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+ História Quando a Espanha quis invadir Portugal Ciência Vida e obra de Stephen Jay Gould Entrevista Louis Menand, arte e poder Por Sebastião Bugalho A vitória amarga de Montenegro A Revista do Expresso EDIÇÃO 2681 15/MARÇO/2024 E 3 E O ÓSCAR VAI PARA... ANDRÉ VENTURA O PSD TEVE O AZAR DE GANHAR AS ELEIÇÕES. O PS TEVE A SORTE DE PERDER AS ELEIÇÕES o discurso de agradecimento pela vitória, Ventura poderia dizer que agradece o triunfo ao povo português. O mesmo povo que, 50 anos depois do 25 de Abril, celebra a ideia de que a democracia falhou. E passou ao lado da sua vida. Um milhão de fascistas? O Chega nem é um partido fascista, embora tenha uns exemplares. O Chega é um partido populista, autoritário na génese e no conteúdo, com uma ideologia orgânica e embrionária, em processo formativo, por afirmação negativa e combate das ideologias dominantes, estando alinhado com o resto dos partidos populistas europeus. Pode dizer-se que, comparado com os ultramontanos do partido Republicano nos Estados Unidos, o Chega é um partido civilizado. Pode. Mas não deve. Porque o Chega vai continuar a crescer, e como vai crescer e para onde é uma incógnita. Crescerá tanto quanto o deixarem e vão deixá-lo crescer muito. Estamos a ver um adolescente anormalmente alto e forte que não sabemos como será em adulto. É isto o Chega, um rapaz que começa a transformar-se num homem. Será um desordeiro e um bully, sempre à tareia, ou tornar-se-á um adulto responsável que defende um modelo de sociedade diferente e é capaz de o concretizar por eliminação impiedosa dos adversários? A idade adulta do Chega só será evidente quando acontecer o que acontece em França, quando aparecer um partido ainda mais radical à direita do que o Chega. Quando o Chega tiver dissidências com características assustadoras, totalitárias e exterminadoras como as do século XX. Agora, são as dores do crescimento, mas o crescimento é uma força da natureza. Os outros partidos não o podem deixar sem alimento ou a morrer de fome. Quer isto dizer, não o podem ilegalizar. Também não lhe devem dar vitaminas, o que decerto acontecerá pelo mútuo desentendimento entre PS e PSD. O povo, não todo, mas uma parte substantiva, votou e votará no Chega, e reparem neste tempo futuro porque ele é uma possibilidade a contar. PS e PSD juntos têm mais de metade do país, têm quase 60 por cento. Assim calculados, os 18 por cento do Chega não parecem muito, são claramente inferiores a 60 por cento. Com mais ou menos números dos pequenos partidos, o que percebemos é que o Chega precisa de um parceiro, não vai lá sozinho. Por enquanto. Pode escolher entre dois modelos de existência democrática. Um seria o combate puro e simples, o insulto diário, a humilhação dos partidos liberais, a perpétua vituperação da “esquerda”, o aproveitamento da insatisfação com dois partidos que não conseguiriam governar um sem o outro em miúdos concertamentos de mútua vantagem. Mesmo assim, o Chega cresceria, mas demoraria. E Ventura é impaciente e, iluminado pelo seu génio político nestes meses, no qual acredita, perder tempo e esperar não é a sua missão. O segundo modelo é mais complexo e traria mais poder imediato e menor autonomia. Consiste em derrotas da chamada ingovernabilidade, a incapacidade de aprovar e executar um programa e um orçamento. O PSD continua a prometer o que não pode dar, uns amanhãs que cantam, e a não dizer a verdade. A tarefa é ciclópica. O PSD teve o azar de ganhar as eleições, não com margem suficiente. O que conhecemos de Ventura é exasperação e impaciência. E eficácia, agora com um milhão de pessoas atrás dele. Entretanto, por essa Europa fora, a direita vai ganhando terreno. Ventura ainda nem sequer se meteu na política internacional e lá chegará o dia de alinhar com a família europeia. Bruxelas tinha um único trabalho, deixar a Europa de fora de uma guerra fratricida e fazer valer a diplomacia. Em vez disso, atirou a Ucrânia para uma guerra que nunca ganharia, em nome de uma NATO disfuncional e de promessas de armas e dinheiro sem fim. E quer rearmar a Alemanha para entrar em guerra com a Rússia. Um plano que agrada aos militares neutralizados, ao lobby da indústria das armas e aos pupilos do Pentágono. Quando os políticos começarem a dizer que o futuro que reservam aos jovens europeus é o serviço militar e a guerra perpétua, veremos o que estes respondem num planeta devastado. A Europa não é Israel, não está preparada para a militarização da juventude e da sociedade produtiva. A guerra perpétua contra a maior potência nuclear, não faz sentido. Jovens de extrema- esquerda e extrema-direita, e retirem o extrema da equação, teriam um terreno comum, a oposição ao militarismo compulsivo e à destruição do continente. As ruas estariam cheias. A propaganda liberal numa América onde Trump ganhe move-se no teatro do absurdo. E mesmo que Trump não ganhe, o problema não desaparece. Biden pode ter o azar de ganhar as eleições e assistiremos à agonia violenta da democracia americana. O problema não desaparece com a vitória de um homem no fim da vida ou a derrota de um Trump enjaulado ou arruinado. Pelo contrário, o problema torna-se medonha ameaça. Ganhar as eleições começou a ser má sorte. O carro da democracia liberal precisa de revisão. Os liberais, lá como cá, acham que têm sempre razão. Nenhuma humildade preside às derrotas gerais. E assim, circulando entre ruínas, incluindo as do jornalismo convencional, os descontentes crescem. Sem precisarem de governar, são invencíveis. Se governarem, serão irreconhecíveis. b N minar o PSD e o seu chefe até o tornar refém do seu poder, apeando-o e substituindo-o, ou convencendo-o a governar com o seu apoio, impondo as drásticas condições e isolando a esquerda de vez. O PSD teve o azar de ganhar as eleições. O PS teve a sorte de perder as eleições. Um ganhou por pouco e outro perdeu por pouco. Estranhamente, e por hábito, os respetivos prosélitos passaram uma parte da noite a acusar o outro de ter perdido, enquanto o elefante na sala ia partindo a loiça toda. Fizeram dois bons discursos de vitória e de derrota, vazios de conteúdo prático. O PS insiste que vai ser oposição, mas se um governo da AD for ao chão, o Chega ganhará mais votos. Se olhar bem para os resultados, o partido perceberá que o PS perdeu mais do que votos e eleitores, perdeu o país depois de uma maioria absoluta. O discurso da superioridade moral da esquerda, em que o PS continuará a insistir, não lhe trará votos no futuro. Teria sido um ato político de qualidade reconhecer isto, dizer a verdade para variar, mas o PS tem dificuldade em perder. Não está habituado. Procurará ainda um bode expiatório para a derrota, e se o achar no Presidente, cometerá mais erros. Pedro Nuno Santos, que é inteligente e tático embora os adversários o queiram fazer passar por leviano, e sendo jovem e estando a crescer e aprender dentro do próprio partido, tal como Ventura, não cometerá o erro de acusar o maior aliado histórico que o PS teve até hoje. Imaginem que o famoso parágrafo não existia. António Costa não se demitia. Qual seria, depois de escândalos, indecisões e trapalhadas como aquelas a que assistimos durante o reinado terminal da maioria absoluta e de uma arrogância ainda mais terminal, a atitude do primeiro-ministro perante a descoberta dos 78.500 euros no gabinete ao lado do seu? Dizia que não sabia e ficava tudo na mesma? Terminava o mandato em paz e sossego? Não. A progressiva deliquescência e paralisia do Governo arrastariam uma votação no Chega superior à que teve nestas eleições, e provavelmente arrastaria o regresso de Pedro Passos Coelho e o afastamento de Montenegro. O Presidente comentou em demasia, mas a derrota do PS, que serve a sobrevivência do PS, não é culpa dele. Essa mania católica da culpa não serve. O chefe do PS fará bem em demarcar-se dos fracassos anteriores e trilhar outro caminho. O PS seráoposição, claro, mas terá de medir como e quando será oposição, porque o país não lhe pertence inteiro. Nada será como dantes, segundo o lugar-comum. Um partido pode ser oposição durante anos e nada ganhar, definhando. O PS não está habituado a travessias do deserto, está habituado a autoestradas. Para o PS seria mais fácil ter Passos Coelho do outro lado, porque a atitude conciliadora de Montenegro, visível no discurso, lhe trará problemas. Guina mais à esquerda e perde votos. Tudo depende do modo como Montenegro e os seus copilotos conduzirem o carro. Se se mantiverem na estrada, passe a imagem, o PS será acusado de provocar o acidente, acolitado por uma extrema-esquerda sem expressão. Se saírem da estrada, mais facilmente acusarão o PS ou o Chega. E o Chega tudo fará para minar Montenegro. Tudo. Se o PS ajudar, Montenegro sairá de cena depois de / CLARA FERREIRA ALVES P L U M A C A P R I C H O S A NotíciasFlix LISBOA - Av. da Liberdade 204 www.vancleefarpels.com - +351 210732290 A primavera está a florescer E 6 fisga +E Culturas Vícios CRÓNICAS FICHA TÉCNICA Diretor João Vieira Pereira Diretor-Adjunto Miguel Cadete mcadete@impresa.pt Diretor de Arte Marco Grieco Editor Ricardo Marques rmarques@expresso.impresa.pt Editor de Fotografia João Carlos Santos Coordenadores Lia Pereira lipereira@blitz.impresa.pt Luís Guerra lguerra@blitz.impresa.pt Coordenadores Gerais de Arte Jaime Figueiredo (Infografia) Mário Henriques (Desenho) 9 | Florestas As áreas florestadas estão a encolher tanto em Portugal como no resto do mundo. Assim como a água 12 | O Que Eu Andei Para Aqui Chegar Um currículo visual de Da’Vine Joy Randolph 14 | Planetário Uma princesa no circo Por João Pacheco 18 | Ideias A ameaça da política messiânica Por Ian Buruma 20 | Luís Montenegro O custo de ganhar uma eleição 34 | Stephen Jay Gould O percurso inesperado de um historiador e estudioso da evolução humana 40 | Louis Menand Entrevista ao crítico e historiador norte-americano, vencedor de um Pulitzer e colaborador regular da “New Yorker” 49 | “Metade-Metade” A parceria entre a fadista Aldina Duarte e a rapper Capicua 52 | Yoko Ono A exposição na Tate Modern, em Londres, convida a compreendê-la 54 | Livros “A Fraude”: primeiro romance histórico de Zadie Smith 58 | Cinema Dois filmes mostram o Brasil em carne viva 60 | Televisão “A Donzela”, uma aventura medieval para Millie Bobby Brown 62 | Música Sérgio Godinho celebra os 50 anos da Revolução de Abril 66 | Teatro & Dança Edward Albee no palco do Trindade 68 | Exposições A pintura de Cruz-Filipe na Gulbenkian 71 | Livrarias Muitas delas são mais do que espaços para vender livros 74 | Receita Por João Rodrigues 75 | Restaurantes Por Fortunato da Câmara 76 | Vinhos Por João Paulo Martins 77 | Recomendações De “Boa Cama Boa Mesa” 78 | Design Por Guta Moura Guedes 79 | Tecnologia Por Hugo Séneca 81 | Passatempos Por Marcos Cruz 3 Pluma Caprichosa por Clara Ferreira Alves | 16 O Mito Lógico por Luís Pedro Nunes 48 Os Cadernos e os Dias por Gonçalo M. Tavares | 70 Fraco Consolo por Pedro Mexia 80 Diário de Um Psiquiatra por José Gameiro | 82 Estranho Ofício por Ricardo Araújo Pereira 26 Invasão O ‘perigo castelhano’ foi sempre uma constante e Franco também fez planos para invadir Portugal. Mas a derrota da Alemanha nazi trouxe-o de volta à realidade E D I Ç ÃO 26 81 | 1 5 / M A R Ç O / 2024 FOTOGRAFIA DA CAPA: JOSÉ FERNANDES S T F /A F P V IA G E T T Y IM A G E S S U M Á R I O E 9 Há milénios que os humanos andam a cortar árvores. Se inicialmente o faziam para se aquecerem e construírem alojamentos, nos últimos 200 anos o principal condutor da desflorestação tem sido a expansão urbana e agrícola. E com a população humana a caminho dos 10 mil milhões, o verde que cobre a Terra vai encolhendo. No início do século XX, essa mancha estendia-se por 48% das regiões num planeta então habitado por 1,65 mil milhões de pessoas. Chegados a 2018, quando já por cá viviam 7,6 mil milhões, a mancha encolheu para 38% — menos cerca de mil milhões de hectares arborizados, de acordo com dados da plataforma Our World in Data. E a razão de tal desflorestação está sobretudo ligada ao que produzimos e comemos, sem olhar aos outros serviços que as árvores nos dão. AS ÁREAS FLORESTADAS MUNDIAIS CONTINUAM A ENCOLHER E EM PORTUGAL TAMBÉM. NUMA ALTURA EM QUE O PAÍS ESTÁ PINTADO DE LARANJA, ROSA E PRETO, O VERDE QUE NOS DÁ SOMBRA, AR E ÁGUA CONTINUA A ESVAIR-SE TEXTO CARLA TOMÁS INFOGRAFIA CARLOS ESTEVES ILUSTRAÇÃO CRISTIANO SALGADO A árvore dá vida fisga “Q U E M S A B E T U D O É P O R Q U E A N DA M U I TO M A L I N F O R M A D O” E 10 No início do século XXI, as árvores já só cobriam um terço da área terrestre habitável, tendo desaparecido globalmente 150 milhões de hectares de floresta só na década de 1980 (o equivalente a metade da Índia), segundo o observatório Global Forest Watch. O planeta continua a perder grandes fatias de floresta, sobretudo nos trópicos, para dar lugar a culturas de soja, óleo de palma, cacau, pasto para gado ou operações mineiras, que servem para satisfazer a procura dos países mais ricos. Assim desapareceram seis milhões de hectares por ano de floresta nas duas primeiras décadas deste século na América Latina e no Sudeste Asiático. Só em 2022 esvaiu-se uma área de floresta tropical do tamanho da Suíça (4,1 milhões ha), o que levou à libertação de 2,7 mil milhões de toneladas de carbono. Nesse ano, o Brasil liderou a desflorestação mundial (ver gráfico). “O que acontece na floresta não fica na floresta”, lembrou então a perita do GFW Frances Seymour, alertando para as consequências em cascata com o aumento das temperaturas, ondas de calor e secas, ameaçando a atividade agrícola e a saúde humana. Para tentar travar o problema e reverter a desflorestação até 2030, 145 países assinaram um compromisso na conferência do Clima de Glasgow, em 2021. Porém, com pouco sucesso até agora. Em 2022, a desflorestação aumentou globalmente 10% face ao ano anterior. Com Lula da Silva no poder, o Brasil aderiu ao compromisso e conseguiu diminuir a desmatação na Amazónia em 62% em 2023 face a 2022, mas no Cerrado aumentou 43%. Só o Canadá viu as chamas devastarem 9,5 milhões de hectares — uma área equivalente a Portugal inteiro — em 2023, o que é também preocupante porque as florestas boreais da América do Norte ou da Europa armazenam 30 a 40% do carbono terrestre. Cerca de 35% da área territorial europeia (227 milhões de hectares) é ocupada por floresta e esta aumentou 9% em 30 anos, segundo o Relatório sobre o Estado da Floresta na Europa 2020. Porém, em Portugal, na Bósnia, na Albânia e na Suécia a tendência foi de decréscimo. PORTUGAL PERDE Dados do Global Forest Watch, publicados em 2019, indicavam que Portugal perdeu 24,6% da floresta entre 2001 e 2014, colocando-o no topo dos países com maior perda de coberto arbóreo, o que era justificado por conversões urbanas, turísticas e industriais, pela construção de infraestruturas rodoviárias e pelos incêndios (sobretudo os de 2003 e 2005). No mesmo ano, Portugal publicou o 6º Inventário Florestal Nacional com base em dados de 2015 e apontava para que “a tendência de diminuição de área de floresta verificada desde 1995 se inverteu em 2015, com um ligeiro aumento de 60 mil ha (+1,9%)”. Por estes dias só se pensa no país em tons de laranja, rosa e negro, mas o verde dos espaços florestais (incluindo árvores, matos e terrenos improdutivos) pintava em 2015 dois terços do território continental (6,1 milhões de hectares), sendo que 36% eram terrenos arborizados. De O novo inventário florestal vai avançar este ano e o concurso público para o efeito foi aberto a 26 de fevereiro último. Agora, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) vai juntaresforços com a Direção-Geral do Território “para não haver discrepâncias na informação recolhida entre as duas entidades e permitir ter informação detalhada sobre vegetação, biomassa, altura das árvores e capacidade de sequestro de carbono”, esclarece ao Expresso o coordenador do inventário, José Sousa Uva. O especialista do ICNF sublinha que “a floresta portuguesa tem uma grande capacidade de resiliência”, apesar de ser com frequência fustigada por incêndios e ter problemas de fitossanidade, associada sobretudo ao nemátodo do pinheiro. Mas nos anos mais recentes têm surgido outros problemas associados a ordens de abate de sobreiros e azinheiras por alegado “imprescindível interesse público” associado à construção de megaparques solares, barragens e outras infraestruturas rodoviárias, ferroviárias ou parques industriais. Só entre 2011 e 2023, tiveram ordem de abate perto de 35 mil sobreiros por despachos publicados em “Diário da República”. Entre os mais polémicos, esteve a aprovação do corte de 1821 sobreiros para viabilizar o Parque Eólico de Morgavel, perto de Sines. Lembraram então os ambientalistas que a produção de energia renovável não pode ser pretexto para degradar o território, afetar a biodiversidade e a redução do sequestro de carbono. Ainda sem dados do inventário, vão sendo feitos alguns estudos, como os da equipa do MED — Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento, coordenados pelo investigador Nuno Guiomar, que apontam para “uma perda em área de todas as espécies arbóreas entre 2020 e 2023”. Neste período, esclarece ao Expresso, “perderam-se 55 mil hectares de pinheiro, sobretudo devido a incêndios e doenças, e 22 mil hectares de eucaliptal, por não ser rentável em todo o lado”. Os cálculos apontam também para “perdas de 1000 a 2000 hectares por ano de sobreiro e azinheira, sobretudo devido à seca e a um declínio lento potenciado pela atividade humana”, explica o engenheiro biofísico. A segunda causa está relacionada com os incêndios e a terceira “os cortes, autorizados ou não para dar lugar a parques solares ou a áreas de regadio”, acrescenta. Nuno Guiomar esclarece também, que mesmo quando os sobreiros ou as azinheiras não são cortados, “a mobilização do solo para dar lugar a um olival intensivo acaba por afetar o sistema radicular (raízes) e as árvores acabam por morrer ao fim de alguns anos”. Por isso, receia que se venha a acentuar o declínio desta espécie emblemática nacional e defende que as medidas compensatórias “devem ser três vezes superiores às que estão a ser postas em prática” e que é preciso verificar se as plantações ou o restauro ecológico estão a vingar. Remunerar adequadamente os serviços de ecossistemas que as florestas nos prestam ao nível da produção de água, oxigénio e sequestro de carbono é necessário. b ENTRE 2020 E 2023 PERDERAM-SE 55 MIL HECTARES DE PINHEIRO, DEVIDO A INCÊNDIOS E DOENÇAS, 22 MIL HA DE EUCALIPTAL, E 1000 A 2000 HA POR ANO DE SOBREIRO E AZINHEIRA acordo com o inventário de 2015 os montados de sobro e azinho representavam um terço da floresta nacional (cerca de um milhão de hectares), seguido de pinhal (bravo e manso com cerca de 900 mil ha), e em terceiro surgiam os eucaliptais (845 mil ha). Esta avaliação também permitiu verificar que entre 1995 e 2015 se perderam 27 mil hectares de sobreiros e 264 mil ha de pinheiro bravo (maioritariamente devido aos incêndios) e que o eucalipto cresceu 128 mil ha. Só em 2015 é que surgiu regulamentação para travar a expansão de eucalipto. fisga Floresta Matos e pastagens Agricultura Territórios artificializados Águas interiores Improdutivos 36 31 24 5 2 2 OCUPAÇÃO DO SOLO NACIONAL EM 2015 Em % Sobreiro e azinheira Eucalipto Pinheiro bravo Pinheiro manso Outras folhosas Outras resinosas 2020 2023 860.284 856.323 808.459 786.203 421.754 367.135 136.301 121.674 437.405 424.962 19.188 16.818 VAR. 2020/23 -3960 -22.256 -54.619 -14.627 -12.443 -2371 FONTE: DGT ÁREA DE FLORESTA EM PORTUGAL Em hectares Brasil R. D. Congo Bolívia Indonésia Peru Colômbia Laos Camarões 1773 (43%*) 513 386 (32%**) 230 161 128 93 76 PAÍSES COM MAIOR PERDA DE FLORESTA HÚMIDA PRIMÁRIA EM 2022 Em milhares de hectares *da perda mundial deste tipo de floresta **aumento de 32% face a 2021 FONTE: STATISTA FONTES: RELATÓRIO DO 6º INVENTÁRIO FLORESTAL NACIONAL (2019) ICNF REVELA POTÊNCIA Gama Range Rover Sport 24MY: consumo combinado WLTP 0,6-12,5 l/100 km, emissões combinadas de CO₂ WLTP 15-282 g/km. Valores obtidos nos testes oficiais do fabricante com uma bateria carregada de acordo com a legislação da UE. As emissões de CO₂, o consumo de combustível, o consumo de energia e a autonomia podem variar em condições reais e em função de fatores como o estilo de condução, as condições ambientais, o equipamento, a carga, o estado da bateria e o percurso. Valores de autonomia baseados num veículo standard num percurso normalizado. E 12 Da’Vine Joy Randolph O Óscar de Melhor Atriz Secundária, pelo papel em “Os Excluídos”, em exibição em Portugal, coroa o percurso de Da’Vine Joy Randolph, que tem passado pelo teatro musical, pelas séries e também pelos filmes de animação. Após receber o Óscar, disse que o mesmo é “uma carta de amor às mulheres negras”. / LIA PEREIRA O Q U E E U A N D E I PA R A A Q U I C H E GA R U M C U R R Í C U LO V I S UA L D A N N Y M O LO S H O K /R E U T E R S 1986 Alegria divina Nasce em Filadélfia, nos Estados Unidos, no dia 21 de maio. Felizes com a chegada da bebé, os seus pais, que tentavam conceber há sete anos, chamaram-lhe Da’Vine Joy, ou seja, “alegria divina”. 2011 Teatro musical Depois de estudar canto e ópera, acaba por mudar de curso e concentrar os seus esforços na aprendizagem de teatro musical. Em 2011, recebe o ‘canudo’ da Escola de Representação de Yale. 2012 Da Broadway para Londres Candidata-se a um lugar no elenco do musical da Broadway “Ghost”, que iria subir ao palco no West End de Londres. Quando a protagonista da peça sofre uma lesão, voa para Inglaterra para substituí-la. Acaba por ser nomeada para um prémio Tony, por Melhor Atriz num Musical. 2013 Robin Williams Participa no seu primeiro filme, “Mother of George”, como atriz secundária. No ano seguinte, desempenha o papel de uma enfermeira na comédia dramática “Aproveita a Vida, Henry Altmann”, com Robin Williams. 2016 Mundo das séries Depois de integrar o elenco de séries como “The Good Wife”, garante uma participação recorrente em “This Is Us”, como Tanya. Participará, também, em “Empire” e “Veep”. 2019 Eddie Murphy Chama as atenções com o seu papel como Lady Reed em “Dolemite Is My Name”, com Eddie Murphy. É nomeada para numerosos prémios, como atriz secundária, e assegura lugar em filmes como “Alta Fidelidade”, em 2020, ou “The United States vs. Billie Holiday”, em 2021. 2022 Gato das Botas Da’Vine Joy Randolph tem também emprestado a sua voz a personagens de filmes de animação. Em 2022, dá vida a Mama Luna, uma senhora que abriga dezenas de gatos vadios, em “Gato das Botas: o Último Desejo”. 2024 O primeiro Óscar O papel como Mary Lamb, cozinheira de uma escola que perdeu o filho na Guerra do Vietname, rende-lhe o Óscar de Melhor Atriz Secundária. “Sempre quis ser diferente; afinal, só preciso de ser eu própria”, agradeceu, emocionada. fisga E 14 Esta imagem é do vídeo de 2022 “Caminho para as Estrelas”, de Mónica de Miranda. E a partir de 20 de setembro fará parte em Lisboa da exposição “Linha de Maré”. Com obras da Coleção do CAM, o Centro de Arte Moderna Gulbenkian. De autores como Ana Jotta, Artur Cruzeiro Seixas ou Paulo Nozolino. M Ó N IC A D E M IR A N D A P H OTO M ATO N EDIMBURGO A voz de Youssou N’Dour tem poderes curativos contra a xenofobia, por exemplo na música ‘7 Seconds’, cantada com Neneh Cherry. E o músico senegalês estará em Edimburgoa 13 de agosto, às 20h, no Usher Hall. Antes e depois, de 2 a 25 de agosto, serão muitas as estrelas a passar pelo Edinburgh International Festival. Há espaço também para teatro, dança, ópera e música clássica. E para músicos como The Magnetic Fields, Chilly Gonzales ou Cat Power. Tudo boa medicina. BRUXELAS Em 1937, a guerra alastrava em Espanha. E Max Ernst pintou assim a monstruosidade do franquismo. Agora e até 21 de julho, esta pintura festeja em Bruxelas os 100 anos do surrealismo, contados a partir da publicação em 1924 do “Manifeste du Surréalisme”. É na exposição “Imagine!” do Musées Royaux des Beaux-Arts de Bel- gique, com obras de artistas como Giorgio de Chirico, Joan Miró, Leonor Fini, Man Ray e Salvador Dalí. FLASHES VENEZA Estrangeiros em toda a parte C LA IR E F O N TA IN E só, um bom momento para contrariar este vírus será a próxima exposição internacional de arte da Bienal de Veneza, de 20 de abril a 24 de novembro. A curadoria é de Adriano Pedrosa, diretor do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. E incluirá obras de artistas como Candido Portinari, Claudia Andujar, Diego Rivera, Frida Kahlo, Kiluanji Kia Henda, Lina Bo Bardi, Malangatana e Tina Modotti. E do duo parisiense baseado em Palermo Claire Fontaine, que tem trabalhado em dezenas de línguas a frase “Stranieri Ovunque”. Significa “Estrangeiros em Toda a Parte” e é também o mote global desta edição da Bienal de Veneza. Sim, bem sei que o vírus está forte. Mas nunca é tarde. A xenofobia é um vírus. Pode espalhar-se em qualquer corpo, mas ganha mais força quando encontra sociedades em crise. O vírus do ódio aos estrangeiros e ao estranho navega por séculos e atravessa continentes e gerações. Talvez seja eterno, mas pode ir sendo parado, curado e prevenido. Viajar ajuda muito, viver fora também. Mesmo em casa e em qualquer fase da doença, recomenda-se a exposição a tudo o que seja estrangeiro. Afinal, somos todos estrangeiros. Como percebemos ao fim de pouco tempo, porque o tratamento funciona mesmo. Perante o crescimento da xenofobia cavalgada pela extrema-direita na Europa e não T H E N A T IO N A L G A L L E R Y , L O N D O N LONDRES — CHICAGO Uma princesa no circo Era uma princesa vinda de África. E perdera a liberdade, sendo vendida como escrava. Aliás, a estrela de circo Miss La La nasceu na Prússia, numa cidade que agora é polaca. E tinha 21 anos quando foi assim retratada em janeiro de 1879, com beleza e força, pelo pintor Edgar Degas. Chamava-se Anna Albertine Olga Brown e era filha de pai negro e de mãe branca. A propósito, a mãe de Degas era de Nova Orleães. E quando conheceu Miss La La, o pintor já viajara sete anos antes até Nova Orleães, onde conheceu uma parte da família. Já a suposta origem desta artista de circo foi apenas um dos rumores postos a circular, com o objetivo de vender mais bilhetes. Durante quatro noites seguidas, Degas foi um dos interessados no espetáculo do Cirque Fernando, perto da Place Pigalle. E dessas noites nasceu esta pintura a óleo, depois de vários estudos feitos com carvão, lápis e pastel. E com a ajuda de um desenhador de arquitetura, para que o teto do circo ficasse mais próximo da realidade. Além de ser apresentada como Miss La La, a protagonista era também conhecida como La Femme Canon ou La Mulatresse-Canon. Chamavam-lhe a Mulher Canhão ou a Mulata Canhão porque uma das proezas mais impressionantes passava por aguentar o peso de um canhão suspenso, só com os dentes e os maxilares. A partir de 6 de junho e até 1 de setembro, esta história será contada em Londres através de pinturas, desenhos e fotografias, na exposição “Discover Degas & Miss La La”, na National Gallery. Esta pintura de Miss La La criada por Degas serviu de inspiração ao escultor Juan Muñoz (1953-2001), que criou uma série de esculturas de homens pendurados por cordas, pela boca. Já no mesmo circo onde Degas conheceu em Paris a leveza e a força de Miss La La, os pintores Henri de Toulouse-Lautrec e Pierre-Auguste Renoir terão ficado interessados em outras cenas circenses. De Toulouse-Lautrec, pode ser vista no Art Institute of Chicago a pintura “Equestrienne”, que mistura humor com cavalaria. E no mesmo museu em Chicago lá estão as irmãs acrobatas Francisca e Angelina Wartenberg, retratadas por Pierre-Auguste Renoir. O circo era outro mundo. Com um lado carnavalesco, que bem podia significar liberdade. b P L A N E TÁ R I O N O C A M I N H O DA S E S T R E L A S P O R J OÃO PAC H E C O fisga E 16 A IA PODE MATAR A DEMOCRACIA JÁ EM 2024 NÃO ACREDITO EM NADA QUE VEJO E OUÇO. TUDO O QUE UM POLÍTICO DIZ É FALSO. OU NÃO. A VERDADE MORREU á umas semanas, começaram a surgir nas redes sociais americanas umas imagens de Trump, sorridente, sentado num alpendre com uma família negra a posar feliz. A legenda alegava que o candidato a Presidente tinha parado a sua comitiva para conviver com aquelas pessoas. Acontece que essa e outras imagens similares eram falsas — criadas por inteligência artificial. Nem sequer foram produzidas pela sua campanha, mas por um radialista pró-Trump. E foram denunciadas. Mas Trump não teve problema em as publicar sem nenhuma referência a serem falsas. Nem essas nem as de ele a rezar ajoelhado com a luz da catedral a bater-lhe na cara a dar-lhe um toque de santidade (embora tivesse seis dedos). Ou a posar ao lado de Martin Luther King numa foto a preto e branco, supostamente em 1968, embora Trump só tenha aí menos uns 15 anos do que tem agora. Para quê desperdiçar imagens tão boas, se bem que falsas? Há dias, um movimento republicano anti-Trump fez uma recolha de imagens em que se vê o ex-presidente a “quase cair, a perder-se no discurso, a enganar-se vezes sem conta e a dizer patetices” — exatamente do que acusa o seu adversário Joe Biden. Trump reagiu a dizer que se tratava de imagens falsas feitas por inteligência artificial só para o fazer tão patético como Biden. Não eram. Eram verdadeiras. Como ninguém, Trump sabe usar o que se chama de “dividendo do mentiroso”. O mentiroso ganha sempre. Já foi assim com as fake news. Quando o acusaram de as disseminar, ele acusou os adversários de serem os criadores das fake news, até ninguém perceber do que se falava. Uma coisa a ter em conta. As ferramentas que esta “IA bebé” está a disponibilizar são incríveis e este é o ano em que metade da população do planeta vai a votos. Uns 80 países. Dos EUA ao México, passando pela Índia até à UE. Já tínhamos atingido um grau de desinformação tão grande que se afirmava que talvez se tenha criado o “cidadão apático” perante a existência da verdade ou da mentira. Não estamos preparados para o potencial de estragos que a IA pode ter nos processos eleitorais. Exagero? O único local onde Biden perdeu as primárias foi na Samoa. Um investidor de capital de risco em tecnologia garante que gastou apenas uns milhares de dólares num programa banal de IA e colocou lá uma equipa de cinco pessoas, o que bastou para vencer as eleições. Nunca pôs os pés na ilha do Sul do Pacífico, mas usou bots diferenciados com a voz do candidato a telefonar aos votantes. Deveria ser um aviso. As eleições de junho na União Europeia vão ser um teste. As empresas de tecnologia deram a sua palavra de que iam agir e a comissão aprovou uma lei toda XPTO. Mas os críticos dizem que não há orçamento para contratar ‘Oppenheimers’ para criar defesas efetivas. As eleições na Europa são uma complicação, dado o seu mosaico de 27 países, de línguas, de problemas múltiplos, contraditórios, e que resulta numa complexidade de nomes e candidaturas que torna tudo mais difícil do ponto de vista da autodefesa. Junte-se a deriva populista interna mais propensa a usar este tipo de ferramentas, a que se junta a Rússia e a China ativamente a quererem influenciar eleições, e pode dizer-se que as eleições de junho são uma incógnita quanto ao impacto da IA no processoeleitoral. Com a IA, há finalmente uma “democratização da desinformação”. O que antes só era possível com grandes orçamentos é agora acessível com poucos euros e um nerd a gerir a criação automatizada de títulos falsos, a imitar o layout dos jornais, por vezes já dirigidos a públicos definidos, por exemplo. Uma das preocupações são os deepfakes (as imagens falsas com a pessoa a falar), mas é possível que este ainda não seja o ano deles. O mais provável é aparecerem áudios falsos, dado que são mais fáceis de produzir. As aplicações são baratas — supostamente criadas para miúdos fazerem partidas —, e com apenas um discurso de um político apreendem a tonalidade, timbre, trejeitos, e podem colocá-lo a dizer qualquer coisa. A campanha eleitoral americana ainda conta com o telefone: milhões de bots podem ligar com vozes falsas a dizer o que se quiser. O que coloca o problema contrário: a partir de determinada altura, qualquer coisa criminosa que um político diga irá sempre argumentar que se trata de IA. É a total erosão da verdade. Um mundo da “pós-verdade” em que ser verdade ou não é indiferente. As imagens deixam de ter valor. Antes, dizia-se “ver para crer”. Vejo, mas decido se creio dependendo no que acredito. Isso leva a uma desconfiança total nas instituições. É o cidadão paranoico. E é aqui que a democracia começa a estar verdadeiramente em perigo. E é o que está a acontecer. As democracias em geral estão sob tensão. Se juntarmos a IA, “temos uma tempestade perfeita de desinformação”. Até agora, a IA generativa nas redes sociais tem ajudado a disseminar teorias da conspiração que se expandem a “fábricas de armas biológicas na Ucrânia” para alertar a perceção dos EUA às eleições no Paquistão ou na Eslováquia. No final de 2024, saberemos se o mundo e essa invenção americana e europeia que é a democracia resistiram à IA, aos populismos em esteroides e à ingerência de autocracias. Há um ditado de um país qualquer que vi aplicado à regulamentação da IA que dizia que enquanto a mentira dá a volta ao mundo a verdade calça os sapatos. Há quem acredite que as empresas de tecnologia vão fazer alguma coisa, ou que as leis da UE vão parar a desinformação. É uma improbabilidade. Ou que o bom senso das pessoas irá detetar o verdadeiro e o falso. Tudo aponta para o contrário. Vão acreditar no que agrade aos seus enviesamentos. Mesmo que seja uma mentira gritante. E a IA já estará no controlo. b lpnunesxxx@gmail.com H O M I T O L Ó G I C O / LUÍS PEDRO NUNES E 18 I D E I A S TEXTO IAN BURUMA AUTOR DO NOVO LIVRO “THE COLLABORATORS: THREE STORIES OF DECEPTION AND SURVIVAL IN WORLD WAR II” A AMEAÇA DA POLÍTICA MESSIÂNICA O DESEJO DE SE SUBMETER A UMA ENTIDADE SUPERIOR, DE ACREDITAR NA VIDA ALÉM DA MORTE, DE DIVIDIR O MUNDO EM CRENTES E NÃO CRENTES, E DE CELEBRAR AS FASES DA VIDA COM RITUAIS SAGRADOS É UMA CARACTERÍSTICA HUMANA UNIVERSAL. MAS O LUGAR DESSES DESEJOS NÃO É NOS DISCURSOS POLÍTICOS. AS AUTORIDADES RELIGIOSAS E POLÍTICAS NÃO SE PODEM SOBREPOR o dia 22 de janeiro, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi inaugurou o Ram Mandir, um vasto novo templo hindu em Ayodhya. “O sumo sacer- dote do hinduísmo”, nas palavras do seu biógrafo, Modi levou oferendas e bênçãos a um ídolo do Lord Ram, uma das divindades hindus mais reverencia- das, que supostamente nasceu neste local sagrado. O templo é também um poderoso símbolo político para Modi e para o seu partido no poder, Bharatiya Janata (BJP): foi construído sobre as ruínas de uma mesquita do século XVI que uma multidão de naci- onalistas hindus, incitada pelos líderes do BJP, de- moliu em 1992, provocando motins sectários que resultaram em 2000 mortos. Modi promete criar uma “nova Índia”, o que para ele significa uma Índia hindu, onde os mais de 200 milhões de muçulmanos do país serão vistos como intrusos. Na verdade, esta mistura deliberada de religião e política é inconstitucional na Índia. O primeiro primeiro-ministro indiano independen- te, Jawaharlal Nehru, bem como o líder político e espiritual Mahatma Gandhi, reconheceram o quão explosiva uma luta religiosa poderia ser numa soci- edade multirreligiosa e multiétnica, razão pela qual insistiram que a Índia fosse um estado secular. O desejo de minar o estado secular apareceu muito antes de Modi. O homem que assassinou Ma- hatma Gandhi era membro da Rashtriya Swayam- sevak Sangh, uma organização nacionalista parami- litar hindu com ligações ao BJP que desempenhou um papel importante na destruição da mesquita em Ayodhya. Em 1986, agitadores hindus aproveitaram N a decisão falaciosa do então primeiro-ministro Ra- jiv Gandhi de ceder às exigências dos muçulmanos permitindo que a lei islâmica anulasse uma decisão do Supremo Tribunal que defendia o direito de os divorciados muçulmanos receberem pensão de ali- mentos para lá de 90 dias. Usando esta exceção para fazer renascer ressentimentos hindus, esses agita- dores trouxeram o nacionalismo hindu das franjas da sociedade para o centro da política indiana. Infelizmente, Modi não está sozinho nesta de- cisão de abraçar uma política religiosa. Por incrível que pareça o ex-Presidente norte-americano, Do- nald Trump, um predador sexual obsceno, está a ser rotulado pelos seus seguidores como um salvador da cristandade, que irá limpar os Estados Unidos de esquerdistas, feministas, gays, imigrantes, elitistas liberais e outros pecadores. Um vídeo promocional recentemente publicado no site de Trump, Truth So- cial, cola-se a esta narrativa, afirmando: “Deus pre- cisava de alguém disposto a entrar no ninho de ví- boras. Denunciem as notícias falsas vindas das suas línguas afiadas como as de uma serpente. O veneno das víboras está nos seus lábios. Por isso Deus cri- ou Trump.” Os pentecostistas evangélicos, como os católicos reacionários, acreditam agora que Trump é mais do que uma figura política. O ex-Presidente foi ungido por Deus para tornar a América grande outra vez. Sim, está a ser processado por agredir uma mulher, por anular uma eleição através da violência e por cometer fraude, mas isso mostra como é um mártir perseguido por inimigos maus, tal como Jesus Cristo. E 19 A política religiosa é a maior ameaça para a de- mocracia, mais do que a desigualdade social ou eco- nómica, os políticos mentirosos ou a corrupção, que são suficientemente maus. Existem instituições de- mocráticas liberais para resolver conflitos de inte- resses. Disputas sobre impostos, uso da terra, subsí- dios agrícolas, etc., podem ser resolvidas através de discussões e compromissos entre partidos políticos. Mas os assuntos sagrados não podem. A verdade de Deus não é negociável. É por isso que um grupo religioso militante como o Hamas não pode ser um partido político democrá- tico. Num Estado islâmico radical, não há espaço para debate ou compromisso. O mesmo é válido para extremistas religiosos israelitas que acreditam que os seus direitos são justificados pela Bíblia. Os direitos da água são discutíveis; a terra sagrada não é. A questão não é tentar curar a humanidade das crenças religiosas. O desejo de se submeter a uma entidade superior, de acreditar na vida além da morte, de dividir o mundo em crentes e não cren- tes, de insultar os pecadores e adorar os santos e de celebrar as fases da vida com rituais sagrados é uma característica humana universal. Mas o lugar desses desejos é nas igrejas, templos, sinagogas e santuári- os, não nos discursos políticos. As autoridades reli- giosas e políticas não se podem sobrepor. Nehru compreendeu este conceito. Thomas Jef- ferson compreendeu este conceito. E muitos líderes cristãos, especialmente os protestantes que não que- riam que o estado secular se envolvesse em assuntos religiosos, também compreenderam este conceito. Os católicos têm tido mais problemas com a separa- ção entre a igreja e o estado, mas a maioria aprendeu a viver com ela. A razão pela qual tantas democracias estão agora ameaçadas pela política messiânicanão é porque a religião organizada ganhou força. Na verdade, acho que é exatamente pelo oposto. Na maior parte das democracias ocidentais, pelo menos, a autoridade da igreja entrou em colapso quase totalmente. Isto é verdade mesmo nos EUA: embora a maioria das pessoas ainda considere ser crente de uma ou ou- tra fé, muitos cristãos americanos, especialmente aqueles que são atraídos para Trump como salvador, seguem pregadores independentes ou empreende- dores espirituais. Em muitas partes da Europa, onde o populismo de direita está a aumentar, a erosão da autoridade da igreja a partir dos anos 60 deixou à deriva todos os que iam à igreja regularmente e esperavam que os seus sacerdotes e pastores lhes dissessem como vo- tar. Hoje, estão ansiosos e perplexos pelas mudan- ças demográficas, políticas, sociais, sexuais e eco- nómicas, e procuram um salvador que os leve para um mundo mais simples, mais certo e mais seguro. Há muitos demagogos famintos de poder desejosos de satisfazer esse desejo. b e@expresso.impresa.pt Tradução Joana Henriques Copyright: Project Syndicate, 2024 A razão pela qual tantas democracias estão agora ameaçadas pela política messiânica não é porque a religião organizada ganhou força. Na verdade, acho que é exatamente pelo oposto R O Y A L A C A D E M Y PROMESSA “The Messianic Era: Israel And The Law”, John Singer Sargent (1903) E 20 TEXTO SEBASTIÃO BUGALHO COLUNISTA DO EXPRESSO E 21 O homem que (quase) conseguiu Luís Montenegro, um primeiro-ministro em forma de ponto de interrogação R U I D U A R T E S IL V A E 22 governação socialista, isto é, chumbando Montene- gro como candidato a primeiro-ministro. Olhando os estudos de opinião, os portugueses não o desmenti- am na altura. Examinando os resultados da eleição de domingo passado, mais de 1 milhão continuam de acordo com o exame do Presidente. À data, nos bastidores do PSD, as previsões para as eleições europeias do verão seguinte — hoje, daqui a três meses — eram lúgubres, sem um candidato evi- dente e chances de ficar atrás do PS apesar do estado infeliz da maioria absoluta. Entre as hostes sociais- -democratas, discutia-se a saída de Montenegro como que uma inevitabilidade e os sussurros pelo regresso de Pedro Passos Coelho acumulavam-se nos ouvidos laranja. Naquele tempo, que não foi assim há tanto, Luís Montenegro assemelhava-se a um recluso num corredor da morte, pronto a juntar-se à coleção de opositores vergados por António Costa. As notícias em torno da casa do presidente do PSD e o envolvimento de Joaquim Pinto Moreira, seu próximo, na Operação Vórtex jaziam como que uma nuvem em cima da ca- beça do líder da oposição. O seu tom, persistentemen- te parlamentar e não de candidato a primeiro-minis- tro (“O Orçamento pipi, betinho e arranjadinho”), roçava o inadequado e a ambiguidade sobre o Chega (ainda não havia “não é não” definitivo) perseguia-o, tanto quanto o fantasma de Passos Coelho. Sem exagero, Montenegro esteve em vias de ser afastado antes de sequer disputar uma eleição em seu nome. Apesar de tudo isso, foi com um sorriso que se sen- tou à mesa num dos seus pousios prediletos, à beira do Tejo, em Lisboa. Menos esguio do que nos tempos de líder parlamentar, talvez já engordado pela volta pe- los concelhos do país, já andava sem relógio de pulso e em mangas arregaçadas. Para entrada, o seu favori- to, uma sardinha no pão torrado. “Eu estou convenci- do de que vou ser primeiro-ministro”, afirmaria, sem pestanejar, ao seu comensal. “Tenho é de emagrecer um pouco até lá”, sorriria, com o longínquo 2026 ain- da como horizonte. Naquele momento, sardinhas e simpatias à parte, provavelmente só ele acreditava que sim. Menos de um mês depois, rumaria à Madeira, onde o seu par- tido falharia a maioria absoluta apesar de coligado com o CDS, dando com Miguel Albuquerque, caçador nos tempos livres, a socorrer-se inusitadamente do apoio do PAN para formar governo na região autóno- ma. “Luís Montenegro 1, António Costa 0”, atiraria o continental, transpirado, mais uma vez fora de tom diante da sua primeira vitória amarga, das três que seriam agridoces. Albuquerque, que prometera de- mitir-se caso falhasse a maioria, permaneceria indi- ferentemente no cargo — hábito que, aliás, mantém. Num timing no mínimo desajeitado, Luís Monte- negro poria aí termo ao tabu da relação do seu partido com o de André Ventura, anunciando que não gover- naria com o apoio do Chega “nem no país nem na Ma- deira”, sem se dar ao trabalho de explicar porquê, ex- cetuando o facto de o PSD não necessitar de votos do Chega para governar o arquipélago. Pouco mais de um ano depois de suceder a Rui Rio na liderança da opo- sição, Montenegro dizia finalmente ao seu eleitorado qual a sua política de alianças — matéria que nunca colheu unanimidade na sua direção; pelo contrário. No Expresso, dando-o já como fora do jogo, Da- niel Oliveira assinaria uma coluna cinco dias depois intitulada “Pedro contra Pedro”, antevendo um futu- ro político sem Montenegro e sem Costa, onde Pedro (Nuno Santos) enfrentaria Pedro (Passos Coelho). De N o dia 30 de agosto de 2023, há menos de um ano, Luís Montenegro não ia ser o próximo primeiro-ministro de Portugal. O Partido Socialista havia sobrevivido à Comissão de Inquérito à TAP, Pedro Nuno Santos ia ser comentador político na SIC Notícias, João Ga- lamba permanecia no Governo e o Presidente da Re- pública estava publicamente desautorizado por um primeiro-ministro em posse de supremacia parla- mentar, orçamental e não propriamente derrotado nas sondagens. As perspetivas não eram animadoras para o homem de Espinho, um ano depois de che- gar à São Caetano à Lapa. No pico da crise espoleta- da pela indemnização ilegal de Alexandra Reis, me- ses antes, Marcelo Rebelo de Sousa considerara não haver “uma alternativa óbvia em termos políticos” à E 23 (complementando a componente pública com a pri- vada e social) e um discurso final concluído em apo- teose, num tributo às vidas perdidas para o feminicí- dio em Portugal. Estava ali — ou tentava estar ali — um substituto indolor de António Costa para os 2 milhões e 300 mil portugueses que haviam confiado no PS há menos de dois anos. No fim de semana passado, não foram tan- tos a acreditar em Luís Montenegro. O PACIENTE JOGADOR CONTRA UM TEMPO E CONTRA UM LEGADO O paradoxo mais interessante — e mais elucidativo — na personalidade política de Luís Montenegro é que o seu modo de ação é o de um jogador que aposta tudo mas que ao mesmo tempo demora a revelar o jogo que tem na manga. Alongando a metáfora, é quase como se estivesse constantemente num torneio de póquer em que faz o all-in sem que os seus adversários saibam exatamente quantas fichas estão em cima da mesa — muitas vezes, nem o próprio sabe. Montenegro fê-lo na sua dramatização de apelo ao voto útil, prometendo só governar sendo o mais votado e nunca com o apoio do Chega. Mas fê-lo também no posicionamento que delineou para o seu partido — ao centro —, não cli- vando com o poder incumbente, não divergindo em nada que não consensual, nem prometendo nenhuma mudança que não a que lhe interessava para conseguir mudar o resto: a de Governo. O seu tudo ou nada não esteve só na meta que im- pôs a si mesmo (só governar se ganhar e nunca com o concorrente crescente à sua direita), mas no modo como estacionou o PSD no lugar de substituto — e não de inimigo — do PS. No seu raciocínio, tal era a única forma de ultrapassar os anticorpos oriundos do tempo da troika e partir para a campanha de rua com a menor taxa de rejeição possível. Para tal, sacrificou frequentemente convicções e posições, não revelando as suas sobre matérias tão concretas como a regionali- zação (foi contra o referendo, sem dizer como votaria), a eutanásia (foi a favor do referendo, sem dizer como votaria) ou a localização do novo aeroporto (consen- sualizou o método de escolha com o Governo, semre- velar qual seria a sua decisão). O recentramento montenegrista seria tal que os apoiantes da sua coligação com o CDS entrariam ir- remediavelmente em choque com ele, tendo a visão pró-vida de um candidato a deputado embatido de frente com Montenegro, para quem a interrupção vo- luntária da gravidez, não sendo um tópico consensu- al, só poderia ser proibido. Num painel da SIC Notíci- as, Daniel Oliveira chamar-lhe-ia mesmo candidato “marca branca” por nunca fugir ao mainstream. Gosto musical? “Coldplay.” Gastronómico? As “couves” no cozido à portuguesa. Clube de futebol? A “seleção na- cional”, claro, e não o Futebol Clube do Porto, de que chegou a ser dirigente. Se lhe perguntassem a cor pre- ferida, não seria impossível que respondesse instinti- vamente “bege”. Aborto? Nem uma palavra. Em simultâneo, o líder do PSD — então converti- do em Aliança Democrática — tinha de permanecer suficientemente apelativo à direita apesar da tentati- va de parecer inofensivo à sua esquerda. E contra uma ameaça berrante, como os resultados de domingo pro- varam, era mais difícil ser “bege”. A única coisa de “direita” que Luís Montenegro ousou representar foi a oportunidade de alternância ao PS, ao fim de nove anos. De resto, excetuando o pouco falado programa económico (divulgado no dia em que o governo, desta vez o madeirense, foi alvo de buscas), em que é que o PSD se distinguiu do PS além de não ser o PS? Para a maioria dos eleitores, mirando os números, em pou- co. Nesta eleição, nem a sustentabilidade da Seguran- ça Social se pôs em causa. O seu cuidado para não afugentar o eleitorado do Chega, todavia, esteve sempre lá. Expressões que focus group davam como tóxicas para os votantes de Ventu- ra, como “cordão sanitário”, nunca saíram da boca do líder da AD. Confissões de “centrismo”, como as repe- tidas ad nauseam por Rui Rio, nunca se deram. Mon- tenegro colocou-se no centro, nunca se proclamou dele. E tinha a ver com não abdicar da direita ape- sar de namorar os demais. Se repararmos, o conceito de “reformas estruturais”, que tanta alergia causava ao costismo, também não integrava a mensagem de CAMINHADA À saída do elevador, no domingo à noite, a caminho do discurso de vitória e após duas semanas de campanha eleitoral, Luís Montenegro atingiu um patamar que, há menos de um ano, parecia absolutamente improvável — estar na primeira linha para ser o primeiro-ministro de Portugal; O líder do PSD procurou não afugentar o eleitorado de André Ventura e do Chega, e teve um discurso cuidado, evitando expressões como “cordão sanitário”; Pedro Nuno Santos assumiu a derrota e declarou-se líder da oposição R U I D U A R T E S IL V A R U I D U A R T E S IL V A um modo, para muitos, era como se ele já não con- tasse e os corredores do PSD não eram alheios à sen- sação. A dúvida já não era se Montenegro seria ou não seria primeiro-ministro; era se chegaria sequer às le- gislativas. Uma semana mais tarde, o Hamas entraria em território israelita para tirar mais de um milhar de vidas e mergulhar o Médio Oriente em guerra. A política doméstica mereceria um par de semanas de descanso, até uma entretanto esquecida profecia do diretor-executivo do Serviço Nacional de Saúde, avi- sando que novembro seria “o pior mês em 44 anos de SNS” se nada se alterasse na tensão com o sector. O pessimismo de Araújo era previdente, mas falhava na área. Novembro não seria o pior mês de sempre na Saúde do regime, mas nas suas instituições, com um Governo a ser derrubado com polícia em São Bento, dois ministros buscados, um chefe de gabinete en- contrado com €75.800 no local de trabalho e um amigo íntimo do primeiro-ministro detido. António Costa pediria a demissão na tarde desse 7 de novem- bro, e Luís Montenegro, qual Lázaro, ressuscitaria como candidato à sua sucessão. Em menos de 20 dias, o PSD transformaria um congresso agendado para rever estatutos internos numa autêntica convenção, com velhas glórias como Morais Sarmento, José Luís Arnaut, Leonor Beleza, Ferreira Leite e, trinta anos depois, Aníbal Cavaco Sil- va a surgirem numa reunião magna do partido. Em Almada, do alto da sua improbabilidade, Montenegro presidiu ao maior recentramento ideológico do PSD, não só desde a troika, como desde a era de Mota Pin- to. Um elogio surpreendente aos aumentos do salário mínimo decretados pelo PS, uma proposta dedicada aos pensionistas (através do Complemento Solidá- rio para Idosos), uma ideia de Estado social funcional Luís Montenegro tem o modo de ação de um jogador que aposta tudo mas que ao mesmo tempo demora a revelar o jogo que tem na manga T IA G O M IR A N D A J O S É F E R N A N D E S E 24 Montenegro. O objetivo foi sempre não assustar para depois cativar — fosse quem fosse. O HOMEM QUE SE CANSOU DE PERDER De onde veio tamanha capacidade de pragmatismo? É a pergunta que qualquer leitor faria, dada a descrição dos factos. No livro “Na Cabeça de Luís Montenegro”, do jornalista Miguel Santos Carrapatoso, há pistas que nos ajudam a percebê-lo melhor. Na biografia políti- ca, que é uma leitura obrigatória deste 2024, fica claro que o percurso do homem em vias de ser indigitado foi largamente marcado por “derrotas traumáticas” e até “humilhações”. Da Câmara de Espinho à distrital de Aveiro, de último na lista de deputados a duas vezes destrunfado por Rui Rio (uma em Conselho Nacional, outra a duas voltas em diretas), Montenegro anda há mais de 30 anos de derrota em derrota, à espera da vi- tória final. E este domingo, apesar de não a ter materi- alizado por completo, foi mais um passo no caminho de alguém que aprendeu a ganhar, perdendo. Além da sua relação com o risco (com as paradas altas) e com o tempo (com uma campanha monta- da para crescer devagar, mas até ao último minuto), há um traço que caracteriza Luís Montenegro e que o distingue da maioria dos políticos da sua geração. É um indivíduo profundamente obstinado, apesar de flexível. Quando a equipa de consultores de campa- nha chegou do Brasil à São Caetano à Lapa, seguiu o seu guião à risca. A taxa de rejeição era para manter o mais reduzida possível. Nos debates, em que qua- se passou despercebido, não se desviou um milíme- tro dessa estratégia. Enquanto Pedro Nuno brilhava para a sua plateia, Montenegro nem contra um cer- co policial se pronunciou. Era o posicionamento não posicional a não arredar pé. E até ao último minuto da campanha eleitoral, nunca saiu dele. Outro exemplo flagrante — e muito relevante — do pragmatismo tático de Luís Montenegro está na sua ida preventiva aos Açores, sem fazer a menor ideia do resultado que sairia das regionais de 4 de fevereiro deste ano, pouco mais de um mês antes do ato elei- toral nacional que decidiria o seu destino. Ao marcar presença na vitória de José Manuel Bolieiro, reunindo com as lideranças regionais do PSD, do CDS e do PPM, Montenegro condicionou todo o processo, evitando que a solução açoriana voltasse a passar pelo Chega como em 2021, e o PSD a ser vítima dela, como foi Rio em 2022. A partir daí, o tabuleiro virou e a ques- tão do Chega passou a ser colocada igualmente ao PS e ao PSD, de tal modo que Pedro Nuno mudaria de posição e estabeleceria o compromisso de viabilizar um Governo da AD num cenário de maioria à direi- ta — justamente o que acabará por acontecer, graças, mais uma vez, ao gosto pelo risco de Luís Montenegro. No congresso do Porto, em 2022, o pragmatis- mo também transpareceu e por instinto. Com o PS a contar com o referendo à regionalização no progra- ma da maioria absoluta, Montenegro subiu ao palco pela primeira vez como líder do PSD e anunciou que o maior partido da oposição não via condições para aceitar a realização desse referendo. Não ouviu uma pessoa antes. Saiu-lhe. Era a maneira mais prática que tinha de enterrar um assunto que dividiria o seu partido e que, possivelmente, mobilizaria um PS ra- ramente associado a mudançasde fundo. Olhando para trás, funcionou na perfeição — e nunca mais se ouviu falar na ideia. Num diagnóstico da derrota do PSD nesse ano, ainda com Rui Rio ao leme dos sociais-democratas, encontra-se uma soma de variáveis de- finidoras do resultado e, se observar- mos ao pormenor, fez-se de tudo para que não se repetissem em 2024. O mo- nopólio que o PS detinha da relação com o Estado social após a pandemia? Quebrado. A unidade institucional entre Presidência, Parlamento e Governo que resultou da crise sanitária? Inexisten- te após a dissolução da Assembleia. A am- biguidade de Rui Rio em relação ao Chega? Desfeita, a tempo e horas. A responsabiliza- ção pela legislatura interrompida com que António Costa esvaziou o Bloco de Esquerda e o PCP em 2022? Resultou contra parceiros parlamentares; Pedro Nuno Santos não arris- cou fazê-la contra o Ministério Público. Como que um diligente marido numa ida ao su- permercado, de lista de compras em riste, Luís Mon- tenegro riscou uma a uma as lacunas do seu partido, que esteve quase uma década sem vencer uma elei- ção nacional. Falta de país? Esteve nos 308 concelhos. Falta de oposição? Passou a fazê-la, reinstituindo os debates quinzenais abolidos com a ajuda do seu an- tecessor. Falta de consensos? Ajudou a fazê-los, acor- dando com António Costa a criação de uma Comis- são Técnica Independente para o estudo de um novo aeroporto. Falta de propostas? Pelas minhas con- tas, apresentou um pacote temático numa média de quatro em quatro meses desde que se tornou líder da oposição. Falta de independentes? É ver as listas que levou ao Parlamento, recheadas deles. Luís Montenegro, pura e simplesmente, fartou-se de ver o seu partido perder eleições. Só não conseguiu ganhá-las, até agora, por mais de 1%. UM SUCESSO POR METADE MAS COM ESPERANÇA Se pensarmos que a Operação Influencer e o partido Chega foram os ausentes mais presentes nos deba- tes destas legislativas, quase parece que a campanha decorreu num mundo (praticamente sem Ventura e sem preocupações judiciais) e a eleição ocorreu nou- tro mundo (recheado de Ventura e de preocupações judiciais). O PSD não pretendia ignorar esse públi- co-alvo, com um plano anticorrupção a não ter mais destaque na sua campanha devido aos infórtu- nios do PSD-Madeira no início do ano. A eleição de 10 de março teria, nesse sentido, mais do que um condicionamento oriundo das ilhas: os ideológicos, vindos dos Açores, e os ju- diciais, do Funchal. Montenegro cumpriu o seu primeiro objetivo (ganhar) e o seu segundo objetivo (não enfrentar uma maioria à esquer- da na Assembleia), mas falhou o terceiro: depender exclusiva- mente dos votos da Iniciativa Liberal. Pelo contrário, os seus dotes de pragmático serão novamente postos à prova, numa tenaz de socialistas ávidos de regres- sar ao poder o mais depressa que consigam e popu- listas sedentos de crescer o mais que puderem até às autárquicas de 2025. Caso não escape à encruzilhada, resta-lhe tentar que esta se prolongue até ao verão do próximo ano, quando Marcelo já não pode dissolver por estar em final de mandato, ou render-se às con- versações com o Chega, provavelmente com outra liderança que não a sua no PSD. Os resultados de domingo à noite, para o bem e para o mal, são fruto direto da sua estratégia. Ao cen- tro, disputou a herança de António Costa com Pedro Nuno Santos, que precisou de ser socorrido nos úl- timos dias de campanha pela presença mais sena- torial do primeiro-ministro. À direita, com pouco programa a tocar nesse eleitorado, deixou o flanco aberto para a corrida do Chega. Entre a velha guar- da do PSD, a dificuldade do dilema é reconhecida e poucos avançam com melhores soluções. Para uns, ter ficado à frente de todos com a força concorren- te do seu espaço político a triplicar o resultado faz tangente ao milagre. Mas, tal como a Madeira em setembro e os Açores em fevereiro, trata-se de uma vitória com um amargo de boca acompanhado por um elevado potencial de instabilidade. No final da madrugada eleitoral da SIC, foi questi- onado quem está em piores condições no primeiro dia como primeiro-ministro: António Costa em 2015, de- pois de perder mas com maioria à esquerda, ou Luís Montenegro em 2024, depois de ganhar sem maio- ria de ninguém? A opinião foi unânime: o segundo. Montenegro tem a vantagem de começar um novo capítulo com uma plataforma relativa de po- der, na esperança de vir a fazer campanha como pri- meiro-ministro em funções. As eleições europeias, daqui a três meses, devem influenciar a margem de manobra com que cada liderança chegará às nego- ciações do Orçamento do Estado, este outubro, com Marcelo a ter a faculdade de convocar novas eleições se assim o entender. Montenegro terá de enfrentar um Pedro Nuno com o alívio de não governar e um André Ventura com ganas de vir a fazê-lo. O mistério de quem realmente é, politicamente, o líder do PSD será desvendado, ao seu jeito, grão a grão, até lá — na sua relação com o tempo, o risco e o pragmatismo. No debate com o líder do Chega, Ventura per- guntou-lhe se estava “a rir-se dos portugueses” e Montenegro, sem hesitar, respondeu-lhe: “Estou- -me a rir de si.” Nos próximos meses, descobriremos quem ri por último. Até lá, haverá poucas razões para isso. b e@expresso.impresa.pt Ventura perguntou-lhe se estava “a rir-se dos portugueses” e Montenegro, sem hesitar, respondeu-lhe: “Estou-me a rir de si” LIDERANÇA Capa da Revista do Expresso em novembro de 2022, meses depois de Montenegro conquistar em congresso a liderança do PSD E 26 B IB L IO T E C A V IR T U A L D E D E F E N S A /P A T R IM O N IO C U LT U R A L D E D E F E N S A TEXTO RICARDO SILVA INVESTIGADOR DO INSTITUTO DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA E 27 Os planos de Franco para invadir Portugal Durante séculos, o “perigo castelhano” foi uma constante, com as intermináveis guerras de fronteira a frustrarem os planos de Castela sobre Portugal; quimeras de uma União Ibérica idealizada em Espanha como solução de grandeza. Franco também a sonhou, chegando a planear a invasão de Portugal, mas a derrota do III Reich obrigou-o a despertar para a realidade AMEAÇA O avanço da Alemanha a leste foi acolhido com entusiasmo em Espanha e nasceu uma divisão de voluntários, a Divisão Azul, cujos soldados, nas estepes da Rússia, cantavam versos como: “Só esperamos a ordem/ que nos dê o nosso general/ para apagar a fronteira/ de Espanha com Portugal” E 28 durante a Idade Média, com lutas dinásticas e guer- ras fronteiriças a marcarem a tensão entre os dois reinos, mas apesar de todos os esforços, Castela re- velou-se incapaz de dominar Portugal. A solução acabaria por chegar através dum ca- samento que uniria as coroas de Castela e Aragão, em 1469, com o reinado dos reis católicos a marcar o início da era de ouro da história espanhola. Em 1492, não só a armada de Cristóvão Colombo alcan- çou as Américas como chegava ao fim a resistência do Reino Nacérida, concluindo-se de forma vitorio- sa a Reconquista com a queda do último reduto mu- çulmano em Granada. Em 1512, a monarquia católi- ca passou a ser a monarquia de Espanha e Portugal era agora o último entrave à concretização da União Ibérica. Onde falhou a guerra, venceu a diplomacia, com a morte de D. Sebastião a abrir uma crise de sucessão prontamente aproveitada por D. Filipe II para assumir o Reino de Portugal, em 1580, e criar a União Ibérica num modelo que concedia a Portugal uma larga autonomia. Seria sol de 60 anos de dura. Em 1640, uma revolta rebenta em Lisboa e dá lugar à Guerra da Restauração, seguindo-se 28 anos de uma luta intensa pontuada por cinco derrotas do exército espanhol que culminaram no tratado de paz de 1668. Portugal voltava a ser independente, mas Espa- nha continuou a sonhar com a União Ibérica, um so- nho que se tornou pesadelo no início do século XIX. Deslumbrado pelo poder militar do império francês, D. Carlos IVdecide aliar-se a Napoleão Bonaparte para invadir Portugal, acedendo a deixar entrar os exércitos franceses no seu território na crença que o ajudariam a alcançar Lisboa, mas acabando por ver os gauleses marcharem sobre Madrid para o depor e ao seu filho. Foi o princípio da derrocada espanhola que levaria ao fim do império e à perda do estatuto de grande potência, numa longa série de humilha- ções que culminou com a estrondosa derrota face aos Estados Unidos, em 1898. IRREDENTISMO IBÉRICO Ao iniciar-se o século XX, os sectores mais radicais da sociedade espanhola acreditavam que o retorno à grandeza de Espanha só seria possível mediante a União Ibérica, e é nesse ambiente de irredentismo com tons de xenofobia, que um jovem cadete galego ingressa na Academia de Toledo, onde muitos defen- diam que a absorção de Portugal e Marrocos seriam a solução para os problemas de Espanha. Em 1907, Francisco Franco iniciou a sua longa carreira militar no seio duma instituição marcada pelo revanchismo e chefiada por um rei que não escondia o seu dese- jo de reinar sobre o país vizinho, uma ambição que se tornou mais clara três anos mais tarde, quando a revolução de 5 de outubro instaurou a República em Portugal e a crónica instabilidade política e social abalavam a integridade do novo regime. Em Espanha a situação deu lugar a um discurso iberista público, tanto nas arengas de quartel como nas primeiras páginas dos jornais, e José María Sa- laverría, correspondente do “ABC” que andava em Portugal a acompanhar a revolução, não se coibiu SEGREDO Franco e Salazar em 1940. Salazar fechara os olhos às campanhas que angariavam portugueses para servir nas bandeiras da Legião, mas a gratidão pelo apoio não alterava os planos de Franco, que incluíam Portugal como parte de um futuro império destinado a recuperar a grandeza da Espanha O sonho de unir a Península Ibérica sob uma única coroa é tão antigo como a sua história. Tentado por romanos, visigodos e mouros, revelou-se tão sedu- tor como impraticável, mas conseguiu perdurar ao longo do tempo. Fiéis à sua fama, os povos ibéricos resistiram ferozmente a todas as formas de domí- nio exterior, numa tradição que popularizou heróis como Viriato, o chefe lusitano que se revelou o ter- ror das legiões romanas, e Pelágio, o nobre visigodo que travou a expansão do Al-Andalus. No século XII a ideia parecia cada vez mais longínqua, com a Re- conquista a desmantelar o Califado Almóada e a pe- nínsula transformada num retalho de reinos e prin- cipados. Foi nessa época conturbada que um jovem nobre venceu a sua mãe na Batalha de São Mamede e assumiu o poder do Condado Portucalense, com o título de D. Afonso Henriques. No século seguinte, o condado foi reconhecido como Reino de Portugal e o seu território foi-se defi- nindo ao ritmo da Reconquista para sul, empurran- do as forças muçulmanas até ao Algarve ao mesmo tempo que se desenhava a fronteira com o Reino de Castela. A península parecia destinada a voltar ao mosaico que a tinha caracterizado na era pré-roma- na, com vários reinos cristãos a repartirem os terri- tórios recém-conquistados, mas Castela acabou por se tornar hegemónica após absorver os reinos de Galiza e Leão; ganhando um poder acrescido que despertou o ideal da União Ibérica e a ambição de se tornar a única coroa em toda a península. Nascia assim o “perigo castelhano” que foi uma constante E 29 de desabafar numa das suas crónicas como “parece inverosímil que Espanha, passando por épocas de tanto poder, se distraíra em empresas estéreis e ab- surdas, enquanto abandonava a espanholização do Norte de África e do reino português. A história de Espanha, e mesmo a história total do mundo, ter-se- -iam transformado, se Portugal e o Norte de África chegassem a espanholizar.” Era uma opinião parti- lhada por outros colegas, como Luis del Olmet, para quem “a oportunidade aparece propícia, fácil. Por- tugal, dominado por uma revolução acéfala, imoral, atrabiliária, que descompôs e aniquilou o país, es- tende-nos os braços.” Mas estas crónicas tendiam a omitir um fator de importância histórica, a profunda e arreigada hispanofobia que grassava em Portugal. Marcos Blanco-Belmonte veio a Portugal auscultar a opinião dos portugueses e teve uma profunda de- silusão: “Se no povo português existe hoje um sen- timento forte e bem definido, é o da repulsa em es- panholizar-se. A tutela britânica, a anarquia com os seus excessos, os espancamentos de maçons e car- bonários, a ditadura de qualquer género… tudo acei- taria Portugal antes de aceitar a espanholização!” A campanha mediática na imprensa continuou durante anos, mas realizar a União Ibérica estava fora do alcance das depauperadas forças espanho- las, como ficou patente em 1921, quando todo um exército espanhol foi aniquilado em Annual em mais uma humilhação que abalou o país. A guerra no Rif mostrava a debilidade do exército, mas também foi a oportunidade para Franco se destacar ao ponto de se tornar o general mais jovem da Europa e comandar a temível Legião Espanhola. Em 1936, quando par- te do exército tenta um golpe militar que falha e dá lugar a uma mortífera guerra civil, Franco torna-se líder dos rebeldes e encontra em Portugal um alia- do da primeira hora. O Governo de Salazar autoriza o envio de munições quando estas estavam quase a esgotar-se, permite que os portos nacionais recebam armamento alemão que é transportado até à fron- teira e fecha os olhos às campanhas que angariam portugueses para servir nas bandeiras da Legião. Franco e os nacionalistas tinham uma dívida com o Portugal do Estado Novo, mas a gratidão pelo apoio não alterava os planos que incluíam Portugal como parte de um futuro império destinado a recuperar a grandeza da Espanha. A Falange, principal força política do bando na- cional, era abertamente fascista e defendia a União Ibérica nas suas publicações, e mesmo entre os mi- litares espanhóis era tema recorrente quando se cruzavam com os portugueses da Missão Militar Portuguesa de Observação em Espanha, que deixou registo de vários incidentes nos relatórios enviados para Lisboa. O capitão Luís Sousa conversou com di- versos oficiais em 1937, e no seu relatório deixou um alerta para “as palavras dos mais entusiastas, muitos deles com representação nos meios nacionalistas, acerca dos seus ideais imperialistas e da necessidade de abolir fronteiras entre Portugal e Espanha”, uma ideia que o capitão rebatia recordando a história “em que nós portugueses para honra e glória nossa firma- mos a nossa indiscutível independência”. Apesar de todas as desconfianças, as duas dita- duras acordaram em assinar o Tratado de Amizade e Não-Agressão Luso-Espanhol, a 17 de março de 1939, num passo destinado a serenar as relações entre am- bos. Duas semanas mais tarde a guerra civil chegou ao fim com a vitória dos rebeldes e Espanha passou a viver a paz dos vencedores (e a repressão dos ven- cidos). Era um momento difícil, com o país arrasado pelo conflito e o exército a sofrer uma rápida desmo- bilização, mas o imperialismo continuava a marcar o tom dos discursos e o comportamento do caudilho le- vantava suspeitas sobre o futuro. A 25 de agosto, Teo- tónio Pereira – embaixador de Portugal em Madrid, enviou uma mensagem a Salazar para dar-lhe con- ta dos seus receios sobre Franco: “Confesso a V. Ex.ª que cada vez tenho mais apreensões sobre as ideias do “Generalíssimo”. Acho-o enamorado do poder e do poder pessoal. De todos os que governam a Espa- nha é ele que me diz coisas mais estranhas e que fala a linguagem mais próxima do eixo.” AS GRANDES TENTAÇÕES Essa estranheza só se acentuaria a partir de 1 de se- tembro de 1939, quando os exércitos do III Reich in- vadiram a Polónia acreditando que a impunidade do passado continuaria, mas acabando por iniciar a Segunda Guerra Mundial quando a França e o Rei- no Unido declararam guerra aos nazis. Enquanto se preparava para o pior, o mundo assistia aopoder destruidor da Blitzkrieg e a situação interna espa- nhola foi seguida de forma atenta pelo embaixador português, que temia a influência da Falange no go- verno, mas não deixava de comentar com Salazar que “o Generalíssimo tem muito mais de Sancho Pança do que de D. Quixote.” Os primeiros meses da guerra foram indecisos e pareciam confirmar a sua tese, mas tudo mudou em maio de 1940, quan- do a grande ofensiva do III Reich sobre a França Hitler irritou-se com as exigências do ditador espanhol e comentou que preferia “que lhe arrancassem quatro dentes a voltar a encontrar-se com Franco” A F P V IA G E T T Y IM A G E S E 30 Quase 4 mil espanhóis (e alguns portugueses) foram mortos, feridos ou capturados, forçando os alemães a intervir para conter a avalancha soviética surpreendeu o mundo pela rapidez e aparente faci- lidade com que a Wehrmacht derrotou o poderoso exército gaulês, trazendo o exército hitleriano até à fronteira espanhola. A retumbante vitória dos nazis despertou uma reação eufórica entre os fascistas es- panhóis que acreditavam ter chegado a altura de se juntarem a alemães e italianos para repartir a Europa e as suas colónias em África. Era uma euforia pre- matura, e deu lugar ao desencanto, quando a todo- -poderosa Luftwaffe foi batida pela Royal Air Force nos céus de Inglaterra. Humilhado pela derrota es- tratégica que quebrara o mito de invencibilidade das armas alemãs, Hitler não iria ficar parado e os meses seguintes foram de azáfama na Europa ocupada. Não só o exército do III Reich se mantinha intacto, como tinha sido alvo de uma importante expansão com todo o material capturado nos campos de batalha franceses. Centenas de milhares de soldados foram sendo transferidos para a Europa Central, onde no- vas batalhas estavam prestes a ser travadas. A notícia da derrota alemã na Batalha de Ingla- terra acabou por ter um profundo impacto em Espa- nha, com a exaltação belicista a arrefecer apesar do calor tórrido daquele verão, mas os mais irredentis- tas continuavam a sonhar, a aguardar pela oportu- nidade de recriar o império espanhol sob a sombra do espectro nazi. Foi então acordado um encontro entre Franco e Hitler para determinar as condições da entrada da Espanha na guerra. A 23 de outubro de 1940, os dois ditadores encontraram-se em Hen- daia, na França ocupada, vindo acompanhados pe- los ministros Serrano Suñer e Von Ribbentrop, duas personagens habituadas aos jogos de bastidores que não tiveram problemas em dialogar entre si, com o espanhol a comentar que “ninguém poder deixar de dar conta, ao olhar para o mapa da Europa, que, geograficamente falando, Portugal na realidade não tinha o direito de existir. Tinha apenas uma justi- ficação moral e política para a sua independência pelo facto dos seus quase 800 anos de existência.” Já o diálogo entre Franco e Hitler ficou marcado pelo azedume, com Hitler profundamente irritado pela longa lista de exigências que lhe é apresentada pelo congénere galego, comentando no retorno à Alema- nha que preferia “que lhe arrancassem quatro den- tes a voltar a encontrar-se com Franco.” Apesar da resistência em entrar na guerra numa fase em que o seu desfecho ainda não era certo, Franco não deixou de preparar a entrada no conflito e um dos planos elaborados pelo seu Estado-Maior ia ao ponto de detalhar a invasão de Portugal. Entregue a 18 de dezembro de 1940, o plano pressupunha um ultimato ao governo português, seguido da invasão ao fim de apenas 24 a 48 horas, ao estilo hitleria- no, que deveria envolver cerca de 250 mil homens apoiados pela aviação e por vários grupos de blin- dados que avançariam sobre Lisboa, usando a força bruta para eliminar a resistência o mais rapidamen- te possível. Delineado poucos meses após o “Gene- ralíssimo” ter firmado um protocolo adicional para reforçar o tratado de não-agressão com Portugal, o plano revelou o lado traiçoeiro do regime franquista que há muito se receava em Lisboa. EUFORIA A LESTE Seguiram-se meses num compasso de espera que parecia eternizar-se, até que chegou o dia que mu- daria a história do conflito. A 22 de junho de 1941, mais de três milhões e meio de soldados do Eixo in- vadiram a União Soviética sob o mote da guerra ao comunismo. O seu impacto em Espanha foi imedia- to, com a Falange a apelar à intervenção e as ruas a encherem-se de milhares de manifestantes que de- claravam a sua vontade de marchar sobre Moscovo. Franco percebeu a oportunidade que tinha diante de si e acedeu ao envio de uma divisão de voluntários para combater na frente leste e marcar a presença espanhola no que se acreditava ser uma vitória certa. O embaixador português seguiu atentamente a formação da Divisão Azul e o seu envio para a linha da frente, escrevendo a Salazar sobre o papel da Falange e a personalidade do comandante eleito para a lide- rar em combate: “O general Muñoz Grandes é aquele mesmo general que há dois meses me fez as declara- ções que V. Ex.ª conhece. Muita coragem, mas muito pouco conhecedor de política. No fundo, um homem ingénuo.” Talvez Teotónio Pereira não estivesse enga- nado quando à ingenuidade ou à falta de habilidade política de Muñoz Grandes, mas não deixava de ser um dos mais dos mais fervorosos apoiantes da União Ibérica e possuía uma vasta influência não só entre o meio castrense, mas também entre a Falange. K E Y S T O N E /G E T T Y IM A G E S CONFLITO Um golpe militar falhado em 1936 dá lugar a uma mortífera guerra civil em Espanha, e Franco torna-se líder dos rebeldes, encontrando em Portugal um aliado de primeira hora E 32 A Divisão Azul acabou por se converter no ba- luarte ideológico dos que propunham a intervenção no conflito e muitos dos seus membros eram des- tacados militantes da Falange, um núcleo duro que tinha planos bem concretos e inspirava as letras das canções que os soldados entoavam nas longas mar- chas pelas estepes russas, uma das quais versava sobre o grandioso destino imperial que aguardava a Espanha fascista: “Nas estepes da Rússia/ Espanha luta com ardor,/ unida com a Alemanha/ por uma Espanha melhor./ E quando a Espanha voltarmos/ de novo queremos lutar/ e expulsaremos o inglês/ do Penedo de Gibraltar./ O nosso grito de vitória/ no mundo inteiro o ouvirão/ quando recuperarmos/ todo o Marrocos e Orão/ Só esperamos a ordem/ que nos dê o nosso general/ para apagar a fronteira/ de Espanha com Portugal/ E quando isso conseguir- mos,/ alegres podemos ficar,/ por termos consegui- do/ fazer uma Espanha imperial”. As canções começaram a esmorecer durante o duro inverno de 1941/42, quando os exércitos nazis foram travados às portas de Moscovo e os sonhos imperiais dos falangistas começaram a esfumar- -se, uma situação seguida à distância por Teotónio Pereira, que estava plenamente consciente do valor da Divisão Azul para os planos belicistas da Falan- ge. O embaixador não foi brando com o seu coman- dante: “Bravo e simples, como um bom subalterno, mas inteiramente desprovido de miolos e de ideias” — porém, o general não era tão desprovido de ideias como a descrição indica. A 8 de abril de 1942, Muñoz Grandes escreve a partir da Rússia uma carta ao ge- neral Varela, ministro do exército, onde discorre a sua visão sobre o futuro do seu país: “Gibraltar, Por- tugal e Marrocos são necessários, vitais para Espa- nha, mas não se conseguirão sem guerra.” O objetivo estava plenamente traçado e Muñoz Grandes acen- tua que “a instrução militar deve ser muito intensa, a fabricação de guerra ao máximo e a preparação da nossa juventude para tal empresa não admite demo- ra”. Longe dos corredores de poder em Madrid, e sob forte influência nazi, Muñoz Grandes começava a mostrar sinais duma ambição que despertou a aten- ção de Franco, sempre alerta para qualquer adver- sário interno. O general era uma figura famosa em Espanha, apoiado pela ala mais radical da Falange, sendo forte a suspeita de que Hitler e oGoverno nazi viam em Muñoz Grandes uma alternativa a Franco, o que levou o caudilho a enviar o general Esteban In- fantes com ordens para o substituir. Esteban Infantes assumiu o comando da unidade em dezembro de 1942, numa altura em que derrota nazi começava a desenhar-se no horizonte. Os Alia- dos bombardeavam a Alemanha tanto de dia como de noite e o 6º Exército estava cercado em Estaline- grado, definhando gradualmente até sucumbir a 2 de fevereiro de 1943. Uma semana mais tarde foi a vez da Divisão Azul sofrer uma hecatombe. No dia 10, o Exército Vermelho iniciou um prolongado bombar- deamento de artilharia contra a ala direita da divi- são, seguiram-se vagas de infantaria e tanques que submergiram as trincheiras dos defensores. A resis- tência dos cerca de 5 mil espanhóis que guarneciam aquele sector foi acirrada, mas o rolo compressor soviético conseguiu tomar as primeiras linhas de defesa e a cidade de Krasny Bor. Quase 4 mil espa- nhóis (e alguns portugueses) foram mortos, feridos ou capturados, forçando os alemães a intervir para conter a avalancha soviética. A notícia do desastre espalhou-se por uma Espanha que ficou em estado A realidade é que as ditaduras ibéricas se viram forçadas a adaptar-se aos novos tempos da Guerra Fria, sendo toleradas devido ao seu anticomunismo militante, apesar de serem anacronismos de uma era fascista de choque com a enorme quantidade de mortos so- fridos num só dia, e para o Governo de Franco ficou claro que era tempo de aceitar a realidade. O FIM DO SONHO O espírito cauteloso de Franco tinha-o feito adiar a entrada de Espanha na guerra até ao momento em que a vitória fosse certa, mas com a queda de Estali- negrado e a Batalha de Krasny Bor, ficou claro que a única certeza era a derrota do III Reich e os elevados custos que uma aliança com os nazis iria ter para o seu regime. Dali em diante, a sua política passou por gerir o difícil equilíbrio entre a necessidade de man- ter uma relação estável com o Eixo e continuar com a neutralidade que lhe permitia evitar a ira dos Aliados. A Divisão Azul continuou na linha da frente até finais de 1943, sendo substituída pela Legião Azul quando já se adivinhava o fim do Cerco de Lenine- grado. De menor tamanho e moral reduzida, a Le- gião teve vida curta e em abril foi dissolvida. No seu retorno não houve canções imperiais sobre apagar a fronteira de Espanha com Portugal e os líderes fa- langistas primaram pela ausência, ser pró-nazi tinha passado de moda. Franco não conseguiu cumprir o sonho de ane- xar Portugal, mas a sua vingança fez-se em Oliven- ça — cidade reivindicada por Portugal, mas sob ad- ministração espanhola desde 1801. Ali se falava de forma corrente o português oliventino, idioma que também era visível nos apelidos e nas placas das ruas, assim como nas raízes culturais que perdura- vam e faziam do oliventino uma identidade única na península. Nos anos 40, a par da repressão po- lítica que custou a vida a vários oliventinos que ti- nham resistido ao golpe militar, o regime franquista conduziu uma agressiva campanha de aculturação forçada: reprimindo o uso do português, apagando o idioma luso das placas das ruas e procurando eli- minar qualquer vestígio cultural que recordasse a história daquela região. Talvez não seja exagerado classificar como genocídio cultural a campanha de erradicação da cultura oliventina em prol duma cas- telhanização homogeneizadora, um modelo que po- deria ter servido de exemplo para Portugal, se Fran- co e os nacionalistas espanhóis tivessem cumprido o sonho da União Ibérica. A realidade é que as ditaduras ibéricas se viram forçadas a adaptar-se aos novos tempos da Guerra Fria, sendo toleradas devido ao seu anticomunismo militante, apesar de serem anacronismos de uma era fascista. Espanha foi perdendo os sonhos imperiais e optou por apostar na economia, enquanto Portugal arrastou-se numa guerra colonial que corroeu o re- gime até o derrubar, a 25 de abril de 1974. Nesse mo- mento em que os ventos da liberdade voltavam à pe- nínsula, alguns reacionários espanhóis ainda sonha- ram com uma intervenção militar sobre o vizinho que serviria de prenúncio para a sua anexação, mas nessa altura já Franco era uma sombra de si mesmo, falecendo no ano seguinte e abrindo caminho para o retorno da democracia a Espanha. Morreu o ditador, mas o ideal iberista está longe de desaparecer. Basta ver os mapas com que o Vox — partido espanhol de extrema-direita — representa a península, ou o dis- curso de alguns dos seus militantes, são sinais cla- ros de que o ideal de uma União Ibérica se mantém vivo na atualidade, fantasias de quem não consegue aceitar a realidade. b e@expresso.impresa.pt ADERE AO M4 E RECEBE ABSOLUTA MRIA LOJAS MEO | MEO.PT | 800 200 400 Campanha válida de 11/03/24 a 16/04/24 para novos clientes TV M4 mediante adesão à Fatura Eletrónica, Débito Direto, fidelização de 24 meses e pagamento de €5 no fim deste período. Limitado ao stock Existente. Ofertas de duplicação dos plafonds base de net móvel e de upgrade de velocidade de net fixa de 200 para 500Mbps e 500 para 1000Mbps. 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A fotografia ocupa mais de metade do espaço e tem o mesmo realce da do caracol. É um homem. Está sentado numa cadeira, talvez uma pol- trona, sobre o lado esquerdo do corpo. A perna di- reita cruza a esquerda, porque o seu tronco, se nos olha, está desalinhado com a cara. Ele oferece-nos o perfil e perscruta, imaginamos, um horizonte inexis- tente na sala. Não tem a barba estranha da juventu- de, com o cabelo alvoraçado. Nem o bigode solitário, mais adulto, que estabelecia a sapiên cia desenvolvi- da mais tarde. Tem o cabelo bem pen teado, fino pela idade, percebendo-se branco mesmo na fotografia sem cor. Tem os olhos fundos, claros como sempre, e as mãos dadas uma à outra, debruçando-se da ca- deira e fazendo sobressair a camisa desalinhada e uma camisola interior a assomar ao pescoço. São, no entanto, duas as coisas que lhe dão o nome e imedia- tamente o identificam: os óculos pendurados pelo fio, caindo sobre a barriga; e o bolso da camisa, so- bre o lugar onde dizem que tinha o coração, cheio de canetas e papéis dobrados. Numa fotografia encena- da, disseram-lhe para ser o de sempre. O homem chama-se Stephen Jay Gould e o livro “The Structure of the Evolutionary Theory”. Consi- derado o seu opus magnum, apresenta-se pelo pró- prio título — embora seja a ‘sua’ estrutura da teoria da evolução. Depois de centenas de artigos científicos com revisão de pares; depois de mais de 300 ensaios de divulgação científica na “Natural History” (entre 1974 e 2001, uma vez por mês, sem nunca ter falha- do); depois de mais de duas dezenas de livros, dos quais dez reunindo estes mesmos textos, e a unânime consideração como um dos mais importantes divul- gadores de ciência da segunda metade do século XX; depois de ter cunhado dois conceitos de novo na teoria da evolução, em dois artigosagora considerados se- minais — o de “exaptação” (com Elisabeth Vrba, em 1982) e o dos “equilíbrios pontuados” (com Nicolas Eldredge, em 1972); depois de tudo isto, Gould coli- ge todo o seu pensamento sobre a teoria da evolução num só volume. Se bem que nunca tenha aceitado a separação entre os artigos com e sem revisão de pa- res, apresentando-os como duas faces de uma mesma moeda, sem distinção valorativa, o facto de ter edita- do este volume quando resolvera terminar a sua cola- boração com a “Natural History” é revelador de uma necessidade de estabelecimento de um pensamento científico estrito, como se tudo aquilo que fez ao longo de 30 anos nos ensaios dessa revista fosse pouco. Não foi. E, mais ainda do que muita ciência e divulgação, foi história da ciência. Mas porquê? DOS CARACÓIS À VISÃO DA VIDA Stephen Jay Gould nasceu em 1941, em Nova Iorque. É já parte da mitologia a ele associada — e muito para seu desdém — que o seu interesse pela Paleontologia adveio de uma visita que fez, com o seu pai, ao Mu- seu de História Natural de Nova Iorque quando tinha 5 anos. Fascinado pelo esqueleto do T. Rex, não ima- ginou a partir daí outra vida que não fosse o estudo dos fósseis. Deixou a infância para trás e foi para a Universidade de Antioch, no Ohio, graduar-se em Geologia em 1963. Quatro anos depois, era profes- sor associado em Harvard, universidade de onde não mais sairia, tornando-se um dos seus mais célebres docentes. Escreveu o seu primeiro artigo científico com revisão de pares em 1966, ainda como estu- dante de doutoramento, não certamente por acaso versando o assunto que seria o do seu primeiro livro técnico ou, como melhor diria ele mesmo, “para um público mais especializado”. Entre uma coisa e ou- tra rendeu-se aos encantos dos caracóis dos géneros Poecilozonites e Cerion, pretexto da tese com que se doutorou na Universidade de Colúmbia, sob a orien- tação do eminente evolucionista Norman Newell. Pela sua carreira como cientista foi agraciado com várias distinções, sendo talvez a mais impor- tante a Medalha Darwin-Wallace (em 2008, pelo que já atribuída a título póstumo). Foi a partir de 1973 curador do Museu de Zoologia Comparativa de Harvard e, nove anos depois, foi distinguido com o título de professor Alexander Agassiz de Zoologia da mesma instituição. Foi também professor visi- tante Vincent Astor de Biologia na Universidade de Nova Iorque (desde 1996 até 2002, data da sua mor- te). Quando morreu, devido a um cancro no pul- mão diagnosticado apenas três meses antes, era considerado um dos mais conhecidos cientistas do mundo, fama também granjeada pela sua tão vocal e ativa postura pública, que lhe trouxe a polémica e o reconhecimento — não foram muitos os cientistas que tiveram voz e personagem em “Os Simpsons”. A polémica e o reconhecimento citados decor- riam do tema a que decidira dedicar a sua vida cien- tífica — a evolução biológica. Se era um paleon tólogo, se era um biólogo, se era um divulgador científico (e se era um historiador da ciência, já lá chegaremos), foi porque decidiu usar todas estas disciplinas para ilus- trar a sua “Visão da Vida” (nem por acaso, o título, a partir de Darwin, que escolheu para a sua colabora- ção na “Natural History”). A temática da evolução é dada a exacerbar ânimos, por quanto acaba por co- locar em causa os alicerces do entendimento do Ho- mem e da sua própria origem — tudo o que for aceite para a evolução de um caracol pode, por maioria de razão, ser extrapolado para o animal humano. As razões para a polémica não eram só, no en- tanto, as que o opunham a criacionistas ou outros descrentes na ciência. Eram também dentro da própria “estrutura” do estudo da evolução biológi- ca. Gould era um antideterminista, um feroz opo- sicionista do ultra-adaptacionismo e o proponente mais importante da nova teoria dos equilí brios pon- tuados, muito em oposição ao pensamento reinante na área por essa altura. As suas metáforas, de fácil entendimento (desde os tímpanos de arco da Cate- dral de São Marcos, de um importante artigo com Richard Lewontin em 1979, ao polegar do panda ou ao sorriso do flamingo), opunham-se com muito su- cesso às teorias menos metafóricas de outros cien- tistas (por exemplo, a da Sociobiologia de Edward O. Wilson) e, pelo menos com o mesmo sucesso, às que jogavam no mesmo jogo metafórico (por exem- plo, a de gene egoísta de Richard Dawkins). Com tanta acutilância e assertividade nos seus textos, a que se somava outro fator de que daremos conta de S E 37 livro de Futuyma permite perceber que Gould tem sete artigos como autor único, seis em colaboração e dois livros referidos (note-se que nenhum des- tes é dos ensaios ou compilações da “Natural His- tory”). Esta contagem deverá ser comparada com a de outros eminentes evolucionistas: Theodosius Do- bzhansky, o nome fundamental da Síntese Moder- na da Evolução, tem referidos o mesmo número de artigos como autor único, quatro em colaboração e dois livros; Maynard Smith, dez artigos como autor autónomo, cinco com colaboradores e quatro livros; Ernst Mayr, nove como autor único, três em colabo- ração e cinco livros. É evidente que Gould ombreia com estes três grandes evolucionistas. Gould era, portanto, um cientista. E um divul- gador de ciência. E ainda — confirma-nos Mi chael Shermer no artigo que escreveu analisando os temas de todos os seus artigos mais técnicos bem como os da “Natural History” e de todas as suas críticas a li- vros de outros cientistas — um profícuo historiador da ciência. Segundo Shermer, Gould, das 101 críticas escritas e publicadas, fez 30 a livros que versavam história da ciência, sendo 23 a livros de teoria evo- lutiva e as restantes sobre outros assuntos. No caso dos artigos com revisão de pares, se bem que quase um quarto, como seria expectável, versem a teoria evolutiva, é inesperado que 15% (em segundo lugar na divisão analítica) sejam sobre história da ciên- cia. E nos 300 artigos da “Natural History”, quase metade (148) têm como tema principal a história da ciência, sendo apenas 78 sobre a teoria evolutiva e os restantes sobre outros temas. Stephen Jay Gould foi, afinal, um eminente historiador da ciência. E, em- bora o também historiador da ciência Ronald Num- bers não se tenha coi bido de dizer que “há muito que acho que Gould é o segundo mais influente historia- dor da ciência do século XX (com Thomas Kuhn)”, o que nos parece evidente é que, se quisermos definir Gould com poucas palavras, “historiador da ciência” deverá aparecer depois de evolucionista, paleontó- logo, divulgador científico e, até, polemista. Porque será? Para tentar responder a isto, vejamos primeiro um dos termos que cunhou: o de exaptação. TÍMPANOS, ASAS E ÓCULOS Stephen Jay Gould ainda demorou uns anos para chegar a este termo. Antes, um artigo na revista da Royal Society of London apresentou à comunidade científica os tímpanos de arco da Catedral de São Marcos, que já citámos atrás. Mas, nessa altura, os críticos — principalmente os críticos — focaram-se mais em Pangloss do que no que representava a me- táfora arquitetónica — afinal, o artigo que assinara com Richard Lewontin era uma crítica feroz ao cha- mado programa adaptacionista, usando para isso o personagem do “Cândido”, de Voltaire, que nos di- zia que “as coisas não podem ser de outra maneira... Tudo é feito para o seu melhor propósito. Os nossos narizes foram feitos para colocar os óculos, logo te- mos óculos”. Por trás, no entanto, já se aproximava a exaptação, termo apresentado no artigo de 1982, na Paleobiologia e também em colaboração (no caso, com Elisabeth Vrba). Os tímpanos de arco da Ca- tedral de São Marcos são, portanto, um produto se- cundário de um desenho arquitetónico, uma exap- tação ainda não nomeada. Definamos então o termo cunhado por Gould: quando uma característica, tendo a sua função ini- cial sido originária por seleção natural (uma adap- tação, portanto) ou por outra razão qualquer nãoTRABALHO Gould era um excelente escritor e conseguiu um grande sucesso editorial com os seus livros. Simplificava, sem os tornar simplistas, os temas científicos U L F A N D E R S E N /G E T T Y IM A G E S seguida, talvez fosse expectável que tivesse tantos admiradores como detratores. Qual fator? A divulgação científica. Gould era um excelente escritor e conseguiu um grande sucesso editorial com os seus livros. A forma como simplifi- cava, sem os tornar simplistas, os temas cien tíficos, inseridos numa narrativa clara e apreensível, deveria tê-lo tornado um exemplo para os restantes cientistas. Mas a verdade é que o preconceito, cunhado no que se convencionou chamar “efeito Sagan”, levou mui- tas vezes a melhor, não entendendo muito do meio científico nem a necessidade nem a forma como os divulgadores cien tíficos apresentavam temas, que considera riam tão complexos, ao grande público. Gould, que era um cientista, foi sempre desconside- rado como “divulgador científico”, da mesma forma que o foi Carl Sagan. Veja-se o parágrafo que escreveu sobre o próprio Sagan, depois da sua morte: “Como Saul desprezava David por receber milhares de laudas contra as suas algumas centenas, também cientistas muitas vezes estigmatizam, pela mesma razão de um comum ciúme, o bom trabalho feito pelos colegas, até para seu próprio benefício. [...] Porque diminuímos nós a reputação profissional dos colegas que conse- guem comunicar o poder e a beleza da ciência para os corações e mentes de uma fascinada e maioritaria- mente informada audiência?” E, se dizemos que era um cientista — antes ainda de completar que, talvez mais ainda, era um histo- riador da ciência —, é porque basta uma análise a um único livro para que isso seja claro. No caso, “Evolu- tionary Biology”, de Douglas J. Futuyma, que é um dos mais importantes (senão mesmo o mais impor- tante) compêndio para o estudo avançado da evo- lução. Uma leitura das referências bibliográficas do E 38 A abrangência de Gould faz com que o vejamos como evolucionista, paleontólogo, divulgador de ciência e polemista, antes de o vermos como historiador da ciência atribuível à seleção natural (uma não adaptação), é coatada para uma nova função, estamos na presen- ça de uma exaptação. Não nos alongaremos em exemplos, que vão des- de a genitália masculina nas hienas fêmeas à cor- cunda do alce gigante irlandês. Deter-nos-emos nas asas de uma ave, no caso com uma função adaptati- va anterior: a garça-preta, Egretta arde siaca. Esta é uma ave pernalta que se alimenta nos pântanos do sul de África, da Grécia e de Madagáscar. A carac- terística que a evidencia é a que decorre da forma como se alimenta. Tendo como dieta crustáceos e pequenos peixes, a garça-preta usa as asas de plu- magem negra para, abertas por cima da cabeça en- quanto olha para a água em baixo, fazer sombra e, assim, eliminar o reflexo que o céu faria na superfí- cie e que a impediria de ver o que se movimenta na água. Um exemplo claro de uma característica se- lecionada naturalmente (no caso, as asas das aves, com a função do voo), que é depois exaptada para outra função. Gould e a história da ciência, portan- to. Portanto? Sim. Vejamos como. A EXAPTAÇÃO DE STEPHEN JAY GOULD Já aqui citámos Ronald Numbers, cujo depoimento recolhido por Shermer nos elucida da importância que alguns deram ao trabalho de Gould como his- toriador da ciência. No mesmo artigo, Michael Sher- mer reitera esta afirmação através da contabilização das indexações de Gould no volume anual “Current Bibliographies” na mais proeminente revista de his- tória da ciência, “Isis”: são 169 em 23 anos, sendo que os únicos nomes que têm mais são Aristóteles, Kant, Goethe e Newton. “Nenhum outro historiador da ciência chega perto de Gould na criação de tanta história da ciência, o que suporta a visão de Num- bers de que Gould e Kuhn podem ser vistos como dois dos maiores historiadores da ciência do sécu- lo XX”, conclui Shermer. Então, o que faz com que não pensemos em Gould como pensamos em Kuhn quando o tema da história da ciência surge? Uma das razões já foi aflorada anteriormente e tem a ver com o carácter quase polímato de Gou- ld (que o próprio descartava: “Sou um minimalis- ta, não um polímato; o que sei de planetas e política está sempre na sua intersecção com a evolução bio- lógica”). Esta abrangência de Gould faz com que o ve- jamos como evolucionista, paleontólogo, divulgador de ciência e polemista antes de o vermos como his- toriador da ciência. Mas é exatamente nesta citação, onde se diminuiu no que aos seus interesses e co- nhecimentos diz respeito, que acaba por estar a cha- ve para a pergunta que fecha o parágrafo anterior: a leitura dos textos onde a história da ciência é o tema principal permite-nos concluir que, muitas das ve- zes, esta é por Gould usada exaptativamente. Ele é um historiador da ciência cujo interesse primordial de es- tudo não parece ser nem a história nem a ciência do tempo citado. Shermer di-lo de uma forma lapidar: “Gould utiliza a história da ciência para reforçar cer- tas interpretações teóricas dos dados da vida — tanto biológicas como culturais — que melhor se adaptam à sua visão do mundo. Como os seus críticos costumam salientar, nem todos os paleontólogos aceitam esta visão contingente e não progressista, por isso Gould está a construir o seu caso através de todos os canais disponíveis.” Permitimo-nos então acrescentar: em Gould, a história da ciência é uma exaptação da defesa da sua teoria evolutiva. Gould precisa de argumentos para validar a estrutura da sua teoria e, por isso, tor- na-se um profícuo historiador da ciência. Gould dá à disciplina de história da ciência outro uso, diferente do que lhe parecia estar destinado. Reveste-a de ou- tra função. A história da ciência são as asas de Gould. Dantes, a garça-preta apenas as usava para voar. De- pois, numa exaptação, usou-as com a função de som- bra no baixio para conseguir ver os peixes e, assim, os caçar. Gould usa a história da ciência para fazer o mesmo — mas dando mais luz sobre a sua teoria. Um exemplo deste carácter exaptativo: o artigo da “Natural History”, publicado sob o título “A Sele- ção Natural e o Cérebro Humano, Darwin vs. Walla- ce” no livro “O Polegar do Panda”, onde a partir de uma análise dos dois grandes personagens do ad- vento do estudo da evolução, Charles Darwin e Rus- sell Wallace, Gould nos encaminha para uma crítica ao programa adaptacionista que pouco antes tinha, num artigo dito técnico e com revisão de pares, ex- planado com Lewontin. O seu carácter polímato e exaptativo vê-se também noutras apropriações his- tóricas. Para realçar o tema da contingência, um dos seus mais caros na evolução, Gould fala-nos do ar- ranjo do teclado das máquinas de escrever no artigo “O Polegar do Panda da Tecnologia” (depois no livro “A Feira dos Dinossauros”) e de ilustrações cientí- ficas em “Quando os Fósseis Eram Jovens” (este no último livro de ensaios, “I Have Landed”). Talvez, no entanto, onde mais se veja esta exaptação da história da ciência seja em algo lateral à própria teoria evolu- tiva (embora apenas ilusoriamente, como veremos): o livro “A Falsa Medida do Homem”. Publicado em 1981, com uma reedição aumentada em 1996, foi o livro com mais repercussão de Gould, aclamado como uma obra-prima. Diz Gould: “Este livro dis- cute, numa perspetiva histórica, uma das principais teses do determinismo biológico: que o valor dos in- divíduos e dos grupos sociais pode ser determinado medindo a inteligência sob a forma de um valor numé- rico único [itálico do autor].” Se algo mais evidente fosse necessário, notemos a forma como ele estabe- lece nesta frase a importância da questão histórica para a discussão de um tema que lhe é tão caro nou- tros contextos: o determinismo biológico. Esta hipótese exaptativa está também bem paten- te na citação favorita de Gould, não surpreendente- mente da autoria de Charles Darwin, inscritanuma carta a Henry Fawcett: “Acho estranho como uma pessoa não perceba que todas as observações devem ser contra ou a favor de alguma posição, acaso se queira que sirvam para alguma coisa.” A exaptação de Gould está ao serviço da sua “Visão da Vida”. b e@expresso.impresa.pt U L F A N D E R S E N /G E T T Y IM A G E S INFÂNCIA O interesse pela Paleontologia adveio de uma visita que fez, com o seu pai, ao Museu de História Natural de Nova Iorque quando tinha 5 anos ENCONTRE RAPIDAMENTE TUDO O QUE LHE ENCHE AS MEDIDAS NA NOVA APP BPI EXPRESSO Descarregue a nova APP, faça simulações e conheça as soluções de Crédito Habitação BPI. QUEM COMPRA E QUEM VENDE, NA MESMA PÁGINA. E 40 Já ninguém define a fronteira entre o bom e o mau gosto” Entrevista Louis Menand E 41 Premiado com um Pulitzer, o autor de “O Mundo Livre — Arte e Pensamento na Guerra Fria”, livro finalista do National Book Award, fala sobre a origem dos EUA enquanto potência cultural POR CRISTINA MARGATO (TEXTO) E TIAGO MIRANDA (FOTOGRAFIAS) E 42 inda que não estivéssemos sob in- fluência dos Óscares, como estamos, seria impossível discordar da ideia de que os EUA são uma potência cultu- ral. Como diz, nesta entrevista, Louis Menand (Nova Iorque, 1952), norte- -americano de gema apesar do nome francês, é preciso levar em conta o facto de “a indústria cultural ser uma das grandes exportações da economia dos EUA”. Mas, o que hoje é economia também já foi política, ou começou por ser sobretudo uma intenção po- lítica. O autor, galardoado com o Pré- mio Pulitzer de História, com “The Metaphysical Club”, decidiu inves- tigar as raízes do processo de expan- são que levou a cultura norte-ame- ricana a quase todos os cantos do planeta. Em “O Mundo Livre — Arte e Pensamento na Guerra Fria” (Elsi- nore, 2023) — finalista do National Book Award —, o historiador, profes- sor em Harvard e colaborador regu- lar da “The New Yorker”, galardoado com a National Humanities Medal pelo Presidente Barack Obama, de- senvolve uma narrativa romance- ada e envolvente. Ao longo de mais 1100 páginas, fala das figuras-chave desta história, da forma como estes se foram encontrando, muitas vezes por “mero acaso”, das influências que estabeleceram, dos conflitos que desencadearam, num mundo onde quase tudo estava por construir e no qual a prioridade passava por usar a cultura “enquanto instrumento de política externa, ou seja, propaganda capitalista”. Pelo caminho descons- trói alguns dos mitos, algumas ideias que assimilamos em livros anteriores, mostrando que “a nossa experiên- cia presente é exatamente aquilo que atribui ao passado o seu significado. A história não é um conjunto de factos, mas o significado de factos.” Cortar e colar factos não é a sua intenção, con- forme defende nesta entrevista reali- zada em Lisboa. Leu “The Cultural Cold War”, de Frances Stoners Saunders, 1999, acerca da influência da CIA na cul- tura e arte nos Estados Unidos e no mundo, mas ao fazer a investigação para o seu livro não confirmou essa tese, pois não? Não. Esse livro causou um grande impacto, na altura em que saiu. Eu li-o, e fiquei bastante entusiasma- do. Quando comecei esta investiga- ção pensei que encontraria um pe- ríodo mais próximo daquele que o livro descreve, mas ao seguir a his- tória até onde esta me levou percebi que o envolvimento da CIA não é o que se pensava. O livro de Saunders tem uma grande quantidade de cita- ções mal efetuadas e erros de tradu- ção, que acabei por mencionar nas minhas notas de rodapé. Muitas das ideias de Saunders eram especula- tivas, não partiam de evidências, e o livro é sintomático da perspetiva que certos críticos norte-americanos adotaram quando olharam para este período, enfatizando a influência da Guerra Fria na arte. Eu não preten- dia que o meu livro fosse uma res- posta a um livro lançado há 20 anos, até porque já se sabia que essa tese estava errada. Na verdade, não havia nada de político no que os artistas estavam a fazer naquela época. Eles só pensavam em fazer arte — ainda que estivessem conscientes da Guerra Fria. Por outro lado, quis também re- gressar a pessoas como Jackson Pol- lock, John Cage, Allen Ginsberg, para perceber o que é que eles estavam a fazer e porque o faziam, sem neces- sidade de o explicar através da Guerra Fria. Tentei trazer aos leitores algo de novo, e acho que as explicações que encontrei são melhores e mais ver- dadeiras. Menciono a Guerra Fria nos EUA sempre que a considero impor- tante e dediquei à CIA um capítulo, que aparece no fim. Mas a CIA não deixa de ser parte da história… Sim, embora esse envolvimento da CIA explique muito menos do que aquilo que se pensava. Nos EUA e também na Europa, o período que vai de 1949 a 1960 é visto como uma época de conformismo, sem grandes rasgos de originalidade, com algu- ma ansiedade política e medo. Mas eu não encontrei isso. As pessoas so- bre as quais escrevo não estavam, de todo, a sentir isso. Quando comecei tinha, de facto, na minha cabeça a história de Saunders, e no final tinha outra história. Pollock queria questionar o que era uma tela, Beckett o que era uma peça de teatro. Os artistas estavam preo- cupados com as formas, e faziam perguntas... Penso que existiam razões para se fa- zer esse tipo de perguntas. As ques- tões políticas aparecem mais tar- de, com a Guerra do Vietname, mas o meu livro acaba antes dessa épo- ca começar. A primeira das razões A disparidade do rendimento entre 1950 e 1970 foi a mais baixa de sempre. No início do século XXI, a disparidade cresce muito rapidamente, o que gera ansiedade económica” A E 43 estava relacionada com uma crise que durou quase dez anos, à qual se seguiram os seis anos da Segunda Guerra Mundial. Depois de 1945, toda a gente quis virar a página e começar de novo. Afortunadamente, depois de 1947 e 1948, seguiu-se um perío- do de grande prosperidade económi- ca em todo o mundo. Registou-se um crescimento muito rápido, primeiro, no bloco soviético, mas também nos países da América Latina e até em Portugal. O produto bruto mundial teve um crescimento na ordem dos 5 por cento ao ano. As pessoas da classe média, brancas, sentiam — até de um modo subconsciente — que a vaga lhes era favorável, que podiam cor- rer riscos, sem que isso significasse uma grande queda. Sentiam-se es- táveis. Também tenho a ideia de que o risco foi muito encorajado. Depois, deve-se ainda ter em conta que esse foi o período da história em que a diferença entre os detentores do capi- tal e a classe média foi a mais baixa de sempre. Thomas Piketty fala nisso em “O Capital no Século XXI”: A dispari- dade do rendimento entre 1950 e 1970 foi a mais baixa de sempre da história, até porque a crise e a guerra tinham eliminado os mais abastados. Estava- -se a começar de novo, ao contrário do início deste século XXI, em que a disparidade cresce muito rapidamen- te, o que gera ansiedade económica. Não penso que naquela altura as pes- soas se tivessem a sentir da mesma maneira, e isso encorajava-as a ex- perimentar coisas novas. A segunda razão tem a ver com a Guerra Fria. Os EUA queriam passar uma men- sagem. Queriam anunciar ao mundo que a sua sociedade era melhor do que a socialista, comunista e sovié- tica, porque não diziam aos artistas o que pintar, o que escrever. A mensa- gem a passar era: Damos liberdade de pensamento e de expressão às pesso- as, e isso é melhor do que dizer-lhes para fazer arte ou compor música de uma certa maneira, porque, de outro modo, serão enviados para os campos de trabalho. E, depois, aparece um artista que pensa: “E se colocar a tela no chão e começar a atirar tinta, isso é uma pintura?” E os críticos pen- sam: “Se a única coisa que temos para mostrar é uma peça na qual deixaram cair uma série de gotas de tinta, en- tão essa peça tem de ser apresentada como arte, e tem de aparecer algo que explique que isso éalgo interessante do ponto de vista artístico.” Acontece o mesmo com a “Soup Can” do Andy Warhol ou com a peça de quatro mi- nutos e 33 segundos para piano de John Cage. De outro modo, apenas se estaria a deixar que os artistas fizes- sem algo que, na verdade, não era de muito valor. Eu não acredito que os artistas pensassem desse modo. Eram os críticos que pensavam assim e que podiam dizer por que razão aquela tela era um trabalho artístico, e por- que é que havia poesia na poesia, na tela no chão, na peça silenciosa de Cage. Para que os consumidores pu- dessem perceber a arte era preciso ter críticos que a explicassem. O propó- sito nacional assim o pedia. O que Pollock faz não é apenas a continuação do que já tinha sido feito pelos dadaístas e surrealis- tas? A conceção de arte já tinha sido desafia da, embora a guerra tenha interrompido a circulação dessas ideias... De facto, a Grande Depressão e a Se- gunda Guerra Mundial dificultaram a circulação de ideias, que depois pode finalmente acontecer. Até esse período os artistas norte-americanos estavam a trabalhar na tradição que eles conheciam. Mas o que fizeram a E 44 seguir não foi tão radical como aqui- lo que os futuristas queriam. Eles não queriam incendiar museus. Não que- riam fazer piadas. Quando John Cage escreveu a peça de 4 minutos e 33 segundos tinha um objetivo ascéti- co, artístico tradicional, que era le- var as pessoas a ouvir melhor. Ele queria dizer: “Isto deve ser ouvido tal como se ouve Chopin, mas é diferen- te”. Cage queria que a peça tivesse o mesmo efeito iluminador no ouvinte que uma peça de Chopin, e é aí que deve ser procurada a verdade acerca das figuras deste período. Os artistas norte-americanos não são antiarte de todo, eles querem produzir um efeito ascético tradicional de um modo di- ferente. O que Cage faz não decorre do espírito do dadaísmo. Eles não es- tão à procura da verdade na socieda- de, mas dentro deles. No seu livro conta ao detalhe a his- tória de como estas pessoas se vão conhecendo umas às outras, o que parece, muitas vezes, ter acontecido por mero acaso. Como é que encon- trou essas histórias? Apareceram, simplesmente, duran- te a investigação. Percebi que as pes- soas se encontram umas às outras de modo surpreendente, e que por cau- sa disso acontecem outras coisas. É o caso de Jasper Johns e de Robert Rauschenberg, de que falo no livro. Rauschenberg não estava a conseguir mostrar o seu trabalho, mas encon- trou uma galeria na 7ª avenida, em Nova Iorque, a Stable Gallery, onde poderia mostrar o seu trabalho se a limpasse, já que a galeria costuma- va ser um estábulo de cavalos, o que fazia com que cheirasse mal. Então, ele começou a limpar a galeria à noi- te. Jasper Johns, que ele nunca tinha conhecido, estava a trabalhar numa livraria na 57ª rua perto da 7ª Aveni- da, e numa das noites em que Raus- chenberg caminhava para casa, Johns encontrou alguém que conhecia aos dois e que os apresentou um ao outro. Rauschenberg e Johns tornaram-se amantes, mudaram-se para a Village e alugaram dois lofts, um por cima do outro. No espaço de um ano muda- ram completamente o seu trabalho. Johns pintou a bandeira americana, e Rauschenberg começou a fazer as colagens tridimensionais pelas quais ficou conhecido. Inspiraram-se, cla- ramente, um ao outro no trabalho que havia de fazer a diferença e esta- belecer as suas carreiras. Mas nunca teria acontecido se Rauschenberg não estivesse a limpar o estrume de cava- lo da galeria. Mas podiam ter-se conhecido de ou- tra forma. Ou não, e a história teria sido outra... É interessante que faça todas estas ligações detalhadas, como aquela em que prova que um determina- do crítico escreveu um artigo não mencionando as suas verdadeiras influências... Sim, é o caso de Harold Rosenberg [que cunhou o termo ‘Action Pain- ting’]. Mas ninguém sabia disso, fui eu que descobri essa história. Ele ti- nha intenção de escrever um arti- go completamente diferente daque- le que veio a publicar. Era um tipo com muito mau feitio, zangou-se com Jean-Paul Sartre, por uma razão mesquinha. Guardou o artigo, e ten- tou publicá-lo noutra revista depois de o reescrever. Acabou por ter um enorme impacto. E o mais curioso é que o texto foi completamente no sentido oposto do que ele pretendia no início... Sim, completamente. Seria possível alcançar este tipo de importância nos nossos dias? O jornalismo cultural já não tem a mesma autoridade que tinha. Tradi- cionalmente, a história intelectual re- sulta de uma espécie de cadeia suces- sória de livros de bonecas de papel. Está aqui um livro, e há um livro que responde àquele livro, e depois há outro livro. Está aqui Kant, está aqui Hegel, está aqui Marx... Os livros fa- lam para outros livros, e quem os es- creve nunca se coloca ao nível do que as pessoas pensam, leem ou fazem. Só se pensa na ligação entre ideias. Não defendo que essa seja a forma com a história intelectual funciona. Acredito que as pessoas fazem o que este crítico fez, ou seja, que mudam de opinião porque querem publicar o seu texto, e que por vezes acabam por ter um efeito completamente diferen- te daquele que imaginaram. Depois, as pessoas também interpretam as coisas de forma errada. Veja-se o caso da influência de Faulkner no pensa- mento francês. Os franceses não per- ceberam o Faulkner, em parte porque as traduções francesas dos seus livros não soavam tal como o Faulkner nor- te-americano, e isso teve um grande impacto na cultura francesa. Fizeram todo o tipo de assunções a partir des- sas traduções. Eu tento fugir ao méto- do dos livros de bonecas de papel, do corta e cola, ao tentar enfatizar o que foi acidental, biográfico, o que foi ne- gligenciado, mal interpretado ou que resulta da serendipidade. Não é costume levar muito a sério a serendipidade. Porquê? Porque queremos fazer essa história dos livros de bonecas de papel, de modo a que tudo se transforme na- quilo que achamos que aconteceu, quando na verdade aconteceram uma série de factos acidentais, e isso nem sempre parece lógico. Também sabemos que isso aconte- ce no nosso trabalho jornalístico, há quem procure uma intenção secre- ta, quando nós sabemos que ela não existe. Sem dúvida. As pessoas pensam que há uma espécie de zeitgeist, e pensam que as coisas acontecem por causa do zeitgeist. Quando Jackson Pollock se casa em 1945, muda-se para uma pequena casa em Long Island, e quer fazer uma tela grande, mas as pare- des são demasiado pequenas, e então ele acaba por colocar a tela no chão. É dessa forma que ele chega à tela no chão. Ele não colocou a tela no chão Ouvir determinado músico não define ninguém como pessoa, mas em 1955 as pessoas pensavam que sim, e essa é a razão pela qual a crítica era mais interessante” pensando que ia mudar a história da arte. Foi puramente acidental. Mas teve um efeito tremendo na direção que a arte tomou nos anos seguin- tes, e assim entrou numa história que pode ser contada de um modo lógi- co. No início, contudo, não estava lá essa lógica. O seu livro também é muito elucida- tivo no que diz respeito à relação de Sartre com a resistência francesa. É curioso que ao lê-lo lembrei-me de um livro português — “A Sombra dos Heróis”, de José Manuel Barata-Feyo — em que se diz que proporcional- mente houve mais portugueses na resistência em França do que fran- ceses. Você destrói o mito de Sartre e da sua resistência. Como é que os franceses reagiram ao seu livro? Penso que até gostaram. Até 1940, Paris foi importante para o resto do mundo ocidental. Com a ocupação pensou-se que os alemães ficariam muito tempo, pelo que muitos mú- sicos e pintores acabaram por sair para Nova Iorque e Los Angeles. De- pois da libertação, os músicos foram os que menos voltaram a Paris. Os restantes artistas regressaram quan- do a guerra acabou; e, ao contrário do que as pessoas assumiram, os ar- tistas americanose britânicos conti- nuaram a ir para Paris, para estudar e trabalhar, tal como acontecia antes. A cidade continuou a ter um papel relevante até 1958, altura em que o franco estabilizou. Tornou-se muito caro viver em França, e aí apareceu Nova Iorque. E hoje, onde está esse centro? Eu diria que ele não existe. Mas tudo tem de passar por Nova Iorque, Los Angeles e pelo Silicon Valley. Os EUA são, atualmente, uma espécie de dis- tribuidor do trabalho cultural, uma vez que tudo passa por essas capitais E 46 Estamos a lutar contra o TikTok, mas não temos uma luta do expressionismo abstrato versus realismo socialista” culturais. Mas não é nelas que isso é criado. Neste momento, é tudo global. Lévi-Strauss diz que a pior coisa que nos pode acontecer é perdemos a di- versidade, pois é isso que nos torna menos ricos... Sem dúvida, hoje somos muito me- nos ricos. Quanto mais as pessoas comunicam menos diferenças exis- tem, menos variedade se encontra, menos ricos somos. Eu costumo dizer aos meus estudantes que quando eles chegam a uma sala de aula depois de terem lido todos o mesmo livro, cada um deles tem uma opinião diferente, mas ao sair da sala, a nossa opinião de todos eles é mais parecida. Stanley Fish teoriza exatamente sobre isso [“Is There a Text in This Class? The Authority of Interpretive Communities”]... Sim, para Fish, a única forma de vali- dar a nossa perceção é fazer com que esta seja aceite e levada a sério por ou- tras pessoas. Se as outras pessoas não a aceitarem e não a levarem a sério en- tão a nossa interpretação está errada, mas não está errada através de qual- quer outra medida. Não existe uma in- terpretação correta para ser descober- ta. A interpretação é intersubjetiva, e acho que é dessa forma que funciona o trabalho da crítica literária. Todos têm diferentes interpretações, mas des- de que estas sejam levadas a sério por outros está tudo bem, caso contrário esta interpretação está errada. Hoje, não haveria lugar para uma pessoa como Susan Sontag... Sim, ela apareceu num período, ou no final de um período, em que os críticos eram polícias. Eles vigiavam e determinavam as fronteiras entre o que era e o que não era sério. Por vol- ta de 1965, começam a desaparecer, e eu tento explicar isso no meu livro. Eu não tenho interesse pela Taylor Swift, mas não tenho um olhar de sobran- ceria sobre as pessoas que têm. Ouvir determinado músico não define nin- guém como pessoa, mas em 1955 as pessoas pensavam que sim, e essa é a razão pela qual a crítica era mais in- teressante. Hoje, já ninguém define a fronteira entre o bom gosto e o mau gosto ou kitsch. Qual é que acha que é a influência de Andy Warhol, nos tempos do Ins- tagram e do Facebook? Foi ele que disse que todos queriam ser famo- sos como ele. Ele antecipou os nossos dias. É suposto ter dito. Mas não disse, e provavelmente também não disse muitas das coisas que lhe são atribuí- das. Outras pessoas escreveram-no para ele. O seu biógrafo não encon- trou essa citação. Mas ele também disse coisas interessantes. Há uma sé- rie delas filmadas, e nelas ele dá sem- pre uma resposta perversa a qualquer questão que lhe façam ou conta uma mentira. Não interessa qual é a ques- tão. Essa era a forma como ele dava entrevistas, apenas para chatear os entrevistadores, e alguns levavam- -no a sério, e até acreditavam nas suas mentiras... O mundo cultural seria diferen- te sem Sontag, Warhol, Pollock, ou Sartre, ou Lévi-Strauss? Sim, teríamos sim um mundo diferente. O caso de George Kennan é assusta- dor. Não sendo um especialista con- segue formatar a ideia que se forma nos EUA sobre os soviéticos... Pois é. Ele é outro exemplo acidental. Ele está em Moscovo, é o segundo na hierarquia da embaixada america- na. O embaixador tem de sair, April Harriman, tem de sair mas antes re- cebe um telegrama do Departamento de Estado a pedir para explicar quais são as intenções de Estaline. E é aí que diz a Kennan: “Eu não sei lidar com isto, peço-lhe que responda.” É Kennan que dita o telegrama que se transformará na teoria (“Long Tele- gram”), e a única razão pela qual o faz é porque o embaixador não está por perto. Quando o telegrama chega a Washington e acaba no secretário da Marinha, James Forrestal, este acha-o fantástico e distribui-o pelo governo. De repente, Kennan torna-se uma fi- gura muito importante. Eles fazem- -no regressar aos EUA, dão-lhe um emprego no Departamento de Estado, e enviam-no a todo o lado para fazer conferências. Ele acaba por formular aquela que vai ser a política inter- nacional dos próximos 40 anos. Mas tudo isto acontece apenas por acaso. Antes daquele telegrama ninguém o levava a sério, ele era uma figura me- nor, e só se tornou proeminente por- que o embaixador estava de saída. O que é que podemos deduzir dessa época, para compreender a atual? Acho que criou as condições segundo as quais operamos. Para falar de algo que ainda não conversamos explicita- mente, vê-se nos EUA o crescimento das indústrias culturais, a música, pu- blicações editoriais, o mundo da arte, as universidades, o jornalismo. Todas essas áreas floresceram e atraem cada vez audiências maiores. As pessoas vão aos museus, colecio nam arte america- na contemporânea, compram antolo- gias de poesia, vão ver filmes estran- geiros. Vivemos um período de enor- me crescimento destas indústrias, e ao mesmo tempo que estas indústrias crescem, os interesses também cres- cem, tal como a infraestrutura finan- ceira de base. A indústria cultural é muito importante, é uma das grandes exportações da economia dos EUA em todo o mundo. É algo que vemos acon- tecer, e isso é resultado deste período. A produção cultural é praticamente ilimitada e a sua distribuição é bas- tante plana. Já não aparecem este tipo de figuras maiores, e mesmo quando aparecem já não têm o impacto que tinham nem conquistam um estatuto icónico — e isso é muito interessante de ver. Não tenho a certeza de que isso seja pior ou melhor. A topografia cul- tural é um pouco diferente. E a situação não mudará? Não, porque não é uma guerra cultu- ral. No período que estudei havia uma guerra cultural real com a União So- viética. Hoje é uma questão de mer- cado. A não ser que considere que o TikTok é uma espécie de produ- to cultural. Estamos a lutar contra o TikTok, mas não temos uma luta do expressionismo abstrato versus rea- lismo socialista. Tem opinião sobre a cultura woke? Acho patético. Mas a linguagem é sempre uma questão importante... Tem razão. Sinto que os meus estu- dantes mais novos estão a ficar um pouco aborrecidos com a cultura woke, e já nem querem saber, en- quanto os estudantes mais velhos ainda estão interessados. A maioria dos estudantes não tem tempo para pensar sobre isso. Acho que é só uma fase, mas por outro lado, existem dois slogans que começaram por ser hash- tags e tiveram um enorme impacto na forma como as pessoas pensam: Black Lives Matter passou a estar no jardim de todas as famílias brancas e o MeToo teve um impacto enorme no meio. Serviram para chamar a atenção das pessoas para injustiças, e mudaram as atitudes e os compor- tamentos. b cmargato@expresso.impresa.pt PODCASTS EXPRESSO LIBERDADE PARA OUVIR 3ª FEIRA semanal 2ª FEIRA semanal 2ª FEIRA quinzenal 3ª FEIRA semanal 3ª FEIRA semanal 2ª FEIRA semanal 2ª FEIRA semanal 2ª A SÁBADO diário 2ª A SÁBADO diário SÉRIE COMPLETA SÉRIE COMPLETA ESPECIAL 50 ANOS SÉRIE COMPLETA JÁ DISPONÍVEL SÉRIE COMPLETA DISPONÍVEL EM EXPRESSO.PT/PODCASTS, NO SPOTIFY OU QUALQUER PLATAFORMA DE PODCAST 4ª FEIRA semanal 4ª FEIRA quinzenal 5ª FEIRA semanal 4ª FEIRA semanal 6ª FEIRA semanal 6ª FEIRA semanal 5ª FEIRA semanal 5ª FEIRA semanal 4ª FEIRA semanal E E 4848 / GONÇALO M. TAVARES O S C A D E R N O S E O S D I A S O FUNCIONÁRIO E OS HUMANOS QUE DÃO PREJUÍZO VOLTAR AO ESTADO ANTES DA GUERRA PARECE ESPERANÇOSOE ATÉ BONITO. FAZER COM QUE O DEPOIS SEJA IGUAL AO ANTES PARECE REDUTOR E ANTIPROGRESSISTA palavra “funcionário” está uns pontos abaixo da palavra “humano”. Muitos pontos abaixo. Um humano que é um “funcionário” — eis a frase que rebaixa. Um “funcionário” que é um humano — eis a frase que eleva. E há robôs que podem ser funcionários; sabemos bem que as máquinas são cada vez mais as presenças essenciais no mercado de trabalho. Em tempos e, ainda hoje, em alguns países começou a discutir-se a possibilidade de cobrar impostos às máquinas, como se faz aos trabalhadores — para que as empresas não tenham tanto incentivo para empregar chips e algoritmos em vez de humanos com estômago, família e capacidade de protesto. Mas a discussão ficou por aí, pela atmosfera onde as boas palavras se perdem e nada de concreto fica. Um funcionário, quando reduzido de humano a portador de funções, é substituível por máquinas que façam as mesmas tarefas. A palavra funcionário, mesmo que usada sem essa consciência, é uma palavra que se infiltra na floresta e no jardim e produz lixo e doenças. Funcionário é feito para funcionar, para não avariar. O funcionário avariado, doente, é uma chatice. 1. Funcionário é mesmo uma palavra terrível: é colocar o vocabulário mecânico no mundo humano do trabalho. Um funcionário tem funções como uma máquina — seis, sete, 15 funções, as que forem. Um superfuncionário, que faz muitas funções e bem, não deixa de ser isso: um concentrado de habilitações eficazes e rentáveis. Funcionário é um termo económico; funciona, isto é, o seu trabalho produz lucro. Se há sussurro que circula no mundo da competição é este: o que funciona deve ser salvo! Em tempos escrevi sobre isso: a religião dos bons éticos foi há muito substituída pela religião dos bons trabalhadores. Dos eficazes será o reino dos céus. Um céu para superfuncionários supercompetentes. Tudo é super, exceto o essencial. Imagino então isto: um paraíso onde só entra quem for bom tecnicamente. Um paraíso de humanos eficazes; humanos, no fundo, que dão lucro. E temos aqui outra síntese possível: uma divisão das águas do mundo de trabalho, ou até do mundo social. Imaginar um Moisés gestor máximo de uma empresa ou até um Moisés que separe as águas num qualquer Estado implacável: há humanos que dão lucro e humanos que dão prejuízo e estes dois tipos de humanos estão separados pelas águas do Estado maquinal. Que uns vão para um lado e os que dão prejuízo para outro. Muitas vezes, o lugar dos que dão prejuízo nem sequer é um lugar ou uma casa, mas simplesmente a rua. 2. Numa maravilhosa passagem, o escritor Pascal Quignard fala do conceito de “funcionário” e do termo “statu quo”. Funcionário do Estado, diz ele, é o que mantém o Estado em ordem, é o que guarda as suas fronteiras e não permite revoluções, nem sequer interrupções no ritmo normal. Segundo as definições mais diretas, “‘statu quo’ é um latinismo que significa ‘no estado das coisas’”. Trata-se, está na sua definição, “de uma redução da frase ‘in statu quo res erant ante bellu’”, que significa “no estado em que as coisas se encontravam antes da guerra”. Seria, nesse sentido, o regresso a uma ordem depois de uma guerra, depois de uma revolução, depois de um tremor de terra. Quignard explica que a palavra francesa “Estado” pode ter o sentido de “statu”, tal “como é visível na expressão ‘statu quo’”. Para Quignard, o funcionário do Estado é, assim, um guarda fronteiriço “temporal”, alguém que protege o “statu quo ante”, ou seja, que protege “o ‘statu quo’ anterior”. Numa definição, ao mesmo tempo poética e etimológica, Quignard conclui que os funcionários “estão encarregues de fazer funcionar o Estado de maneira tal que o ‘depois’ seja como era o ‘antes’”. Em suma, a manutenção do “statu quo” tem este objetivo simples, que é temporal, funcional e linguístico: que o depois seja igual ao antes. No limite, que estas duas palavras, que parecem opostas, se tornem sinónimas: o “antes” ser igual ao “depois”. Uma catástrofe linguística e utópica. Se lutamos para que o depois seja igual ao antes, então, estamos a tocar o fim do progresso e, com ele, o aborrecimento autocontente eterno. Voltar ao estado antes da guerra parece esperançoso e até bonito. Fazer com que o depois seja igual ao antes parece redutor e antiprogressista. Duas maneiras distintas de entender a energia que quer manter ou destruir o “statu quo”. b A E 49 Num longo inverno, a fadista Aldina Duarte contou a Capicua os segredos do fado tradicional. “Metade-Metade”, álbum com letras da rapper, é o fruto dessa aprendizagem mútua TEXTO LIA PEREIRA FOTOGRAFIAS RITA CARMO Poesia enquanto resistência E 50 uando entabularam uma espécie de curso de fado à distância, Aldina Duarte, fadista lisboeta com provas dadas, e Capicua, rapper e escritora natural do Porto, estavam em momentos de relativo desânimo, ou pelo menos de reflexão. Com um longo percurso e uma atitude que amiúde lhe merece o epíteto de ‘punk’, a autora de “Quando Se Ama Loucamente” questionava- se se valeria a pena continuar a gravar discos. “Eu tenho de querer dizer alguma coisa às pessoas”, afirma. “Não tenho esse dom de cantar só por cantar, só pelo prazer de cantar”, explica a artista que, há alguns anos, desistiu do fado e foi trabalhar como secretária da Cinemateca, em Lisboa. Salvaram- na da rotina Camané e Maria da Fé, que a ‘convocaram’ para voltar a cantar na casa de fado Senhor Vinho, em dia de aniversário da sua madrinha. Desta feita, a crise existencial não foi tão profunda, mas Aldina Duarte voltou a interrogar- se sobre a premência de editar um disco. A norte, Capicua, autora de vários álbuns aplaudidos e dona de um estilo lírico reconhecível, perguntava-se o mesmo: “Eu estava num ano de pousio e reconciliação com a minha criação. E quando digo que o nosso disco salvou aquele inverno [de 2022-2023], é porque canalizei para a escrita muitas das minhas emoções. Uma das minhas letras favoritas, ‘Pisco-de-Peito- Ruivo’, [reflete] a minha relação com a criação naquele momento. Às vezes, é a catarse que nos salva.” Mas como se processou, afinal, esta aprendizagem mútua, ainda que à distância de várias videochamadas? Entusiasmadas, as criadoras, que dizem identificar-se numa série de aspetos, da orientação política à espontaneidade sem filtro, recordam esses dias, que passavam não só pela transmissão de conhecimento sobre os vários tipos de fado tradicional — matéria em que Aldina Duarte, investigadora da matéria, é mestra —, como por partilhas mais pessoais. “Tivemos tempo para falar sobre a vida, e essa foi a grande matéria-prima das letras do disco”, diz Capicua, que se inspirou nas conversas que tinha com a amiga, no início ou no final de cada aula, para ir criando poemas que se encaixassem na métrica de cada fado lecionado. Mais absorvida pela viagem do que pelo destino (“Eu esqueço-me das metas, costumo dizer que gosto mais dos ensaios do que dos concertos!”), Aldina Duarte demorou a perceber que, destas interações, nasceria um álbum. Mas Capicua, cuja disciplina a parceira descreve como “férrea” (“É a minha genética transmontana”, ri-se a nortenha), não deixou que o objetivo ficasse para trás. À medida que a dificuldade dos exercícios aumentava, a rapper, que também escreve poesia e crónicas, surpreendia a ‘professora’ pelo rigor e inspiração. Um dos 'trabalhos de casa’ impressionou-a sobremaneira: a aluna havia escrito um fado intitulado ‘Araucária’. “Pensei: ‘enlouqueceu!’”, recorda, entre gargalhadas. Antes das aulas, as duas haviam já estudado juntas, nas Oficinas do Fado promovidas pela alfacinha. “Numa das oficinas eu expliquei que há palavras que não cabem no fado. As melodias do fado tradicional têm um registo emocional brutal, uma personalidade muito vincada. Se atirares lá para dentro uma palavra tipo ‘lixo’ ou ‘pulmão’, por mais que o intérprete se esforce, chegas àquele palavrão,que ali é um palavrão, e aquilo ocupa demasiado espaço. É visualmente tão forte, e sonoramente tão duro, que não passa.” Q Porém, Aldina Duarte adora “estar errada”. E por isso decidiu trautear a inaudita palavra sobre a melodia que havia passado a Capicua. “Quando eu canto: ‘araucária...’ penso: o que é isto?”, recorda, com espanto. “E pensei: filha da mãe, bendita!” Divertida com a história, Capicua justifica a sua “rebeldia”, que tanto fascina a companheira. “Acho que está a acontecer ao fado o que acontece na pop ou na soul: há um universo, um glossário de palavras que se vai tornando clichê, porque já o ouviste mil vezes. Da mesma forma que, no rap, há essa polivalência de ir buscar palavras diferentes — mesmo que seja no domínio do calão, temos de ser inventivos —, quando tenho a oportunidade de escrever para fado, gosto de usar palavras que não são habituais”, diz a autora, E 51 “Fazer discos é uma coisa romântica, e escrever discos que nascem do poema é ainda mais subversivo. Porque vivemos no tempo do mercado, e o tempo do mercado é antagónico ao tempo da poesia” CAPICUA RAPPER E ESCRITORA Aldina Duarte, de 56 anos, partilhou com Capicua, de 42, as regras do fado. A ‘discípula’ ofereceu-lhe um novo léxico, que a fadista canta no disco “Metade-Metade”, apresentado no Coliseu de Lisboa a 17 de abril, num concerto especial que antes já engendrara poemas para Gisela João. Maravilhada com a criatividade de Capicua, Aldina Duarte foi mostrar os poemas de ‘Araucária’ e ‘Aprendiza’ a Camané, “que tem uma experiência ainda mais antiga e profunda do que a minha dentro do fado; está-lhe no ADN”, e reconheceu a surpresa no seu rosto. “Eu percebi o que o Camané estava a sentir, porque era exatamente o mesmo que eu. E ele diz-me: ‘mas isto parece que foi toda a vida assim!” A proximidade entre as autoras, não só na arte como na vida, ajudou ao brotar dos 11 temas que compõem “Metade-Metade”, disco a editar dia 22 e que será apresentado no Coliseu de Lisboa, a 17 de abril, num concerto em que os espectadores se sentarão no palco. “Com uma pessoa com quem se cria uma coisa destas, fica-se ligado pela alma, para toda a vida”, diz a fadista. “A Capicua, apesar de ser muito mais nova do que eu, tem referências muito próximas das minhas. Temos aquilo que eu e o Pedro [Gonçalves, seu colaborador e membro dos Dead Combo, desaparecido em 2021] tínhamos. Parece que estamos sempre inteiros em tudo, nunca temos de deixar um bocadinho nosso de lado! E isso é muito forte, e muito raro, na criação. Não é nada comum, porque na vida também não.” E o que é, afinal, umA araucária? “Árvore-altar” de Aldina Duarte, acabou por simbolizar, também, o grande tema que buscava: a natureza. “A pobreza continua a ser, para mim, a raiz de todos os males. Tudo é pior quando és pobre: as questões de género, rácicas...”, afirma a cantora, que cresceu num bairro social em Chelas. “A pobreza continua a ser a minha luta primordial. E depois há outra que nem está na agenda política, mas acho igualmente urgente: a questão climática. Essa é a minha angústia: não é o planeta que vai à vida, somos nós”, lembra, mostrando-se realizada por ter encontrado essa coordenada vital para “Metade- Metade”. “Eu também tenho uma árvore-altar, por isso, escrever a ‘Araucária’ não foi assim tão distante da minha experiência de relação espiritual com a natureza”, contrapõe Capicua. “Não sendo uma pessoa religiosa, é através do mar ou das árvores que consigo sintonizar o meu lado mais espiritual, e isso está muito presente neste disco.” Alguns temas de “Metade- Metade”, como ‘Majestade (25 de Abril)’, foram escritos a pedido da intérprete (“Queria cantar um fado político sobre a pobreza”); outros, como ‘Tentativa’, surpreenderam- na pela fina ironia. “Dá-me graça a linguagem, porque me revejo naquela falta de jeito para tentar agradar. Interpretei sempre aquilo como uma mulher que não nasceu para acasalar. Há quem ache isto muito triste e eu, em tempos, também achei que podia ser um problema. Hoje, acho que foi a maior libertação da minha vida”, confessa, dizendo que este fado comporta “dores muito agudas, como quando bates com o dedo mindinho do pé, mas também muita ironia.” Emocionada com a “contenção e generosidade” com que Aldina Duarte dá voz, e vida, aos seus poemas, Capicua não tem dificuldade em encontrar paralelos entre o género musical em que se formou, o hip-hop, e o fado. “São músicas urbanas, que vivem ancoradas no território onde nascem, e ambas dão protagonismo à palavra, o que faz com que tanto os rappers como os fadistas ‘cuspam’ as palavras, em vez de cantá-las”, argumenta. “E são músicas radicais, emocionalmente”, completa Aldina Duarte. “Têm uma dimensão muito humana. É a vida das pessoas...” Para “Metade-Metade”, as suas autoras desejam apenas que voe em liberdade. “Hoje em dia, fazer discos é uma coisa romântica”, dispara Capicua. “E escrever discos a partir do poema é ainda mais subversivo. Porque nós vivemos no tempo do mercado, e o tempo do mercado é antagónico ao tempo da poesia. Então este disco é um objeto de puro romantismo”, conclui, sobre um álbum em que a voz de Aldina Duarte contracena com a guitarra portuguesa, a viola, a harpa e o piano. “Acho que devemos orgulhar- nos de, em 2024, continuarmos a fazer música para honrar as musas, como se diz na ‘Aprendiza’. Pelo puro prazer de espalhar a poesia pelo mundo, num momento em que estamos todos a precisar. É neste momento que ser um bocadinho anacrónica me dá orgulho”, reforça. “Não viver na lógica quantitativa, não estar preocupada com a ditadura do algoritmo, estar à margem das tendências do mercado. Por isso é que digo que [este disco] é metade guerrilha, metade ingenuidade.” Sorrindo a seu lado, Aldina Duarte concretiza: “Não dá para andar aí a dizer: ‘O grande escritor de canções, Sérgio Godinho! O grande José Mário Branco, o grande Zeca Afonso...’ Não dá para crescer com isto e depois andar a contar streamings. Em quem já nasce com isso, será natural. Em nós, seria até perverso.” b lipereira@blitz.impresa.pt METADE-METADE Aldina Duarte Sony Music (disponível dia 22) E 52 Na Tate Modern, em Londres, a exposição “Yoko Ono: Music of the Mind” percorre momentos-chave do percurso da artista de 91 anos entre o Japão natal, os Estados Unidos e Inglaterra, país onde conheceu John Lennon, marido e cúmplice criativo. Arte conceptual, música, cinema e performance: tudo isto era Yoko Ono. Vamos a tempo de compreendê-la TEXTO PAULO ANUNCIAÇÃO EM LONDRES Justiça para Yoko Ono m novembro de 1966, Yoko Ono foi a Londres para a inauguração de “Unfinished Paintings & Objects”, uma exposição de trabalhos dela na Indica Gallery. Paul McCartney, um dos financiadores da galeria, insistiu para que todos os Beatles fossem à antestreia desta exposição de uma “artista avant-garde japonesa a viver na América”. John Lennon aceitou o convite. Uma das peças da exposi- ção chamava-se “Ceiling Painting/ Yes Painting”: um enorme escadote branco, que John trepou, seguindo as instruções da artista. Lá em cima, ele pegou na lupa e conseguiu ler a palavra “Yes” que estava escrita mi- nuciosamente e em letras pequeni- nas num painel no teto. John Lennon sorriu. Achou piada a esta versão ja- ponesa do humor britânico absurdo. Noutra peça, “Painting to Hammer a Nail”, Ono convida os visitantes a martelar pregos enormes numa tela de madeira branca. A ideia/con- ceito por trás desta obra coletiva é a anulação do papel habitualmente privilegiado do artista como criador a título individual. Na noite de antestreia, a tela estava naturalmen- te intacta. Mas a japonesa brincou com Lennon e disse-lhe que poderia martelar um prego se ele lhe pagasse cinco xelins. John Lennon rejeitou a proposta: “Vou pagar-te cinco xelins imaginários e martelar um prego imaginário.” Ela ficouencantada com a resposta. A arte conceptual acabava de servir de cupido casamenteiro. John e Yoko passariam juntos grande parte dos 14 anos seguintes. Estas duas peças ocupam, sem surpresa, um lugar de destaque na exposição “Yoko Ono: Music of the Mind”, uma retrospetiva de obras das últimas sete décadas da artista japonesa inaugurada recentemente na Tate Modern, em Londres. Ono, de 91 anos, não esteve na inaugura- ção. A artista tem uma saúde frágil e vive retirada na quinta do norte do estado de Nova Iorque que ela e Len- non compraram em 1978. Ou talvez ela tenha preferido, mesmo, ficar lá por casa. Para os britânicos mais antigos, Yoko Ono foi — e será sem- pre — a bruxa má que se intrometeu nos Beatles no final da década de C LA Y P E R R Y Yoko Ono no trabalho conceptual “Half-A-Room”, apresentado pela primeira vez na Lisson Gallery, em Londres, 1967. Na página ao lado: John Lennon e Ono no “Bed-In for Peace”, em Amesterdão, 1969 (em cima); Ono em 1965 no Carnegie Hall, em Nova Iorque, na performance “Cut Piece” (em baixo) E 60 e desfez a banda mais popular do mundo. Na história recente da vida cultural, aliás, nenhuma outra mulher terá sido tão vilipendiada quanto esta “namorada japonesa de John Lennon de aparência tão intensamente sem graça” (a frase é de Philip Norman, biógrafo de Len- non). Ono era, de facto, diferente das outras noivas e namoradinhas de estrelas do mundo rock — uma constatação que os tabloides londri- nos não se cansavam de repetir. Asi- ática, nunca maquilhada, com um estilo monocromático e desleixado, cabelo rebelde, esta “mulher dra- gão” fugia do padrão convencional. Poucos sabiam que ela era, também, uma artista com nome feito nos meios da arte conceptual de Nova Iorque e do Japão. A retrospetiva da E 53 Tate é por isso, de certa maneira, um ajuste de contas. “Os visitantes mais novos [da exposição] não têm ideia da misoginia e racismo a que Yoko foi sujeita nos anos 60, 70 e 80. Eu queria que eles, em particular, co- nhecessem a longa trajetória da obra de Ono. Queria mostrar-lhes este lado muito sério dela”, explica Juliet Bingham, curadora da retrospetiva. Desse ponto de vista, “Music of the Mind” é, sem dúvida, um êxito. A exposição reúne cerca de 200 peças que cobrem mais de 70 anos de atividade (a obra mais antiga é de 1953). O fulcro da mostra é constituído, sobretudo, pelas peças das décadas de 1950 e 1960 — cer- tamente o perío do mais original e pioneiro da arte de Yoko Ono, quan- do vivia em Nova Iorque e integrava uma comunidade de artistas avant- -garde com nomes como John Cage, George Maciunas, David Tudor ou La Monte Young. A arte é simples e direta e, de certa forma, revolucio- nária. Não se restringe a uma única plataforma. Ono acha que a arte e a criatividade são conceptuais e que, por isso, não importa qual é o meio, o material, a técnica ou o suporte utilizados. Entre as peças expostas conta-se, por exemplo, “Apple” (1966), que se tornou uma espécie de símbolo de Yoko Ono — uma simples maçã verde, solitária, colo- cada sobre um pedestal acrílico que tem uma placa metálica com a ins- crição “Apple”. Noutra instalação, “Half-a-Room” (1967), 29 objetos e peças do mobiliário de um quarto estão talhados ao meio. Também há filmes, como o intrigante “Film No. 4 (Bottoms)”, de 1966-7: uma sequência de brevíssimos grandes planos dos rabos de duas centenas de artistas amigos dela. A banda sonora inclui extratos desconexos de conversas de Yoko Ono com os ami- gos ou com jornalistas. Na altura, a obra causou enorme controvérsia, chegando a ser proibida pelas au- toridades. Hoje, esta fita com quase 80 minutos de traseiros famosos (mas não identificados) tem algo de ternurento, casto e inocente. A ideia era “usar a parte mais desprotegida e sem defesa do nosso corpo para um manifesto pacifista”. “Em vez de [recolher] assinaturas, alinhei dezenas de rabos numa petição pela paz”, explica. Outro filme, “Fly” (1970-1), de 24 minutos, mostra moscas a pousar e a percorrer o corpo de uma mulher nua (o corpo é da atriz Virginia Lust; as moscas foram gentilmente “cedidas pela cidade de Nova Iorque”). O filme, M IN O R U N II Z U M A R U U D H O F F /C O R T E S IA Y O K O O N O /T A T E M O D E R N estranhamente perturbador, é um manifesto sobre poder, vulnerabili- dade e violência. Nas salas da Tate Modern há tam- bém muita fotografia, uma cabina sonora, memorabilia (panfletos, convites, anúncios, cartazes, artigos de revistas) e dezenas de peças com “instruções”: frases breves que pe- dem ao leitor para imaginar, expe- rimentar, fazer ou completar a obra. Podem ser telas enormes com um único verbo escrito no meio, como “Imagine” ou “Touch”. Ou frases curtas — como “Ouça uma batida de coração” ou “Ponha o pé em todos os charcos de uma cidade” — da- tilografadas numa folha de papel e arrumadas de forma harmoniosa, simples e minimalista, como um poema haiku japonês. CÉUS AZUIS E RUGIDOS SELVAGENS “Music of the Mind” é uma expo- sição particularmente interativa. A arte de Yoko Ono é participativa, na linha dos neodadaístas e do movi- mento Fluxus, do século passado, dos quais ela esteve próxima. Ono quer quebrar a passividade do es- petador/visitante. Muitas vezes há um elemento lúdico ou irónico. Mas também de desmistificação, de con- testação, antiarte. Num dos eventos pioneiros da arte performativa, Yoko Ono — sentada no chão, vulnerável, de olhar passivo — pede aos espec- tadores para pegarem numa tesoura enorme e cortarem pedaços da rou- pa dela (“Cut Piece”, executado pela primeira vez em Tóquio, em 1964). Nas galerias da Tate Modern, ela quer que os visitantes sejam mais do que meros espectadores mudos e si- lenciosos. Somos convidados, como vimos, a subir escadotes e a martelar pregos. Mas também podemos pisar um quadro (“Painting to Be Stepped On”, 1960-61) ou cumprimentar estranhos com um aperto de mão através de um buraco feito numa enorme tela branca (“Painting to Shake Hands”, 1962). Também há uma série de mesas com tabulei- ros de xadrez onde tudo é branco: as mesas, as cadeiras, as peças, as casas do tabuleiro (“White Chess Set”, 1966). “Para jogar enquan- to se lembrar onde estão todas as suas peças”, lê-se na “instrução” que acompanha a obra. Em “Bag Piece” (1964), os visitantes parti- cipantes podem enfiar um enorme saco negro de algodão pela cabeça abaixo. O efeito é o de uma miste- riosa escultura flutuante. “Dentro de um saco”, explica, “uma pessoa é apenas um espírito ou alma, des- pojada de qualquer característica — raça, sexo, idade — diferenciadora”. Em 1945, os pais de Yoko manda- ram-na para longe de Tóquio de forma a escapar aos bombardeiros norte-americanos. Esse período deixou marcas. Yoko tinha 12 anos e apesar de ter nascido numa família rica da capital japonesa, passou fome. “O meu irmão Keisuke cho- rava. Não tínhamos comida, mas tínhamos o poder da imaginação e fazíamos jogos com comida imagi- nária”, explica ela num dos textos que acompanham a exposição. Dé- cadas mais tarde, Ono transformou- -se numa ativista pela paz mundial. “Music of the Mind” recorda os dois “Bed-ins for Peace” (na cama pela paz) que Ono e Lennon, casados de fresco, organizaram em 1969 em quartos de hotéis de Amesterdão e Montreal. Em “Helmets (Pieces of Sky)”, uma instalação de 2001, Ono utiliza capacetes alemães da II Guerra Mundial como floreiras suspensas no ar. Em vez de gerânios, os capacetes têm pequeninas peças de um puzzle que quando comple- tado formaria um céu azul. Yoko Ono explica que em miúda, como refugiada, encontrava conforto na presença constante do céu. Há muito que Yoko Ono divide opiniões. E irá continuar a dividir. A exposição inclui muita coisa que o visitante mais cínico será ten- tado a qualificar como arte idiota, pretensio sa, juvenil, irritante. Algu- mas “instruções” são simplesmente impenetráveis: “Leve consigoum saco de ervilhas. Deixe uma ervilha em cada local onde for”, lê-se na “Pea Piece” (1960). Mas porquê? E para quê? Numa das peças ouvimos Yoko Ono a tossir sem parar ao lon- go de mais de 30 minutos. Outra é um áudio de 30 segundos com des- cargas de autoclismo. Para os mais corajosos, a cabina de som inclui amostras das composições musicais da artista japonesa. Temas como “Fly” — uma maratona sonora de 23 minutos que dá nome a um álbum de 1971 — incluem os rugidos selva- gens, os prantos e gritos tremulantes que fizeram dela, segundo a revista “New Yorker”, uma das bandas sonoras favoritas nas salas de tortura de Guantánamo Bay. b MUSIC OF THE MIND Yoko Ono Tate Modern, Londres, até 1 de setembro E 54 Livros Coordenação Luciana Leiderfarb lleiderfarb@expresso.impresa.pt H U LT O N A R C H IV E /G E T T Y IM A G E S Arthur Orton, talhante oriundo de Wapping (Londres) que vivia na Austrália, é o homem que tentou usurpar a identidade de Roger Tichborne, dando origem a um longo processo judicial QQQQQ A FRAUDE Zadie Smith D. Quixote, 2024, trad. de Francisco Agarez, 531 págs., €24,90 Romance E 55 O caso que intrigou Zadie Smith Há muitas formas de falar da atualidade sem falar da atualidade. Até certo ponto, todas as obras de ficção — e algumas de História também, mas isso é outro assunto — são sobre o tempo presente, uma vez que a perspetiva de um autor, por definição, é a do seu tempo, e a narrativa que ele (re)constrói reflete-a, quando não é simplesmente dela que a extrai. Quando uma ficcionista britânica conhecida por romances que exploram a psicologia complexa das realidades multiétnicas contemporâneas escreve um romance sobre eventos reais do século XIX, podemos especular que o mundo atual e uma crítica ao mesmo se encontram lá representados sob uma forma qualquer. Zadie Smith, uma das vozes mais interessantes da ficção dos nossos dias, autora de um belíssimo romance (“Dentes Brancos”) sobre britânicos, imigrantes e descendentes de imigrantes, que a tornou uma estrela do mundo literário aos 25 anos, bem como de outros quatro livros situados no presente, em 2023 publicou “A Fraude”, o seu primeiro romance histórico. O tema é um célebre caso judicial em torno do presumível herdeiro de uma fortuna. Em 1854, Roger Tichborne, de 25 anos, desapareceu num naufrágio ao largo da costa brasileira. A mãe dele sempre se recusou a aceitar que tinha morrido, e uma vidente alimentou as suas esperanças. Na sequência de rumores de que alguns dos náufragos teriam sido recolhidos por um barco que se dirigia para a Austrália, foram colocados anúncios em jornais australianos. Apareceu um indivíduo que se apresentou como o jovem desaparecido a reclamar os seus direitos e conseguiu convencer da sua veracidade um antigo criado dos Tichbornes, de nome Andrew Bogle, que tinha crescido como escravo em Hope, uma plantação da Jamaica. Após uma angariação pública de fundos, ‘Roger’, que na verdade se chamava Arthur Orton, foi levado à presença da mãe do jovem desaparecido, que garantiu tratar-se do filho. Assim começou um processo de anos, primeiro cível e depois criminal, acompanhado por uma campanha pública que se prolongou muito após a conclusão dos trâmites judiciais e apresentava uma mistura de ingredientes hoje bastante familiares, em especial a ideia de que o establishment conspira para privar certas vítimas dos seus legítimos direitos, e que só o povo, capitaneado por algumas figuras providenciais, não raro lunáticas, pode salvar da destruição essas vítimas. Na história do presumível herdeiro havia problemas insuperáveis. Roger Tichborne fora magro e tinha o porte distinto de um aristocrata, com conhecimentos linguísticos e culturais adquiridos nas escolas de elite que frequentara. O demandante (claimant), como surge designado no livro, era um homem muito gordo, de porte grosseiro, que ignorava tudo sobre Virgílio e outros autores da Antiguidade, e não faltava francês, língua da infância de Tichborne. Também não recordava episódios da sua alegada vida anterior, e outras coisas igualmente não batiam certo. Sem querer contar demais, digamos que o desfecho do caso não foi inesperado. Smith aborda a história pelos olhos de uma simples observadora, Eliza Touchet, uma mulher que é prima e governanta de William Ainsworth, um romancista popular em vias de ser esquecido. “Muitas das paixões A autora britânica estreia-se no romance histórico com “A Fraude”, narrando uma história de apropriação da identidade que remonta ao século XIX TEXTO LUÍS M. FARIA liberais da sra. Touchet tinham a sua origem no provérbio ‘dar um mau nome a um cão é condená-lo à forca’, cuja veracidade a impressionou muito na infância”, escreve Smith. “O objetivo da vida era manter o espírito aberto, nunca julgar com base em aparências ou maus nomes, e sempre tomar decisões baseadas apenas em provas. Tinha continuado a levar esta ideia a sério na sua idade madura, altura em que muitas pessoas razoáveis a abandonam.” A sua equanimidade leva-a a ter compreensão mesmo por um homem em quem não acredita quando o vê a depor em tribunal. “Era realmente muito difícil não sentir pena daquele homem. Tão evidentemente desorientado, apanhado numa mentira cada vez maior, que já ultrapassava o volume do seu corpo. Para não falar de todas aquelas pessoas crédulas, ignorantes, sem dúvida bem-intencionadas, que tão levianamente apoiavam a sua causa.” Entre essas pessoas contava-se Sarah, a nova mulher do seu primo, uma criada décadas mais jovem com quem ele se envolvera e acabou por casar. Sarah, que vai com Eliza a Londres assistir a sessões do julgamento, torna-se uma fanática da causa Tichborne. Eliza observa-a com benevolência. Porém, o leve sentimento de autossatisfação que lhe advém (“prometeu que seria uma boa cristã”, pensa. “Seria amável e atenta aos sentimentos feridos de Sarah, nunca esquecendo que é às falsas convicções que as pessoas tendem a agarrar-se com mais força”) é bruscamente interrompido pela torrente verbal da sua companheira, cuja obsessão pela sua verdade era implacável e dispensava qualquer tipo de condescendência. Para Sarah não havia dúvidas nem nuances. Tudo tinha explicação, e as explicações apontavam sempre no mesmo sentido. As repercussões sociais e psicológicas do caso Tichborne dão origem a observações perspicazes sobre a perceção de assuntos públicos que não perderam relevância, mutatis mutandis. Outra parte do livro, não menos importante, são as cerca de cem páginas dedicadas a Andrew Bogle e à sua família, a começar pelo pai, Anaso, oriundo de uma família africana nobre e levado para a servidão na Jamaica ainda na infância. “Alguns grandes homens transportam consigo o seu orgulho — ainda que todos os motivos de orgulho tenham desaparecido — e foi o que aconteceu com Anaso, apesar de ainda não ter dez anos” escreve Smith. “Tendo reparado nisto, o sr. Ballard (o encarregado da propriedade) deu-lhe o nome de Nonesuch. Inigualável. O sr. Ballard tinha o sentido de humor típico dos naturais de Glasgow e orgulhava-se dos nomes espirituosos que dava às pessoas. À mulher mais feia de Hope chamou Afrodite, ao guarda coxo Hércules. O apelido ‘Bogle’, que significa espanta-pardais, dava-o ele a qualquer pessoa que tentasse orgulhar-se da sua aparência ou comportamento.” “A Fraude” é um romance sobre muitas coisas diferentes: a escravatura e a sua persistência para lá das aparências e da distância; as perceções e limitações de mulheres inteligentes na sociedade vitoriana; ganância, enganos, populismo, o poder da imprensa de massas, a manipulação do sentimento popular; e também a literatura. Zadie Smith, autora e ensaísta de profunda cultura literária, chegou à meia-idade e decidiu mergulhar na época de Dickens através de personagens que são escritores (a própria Eliza se abalança, discretamente) epensam como tal. O resultado, que assume uma forma reminiscente de alguns grandes romances do século XIX, é brilhante. b E 56 Algum do ensaísmo recente de João Barrento tem testado o alargamento do modo de escrever sobre literatura, já não em registo académico ou jornalístico, mas mais semelhante à leitura por prazer e de lápis na mão. Percorrendo os “caminhos e metamorfoses da poesia portuguesa contemporânea”, estes textos das últimas três décadas recorrem a dois métodos preferenciais: o close reading e o panorama alargado. Temos então uma antologia comentada sobre a natureza, “tema impossível” numa poesia moderna distante da falácia patética e até da mimese; uma interrogação sobre o desajuste na proverbial ligação entre poesia e língua, tendo em conta a “teologia negativa” da palavra; ou a ideia de que a Europa é na nossa literatura um assunto de prosadores e não de poetas. Os ensaios sobre autores específicos são demorados e atentos, e chegam a boas fórmulas ou contrastes: o idealismo concreto em Sophia, o ditirambo intempestivo em Egito Gonçalves, a realidade sem realismo em Eugénio, a inteligência do inteligível em Echevarría, Barrento de lápis na mão João Barrento, de 83 anos, foi em 2023 agraciado com o Prémio Camões o negrume e o classicismo em Gastão Cruz, a fenomenologia do impreciso e o ‘eu’ hipotético em António Franco Alexandre (o melhor dos ensaios individuais). Isto além de uma defesa do Herberto tardio e mais directo ou do sarcasmo niilista de Armando Silva Carvalho. Mas é impossível escapar à centralidade do ensaio sobre as últimas décadas da poesia portuguesa, do “Cartucho” (1976) até hoje. Retomando um texto publicado em 2016, Barrento, como muitos da sua geração, assume uma posição de pessimismo cultural, sem chegar P E D R O R O S Á R IO /L U S A ao escusado tom apocalíptico. Há, diz-nos, uma “crise do literário” que teve enorme repercussão na universidade e na imprensa, como na sociedade em geral. Em “tempos de indigência”, o que poderemos esperar que não uma poesia indigente? Mas ainda que não esconda o seu desconforto com o monopólio do ‘eu’, ou com a questão da “banalidade”, Barrento mostra-se bastante equânime, tomando essas e outras características como sintomas epocais ou possibilidades estéticas. Os sintomas são conhecidos: a inflexão anglo-saxónica, a narratividade, o prosaísmo, a elegia, o quotidiano, a melancolia, o recuo da metáfora, a recusa do poético, o regresso ao desencanto do real. Já as possibilidades resultam tanto da combinação variável desses elementos (veja-se o curioso elenco de oito tipos de melancolia) como das metamorfoses no trânsito entre gerações. E assim a poesia permanece ou se desvanece, extemporânea ou representativa do seu tempo. / PEDRO MEXIA Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia Com a sua escrita de uma precisão assombrosa, narrativamente rarefeita até ao limite, a irlandesa Claire Keegan tornou-se um caso à parte na recente ficção anglo-saxónica. Os seus textos — depuradíssimos, compactos, subtis, densos, mas ao mesmo tempo de surpreendente leveza — confiam na capacidade do leitor para entender o que fica apenas sugerido. “Acolher” e “Pequenas Coisas como Estas”, os dois livros de Keegan até agora publicados em Portugal, eram exemplos do que podemos qualificar de mestria na arte da contenção literária. Este novo volume, que recolhe três contos de fases diferentes da carreira da autora, não voa tão alto, nem nos arrebata da mesma maneira, mas reconhecemos nas suas histórias o mesmo fulgor narrativo. No conto que dá título à coleção, começamos por acompanhar um protagonista masculino, funcionário burocrático que regressa a casa, tristonho, à sombra de uma ameaça não especificada (“a confusão dos contratempos humanos e de se saber como tudo tem de terminar”), para depois compreendermos os reais contornos da perda que sofreu, afinal fruto da sua tacanhez e misoginia. Keegan faz ruir, por dentro, a lógica patriarcal e machista de um certo tipo de homem irlandês — e consegue-o à sua maneira: com pezinhos de lã. Em ‘A Morte Lenta e Dolorosa’, uma escritora em residência artística, numa casa onde viveu Heinrich Böll, enfrenta o rancor de um académico que não a considera à altura da honra, conseguindo vingar- se dele no texto que cria (e que talvez seja o próprio conto). Por fim, ‘Antártida’ parte de uma premissa similar à de “Vemo-nos em Agosto”, a novela de García Márquez que acaba de ser editada: “Cada vez que partia em viagem, a mulher, com um casamento feliz, perguntava a si mesma como seria dormir com outro homem.” Sem surpresa, em Keegan, o desfecho é muito mais inesperado, negro, brutal e ambíguo. / JOSÉ MÁRIO SILVA QQQQQ A UMA HORA TÃO TARDIA Claire Keegan Relógio D’Água, 2024, trad. de José Miguel Silva, 75 págs., €16 Contos QQQQ OS INFINITOS MODOS DA PALAVRA João Barrento Companhia das Ilhas, 2024, 352 págs., €18,75 Ensaios Top Livros Ficção Não ficção Estes tops foram elaborados pela GfK Portugal através do estudo de um grupo estável de pontos de venda pertencentes a dois canais de distribuição: hipermercados/supermercados e livrarias/outros. Esta monitorização é feita semanalmente, após a recolha da informação eletrónica (EPOS) do sell-out dos pontos de venda. A cobertura estimada do painel GfK de livros é de 85%. Semana anterior 1 1 O Recluso Freida McFadden 2 3 Deus na Escuridão Valter Hugo Mãe 3 - O Caçador Leslie Wolfe 4 2 A Criada Freida McFadden 5 4 Tudo Foi Como Tinha de Ser Raul Minh’alma As categorias consideradas para a elaboração deste top foram: Literatura; Infantil e Juvenil; BD e Literatura Importada Semana anterior 1 1 Pai Rico Pai Pobre Robert T. Kiyosaki 2 2 Hábitos Atómicos James Clear 3 - Como Mandar à Merda (De Forma Educada) Alba Cardalda 4 5 As Causas do Atraso Português Nuno Palma 5 - Segredos da Mente Milionária T. Harv Eker As categorias consideradas para a elaboração deste top foram: Ciências; História e Política; Arte; Direito, Economia e Informática; Turismo, Lazer e Autoajuda Semana 9 De 26/2 a 3/3 E ai nd a. .. M A N U E L D E A L M E ID A /L U S A DO 25 DE ABRIL DE 1974 AO 25 DE NOVEMBRO DE 1975 Irene Flunser Pimentel Temas e Debates, 2024, 472 págs., €20,90 Com o subtítulo “Episódios Menos Conhecidos” circunscreve-se a temática deste novo volume no qual a historiadora se debruça sobre “a autonomia do campo político (...) com destaque para o que aconte- ceu à ex-polícia política”. AINDA Ivette K. Centeno Companhia das Ilhas, 2024, 72 págs., €16,50 São poemas de 2023, num dos quais lemos: “Morno o corpo/ Que de noite nos resgata/ Não são precisas palavras/ Não é preciso mais nada.” Ou ainda: “Eram abraços/ Mas os braços caíam/ E eu não percebia/ Que eram a despedida.” FEMININO SINGULAR Quino Iguana, 2024, 112 págs., €13,95 Nos 60 anos de Mafalda, um volume que percorre as tiras feministas ou as que dizem respeito à condição da mulher da personagem imortal de Quino e os seus comparsas. Lê-las é a prova de que ainda, em pleno século XXI, fazem total sentido. A FAMÍLIA CASERTA Aurora Venturini Alfaguara, 2024, 248 págs., €18,45 Depois de “As Primas”, mais um romance da escritora argentina (1921-2015), que foi também tradutora e pro- fessora, exilada em Paris após o golpe de Estado de 1955. Segun- do o diário “Clarín”, um livro “bri- lhante, provocador, ambicioso e deliberadamente anacrónico”. SOBRE AS MULHERES Susan Sontag Quetzal, 2024, 192 págs., €17,70 Traduzido por Vasco Teles de Menezes, textos escritos no início dos anos 1970 por uma das pensadoras mais influentes do sécu- lo XX. Os temas variam, embora se concentrem na condição da mulher: a humilhação no envelhecimento, a beleza, o feminismo, o fascismo, o cinema. ORIENTE PRÓXIMO Alexandra Lucas Coelho Caminho, 2024, 528 págs., €19,90 Reedição revista, cujasvendas re- vertem para Gaza. “A Faixa continua interdita a jornalistas de fora, após mais de 100 dias de bombardea- mentos que mataram dezenas de repórteres palestinianos. Mais de dois milhões de pessoas estão a morrer à fome”, lemos na badana. GEOPOLÍTICA | MEDICINA | ENSINO MOBILIDADE E TURISMO | INDÚSTRIA E SUSTENTABILIDADE ARTE | MEDIA | ÉTICA | DIREITO | BANCA RISCOS E AMEAÇAS À SEGURANÇA NACIONAL Exclusivo para subscritores Expresso em: e em expresso.pt/podcasts/ Já disponível 11 episódios | 11 temas por Francisco Pinto Balsemão Podcast Com o apoio: E 58 Cinema Coordenação Lia Pereira lipereira@blitz.impresa.pt Histórias de mulheres Ela tem 17 anos, vive sozinha com um pai apicultor, joga voleibol num pequeno clube de São Paulo com o sonho de chegar ao escol daquele desporto e, para já, entrevê uma possível janela a abrir- se: uma proposta vantajosa para jogar no Chile, um primeiro pequeno grande passo ascensional. Para já, ela é a estrela da equipa onde joga, uma colmeia feminina multicolor, na etnia e na orientação sexual, com a energia vital da juventude a irrigar esperanças e vontades em todas as direções. Com um campeonato à beira de ser ganho — falta um último e definitivo jogo — e a sua prestação a ser observada antes que a proposta se torne firme, Sofia descobre que está grávida. Aquela criança em extemporânea gestação vai anular- lhe qualquer futuro risonho, ela não a quer ter. Mas, a quem recorrer, como fazer, num Brasil onde a interrupção voluntária da gravidez é crime, num Brasil onde há forças organizadas e poderosas para perseguir e escorraçar publicamente quem a faça ou deseje fazer — ainda por cima, em nome de Deus? E, todavia, logo ali, do outro lado da fronteira, no Uruguai, o aborto é livre e gratuito para as mulheres daquele país... “Levante”, primeira longa- A atriz Kika Sena é uma mulher trans, natural do interior do Brasil e de uma família pobre, tal como a personagem que interpreta, em “Paloma” Entre uma jovem paulista de 17 anos, grávida que não pode interromper a gravidez, e uma mulher trans do sertão nordestino, acontece um Brasil em carne viva TEXTO JORGE LEITÃO RAMOS metragem da paulista Lillah Halla, coprodução entre França, Brasil e Uruguai cuja estreia mundial na Semana da Crítica de Cannes, em 2023, mereceu prémio da FIPRESCI, não se queda pela usual história trágica de uma jovem mulher encurralada por uma gravidez indesejada. O drama está lá — e bem tecido, quer na micro teia familiar, quer na fanática hipocrisia social —, mas o campo da denúncia é adubado pela vontade de mudança e, sobretudo, pela determinação insubmissa. Daí que o fundo realista em que o filme acontece encontre um desfecho em modo de desejo: o da firme solidariedade queer a transformar um grupo num embalo insurreto. O título — “Levante”— é isso que induz, na feliz conjugação entre a designação de uma jogada do voleibol (o levantamento), o ato de retirar o feto e a amotinação. Docilidade resignada, nunca! Num outro filme, muito longe de São Paulo, no fundo do sertão nordestino de Pernambuco, Paloma é uma mulher trans, analfabeta, religiosa, de vida pobre e rotineira: trabalha numa plantação de mamão e cuida do seu homem, Zé, pedreiro de profissão, e da filha de 7 anos (cuja origem havemos de perceber lá para o fim do filme). É uma existência simples e sã, o sexo é bom, a ternura muita, a gente em volta não causa problemas de maior, embora se sintam, aqui e ali, sintomas de uma homofobia larvar. Paloma tem, contudo, um sonho: casar. Não, simplesmente, casar, mas casar na igreja, de branco, com véu, vestido e grinalda — a preceito, como deve ser. É uma mulher sobre quem muito bem calha a bênção evangélica (“Bem- aventurados os simples porque deles é o Reino dos Céus”), pelo que, na sua limitada visão do mundo, fica deveras contristada quando o bondoso padre da paróquia lhe explica que, na conceção milenar da Igreja Católica, a espécie humana não contempla considerar mulher a identidade que Paloma toma como sua. É uma lei antiga a que só o Papa pode outorgar exceção. Paloma não desiste, põe uma amiga a escrever uma respeitosa carta ao ‘seu’ Papa, a pedir a tão desejada concessão. Quando a resposta chega, evidentemente negativa, é o próprio piedoso sacerdote local que lhe indica uma possibilidade de levar a cabo o seu intento. No fundo do sertão brasileiro há gente para todas as estações... E 59 “Paloma” é um filme curioso. Por um lado revela como uma identidade sexual transgressora pode coabitar com práticas sociais conservadoras. Por outro mostra como uma sociedade fechada em conceções arcaicas pode incorporar uma família como a formada por Paloma, a filha e Zé, desde que seja discreta, calada — e, acima de tudo, não se meta com as instituições. É que quando, por portas travessas, Paloma acaba por consumar o seu sonho — e a cerimónia aparece na televisão — e as coisas mudam de feição. Radicalmente. Há um lado de fábula, em “Paloma”. E uma carga realista, pesada, bruta, letal. As duas coexistem cerzidas pelas artes do realizador Marcelo Gomes — e se alguma dúvida nos assalta, é do lado primeiro, quando parece estar tudo bem. Aí, a narrativa ostenta alguma ingenuidade, Paloma é uma personagem idealizada, o estereótipo do que gostaríamos que fosse. Depois, tudo se altera. Até ela, quando vocifera contra um Zé apanhado em contrapé, alvo de chacota pública, em invetivas que seriam rudemente homofóbicas se não fossem por ela proferidas. A realidade é complexa, não adianta tentar simplificar. “Paloma” vive muito do olhar de Kika Sena, atriz trans, ela mesma do interior, família pobre, horizonte limitado pela sua origem de classe, improvavelmente transportada para o protagonismo de um filme que discute o lugar social das pessoas fora da dicotomia homem- mulher cis. É um olhar que nos interpela, na lhaneza de uma história — aliás inspirada em factos reais — que levanta o véu sobre a endémica fobia LGBT brasileira que faz com que a violência de género seja um verdadeiro problema nacional. b QQQ LEVANTE De Lillah Halla Com Ayomi Domenica, Loro Bardot, Grace Passô (Brasil/França/Uruguai) Drama / Classificação a definir QQQ PALOMA De Marcelo Gomes Com Kika Sena, Patricia Dawson, Márcio Flecher (Brasil/Portugal) Drama M/14 E ai nd a. .. AMOR EM SANGUE De Rose Glass Em Las Vegas, Lou, a tímida gerente de um ginásio, apaixona-se por Jackie, uma ambiciosa culturista em busca do seu sonho. Porém, o seu amor vai gerar violência e levá-las à rede criminosa da família de Lou. Com Kristen Stewart e Katy O’Brian CICLO ‘SE O CINEMA É UMA ARMA’ Para celebrar o 50º aniversário do 25 de Abril, o Cinema Batalha, no Porto, recebe a partir de sábado um ciclo de filmes sobre o poder transformador do cinema e o seu papel como ferramenta de luta. Com obras de ficção e documentá- rios de Brasil, Palestina, Hong Kong ou Nigéria. A TERRA PROMETIDA De Nikolaj Arcel Filme protagonizado por Mads Mikkelsen, que conta a história do empobrecido capitão Lud- vig Kahlen, que em 1755 parte à conquista da inabitável charneca dinamarquesa, em nome do rei, en- frentando a oposição do impiedoso dono da região. VERMIN — A PRAGA De Sébastien Vaniček Filme francês de terror sobre Kaleb, que na véspera de completar 30 anos se sente mais só do que nunca. Apaixonado por animais exóticos, arranja uma aranha rara, que deixa escapar. Rapidamente o subúrbio onde vive mergulha no caos, à me- dida que os aracnídeos mortais se multiplicam. Como um dos anteriores filmes de Kore-eda (“O Terceiro Assassinato”), “Culpado — Inocente — Monstro” organiza-se como uma lição de epis- temologia perspetivista, que volta a ter como matriz o “Rashômon” de Kurosawa. De facto, o que aqui encontramos é um misto de thriller psicológico e melodrama passional, que procede por via de uma narrativa enrodilhada,onde uma mesma série de acontecimentos vai sendo filtrada pelos pontos de vista de várias persona- gens. A saber: o de uma jovem viúva que começa a estranhar os comportamentos esdrúxulos do seu filho único com cerca de 12 anos, e o do professor do rapaz, que, após uma confissão feita pelo último, será acusado pela sua mãe de o ter agredido e insultado. A estas duas perspetivas somar-se-á ainda a do próprio miúdo, que, como no fim ficaremos a perceber, vai sendo interiormente devorado por um fogo que arde sem se ver (não é por acaso que o filme arranca com a descrição de um incêndio). Da justaposição destes três olhares concêntricos resulta uma ‘história em espiral’, que obedece a uma lógica de constante revisitação e aprofundamento, com cada capítulo a tornar gradualmen- te mais transparente — por variação do ângulo de visão ou da dilatação do tempo da ação — o que, a princípio, era opaco. Ainda que a complexidade desta estrutura narrativa pareça reproduzir, a seu modo, a confusão emocional do rapaz, não conse- guimos deixar de sentir que é demasiado artificial e pesada para fazer jus à delica- deza dos temas que aqui se abordam: os da rejeição e da construção da identidade pessoal, que têm vindo a marcar a obra de Kore-eda desde o início. Esta discrepância entre tema e estrutura torna-se evidente no último ato (que nos deixa por fim a sós com o miúdo e o seu ‘monstro’), que, pela sua sensibilidade, acaba por expor a rigidez emocional e a função meramente acessória dos que o precederam. O que só prova que o cinema de Kore-eda é tanto melhor quanto mais imediato consegue ser. / VASCO BAPTISTA MARQUES QQQ CULPADO — INOCENTE — MONSTRO De Hirokazu Kore-eda Com Sakura Andô, Eita Nagayama, Soya Kurokawa (Japão) Drama/Thriller M/12 DE b MÍNIMO A QQQQQ MÁXIMO EXPRESSO E S T R E L A S DA S E M A N A Vasco Baptista Marques Jorge Leitão Ramos Francisco Ferreira Amor em Sangue QQQ Culpado — Inocente — Monstro QQ QQQ Diálogos depois do Fim QQ QQQ Duna: Parte Dois Q QQQ Eu Capitão Q QQQQ Os Excluídos QQQQ QQ Levante QQQ Paloma QQQ Pobres Criaturas Q QQQQ Priscilla QQQ QQQ Quatro Filhas QQ QQQ A Sala de Professores QQQ QQ A Terra Prometida Q QQ Vidas Passadas QQQ QQQQ QQ Yannick QQQ E 60 Coordenação Lia Pereira lipereira@blitz.impresa.pt Parece que foi ontem que ela começou a sair da casca. Foi quando a vimos a fazer de Eleven na primeira temporada de “Stranger Things”, não passava de uma miúda de 12 anos. Millie Bobby Brown está hoje com 20, vai-se preparando para dizer adeus àquela série (dizem que é lá para meados de 2025) e este “A Donzela” torna-a agora heroína de cinema de ação e de espada em punho. Não é preciso que alguém apregoe para que se sinta que é, em tudo, um passo na carreira dela programado pela Netflix com todo o cuidado. Aliás, a aposta do gigante do streaming Uma atriz contra castelos e dragões “A Donzela”, aventura medieval da Netflix, é um veículo de promoção à medida de Millie Bobby Brown TEXTO FRANCISCO FERREIRA na atriz já ficou bem vincada com o sofrido “Enola Holmes” e a sua ainda mais sofrida sequela. Mas quem se admira? Em 2018, tinha Millie 14 anos, foi apontada pela revista “Time” ao Top 100 das pessoas mais influentes do mundo, no mesmo ano em que a UNICEF fez dela a mais jovem Embaixatriz da Boa Vontade. Ela sabe muito bem o que significa ser famosa na era dos memes e do TikTok. Millie Bobby Brown também sabe que a fama dá trabalho e, de facto, dá o que pode e oferece o melhor de si mesma a Elodie, assim se chama a heroína guerreira de “A Donzela”. Se o seu profissionalismo é inegável, também é verdade que o filme, esse, é um chorrilho de lugares-comuns que começa no guião de Dan Mazeau (o autor de “Fast X” e “Fúria de Titãs”) e continua na realização do espanhol Juan Carlos Fresnadillo, a quem falta quase tudo — e só se lhe pedia um bocadinho de rasgo e de originalidade, umas gotas de um perfume qualquer que fizesse a audiência esquecer que este filme já foi feito mil vezes. Na história que se conta, a Elodie de Millie Bobby Brown é forçada pelo pai, o arruinado Lord Bayford (Ray Winstone), a casar-se com Henry (Nick Robinson), filho de A DONZELA De Juan Carlos Fresnadillo Com Millie Bobby Brown, Ray Winstone, Angela Bassett (EUA) Na Netflix, em streaming Millie Bobby Brown, estrela de “Stranger Things”, é a protagonista do filme que, com tremendo investimento no CGI, quer colar-se a aventuras como “A Guerra dos Tronos” está para durar no mainstream (o do cinema e o dos jogos de vídeo). O problema é que, no caso deste filme de Juan Carlos Fresnadillo, o artifício faz questão de se notar a cada segundo, por mais que Millie disfarce, por mais que ela procure criar com quem a vê uma relação com alguma intensidade emocional. É uma atriz a bater-se contra castelos, grutas e dragões no pano de fundo, batalha inglória a nível artístico e que não a pode levar a nenhum lugar. Estranhou-se que “A Donzela” não tenha sido mostrado à imprensa com alguns dias de antecedência à estreia (como sucede geralmente); quando assim é, costuma ser mau sinal. De facto, é um daqueles filmes tão desalmados que não consegue sequer propor uma reciclagem de convenções; não sabe, simplesmente, como se apropriar dos códigos do género fantástico e de aventuras com um mínimo de entusiasmo. No ecrã parece que está tudo no sítio certo, como se um algoritmo de uma qualquer inteligência artificial o tivesse parido sem dar cavaco a gente de carne e osso. Há de redundar em êxito nos sofás de casa nas próximas semanas... Já Millie Bobby Brown terá certamente que procurar outro caminho. A oportunidade vai aparecer, é uma questão de tempo. b uma rainha vilã que Robin Wright trata com jeitos caricaturais. A boda traz água no bico e, para lá da nova sogra malvada que serve criaturas do Demo, descobre a protagonista que tem à sua espera um horizonte especialmente cruel. Apesar do seu sotaque tão british (que soou mal a alguns ouvidos na América), não tem Elodie outro remédio senão transformar-se numa espécie de Rambo em paisagens medievais, batendo-se contra dragões e outros bicharocos nada recomendáveis nos mais escuros subterrâneos do planeta. O investimento no CGI é tremendo e quer colar-se às imagéticas de “A Guerra dos Tronos” e de “A Casa do Dragão”, esse filão aberto por “O Senhor dos Anéis” E 62 Coordenação Luís Guerra lguerra@blitz.impresa.pt Sérgio, à queima-roupa Sérgio Godinho celebra o 50º aniversário da Revolução dos Cravos e do primeiro álbum que lançou em liberdade, “À Queima Roupa”. O espetáculo “Liberdade 25” está na estrada TEXTO RUI MIGUEL ABREU “Liberdade”, garante Sérgio Godinho, continua a ser a mais poderosa das palavras. “É uma palavra que tem muitos sentidos. A música ‘Liberdade’ diz que esta tem de ser posta em prática, mas também vivida quotidianamente. É a palavra que atravessa mais as minhas canções, se não enquanto palavra, pelo menos como ideia. Mas hoje sabemos que à ‘paz, pão, habitação, saúde e educação’ temos que acrescentar a justiça. Ela tem tropeçado nela própria e derrubado governos. Temos que a cuidar melhor...” Em vésperas de voltar a pisar os palcos dos Coliseus de Lisboa (quarta e quinta) e do Porto (dias 23 e 24), o homem que em 1974 atingiu o país à queima-roupa com um conjunto de canções urgentes e necessárias fala ao Expresso horas antes de descer sozinho o Chiado, em Lisboa, numa solitária arruada, para apresentar o seu novo romance, o terceiro — “Vida e Morte nas Cidades Geminadas”. “Nestes concertos haverá uma coisa nova”, (quase) revela o cantor. “Uma coisa mais próxima da spoken word, com um ritmo mais...” A ideia fica no ar e logo se esfuma, dando a ideia de ser trunfo de que só se puxará mesmo no palco. “Eu e os Assessores [banda de Godinho] gostamos de voltar a canções SÉRGIO GODINHO Centro Cultural e de Congressosdas Caldas da Rainha, sábado, 21h30; Coliseu de Lisboa, quarta e quinta, 20h30; Coliseu do Porto, dia 23, 21h30, dia 24, 17h E 63 R IT A C A R M O Nascido há 78 anos, Sérgio Godinho tinha 28 no 25 de Abril de 1974. Nos Coliseus de Lisboa e Porto, o espetáculo “Liberdade 25” contará com A Garota Não e Canto Nono como convidados Nas páginas da mesma biografia, Sérgio Godinho explica como foi “raptado” assim que entrou e Portugal, envolvendo-se no histórico momento através dos “cantos livres” que despontavam por todo o lado, nas fábricas e nas universidades. No Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, por exemplo, lembra-se de, com um “frisson especial”, dar voz a ‘Maré Alta’, tema que fechava o alinhamento de “Os Sobreviventes”: “Cantar ‘a liberdade está a passar por aqui’, que antes tinha sido uma premonição, na própria altura em que isso se estava a tornar realidade, era incrível.” “À Queima Roupa” permanece um trabalho-chave precisamente porque combina os distintos olhares de quem, num distante Canadá, observava ao longe o desenrolar da história, e depois, já em Portugal deu consigo com a revolução a transformar todas as vidas. “Fruto do tempo em que surge”, escreve Nuno Galopim, “‘À Queima Roupa’ é habitualmente descrito como um dos álbuns politicamente mais explícitos da obra de Sérgio Godinho. Sem o panfletarismo imediato que dominaria casos paradigmáticos da canção política pura e dura [...], Sérgio Godinho retratava o seu tempo, aderia à revolução, mas não colocava a qualidade poética da escrita em segundo plano, evitando assim uma rendição incondicional à doutrina e urgência de certas manifestações contemporâneas.” “Toda a gente se pergunta o que vai acontecer com o resultado destas eleições”, admitia ao Expresso Sérgio Godinho há exatamente uma semana, em vésperas da votação. “Mas é um momento que faz parte da nossa vida democrática”, adianta ainda o cantor, que logo depois alerta para o “passo de caracol” da justiça, o tal valor que hoje, entende o artista, precisava de ser reclamado ao lado da “paz, pão, habitação, saúde e educação” tão necessárias à fruição da liberdade. A que se canta e, sobretudo, a que se quer viver. “Todas essas coisas têm que ser preenchidas com conteúdos, caso contrário são palavras ocas.” “Estaremos sempre numa democracia imperfeita, há muito para melhorar. Mas o álbum em que eu dei voz a esse anseio de liberdade apareceu num período muito quente e algumas das canções espelhavam o momento político que se vivia. Mas uma outra, a ‘Etelvina’, de certo modo tem o condão de ter inaugurado uma escrita mais narrativa, voltada para personagens, para vidas. Isso interessa-me muito e agora ando mesmo empenhado na ficção narrativa, como o ‘Vida e Morte nas Cidades Geminadas’ bem atesta. Essa vontade de narrar histórias”, prossegue Godinho, “que podem ser mais ou menos ficcionadas, mas que se inspiram na vida das pessoas, é uma constante das minhas canções. Por isso, na minha cabeça, uma canção como a ‘Etelvina’ é tão valorizada como a ‘Liberdade’. Outras desatualizaram-se, como ‘Os Pontos nos Iis’... Já não estamos na reforma agrária, não é?”, questiona o cantor, não escondendo um sorriso. Como diria Dorothy em “O Feiticeiro de Oz”, já não estamos no Kansas, mas o mundo novo que se estende à nossa frente pode não ser assim tão admirável. Cantar a liberdade — e a paz, o pão, a habitação, a saúde e a educação (e a justiça) — pode ser mais importante do que nunca. b bem. Gosto muito do trabalho que ela faz e pelos vistos ela também gosta do meu. É uma coisa sincera. A primeira vez que interagimos foi no espetáculo ‘Conta-me Uma Canção’, um momento em que também se fala muito. Já o fiz este ano com a Capicua, no Maria Matos [em Lisboa]. Nesses momentos era suposto eu cantar uma canção dela e ela retribuir com uma minha, mas disse-me logo ‘isso é infame, não sou capaz’ e fez antes um medley com sete canções [risos]”. Além da celebrada autora do álbum “2 de Abril”, Sérgio Godinho chamará aos palcos dos Coliseus o grupo vocal Canto Nono, “que é do Porto e que trabalhou muito com o Zé Mário”, acrescenta, referindo-se, claro, ao seu grande amigo e companheiro de tantas viagens José Mário Branco, falecido em 2019. “No meu disco ‘O Irmão do Meio’, o Canto Nono participava ao meu lado e do Zé Mário numa versão do ‘Que Força É Essa’, que ele mesmo arranjou. Eles são muito rigorosos e também fizeram em tempos uma versão do ‘Etelvina’”, explica-nos Sérgio Godinho, referindo-se a outro momento importante do primeiro álbum que lançou já em plena liberdade, “À Queima Roupa”, disco começado no exílio canadiano e terminado já no Portugal de Abril. Quando a Revolução dos Cravos se deu, Sérgio Godinho — que já tinha lançado “Os Sobreviventes” e “Pré-Histórias”, dois álbuns gravados no Château de Hérouville, em França, em 1972 e 1973, respetivamente — encontrava-se em Vancouver (Canadá), a trabalhar com a companhia de teatro independente Genesis. “Até que um dia, precisamente a 26 de abril”, relatou o cantor em “Retrovisor”, a biografia assinada por Nuno Galopim (Assírio e Alvim, 2006), “li que ‘tanques tinham ocupado a praça central de Lisboa’. Era como vinha escrito”. De malas já preparadas para viajar para França para celebrar em família o 60º aniversário do seu pai, Sérgio Godinho descobriu quando chegou a Paris no primeiro dia de maio que amigos como José Mário Branco e Luís Cília já tinham abalado para Lisboa “no avião do Cunhal”. Sérgio percebeu aí que poderia também regressar a Lisboa, sem temer represálias por ser refratário. “E assim vim [...] de longe, de muito longe, como diria o Zé Mário.” “Cantar ‘a liberdade está a passar por aqui’, que antes tinha sido uma premonição, na própria altura em que isso se estava a tornar realidade, era incrível” SÉRGIO GODINHO antigas, dar-lhes novas roupagens. É algo que fazemos com muito rigor, que requer muitos ensaios”, admite Sérgio Godinho, homem que veio do teatro e que entende bem que uma coisa para parecer natural tem que ser burilada até ao mais pequeno detalhe. “Liberdade 25”, que passou por Ponte de Lima e Ílhavo, e este sábado será também aplaudido nas Caldas da Rainha, terá nos Coliseus dois convidados. Comecemos por A Garota Não. “Cantei com ela no CCB e fui convidado surpresa não anunciado também na Casa da Música”, refere Sérgio Godinho. “Esse cruzamento resultou muito E 64 A história portuguesa dos Depeche Mode é longa e teve sempre como palco grandes arenas: os estádios de Alvalade e Antas em 1993, o então Pavilhão Atlântico, atual Meo Arena, em 2006 e 2009, e, mais recentemente, o festival NOS Alive, nas edições de 2013 e 2017. O regresso a Lisboa acontece, agora, em nome próprio, com o álbum “Memento Mori”, o 15º da sua discografia e o primeiro que a banda britânica edita depois da morte do teclista, baixista e elemento fundador Andy Fletcher, em maio de 2022. O palco será, de novo, a arena do Parque das Nações. Quando o Expresso falou com Dave Gahan, no início do ano passado, o vocalista confessava-nos que guarda “ótimas memórias” de Portugal, recordando umas férias que passou no Algarve. “Lembro- me de ir lá com a minha família inteira. Diverti-me muito”. A diversão, claro, não acontece só nas férias. Gahan e o teclista e guitarrista Martin Gore são mestres da performance e as suas passagens pelo país deixaram marcas fortes na memória de uma legião de fiéis, sempre pronta a celebrar clássicos como ‘Personal Jesus’, ‘Just Can’t Get Enough’ ou ‘Enjoy the Silence’. Apesar de a “Memento Mori Tour” prestar particular atenção ao álbum que lhe dá nome, e que lhes rendeu alguns dos singles mais memoráveis que editaram nas últimas décadas (‘Ghosts Again’ e ‘My Favourite Stranger’ à cabeça), os Depeche Mode têm transformado concertos recentes numa verdadeira recapitulação dos melhoresmomentos de um percurso que se alonga por mais de 40 anos: dos anos 1980 de ‘Everything Counts’ e ‘Strangelove’, servida nesta digressão em registo acústico por Gore, aos 90 de ‘I Feel You’ e ‘It’s No Good’, seguindo para o novo milénio com ‘A Pain That I’m Used To’, ‘John the Revelator’ ou ‘Heaven’. Chegando a Portugal com um ano de estrada de “Memento Mori”, a banda faz-se acompanhar ao vivo pelos colaboradores de longa data Peter Gordeno nas teclas — que Banda em mutação Martin Gore e Dave Gahan, os dois Depeche Mode sobreviventes tem também no currículo os U2, The Who ou George Michael — e Christian Eigner na bateria, mas a dinâmica entre Gahan e Gore parece ter-se alterado com a morte de Fletcher. Segundo uma reportagem do jornal britânico “The Guardian” de um espetáculo na O2 Arena, em Londres, no passado mês de janeiro, “o novo poder da dupla nasce hoje do afeto e cordialidade que os sobreviventes mostram um ao outro”. Apesar de a relação entre os dois músicos ter passado por fases complicadas ao longo dos anos, especialmente devido às situações de dependência de substâncias que ambos viveram, agora, “sorrisos rasgados” parecem atestar uma maior proximidade entre aquele que sempre foi o núcleo criativo dos Depeche Mode. Andy Fletcher é recordado nos concertos quando a banda apresenta ‘World in My Eyes’, canção favorita do falecido teclista, que não chegou a participar nas gravações de “Memento Mori”. A N T O N C O R B IJ N “Ele não chegou a ouvir este álbum, mas presumo que a sua morte tenha tido algum impacto nele. Só pode ter tido, porque tudo muda quando perdes alguém de quem és muito próximo”, assumiu Gahan ao Expresso, “enquanto artista, tudo o que acontece na minha vida encontra uma forma de se infiltrar na música, nas canções ou nas letras. Acredito que houve, certamente, momentos em que sentimos a sua presença”. Apesar de o desaparecimento do terceiro vértice da banda ter agitado as suas fundações, o duo descansou os admiradores aquando da apresentação de “Memento Mori”, garantindo que não pensaram em desistir. “Temos a certeza de que ele quereria que o fizéssemos. E isso deu ao álbum todo um novo significado”, declarou Gore em outubro de 2022. Meses depois, Gahan confessava-nos que a hipótese de um álbum ser o último dos Depeche Mode é algo que lhe ocorre em todos os que a banda grave. “Sempre que acabamos um disco, penso: ‘pronto, já está, não volto a fazer isto’. Mas aqui estou eu, portanto...” O futuro até pode ser um tanto ou quanto incerto, mas parece estar garantido mais um espetáculo memorável em Lisboa. / MÁRIO RUI VIEIRA DEPECHE MODE Meo Arena, Lisboa, terça, 20h30 E ai nd a. .. TREMOR Ponta Delgada, Açores, de 19 a 23 O mais marcante festival açoriano da última década regressa à ilha de São Miguel para a 11ª edição, contando, entre residências artísticas e cami- nhadas, com atuações da francesa Colleen (Teatro Micaelense, dia 20, 22h15, na foto), dos barcelenses Glockenwise (Portas do Mar, dia 22, 22h) ou do açoriano P.S. Lucas (Tea- tro Micaelense, dia 23, 20h30). BELÉM SOUNDCHECK CCB, Lisboa, de 21 a 24 Mostrando que, ao fim de 30 anos, continua a querer atrair todo o tipo de público, o CCB estreia o festival Belém Soundcheck. No primeiro dia, recebe o fado de Camané (20h) e o jazz de Maria João (22h); no segundo, a música de Vivaldi pelo ensemble Il Giardino Armonico com o violoncelis- ta Giovanni Sollima (20h); no terceiro, Patti Smith (na foto) apresenta o espetáculo audiovisual “Correspon- dences” com o Soundwalk Collective (19h); e no último, o protagonismo será da orquestra Kremerata Baltica (17h). PORTUGAL PLAYS SAKAMOTO Museu do Oriente, Lisboa, quinta, 19h30 Um ano depois do seu desapareci- mento, o compositor Ryuichi Sakamo- to será homenageado num espetá- culo que junta Rodrigo Leão (na foto), com quem o músico japonês colabo- rou em 2004, no álbum “Cinema”; o pianista João Vasco, que se apre- sentará em formato trio; e a leiriense Surma, que editou recentemente o EP “If I’m Not Home: I’m Not Far Away”, inspirado na obra de Sakamoto. SEM GASTOS DE CANCELAMENTO o SE O PREÇO BAIXAR NÓS IGUALAMOS 1 algés • Aveiro • Braga • Caldas da rainha • ÉVORA • Faro • Funchal • leiria • lisboa • Loures • ponta delgada • porto • SINTRA • V. N. Gaia RESERVA POR ? RESERVAS ATÉ / 1994-2024 E 66 Coordenação Cristina Margato cmargato@expresso.impresa.pt Quem somos nós contra a morte. À violência do seu presente, Jo só pode responder com uma violência que é a medida da sua resistência, enquanto ser vivo. As flechas que Jo dispara a torto e a direito, aparentemente, têm uma outra face, convivem com outras dimensões; “um dia, quando estiveres a morrer, quando for aquele dia, aquele dia em que te dizem, ou o dia em que percebes que sabias, mas não conseguias admitir, nesse dia, gostava de estar ao pé de ti”: é assim que Jo fala da sua morte, e é assim que Jo profere, com terrível sobriedade, uma das mais extraordinárias declarações de amor do teatro moderno. “Oh, meu Sam, meu Sam! Eu casava contigo agora neste instante!”; é assim que Jo recobre com ironia a verdade e a intensidade dos sentimentos. E quanto aos amigos, “… provavelmente gostamos deles, apesar de tudo”, observa ao marido, A D R IA N O F IL IP E Benedita Pereira, Sandra Faleiro e Manuela Couto A peça começa em casa de Sam e Jo. São um casal entre os 34 anos, tal como os outros dois casais presentes — Fred e Carol, Edgar e Lucinda. O ambiente é de classe média evoluída e sofisticada. É fim de noite, e sente-se que o álcool já circulou. São amigos, conhecem-se bem, costumam estar juntos. Jo está doente — “chamas-te Sam; esta é a tua casa; e eu sou a tua mulher, e estou a morrer…”. É verdade, é ela quem o diz, e de facto Jo é quem funciona como um centro de energia que dispara flechas em todos os sentidos. Ela está a morrer, tem dores horríveis, e Sam deixa que ela diga e faça tudo o que quer. Jo está já, percebemos rapidamente, na fase em que a violência contra os outros — principalmente contra quem gosta dela e de quem ela gosta — funciona como um escudo de defesa contra o sofrimento e A peça de Edward Albee é uma extraordinária parábola não apenas sobre a chegada da morte, mas também sobre a realidade de existirmos, e de sabermos — ou não — quem somos TEXTO JOÃO CARNEIRO quando ele lhe pergunta por que é que os convidam. O primeiro ato acaba com a chegada de um outro par, Elizabeth e Óscar. A sala está deserta, já todos foram embora, ou foram dormir. O segundo ato começa na manhã seguinte, e Elizabeth está na sala. É, nas indicações do texto, “uma mulher elegante… esplêndida seja qual for a idade”. Sam depara com ela quando desce do quarto de dormir, acabado de acordar; “quem é a senhora?”, pergunta atónito. Sam vai repetir a pergunta inúmeras vezes, sem conseguir uma resposta satisfatória. Entra Óscar, que esteve no escritório; é um negro de cerca de 50 anos. Finalmente, e depois de tentar expulsar os intrusos, sem o menor sucesso, ficamos a saber: “ora… eu sou a mãe da Jo… eu sou a mãe da Jo, vim de Dubuque”; “esta senhora é a mãe da Jo; esta é a senhora de Dubuque; a mãe da Jo”, corrobora Óscar, com a calma da evidência. Para Sam, trata-se de um pesadelo; a mãe da Jo, que ele conhece, é uma senhora pequena, insignificante, magra, com cabelo ralo pintado de cor-de-rosa, e vive em New Jersey. Os seus argumentos, contudo, escorrem por Elizabeth e Óscar como água sobre um oleado, o que ele diz tem pouca importância. Chegam os amigos, e a cena da véspera vai ter uma espécie de repetição, mas durante a manhã. A certa altura, Jo assoma ao alto das escadas. “Vista do alto, sobre a vala cá em baixo”, limita-se a dizer Óscar. A realidade mudou. Jo cai nos braços de Elizabeth e também não responde quando Sam lhe pede que diga que não se trata da sua mãe. “Vem, deixa-meafagar-te a fronte, pentear-te o cabelo, lavar- te, deitar-te e contar-te histórias”, diz Elizabeth. Elizabeth e Óscar não são apenas personagens diferentes, que aparecem, eventualmente, no momento em que a morte tem de ser vista de frente; são os sinais de uma outra realidade, na qual as palavras, as razões e a lógica habituais, do quotidiano, têm pouco ou nenhum sentido. “E eles não adivinham quem eu seja”, reflete, quase no final, uma Elizabeth algo perplexa, perante a natural cegueira dos que vivem. Interpretação de Cucha Carvalheiro e Alberto Magassela — Elizabeth e Óscar, respetivamente — além de Álvaro Correia, Benedita Pereira, Fernando Luís, Manuela Couto, Renato Godinho e Sandra Faleiro. Tradução de João Paulo Esteves da Silva, encenação de Álvaro Correia. b A SENHORA DE DUBUQUE De Edward Albee Teatro da Trindade, Lisboa, até 21 de abril “Angela (A Strange Loop)” é o título de um espetáculo que diz ao que vai: a his- tória de Angela, que é de estranhamento. O espetáculo da dupla de criadores alemães Susanne Kennedy (encenadora) e Markus Selg (artista multimédia) conta a história de uma mulher, Angela, uma influencer, desde o nascimento até à vida para lá da morte, tomando-a como emblemática da interrogação do que significa ser humano hoje. Numa breve descrição do enredo, são sublinhados os momentos de um quotidiano apa- rentemente banal. “Angela janta com o namorado”, “Angela tem dor” ou “Angela B E A B O R G E R S desaparece” são apenas três exemplos para uma abordagem ao teatro que cons- trói uma narrativa sobre a vida integrando na construção de identidade a vivência digital. A pessoa é assim constituída a partir da fragmentação da existência em vários mundos, que se conectam e inter- ligam na perceção do que experiencia. O corpo entra em falência ressoando o caos da realidade mais ampla onde existe. Imaginação e real confundem-se, numa prática artística que está no ADN da dupla, “exploram o potencial que existe entre corpo, tecnologia, arte e rituais”, de acordo com o texto de apresentação. O corpo doente corresponde à problema- tização da sociedade em que vivemos, nomeadamente no modo como lida com a doença. Uma peça multimédia erguida sobre a profunda vulnerabilidade humana que coloca muitas questões, entre elas: Como vivemos e como morremos jun- tos? Como tomamos conta uns dos ou- tros, quando a vida se aproxima do fim? “Angela (A Strange Loop)” é a estreia na criação de palco da estrutura Ultraworld Productions, de Susanne e Markus, um laboratório de pesquisa que tem como motores da criação tecnologias como a realidade virtual e a inteligência artificial. / CLAUDIA GALHÓS ANGELA (A STRANGE LOOP) De Susanne Kennedy e Markus Selg Teatro Nacional de São João, Porto, sexta e sábado RÁDIO BENJAMIN De Guilherme Gomes CCB, Lisboa, até domingo A inspiração para “Rádio Benjamin” veio, maioritariamente, de textos radiofónicos que Walter Benjamin es- creveu para a infância. Em causa estão assuntos o ato de contar histórias, que se prendem com a imaginação, com o sonho e com a vida — a vida chamada muitas vezes, e nem sempre com pro- priedade, “vida real”. Um espetáculo do Teatro da Cidade. O SEGUNDO LIVRO DE CALEB KESENBERG De Pedro Saavedra CAL, Lisboa, até domingo Esta é uma peça de fronteira, nela existindo uma linha que separa dois espaços, duas realidades; uma linha que tenta ser atravessada por um UM RETRATO DE PETER HANDKE — IMAGENS E PASSAGENS DA SUA OBRA De Gerd Hammer e Vera San Payo de Lemos Teatro Aberto, Lisboa, até domingo Marcando o final da carreira do espetáculo “Tempestade Ainda”, de Peter Handke, Gerd Hammer e Vera San Payo de Lemos conceberam um espetáculo de leituras encenadas, com diversos textos que percorrem a obra do escritor e dramaturgo. Interpretação de Sara Matos e Luís de Barros. B R U N O S IM Ã O F IL IP E F IG U E IR E D O grupo de pessoas que procuram uma mudança nas suas vidas. Texto e encenação de Pedro Saavedra, interpretação de Edmundo Rosa, Henrique Gil, Marta Jardim, Paula Garcia, Pedro Saavedra e Wagner Borges.E ai nd a. .. a introdução de novos padrões aos mais diversos níveis. Com o sistema - - ma de infotainment - o smartphone app - - - - a E-308 e E-308 SW: ENERGIA 100% ELÉTRICA PARA TODOS - - - - - no segmento. todas as vantagens de uma viatura NOVO MOTOR E MAIS EFICIÊNCIA - E 68 e@expresso.impresa.pt O engenheiro da pintura perdida O título deste texto é parcialmente tomado de empréstimo ao do livro de entrevistas que Pierre Cabanne fez a Marcel Duchamp em 1967, “Engenheiro do Tempo Perdido”. Confesso que foi grande a tentação em citá-lo na íntegra sem colocar ‘pintura’ no lugar de ‘tempo’, porém, a pintura ficava lá muito bem; ela é também tempo perdido Um monstro da razão? “O Teatro dos Sentidos” (1991) e, nos melhores casos, tempo reencontrado. E se em vez de pintura escrevermos imagem? E se em vez de imagem escrevermos ilusão? Estas perguntas tanto podem sair do trabalho da escrita como da visita ao correr do tempo e da obra do pintor Cruz-Filipe (que é engenheiro também), serpenteando entre “Música da Câmara” de 1955 e “Meditação sobre a Paisagem” de 2020. A primeira destas datas é enganadora, serve sobretudo para mostrar uma pré-história da pintura de Cruz-Filipe (n. 1934), bem como afirmar, desde o princípio, o seu gosto pela música, numa composição, uma aguarela sobre tela, de uma expressão matérica rara nessa técnica. A partir desta primeira peça, a exposição dá um enorme salto no tempo tendo um outro começo, ou um começo verdadeiro, a partir de 1972, já com a utilização de tela fotossensível e com uma obra cujo título é revelador de uma poética profunda, “A Medida Comum das Mais Humildes Coisas”. Neste trabalho, Cruz-Filipe cruza imagem de um rosto feminino e as mais humildes coisas, provenientes da citação do mais humilde, ou mais baixo, dos géneros da pintura nas antigas classificações dos séculos XVII e XVIII: a natureza morta. Entramos assim no reino da imagem através da tela fotossensível até 2001, e, depois de 2004, da impressão digital em tela para os trabalhos que vão até ao fim da exposição. Podemos falar em duas técnicas, igualmente precisas e gratas ao engenheiro pintor, com capturas de imagem diferentes, recolha no primeiro caso de imagens do passado da pintura e fotografia de fragmentos de paisagem retiradas de um real/natural (?) no segundo. Dois tempos, duas técnicas e duas poéticas correspondendo a duas maturidades no seu percurso e a dois discursos sobre a possível (re) construção dessas duas realidades, ou dessas duas ilusões, quem sabe? A primeira ilusão é a da arte, neste caso encarnada na pintura, pela presença de um passado fragmentado e fragmentário, ainda mais forte e mais presente pela força dessa fragmentação, tudo num curto-circuito permanente e controlado, entre a sedução e o desastre, entre o que resta da beleza perdida e a capacidade de criar alguns monstros, ao contrário do Goya, quero dizer, com a razão bem desperta. A segunda ilusão é a da natureza, na presença de um presente mediado pela fotografia, sempre fragmentada, onde o impermanente da água e da atmosfera se cotejam com a aparente solidez e durabilidade da pedra, tudo sujeito às mutações da luz, sempre na consciência plena e sensível da efemeridade do tempo presente, sejam quais forem as matérias que o constituem e que os nossos olhos julgam verificar. Cruz-Filipe ganha, pela lucidez do seu trabalho, quer a batalha do tempo presente quer a batalha do tempo passado, através de uma pintura que é consciência visual, exaltação do efémero e cintilação do momento perdido e logo recuperado. b Pintura de Cruz-Filipe na Gulbenkian: consciência visual, exaltação do efémero e cintilação do momento perdido e logo recuperado TEXTO JOSÉ LUÍS PORFÍRIO FC G QQQQQ MODO DE VER Cruz-FilipeGulbenkian, Lisboa, até 15 de abril E 70 QUANTO MAIS ESTÚPIDOS OS LIVROS, MAIOR O ÊXITO helonious “Monk” Ellison inventou uma piada lucrativa. Ellison de apelido, como o romancista de “Invisible Man”, e Monk de alcunha, como o compositor e pianista de jazz, este académico negro não consegue ter sucesso com os seus livros, talvez porque despreza o registo estereotipado que o mercado e as elites brancas esperam de um escritor negro. Escreve sobre temas mitológicos, imagine-se, não sobre marginalidade e violência. E só pensa nas questões raciais quando percebe que se esqueceu de pensar nas questões raciais. Enquanto espera que alguém queira o seu novo romance, ainda em manuscrito, Monk observa, desanimado, a aceitação de que gozam os ficcionistas identitários ou oportunistas. E reage escrevendo, sob pseudónimo, uma autobiografia fraudulenta com um título bombástico e uma prosa ridícula. O problema é que as editoras adoram o livro, acreditam que foi escrito por um cadastrado fugido à justiça, e oferecem somas avultadas pela publicação. “The dumber I behave, the richer I get”, queixa- se Monk. Quanto mais estúpidos os livros, maior o êxito. O agente dele, que já viu muta coisa, explica então que há três rótulos de Johnny Walker, que só o mais caro é bom, mas que a maioria das pessoas prefere o rótulo do meio, quase tão barato como o mais barato e quase tão mau como o mais barato. E ainda falta o cúmulo da farsa, quando Monk é convidado para um júri literário que escolhe como vencedor, contra a vontade dele, o tal livro-fraude, intitulado “Fuck”. É como se Monk repetisse a golpada dos produtores de teatro do filme de Mel Brooks, que ganham dinheiro com um musical deliberadamente concebido para ser um fracasso. Ou como a jogada Goncourt, quando Romain Gary usou um alter ego, Émile Ajar, para ganhar um prémio que, pelo regulamento, não poderia voltar a ganhar. Especial graça tem a declaração dos jurados brancos, em maioria, contra a opinião minoritária de Monk e de uma jurada negra: “É essencial ouvirmos as vozes negras.” Engenhoso e divertido, “American Fiction”, de Cord Jefferson, que há dias ganhou o Óscar de melhor argumento adaptado, parte de um romance de Percival Everett, “Erasure” (2001). Não conheço o livro, mas o que li acerca dele sugere que a adaptação fica muito aquém, nomeadamente no jogo com o experimentalismo e a metaficção, bastante caricaturais no filme. “Erasure”, segundo as recensões, denota a exasperação de Everett com a “literatura negra” tal como é entendida pelos brancos com remorsos históricos. Toda a conversa sobre a “diversidade” e a “experiência afro-americana” acaba por redundar na guetização, no paternalismo, e acima de tudo na obrigação de os escritores negros se referirem a um tipo específico de experiência, rejeitando outro género de narrativas, incluindo as imaginadas e imaginárias (“I haven’t been myself lately”, diz a certa altura Monk para justificar a sua impaciência). Encontramos em “American Fiction” muitas das actuais polémicas americanas, a linguagem “ofensiva” que melindra os alunos de literatura, o choque entre a “classe” e a “raça”, a liberdade criativa e a “apropriação cultural” (uma das personagens lê mesmo um ensaio que remete para o “White Negro” de Norman Mailer, patético manifesto sobre o hipster como “negro branco”). Se o melhor do filme é o actor, Jeffrey Wright, num misantropo culto, vale a pena reter algumas ideias que também estão num livrinho recente de Djaimilia Pereira de Almeida. Diz Djaimilia: “Sou hoje uma mulher negra que escreve, alguém que, escrevendo, escreve o que é, quero dizer. Escrevo o que sou, e ser negra é essencial a isso.” Mais adiante, deixa estas dúvidas: “Será a escritora negra escritora, interessará ela a alguém nessa condição, terá ela, se assumir tal condição, algum valor de troca, ou só interessa como marca publicitária, como modelo, história de vida, cidadã exemplar, cabide, cara bonita, objecto, símbolo da sua época, nada?” E noutra passagem ainda, estas perguntas que Monk também faz: “Como não cair na impostura de ser só o que esperam que eu seja, adorno numa caderneta? (...) Como não jogar o jogo de quem conta comigo para, junto a mim, fazer boa figura?” Nota: “American Fiction” está disponível na plataforma Prime Video, da Amazon; as citações de Djaimilia Pereira de Almeida são de “O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo”, edição da Relógio D’Água. b pedromexia@gmail.com Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia O QUE ESPERAM QUE EU SEJA T Jeffrey Wright como Thelonious “Monk” Ellison em “American Fiction” D .R . F R A C O C O N S O L O / PEDRO MEXIA E 71 vícios“ P E S S OA S S E M V Í C I O S T Ê M P O U C A S V I RT U D E S ” Mil folhas G E T T Y IM A G E S Há por aí livrarias singulares que proporcionam muito mais do que a simples compra de um livro. Dos encontros com autores aos diálogos com livreiros, o Expresso dá a conhecer alguns destes espaços especiais TEXTOS JOANA MAGALHÃES E 72 Os livros fazem-nos viajar sem sair do lugar, mudam menta- lidades, são um escape e até uma ferramenta do coração. Uma boa história faz o leitor sonhar e também confrontar-se com os seus maio res medos. As casas de livros — as livra- rias — são hoje bem mais do que lojas onde se compram pequenas e gran- des narrativas. São, em alguns ca- sos, lugar de encontro, de partilha e intimidade. E estão de norte a sul do país. Esta semana descrevemos livra- rias singulares que levam os clientes a folhear experiências além da compra de uma obra literária. Alguma vez imaginou marcar um encontro às cegas com um livro? Sim, isso é possível. A ideia é da livraria Flâneur, no Porto, que desde 2015 re- cebe amantes de livros como quem acolhe um familiar ou amigo em casa, conceito em tudo alinhado com a forma como o projeto nasceu. Cátia Monteiro e Arnaldo Vila Pouca co- nheceram-se quando eram livreiros noutra empresa e ficaram amigos. “Percebemos que tínhamos em co- mum, além do amor pelos livros, uma vontade e um sonho de termos uma livraria nossa”, explica Cátia. Pouco depois o sonho ganhou forma numa zona residencial, afastada do centro da cidade portuense. “Naquela altura era livraria e ca- fetaria e foi assim que começou: uma livraria generalista, com a presença de editoras consideradas indepen- dentes, mas não só, tivemos logo des- de o início editoras mais comuns”, acrescenta. Arnaldo recorda as inú- meras feiras em que estiveram pre- sentes e também as entregas ao do- micílio, em bicicleta, “uma ideia que teve alguma importância na origem da livraria e que ainda existe”. Passados dois anos, aventuraram- -se na criação de uma editora — uma decisão que nasceu de forma natu- ral, sem que imaginassem que podia acontecer. “Fomos lendo algumas obras e chegou o momento de as di- vulgar e colocar em livro”, conta Ar- naldo, sublinhando que foi também uma forma de tornar a marca Flâneur mais presente no mercado. A somar a isso houve uma mudança de instala- ções que veio aumentar a oferta, no- meadamente de opções estrangeiras. Mas na sua génese, tudo se man- teve. “Nós somos as mesmas pessoas, com vontade de trabalhar com livros e fazer aquilo que nós gostamos com liberdade e amor, pelos livros e pelas pessoas”, reforça Cátia. O conceito materializa-se num espaço com am- biente familiar, onde os clientes se sentem em casa. A livreira recorda até o caso de pessoas que os visitam para conversar, não só sobre livros, mas sobre a vida. Ainda se lembra dos encontros às cegas com livros? Explicamos agora como tudo acontece: os clientes pa- gam 7,50 euros para receberem um livro surpresa, normalmente à venda por um valor superior. A obra é entre- gue num embrulho “muito bonito” e com uma frase sobre aquilo que po- derá ser a mensagem do livro. Também na sua componente de editora, a Flâneur apresenta um pro- jeto diferenciador — a coleção “Er- rar”. Cada livroé impresso num nú- mero reduzido de exemplares, cerca de 100, encadernados e cozidos com recurso a técnicas japonesas. Caminhando para o centro do país cruzámo-nos com a Livraria Arqui- vo, na cidade de Leiria, que há 45 Os clientes pagam 7,50 euros para receberem um livro surpresa, normalmente à venda por um valor superior anos tem os livros como base de uma agenda cultura regular e uma galeria de exposições. Tudo isto condimen- tado com as iguarias disponíveis na cafetaria. Inaugurada em 1978 por José Ri- beiro Vieira, é agora propriedade da filha, Maria Alexandra Vieira, que acredita que a forma como o cliente é recebido dá o toque especial ao negó- cio: “Gostamos que os nossos clientes se sintam em casa e tentamos fazer por isso. Seja pela simpatia e empatia da nossa equipa, que é maravilhosa, seja pela decoração e informalidade do espaço, seja ainda pelo respeito que temos por todos os que nos visi- tam”, garante. A juntar a isso, sublinha o cuidado na seleção dos livros e outros artigos, é que a loja integra a empresa Arqui- vo Bens Culturais, que representa em Portugal marcas como a Moleskine, Taschen, Tombow, Loqi ou Omy, por isso é vasta a oferta de gifts. Também os eventos da agenda cultural e até o que é servido na cafetaria é escolhido E 73 LIVRARIAS SINGULARES FLÂNEUR Livraria e editora com instalações nos arredores do Porto. É fruto da paixão pelos livros de dois amigos que quiseram criar um espaço onde cada cliente é recebido como um amigo. Um dos projetos de destaque são os “encontros às cegas” com livros em que, por um valor abaixo do de venda, o leitor recebe uma obra literária surpresa. Rua de Fernandes Costa, nº 88, 4100-240 Porto LIVRARIA ARQUIVO Situada no centro de Leiria, diferencia-se pela aposta numa agenda cultural diversificada e por uma oferta literária que vai desde o mais mainstream até às edições de nicho. Possui um espaço para exposições e uma cafetaria. O objetivo é que os clientes se sintam em casa, numa experiência que vai além da simples compra do livro. Avenida Combatentes da Grande Guerra, nº 53, 2400-159 Leiria SALTED BOOKS A saudade de visitar uma livraria independente, sentar e ler um livro escrito em língua inglesa levou Alex Holder e Mark Thompson, naturais de Londres, a dar forma a este espaço. A oferta literária, toda em inglês, é escolhida a dedo pelos proprietários e vai da ficção aos ensaios. Calçada Marquês Abrantes, nº 96, 1200-720 Lisboa G E T T Y IM A G E S a dedo. Todos estes ingredientes ga- nharam força em 2023, aquando da celebração do 45º aniversário, come- morado com um aumento das instala- ções, para praticamente o dobro, que “comunicam” agora com o exterior. A transformação abriu espaço, segundo o gerente da Arquivo Bens Culturais, João Nazário, para duplicar o número de títulos, “o que permite ter mais oferta e trabalhar com edi- ções menos comerciais, de editoras mais pequenas”. Para o responsável, as obras disponíveis “representam bastante bem o que é editado no país, desde o mais mainstream a edições de nicho”. Mas a oferta não fica por aqui: há ainda cerâmica, joalharia e ilustração de artistas emergentes ou marcas que se distinguem pela cria- tividade, design e sustentabilidade. Apesar da mudança, a identi- dade da livraria manteve-se: a pai- xão pelos livros, a amizade, a sede por cultura e a sensação de estar em casa. E tudo isto trouxe mais clien- tes, “bastante mais movimento” na loja e pessoas que todos os dias vão à Arquivo, “nem que seja apenas para dizer um olá”, conforme confiden- cia João. Continuando a seguir para sul no país, foi a vez de fazer uma paragem na Salted Books, um espaço lisboe- ta dedicado à literatura inglesa. A viver em Lisboa há quatros anos, os proprie tários, Alex Holder e Mark Thompson, naturais de Hackney, Londres, tinham saudades de visitar uma livraria independente de língua inglesa: “Sentimos falta de folhear livros, dos vendedores e das suas re- comendações e até de nos sentarmos em bancos frágeis nas livrarias, a be- ber vinho num copo de papel, en- quanto ouvíamos autores falarem so- bre algo tão aleatório quanto a cultura atrevida dos anos 90”, contam. Enquanto livraria independente, acreditam que a característica dife- renciadora está no facto de cada li- vro ser escolhido a dedo. “Nós somos os livros que armazenamos”, subli- nham. Tudo isto implica um trabalho de muitas horas, todas as semanas, até chegar à lista final de obras para encomendar. “Não nos baseamos em listas ou algoritmos de best-sellers, mas sim em críticos confiáveis e na própria leitura que fazemos dos li- vros”, garantem. O conceito ganha força com uma equipa formada por leitores e autores de livros. A uma oferta diversificada que vai da ficção aos ensaios, com novos li- vros a chegar duas a três vezes por se- mana, os proprietários querem agora acrescentar uma agenda de eventos reforçada com “grandes autores”. Para Alex e Mark esta tem sido uma experiência “mesmo maravilhosa”, que cresceu com o apoio dos clien- tes, principalmente da vizinhança. E se pudessem descrever a Salted Books em três palavras elas seriam “Cura- doria de leitores”. A PAIXÃO PELOS LIVROS Com cafetaria ou sem, com uma agenda cultural mais ou menos rica, com um espaço grande ou mais limi- tado, há algo que une todas estas li- vrarias: a paixão pelos livros. E sobre isso, os proprietários não têm dúvi- das. Para Alexandra, da Livraria Ar- quivo, os livros “dão conhecimento, fazem sonhar e ajudam a pensar”. Podem mudar o leitor e até mesmo uma sociedade. Como seria o mundo se não existissem livros? “Certamen- te, ainda pior...” Também na vida de Cátia, da Flâ- neur, a leitura é uma necessidade bá- sica, tanto que, além de estar e falar com pessoas, são os livros que lhe dão mais prazer: “Se eu passar um dia sem ler parece que me falta alguma coisa, sinto mesmo uma falta física, quase como uma carência”, afirma. O ami- go e sócio, Arnaldo, alinha no mesmo pensamento e até vai mais longe, afir- mando que a leitura “é um momen- to de diálogo connosco, um exercício muito importante enquanto ser hu- mano”. Já para a proprietária da Sal- ted Books, Alex, os livros são conforto, entretenimento e educação e o maior prazer que encontra na vida. Seja no norte, centro ou mais a sul do país, da ficção às histórias verídi- cas, da língua portuguesa às estran- geiras, os livros cabem em todas as mãos, gostos e personalidades. Uma boa leitura pode abrir a janela dos pensamentos, da consciência e, quem sabe, da alma. E o leitor, já encontrou a sua livraria? b E 74 Saltimboca de frango Tempo de preparação 25 minutos | Tempo de confeção 45 minutos INGREDIENTES 4 peitos de frango / Barriga de porco curada fatiada / Salva q.b. / Mostarda q.b. / Pimenta q.b. / Azeite q.b. / Sal q.b. Abrir os peitos de frango com uma incisão no centro, temperar com sal e pimenta, barrar com mostarda e, de seguida, colocar umas folhas de salva. Voltar a fechar os peitos, temperar a parte de fora com sal e pimenta novamente e enrolar com a barriga de porco, finamente fatiada. Reservar no frio durante duas horas. Aquecer bem uma frigideira e colocar azeite. Saltear bem os peitos enrolados em barriga de porco, uniformemente de todos os lados, até ficarem bem dourados. Terminar no forno aquecido a 180°C até estarem cozinhados. Servir com um acompanhamento a gosto. b T IA G O M IR A N D A Frangos do Além Bernardo Agrela, de 34 anos, cozinheiro de formação e com um imenso interesse pela portugalidade e por cuidar das suas raízes, começou há mais de cinco anos a pensar em novas e melhores formas de proporcionar experiências gastro- nómicas de outro mundo ao seu cliente, sem que este tenha de se levantar da mesa ou ir a casa da avó para saborear um delicioso frango do campo. Assim nasceu, no verão de 2023, os Frangos do Além, um projeto que reúne uma co- munidade de criadores de avesde raças autóctones portuguesas que respeitam os métodos de produção avícola an- cestrais. Em Portugal há quatro raças au- tóctones de galinhas que correm o risco de entrar em vias de extinção. A missão deste projeto passa por incentivar os criadores que ainda produzem estas aves a continuar a fazê-lo, garantindo que têm as melhores condições para o efeito, mas não só — pretende escoar de uma forma digna este produto dife- renciado, acrescentando-lhe valor. Com localizações muito distintas em vários pontos do país, que vão desde a serra da Estrela, a Elvas ou Alverca, Bernardo acompanha de perto o trabalho destes produtores e da sua produção, de forma a garantir a qualidade do produto que chega ao cliente final. Como é normal e esperado em tudo o que segue a nature- za e respeita a sazonalidade, tudo muda de dia para dia e, por isso, nem sempre há Frangos do Além e, quando há, nem sempre são iguais. Atualmente apenas é possível adquirir estes frangos através da página de Instagram do projeto @frangosdoalem, com entregas em casa na zona de Lisboa. PRODUTOS & PRODUTORES PROJECTO MATÉRIA É um projeto sem fins lucrativos, desenvolvido pelo chefe João Rodrigues, que pretende promover os produtores nacionais com boas práticas agrícolas e produção animal em respeito pela natureza e meio ambiente, enquanto elementos fundamentais da cultura portuguesa. Ler mais em projectomateria.pt RECEITA P O R J OÃO R O D R I G U E S (PROJECTO MATÉRIA) E 75 Deu zebra na tasca! Encontrámos a passadeira do futuro entre As Zebras do Combro e a remoçada Tasca Zebras A conversão de restaurantes an- tigos em espaços com dinâmi- ca, mantendo alguma aura do passado, tem acontecido nos últimos tempos por Lisboa. Às vezes o nome fica e a proposta de ementa muda bas- tante, sem fugir muito da faixa de pre- ços e do ambiente anterior. Outras ve- zes o nome leva um reajuste, mas a cozinha, a sala e os preços sobem em pompa sem que as circunstâncias jus- tifiquem os valores pedidos. Há casos felizes como o Petisco Saloio (ex-Bu- raquinho), O Velho Eurico, ou a Ta- berna Os Papagaios, mas são poucos... A cada transição de estilo ou gerência a expectativa é meteorologicamen- te “baixa a moderada”, como os ares do tempo. Espera-se pouco, portanto, dos trespasses de restaurantes de bair- ro em zonas turísticas. As Zebras do Combro, junto ao Bairro Alto, existiam desde 1983. Na maturidade dos 40 anos de porta aberta, que na restauração são sete vidas choradas e sofridas, o epitáfio estava à mercê da pressão do turistão. Um cliente da casa apostou em dar-lhe uma volta, e não foi pre- ciso entrar no polémico “jogo do bi- cho”, que o barão de Drummond criou em 1892 no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. A jogatana de apostar em animais com números passou a práti- ca clandestina, e não inclui a zebra nas apostas. O nome passou para Tasca Ze- bras e a equipa de cozinha manteve-se com a nova gerência a apostar (bem) em dar novas formas de trabalhar a co- zinha tradicional e os pratos clássicos com a ajuda de um chefe com técnicas e práticas atualizadas. Em março de 2023 começou a nova gerência, com a mudança de ementa e visual espelhado da casa a estrearem em agosto. Não sei se as conversas ha- viam começado no Carnaval, mas o la- tim carnis levale (abster da carne) ins- pirou uma carta sem pratos de carne. Começou-se com belas azeitonas (ga- lega e gordal) e tremoços temperados, e pão para molhar em bom azeite de ver- ve picante, onde vinham lamelas finas de uvas brancas. Apetite aberto para o “Caldo verde à Zebras com broa bio” (€4,50) versão num creme leve com a couve e batata trituradas em conjunto, em tom verdeal vivaz, e uma fatia fina de broa torrada. Muito bom, o “Rissol de berbigão” (€2), de recheio cremo- so e sabor nítido, rico em miolo dos bi- valves, numa fritura escorreita. Ainda se provou o “Prego do mar” (€15), in- dicado como uma das especialidades A N T O N IO P E D R O F E R R E IR A da casa, que pode ser uma boa refeição rápida, com um bife de atum suculen- to e carnudo, num bolo do caco, palitos dourados e estaladiços de batata frita, e uma maionese picantezinha, elegante. Estando nós às portas do Bairro Alto, pedir o “Bacalhau à Brás” (€15) foi a opção lógica e saborosa, com a mistura de cebola, lascas de bacalhau e batata palha caseira, bem ligada com os ovos, mantendo-se húmida e cre- mosa, com elementos bem definidos. Ficamos a pensar como seria nos anos 30, quando o galego Brás se lembrou de tal fórmula na sua tasca ali nas ruas vizinhas, onde parte dos ingredientes remetem para a versão do Norte de Es- panha... da tortilha! O “Polvo à lagarei- ro” (€18) é bem português, que a ver- são ‘à feira’ dos galegos tem outra rese- nha. Aqui surgiram tentáculos vistosos e tenros, com bom azeite e sem alhos queimados, batatas novas ‘rijadas’, co- zidas com pele e passadas nas brasas, e uma fresca e contraditória salada de folhas de agrião. A sugestão de prato do dia foi “Atum de cebolada” (€13), que brilhou com nacos altos e húmidos do tunídeo rosado, com uma cebolada de tiras firmes e delicadas em ponto translúcido, fatias de pimento verme- lho assado, e as saborosas batatas ‘rija- das’, em metades marcadas na grelha. O serviço é atento e explicado, a bom ritmo e com atenção ao cliente, e simpatia que convida a voltar. Na car- ta de vinhos há opções possíveis e uma bela proposta da casa com qualidade a preço justo. Na doçaria, um bom “Ar- roz doce” (€4,50) de grão inteiro, cre- moso e macio, e de açúcar moderado. Poderosa, a sugestão diária no “Bolo de banana e rum” (€4,50), uma fatia húmida e densa q.b. com passas e per- fume do destilado, e ao lado um copi- nho de ginja. A fechar, uma lustrosa “Mousse de chocolate” (€6), servida em generosa colherada, com nibs de cacau sobre o creme voluptuoso de bom chocolate negro. Ficou na gíria do futebol brasileiro dizer-se “deu zebra” quando um clube grande tem uma derrota inesperada. Na cidade há casas antigas que deram lugar a preços grandes e resultados pe- quenos. Aqui aconteceu o inesperado: está a dar zebra e cozinha da boa... na Tasca Zebras! b RESTAURANTES P O R F O RT U N AT O DA C Â M A R A Desde 1976, a crítica gastronómica do Expresso é feita a partir de visitas anónimas, sendo pagas pelo jornal todas as refeições e deslocações Um jovem “extravelho” A capacidade de síntese está enraizada na cultura chinesa. Os ideogramas na caligrafia, as parcas pala- vras com olhares intensos, e os sabores concentra- dos a valorizarem uma cozinha rica em alimentos e técnicas. E aqui surgiu o denominado molho XO, um poderoso indutor de sabor que tem encantado chefes de cozinha europeus. As letrinhas XO respigadas dos Cognac “extra-vieux” são rótulo para marcar a raridade da preparação, como os que abusam do apodo premium e vintage. Na China, XO é sinónimo de caro e especial, não necessariamente ancestral, já que o molho é recente e nasceu há menos de 40 anos. Em 1986, o restau- rante Spring Moon do luxuoso hotel Peninsula em Hong Kong, criava um molho à base de marisco seco como miolo de vieiras, camarões pequenos e ovas de camarão, juntado a presunto de Jinhua (ou de Yunnan) e produtos frescos como chalotas, alho e malaguetas. Ingredientes da melhor qualidade, bem picados em dimensões iguais, são fritos em óleo abundante, num wok, até perderem a água, separadamente e à vez. O miolo de vieira seco é levado a vapor antes de fritar e a sua água é reservada. Depois de todos os elementos estarem fritos, vão sendo reunidos no óleo da fritura, juntando-se molho de peixe, água das vieiras, açúcar, es- peciarias, etc. As variações e criatividade mandam a partir da base. Desde 1992 a empresa Lee Kum Kee levou o molho XO pelo mundo. ACEPIPE TASCA ZEBRAS Calçada do Combro, 51 — Lisboa Telefone: 215 843 731 Encerra à quarta-feira (reserva recomendada). VINHOS P O R J OÃO PAU LO M A RT I NS E 76 Natureza prepara-se para novo ciclo Mas, logo por azar, as adegas estão cheias... Esta crónica está a ser escrita com uma se- mana de antecedência em relação à data de saída do Expresso. Ora, nesta semana anterior às eleições, com alguns quilómetros de estrada percorridos, sobretudo no Sul, já deu para perceber que a vinha está a “reben- tar” à força toda. Começam a surgir as pri- meiras folhas e daqui em diante a velocidade é vertiginosa. Foi por isso que referi a data da escrita. É que daqui a mais uma semana estará bem mais vigorosa e regiões onde o processo ainda está atrasado estarão então a ver o novo ciclo que começa. A vinha é uma trepadeira e agarra-se onde pode; como por norma as vi- nhas estão aramadas, é a esses arames que ela se agarra e expande, normalmente com uma exuberância enorme, que obriga a corte da fo- lhagem em excesso. Mas também existem ce- pas sem armação, as chamadas cepas em taça, muito vulgares em várias zonas de Espanha, por exemplo. Para obtermos bagos com mosto passível de ser transformado em vinho, esta- mos a contrariar a natureza da videira, esta- mos a podá-la quando ela não queria; estamos também a limitar o que ela produz, cortando cachos para o chão, quando são demais os que lá estão, estamos a pô-la ao nosso serviço. No entanto, mesmo não a deixando produzir tudo o que queria, a produção é excessiva e des- se mal queixam-se muitos países da União Europeia. Fala-se que o Alentejo tem três co- lheitas em casa à espera de venda, a Espanha está inundada de vinho que depois alimenta o negócio do vinho a granel, a França destilou milhões de litros para fazer face aos excessos. Claro que tudo isto é uma verdadeira faca de dois gumes (não confundir com a de dois le- gumes...) porque quanto mais vinho há dispo- nível, menos valor se dá ao quilo da uva, me- nos rendimento têm os lavradores, mais armas se dão às grandes superfícies para esmagar os preços, para contentamento dos consumido- res. Não há como tornear o assunto. A Europa está a produzir a mais, numa época em que os consumidores estão a beber menos. O assunto é grave em todos os tipos de vinho mas tende a ficar muito sério nos licorosos (mais álcool e mais açúcar), de que o Vinho do Porto é o principal prejudicado. De destilados é melhor nem falar, o consumo atual é uma pequena percentagem do que foi há três ou quatro dé- cadas. Há quem não esteja de acordo: ontem, num café minúsculo e banal de uma vila alen- tejana, chegou um cliente que afogou as má- goas num bagaço (antes das 10 da manhã). Estranho? Não! E o facto da garrafa do bagaço ser a única que o dono tinha à mão por baixo do balcão, também não…! Diz-se que quem salva as gamas de entrada do Vinho do Porto são os franceses, porque têm a tradição de be- ber um Porto antes da refeição (coisa que nós nem imaginamos o que seja...), mas nunca sabemos por quanto tempo isso se irá man- ter. Como não se deteta nenhum “movimento de fundo” que contrarie esta tendência e não se vê nenhuma empresa de Vinho do Porto a tentar resolver a questão, não se augura gran- de futuro. A videira, essa, nem quer saber: deem-lhe calor e água e vão ver o que é cres- cer. Há vinho a mais? Há guerra na Ucrânia? O Trump vai voltar? Ela, a desavergonhada, quer lá saber... b G E T T Y IM A G E S Bela Luz branco 2022 Região: Douro Produtor: Rocim Castas: várias da zona de Tabuaço Enologia: Catarina Vieira/Pedro Ribeiro PVP: €27,90 As uvas têm origem numa pequena vinha adquirida à família de Pedro Ribeiro. O mosto fermentou em barricas de carvalho e em talhas de barro. Fizeram-se 4000 garrafas. Dica: Maduro na fruta mas com boa acidez a espevitar o conjunto, é um branco polivalente à mesa. Consumir a 12°, de preferência. Palato do Côa Grande Reserva tinto 2017 Região: Douro (Foz Côa) Produtor: 5 Bagos Castas: castas misturadas em vinhas com 60 anos Enologia: Carlos Magalhães PVP: €54,50 (Corte Inglés) Uvas pisadas em lagar onde inicia a fermentação. Após o término em inox, o vinho estagia 18 meses em barrica. Produzidas 3500 garrafas. Dica: O polimento geral é notável, o tinto tem um balanço e um perfeito equilíbrio entre todas as componentes onde se reconhece um excelente trabalho de vinha e adega. Tapada de Coelheiros Sobreira tinto 2020 Região: Alentejo Produtor: Tapada de Coelheiros Castas: Syrah Enologia: Luís Patrão PVP: €45 A vinha tem agora cerca de 20 anos de idade. A produção aponta para a certificação bio. O mosto fermenta em inox e estagia em tonel durante 18 meses, seguido de outro tanto em garrafa. Dica: Ambiente balsâmico e levemente mentolado, com frescura e boa definição. A mesma sensação na boca, com elegância de taninos e acidez bem integrada. Um tinto de sucesso garantido. (O S P R E Ç O S F O R A M IN D IC A D O S P E LO S P R O D U T O R E S ) E 77 PUB Bem nosso é sugerir os melhores sabores do Porto. Belos Aires Restaurante Rua José Falcão, 115, Porto. Tel. 915 144 630 É o resultado do encontro entre o chefe argentino Mauricio Ghiglio- ne e Elisabete Martins, natural do Porto. Juntos decidiram criar um local onde as pessoas se possam sentir em casa. E sem sair da cadeira, fazer uma viagem pelos sabores da cozinha mediterrânea, provar os pratos portugueses com um toque diferente ou dar um sal- tinho à Argentina, país conhecido pelos deliciosos cortes de carnes. Numa nova localização, com dois pisos, o restaurante mantém a identidade bem vincada, com uma ementa diversa, mas onde saltam à vista as “Empanadas” com diferentes recheios, as “Mollejitas com mandioca frita e couve-roxa”, as carnes, como o “Ojo de bife” e o “Bife de cho- rizo”, e as gulosas sobremesas com “dulce de leche”. A banda sonora e a carta de vinhos, escolhida a dedo, tanto pode apresentar vinho português como conhecer vinho argenti- no, complementam a viagem, que também se pode fazer durante a tarde, com um menu de petiscos. Preço médio €30. Porto Elemento Rua do Almada, 51, Porto. Tel. 224 928 193 A cozinha, ligada às raízes, é ser- vida à carta ou em oito paragens, acompanhadas por vinhos portu- gueses de pequenos produtores. Dependendo da época, há “Tártaro de carabineiro e guanciale”, “Mero dos Açores e ervas da ria” ou “Lombo de veado, cogumelo e macadâmia”. Preço médio €50. Cozinha das Flores Largo de São Domingos, 62, Porto. Tel. 229 760 001 À carta, dos snacks à mão, “Pastel de nata de nabo” e “Pão de ló”, às entradas, delicia o “Lírio, beterraba e algas” e a delicada “Lula gigante com feijoada bruta de sames”. Não perca o “Peixe-galo” nem os “Fios de ovos”. Preço médio €50. Brasão Bistrô Rua de Ramalho Ortigão, 28, Porto. Tel. 934 158 672 Vão em busca da “Francesinha no forno”, dos bifes, como o “Bife de cebolada” e o “Bife Queijo da Serra”, mas também dos petiscos, que já são imagem de marca desta casa. Partilhe a cebola frita. Preço médio €25. Mind The Glass Praça de Gomes Teixeira, 36, Porto. Tel. 913 093 932 A ementa sazonal aposta na partilha com petiscos como o “Queijo azul da Arrábida com peras secas e pinhões”, o “Bonito dos Açores marinado em citrinos” ou a “Massada de línguas de bacalhau”. Preço médio €30. Sagardi Porto Rua de São João, 54, Porto. Tel. 221 130 987 A “Parrilla” é protagonista neste espaço de alma basca. Cozi- nham-se peças de carne, como o “Txuleton”, e peixes de mar, servidos com produtos frescos, como o “Alho-porro de Zarautz no churrasco”. Preço médio €50. Oficina Rua de Miguel Bombarda, 282, Porto. Tel. 936 712 384 “Ovo perfeito com seleção de cogumelos silvestres e espuma de batata trufada”, “Cabritinho grelha- do na brasa com puré de castanha e farofa de couve-portuguesa” merecem ser provados. Preço médio €45. Alojamentos M.OU.CO Rua de Frei Heitor Pinto, 67, Porto. Tel. 227 667 790 As salas de espetáculos, as salas de ensaios e a Musicoteca, com uma coleção de mais de 400 dis- cos de vinil e livros especializados, são áreas deste alojamento. Contaainda com 62 quartos e suítes, com gira-discos e instrumentos. A partir de €80. Vila Foz Hotel & Spa Avenida de Montevideu, 236, Porto. Tel. 222 449 700 Com 68 quartos e suítes, cons- tituído por um palacete e uma ala moderna, é um espaço de recolhimento e evasão afastado do centro, sempre vibrante. Relaxe no Spa, inspirado nos elementos da Natureza. A partir de €260. Casa da Companhia, Vignette Collection Rua das Flores, 69, Porto. Tel. 229 761 020 Dentro destas paredes, erguidas no século XV, viveu a Real Companhia Velha. Esta empresa alugou o edifício no século XVIII e continua presente na atmosfera histórica, nas fotografias e nos tons escolhidos para adornar as paredes. Contrastam com os 30 quartos e 10 suítes, um amplo Spa com tratamentos e piscina interior, e ainda uma exterior, localizada no terraço com vista sobre a cidade. Saiba mais sobre este hotel na emissão desta semana do “Boa Cama Boa Mesa” na SIC Notícias. A partir de €155. Boa Vida “Março com sabores do mar” 2024 Esposende Até 31 de março há fins de semana gastronómicos, exposições, con- cursos e espetáculos de música tradicional. Mais de 40 unidades de restauração do concelho ade- riram à celebração com propostas nas ementas onde o mar é o ingre- diente principal e a grande fonte de inspiração. Festa do Queijo Serra da Estrela Oliveira do Hospital A maior Festa do Queijo de Por- tugal regressa em 2024, entre os dias 23 e 24 de março. O evento, que pretende voltar a afirmar-se como o principal cartaz turístico da região centro, tem como rei da festa o Queijo Serra da Estrela DOP, considerado um dos melho- res queijos do mundo e contará com a participação de cente- nas de expositores de produtos endógenos, com destaque para as provas de queijo e vinhos do Dão, tosquias e fabrico de queijo ao vivo, ou exposição animal. Saiba mais sobre estas e outras sugestões em boacamaboamesa.expresso.ptas nossas recomendações DESIGN POR GUTA MOURA GUEDES E 78 Refik Anadol Mostra-nos o mundo como nunca o vimos, modulado pela sua sensibilidade artística Há umas semanas, uma das mais im- portantes instituições culturais do mundo, a Serpentine Gallery em Londres, enchia-se de público variado, he- terogéneo em idade e proveniência, para a preview de Refik Anadol. Já na fase dos discursos, depois de Hans-Ulrich Obrist, que é, de forma incontestável, um dos mais importantes curadores do mundo, ter fa- lado, explicando o seu interesse na obra deste artista, Refik revelou muito não só sobre os trabalhos que tínhamos acabado de ver na galeria norte da Serpentine como também sobre o que move o seu trabalho: “Estou a tentar encontrar formas de rela- cionar memórias com o futuro e de tornar visível o invisível.” E o que é que ele faz? Através de sof- tware design e da inteligência artificial, mostra-nos o nosso próprio mundo como nunca o vimos até agora, modulado pela sua sensibilidade artística. Refik Anadol, nas suas próprias palavras de novo, usa “informação como pigmento”, cruzan- do uma das mais poderosas ferramentas que o ser humano recentemente criou, a inteligência artificial, como abordagem a um mundo que produz quotidianamen- te biliões de dados. Sejam eles vindos da actividade da nossa espécie, sejam eles vindos da natureza ou do espaço. A obra de Anadol tem-se vindo a posicionar como um dos mais bem sucedidos exemplos neste desafio complexo da relação entre arte, design, criatividade humana e a má- quina. Produzir cultura com uma forma de inteligência que não é nossa. Mas que deriva de nós. Refik Anadol nasceu na Turquia em 1985 mas tem estúdio em Los Ange- les, onde também ensina, no Departa- mento de Design Media Arts da UCLA, universidade onde fez um mestrado em Belas Artes. Aborda os desafios e as possibi- lidades que a computorização trouxe à Hu- manidade e o que significa ser-se humano na era da IA. Explora como a percepção e a experiência do tempo e do espaço muda- ram radicalmente, agora que as máquinas dominam a nossa vida. E como a era digital permite uma nova técnica estética. Através do design de programas de armazenamen- to e codificação de dados, Refik cria am- bientes imersivos que oferecem uma per- cepção dinâmica sobre diversas realidades — e que são verdadeiramente emocionan- tes e profundos. Com ele, edifícios ganham vida, pisos, paredes e tectos desaparecem no infinito, através de uma estética for- mada a partir de grandes quantidades de dados, do design e da sua sensibilidade ar- tística — “o que antes era invisível ao olho humano torna-se visível” —, oferecendo ao público uma nova perspectiva e narrativa. Se é interessante ver online a obra des- te criador, como por exemplo vermos os vídeos da obra que o MOMA recente- mente comissariou e apresenta perma- nentemente, “Unsupervised — Machine Hallucinations”, criada sobre a base de da- dos de obras da colecção do próprio museu, não há nada que se compare com o que nos acontece quando vemos ao vivo um dos trabalhos de Refik, em que nos sentimos fazer parte de um outro mundo. Que nos é semelhante e próximo, ao mesmo tempo que impossivelmente diferente, pois reve- la-nos algo que sabíamos existir mas para o qual não temos referência visual. Agora temos a dele e a da inteligência artificial. Ambos autores? b Guta Moura Guedes escreve de acordo com a antiga ortografia LIVING ARCHIVE “Nature Large Model”, instalação que teve a sua première no World Economic Forum em Davos este ano, apresenta o primeiro modelo de IA generativo de código aberto do mundo dedicado exclusivamente à Natureza. O modelo centra-se nas preocupações ambientais combinando arte, design, tecnologia e dados da Natureza, informando, sensibilizando e envolvendo o público de um modo sensorial inescapável. Envolve as paredes da galeria com imagens geradas por IA inspiradas em dados de flora, fungos e fauna de mais de 16 locais de florestas tropicais em todo o mundo, que foram recolhidos usando tecnologias como LiDAR e fotogrametria. ECHOES OF THE EARTH “Living Archive” é a primeira grande exposição individual institucional de Anadol no Reino Unido, envolvendo os espectadores numa série de instalações e ambientes imersivos que utilizam anos de experimentação com dados visuais de recifes de coral e florestas tropicais, entre outros. TECNOLOGIA POR HUGO SÉNECA E 79 Reuniões em 4K A videoconferência dá o salto para a alta-resolução – e nada será como antes De certeza que está a dar a melhor imagem nas reu- niões com chefes e clientes? A Logitech promete dar uma ajuda — mas só para quem precisa de fa- zer reuniões em videoconferência. A solução tem por nome MX Brio e destina-se a quem trabalha a partir de casa, mas conta ainda com uma “irmã” batizada de MX Brio 705, que já tem em vista ambientes profissionais. Ambos os modelos garantem resoluções Ultra HD (4K) e ambos tiram ainda partido da inteligência artificial para aperfeiçoar o resultado final, seja através da corre- ção automática da luminosidade, seja acompanhando os movimentos do utilizador. Quem quiser enveredar pelas “grandes produções” — ou simplesmente não te- nha forma de retocar maquilhagem — tem ainda ao dis- por as ferramentas Logi Options+, Logi Tune e G HUB, que permitem personalizar a exposição à luz, a tonali- dade, a vivacidade e até o campo de visão que é apre- sentado aos interlocutores. A Logitech recorda também que as duas câmaras estão habilitadas a produzirem píxeis 70% maiores que as versões anteriores. As duas câmaras distinguem-se apenas por detalhes, sendo que a Logitech recorda que a MX Brio 705 está certificada para Microsoft Teams, Google Meet e Zoom e funciona com os computadores Chromebook. Preço: €229. b MUITO KIDDO O nome do FW59 Kiddo já tem em si a confirmação de que se trata de um relógio inteligente para crianças e adolescentes. O novo dispositivo da MaxCom tem ecrã de 4,69 centímetros (1,85 polegadas), cartão SIM para chamadas nas redes móveis,câmara, botão SOS para alarmes com localização por GPS e ainda agenda para 15 números de telefone, e os incontornáveis videojogos. A bateria garante três a quatro dias de funcionamento. Preço: €79,99. CABO DA BOA ESPERANÇA O cabo está a atrasar o carregamento e o download? A Hama está apostada em mostrar que os cabos não são todos iguais com o Charging Cable USB-C — USB-C “Full-Featured”, que suporta potências até 240 watts e cumpre os requisitos técnicos Power Delivery 3.1 EPR Quick Charge, da Qualcomm, além de garantir velocidades de 10 gigabits por segundo na transferência de dados. Suporta transmissão de vídeos em 4K e dispõe de blindagem dupla para evitar interferências. Preço: €29,99. A MAÇÃ ESTÁ NO AIR A Apple anunciou o lançamento dos portáteis Macbook Air, com ecrãs de 33 (13 polegadas) e 38,1 centímetros (15 polegadas). Os dois portáteis contam com um chip de M3, com oito núcleos de processamento genérico, e 10 núcleos de processamento gráfico, e a possibilidade de conexão a dois ecrãs. Além do dobro da velocidade nas conexões por wwi-fi face aos antecessores, os dois portáteis contam com baterias para 18 horas de funcionamento. Preço: a partir de €1579. OS VÍDEOS DA META A Meta está a trabalhar numa ferramenta de inteligência artificial que tem em vista dar novo impulso à distribuição de vídeos no Facebook, WhatsApp e Instagram — e que terá como prioridade o Reels, que hoje concorre com o TikTok. O projeto só deve ficar concluído em 2026, ao unificar os diferentes sistemas de recomendação de vídeos das plataformas da Meta. Segundo a marca, esta evolução pode garantir ao Reels um acréscimo de 8% a 10% no tempo de visionamento. UE aplica novas regras na internet A entrada em vigor do Regulamento dos Mercados Digitais (DMA) promete mudar as rotinas dos europeus que usam telemóveis e computadores, mas os principais destinatários vêm de fora da UE. São seis as marcas classificadas com poder de mercado dominante na distribuição de conteúdos e serviços: cinco são americanas (Alphabet/ Google, Meta/Facebook, Apple, Microsoft e Amazon); e uma é chinesa (ByteDance/ TikTok). Todas ficam obrigadas a garantir aos consumidores a possibilidade de decidirem o tratamento aplicado a dados pessoais e todas deverão dar acesso a serviços da concorrência, garantir a migração de dados ou simplesmente a interoperabilidade entre serviços que antes não comunicavam. Pelas novas regras, o WhatsApp, da Meta, terá de garantir a comunicação com o iMessage, da Apple; o YouTube e o Chrome terão de dar acesso a plataformas de vídeo e navegadores (browsers) concorrentes; e a loja App Store perde o exclusivo da venda de aplicações para o iPhone e passa a ter concorrência de lojas alternativas. A Apple reagiu com um novo sistema operativo para o iPhone que já respeita o DMA e aplicou novas tarifas aos produtores de software e conteúdos, além de tomar medidas para acabar com o acesso a lojas alternativas à App Store para quem fica um mês fora da UE. É possível que a maioria das mudanças só ganhe visibilidade à medida que as empresas forem sujeitas a auditorias — ou que apliquem medidas que contornam ou aproveitam os expedientes do DMA. DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA POR J O S É GA M E I R O Intimidade Acaba o jantar e a frase (que parece de um filme) é: para a tua casa ou para a minha? Há uma fantasia que leva alguns a imaginarem que nesta profissão (falar com pessoas acerca dos seus problemas), o tema do sexo é frequente. Naturalmente que o é para quem faz sexologia, mas para o comum das psicoterapias não acontece. Esta fantasia talvez venha da ideia, certa, de que nós partilhamos com quem nos procura o que elas quiserem falar, criando, ao longo do processo, uma confiança assegurada pelo segredo profissional. Com a enorme vantagem de não termos relação com a pessoa fora do contexto de consulta e de não fazermos julgamentos. Se estivermos bem treinados, conseguimos resolver, dentro de nós, juízos negativos sobre quem está à nossa frente. A história que vos vou contar não me foi relatada em consulta, mas sim numa conversa de conhecidos, em que não tenho um papel profissional formal, mas em que sou procurado enquanto tal. Paradoxos. Um pouco quando temos um problema sério de infiltrações em casa, antes de decidir chamar alguém, falamos com aquele conhecido, engenheiro, para nos aconselhar antes de nos metermos nas mãos de algum curioso. Tinha-se separado há uns meses, depois de 30 anos de um casamento que até nem corria mal, em que aconteceu um incidente, vou-lhe chamar assim, para não ferir suscetibilidades e a história bonita acabou quase subitamente. Apesar do tempo já decorrido ainda tentei perceber se valia a pena e havia disponibilidade para falar com o casal. A reação foi imediata, mesmo que ela queira, para mim acabou. E levei a piada, agradeço o seu lado casamenteiro, mas não dá. A conversa é outra, desculpe. Comecei a sentir algum alívio, já não estou triste e pensei, não vou ficar casto e puro, já agora vou gozar o que não gozei quando era jovem. Casei cedo e, acredite, sempre fui fiel à minha mulher, por vezes, sabe Deus, com que custo. A primeira surpresa que tive é que isto agora é muito mais fácil do que no meu, no nosso, tempo. Lembras-te, com certeza, os passos que tínhamos de dar até chegar ao que queríamos. Jantar em grupo, discoteca, com “suborno” ao gajo que punha a música para tocar três slows seguidos, já lá para o fim da noite, com sorte, no fim de semana seguinte, jantar a dois e, outra vez, discoteca. Agora não. Jantar, tem de ser divertido, as pessoas não gostam de ouvir histórias de desgraças, nem grandes pormenores, umas piadas, parece que é obrigatório ser-se engraçado. Acaba o jantar e a frase (que parece de um filme) é: para a tua casa ou para a minha? Já tinha ouvido umas histórias semelhantes, mas nunca uma tão seca e crua. Não sei se com alguma ponta de inveja dos novos tempos, perguntei-lhe, então, mas não estás contente com os procedimentos serem muito mais simples? Eh pá, sim, mas é um exagero, estamos a chegar à história que me trouxe até ti. Conheci uma mulher, mais nova do que eu, nada de exagerado, divorciada, sem brindes, como nós dizemos, já fora da idade fértil, portanto sem desejos de ser mãe, o que podia ser a garantia de uma vida sossegada e livre. Sem ir aos treinos há muitos anos, procurei seguir um protocolo mais simples, mas ainda inspirado nos manuais do nosso tempo. Levei-a a jantar a um restaurante junto ao mar, uma noite de verão linda, tentei o meu melhor, disse umas piadas, ela só me perguntou há quanto tempo estava separado, devia estar com medo que eu desatasse a chorar em cima do robalo. Nenhum de nós mostrou interesse em ir mais além, uma despedida cordial e a noite acabou. Voltei a ligar-lhe uns dias depois e novo jantar, desta vez numa tasca modesta, para testar a flexibilidade da senhora. Não sei se foi o ambiente, os tempos modernos, ou à sobremesa um molotov, deu-me a mão e perguntou: para a tua ou para a minha. A minha era mais perto. Ainda lhe perguntei se queria uma flute de champanhe, mas fui logo atacado, sim é a palavra exata. Ao princípio foi estranho, mas depois entranhou-se. O pior foi de manhã. Então, não foste para casa dela perguntei? Devia ter ido, não tinha acontecido o que estragou tudo. Estava eu sentado no trono, entrou-me na casa de banho, sem bater à porta, com o ar mais natural do mundo. Não resisti a dizer-lhe, desculpa, mas sexo é uma coisa, intimidade é outra completamente diferente. b josemanuelgameiro@sapo.pt PARA ASSINALAR O DIA DO PAI A Perfumes & Companhia juntou-se à INSTAX e neste Dia do Pai vai oferecer uma INSTAX Mini 40 e dois perfumes a um dos seus seguidores. Para participar, basta seguir as páginas do Instagram da Perfumes & Companhia e da INSTAX, e partilhar a memória mais marcante que tem com o seu pai. A VER AS ESTRELAS O município de Pampilhosa da Serra lançouum filme onde promove o céu estrelado como principal atrativo do concelho. Criado pela CAETSU TWO, partilha a magia do céu noturno de Pampilhosa da Serra através de uma história de amizade entre duas crianças. pampilhosadaserra.pt/ mensagem-espacial BLAZERS À MEDIDA Lançada pela empreendedora portuguesa Tatiana Gradil, a marca Emblazer pretende reinventar um must-have em qualquer armário que procure irreverência e qualidade – o blazer. Com uma abordagem circular, a marca recorre a tecidos deadstock de fábricas da indústria têxtil portuguesa e move-se pelo propósito de empoderar as mulheres num produto que materializa força, estrutura e determinação. emblazerstore.com PASSATEMPOS P O R M A R C O S C R U Z E 81 Sudoku Fácil Sudoku Difícil Soluções Fácil Difícil Participe no passatempo das Palavras Cruzadas enviando as soluções por correio para Rua Calvet de Magalhães, 242, 2770-022 Paço de Arcos ou por e-mail para passatempos@expresso.impresa.pt Palavras Cruzadas Premiados do nº 2505 “Domingos no Cinema”, de Anthony Marra, para Patrícia Ferreira, de Sines; “D. Maria II”, de Maria de Fátima Bonifácio, para Lucília Gomes, de Lisboa; “A Viúva de Windsor”, de José de Bouza Serrano, para Fernando Rodrigues, de Vila Nova de Gaia. 4 7 1 8 1 2 4 7 5 6 4 3 2 8 5 1 7 9 6 3 6 2 9 8 7 1 4 3 5 8 7 2 2 4 6 1 3 9 2 1 3 8 2 4 7 5 2 6 7 6 3 2 8 9 1 862514973 759263148 431879562 173685294 926437851 584921637 615348729 248796315 397152486 983641725 246975183 571382694 719564832 825137946 364298517 192456378 458713269 637829451 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Horizontais 1. Estuda mapas 2. Cobre três quartos da Terra. O que faz a testemunha ocular 3. Notícias em primeira mão 4. Leva à dependência. Princípio de tatuagem 5. Tosquia-se. Antecede o processo 6. Desportivo mas também utilitário. Enfeitado e colorido 7. Sobe à custa de outros 8. Põe-se à frente 9. Romanos. Quase meia. Como as cobras 10. Estudam uma determinada civilização muito antiga 11. Pode ser finlandês, norueguês, sueco ou russo. Tira rugas Verticais 1. Vinha depois do rei na hierarquia militar nacional 2. Ave de rapina. Pica quem a colhe 3. Usado na roleta russa. Sigla rodoviária 4. Floresta boreal. Planície sul-americana 5. No mar e no cabelo. Prédio que forma um ângulo 6. Estado da Índia. Ando paralelamente 7. Tornes da cor de um determinado metal. A penúltima da escala 8. Sucessora do dinossauro. Cidade inglesa 9. Gosta do divertimento. Soldado americano 10. Nome próprio feminino. Transformam o trigo em farinha 11. Põe na casa. A campa mais simples Soluções nº 2506 HORIZONTAIS 1. assembleia 2. Nautilus; LC 3. turco; GT; cá 4. adi; caracol 5. rentável: Oc 6. Aire; aulo 7. mediar; ir 8. due; ial; esr 9. ai; oo; verme 10. vil; Páscoa 11. poderosa VERTICAIS 1. Antártida 2. saúde; uivo 3. Suriname; ID 4. etc; tie; olé 5. miocárdio 6. bl; aveia; Pó 7. lugre; alvas 8. estalar; ESA 9. ERC 10. alcoolismo 11. calcorrear Palavras cruzadas nº 2507 E 82 COM TODO O RESPEITO, NÃO É FÁCIL COMPREENDER O POVO. EXPRIME-SE COM CRUZINHAS, QUE NÃO SÃO ASSIM TÃO ELOQUENTES m partido, reunindo boa parte do voto dos descontentes com os Governos do PS e do PSD, juntou mais de um milhão de votos, obtendo 18% da votação. Foi em 1983. A APU, uma aliança que agrupava o PCP e o MDP/CDE, conseguiu um grupo parlamentar com mais de 40 deputados, o que levou vários comentadores a concluir que aquele resultado produzia um efeito importante e duradouro no sistema eleitoral português. Escassos quatro anos mais tarde, o PSD venceria as eleições com 50,2% dos votos. Quatro décadas depois, aparece um resultado eleitoral com algumas semelhanças, pelo que os comentadores também tiram conclusões parecidas — e por isso talvez tenhamos de, ao menos, admitir que podem estar igualmente erradas. O problema é o seguinte: com todo o respeito, não é fácil compreender o povo. Exprime-se com cruzinhas, que não são assim tão eloquentes. O ideal era que, além da cruzinha principal, o boletim de voto permitisse a colocação de outras cruzinhas, com as quais o eleitor justificaria o seu voto. Votei neste partido porque: a) subscrevo as suas ideias; b) é o menos mau; c) quero aborrecer certos comentadores da televisão; d) os meus amigos também votam neste; e) o líder é muito bonito. Qualquer coisa que ajudasse a perceber uma intenção. Pessoalmente, já votei por todas essas razões. (Carlos Carvalhas era um homem muito atraente.) Mas, dado o laconismo do boletim, receio que os eleitores sintam que depositaram na urna um búzio ou uma víscera de galinha. Nos dias que se seguem às eleições, os comentadores tentam interpretar o que o povo “disse” com a mesma disposição com que astrólogos decifram o movimento dos astros. Uma interpretação muito popular é a seguinte: o povo tem uma inclinação forte para o extremismo. Tendo em conta que é o mesmo povo que há dois anos tinha uma inclinação ainda mais forte para votar em massa no Partido Socialista, estamos perante um povo razoavelmente incoerente. Outra interpretação interessante é esta: há que respeitar os votos que foram atribuídos a determinado partido. O que ninguém contesta. Resta saber o que significa ao certo “respeitar”. Por exemplo, como conciliar o respeito que é devido a 18% de eleitores que apoiam determinado projecto com o respeito que merecem 82% de eleitores que o rejeitam? Em princípio, a resposta a esta pergunta vai produzir bastante discussão e barulheira. O que é óptimo. Os regimes em que as coisas se resolvem sem sarrabulho e em silêncio são um bocadinho sinistros. Como, assim o espero, 100% do povo bem sabe. b Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia O APELO À CALMA APÓS O APELO AO VOTO U J O Ã O F A Z E N D A E S T R A N H O O F Í C I O / RICARDO ARAÚJO PEREIRA Disponível para entrega imediata Power your world.* IONIQ 5. Bem-vindo ao futuro da mobilidade elétrica. Descubra o fabuloso IONIQ 5. Com carregamento ultra-rápido de 10% a 80% em apenas 18 minutos, e uma potência e aceleração impressionantes. Um automóvel revolucionário com um design inovador e irresistível. Experimente já. Saiba mais em hyundai.pt 100% elétrico. Autonomia até 710 km.** * O poder de mudar o mundo. ** Condução em cidade. A imagem pode não corresponder ao modelo em campanha. Consumo energético (kWh/100km): 17. Emissões de CO2 em ciclo combinado (g/km): 0. A garantia de 7 anos sem limite de quilómetros da Hyundai é apenas aplicável aos veículos ligeiros de passageiros matriculados a partir de 1 de setembro de 2019, vendidos por um concessionário autorizado da rede Oficial Hyundai Portugal a um consumidor final, de acordo com os Termos e Condições constantes no Passaporte de Serviço. hyundai.pt Hyundai Portugal