, e sendo 
jovem e estando a crescer e aprender dentro do próprio 
partido, tal como Ventura, não cometerá o erro de 
acusar o maior aliado histórico que o PS teve até hoje.
Imaginem que o famoso parágrafo não existia. António 
Costa não se demitia. Qual seria, depois de escândalos, 
indecisões e trapalhadas como aquelas a que assistimos 
durante o reinado terminal da maioria absoluta e de 
uma arrogância ainda mais terminal, a atitude do 
primeiro-ministro perante a descoberta dos 78.500 
euros no gabinete ao lado do seu? Dizia que não sabia e 
ficava tudo na mesma? Terminava o mandato em paz e 
sossego? Não. A progressiva deliquescência e paralisia 
do Governo arrastariam uma votação no Chega 
superior à que teve nestas eleições, e provavelmente 
arrastaria o regresso de Pedro Passos Coelho e o 
afastamento de Montenegro.
O Presidente comentou em demasia, mas a derrota do 
PS, que serve a sobrevivência do PS, não é culpa dele. 
Essa mania católica da culpa não serve. O chefe do 
PS fará bem em demarcar-se dos fracassos anteriores 
e trilhar outro caminho. O PS seráoposição, claro, 
mas terá de medir como e quando será oposição, 
porque o país não lhe pertence inteiro. Nada será como 
dantes, segundo o lugar-comum. Um partido pode 
ser oposição durante anos e nada ganhar, definhando. 
O PS não está habituado a travessias do deserto, está 
habituado a autoestradas.
Para o PS seria mais fácil ter Passos Coelho do outro 
lado, porque a atitude conciliadora de Montenegro, 
visível no discurso, lhe trará problemas. Guina mais 
à esquerda e perde votos. Tudo depende do modo 
como Montenegro e os seus copilotos conduzirem o 
carro. Se se mantiverem na estrada, passe a imagem, 
o PS será acusado de provocar o acidente, acolitado 
por uma extrema-esquerda sem expressão. Se 
saírem da estrada, mais facilmente acusarão 
o PS ou o Chega. E o Chega tudo fará para 
minar Montenegro. Tudo. Se o PS ajudar, 
Montenegro sairá de cena depois de 
/ CLARA 
FERREIRA 
ALVES
P L U M A C A P R I C H O S A
NotíciasFlix
LISBOA - Av. da Liberdade 204
www.vancleefarpels.com - +351 210732290
A primavera está a florescer
E 6
fisga +E Culturas Vícios
CRÓNICAS
FICHA 
TÉCNICA
Diretor 
João Vieira Pereira 
Diretor-Adjunto 
Miguel Cadete
mcadete@impresa.pt
Diretor de Arte 
Marco Grieco
Editor 
Ricardo Marques
rmarques@expresso.impresa.pt
Editor de Fotografia 
João Carlos Santos
Coordenadores 
Lia Pereira
lipereira@blitz.impresa.pt 
Luís Guerra
lguerra@blitz.impresa.pt
Coordenadores Gerais de Arte
Jaime Figueiredo (Infografia) 
Mário Henriques (Desenho)
9 | Florestas 
As áreas florestadas estão 
a encolher tanto em 
Portugal como no resto do 
mundo. Assim como a água
12 | O Que Eu Andei 
Para Aqui Chegar 
Um currículo visual 
de Da’Vine Joy Randolph
14 | Planetário 
Uma princesa no circo 
Por João Pacheco
18 | Ideias 
A ameaça da política 
messiânica 
Por Ian Buruma
20 | Luís Montenegro 
O custo de ganhar 
uma eleição
34 | Stephen Jay Gould 
O percurso inesperado de 
um historiador e estudioso 
da evolução humana
40 | Louis Menand 
Entrevista ao 
crítico e historiador 
norte-americano, vencedor 
de um Pulitzer e colaborador 
regular da “New Yorker”
49 | “Metade-Metade” 
A parceria entre 
a fadista Aldina Duarte 
e a rapper Capicua
52 | Yoko Ono A exposição 
na Tate Modern, em Londres, 
convida a compreendê-la
54 | Livros “A Fraude”: 
primeiro romance histórico 
de Zadie Smith
58 | Cinema Dois filmes 
mostram o Brasil em carne 
viva
60 | Televisão “A Donzela”, 
uma aventura medieval 
para Millie Bobby Brown
62 | Música Sérgio Godinho 
celebra os 50 anos da 
Revolução de Abril
66 | Teatro & Dança Edward 
Albee no palco do Trindade
68 | Exposições 
A pintura de Cruz-Filipe 
na Gulbenkian
71 | Livrarias 
Muitas delas são 
mais do que espaços 
para vender livros
74 | Receita 
Por João Rodrigues
75 | Restaurantes 
Por Fortunato da Câmara
76 | Vinhos 
Por João Paulo Martins
77 | Recomendações 
De “Boa Cama Boa Mesa”
78 | Design 
Por Guta Moura Guedes
79 | Tecnologia 
Por Hugo Séneca
81 | Passatempos 
Por Marcos Cruz
3 Pluma Caprichosa por Clara Ferreira Alves | 16 O Mito Lógico por Luís Pedro Nunes
48 Os Cadernos e os Dias por Gonçalo M. Tavares | 70 Fraco Consolo por Pedro Mexia 
80 Diário de Um Psiquiatra por José Gameiro | 82 Estranho Ofício por Ricardo Araújo Pereira
26
Invasão 
O ‘perigo castelhano’ 
foi sempre uma 
constante e Franco 
também fez planos 
para invadir Portugal. 
Mas a derrota da 
Alemanha nazi trouxe-o 
de volta à realidade
E D I Ç ÃO 26 81 | 1 5 / M A R Ç O / 2024
FOTOGRAFIA DA CAPA: JOSÉ FERNANDES
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S U M Á R I O
E 9
Há milénios que os humanos andam a 
cortar árvores. Se inicialmente o faziam 
para se aquecerem e construírem 
alojamentos, nos últimos 200 anos o principal 
condutor da desflorestação tem sido a expansão 
urbana e agrícola. E com a população humana a 
caminho dos 10 mil milhões, o verde que cobre 
a Terra vai encolhendo. No início do século XX, 
essa mancha estendia-se por 48% das regiões 
num planeta então habitado por 1,65 mil milhões 
de pessoas. Chegados a 2018, quando já por cá 
viviam 7,6 mil milhões, a mancha encolheu para 
38% — menos cerca de mil milhões de hectares 
arborizados, de acordo com dados da plataforma 
Our World in Data. E a razão de tal desflorestação 
está sobretudo ligada ao que produzimos e 
comemos, sem olhar aos outros serviços que as 
árvores nos dão.
AS ÁREAS FLORESTADAS MUNDIAIS CONTINUAM A 
ENCOLHER E EM PORTUGAL TAMBÉM. NUMA ALTURA EM QUE 
O PAÍS ESTÁ PINTADO DE LARANJA, ROSA E PRETO, O VERDE 
QUE NOS DÁ SOMBRA, AR E ÁGUA CONTINUA A ESVAIR-SE
TEXTO CARLA TOMÁS INFOGRAFIA CARLOS ESTEVES 
ILUSTRAÇÃO CRISTIANO SALGADO
A árvore 
dá vida
fisga
“Q U E M S A B E T U D O É P O R Q U E A N DA M U I TO M A L I N F O R M A D O”
E 10
No início do século XXI, as árvores já só 
cobriam um terço da área terrestre habitável, 
tendo desaparecido globalmente 150 milhões 
de hectares de floresta só na década de 1980 
(o equivalente a metade da Índia), segundo o 
observatório Global Forest Watch. O planeta 
continua a perder grandes fatias de floresta, 
sobretudo nos trópicos, para dar lugar a 
culturas de soja, óleo de palma, cacau, pasto 
para gado ou operações mineiras, que servem 
para satisfazer a procura dos países mais ricos. 
Assim desapareceram seis milhões de hectares 
por ano de floresta nas duas primeiras décadas 
deste século na América Latina e no Sudeste 
Asiático. Só em 2022 esvaiu-se uma área de 
floresta tropical do tamanho da Suíça (4,1 
milhões ha), o que levou à libertação de 2,7 mil 
milhões de toneladas de carbono. Nesse ano, 
o Brasil liderou a desflorestação mundial (ver 
gráfico). “O que acontece na floresta não fica na 
floresta”, lembrou então a perita do GFW Frances 
Seymour, alertando para as consequências em 
cascata com o aumento das temperaturas, ondas 
de calor e secas, ameaçando a atividade agrícola 
e a saúde humana.
Para tentar travar o problema e reverter a 
desflorestação até 2030, 145 países assinaram 
um compromisso na conferência do Clima de 
Glasgow, em 2021. Porém, com pouco sucesso 
até agora. Em 2022, a desflorestação aumentou 
globalmente 10% face ao ano anterior. Com Lula 
da Silva no poder, o Brasil aderiu ao compromisso 
e conseguiu diminuir a desmatação na Amazónia 
em 62% em 2023 face a 2022, mas no Cerrado 
aumentou 43%. Só o Canadá viu as chamas 
devastarem 9,5 milhões de hectares — uma área 
equivalente a Portugal inteiro — em 2023, o que é 
também preocupante porque as florestas boreais 
da América do Norte ou da Europa armazenam 
30 a 40% do carbono terrestre. Cerca de 35% 
da área territorial europeia (227 milhões de 
hectares) é ocupada por floresta e esta aumentou 
9% em 30 anos, segundo o Relatório sobre o 
Estado da Floresta na Europa 2020. Porém, em 
Portugal, na Bósnia, na Albânia e na Suécia a 
tendência foi de decréscimo.
PORTUGAL PERDE
Dados do Global Forest Watch, publicados em 
2019, indicavam que Portugal perdeu 24,6% 
da floresta entre 2001 e 2014, colocando-o no 
topo dos países com maior perda de coberto 
arbóreo, o que era justificado por conversões 
urbanas, turísticas e industriais, pela construção 
de infraestruturas rodoviárias e pelos incêndios 
(sobretudo os de 2003 e 2005). No mesmo ano, 
Portugal publicou o 6º Inventário Florestal 
Nacional com base em dados de 2015 e apontava 
para que “a tendência de diminuição de área de 
floresta verificada desde 1995 se inverteu em 2015, 
com um ligeiro aumento de 60 mil ha (+1,9%)”.
Por estes dias só se pensa no país em tons de 
laranja, rosa e negro, mas o verde dos espaços 
florestais (incluindo árvores, matos e terrenos 
improdutivos) pintava em 2015 dois terços do 
território continental (6,1 milhões de hectares), 
sendo que 36% eram terrenos arborizados. De 
O novo inventário florestal vai avançar este ano 
e o concurso público para o efeito foi aberto 
a 26 de fevereiro último. Agora, o Instituto de 
Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) 
vai juntaresforços com a Direção-Geral do 
Território “para não haver discrepâncias na 
informação recolhida entre as duas entidades 
e permitir ter informação detalhada sobre 
vegetação, biomassa, altura das árvores e 
capacidade de sequestro de carbono”, esclarece 
ao Expresso o coordenador do inventário, José 
Sousa Uva. O especialista do ICNF sublinha que “a 
floresta portuguesa tem uma grande capacidade 
de resiliência”, apesar de ser com frequência 
fustigada por incêndios e ter problemas de 
fitossanidade, associada sobretudo ao nemátodo 
do pinheiro. Mas nos anos mais recentes têm 
surgido outros problemas associados a ordens 
de abate de sobreiros e azinheiras por alegado 
“imprescindível interesse público” associado à 
construção de megaparques solares, barragens e 
outras infraestruturas rodoviárias, ferroviárias ou 
parques industriais. Só entre 2011 e 2023, tiveram 
ordem de abate perto de 35 mil sobreiros por 
despachos publicados em “Diário da República”. 
Entre os mais polémicos, esteve a aprovação do 
corte de 1821 sobreiros para viabilizar o Parque 
Eólico de Morgavel, perto de Sines. Lembraram 
então os ambientalistas que a produção de energia 
renovável não pode ser pretexto para degradar o 
território, afetar a biodiversidade e a redução do 
sequestro de carbono.
Ainda sem dados do inventário, vão sendo feitos 
alguns estudos, como os da equipa do MED 
— Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, 
Ambiente e Desenvolvimento, coordenados pelo 
investigador Nuno Guiomar, que apontam para 
“uma perda em área de todas as espécies arbóreas 
entre 2020 e 2023”. Neste período, esclarece 
ao Expresso, “perderam-se 55 mil hectares de 
pinheiro, sobretudo devido a incêndios e doenças, 
e 22 mil hectares de eucaliptal, por não ser 
rentável em todo o lado”. Os cálculos apontam 
também para “perdas de 1000 a 2000 hectares 
por ano de sobreiro e azinheira, sobretudo 
devido à seca e a um declínio lento potenciado 
pela atividade humana”, explica o engenheiro 
biofísico. A segunda causa está relacionada com 
os incêndios e a terceira “os cortes, autorizados ou 
não para dar lugar a parques solares ou a áreas de 
regadio”, acrescenta.
Nuno Guiomar esclarece também, que mesmo 
quando os sobreiros ou as azinheiras não são 
cortados, “a mobilização do solo para dar 
lugar a um olival intensivo acaba por afetar o 
sistema radicular (raízes) e as árvores acabam 
por morrer ao fim de alguns anos”. Por isso, 
receia que se venha a acentuar o declínio desta 
espécie emblemática nacional e defende que as 
medidas compensatórias “devem ser três vezes 
superiores às que estão a ser postas em prática” 
e que é preciso verificar se as plantações ou o 
restauro ecológico estão a vingar. Remunerar 
adequadamente os serviços de ecossistemas que 
as florestas nos prestam ao nível da produção 
de água, oxigénio e sequestro de carbono é 
necessário. b
ENTRE 2020 E 2023 PERDERAM-SE 55 
MIL HECTARES DE PINHEIRO, DEVIDO 
A INCÊNDIOS E DOENÇAS, 22 MIL HA 
DE EUCALIPTAL, E 1000 A 2000 HA 
POR ANO DE SOBREIRO E AZINHEIRA
acordo com o inventário de 2015 os montados 
de sobro e azinho representavam um terço 
da floresta nacional (cerca de um milhão de 
hectares), seguido de pinhal (bravo e manso com 
cerca de 900 mil ha), e em terceiro surgiam os 
eucaliptais (845 mil ha). Esta avaliação também 
permitiu verificar que entre 1995 e 2015 se 
perderam 27 mil hectares de sobreiros e 264 mil 
ha de pinheiro bravo (maioritariamente devido 
aos incêndios) e que o eucalipto cresceu 128 mil 
ha. Só em 2015 é que surgiu regulamentação para 
travar a expansão de eucalipto.
fisga
Floresta
Matos e pastagens
Agricultura
Territórios artificializados
Águas interiores
Improdutivos
36
31
24
5
2
2
OCUPAÇÃO DO SOLO NACIONAL EM 2015
Em %
Sobreiro e azinheira
Eucalipto
Pinheiro bravo
Pinheiro manso
Outras folhosas
Outras resinosas
2020 
2023
860.284
856.323
808.459
786.203
421.754
367.135
136.301
121.674
437.405
424.962
19.188
16.818
VAR. 2020/23
-3960 
-22.256 
-54.619 
-14.627 
-12.443 
-2371
FONTE: DGT
ÁREA DE FLORESTA EM PORTUGAL
Em hectares
Brasil
R. D. Congo
Bolívia
Indonésia
Peru
Colômbia
Laos
Camarões
1773 (43%*)
513
386 (32%**)
230
161
128
93
76
PAÍSES COM MAIOR PERDA 
DE FLORESTA HÚMIDA PRIMÁRIA EM 2022
Em milhares de hectares
*da perda mundial deste tipo de floresta 
**aumento de 32% face a 2021
FONTE: STATISTA
FONTES: RELATÓRIO DO 6º INVENTÁRIO 
FLORESTAL NACIONAL (2019) ICNF
REVELA POTÊNCIA
Gama Range Rover Sport 24MY: consumo combinado WLTP 0,6-12,5 l/100 km, emissões combinadas de CO₂ WLTP 15-282 g/km. 
Valores obtidos nos testes oficiais do fabricante com uma bateria carregada de acordo com a legislação da UE. As emissões de CO₂, o consumo de combustível, o consumo de energia e a autonomia 
podem variar em condições reais e em função de fatores como o estilo de condução, as condições ambientais, o equipamento, a carga, o estado da bateria e o percurso. Valores de autonomia baseados 
num veículo standard num percurso normalizado.
E 12
Da’Vine Joy Randolph
O Óscar de Melhor Atriz Secundária, pelo papel em “Os Excluídos”, em exibição 
em Portugal, coroa o percurso de Da’Vine Joy Randolph, que tem passado pelo 
teatro musical, pelas séries e também pelos filmes de animação. Após receber o Óscar, 
disse que o mesmo é “uma carta de amor às mulheres negras”. / LIA PEREIRA
O Q U E E U A N D E I PA R A A Q U I C H E GA R 
U M C U R R Í C U LO V I S UA L
D
A
N
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Y
 M
O
LO
S
H
O
K
/R
E
U
T
E
R
S
1986
Alegria divina
Nasce em Filadélfia, nos Estados 
Unidos, no dia 21 de maio. Felizes 
com a chegada da bebé, os seus 
pais, que tentavam conceber há 
sete anos, chamaram-lhe Da’Vine 
Joy, ou seja, “alegria divina”.
2011
Teatro musical
Depois de estudar canto e 
ópera, acaba por mudar de 
curso e concentrar os seus 
esforços na aprendizagem 
de teatro musical. Em 2011, 
recebe o ‘canudo’ da Escola 
de Representação de Yale.
2012
Da Broadway 
para Londres
Candidata-se a um lugar 
no elenco do musical da 
Broadway “Ghost”, que 
iria subir ao palco no West 
End de Londres. Quando 
a protagonista da peça 
sofre uma lesão, voa para 
Inglaterra para substituí-la. 
Acaba por ser nomeada 
para um prémio Tony, por 
Melhor Atriz num Musical.
2013
Robin Williams
Participa no seu primeiro 
filme, “Mother of George”, 
como atriz secundária. No 
ano seguinte, desempenha o 
papel de uma enfermeira na 
comédia dramática “Aproveita 
a Vida, Henry Altmann”, 
com Robin Williams.
2016
Mundo das séries
Depois de integrar o elenco 
de séries como “The 
Good Wife”, garante uma 
participação recorrente em 
“This Is Us”, como Tanya. 
Participará, também, 
em “Empire” e “Veep”.
2019
Eddie Murphy
Chama as atenções com o seu 
papel como Lady Reed em 
“Dolemite Is My Name”, com 
Eddie Murphy. É nomeada para 
numerosos prémios, como atriz 
secundária, e assegura lugar em 
filmes como “Alta Fidelidade”, 
em 2020, ou “The United States 
vs. Billie Holiday”, em 2021.
2022
Gato das Botas
Da’Vine Joy Randolph 
tem também emprestado 
a sua voz a personagens 
de filmes de animação. 
Em 2022, dá vida a Mama 
Luna, uma senhora que 
abriga dezenas de gatos 
vadios, em “Gato das 
Botas: o Último Desejo”.
2024
O primeiro Óscar
O papel como Mary Lamb, 
cozinheira de uma escola 
que perdeu o filho na Guerra 
do Vietname, rende-lhe 
o Óscar de Melhor Atriz 
Secundária. “Sempre quis ser 
diferente; afinal, só preciso 
de ser eu própria”, agradeceu, 
emocionada.
fisga
E 14
Esta imagem é do vídeo de 2022 “Caminho para as Estrelas”, de 
Mónica de Miranda. E a partir de 20 de setembro fará parte em Lisboa 
da exposição “Linha de Maré”. Com obras da Coleção do CAM, o 
Centro de Arte Moderna Gulbenkian. De autores como Ana Jotta, 
Artur Cruzeiro Seixas ou Paulo Nozolino.
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EDIMBURGO
A voz de Youssou N’Dour tem poderes 
curativos contra a xenofobia, por exemplo 
na música ‘7 Seconds’, cantada com Neneh 
Cherry. E o músico senegalês estará em 
Edimburgoa 13 de agosto, às 20h, no 
Usher Hall. Antes e depois, de 2 a 25 de 
agosto, serão muitas as estrelas a passar 
pelo Edinburgh International Festival. Há 
espaço também para teatro, dança, ópera 
e música clássica. E para músicos como 
The Magnetic Fields, Chilly Gonzales ou 
Cat Power. Tudo boa medicina.
BRUXELAS
Em 1937, a guerra alastrava em Espanha. E 
Max Ernst pintou assim a monstruosidade 
do franquismo. Agora e até 21 de julho, 
esta pintura festeja em Bruxelas os 100 
anos do surrealismo, contados a partir da 
publicação em 1924 do “Manifeste du 
Surréalisme”. É na exposição “Imagine!” 
do Musées Royaux des Beaux-Arts de Bel-
gique, com obras de artistas como Giorgio 
de Chirico, Joan Miró, Leonor Fini, Man Ray 
e Salvador Dalí.
FLASHES
VENEZA
Estrangeiros em toda a parte
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só, um bom momento para contrariar este 
vírus será a próxima exposição internacional 
de arte da Bienal de Veneza, de 20 de abril 
a 24 de novembro. A curadoria é de Adriano 
Pedrosa, diretor do Museu de Arte de São 
Paulo Assis Chateaubriand. E incluirá obras 
de artistas como Candido Portinari, Claudia 
Andujar, Diego Rivera, Frida Kahlo, Kiluanji 
Kia Henda, Lina Bo Bardi, Malangatana e 
Tina Modotti. E do duo parisiense 
baseado em Palermo Claire 
Fontaine, que tem trabalhado em 
dezenas de línguas a frase “Stranieri 
Ovunque”. Significa “Estrangeiros 
em Toda a Parte” e é também o 
mote global desta edição da Bienal 
de Veneza. Sim, bem sei que o vírus 
está forte. Mas nunca é tarde.
A xenofobia é um vírus. Pode espalhar-se 
em qualquer corpo, mas ganha mais força 
quando encontra sociedades em crise. O 
vírus do ódio aos estrangeiros e ao estranho 
navega por séculos e atravessa continentes 
e gerações. Talvez seja eterno, mas pode 
ir sendo parado, curado e prevenido. Viajar 
ajuda muito, viver fora também. Mesmo 
em casa e em qualquer fase da doença, 
recomenda-se a exposição a 
tudo o que seja estrangeiro. 
Afinal, somos todos estrangeiros. 
Como percebemos ao fim 
de pouco tempo, porque o 
tratamento funciona mesmo.
Perante o crescimento da 
xenofobia cavalgada pela 
extrema-direita na Europa e não 
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LONDRES — CHICAGO
Uma princesa 
no circo
Era uma princesa vinda de África. E perdera a 
liberdade, sendo vendida como escrava. Aliás, a 
estrela de circo Miss La La nasceu na Prússia, numa 
cidade que agora é polaca. E tinha 21 anos quando 
foi assim retratada em janeiro de 1879, com beleza 
e força, pelo pintor Edgar Degas. Chamava-se Anna 
Albertine Olga Brown e era filha de pai negro e de 
mãe branca. A propósito, a mãe de Degas era de Nova 
Orleães. E quando conheceu Miss La La, o pintor 
já viajara sete anos antes até Nova Orleães, onde 
conheceu uma parte da família. Já a suposta origem 
desta artista de circo foi apenas um dos rumores 
postos a circular, com o objetivo de vender mais 
bilhetes. Durante quatro noites seguidas, Degas 
foi um dos interessados no espetáculo do Cirque 
Fernando, perto da Place Pigalle. E dessas noites 
nasceu esta pintura a óleo, depois de vários estudos 
feitos com carvão, lápis e pastel. E com a ajuda de um 
desenhador de arquitetura, para que o teto do circo 
ficasse mais próximo da realidade.
Além de ser apresentada como Miss La La, a 
protagonista era também conhecida como La Femme 
Canon ou La Mulatresse-Canon. Chamavam-lhe a 
Mulher Canhão ou a Mulata Canhão porque uma das 
proezas mais impressionantes passava por aguentar 
o peso de um canhão suspenso, só com os dentes e os 
maxilares. A partir de 6 de junho e até 1 de setembro, 
esta história será contada em Londres através de 
pinturas, desenhos e fotografias, na exposição 
“Discover Degas & Miss La La”, na National Gallery.
Esta pintura de Miss La La criada por Degas serviu de 
inspiração ao escultor Juan Muñoz (1953-2001), que 
criou uma série de esculturas de homens pendurados 
por cordas, pela boca. Já no mesmo circo onde Degas 
conheceu em Paris a leveza e a força de Miss La La, os 
pintores Henri de Toulouse-Lautrec e Pierre-Auguste 
Renoir terão ficado interessados em outras cenas 
circenses. De Toulouse-Lautrec, pode ser vista no Art 
Institute of Chicago a pintura “Equestrienne”, que 
mistura humor com cavalaria. E no mesmo museu 
em Chicago lá estão as irmãs acrobatas Francisca e 
Angelina Wartenberg, retratadas por Pierre-Auguste 
Renoir. O circo era outro mundo. Com um lado 
carnavalesco, que bem podia significar liberdade. b
P L A N E TÁ R I O
N O C A M I N H O DA S E S T R E L A S
P O R J OÃO PAC H E C O
fisga
E 16
A IA PODE MATAR A 
DEMOCRACIA JÁ EM 2024
NÃO ACREDITO EM NADA QUE VEJO E OUÇO. TUDO O QUE 
UM POLÍTICO DIZ É FALSO. OU NÃO. A VERDADE MORREU
á umas semanas, começaram 
a surgir nas redes sociais 
americanas umas imagens de 
Trump, sorridente, sentado 
num alpendre com uma família 
negra a posar feliz. A legenda 
alegava que o candidato a 
Presidente tinha parado a sua 
comitiva para conviver com 
aquelas pessoas. Acontece que 
essa e outras imagens similares 
eram falsas — criadas por 
inteligência artificial. Nem sequer foram produzidas pela sua campanha, 
mas por um radialista pró-Trump. E foram denunciadas. Mas Trump 
não teve problema em as publicar sem nenhuma referência a serem 
falsas. Nem essas nem as de ele a rezar ajoelhado com a luz da catedral a 
bater-lhe na cara a dar-lhe um toque de santidade (embora tivesse seis 
dedos). Ou a posar ao lado de Martin Luther King numa foto a preto e 
branco, supostamente em 1968, embora Trump só tenha aí menos uns 
15 anos do que tem agora. Para quê desperdiçar imagens tão boas, se 
bem que falsas? Há dias, um movimento republicano anti-Trump fez 
uma recolha de imagens em que se vê o ex-presidente a “quase cair, a 
perder-se no discurso, a enganar-se vezes sem conta e a dizer patetices” 
— exatamente do que acusa o seu adversário Joe Biden. Trump reagiu 
a dizer que se tratava de imagens falsas feitas por inteligência artificial 
só para o fazer tão patético como Biden. Não eram. Eram verdadeiras. 
Como ninguém, Trump sabe usar o que se chama de “dividendo do 
mentiroso”. O mentiroso ganha sempre. Já foi assim com as fake news. 
Quando o acusaram de as disseminar, ele acusou os adversários de serem 
os criadores das fake news, até ninguém perceber do que se falava.
Uma coisa a ter em conta. As ferramentas que esta “IA bebé” está a 
disponibilizar são incríveis e este é o ano em que metade da população 
do planeta vai a votos. Uns 80 países. Dos EUA ao México, passando 
pela Índia até à UE. Já tínhamos atingido um grau de desinformação tão 
grande que se afirmava que talvez se tenha criado o “cidadão apático” 
perante a existência da verdade ou da mentira. Não estamos preparados 
para o potencial de estragos que a IA pode ter nos processos eleitorais. 
Exagero? O único local onde Biden perdeu as primárias foi na Samoa. 
Um investidor de capital de risco em tecnologia garante que gastou 
apenas uns milhares de dólares num programa banal de IA e colocou 
lá uma equipa de cinco pessoas, o que bastou para vencer as eleições. 
Nunca pôs os pés na ilha do Sul do Pacífico, mas usou bots diferenciados 
com a voz do candidato a telefonar aos votantes. Deveria ser um aviso.
As eleições de junho na União Europeia vão ser um teste. As empresas de 
tecnologia deram a sua palavra de que iam agir e a comissão aprovou uma 
lei toda XPTO. Mas os críticos dizem que não há orçamento para contratar 
‘Oppenheimers’ para criar defesas efetivas. As eleições na Europa são 
uma complicação, dado o seu mosaico de 27 países, de línguas, de 
problemas múltiplos, contraditórios, e que resulta numa complexidade 
de nomes e candidaturas que torna tudo mais difícil do ponto de vista 
da autodefesa. Junte-se a deriva populista interna mais propensa a usar 
este tipo de ferramentas, a que se junta a Rússia e a China ativamente a 
quererem influenciar eleições, e pode dizer-se que as eleições de junho 
são uma incógnita quanto ao impacto da IA no processoeleitoral.
Com a IA, há finalmente uma “democratização da desinformação”. O 
que antes só era possível com grandes orçamentos é agora acessível com 
poucos euros e um nerd a gerir a criação automatizada de títulos falsos, 
a imitar o layout dos jornais, por vezes já dirigidos a públicos definidos, 
por exemplo. Uma das preocupações são os deepfakes (as imagens falsas 
com a pessoa a falar), mas é possível que este ainda não seja o ano deles. 
O mais provável é aparecerem áudios falsos, dado que são mais fáceis 
de produzir. As aplicações são baratas — supostamente criadas para 
miúdos fazerem partidas —, e com apenas um discurso de um político 
apreendem a tonalidade, timbre, trejeitos, e podem colocá-lo a dizer 
qualquer coisa. A campanha eleitoral americana ainda conta com o 
telefone: milhões de bots podem ligar com vozes falsas a dizer o que 
se quiser. O que coloca o problema contrário: a partir de determinada 
altura, qualquer coisa criminosa que um político diga irá sempre 
argumentar que se trata de IA. É a total erosão da verdade. Um mundo 
da “pós-verdade” em que ser verdade ou não é indiferente. As imagens 
deixam de ter valor. Antes, dizia-se “ver para crer”. Vejo, mas decido se 
creio dependendo no que acredito. Isso leva a uma desconfiança total nas 
instituições. É o cidadão paranoico. E é aqui que a democracia começa a 
estar verdadeiramente em perigo. 
E é o que está a acontecer. As democracias em geral estão sob tensão. Se 
juntarmos a IA, “temos uma tempestade perfeita de desinformação”. Até 
agora, a IA generativa nas redes sociais tem ajudado a disseminar teorias da 
conspiração que se expandem a “fábricas de armas biológicas na Ucrânia” 
para alertar a perceção dos EUA às eleições no Paquistão ou na Eslováquia.
No final de 2024, saberemos se o mundo e essa invenção americana e 
europeia que é a democracia resistiram à IA, aos populismos em esteroides 
e à ingerência de autocracias. Há um ditado de um país qualquer que vi 
aplicado à regulamentação da IA que dizia que enquanto a mentira dá a volta 
ao mundo a verdade calça os sapatos. Há quem acredite que as empresas 
de tecnologia vão fazer alguma coisa, ou que as leis da UE vão parar a 
desinformação. É uma improbabilidade. Ou que o bom senso das pessoas irá 
detetar o verdadeiro e o falso. Tudo aponta para o contrário. Vão acreditar no 
que agrade aos seus enviesamentos. Mesmo que seja uma mentira gritante. 
E a IA já estará no controlo. b
lpnunesxxx@gmail.com
H
O M I T O L Ó G I C O
/ LUÍS
PEDRO 
NUNES
E 18
I D E I A S
TEXTO IAN BURUMA AUTOR DO NOVO LIVRO “THE COLLABORATORS: 
THREE STORIES OF DECEPTION AND SURVIVAL IN WORLD WAR II”
A AMEAÇA DA POLÍTICA 
MESSIÂNICA
O DESEJO DE SE SUBMETER A UMA ENTIDADE SUPERIOR, DE ACREDITAR NA VIDA ALÉM DA MORTE, 
DE DIVIDIR O MUNDO EM CRENTES E NÃO CRENTES, E DE CELEBRAR AS FASES DA VIDA COM RITUAIS 
SAGRADOS É UMA CARACTERÍSTICA HUMANA UNIVERSAL. MAS O LUGAR DESSES DESEJOS NÃO É 
NOS DISCURSOS POLÍTICOS. AS AUTORIDADES RELIGIOSAS E POLÍTICAS NÃO SE PODEM SOBREPOR
o dia 22 de janeiro, o primeiro-ministro indiano 
Narendra Modi inaugurou o Ram Mandir, um vasto 
novo templo hindu em Ayodhya. “O sumo sacer-
dote do hinduísmo”, nas palavras do seu biógrafo, 
Modi levou oferendas e bênçãos a um ídolo do Lord 
Ram, uma das divindades hindus mais reverencia-
das, que supostamente nasceu neste local sagrado. 
O templo é também um poderoso símbolo político 
para Modi e para o seu partido no poder, Bharatiya 
Janata (BJP): foi construído sobre as ruínas de uma 
mesquita do século XVI que uma multidão de naci-
onalistas hindus, incitada pelos líderes do BJP, de-
moliu em 1992, provocando motins sectários que 
resultaram em 2000 mortos.
Modi promete criar uma “nova Índia”, o que 
para ele significa uma Índia hindu, onde os mais de 
200 milhões de muçulmanos do país serão vistos 
como intrusos. Na verdade, esta mistura deliberada 
de religião e política é inconstitucional na Índia. O 
primeiro primeiro-ministro indiano independen-
te, Jawaharlal Nehru, bem como o líder político e 
espiritual Mahatma Gandhi, reconheceram o quão 
explosiva uma luta religiosa poderia ser numa soci-
edade multirreligiosa e multiétnica, razão pela qual 
insistiram que a Índia fosse um estado secular.
O desejo de minar o estado secular apareceu 
muito antes de Modi. O homem que assassinou Ma-
hatma Gandhi era membro da Rashtriya Swayam-
sevak Sangh, uma organização nacionalista parami-
litar hindu com ligações ao BJP que desempenhou 
um papel importante na destruição da mesquita em 
Ayodhya. Em 1986, agitadores hindus aproveitaram 
N
a decisão falaciosa do então primeiro-ministro Ra-
jiv Gandhi de ceder às exigências dos muçulmanos 
permitindo que a lei islâmica anulasse uma decisão 
do Supremo Tribunal que defendia o direito de os 
divorciados muçulmanos receberem pensão de ali-
mentos para lá de 90 dias. Usando esta exceção para 
fazer renascer ressentimentos hindus, esses agita-
dores trouxeram o nacionalismo hindu das franjas 
da sociedade para o centro da política indiana.
Infelizmente, Modi não está sozinho nesta de-
cisão de abraçar uma política religiosa. Por incrível 
que pareça o ex-Presidente norte-americano, Do-
nald Trump, um predador sexual obsceno, está a ser 
rotulado pelos seus seguidores como um salvador 
da cristandade, que irá limpar os Estados Unidos de 
esquerdistas, feministas, gays, imigrantes, elitistas 
liberais e outros pecadores. Um vídeo promocional 
recentemente publicado no site de Trump, Truth So-
cial, cola-se a esta narrativa, afirmando: “Deus pre-
cisava de alguém disposto a entrar no ninho de ví-
boras. Denunciem as notícias falsas vindas das suas 
línguas afiadas como as de uma serpente. O veneno 
das víboras está nos seus lábios. Por isso Deus cri-
ou Trump.”
Os pentecostistas evangélicos, como os católicos 
reacionários, acreditam agora que Trump é mais do 
que uma figura política. O ex-Presidente foi ungido 
por Deus para tornar a América grande outra vez. 
Sim, está a ser processado por agredir uma mulher, 
por anular uma eleição através da violência e por 
cometer fraude, mas isso mostra como é um mártir 
perseguido por inimigos maus, tal como Jesus Cristo.
E 19
A política religiosa é a maior ameaça para a de-
mocracia, mais do que a desigualdade social ou eco-
nómica, os políticos mentirosos ou a corrupção, que 
são suficientemente maus. Existem instituições de-
mocráticas liberais para resolver conflitos de inte-
resses. Disputas sobre impostos, uso da terra, subsí-
dios agrícolas, etc., podem ser resolvidas através de 
discussões e compromissos entre partidos políticos. 
Mas os assuntos sagrados não podem. A verdade de 
Deus não é negociável.
É por isso que um grupo religioso militante como 
o Hamas não pode ser um partido político democrá-
tico. Num Estado islâmico radical, não há espaço 
para debate ou compromisso. O mesmo é válido para 
extremistas religiosos israelitas que acreditam que os 
seus direitos são justificados pela Bíblia. Os direitos 
da água são discutíveis; a terra sagrada não é.
A questão não é tentar curar a humanidade das 
crenças religiosas. O desejo de se submeter a uma 
entidade superior, de acreditar na vida além da 
morte, de dividir o mundo em crentes e não cren-
tes, de insultar os pecadores e adorar os santos e de 
celebrar as fases da vida com rituais sagrados é uma 
característica humana universal. Mas o lugar desses 
desejos é nas igrejas, templos, sinagogas e santuári-
os, não nos discursos políticos. As autoridades reli-
giosas e políticas não se podem sobrepor.
Nehru compreendeu este conceito. Thomas Jef-
ferson compreendeu este conceito. E muitos líderes 
cristãos, especialmente os protestantes que não que-
riam que o estado secular se envolvesse em assuntos 
religiosos, também compreenderam este conceito. 
Os católicos têm tido mais problemas com a separa-
ção entre a igreja e o estado, mas a maioria aprendeu 
a viver com ela.
A razão pela qual tantas democracias estão agora 
ameaçadas pela política messiânicanão é porque a 
religião organizada ganhou força. Na verdade, acho 
que é exatamente pelo oposto. Na maior parte das 
democracias ocidentais, pelo menos, a autoridade 
da igreja entrou em colapso quase totalmente. Isto 
é verdade mesmo nos EUA: embora a maioria das 
pessoas ainda considere ser crente de uma ou ou-
tra fé, muitos cristãos americanos, especialmente 
aqueles que são atraídos para Trump como salvador, 
seguem pregadores independentes ou empreende-
dores espirituais.
Em muitas partes da Europa, onde o populismo 
de direita está a aumentar, a erosão da autoridade 
da igreja a partir dos anos 60 deixou à deriva todos 
os que iam à igreja regularmente e esperavam que os 
seus sacerdotes e pastores lhes dissessem como vo-
tar. Hoje, estão ansiosos e perplexos pelas mudan-
ças demográficas, políticas, sociais, sexuais e eco-
nómicas, e procuram um salvador que os leve para 
um mundo mais simples, mais certo e mais seguro. 
Há muitos demagogos famintos de poder desejosos 
de satisfazer esse desejo. b
e@expresso.impresa.pt
Tradução Joana Henriques
Copyright: Project Syndicate, 2024
A razão pela 
qual tantas 
democracias 
estão agora 
ameaçadas 
pela política 
messiânica 
não é porque 
a religião 
organizada 
ganhou força. 
Na verdade, 
acho que é 
exatamente 
pelo oposto
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PROMESSA “The Messianic Era: Israel And The Law”, John Singer Sargent (1903)
E 20
TEXTO 
SEBASTIÃO BUGALHO 
COLUNISTA DO EXPRESSO
E 21
O homem 
que (quase) 
conseguiu
Luís Montenegro, 
um primeiro-ministro 
em forma de ponto 
de interrogação
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 S
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E 22
governação socialista, isto é, chumbando Montene-
gro como candidato a primeiro-ministro. Olhando os 
estudos de opinião, os portugueses não o desmenti-
am na altura. Examinando os resultados da eleição 
de domingo passado, mais de 1 milhão continuam de 
acordo com o exame do Presidente. 
À data, nos bastidores do PSD, as previsões para as 
eleições europeias do verão seguinte — hoje, daqui a 
três meses — eram lúgubres, sem um candidato evi-
dente e chances de ficar atrás do PS apesar do estado 
infeliz da maioria absoluta. Entre as hostes sociais-
-democratas, discutia-se a saída de Montenegro como 
que uma inevitabilidade e os sussurros pelo regresso 
de Pedro Passos Coelho acumulavam-se nos ouvidos 
laranja. Naquele tempo, que não foi assim há tanto, 
Luís Montenegro assemelhava-se a um recluso num 
corredor da morte, pronto a juntar-se à coleção de 
opositores vergados por António Costa. As notícias em 
torno da casa do presidente do PSD e o envolvimento 
de Joaquim Pinto Moreira, seu próximo, na Operação 
Vórtex jaziam como que uma nuvem em cima da ca-
beça do líder da oposição. O seu tom, persistentemen-
te parlamentar e não de candidato a primeiro-minis-
tro (“O Orçamento pipi, betinho e arranjadinho”), 
roçava o inadequado e a ambiguidade sobre o Chega 
(ainda não havia “não é não” definitivo) perseguia-o, 
tanto quanto o fantasma de Passos Coelho. 
Sem exagero, Montenegro esteve em vias de ser 
afastado antes de sequer disputar uma eleição em 
seu nome. 
Apesar de tudo isso, foi com um sorriso que se sen-
tou à mesa num dos seus pousios prediletos, à beira do 
Tejo, em Lisboa. Menos esguio do que nos tempos de 
líder parlamentar, talvez já engordado pela volta pe-
los concelhos do país, já andava sem relógio de pulso 
e em mangas arregaçadas. Para entrada, o seu favori-
to, uma sardinha no pão torrado. “Eu estou convenci-
do de que vou ser primeiro-ministro”, afirmaria, sem 
pestanejar, ao seu comensal. “Tenho é de emagrecer 
um pouco até lá”, sorriria, com o longínquo 2026 ain-
da como horizonte. 
Naquele momento, sardinhas e simpatias à parte, 
provavelmente só ele acreditava que sim. Menos de 
um mês depois, rumaria à Madeira, onde o seu par-
tido falharia a maioria absoluta apesar de coligado 
com o CDS, dando com Miguel Albuquerque, caçador 
nos tempos livres, a socorrer-se inusitadamente do 
apoio do PAN para formar governo na região autóno-
ma. “Luís Montenegro 1, António Costa 0”, atiraria o 
continental, transpirado, mais uma vez fora de tom 
diante da sua primeira vitória amarga, das três que 
seriam agridoces. Albuquerque, que prometera de-
mitir-se caso falhasse a maioria, permaneceria indi-
ferentemente no cargo — hábito que, aliás, mantém. 
Num timing no mínimo desajeitado, Luís Monte-
negro poria aí termo ao tabu da relação do seu partido 
com o de André Ventura, anunciando que não gover-
naria com o apoio do Chega “nem no país nem na Ma-
deira”, sem se dar ao trabalho de explicar porquê, ex-
cetuando o facto de o PSD não necessitar de votos do 
Chega para governar o arquipélago. Pouco mais de um 
ano depois de suceder a Rui Rio na liderança da opo-
sição, Montenegro dizia finalmente ao seu eleitorado 
qual a sua política de alianças — matéria que nunca 
colheu unanimidade na sua direção; pelo contrário. 
No Expresso, dando-o já como fora do jogo, Da-
niel Oliveira assinaria uma coluna cinco dias depois 
intitulada “Pedro contra Pedro”, antevendo um futu-
ro político sem Montenegro e sem Costa, onde Pedro 
(Nuno Santos) enfrentaria Pedro (Passos Coelho). De 
N
o dia 30 de agosto de 2023, há menos de um ano, Luís 
Montenegro não ia ser o próximo primeiro-ministro 
de Portugal. O Partido Socialista havia sobrevivido 
à Comissão de Inquérito à TAP, Pedro Nuno Santos 
ia ser comentador político na SIC Notícias, João Ga-
lamba permanecia no Governo e o Presidente da Re-
pública estava publicamente desautorizado por um 
primeiro-ministro em posse de supremacia parla-
mentar, orçamental e não propriamente derrotado 
nas sondagens. As perspetivas não eram animadoras 
para o homem de Espinho, um ano depois de che-
gar à São Caetano à Lapa. No pico da crise espoleta-
da pela indemnização ilegal de Alexandra Reis, me-
ses antes, Marcelo Rebelo de Sousa considerara não 
haver “uma alternativa óbvia em termos políticos” à 
E 23
(complementando a componente pública com a pri-
vada e social) e um discurso final concluído em apo-
teose, num tributo às vidas perdidas para o feminicí-
dio em Portugal. 
Estava ali — ou tentava estar ali — um substituto 
indolor de António Costa para os 2 milhões e 300 mil 
portugueses que haviam confiado no PS há menos de 
dois anos. No fim de semana passado, não foram tan-
tos a acreditar em Luís Montenegro. 
O PACIENTE JOGADOR CONTRA 
UM TEMPO E CONTRA UM LEGADO 
O paradoxo mais interessante — e mais elucidativo — 
na personalidade política de Luís Montenegro é que o 
seu modo de ação é o de um jogador que aposta tudo 
mas que ao mesmo tempo demora a revelar o jogo que 
tem na manga. Alongando a metáfora, é quase como 
se estivesse constantemente num torneio de póquer 
em que faz o all-in sem que os seus adversários saibam 
exatamente quantas fichas estão em cima da mesa — 
muitas vezes, nem o próprio sabe. Montenegro fê-lo 
na sua dramatização de apelo ao voto útil, prometendo 
só governar sendo o mais votado e nunca com o apoio 
do Chega. Mas fê-lo também no posicionamento que 
delineou para o seu partido — ao centro —, não cli-
vando com o poder incumbente, não divergindo em 
nada que não consensual, nem prometendo nenhuma 
mudança que não a que lhe interessava para conseguir 
mudar o resto: a de Governo. 
O seu tudo ou nada não esteve só na meta que im-
pôs a si mesmo (só governar se ganhar e nunca com 
o concorrente crescente à sua direita), mas no modo 
como estacionou o PSD no lugar de substituto — e 
não de inimigo — do PS. No seu raciocínio, tal era a 
única forma de ultrapassar os anticorpos oriundos do 
tempo da troika e partir para a campanha de rua com 
a menor taxa de rejeição possível. Para tal, sacrificou 
frequentemente convicções e posições, não revelando 
as suas sobre matérias tão concretas como a regionali-
zação (foi contra o referendo, sem dizer como votaria), 
a eutanásia (foi a favor do referendo, sem dizer como 
votaria) ou a localização do novo aeroporto (consen-
sualizou o método de escolha com o Governo, semre-
velar qual seria a sua decisão). 
O recentramento montenegrista seria tal que os 
apoiantes da sua coligação com o CDS entrariam ir-
remediavelmente em choque com ele, tendo a visão 
pró-vida de um candidato a deputado embatido de 
frente com Montenegro, para quem a interrupção vo-
luntária da gravidez, não sendo um tópico consensu-
al, só poderia ser proibido. Num painel da SIC Notíci-
as, Daniel Oliveira chamar-lhe-ia mesmo candidato 
“marca branca” por nunca fugir ao mainstream. Gosto 
musical? “Coldplay.” Gastronómico? As “couves” no 
cozido à portuguesa. Clube de futebol? A “seleção na-
cional”, claro, e não o Futebol Clube do Porto, de que 
chegou a ser dirigente. Se lhe perguntassem a cor pre-
ferida, não seria impossível que respondesse instinti-
vamente “bege”. Aborto? Nem uma palavra. 
Em simultâneo, o líder do PSD — então converti-
do em Aliança Democrática — tinha de permanecer 
suficientemente apelativo à direita apesar da tentati-
va de parecer inofensivo à sua esquerda. E contra uma 
ameaça berrante, como os resultados de domingo pro-
varam, era mais difícil ser “bege”. A única coisa de 
“direita” que Luís Montenegro ousou representar foi 
a oportunidade de alternância ao PS, ao fim de nove 
anos. De resto, excetuando o pouco falado programa 
económico (divulgado no dia em que o governo, desta 
vez o madeirense, foi alvo de buscas), em que é que o 
PSD se distinguiu do PS além de não ser o PS? Para a 
maioria dos eleitores, mirando os números, em pou-
co. Nesta eleição, nem a sustentabilidade da Seguran-
ça Social se pôs em causa. 
O seu cuidado para não afugentar o eleitorado do 
Chega, todavia, esteve sempre lá. Expressões que focus 
group davam como tóxicas para os votantes de Ventu-
ra, como “cordão sanitário”, nunca saíram da boca do 
líder da AD. Confissões de “centrismo”, como as repe-
tidas ad nauseam por Rui Rio, nunca se deram. Mon-
tenegro colocou-se no centro, nunca se proclamou 
dele. E tinha a ver com não abdicar da direita ape-
sar de namorar os demais. Se repararmos, o conceito 
de “reformas estruturais”, que tanta alergia causava 
ao costismo, também não integrava a mensagem de 
CAMINHADA À saída 
do elevador, no 
domingo à noite, a 
caminho do discurso 
de vitória e após duas 
semanas de campanha 
eleitoral, Luís 
Montenegro atingiu 
um patamar que, 
há menos de um ano, 
parecia 
absolutamente 
improvável — estar na 
primeira linha para ser 
o primeiro-ministro 
de Portugal; O líder 
do PSD procurou não 
afugentar o eleitorado 
de André Ventura 
e do Chega, e teve 
um discurso cuidado, 
evitando expressões 
como “cordão 
sanitário”; Pedro Nuno 
Santos assumiu a 
derrota e declarou-se 
líder da oposição
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um modo, para muitos, era como se ele já não con-
tasse e os corredores do PSD não eram alheios à sen-
sação. A dúvida já não era se Montenegro seria ou não 
seria primeiro-ministro; era se chegaria sequer às le-
gislativas. Uma semana mais tarde, o Hamas entraria 
em território israelita para tirar mais de um milhar 
de vidas e mergulhar o Médio Oriente em guerra. A 
política doméstica mereceria um par de semanas de 
descanso, até uma entretanto esquecida profecia do 
diretor-executivo do Serviço Nacional de Saúde, avi-
sando que novembro seria “o pior mês em 44 anos 
de SNS” se nada se alterasse na tensão com o sector. 
O pessimismo de Araújo era previdente, mas falhava 
na área. Novembro não seria o pior mês de sempre na 
Saúde do regime, mas nas suas instituições, com um 
Governo a ser derrubado com polícia em São Bento, 
dois ministros buscados, um chefe de gabinete en-
contrado com €75.800 no local de trabalho e um 
amigo íntimo do primeiro-ministro detido. António 
Costa pediria a demissão na tarde desse 7 de novem-
bro, e Luís Montenegro, qual Lázaro, ressuscitaria 
como candidato à sua sucessão. 
Em menos de 20 dias, o PSD transformaria um 
congresso agendado para rever estatutos internos 
numa autêntica convenção, com velhas glórias como 
Morais Sarmento, José Luís Arnaut, Leonor Beleza, 
Ferreira Leite e, trinta anos depois, Aníbal Cavaco Sil-
va a surgirem numa reunião magna do partido. Em 
Almada, do alto da sua improbabilidade, Montenegro 
presidiu ao maior recentramento ideológico do PSD, 
não só desde a troika, como desde a era de Mota Pin-
to. Um elogio surpreendente aos aumentos do salário 
mínimo decretados pelo PS, uma proposta dedicada 
aos pensionistas (através do Complemento Solidá-
rio para Idosos), uma ideia de Estado social funcional 
Luís Montenegro 
tem o modo 
de ação de um 
jogador que 
aposta tudo mas 
que ao mesmo 
tempo demora a 
revelar o jogo que 
tem na manga
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Montenegro. O objetivo foi sempre não assustar para 
depois cativar — fosse quem fosse.
O HOMEM QUE SE 
CANSOU DE PERDER
De onde veio tamanha capacidade de pragmatismo? É 
a pergunta que qualquer leitor faria, dada a descrição 
dos factos. No livro “Na Cabeça de Luís Montenegro”, 
do jornalista Miguel Santos Carrapatoso, há pistas que 
nos ajudam a percebê-lo melhor. Na biografia políti-
ca, que é uma leitura obrigatória deste 2024, fica claro 
que o percurso do homem em vias de ser indigitado 
foi largamente marcado por “derrotas traumáticas” e 
até “humilhações”. Da Câmara de Espinho à distrital 
de Aveiro, de último na lista de deputados a duas vezes 
destrunfado por Rui Rio (uma em Conselho Nacional, 
outra a duas voltas em diretas), Montenegro anda há 
mais de 30 anos de derrota em derrota, à espera da vi-
tória final. E este domingo, apesar de não a ter materi-
alizado por completo, foi mais um passo no caminho 
de alguém que aprendeu a ganhar, perdendo. 
Além da sua relação com o risco (com as paradas 
altas) e com o tempo (com uma campanha monta-
da para crescer devagar, mas até ao último minuto), 
há um traço que caracteriza Luís Montenegro e que o 
distingue da maioria dos políticos da sua geração. É 
um indivíduo profundamente obstinado, apesar de 
flexível. Quando a equipa de consultores de campa-
nha chegou do Brasil à São Caetano à Lapa, seguiu o 
seu guião à risca. A taxa de rejeição era para manter 
o mais reduzida possível. Nos debates, em que qua-
se passou despercebido, não se desviou um milíme-
tro dessa estratégia. Enquanto Pedro Nuno brilhava 
para a sua plateia, Montenegro nem contra um cer-
co policial se pronunciou. Era o posicionamento não 
posicional a não arredar pé. E até ao último minuto 
da campanha eleitoral, nunca saiu dele.
Outro exemplo flagrante — e muito relevante — do 
pragmatismo tático de Luís Montenegro está na sua 
ida preventiva aos Açores, sem fazer a menor ideia 
do resultado que sairia das regionais de 4 de fevereiro 
deste ano, pouco mais de um mês antes do ato elei-
toral nacional que decidiria o seu destino. Ao marcar 
presença na vitória de José Manuel Bolieiro, reunindo 
com as lideranças regionais do PSD, do CDS e do PPM, 
Montenegro condicionou todo o processo, evitando 
que a solução açoriana voltasse a passar pelo Chega 
como em 2021, e o PSD a ser vítima dela, como foi 
Rio em 2022. A partir daí, o tabuleiro virou e a ques-
tão do Chega passou a ser colocada igualmente ao PS 
e ao PSD, de tal modo que Pedro Nuno mudaria de 
posição e estabeleceria o compromisso de viabilizar 
um Governo da AD num cenário de maioria à direi-
ta — justamente o que acabará por acontecer, graças, 
mais uma vez, ao gosto pelo risco de Luís Montenegro.
No congresso do Porto, em 2022, o pragmatis-
mo também transpareceu e por instinto. Com o PS a 
contar com o referendo à regionalização no progra-
ma da maioria absoluta, Montenegro subiu ao palco 
pela primeira vez como líder do PSD e anunciou que 
o maior partido da oposição não via condições para 
aceitar a realização desse referendo. Não ouviu uma 
pessoa antes. Saiu-lhe. Era a maneira mais prática 
que tinha de enterrar um assunto que dividiria o seu 
partido e que, possivelmente, mobilizaria um PS ra-
ramente associado a mudançasde fundo. Olhando 
para trás, funcionou na perfeição — e nunca mais se 
ouviu falar na ideia.
Num diagnóstico da derrota do PSD nesse ano, 
ainda com Rui Rio ao leme dos sociais-democratas, 
encontra-se uma soma de variáveis de-
finidoras do resultado e, se observar-
mos ao pormenor, fez-se de tudo para 
que não se repetissem em 2024. O mo-
nopólio que o PS detinha da relação com 
o Estado social após a pandemia?
Quebrado. A unidade institucional 
entre Presidência, Parlamento e Governo 
que resultou da crise sanitária? Inexisten-
te após a dissolução da Assembleia. A am-
biguidade de Rui Rio em relação ao Chega? 
Desfeita, a tempo e horas. A responsabiliza-
ção pela legislatura interrompida com que 
António Costa esvaziou o Bloco de Esquerda 
e o PCP em 2022? Resultou contra parceiros 
parlamentares; Pedro Nuno Santos não arris-
cou fazê-la contra o Ministério Público.
Como que um diligente marido numa ida ao su-
permercado, de lista de compras em riste, Luís Mon-
tenegro riscou uma a uma as lacunas do seu partido, 
que esteve quase uma década sem vencer uma elei-
ção nacional. Falta de país? Esteve nos 308 concelhos. 
Falta de oposição? Passou a fazê-la, reinstituindo os 
debates quinzenais abolidos com a ajuda do seu an-
tecessor. Falta de consensos? Ajudou a fazê-los, acor-
dando com António Costa a criação de uma Comis-
são Técnica Independente para o estudo de um novo 
aeroporto. Falta de propostas? Pelas minhas con-
tas, apresentou um pacote temático numa média de 
quatro em quatro meses desde que se tornou líder da 
oposição. Falta de independentes? É ver as listas que 
levou ao Parlamento, recheadas deles.
Luís Montenegro, pura e simplesmente, fartou-se 
de ver o seu partido perder eleições. Só não conseguiu 
ganhá-las, até agora, por mais de 1%.
UM SUCESSO POR METADE MAS 
COM ESPERANÇA
Se pensarmos que a Operação Influencer e o partido 
Chega foram os ausentes mais presentes nos deba-
tes destas legislativas, quase parece que a campanha 
decorreu num mundo (praticamente sem Ventura e 
sem preocupações judiciais) e a eleição ocorreu nou-
tro mundo (recheado de Ventura e de preocupações 
judiciais). O PSD não pretendia ignorar esse públi-
co-alvo, com um plano anticorrupção a não ter 
mais destaque na sua campanha devido aos infórtu-
nios do PSD-Madeira no início do ano. A eleição de 
10 de março teria, nesse sentido, mais do que um 
condicionamento oriundo das ilhas: os ideológicos, 
vindos dos Açores, e os ju-
diciais, do Funchal. 
Montenegro cumpriu 
o seu primeiro objetivo 
(ganhar) e o seu segundo 
objetivo (não enfrentar 
uma maioria à esquer-
da na Assembleia), mas 
falhou o terceiro: depender exclusiva-
mente dos votos da Iniciativa Liberal. Pelo contrário, 
os seus dotes de pragmático serão novamente postos 
à prova, numa tenaz de socialistas ávidos de regres-
sar ao poder o mais depressa que consigam e popu-
listas sedentos de crescer o mais que puderem até às 
autárquicas de 2025. Caso não escape à encruzilhada, 
resta-lhe tentar que esta se prolongue até ao verão do 
próximo ano, quando Marcelo já não pode dissolver 
por estar em final de mandato, ou render-se às con-
versações com o Chega, provavelmente com outra 
liderança que não a sua no PSD.
Os resultados de domingo à noite, para o bem e 
para o mal, são fruto direto da sua estratégia. Ao cen-
tro, disputou a herança de António Costa com Pedro 
Nuno Santos, que precisou de ser socorrido nos úl-
timos dias de campanha pela presença mais sena-
torial do primeiro-ministro. À direita, com pouco 
programa a tocar nesse eleitorado, deixou o flanco 
aberto para a corrida do Chega. Entre a velha guar-
da do PSD, a dificuldade do dilema é reconhecida e 
poucos avançam com melhores soluções. Para uns, 
ter ficado à frente de todos com a força concorren-
te do seu espaço político a triplicar o resultado faz 
tangente ao milagre. Mas, tal como a Madeira em 
setembro e os Açores em fevereiro, trata-se de uma 
vitória com um amargo de boca acompanhado por 
um elevado potencial de instabilidade.
No final da madrugada eleitoral da SIC, foi questi-
onado quem está em piores condições no primeiro dia 
como primeiro-ministro: António Costa em 2015, de-
pois de perder mas com maioria à esquerda, ou Luís 
Montenegro em 2024, depois de ganhar sem maio-
ria de ninguém? A opinião foi unânime: o segundo.
Montenegro tem a vantagem de começar um 
novo capítulo com uma plataforma relativa de po-
der, na esperança de vir a fazer campanha como pri-
meiro-ministro em funções. As eleições europeias, 
daqui a três meses, devem influenciar a margem de 
manobra com que cada liderança chegará às nego-
ciações do Orçamento do Estado, este outubro, com 
Marcelo a ter a faculdade de convocar novas eleições 
se assim o entender. Montenegro terá de enfrentar 
um Pedro Nuno com o alívio de não governar e um 
André Ventura com ganas de vir a fazê-lo. O mistério 
de quem realmente é, politicamente, o líder do PSD 
será desvendado, ao seu jeito, grão a grão, até lá — na 
sua relação com o tempo, o risco e o pragmatismo. 
No debate com o líder do Chega, Ventura per-
guntou-lhe se estava “a rir-se dos portugueses” e 
Montenegro, sem hesitar, respondeu-lhe: “Estou-
-me a rir de si.” Nos próximos meses, descobriremos 
quem ri por último.
Até lá, haverá poucas razões para isso. b
e@expresso.impresa.pt
Ventura 
perguntou-lhe se 
estava “a rir-se 
dos portugueses” 
e Montenegro, 
sem hesitar, 
respondeu-lhe: 
“Estou-me 
a rir de si”
LIDERANÇA Capa da Revista 
do Expresso em novembro 
de 2022, meses depois de 
Montenegro conquistar em 
congresso a liderança do PSD
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TEXTO 
RICARDO SILVA 
INVESTIGADOR DO INSTITUTO 
DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA
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Os planos de Franco 
para invadir Portugal
Durante séculos, o “perigo castelhano” foi uma constante, com 
as intermináveis guerras de fronteira a frustrarem os planos de 
Castela sobre Portugal; quimeras de uma União Ibérica 
idealizada em Espanha como solução de grandeza. Franco 
também a sonhou, chegando a planear a invasão de Portugal, 
mas a derrota do III Reich obrigou-o a despertar para a realidade
AMEAÇA O avanço da Alemanha a leste foi 
acolhido com entusiasmo em Espanha e 
nasceu uma divisão de voluntários, a Divisão 
Azul, cujos soldados, nas estepes da Rússia, 
cantavam versos como: “Só esperamos a 
ordem/ que nos dê o nosso general/ para 
apagar a fronteira/ de Espanha com Portugal”
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durante a Idade Média, com lutas dinásticas e guer-
ras fronteiriças a marcarem a tensão entre os dois 
reinos, mas apesar de todos os esforços, Castela re-
velou-se incapaz de dominar Portugal.
A solução acabaria por chegar através dum ca-
samento que uniria as coroas de Castela e Aragão, 
em 1469, com o reinado dos reis católicos a marcar 
o início da era de ouro da história espanhola. Em 
1492, não só a armada de Cristóvão Colombo alcan-
çou as Américas como chegava ao fim a resistência 
do Reino Nacérida, concluindo-se de forma vitorio-
sa a Reconquista com a queda do último reduto mu-
çulmano em Granada. Em 1512, a monarquia católi-
ca passou a ser a monarquia de Espanha e Portugal 
era agora o último entrave à concretização da União 
Ibérica. Onde falhou a guerra, venceu a diplomacia, 
com a morte de D. Sebastião a abrir uma crise de 
sucessão prontamente aproveitada por D. Filipe II 
para assumir o Reino de Portugal, em 1580, e criar a 
União Ibérica num modelo que concedia a Portugal 
uma larga autonomia. Seria sol de 60 anos de dura. 
Em 1640, uma revolta rebenta em Lisboa e dá lugar à 
Guerra da Restauração, seguindo-se 28 anos de uma 
luta intensa pontuada por cinco derrotas do exército 
espanhol que culminaram no tratado de paz de 1668.
Portugal voltava a ser independente, mas Espa-
nha continuou a sonhar com a União Ibérica, um so-
nho que se tornou pesadelo no início do século XIX. 
Deslumbrado pelo poder militar do império francês, 
D. Carlos IVdecide aliar-se a Napoleão Bonaparte 
para invadir Portugal, acedendo a deixar entrar os 
exércitos franceses no seu território na crença que o 
ajudariam a alcançar Lisboa, mas acabando por ver 
os gauleses marcharem sobre Madrid para o depor e 
ao seu filho. Foi o princípio da derrocada espanhola 
que levaria ao fim do império e à perda do estatuto 
de grande potência, numa longa série de humilha-
ções que culminou com a estrondosa derrota face 
aos Estados Unidos, em 1898.
IRREDENTISMO IBÉRICO
Ao iniciar-se o século XX, os sectores mais radicais 
da sociedade espanhola acreditavam que o retorno 
à grandeza de Espanha só seria possível mediante a 
União Ibérica, e é nesse ambiente de irredentismo 
com tons de xenofobia, que um jovem cadete galego 
ingressa na Academia de Toledo, onde muitos defen-
diam que a absorção de Portugal e Marrocos seriam 
a solução para os problemas de Espanha. Em 1907, 
Francisco Franco iniciou a sua longa carreira militar 
no seio duma instituição marcada pelo revanchismo 
e chefiada por um rei que não escondia o seu dese-
jo de reinar sobre o país vizinho, uma ambição que 
se tornou mais clara três anos mais tarde, quando a 
revolução de 5 de outubro instaurou a República em 
Portugal e a crónica instabilidade política e social 
abalavam a integridade do novo regime.
Em Espanha a situação deu lugar a um discurso 
iberista público, tanto nas arengas de quartel como 
nas primeiras páginas dos jornais, e José María Sa-
laverría, correspondente do “ABC” que andava em 
Portugal a acompanhar a revolução, não se coibiu 
SEGREDO Franco e Salazar 
em 1940. Salazar fechara os 
olhos às campanhas que 
angariavam portugueses para 
servir nas bandeiras da Legião, 
mas a gratidão pelo apoio não 
alterava os planos de Franco, 
que incluíam Portugal como 
parte de um futuro império 
destinado a recuperar a 
grandeza da Espanha
O 
sonho de unir a Península Ibérica sob uma única 
coroa é tão antigo como a sua história. Tentado por 
romanos, visigodos e mouros, revelou-se tão sedu-
tor como impraticável, mas conseguiu perdurar ao 
longo do tempo. Fiéis à sua fama, os povos ibéricos 
resistiram ferozmente a todas as formas de domí-
nio exterior, numa tradição que popularizou heróis 
como Viriato, o chefe lusitano que se revelou o ter-
ror das legiões romanas, e Pelágio, o nobre visigodo 
que travou a expansão do Al-Andalus. No século XII 
a ideia parecia cada vez mais longínqua, com a Re-
conquista a desmantelar o Califado Almóada e a pe-
nínsula transformada num retalho de reinos e prin-
cipados. Foi nessa época conturbada que um jovem 
nobre venceu a sua mãe na Batalha de São Mamede 
e assumiu o poder do Condado Portucalense, com o 
título de D. Afonso Henriques.
No século seguinte, o condado foi reconhecido 
como Reino de Portugal e o seu território foi-se defi-
nindo ao ritmo da Reconquista para sul, empurran-
do as forças muçulmanas até ao Algarve ao mesmo 
tempo que se desenhava a fronteira com o Reino de 
Castela. A península parecia destinada a voltar ao 
mosaico que a tinha caracterizado na era pré-roma-
na, com vários reinos cristãos a repartirem os terri-
tórios recém-conquistados, mas Castela acabou por 
se tornar hegemónica após absorver os reinos de 
Galiza e Leão; ganhando um poder acrescido que 
despertou o ideal da União Ibérica e a ambição de 
se tornar a única coroa em toda a península. Nascia 
assim o “perigo castelhano” que foi uma constante 
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de desabafar numa das suas crónicas como “parece 
inverosímil que Espanha, passando por épocas de 
tanto poder, se distraíra em empresas estéreis e ab-
surdas, enquanto abandonava a espanholização do 
Norte de África e do reino português. A história de 
Espanha, e mesmo a história total do mundo, ter-se-
-iam transformado, se Portugal e o Norte de África 
chegassem a espanholizar.” Era uma opinião parti-
lhada por outros colegas, como Luis del Olmet, para 
quem “a oportunidade aparece propícia, fácil. Por-
tugal, dominado por uma revolução acéfala, imoral, 
atrabiliária, que descompôs e aniquilou o país, es-
tende-nos os braços.” Mas estas crónicas tendiam a 
omitir um fator de importância histórica, a profunda 
e arreigada hispanofobia que grassava em Portugal. 
Marcos Blanco-Belmonte veio a Portugal auscultar 
a opinião dos portugueses e teve uma profunda de-
silusão: “Se no povo português existe hoje um sen-
timento forte e bem definido, é o da repulsa em es-
panholizar-se. A tutela britânica, a anarquia com os 
seus excessos, os espancamentos de maçons e car-
bonários, a ditadura de qualquer género… tudo acei-
taria Portugal antes de aceitar a espanholização!”
A campanha mediática na imprensa continuou 
durante anos, mas realizar a União Ibérica estava 
fora do alcance das depauperadas forças espanho-
las, como ficou patente em 1921, quando todo um 
exército espanhol foi aniquilado em Annual em mais 
uma humilhação que abalou o país. A guerra no Rif 
mostrava a debilidade do exército, mas também foi a 
oportunidade para Franco se destacar ao ponto de se 
tornar o general mais jovem da Europa e comandar 
a temível Legião Espanhola. Em 1936, quando par-
te do exército tenta um golpe militar que falha e dá 
lugar a uma mortífera guerra civil, Franco torna-se 
líder dos rebeldes e encontra em Portugal um alia-
do da primeira hora. O Governo de Salazar autoriza 
o envio de munições quando estas estavam quase a 
esgotar-se, permite que os portos nacionais recebam 
armamento alemão que é transportado até à fron-
teira e fecha os olhos às campanhas que angariam 
portugueses para servir nas bandeiras da Legião. 
Franco e os nacionalistas tinham uma dívida com o 
Portugal do Estado Novo, mas a gratidão pelo apoio 
não alterava os planos que incluíam Portugal como 
parte de um futuro império destinado a recuperar a 
grandeza da Espanha.
A Falange, principal força política do bando na-
cional, era abertamente fascista e defendia a União 
Ibérica nas suas publicações, e mesmo entre os mi-
litares espanhóis era tema recorrente quando se 
cruzavam com os portugueses da Missão Militar 
Portuguesa de Observação em Espanha, que deixou 
registo de vários incidentes nos relatórios enviados 
para Lisboa. O capitão Luís Sousa conversou com di-
versos oficiais em 1937, e no seu relatório deixou um 
alerta para “as palavras dos mais entusiastas, muitos 
deles com representação nos meios nacionalistas, 
acerca dos seus ideais imperialistas e da necessidade 
de abolir fronteiras entre Portugal e Espanha”, uma 
ideia que o capitão rebatia recordando a história “em 
que nós portugueses para honra e glória nossa firma-
mos a nossa indiscutível independência”.
Apesar de todas as desconfianças, as duas dita-
duras acordaram em assinar o Tratado de Amizade e 
Não-Agressão Luso-Espanhol, a 17 de março de 1939, 
num passo destinado a serenar as relações entre am-
bos. Duas semanas mais tarde a guerra civil chegou 
ao fim com a vitória dos rebeldes e Espanha passou 
a viver a paz dos vencedores (e a repressão dos ven-
cidos). Era um momento difícil, com o país arrasado 
pelo conflito e o exército a sofrer uma rápida desmo-
bilização, mas o imperialismo continuava a marcar o 
tom dos discursos e o comportamento do caudilho le-
vantava suspeitas sobre o futuro. A 25 de agosto, Teo-
tónio Pereira – embaixador de Portugal em Madrid, 
enviou uma mensagem a Salazar para dar-lhe con-
ta dos seus receios sobre Franco: “Confesso a V. Ex.ª 
que cada vez tenho mais apreensões sobre as ideias 
do “Generalíssimo”. Acho-o enamorado do poder e 
do poder pessoal. De todos os que governam a Espa-
nha é ele que me diz coisas mais estranhas e que fala 
a linguagem mais próxima do eixo.”
AS GRANDES TENTAÇÕES
Essa estranheza só se acentuaria a partir de 1 de se-
tembro de 1939, quando os exércitos do III Reich in-
vadiram a Polónia acreditando que a impunidade 
do passado continuaria, mas acabando por iniciar a 
Segunda Guerra Mundial quando a França e o Rei-
no Unido declararam guerra aos nazis. Enquanto 
se preparava para o pior, o mundo assistia aopoder 
destruidor da Blitzkrieg e a situação interna espa-
nhola foi seguida de forma atenta pelo embaixador 
português, que temia a influência da Falange no go-
verno, mas não deixava de comentar com Salazar 
que “o Generalíssimo tem muito mais de Sancho 
Pança do que de D. Quixote.” Os primeiros meses 
da guerra foram indecisos e pareciam confirmar a 
sua tese, mas tudo mudou em maio de 1940, quan-
do a grande ofensiva do III Reich sobre a França 
Hitler irritou-se 
com as 
exigências do 
ditador espanhol 
e comentou que 
preferia “que 
lhe arrancassem 
quatro dentes 
a voltar a 
encontrar-se 
com Franco”
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Quase 4 mil 
espanhóis 
(e alguns 
portugueses) 
foram mortos, 
feridos ou 
capturados, 
forçando 
os alemães 
a intervir 
para conter 
a avalancha 
soviética
surpreendeu o mundo pela rapidez e aparente faci-
lidade com que a Wehrmacht derrotou o poderoso 
exército gaulês, trazendo o exército hitleriano até à 
fronteira espanhola. A retumbante vitória dos nazis 
despertou uma reação eufórica entre os fascistas es-
panhóis que acreditavam ter chegado a altura de se 
juntarem a alemães e italianos para repartir a Europa 
e as suas colónias em África. Era uma euforia pre-
matura, e deu lugar ao desencanto, quando a todo-
-poderosa Luftwaffe foi batida pela Royal Air Force 
nos céus de Inglaterra. Humilhado pela derrota es-
tratégica que quebrara o mito de invencibilidade das 
armas alemãs, Hitler não iria ficar parado e os meses 
seguintes foram de azáfama na Europa ocupada. Não 
só o exército do III Reich se mantinha intacto, como 
tinha sido alvo de uma importante expansão com 
todo o material capturado nos campos de batalha 
franceses. Centenas de milhares de soldados foram 
sendo transferidos para a Europa Central, onde no-
vas batalhas estavam prestes a ser travadas.
A notícia da derrota alemã na Batalha de Ingla-
terra acabou por ter um profundo impacto em Espa-
nha, com a exaltação belicista a arrefecer apesar do 
calor tórrido daquele verão, mas os mais irredentis-
tas continuavam a sonhar, a aguardar pela oportu-
nidade de recriar o império espanhol sob a sombra 
do espectro nazi. Foi então acordado um encontro 
entre Franco e Hitler para determinar as condições 
da entrada da Espanha na guerra. A 23 de outubro 
de 1940, os dois ditadores encontraram-se em Hen-
daia, na França ocupada, vindo acompanhados pe-
los ministros Serrano Suñer e Von Ribbentrop, duas 
personagens habituadas aos jogos de bastidores que 
não tiveram problemas em dialogar entre si, com o 
espanhol a comentar que “ninguém poder deixar 
de dar conta, ao olhar para o mapa da Europa, que, 
geograficamente falando, Portugal na realidade não 
tinha o direito de existir. Tinha apenas uma justi-
ficação moral e política para a sua independência 
pelo facto dos seus quase 800 anos de existência.” Já 
o diálogo entre Franco e Hitler ficou marcado pelo 
azedume, com Hitler profundamente irritado pela 
longa lista de exigências que lhe é apresentada pelo 
congénere galego, comentando no retorno à Alema-
nha que preferia “que lhe arrancassem quatro den-
tes a voltar a encontrar-se com Franco.”
Apesar da resistência em entrar na guerra numa 
fase em que o seu desfecho ainda não era certo, 
Franco não deixou de preparar a entrada no conflito 
e um dos planos elaborados pelo seu Estado-Maior ia 
ao ponto de detalhar a invasão de Portugal. Entregue 
a 18 de dezembro de 1940, o plano pressupunha um 
ultimato ao governo português, seguido da invasão 
ao fim de apenas 24 a 48 horas, ao estilo hitleria-
no, que deveria envolver cerca de 250 mil homens 
apoiados pela aviação e por vários grupos de blin-
dados que avançariam sobre Lisboa, usando a força 
bruta para eliminar a resistência o mais rapidamen-
te possível. Delineado poucos meses após o “Gene-
ralíssimo” ter firmado um protocolo adicional para 
reforçar o tratado de não-agressão com Portugal, o 
plano revelou o lado traiçoeiro do regime franquista 
que há muito se receava em Lisboa.
EUFORIA A LESTE
Seguiram-se meses num compasso de espera que 
parecia eternizar-se, até que chegou o dia que mu-
daria a história do conflito. A 22 de junho de 1941, 
mais de três milhões e meio de soldados do Eixo in-
vadiram a União Soviética sob o mote da guerra ao 
comunismo. O seu impacto em Espanha foi imedia-
to, com a Falange a apelar à intervenção e as ruas a 
encherem-se de milhares de manifestantes que de-
claravam a sua vontade de marchar sobre Moscovo. 
Franco percebeu a oportunidade que tinha diante de 
si e acedeu ao envio de uma divisão de voluntários 
para combater na frente leste e marcar a presença 
espanhola no que se acreditava ser uma vitória certa.
O embaixador português seguiu atentamente a 
formação da Divisão Azul e o seu envio para a linha da 
frente, escrevendo a Salazar sobre o papel da Falange 
e a personalidade do comandante eleito para a lide-
rar em combate: “O general Muñoz Grandes é aquele 
mesmo general que há dois meses me fez as declara-
ções que V. Ex.ª conhece. Muita coragem, mas muito 
pouco conhecedor de política. No fundo, um homem 
ingénuo.” Talvez Teotónio Pereira não estivesse enga-
nado quando à ingenuidade ou à falta de habilidade 
política de Muñoz Grandes, mas não deixava de ser 
um dos mais dos mais fervorosos apoiantes da União 
Ibérica e possuía uma vasta influência não só entre o 
meio castrense, mas também entre a Falange. 
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CONFLITO Um golpe 
militar falhado em 
1936 dá lugar a uma 
mortífera guerra civil 
em Espanha, e Franco 
torna-se líder dos 
rebeldes, encontrando 
em Portugal um aliado 
de primeira hora
E 32
A Divisão Azul acabou por se converter no ba-
luarte ideológico dos que propunham a intervenção 
no conflito e muitos dos seus membros eram des-
tacados militantes da Falange, um núcleo duro que 
tinha planos bem concretos e inspirava as letras das 
canções que os soldados entoavam nas longas mar-
chas pelas estepes russas, uma das quais versava 
sobre o grandioso destino imperial que aguardava a 
Espanha fascista: “Nas estepes da Rússia/ Espanha 
luta com ardor,/ unida com a Alemanha/ por uma 
Espanha melhor./ E quando a Espanha voltarmos/ 
de novo queremos lutar/ e expulsaremos o inglês/ 
do Penedo de Gibraltar./ O nosso grito de vitória/ 
no mundo inteiro o ouvirão/ quando recuperarmos/ 
todo o Marrocos e Orão/ Só esperamos a ordem/ que 
nos dê o nosso general/ para apagar a fronteira/ de 
Espanha com Portugal/ E quando isso conseguir-
mos,/ alegres podemos ficar,/ por termos consegui-
do/ fazer uma Espanha imperial”.
As canções começaram a esmorecer durante o 
duro inverno de 1941/42, quando os exércitos nazis 
foram travados às portas de Moscovo e os sonhos 
imperiais dos falangistas começaram a esfumar-
-se, uma situação seguida à distância por Teotónio 
Pereira, que estava plenamente consciente do valor 
da Divisão Azul para os planos belicistas da Falan-
ge. O embaixador não foi brando com o seu coman-
dante: “Bravo e simples, como um bom subalterno, 
mas inteiramente desprovido de miolos e de ideias” 
— porém, o general não era tão desprovido de ideias 
como a descrição indica. A 8 de abril de 1942, Muñoz 
Grandes escreve a partir da Rússia uma carta ao ge-
neral Varela, ministro do exército, onde discorre a 
sua visão sobre o futuro do seu país: “Gibraltar, Por-
tugal e Marrocos são necessários, vitais para Espa-
nha, mas não se conseguirão sem guerra.” O objetivo 
estava plenamente traçado e Muñoz Grandes acen-
tua que “a instrução militar deve ser muito intensa, 
a fabricação de guerra ao máximo e a preparação da 
nossa juventude para tal empresa não admite demo-
ra”. Longe dos corredores de poder em Madrid, e sob 
forte influência nazi, Muñoz Grandes começava a 
mostrar sinais duma ambição que despertou a aten-
ção de Franco, sempre alerta para qualquer adver-
sário interno. O general era uma figura famosa em 
Espanha, apoiado pela ala mais radical da Falange, 
sendo forte a suspeita de que Hitler e oGoverno nazi 
viam em Muñoz Grandes uma alternativa a Franco, 
o que levou o caudilho a enviar o general Esteban In-
fantes com ordens para o substituir.
Esteban Infantes assumiu o comando da unidade 
em dezembro de 1942, numa altura em que derrota 
nazi começava a desenhar-se no horizonte. Os Alia-
dos bombardeavam a Alemanha tanto de dia como 
de noite e o 6º Exército estava cercado em Estaline-
grado, definhando gradualmente até sucumbir a 2 de 
fevereiro de 1943. Uma semana mais tarde foi a vez 
da Divisão Azul sofrer uma hecatombe. No dia 10, o 
Exército Vermelho iniciou um prolongado bombar-
deamento de artilharia contra a ala direita da divi-
são, seguiram-se vagas de infantaria e tanques que 
submergiram as trincheiras dos defensores. A resis-
tência dos cerca de 5 mil espanhóis que guarneciam 
aquele sector foi acirrada, mas o rolo compressor 
soviético conseguiu tomar as primeiras linhas de 
defesa e a cidade de Krasny Bor. Quase 4 mil espa-
nhóis (e alguns portugueses) foram mortos, feridos 
ou capturados, forçando os alemães a intervir para 
conter a avalancha soviética. A notícia do desastre 
espalhou-se por uma Espanha que ficou em estado 
A realidade é 
que as ditaduras 
ibéricas se 
viram forçadas 
a adaptar-se aos 
novos tempos 
da Guerra Fria, 
sendo toleradas 
devido ao seu 
anticomunismo 
militante, 
apesar de serem 
anacronismos 
de uma 
era fascista
de choque com a enorme quantidade de mortos so-
fridos num só dia, e para o Governo de Franco ficou 
claro que era tempo de aceitar a realidade.
O FIM DO SONHO
O espírito cauteloso de Franco tinha-o feito adiar a 
entrada de Espanha na guerra até ao momento em 
que a vitória fosse certa, mas com a queda de Estali-
negrado e a Batalha de Krasny Bor, ficou claro que a 
única certeza era a derrota do III Reich e os elevados 
custos que uma aliança com os nazis iria ter para o 
seu regime. Dali em diante, a sua política passou por 
gerir o difícil equilíbrio entre a necessidade de man-
ter uma relação estável com o Eixo e continuar com a 
neutralidade que lhe permitia evitar a ira dos Aliados.
A Divisão Azul continuou na linha da frente até 
finais de 1943, sendo substituída pela Legião Azul 
quando já se adivinhava o fim do Cerco de Lenine-
grado. De menor tamanho e moral reduzida, a Le-
gião teve vida curta e em abril foi dissolvida. No seu 
retorno não houve canções imperiais sobre apagar 
a fronteira de Espanha com Portugal e os líderes fa-
langistas primaram pela ausência, ser pró-nazi tinha 
passado de moda.
Franco não conseguiu cumprir o sonho de ane-
xar Portugal, mas a sua vingança fez-se em Oliven-
ça — cidade reivindicada por Portugal, mas sob ad-
ministração espanhola desde 1801. Ali se falava de 
forma corrente o português oliventino, idioma que 
também era visível nos apelidos e nas placas das 
ruas, assim como nas raízes culturais que perdura-
vam e faziam do oliventino uma identidade única 
na península. Nos anos 40, a par da repressão po-
lítica que custou a vida a vários oliventinos que ti-
nham resistido ao golpe militar, o regime franquista 
conduziu uma agressiva campanha de aculturação 
forçada: reprimindo o uso do português, apagando 
o idioma luso das placas das ruas e procurando eli-
minar qualquer vestígio cultural que recordasse a 
história daquela região. Talvez não seja exagerado 
classificar como genocídio cultural a campanha de 
erradicação da cultura oliventina em prol duma cas-
telhanização homogeneizadora, um modelo que po-
deria ter servido de exemplo para Portugal, se Fran-
co e os nacionalistas espanhóis tivessem cumprido 
o sonho da União Ibérica.
A realidade é que as ditaduras ibéricas se viram 
forçadas a adaptar-se aos novos tempos da Guerra 
Fria, sendo toleradas devido ao seu anticomunismo 
militante, apesar de serem anacronismos de uma era 
fascista. Espanha foi perdendo os sonhos imperiais e 
optou por apostar na economia, enquanto Portugal 
arrastou-se numa guerra colonial que corroeu o re-
gime até o derrubar, a 25 de abril de 1974. Nesse mo-
mento em que os ventos da liberdade voltavam à pe-
nínsula, alguns reacionários espanhóis ainda sonha-
ram com uma intervenção militar sobre o vizinho 
que serviria de prenúncio para a sua anexação, mas 
nessa altura já Franco era uma sombra de si mesmo, 
falecendo no ano seguinte e abrindo caminho para o 
retorno da democracia a Espanha. Morreu o ditador, 
mas o ideal iberista está longe de desaparecer. Basta 
ver os mapas com que o Vox — partido espanhol de 
extrema-direita — representa a península, ou o dis-
curso de alguns dos seus militantes, são sinais cla-
ros de que o ideal de uma União Ibérica se mantém 
vivo na atualidade, fantasias de quem não consegue 
aceitar a realidade. b
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JAY 
GOULD
A ciência 
de uma vida
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O percurso 
idiossincrático 
de um inesperado 
historiador da 
evolução humana 
que se apaixonou 
por dinossauros 
aos 5 anos
TEXTO 
JORGE REIS-SÁ 
ESCRITOR, EDITOR 
E BIÓLOGO
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ão 1438 páginas. O papel é fino, sedoso, única forma 
de manter exequível o transporte de um tão grande 
volume. A capa é dura, com um tecido verde-claro 
a envolver o cartão e a representação de uma amo-
nite gravada a dourado no centro. A sobrecapa está 
plastificada a mate, mas com um retângulo destaca-
do com verniz localizado, realçando o caracol em-
poleirado num caule — e o pôr do sol ao longe. Na 
sobrecapa percebe-se o nome e o título e, numa se-
gunda linha, o desenho de Agostino Scilla, datado 
de 1670, representando um fóssil antigo de um co-
ral — antigo no que representa e também na própria 
representação.
Mas onde verdadeiramente nos detemos é na 
contracapa. A fotografia ocupa mais de metade do 
espaço e tem o mesmo realce da do caracol. É um 
homem. Está sentado numa cadeira, talvez uma pol-
trona, sobre o lado esquerdo do corpo. A perna di-
reita cruza a esquerda, porque o seu tronco, se nos 
olha, está desalinhado com a cara. Ele oferece-nos o 
perfil e perscruta, imaginamos, um horizonte inexis-
tente na sala. Não tem a barba estranha da juventu-
de, com o cabelo alvoraçado. Nem o bigode solitário, 
mais adulto, que estabelecia a sapiên cia desenvolvi-
da mais tarde. Tem o cabelo bem pen teado, fino pela 
idade, percebendo-se branco mesmo na fotografia 
sem cor. Tem os olhos fundos, claros como sempre, 
e as mãos dadas uma à outra, debruçando-se da ca-
deira e fazendo sobressair a camisa desalinhada e 
uma camisola interior a assomar ao pescoço. São, no 
entanto, duas as coisas que lhe dão o nome e imedia-
tamente o identificam: os óculos pendurados pelo 
fio, caindo sobre a barriga; e o bolso da camisa, so-
bre o lugar onde dizem que tinha o coração, cheio de 
canetas e papéis dobrados. Numa fotografia encena-
da, disseram-lhe para ser o de sempre.
O homem chama-se Stephen Jay Gould e o livro 
“The Structure of the Evolutionary Theory”. Consi-
derado o seu opus magnum, apresenta-se pelo pró-
prio título — embora seja a ‘sua’ estrutura da teoria 
da evolução. Depois de centenas de artigos científicos 
com revisão de pares; depois de mais de 300 ensaios 
de divulgação científica na “Natural History” (entre 
1974 e 2001, uma vez por mês, sem nunca ter falha-
do); depois de mais de duas dezenas de livros, dos 
quais dez reunindo estes mesmos textos, e a unânime 
consideração como um dos mais importantes divul-
gadores de ciência da segunda metade do século XX; 
depois de ter cunhado dois conceitos de novo na teoria 
da evolução, em dois artigosagora considerados se-
minais — o de “exaptação” (com Elisabeth Vrba, em 
1982) e o dos “equilíbrios pontuados” (com Nicolas 
Eldredge, em 1972); depois de tudo isto, Gould coli-
ge todo o seu pensamento sobre a teoria da evolução 
num só volume. Se bem que nunca tenha aceitado a 
separação entre os artigos com e sem revisão de pa-
res, apresentando-os como duas faces de uma mesma 
moeda, sem distinção valorativa, o facto de ter edita-
do este volume quando resolvera terminar a sua cola-
boração com a “Natural History” é revelador de uma 
necessidade de estabelecimento de um pensamento 
científico estrito, como se tudo aquilo que fez ao longo 
de 30 anos nos ensaios dessa revista fosse pouco. Não 
foi. E, mais ainda do que muita ciência e divulgação, 
foi história da ciência. Mas porquê?
DOS CARACÓIS À VISÃO DA VIDA
Stephen Jay Gould nasceu em 1941, em Nova Iorque. 
É já parte da mitologia a ele associada — e muito para 
seu desdém — que o seu interesse pela Paleontologia 
adveio de uma visita que fez, com o seu pai, ao Mu-
seu de História Natural de Nova Iorque quando tinha 
5 anos. Fascinado pelo esqueleto do T. Rex, não ima-
ginou a partir daí outra vida que não fosse o estudo 
dos fósseis. Deixou a infância para trás e foi para a 
Universidade de Antioch, no Ohio, graduar-se em 
Geologia em 1963. Quatro anos depois, era profes-
sor associado em Harvard, universidade de onde não 
mais sairia, tornando-se um dos seus mais célebres 
docentes. Escreveu o seu primeiro artigo científico 
com revisão de pares em 1966, ainda como estu-
dante de doutoramento, não certamente por acaso 
versando o assunto que seria o do seu primeiro livro 
técnico ou, como melhor diria ele mesmo, “para um 
público mais especializado”. Entre uma coisa e ou-
tra rendeu-se aos encantos dos caracóis dos géneros 
Poecilozonites e Cerion, pretexto da tese com que se 
doutorou na Universidade de Colúmbia, sob a orien-
tação do eminente evolucionista Norman Newell.
Pela sua carreira como cientista foi agraciado 
com várias distinções, sendo talvez a mais impor-
tante a Medalha Darwin-Wallace (em 2008, pelo 
que já atribuída a título póstumo). Foi a partir de 
1973 curador do Museu de Zoologia Comparativa de 
Harvard e, nove anos depois, foi distinguido com o 
título de professor Alexander Agassiz de Zoologia 
da mesma instituição. Foi também professor visi-
tante Vincent Astor de Biologia na Universidade de 
Nova Iorque (desde 1996 até 2002, data da sua mor-
te). Quando morreu, devido a um cancro no pul-
mão diagnosticado apenas três meses antes, era 
considerado um dos mais conhecidos cientistas do 
mundo, fama também granjeada pela sua tão vocal 
e ativa postura pública, que lhe trouxe a polémica e 
o reconhecimento — não foram muitos os cientistas 
que tiveram voz e personagem em “Os Simpsons”.
A polémica e o reconhecimento citados decor-
riam do tema a que decidira dedicar a sua vida cien-
tífica — a evolução biológica. Se era um paleon tólogo, 
se era um biólogo, se era um divulgador científico (e 
se era um historiador da ciência, já lá chegaremos), foi 
porque decidiu usar todas estas disciplinas para ilus-
trar a sua “Visão da Vida” (nem por acaso, o título, a 
partir de Darwin, que escolheu para a sua colabora-
ção na “Natural History”). A temática da evolução é 
dada a exacerbar ânimos, por quanto acaba por co-
locar em causa os alicerces do entendimento do Ho-
mem e da sua própria origem — tudo o que for aceite 
para a evolução de um caracol pode, por maioria de 
razão, ser extrapolado para o animal humano.
As razões para a polémica não eram só, no en-
tanto, as que o opunham a criacionistas ou outros 
descrentes na ciência. Eram também dentro da 
própria “estrutura” do estudo da evolução biológi-
ca. Gould era um antideterminista, um feroz opo-
sicionista do ultra-adaptacionismo e o proponente 
mais importante da nova teoria dos equilí brios pon-
tuados, muito em oposição ao pensamento reinante 
na área por essa altura. As suas metáforas, de fácil 
entendimento (desde os tímpanos de arco da Cate-
dral de São Marcos, de um importante artigo com 
Richard Lewontin em 1979, ao polegar do panda ou 
ao sorriso do flamingo), opunham-se com muito su-
cesso às teorias menos metafóricas de outros cien-
tistas (por exemplo, a da Sociobiologia de Edward 
O. Wilson) e, pelo menos com o mesmo sucesso, às 
que jogavam no mesmo jogo metafórico (por exem-
plo, a de gene egoísta de Richard Dawkins). Com 
tanta acutilância e assertividade nos seus textos, a 
que se somava outro fator de que daremos conta de 
S
E 37
livro de Futuyma permite perceber que Gould tem 
sete artigos como autor único, seis em colaboração 
e dois livros referidos (note-se que nenhum des-
tes é dos ensaios ou compilações da “Natural His-
tory”). Esta contagem deverá ser comparada com a 
de outros eminentes evolucionistas: Theodosius Do-
bzhansky, o nome fundamental da Síntese Moder-
na da Evolução, tem referidos o mesmo número de 
artigos como autor único, quatro em colaboração e 
dois livros; Maynard Smith, dez artigos como autor 
autónomo, cinco com colaboradores e quatro livros; 
Ernst Mayr, nove como autor único, três em colabo-
ração e cinco livros. É evidente que Gould ombreia 
com estes três grandes evolucionistas.
Gould era, portanto, um cientista. E um divul-
gador de ciência. E ainda — confirma-nos Mi chael 
Shermer no artigo que escreveu analisando os temas 
de todos os seus artigos mais técnicos bem como os 
da “Natural History” e de todas as suas críticas a li-
vros de outros cientistas — um profícuo historiador 
da ciência. Segundo Shermer, Gould, das 101 críticas 
escritas e publicadas, fez 30 a livros que versavam 
história da ciência, sendo 23 a livros de teoria evo-
lutiva e as restantes sobre outros assuntos. No caso 
dos artigos com revisão de pares, se bem que quase 
um quarto, como seria expectável, versem a teoria 
evolutiva, é inesperado que 15% (em segundo lugar 
na divisão analítica) sejam sobre história da ciên-
cia. E nos 300 artigos da “Natural History”, quase 
metade (148) têm como tema principal a história da 
ciência, sendo apenas 78 sobre a teoria evolutiva e os 
restantes sobre outros temas. Stephen Jay Gould foi, 
afinal, um eminente historiador da ciência. E, em-
bora o também historiador da ciência Ronald Num-
bers não se tenha coi bido de dizer que “há muito que 
acho que Gould é o segundo mais influente historia-
dor da ciência do século XX (com Thomas Kuhn)”, o 
que nos parece evidente é que, se quisermos definir 
Gould com poucas palavras, “historiador da ciência” 
deverá aparecer depois de evolucionista, paleontó-
logo, divulgador científico e, até, polemista. Porque 
será? Para tentar responder a isto, vejamos primeiro 
um dos termos que cunhou: o de exaptação.
TÍMPANOS, ASAS E ÓCULOS
Stephen Jay Gould ainda demorou uns anos para 
chegar a este termo. Antes, um artigo na revista da 
Royal Society of London apresentou à comunidade 
científica os tímpanos de arco da Catedral de São 
Marcos, que já citámos atrás. Mas, nessa altura, os 
críticos — principalmente os críticos — focaram-se 
mais em Pangloss do que no que representava a me-
táfora arquitetónica — afinal, o artigo que assinara 
com Richard Lewontin era uma crítica feroz ao cha-
mado programa adaptacionista, usando para isso o 
personagem do “Cândido”, de Voltaire, que nos di-
zia que “as coisas não podem ser de outra maneira... 
Tudo é feito para o seu melhor propósito. Os nossos 
narizes foram feitos para colocar os óculos, logo te-
mos óculos”. Por trás, no entanto, já se aproximava 
a exaptação, termo apresentado no artigo de 1982, na 
Paleobiologia e também em colaboração (no caso, 
com Elisabeth Vrba). Os tímpanos de arco da Ca-
tedral de São Marcos são, portanto, um produto se-
cundário de um desenho arquitetónico, uma exap-
tação ainda não nomeada.
Definamos então o termo cunhado por Gould: 
quando uma característica, tendo a sua função ini-
cial sido originária por seleção natural (uma adap-
tação, portanto) ou por outra razão qualquer nãoTRABALHO Gould era um excelente escritor e conseguiu um grande sucesso editorial com os seus livros. Simplificava, sem os tornar simplistas, os temas científicos
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seguida, talvez fosse expectável que tivesse tantos 
admiradores como detratores.
Qual fator? A divulgação científica. Gould era um 
excelente escritor e conseguiu um grande sucesso 
editorial com os seus livros. A forma como simplifi-
cava, sem os tornar simplistas, os temas cien tíficos, 
inseridos numa narrativa clara e apreensível, deveria 
tê-lo tornado um exemplo para os restantes cientistas. 
Mas a verdade é que o preconceito, cunhado no que 
se convencionou chamar “efeito Sagan”, levou mui-
tas vezes a melhor, não entendendo muito do meio 
científico nem a necessidade nem a forma como os 
divulgadores cien tíficos apresentavam temas, que 
considera riam tão complexos, ao grande público. 
Gould, que era um cientista, foi sempre desconside-
rado como “divulgador científico”, da mesma forma 
que o foi Carl Sagan. Veja-se o parágrafo que escreveu 
sobre o próprio Sagan, depois da sua morte: “Como 
Saul desprezava David por receber milhares de laudas 
contra as suas algumas centenas, também cientistas 
muitas vezes estigmatizam, pela mesma razão de um 
comum ciúme, o bom trabalho feito pelos colegas, até 
para seu próprio benefício. [...] Porque diminuímos 
nós a reputação profissional dos colegas que conse-
guem comunicar o poder e a beleza da ciência para 
os corações e mentes de uma fascinada e maioritaria-
mente informada audiência?”
E, se dizemos que era um cientista — antes ainda 
de completar que, talvez mais ainda, era um histo-
riador da ciência —, é porque basta uma análise a um 
único livro para que isso seja claro. No caso, “Evolu-
tionary Biology”, de Douglas J. Futuyma, que é um 
dos mais importantes (senão mesmo o mais impor-
tante) compêndio para o estudo avançado da evo-
lução. Uma leitura das referências bibliográficas do 
E 38
A abrangência 
de Gould faz 
com que o 
vejamos como 
evolucionista, 
paleontólogo, 
divulgador 
de ciência 
e polemista, 
antes de o 
vermos como 
historiador 
da ciência
atribuível à seleção natural (uma não adaptação), é 
coatada para uma nova função, estamos na presen-
ça de uma exaptação.
Não nos alongaremos em exemplos, que vão des-
de a genitália masculina nas hienas fêmeas à cor-
cunda do alce gigante irlandês. Deter-nos-emos nas 
asas de uma ave, no caso com uma função adaptati-
va anterior: a garça-preta, Egretta arde siaca. Esta é 
uma ave pernalta que se alimenta nos pântanos do 
sul de África, da Grécia e de Madagáscar. A carac-
terística que a evidencia é a que decorre da forma 
como se alimenta. Tendo como dieta crustáceos e 
pequenos peixes, a garça-preta usa as asas de plu-
magem negra para, abertas por cima da cabeça en-
quanto olha para a água em baixo, fazer sombra e, 
assim, eliminar o reflexo que o céu faria na superfí-
cie e que a impediria de ver o que se movimenta na 
água. Um exemplo claro de uma característica se-
lecionada naturalmente (no caso, as asas das aves, 
com a função do voo), que é depois exaptada para 
outra função. Gould e a história da ciência, portan-
to. Portanto? Sim. Vejamos como.
A EXAPTAÇÃO DE STEPHEN JAY GOULD
Já aqui citámos Ronald Numbers, cujo depoimento 
recolhido por Shermer nos elucida da importância 
que alguns deram ao trabalho de Gould como his-
toriador da ciência. No mesmo artigo, Michael Sher-
mer reitera esta afirmação através da contabilização 
das indexações de Gould no volume anual “Current 
Bibliographies” na mais proeminente revista de his-
tória da ciência, “Isis”: são 169 em 23 anos, sendo 
que os únicos nomes que têm mais são Aristóteles, 
Kant, Goethe e Newton. “Nenhum outro historiador 
da ciência chega perto de Gould na criação de tanta 
história da ciência, o que suporta a visão de Num-
bers de que Gould e Kuhn podem ser vistos como 
dois dos maiores historiadores da ciência do sécu-
lo XX”, conclui Shermer. Então, o que faz com que 
não pensemos em Gould como pensamos em Kuhn 
quando o tema da história da ciência surge?
Uma das razões já foi aflorada anteriormente e 
tem a ver com o carácter quase polímato de Gou-
ld (que o próprio descartava: “Sou um minimalis-
ta, não um polímato; o que sei de planetas e política 
está sempre na sua intersecção com a evolução bio-
lógica”). Esta abrangência de Gould faz com que o ve-
jamos como evolucionista, paleontólogo, divulgador 
de ciência e polemista antes de o vermos como his-
toriador da ciência. Mas é exatamente nesta citação, 
onde se diminuiu no que aos seus interesses e co-
nhecimentos diz respeito, que acaba por estar a cha-
ve para a pergunta que fecha o parágrafo anterior: a 
leitura dos textos onde a história da ciência é o tema 
principal permite-nos concluir que, muitas das ve-
zes, esta é por Gould usada exaptativamente. Ele é um 
historiador da ciência cujo interesse primordial de es-
tudo não parece ser nem a história nem a ciência do 
tempo citado. Shermer di-lo de uma forma lapidar: 
“Gould utiliza a história da ciência para reforçar cer-
tas interpretações teóricas dos dados da vida — tanto 
biológicas como culturais — que melhor se adaptam à 
sua visão do mundo. Como os seus críticos costumam 
salientar, nem todos os paleontólogos aceitam esta 
visão contingente e não progressista, por isso Gould 
está a construir o seu caso através de todos os canais 
disponíveis.” Permitimo-nos então acrescentar: em 
Gould, a história da ciência é uma exaptação da defesa 
da sua teoria evolutiva. Gould precisa de argumentos 
para validar a estrutura da sua teoria e, por isso, tor-
na-se um profícuo historiador da ciência. Gould dá à 
disciplina de história da ciência outro uso, diferente 
do que lhe parecia estar destinado. Reveste-a de ou-
tra função. A história da ciência são as asas de Gould. 
Dantes, a garça-preta apenas as usava para voar. De-
pois, numa exaptação, usou-as com a função de som-
bra no baixio para conseguir ver os peixes e, assim, 
os caçar. Gould usa a história da ciência para fazer 
o mesmo — mas dando mais luz sobre a sua teoria.
Um exemplo deste carácter exaptativo: o artigo 
da “Natural History”, publicado sob o título “A Sele-
ção Natural e o Cérebro Humano, Darwin vs. Walla-
ce” no livro “O Polegar do Panda”, onde a partir de 
uma análise dos dois grandes personagens do ad-
vento do estudo da evolução, Charles Darwin e Rus-
sell Wallace, Gould nos encaminha para uma crítica 
ao programa adaptacionista que pouco antes tinha, 
num artigo dito técnico e com revisão de pares, ex-
planado com Lewontin. O seu carácter polímato e 
exaptativo vê-se também noutras apropriações his-
tóricas. Para realçar o tema da contingência, um dos 
seus mais caros na evolução, Gould fala-nos do ar-
ranjo do teclado das máquinas de escrever no artigo 
“O Polegar do Panda da Tecnologia” (depois no livro 
“A Feira dos Dinossauros”) e de ilustrações cientí-
ficas em “Quando os Fósseis Eram Jovens” (este no 
último livro de ensaios, “I Have Landed”). Talvez, no 
entanto, onde mais se veja esta exaptação da história 
da ciência seja em algo lateral à própria teoria evolu-
tiva (embora apenas ilusoriamente, como veremos): 
o livro “A Falsa Medida do Homem”. Publicado em 
1981, com uma reedição aumentada em 1996, foi 
o livro com mais repercussão de Gould, aclamado 
como uma obra-prima. Diz Gould: “Este livro dis-
cute, numa perspetiva histórica, uma das principais 
teses do determinismo biológico: que o valor dos in-
divíduos e dos grupos sociais pode ser determinado 
medindo a inteligência sob a forma de um valor numé-
rico único [itálico do autor].” Se algo mais evidente 
fosse necessário, notemos a forma como ele estabe-
lece nesta frase a importância da questão histórica 
para a discussão de um tema que lhe é tão caro nou-
tros contextos: o determinismo biológico.
Esta hipótese exaptativa está também bem paten-
te na citação favorita de Gould, não surpreendente-
mente da autoria de Charles Darwin, inscritanuma 
carta a Henry Fawcett: “Acho estranho como uma 
pessoa não perceba que todas as observações devem 
ser contra ou a favor de alguma posição, acaso se 
queira que sirvam para alguma coisa.” A exaptação 
de Gould está ao serviço da sua “Visão da Vida”. b
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INFÂNCIA O interesse pela Paleontologia adveio de uma visita que fez, 
com o seu pai, ao Museu de História Natural de Nova Iorque quando tinha 5 anos
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E 40
Já ninguém 
define a 
fronteira 
entre o 
bom e o 
mau gosto”
Entrevista 
Louis Menand
E 41
Premiado com um Pulitzer, o autor 
de “O Mundo Livre — Arte e 
Pensamento na Guerra Fria”, livro 
finalista do National Book Award, 
fala sobre a origem dos EUA 
enquanto potência cultural
POR CRISTINA MARGATO (TEXTO)
E TIAGO MIRANDA (FOTOGRAFIAS)
E 42
inda que não estivéssemos sob in-
fluência dos Óscares, como estamos, 
seria impossível discordar da ideia de 
que os EUA são uma potência cultu-
ral. Como diz, nesta entrevista, Louis 
Menand (Nova Iorque, 1952), norte-
-americano de gema apesar do nome 
francês, é preciso levar em conta o 
facto de “a indústria cultural ser uma 
das grandes exportações da economia 
dos EUA”. Mas, o que hoje é economia 
também já foi política, ou começou 
por ser sobretudo uma intenção po-
lítica. O autor, galardoado com o Pré-
mio Pulitzer de História, com “The 
Metaphysical Club”, decidiu inves-
tigar as raízes do processo de expan-
são que levou a cultura norte-ame-
ricana a quase todos os cantos do 
planeta. Em “O Mundo Livre — Arte 
e Pensamento na Guerra Fria” (Elsi-
nore, 2023) — finalista do National 
Book Award —, o historiador, profes-
sor em Harvard e colaborador regu-
lar da “The New Yorker”, galardoado 
com a National Humanities Medal 
pelo Presidente Barack Obama, de-
senvolve uma narrativa romance-
ada e envolvente. Ao longo de mais 
1100 páginas, fala das figuras-chave 
desta história, da forma como estes 
se foram encontrando, muitas vezes 
por “mero acaso”, das influências 
que estabeleceram, dos conflitos que 
desencadearam, num mundo onde 
quase tudo estava por construir e no 
qual a prioridade passava por usar a 
cultura “enquanto instrumento de 
política externa, ou seja, propaganda 
capitalista”. Pelo caminho descons-
trói alguns dos mitos, algumas ideias 
que assimilamos em livros anteriores, 
mostrando que “a nossa experiên-
cia presente é exatamente aquilo que 
atribui ao passado o seu significado. A 
história não é um conjunto de factos, 
mas o significado de factos.” Cortar e 
colar factos não é a sua intenção, con-
forme defende nesta entrevista reali-
zada em Lisboa.
Leu “The Cultural Cold War”, de 
Frances Stoners Saunders, 1999, 
acerca da influência da CIA na cul-
tura e arte nos Estados Unidos e no 
mundo, mas ao fazer a investigação 
para o seu livro não confirmou essa 
tese, pois não?
Não. Esse livro causou um grande 
impacto, na altura em que saiu. Eu 
li-o, e fiquei bastante entusiasma-
do. Quando comecei esta investiga-
ção pensei que encontraria um pe-
ríodo mais próximo daquele que o 
livro descreve, mas ao seguir a his-
tória até onde esta me levou percebi 
que o envolvimento da CIA não é o 
que se pensava. O livro de Saunders 
tem uma grande quantidade de cita-
ções mal efetuadas e erros de tradu-
ção, que acabei por mencionar nas 
minhas notas de rodapé. Muitas das 
ideias de Saunders eram especula-
tivas, não partiam de evidências, e 
o livro é sintomático da perspetiva 
que certos críticos norte-americanos 
adotaram quando olharam para este 
período, enfatizando a influência da 
Guerra Fria na arte. Eu não preten-
dia que o meu livro fosse uma res-
posta a um livro lançado há 20 anos, 
até porque já se sabia que essa tese 
estava errada. Na verdade, não havia 
nada de político no que os artistas 
estavam a fazer naquela época. Eles 
só pensavam em fazer arte — ainda 
que estivessem conscientes da Guerra 
Fria. Por outro lado, quis também re-
gressar a pessoas como Jackson Pol-
lock, John Cage, Allen Ginsberg, para 
perceber o que é que eles estavam a 
fazer e porque o faziam, sem neces-
sidade de o explicar através da Guerra 
Fria. Tentei trazer aos leitores algo de 
novo, e acho que as explicações que 
encontrei são melhores e mais ver-
dadeiras. Menciono a Guerra Fria nos 
EUA sempre que a considero impor-
tante e dediquei à CIA um capítulo, 
que aparece no fim.
Mas a CIA não deixa de ser parte da 
história…
Sim, embora esse envolvimento da 
CIA explique muito menos do que 
aquilo que se pensava. Nos EUA e 
também na Europa, o período que 
vai de 1949 a 1960 é visto como uma 
época de conformismo, sem grandes 
rasgos de originalidade, com algu-
ma ansiedade política e medo. Mas 
eu não encontrei isso. As pessoas so-
bre as quais escrevo não estavam, de 
todo, a sentir isso. Quando comecei 
tinha, de facto, na minha cabeça a 
história de Saunders, e no final tinha 
outra história.
Pollock queria questionar o que era 
uma tela, Beckett o que era uma peça 
de teatro. Os artistas estavam preo-
cupados com as formas, e faziam 
perguntas...
Penso que existiam razões para se fa-
zer esse tipo de perguntas. As ques-
tões políticas aparecem mais tar-
de, com a Guerra do Vietname, mas 
o meu livro acaba antes dessa épo-
ca começar. A primeira das razões 
A disparidade do rendimento 
entre 1950 e 1970 foi a mais 
baixa de sempre. No início do 
século XXI, a disparidade cresce 
muito rapidamente, o que gera 
ansiedade económica”
A
E 43
estava relacionada com uma crise 
que durou quase dez anos, à qual se 
seguiram os seis anos da Segunda 
Guerra Mundial. Depois de 1945, toda 
a gente quis virar a página e começar 
de novo. Afortunadamente, depois 
de 1947 e 1948, seguiu-se um perío-
do de grande prosperidade económi-
ca em todo o mundo. Registou-se um 
crescimento muito rápido, primeiro, 
no bloco soviético, mas também nos 
países da América Latina e até em 
Portugal. O produto bruto mundial 
teve um crescimento na ordem dos 5 
por cento ao ano. As pessoas da classe 
média, brancas, sentiam — até de um 
modo subconsciente — que a vaga 
lhes era favorável, que podiam cor-
rer riscos, sem que isso significasse 
uma grande queda. Sentiam-se es-
táveis. Também tenho a ideia de que 
o risco foi muito encorajado. Depois, 
deve-se ainda ter em conta que esse 
foi o período da história em que a 
diferença entre os detentores do capi-
tal e a classe média foi a mais baixa de 
sempre. Thomas Piketty fala nisso em 
“O Capital no Século XXI”: A dispari-
dade do rendimento entre 1950 e 1970 
foi a mais baixa de sempre da história, 
até porque a crise e a guerra tinham 
eliminado os mais abastados. Estava-
-se a começar de novo, ao contrário 
do início deste século XXI, em que a 
disparidade cresce muito rapidamen-
te, o que gera ansiedade económica. 
Não penso que naquela altura as pes-
soas se tivessem a sentir da mesma 
maneira, e isso encorajava-as a ex-
perimentar coisas novas. A segunda 
razão tem a ver com a Guerra Fria. 
Os EUA queriam passar uma men-
sagem. Queriam anunciar ao mundo 
que a sua sociedade era melhor do 
que a socialista, comunista e sovié-
tica, porque não diziam aos artistas o 
que pintar, o que escrever. A mensa-
gem a passar era: Damos liberdade de 
pensamento e de expressão às pesso-
as, e isso é melhor do que dizer-lhes 
para fazer arte ou compor música de 
uma certa maneira, porque, de outro 
modo, serão enviados para os campos 
de trabalho. E, depois, aparece um 
artista que pensa: “E se colocar a tela 
no chão e começar a atirar tinta, isso 
é uma pintura?” E os críticos pen-
sam: “Se a única coisa que temos para 
mostrar é uma peça na qual deixaram 
cair uma série de gotas de tinta, en-
tão essa peça tem de ser apresentada 
como arte, e tem de aparecer algo que 
explique que isso éalgo interessante 
do ponto de vista artístico.” Acontece 
o mesmo com a “Soup Can” do Andy 
Warhol ou com a peça de quatro mi-
nutos e 33 segundos para piano de 
John Cage. De outro modo, apenas se 
estaria a deixar que os artistas fizes-
sem algo que, na verdade, não era de 
muito valor. Eu não acredito que os 
artistas pensassem desse modo. Eram 
os críticos que pensavam assim e que 
podiam dizer por que razão aquela 
tela era um trabalho artístico, e por-
que é que havia poesia na poesia, na 
tela no chão, na peça silenciosa de 
Cage. Para que os consumidores pu-
dessem perceber a arte era preciso ter 
críticos que a explicassem. O propó-
sito nacional assim o pedia.
O que Pollock faz não é apenas a 
continuação do que já tinha sido 
feito pelos dadaístas e surrealis-
tas? A conceção de arte já tinha sido 
desafia da, embora a guerra tenha 
interrompido a circulação dessas 
ideias...
De facto, a Grande Depressão e a Se-
gunda Guerra Mundial dificultaram 
a circulação de ideias, que depois 
pode finalmente acontecer. Até esse 
período os artistas norte-americanos 
estavam a trabalhar na tradição que 
eles conheciam. Mas o que fizeram a 
E 44
seguir não foi tão radical como aqui-
lo que os futuristas queriam. Eles não 
queriam incendiar museus. Não que-
riam fazer piadas. Quando John Cage 
escreveu a peça de 4 minutos e 33 
segundos tinha um objetivo ascéti-
co, artístico tradicional, que era le-
var as pessoas a ouvir melhor. Ele 
queria dizer: “Isto deve ser ouvido tal 
como se ouve Chopin, mas é diferen-
te”. Cage queria que a peça tivesse o 
mesmo efeito iluminador no ouvinte 
que uma peça de Chopin, e é aí que 
deve ser procurada a verdade acerca 
das figuras deste período. Os artistas 
norte-americanos não são antiarte de 
todo, eles querem produzir um efeito 
ascético tradicional de um modo di-
ferente. O que Cage faz não decorre 
do espírito do dadaísmo. Eles não es-
tão à procura da verdade na socieda-
de, mas dentro deles.
No seu livro conta ao detalhe a his-
tória de como estas pessoas se vão 
conhecendo umas às outras, o que 
parece, muitas vezes, ter acontecido 
por mero acaso. Como é que encon-
trou essas histórias?
Apareceram, simplesmente, duran-
te a investigação. Percebi que as pes-
soas se encontram umas às outras de 
modo surpreendente, e que por cau-
sa disso acontecem outras coisas. É 
o caso de Jasper Johns e de Robert 
Rauschenberg, de que falo no livro. 
Rauschenberg não estava a conseguir 
mostrar o seu trabalho, mas encon-
trou uma galeria na 7ª avenida, em 
Nova Iorque, a Stable Gallery, onde 
poderia mostrar o seu trabalho se a 
limpasse, já que a galeria costuma-
va ser um estábulo de cavalos, o que 
fazia com que cheirasse mal. Então, 
ele começou a limpar a galeria à noi-
te. Jasper Johns, que ele nunca tinha 
conhecido, estava a trabalhar numa 
livraria na 57ª rua perto da 7ª Aveni-
da, e numa das noites em que Raus-
chenberg caminhava para casa, Johns 
encontrou alguém que conhecia aos 
dois e que os apresentou um ao outro. 
Rauschenberg e Johns tornaram-se 
amantes, mudaram-se para a Village 
e alugaram dois lofts, um por cima do 
outro. No espaço de um ano muda-
ram completamente o seu trabalho. 
Johns pintou a bandeira americana, 
e Rauschenberg começou a fazer as 
colagens tridimensionais pelas quais 
ficou conhecido. Inspiraram-se, cla-
ramente, um ao outro no trabalho 
que havia de fazer a diferença e esta-
belecer as suas carreiras. Mas nunca 
teria acontecido se Rauschenberg não 
estivesse a limpar o estrume de cava-
lo da galeria.
Mas podiam ter-se conhecido de ou-
tra forma.
Ou não, e a história teria sido outra...
É interessante que faça todas estas 
ligações detalhadas, como aquela 
em que prova que um determina-
do crítico escreveu um artigo não 
mencionando as suas verdadeiras 
influências...
Sim, é o caso de Harold Rosenberg 
[que cunhou o termo ‘Action Pain-
ting’]. Mas ninguém sabia disso, fui 
eu que descobri essa história. Ele ti-
nha intenção de escrever um arti-
go completamente diferente daque-
le que veio a publicar. Era um tipo 
com muito mau feitio, zangou-se 
com Jean-Paul Sartre, por uma razão 
mesquinha. Guardou o artigo, e ten-
tou publicá-lo noutra revista depois 
de o reescrever. Acabou por ter um 
enorme impacto.
E o mais curioso é que o texto foi 
completamente no sentido oposto do 
que ele pretendia no início...
Sim, completamente.
Seria possível alcançar este tipo de 
importância nos nossos dias?
O jornalismo cultural já não tem a 
mesma autoridade que tinha. Tradi-
cionalmente, a história intelectual re-
sulta de uma espécie de cadeia suces-
sória de livros de bonecas de papel. 
Está aqui um livro, e há um livro que 
responde àquele livro, e depois há 
outro livro. Está aqui Kant, está aqui 
Hegel, está aqui Marx... Os livros fa-
lam para outros livros, e quem os es-
creve nunca se coloca ao nível do que 
as pessoas pensam, leem ou fazem. 
Só se pensa na ligação entre ideias. 
Não defendo que essa seja a forma 
com a história intelectual funciona. 
Acredito que as pessoas fazem o que 
este crítico fez, ou seja, que mudam 
de opinião porque querem publicar o 
seu texto, e que por vezes acabam por 
ter um efeito completamente diferen-
te daquele que imaginaram. Depois, 
as pessoas também interpretam as 
coisas de forma errada. Veja-se o caso 
da influência de Faulkner no pensa-
mento francês. Os franceses não per-
ceberam o Faulkner, em parte porque 
as traduções francesas dos seus livros 
não soavam tal como o Faulkner nor-
te-americano, e isso teve um grande 
impacto na cultura francesa. Fizeram 
todo o tipo de assunções a partir des-
sas traduções. Eu tento fugir ao méto-
do dos livros de bonecas de papel, do 
corta e cola, ao tentar enfatizar o que 
foi acidental, biográfico, o que foi ne-
gligenciado, mal interpretado ou que 
resulta da serendipidade.
Não é costume levar muito a sério a 
serendipidade. Porquê?
Porque queremos fazer essa história 
dos livros de bonecas de papel, de 
modo a que tudo se transforme na-
quilo que achamos que aconteceu, 
quando na verdade aconteceram uma 
série de factos acidentais, e isso nem 
sempre parece lógico.
Também sabemos que isso aconte-
ce no nosso trabalho jornalístico, há 
quem procure uma intenção secre-
ta, quando nós sabemos que ela não 
existe.
Sem dúvida. As pessoas pensam que 
há uma espécie de zeitgeist, e pensam 
que as coisas acontecem por causa 
do zeitgeist. Quando Jackson Pollock 
se casa em 1945, muda-se para uma 
pequena casa em Long Island, e quer 
fazer uma tela grande, mas as pare-
des são demasiado pequenas, e então 
ele acaba por colocar a tela no chão. 
É dessa forma que ele chega à tela no 
chão. Ele não colocou a tela no chão 
Ouvir determinado músico não 
define ninguém como pessoa, mas 
em 1955 as pessoas pensavam que 
sim, e essa é a razão pela qual 
a crítica era mais interessante”
pensando que ia mudar a história da 
arte. Foi puramente acidental. Mas 
teve um efeito tremendo na direção 
que a arte tomou nos anos seguin-
tes, e assim entrou numa história que 
pode ser contada de um modo lógi-
co. No início, contudo, não estava lá 
essa lógica.
O seu livro também é muito elucida-
tivo no que diz respeito à relação de 
Sartre com a resistência francesa. É 
curioso que ao lê-lo lembrei-me de 
um livro português — “A Sombra dos 
Heróis”, de José Manuel Barata-Feyo 
— em que se diz que proporcional-
mente houve mais portugueses na 
resistência em França do que fran-
ceses. Você destrói o mito de Sartre 
e da sua resistência. Como é que os 
franceses reagiram ao seu livro?
Penso que até gostaram. Até 1940, 
Paris foi importante para o resto do 
mundo ocidental. Com a ocupação 
pensou-se que os alemães ficariam 
muito tempo, pelo que muitos mú-
sicos e pintores acabaram por sair 
para Nova Iorque e Los Angeles. De-
pois da libertação, os músicos foram 
os que menos voltaram a Paris. Os 
restantes artistas regressaram quan-
do a guerra acabou; e, ao contrário 
do que as pessoas assumiram, os ar-
tistas americanose britânicos conti-
nuaram a ir para Paris, para estudar 
e trabalhar, tal como acontecia antes. 
A cidade continuou a ter um papel 
relevante até 1958, altura em que o 
franco estabilizou. Tornou-se muito 
caro viver em França, e aí apareceu 
Nova Iorque.
E hoje, onde está esse centro?
Eu diria que ele não existe. Mas tudo 
tem de passar por Nova Iorque, Los 
Angeles e pelo Silicon Valley. Os EUA 
são, atualmente, uma espécie de dis-
tribuidor do trabalho cultural, uma 
vez que tudo passa por essas capitais 
E 46
Estamos a lutar contra o 
TikTok, mas não temos uma 
luta do expressionismo abstrato 
versus realismo socialista”
culturais. Mas não é nelas que isso é 
criado. Neste momento, é tudo global.
Lévi-Strauss diz que a pior coisa que 
nos pode acontecer é perdemos a di-
versidade, pois é isso que nos torna 
menos ricos...
Sem dúvida, hoje somos muito me-
nos ricos. Quanto mais as pessoas 
comunicam menos diferenças exis-
tem, menos variedade se encontra, 
menos ricos somos. Eu costumo dizer 
aos meus estudantes que quando eles 
chegam a uma sala de aula depois de 
terem lido todos o mesmo livro, cada 
um deles tem uma opinião diferente, 
mas ao sair da sala, a nossa opinião de 
todos eles é mais parecida.
Stanley Fish teoriza exatamente 
sobre isso [“Is There a Text in This 
Class? The Authority of Interpretive 
Communities”]...
Sim, para Fish, a única forma de vali-
dar a nossa perceção é fazer com que 
esta seja aceite e levada a sério por ou-
tras pessoas. Se as outras pessoas não 
a aceitarem e não a levarem a sério en-
tão a nossa interpretação está errada, 
mas não está errada através de qual-
quer outra medida. Não existe uma in-
terpretação correta para ser descober-
ta. A interpretação é intersubjetiva, e 
acho que é dessa forma que funciona o 
trabalho da crítica literária. Todos têm 
diferentes interpretações, mas des-
de que estas sejam levadas a sério por 
outros está tudo bem, caso contrário 
esta interpretação está errada.
Hoje, não haveria lugar para uma 
pessoa como Susan Sontag...
Sim, ela apareceu num período, ou 
no final de um período, em que os 
críticos eram polícias. Eles vigiavam 
e determinavam as fronteiras entre o 
que era e o que não era sério. Por vol-
ta de 1965, começam a desaparecer, e 
eu tento explicar isso no meu livro. Eu 
não tenho interesse pela Taylor Swift, 
mas não tenho um olhar de sobran-
ceria sobre as pessoas que têm. Ouvir 
determinado músico não define nin-
guém como pessoa, mas em 1955 as 
pessoas pensavam que sim, e essa é a 
razão pela qual a crítica era mais in-
teressante. Hoje, já ninguém define a 
fronteira entre o bom gosto e o mau 
gosto ou kitsch.
Qual é que acha que é a influência de 
Andy Warhol, nos tempos do Ins-
tagram e do Facebook? Foi ele que 
disse que todos queriam ser famo-
sos como ele. Ele antecipou os nossos 
dias.
É suposto ter dito. Mas não disse, e 
provavelmente também não disse 
muitas das coisas que lhe são atribuí-
das. Outras pessoas escreveram-no 
para ele. O seu biógrafo não encon-
trou essa citação. Mas ele também 
disse coisas interessantes. Há uma sé-
rie delas filmadas, e nelas ele dá sem-
pre uma resposta perversa a qualquer 
questão que lhe façam ou conta uma 
mentira. Não interessa qual é a ques-
tão. Essa era a forma como ele dava 
entrevistas, apenas para chatear os 
entrevistadores, e alguns levavam-
-no a sério, e até acreditavam nas 
suas mentiras...
O mundo cultural seria diferen-
te sem Sontag, Warhol, Pollock, ou 
Sartre, ou Lévi-Strauss?
Sim, teríamos sim um mundo 
diferente.
O caso de George Kennan é assusta-
dor. Não sendo um especialista con-
segue formatar a ideia que se forma 
nos EUA sobre os soviéticos...
Pois é. Ele é outro exemplo acidental. 
Ele está em Moscovo, é o segundo na 
hierarquia da embaixada america-
na. O embaixador tem de sair, April 
Harriman, tem de sair mas antes re-
cebe um telegrama do Departamento 
de Estado a pedir para explicar quais 
são as intenções de Estaline. E é aí 
que diz a Kennan: “Eu não sei lidar 
com isto, peço-lhe que responda.” É 
Kennan que dita o telegrama que se 
transformará na teoria (“Long Tele-
gram”), e a única razão pela qual o faz 
é porque o embaixador não está por 
perto. Quando o telegrama chega a 
Washington e acaba no secretário da 
Marinha, James Forrestal, este acha-o 
fantástico e distribui-o pelo governo. 
De repente, Kennan torna-se uma fi-
gura muito importante. Eles fazem-
-no regressar aos EUA, dão-lhe um 
emprego no Departamento de Estado, 
e enviam-no a todo o lado para fazer 
conferências. Ele acaba por formular 
aquela que vai ser a política inter-
nacional dos próximos 40 anos. Mas 
tudo isto acontece apenas por acaso. 
Antes daquele telegrama ninguém o 
levava a sério, ele era uma figura me-
nor, e só se tornou proeminente por-
que o embaixador estava de saída.
O que é que podemos deduzir dessa 
época, para compreender a atual?
Acho que criou as condições segundo 
as quais operamos. Para falar de algo 
que ainda não conversamos explicita-
mente, vê-se nos EUA o crescimento 
das indústrias culturais, a música, pu-
blicações editoriais, o mundo da arte, 
as universidades, o jornalismo. Todas 
essas áreas floresceram e atraem cada 
vez audiências maiores. As pessoas vão 
aos museus, colecio nam arte america-
na contemporânea, compram antolo-
gias de poesia, vão ver filmes estran-
geiros. Vivemos um período de enor-
me crescimento destas indústrias, e 
ao mesmo tempo que estas indústrias 
crescem, os interesses também cres-
cem, tal como a infraestrutura finan-
ceira de base. A indústria cultural é 
muito importante, é uma das grandes 
exportações da economia dos EUA em 
todo o mundo. É algo que vemos acon-
tecer, e isso é resultado deste período. 
A produção cultural é praticamente 
ilimitada e a sua distribuição é bas-
tante plana. Já não aparecem este tipo 
de figuras maiores, e mesmo quando 
aparecem já não têm o impacto que 
tinham nem conquistam um estatuto 
icónico — e isso é muito interessante 
de ver. Não tenho a certeza de que isso 
seja pior ou melhor. A topografia cul-
tural é um pouco diferente.
E a situação não mudará?
Não, porque não é uma guerra cultu-
ral. No período que estudei havia uma 
guerra cultural real com a União So-
viética. Hoje é uma questão de mer-
cado. A não ser que considere que 
o TikTok é uma espécie de produ-
to cultural. Estamos a lutar contra o 
TikTok, mas não temos uma luta do 
expressionismo abstrato versus rea-
lismo socialista.
Tem opinião sobre a cultura woke?
Acho patético.
Mas a linguagem é sempre uma 
questão importante...
Tem razão. Sinto que os meus estu-
dantes mais novos estão a ficar um 
pouco aborrecidos com a cultura 
woke, e já nem querem saber, en-
quanto os estudantes mais velhos 
ainda estão interessados. A maioria 
dos estudantes não tem tempo para 
pensar sobre isso. Acho que é só uma 
fase, mas por outro lado, existem dois 
slogans que começaram por ser hash-
tags e tiveram um enorme impacto 
na forma como as pessoas pensam: 
Black Lives Matter passou a estar no 
jardim de todas as famílias brancas 
e o MeToo teve um impacto enorme 
no meio. Serviram para chamar a 
atenção das pessoas para injustiças, 
e mudaram as atitudes e os compor-
tamentos. b
cmargato@expresso.impresa.pt
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E E 4848
/ GONÇALO 
M. TAVARES
O S C A D E R N O S E O S D I A S
O FUNCIONÁRIO E OS HUMANOS 
QUE DÃO PREJUÍZO
VOLTAR AO ESTADO ANTES DA GUERRA PARECE ESPERANÇOSOE ATÉ BONITO. FAZER 
COM QUE O DEPOIS SEJA IGUAL AO ANTES PARECE REDUTOR E ANTIPROGRESSISTA
palavra “funcionário” está uns pontos 
abaixo da palavra “humano”. Muitos 
pontos abaixo. Um humano que é um 
“funcionário” — eis a frase que rebaixa. 
Um “funcionário” que é um humano 
— eis a frase que eleva. E há robôs que 
podem ser funcionários; sabemos bem 
que as máquinas são cada vez mais as 
presenças essenciais no mercado de 
trabalho. Em tempos e, ainda hoje, em 
alguns países começou a discutir-se 
a possibilidade de cobrar impostos 
às máquinas, como se faz aos trabalhadores — para que as empresas 
não tenham tanto incentivo para empregar chips e algoritmos em vez 
de humanos com estômago, família e capacidade de protesto. Mas a 
discussão ficou por aí, pela atmosfera onde as boas palavras se perdem 
e nada de concreto fica.
Um funcionário, quando reduzido de humano a portador de funções, 
é substituível por máquinas que façam as mesmas tarefas. A palavra 
funcionário, mesmo que usada sem essa consciência, é uma palavra 
que se infiltra na floresta e no jardim e produz lixo e doenças.
Funcionário é feito para funcionar, para não avariar. O funcionário 
avariado, doente, é uma chatice.
1.
Funcionário é mesmo uma palavra terrível: é colocar o vocabulário 
mecânico no mundo humano do trabalho. Um funcionário tem 
funções como uma máquina — seis, sete, 15 funções, as que forem. Um 
superfuncionário, que faz muitas funções e bem, não deixa de ser isso: 
um concentrado de habilitações eficazes e rentáveis. Funcionário é um 
termo económico; funciona, isto é, o seu trabalho produz lucro. Se há 
sussurro que circula no mundo da competição é este: o que funciona 
deve ser salvo! Em tempos escrevi sobre isso: a religião dos bons 
éticos foi há muito substituída pela religião dos bons trabalhadores. 
Dos eficazes será o reino dos céus. Um céu para superfuncionários 
supercompetentes. Tudo é super, exceto o essencial.
Imagino então isto: um paraíso onde só entra quem for bom tecnicamente. 
Um paraíso de humanos eficazes; humanos, no fundo, que dão lucro.
E temos aqui outra síntese possível: uma divisão das águas do mundo de 
trabalho, ou até do mundo social. Imaginar um Moisés gestor máximo de 
uma empresa ou até um Moisés que separe as águas num qualquer Estado 
implacável: há humanos que dão lucro e humanos que dão prejuízo e estes 
dois tipos de humanos estão separados pelas águas do Estado maquinal.
Que uns vão para um lado e os que dão prejuízo para outro. Muitas 
vezes, o lugar dos que dão prejuízo nem sequer é um lugar ou uma 
casa, mas simplesmente a rua.
2.
Numa maravilhosa passagem, o escritor Pascal Quignard fala do 
conceito de “funcionário” e do termo “statu quo”. Funcionário do 
Estado, diz ele, é o que mantém o Estado em ordem, é o que guarda as 
suas fronteiras e não permite revoluções, nem sequer interrupções no 
ritmo normal.
Segundo as definições mais diretas, “‘statu quo’ é um latinismo que 
significa ‘no estado das coisas’”. Trata-se, está na sua definição, “de 
uma redução da frase ‘in statu quo res erant ante bellu’”, que significa 
“no estado em que as coisas se encontravam antes da guerra”. Seria, 
nesse sentido, o regresso a uma ordem depois de uma guerra, depois 
de uma revolução, depois de um tremor de terra.
Quignard explica que a palavra francesa “Estado” pode ter o sentido 
de “statu”, tal “como é visível na expressão ‘statu quo’”. Para 
Quignard, o funcionário do Estado é, assim, um guarda fronteiriço 
“temporal”, alguém que protege o “statu quo ante”, ou seja, que 
protege “o ‘statu quo’ anterior”. Numa definição, ao mesmo tempo 
poética e etimológica, Quignard conclui que os funcionários “estão 
encarregues de fazer funcionar o Estado de maneira tal que o ‘depois’ 
seja como era o ‘antes’”.
Em suma, a manutenção do “statu quo” tem este objetivo simples, 
que é temporal, funcional e linguístico: que o depois seja igual ao 
antes. No limite, que estas duas palavras, que parecem opostas, se 
tornem sinónimas: o “antes” ser igual ao “depois”. Uma catástrofe 
linguística e utópica. Se lutamos para que o depois seja igual ao antes, 
então, estamos a tocar o fim do progresso e, com ele, o aborrecimento 
autocontente eterno.
Voltar ao estado antes da guerra parece esperançoso e até bonito. 
Fazer com que o depois seja igual ao antes parece redutor e 
antiprogressista.
Duas maneiras distintas de entender a energia que quer manter ou 
destruir o “statu quo”. b
A
E 49
Num longo inverno, a fadista Aldina 
Duarte contou a Capicua os segredos 
do fado tradicional. “Metade-Metade”, 
álbum com letras da rapper, é o fruto 
dessa aprendizagem mútua
TEXTO LIA PEREIRA FOTOGRAFIAS RITA CARMO
Poesia 
enquanto 
resistência
E 50
uando entabularam uma espécie 
de curso de fado à distância, Aldina 
Duarte, fadista lisboeta com provas 
dadas, e Capicua, rapper e escritora 
natural do Porto, estavam em 
momentos de relativo desânimo, 
ou pelo menos de reflexão. Com 
um longo percurso e uma atitude 
que amiúde lhe merece o epíteto 
de ‘punk’, a autora de “Quando Se 
Ama Loucamente” questionava-
se se valeria a pena continuar a 
gravar discos. “Eu tenho de querer 
dizer alguma coisa às pessoas”, 
afirma. “Não tenho esse dom de 
cantar só por cantar, só pelo prazer 
de cantar”, explica a artista que, 
há alguns anos, desistiu do fado e 
foi trabalhar como secretária da 
Cinemateca, em Lisboa. Salvaram-
na da rotina Camané e Maria da 
Fé, que a ‘convocaram’ para voltar 
a cantar na casa de fado Senhor 
Vinho, em dia de aniversário da 
sua madrinha. Desta feita, a crise 
existencial não foi tão profunda, mas 
Aldina Duarte voltou a interrogar-
se sobre a premência de editar um 
disco. A norte, Capicua, autora de 
vários álbuns aplaudidos e dona 
de um estilo lírico reconhecível, 
perguntava-se o mesmo: “Eu estava 
num ano de pousio e reconciliação 
com a minha criação. E quando digo 
que o nosso disco salvou aquele 
inverno [de 2022-2023], é porque 
canalizei para a escrita muitas das 
minhas emoções. Uma das minhas 
letras favoritas, ‘Pisco-de-Peito-
Ruivo’, [reflete] a minha relação 
com a criação naquele momento. Às 
vezes, é a catarse que nos salva.”
Mas como se processou, afinal, esta 
aprendizagem mútua, ainda que à 
distância de várias videochamadas? 
Entusiasmadas, as criadoras, 
que dizem identificar-se numa 
série de aspetos, da orientação 
política à espontaneidade sem 
filtro, recordam esses dias, que 
passavam não só pela transmissão 
de conhecimento sobre os vários 
tipos de fado tradicional — matéria 
em que Aldina Duarte, investigadora 
da matéria, é mestra —, como por 
partilhas mais pessoais. “Tivemos 
tempo para falar sobre a vida, e 
essa foi a grande matéria-prima das 
letras do disco”, diz Capicua, que 
se inspirou nas conversas que tinha 
com a amiga, no início ou no final 
de cada aula, para ir criando poemas 
que se encaixassem na métrica de 
cada fado lecionado. Mais absorvida 
pela viagem do que pelo destino 
(“Eu esqueço-me das metas, 
costumo dizer que gosto mais dos 
ensaios do que dos concertos!”), 
Aldina Duarte demorou a perceber 
que, destas interações, nasceria 
um álbum. Mas Capicua, cuja 
disciplina a parceira descreve como 
“férrea” (“É a minha genética 
transmontana”, ri-se a nortenha), 
não deixou que o objetivo ficasse 
para trás.
À medida que a dificuldade dos 
exercícios aumentava, a rapper, 
que também escreve poesia e 
crónicas, surpreendia a ‘professora’ 
pelo rigor e inspiração. Um dos 
'trabalhos de casa’ impressionou-a 
sobremaneira: a aluna havia escrito 
um fado intitulado ‘Araucária’. 
“Pensei: ‘enlouqueceu!’”, recorda, 
entre gargalhadas. Antes das aulas, 
as duas haviam já estudado juntas, 
nas Oficinas do Fado promovidas 
pela alfacinha. “Numa das oficinas 
eu expliquei que há palavras que 
não cabem no fado. As melodias 
do fado tradicional têm um 
registo emocional brutal, uma 
personalidade muito vincada. Se 
atirares lá para dentro uma palavra 
tipo ‘lixo’ ou ‘pulmão’, por mais 
que o intérprete se esforce, chegas 
àquele palavrão,que ali é um 
palavrão, e aquilo ocupa demasiado 
espaço. É visualmente tão forte, 
e sonoramente tão duro, que não 
passa.”
Q 
Porém, Aldina Duarte adora “estar 
errada”. E por isso decidiu trautear 
a inaudita palavra sobre a melodia 
que havia passado a Capicua. 
“Quando eu canto: ‘araucária...’ 
penso: o que é isto?”, recorda, com 
espanto. “E pensei: filha da mãe, 
bendita!” Divertida com a história, 
Capicua justifica a sua “rebeldia”, 
que tanto fascina a companheira. 
“Acho que está a acontecer ao fado 
o que acontece na pop ou na soul: 
há um universo, um glossário de 
palavras que se vai tornando clichê, 
porque já o ouviste mil vezes. Da 
mesma forma que, no rap, há essa 
polivalência de ir buscar palavras 
diferentes — mesmo que seja no 
domínio do calão, temos de ser 
inventivos —, quando tenho a 
oportunidade de escrever para 
fado, gosto de usar palavras que 
não são habituais”, diz a autora, 
E 51
“Fazer discos 
é uma coisa 
romântica, e 
escrever discos 
que nascem do 
poema é ainda 
mais subversivo. 
Porque vivemos 
no tempo 
do mercado, 
e o tempo 
do mercado 
é antagónico ao 
tempo da poesia”
CAPICUA 
RAPPER E ESCRITORA
Aldina Duarte, de 56 anos, 
partilhou com Capicua, de 42, 
as regras do fado. A ‘discípula’ 
ofereceu-lhe um novo léxico, 
que a fadista canta no disco 
“Metade-Metade”, 
apresentado no Coliseu de 
Lisboa a 17 de abril, num 
concerto especial
que antes já engendrara poemas 
para Gisela João. Maravilhada com 
a criatividade de Capicua, Aldina 
Duarte foi mostrar os poemas de 
‘Araucária’ e ‘Aprendiza’ a Camané, 
“que tem uma experiência ainda 
mais antiga e profunda do que a 
minha dentro do fado; está-lhe 
no ADN”, e reconheceu a surpresa 
no seu rosto. “Eu percebi o que o 
Camané estava a sentir, porque era 
exatamente o mesmo que eu. E ele 
diz-me: ‘mas isto parece que foi 
toda a vida assim!” 
A proximidade entre as autoras, não 
só na arte como na vida, ajudou ao 
brotar dos 11 temas que compõem 
“Metade-Metade”, disco a editar 
dia 22 e que será apresentado no 
Coliseu de Lisboa, a 17 de abril, num 
concerto em que os espectadores 
se sentarão no palco. “Com uma 
pessoa com quem se cria uma coisa 
destas, fica-se ligado pela alma, 
para toda a vida”, diz a fadista. “A 
Capicua, apesar de ser muito mais 
nova do que eu, tem referências 
muito próximas das minhas. Temos 
aquilo que eu e o Pedro [Gonçalves, 
seu colaborador e membro dos 
Dead Combo, desaparecido em 
2021] tínhamos. Parece que estamos 
sempre inteiros em tudo, nunca 
temos de deixar um bocadinho 
nosso de lado! E isso é muito forte, 
e muito raro, na criação. Não é nada 
comum, porque na vida também 
não.”
E o que é, afinal, umA araucária? 
“Árvore-altar” de Aldina Duarte, 
acabou por simbolizar, também, 
o grande tema que buscava: a 
natureza. “A pobreza continua a 
ser, para mim, a raiz de todos os 
males. Tudo é pior quando és pobre: 
as questões de género, rácicas...”, 
afirma a cantora, que cresceu 
num bairro social em Chelas. “A 
pobreza continua a ser a minha luta 
primordial. E depois há outra que 
nem está na agenda política, mas 
acho igualmente urgente: a questão 
climática. Essa é a minha angústia: 
não é o planeta que vai à vida, 
somos nós”, lembra, mostrando-se 
realizada por ter encontrado essa 
coordenada vital para “Metade-
Metade”. “Eu também tenho uma 
árvore-altar, por isso, escrever 
a ‘Araucária’ não foi assim tão 
distante da minha experiência de 
relação espiritual com a natureza”, 
contrapõe Capicua. “Não sendo uma 
pessoa religiosa, é através do mar ou 
das árvores que consigo sintonizar o 
meu lado mais espiritual, e isso está 
muito presente neste disco.”
Alguns temas de “Metade-
Metade”, como ‘Majestade (25 de 
Abril)’, foram escritos a pedido da 
intérprete (“Queria cantar um fado 
político sobre a pobreza”); outros, 
como ‘Tentativa’, surpreenderam-
na pela fina ironia. “Dá-me graça 
a linguagem, porque me revejo 
naquela falta de jeito para tentar 
agradar. Interpretei sempre aquilo 
como uma mulher que não nasceu 
para acasalar. Há quem ache isto 
muito triste e eu, em tempos, 
também achei que podia ser um 
problema. Hoje, acho que foi a maior 
libertação da minha vida”, confessa, 
dizendo que este fado comporta 
“dores muito agudas, como quando 
bates com o dedo mindinho do pé, 
mas também muita ironia.”
Emocionada com a “contenção 
e generosidade” com que Aldina 
Duarte dá voz, e vida, aos seus 
poemas, Capicua não tem 
dificuldade em encontrar paralelos 
entre o género musical em que 
se formou, o hip-hop, e o fado. 
“São músicas urbanas, que vivem 
ancoradas no território onde 
nascem, e ambas dão protagonismo 
à palavra, o que faz com que tanto 
os rappers como os fadistas ‘cuspam’ 
as palavras, em vez de cantá-las”, 
argumenta. “E são músicas radicais, 
emocionalmente”, completa Aldina 
Duarte. “Têm uma dimensão muito 
humana. É a vida das pessoas...”
Para “Metade-Metade”, as suas 
autoras desejam apenas que voe em 
liberdade. “Hoje em dia, fazer discos 
é uma coisa romântica”, dispara 
Capicua. “E escrever discos a partir 
do poema é ainda mais subversivo. 
Porque nós vivemos no tempo do 
mercado, e o tempo do mercado 
é antagónico ao tempo da poesia. 
Então este disco é um objeto de 
puro romantismo”, conclui, sobre 
um álbum em que a voz de Aldina 
Duarte contracena com a guitarra 
portuguesa, a viola, a harpa e o 
piano. “Acho que devemos orgulhar-
nos de, em 2024, continuarmos a 
fazer música para honrar as musas, 
como se diz na ‘Aprendiza’. Pelo 
puro prazer de espalhar a poesia 
pelo mundo, num momento em que 
estamos todos a precisar. É neste 
momento que ser um bocadinho 
anacrónica me dá orgulho”, reforça. 
“Não viver na lógica quantitativa, 
não estar preocupada com a ditadura 
do algoritmo, estar à margem das 
tendências do mercado. Por isso é 
que digo que [este disco] é metade 
guerrilha, metade ingenuidade.” 
Sorrindo a seu lado, Aldina Duarte 
concretiza: “Não dá para andar aí a 
dizer: ‘O grande escritor de canções, 
Sérgio Godinho! O grande José Mário 
Branco, o grande Zeca Afonso...’ Não 
dá para crescer com isto e depois 
andar a contar streamings. Em quem 
já nasce com isso, será natural. Em 
nós, seria até perverso.” b
lipereira@blitz.impresa.pt
METADE-METADE
Aldina Duarte
Sony Music (disponível dia 22)
E 52
Na Tate Modern, em Londres, a exposição “Yoko Ono: Music 
of the Mind” percorre momentos-chave do percurso da artista 
de 91 anos entre o Japão natal, os Estados Unidos e Inglaterra, 
país onde conheceu John Lennon, marido e cúmplice criativo. 
Arte conceptual, música, cinema e performance: tudo isto 
era Yoko Ono. Vamos a tempo de compreendê-la
TEXTO PAULO ANUNCIAÇÃO EM LONDRES
Justiça para 
Yoko Ono
m novembro de 1966, Yoko Ono foi 
a Londres para a inauguração de 
“Unfinished Paintings & Objects”, 
uma exposição de trabalhos dela na 
Indica Gallery. Paul McCartney, um 
dos financiadores da galeria, insistiu 
para que todos os Beatles fossem à 
antestreia desta exposição de uma 
“artista avant-garde japonesa a viver 
na América”. John Lennon aceitou o 
convite. Uma das peças da exposi-
ção chamava-se “Ceiling Painting/
Yes Painting”: um enorme escadote 
branco, que John trepou, seguindo 
as instruções da artista. Lá em cima, 
ele pegou na lupa e conseguiu ler a 
palavra “Yes” que estava escrita mi-
nuciosamente e em letras pequeni-
nas num painel no teto. John Lennon 
sorriu. Achou piada a esta versão ja-
ponesa do humor britânico absurdo. 
Noutra peça, “Painting to Hammer 
a Nail”, Ono convida os visitantes a 
martelar pregos enormes numa tela 
de madeira branca. A ideia/con-
ceito por trás desta obra coletiva é 
a anulação do papel habitualmente 
privilegiado do artista como criador 
a título individual. Na noite de 
antestreia, a tela estava naturalmen-
te intacta. Mas a japonesa brincou 
com Lennon e disse-lhe que poderia 
martelar um prego se ele lhe pagasse 
cinco xelins. John Lennon rejeitou a 
proposta: “Vou pagar-te cinco xelins 
imaginários e martelar um prego 
imaginário.” Ela ficouencantada com 
a resposta. A arte conceptual acabava 
de servir de cupido casamenteiro. 
John e Yoko passariam juntos grande 
parte dos 14 anos seguintes.
Estas duas peças ocupam, sem 
surpresa, um lugar de destaque na 
exposição “Yoko Ono: Music of the 
Mind”, uma retrospetiva de obras 
das últimas sete décadas da artista 
japonesa inaugurada recentemente 
na Tate Modern, em Londres. Ono, 
de 91 anos, não esteve na inaugura-
ção. A artista tem uma saúde frágil e 
vive retirada na quinta do norte do 
estado de Nova Iorque que ela e Len-
non compraram em 1978. Ou talvez 
ela tenha preferido, mesmo, ficar 
lá por casa. Para os britânicos mais 
antigos, Yoko Ono foi — e será sem-
pre — a bruxa má que se intrometeu 
nos Beatles no final da década de 
C
LA
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 Yoko Ono no trabalho conceptual 
“Half-A-Room”, apresentado pela 
primeira vez na Lisson Gallery, em 
Londres, 1967. Na página ao lado: John 
Lennon e Ono no “Bed-In for Peace”, em 
Amesterdão, 1969 (em cima); Ono em 
1965 no Carnegie Hall, em Nova Iorque, 
na performance “Cut Piece” (em baixo)
E 
60 e desfez a banda mais popular 
do mundo. Na história recente da 
vida cultural, aliás, nenhuma outra 
mulher terá sido tão vilipendiada 
quanto esta “namorada japonesa 
de John Lennon de aparência tão 
intensamente sem graça” (a frase é 
de Philip Norman, biógrafo de Len-
non). Ono era, de facto, diferente 
das outras noivas e namoradinhas 
de estrelas do mundo rock — uma 
constatação que os tabloides londri-
nos não se cansavam de repetir. Asi-
ática, nunca maquilhada, com um 
estilo monocromático e desleixado, 
cabelo rebelde, esta “mulher dra-
gão” fugia do padrão convencional. 
Poucos sabiam que ela era, também, 
uma artista com nome feito nos 
meios da arte conceptual de Nova 
Iorque e do Japão. A retrospetiva da 
E 53
Tate é por isso, de certa maneira, um 
ajuste de contas. “Os visitantes mais 
novos [da exposição] não têm ideia 
da misoginia e racismo a que Yoko 
foi sujeita nos anos 60, 70 e 80. Eu 
queria que eles, em particular, co-
nhecessem a longa trajetória da obra 
de Ono. Queria mostrar-lhes este 
lado muito sério dela”, explica Juliet 
Bingham, curadora da retrospetiva.
Desse ponto de vista, “Music of the 
Mind” é, sem dúvida, um êxito. 
A exposição reúne cerca de 200 
peças que cobrem mais de 70 anos 
de atividade (a obra mais antiga 
é de 1953). O fulcro da mostra é 
constituído, sobretudo, pelas peças 
das décadas de 1950 e 1960 — cer-
tamente o perío do mais original e 
pioneiro da arte de Yoko Ono, quan-
do vivia em Nova Iorque e integrava 
uma comunidade de artistas avant-
-garde com nomes como John Cage, 
George Maciunas, David Tudor ou 
La Monte Young. A arte é simples e 
direta e, de certa forma, revolucio-
nária. Não se restringe a uma única 
plataforma. Ono acha que a arte e a 
criatividade são conceptuais e que, 
por isso, não importa qual é o meio, 
o material, a técnica ou o suporte 
utilizados. Entre as peças expostas 
conta-se, por exemplo, “Apple” 
(1966), que se tornou uma espécie 
de símbolo de Yoko Ono — uma 
simples maçã verde, solitária, colo-
cada sobre um pedestal acrílico que 
tem uma placa metálica com a ins-
crição “Apple”. Noutra instalação, 
“Half-a-Room” (1967), 29 objetos e 
peças do mobiliário de um quarto 
estão talhados ao meio. Também 
há filmes, como o intrigante “Film 
No. 4 (Bottoms)”, de 1966-7: uma 
sequência de brevíssimos grandes 
planos dos rabos de duas centenas 
de artistas amigos dela. A banda 
sonora inclui extratos desconexos de 
conversas de Yoko Ono com os ami-
gos ou com jornalistas. Na altura, a 
obra causou enorme controvérsia, 
chegando a ser proibida pelas au-
toridades. Hoje, esta fita com quase 
80 minutos de traseiros famosos 
(mas não identificados) tem algo de 
ternurento, casto e inocente. A ideia 
era “usar a parte mais desprotegida 
e sem defesa do nosso corpo para 
um manifesto pacifista”. “Em vez 
de [recolher] assinaturas, alinhei 
dezenas de rabos numa petição pela 
paz”, explica. Outro filme, “Fly” 
(1970-1), de 24 minutos, mostra 
moscas a pousar e a percorrer o 
corpo de uma mulher nua (o corpo 
é da atriz Virginia Lust; as moscas 
foram gentilmente “cedidas pela 
cidade de Nova Iorque”). O filme, 
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estranhamente perturbador, é um 
manifesto sobre poder, vulnerabili-
dade e violência.
Nas salas da Tate Modern há tam-
bém muita fotografia, uma cabina 
sonora, memorabilia (panfletos, 
convites, anúncios, cartazes, artigos 
de revistas) e dezenas de peças com 
“instruções”: frases breves que pe-
dem ao leitor para imaginar, expe-
rimentar, fazer ou completar a obra. 
Podem ser telas enormes com um 
único verbo escrito no meio, como 
“Imagine” ou “Touch”. Ou frases 
curtas — como “Ouça uma batida de 
coração” ou “Ponha o pé em todos 
os charcos de uma cidade” — da-
tilografadas numa folha de papel e 
arrumadas de forma harmoniosa, 
simples e minimalista, como um 
poema haiku japonês.
CÉUS AZUIS E RUGIDOS 
SELVAGENS
“Music of the Mind” é uma expo-
sição particularmente interativa. A 
arte de Yoko Ono é participativa, na 
linha dos neodadaístas e do movi-
mento Fluxus, do século passado, 
dos quais ela esteve próxima. Ono 
quer quebrar a passividade do es-
petador/visitante. Muitas vezes há 
um elemento lúdico ou irónico. Mas 
também de desmistificação, de con-
testação, antiarte. Num dos eventos 
pioneiros da arte performativa, Yoko 
Ono — sentada no chão, vulnerável, 
de olhar passivo — pede aos espec-
tadores para pegarem numa tesoura 
enorme e cortarem pedaços da rou-
pa dela (“Cut Piece”, executado pela 
primeira vez em Tóquio, em 1964). 
Nas galerias da Tate Modern, ela 
quer que os visitantes sejam mais do 
que meros espectadores mudos e si-
lenciosos. Somos convidados, como 
vimos, a subir escadotes e a martelar 
pregos. Mas também podemos pisar 
um quadro (“Painting to Be Stepped 
On”, 1960-61) ou cumprimentar 
estranhos com um aperto de mão 
através de um buraco feito numa 
enorme tela branca (“Painting to 
Shake Hands”, 1962). Também há 
uma série de mesas com tabulei-
ros de xadrez onde tudo é branco: 
as mesas, as cadeiras, as peças, as 
casas do tabuleiro (“White Chess 
Set”, 1966). “Para jogar enquan-
to se lembrar onde estão todas as 
suas peças”, lê-se na “instrução” 
que acompanha a obra. Em “Bag 
Piece” (1964), os visitantes parti-
cipantes podem enfiar um enorme 
saco negro de algodão pela cabeça 
abaixo. O efeito é o de uma miste-
riosa escultura flutuante. “Dentro 
de um saco”, explica, “uma pessoa 
é apenas um espírito ou alma, des-
pojada de qualquer característica — 
raça, sexo, idade — diferenciadora”.
Em 1945, os pais de Yoko manda-
ram-na para longe de Tóquio de 
forma a escapar aos bombardeiros 
norte-americanos. Esse período 
deixou marcas. Yoko tinha 12 anos e 
apesar de ter nascido numa família 
rica da capital japonesa, passou 
fome. “O meu irmão Keisuke cho-
rava. Não tínhamos comida, mas 
tínhamos o poder da imaginação e 
fazíamos jogos com comida imagi-
nária”, explica ela num dos textos 
que acompanham a exposição. Dé-
cadas mais tarde, Ono transformou-
-se numa ativista pela paz mundial. 
“Music of the Mind” recorda os dois 
“Bed-ins for Peace” (na cama pela 
paz) que Ono e Lennon, casados de 
fresco, organizaram em 1969 em 
quartos de hotéis de Amesterdão 
e Montreal. Em “Helmets (Pieces 
of Sky)”, uma instalação de 2001, 
Ono utiliza capacetes alemães da 
II Guerra Mundial como floreiras 
suspensas no ar. Em vez de gerânios, 
os capacetes têm pequeninas peças 
de um puzzle que quando comple-
tado formaria um céu azul. Yoko 
Ono explica que em miúda, como 
refugiada, encontrava conforto na 
presença constante do céu.
Há muito que Yoko Ono divide 
opiniões. E irá continuar a dividir. 
A exposição inclui muita coisa que 
o visitante mais cínico será ten-
tado a qualificar como arte idiota, 
pretensio sa, juvenil, irritante. Algu-
mas “instruções” são simplesmente 
impenetráveis: “Leve consigoum 
saco de ervilhas. Deixe uma ervilha 
em cada local onde for”, lê-se na 
“Pea Piece” (1960). Mas porquê? E 
para quê? Numa das peças ouvimos 
Yoko Ono a tossir sem parar ao lon-
go de mais de 30 minutos. Outra é 
um áudio de 30 segundos com des-
cargas de autoclismo. Para os mais 
corajosos, a cabina de som inclui 
amostras das composições musicais 
da artista japonesa. Temas como 
“Fly” — uma maratona sonora de 23 
minutos que dá nome a um álbum 
de 1971 — incluem os rugidos selva-
gens, os prantos e gritos tremulantes 
que fizeram dela, segundo a revista 
“New Yorker”, uma das bandas 
sonoras favoritas nas salas de tortura 
de Guantánamo Bay. b
MUSIC OF THE MIND
Yoko Ono
Tate Modern, Londres, até 1 de setembro
E 54
Livros
Coordenação Luciana Leiderfarb
lleiderfarb@expresso.impresa.pt
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Arthur Orton, talhante oriundo 
de Wapping (Londres) que vivia 
na Austrália, é o homem que 
tentou usurpar a identidade de 
Roger Tichborne, dando origem 
a um longo processo judicial
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A FRAUDE
Zadie Smith
D. Quixote, 2024, trad. de Francisco 
Agarez, 531 págs., €24,90
Romance
E 55
O caso que intrigou 
Zadie Smith
Há muitas formas de falar 
da atualidade sem falar da 
atualidade. Até certo ponto, 
todas as obras de ficção — e algumas 
de História também, mas isso é 
outro assunto — são sobre o tempo 
presente, uma vez que a perspetiva 
de um autor, por definição, é a do 
seu tempo, e a narrativa que ele 
(re)constrói reflete-a, quando não 
é simplesmente dela que a extrai. 
Quando uma ficcionista britânica 
conhecida por romances que 
exploram a psicologia complexa 
das realidades multiétnicas 
contemporâneas escreve um romance 
sobre eventos reais do século XIX, 
podemos especular que o mundo 
atual e uma crítica ao mesmo se 
encontram lá representados sob uma 
forma qualquer. 
Zadie Smith, uma das vozes mais 
interessantes da ficção dos nossos 
dias, autora de um belíssimo 
romance (“Dentes Brancos”) sobre 
britânicos, imigrantes e descendentes 
de imigrantes, que a tornou uma 
estrela do mundo literário aos 25 
anos, bem como de outros quatro 
livros situados no presente, em 2023 
publicou “A Fraude”, o seu primeiro 
romance histórico. O tema é um 
célebre caso judicial em torno do 
presumível herdeiro de uma fortuna. 
Em 1854, Roger Tichborne, de 25 
anos, desapareceu num naufrágio 
ao largo da costa brasileira. A mãe 
dele sempre se recusou a aceitar 
que tinha morrido, e uma vidente 
alimentou as suas esperanças. Na 
sequência de rumores de que alguns 
dos náufragos teriam sido recolhidos 
por um barco que se dirigia para a 
Austrália, foram colocados anúncios 
em jornais australianos. Apareceu um 
indivíduo que se apresentou como 
o jovem desaparecido a reclamar os 
seus direitos e conseguiu convencer 
da sua veracidade um antigo criado 
dos Tichbornes, de nome Andrew 
Bogle, que tinha crescido como 
escravo em Hope, uma plantação 
da Jamaica. Após uma angariação 
pública de fundos, ‘Roger’, que na 
verdade se chamava Arthur Orton, foi 
levado à presença da mãe do jovem 
desaparecido, que garantiu tratar-se 
do filho. Assim começou um processo 
de anos, primeiro cível e depois 
criminal, acompanhado por uma 
campanha pública que se prolongou 
muito após a conclusão dos trâmites 
judiciais e apresentava uma mistura 
de ingredientes hoje bastante 
familiares, em especial a ideia de que 
o establishment conspira para privar 
certas vítimas dos seus legítimos 
direitos, e que só o povo, capitaneado 
por algumas figuras providenciais, 
não raro lunáticas, pode salvar da 
destruição essas vítimas.
Na história do presumível herdeiro 
havia problemas insuperáveis. 
Roger Tichborne fora magro e tinha 
o porte distinto de um aristocrata, 
com conhecimentos linguísticos e 
culturais adquiridos nas escolas de 
elite que frequentara. O demandante 
(claimant), como surge designado no 
livro, era um homem muito gordo, 
de porte grosseiro, que ignorava tudo 
sobre Virgílio e outros autores da 
Antiguidade, e não faltava francês, 
língua da infância de Tichborne. 
Também não recordava episódios da 
sua alegada vida anterior, e outras 
coisas igualmente não batiam certo. 
Sem querer contar demais, digamos 
que o desfecho do caso não foi 
inesperado.
Smith aborda a história pelos olhos 
de uma simples observadora, Eliza 
Touchet, uma mulher que é prima e 
governanta de William Ainsworth, 
um romancista popular em vias de 
ser esquecido. “Muitas das paixões 
A autora britânica estreia-se no romance histórico 
com “A Fraude”, narrando uma história de apropriação 
da identidade que remonta ao século XIX 
TEXTO LUÍS M. FARIA
liberais da sra. Touchet tinham a sua 
origem no provérbio ‘dar um mau 
nome a um cão é condená-lo à forca’, 
cuja veracidade a impressionou 
muito na infância”, escreve Smith. 
“O objetivo da vida era manter o 
espírito aberto, nunca julgar com 
base em aparências ou maus nomes, 
e sempre tomar decisões baseadas 
apenas em provas. Tinha continuado 
a levar esta ideia a sério na sua 
idade madura, altura em que muitas 
pessoas razoáveis a abandonam.”
A sua equanimidade leva-a a ter 
compreensão mesmo por um 
homem em quem não acredita 
quando o vê a depor em tribunal. 
“Era realmente muito difícil não 
sentir pena daquele homem. Tão 
evidentemente desorientado, 
apanhado numa mentira cada vez 
maior, que já ultrapassava o volume 
do seu corpo. Para não falar de todas 
aquelas pessoas crédulas, ignorantes, 
sem dúvida bem-intencionadas, 
que tão levianamente apoiavam 
a sua causa.” Entre essas pessoas 
contava-se Sarah, a nova mulher do 
seu primo, uma criada décadas mais 
jovem com quem ele se envolvera e 
acabou por casar. Sarah, que vai com 
Eliza a Londres assistir a sessões do 
julgamento, torna-se uma fanática 
da causa Tichborne. Eliza observa-a 
com benevolência. Porém, o leve 
sentimento de autossatisfação que 
lhe advém (“prometeu que seria uma 
boa cristã”, pensa. “Seria amável e 
atenta aos sentimentos feridos de 
Sarah, nunca esquecendo que é às 
falsas convicções que as pessoas 
tendem a agarrar-se com mais 
força”) é bruscamente interrompido 
pela torrente verbal da sua 
companheira, cuja obsessão pela sua 
verdade era implacável e dispensava 
qualquer tipo de condescendência. 
Para Sarah não havia dúvidas nem 
nuances. Tudo tinha explicação, e as 
explicações apontavam sempre no 
mesmo sentido.
As repercussões sociais e psicológicas 
do caso Tichborne dão origem a 
observações perspicazes sobre a 
perceção de assuntos públicos que 
não perderam relevância, mutatis 
mutandis. Outra parte do livro, não 
menos importante, são as cerca de 
cem páginas dedicadas a Andrew 
Bogle e à sua família, a começar 
pelo pai, Anaso, oriundo de uma 
família africana nobre e levado 
para a servidão na Jamaica ainda na 
infância. “Alguns grandes homens 
transportam consigo o seu orgulho 
— ainda que todos os motivos de 
orgulho tenham desaparecido — e 
foi o que aconteceu com Anaso, 
apesar de ainda não ter dez anos” 
escreve Smith. “Tendo reparado 
nisto, o sr. Ballard (o encarregado 
da propriedade) deu-lhe o nome de 
Nonesuch. Inigualável. O sr. Ballard 
tinha o sentido de humor típico dos 
naturais de Glasgow e orgulhava-se 
dos nomes espirituosos que dava 
às pessoas. À mulher mais feia de 
Hope chamou Afrodite, ao guarda 
coxo Hércules. O apelido ‘Bogle’, que 
significa espanta-pardais, dava-o 
ele a qualquer pessoa que tentasse 
orgulhar-se da sua aparência ou 
comportamento.”
“A Fraude” é um romance sobre 
muitas coisas diferentes: a 
escravatura e a sua persistência para 
lá das aparências e da distância; as 
perceções e limitações de mulheres 
inteligentes na sociedade vitoriana; 
ganância, enganos, populismo, o 
poder da imprensa de massas, a 
manipulação do sentimento popular; 
e também a literatura. Zadie Smith, 
autora e ensaísta de profunda cultura 
literária, chegou à meia-idade e 
decidiu mergulhar na época de 
Dickens através de personagens 
que são escritores (a própria Eliza se 
abalança, discretamente) epensam 
como tal. O resultado, que assume 
uma forma reminiscente de alguns 
grandes romances do século XIX, é 
brilhante. b
E 56
Algum do ensaísmo recente 
de João Barrento tem testado 
o alargamento do modo de 
escrever sobre literatura, já não em 
registo académico ou jornalístico, 
mas mais semelhante à leitura por 
prazer e de lápis na mão.
Percorrendo os “caminhos 
e metamorfoses da poesia 
portuguesa contemporânea”, 
estes textos das últimas três 
décadas recorrem a dois métodos 
preferenciais: o close reading e o 
panorama alargado. Temos então 
uma antologia comentada sobre a 
natureza, “tema impossível” numa 
poesia moderna distante da falácia 
patética e até da mimese; uma 
interrogação sobre o desajuste na 
proverbial ligação entre poesia e 
língua, tendo em conta a “teologia 
negativa” da palavra; ou a ideia de 
que a Europa é na nossa literatura 
um assunto de prosadores e não de 
poetas.
Os ensaios sobre autores 
específicos são demorados 
e atentos, e chegam a boas 
fórmulas ou contrastes: o 
idealismo concreto em Sophia, 
o ditirambo intempestivo em 
Egito Gonçalves, a realidade sem 
realismo em Eugénio, a inteligência 
do inteligível em Echevarría, 
Barrento de lápis na mão
João Barrento, de 83 anos, 
foi em 2023 agraciado 
com o Prémio Camões
o negrume e o classicismo em 
Gastão Cruz, a fenomenologia 
do impreciso e o ‘eu’ hipotético 
em António Franco Alexandre (o 
melhor dos ensaios individuais). 
Isto além de uma defesa do 
Herberto tardio e mais directo ou 
do sarcasmo niilista de Armando 
Silva Carvalho. Mas é impossível 
escapar à centralidade do ensaio 
sobre as últimas décadas da poesia 
portuguesa, do “Cartucho” (1976) 
até hoje.
Retomando um texto publicado em 
2016, Barrento, como muitos da sua 
geração, assume uma posição de 
pessimismo cultural, sem chegar 
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ao escusado tom apocalíptico. Há, 
diz-nos, uma “crise do literário” 
que teve enorme repercussão 
na universidade e na imprensa, 
como na sociedade em geral. Em 
“tempos de indigência”, o que 
poderemos esperar que não uma 
poesia indigente? Mas ainda que 
não esconda o seu desconforto 
com o monopólio do ‘eu’, ou 
com a questão da “banalidade”, 
Barrento mostra-se bastante 
equânime, tomando essas e outras 
características como sintomas 
epocais ou possibilidades estéticas.
Os sintomas são conhecidos: 
a inflexão anglo-saxónica, a 
narratividade, o prosaísmo, a 
elegia, o quotidiano, a melancolia, 
o recuo da metáfora, a recusa do 
poético, o regresso ao desencanto 
do real. Já as possibilidades 
resultam tanto da combinação 
variável desses elementos 
(veja-se o curioso elenco de 
oito tipos de melancolia) como 
das metamorfoses no trânsito 
entre gerações. E assim a poesia 
permanece ou se desvanece, 
extemporânea ou representativa do 
seu tempo. / PEDRO MEXIA
Pedro Mexia escreve de acordo 
com a antiga ortografia
Com a sua escrita de uma precisão 
assombrosa, narrativamente rarefeita 
até ao limite, a irlandesa Claire Keegan 
tornou-se um caso à parte na recente 
ficção anglo-saxónica. Os seus textos 
— depuradíssimos, compactos, subtis, 
densos, mas ao mesmo tempo de 
surpreendente leveza — confiam na 
capacidade do leitor para entender o 
que fica apenas sugerido. “Acolher” e 
“Pequenas Coisas como Estas”, os dois 
livros de Keegan até agora publicados 
em Portugal, eram exemplos do que 
podemos qualificar de mestria na 
arte da contenção literária. Este novo 
volume, que recolhe três contos de 
fases diferentes da carreira da autora, 
não voa tão alto, nem nos arrebata da 
mesma maneira, mas reconhecemos 
nas suas histórias o mesmo fulgor 
narrativo. No conto que dá título à 
coleção, começamos por acompanhar 
um protagonista masculino, funcionário 
burocrático que regressa a casa, 
tristonho, à sombra de uma ameaça 
não especificada (“a confusão dos 
contratempos humanos e de se saber 
como tudo tem de terminar”), para 
depois compreendermos os reais 
contornos da perda que sofreu, afinal 
fruto da sua tacanhez e misoginia. 
Keegan faz ruir, por dentro, a lógica 
patriarcal e machista de um certo tipo 
de homem irlandês — e consegue-o à 
sua maneira: com pezinhos de lã. Em ‘A 
Morte Lenta e Dolorosa’, uma escritora 
em residência artística, numa casa onde 
viveu Heinrich Böll, enfrenta o rancor 
de um académico que não a considera 
à altura da honra, conseguindo vingar-
se dele no texto que cria (e que talvez 
seja o próprio conto). Por fim, ‘Antártida’ 
parte de uma premissa similar à de 
“Vemo-nos em Agosto”, a novela de 
García Márquez que acaba de ser 
editada: “Cada vez que partia em 
viagem, a mulher, com um casamento 
feliz, perguntava a si mesma como 
seria dormir com outro homem.” Sem 
surpresa, em Keegan, o desfecho é 
muito mais inesperado, negro, brutal e 
ambíguo. / JOSÉ MÁRIO SILVA
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A UMA HORA TÃO TARDIA
Claire Keegan
Relógio D’Água, 2024, trad. de José 
Miguel Silva, 75 págs., €16
Contos
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OS INFINITOS MODOS 
DA PALAVRA
João Barrento
Companhia das Ilhas, 2024, 
352 págs., €18,75
Ensaios
Top Livros
Ficção
Não ficção
Estes tops foram elaborados pela GfK Portugal 
através do estudo de um grupo estável de pontos 
de venda pertencentes a dois canais de distribuição: 
hipermercados/supermercados e livrarias/outros. 
Esta monitorização é feita semanalmente, após a 
recolha da informação eletrónica (EPOS) do sell-out 
dos pontos de venda. A cobertura estimada do painel 
GfK de livros é de 85%.
Semana 
anterior
1 1 O Recluso
Freida McFadden
2 3 Deus na Escuridão
Valter Hugo Mãe
3 - O Caçador
Leslie Wolfe
4 2 A Criada
Freida McFadden
5 4 Tudo Foi Como Tinha de Ser
Raul Minh’alma
As categorias consideradas para a elaboração deste top 
foram: Literatura; Infantil e Juvenil; BD e Literatura Importada
Semana 
anterior
1 1 Pai Rico Pai Pobre
Robert T. Kiyosaki
2 2 Hábitos Atómicos
James Clear
3 -
Como Mandar à Merda 
(De Forma Educada)
Alba Cardalda
4 5 As Causas do Atraso Português
Nuno Palma
5 - Segredos da Mente Milionária
T. Harv Eker
As categorias consideradas para a elaboração deste top 
foram: Ciências; História e Política; Arte; Direito, 
Economia e Informática; Turismo, Lazer e Autoajuda
Semana 9 
De 26/2 a 3/3
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DO 25 DE ABRIL DE 1974 AO 
25 DE NOVEMBRO DE 1975
Irene Flunser Pimentel
Temas e Debates, 2024, 472 págs., 
€20,90
Com o subtítulo “Episódios Menos 
Conhecidos” circunscreve-se a 
temática deste novo volume no qual 
a historiadora se debruça sobre “a 
autonomia do campo político (...) 
com destaque para o que aconte-
ceu à ex-polícia política”. 
AINDA
Ivette K. Centeno 
Companhia das Ilhas, 
2024, 72 págs., €16,50
São poemas de 2023, 
num dos quais lemos: 
“Morno o corpo/ Que de noite nos 
resgata/ Não são precisas palavras/ 
Não é preciso mais nada.” Ou ainda: 
“Eram abraços/ Mas os braços 
caíam/ E eu não percebia/ Que 
eram a despedida.”
FEMININO 
SINGULAR
Quino 
Iguana, 2024, 112 
págs., €13,95
Nos 60 anos de 
Mafalda, um volume que percorre 
as tiras feministas ou as que dizem 
respeito à condição da mulher da 
personagem imortal de Quino e os 
seus comparsas. Lê-las é a prova 
de que ainda, em pleno século XXI, 
fazem total sentido. 
A FAMÍLIA 
CASERTA
Aurora Venturini
Alfaguara, 2024, 248 
págs., €18,45
Depois de “As 
Primas”, mais um romance da 
escritora argentina (1921-2015), 
que foi também tradutora e pro-
fessora, exilada em Paris após o 
golpe de Estado de 1955. Segun-
do o diário “Clarín”, um livro “bri-
lhante, provocador, ambicioso e 
deliberadamente anacrónico”. 
SOBRE AS 
MULHERES
Susan Sontag 
Quetzal, 2024, 192 págs., 
€17,70
Traduzido por Vasco 
Teles de Menezes, textos escritos 
no início dos anos 1970 por uma das 
pensadoras mais influentes do sécu-
lo XX. Os temas variam, embora se 
concentrem na condição da mulher: 
a humilhação no envelhecimento, a 
beleza, o feminismo, o fascismo, o 
cinema.
ORIENTE 
PRÓXIMO
Alexandra Lucas 
Coelho 
Caminho, 2024, 528 
págs., €19,90
Reedição revista, cujasvendas re-
vertem para Gaza. “A Faixa continua 
interdita a jornalistas de fora, após 
mais de 100 dias de bombardea-
mentos que mataram dezenas de 
repórteres palestinianos. Mais de 
dois milhões de pessoas estão a 
morrer à fome”, lemos na badana.
GEOPOLÍTICA | MEDICINA | ENSINO
MOBILIDADE E TURISMO | INDÚSTRIA E SUSTENTABILIDADE
ARTE | MEDIA | ÉTICA | DIREITO | BANCA
RISCOS E AMEAÇAS À SEGURANÇA NACIONAL 
Exclusivo para subscritores Expresso em:
e em expresso.pt/podcasts/
Já disponível
11 episódios | 11 temas
por Francisco Pinto Balsemão
Podcast
Com o apoio:
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Cinema
Coordenação Lia Pereira
lipereira@blitz.impresa.pt
Histórias de mulheres
Ela tem 17 anos, vive sozinha 
com um pai apicultor, joga 
voleibol num pequeno clube 
de São Paulo com o sonho de chegar 
ao escol daquele desporto e, para já, 
entrevê uma possível janela a abrir-
se: uma proposta vantajosa para 
jogar no Chile, um primeiro pequeno 
grande passo ascensional. Para já, 
ela é a estrela da equipa onde joga, 
uma colmeia feminina multicolor, 
na etnia e na orientação sexual, com 
a energia vital da juventude a irrigar 
esperanças e vontades em todas as 
direções. Com um campeonato à 
beira de ser ganho — falta um último 
e definitivo jogo — e a sua prestação 
a ser observada antes que a proposta 
se torne firme, Sofia descobre que 
está grávida. Aquela criança em 
extemporânea gestação vai anular-
lhe qualquer futuro risonho, ela não a 
quer ter. Mas, a quem recorrer, como 
fazer, num Brasil onde a interrupção 
voluntária da gravidez é crime, num 
Brasil onde há forças organizadas 
e poderosas para perseguir e 
escorraçar publicamente quem a faça 
ou deseje fazer — ainda por cima, 
em nome de Deus? E, todavia, logo 
ali, do outro lado da fronteira, no 
Uruguai, o aborto é livre e gratuito 
para as mulheres daquele país...
“Levante”, primeira longa-
A atriz Kika Sena é uma mulher trans, 
natural do interior do Brasil e de uma 
família pobre, tal como a personagem 
que interpreta, em “Paloma”
Entre uma jovem 
paulista de 17 anos, 
grávida que não pode 
interromper a 
gravidez, e uma 
mulher trans do 
sertão nordestino, 
acontece um Brasil 
em carne viva 
TEXTO JORGE LEITÃO RAMOS
metragem da paulista Lillah Halla, 
coprodução entre França, Brasil e 
Uruguai cuja estreia mundial na 
Semana da Crítica de Cannes, em 
2023, mereceu prémio da FIPRESCI, 
não se queda pela usual história 
trágica de uma jovem mulher 
encurralada por uma gravidez 
indesejada. O drama está lá — e bem 
tecido, quer na micro teia familiar, 
quer na fanática hipocrisia social 
—, mas o campo da denúncia é 
adubado pela vontade de mudança 
e, sobretudo, pela determinação 
insubmissa. Daí que o fundo realista 
em que o filme acontece encontre 
um desfecho em modo de desejo: 
o da firme solidariedade queer a 
transformar um grupo num embalo 
insurreto. O título — “Levante”— é 
isso que induz, na feliz conjugação 
entre a designação de uma jogada 
do voleibol (o levantamento), o ato 
de retirar o feto e a amotinação. 
Docilidade resignada, nunca!
Num outro filme, muito longe 
de São Paulo, no fundo do sertão 
nordestino de Pernambuco, Paloma 
é uma mulher trans, analfabeta, 
religiosa, de vida pobre e rotineira: 
trabalha numa plantação de 
mamão e cuida do seu homem, Zé, 
pedreiro de profissão, e da filha de 
7 anos (cuja origem havemos de 
perceber lá para o fim do filme). É 
uma existência simples e sã, o sexo 
é bom, a ternura muita, a gente 
em volta não causa problemas de 
maior, embora se sintam, aqui e ali, 
sintomas de uma homofobia larvar. 
Paloma tem, contudo, um sonho: 
casar. Não, simplesmente, casar, 
mas casar na igreja, de branco, 
com véu, vestido e grinalda — a 
preceito, como deve ser. É uma 
mulher sobre quem muito bem 
calha a bênção evangélica (“Bem-
aventurados os simples porque deles 
é o Reino dos Céus”), pelo que, 
na sua limitada visão do mundo, 
fica deveras contristada quando 
o bondoso padre da paróquia lhe 
explica que, na conceção milenar da 
Igreja Católica, a espécie humana 
não contempla considerar mulher 
a identidade que Paloma toma 
como sua. É uma lei antiga a que 
só o Papa pode outorgar exceção. 
Paloma não desiste, põe uma amiga 
a escrever uma respeitosa carta ao 
‘seu’ Papa, a pedir a tão desejada 
concessão. Quando a resposta 
chega, evidentemente negativa, é 
o próprio piedoso sacerdote local 
que lhe indica uma possibilidade de 
levar a cabo o seu intento. No fundo 
do sertão brasileiro há gente para 
todas as estações...
E 59
“Paloma” é um filme curioso. 
Por um lado revela como uma 
identidade sexual transgressora 
pode coabitar com práticas sociais 
conservadoras. Por outro mostra 
como uma sociedade fechada em 
conceções arcaicas pode incorporar 
uma família como a formada por 
Paloma, a filha e Zé, desde que seja 
discreta, calada — e, acima de tudo, 
não se meta com as instituições. É 
que quando, por portas travessas, 
Paloma acaba por consumar o seu 
sonho — e a cerimónia aparece na 
televisão — e as coisas mudam de 
feição. Radicalmente.
Há um lado de fábula, em 
“Paloma”. E uma carga realista, 
pesada, bruta, letal. As duas 
coexistem cerzidas pelas artes do 
realizador Marcelo Gomes — e se 
alguma dúvida nos assalta, é do 
lado primeiro, quando parece estar 
tudo bem. Aí, a narrativa ostenta 
alguma ingenuidade, Paloma é 
uma personagem idealizada, o 
estereótipo do que gostaríamos 
que fosse. Depois, tudo se altera. 
Até ela, quando vocifera contra um 
Zé apanhado em contrapé, alvo de 
chacota pública, em invetivas que 
seriam rudemente homofóbicas se 
não fossem por ela proferidas. A 
realidade é complexa, não adianta 
tentar simplificar. 
“Paloma” vive muito do olhar de 
Kika Sena, atriz trans, ela mesma 
do interior, família pobre, horizonte 
limitado pela sua origem de classe, 
improvavelmente transportada 
para o protagonismo de um filme 
que discute o lugar social das 
pessoas fora da dicotomia homem-
mulher cis. É um olhar que nos 
interpela, na lhaneza de uma 
história — aliás inspirada em factos 
reais — que levanta o véu sobre a 
endémica fobia LGBT brasileira que 
faz com que a violência de género 
seja um verdadeiro problema 
nacional. b
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LEVANTE
De Lillah Halla 
Com Ayomi Domenica, Loro Bardot, 
Grace Passô (Brasil/França/Uruguai)
Drama / Classificação a definir
 
QQQ
PALOMA
De Marcelo Gomes
Com Kika Sena, Patricia Dawson, 
Márcio Flecher (Brasil/Portugal)
Drama M/14
E 
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a.
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AMOR EM SANGUE
De Rose Glass
Em Las Vegas, Lou, a tímida gerente 
de um ginásio, apaixona-se por 
Jackie, uma ambiciosa culturista em 
busca do seu sonho. Porém, o seu 
amor vai gerar violência e levá-las 
à rede criminosa da família de Lou. 
Com Kristen Stewart e Katy O’Brian
CICLO ‘SE O CINEMA É UMA 
ARMA’
Para celebrar o 50º aniversário do 
25 de Abril, o Cinema Batalha, no 
Porto, recebe a partir de sábado 
um ciclo de filmes sobre o poder 
transformador do cinema e o seu 
papel como ferramenta de luta. 
Com obras de ficção e documentá-
rios de Brasil, Palestina, Hong Kong 
ou Nigéria.
A TERRA PROMETIDA
De Nikolaj Arcel
Filme protagonizado por Mads 
Mikkelsen, que conta a história 
do empobrecido capitão Lud-
vig Kahlen, que em 1755 parte à 
conquista da inabitável charneca 
dinamarquesa, em nome do rei, en-
frentando a oposição do impiedoso 
dono da região. 
VERMIN — A PRAGA
De Sébastien Vaniček
Filme francês de terror sobre Kaleb, 
que na véspera de completar 30 
anos se sente mais só do que nunca. 
Apaixonado por animais exóticos, 
arranja uma aranha rara, que deixa 
escapar. Rapidamente o subúrbio 
onde vive mergulha no caos, à me-
dida que os aracnídeos mortais se 
multiplicam. 
Como um dos anteriores filmes de 
Kore-eda (“O Terceiro Assassinato”), 
“Culpado — Inocente — Monstro” 
organiza-se como uma lição de epis-
temologia perspetivista, que volta a ter 
como matriz o “Rashômon” de Kurosawa. 
De facto, o que aqui encontramos é um 
misto de thriller psicológico e melodrama 
passional, que procede por via de uma 
narrativa enrodilhada,onde uma mesma 
série de acontecimentos vai sendo filtrada 
pelos pontos de vista de várias persona-
gens. A saber: o de uma jovem viúva que 
começa a estranhar os comportamentos 
esdrúxulos do seu filho único com cerca 
de 12 anos, e o do professor do rapaz, que, 
após uma confissão feita pelo último, será 
acusado pela sua mãe de o ter agredido 
e insultado. A estas duas perspetivas 
somar-se-á ainda a do próprio miúdo, 
que, como no fim ficaremos a perceber, 
vai sendo interiormente devorado por um 
fogo que arde sem se ver (não é por acaso 
que o filme arranca com a descrição de 
um incêndio). Da justaposição destes três 
olhares concêntricos resulta uma ‘história 
em espiral’, que obedece a uma lógica de 
constante revisitação e aprofundamento, 
com cada capítulo a tornar gradualmen-
te mais transparente — por variação do 
ângulo de visão ou da dilatação do tempo 
da ação — o que, a princípio, era opaco. 
Ainda que a complexidade desta estrutura 
narrativa pareça reproduzir, a seu modo, a 
confusão emocional do rapaz, não conse-
guimos deixar de sentir que é demasiado 
artificial e pesada para fazer jus à delica-
deza dos temas que aqui se abordam: os 
da rejeição e da construção da identidade 
pessoal, que têm vindo a marcar a obra de 
Kore-eda desde o início. Esta discrepância 
entre tema e estrutura torna-se evidente 
no último ato (que nos deixa por fim a 
sós com o miúdo e o seu ‘monstro’), que, 
pela sua sensibilidade, acaba por expor a 
rigidez emocional e a função meramente 
acessória dos que o precederam. O que só 
prova que o cinema de Kore-eda é tanto 
melhor quanto mais imediato consegue 
ser. / VASCO BAPTISTA MARQUES
QQQ
CULPADO — INOCENTE 
— MONSTRO
De Hirokazu Kore-eda
Com Sakura Andô, Eita Nagayama, 
Soya Kurokawa (Japão)
Drama/Thriller M/12
DE b MÍNIMO A QQQQQ MÁXIMO EXPRESSO
E S T R E L A S DA S E M A N A
Vasco 
Baptista
Marques
Jorge
Leitão
Ramos
Francisco
Ferreira
Amor em Sangue QQQ
Culpado — Inocente — Monstro QQ QQQ
Diálogos depois do Fim QQ QQQ
Duna: Parte Dois Q QQQ
Eu Capitão Q QQQQ
Os Excluídos QQQQ QQ
Levante QQQ
Paloma QQQ
Pobres Criaturas Q QQQQ
Priscilla QQQ QQQ
Quatro Filhas QQ QQQ
A Sala de Professores QQQ QQ
A Terra Prometida Q QQ
Vidas Passadas QQQ QQQQ QQ
Yannick QQQ
E 60
Coordenação Lia Pereira
lipereira@blitz.impresa.pt
Parece que foi ontem que ela 
começou a sair da casca. Foi 
quando a vimos a fazer de 
Eleven na primeira temporada de 
“Stranger Things”, não passava de 
uma miúda de 12 anos. Millie Bobby 
Brown está hoje com 20, vai-se 
preparando para dizer adeus àquela 
série (dizem que é lá para meados 
de 2025) e este “A Donzela” torna-a 
agora heroína de cinema de ação e 
de espada em punho. Não é preciso 
que alguém apregoe para que se 
sinta que é, em tudo, um passo 
na carreira dela programado pela 
Netflix com todo o cuidado. Aliás, 
a aposta do gigante do streaming 
Uma atriz contra 
castelos e dragões
“A Donzela”, aventura 
medieval da Netflix, 
é um veículo de 
promoção à medida 
de Millie Bobby Brown
TEXTO FRANCISCO FERREIRA
na atriz já ficou bem vincada com 
o sofrido “Enola Holmes” e a sua 
ainda mais sofrida sequela. Mas 
quem se admira? Em 2018, tinha 
Millie 14 anos, foi apontada pela 
revista “Time” ao Top 100 das 
pessoas mais influentes do mundo, 
no mesmo ano em que a UNICEF fez 
dela a mais jovem Embaixatriz da 
Boa Vontade. Ela sabe muito bem o 
que significa ser famosa na era dos 
memes e do TikTok.
Millie Bobby Brown também sabe 
que a fama dá trabalho e, de facto, 
dá o que pode e oferece o melhor de 
si mesma a Elodie, assim se chama 
a heroína guerreira de “A Donzela”. 
Se o seu profissionalismo é inegável, 
também é verdade que o filme, esse, é 
um chorrilho de lugares-comuns que 
começa no guião de Dan Mazeau (o 
autor de “Fast X” e “Fúria de Titãs”) 
e continua na realização do espanhol 
Juan Carlos Fresnadillo, a quem falta 
quase tudo — e só se lhe pedia um 
bocadinho de rasgo e de originalidade, 
umas gotas de um perfume qualquer 
que fizesse a audiência esquecer que 
este filme já foi feito mil vezes.
Na história que se conta, a Elodie 
de Millie Bobby Brown é forçada 
pelo pai, o arruinado Lord Bayford 
(Ray Winstone), a casar-se com 
Henry (Nick Robinson), filho de 
A DONZELA
De Juan Carlos Fresnadillo
Com Millie Bobby Brown, Ray Winstone, 
Angela Bassett (EUA)
Na Netflix, em streaming 
Millie Bobby Brown, 
estrela de “Stranger 
Things”, é a protagonista 
do filme que, com 
tremendo investimento 
no CGI, quer colar-se 
a aventuras como 
“A Guerra dos Tronos”
está para durar no mainstream (o 
do cinema e o dos jogos de vídeo). 
O problema é que, no caso deste 
filme de Juan Carlos Fresnadillo, o 
artifício faz questão de se notar a 
cada segundo, por mais que Millie 
disfarce, por mais que ela procure 
criar com quem a vê uma relação 
com alguma intensidade emocional. 
É uma atriz a bater-se contra 
castelos, grutas e dragões no pano 
de fundo, batalha inglória a nível 
artístico e que não a pode levar a 
nenhum lugar.
Estranhou-se que “A Donzela” não 
tenha sido mostrado à imprensa 
com alguns dias de antecedência à 
estreia (como sucede geralmente); 
quando assim é, costuma ser mau 
sinal. De facto, é um daqueles filmes 
tão desalmados que não consegue 
sequer propor uma reciclagem de 
convenções; não sabe, simplesmente, 
como se apropriar dos códigos do 
género fantástico e de aventuras 
com um mínimo de entusiasmo. No 
ecrã parece que está tudo no sítio 
certo, como se um algoritmo de uma 
qualquer inteligência artificial o 
tivesse parido sem dar cavaco a gente 
de carne e osso. Há de redundar em 
êxito nos sofás de casa nas próximas 
semanas... Já Millie Bobby Brown 
terá certamente que procurar 
outro caminho. A oportunidade vai 
aparecer, é uma questão de tempo. b
uma rainha vilã que Robin Wright 
trata com jeitos caricaturais. A boda 
traz água no bico e, para lá da nova 
sogra malvada que serve criaturas 
do Demo, descobre a protagonista 
que tem à sua espera um horizonte 
especialmente cruel. Apesar do seu 
sotaque tão british (que soou mal a 
alguns ouvidos na América), não 
tem Elodie outro remédio senão 
transformar-se numa espécie de 
Rambo em paisagens medievais, 
batendo-se contra dragões e outros 
bicharocos nada recomendáveis 
nos mais escuros subterrâneos do 
planeta. O investimento no CGI 
é tremendo e quer colar-se às 
imagéticas de “A Guerra dos Tronos” 
e de “A Casa do Dragão”, esse filão 
aberto por “O Senhor dos Anéis” 
E 62
Coordenação Luís Guerra
lguerra@blitz.impresa.pt
Sérgio, à 
queima-roupa
Sérgio Godinho celebra o 50º aniversário 
da Revolução dos Cravos e do primeiro 
álbum que lançou em liberdade, 
“À Queima Roupa”. O espetáculo 
“Liberdade 25” está na estrada
TEXTO RUI MIGUEL ABREU
“Liberdade”, garante Sérgio 
Godinho, continua a ser a mais 
poderosa das palavras. “É uma 
palavra que tem muitos sentidos. 
A música ‘Liberdade’ diz que esta 
tem de ser posta em prática, mas 
também vivida quotidianamente. 
É a palavra que atravessa mais as 
minhas canções, se não enquanto 
palavra, pelo menos como ideia. 
Mas hoje sabemos que à ‘paz, pão, 
habitação, saúde e educação’ temos 
que acrescentar a justiça. Ela tem 
tropeçado nela própria e derrubado 
governos. Temos que a cuidar 
melhor...” Em vésperas de voltar 
a pisar os palcos dos Coliseus de 
Lisboa (quarta e quinta) e do Porto 
(dias 23 e 24), o homem que em 1974 
atingiu o país à queima-roupa com 
um conjunto de canções urgentes 
e necessárias fala ao Expresso 
horas antes de descer sozinho o 
Chiado, em Lisboa, numa solitária 
arruada, para apresentar o seu novo 
romance, o terceiro — “Vida e Morte 
nas Cidades Geminadas”.
“Nestes concertos haverá uma coisa 
nova”, (quase) revela o cantor. 
“Uma coisa mais próxima da spoken 
word, com um ritmo mais...” A ideia 
fica no ar e logo se esfuma, dando 
a ideia de ser trunfo de que só se 
puxará mesmo no palco. “Eu e os 
Assessores [banda de Godinho] 
gostamos de voltar a canções 
SÉRGIO GODINHO
Centro Cultural e de Congressosdas Caldas da Rainha, 
sábado, 21h30; Coliseu de Lisboa, quarta e quinta, 
20h30; Coliseu do Porto, dia 23, 21h30, dia 24, 17h
E 63
R
IT
A
 C
A
R
M
O
Nascido há 78 anos, Sérgio 
Godinho tinha 28 no 25 de 
Abril de 1974. Nos Coliseus de 
Lisboa e Porto, o espetáculo 
“Liberdade 25” contará com 
A Garota Não e Canto Nono 
como convidados
Nas páginas da mesma biografia, 
Sérgio Godinho explica como 
foi “raptado” assim que entrou 
e Portugal, envolvendo-se no 
histórico momento através dos 
“cantos livres” que despontavam 
por todo o lado, nas fábricas e nas 
universidades. No Pavilhão dos 
Desportos, em Lisboa, por exemplo, 
lembra-se de, com um “frisson 
especial”, dar voz a ‘Maré Alta’, 
tema que fechava o alinhamento 
de “Os Sobreviventes”: “Cantar 
‘a liberdade está a passar por 
aqui’, que antes tinha sido uma 
premonição, na própria altura em 
que isso se estava a tornar realidade, 
era incrível.”
“À Queima Roupa” permanece 
um trabalho-chave precisamente 
porque combina os distintos olhares 
de quem, num distante Canadá, 
observava ao longe o desenrolar da 
história, e depois, já em Portugal 
deu consigo com a revolução a 
transformar todas as vidas. “Fruto 
do tempo em que surge”, escreve 
Nuno Galopim, “‘À Queima Roupa’ 
é habitualmente descrito como 
um dos álbuns politicamente 
mais explícitos da obra de Sérgio 
Godinho. Sem o panfletarismo 
imediato que dominaria casos 
paradigmáticos da canção política 
pura e dura [...], Sérgio Godinho 
retratava o seu tempo, aderia à 
revolução, mas não colocava a 
qualidade poética da escrita em 
segundo plano, evitando assim uma 
rendição incondicional à doutrina 
e urgência de certas manifestações 
contemporâneas.”
“Toda a gente se pergunta o que vai 
acontecer com o resultado destas 
eleições”, admitia ao Expresso 
Sérgio Godinho há exatamente uma 
semana, em vésperas da votação. 
“Mas é um momento que faz parte 
da nossa vida democrática”, adianta 
ainda o cantor, que logo depois 
alerta para o “passo de caracol” da 
justiça, o tal valor que hoje, entende 
o artista, precisava de ser reclamado 
ao lado da “paz, pão, habitação, 
saúde e educação” tão necessárias à 
fruição da liberdade. A que se canta 
e, sobretudo, a que se quer viver. 
“Todas essas coisas têm que ser 
preenchidas com conteúdos, caso 
contrário são palavras ocas.”
“Estaremos sempre numa 
democracia imperfeita, há muito 
para melhorar. Mas o álbum em 
que eu dei voz a esse anseio de 
liberdade apareceu num período 
muito quente e algumas das 
canções espelhavam o momento 
político que se vivia. Mas uma 
outra, a ‘Etelvina’, de certo modo 
tem o condão de ter inaugurado 
uma escrita mais narrativa, 
voltada para personagens, para 
vidas. Isso interessa-me muito e 
agora ando mesmo empenhado 
na ficção narrativa, como o ‘Vida 
e Morte nas Cidades Geminadas’ 
bem atesta. Essa vontade de narrar 
histórias”, prossegue Godinho, 
“que podem ser mais ou menos 
ficcionadas, mas que se inspiram 
na vida das pessoas, é uma 
constante das minhas canções. 
Por isso, na minha cabeça, uma 
canção como a ‘Etelvina’ é tão 
valorizada como a ‘Liberdade’. 
Outras desatualizaram-se, como 
‘Os Pontos nos Iis’... Já não estamos 
na reforma agrária, não é?”, 
questiona o cantor, não escondendo 
um sorriso. Como diria Dorothy 
em “O Feiticeiro de Oz”, já não 
estamos no Kansas, mas o mundo 
novo que se estende à nossa frente 
pode não ser assim tão admirável. 
Cantar a liberdade — e a paz, o pão, 
a habitação, a saúde e a educação 
(e a justiça) — pode ser mais 
importante do que nunca. b
bem. Gosto muito do trabalho que 
ela faz e pelos vistos ela também 
gosta do meu. É uma coisa sincera. 
A primeira vez que interagimos 
foi no espetáculo ‘Conta-me Uma 
Canção’, um momento em que 
também se fala muito. Já o fiz este 
ano com a Capicua, no Maria Matos 
[em Lisboa]. Nesses momentos era 
suposto eu cantar uma canção dela 
e ela retribuir com uma minha, mas 
disse-me logo ‘isso é infame, não 
sou capaz’ e fez antes um medley 
com sete canções [risos]”. Além da 
celebrada autora do álbum “2 de 
Abril”, Sérgio Godinho chamará 
aos palcos dos Coliseus o grupo 
vocal Canto Nono, “que é do Porto 
e que trabalhou muito com o Zé 
Mário”, acrescenta, referindo-se, 
claro, ao seu grande amigo e 
companheiro de tantas viagens José 
Mário Branco, falecido em 2019. 
“No meu disco ‘O Irmão do Meio’, 
o Canto Nono participava ao meu 
lado e do Zé Mário numa versão do 
‘Que Força É Essa’, que ele mesmo 
arranjou. Eles são muito rigorosos 
e também fizeram em tempos uma 
versão do ‘Etelvina’”, explica-nos 
Sérgio Godinho, referindo-se a 
outro momento importante do 
primeiro álbum que lançou já 
em plena liberdade, “À Queima 
Roupa”, disco começado no exílio 
canadiano e terminado já no 
Portugal de Abril.
Quando a Revolução dos Cravos 
se deu, Sérgio Godinho — que já 
tinha lançado “Os Sobreviventes” 
e “Pré-Histórias”, dois álbuns 
gravados no Château de Hérouville, 
em França, em 1972 e 1973, 
respetivamente — encontrava-se 
em Vancouver (Canadá), a 
trabalhar com a companhia de 
teatro independente Genesis. 
“Até que um dia, precisamente a 
26 de abril”, relatou o cantor em 
“Retrovisor”, a biografia assinada 
por Nuno Galopim (Assírio e Alvim, 
2006), “li que ‘tanques tinham 
ocupado a praça central de Lisboa’. 
Era como vinha escrito”. De malas 
já preparadas para viajar para 
França para celebrar em família o 
60º aniversário do seu pai, Sérgio 
Godinho descobriu quando chegou 
a Paris no primeiro dia de maio que 
amigos como José Mário Branco e 
Luís Cília já tinham abalado para 
Lisboa “no avião do Cunhal”. 
Sérgio percebeu aí que poderia 
também regressar a Lisboa, sem 
temer represálias por ser refratário. 
“E assim vim [...] de longe, de 
muito longe, como diria o Zé 
Mário.”
“Cantar ‘a liberdade 
está a passar por 
aqui’, que antes 
tinha sido uma 
premonição, 
na própria altura em 
que isso se estava 
a tornar realidade, 
era incrível”
SÉRGIO GODINHO
antigas, dar-lhes novas roupagens. 
É algo que fazemos com muito rigor, 
que requer muitos ensaios”, admite 
Sérgio Godinho, homem que veio do 
teatro e que entende bem que uma 
coisa para parecer natural tem que 
ser burilada até ao mais pequeno 
detalhe.
“Liberdade 25”, que passou por 
Ponte de Lima e Ílhavo, e este 
sábado será também aplaudido nas 
Caldas da Rainha, terá nos Coliseus 
dois convidados. Comecemos por 
A Garota Não. “Cantei com ela no 
CCB e fui convidado surpresa não 
anunciado também na Casa da 
Música”, refere Sérgio Godinho. 
“Esse cruzamento resultou muito 
E 64
A história portuguesa dos 
Depeche Mode é longa e 
teve sempre como palco 
grandes arenas: os estádios de 
Alvalade e Antas em 1993, o então 
Pavilhão Atlântico, atual Meo 
Arena, em 2006 e 2009, e, mais 
recentemente, o festival NOS 
Alive, nas edições de 2013 e 2017. 
O regresso a Lisboa acontece, 
agora, em nome próprio, com o 
álbum “Memento Mori”, o 15º da 
sua discografia e o primeiro que 
a banda britânica edita depois 
da morte do teclista, baixista 
e elemento fundador Andy 
Fletcher, em maio de 2022. O 
palco será, de novo, a arena do 
Parque das Nações. Quando o 
Expresso falou com Dave Gahan, 
no início do ano passado, o 
vocalista confessava-nos que 
guarda “ótimas memórias” de 
Portugal, recordando umas férias 
que passou no Algarve. “Lembro-
me de ir lá com a minha família 
inteira. Diverti-me muito”. A 
diversão, claro, não acontece 
só nas férias. Gahan e o teclista 
e guitarrista Martin Gore são 
mestres da performance e as suas 
passagens pelo país deixaram 
marcas fortes na memória de uma 
legião de fiéis, sempre pronta a 
celebrar clássicos como ‘Personal 
Jesus’, ‘Just Can’t Get Enough’ ou 
‘Enjoy the Silence’.
Apesar de a “Memento Mori 
Tour” prestar particular atenção 
ao álbum que lhe dá nome, e que 
lhes rendeu alguns dos singles 
mais memoráveis que editaram 
nas últimas décadas (‘Ghosts 
Again’ e ‘My Favourite Stranger’ 
à cabeça), os Depeche Mode têm 
transformado concertos recentes 
numa verdadeira recapitulação 
dos melhoresmomentos de 
um percurso que se alonga 
por mais de 40 anos: dos anos 
1980 de ‘Everything Counts’ 
e ‘Strangelove’, servida nesta 
digressão em registo acústico 
por Gore, aos 90 de ‘I Feel You’ 
e ‘It’s No Good’, seguindo para 
o novo milénio com ‘A Pain 
That I’m Used To’, ‘John the 
Revelator’ ou ‘Heaven’. Chegando 
a Portugal com um ano de estrada 
de “Memento Mori”, a banda 
faz-se acompanhar ao vivo pelos 
colaboradores de longa data 
Peter Gordeno nas teclas — que 
Banda em mutação
Martin Gore e Dave Gahan, os dois Depeche Mode sobreviventes
tem também no currículo os U2, 
The Who ou George Michael — e 
Christian Eigner na bateria, mas 
a dinâmica entre Gahan e Gore 
parece ter-se alterado com a 
morte de Fletcher. Segundo uma 
reportagem do jornal britânico 
“The Guardian” de um espetáculo 
na O2 Arena, em Londres, no 
passado mês de janeiro, “o 
novo poder da dupla nasce hoje 
do afeto e cordialidade que os 
sobreviventes mostram um ao 
outro”. Apesar de a relação entre 
os dois músicos ter passado por 
fases complicadas ao longo dos 
anos, especialmente devido às 
situações de dependência de 
substâncias que ambos viveram, 
agora, “sorrisos rasgados” 
parecem atestar uma maior 
proximidade entre aquele que 
sempre foi o núcleo criativo dos 
Depeche Mode.
Andy Fletcher é recordado 
nos concertos quando a banda 
apresenta ‘World in My Eyes’, 
canção favorita do falecido teclista, 
que não chegou a participar nas 
gravações de “Memento Mori”. 
A
N
T
O
N
 C
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R
B
IJ
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“Ele não chegou a ouvir este 
álbum, mas presumo que a sua 
morte tenha tido algum impacto 
nele. Só pode ter tido, porque tudo 
muda quando perdes alguém de 
quem és muito próximo”, assumiu 
Gahan ao Expresso, “enquanto 
artista, tudo o que acontece na 
minha vida encontra uma forma de 
se infiltrar na música, nas canções 
ou nas letras. Acredito que houve, 
certamente, momentos em que 
sentimos a sua presença”. Apesar 
de o desaparecimento do terceiro 
vértice da banda ter agitado as 
suas fundações, o duo descansou 
os admiradores aquando da 
apresentação de “Memento Mori”, 
garantindo que não pensaram em 
desistir. “Temos a certeza de que 
ele quereria que o fizéssemos. E 
isso deu ao álbum todo um novo 
significado”, declarou Gore em 
outubro de 2022. Meses depois, 
Gahan confessava-nos que a 
hipótese de um álbum ser o último 
dos Depeche Mode é algo que lhe 
ocorre em todos os que a banda 
grave. “Sempre que acabamos um 
disco, penso: ‘pronto, já está, não 
volto a fazer isto’. Mas aqui estou 
eu, portanto...” O futuro até pode 
ser um tanto ou quanto incerto, 
mas parece estar garantido mais 
um espetáculo memorável em 
Lisboa. / MÁRIO RUI VIEIRA
DEPECHE MODE
Meo Arena, Lisboa, terça, 20h30
E 
ai
nd
a.
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TREMOR
Ponta Delgada, Açores, de 19 a 23
O mais marcante festival açoriano da 
última década regressa à ilha de São 
Miguel para a 11ª edição, contando, 
entre residências artísticas e cami-
nhadas, com atuações da francesa 
Colleen (Teatro Micaelense, dia 20, 
22h15, na foto), dos barcelenses 
Glockenwise (Portas do Mar, dia 22, 
22h) ou do açoriano P.S. Lucas (Tea-
tro Micaelense, dia 23, 20h30).
BELÉM SOUNDCHECK
CCB, Lisboa, de 21 a 24
Mostrando que, ao fim de 30 anos, 
continua a querer atrair todo o tipo 
de público, o CCB estreia o festival 
Belém Soundcheck. No primeiro dia, 
recebe o fado de Camané (20h) e o 
jazz de Maria João (22h); no segundo, 
a música de Vivaldi pelo ensemble Il 
Giardino Armonico com o violoncelis-
ta Giovanni Sollima (20h); no terceiro, 
Patti Smith (na foto) apresenta o 
espetáculo audiovisual “Correspon-
dences” com o Soundwalk Collective 
(19h); e no último, o protagonismo será 
da orquestra Kremerata Baltica (17h).
PORTUGAL PLAYS 
SAKAMOTO
Museu do Oriente, Lisboa, quinta, 19h30
Um ano depois do seu desapareci-
mento, o compositor Ryuichi Sakamo-
to será homenageado num espetá-
culo que junta Rodrigo Leão (na foto), 
com quem o músico japonês colabo-
rou em 2004, no álbum “Cinema”; o 
pianista João Vasco, que se apre-
sentará em formato trio; e a leiriense 
Surma, que editou recentemente o EP 
“If I’m Not Home: I’m Not Far Away”, 
inspirado na obra de Sakamoto.
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1994-2024
E 66
Coordenação Cristina Margato
cmargato@expresso.impresa.pt
Quem somos nós
contra a morte. À violência do seu 
presente, Jo só pode responder com 
uma violência que é a medida da 
sua resistência, enquanto ser vivo. 
As flechas que Jo dispara a torto e 
a direito, aparentemente, têm uma 
outra face, convivem com outras 
dimensões; “um dia, quando 
estiveres a morrer, quando for 
aquele dia, aquele dia em que te 
dizem, ou o dia em que percebes 
que sabias, mas não conseguias 
admitir, nesse dia, gostava de estar 
ao pé de ti”: é assim que Jo fala da 
sua morte, e é assim que Jo profere, 
com terrível sobriedade, uma das 
mais extraordinárias declarações 
de amor do teatro moderno. “Oh, 
meu Sam, meu Sam! Eu casava 
contigo agora neste instante!”; é 
assim que Jo recobre com ironia 
a verdade e a intensidade dos 
sentimentos. E quanto aos amigos, 
“… provavelmente gostamos deles, 
apesar de tudo”, observa ao marido, 
A
D
R
IA
N
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 F
IL
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E
 Benedita Pereira, 
Sandra Faleiro e 
Manuela Couto 
A peça começa em casa de 
Sam e Jo. São um casal 
entre os 34 anos, tal como 
os outros dois casais presentes 
— Fred e Carol, Edgar e Lucinda. 
O ambiente é de classe média 
evoluída e sofisticada. É fim de 
noite, e sente-se que o álcool já 
circulou. São amigos, conhecem-se 
bem, costumam estar juntos. Jo está 
doente — “chamas-te Sam; esta é 
a tua casa; e eu sou a tua mulher, 
e estou a morrer…”. É verdade, 
é ela quem o diz, e de facto Jo é 
quem funciona como um centro 
de energia que dispara flechas em 
todos os sentidos. Ela está a morrer, 
tem dores horríveis, e Sam deixa 
que ela diga e faça tudo o que quer. 
Jo está já, percebemos rapidamente, 
na fase em que a violência contra 
os outros — principalmente contra 
quem gosta dela e de quem ela 
gosta — funciona como um escudo 
de defesa contra o sofrimento e 
A peça de Edward Albee é uma 
extraordinária parábola não apenas 
sobre a chegada da morte, mas também 
sobre a realidade de existirmos, 
e de sabermos — ou não — quem somos
TEXTO JOÃO CARNEIRO 
quando ele lhe pergunta por que é 
que os convidam. 
O primeiro ato acaba com a chegada 
de um outro par, Elizabeth e Óscar. 
A sala está deserta, já todos foram 
embora, ou foram dormir. O segundo 
ato começa na manhã seguinte, 
e Elizabeth está na sala. É, nas 
indicações do texto, “uma mulher 
elegante… esplêndida seja qual 
for a idade”. Sam depara com ela 
quando desce do quarto de dormir, 
acabado de acordar; “quem é a 
senhora?”, pergunta atónito. Sam 
vai repetir a pergunta inúmeras 
vezes, sem conseguir uma resposta 
satisfatória. Entra Óscar, que esteve 
no escritório; é um negro de cerca 
de 50 anos. Finalmente, e depois 
de tentar expulsar os intrusos, sem 
o menor sucesso, ficamos a saber: 
“ora… eu sou a mãe da Jo… eu sou 
a mãe da Jo, vim de Dubuque”; 
“esta senhora é a mãe da Jo; esta 
é a senhora de Dubuque; a mãe da 
Jo”, corrobora Óscar, com a calma 
da evidência. Para Sam, trata-se de 
um pesadelo; a mãe da Jo, que ele 
conhece, é uma senhora pequena, 
insignificante, magra, com cabelo 
ralo pintado de cor-de-rosa, e vive 
em New Jersey. Os seus argumentos, 
contudo, escorrem por Elizabeth e 
Óscar como água sobre um oleado, o 
que ele diz tem pouca importância. 
Chegam os amigos, e a cena da 
véspera vai ter uma espécie de 
repetição, mas durante a manhã. 
A certa altura, Jo assoma ao alto 
das escadas. “Vista do alto, sobre a 
vala cá em baixo”, limita-se a dizer 
Óscar. A realidade mudou. Jo cai 
nos braços de Elizabeth e também 
não responde quando Sam lhe pede 
que diga que não se trata da sua 
mãe. “Vem, deixa-meafagar-te a 
fronte, pentear-te o cabelo, lavar-
te, deitar-te e contar-te histórias”, 
diz Elizabeth. Elizabeth e Óscar não 
são apenas personagens diferentes, 
que aparecem, eventualmente, no 
momento em que a morte tem de ser 
vista de frente; são os sinais de uma 
outra realidade, na qual as palavras, 
as razões e a lógica habituais, do 
quotidiano, têm pouco ou nenhum 
sentido. “E eles não adivinham quem 
eu seja”, reflete, quase no final, uma 
Elizabeth algo perplexa, perante a 
natural cegueira dos que vivem.
Interpretação de Cucha Carvalheiro 
e Alberto Magassela — Elizabeth e 
Óscar, respetivamente — além de 
Álvaro Correia, Benedita Pereira, 
Fernando Luís, Manuela Couto, 
Renato Godinho e Sandra Faleiro. 
Tradução de João Paulo Esteves da 
Silva, encenação de Álvaro Correia. b
A SENHORA 
DE DUBUQUE
De Edward Albee
Teatro da Trindade, Lisboa, 
até 21 de abril
“Angela (A Strange Loop)” é o título de 
um espetáculo que diz ao que vai: a his-
tória de Angela, que é de estranhamento. 
O espetáculo da dupla de criadores 
alemães Susanne Kennedy (encenadora) 
e Markus Selg (artista multimédia) conta 
a história de uma mulher, Angela, uma 
influencer, desde o nascimento até à 
vida para lá da morte, tomando-a como 
emblemática da interrogação do que 
significa ser humano hoje. Numa breve 
descrição do enredo, são sublinhados 
os momentos de um quotidiano apa-
rentemente banal. “Angela janta com o 
namorado”, “Angela tem dor” ou “Angela 
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S
desaparece” são apenas três exemplos 
para uma abordagem ao teatro que cons-
trói uma narrativa sobre a vida integrando 
na construção de identidade a vivência 
digital. A pessoa é assim constituída a 
partir da fragmentação da existência em 
vários mundos, que se conectam e inter-
ligam na perceção do que experiencia. 
O corpo entra em falência ressoando o 
caos da realidade mais ampla onde existe. 
Imaginação e real confundem-se, numa 
prática artística que está no ADN da 
dupla, “exploram o potencial que existe 
entre corpo, tecnologia, arte e rituais”, de 
acordo com o texto de apresentação. O 
corpo doente corresponde à problema-
tização da sociedade em que vivemos, 
nomeadamente no modo como lida com 
a doença. Uma peça multimédia erguida 
sobre a profunda vulnerabilidade humana 
que coloca muitas questões, entre elas: 
Como vivemos e como morremos jun-
tos? Como tomamos conta uns dos ou-
tros, quando a vida se aproxima do fim? 
“Angela (A Strange Loop)” é a estreia na 
criação de palco da estrutura Ultraworld 
Productions, de Susanne e Markus, um 
laboratório de pesquisa que tem como 
motores da criação tecnologias como a 
realidade virtual e a inteligência artificial. 
/ CLAUDIA GALHÓS
ANGELA (A STRANGE LOOP)
De Susanne Kennedy e Markus Selg
Teatro Nacional de São João, Porto, 
sexta e sábado
RÁDIO BENJAMIN
De Guilherme Gomes
CCB, Lisboa, até domingo
A inspiração para “Rádio Benjamin” 
veio, maioritariamente, de textos 
radiofónicos que Walter Benjamin es-
creveu para a infância. Em causa estão 
assuntos o ato de contar histórias, que 
se prendem com a imaginação, com o 
sonho e com a vida — a vida chamada 
muitas vezes, e nem sempre com pro-
priedade, “vida real”. Um espetáculo 
do Teatro da Cidade.
O SEGUNDO LIVRO 
DE CALEB KESENBERG
De Pedro Saavedra
CAL, Lisboa, até domingo
Esta é uma peça de fronteira, nela 
existindo uma linha que separa dois 
espaços, duas realidades; uma linha 
que tenta ser atravessada por um 
UM RETRATO DE PETER 
HANDKE — IMAGENS E 
PASSAGENS DA SUA OBRA
De Gerd Hammer 
e Vera San Payo de Lemos
Teatro Aberto, Lisboa, até domingo
Marcando o final da carreira do 
espetáculo “Tempestade Ainda”, de 
Peter Handke, Gerd Hammer e Vera 
San Payo de Lemos conceberam um 
espetáculo de leituras encenadas, 
com diversos textos que percorrem 
a obra do escritor e dramaturgo. 
Interpretação de Sara Matos e Luís 
de Barros.
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grupo de pessoas que procuram 
uma mudança nas suas vidas. Texto 
e encenação de Pedro Saavedra, 
interpretação de Edmundo Rosa, 
Henrique Gil, Marta Jardim, Paula 
Garcia, Pedro Saavedra e Wagner 
Borges.E 
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a introdução de novos padrões aos 
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O engenheiro 
da pintura perdida
O título deste texto é 
parcialmente tomado de 
empréstimo ao do livro de 
entrevistas que Pierre Cabanne 
fez a Marcel Duchamp em 1967, 
“Engenheiro do Tempo Perdido”. 
Confesso que foi grande a tentação 
em citá-lo na íntegra sem colocar 
‘pintura’ no lugar de ‘tempo’, 
porém, a pintura ficava lá muito 
bem; ela é também tempo perdido 
Um monstro da 
razão? “O Teatro 
dos Sentidos” (1991)
e, nos melhores casos, tempo 
reencontrado. E se em vez de 
pintura escrevermos imagem? E 
se em vez de imagem escrevermos 
ilusão?
Estas perguntas tanto podem 
sair do trabalho da escrita como 
da visita ao correr do tempo e da 
obra do pintor Cruz-Filipe (que é 
engenheiro também), serpenteando 
entre “Música da Câmara” de 1955 
e “Meditação sobre a Paisagem” 
de 2020. A primeira destas datas 
é enganadora, serve sobretudo 
para mostrar uma pré-história 
da pintura de Cruz-Filipe (n. 
1934), bem como afirmar, desde o 
princípio, o seu gosto pela música, 
numa composição, uma aguarela 
sobre tela, de uma expressão 
matérica rara nessa técnica.
A partir desta primeira peça, a 
exposição dá um enorme salto no 
tempo tendo um outro começo, ou 
um começo verdadeiro, a partir 
de 1972, já com a utilização de tela 
fotossensível e com uma obra cujo 
título é revelador de uma poética 
profunda, “A Medida Comum das 
Mais Humildes Coisas”. Neste 
trabalho, Cruz-Filipe cruza imagem 
de um rosto feminino e as mais 
humildes coisas, provenientes da 
citação do mais humilde, ou mais 
baixo, dos géneros da pintura nas 
antigas classificações dos séculos 
XVII e XVIII: a natureza morta. 
Entramos assim no reino da 
imagem através da tela fotossensível 
até 2001, e, depois de 2004, da 
impressão digital em tela para os 
trabalhos que vão até ao fim da 
exposição.
Podemos falar em duas técnicas, 
igualmente precisas e gratas ao 
engenheiro pintor, com capturas 
de imagem diferentes, recolha 
no primeiro caso de imagens do 
passado da pintura e fotografia de 
fragmentos de paisagem retiradas 
de um real/natural (?) no segundo. 
Dois tempos, duas técnicas e duas 
poéticas correspondendo a duas 
maturidades no seu percurso e a 
dois discursos sobre a possível (re)
construção dessas duas realidades, 
ou dessas duas ilusões, quem 
sabe?
A primeira ilusão é a da arte, 
neste caso encarnada na pintura, 
pela presença de um passado 
fragmentado e fragmentário, ainda 
mais forte e mais presente pela 
força dessa fragmentação, tudo 
num curto-circuito permanente 
e controlado, entre a sedução e 
o desastre, entre o que resta da 
beleza perdida e a capacidade 
de criar alguns monstros, ao 
contrário do Goya, quero dizer, 
com a razão bem desperta.
A segunda ilusão é a da natureza, 
na presença de um presente 
mediado pela fotografia, 
sempre fragmentada, onde o 
impermanente da água e da 
atmosfera se cotejam com a 
aparente solidez e durabilidade da 
pedra, tudo sujeito às mutações da 
luz, sempre na consciência plena e 
sensível da efemeridade do tempo 
presente, sejam quais forem as 
matérias que o constituem e que 
os nossos olhos julgam verificar.
Cruz-Filipe ganha, pela lucidez 
do seu trabalho, quer a batalha do 
tempo presente quer a batalha do 
tempo passado, através de uma 
pintura que é consciência visual, 
exaltação do efémero e cintilação 
do momento perdido e logo 
recuperado. b
Pintura de Cruz-Filipe na Gulbenkian: consciência visual, exaltação 
do efémero e cintilação do momento perdido e logo recuperado
TEXTO JOSÉ LUÍS PORFÍRIO
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MODO DE VER
Cruz-FilipeGulbenkian, Lisboa, até 15 de abril
E 70
QUANTO MAIS ESTÚPIDOS OS LIVROS, MAIOR O ÊXITO
helonious “Monk” Ellison inventou uma 
piada lucrativa. Ellison de apelido, como o 
romancista de “Invisible Man”, e Monk de 
alcunha, como o compositor e pianista de 
jazz, este académico negro não consegue 
ter sucesso com os seus livros, talvez 
porque despreza o registo estereotipado 
que o mercado e as elites brancas esperam 
de um escritor negro. Escreve sobre 
temas mitológicos, imagine-se, não sobre 
marginalidade e violência. E só pensa nas 
questões raciais quando percebe que se 
esqueceu de pensar nas questões raciais.
Enquanto espera que alguém queira o seu novo romance, ainda em 
manuscrito, Monk observa, desanimado, a aceitação de que gozam 
os ficcionistas identitários ou oportunistas. E reage escrevendo, sob 
pseudónimo, uma autobiografia fraudulenta com um título bombástico e 
uma prosa ridícula. O problema é que as editoras adoram o livro, acreditam 
que foi escrito por um cadastrado fugido à justiça, e oferecem somas 
avultadas pela publicação. “The dumber I behave, the richer I get”, queixa-
se Monk. Quanto mais estúpidos os livros, maior o êxito. O agente dele, que 
já viu muta coisa, explica então que há três rótulos de Johnny Walker, que só 
o mais caro é bom, mas que a maioria das pessoas prefere o rótulo do meio, 
quase tão barato como o mais barato e quase tão mau como o mais barato.
E ainda falta o cúmulo da farsa, quando Monk é convidado para um 
júri literário que escolhe como vencedor, contra a vontade dele, o tal 
livro-fraude, intitulado “Fuck”. É como se Monk repetisse a golpada 
dos produtores de teatro do filme de Mel Brooks, que ganham dinheiro 
com um musical deliberadamente concebido para ser um fracasso. 
Ou como a jogada Goncourt, quando Romain Gary usou um alter ego, 
Émile Ajar, para ganhar um prémio que, pelo regulamento, não poderia 
voltar a ganhar. Especial graça tem a declaração dos jurados brancos, em 
maioria, contra a opinião minoritária de Monk e de uma jurada negra: “É 
essencial ouvirmos as vozes negras.”
Engenhoso e divertido, “American Fiction”, de Cord Jefferson, que 
há dias ganhou o Óscar de melhor argumento adaptado, parte de um 
romance de Percival Everett, “Erasure” (2001). Não conheço o livro, 
mas o que li acerca dele sugere que a adaptação fica muito aquém, 
nomeadamente no jogo com o experimentalismo e a metaficção, 
bastante caricaturais no filme. “Erasure”, segundo as recensões, 
denota a exasperação de Everett com a “literatura negra” tal como é 
entendida pelos brancos com remorsos históricos. Toda a conversa sobre 
a “diversidade” e a “experiência afro-americana” acaba por redundar 
na guetização, no paternalismo, e acima de tudo na obrigação de os 
escritores negros se referirem a um tipo específico de experiência, 
rejeitando outro género de narrativas, incluindo as imaginadas e 
imaginárias (“I haven’t been myself lately”, diz a certa altura Monk para 
justificar a sua impaciência).
Encontramos em “American Fiction” muitas das actuais polémicas 
americanas, a linguagem “ofensiva” que melindra os alunos de literatura, 
o choque entre a “classe” e a “raça”, a liberdade criativa e a “apropriação 
cultural” (uma das personagens lê mesmo um ensaio que remete para o 
“White Negro” de Norman Mailer, patético manifesto sobre o hipster como 
“negro branco”). Se o melhor do filme é o actor, Jeffrey Wright, num 
misantropo culto, vale a pena reter algumas ideias que também estão num 
livrinho recente de Djaimilia Pereira de Almeida.
Diz Djaimilia: “Sou hoje uma mulher negra que escreve, alguém que, 
escrevendo, escreve o que é, quero dizer. Escrevo o que sou, e ser negra é 
essencial a isso.” Mais adiante, deixa estas dúvidas: “Será a escritora negra 
escritora, interessará ela a alguém nessa condição, terá ela, se assumir tal 
condição, algum valor de troca, ou só interessa como marca publicitária, 
como modelo, história de vida, cidadã exemplar, cabide, cara bonita, 
objecto, símbolo da sua época, nada?” E noutra passagem ainda, estas 
perguntas que Monk também faz: “Como não cair na impostura de ser só 
o que esperam que eu seja, adorno numa caderneta? (...) Como não jogar o 
jogo de quem conta comigo para, junto a mim, fazer boa figura?” 
Nota: “American Fiction” está disponível na plataforma Prime Video, da 
Amazon; as citações de Djaimilia Pereira de Almeida são de “O que é ser 
uma escritora negra hoje, de acordo comigo”, edição da Relógio D’Água. b
pedromexia@gmail.com
Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia
O QUE 
ESPERAM 
QUE EU SEJA
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Jeffrey Wright 
como Thelonious 
“Monk” Ellison em 
“American Fiction”
D
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F R A C O C O N S O L O
/ PEDRO
MEXIA
E 71
vícios“ P E S S OA S S E M V Í C I O S T Ê M P O U C A S V I RT U D E S ”
Mil folhas
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Há por aí livrarias singulares que proporcionam muito 
mais do que a simples compra de um livro. Dos encontros 
com autores aos diálogos com livreiros, o Expresso 
dá a conhecer alguns destes espaços especiais
TEXTOS JOANA MAGALHÃES
E 72
Os livros fazem-nos viajar sem 
sair do lugar, mudam menta-
lidades, são um escape e até 
uma ferramenta do coração. Uma boa 
história faz o leitor sonhar e também 
confrontar-se com os seus maio res 
medos. As casas de livros — as livra-
rias — são hoje bem mais do que lojas 
onde se compram pequenas e gran-
des narrativas. São, em alguns ca-
sos, lugar de encontro, de partilha e 
intimidade. E estão de norte a sul do 
país. Esta semana descrevemos livra-
rias singulares que levam os clientes a 
folhear experiências além da compra 
de uma obra literária.
Alguma vez imaginou marcar um 
encontro às cegas com um livro? Sim, 
isso é possível. A ideia é da livraria 
Flâneur, no Porto, que desde 2015 re-
cebe amantes de livros como quem 
acolhe um familiar ou amigo em casa, 
conceito em tudo alinhado com a 
forma como o projeto nasceu. Cátia 
Monteiro e Arnaldo Vila Pouca co-
nheceram-se quando eram livreiros 
noutra empresa e ficaram amigos. 
“Percebemos que tínhamos em co-
mum, além do amor pelos livros, uma 
vontade e um sonho de termos uma 
livraria nossa”, explica Cátia. Pouco 
depois o sonho ganhou forma numa 
zona residencial, afastada do centro 
da cidade portuense.
“Naquela altura era livraria e ca-
fetaria e foi assim que começou: uma 
livraria generalista, com a presença 
de editoras consideradas indepen-
dentes, mas não só, tivemos logo des-
de o início editoras mais comuns”, 
acrescenta. Arnaldo recorda as inú-
meras feiras em que estiveram pre-
sentes e também as entregas ao do-
micílio, em bicicleta, “uma ideia que 
teve alguma importância na origem 
da livraria e que ainda existe”.
Passados dois anos, aventuraram-
-se na criação de uma editora — uma 
decisão que nasceu de forma natu-
ral, sem que imaginassem que podia 
acontecer. “Fomos lendo algumas 
obras e chegou o momento de as di-
vulgar e colocar em livro”, conta Ar-
naldo, sublinhando que foi também 
uma forma de tornar a marca Flâneur 
mais presente no mercado. A somar a 
isso houve uma mudança de instala-
ções que veio aumentar a oferta, no-
meadamente de opções estrangeiras.
Mas na sua génese, tudo se man-
teve. “Nós somos as mesmas pessoas, 
com vontade de trabalhar com livros 
e fazer aquilo que nós gostamos com 
liberdade e amor, pelos livros e pelas 
pessoas”, reforça Cátia. O conceito 
materializa-se num espaço com am-
biente familiar, onde os clientes se 
sentem em casa. A livreira recorda 
até o caso de pessoas que os visitam 
para conversar, não só sobre livros, 
mas sobre a vida.
Ainda se lembra dos encontros às 
cegas com livros? Explicamos agora 
como tudo acontece: os clientes pa-
gam 7,50 euros para receberem um 
livro surpresa, normalmente à venda 
por um valor superior. A obra é entre-
gue num embrulho “muito bonito” e 
com uma frase sobre aquilo que po-
derá ser a mensagem do livro.
Também na sua componente de 
editora, a Flâneur apresenta um pro-
jeto diferenciador — a coleção “Er-
rar”. Cada livroé impresso num nú-
mero reduzido de exemplares, cerca 
de 100, encadernados e cozidos com 
recurso a técnicas japonesas.
Caminhando para o centro do país 
cruzámo-nos com a Livraria Arqui-
vo, na cidade de Leiria, que há 45 
Os clientes 
pagam 7,50 euros 
para receberem 
um livro surpresa, 
normalmente 
à venda por um 
valor superior
anos tem os livros como base de uma 
agenda cultura regular e uma galeria 
de exposições. Tudo isto condimen-
tado com as iguarias disponíveis na 
cafetaria.
Inaugurada em 1978 por José Ri-
beiro Vieira, é agora propriedade da 
filha, Maria Alexandra Vieira, que 
acredita que a forma como o cliente é 
recebido dá o toque especial ao negó-
cio: “Gostamos que os nossos clientes 
se sintam em casa e tentamos fazer 
por isso. Seja pela simpatia e empatia 
da nossa equipa, que é maravilhosa, 
seja pela decoração e informalidade 
do espaço, seja ainda pelo respeito 
que temos por todos os que nos visi-
tam”, garante.
A juntar a isso, sublinha o cuidado 
na seleção dos livros e outros artigos, 
é que a loja integra a empresa Arqui-
vo Bens Culturais, que representa em 
Portugal marcas como a Moleskine, 
Taschen, Tombow, Loqi ou Omy, por 
isso é vasta a oferta de gifts. Também 
os eventos da agenda cultural e até o 
que é servido na cafetaria é escolhido 
E 73
LIVRARIAS 
SINGULARES
FLÂNEUR
Livraria e editora com instalações 
nos arredores do Porto. É fruto da 
paixão pelos livros de dois amigos 
que quiseram criar um espaço 
onde cada cliente é recebido 
como um amigo. Um dos projetos 
de destaque são os “encontros às 
cegas” com livros em que, por um 
valor abaixo do de venda, o leitor 
recebe uma obra literária surpresa.
Rua de Fernandes Costa, nº 88, 
4100-240 Porto
LIVRARIA ARQUIVO
Situada no centro de Leiria, 
diferencia-se pela aposta numa 
agenda cultural diversificada e por 
uma oferta literária que vai desde 
o mais mainstream até às edições 
de nicho. Possui um espaço para 
exposições e uma cafetaria. O 
objetivo é que os clientes se sintam 
em casa, numa experiência que vai 
além da simples compra do livro.
Avenida Combatentes da Grande 
Guerra, nº 53, 2400-159 Leiria
SALTED BOOKS
A saudade de visitar uma livraria 
independente, sentar e ler um livro 
escrito em língua inglesa levou Alex 
Holder e Mark Thompson, naturais de 
Londres, a dar forma a este espaço. 
A oferta literária, toda em inglês, é 
escolhida a dedo pelos proprietários e 
vai da ficção aos ensaios.
Calçada Marquês Abrantes, nº 96, 
1200-720 Lisboa
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a dedo. Todos estes ingredientes ga-
nharam força em 2023, aquando da 
celebração do 45º aniversário, come-
morado com um aumento das instala-
ções, para praticamente o dobro, que 
“comunicam” agora com o exterior.
A transformação abriu espaço, 
segundo o gerente da Arquivo Bens 
Culturais, João Nazário, para duplicar 
o número de títulos, “o que permite 
ter mais oferta e trabalhar com edi-
ções menos comerciais, de editoras 
mais pequenas”. Para o responsável, 
as obras disponíveis “representam 
bastante bem o que é editado no país, 
desde o mais mainstream a edições 
de nicho”. Mas a oferta não fica por 
aqui: há ainda cerâmica, joalharia e 
ilustração de artistas emergentes ou 
marcas que se distinguem pela cria-
tividade, design e sustentabilidade.
Apesar da mudança, a identi-
dade da livraria manteve-se: a pai-
xão pelos livros, a amizade, a sede 
por cultura e a sensação de estar em 
casa. E tudo isto trouxe mais clien-
tes, “bastante mais movimento” na 
loja e pessoas que todos os dias vão à 
Arquivo, “nem que seja apenas para 
dizer um olá”, conforme confiden-
cia João.
Continuando a seguir para sul no 
país, foi a vez de fazer uma paragem 
na Salted Books, um espaço lisboe-
ta dedicado à literatura inglesa. A 
viver em Lisboa há quatros anos, os 
proprie tários, Alex Holder e Mark 
Thompson, naturais de Hackney, 
Londres, tinham saudades de visitar 
uma livraria independente de língua 
inglesa: “Sentimos falta de folhear 
livros, dos vendedores e das suas re-
comendações e até de nos sentarmos 
em bancos frágeis nas livrarias, a be-
ber vinho num copo de papel, en-
quanto ouvíamos autores falarem so-
bre algo tão aleatório quanto a cultura 
atrevida dos anos 90”, contam.
Enquanto livraria independente, 
acreditam que a característica dife-
renciadora está no facto de cada li-
vro ser escolhido a dedo. “Nós somos 
os livros que armazenamos”, subli-
nham. Tudo isto implica um trabalho 
de muitas horas, todas as semanas, 
até chegar à lista final de obras para 
encomendar. “Não nos baseamos em 
listas ou algoritmos de best-sellers, 
mas sim em críticos confiáveis e na 
própria leitura que fazemos dos li-
vros”, garantem. O conceito ganha 
força com uma equipa formada por 
leitores e autores de livros.
A uma oferta diversificada que vai 
da ficção aos ensaios, com novos li-
vros a chegar duas a três vezes por se-
mana, os proprietários querem agora 
acrescentar uma agenda de eventos 
reforçada com “grandes autores”. 
Para Alex e Mark esta tem sido uma 
experiência “mesmo maravilhosa”, 
que cresceu com o apoio dos clien-
tes, principalmente da vizinhança. E 
se pudessem descrever a Salted Books 
em três palavras elas seriam “Cura-
doria de leitores”.
A PAIXÃO PELOS LIVROS
Com cafetaria ou sem, com uma 
agenda cultural mais ou menos rica, 
com um espaço grande ou mais limi-
tado, há algo que une todas estas li-
vrarias: a paixão pelos livros. E sobre 
isso, os proprietários não têm dúvi-
das. Para Alexandra, da Livraria Ar-
quivo, os livros “dão conhecimento, 
fazem sonhar e ajudam a pensar”. 
Podem mudar o leitor e até mesmo 
uma sociedade. Como seria o mundo 
se não existissem livros? “Certamen-
te, ainda pior...”
Também na vida de Cátia, da Flâ-
neur, a leitura é uma necessidade bá-
sica, tanto que, além de estar e falar 
com pessoas, são os livros que lhe dão 
mais prazer: “Se eu passar um dia sem 
ler parece que me falta alguma coisa, 
sinto mesmo uma falta física, quase 
como uma carência”, afirma. O ami-
go e sócio, Arnaldo, alinha no mesmo 
pensamento e até vai mais longe, afir-
mando que a leitura “é um momen-
to de diálogo connosco, um exercício 
muito importante enquanto ser hu-
mano”. Já para a proprietária da Sal-
ted Books, Alex, os livros são conforto, 
entretenimento e educação e o maior 
prazer que encontra na vida. 
Seja no norte, centro ou mais a sul 
do país, da ficção às histórias verídi-
cas, da língua portuguesa às estran-
geiras, os livros cabem em todas as 
mãos, gostos e personalidades. Uma 
boa leitura pode abrir a janela dos 
pensamentos, da consciência e, quem 
sabe, da alma. E o leitor, já encontrou 
a sua livraria? b
E 74
Saltimboca de frango
Tempo de preparação 25 minutos | Tempo de confeção 45 minutos
INGREDIENTES
4 peitos de frango / Barriga de porco 
curada fatiada / Salva q.b. / Mostarda q.b. / 
Pimenta q.b. / Azeite q.b. / Sal q.b.
 
 
 
 
 
 
Abrir os peitos de frango com uma 
incisão no centro, temperar com sal 
e pimenta, barrar com mostarda e, 
de seguida, colocar umas folhas de 
salva.
Voltar a fechar os peitos, temperar 
a parte de fora com sal e pimenta 
novamente e enrolar com a barriga 
de porco, finamente fatiada.
Reservar no frio durante duas horas.
Aquecer bem uma frigideira e 
colocar azeite.
Saltear bem os peitos enrolados em 
barriga de porco, uniformemente 
de todos os lados, até ficarem 
bem dourados. Terminar no forno 
aquecido a 180°C até estarem 
cozinhados.
Servir com um acompanhamento 
a gosto. b
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Frangos do Além
Bernardo Agrela, de 34 anos, cozinheiro 
de formação e com um imenso interesse 
pela portugalidade e por cuidar das suas 
raízes, começou há mais de cinco anos 
a pensar em novas e melhores formas 
de proporcionar experiências gastro-
nómicas de outro mundo ao seu cliente, 
sem que este tenha de se levantar da 
mesa ou ir a casa da avó para saborear 
um delicioso frango do campo. Assim 
nasceu, no verão de 2023, os Frangos 
do Além, um projeto que reúne uma co-
munidade de criadores de avesde raças 
autóctones portuguesas que respeitam 
os métodos de produção avícola an-
cestrais. Em Portugal há quatro raças au-
tóctones de galinhas que correm o risco 
de entrar em vias de extinção. A missão 
deste projeto passa por incentivar os 
criadores que ainda produzem estas 
aves a continuar a fazê-lo, garantindo 
que têm as melhores condições para o 
efeito, mas não só — pretende escoar 
de uma forma digna este produto dife-
renciado, acrescentando-lhe valor. Com 
localizações muito distintas em vários 
pontos do país, que vão desde a serra 
da Estrela, a Elvas ou Alverca, Bernardo 
acompanha de perto o trabalho destes 
produtores e da sua produção, de forma 
a garantir a qualidade do produto que 
chega ao cliente final. Como é normal e 
esperado em tudo o que segue a nature-
za e respeita a sazonalidade, tudo muda 
de dia para dia e, por isso, nem sempre 
há Frangos do Além e, quando há, nem 
sempre são iguais. Atualmente apenas 
é possível adquirir estes frangos através 
da página de Instagram do projeto 
@frangosdoalem, com entregas em 
casa na zona de Lisboa.
PRODUTOS 
& PRODUTORES
PROJECTO MATÉRIA
É um projeto sem fins lucrativos, 
desenvolvido pelo chefe João 
Rodrigues, que pretende promover os 
produtores nacionais com boas práticas 
agrícolas e produção animal em respeito 
pela natureza e meio ambiente, 
enquanto elementos fundamentais da 
cultura portuguesa. 
Ler mais em projectomateria.pt
RECEITA
P O R J OÃO R O D R I G U E S
(PROJECTO MATÉRIA)
E 75
Deu zebra na tasca!
Encontrámos a passadeira do futuro entre 
As Zebras do Combro e a remoçada Tasca Zebras
A conversão de restaurantes an-
tigos em espaços com dinâmi-
ca, mantendo alguma aura do 
passado, tem acontecido nos últimos 
tempos por Lisboa. Às vezes o nome 
fica e a proposta de ementa muda bas-
tante, sem fugir muito da faixa de pre-
ços e do ambiente anterior. Outras ve-
zes o nome leva um reajuste, mas a 
cozinha, a sala e os preços sobem em 
pompa sem que as circunstâncias jus-
tifiquem os valores pedidos. Há casos 
felizes como o Petisco Saloio (ex-Bu-
raquinho), O Velho Eurico, ou a Ta-
berna Os Papagaios, mas são poucos... 
A cada transição de estilo ou gerência 
a expectativa é meteorologicamen-
te “baixa a moderada”, como os ares 
do tempo.
Espera-se pouco, portanto, dos 
trespasses de restaurantes de bair-
ro em zonas turísticas. As Zebras do 
Combro, junto ao Bairro Alto, existiam 
desde 1983. Na maturidade dos 40 anos 
de porta aberta, que na restauração 
são sete vidas choradas e sofridas, o 
epitáfio estava à mercê da pressão do 
turistão. Um cliente da casa apostou 
em dar-lhe uma volta, e não foi pre-
ciso entrar no polémico “jogo do bi-
cho”, que o barão de Drummond criou 
em 1892 no Jardim Zoológico do Rio 
de Janeiro. A jogatana de apostar em 
animais com números passou a práti-
ca clandestina, e não inclui a zebra nas 
apostas. O nome passou para Tasca Ze-
bras e a equipa de cozinha manteve-se 
com a nova gerência a apostar (bem) 
em dar novas formas de trabalhar a co-
zinha tradicional e os pratos clássicos 
com a ajuda de um chefe com técnicas 
e práticas atualizadas.
Em março de 2023 começou a nova 
gerência, com a mudança de ementa e 
visual espelhado da casa a estrearem 
em agosto. Não sei se as conversas ha-
viam começado no Carnaval, mas o la-
tim carnis levale (abster da carne) ins-
pirou uma carta sem pratos de carne. 
Começou-se com belas azeitonas (ga-
lega e gordal) e tremoços temperados, e 
pão para molhar em bom azeite de ver-
ve picante, onde vinham lamelas finas 
de uvas brancas. Apetite aberto para o 
“Caldo verde à Zebras com broa bio” 
(€4,50) versão num creme leve com a 
couve e batata trituradas em conjunto, 
em tom verdeal vivaz, e uma fatia fina 
de broa torrada. Muito bom, o “Rissol 
de berbigão” (€2), de recheio cremo-
so e sabor nítido, rico em miolo dos bi-
valves, numa fritura escorreita. Ainda 
se provou o “Prego do mar” (€15), in-
dicado como uma das especialidades 
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da casa, que pode ser uma boa refeição 
rápida, com um bife de atum suculen-
to e carnudo, num bolo do caco, palitos 
dourados e estaladiços de batata frita, e 
uma maionese picantezinha, elegante.
Estando nós às portas do Bairro 
Alto, pedir o “Bacalhau à Brás” (€15) 
foi a opção lógica e saborosa, com a 
mistura de cebola, lascas de bacalhau 
e batata palha caseira, bem ligada com 
os ovos, mantendo-se húmida e cre-
mosa, com elementos bem definidos. 
Ficamos a pensar como seria nos anos 
30, quando o galego Brás se lembrou 
de tal fórmula na sua tasca ali nas ruas 
vizinhas, onde parte dos ingredientes 
remetem para a versão do Norte de Es-
panha... da tortilha! O “Polvo à lagarei-
ro” (€18) é bem português, que a ver-
são ‘à feira’ dos galegos tem outra rese-
nha. Aqui surgiram tentáculos vistosos 
e tenros, com bom azeite e sem alhos 
queimados, batatas novas ‘rijadas’, co-
zidas com pele e passadas nas brasas, 
e uma fresca e contraditória salada de 
folhas de agrião. A sugestão de prato 
do dia foi “Atum de cebolada” (€13), 
que brilhou com nacos altos e húmidos 
do tunídeo rosado, com uma cebolada 
de tiras firmes e delicadas em ponto 
translúcido, fatias de pimento verme-
lho assado, e as saborosas batatas ‘rija-
das’, em metades marcadas na grelha.
O serviço é atento e explicado, a 
bom ritmo e com atenção ao cliente, e 
simpatia que convida a voltar. Na car-
ta de vinhos há opções possíveis e uma 
bela proposta da casa com qualidade a 
preço justo. Na doçaria, um bom “Ar-
roz doce” (€4,50) de grão inteiro, cre-
moso e macio, e de açúcar moderado. 
Poderosa, a sugestão diária no “Bolo 
de banana e rum” (€4,50), uma fatia 
húmida e densa q.b. com passas e per-
fume do destilado, e ao lado um copi-
nho de ginja. A fechar, uma lustrosa 
“Mousse de chocolate” (€6), servida 
em generosa colherada, com nibs de 
cacau sobre o creme voluptuoso de 
bom chocolate negro.
Ficou na gíria do futebol brasileiro 
dizer-se “deu zebra” quando um clube 
grande tem uma derrota inesperada. 
Na cidade há casas antigas que deram 
lugar a preços grandes e resultados pe-
quenos. Aqui aconteceu o inesperado: 
está a dar zebra e cozinha da boa... na 
Tasca Zebras! b
RESTAURANTES 
P O R F O RT U N AT O DA C Â M A R A
Desde 1976, a crítica gastronómica 
do Expresso é feita a partir de visitas 
anónimas, sendo pagas pelo jornal 
todas as refeições e deslocações
Um jovem 
“extravelho”
A capacidade de síntese 
está enraizada na cultura 
chinesa. Os ideogramas na 
caligrafia, as parcas pala-
vras com olhares intensos, 
e os sabores concentra-
dos a valorizarem uma 
cozinha rica em alimentos 
e técnicas. E aqui surgiu o 
denominado molho XO, um 
poderoso indutor de sabor 
que tem encantado chefes 
de cozinha europeus. As 
letrinhas XO respigadas 
dos Cognac “extra-vieux” 
são rótulo para marcar a 
raridade da preparação, 
como os que abusam do 
apodo premium e vintage. 
Na China, XO é sinónimo 
de caro e especial, não 
necessariamente ancestral, 
já que o molho é recente 
e nasceu há menos de 40 
anos. Em 1986, o restau-
rante Spring Moon do 
luxuoso hotel Peninsula 
em Hong Kong, criava um 
molho à base de marisco 
seco como miolo de vieiras, 
camarões pequenos e 
ovas de camarão, juntado a 
presunto de Jinhua (ou de 
Yunnan) e produtos frescos 
como chalotas, alho e 
malaguetas.
Ingredientes da melhor 
qualidade, bem picados em 
dimensões iguais, são fritos 
em óleo abundante, num 
wok, até perderem a água, 
separadamente e à vez. O 
miolo de vieira seco é levado 
a vapor antes de fritar e a 
sua água é reservada. Depois 
de todos os elementos 
estarem fritos, vão sendo 
reunidos no óleo da fritura, 
juntando-se molho de peixe, 
água das vieiras, açúcar, es-
peciarias, etc. As variações 
e criatividade mandam a 
partir da base. Desde 1992 a 
empresa Lee Kum Kee levou 
o molho XO pelo mundo.
ACEPIPE
TASCA ZEBRAS
Calçada do Combro, 51 — Lisboa
Telefone: 215 843 731
Encerra à quarta-feira (reserva recomendada).
VINHOS
P O R J OÃO PAU LO M A RT I NS
E 76
Natureza prepara-se para novo ciclo
Mas, logo por azar, as adegas estão cheias...
Esta crónica está a ser escrita com uma se-
mana de antecedência em relação à data 
de saída do Expresso. Ora, nesta semana 
anterior às eleições, com alguns quilómetros 
de estrada percorridos, sobretudo no Sul, já 
deu para perceber que a vinha está a “reben-
tar” à força toda. Começam a surgir as pri-
meiras folhas e daqui em diante a velocidade 
é vertiginosa. Foi por isso que referi a data da 
escrita. É que daqui a mais uma semana estará 
bem mais vigorosa e regiões onde o processo 
ainda está atrasado estarão então a ver o novo 
ciclo que começa. A vinha é uma trepadeira e 
agarra-se onde pode; como por norma as vi-
nhas estão aramadas, é a esses arames que ela 
se agarra e expande, normalmente com uma 
exuberância enorme, que obriga a corte da fo-
lhagem em excesso. Mas também existem ce-
pas sem armação, as chamadas cepas em taça, 
muito vulgares em várias zonas de Espanha, 
por exemplo. Para obtermos bagos com mosto 
passível de ser transformado em vinho, esta-
mos a contrariar a natureza da videira, esta-
mos a podá-la quando ela não queria; estamos 
também a limitar o que ela produz, cortando 
cachos para o chão, quando são demais os que 
lá estão, estamos a pô-la ao nosso serviço. No 
entanto, mesmo não a deixando produzir tudo 
o que queria, a produção é excessiva e des-
se mal queixam-se muitos países da União 
Europeia. Fala-se que o Alentejo tem três co-
lheitas em casa à espera de venda, a Espanha 
está inundada de vinho que depois alimenta 
o negócio do vinho a granel, a França destilou 
milhões de litros para fazer face aos excessos. 
Claro que tudo isto é uma verdadeira faca de 
dois gumes (não confundir com a de dois le-
gumes...) porque quanto mais vinho há dispo-
nível, menos valor se dá ao quilo da uva, me-
nos rendimento têm os lavradores, mais armas 
se dão às grandes superfícies para esmagar os 
preços, para contentamento dos consumido-
res. Não há como tornear o assunto. A Europa 
está a produzir a mais, numa época em que os 
consumidores estão a beber menos. O assunto 
é grave em todos os tipos de vinho mas tende 
a ficar muito sério nos licorosos (mais álcool 
e mais açúcar), de que o Vinho do Porto é o 
principal prejudicado. De destilados é melhor 
nem falar, o consumo atual é uma pequena 
percentagem do que foi há três ou quatro dé-
cadas. Há quem não esteja de acordo: ontem, 
num café minúsculo e banal de uma vila alen-
tejana, chegou um cliente que afogou as má-
goas num bagaço (antes das 10 da manhã). 
Estranho? Não! E o facto da garrafa do bagaço 
ser a única que o dono tinha à mão por baixo 
do balcão, também não…! Diz-se que quem 
salva as gamas de entrada do Vinho do Porto 
são os franceses, porque têm a tradição de be-
ber um Porto antes da refeição (coisa que nós 
nem imaginamos o que seja...), mas nunca 
sabemos por quanto tempo isso se irá man-
ter. Como não se deteta nenhum “movimento 
de fundo” que contrarie esta tendência e não 
se vê nenhuma empresa de Vinho do Porto a 
tentar resolver a questão, não se augura gran-
de futuro. A videira, essa, nem quer saber: 
deem-lhe calor e água e vão ver o que é cres-
cer. Há vinho a mais? Há guerra na Ucrânia? 
O Trump vai voltar? Ela, a desavergonhada, 
quer lá saber... b
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Bela Luz branco 2022
Região: Douro
Produtor: Rocim
Castas: várias da zona de Tabuaço
Enologia: Catarina Vieira/Pedro 
Ribeiro
PVP: €27,90
As uvas têm origem numa pequena 
vinha adquirida à família de Pedro 
Ribeiro. O mosto fermentou em 
barricas de carvalho e em talhas de 
barro. Fizeram-se 4000 garrafas.
Dica: Maduro na fruta mas com boa 
acidez a espevitar o conjunto, é um 
branco polivalente à mesa. Consumir 
a 12°, de preferência.
Palato do Côa Grande 
Reserva tinto 2017
Região: Douro (Foz Côa)
Produtor: 5 Bagos
Castas: castas misturadas em vinhas com 
60 anos
Enologia: Carlos Magalhães
PVP: €54,50 (Corte Inglés)
Uvas pisadas em lagar onde inicia a 
fermentação. Após o término em inox, o 
vinho estagia 18 meses em barrica. 
Produzidas 3500 garrafas.
Dica: O polimento geral é notável, o tinto tem 
um balanço e um perfeito equilíbrio entre 
todas as componentes onde se reconhece 
um excelente trabalho de vinha e adega.
Tapada de Coelheiros 
Sobreira tinto 2020
Região: Alentejo
Produtor: Tapada de Coelheiros
Castas: Syrah
Enologia: Luís Patrão
PVP: €45
A vinha tem agora cerca de 20 anos de idade. A 
produção aponta para a certificação bio. O mosto 
fermenta em inox e estagia em tonel durante 18 
meses, seguido de outro tanto em garrafa.
Dica: Ambiente balsâmico e levemente 
mentolado, com frescura e boa definição. A 
mesma sensação na boca, com elegância de 
taninos e acidez bem integrada. Um tinto de 
sucesso garantido.
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PUB
Bem nosso é sugerir 
os melhores sabores do Porto.
Belos Aires Restaurante
Rua José Falcão, 115, Porto. 
Tel. 915 144 630
É o resultado do encontro entre o 
chefe argentino Mauricio Ghiglio-
ne e Elisabete Martins, natural do 
Porto. Juntos decidiram criar um 
local onde as pessoas se possam 
sentir em casa. E sem sair da 
cadeira, fazer uma viagem pelos 
sabores da cozinha mediterrânea, 
provar os pratos portugueses com 
um toque diferente ou dar um sal-
tinho à Argentina, país conhecido 
pelos deliciosos cortes de carnes. 
Numa nova localização, com dois 
pisos, o restaurante mantém a 
identidade bem vincada, com 
uma ementa diversa, mas onde 
saltam à vista as “Empanadas” 
com diferentes recheios, as 
“Mollejitas com mandioca frita 
e couve-roxa”, as carnes, como 
o “Ojo de bife” e o “Bife de cho-
rizo”, e as gulosas sobremesas 
com “dulce de leche”. A banda 
sonora e a carta de vinhos, 
escolhida a dedo, tanto pode 
apresentar vinho português 
como conhecer vinho argenti-
no, complementam a viagem, 
que também se pode fazer 
durante a tarde, com um menu 
de petiscos. Preço médio €30.
Porto
Elemento
Rua do Almada, 51, Porto. 
Tel. 224 928 193
A cozinha, ligada às raízes, é ser-
vida à carta ou em oito paragens, 
acompanhadas por vinhos portu-
gueses de pequenos produtores. 
Dependendo da época, há “Tártaro 
de carabineiro e guanciale”, “Mero 
dos Açores e ervas da ria” ou 
“Lombo de veado, cogumelo e 
macadâmia”. Preço médio €50.
Cozinha das Flores
Largo de São Domingos, 62, 
Porto. Tel. 229 760 001
À carta, dos snacks à mão, “Pastel 
de nata de nabo” e “Pão de ló”, às 
entradas, delicia o “Lírio, beterraba 
e algas” e a delicada “Lula gigante 
com feijoada bruta de sames”. Não 
perca o “Peixe-galo” nem os “Fios 
de ovos”. Preço médio €50.
Brasão Bistrô
Rua de Ramalho Ortigão, 28, 
Porto. Tel. 934 158 672
Vão em busca da “Francesinha 
no forno”, dos bifes, como o “Bife 
de cebolada” e o “Bife Queijo da 
Serra”, mas também dos petiscos, 
que já são imagem de marca desta 
casa. Partilhe a cebola frita. 
Preço médio €25.
Mind The Glass
Praça de Gomes Teixeira, 36, 
Porto. Tel. 913 093 932
A ementa sazonal aposta na 
partilha com petiscos como o 
“Queijo azul da Arrábida com peras 
secas e pinhões”, o “Bonito dos 
Açores marinado em citrinos” ou a 
“Massada de línguas de bacalhau”. 
Preço médio €30.
Sagardi Porto
Rua de São João, 54, Porto. 
Tel. 221 130 987
A “Parrilla” é protagonista neste 
espaço de alma basca. Cozi-
nham-se peças de carne, como 
o “Txuleton”, e peixes de mar, 
servidos com produtos frescos, 
como o “Alho-porro de Zarautz no 
churrasco”. Preço médio €50.
Oficina
Rua de Miguel Bombarda, 282, 
Porto. Tel. 936 712 384
“Ovo perfeito com seleção de 
cogumelos silvestres e espuma de 
batata trufada”, “Cabritinho grelha-
do na brasa com puré de castanha 
e farofa de couve-portuguesa” 
merecem ser provados. 
Preço médio €45.
Alojamentos
M.OU.CO
Rua de Frei Heitor Pinto, 67, 
Porto. Tel. 227 667 790
As salas de espetáculos, as salas 
de ensaios e a Musicoteca, com 
uma coleção de mais de 400 dis-
cos de vinil e livros especializados, 
são áreas deste alojamento. Contaainda com 62 quartos e suítes, 
com gira-discos e instrumentos. A 
partir de €80.
Vila Foz Hotel & Spa
Avenida de Montevideu, 236, 
Porto. Tel. 222 449 700
Com 68 quartos e suítes, cons-
tituído por um palacete e uma 
ala moderna, é um espaço de 
recolhimento e evasão afastado 
do centro, sempre vibrante. Relaxe 
no Spa, inspirado nos elementos da 
Natureza. A partir de €260.
Casa da Companhia, Vignette Collection
Rua das Flores, 69, Porto. Tel. 229 761 020
Dentro destas paredes, erguidas no século XV, viveu a Real Companhia Velha. Esta empresa alugou o 
edifício no século XVIII e continua presente na atmosfera histórica, nas fotografias e nos tons escolhidos 
para adornar as paredes. Contrastam com os 30 quartos e 10 suítes, um amplo Spa com tratamentos e 
piscina interior, e ainda uma exterior, localizada no terraço com vista sobre a cidade. Saiba mais sobre este 
hotel na emissão desta semana do “Boa Cama Boa Mesa” na SIC Notícias. A partir de €155.
Boa Vida
“Março com sabores 
do mar” 2024
Esposende
Até 31 de março há fins de semana 
gastronómicos, exposições, con-
cursos e espetáculos de música 
tradicional. Mais de 40 unidades 
de restauração do concelho ade-
riram à celebração com propostas 
nas ementas onde o mar é o ingre-
diente principal e a grande fonte 
de inspiração.
Festa do Queijo Serra 
da Estrela
Oliveira do Hospital
A maior Festa do Queijo de Por-
tugal regressa em 2024, entre os 
dias 23 e 24 de março. O evento, 
que pretende voltar a afirmar-se 
como o principal cartaz turístico 
da região centro, tem como rei 
da festa o Queijo Serra da Estrela 
DOP, considerado um dos melho-
res queijos do mundo e contará 
com a participação de cente-
nas de expositores de produtos 
endógenos, com destaque para as 
provas de queijo e vinhos do Dão, 
tosquias e fabrico de queijo ao 
vivo, ou exposição animal.
Saiba mais sobre estas e outras sugestões em 
 boacamaboamesa.expresso.ptas nossas recomendações
DESIGN
POR GUTA MOURA GUEDES
E 78
Refik Anadol
Mostra-nos o mundo como nunca o vimos, 
modulado pela sua sensibilidade artística
Há umas semanas, uma das mais im-
portantes instituições culturais do 
mundo, a Serpentine Gallery em 
Londres, enchia-se de público variado, he-
terogéneo em idade e proveniência, para 
a preview de Refik Anadol. Já na fase dos 
discursos, depois de Hans-Ulrich Obrist, 
que é, de forma incontestável, um dos mais 
importantes curadores do mundo, ter fa-
lado, explicando o seu interesse na obra 
deste artista, Refik revelou muito não só 
sobre os trabalhos que tínhamos acabado 
de ver na galeria norte da Serpentine como 
também sobre o que move o seu trabalho: 
“Estou a tentar encontrar formas de rela-
cionar memórias com o futuro e de tornar 
visível o invisível.”
E o que é que ele faz? Através de sof-
tware design e da inteligência artificial, 
mostra-nos o nosso próprio mundo como 
nunca o vimos até agora, modulado pela 
sua sensibilidade artística. Refik Anadol, 
nas suas próprias palavras de novo, usa 
“informação como pigmento”, cruzan-
do uma das mais poderosas ferramentas 
que o ser humano recentemente criou, a 
inteligência artificial, como abordagem a 
um mundo que produz quotidianamen-
te biliões de dados. Sejam eles vindos da 
actividade da nossa espécie, sejam eles 
vindos da natureza ou do espaço. A obra 
de Anadol tem-se vindo a posicionar como 
um dos mais bem sucedidos exemplos 
neste desafio complexo da relação entre 
arte, design, criatividade humana e a má-
quina. Produzir cultura com uma forma 
de inteligência que não é nossa. Mas que 
deriva de nós.
Refik Anadol nasceu na Turquia em 
1985 mas tem estúdio em Los Ange-
les, onde também ensina, no Departa-
mento de Design Media Arts da UCLA, 
universidade onde fez um mestrado em 
Belas Artes. Aborda os desafios e as possibi-
lidades que a computorização trouxe à Hu-
manidade e o que significa ser-se humano 
na era da IA. Explora como a percepção e a 
experiência do tempo e do espaço muda-
ram radicalmente, agora que as máquinas 
dominam a nossa vida. E como a era digital 
permite uma nova técnica estética. Através 
do design de programas de armazenamen-
to e codificação de dados, Refik cria am-
bientes imersivos que oferecem uma per-
cepção dinâmica sobre diversas realidades 
— e que são verdadeiramente emocionan-
tes e profundos. Com ele, edifícios ganham 
vida, pisos, paredes e tectos desaparecem 
no infinito, através de uma estética for-
mada a partir de grandes quantidades de 
dados, do design e da sua sensibilidade ar-
tística — “o que antes era invisível ao olho 
humano torna-se visível” —, oferecendo ao 
público uma nova perspectiva e narrativa.
Se é interessante ver online a obra des-
te criador, como por exemplo vermos os 
vídeos da obra que o MOMA recente-
mente comissariou e apresenta perma-
nentemente, “Unsupervised — Machine 
Hallucinations”, criada sobre a base de da-
dos de obras da colecção do próprio museu, 
não há nada que se compare com o que nos 
acontece quando vemos ao vivo um dos 
trabalhos de Refik, em que nos sentimos 
fazer parte de um outro mundo. Que nos 
é semelhante e próximo, ao mesmo tempo 
que impossivelmente diferente, pois reve-
la-nos algo que sabíamos existir mas para 
o qual não temos referência visual.
Agora temos a dele e a da inteligência 
artificial. Ambos autores? b
Guta Moura Guedes escreve de acordo 
com a antiga ortografia
LIVING ARCHIVE
“Nature Large Model”, instalação 
que teve a sua première no World 
Economic Forum em Davos este 
ano, apresenta o primeiro modelo 
de IA generativo de código 
aberto do mundo dedicado 
exclusivamente à Natureza. O 
modelo centra-se nas 
preocupações ambientais 
combinando arte, design, 
tecnologia e dados da Natureza, 
informando, sensibilizando e 
envolvendo o público de um 
modo sensorial inescapável. 
Envolve as paredes da galeria 
com imagens geradas por IA 
inspiradas em dados de flora, 
fungos e fauna de mais de 16 
locais de florestas tropicais em 
todo o mundo, que foram 
recolhidos usando tecnologias 
como LiDAR e fotogrametria.
ECHOES OF THE EARTH
“Living Archive” é a primeira 
grande exposição individual 
institucional de Anadol no Reino 
Unido, envolvendo os 
espectadores numa série de 
instalações e ambientes 
imersivos que utilizam anos de 
experimentação com dados 
visuais de recifes de coral e 
florestas tropicais, entre outros.
TECNOLOGIA
POR HUGO SÉNECA
E 79
Reuniões em 4K
A videoconferência dá o salto para a 
alta-resolução – e nada será como antes
De certeza que está a dar a melhor imagem nas reu-
niões com chefes e clientes? A Logitech promete 
dar uma ajuda — mas só para quem precisa de fa-
zer reuniões em videoconferência. A solução tem por 
nome MX Brio e destina-se a quem trabalha a partir de 
casa, mas conta ainda com uma “irmã” batizada de MX 
Brio 705, que já tem em vista ambientes profissionais. 
Ambos os modelos garantem resoluções Ultra HD (4K) 
e ambos tiram ainda partido da inteligência artificial 
para aperfeiçoar o resultado final, seja através da corre-
ção automática da luminosidade, seja acompanhando 
os movimentos do utilizador. Quem quiser enveredar 
pelas “grandes produções” — ou simplesmente não te-
nha forma de retocar maquilhagem — tem ainda ao dis-
por as ferramentas Logi Options+, Logi Tune e G HUB, 
que permitem personalizar a exposição à luz, a tonali-
dade, a vivacidade e até o campo de visão que é apre-
sentado aos interlocutores. A Logitech recorda também 
que as duas câmaras estão habilitadas a produzirem 
píxeis 70% maiores que as versões anteriores. As duas 
câmaras distinguem-se apenas por detalhes, sendo que 
a Logitech recorda que a MX Brio 705 está certificada 
para Microsoft Teams, Google Meet e Zoom e funciona 
com os computadores Chromebook. Preço: €229. b
MUITO KIDDO
O nome do FW59 Kiddo já tem em si a 
confirmação de que se trata de um relógio 
inteligente para crianças e adolescentes. 
O novo dispositivo da MaxCom tem ecrã 
de 4,69 centímetros (1,85 polegadas), 
cartão SIM para chamadas nas redes móveis,câmara, botão SOS para alarmes 
com localização por GPS e ainda agenda 
para 15 números de telefone, e os 
incontornáveis videojogos. A bateria 
garante três a quatro dias de funcionamento. 
Preço: €79,99.
CABO DA BOA ESPERANÇA
O cabo está a atrasar o carregamento e o 
download? A Hama está apostada em 
mostrar que os cabos não são todos iguais 
com o Charging Cable USB-C — USB-C 
“Full-Featured”, que suporta potências até 
240 watts e cumpre os requisitos técnicos 
Power Delivery 3.1 EPR Quick Charge, da 
Qualcomm, além de garantir velocidades de 
10 gigabits por segundo na transferência de 
dados. Suporta transmissão de vídeos em 4K 
e dispõe de blindagem dupla para evitar 
interferências. Preço: €29,99.
A MAÇÃ ESTÁ NO AIR
A Apple anunciou o lançamento dos 
portáteis Macbook Air, com ecrãs de 33 
(13 polegadas) e 38,1 centímetros 
(15 polegadas). Os dois portáteis contam 
com um chip de M3, com oito núcleos de 
processamento genérico, e 10 núcleos de 
processamento gráfico, e a possibilidade de 
conexão a dois ecrãs. Além do dobro da 
velocidade nas conexões por wwi-fi face 
aos antecessores, os dois portáteis contam 
com baterias para 18 horas de 
funcionamento. Preço: a partir de €1579.
OS VÍDEOS DA META
A Meta está a trabalhar numa ferramenta de 
inteligência artificial que tem em vista dar 
novo impulso à distribuição de vídeos no 
Facebook, WhatsApp e Instagram — e que 
terá como prioridade o Reels, que hoje 
concorre com o TikTok. O projeto só deve 
ficar concluído em 2026, ao unificar os 
diferentes sistemas de recomendação de 
vídeos das plataformas da Meta. Segundo a 
marca, esta evolução pode garantir ao Reels 
um acréscimo de 8% a 10% no tempo de 
visionamento.
UE aplica novas 
regras na internet
A entrada em vigor do Regulamento dos 
Mercados Digitais (DMA) promete mudar as 
rotinas dos europeus que usam telemóveis 
e computadores, mas os principais 
destinatários vêm de fora da UE. São seis as 
marcas classificadas com poder de mercado 
dominante na distribuição de conteúdos e 
serviços: cinco são americanas (Alphabet/
Google, Meta/Facebook, Apple, Microsoft 
e Amazon); e uma é chinesa (ByteDance/
TikTok). Todas ficam obrigadas a garantir aos 
consumidores a possibilidade de decidirem 
o tratamento aplicado a dados pessoais 
e todas deverão dar acesso a serviços da 
concorrência, garantir a migração de dados 
ou simplesmente a interoperabilidade entre 
serviços que antes não comunicavam. Pelas 
novas regras, o WhatsApp, da Meta, terá de 
garantir a comunicação com o iMessage, da 
Apple; o YouTube e o Chrome terão de dar 
acesso a plataformas de vídeo e navegadores 
(browsers) concorrentes; e a loja App Store 
perde o exclusivo da venda de aplicações 
para o iPhone e passa a ter concorrência de 
lojas alternativas. A Apple reagiu com um 
novo sistema operativo para o iPhone que já 
respeita o DMA e aplicou novas tarifas aos 
produtores de software e conteúdos, além de 
tomar medidas para acabar com o acesso a 
lojas alternativas à App Store para quem fica 
um mês fora da UE. É possível que a maioria 
das mudanças só ganhe visibilidade à medida 
que as empresas forem sujeitas a auditorias 
— ou que apliquem medidas que contornam 
ou aproveitam os expedientes do DMA.
DIÁRIO DE UM 
PSIQUIATRA
POR J O S É GA M E I R O
Intimidade
Acaba o jantar e a frase (que parece de um 
filme) é: para a tua casa ou para a minha?
Há uma fantasia que leva alguns a imaginarem que nesta profissão (falar 
com pessoas acerca dos seus problemas), o tema do sexo é frequente. 
Naturalmente que o é para quem faz sexologia, mas para o comum das 
psicoterapias não acontece. Esta fantasia talvez venha da ideia, certa, de que nós 
partilhamos com quem nos procura o que elas quiserem falar, criando, ao longo 
do processo, uma confiança assegurada pelo segredo profissional. Com a enorme 
vantagem de não termos relação com a pessoa fora do contexto de consulta e de não 
fazermos julgamentos. Se estivermos bem treinados, conseguimos resolver, dentro 
de nós, juízos negativos sobre quem está à nossa frente. A história que vos vou contar 
não me foi relatada em consulta, mas sim numa conversa de conhecidos, em que 
não tenho um papel profissional formal, mas em que sou procurado enquanto tal. 
Paradoxos. Um pouco quando temos um problema sério de infiltrações em casa, 
antes de decidir chamar alguém, falamos com aquele conhecido, engenheiro, para 
nos aconselhar antes de nos metermos nas mãos de algum curioso. 
Tinha-se separado há uns meses, depois de 30 anos de um casamento que até 
nem corria mal, em que aconteceu um incidente, vou-lhe chamar assim, para não 
ferir suscetibilidades e a história bonita acabou quase subitamente. Apesar do tempo 
já decorrido ainda tentei perceber se valia a pena e havia disponibilidade para falar 
com o casal. A reação foi imediata, mesmo que ela queira, para mim acabou. E levei 
a piada, agradeço o seu lado casamenteiro, mas não dá. A conversa é outra, desculpe. 
Comecei a sentir algum alívio, já não estou triste e pensei, não vou ficar casto e 
puro, já agora vou gozar o que não gozei quando era jovem. Casei cedo e, acredite, 
sempre fui fiel à minha mulher, por vezes, sabe Deus, com que custo. A primeira 
surpresa que tive é que isto agora é muito mais fácil do que no meu, no nosso, 
tempo. Lembras-te, com certeza, os passos que tínhamos de dar até chegar ao que 
queríamos. Jantar em grupo, discoteca, com “suborno” ao gajo que punha a música 
para tocar três slows seguidos, já lá para o fim da noite, com sorte, no fim de semana 
seguinte, jantar a dois e, outra vez, discoteca. Agora não. Jantar, tem de ser divertido, 
as pessoas não gostam de ouvir histórias de desgraças, nem grandes pormenores, 
umas piadas, parece que é obrigatório ser-se engraçado. Acaba o jantar e a frase (que 
parece de um filme) é: para a tua casa ou para a minha?
Já tinha ouvido umas histórias semelhantes, mas nunca uma tão seca e crua. 
Não sei se com alguma ponta de inveja dos novos tempos, perguntei-lhe, então, mas 
não estás contente com os procedimentos serem muito mais simples? Eh pá, sim, 
mas é um exagero, estamos a chegar à história que me trouxe até ti. Conheci uma 
mulher, mais nova do que eu, nada de exagerado, divorciada, sem brindes, como 
nós dizemos, já fora da idade fértil, portanto sem desejos de ser mãe, o que podia 
ser a garantia de uma vida sossegada e livre. Sem ir aos treinos há muitos anos, 
procurei seguir um protocolo mais simples, mas ainda inspirado nos manuais do 
nosso tempo. Levei-a a jantar a um restaurante junto ao mar, uma noite de verão 
linda, tentei o meu melhor, disse umas piadas, ela só me perguntou há quanto 
tempo estava separado, devia estar com medo que eu desatasse a chorar em cima do 
robalo. Nenhum de nós mostrou interesse em ir mais além, uma despedida cordial e 
a noite acabou. Voltei a ligar-lhe uns dias depois e novo jantar, desta vez numa tasca 
modesta, para testar a flexibilidade da senhora. Não sei se foi o ambiente, os tempos 
modernos, ou à sobremesa um molotov, deu-me a mão e perguntou: para a tua ou 
para a minha.
A minha era mais perto. Ainda lhe perguntei se queria uma flute de champanhe, 
mas fui logo atacado, sim é a palavra exata. Ao princípio foi estranho, mas depois 
entranhou-se. O pior foi de manhã. Então, não foste para casa dela perguntei? 
Devia ter ido, não tinha acontecido o que estragou tudo. Estava eu sentado no 
trono, entrou-me na casa de banho, sem bater à porta, com o ar mais natural do 
mundo. Não resisti a dizer-lhe, desculpa, mas sexo é uma coisa, intimidade é outra 
completamente diferente. b
josemanuelgameiro@sapo.pt
PARA ASSINALAR O DIA DO PAI
A Perfumes & Companhia juntou-se à INSTAX e neste Dia do Pai vai 
oferecer uma INSTAX Mini 40 e dois perfumes a um dos seus seguidores. 
Para participar, basta seguir as páginas do Instagram da Perfumes & 
Companhia e da INSTAX, e partilhar a memória mais marcante que 
tem com o seu pai. 
A VER AS 
ESTRELAS
O município de Pampilhosa da 
Serra lançouum filme onde 
promove o céu estrelado como 
principal atrativo do concelho. 
Criado pela CAETSU TWO, partilha 
a magia do céu noturno de 
Pampilhosa da Serra através de 
uma história de amizade entre 
duas crianças. 
pampilhosadaserra.pt/
mensagem-espacial
BLAZERS 
À MEDIDA
Lançada pela 
empreendedora portuguesa 
Tatiana Gradil, a marca 
Emblazer pretende 
reinventar um must-have 
em qualquer armário 
que procure irreverência 
e qualidade – o blazer. 
Com uma abordagem 
circular, a marca recorre 
a tecidos deadstock de 
fábricas da indústria têxtil 
portuguesa e move-se pelo 
propósito de empoderar 
as mulheres num produto 
que materializa força, 
estrutura e determinação.
emblazerstore.com 
PASSATEMPOS
P O R M A R C O S C R U Z
E 81
Sudoku Fácil
Sudoku Difícil
Soluções
Fácil Difícil
Participe no passatempo das Palavras Cruzadas enviando as soluções por correio para 
Rua Calvet de Magalhães, 242, 2770-022 Paço de Arcos ou por e-mail para passatempos@expresso.impresa.pt
Palavras Cruzadas Premiados do nº 2505
“Domingos no Cinema”, de Anthony Marra, para 
Patrícia Ferreira, de Sines; “D. Maria II”, de Maria 
de Fátima Bonifácio, para Lucília Gomes, de Lisboa; 
“A Viúva de Windsor”, de José de Bouza Serrano, 
para Fernando Rodrigues, de Vila Nova de Gaia.
4 7
1 8
1 2 4
7 5 6 4 3 2
8 5 1 7 9 6
3 6 2 9 8 7
1 4 3
5 8
7 2
2 4
6 1
3 9 2
1 3 8
2 4 7 5
2 6 7
6 3 2
8 9
1
862514973
759263148
431879562
173685294
926437851
584921637
615348729
248796315
397152486
983641725
246975183
571382694
719564832
825137946
364298517
192456378
458713269
637829451
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
1
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3
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11
Horizontais
1. Estuda mapas 2. Cobre três quartos 
da Terra. O que faz a testemunha 
ocular 3. Notícias em primeira mão 
4. Leva à dependência. Princípio 
de tatuagem 5. Tosquia-se. Antecede 
o processo 6. Desportivo mas também 
utilitário. Enfeitado e colorido 7. Sobe 
à custa de outros 8. Põe-se à frente 
9. Romanos. Quase meia. Como 
as cobras 10. Estudam uma 
determinada civilização muito antiga 
11. Pode ser finlandês, norueguês, 
sueco ou russo. Tira rugas
Verticais
1. Vinha depois do rei na hierarquia 
militar nacional 2. Ave de rapina. Pica 
quem a colhe 3. Usado na roleta russa. 
Sigla rodoviária 4. Floresta boreal. 
Planície sul-americana 5. No mar 
e no cabelo. Prédio que forma um 
ângulo 6. Estado da Índia. Ando 
paralelamente 7. Tornes da cor de 
um determinado metal. A penúltima 
da escala 8. Sucessora do dinossauro. 
Cidade inglesa 9. Gosta do 
divertimento. Soldado americano 
10. Nome próprio feminino. 
Transformam o trigo em farinha 
11. Põe na casa. A campa mais simples
Soluções nº 2506
HORIZONTAIS
1. assembleia 
2. Nautilus; LC 3. turco; 
GT; cá 4. adi; caracol 
5. rentável: Oc 6. Aire; 
aulo 7. mediar; ir 8. due; 
ial; esr 9. ai; oo; verme 
10. vil; Páscoa 
11. poderosa
VERTICAIS
1. Antártida 2. saúde; 
uivo 3. Suriname; ID 
4. etc; tie; olé 
5. miocárdio 6. bl; aveia; 
Pó 7. lugre; alvas 
8. estalar; ESA 9. ERC 
10. alcoolismo 11. calcorrear
Palavras cruzadas nº 2507
E 82
COM TODO O RESPEITO, NÃO É FÁCIL COMPREENDER O POVO. 
EXPRIME-SE COM CRUZINHAS, QUE NÃO SÃO ASSIM TÃO ELOQUENTES
m partido, reunindo boa parte 
do voto dos descontentes com os 
Governos do PS e do PSD, juntou 
mais de um milhão de votos, 
obtendo 18% da votação. Foi em 
1983. A APU, uma aliança que 
agrupava o PCP e o MDP/CDE, 
conseguiu um grupo parlamentar 
com mais de 40 deputados, o 
que levou vários comentadores 
a concluir que aquele resultado 
produzia um efeito importante e 
duradouro no sistema eleitoral português. Escassos quatro anos mais 
tarde, o PSD venceria as eleições com 50,2% dos votos. Quatro décadas 
depois, aparece um resultado eleitoral com algumas semelhanças, 
pelo que os comentadores também tiram conclusões parecidas — e 
por isso talvez tenhamos de, ao menos, admitir que podem estar 
igualmente erradas. O problema é o seguinte: com todo o respeito, não 
é fácil compreender o povo. Exprime-se com cruzinhas, que não são 
assim tão eloquentes. O ideal era que, além da cruzinha principal, o 
boletim de voto permitisse a colocação de outras cruzinhas, com as 
quais o eleitor justificaria o seu voto. Votei neste partido porque: a) 
subscrevo as suas ideias; b) é o menos mau; c) quero aborrecer certos 
comentadores da televisão; d) os meus amigos também votam neste; 
e) o líder é muito bonito. Qualquer coisa que ajudasse a perceber 
uma intenção. Pessoalmente, já votei por todas essas razões. (Carlos 
Carvalhas era um homem muito atraente.) Mas, dado o laconismo do 
boletim, receio que os eleitores sintam que depositaram na urna um 
búzio ou uma víscera de galinha. Nos dias que se seguem às eleições, os 
comentadores tentam interpretar o que o povo “disse” com a mesma 
disposição com que astrólogos decifram o movimento dos astros. Uma 
interpretação muito popular é a seguinte: o povo tem uma inclinação 
forte para o extremismo. Tendo em conta que é o mesmo povo que há 
dois anos tinha uma inclinação ainda mais forte para votar em massa no 
Partido Socialista, estamos perante um povo razoavelmente incoerente. 
Outra interpretação interessante é esta: há que respeitar os votos que 
foram atribuídos a determinado partido. O que ninguém contesta. Resta 
saber o que significa ao certo “respeitar”. Por exemplo, como conciliar 
o respeito que é devido a 18% de eleitores que apoiam determinado 
projecto com o respeito que merecem 82% de eleitores que o rejeitam? 
Em princípio, a resposta a esta pergunta vai produzir bastante discussão 
e barulheira. O que é óptimo. Os regimes em que as coisas se resolvem 
sem sarrabulho e em silêncio são um bocadinho sinistros. Como, assim 
o espero, 100% do povo bem sabe. b
Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia
O APELO À CALMA 
APÓS O APELO AO VOTO
U
J
O
Ã
O
 F
A
Z
E
N
D
A
E S T R A N H O O F Í C I O
/ RICARDO 
ARAÚJO
PEREIRA
Disponível para entrega imediata
Power your world.* 
IONIQ 5. 
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com um design inovador e irresistível. Experimente já. Saiba mais em hyundai.pt
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* O poder de mudar o mundo.
** Condução em cidade.
A imagem pode não corresponder ao modelo em campanha. Consumo energético (kWh/100km): 17. Emissões de CO2 em ciclo 
combinado (g/km): 0. A garantia de 7 anos sem limite de quilómetros da Hyundai é apenas aplicável aos veículos ligeiros de 
passageiros matriculados a partir de 1 de setembro de 2019, vendidos por um concessionário autorizado da rede Oficial Hyundai 
Portugal a um consumidor final, de acordo com os Termos e Condições constantes no Passaporte de Serviço.
hyundai.pt Hyundai Portugal

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