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TREINAMENTO AERÓBIO E-BOOK Dr. Marcelo Conrado ESTRATÉGIAS PARA O EMAGRECIMENTO SENSIBILIDADE À INSULINA GASTO CALÓRICO BIOGÊNESE MITOCONDRIAL FLEXIBILIDADE METABÓLICA 2 TREINAMENTO AERÓBIO: ESTRATÉGIAS PARA O EMAGRECIMENTO MARCELO CONRADO 2022 3 Copyright © 2022 por Marcelo Conrado de Freitas Todos os direitos reservados. Capa Marcelo Conrado e Equipe de Marketing-UNIGUAÇU Editor Marcelo Conrado Ilustrações Marcelo Conrado Instagram: dr.marceloconrado 4 Sumário 1.Fisiologia Do Emagrecimento .......................................................................... 6 2.Platô No Emagrecimento e Efeito Sanfona ................................................... 11 3.Quanto De Déficit Calórico Para Emagrecer? ............................................... 14 4.Adesão Ao Treino: Uma Variável Importante No Emagrecimento ................. 16 5.O Que É A Flexibilidade Metabólica? ............................................................ 19 6.Como O Treinamento Aeróbio Ajuda Na Perda De Gordura? ....................... 22 7.Variáveis Do Treinamento Aeróbio: Intensidade ........................................... 25 8.Variáveis Do Treinamento Aeróbio: Volume.................................................. 30 9.Como Aumentar A Flexibilidade Metabólica? ................................................ 34 10.Treinamento Aeróbio Com Glicogênio Baixo ............................................... 38 11.Treinamento Combinado: Aeróbio Antes Ou Depois Da Musculação ......... 41 12.Treinamento Combinado: Estratégias Para Iniciantes E Avançados .......... 45 13.Aeróbio Vs Musculação: Qual O Papel De Cada No Emagrecimento? ....... 48 14.Treinamento Aeróbio Na Fase De Hipertrofia Vs Emagrecimento .............. 50 15.Estratégias Para O Final De Semana ......................................................... 53 16.Corrida Com Inclinação, Bike, Escada E Corda Naval: Qual A Vantagem? 56 17.Quais São As Variáveis Para A Montagem De Treinamento Intervalado De Alta Intensidade? .............................................................................................. 57 18.Protocolos De Treinamento Intervalado De Alta Intensidade ...................... 58 19.Como Usar A Frequência Cardíaca Para Montar Treino? ........................... 60 5 20.Como Usar A Percepção Subjetiva De Esforço Para Montar Treino? ......... 65 21.Como Usar Testes Para Montar Treino? ..................................................... 69 22.Hiit É Melhor Para A Perda De Gordura? .................................................... 74 23.Método Contínuo Constante ........................................................................ 76 24.Método Contínuo Crescente ........................................................................ 77 25.Método Contínuo Decrescente .................................................................... 78 26.Método Fartlek ............................................................................................ 79 27.Aeróbico Em Jejum Usa Mais Gordura? ..................................................... 80 28.Aeróbico Em Jejum Tem Vantagens No Emagrecimento?.......................... 82 29.Como Gerar Sobrecarga No Treinamento Aeróbio? ................................... 84 30.Progressão De Treino E Compensação Energética .................................... 86 31.Progressão De Volume No Treinamento Aeróbio ....................................... 89 32.Progressão De Intensidade No Treinamento Aeróbio ................................. 92 33.Treinamento Polarizado No Emagrecimento ............................................... 94 34.Referências ................................................................................................. 96 6 1. FISIOLOGIA DO EMAGRECIMENTO É muito importante compreender que o emagrecimento só acontece se houver a sustentação do déficit calórico por vários dias. Muitos profissionais se perguntam “por que meu cliente não está emagrecendo?” A primeira coisa é entender que se a pessoa não está perdendo gordura é porque não está em déficit calórico. A ingestão calórica tem um papel muito importante para obter o déficit calórico, por isso, é muito comum ver pessoas que até praticam exercício físico, mas por não estar seguindo uma dieta correta a perda de peso não acontece ou ocorre de maneira lenta. Então, a primeira coisa é compreender que o emagrecimento sustentável envolve diversas variáveis, como o treinamento, a dieta, o sono e até mesmo outros fatores psicológicos, como o estresse, a ansiedade etc. Embora o déficit calórico é essencial para o emagrecimento, iremos entender nos próximos tópicos que as adaptações fisiológicas promovidas pelo treinamento também são importantes no processo de perda de gordura. Pessoas que praticam exercício físico conseguem obter mais sucesso no emagrecimento, nós vamos estudar que isso acontece não só porque o treino ajuda a obter o déficit calórico, mas as adaptações fisiológicas tem um papel fundamental nesse processo. Bom, antes de falar sobre o motivo que é preciso ter o déficit calórico para emagrecer, vamos compreender os componentes do gasto energético total. Existe um gasto calórico total gerado pelo organismo todos os dias, no qual esse gasto calórico pode variar de pessoa para pessoa, pois depende da genética, da idade, da massa 7 muscular e do estilo de vida. Se uma pessoa consome mais calorias do que gasta, essa pessoa está em superávit calórico, pois existe um saldo positivo de calorias. Mas se a pessoa gasta mais calorias do que consome, ela está em déficit calórico, pois existe um salto negativo de calorias. É extremamente importante entender que a quantidade de gordura corporal está intimamente relacionada ao balanço calórico, conforme iremos entender neste tópico. O gasto energético total (GET) de uma pessoa durante o dia pode ser dividida em quatro componentes, tais como: 1) taxa metabólica basal (70% do GET); 2) efeito térmico dos alimentos (10% do GET); 3) gasto energético em atividades diárias (15% do GET); e 4) gasto energético em exercício físico. A taxa metabólica basal pode sofrer influência pela idade, sexo, peso corporal, bem como quantidade de massa magra. Entretanto, alguns hormônios como os da tireoide (T3) e a leptina também podem impactar no gasto energético em repouso (KIM et al. 2008). O déficit calórico é uma condição essencial para ocorrer à perda de gordura. Isso significa que para reduzir a massa gorda é necessário que o indivíduo sustente um gasto calórico maior do que a ingestão calórica. O tecido adiposo é formado por adipócitos, sendo que essas células armazenam uma gordura chamada de triacilglicerol. Quando uma pessoa sustenta o superávit calórico (ingestão calórica maior que o gasto calórico) o estoque de triacilglicerol aumenta, gerando a hipertrofia dos adipócitos, ou seja, ocorre ganho de gordura corporal. Por outro lado, quando o indivíduo sustenta o déficit calórico ocorre redução dos estoques de triacilglicerol, causando atrofia dos adipócitos. Por exemplo, vamos imaginar um indivíduo que tem um gasto calórico diário de 3000 kcal e está ingerindo 2500 kcal, ou seja, esse indivíduo tem um 8 déficit calórico de 500 kcal. Percebam que está faltando 500 kcal para atingir o gasto calórico total, no qual a gordura do tecido adiposo acaba sendo usada para fornecer essa energia que está faltando. Portanto, se o déficit calórico for sustentado por vários dias ocorre a perda de gordura. Não podemos esquecer que o mais difícil no processo de emagrecimento é sustentar o déficit calórico no longo prazo. Na medida que o indivíduo vai perdendo peso vai ficando mais difícil de sustentar o déficit calórico, pois a perda de peso gera alteraçõesfisiológicas, como aumento da fome e redução do gasto energético. Observem a figura abaixo, vejam que a perda de peso não é linear. Inicialmente a perda de peso é mais rápida, pois nessa fase a eliminação de líquidos é maior. O déficit calórico diminui a insulina, com esse hormônio mais baixo no sangue ocorre um aumento na eliminação de sódio e água pela urina. Nas primeiras semanas de déficit calórico também acontece uma redução no estoque de glicogênio muscular. Então, grande parte do peso perdido nas primeiras semanas é eliminação de água corporal e redução do glicogênio muscular, principalmente quando há restrição de carboidratos (low carb), pois menor ainda é a concentração de insulina e glicose no sangue (BLOMAIN et al. 2013). Isso tem que ser muito bem explicado para o cliente que busca emagrecer, pois nas primeiras semanas o peso na balança diminui rápido, isso gera motivação, mas quando o peso cai lentamente o indivíduo acha que não está emagrecendo e acaba desmotivando. Então é preciso explicar que o peso cai mais rápido no início pela eliminação de água e glicogênio, claro, está reduzindo gordura também, e que após isso o peso tende a cair de maneira mais lenta, isso é normal. 9 Nas primeiras semanas é mais fácil sustentar o déficit calórico, pois ainda não houve as alterações fisiológicas. Porém, com a perda de peso e sustentação do déficit calórico ocorre aumento da fome e redução do gasto energético em repouso. Isso dificulta a sustentação do déficit calórico. Lembrando que o aumento da ingestão calórica é mais significativo para o platô no emagrecimento do que a redução do gasto energético. Estudos vem demonstrando que a cada 1 kg de peso perdido ocorre um aumento de 100 kcal na ingestão calórica e redução de 20-30 kcal no gasto energético (HALL e KAHAN, 2018). Isso mostra que a perda de peso vai ficando mais difícil de atingir, pois o organismo cria essas alterações fisiológicas justamente para barrar a perda de peso. O gasto energético em repouso diminui no processo de emagrecimento, mas lembrando que a redução é baixa, e não podemos dizer que uma pessoa parou de emagrecer porque o metabolismo ficou lento. Na maioria dos casos, o aumento da ingestão calórica é o que mais explica o platô no emagrecimento. A redução do gasto energético em repouso pode ser explicada por 10 dois fatores: 1) pela própria perda de peso e 2) pela termogênese adaptativa. Lembrando que a gordura também contribui para o gasto energético em repouso, então quando uma pessoa diminui a gordura corporal há uma redução do gasto em repouso. Claro, se a pessoa perde massa muscular, essa queda de gasto energético em repouso é um pouco maior. A termogênese adaptativa é uma redução do gasto energético em repouso independente da perda de peso. Quando o indivíduo emagrece ocorre redução na produção do hormônio tireoidiano T3 e da leptina, assim como há uma redução na atividade do sistema nervoso autônomo simpático. Essas alterações promovem a redução do gasto energético em repouso, pois T3, leptina e sistema nervoso simpático são estimuladores de gasto energético. A leptina é produzida pelo tecido adiposo, esse hormônio tem a função de gerar saciedade no hipotálamo e estimula gasto energético. A leptina é produzida proporcionalmente a quantidade de tecido adiposo, ou seja, se um indivíduo tem mais gordura corporal produz mais leptina e se o indivíduo é eutrófico produz menos leptina (KLOK et al. 2007). Então, quando uma pessoa diminui a gordura corporal ocorre redução da leptina, contribuindo para o aumento da fome e redução do gasto energético. A perda de peso também gera aumento da fome, podendo aumentar a ingestão calórica, sendo o principal fator que gera o reganho de peso ou platô no emagrecimento, iremos entender um pouco mais sobre isso no próximo tópico. Portanto, compreender essas alterações fisiológicas que acontece com a perda de peso é essencial no momento de elaborar uma estratégia eficaz para o emagrecimento. 11 2. PLATÔ NO EMAGRECIMENTO E EFEITO SANFONA É possível obter a redução da gordura corporal fazendo somente a dieta, pois podemos obter o déficit calórico através da dieta por uma restrição na ingestão calórica. Porém, iremos compreender nesse tópico que não praticar o exercício físico fica mais difícil de manter o emagrecimento. Isso acontece porque a perda de peso gera algumas alterações fisiológicas no organismo que vão contribuir para o aumento da fome e ingestão calórica (SUMITHRAN et a. 2011). Esse aumento de ingestão calórica é o principal motivo que faz uma pessoa engordar após a perda de peso, processo chamado de efeito sanfona. Os estudos mostraram que a cada 1 kg de peso perdido ocorre um aumento de 100 kcal na ingestão calórica (HALL e KAHAN, 2018), então uma pessoa que perde 5 kg tende a ter um aumento de 500 kcal na ingestão alimentar. Vamos entender um pouco mais sobre como o emagrecimento causa esse aumento de fome para depois compreender o impacto do treinamento aeróbio na manutenção da perda de peso. O hipotálamo é um órgão que além de produzir hormônios controla a fome e a saciedade. É no hipotálamo que a sensação de fome acontece durante o jejum, bem como a saciedade após a ingestão alimentar. Existem alguns fatores que controlam o apetite, dentre eles o fator hormonal, sendo que existem hormônios que são secretados por estímulo da ingestão alimentar e outros que são produzidos durante o jejum. Por exemplo, quando o estômago está vazio as células gástricas produz o hormônio grelina, no qual age 12 no hipotálamo estimulando a sensação de fome. Existem diversos hormônios produzidos pelo intestino, como a colecistoquinina (CCK), que é produzida quando chega alimento no intestino (duodeno) e estimula a sensação de saciedade no hipotálamo. O peptídeo YY (PYY) e o peptídeo semelhante a glucagon 1 (GLP-1) também são secretados pelo intestino após a ingestão alimentar e aumentam a sensação de saciedade no hipotálamo. A insulina também é produzida após a ingestão alimentar e age juntamente com CCK, GLP-1 e PYY estimulando a saciedade. Por fim, existe um hormônio chamado de leptina que é produzido pelo tecido adiposo e gera saciedade no hipotálamo. A leptina é produzida proporcionalmente a quantidade de tecido adiposo, ou seja, se um indivíduo tem mais gordura corporal produz mais leptina e se o indivíduo é eutrófico produz menos leptina (KLOK et al. 2007). Quando uma pessoa perde gordura corporal ocorre redução na produção de leptina, pois com menos tecido adiposo, menor e a secreção de leptina. Além disso, quando uma pessoa está em déficit calórico a produção de insulina e menor e ao mesmo tempo ocorre maior secreção de grelina. Os estudos também têm demonstrado que ao emagrecer a produção dos hormônios intestinais são alteradas, como redução na secreção de CCK, PYY e GLP-1 (SUMITHRAN et al. 2011). Observem que o processo de emagrecimento faz aumentar no sangue hormônio que gera fome (grelina) e diminui no sangue hormônios que geram saciedade (leptina, insulina, CCK, PYY e GLP-1). Iremos entender nos próximos tópicos que o treinamento aeróbio aumenta o gasto calórico e a flexibilidade metabólica. Esses fatores podem “proteger” o indivíduo de obter o reganho de peso 13 quando a ingestão calórica aumenta. Por isso que observamos vários estudos mostrando que as pessoas que praticam exercício físico conseguem manter mais o peso corporal do que pessoas que fazem somente a dieta (FRANZ et al. 2007). 14 3. QUANTO DE DÉFICIT CALÓRICO PARA EMAGRECER? O déficit calórico pode variar de acordo com a quantidade de gordura corporal, ou seja, pessoas com maior quantidade de gordura podem ser usado um déficitcalórico maior do que pessoas que possui menos gordura corporal. Podemos usar um déficit calórico de 500 kcal em indivíduos que não são obesos, por outro lado, podemos usar um déficit calórico acima de 500 kcal em pessoas com sobrepeso e obesidade. Talvez você está se perguntando o motivo dessa diferença entre pessoas obesas e não obesas e a resposta está relacionado a preservação da massa muscular. Mais gordura corporal, menor é a chance de reduzir a massa muscular. Por isso, extrapolar no déficit calórico em pessoas que não são obesas pode aumentar a chance de ter redução da massa muscular, já nos indivíduos com sobrepeso e obesidade o déficit calórico mais amplo não teria esse risco elevado de reduzir a massa muscular. Para obesos podemos usar um déficit calórico (~500 a 1000). A chance de perder massa muscular na obesidade é menor, pois neste indivíduo a reserva energética é mais abundante, então, o organismo entende que existe muita gordura para suprir o déficit calórico, não necessitando de tantos aminoácidos. Para pessoas que não são obesas, é interessante usar no máximo 500 kcal de déficit calórica, pois acima desse valor o risco de reduzir massa muscular é maior. Importante mencionar que para evitar uma redução da massa muscular no emagrecimento é essencial selecionar corretamente o déficit calórico, ter uma dieta 15 hiperproteica e praticar musculação. A tabela abaixo resume o tamanho do déficit calórico de acordo com a gordura corporal. Tipo de pessoa Déficit calórico Pessoas com sobrepeso ou obesidade ~500 a 1000 kcal Pessoas sem sobrepeso ou obesidade ~500 kcal 16 4. ADESÃO AO TREINO: UMA VARIÁVEL IMPORTANTE NO EMAGRECIMENTO É muito comum ver pessoas iniciando um programa de treinamento físico para emagrecer, porém acabam desistindo. Muitos profissionais prescrevem treinamento sem considerar a adesão, acabam impondo um tipo de treino por achar ser melhor e isso aumenta a chance de desistência. Um estudo observou por um ano diversas pessoas que entraram em uma academia para praticar exercício físico. Após esse período, apenas 37% das pessoas estavam praticando exercício por 2 ou 3 vezes por semana (GJESTVANG et al. 2020). Esse resultado chama muito a atenção e nos mostra a realidade, no qual profissionais precisam entender que é preciso adotar estratégias de adesão e retenção para que o cliente mantenha a sua rotina de treinamento. Um dos fatores que explicam a desistência do treinamento é a falta de divertimento, ou seja, as pessoas acham “chato” treinar, reduzindo a motivação de sair de casa para ir fazer exercício físico. Esse tipo de situação acontece com maior probabilidade em pessoas iniciantes, pessoas que estavam fisicamente inativas com sobrepeso ou obesidade, ou seja, pessoas que desejam emagrecer. A fadiga, a dor e o cansaço físico são outros fatores que podem diminuir a adesão ao treinamento. Por isso, é extremamente importante que o treinamento seja progressivo, conforme iremos estudar nos próximos tópicos. Muitos profissionais querem levar resultados rápidos aos clientes, pulam etapas e acabam gerando uma sobrecarga excessiva. 17 Neste sentido, algumas estratégias podem ser adotadas para aumentar a adesão ao treino, principalmente em pessoas que estão iniciando um programa de emagrecimento. O primeiro passo é descobrir qual o tipo de exercício que a pessoa gosta de fazer, sendo que isso é muito individual. Tem pessoas que vão preferir fazer na academia, outras ao ar livre, outras a natação, o ciclismo etc. Durante a anamnese é importante descobrir isso. Outro ponto importante é submeter as pessoas em diversas experiencias de exercício físico, pois como ela vai saber se gosta do treino se ela nunca praticou? Uma das missões do profissional é achar a modalidade de treino que a pessoa mais gosta, submete seu cliente em diversas experiências (musculação, ciclismo, natação, exercício ao ar livre etc.) pois, se a pessoa praticar aquilo que gosta, ter divertimento e o programa de treino ser progressivo a chance de retenção ao treinamento vai aumentar, e claro, isso será essencial para ocorrer a perda de gordura e melhora da saúde. Uma outra estratégia que pode aumentar a adesão é usar circuitos, seja na academia ou ao ar livre, pois esse tipo de treino é dinâmico e pode ser mais divertido para algumas pessoas. Não podemos esquecer do papel do profissional para promover a motivação extra ao cliente. Muitos profissionais julgam o cliente por sair da dieta, por faltar do treino, usam palavras negativas, por exemplo, “vai ficar difícil emagrecer assim”, enfim, acabam gerando desmotivação através da fala. Se você quer realmente que a pessoa mantenha regularmente em um programa de treinamento é preciso mudar a postura, precisamos fazer um reforço positivo. Vou dar um exemplo, o cliente não treinou bem, estava mais desmotivado que o normal. Que tipo de fala seria interessante usar neste caso para fazer um reforço positivo? “Percebi que você 18 estava mais cansado no treino, tudo bem, é assim mesmo, nem sempre estamos motivados para treinar, mas eu tenho certeza que no próximo treino você vai dar o seu melhor, estou junto com você!” Perceba que esse tipo de conduta trás o cliente para cima, motiva, mostra que você está com ele e não tem julgamento. 19 5. O QUE É A FLEXIBILIDADE METABÓLICA? Já está claro que algumas pessoas perdem gordura com mais facilidade que outras. Essa diferença pode ser explicada pela genética, no qual as pessoas que perdem gordura com facilidade possuem uma alta sensibilidade à insulina e flexibilidade metabólica. Isso significa que a insulina dessas pessoas tem uma ação eficiente, o hormônio consegue transportar rapidamente glicose do sangue para o interior das células. Essas pessoas são sensíveis à dieta, podem consumir grande quantidade de carboidrato em superávit calórico e dificilmente ganham gordura corporal (GOODPASTER e SPARKS, 2017). A maior sensibilidade à insulina aumenta a flexibilidade metabólica. Talvez você esteja se perguntando “o que é a flexibilidade metabólica?” Bom, é a capacidade do organismo em oxidar glicose durante as refeições e treino e gordura durante o jejum e treino. Basicamente a flexibilidade metabólica é a eficiência do organismo em produzir energia. Durante as refeições com carboidratos ocorre um aumento da glicemia e na produção de insulina. A insulina estimula o transporte de glicose para dentro das células, principalmente músculo, tecido adiposo e fígado. Ao entrar na célula, a glicose é convertida em ATP (energia) ou pode ser armazenada em glicogênio. Uma pessoa com boa sensibilidade à insulina tem maior flexibilidade metabólica, pois a insulina transporta de maneira mais rápida a glicose para o músculo, então, existe uma maior disponibilidade de glicose para a célula fazer energia (TAREEN et al. 2020). 20 Já as pessoas que ganham gordura corporal com facilidade possuem uma menor sensibilidade à insulina e uma menor flexibilidade metabólica. Essas pessoas tem uma ação da insulina mais lenta, uma menos capacidade de oxidar glicose e gorduras, por isso tendem a acumular gordura corporal com maior facilidade. A sensibilidade à insulina e a flexibilidade metabólica pode ser influenciada pela genética. Existem pessoas que geneticamente possuem maior sensibilidade à insulina e flexibilidade metabólica, sendo essas pessoas as que têm facilidade em perder gordura em déficit calórico e dificuldade em ganhar gordura em superávit calórico (ASTRUP et al. 2011). Mas também existem pessoas que geneticamente possuem uma menor sensibilidade à insulina e flexibilidade metabólica, havendo uma facilidade em ganhar gordura em superávitcalórico e uma dificuldade em perder gordura em déficit calórico. Além da sensibilidade à insulina, as adaptações mitocondriais interferem diretamente a flexibilidade metabólica. Durante o jejum usamos de maneira predominante a gordura para fazer energia nas mitocôndrias. E claro, esse processo de oxidação de gorduras também acontece durante o treinamento. Se uma pessoa tem mais mitocôndrias no músculo e as suas mitocôndrias são mais eficientes, significa que ela terá uma capacidade maior de oxidar tanto a glicose como a gordura. Então, as adaptações mitocondriais também são muito importantes para aumentar a flexibilidade metabólica (CHOMENTOWSKI et al. 2011). Percebam que durante o dia existe uma troca na predominância de substrato energético, pois durante a refeição a prioridade é oxidar glicose e durante o jejum a prioridade é oxidar gorduras. O indivíduo com alta 21 flexibilidade metabólica tem uma habilidade maior em promover essa troca de substrato energético O aumento do número de mitocôndrias é um processo chamado de biogênese mitocondrial, no qual o treinamento aeróbio tem uma baita capacidade de gerar essas adaptações. Além disso, o treinamento aeróbio também aumenta a eficiência mitocondrial, ou seja, faz as mitocôndrias ficarem mais eficientes, existe uma melhora na atividade das enzimas envolvidas na beta oxidação, no ciclo de Krebs e cadeia transportadora de elétrons (BISHOP et al. 2019). Aumentar a flexibilidade metabólica é interessante tanto na fase de hipertrofia (superávit calórico) como na fase de emagrecimento (déficit calórico), embora esse aumento é maior na fase de emagrecimento justamente devido a perda de gordura corporal, déficit calórico e maior volume e intensidade do aeróbio. Mas, é preciso entender que aumentar a flexibilidade metabólica na fase de hipertrofia diminui o potencial no ganho de gordura em superávit calórico, assim como aumentar a flexibilidade metabólica na fase de emagrecimento aumenta o potencial de perda de gordura ou diminui o risco de reganho de peso. A figura abaixo mostra que o treinamento aeróbio melhora a sensibilidade à insulina e estimula a biogênese mitocondrial, aumentando a flexibilidade metabólica. 22 6. COMO O TREINAMENTO AERÓBIO AJUDA NA PERDA DE GORDURA? O primeiro passo é entender que o exercício físico tem uma limitação para gerar perda de gordura, pois o gasto calórico gerado pelo treinamento fica em torno de 200 a 600 kcal. Isso significa que é muito importante a combinação do exercício físico com uma dieta hipocalórica, pois assim a perda de gordura é potencializada. O gasto calórico durante a sessão e a melhora da flexibilidade metabólica são os principais motivos que fazem o treinamento aeróbio contribuir para a redução da gordura corporal. Vamos entender um pouco mais sobre o gasto calórico. A intensidade e volume são variáveis que interferem diretamente no gasto calórico do treino. Isso significa que treinar em alta intensidade gera maior gasto calórico do que treinar em baixa intensidade, quando o volume (tempo) é o mesmo. Por outro lado, fazer aeróbio por mais tempo também gera mais gasto calórico do que aeróbio em menos tempo (mesma intensidade). Percebam que volume e intensidade são variáveis que podemos manipular para gerar gasto calórico no treinamento aeróbio. Com relação à flexibilidade metabólica, não podemos esquecer de que o volume e a intensidade do treinamento aeróbio também interferem na melhora da sensibilidade à insulina e nas adaptações mitocondriais. Isso significa que podemos manipular o volume e a intensidade do aeróbio para promover a melhora da flexibilidade metabólica, conforme detalhado a seguir. Muitas pessoas acreditam que o gasto calórico após o treino (EPOC) é importante para o emagrecimento. Porém, os estudos 23 mostraram que após o treino de alta intensidade o gasto calórico é de 32 a 69 kcal e após treino de intensidade moderada o gasto calórico é de 24 a 48 kcal (PANISSA et al. 2011). Percebam que o gasto calórico pelo EPOC é baixo, gerando um baixo impacto para promover a perda de gordura a curto prazo. No longo prazo, pode ser que o efeito acumulativo dos gastos calóricos pós-treinos ajude na manutenção da perda de peso. Outra dúvida muito comum é sobre a oxidação de gorduras, no qual muitos alegam que o melhor treino aeróbio para emagrecer é aquele que “queimar” mais gorduras. No entanto, é preciso compreender isso melhor, pois essa afirmação não está totalmente correta. Ao aumentar à intensidade do treinamento aeróbio a oxidação de gorduras diminui, sendo que na intensidade moderada (65 a 70% da FC máxima) ocorre a zona de maior oxidação de gorduras (JEUKENDRUP et al. 2001). Primeiro, vamos entender o motivo que em alta intensidade a oxidação de gorduras diminui. Ao realizar o exercício de alta intensidade é preciso usar substratos que fazem energia de maneira mais rápida, como o glicogênio muscular. Então, ao incrementar a intensidade usamos mais glicogênio muscular e menos gorduras durante o esforço, pois a gordura fornece energia de maneira lenta. Agora vamos pensar em gasto calórico. Ao incrementar a intensidade o gasto calórico aumenta. Em outras palavras, por mais que a oxidação de gorduras diminui em esforço intenso, o gasto calórico se eleva justamente porque nesse momento o glicogênio muscular é mais utilizado. Por esse motivo não podemos dizer que o exercício moderado é melhor para emagrecer porque “queima mais gorduras”, e também não podemos dizer que o aeróbio intenso (HIIT) será melhor para emagrecer. Iremos entender aqui que 24 ambos os tipos de aeróbio (moderado contínuo e HIIT) podem ser usados em programas de emagrecimento (KEATING et al. 2017). Observem a figura abaixo mostra os principais motivos que o treinamento aeróbio contribui para o emagrecimento. Vejam que a curto prazo é o gasto calórico durante a sessão que mais contribui para a perda de gordura, pois facilita atingir o déficit calórico. Não podemos esquecer que as adaptações fisiológicas do treinamento levam tempo, então, no longo prazo observem que a melhora da flexibilidade metabólica e o gasto calórico durante a sessão ajudam no processo de perda de gordura ou na manutenção do emagrecimento. 25 7. VARIÁVEIS DO TREINAMENTO AERÓBIO: INTENSIDADE Primeiramente vamos compreender o que é a intensidade no treinamento aeróbio. Intensidade na corrida é velocidade ou a inclinação. Já na bike a intensidade é a carga ou a cadência na pedalada. Podemos classificar a intensidade do aeróbio como leve, moderada e intensa, sendo que é possível utilizar a percepção subjetiva de esforço (PSE), a frequência cardíaca e o consumo de oxigênio para determinar a intensidade do esforço ou até mesmo utilizar um teste e prescrever a intensidade baseado no teste. Fique tranquilo, pois iremos detalhar mais a frente como achar a intensidade do treino baseado na frequência cardíaca, PSE e testes. Ao aumentar a intensidade ocorrem diversas alterações fisiológicas no organismo, como por exemplo, aumento da frequência cardíaca, frequência respiratória e consumo de oxigênio. A frequência cardíaca aumenta porque durante o exercício estimulamos o sistema nervoso autônomo simpático, e quanto maior a intensidade, maior é a ativação simpática. O sistema nervoso autônomo simpático estimula a liberação de adrenalina, um hormônio que vai até o coração e liga no receptor beta adrenérgico. Essa ligação entre adrenalina e beta adrenérgico causa o aumento da frequência cardíaca. Lembrando que o aumento dos batimentos cardíacos é importante para elevar o débito cardíaco, ou seja, a quantidade de sangue circulante. Esse aumento de sangue circulante é fundamental para suprir o músculo esquelético com26 substratos energéticos e hormônios. Por isso que a frequência cardíaca é usada como parâmetro para saber a intensidade do treinamento, pois ela é influencia diretamente pela intensidade do treinamento. Embora não é o único método, usar a frequência cardíaca acaba sendo uma maneira fácil e de baixo custo para controlar a intensidade. O consumo de oxigênio também aumenta progressivamente com o incremento da intensidade. Quando estamos em repouso o consumo de oxigênio fica em torno de 3,5 ml/kg/min, sendo que durante o exercício esse consumo pode aumentar, e claro, a magnitude de aumento é dependente do condicionamento físico, no qual atletas podem ter um aumento de até 20x de consumo de oxigênio em relação ao repouso. Esse aumento no consumo de oxigênio durante o exercício causa uma elevada produção de gás carbônico (CO2), no qual vai para o sangue e posteriormente vai para os pulmões para eliminado através da expiração. Quando aumentamos a intensidade do aeróbio observamos uma maior frequência respiratória. E por que isso acontece? Bom, quando aumentamos a intensidade o consumo de oxigênio se eleva e consequentemente a produção de CO2 é maior. O acúmulo de CO2 no sangue ativa quimiorreceptores localizados nas grandes artérias, no qual enviam um sinal para o sistema nervoso central aumentar a frequência respiratória justamente para potencializar a eliminação de CO2. Percebam que o aumento da frequência respiratória é um mecanismo de defesa contra o acúmulo de CO2. O aumento na produção de lactato é outra resposta fisiológica que acontece ao incrementar a intensidade do treinamento aeróbio. Muitos associam a fadiga ou a sensação de queimação muscular que acontece durante o treino intenso com a liberação de ácido 27 lático, entretanto, essa afirmação está errada. Primeiro, o que encontramos no sangue é lactato e não o ácido lático. Segundo, a crença que o lactato gera fadiga acontece porque durante treinos intensos a concentração do lactato no sangue é alta. Porém o lactato elevado no sangue é um indicativo de que o exercício está usando muito o metabolismo glicolítico, pois o lactato é produto final da glicólise, ou seja, se está realizando muita glicólise, mais lactato será produzido. Quando o exercício é de alta intensidade e a pausa entre séries é de 1 minuto (pausa curta), o estoque de fosfocreatina no músculo está incompleto, pois precisa de 3 a 8 min para restaurar 100% a fosfocreatina. Então, esse treino dependerá muito mais da glicólise para produzir ATP, explicando o aumento na concentração de lactato. Vamos imaginar uma pessoa que vai fazer um teste incremental, no qual a velocidade na esteira aumenta 1 km/h a cada 2 minutos. Iremos observar que a frequência cardíaca, a frequência respiratória, o consumo de oxigênio e a produção de lactato irão aumentar de maneira progressiva de acordo com o incremento da intensidade. Essas respostas fisiológicas tem a função de otimizar a produção de energia para suprir a demanda energética no exercício. Por fim, não podemos esquecer que a intensidade do treinamento aeróbio interfere diretamente no gasto calórico. Se fossemos comparar dois treinos no mesmo volume (tempo), porém um treino foi de alta intensidade e o outro foi de intensidade moderada. A pergunta que fica é: Qual dos treinos irá promover maior gasto calórico e adaptações fisiológicas? A resposta é o treino de maior intensidade, pois o volume está equalizado. Isso não significa que para emagrecimento o único treino é o HIIT, mas 28 iremos compreender aqui que o volume também é uma variável que gera gasto calórico e adaptações fisiológicas, no qual podemos usar em um programa de emagrecimento tanto treinos contínuos moderados como treinos intervalados de alta intensidade. A figura abaixo mostra as respostas fisiológicas que são influenciadas pela intensidade do treinamento aeróbio. Podemos classificar a intensidade do treinamento aeróbio em muito leve, leve, moderada, intensa, muito intensa e máxima. Existem algumas formas de mensurar a intensidade do treinamento aeróbio, podemos usar o porcentual da frequência cardíaca máxima, o porcentual da frequência cardíaca de reserva, a percepção subjetiva de esforço (escala de Borg) e até mesmo testes para achar a velocidade associada ao consumo máximo de 29 oxigênio (vVO2máx). Neste tópico irei apenas mostrar os valores de classificação de intensidade através desses métodos, sendo que nos próximos tópicos irei detalhar como usar a frequência cardíaca, a escada de Borg e os testes para a prescrição da intensidade em diferentes métodos de treinamento aeróbio. Afinal, como saber se o treino está intenso, moderado ou leve? Observem a tabela abaixo que mostra a classificação de intensidade através da frequência cardíaca de reserva (FCR), frequência cardíaca máxima (FCmax) e percepção subjetiva de esforço pela escalada de Borg. Através dessa tabela é possível identificar se o estímulo está intenso, moderado ou leve, utilizando ferramentas de baixo custo como a escala de Borg e monitor cardíaco. Intensidade FCR (%) FCmáx (%) Borg Muito leve <20 <35 <10 Leve 20-39 35-54 10-11 Moderada 40-59 55-69 12-13 Intenso 60-84 70-89 14-16 Muito intenso ≥85 ≥90 17-19 Máxima 100 100 20 30 8. VARIÁVEIS DO TREINAMENTO AERÓBIO: VOLUME O primeiro passo é entender que o volume no aeróbio significa o tempo ou distância percorrida. Muitas pessoas acreditam que somente a intensidade gera gasto calórico e ajuda no processo de emagrecimento, porém não é bem por aí. O volume é uma variável que também gera gasto energético. Por exemplo, uma corrida moderada de 45 minutos causa um gasto calórico maior em comparação a uma corrida de 30 minutos na mesma intensidade. Realizar 10 séries no HIIT (1 minuto de estímulo e 1 minuto de pausa) gera um gasto calórico superior a ao mesmo modelo de HIIT feito em 5 séries. Percebam que a manipulação do volume é uma das formas de elevar o gasto calórico do treinamento aeróbio, sendo que nos próximos tópicos iremos observar que a progressão do volume semanal de aeróbio é uma ótima estratégia no processo de emagrecimento, ou seja, iniciar com volume baixo e gradativamente esse volume é aumentado. Observem a figura abaixo que mostra a relação entre volume do aeróbio e gasto energético. Percebam ao incrementar o volume ocorre aumento do gasto energético. Por isso, o aumento gradual do volume no aeróbio é uma das maneiras que podemos progredir o gasto energético em objetivo de emagrecimento. 31 Legenda: O volume (tempo) é uma variável que também gera impacto sobre o gasto energético. Para a mesma intensidade, treino aeróbico com menos volume terá um menor gasto energético do que treino aeróbico com maior volume. Ou seja, ao incrementar o volume ocorre aumento do gasto energético. Com relação ao volume do aeróbio e a contribuição dos substratos energéticos, é importante compreender que o glicogênio muscular diminui progressivamente durante o exercício, e quanto maior o volume, maior a depleção do glicogênio muscular (BAKER et al, 2010). Vamos usar um exemplo para entender melhor. No início de uma prova de endurance (maratona) o estoque de glicogênio muscular está elevado, porém o glicogênio vai reduzindo de maneira progressiva, sendo que ao final da prova o conteúdo de glicogênio muscular estará baixo. Entendam que houve uma redução drástica no glicogênio muscular justamente devido ao alto volume. Vamos analisar a figura abaixo que demonstra diversos estudos que avaliaram o efeito do exercício em diferentes protocolos sobre o conteúdo de glicogênio muscular (IMPEY et al, 32 2018). Percebam que o exercício de maior intensidade (120-150% do VO2máx) fazo glicogênio diminuir de maneira mais rápida, sendo que isso acontece justamente devido ao fato do fluxo glicolítico ser maior (metabolismo anaeróbio lático) nesse tipo de exercício. No entanto, quando o exercício é feito em intensidade moderada a queda do glicogênio acontece de maneira mais lenta e dependente do tempo (volume). Percebam que o exercício mais longo (2 a 4 horas) ocorre uma redução significativa do glicogênio muscular. Vejam na figura o estudo de Coyle e colaboradores (1986) que verificaram uma queda progressiva do conteúdo de glicogênio muscular de acordo com o tempo. Houve uma redução do glicogênio muscular após 120 minutos de exercício moderado (71% do VO2máx), porém a queda de glicogênio muscular foi maior após 180 minutos de exercício. Legenda: O glicogênio muscular diminui em maior velocidade quando o exercício é de alta intensidade (120 a 150% do VO2máx), conforme mostrado na figura. Porém, em exercício de intensidade moderada o glicogênio muscular diminui em menor 33 velocidade e de maneira progressiva. Quando maior o volume, maior a redução do glicogênio muscular. Portanto, o volume do treinamento aeróbio (tempo e distância) é uma variável importante que devemos manipular pensando em emagrecimento, pois interfere diretamente no gasto calórico e promove adaptações fisiológicas. Nos próximos tópicos iremos compreender como fazer a progressão de volume no treinamento aeróbio. 34 9. COMO AUMENTAR A FLEXIBILIDADE METABÓLICA? Embora a genética tem uma grande influência sobre a flexibilidade metabólica, não podemos esquecer que o estilo de vida também pode impactar na flexibilidade metabólica. Dieta saudável, consumo regular de frutas, vegetais, gordura insaturada (azeite, abacate, oleaginosas, chia, linhaça etc.) e o treinamento (musculação e aeróbio) aumentam a sensibilidade à insulina, as adaptações mitocondriais, e consequentemente ocorre a melhora da flexibilidade metabólica. Por isso, não podemos achar que para emagrecer basta gerar apenas o déficit calórico, mas também precisamos aumentar a flexibilidade metabólica do indivíduo. O treinamento aeróbio tem uma grande importância para aumentar a flexibilidade metabólica, pois aumenta de maneira simultânea a sensibilidade à insulina e as adaptações mitocondriais (biogênese mitocondrial e eficiência mitocondrial). A musculação também ajuda na melhora da flexibilidade metabólica, mas sua maior importância está no aumento da sensibilidade à insulina, pois o ganho de massa muscular gera essa adaptação. O ganho de massa muscular aumenta o gasto energético em repouso, mas esse aumento é pequeno, não impactando muito na perda de gordura a curto prazo. No longo prazo, o ganho de massa muscular tem muita importância na manutenção do emagrecimento, principalmente pela melhora da flexibilidade metabólica. O treinamento aeróbio é mais eficiente para gerar adaptações mitocondriais do que a musculação, por isso que alguns estudos vêm demonstrando que o treinamento aeróbio combinado com 35 musculação gera uma perda de gordura corporal superior em comparação a prática isolada de musculação. Os estudos têm demonstrado que o exercício aeróbio tem uma capacidade maior de estimular o processo de biogênese mitocondrial. A musculação também estimula a biogênese mitocondrial (PORTER et al, 2015), porém, o treinamento aeróbio tem uma capacidade maior para essa adaptação. Após o estímulo do treino ocorre um aumento na síntese de proteínas no músculo. Essas proteínas podem ser miofibrilares (actina e miosina) e proteínas mitocondriais que vão formar as novas mitocôndrias. Interessante que dependendo do tipo de treino podemos modular mais para o aumento da síntese de proteínas miofibrilares e ter a hipertrofia muscular (musculação) e síntese de proteínas mitocondriais e ter a melhora da capacidade aeróbia e flexibilidade metabólica (treino aeróbio). O estudo de Wilkinson et al. (2008) mostra que as adaptações no músculo esquelético são de acordo com o estímulo imposto. Dez homens participaram de um experimento, no qual um dos membros inferiores realizou treinamento de força e o outro membro executou o treino aeróbio. A taxa de síntese proteica miofibrilar e mitocondrial foi avaliada de forma aguda antes e após 10 semanas de intervenção. Os resultados apontaram que no estágio inicial, o treinamento de força estimulou a síntese de proteínas miofibrilares e mitocondriais na magnitude de 67% e 69%, respectivamente. Contudo, após 10 semanas, o treinamento de força aumentou apenas a síntese proteica miofibrilar em torno de 36%. Por outro lado, o treinamento aeróbio estimulou a síntese proteica mitocondrial quando não treinados em 154%, e depois de treinados em 105%, mas não foi capaz de aumentar a síntese proteica miofibrilar. Percebam que quando o músculo está destreinado a 36 musculação aumenta a síntese proteica miofibrilar e mitocondrial, porém após um período de treino, a resposta se torna mais específica. Por isso, se queremos potencializar o aumento no número de mitocôndrias e a capacidade aeróbia o treinamento aeróbio será escolha ideal, ou seja, corrida, bike, natação, escadas, etc. Mas, se queremos aumentar a massa muscular e ganhar força à musculação terá um efeito maior, isso se chama especificidade, as adaptações acontecem de acordo com o tipo de estímulo. Com relação aos tipos de treinamento aeróbio, nesse tópico irei abordar de maneira mais generalizada, sendo que nos próximos tópicos o conteúdo será mais detalhado. Podemos aumentar a flexibilidade metabólica através de protocolos de treinamento de alta intensidade, aeróbio contínuo moderado e também com o aeróbio em jejum. O treino aeróbio de alta intensidade potencializa as adaptações mitocondriais e melhora a sensibilidade à insulina, ótima opção para pessoas com pouco tempo para treinar e que gostam desse tipo de treinamento. O aeróbio contínuo moderado também aumenta a flexibilidade metabólica, principalmente quando usado em maior volume (tempo ou distância). Embora o aeróbio em jejum promove uma redução de gordura similar ao aeróbio alimentado (a curto prazo), no longo prazo parece que o aeróbio em jejum possui algumas vantagens, como a melhora da flexibilidade metabólica. Realizar o aeróbio em jejum pode potencializar a melhora da sensibilidade a insulina e a biogênese mitocondrial, sendo uma ótima estratégia principalmente para pessoas treinadas que tem adesão a esse tipo de exercício. De maneira geral a melhora da flexibilidade metabólica acontece quando o indivíduo perde gordura corporal, mantém uma dieta saudável e pratica exercício físico (musculação e aeróbio). Por 37 isso, se o indivíduo quer ter sucesso no emagrecimento não basta gerar apenas o déficit calórico, é preciso também aumentar a flexibilidade metabólica. Muitas pessoas acham que emagrecer é só déficit calórico, como se fosse algo simples, mas compreendemos aqui nesse tópico a importância de elevar a flexibilidade metabólica na perda de gordura. Lembrando, essas adaptações são essenciais na manutenção da perda de peso, pois caso a pessoa aumente a sua ingestão calórica, a melhora da flexibilidade metabólica vai ajudar a evitar o reganho de peso, pois mais eficiente está o metabolismo do indivíduo. 38 10. TREINAMENTO AERÓBIO COM GLICOGÊNIO BAIXO Outra estratégia para potencializar a melhora da flexibilidade metabólica em indivíduos treinados é através da prática do treinamento aeróbio com o glicogênio baixo. Pesquisas vêm demonstrando que a realização do treinamento aeróbio com glicogênio baixo potencializa adaptações mitocondriais e o desempenho aeróbio (MARQUET et al. 2016; RIIS et al. 2019). Por exemplo, a estratégiasleep low tem como objetivo fazer o indivíduo realizar o treinamento aeróbio pela manhã com o glicogênio muscular baixo com a finalidade de potencializar adaptações mitocondriais e com isso melhorar o desempenho aeróbio e a flexibilidade metabólica. Para isso acontecer, é preciso realizar um treinamento de alta intensidade no período da noite (sprints) para reduzir o glicogênio muscular, na sequência dormir sem consumir carboidratos, mas apenas proteínas e gorduras, e por fim, na manhã do dia seguinte realizar o treino de endurance prolongado em jejum. Percebam que não há ingestão de carboidratos entre o treino de alta intensidade da noite e o treino da manhã justamente para não haver a reposição do glicogênio muscular e com isso o treino pela manhã de endurance seja feito com o glicogênio muscular baixo. Para ficar mais claro, vamos analisar a tabela abaixo, no qual mostra um exemplo da estratégia sleep low para um indivíduo que consome 500g de carboidratos por dia e realiza 6 refeições. Percebam que as refeições 1, 2, 3, 4 e 5 possuem carboidratos, sendo que a refeição 1 é feita somente após o treinamento de 39 aeróbio pela manhã, ou seja, o indivíduo realiza esse treino em jejum. Agora vamos observar a refeição 6, sendo que é realizada após o treinamento de alta intensidade (sprints) e não possui carboidratos justamente para não haver a reposição do glicogênio muscular. Refeição 1 2 3 4 5 6 Momento Pós- Endurance Pré- Sprints Pós- Sprints Dose de CHO 100g 100g 100g 100g 100g 0g A estratégia sleep low tem como objetivo potencializar a biogênese mitocondrial, pois quando o treinamento aeróbio é feito com glicogênio baixo as adaptações mitocondriais são potencializadas. A biogênese mitocondrial acontece porque o treinamento aeróbio ativa a proteína chamada de AMPK. A proteína AMPK tem muitas funções durante o exercício, e uma dessas funções é gerar adaptações, como a biogênese mitocondrial. Quando a AMPK sofre ativação, essa proteína transloca um fator de transcrição chamado de PGC1 alfa do citoplasma para o núcleo celular, sendo que no núcleo PGC1 alfa vai até a fita de DNA e lá estimula o processo de transcrição de proteínas mitocondriais. Basicamente quando PGC1 alfa está no citoplasma (sem exercício) a criação de novas mitocôndrias não acontece. Porém, quando PGC1 alfa é direcionado para o núcleo via ativação de AMPK (exercício) ocorre à criação de novas mitocôndrias. Portanto, a estratégia sleep low visa ampliar a ativação de AMPK e PGC1 alfa durante o treinamento de endurance justamente 40 devido ao baixo conteúdo de glicogênio muscular, resultando em maior biogênese mitocondrial e melhora da flexibilidade metabólica. 41 11. TREINAMENTO COMBINADO: AERÓBIO ANTES OU DEPOIS DA MUSCULAÇÃO O treinamento combinado (musculação com aeróbio) é uma excelente estratégia para reduzir o porcentual de gordura, pois ocorre um aumento ou preservação da massa muscular e a redução da gordura corporal é potencializada. Lembrando que em fase de emagrecimento é importante ter o treinamento aeróbio para que haja maior efeito na perda de gordura, sendo que podemos usar mais volume e intensidade do treinamento aeróbio na fase de emagrecimento do que na fase de hipertrofia muscular. Pensando em desempenho, separar a musculação do treinamento aeróbio seria a melhor opção, principalmente em pessoas treinadas que fazem musculação e aeróbio todos os dias. Algumas pessoas terão disponibilidade para fazer o treino separado, porém outras pessoas não terão essa disponibilidade, então é preciso que o treino aeróbio seja na mesma sessão que o treino de musculação. Uma dúvida que muitas pessoas possuem é referente à ordem, ou seja, o que é melhor? Fazer o treinamento aeróbio antes ou após a musculação? Bom, o primeiro passo é saber qual a intensidade e volume do treinamento aeróbio e o nível de treinamento da pessoa. Os estudos vêm demonstrando que o efeito concorrente, ou seja, a interferência nas adaptações acontece principalmente em pessoas treinadas e atletas, já em pessoas iniciantes e destreinadas esse efeito é menor (COFFEY e HAWLEY. 2017). Outro ponto importante é a intensidade e o volume do treinamento aeróbio, pois se for uma caminhada (intensidade leve), tanto faz se é feito antes ou após a 42 musculação, pois fazer primeiramente a caminhada não vai prejudicar o desempenho da musculação e iniciar com a musculação não vai prejudicar o desempenho da caminhada. Por outro lado, se o aeróbio é de alta intensidade (HIIT) ou moderado de longa duração (>45 minutos), pode haver prejuízo no desempenho, principalmente quando o mesmo grupo muscular é utilizado (musculação para membros inferiores e corrida/bike). Um estudo observou que a realização do HIIT ou o aeróbio moderado na bike antes da musculação prejudicou apenas o ganho de força de membros inferiores, mas o ganho de força de membros superiores foi similar entre os grupos que fizeram treinamento combinado e musculação isolada, mostrando que a interferência acontece de maneira localizada (FYFE et al. 2016). Outros estudos demonstraram que a realização de um protocolo de HIIT (corrida de 5 km em uma esteira, 1 minuto de alta intensidade separado por 1 minuto de recuperação passiva) reduziu o volume total do exercício subsequente de musculação para membros inferiores em aproximadamente 22 - 27%. Isso significa que fazer primeiramente o HIIT (bike ou esteira ou escada) ou aeróbio moderado de longa duração pode prejudicar o desempenho da musculação de membros inferiores. Uma das formas de reduzir esse efeito concorrente é utilizar grupos musculares diferentes. Por exemplo, se a musculação é de membros superiores o treinamento aeróbio é feito com membros inferiores (esteira, bike e escada), mas se a musculação é de membros inferiores, o treinamento aeróbio pode ser feito com membros superiores (corda naval e remo ergômetro). Do ponto de vista prático, se você quer enfatizar o desempenho na musculação e o treinamento aeróbio é de alta 43 intensidade (HIIT) ou aeróbio moderado de longa duração (>45 minutos), é mais prudente realizar primeiro a musculação e depois o treinamento aeróbio. Porém, se o foco é o treinamento aeróbio, podemos usar a ordem contrária, ou seja, aeróbio primeiro e depois a musculação. Uma estratégia interessante é usar a ordem de acordo com o foco do grupo muscular. Por exemplo, muitas mulheres tem o foco de hipertrofiar coxas e glúteos e não tanto os membros inferiores, e ao mesmo tempo desejam reduzir a gordura corporal. Nesses casos podemos usar o treinamento aeróbio após a musculação de membros inferiores, pois é o foco, mas quando a musculação é de membros superiores (não é o foco) podemos usar o treinamento aeróbio antes da musculação. Falamos anteriormente de estratégias que visam otimizar o desempenho. Porém, realizar o treinamento aeróbio após a musculação pode trazer vantagens para a flexibilidade metabólica. Ao realizar a musculação de membros inferiores o estoque de glicogênio muscular da coxa e glúteo é reduzido, sendo que o aeróbio subsequente (bike, corrida ou escada) será feito com o glicogênio baixo. Conforme detalhado nos tópicos anteriores, realizar o treinamento aeróbio com o glicogênio baixo pode otimizar adaptações mitocondriais, como a biogênese mitocondrial e a eficiência mitocondrial. E claro, essa estratégia também ajudará na melhora da sensibilidade a insulina, sendo que essas adaptações são importantes para melhorar a flexibilidade metabólica. Então visando à melhora da flexibilidade metabólica, principalmente em pessoas treinadas, o treinamento combinado pode ser feito para o mesmo grupo muscular. Por exemplo, se a musculação é de membros inferiores,o aeróbio subsequente é de membros inferiores (corrida, bike e escada), mas, se a musculação 44 é de membros superiores, o aeróbio subsequente é de membros superiores (corda naval e remo ergômetro). 45 12. TREINAMENTO COMBINADO: ESTRATÉGIAS PARA INICIANTES E AVANÇADOS O volume e a intensidade do aeróbio são maiores em pessoas treinadas do que em pessoas iniciantes. Pensando em perda de gordura corporal, é muito importante que haja uma progressão no treinamento. As tabelas abaixo mostram um exemplo de progressão de volume do treinamento aeróbio em combinação com a musculação para pessoas treinadas. Observem que na fase 1 o indivíduo faz aeróbio de manhã (A) e musculação a noite (M) de segunda a sábado. Na fase 2, além dos treinos aeróbicos pela manhã, é adicionado três aeróbicos após a musculação, sendo na segunda, quarta e quinta (M + A), visando incrementar o gasto calórico e a flexibilidade metabólica. Já na fase 3, o indivíduo faz aeróbio no período da manhã e após a musculação de segunda a sábado. Com relação ao método do treinamento aeróbio não existe uma regra, pois podemos usar protocolos de alta intensidade e de moderada intensidade. Muitas pessoas preferem usar o aeróbio em jejum pela manhã, claro isso pode ser feito sem problemas. Podemos também utilizar os treinos de alta intensidade (HIIT curto, HIIT longo, SIT e RST) no período da manhã ou após a musculação, são ótimas opções para pessoas que gostam de treinar em alta intensidade e curta duração. 46 FASE 1 SEG TER QUA QUI SEX SAB DOM MANHÃ A A A A A A NOITE M M M M M M FASE 2 SEG TER QUA QUI SEX SAB DOM MANHÃ A A A A A A NOITE M + A M M + A M M + A M FASE 3 SEG TER QUA QUI SEX SAB DOM MANHÃ A A A A A A NOITE M + A M + A M + A M + A M + A M + A Percebam que o volume de aeróbio foi aumentando entre as fases e a estratégia de usar aeróbio após a musculação foi utilizada. O objetivo dessa estratégia é progredir o gasto calórico e a melhora da flexibilidade metabólica. Para pessoas iniciantes e destreinadas é muito importante lembrar que qualquer tipo de treino irá causar adaptações, pois essas pessoas não estão praticando regularmente exercício físico. Uma estratégia bem interessante é intercalar entre os dias a musculação com o treinamento aeróbio. Observem as tabelas abaixo que demonstra um exemplo de progressão de treinamento para pessoas iniciantes e destreinadas. Vejam que na fase 1 a musculação (M) é feita na segunda, quarta e sexta, sendo que o treinamento aeróbio é feito terça e quinta. Na fase foram adicionados mais dois treinos aeróbicos junto com a musculação (M+A) na segunda e sexta, podendo ser feito após a musculação ou 47 até mesmo circuitos. Já na fase 3, o treinamento aeróbio está presente de segunda a sexta, sendo na terça e quinta de maneira isolada e na segunda, quarta e sexta combinado com a musculação. Interessante mencionar que na terça e quinta o treinamento aeróbio pode ser feito em mais volume ou intensidade, pois não há musculação nesse dia. Já nos dias que o treinamento aeróbio é feito junto com musculação, podemos usar intensidade leve/moderada (caminhada e bike) ou até mesmo alguns estímulos de alta intensidade na bike (1 a 3 séries) e o restante do treino aeróbio de intensidade leve ou moderada. FASE 1 SEG TER QUA QUI SEX SAB DOM NOITE M A M A M FASE 2 SEG TER QUA QUI SEX SAB DOM NOITE M + A A M A M + A FASE 3 SEG TER QUA QUI SEX SAB DOM NOITE M + A A M + A A M + A Claro, existem outras maneiras de combinar a musculação com o treinamento aeróbio. Aqui neste tópico mostrei algumas opções, sendo importante avaliar a disponibilidade de tempo, nível de treinamento e preferência do cliente. 48 13. AERÓBIO VS MUSCULAÇÃO: QUAL O PAPEL DE CADA NO EMAGRECIMENTO? Primeiramente é preciso entender que o déficit calórico (condição para emagrecer) diminui a síntese de proteínas musculares e aumenta a degradação proteica, ou seja, o potencial de hipertrofia diminui quando um indivíduo sustenta o déficit calórico por vários dias. Não podemos esquecer que é possível ganhar massa muscular em déficit calórico, mas a chance de isso acontecer é maior em indivíduos destreinados em dieta hiperproteica. Os estudos têm demonstrado que o treinamento resistido isolado tem uma menor capacidade de gerar perda de gordura corporal do que o treinamento aeróbio (WILLIS et al, 2012; DAVIDSON et al. 2009). Por outro lado, quando o déficit calórico é combinado somente com aeróbio ocorre redução da massa muscular, no qual vários estudos têm mostrado que o treinamento resistido aumenta ou preserva a massa muscular em déficit calórico (VILLAREAL et al. 2017; DOLEZAL et al. 1998). Não se esqueçam de que o aumento ou preservação da massa muscular tem mais efeitos estéticos (aparência muscular) do que capacidade de emagrecer a curto prazo, pois muitos acreditam que o treinamento resistido é melhor para emagrecer porque aumenta o gasto energético em repouso. Um recente estudo de metanálise observou que o treinamento resistido gerou um aumento de 96 kcal por dia no gasto energético em repouso, sendo que esse efeito não foi observado no treinamento aeróbio (MACKENZIE-SHALDERS et al. 2020). Percebam que esse aumento do metabolismo em repouso é 49 pequeno, não havendo muito impacto para a perda de gordura a curto prazo, porém a longo prazo ou quando estamos falando em manutenção da perda de peso esse efeito será mais importante. Já a combinação do treinamento resistido com o aeróbio parece ser a melhor estratégia quando o objetivo é melhorar o porcentual de gordura, pois os estudos mostraram que indivíduos que praticam musculação com aeróbio perdem mais gordura corporal e ao mesmo tempo aumentam ou preservam a massa muscular (WILLIS et al, 2012; DAVIDSON et al, 2009). Claro, quando se fala em ganho de força e hipertrofia muscular a musculação é um tipo de exercício mais eficiente. Um estudo mostrou que a síntese de proteínas musculares aumentou 80% após a musculação, 50% após o HIIT e 10% após o aeróbio contínuo moderado (CALLAHAN et al. 2021). Percebam que a síntese de proteínas musculares aumenta de acordo com a magnitude de carga externa e recrutamento de fibras, no qual a musculação foi superior que o HIIT, e o HIIT foi superior que o aeróbio contínuo moderado. 50 14. TREINAMENTO AERÓBIO NA FASE DE HIPERTROFIA VS EMAGRECIMENTO Na fase de hipertrofia muscular normalmente o indivíduo está em superávit calórico, o consumo de carboidratos é maior, e muitos não fazem aeróbio durante essa fase por receio de atrapalhar o ganho de massa muscular. O primeiro passo é entender que o aeróbio sem exageros não atrapalha o ganho de massa muscular e que fazer aeróbio durante a fase de hipertrofia é interessante principalmente para minimizar o ganho de gordura corporal. É muito comum indivíduos em fase de hipertrofia adotar um consumo excessivo de calorias (bulk sujo) e não realizar nenhum tipo de treinamento aeróbio. No entanto, o excesso de calorias pode potencializar o ganho de gordura corporal e ainda reduzir a sensibilidade à insulina. Um estudo verificou que a ingestão calórica excessiva (6.000 kcal/dia, por uma semana) gerou um rápido ganho de peso e diminuição da sensibilidade à insulina em homens saudáveis (BODEN et al. 2015). Estes resultados indicam que o excesso de calorias na dieta leva a uma piora na capacidade da insulina agir, sendo que isso pode contribuir mais para o ganho de gordura corporal do que para o ganho de massa muscular. Percebam que o comer em excesso e não fazer aeróbio acaba não sendo uma estratégia interessante. O ponto que eu quero chegar é que na fasede hipertrofia é interessante sim fazer o treinamento aeróbio, e claro, na fase de emagrecimento o treinamento aeróbio é feito com mais volume e/ou intensidade. Por exemplo, uma pessoa em fase de hipertrofia faz treinamento aeróbio três vezes por semana, sendo dois treinos de intensidade 51 moderada (30 minutos) e um treino de alta intensidade na bike (15 minutos). Essa quantidade de aeróbio provavelmente não vai prejudicar a hipertrofia, mas vai melhorar a flexibilidade metabólica (biogênese mitocondrial e aumento da sensibilidade à insulina), reduzindo o potencial no ganho de gordura em superávit calórico. Quando esse indivíduo mudar para a fase de emagrecimento, no qual ele precisa gerar mais gasto calórico para obter o déficit calórico e melhorar ainda mais a flexibilidade metabólica, é prudente aumentar o volume e/ou a intensidade do treinamento aeróbio. Por exemplo, poderíamos aumentar a duração dos treinos, a frequência semanal, aumentar a intensidade, enfim, são várias opções. Essa quantidade de treinamento aeróbio durante a fase de emagrecimento não seria um problema, pois queremos reduzir a gordura corporal e manter a massa muscular, embora seja possível ganhar massa muscular mesmo em déficit calórico. Vamos para as evidências científicas, os estudos demonstraram que fazer aeróbio sem exageros não prejudica a hipertrofia em comparação a prática isolada de musculação (MURACH et al. 2016; TSITKANOU et al. 2017). Por exemplo, um estudo observou que a prática do aeróbio na bike (3x por semana) combinado com musculação (dias alternados) e dieta hiperproteica não houve prejuízo no ganho de massa magra e força em comparação ao grupo que fez somente musculação (dieta foi equalizada). Os autores destacam que realizar aeróbio sem exagero, separado da musculação e com dieta hiperproteica são estratégias para não comprometer o ganho de massa muscular e força e ao mesmo tempo melhorar a capacidade aeróbia (SHAMIM et al, 2018), pois sabemos que o exercício aeróbio tem um potencial maior em gerar adaptações no sistema cardiorrespiratório que a 52 musculação. Obviamente que o excesso de aeróbio pode atrapalhar o ganho de massa muscular, pois a prática excessiva de aeróbio diminui o desempenho da musculação e ao mesmo tempo eleva muito o gasto energético, podendo gerar déficit calórico, sendo que esses fatores podem diminuir o potencial de hipertrofia. Por outro lado, a ciência vem demonstrando que dependendo do tipo de treinamento aeróbio pode haver até um ganho adicional na hipertrofia da coxa. Alguns estudos mostraram que a hipertrofia na coxa foi maior ao realizar o HIIT na bike combinado com a musculação em comparação a prática isolada da musculação (CALLAHAN et al. 2021; MURACH et al. 2016). Claro, a musculação tem uma capacidade maior em gerar hipertrofia do que o HIIT na bike, mas eu acho uma ótima estratégia usar HIIT na bike em combinação com musculação em pessoas que buscam definição muscular e querem aumentar o volume na coxa. 53 15. ESTRATÉGIAS PARA O FINAL DE SEMANA Muitas pessoas falham no emagrecimento por extrapolar durante o final de semana. Seguem o plano alimentar e treinam durante a semana, mas de sexta a domingo acabam exagerando no consumo de alimentos calóricos nas festas e confraternizações, bebidas alcoólicas e não fazem exercício físico. Vamos dar um exemplo de como o final de semana pode anular grande parte do esforço na dieta e no treino feito durante a semana. Imagine uma pessoa que de segunda a sexta obtém um déficit calórico diário de 400 kcal, ao final desse período houve um déficit calórico de 1600 kcal. De sexta a domingo a pessoa exagera no consumo de alimentos calóricos, não treina e obtém um superávit calórico diário de 500 kcal, sendo que ao final desses três dias houve um superávit calórico de 1500 kcal. Agora vamos analisar, a pessoa teve um déficit calórico de 1600 kcal durante a semana e um superávit calórico de 1500 kcal no final de semana, ou seja, o déficit calórico da semana foi de apenas 100 kcal. Com esse déficit calórico semanal a perda de gordura será muito lenta ou até mesmo não vai acontecer. A figura abaixo representa esse exemplo citado acima. 54 Por isso, é importante que profissionais estejam atentos ao final de semana, é preciso ter o controle, mas cuidado com o extremismo. Muitos clientes querem manter uma vida social e ainda obter resultados de emagrecimento. Por isso, algumas estratégias podem ser aplicadas para isso acontecer. Sabendo que o indivíduo irá realizar uma refeição hipercalórica podemos usar uma sessão de treinamento aeróbio ou de musculação antes dessa refeição. Basicamente a refeição hipercalórica será o pós-treino. Qual a finalidade disso? Após o treino ocorre um aumento na sensibilidade à insulina e na atividade da enzima glicogênio sintase (enzima responsável pela síntese de glicogênio), sendo que boa parte da glicose que está no sangue será direcionada para formar o glicogênio no músculo (WOJTASZEWSKI et al. 2000). Então, a estratégia de fazer a refeição hipercalórica como pós-treino é justamente aproveitar esse ambiente para minimizar o ganho de gordura corporal. Sabendo que o indivíduo irá ter uma maior ingestão calórica no final de semana, podemos adicionar treinos aeróbicos extras 55 com estratégia de compensação. Em outras palavras, se o indivíduo comer mais calorias terá que gastar mais calorias. Importante mencionar que muitas pessoas no sábado e domingo acordam com pouca fome, principalmente se na noite anterior houve uma ingestão mais elevada de calorias. Pesando nisso, retirar o café da manhã e fazer o aeróbio em jejum poderia ser uma boa estratégia de compensação, pois o indivíduo está com pouca fome, embora seja necessário analisar a adesão ao aeróbio em jejum. Enfim, os profissionais devem ficar atentos ao final de semana dos seus clientes, pois vimos que o final de semana pode facilmente anular todo esforço feito durante a semana. É preciso ter um controle para não haver exageros, mas também é preciso ter cautela e não ser extremista, pois muitas pessoas querem ter uma vida social e essas estratégias citadas acima podem ser usadas para isso. 56 16. CORRIDA COM INCLINAÇÃO, BIKE, ESCADA E CORDA NAVAL: QUAL A VANTAGEM? Quando o treinamento aeróbio é feito em exercícios que possuem uma carga externa, como a inclinação na corrida, a corda naval, a bike e a escada ocorrem um aumento no recrutamento de fibras musculares tipo II, principalmente se o treinamento é feito de maneira intervalada de alta intensidade, pois as contrações musculares intensas também aumentam o recrutamento de fibras tipo II. Esse maior recrutamento de fibras musculares pode gerar adaptações neuromusculares, promovendo um aumento na força muscular (CALLAHAN et al. 2021). Alguns estudos vêm demonstrando que realizar treinos intervalados de alta intensidade na bike ocorre hipertrofia muscular na coxa. Qual seria a explicação para isso? A presença da carga gera tensão mecânica no músculo, elevando o processo de síntese de proteínas musculares após a sessão de treinamento. Além disso, o estímulo de alta intensidade combinado com carga aumenta o recrutamento de fibras tipo II, e claro, esse efeito contribui para a hipertrofia (CALLAHAN et al. 2021). Portanto, usar os exercícios com carga externa (corrida com inclinação, corda naval, bike e escada) além de promover as adaptações cardiorrespiratórias, gerar gasto calórico e melhorar a flexibilidade metabólica, esses exercícios vão gerar adaptações neuromusculares, aumentando também o ganho de força e hipertrofia muscular. Lembrando que a musculação tem um potencial maior para gerar essas adaptações. 57 17. QUAIS SÃO AS VARIÁVEIS PARA AMONTAGEM DE TREINAMENTO INTERVALADO DE ALTA INTENSIDADE? Para realizar a montagem do treinamento intervalado de alta intensidade é preciso manipular algumas variáveis. Muitas pessoas acham que fazer HIIT significa correr e andar, mas esse tipo de conduta é muito simplista e cheio de falhar, pois iremos compreender aqui nesse tópico que existem cinco variáveis para controlarmos na prescrição de treinamento intervalado de alta intensidade. A intensidade do estímulo, a duração do estímulo, o tipo de pausa, a duração da pausa e a quantidade de séries são as cinco variáveis que devemos manipular. Dentro do treinamento intervalado de alta intensidade existem alguns protocolos, sendo que as principais diferenças entre eles são justamente as cinco variáveis citadas acima (BUCHHEIT e LAURSEN, 2013). Iremos estudar nos próximos tópicos os detalhes de cada protocolo e como manipular as variáveis para a prescrição do treinamento intervalado de alta intensidade. 58 18. PROTOCOLOS DE TREINAMENTO INTERVALADO DE ALTA INTENSIDADE O termo “treinamento intervalado” refere-se ao fato do haver estímulos de maior intensidade intercalados de períodos de pausa. Existem quatro tipos de treinamento intervalado, sendo que esses protocolos se diferenciam pela intensidade de estímulo, duração do estímulo e duração da pausa (BUCHHEIT et al, 2013). Muitas pessoas confundem treinamento intervalado com HIIT, pois muitas fazem esforços de moderada intensidade intercalados com pausa e acham que estão fazendo HIIT, porém como o esforço não é de alta intensidade, não podemos dizer que é HIIT. O termo “HIIT” significa treinamento intervalado de alta intensidade, então é necessário certificar que o indivíduo está fazendo o estímulo intenso, podendo ser usado o porcentual da frequência cardíaca máxima ou de reserva (acima de 75%) ou a percepção subjetiva de esforço, no qual é considerado intenso quando o indivíduo responde acima de 14 na escala de Borg (DAY et al, 2004). O HIIT curto é caracterizado por estímulos de 1 minuto de alta intensidade intercalados com pausas ativas de 1 minuto. Já o HIIT longo o estímulo tem uma duração maior, variando entre 2 a 3 minutos de alta intensidade com pausa ativa com duração similar ao esforço. É importante destacar que os estímulos do HIIT curto e HIIT longo são de alta intensidade, mas não chegam a ser máximos. Lembrando que tanto o HIIT curto como o HIIT longo pode ser feito na esteira, bike, subidas de escadas e elíptico. O número de séries pode variar de 5 a 15 séries e depende do nível 59 do indivíduo, no qual fica mais interessante aplicar mais séries em pessoas treinadas. Por outro lado, no treinamento intervalado de sprints (SIT) os estímulos são de 30 segundos feitos no máximo (all out) e as pausas são ativas de 3 a 4 minutos. O número de séries no SIT pode variar de 4 a 8 por sessão. Já no treinamento de sprint repetido (RST) os estímulos também são máximos (all out), porém a duração do estímulo é curta, em torno de 10 a 20 segundos, sendo que a pausa tem duração similar ao estímulo (10 a 20 segundos). No RST são executadas de 4 a 20 séries por sessão. Percebam que no RST os estímulos e as pausas são mais curtos, caracterizando o nome do protocolo de sprints repetidos. O SIT e o RST podem ser aplicados na bike, subida de escadas e elíptico, porém em esteira é recomendado usar esses modelos somente em pessoas bem treinadas e experientes. A tabela abaixo resume os protocolos de treinamento intervalado de alta intensidade. Tipo de protocolo Duração do estímulo Tipo de pausa Duração da pausa HIIT curto 1 minuto Ativa 1 minuto HIIT longo 2-3 minutos Ativa 2-3 minutos SIT 30 segundos Ativa 3-4 minutos RST 10-20 segundos Passiva 10-20 segundos 60 19. COMO USAR A FREQUÊNCIA CARDÍACA PARA MONTAR TREINO? O monitoramento da frequência cardíaca é uma das formas de saber a intensidade do treinamento aeróbio. Claro, existem limitações ao utilizar a frequência cardíaca, pois alguns fatores podem modificar os batimentos cardíacos durante o treino, como por exemplo, a temperatura do ambiente, sendo que temperaturas mais quentes podem aumentar os batimentos cardíacos. Mas, não podemos negar que monitorar os batimentos cardíacos é uma ferramenta de baixo custo (monitores cardíacos) e simples de realizar. Podemos identificar a intensidade do treinamento através do porcentual da frequência cardíaca máxima (FCmáx) ou o porcentual da frequência cardíaca de reserva (FCR). Primeiro, vamos compreender o cálculo para achar a FCmáx. Existem várias fórmulas para estimar a FCmáx, a mais utilizada é a fórmula proposta por Fox (1971): FCmáx = 220 – idade. Porém, existem algumas limitações ao utilizar essa fórmula, por isso prefiro utilizar a fórmula recomendada pela metanálise de Tanaka et al. (2001): FC Max = 208 – (0,7 x idade). Essa equação pode ser usada tanto para homens quanto para mulheres, em diferentes níveis de condicionamento físico e idade. Importante mencionar que existe uma fórmula para estimar a FCmáx em pessoas que usam fármacos beta-bloqueadores. Sabemos que esse tipo de fármaco bloqueia o aumento da frequência cardíaca durante o exercício físico. O estudo de Brawner et al. (2004) recomenda a seguinte fórmula para usuários de beta- bloqueador: FCmáx = 164 – (0,72 x idade). Claro, para esse tipo de 61 público podemos também utilizar a percepção subjetiva de esforço para identificar a intensidade do treinamento. Vamos fazer um exemplo de como usar a FCmáx para prescrever o treinamento aeróbio. Imagine um indivíduo com 25 anos, portanto, a sua FCmáx será: FCmáx = 208 – (0,7 x 25) FCmáx = 208 – 17,5 FCmáx = 190,5 bpm Já achamos a FCmáx, agora precisamos saber o porcentual de FCmáx que queremos utilizar de acordo com o método de treinamento aeróbio. A tabela abaixo mostra os valores de porcentual da FCmáx para contínuo moderado, HIIT curto, HIIT longo, SIT e RST. Tipo de protocolo % da FCmáx Duração do estímulo Tipo de pausa Duração da pausa HIIT curto >85 1 minuto Ativa 1 minuto HIIT longo >75 2-3 minutos Ativa 2-3 minutos SIT ≥90 30 segundos Ativa 3-4 minutos RST ≥90 10-20 segundos Passiva 10-20 segundos Contínuo Moderado 55 a 69 - - - Vamos exemplificar uma prescrição de treinamento aeróbio usando a FC máx. Vamos imaginar que o método de treinamento 62 escolhido é o HIIT curto. Então, vamos adotar uma zona de FCmáx de 85 a 95%. Considerando a FC máx do exemplo anterior (190,5 bpm), a prescrição deve ser a seguinte: Duração do estímulo: 1 minuto Intensidade do estímulo: 161 a 180 (85 a 95% da FCmáx) Duração da pausa: 1 minuto Volume: 10 séries (20 minutos) A FC de reserva é outra forma de utilizar a frequência cardíaca para a montagem do treinamento aeróbio. Para calcular a FC de reserva precisamos de duas variáveis, a FC máx e a FC de repouso. A quantificação da FC máx já foi abordada anteriormente, sendo que a FC de repouso deve ser coletada imediatamente quando o indivíduo acorda. A pessoa deve acordar e já estar com o monitor cardíaco, por isso, é indicado que o monitor esteja no indivíduo antes de dormir. Ao acordar bastar permanecer deitado por 5 minutos, após isso registrar a FC de repouso. Vamos ao cálculo, considerando uma FC máx de 190,5 bpm e uma FC de repouso de 70 bpm e uma zona de FC de reserva para 65%. FC de reserva = 190,5 (FCmáx) – 70 (FC repouso) = 120,5 FC de reserva = 120,5 x 0,65 (% da FC de reserva) FC de reserva = 78,3 + 70 (FC de repouso) FC de reserva = 148,3 bpm Portanto, para o indivíduo treinar a 65% da FC de reserva, ele deve permanecer com os batimentos cardíacos em torno de 148. A 63 tabela abaixo mostra os valores de porcentual de FC de reserva para HIIT curto, HIIT longo, SIT, RSTe aeróbio contínuo moderado. Tipo de protocolo % da FC de reserva Duração do estímulo Tipo de pausa Duração da pausa HIIT curto >85 1 minuto Ativa 1 minuto HIIT longo >75 2-3 minutos Ativa 2-3 minutos SIT ≥90 30 segundos Ativa 3-4 minutos RST ≥90 10-20 segundos Passiva 10-20 segundos Contínuo Moderado 40 a 59 - - - Vamos exemplificar uma prescrição de treinamento aeróbio usando a FC de reserva. Imagine que o método de treinamento escolhido é o SIT. Então, vamos adotar uma zona de FC de reserva de 90 a 95%. Considerando a FC máx (190,5 bpm) e a FC de repouso (70 bpm) do exemplo anterior, a prescrição deve ser a seguinte: Duração do estímulo: 30 segundos Intensidade do estímulo: 178 a 184 (90 a 95% da FC de reserva) Duração da pausa: 3 minutos Volume: 4 séries (14 minutos) 64 Vamos fazer um exemplo para o método contínuo moderado. A zona de FC de reserva escolhida é de 55 a 59%. Intensidade: 136 a 141 bpm (55 a 59% da FC de reserva) Duração: 45 minutos, 65 20. COMO USAR A PERCEPÇÃO SUBJETIVA DE ESFORÇO PARA MONTAR TREINO? A percepção subjetiva de esforço pode ser mensurada através da escala de Borg. Muitos cientistas vem demonstrando que a percepção subjetiva de esforço é uma forma prática e de baixo custo para identificar a intensidade do treinamento, e claro, pode ser usada para a prescrição dos protocolos de treinamento aeróbio (DAY et al. 2004). Claro, tem as suas limitações, assim como outros métodos, mas quando o profissional explica corretamente a escala de Borg para o cliente, a chance de ter erros é menor. A principal limitação de usar a percepção subjetiva de esforço é porque o praticante pode responder o valor da escala fora da realidade, é uma avaliação subjetiva, por isso é preciso explicar muito bem. A escala vai de 6 a 20 pontos, conforme vocês podem observar na figura abaixo, os valores mais altos, acima de 14 significam alta intensidade, valores entre 12 a 13 significa intensidade moderada e abaixo de 12 a intensidade é leve. Basicamente a escala de Borg avalia a sensação de quão difícil e exaustivo uma tarefa física é. Muito importante explicar para o indivíduo que a percepção de esforço depende principalmente da tensão e fadiga nos músculos e da sensação de falta de ar ou dor no peito. É preciso avaliar esses parâmetros para responder a escala. Abaixo veja uma imagem que representa a escala de Borg. 66 Bom, agora vamos entender como usar a percepção subjetiva de esforço para a identificação da intensidade do treinamento aeróbio. Podemos utilizar a escala de Borg para a prescrição de HIIT curto, HIIT longo, SIT, RST e aeróbio contínuo moderado. A tabela abaixo mostra exatamente os valores da escala de Borg baseado no tipo de protocolo. Lembrando que é preciso explicar a escala de Borg corretamente para o cliente, pois ele pode subestimar ou superestimar a intensidade do treinamento. 67 Vamos fazer um exemplo. Considerando que o protocolo de treino é o HIIT curto, o indivíduo faz o estímulo de 1 minuto na esteira ou na bike, sendo que imediatamente após o estímulo a escala de Borg deve ser apresentada. Supondo que após esse estímulo, o indivíduo seleciona o valor 14. Baseado na tabela, o valor para o HIIT curto deve estar entre 17 a 19, então, para o próximo estímulo basta aumentar a intensidade, ou seja, elevar a velocidade ou inclinação caso seja esteira, mas caso seja bike, elevar a carga ou cadência. Por outro lado, caso o indivíduo responda o valor acima do recomendado da tabela, basta reduzir a intensidade. Também podemos usar os testes para a prescrição da intensidade no treinamento aeróbio, conforme será discutido nos próximos tópicos. Porém, na maioria dos ciclos ergômetros das academias não há a quantificação da carga em watts, isso acaba dificultando a utilização de testes. Por isso, é muito comum usar a Tipo de protocolo PSE Duração do estímulo Tipo de pausa Duração da pausa HIIT curto 17 a 19 1 minuto Ativa 1 minuto HIIT longo 14 a 16 2-3 minutos Ativa 2-3 minutos SIT 20 30 segundos Ativa 3-4 minutos RST 20 10-20 segundos Passiva 10-20 segundos Contínuo Moderado 12 a 13 - - - 68 percepção subjetiva de esforço ou frequência cardíaca quando estamos falando de treinamento na bike. A percepção de esforço pode ser usada também para avaliar a carga interna. A carga interna pode ser definida como o estresse que o treinamento causa ao organismo, podendo ser uma ferramenta muito interessante para monitorar o quanto a sobrecarga imposta pelo treino foi alta ou baixa. Para calcular a carga interna precisamos do valor de percepção subjetiva de esforço da sessão inteira, podendo ser coletado 30 minutos após a finalização do treino e também precisamos do tempo total da sessão. Veja abaixo como calcular a carga interna: Carga interna = percepção subjetiva de esforço x tempo Vamos fazer um exemplo. Imagine que o indivíduo responder que a sessão de treino teve uma percepção de esforço de 15, sendo que a duração total do treino foi de 60 minutos. Portanto, basta multiplicar a percepção de esforço com o tempo, totalizando o valor de 900. Quanto maior esse valor, maior foi a carga interna, ou seja, maior foi a sobrecarga ao organismo. Se você quer monitorar a carga interna do seu cliente basta quantificar em todas as sessões de treinamento e na sequência realizar a soma da semana. Assim, terá um valor de carga interna por semana, e você poderá saber por semana e por treino a resposta que o indivíduo está tendo frente o treino que você prescreveu. Não esqueça, quando você quer reduzir a sobrecarga, a carga interna deve diminuir, mas quando você quer mais sobrecarga, a carga interna deve aumentar. Fazer esse tipo de monitoramento é muito interessante, porém poucos profissionais sabem dessa ferramenta. 69 21. COMO USAR TESTES PARA MONTAR TREINO? Os testes na academia e de campo são ferramentas que o profissional pode usar para ter o diagnóstico de condicionamento físico do indivíduo, mas os testes físicos também podem ser usados para identificar a intensidade do treinamento aeróbio. Muitos profissionais acham que para usar testes para a prescrição de treino é preciso ter equipamentos caros, como a ergoespirometria que avalia o consumo de oxigênio, sendo que poderíamos prescrever intensidade baseado no porcentual do consumo máximo de oxigênio (VO2max). No entanto, sabemos que esse equipamento é de alto custo e está fora da realidade da maioria dos profissionais. Uma alternativa de baixo custo e ótima aplicabilidade prática para a corrida é achar a velocidade associada ao consumo máximo de oxigênio (vVO2max). Sabemos que ao aumentar a intensidade na esteira o consumo de oxigênio se eleva progressivamente até atingir um platô, sendo este o VO2máx. Para a prescrição da intensidade do treinamento de corrida precisamos achar a velocidade que o indivíduo atinge o VO2máx (MORTON e BILLAT, 2000). Basicamente a vVO2max é a velocidade na corrida em que o indivíduo atinge o VO2máx, ou seja, é a velocidade em que o indivíduo atinge o platô no consumo de oxigênio. Vamos imaginar que uma pessoa está fazendo um teste progressivo na esteira, no qual o VO2máx é atingido justamente quando o indivíduo está correndo na velocidade de 16 km/h, portanto, a sua vVO2max é 16km/h, conforme demonstrado na figura abaixo que simula um 70 teste incremental na esteira. Observem que o consumo de oxigênio aumenta progressivamente de acordo com o incremento da velocidade na esteira (intensidade), no qual o platô no consumo de oxigênio é atingido a 16 km/h, sendo, portanto, a vVO2max. Agora vamos descobrir quais testes podemos usar naprática para achar a vVO2max. Primeiro vamos começar descrevendo um teste incremental na esteira que pode ser usado em pessoas treinadas, ou seja, que praticam exercício físico de maneira regular. Então vamos ao protocolo do teste de esteira incremental. Inicialmente o indivíduo deve realizar um aquecimento de 5 minutos na esteira, podendo ser uma caminhada ou um trote de baixa intensidade. Após isso, o teste inicia com a velocidade a 6 km/h, sendo que a cada 2 minutos deve-se aumentar 1 km/h. O teste é finalizado quando o indivíduo entra em exaustão, sendo que a velocidade de exaustão é a vVO2max (CONRADO DE FREITAS et al. 2020). Por exemplo, se o indivíduo entra em exaustão após o 71 estágio de 15 km/h e não consegue prosseguir para 16 km/h, portanto, a sua vVO2max é 15 km/h. Vamos a outro exemplo, imagine que o indivíduo faz completamente o estágio de 15 km/h, mas após 1 minuto do estágio de 16 km/h o indivíduo entra em exaustão, qual seria a sua vVO2max? Bom, como ele fez metade do estágio, sua vVO2max seria 15,5 km/h. Lembrando, por ser um teste máximo é indicado somente para pessoas treinadas, pois em indivíduos destreinados ou iniciantes outros testes são indicados, conforme detalhado na sequência. Talvez você está se perguntando “existe algum teste que posso aplicar em locais externos, fora da academia?” Sim, existe, irei detalhar um teste de campo muito fácil de aplicar, no qual podemos usar esse teste em pessoas iniciantes e também em pessoas treinadas (BERTHON et al. 1977). Vamos ao protocolo do teste de corrida de 5 minutos para obtenção da vVO2max. Primeiro é preciso realizar um aquecimento de 5-10 min em intensidade a 70% FCmáx prevista pela idade. Após isso o indivíduo deve percorrer a maior distância possível em 5 minutos. Ao final, basta anotar a distância percorrida pelo indivíduo. Algumas recomendações são necessárias, tais como: Buscar ritmo constante para obter o máximo desempenho, não é permitido descansar e percurso sem mudança de direção. Agora vamos compreender fórmula para achar a vVO2max. vVO2máx = 12 x distância (km) Caso você deseja achar o VO2máx, basta realizar a seguinte equação: VO2máx = 3,23 X vVO2máx + 0,123 72 Vamos fazer um exemplo para maior compreensão. Imagine um indivíduo que realizou o teste e percorreu 1,2 km em 5 minutos. Agora basta calcular para achar a vVO2máx, conforme demonstrado abaixo: vVO2máx = 12 x 1,2 km vVO2máx = 14,4 km/h Vamos realizar o cálculo do VO2máx usando a equação acima: VO2máx = 3,23 X 14,4 + 0,123 VO2máx = 46,63 ml/kg/min Já aprendemos a achar a vVO2máx, agora precisamos compreender como usar a vVO2máx para prescrever HIIT curto, HIIT longo, RST, SIT e contínuo moderado. A tabela abaixo mostra os valores da % de vVO2máx de acordo com o protocolo. Tipo de protocolo vVO2max Duração do estímulo Tipo de pausa Duração da pausa HIIT curto 100% 1 minuto Ativa 1 minuto HIIT longo 80 a 90% 2-3 minutos Ativa 2-3 minutos SIT 120-130% 30 segundos Ativa 3-4 minutos RST 120-130% 10-20 segundos Passiva 10-20 segundos Contínuo Moderado 60 a 79% - - - 73 Vamos imaginar um indivíduo que tem o vVO2máx de 14/km. Abaixo está descrito como ficaria a duração e a intensidade do estímulo nos protocolos de treino baseado na vVO2máx de 14/km. HIIT curto (100% da vVO2máx): 1 minuto a 14 km/h HIIT longo (90% da vVO2máx): 3 minutos a 12,6 km/h SIT (130% da vVO2máx): 30 segundos a 18,2 km/h RST (130% da vVO2máx): 15 segundos a 18,2 km/h Extremamente importante entender que o teste deve ser refeito de maneira periódica para ajustar a intensidade do treinamento e promover novas adaptações. Na medida que a pessoa faz regularmente o treinamento as adaptações acontecem, ou seja, vai chegar um momento em *que fazer HIIT curto a 14 km/h estará mais fácil. Então, a realização do teste incremental ou o teste de 5 minutos deve ser feita pelo menos uma vez a cada 30-45 dias. Lembrando que o teste pode ser usado para avaliara a capacidade aeróbia, pois se o indivíduo aumenta a vVO2máx significa que ele está suportando maiores intensidades de treinamento. Portanto, através destes testes podemos avaliar a capacidade aeróbia e ainda prescrever o treinamento. 74 22. HIIT É MELHOR PARA A PERDA DE GORDURA? Volume e intensidade são duas variáveis que podem impactar no gasto calórico do treinamento aeróbio. Isso significa que aumentar o tempo ou distância do aeróbio (volume) é uma forma de gerar mais gasto calórico e adaptações fisiológicas. Também é possível aumentar gasto calórico elevando a velocidade ou inclinação na corrida, assim como incrementando a carga ou cadência na bike. Por isso, não podemos esquecer que tanto o volume quanto a intensidade são variáveis que podemos manipular para aumentar gasto calórico, pois muitas pessoas acham que somente aeróbio de alta intensidade (HIIT) é um ótimo treino para emagrecer, e não é bem assim, pois iremos compreender que podemos usar o aeróbio moderado contínuo e os protocolos de HIIT para promover a perda de gordura corporal. Existem estudos de metanálise comparando a capacidade de promover perda de gordura corporal entre os modelos de treinamento aeróbio moderado contínuo e HIIT em pessoas com sobrepeso e obesidade (KEATING et al, 2017; WEWEGE et al, 2017). O interessante é que o gasto calórico entre os tipos de treinamento foi equalizado, no qual foi observado que para o aeróbio contínuo moderado gerar o mesmo gasto calórico que o HIIT precisa ser feito em mais tempo (volume). Os resultados mostraram perda de gordura semelhante entre o aeróbio contínuo moderado e o HIIT, sendo que o gasto calórico similar pode explicar esses resultados. 75 Se compararmos um HIIT de 30 minutos com um aeróbio contínuo moderado também de 30 minutos, o HIIT promoverá um gasto energético maior, pois a intensidade é maior no HIIT e o volume é igual entre os treinos. Provavelmente o HIIT será melhor para gerar perda de gordura corporal. Porém, se o aeróbio moderado é feito em mais tempo que o HIIT, o gasto calórico será similar e provavelmente a perda de gordura pode ser semelhante. Por isso não podemos dizer que HIIT é melhor para emagrecer, assim como não podemos dizer que aeróbio moderado por “queimar mais gorduras” será melhor para emagrecer, sendo que os dois tipos de treinamento podem ser usados quando o objetivo for perda de gordura corporal. A disponibilidade de tempo e a preferência são critérios importantes para selecionar o tipo de treinamento aeróbio. O HIIT é interessante aplicar em pessoas que tem pouco tempo para treinar e gostam desse modelo de treinamento. Existem pessoas que irão preferir realizar o HIIT devido ao menor tempo de duração, porém existem pessoas que vão preferir o aeróbio contínuo moderado. Por isso, você deve analisar a preferência, pois a adesão ao treinamento é um importante fator para o indivíduo se manter ativo no longo prazo. Claro, podemos usar os dois modelos de treinamento ao mesmo tempo. Por exemplo, você pode aplicar primeiramente 20 minutos de HIIT e após isso realizar mais 20 minutos de aeróbio moderado contínuo. É possível também realizar de maneira intercalada, ou seja, a cada dia o indivíduo faz um modelo de treinamento. 76 23. MÉTODO CONTÍNUO CONSTANTE Os métodos contínuos são ótimas opções de treinamento para pessoas que buscam emagrecimento, condicionamento físico e saúde. Nestes métodos iremos observar que a intensidade se mantém moderada, mas em alguns métodos podemos variar a intensidade entre moderada e leve. Basicamente o método contínuo constante é caracterizado para manutenção constante da intensidade moderada durante toda a sessão de treino. Exemplo de uma sessão com o método contínuo constante: INTENSIDADE Tempo% da FCmax % da FCR PSE % da vVO2máx 45 minutos 55 a 69 40 a 59 12 a 12 70 Observem a figura abaixo que demonstra o método contínuo constante, vejam que a intensidade é moderada e se mantém constante. 77 24. MÉTODO CONTÍNUO CRESCENTE O método contínuo crescente é caracterizado pelo aumento progressivo da intensidade, podendo iniciar a sessão de treino com uma intensidade leve e de maneira gradual a intensidade torna-se moderada. Exemplo de uma sessão com o método contínuo crescente: INTENSIDADE Tempo % da FCmax % da FCR PSE % da vVO2máx 10 minutos 55 50 10 60 10 minutos 60 55 11 65 10 minutos 65 60 12 70 10 minutos 69 65 13 79 Observem a figura abaixo que demonstra o método contínuo crescente. Vejam que a intensidade aumenta de maneira progressiva. 78 25. MÉTODO CONTÍNUO DECRESCENTE O método contínuo decrescente é caracterizado pela redução progressiva da intensidade, iniciando a sessão de treino com uma intensidade moderada e de maneira gradual a intensidade torna-se leve. Exemplo de uma sessão com o método contínuo decrescente: INTENSIDADE Tempo % da FCmax % da FCR PSE % da vVO2máx 10 minutos 69 65 13 79 10 minutos 65 60 12 70 10 minutos 60 55 11 65 10 minutos 55 50 10 60 Observem a figura abaixo que demonstra o método contínuo decrescente. Vejam que a intensidade diminui de maneira progressiva. 79 26. MÉTODO FARTLEK O termo “fartlek” significa brincar com a velocidade ou brincar com a intensidade, pois como iremos compreender, neste método existe pequenas oscilações da intensidade durante a sessão de treino. No método fartlek original a distância ou tempo é definida, no qual não há uma sistematização das mudanças de intensidade, o indivíduo durante o percurso pode aumentar ou reduzir a velocidade da corrida ou até mesmo percorrer trechos com ou sem inclinação, sendo muito comum na corrida de rua. Já no fartlek dirigido a oscilação de intensidade é programada, no qual o indivíduo se mantém por um período de tempo em intensidade moderada e outro período em intensidade leve. Exemplo de uma sessão com o método fartlek dirigido: INTENSIDADE Tempo % da FCmax % da FCR PSE % da vVO2máx 10 minutos 55 50 10 60 10 minutos 69 65 13 79 10 minutos 55 50 10 60 10 minutos 69 65 13 79 Percebam que a intensidade oscila de moderada para leve de maneira sistemática (a cada 10 minutos). Claro, podemos fazer essa oscilação de intensidade por períodos menores, a cada 2 minutos, a cada 5 minutos etc. Importante mencionar que todos esses métodos contínuos são ótimas opções para pessoas iniciantes e treinadas, sendo que podemos até mesmo variar entre os métodos para tornar o treinamento mais dinâmico. 80 27. AERÓBICO EM JEJUM USA MAIS GORDURA? Existem muitas polêmicas sobre o aeróbio em jejum, pois muitos dizem ser superior para emagrecer devido a maior oxidação de gorduras. Sim, durante o aeróbio em jejum a lipólise e a oxidação de gorduras é maior, mas não podemos confundir e achar que um período de maior lipólise e oxidação de gorduras vai promover emagrecimento, por isso, vou explicar melhor. Durante o aeróbio em jejum a glicemia está baixa, isso promove uma redução da insulina, aumento de GH, cortisol e adrenalina. Esse ambiente hormonal potencializa a lipólise, pois hormônios lipolíticos estão elevados durante o jejum (GH, cortisol e adrenalina) e o hormônio anti-lipolítico (insulina) está reduzido. Além disso, esse ambiente hormonal também favorece o aumento da oxidação de gorduras no músculo esquelético, basicamente durante o aeróbio em jejum temos mais ácidos graxos (gordura) no sangue para que as mitocondrias façam o processo de oxidação e geração de energia. Isso acontece porque o organismo está priorizando o uso de gordura nesse momento, e você precisa entender que isso é muito inteligente, pois a glicemia está baixa e como a nosso cérebro e hemácias dependem exclusivamente da glicose, no momento de glicemia baixa (jejum) o organismo usa mais gordura e poupa a glicose no sangue, exatamente porque temos gordura de maneira mais abundante. Por mais que no aeróbio em jejum usamos mais gordura do que o aeróbio alimentado, o processo de perda de gordura depende do déficit calórico. Por isso, iremos compreender que em um 81 programa de emagrecimento podemos sim usar o aeróbio em jejum, mas também o aeróbio alimentado, pois é preciso olhar principalmente para a adesão, sendo que algumas pessoas gostam de fazer o aeróbio em jejum, entretanto, outras não conseguem, pois sentem desconfortos. A figura abaixo mostra que no aeróbio em jejum o perfil hormonal favorece o aumento da lipólise e oxidação de gorduras, bem como reduz a oxidação de glicose. Basicamente o organismo está priorizando o uso de gordura e poupando a glicose no sangue justamente porque a glicemia está baixa. 82 28. AERÓBICO EM JEJUM TEM VANTAGENS NO EMAGRECIMENTO? Os estudos vêm demonstrando que a perda de gordura corporal é igual ao fazer aeróbio em jejum no mesmo déficit calórico (-500 kcal) do que aeróbio alimentando, considerando um período de 8 semanas (SCHOENFELD et al. 2014). Esses resultados mostram que podemos atingir o déficit calórico através do aeróbio em jejum, mas também pelo aeróbio alimentado. Isso significa que a curto prazo provavelmente o aeróbio em jejum não terá mais vantagens do que o aeróbio alimentando. Existem algumas evidências científicas mostrando que fazer o aeróbio em jejum ou com glicogênio baixo pode potencializar a melhora da sensibilidade à insulina e biogênese mitocondrial, ou seja, pode maximizar a flexibilidade metabólica. No entanto, essas adaptações demoram acontecer, então uma das vantagens do aeróbio em jejum está no longo prazo, está em promover em maior magnitude essas adaptações fisiológicas. Muitos alegam que o aeróbio em jejum pode reduzir a massa muscular, por aumentar o catabolismo de proteinas musculares. Porém, durante o exercício físico usamos de maneira predominante a gordura e a glicose, em torno de 90%, sendo que o uso de aminoácidos durante o exercício é em torno de 10%. Isso mostra que dificilmente alguém perde massa muscular pelo catabolismo muscular do treino, pois é baixo. A redução da massa muscular é um processo crônico que depende de outros fatores, como a musculação, dose de proteínas, balanço calórico e dose de carboidratos. 83 Diante de tudo que abordarmos aqui sobre aeróbio em jejum, é preciso olhar para a adesão. O que adianta usar aeróbio em jejum para uma pessoa que após 15 minutos de treino sente desconforto? Muitas pessoas não conseguem fazer aeróbio em jejum em intensidade moderada, apenas leve. Devemos considerar isso, talvez seja melhor fazer aeróbio alimentado e subir a intensidade do treino. Por outro lado, muitas pessoas conseguem fazer tranquilamente o aeróbio em jejum, até mesmo em alta intensidade. Portanto, antes de prescrever aeróbio em jejum para todos, é preciso olhar para esses fatores (adesão, desempenho, desconforto etc.). 84 29. COMO GERAR SOBRECARGA NO TREINAMENTO AERÓBIO? O treinamento aeróbio gera diversas adaptações que podem ser morfológicas (perda de gordura corporal), fisiológicas (biogênese mitocondrial, angiogênese etc.) e de capacidade física (resistência aeróbia). Com relação à redução da gordura corporal, nos próximos tópicos iremos entender de maneira detalhada como o treinamento aeróbio age nessa adaptação morfológica. Nesse tópico irei abordar mais a importância da sobrecarga pra gerar as adaptações fisiológicas e a melhora da capacidade física. O primeiro passo é entender que o treinamento é um tipo de estresse ao organismo,sendo que esse estresse causa as adaptações com o objetivo de suportar com maior facilidade um estresse futuro (nova sessão de treino). Interessante mencionar que uma nova adaptação só acontece quando há uma sobrecarga, pois é através da sobrecarga que conseguimos gerar um estresse necessário ao organismo para que novas adaptações aconteçam. Talvez você esteja se perguntando “o que seria essa sobrecarga?”. Bom, a sobrecarga nada mais é do que a intensidade e o volume, ou seja, quando aumentamos o volume ou a intensidade estamos gerando uma nova sobrecarga ao organismo, sendo que essa nova sobrecarga irá causar adaptações. Percebam que se queremos gerar resultados nos nossos clientes, precisamos manipular a intensidade e o volume do treinamento aeróbio para que o objetivo seja alcançado. Quando não periodizamos o treinamento e não geramos nova sobrecarga, o indivíduo não melhora, em outras palavras, o indivíduo atinge um 85 platô. Por outro lado, se a sobrecarga é exagerada ou a recuperação entre uma sessão e outra é insuficiente ocorrem prejuízos, pois o indivíduo pode ter uma lesão ou até mesmo ficar mais cansado, reduzindo o desempenho no treinamento. Diante isso, os profissionais que desejam gerar resultados nos seus clientes precisam compreender que a sobrecarga não pode ser exagerada, mas também não pode ser nula ou baixa, é preciso submeter o indivíduo a uma sobrecarga progressiva, sendo que iremos detalhar esse conteúdo nos próximos tópicos. Quando falamos em sobrecarga é muito importante olhar para o histórico de treino do indivíduo. Por exemplo, se a pessoa não estava praticando nenhum tipo de exercício físico, concordam comigo que qualquer treino por mais leve que seja já é uma sobrecarga para esse indivíduo e vai gerar adaptações? Claro que sim, por isso que nos iniciantes podemos usar no período de adaptação aeróbio de intensidade leve/moderada, mas também podemos usar treinamento intervalado de alta intensidade, desde que o número de séries seja baixo e que o esforço seja curto e submáximo. E com o tempo, esse indivíduo sofrerá adaptações e suportará treinos com mais intensidade e volume. Vamos pensar em um indivíduo treinado, se ela relata que pratica treinamento aeróbio três vezes por semana de intensidade moderada, você já tem um ponto de partida, basta gerar nova sobrecarga através da manipulação do volume ou intensidade que o indivíduo terá novos resultados. Por exemplo, eu poderia aumentar a frequência semanal para 4x por semana, percebam que houve um aumento no volume semanal de aeróbio. 86 30. PROGRESSÃO DE TREINO E COMPENSAÇÃO ENERGÉTICA O exercício físico gera um gasto energético em torno de 300 a 600 kcal/dia (~ 1 hora de exercício), no entanto, os estudos vêm demonstrando que esse gasto energético pelo treino e a perda de peso pode gerar uma compensação energética (FLACK et al. 2020). Basicamente a compensação energética é uma redução do gasto calórico de atividades do dia a dia, então, vamos entender em mais detalhes esse processo. Além do gasto energético gerado pelo treino, existe também o gasto energético em atividades diárias, processo denominado de termogênese da atividade que não é exercício (NEAT). O NEAT tem uma contribuição em torno de 15% do gasto energético diário total, sendo que pode variar de indivíduo para indivíduo, pois depende do metabolismo e também do nível de atividade física. Por exemplo, existem pessoas que faz mais movimentos durante o dia do que outras, por isso, um carteiro ou um instrutor de academia terá um NEAT maior do que uma pessoa que trabalha 8 horas sentado. O processo de emagrecimento gera redução do NEAT, isso acontece pelas adaptações fisiológicas da perda de peso e também depende do cansaço físico e da presença de dor muscular ou articular. Vimos anteriormente que a adaptação é uma causa da sobrecarga do treino. Porém, muitas pessoas que buscam emagrecimento exageram no treinamento, pois está com pressa para obter resultados. O excesso de treino pode gerar cansaço 87 físico ou dor muscular e articular. Uma pessoa mais cansada e com dor diminui os movimentos diários, pois essa condição acaba favorecendo o indivíduo a ficar mais tempo sentado ou deitado. Por isso que exagerar no treinamento gera compensação energética, pois o excesso aumenta o gasto calórico durante o treino, mas esse gasto calórico é compensado pela redução do NEAT pós-treino. Mas se a sobrecarga do treino (volume e intensidade) é feita de maneira progressiva, o indivíduo vai se adaptando e a chance é menor de ter muito cansaço físico ou dor, não havendo uma redução drástica no NEAT. Não podemos esquecer que o NEAT reduz com a perda de peso, pois existem alterações fisiológicas que colaboram pra isso, porém a progressão do treinamento citada acima é uma forma de minimizar essa redução do NEAT. Agora vamos entender outros fatores que podem reduzir o NEAT. A perda de peso gera redução do NEAT, pois o gasto calórico é menor para os movimentos diários quando o peso do indivíduo diminui. Em outras palavras, quando a pessoa tem um peso corporal de 100kg o gasto calórico para os movimentos é maior do que quando a pessoa tem um peso corporal de 85 kg. Além disso, o emagrecimento e a prática regular de treinamento aumentam a eficiência mitocondrial, ou seja, o indivíduo está mais eficiente para produzir energia. Portanto, essas adaptações fazem os movimentos do dia a dia obter um menor gasto calórico. Por fim, é preciso entender que a compensação energética também acontece pelo aumento da fome. Na medida que o indivíduo vai gastando calorias pelo treino e perdendo peso ocorrem alterações fisiológicas que levam ao aumento da fome e ingestão calórica. Então vejam que isso também é compensação energética. 88 Enfim, uma forma de minimizar a compensação energética é através da progressão do treinamento, realizando a sobrecarga de maneira gradativa, sendo que iremos compreender isso melhor nos próximos tópicos. A figura abaixo mostra o impacto que o excesso de treino pode causar sobre o NEAT. 89 31. PROGRESSÃO DE VOLUME NO TREINAMENTO AERÓBIO Vimos que a perda de gordura corporal acontece quando existe o déficit calórico, porém com a perda de peso a sustentação do déficit calórico se torna mais difícil, pois o emagrecimento gera aumento da fome e da ingestão calórica. Então, é muito comum ver as pessoas parando de emagrecer devido a essa maior ingestão calórica (ausência do déficit calórico), ou até mesmo podemos observar em alguns casos o reganho de peso, pois a ingestão calórica aumenta e ao mesmo tempo ocorre interrupção do treinamento, gerando o superávit calórico. A prática regular de exercício físico é essencial para evitar esse reganho de peso, ou seja, o exercício físico ajuda muito na manutenção do emagrecimento (FRANZ et al. 2007). Sabendo que a ingestão calórica pode aumentar com a perda de peso, é muito importante realizar progressões do treinamento aeróbio para elevar o gasto calórico e flexibilidade metabólica progressivamente. Esse aumento de gasto calórico e flexibilidade metabólica pode acontecer devido à progressão de volume ou intensidade do treinamento aeróbio. Por exemplo, se o indivíduo faz 150 minutos por semana de aeróbio e passar a fazer 300 minutos por semana houve aumento de volume e consequentemente gasto calórico. Outro exemplo, se o indivíduo corre na esteira a 10 km/h e passa a correr a 14 km/h houve aumento da intensidade e gasto calórico. Vamos começar a entender melhor sobre o volume. Alguns estudos vêm demonstrando que o volume é uma variável que pode impactar na perda de gordura. Por exemplo, o estudo de Willis e 90 colaboradores (2009) observaram que aeróbio feito igual ou acima de quatro vezes por semanagerou maior redução da gordura corporal em comparação ao aeróbio executado igual ou menor a três vezes por semana. O estudo de Friedenreich e colaboradores (2015) mostram resultados similares, no qual mulheres na menopausa que fizeram 300 minutos de aeróbio moderado por semana obteve uma perda de gordura corporal superior a mulheres que realizaram 150 minutos por semana. Percebam que se a intensidade for equalizada o aeróbio com maior volume leva vantagem para gerar o emagrecimento. Uma das formas mais fáceis de controlar o volume do aeróbio é através da contagem do tempo ou distância semanal. Então, se o indivíduo realiza três sessões de 30 minutos de aeróbio por semana, o volume semanal é de 90 minutos. Lembrando que podemos aumentar o volume semanal no aeróbio contínuo moderado e também em modelos de treinamento intervalado (HIIT, SIT e RST). Existem algumas maneiras para realizar esse aumento de volume semanal. A primeira opção é aumentar o tempo da sessão ou distância, ou seja, se o indivíduo faz 30 minutos de aeróbio por sessão e passa a fazer 40 minutos haverá incremento do volume semanal. A segunda opção é elevar a frequência semanal de treinos aeróbicos. Por exemplo, se o indivíduo realiza o treinamento aeróbio três vezes por semana e passa a executar cinco treinos aeróbicos por semana haverá incremento do volume semanal. A terceira opção é fracionar o aeróbio durante o dia. Vamos imaginar uma pessoa que faz 40 minutos de aeróbio no período da manhã com frequência semanal de cinco vezes. Se essa pessoa adiciona 20 minutos de aeróbio no período da noite em três dias da semana 91 houve incremento do volume semanal. Percebam que são três opção para aumentar o volume semanal, sendo que a escolha vai depender da rotina e preferência de cada pessoa. Na tabela abaixo há um exemplo de progressão de volume semanal para o aeróbio contínuo moderado. Percebam que o volume semanal aumenta de maneira progressiva. Existem outras formas de progredir o volume, aqui abaixo é apenas um exemplo para você compreender, pois vai depender muito da disponibilidade de tempo e preferência de cada pessoa. Tempo da sessão Frequência semanal Volume semanal Semana 1 30 min 3x 90 min Semana 2 40 min 3x 120 min Semana 3 40 min 4x 160 min Semana 4 50 min 4x 200 min No treinamento intervalado de alta intensidade podemos controlar o volume pelo número de séries ou pelo tempo da sessão. Na tabela abaixo mostra um exemplo de progressão de volume pelo número de séries semanal para o HIIT curto. Percebam que o volume semanal aumenta de maneira progressiva. N° de séries por sessão Frequência semanal N° de séries semanal Semana 1 10 3x 30 Semana 2 12 3x 36 Semana 3 14 3x 42 Semana 4 16 3x 48 92 32. PROGRESSÃO DE INTENSIDADE NO TREINAMENTO AERÓBIO Além do volume, a progressão do treinamento aeróbio pode acontecer através do incremento de intensidade. Vamos imaginar uma pessoa que faz 150 minutos por semana de aeróbio contínuo moderado. Podemos manter o volume total (150min/sem) e incrementar apenas a intensidade. Por exemplo, posso deixar 120 minutos por semana de aeróbio contínuo moderado e 30 minutos de HIIT curto. Observem que o volume semanal é o mesmo, porém ao trocar 30 minutos de aeróbio moderado para HIIT curto houve incremento de intensidade. Na tabela abaixo há um outro exemplo de progressão de intensidade. Observam na tabela que existe o tempo de treino moderado e o tempo de treino intenso. Vejam que existe uma troca, o tempo de treino moderado vai caindo e o tempo de treino intenso vai subindo. Percebam também que o volume semanal é estável (150 min), apenas houve incremento de intensidade. Tempo de treino moderado Tempo de treino intenso Frequência semanal de cada treino Volume semanal Semana 1 40 min 10 min 3x 150 min Semana 2 35 min 15 min 3x 150 min Semana 3 30 min 20 min 3x 150 min Semana 4 25 min 25 min 3x 150 min 93 O aumento progressivo da intensidade é uma forma de elevar gradualmente o gasto calórico e as adaptações do treinamento, como a melhora da flexibilidade metabólica. Não podemos esquecer que as novas adaptações acontecem quando há sobrecarga, então o incremento de intensidade é uma forma de sobrecarga. Em pessoas treinadas é muito válido fazer períodos regenerativos, podendo ser feito por 3 a 7 dias. Durante esse período regenerativo podemos manter a intensidade do treino e reduzir apenas o volume. Esse período regenerativo pode ser encaixado após um período de choque. A tabela abaixo mostra um exemplo, sendo que na semana 3 em vermelho é o período de choque (maior volume) e na semana 4 em azul é o período regenerativo (menor volume mantendo a intensidade). Aqui é um exemplo de como podemos brincar com as variáveis do treinamento para potencializar resultados, cada caso será um caso. Tempo de treino moderado Tempo de treino intenso Frequência semanal de cada treino Volume semanal Semana 1 40 min 10 min 3x 150 min Semana 2 35 min 15 min 3x 150 min Semana 3 40 min 25 min 3x 195 min Semana 4 25 min 15 min 3x 120 min 94 33. TREINAMENTO POLARIZADO NO EMAGRECIMENTO O treinamento polarizado é caracterizado pela mescla de treinos intervalados de alta intensidade com treinos de intensidade moderada. Esse tipo de estratégia é muito interessante, pois o indivíduo realiza os treinamentos em dois domínios de intensidade, alta e moderada, sendo uma ótima opção para pessoas que buscam emagrecimento. Vejam abaixo um exemplo de treinamento polarizado para pessoas que treinam 3x por semana. Percebam que na semana 1 o indivíduo faz contínuo moderado (MOD) na segunda e na sexta, mas na quarta o indivíduo inicia o treino com HIIT e sequência faz o contínuo moderado. Na semana 2 o indivíduo faz HIIT + contínuo moderado na segunda e sexta, porém na quarta ele faz apenas o contínuo moderado. SEMANA 1 SEG TER QUA QUI SEX TIPO DE TREINO MOD HIIT+MOD MOD SEMANA 2 SEG TER QUA QUI SEX TIPO DE TREINO HIIT+MOD MOD HIIT+MOD Vamos fazer um outro exemplo, considerando um indivíduo que treinar 6x por semana. Observem que na semana 1 o indivíduo faz HIIT duas vezes e moderado contínuo quatro vezes na semana. 95 Na semana 2 houve um a inversão, o indivíduo faz HIIT quatro vezes e contínuo moderado duas vezes. SEMANA 1 SEG TER QUA QUI SEX SAB TIPO DE TREINO HIIT MOD MOD HIIT MOD MOD SEMANA 2 SEG TER QUA QUI SEX SAB TIPO DE TREINO MOD HIIT HIIT MOD HIIT HIIT Existem várias formas de combinar treinos intensos e moderados, ou seja, outras possibilidades de utilizar o treinamento polarizado, pois é preciso considerar a disponibilidade de tempo e preferência do indivíduo. Podemos fazer essa combinação intercalando os dias, conforme mostrado nas tabelas acima. Mas, também podemos combinar treino intensos com treinos moderados na mesma sessão. Por exemplo, o indivíduo começa fazendo 20 minutos de SIT e na sequência realiza mais 30 minutos de contínuo moderado constante, totalizando uma sessão de 50 minutos. Quando realizar a combinação na mesma sessão é importante iniciar com maior intensidade, justamente devido a maior capacidade de desempenho no início do treino. Além disso, ao realizar o treino intenso primeiro ocorre uma redução do glicogênio muscular e na sequência o treino moderado é feito com glicogênio mais baixo, potencializando adaptações mitocondriais 96 34. REFERÊNCIAS ASTRUP, A. The relevance of increased fat oxidation for body- weight management: metabolic inflexibility in the predisposition to weight gain. Obes Rev. Oct;12(10):859-65, 2011. BAKER, J. S.; MCCORMICK, M. C.; ROBERGS, R. A. Interaction among Skeletal Muscle Metabolic Energy Systems during Intense Exercise. J Nutr Metab,v. 2010, p. 905612, 2010. BERTHON, P. et al. A 5-min running field test as a measurement of maximal aerobic velocity. European journal of applied physiology and occupational physiology, v. 75, n. 3, p. 233-238, 1997. BLOMAIN, E. S. et al. Mechanisms of weight regain following weight loss. ISRN obesity, v. 2013, 2013. BISHOP, D. J. et al. High-intensity exercise and mitochondrial biogenesis: current controversies and future research directions. 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