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1 FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL LUANA SABRINA KANITZ PADRÕES DE BELEZA NA IMPRENSA: Uma análise da abordagem dos portais G1 e Universa Uol sobre explante de silicone Porto Alegre 2022 Luana Sabrina Kanitz PADRÕES DE BELEZA NA IMPRENSA: Uma análise da abordagem dos portais G1 e Universa Uol sobre explante de silicone Trabalho de Conclusão de Curso, da faculdade de Comunicação Social, apresentado ao Centro Universitário Ritter dos Reis como requisito para elaboração da monografia de conclusão do curso de Jornalismo. Orientadora: Prof. Me. Cristiane Cirimbelli De Luca Porto Alegre 2022 Luana Sabrina Kanitz PADRÕES DE BELEZA NA IMPRENSA: Uma análise da abordagem dos portais G1 e Universa Uol sobre explante de silicone Trabalho de Conclusão de Curso, da faculdade de Comunicação Social, apresentado ao Centro Universitário Ritter dos Reis como requisito para elaboração da monografia de conclusão do curso de Jornalismo. Porto Alegre, junho de 2022. BANCA EXAMINADORA: _______________________________________________________________ Prof. Me. Cristiane Cirimbelli De Luca (Orientadora) _______________________________________________________________ Prof. Me. Ricardo Cunha (Banca Examinadora) Dedico este trabalho a todas as mulheres que lutam para se aceitar e se libertar dos padrões estéticos. Especialmente àquelas que assim como eu, já acharam que precisavam de um par de próteses para serem bonitas e validadas. E também às mulheres que tiveram sua saúde e qualidade de vida comprometidas por essas bolas tóxicas, e hoje carregam as cicatrizes da libertação. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente à minha mãe, Astéria Ana Gassen, por ser minha maior fã e incentivadora, por reforçar sempre o orgulho que sente por mim e por me proporcionar os estudos. Agradeço ao meu pai, seu Claudio Alcides Kanitz, que hoje me cuida e torce por mim de outro plano, por tudo que fez por mim em vida e especialmente por ter despertado em mim a paixão pelo jornalismo. Agradeço ao meu raio de sol, Felipe, por ter trazido luz e amor pra minha vida. Repito a frase que já disse a ele: “nunca me amei tão fácil te amando”. Agradeço à minha orientadora Cris de Luca, por ter tornado essa etapa final da faculdade leve, enriquecedora e prazerosa. Não foi tão difícil e assustador como eu imaginava, Cris, e eu devo isso a ti. Obrigada por tanto. Obrigada por ser quem tu é e por inspirar não só eu, mas tantas outras mulheres. Agradeço ao meu professor Ricardo Cunha, que foi como um pai pra mim durante essa trajetória acadêmica, por todo incentivo, por acreditar tanto em mim para representar nosso curso diversas vezes. Se hoje sou essa jornalista, devo muito a ti. Agradeço ao meu amigo Jonas, por ter sido um companheiro e tanto na minha jornada acadêmica, e por ter permanecido com a nossa amizade enquanto outras se foram. Agradeço à minha amiga Iasmin, por ter sido meu porto seguro durante o intercâmbio, que foi a experiência acadêmica mais incrível que eu tive. E por continuar sendo uma parceira incrível. Um presente que a faculdade me deu. Agradeço à minha amiga Eduarda Endler por todo apoio e auxílio durante o TCC, sou grata pela nossa reaproximação e pela nossa conexão. Agradeço à minha amiga Mariana Weber por sempre torcer tanto por mim, tuas mensagens alegram os meus dias. Agradeço à Wal, administradora do perfil “Perigos do Silicone” por realizar um trabalho tão importante e cansativo de conscientização em meio a tanta desinformação acerca do assunto. E por ter sido uma luz para eu desistir de colocar essas bolas tóxicas e refletir sobre a pressão estética que sempre me fez acreditar que eu precisava de peitos maiores para ser bonita, desejada e feliz. Agradeço à minha “mana”, administradora do perfil “Postada x marcada” por alertar tantas mulheres sobre as mentiras que vemos no Instagram que prejudicam a autoestima feminina. Você rema incansavelmente contra uma maré de desserviço, minha total admiração a você, mana. Nossa conexão é inexplicável. Agradeço pelo nosso encontro. Por último, mas não menos importante, agradeço a Deus por ter me dado a força, a sabedoria e o foco que eu sempre pedia em oração, para realizar um bom trabalho e concluir essa jornada depois de 7 anos e meio, com muita felicidade e satisfação. “A perfeição é a doença da nação A beleza dói Você tenta consertar algo Mas você não pode consertar o que não pode ver É a alma que precisa de cirurgia” (Beyoncé, Pretty Hurts, tradução nossa) RESUMO Este trabalho tem como objetivo compreender o tratamento que o jornalismo tem dado ao tema do explante de silicone. A fundamentação teórica desta pesquisa apresenta a história do feminismo, as lutas e conquistas das mulheres ao longo da história, os padrões de beleza que já foram impostos ao corpo feminino e a pressão estética como uma nova forma de opressão às mulheres. Este trabalho também discute o jornalismo, jornalismo digital, papel social do jornalista e a presença das mulheres nos veículos de comunicação. Por meio da metodologia de Análise de Conteúdo, de Herscovitz (2007), foram determinados alguns indicadores para analisar tendências, semelhanças e diferenças entre os sites G1, um portal de comunicação de massa, e a Universa Uol, plataforma de conteúdo exclusivo para mulheres. A partir da análise de oito matérias, foram identificadas diferenças nas abordagens dos dois veículos. Palavras chave: Comunicação; Jornalismo; Silicone; Padrão de beleza; Mulher. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Estatuetas de vênus ...………………………………………………………...22 Figura 2 - O Nascimento de Vênus ………………………………………………………23 Figura 3 - Mulheres com espartilho ………..…………………………………………….23 Figura 4 - Mulher traje dos anos 20 ……….……………………………………………..24 Figura 5 - Marilyn Monroe ………………..…………………………………………….…24 Figura 6 - Kate Moss …………….……………………………………………………..….25 Figura 7 - Panicats …………………………………………………………………………26 Figura 8 - Kim Kardashian ………………………………………………………………..26 Figura 9 - Edição sobre toxicidade do silicone no International Journal of Occupational Medicine and Toxicology publicado em 1995…………………………...31 Figura 10 - Print do artigo científico que relata a existência de fraudes por trás dos estudos científicos financiados pelas empresas de próteses…………………………32 Figura 11 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem alta com chegada de novos padrões estéticos e surgimento de doença autoimune”..................................................................................................................54 Figura 12 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do Silicone’ em SP ‘assustador’” .............…………………………………………………..54 Figura 13 - Print da matéria “‘Doença do silicone’: entenda o termo popular usado para problemas no uso de prótese nos seios” ................……………………………..55 Figura 14 - Print da matéria “Mulheres optam por explante de silicone após anos utilizando próteses, no Ceará: ‘minha cabeça mudou’” .........…………………………56 Figura 15 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem alta com chegada de novos padrões estéticos e surgimento de doença autoimune” ………………………………..……………………………………………..….57 Figura 16 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do Silicone’ em SP ‘assustador’” .................……………………………………………..…58 Figura 17 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do Silicone’ em SP ‘assustador’” ..............……………….…………………………………59 Figura 18 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem alta com chegada de novos padrões estéticos e surgimento de doença autoimune”..................................................................................................................59 Figura 19 - Print da matéria “Mulheres optam por explante de silicone após anos utilizando próteses, no Ceará: ‘minha cabeça mudou’” .............................................60 Figura20 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’, diz Evelyn Regly” ...................…………………………………………………………….62 Figura 21 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios” ...............…………………………………………………………………………….63 Figura 22 - Print da matéria “Tive sintomas após colocar silicone e hoje ajudo mulheres a encontrar ajuda” ................………………………………………………….64 Figura 23 - Print da matéria “Sobrevivi à doença do silicone e conto essa história em um documentário” ...............………………………………………………………………65 Figura 24 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios” ............……………………………………………………………………………….66 Figura 25 - Print da matéria “Sobrevivi à doença do silicone e conto essa história em um documentário” ..................…………………………………………………………….67 Figura 26 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’, diz Evelyn Regly” ........................…………………………………………………………69 Figura 27 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’, diz Evelyn Regly” ................………………………………………………………………70 Figura 28 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios” .......................……………………………………………………………………….69 Figura 29 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios” ................…………………………………………………………………………….69 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Matérias do G1 escolhidas para análise …………………………………..49 Quadro 2 - Matérias da Universa Uol escolhidas para análise ……………………….50 Quadro 3 - Categorias e indicadores que serão analisados nas matérias do G1 e da Universa Uol ……………..…………………………………………………………………52 Quadro 4 - resultado dos indicadores quantitativos analisados no G1 ……………...56 Quadro 5 - resultado dos indicadores quantitativos analisados na Universa Uol …..65 Quadro 6 - resultado dos indicadores quantitativos analisados no G1 e na Universa Uol …….……………………………………………………………………………………..71 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Divisão das fontes (em %) …………………………………………………..60 Gráfico 2 - Divisão das fontes da área da saúde por gênero (em %) ………………..61 Gráfico 3 - Divisão das fontes (em %) ………………………………………………..…69 Gráfico 4 - Divisão das fontes da área da saúde por gênero (em %) ………………..70 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................................................................13 2 MULHER: FEMINISMO X PADRÃO DE BELEZA.................................................15 2.1 FEMINISMO.........................................................................................................15 2.2 PADRÕES DE BELEZA E PRESSÃO ESTÉTICA...............................................22 2.3 CIRURGIAS PLÁSTICAS ESTÉTICAS E O EXPLANTE DE SILICONE.............29 3 COMUNICAÇÃO.....................................................................................................35 3.1 JORNALISMO......................................................................................................36 3.2 JORNALISMO DIGITAL.......................................................................................39 3.3 O PAPEL SOCIAL DO JORNALISTA...................................................................43 3.4 MULHERES NO JORNALISMO...........................................................................45 4 ASPECTOS METODOLÓGICOS...........................................................................47 4.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA...................................................................47 4.2 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA…………..............................................................48 4.3 TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS.................................50 4.4 TÉCNICAS DE ANÁLISE DE DADOS.................................................................51 5 ANÁLISE…………………………………………………….........................................53 5.1 G1…………………................................................................................................53 5.2 UNIVERSA UOL...................................................................................................61 5.3 DISCUSSÃO DOS DADOS..................................................................................70 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................72 REFERÊNCIAS..........................................................................................................76 13 1 INTRODUÇÃO Desde os anos 2000, o implante de silicone se tornou uma cirurgia plástica comum entre as mulheres e atualmente (2020) é a cirurgia estética mais procurada entre as mulheres no país que lidera o ranking mundial de cirurgias plásticas. Segundo Wolf (2020), o desejo de colocar silicone teve influência da pornografia na moda, quando mulheres passaram a ver os "seios perfeitos", gerando uma insatisfação sobre o próprio corpo. Foi então que mulheres correram para marcar seus implantes, à medida que os anúncios desse procedimento se tornavam um novo mercado publicitário para as revistas femininas, que, em consequência disso, publicavam matérias para promover ainda mais o procedimento. Até pouco tempo atrás, os efeitos colaterais do silicone não eram tratados com importância e a percepção dos riscos e consequências era muito baixa. Mesmo que essas informações sobre os perigos dos implantes já fossem citadas em artigos de médicos americanos em meados dos anos 90, quando muitos fabricantes das próteses enfrentaram processos significativos. Não por acaso, as próteses de silicone já foram proibidas nos Estados Unidos, entre 1992 e 2006 devido a suspeitas de que o vazamento do produto estaria ligado ao comprometimento do sistema imunológico e até mesmo ao câncer. Atualmente, informações sobre a toxicidade do silicone e seus riscos, bem como relatos de mulheres que sofrem com sintomas da chamada “Doença do Silicone” que optam pelo explante de silicone (cirurgia para a retirada das próteses), são fortemente divulgadas nas redes sociais. O explante de silicone teve um crescimento de 31,6% em 2020 no Brasil. Neste mesmo período o assunto ganhou notoriedade na mídia, especialmente depois que personalidades como a youtuber e influenciadora Evelyn Regly e a ex-BBB Amanda Djehdian expuseram os seus casos, seus problemas de saúde causados pelas próteses e a decisão pela retirada do silicone. Nesse sentido, o objetivo principal deste trabalho é compreender a abordagem das matérias referentes ao explante de silicone nos portais G1 e Universa Uol. A partir disso, a monografia apresenta o seguinte problema de pesquisa: o tratamento jornalístico é diferente entre um veículo de massa (G1) e um 14 portal específico para mulheres (Universa Uol)? Em decorrência desse questionamento, são levantadas duas hipóteses. A primeira é de que, de forma geral, ambos os veículos ainda não dão o tratamento adequado ao assunto que envolve a saúde da mulher, dando mais destaque a questões que envolvem padrões estéticos. E a segunda é de que entre esses dois veículos, a Universa Uol dá mais espaço para as mulheres relatarem seus problemas, enquanto o G1 dá mais voz aos cirurgiões plásticos. Para além disso, os objetivos específicos desta pesquisa envolvem mostrar como a pressão estética funciona como movimento opressor à liberdade das mulheres, entender como os padrões de beleza influenciam o comportamento das mulheres diante das cirurgias plásticas e compreender a presença da mulher na mídia. A fundamentação teórica deste trabalho é dividida em dois capítulos. O primeiro aborda as ondas do feminismo e a história da mulher,a partir das autoras Beauvoir (2016) e Garcia (2011). Em seguida são abordados os padrões de beleza impostos às mulheres ao longo da história e o objetivo por trás da pressão estética, para tal são utilizadas as autoras Wolf (2020) e Moreno (2008). Já o segundo capítulo fala a respeito da comunicação, do jornalismo, jornalismo digital, papel social do jornalista e, por fim, a presença das mulheres nas redações jornalísticas. Neste capítulo são citados autores como Traquina (2005), Benetti (2013), Barbosa (2001), Ferrari (2010), Canavilhas (2014), entre outros. A justificativa desta monografia se dá ao fato de ser um tema recente que ainda terá muitos desdobramentos nos próximos anos e por não haver nenhuma pesquisa ainda com o mesmo foco deste trabalho. A autora acredita que o explante de silicone deve ser ainda mais abordado e com mais seriedade pela mídia, já que a tendência é que cada vez mais mulheres recorram à retirada das próteses. A metodologia de análise escolhida para este trabalho foi Análise de Conteúdo, de Herscovitz (2007). Para tal, foram analisadas oito matérias, sendo quatro veiculadas no site G1 e quatro na Universa Uol, no período de novembro de 2020 a maio de 2022. A partir disso foram estabelecidas categorias e indicadores que foram analisadas individualmente em cada um dos veículos e também com uma comparação entre os dois portais. 15 2. MULHER: FEMINISMO X PADRÃO DE BELEZA No primeiro capítulo desta pesquisa iremos abordar o feminismo e suas ondas ao longo da história, bem como as lutas e conquistas das mulheres. Também falaremos brevemente sobre os diferentes padrões de beleza que já foram impostos às mulheres e qual o objetivo dessa pressão estética. Por fim, vamos discorrer sobre sobre cirurgias plásticas estéticas, apresentando dados recentes dos procedimentos, e apresentar o explante de silicone. 2.1 FEMINISMO Historicamente a mulher nunca foi livre. E não por que ela perdeu sua liberdade, mas sim por que ela nunca a teve. De acordo com Beauvoir (2016), a mulher já nasce subordinada ao poder do patriarcado. Como filha, a vida da mulher é condicionada ao desejo do pai. No regime estritamente patriarcal, o pai poderia condenar seu filho ou filha à morte logo após o nascimento. Mas no caso de filho homem, a sociedade restringia esse poder: todo recém-nascido masculino normalmente constituído tinha o direito de viver. Já no caso da menina o abandono era muito comum. Entre os árabes havia infanticídios em massa: mal nasciam, eram as meninas jogadas em fossos. Aceitar a criança do sexo feminino era um ato de livre generosidade por parte do pai; a mulher só entra nessas sociedade por uma espécie de graça que lhe é outorgada, e não por legitimidade como o homem. (BEAUVOIR, 2016, p. 118). Com o casamento, o pai transmite todos os poderes sobre a filha para o esposo. Conforme Beauvoir (2016), como o homem cultiva a propriedade paterna, ele não aceita partilhar seus filhos nem seus bens com a esposa. Quando se impõe que os filhos de uma mulher não são dela, eles passam a não ter mais nenhum laço com a família da mulher. Assim como pelo casamento, a mulher é tirada do grupo em que nasceu e passa a pertencer à família do esposo. “Pelo fato de nada possuir, a mulher não é levada à dignidade de pessoa; ela própria faz parte do patrimônio do homem, primeiramente do pai e em seguida do marido.” (BEAUVOIR, 2016). 16 Sobre o aspecto do trabalho, a mulher era destinada às tarefas domésticas, mas não apenas cuidando da casa e dos filhos. Enquanto o homem caçava e pescava, a mulher permanecia no lar com atividades como fabricação de vasilhames, tecelagem, jardinagem, tendo um papel considerado produtivo e importante do ponto de vista econômico. No entanto, a partir da descoberta do bronze, cobre e ferro e do surgimento da charrua como ferramenta para um trabalho intensivo no campo, os homens passaram a optar pelo serviços de outros homens. Como cita Beauvoir (2016): A propriedade privada aparece; senhor dos escravos e da terra, o homem torna-se também proprietário da mulher. Nisso consiste a grande derrota história do sexo feminino. Ela se explica pelo transtorno ocorrido na divisão do trabalho em consequência da invenção de novos instrumentos. A mesma causa que assegurara à mulher sua autoridade anterior dentro de casa, seu confinamento nos trabalhos domésticos, essa mesma causa assegurava agora a preponderância do homem. O trabalho doméstico da mulher desaparecia, então, ao lado do trabalho produtivo do homem (BEAUVOIR, 2016, p. 84). Ainda segundo de Beauvoir, a igualdade só se estebelecerá quando os dois sexos tiverem direitos juridicamente iguais, mas para isso, é necessária a entrada de todo o sexo feminino na atividade pública. Para então conquistar seus direitos básicos, as mulheres tiveram que batalhar por quase três séculos. A primeira onda feminista teve seu início durante a Revolução Francesa. Garcia (2011) afirma que: Na Revolução Francesa, vemos não apenas o forte protagonismo das mulheres nos eventos revolucionários, mas também a aparição das mais contundentes demandas de igualdade sexual. A participação delas se produziu em dois âmbitos distintos: o popular e de massa de mulheres que lutaram na frente de batalha e o intelectual, representado geralmente pelas burguesas, que se manifestaram especialmente nas sessões da Assembleia Constituinte, na produção de escritos sobre a revolução, na criação de jornais e grupos femininos empenhados nas lutas pelos direitos civis e políticos das mulheres (GARCIA, 2011, p. 40). As mulheres tiveram então algumas conquistas como a lei do divórcio, a admissão de testemunhar em processos civis, a abolição do direito de maioridade, ou seja, do privilégio reservado aos filhos homens na sucessão hereditária. Na época, uma importante representante do movimento feminista foi Olympe de Gouges, que escreveu em 1791 a “Declaração dos Direitos das Mulheres e das Cidadãs”, na qual denunciava que os revolucionários mentiram sobre os princípios 17 universais como liberdade e igualdade, pois não toleravam mulheres livres e iguais, assim a Revolução havia negado os direitos políticos ao sexo feminino. Mesmo tendo escrito mais de 4 mil páginas com seus artigos, manifestos, panfletos e discursos para clubes femininos, Olympe era acusada de analfabeta e não teve espaço na Assembleia de Paris. Por outro lado, ela apareceu em diversas publicações na época, tanto pela sua beleza, quanto em relação a dúvidas sobre a sua dignidade, questões que a fizeram aparecer no livro Homenagem às mulheres mais bonitas e virtuosas de Paris e também na lista de prostitutas de Paris. Apesar de ter sido o marco da primeira onda feminista, a Revolução Francesa representou uma grande derrota para o feminismo, com clubes de mulheres sendo fechados e com o novo Código Civil Napoleônico que tornou o casamento novamente em um contrato desigual, exigindo a obediência da mulher ao marido e condedia o divórcio apenas se o marido levasse sua amante ao domicílio conjugal. Além disso, confirma Garcia (2011), as mulheres não tinham direito de administrar suas propriedades, fixar ou abandonar seu domicílio, nem trabalhar sem permissão do homem da casa, ou seja, do seu pai, marido ou filho. A obediência, o respeito, a abnegação e o sacrifício foram fixados como virtudes obrigatórias. O novo direito penal fixou para elas delitos específicos que, como o adultério e o aborto, consagravam que seus corpos não lhes pertenciam. Para todos os efeitos nenhuma mulher era dona de si mesma. Todas careciam daquilo que a cidadania assegurava aos homens: a liberdade. Elas entraram no século XIX de pés e mãos amarrados, mas com uma experiência política própria que não permitirá que as coisas voltem a ser como eram antes, pois a luta já havia começado. Sem cidadania e fora do sistema de educação formal, as mulheres ficaram fora do âmbito completo dos direitos e dos bens liberais. (GARCIA, 2011, p. 50) A segunda onda do feminismotrouxe o movimento sufragista. Com repercussão internacional, o sufragismo tinha o direito ao voto e direitos educativos como seus dois grandes objetivos. De acordo com Garcia (2011), o feminismo aparece pela primeira vez como um movimento social de domínio internacional, com identidade autônoma e caráter organizativo no século XIX, que também foi marcado por grandes movimentos sociais de emancipação, especialmente devido aos obstáculos que estavam aparecendo com a Revolução Industrial e o capitalismo. Por isso, as feministas se empenharam junto a lutas pertinentes aos direitos humanos e 18 civis como liberdade de pensamento e de associação, abolição da escravatura e da prostituição. Na segunda metade do século XIX, com os processos de urbanização e industrialização se desenvolvendo, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, o símbolo político do feminismo mudou, com proletárias e burguesas envolvidas nos movimentos socialistas e liberais, planejando uma nova estratégia política para as questões femininas. Nos Estados Unidos, as mulheres se organizaram para abolir a escravidão, movimento que trouxe a elas experiência na luta civil, na oratória e também influenciou na consciência de sua própria condição. Durante o congresso antiescravista mundial que aconteceu em Londres em 1840, as quatro delegadas norte-americanas não foram bem recebidas. Os congressistas ficaram escandalizados com sua presença, não as reconheceu como delegadas e as impediu de participar. As quatro mulheres só puderam assistir às sessões atrás das cortinas. Para muitos autores, esse episódio marca o início do movimento feminino norte-americano, pois ao voltarem ao seu país, humilhadas e indignadas decidiram centrar sua atividade no reconhecimento de seus próprios direitos (GARCIA, 2011, p. 53). Em 1848, em uma pequena cidade perto de Nova York, Elizabeth Stanton, uma das quatro delegadas que haviam ido ao congresso antiescravista, convocou por meio do jornal local, pessoas de diferentes associações e organizações de segmento liberal para uma reunião com o objetivo de discutir as condições e direitos sociais, civis e religiosos das mulheres. Compareceram 300 pessoas na reunião que culminou na redação da Declaração de Seneca Falis Carla Cristina Garcia ou a Declaração dos Sentimentos, texto inspirado na Declaração de Independência dos Estados Unidos e que funda o movimento sufragista dos Estados Unidos em 1848. A convenção foi um marco para o movimento feminista internacional, sendo o primeiro foro público e coletivo das mulheres. Conforme Garcia (2011), a Declaração protestava contra as restrições políticas como a proibição do voto, de ocupar cargos políticos e assistir a reuniões políticas. E também reivindicava as restrições econômicas, como não poder ter propriedades (já que os seus bens eram transferidos ao marido), não poder trabalhar no comércio, ter seu próprio negócio, nem abrir conta corrente em bancos. Foi a partir dessa data que as mulheres americanas começaram a lutar pelos seus direitos 19 de forma organizada, tentando uma emenda constitucional que lhes permitisse o voto. No entanto, assim como aconteceu com as francesas, as sufragistas também foram traídas. Em 1866 o Partido Republicano apresentou a emenda constitucional que concedia o direito ao voto apenas para os escravos libertos homens e negava esse direito às mulheres. E temendo perder seu privilégio, os movimentos abolicionistas, com os quais elas haviam se engajado, resolveram não apoiar as mulheres. Elas tentaram convencer os políticos da legitimidade dos direitos, mas resultou em piadas e indiferença. Assim, as sufragistas partiram para uma estratégia mais radical e com isso, muitas aderiram à greve de fome, muitas foram presas e até mesmo mortas. Entendendo que a luta das mulheres dependia apenas delas, Elizabeth fundou em 1868 a Associação Nacional pelo Sufrágio da Mulher. Um ano depois, mulheres que consideravam as reivindicações da Associação excessivas, fundaram a Associação Americana Pró-sufrágio das Mulheres, que representou a parte mais conservadora do movimento. No mesmo ano, Wyoming foi o primeiro Estado a reconhecer o direito das mulheres ao voto: só 21 anos depois da Declaração de Seneca Falis. O movimento de Elizabeth conquistou a emenda que garantia às esposas o direito de compartilhar os bens adquiridos pelo casal como ganhos e heranças, propriedades, contratos e custódia dos filhos. E a partir disso, as esposas passaram a ter o direito de recorrer ao tribunal de justiça. As inglesas conquistaram o direito ao voto após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). E após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o voto feminino passou a ser permitido na maioria dos países desenvolvidos e onde havia processos de descolonização. O período entreguerras está marcado pela decadência dos movimentos feministas. Muitas de suas demandas haviam sido satisfeitas, viviam em uma sociedade legalmente quase igualitária e muitas mulheres abandonaram a militância. Outras continuaram trabalhando, fundamentalmente, com os problemas econômicos e nas reformas das leis sobre a infância e a maternidade. O fato é que deram o feminismo como morto. A segunda onda estava concluída. (GARCIA, 2011, p. 78) 20 Foi então que em 1949, a obra “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, trouxe as bases teóricas para o ressurgimento do feminismo. O trabalho dividido em dois volumes se tornou o livro mais lido na terceira onda feminista, composta pelas filhas daquelas mulheres que conquistaram o voto e o direito à educação depois da Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, as mulheres que haviam sido inseridas no mercado de trabalho massivamente durante a Segunda Guerra, foram dispensadas para dar emprego aos homens que voltavam da guerra. Na época nascia a sociedade do consumo que necessitava de donas de casa dispostas a comprar eletrodomésticos. Um grande problema surge e é identificado por Betty Friedan em sua obra A mística feminina de 1963: mulheres norte-americanas estavam insatisfeitas consigo mesmas e com sua vida, o que resultava em distúrbios como ansiedade, depressão e alcoolismo. Mas para Betty, o problema era político. A reação do patriarcado contra o sufragismo e a integração da mulher identificada como mãe e esposa na esfera pública, acaba com a ideia de realização pessoal e ainda culpa a mulher que não é feliz vivendo para servir os outros. A mística feminina cria um novo movimento social libertador, conscientizando mulheres sobre a opressão que lhes é imposta e analisando a insatisfação feminina. E em 1966, Betty Friedan funda a Organização Nacional para as Mulheres (NOW), um dos mais importantes movimentos feministas dos Estados Unidos, que também é o maior representante do feminismo liberal. Segundo Garcia (2011), o feminismo liberal é caracterizado por defender que a situação das mulheres era de desigualdade e não de opressão e exploração , sendo assim, exigia a reforma do sistema para garantir igualdade entre os sexos. As feministas liberais definiram que o principal problema das mulheres era a exclusão da esfera pública e reivindicavam a inclusão no mercado de trabalho. Para isso, tinham um setor com objetivo de formar e promover mulheres para que pudessem ocupar cargos públicos. Pouco depois se formou o feminismo radical norte-americano, desenvolvido entre 1967 e 1975. Mesmo com a diversidade teórica e prática dos grupos que participavam, elas tinham o desejo em comum de tratar da raiz da opressão. Elas 21 consideravam que todos os homens, sendo ou não de elite, tinham privilégios econômicos, sexuais e psicológicos com o sistema patriarcal. A partir disso, o Movimento de Liberação das Mulheres virou notícia em 1968 devido a um protesto contra o concurso de Miss América. Como conta Garcia (2011): Nessa manifestação contra a apresentação da mulher como objeto estereotipado, atiraram cosméticos, sapatos de saltos altos e sutiãs naquilo que chamavam “lixeirada liberdade”. Queriam romper com o tradicional modelo de feminilidade e reivindicar a diversidade das mulheres e de seus corpos. O ativismo dos grupos radicais foi, em mais de um sentido, espetacular: manifestações e marchas de mulheres, grandes atos de protestos e sabotagem que colocavam em evidência o caráter de objeto e mercadoria da mulher no patriarcado capitalista. Com atos como o descrito, sabotagens de comitês de especialistas sobre o aborto formado por 14 homens e uma freira, as radicais conseguiram que a voz do feminismo entrasse em todos e cada um dos lares estadunidenses. (GARCIA, 2011, p. 88) A partir de 1975, o feminismo foi crescendo pelo mundo com suas próprias características, tempos e pautas. Nos anos 80 o foco do feminismo foi a diversidade entre as mulheres, defendendo as diferentes situações em que elas vivem, incluindo o país, etnia e preferência sexual. Pode-se dizer que a liberdade havia sido conquistada, mas claro, não para todas. A partir disso, cada grupo começou a aprofundar temas como sexualidade, direitos reprodutivos, aborto, violência contra a mulher, saúde, carreira e esporte. As feministas também conseguiram identificar as estratégias dos meios de comunicação, a forma ultrajante como as mulheres são representadas nos anúncios publicitários, a sua exclusão da história e a desigualdade salarial. As mulheres tiveram muitas conquistas desde então, mas a opressão, a violência de gênero e a discriminação sexista ainda são realidades que fazem parte da atualidade, seja no âmbito do trabalho, da educação, da economia e da política. Segundo um estudo realizado em 2018 pelo Fórum Econômico Mundial, é preciso mais de dois séculos para que a igualdade de gênero no mercado de trabalho se torne uma realidade. Já em outras áreas como política, educação e saúde, a desigualdade deve acabar em pelo menos 108 anos. Conforme a reportagem intitulada “As conquistas das mulheres ao longo da história”, publicada pela Futura em 2021, no Brasil, as conquistas das mulheres 22 começaram em 1827 quando as meninas passaram a frequentar a escola. Em 1852 foi criado o primeiro jornal feminino, editado por mulheres e destinado a mulheres. Só em 1879 as mulheres conquistaram o acesso às faculdades. Mais de 30 anos depois, em 1910, foi criado o primeiro partido político feminono e só em 1932 as mulheres obtiveram o direito ao voto. Em 1962 foi criado o Estatuto da Mulher Casada e em 1977 foi aprovada a Lei do Divórcio. A Lei Maria da Penha foi sancionada em 2006. Há menos de 10 anos, em 2015, foi sancionada a Lei do Feminicídio. Em 2018 a importunação sexual feminina passou a ser crime. 2.2 PADRÕES DE BELEZA E PRESSÃO ESTÉTICA Da mesma forma que ao longo dos anos as mulheres foram conquistando seus direitos, com o passar do tempo, diferentes padrões estéticos foram impostos às mulheres. Conforme a reportagem intitulada “A história da mulher ‘ideal’ e onde isso nos coloca” da CNN Brasil, publicada em 2020, na pré-história, a imagem das representavam o ideal estético feminino, com corpo redondo no chamado formato pêra e com seios fartos, essa aparência era valorizada pois representava fertilidade e também disponibilidade de recursos. Figura 1 - Estatuetas de vênus Fonte: Revista Planeta, acesso em 2022 23 Na Grécia Antiga, o ideal de beleza era retratado com a imagem de Afrodite (ou Vênus), deusa do amor e da beleza, que possuía curvas e seios pequenos. Figura 2 - O Nascimento de Vênus Fonte: InfoEscola, acesso em 2022 Nos anos 1800 a sociedade passou a valorizar curvas: seios e quadris grandes, mas com a cintura fina. Assim, as mulheres se viam obrigadas a usar os espartilhos. Vale ressaltar que as peças provocavam desmaios frequentemente, por causa da falta de oxigênio, além de fraturas nas costelas. Figura 3 - Mulheres com espartilho Fonte: Revista Evoke, acesso em 2022 24 De acordo com a matéria intitulada “Vídeo: como a beleza feminina mudou ao longo da história”, publicada pela Revista Claudia em 2017, nos anos 20 o ideal de beleza tem mudanças significativas, o padrão torna-se o corpo cilíndrico, sem curvas: seios, cintura e quadril deveriam ter medidas parecidas. Assim, as mulheres usavam vestidos retos, para disfarçar suas curvas, e enrolavam faixas sobre os seios. Figura 4 - Mulher traje dos anos 20 Fonte: Harper’s Bazaar, acesso em 2022 Entre as décadas de 40 e 50, os astros de Hollywood, como Marilyn Monroe, se tornam referência de beleza e sensualidade, com quadris largos e seios fartos, evidenciados pelos sutiãs com enchimento. Figura 5 - Marilyn Monroe 25 Fonte: Hypeness, acesso em 2022 Mais tarde, entre os anos 80 e 90, o corpo magro e torneado se torna o novo ideal, tendo como referência as supermodelos, como Cindy Crawford, Kate Moss e a brasileira Gisele Bündchen. Figura 6 - Kate Moss Fonte: Marie Claire, acesso em 2022 26 Em meados dos anos 2000, apesar de as revistas terem continuado reforçando o biotipo de mulheres altas e magras, no Brasil os programas de TV ditaram um novo corpo dos sonhos, o estilo Panicat: corpo sarado de academia, peitos grandes e siliconados, bumbum grande e empinado e coxas grossas e definidas. Figura 7 - Panicats Fonte: R7, acesso em 2022 Atualmente (2022), conforme um estudo divulgado pela revista de artigos científicos Body Image, o corpo “violão” que inclui seios e bumbum grandes e cintura bem marcada, é considerado o padrão de beleza hoje, com exemplos como a cantora Beyoncé e influenciadoras digitais como Kim Kardashian. E as redes sociais têm grande papel nisso, com a reprodução de fotos com corpos que dificilmente são possíveis de se alcançar naturalmente, sem uso de aplicativos de edição que modificam o corpo e/ou intervenção de procedimentos estéticos e cirurgias plásticas. Figura 8 - Kim Kardashian 27 Fonte: L’officiel, acesso em 2022 Como pode ser visto, os padrões de beleza impostos às mulheres já mudaram muito ao longo da história e isso não acontece por acaso. Se por um lado as mulheres foram conquistando seus direitos, como o divórcio, o ingresso ao ensino superior e no espaço político, bem como a entrada no mercado de trabalho e a independência financeira. Por outro lado, o patriarcado sentiu seu poder e controle sendo ameaçados. As mulheres se viam livres. Colocá-las em uma prisão de insatisfações com o próprio corpo parecia então uma boa oportunidade de diminuir sua autoconfiança e deixá-las longe do poder destinado aos homens. Segundo Wolf (2020), para cada ação feminista há uma reação contrária e de igual intensidade por parte dos padrões de beleza. Quanto mais perto do poder as mulheres chegam, maiores são as exigências de sacrifício e preocupação com o físico. Assim, a pressão estética veio como uma nova forma de opressão às mulheres, fazendo com que o seu valor esteja sempre associado à sua aparência física. O objetivo é tirá-las do caminho que poderia levá-las à igualdade com os homens, mantendo-as ocupadas buscando se encaixar em um ideal de beleza inalcançável e que está sempre mudando. Esse sistema deixa a mulher exausta, 28 frustrada e com baixa autoestima. E é justamente isso que o patriarcado deseja. Conforme Wolf (2020) diz: Quanto mais independentes sob o aspecto financeiro, quanto mais controle tivermos dos acontecimentos, quanto mais instruídas e autônomas do ponto de vista sexual nós mulheres nos tornarmos no mundo, tanto mais esgotadas, sem controle, tolas e sexualmente inseguras querem que nos sintamos em nosso corpo. O que acontece com nosso corpo afeta nossa mente. Se os corpos femininos são e sempre foram errados enquanto os masculinos são certos, então as mulheres são erradas e os homens, certos. (WOLF, 2020, p. 286). Frustradas demais para lutarem por mais liberdade e igualdade, e com autoestima abalada por não se sentirem adequadas ou bonitas o suficiente, isso se torna um prato cheio para o machismo e opressão do patriarcado. Como afirma Moreno (2008): (…) Com baixa autoestima, elasaceitem qualquer coisa, por não se acharem merecedoras do melhor. Aceitam ganhar menos que os homens pelo mesmo trabalho, mesmo que tenham anos a mais de estudo, sejam mais confiáveis e rendam tanto ou mais que eles; aceitam ser consideradas cidadãs de segunda categoria; aceitam ver cenas, comerciais e filmes em que se sucedem situações de violência – sexual ou não – contra a mulher. (MORENO, 2008, p. 63) A preocupação com a beleza por parte das mulheres é também muito lucrativa. Se agora elas estão independentes financeiramente, também estão dispostas a pagar para ter a aparência perfeita. Assim, a indústria da beleza transforma características naturais da mulher em defeitos e lhes vende a solução: seja em produtos, procedimentos estéticos e cirurgias plásticas. De acordo com dados mais recentes da Euromonitor International, o mercado de beleza e higiene teve crescimento de 4,7% em 2020. Já o Brasil fechou 2020 com um aumento de 5,8% no setor da beleza, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), tornando o mercado promissor no país, que é o quarto maior no segmento, ficando atrás Dos Estados Unidos, China e Japão. Conforme previa Moreno (2008, p. 25): “Mais dinheiro significava mais potencial de consumo e necessidade de descobrir novas formas de gastar. Mais consumo feminino. Um novo espaço a ser aproveitado pelo sistema.” 29 A mídia é a maior aliada, tanto na ditadura dos padrões estéticos, quanto na propagação dos produtos e serviços da indústria da beleza. Se analisarmos as novelas, os papéis mais relevantes sempre são protagonizados por mulheres magras, com aparência jovem e pele perfeita, a esse último devemos atribuir também truques de edição, o que faz com que a imagem que vemos sequer corresponda a uma mulher 100% real. De acordo com Moreno (2008, p. 31): “Somos bombardeadas por imagens e modelos de beleza que nos observam dos outdoors, das bancas de jornal, da capa das revistas, do cinema, da TV, e, lentamente, invadem nosso subconsciente e vão ocupando o lugar de referência”. Essas imagens que propagam o conceito de corpo ideal, reforçam a sensação de que as mulheres valem menos do que os homens, ou ainda, de que valem somente por sua aparência, segundo Wolf (2020), que também afirma que a economia depende da representação das mulheres dentro dos limites do mito da beleza. 2.3 CIRURGIAS PLÁSTICAS ESTÉTICAS E O EXPLANTE DE SILICONE Ultrapassando os Estados Unidos, o Brasil é atualmente (2022) o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo, conforme o último levantamento divulgado em dezembro de 2019 pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS). Só em 2018 foram registradas mais de 1 milhão 498 mil cirurgias plásticas estéticas no Brasil. Embora tenha sido registrada uma redução de 3,6% entre 2018 e 2019 segundo os dados mais recentes, o implante de próteses de silicone segue sendo o procedimento mais procurado, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica. O que mostra que os seios naturais lideram a lista de partes do corpo que geram insatisfação nas mulheres. Segundo Wolf (2020), a insatisfação com o tamanho e formato dos seios teve origem quando a pornografia passou a influenciar a moda. E a mídia mais uma vez tem seu papel nisso, fazendo uma triagem dos seios que quase nunca serão apresentados: os moles, maduros, assimétricos ou que passaram pelas alterações 30 da gravidez, como se fosse a censura da beleza, que esconde os corpos reais, Assim as mulheres acreditam que só os seus seios são muito pequenos, muito caídos, muito grandes, ou são errados. Milhões de mulheres de repente estavam vendo "os seios perfeitos" por toda a parte e, consequentemente, começaram a se preocupar com os seus seios naturalmente "imperfeitos". Muitas mulheres reagiram a esse novo ideal dos seios, marcando cirurgias para implantes mamários, enquanto os anúncios dessa cirurgia se tornavam um novo mercado publicitário para as revistas femininas que, em consequência disso, publicavam uma matéria atrás da outra para "promover" essas operações. (WOLF, 2020, p. 286) Na contramão disso, o explante de silicone, procedimento para retirada das próteses, teve um crescimento de 10,7% no mesmo período. Em 2020, esse aumento foi de 31,6% no Brasil. Coincidentemente ou não, no ano em que as informações acerca dos riscos das próteses de silicone, como a chamada “doença do silicone” ganharam notoriedade. A doença do silicone não é comprovada cientificamente como doença e carece de estudos no Brasil. O termo é usado para caracterizar um conjunto de sintomas crônicos resultantes da resposta imunológica do organismo ao corpo estranho (a prótese) e pela intoxicação química decorrente do vazamento microscópico de substâncias como silicone, metais pesados e componentes químicos. Apesar da falta de estudos científicos no Brasil, fora daqui existem muitos artigos referentes aos danos causados pelas próteses e, vale ressaltar, que apesar de pouco divulgadas, essas informações não são de hoje. O gel Bleeding, sangramento do gel do silicone que causa toxicidade, é comprovado cientificamente desde a década de 80. Wolf (2020) relata que: Quando O mito da beleza soou o alarme quanto aos efeitos colaterais do silicone - e da cirurgia - era baixíssima a percepção geral desses perigos. Agora, mais de uma década depois, os perigos do silicone já estão mais do que bem documentados. Os fabricantes de implantes mamários enfrentam processos significativos, e milhares de artigos que expunham os perigos dos implantes de silicone foram publicados (WOLF, 2020, p. 18). Figura 9 - Edição sobre toxicidade do silicone no International Journal of Occupational Medicine and Toxicology publicado em 1995 31 Fonte: Reprodução/Facebook Dr. Henry Djikman, 2022 Vale ressaltar que, em 1992, os Estados Unidos proibiu o implante de silicone devido às suspeitas de que o vazamento do produto estaria ligado ao comprometimento do sistema imunológico e até mesmo ao câncer. Mas em 1999, o Instituto de Medicina publicou um artigo dizendo não ter evidências quanto aos malefícios dos implantes. E então, no final de 2006, a Food and Drug Administration (FDA), a agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, aprovou o uso de implantes de silicone preenchidos com gel, para fins cosméticos ou de reconstrução, com indicação para mulheres acima de 22 anos. Além disso, a FDA alertou que as próteses não eram vitalícias e que mulheres poderiam ser submetidas a cirurgias complementares. Figura 10 - Print do artigo científico que relata a existência de fraudes por trás dos estudos científicos financiados pelas empresas de próteses 32 Fonte: ClinMed International Library, acesso em 2022 Eduardo Fleury, pesquisador e primeiro médico brasileiro a estudar sobre a doença do silicone, escreveu em 2020 o livro A voz do silêncio: quando a ciência é a inimiga. Segundo ele, o implante de silicone é uma fonte contínua de liberação de material estranho no corpo humano. Os principais sintomas da doença são: dores articulares, colites, endurecimento das próteses, manchas na pele e sinais inflamatórios no seio. Fleury relata que no começo de 2019 ele descobriu um grupo no Facebook com 100 mil mulheres relatando problemas com o silicone. Há duas grandes páginas no Instagram administradas por mulheres explantadas, onde são compartilhadas informações de conscientização sobre os problemas causados pelas próteses e também relatos de centenas de mulheres que irão realizar ou já realizaram o explante. A primeira delas, chamada Perigos do Silicone , e a segunda, Explante de1 Silicone .2 2 Página no Instagram com 183 mil seguidores, encontrada no link https://www.instagram.com/explantedesilicone. 1 Página no Instagram com 189 mil seguidores, encontrada no link https://www.instagram.com/perigos.do.silicone. https://www.instagram.com/explantedesilicone https://www.instagram.com/perigos.do.silicone33 Todos os relatos das mulheres nessas páginas têm algo em comum: elas reclamam por não terem sido informadas sobre os riscos do implante mamário por parte dos cirurgiões plásticos e também sobre a falta de informações precisas sobre a doença do silicone. Como ainda não há exame para detectar a doença, o diagnóstico é feito por exclusão: se a mulher não tem nenhum problema de saúde, a causa dos seus sintomas é o silicone. Fleury (2020) afirma: “É muito interessante ver a união, voluntariedade e compaixão destas mulheres. Sem conhecimento científico ou qualquer suporte acadêmico, iniciaram uma luta contra um inimigo invisível.” No dia 20 de agosto de 2020, estas mulheres tiveram uma grande vitória. A Food and Drug Administration reconheceu Breast Implant Illness como uma doença da mama, apesar de reforçar que novos estudos precisariam ser realizados. Entre os meses de novembro de 2018 e março de 2019, a FDA recebeu 2.497 relatos de sintomas referentes à doença do silicone. Os 10 sintomas mais relatados foram: cansaço (49%), lapsos de memória (25%), dores articulares (25%), ansiedade (24%), queda de cabelo (21%), depressão (19%), irritação na pele (18%), doenças autoimunes (18%), inflamação (18%) e problemas com o peso (18%). Segundo as novas orientações do FDA, cabe ao cirurgião plástico apresentar um termo de consentimento para a paciente esclarecendo os possíveis malefícios dos implantes. Em setembro de 2020, o FDA acrescentou nas caixas dos implantes um aviso onde diz que os implantes mamários não são vitalícios; que eles foram associados ao desenvolvimento de um câncer do sistema imunológico chamado BIA-ALCL e que algumas pacientes já morreram por causa dessa doença; e que pacientes com implantes mamários têm reportado uma série de sintomas sistêmicos. Em nota publicada no dia 3 de fevereiro de 2021, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica se pronunciou sobre o assunto afirmando que os implantes mamários são utilizados por mais de 60 anos e são os dispositivos médicos mais usados e estudados no mundo. A nota também diz que muitos estudos estão sendo realizados para determinar a relação direta entre a síndrome de Asia (síndrome autoimune-inflamatória induzida por adjuvante) e as próteses. A Asia consiste no desenvolvimento de doenças autoimunes em indivíduos geneticamente predispostos, resultante da exposição a adjuvantes, como por exemplo, os implantes 34 de silicone. Ainda conforme a nota, nos últimos anos muitas pacientes têm buscado a cirurgia para retirada do implante mamário (explante): Seja por mudança de estilo de vida (envelhecimento, ganho de peso, mudança de hábitos), seja por referirem apresentarem sintomas sistêmicos relacionados ao implante – breast implant illness (BII) ou “doença do silicone”. BII por sua vez é um conjunto de sintomas sistêmicos auto reportados por pacientes que apresentam implante de silicone (sintomas inflamatórios, articulações, pele, fadiga, alterações visuais, depressão entre centenas de outros). Nas redes sociais comumente qualquer sintoma/efeito relacionado a implante de silicone é tratado como BII, embora possa ter outro agente desencadeador. A falta de dados científicos não permite concluir relação direta do BII com implantes de silicone. Não existem exames para diagnosticar BII. Mesmo sem diagnóstico ou comprovação, as mulheres optam pelo explante para resgatar sua saúde e bem-estar. (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA PLÁSTICA, 2021, ONLINE) O explante de silicone ganhou espaço na mídia no segundo semestre de 2020, após celebridades como a youtuber e influenciadora digital Evelyn Regly, e a ex-bbb e influenciadora digital Amanda Djehdian, compartilharem que passaram pela cirurgia porque estavam sofrendo com uma série de sintomas, mesmo sem ter qualquer problema de saúde. Desde então, diversos portais de notícias, jornais e programas de TV começaram a abordar o tema. No próximo capítulo falaremos sobre comunicação, jornalismo e jornalismo digital, o papel social do jornalista e também sobre a presença das mulheres no meio jornalístico. 35 3. COMUNICAÇÃO Comunicar e informar podem ser sinônimos na teoria, mas na prática, comunicar vai muito além de informar, pois comunicação envolve informação. Ao contrário da informação, que enfatiza a ideia de uma comunicação “automática”, pelos meios oral, imagem e texto, a comunicação não é um processo no qual um emissor apenas transmite uma informação ao receptor. Comunicação é sobre a troca entre emissor e receptor(es). Comunicar é interagir, compartilhar ideias, fatos, comportamentos, expressar sentimentos, e isso pode ocorrer por diferentes meios e por diversos motivos e intenções. De acordo com Wolton (2009), existem três razões principais para nos comunicarmos com alguém. A primeira é compartilhar, trocar: se comunicar e realizar trocas é uma necessidade humana. A segunda razão é a sedução, algo inerente a qualquer tipo de relação. E por fim, a convicção, nas argumentações usadas tanto para explicar quanto responder objeções. Wolton (2009) defende que comunicação é negociação: Ontem, comunicar era transmitir, pois as relações humanas eram frequentemente hierárquicas. Hoje, é quase sempre negociar, pois os indivíduos e os grupos se acham cada vez mais em situação de igualdade. Quando se olha bem a realidade, vê-se que cada um passa o seu tempo, atualmente, negociando, na relação conjugal, na família, na escola, na empresa, na sociedade, na Europa, no mundo… Poucas coisas podem ser impostas, muito se negocia. Quanto mais os indivíduos estão bem-informados, mais eles criticam e negociam (WOLTON, 2009, p. 19). Ainda segundo Wolton (2009), há cinco etapas para explicar a comunicação entre humanos e a mediada por tecnologias. A primeira diz que a comunicação faz parte da condição humana, viver é comunicar. Não existe vida pessoal nem coletiva sem vontade de se comunicar. A segunda etapa defende que os seres humanos se comunicam por três motivos: compartilhar, seduzir e convencer. A terceira afirma que a comunicação se choca com a incomunicação, quando o receptor não está sintonizado ou então discorda. A quarta refere-se à fase de negociação na qual os protagonistas tentam chegar a um acordo. Por fim, a quinta etapa diz respeito à convivência que é o resultado positivo dessa negociação, com seus pontos fortes e 36 fracos. A negociação e a convivência são importantes para prevenir a incomunicação bem como suas consequências que podem ser violentas. Comunicação envolve informação e quando o assunto é informação, é impossível não falar em jornalismo. 3.1 JORNALISMO O que está acontecendo no mundo? O que aconteceu na minha cidade hoje? O que aconteceu no julgamento daquele político? O jornalismo pode ser explicado pela resposta a perguntas como essas que as pessoas se fazem todos os dias Traquina (2005). Pode-se dizer que o jornalismo é um conjunto de histórias reais, de pessoas reais: de fatos. Histórias felizes, histórias de tragédias, de pessoas famosas e anônimas, histórias atuais ou que podem ser relevantes para o presente. O jornalismo envolve a pesquisa, coleta, fiscalização, análise da veracidade dos fatos, filtro das informações mais relevantes, produção e distribuição das notícias. O jornalismo se estabelece como um lugar de produção e de circulação de sentidos sobre a realidade. Exerce seu poder hermenêutico de muitas maneiras: ao destacar temáticas que devem ser consideradas relevantes, ao conceder poder de fala a grupos e ideologias, ao instituir angulações e quadros interpretativos para perceber, avaliar e compreender relações. O primeiro saber que o jornalismo estabelece é a definição de contemporâneo. É o jornalismo quem diz “isto é atual”, “você precisa saber disto porque isto é da sua época”, “você só estará conectado a sua época se obtiver esta informação que estou trazendo” (BENETTI, 2013, p. 46). Segundo Traquina (2005), existem três vertentes do desenvolvimento do jornalismo: Primeiramente a sua expansão,que começa com a expansão da imprensa no século XIX, e explodiu no século XX com a chegada de novos meios de comunicação, como o rádio e a televisão, e abre novas fronteiras para o jornalismo online. Depois a sua comercialização, que começou no século XIX com a emergência de uma nova mercadoria: a notícia. E por fim a emergência do pólo intelectual com a profissionalização dos jornalistas e consequentemente a definição 37 das notícias em função de valores e normas que apontam para o papel social da informação em uma democracia. Não se pode falar da história do jornalismo sem citar a invenção da prensa gráfica pelo alemão Johann Gutenberg na Europa no século XV, que facilitou a impressão em massa, tanto de jornais quanto de livros. Foi no século XVII que surgiram os jornais de publicações periódicas. Entre os jornais — que saíam uma, duas ou três vezes por semana, em latim, francês, inglês e também em holandês — estavam os primeiros impressos em inglês e francês, The Corrant out of Italy, Germany, etc. e o Courant d'Italie, que começaram a ser publicados em 1620. A partir de 1662, um jornal semanal em francês, a Gazette d'Amsterdam, oferecia não somente informação sobre negócios europeus, mas também críticas sobre a Igreja Católica e às políticas do governo francês. (BRIGGS; BURKE, 2006, p. 65). De acordo com Briggs e Burke (2006), durante a guerra civil inglesa, folhas de notícias eram enviadas para Boston até que no início do século XVIII a chegada corriqueira de novas notícias resultou na criação de jornais locais. Conforme Traquina (2005), o jornalismo que conhecemos teve sua origem no século XIX com o desenvolvimento da imprensa. A expansão dos jornais trouxe a criação de novos empregos na área e cada vez mais pessoas estavam se dedicando à informação em vez de propaganda. Assim nasciam os valores que hoje identificamos no jornalismo: a notícia, a procura da verdade, a independência, a objetividade, e uma noção de serviço público. Com a crescente comercialização da imprensa, os jornais se tornavam um negócio lucrativo, oferecendo um novo produto: as notícias, baseadas em fatos e não em opiniões. O objetivo é fornecer informação e não propaganda. No entanto, com a informação se tornando mercadoria, surge uma imprensa sensacionalista no final do século XIX. Dois processos fundamentais marcaram a evolução da atividade jornalística, segundo Traquina (2005): a sua comercialização e a profissionalização dos seus trabalhadores. O jornalismo transformou-se num negócio com um número crescente de proprietários que começaram a publicar jornais com o intuito de ter lucros e o objetivo central seria a expansão da circulação. A emergência do jornalismo com os seus próprios “padrões de performance e integridade moral” tornou-se possível com a crescente independência econômica dos 38 jornais em relação aos subsídios políticos, método dominante de financiamento da imprensa no início do século XIX. As novas formas de financiamento da imprensa, as receitas da publicidade e dos crescentes rendimentos da vendas dos jornais, permitiram a despolitização da imprensa, passo fundamental na instalação do novo paradigma do jornalismo: o jornalismo como informação e não como propaganda, isto é, um jornalismo que privilegia os fatos e não a opinião (TRAQUINA, 2005, p.36). O uso do telégrafo em 1844 e o telégrafo por cabo em 1866 permitiram mais rapidez na transmissão das informações e marcaram uma nova era do jornalismo cada vez mais voltado para a atualidade e cada vez mais global, especialmente com as agências de notícias que foram as primeiras empresas jornalísticas eletrônicas que começaram a atuar a nível global na primeira metade do século XIX. Outros fatores essenciais para o jornalismo tornar-se cada vez mais autônomo e credível foram a liberdade conquistada com a democracia e o surgimento de novos leitores que ocorreu com a criação de escolas públicas e a escolarização em massa. Segundo Traquina (2005), apesar da maior liberdade, a imprensa ainda era muito criticada no século XIX, devido à ligação entre os jornais e a propaganda política. Ao mesmo tempo que era identificada com fanáticos, demagogos e escritores de terceira categoria, também se considerava os jornalistas como perigosos revolucionários e o jornalismo era considerado o “Quarto Poder”, em relação aos outros três: poder executivo, legislativo e judicial. Ainda conforme Traquina (2005), com a teoria democrática, o novo jornalismo passou a cumprir um duplo papel: com a liberdade “negativa”, devia vigiar o poder político e proteger os cidadãos de abusos de poder dos governantes; com a liberdade “positiva”, fornecer as informações necessárias aos cidadãos para o desempenho de suas responsabilidades cívicas, tornando o serviço público um ponto importante da identidade jornalística. Assim, essa nova ideologia pregava que os jornais deveriam servir os leitores e não os políticos, com informações úteis e interessantes para os cidadãos, prezando por fatos em vez de opiniões ou argumentos tendenciosos com interesses políticos. Ao mesmo tempo, com a comercialização da imprensa, o jornalismo torna-se mais independente dos laços políticos e se transforma em uma indústria onde as notícias são um produto vendido para gerar lucros. 39 Neste novo jornalismo surge também uma nova figura crescente no jornalismo: o repórter. Traquina (2005) afirma: E era para esse mundo dos fatos que esta nova figura do campo jornalístico - o repórter - fazia um esforço supremo: a respiga e a montagem dos fatos. E este esforço tentava transformar o jornalismo numa máquina fotográfica da realidade, ou seja, na sua ideologia profissional, o espelho da realidade. A caça hábil dos fatos dava ao repórter a categoria comparável à do cientista, do explorador e do historiador. Posteriormente, iria emergir uma nova forma jornalística baseada num trabalho exaustivo dos fatos: o jornalismo de investigação. (TRAQUINA, 2005, p.52). Desde então, diversas mudanças marcaram o jornalismo que conhecemos hoje, como a reivindicação dos jornalistas para o reconhecimento da profissão e o desenvolvimento do ensino universitário em jornalismo; o surgimento de diferentes gêneros textuais: reportagens, entrevistas, notas e crônicas e também a criação de editorias focadas em temas específicos, como política, esporte, vida social, lazer, cultura, notícias policiais, além da divisão de notícias regionais, nacionais e internacionais; e a valorização da agilidade e imediatismo, trazendo o conceito de furo de reportagem: divulgar a notícia antes dos demais veículos, estando à frente da concorrência. Outra mudança importante e que teve um grande impacto positivo na agilidade foi o surgimento do jornalismo digital, tema que será abordado a seguir. 3.2 JORNALISMO DIGITAL A internet revolucionou a imprensa e foi a grande aliada no imediatismo das informações. Se antes as notícias eram divulgadas uma vez ao dia no jornal impresso ou por turnos diferentes nos noticiários do rádio e da televisão, agora novas notícias e atualizações das informações são transmitidas quase que em tempo real nos sites jornalísticos. Essa agilidade tanto na coleta da informação quanto na sua publicação, com a possibilidade de atualizar a qualquer momento, também permite a correção de forma rápida, sem eventualmente prejudicar a fonte ou o leitor. 40 Com o jornalismo na internet também surgem novas características e elementos na construção da notícia. Nos sites é possível inserir todos os recursos pertencentes a cada um dos meios de comunicação existentes: texto, imagem, vídeo – inclusive vídeos ao vivo –, áudios, animações, além dos hiperlinks, característica exclusiva do digital. Outra mudança significativa no jornalismo online é a interação do público: se antes as informações eram transmitidas de emissor para os receptores, hoje os emissores podem escolher o que querem consumir, também contribuem com informações, participam, comentam, opinam e auxiliaminclusive no surgimento de novas pautas. Como explica Barbosa (2001): A interatividade, sendo o principal elemento do ambiente online, está relacionada com a própria interação entre os conteúdos (um texto pode trazer links para reportagens anteriores, por exemplo), além das possibilidades de interferência do leitor - o consumidor da notícia - nos conteúdos acessados. Seja através de e-mail à redação, sugerindo assuntos a serem abordados, de mensagem enviada diretamente ao redator da matéria, ou ainda através da opção ”envie seus comentários sobre esta matéria'', o leitor terá participação ativa, interferindo no conteúdo e opinando diretamente na produção da informação (BARBOSA, 2001, online). Mas para atender às transformações do jornalismo digital, o jornalista precisa não só ser capaz de falar sobre diferentes assuntos, mas também trabalhar com diferentes tipos de mídia, se tornando assim um profissional com visão multidisciplinar, com noções comerciais e de marketing, como afirma Ferrari (2010). Ela cita como exemplo o G1 que prepara o repórter para ir à rua com um notebook, modem para acesso à internet, máquina fotográfica digital, gravador de áudio digital e radiocomunicador. A prioridade dele é capturar boas imagens e a notícia é digitada muitas vezes já dentro do táxi no retorno à redação. E dependendo do número de cliques na matéria, a matéria é atualizada do local do acontecimento pelo telefone para que um jornalista que está na redação. Isso porque o jornalista acompanha em tempo real a audiência de suas matérias e muda a chamada ou destaque na capa de acordo com os interesses dos leitores. “Ou seja, jornalismo multimídia pressupõe domínios de vários apetrechos tecnológicos, olhar de editor de fotografia e uma agilidade impensável nos veículos impressos.” FERRARI (2010, p.40). 41 De acordo com Canavilhas (2014), há sete características que marcam a diferença do webjornalismo. A primeira delas é o hipertexto que permite a hiperligação através de links entre diferentes textos e conteúdos. Ou seja, você consegue em apenas um clique ser direcionado para uma outra matéria, por exemplo, e se aprofundar em um assunto que foi citado de forma breve na matéria que você estava originalmente. A multimidialidade é a combinação de diferentes tipos de linguagem para transmitir uma mensagem. Envolve a multiplataforma que ocorre quando diferentes meios do mesmo veículo articulam suas respectivas coberturas jornalísticas para conseguir um melhor resultado conjunto. Para isso, é importante o jornalista como profissional polivalente, ou seja, aquele capaz de atuar em diferentes meios, comunicar em diferentes formatos e linguagens e também tratar de diferentes editorias e assuntos. Essa característica também inclui conteúdos multimídia que combinam diferentes elementos como texto, fotografia, vídeo, gráficos, iconografia e ilustração estáticas, animação digital, discurso oral, música, efeitos sonoros e vibração. Outra característica é a interatividade, a ponte entre os jornalistas e leitores. Envolve a participação do público, o contato e o compartilhamento de conteúdo, que contribuem para definir as formas que o jornalismo adota. Existem duas modalidades de interatividade: a interatividade seletiva, que refere-se à interação de pessoas com os conteúdos, o utilizador é um receptor interativo de conteúdos. O indivíduo escolhe uma opção e o sistema responde. Essa participação do leitor não tem relevância pública, apenas dimensão individual. As opções interativas incluem hipertextos, motores de busca, infografias, modalidades de personalização, RSS. Já a segunda, a interatividade comunicativa, é a interação entre pessoas e o utilizador é também produtor de conteúdos. O resultado da participação do utilizador toma uma dimensão pública. E as opções interativas incluem comentários, blogs, fóruns, entrevistas abertas, chats, envio de notas/fotografias/vídeos. A memória é uma condição de produção de matérias jornalísticas que tratam da trajetória, como em obituários e aniversários de pessoas ou eventos e nas retrospectivas anuais, por exemplo. São utilizadas, ainda, para fazer comparação 42 entre a atualizado e eventos passados, e também como forma de analogia ou nostalgia. Conforme Canavilhas (2014): Usando bases de dados localizadas em máquinas com crescente capacidade de processamento e armazenamento, com possibilidade de acesso assíncrono da parte do consumidor, o jornalismo online encoraja o usuário (Interatividade) a juntar-se aos produtores e acrescentar informação a essas bases de dados (Participação e Atualização Contínua). Bases de dados jornalísticas e não jornalísticas podem ser conjugadas, interligadas e estabelecer comunicação entre elas (Hiperligação, Hipertextualidade, Multimidialidade). Para propósitos práticos, as redes digitais disponibilizam espaço virtualmente ilimitado para o armazenamento de informação que pode ser produzida, recuperada, associada e colocada à disposição dos públicos alvos visados. (CANAVILHAS, 2014, p.95). Outro ponto fundamental para Canavilhas (2014) é a instantaneidade. A velocidade sempre foi característica inerente ao jornalismo. Mas hoje velocidade não é o suficiente, é preciso imediaticidade. Isso porque os usuários não dependem mais do jornalista para serem informados, eles podem inclusive ultrapassar o jornalista e chegar antes à cena, à testemunha. Assim cria-se uma pressão para simplificar o processo editorial até a publicação e distribuição. É preciso de instantaneidade não só para publicar, mas sobretudo, para distribuir o conteúdo. Um exemplo disso são os aplicativos dos veículos que enviam notificações sobre as novas publicações. A personalização garante uma melhor experiência ao leitor. Isso porque hoje as redes sociais já oferecem informações personalizadas de acordo com os interesses do usuário, especialmente pelo uso dos algoritmos. Existem algumas formas de personalização, conforme Canavilhas (2014), como a agregação, na qual a ideia é reunir, classificar e filtrar o conteúdo disponível, incluindo as notícias mais interessantes. A adequação das páginas em diferentes tamanhos de telas, como monitor de computador, tablet e smartphone também é um nível de personalização. Outro exemplo é a adaptação dos conteúdos apoiados no tempo (manhã, tarde e noite) e nas necessidades de informação do usuário em cada turno. Há ainda a interação significativa, quando o leitor pode deixar comentários, escrever o conteúdo e ainda aprender algo novo na abordagem de passo a passo, como o exemplo da Wikipedia. E a ajuda na decisão, quando há, por exemplo, calculadoras para auxiliar o leitor no melhor investimento ou a economizar. 43 E por fim, a ubiquidade permite que o webjornalismo possa estar em todos os lugares. Qualquer um, em qualquer lugar, e em tempo real, tem acesso às informações. E mais que isso, não apenas acessando as notícias, mas também interagindo e contribuindo com os conteúdos. Assim, as fontes também estão cada vez mais ubíquas. E não só pessoas, mas também ferramentas como câmeras de vigilância e segurança e bancos de dados. Como afirma Canavilhas (2014): A conectividade ubíqua possibilitou uma série de novas habilidades que envolvem a coleta de grande volume de informação. Sensores de vários tipos estão conectados à internet, e organizações que vão desde a National Security Agency (NSA) até corporações como o Google estão recolhendo enormes volumes de dados sobre pessoas e outras coisas. Muito deste Big Data está disponível livremente para a mídia e os jornalistas. (CANAVILHAS, 2014, p.176). No uso de dados, na relação com fontes, na coleta e divulgação de informações, e em tantas outros atributos que o jornalista desempenha, para além do papel profissional, ele tem um papel social muito importante. E é disso que falaremos a seguir. 3.3 O PAPEL SOCIAL DO JORNALISTA É quase que ultrapassado designar ao jornalista o papel de informar. Hoje mais do que nunca, as informaçõesestão em todos os lugares e são produzidas por qualquer pessoa, especialmente nas redes sociais. Como consequência disso, a responsabilidade social do jornalista é cada vez mais importante. A ele pertence a qualidade da credibilidade. Ele não apenas informa. Ele capta, analisa, verifica, interpreta, traduz e estrutura de acordo com os interesses da sociedade. Cabe ao jornalista fiscalizar e denunciar, seu compromisso é com a verdade e com a transparência. Conforme o artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros (2007), é dever do jornalista: divulgar fatos e informações que sejam de interesse público, combater e denunciar qualquer forma de corrupção, especialmente quando essa for exercida com o objetivo de controlar a informação e defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito. 44 De acordo com Kovach e Rosenstiel (2003), há nove pontos primordiais para o exercício da profissão de jornalista: A primeira obrigação do jornalismo é com a verdade. Sua primeira lealdade é com os cidadãos. Sua essência é a disciplina da verificação. Seus praticantes devem manter a independência daqueles a quem cobrem. O jornalista deve servir como um monitor independente do poder. Deve abrir espaço para a crítica e o compromisso público. Deve se empenhar para apresentar a informação de forma interessante e relevante. Deve apresentar as notícias de forma compreensível e proporcional. Deve ser livre para trabalhar de acordo com sua consciência (KOVACH; ROSENSTIEL, 2003, p.22). Sabemos que para além do papel social, o jornalismo é um mercado e as notícias são um produto e isso não é de hoje, mas desde o século XIX, conforme citado anteriormente. Assim, para manter o veículo aberto e os profissionais empregados, os jornais precisam de lucro proveniente de assinaturas e anúncios. Para isso, o jornalista deve produzir conteúdo de acordo com o interesse não só dos leitores, mas também de seus anunciantes, responsáveis por boa parte da receita do jornal. Esse fator pode pôr em cheque algumas essências do jornalista. Para Pereira (2004), ele deixa de ser o observador comprometido com o cidadão para se tornar um funcionário do novo "jornalismo de mercado", se moldando conforme as transformações econômico-culturais. E essa transformação das notícias em produto resulta na decadência dos métodos de produção jornalísticos, já que agora o lucro importa mais do que a qualidade jornalística. No entanto, é inegável a importância do jornalista, especialmente na atualidade, no cenário de pandemia da Covid-19 que começou em dezembro de 2019 e se estende até 2022. Isso porque o governo do atual presidente, Jair Bolsonaro, decidiu em 2020 restringir o acesso aos dados sobre números de casos e mortes em todo o Brasil. Então para divulgar essas informações omitidas, veículos de comunicação se reuniram e criaram um consórcio para buscarem esses dados de forma colaborativa. Ainda nesse cenário, os jornalistas são fundamentais, pois eles se unem à ciência para traduzir informações, muitas vezes técnicas, denunciam e esclarecem fake news e prestam serviço público para a saúde da população, com informações sobre prevenção e vacinação, por exemplo. Seguindo assim, os princípios que constam no artigo 2º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros: 45 Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que: II - a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público; III - a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão. (CÓDIGO DE ÉTICA DOS JORNALISTAS BRASILEIROS, 2007, online O papel do jornalista tem impacto também na mudança social. Ainda segundo o Código de Ética, é dever do jornalista combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza. E também defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias. Tratando-se de gênero, o jornalismo não só deve ter compromisso na abordagem de pautas sobre mulheres, destinadas às mulheres, mas também na equidade das mulheres no mercado de trabalho. Como citado no início deste trabalho quando abordado o feminismo, ainda falta muito para atingirmos a igualdade de gênero e no jornalismo isso não é diferente. 3.4 MULHERES NO JORNALISMO Embora as mulheres sejam maioria no jornalismo: representando 63,7%, conforme o “Perfil do Jornalista Brasileiro: características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico em 2012”, de Jacques Mick e Samuel Lima, a discriminação ainda é uma realidade, em diferentes aspectos. Segundo Santos e Temer (2018): A discriminação sofrida pelas mulheres em atuação no jornalismo não se limita às disparidades salariais e às dificuldades de ascensão e/ou ocupação de postos mais cobiçados. Como mostra o levantamento do Coletivo Feminista do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SPJDF), de 2016, as jornalistas sofrem assédio moral e sexual, tanto por parte de chefes, colegas, quanto de entrevistados e muitas vezes são preteridas na distribuição de pautas (SANTOS; TEMER, 2018, online). 46 Na pesquisa “Mulheres no Jornalismo Brasileiro” realizada em 2017 pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e pela organização de mídia Gênero e Número, com 477 respondentes de 271 veículos, 86,4% das mulheres afirmaram já ter passado por pelo menos uma situação de discriminação de gênero no trabalho. 65,4% percebem desproporção nos cargos de liderança, com mais homens ocupando funções como editores, coordenadores e diretores e 53,4% afirmam acreditar que as mulheres têm menos oportunidades de crescimento na carreira do que os homens. Outro dado aponta que 65,7% das jornalistas já tiveram sua competência questionada ou viram uma colega ter a competência questionada por colegas ou superiores. Assédio, cantadas e comentários inconvenientes (e machistas) também fazem parte da rotina de mulheres jornalistas. De acordo com a pesquisa, 73% das participantes afirmaram já ter escutado comentários ou piadas de natureza sexual sobre mulheres no ambiente de trabalho. 70,4% admitiram já terem recebido cantadas que as deixaram desconfortáveis no exercício da profissão. Quase o mesmo número, 70,2%, relataram que já presenciaram ou tomaram conhecimento de uma colega sendo assediada em seu ambiente de trabalho. E 75,3% das mulheres disseram já ter ouvido no exercício profissão um comentário ou elogio sobre suas roupas, corpo ou aparência que as deixaram desconfortáveis. Tratando-se de violência psicológica, 83,6% declararam ter sofrido pelo menos uma das seguintes situações: insultos verbais (44,2%) humilhação em público (40,5%); abuso de autoridade ou poder (63,9%); intimidação verbal, escrita ou física (59,7%); tentativa de danos à sua reputação (31,0%); ameaça de perder o emprego em caso de gravidez (2,3%); ameaças pela internet (13,4%); insultos pela internet (24,7%). Por fim, 46% das jornalistas afirmaram que as empresas onde atuam não possuem canais para receber denúncias de assédio e discriminação de gênero. Dando continuidade a esta pesquisa que tem como um dos objetivos analisar como o jornalismo e seus veículos abordam questões relacionadas às mulheres, a seguir serão apresentados os aspectos metodológicos do estudo. 47 4. ASPECTOS METODOLÓGICOS Neste capítulo serão apresentados os aspectos metodológicos. De forma geral, o objetivo desta pesquisa é analisar como o jornalismo abordou o explante de silicone, a partir das matérias dos portais G1 eUniversa Uol sobre esse assunto, publicadas entre novembro de 2020 e maio de 2022. Para isso será utilizada a metodologia de Análise de Conteúdo. Para desenvolver o referencial teórico foram utilizadas pesquisas bibliográfica e documental. Este trabalho tem caráter de emissão e é caracterizado por pesquisa qualitativa e quantitativa. 4.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA No que diz respeito às características desta pesquisa, ela será de natureza quantitativa e qualitativa. Segundo Gil (2008), a maioria das pesquisas sociais desenvolvidas atualmente requer algum tipo de análise estatística, pois as técnicas estatísticas contribuem para a caracterização e resumo dos dados, para o estudo das relações que existem entre as variáveis e para verificar como as conclusões podem estender-se para além da amostra. Ainda conforme Gil (2008), em pesquisas experimentais e em levantamentos, a análise dos dados é essencialmente quantitativa, enquanto nas pesquisas de estudos de campo, estudos de caso, pesquisa-ação ou pesquisa participante, as análises são principalmente qualitativas: E, ao contrário do que ocorre nas pesquisas experimentais e levantamentos em que os procedimentos analíticos podem ser definidos previamente, não há fórmulas ou receitas predefinidas para orientar os pesquisadores. Assim, a análise dos dados na pesquisa qualitativa passa a depender muito da capacidade e do estilo do pesquisador (GIL, 2008, p. 175). Gil (2008) afirma que a pesquisa qualitativa apresenta três etapas para a análise de dados. A redução, que consiste no processo de seleção e simplificação, a apresentação, que se refere à organização dos dados selecionados, e por fim a conclusão/verificação. A metodologia utilizada na pesquisa será a Análise de Conteúdo. De acordo com Herscovitz (2007), ela pode ser utilizada para detectar 48 tendências e modelos ao analisar critérios de noticiabilidade, enquadramentos e agendamentos, para identificar elementos típicos e também para comparar o conteúdo jornalístico de diferentes mídias em diferentes culturas. Para Gil (2008), o grande volume de material produzido pelos meios de comunicação de massa e a criação de técnicas para sua quantificação determinaram o desenvolvimento da Análise de Conteúdo. 4.2 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA O objetivo desta pesquisa é compreender, através da metodologia da Análise de Conteúdo, de que forma o jornalismo tem tratado o tema explante de silicone. Para a análise, escolhemos oito matérias, quatro do site G1 e outras quatro do Universa Uol, publicadas entre novembro de 2020 e maio de 2022. O período foi escolhido a partir do caso da youtuber e influenciadora Evelyn Regly que realizou a retirada das próteses e ganhou notoriedade na mídia no final de 2020. O critério para a escolha dos veículos foi analisar um portal jornalístico de massa e outro especializado para o público feminino. O portal de notícias G1, do Grupo Globo, foi lançado em 18 de setembro de 2006. O site oferece conteúdo jornalístico de produção própria e também de diferentes empresas do Grupo Globo, como a Rede Globo, GloboNews, rádio CBN, Jornais O Globo, Extra, Valor Econômico, Expresso e revistas Época e Globo Rural. Quadro 1: Matérias do G1 escolhidas para análise Título da matéria Data de publicação Link Silicone nos seios busca por retirada da prótese tem alta com chegada de novos padrões estéticos e surgimento de doença autoimune 9 de abril de 2021 https://g1.globo.com/bem estar/viva-voce/noticia/20 21/04/09/silicone-nos-seio s-busca-por-retirada-da-pr otese-tem-alta-com-chega da-de-novos-padroes-est eticos-e-surgimento-de-do enca-autoimune.ghtml Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do 1 de maio de 2022 https://g1.globo.com/sp/sa ntos-regiao/mais-saude/n oticia/2022/05/01/miss-rel https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml 49 Silicone’ em SP: ‘assustador’ ata-alivio-apos-sofrer-com -a-doenca-do-silicone-em- sp-assustador.ghtml Doença do silicone’: entenda o termo popular usado para problemas no uso de prótese nos seios 3 de maio de 2022 https://g1.globo.com/saud e/noticia/2022/05/03/doen ca-do-silicone-entenda-o-t ermo-popular-usado-para- problemas-no-uso-de-prot ese-nos-seios.ghtml Mulheres optam por explante de silicone após anos utilizando próteses, no Ceará: ‘minha cabeça mudou’ 8 de maio de 2022 https://g1.globo.com/ce/ce ara/noticia/2022/05/08/mu lheres-optam-por-explant e-de-silicone-apos-anos-u tilizando-proteses-no-cear a-minha-cabeca-mudou.g html Fonte: elaborado pela autora, 2022. O Universa Uol é uma plataforma do site Uol, criada em 8 de março de 2018, destinada ao público feminino. Conforme a matéria publicada no Uol em 14 de março de 2018, o objetivo do canal é ser referência de jornalismo e de conteúdo para as mulheres brasileiras: “Ao entender que a mulher contemporânea não se enxerga nos conteúdos de massa ditos femininos, que tradicionalmente se restringem a temas como moda, beleza, maternidade e casamento, o Universa traz uma proposta inovadora, que questiona antigos padrões. Assim, a plataforma considera que “todo assunto é assunto de mulher” (UOL, 2018, online). Quadro 2: Matérias da Universa Uol escolhidas para análise Título da matéria Data da publicação Link “Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone”, diz Evelyn Regly 8 de novembro de 2020 https://www.uol.com.br/uni versa/noticias/redacao/20 20/11/08/evelyn-regly.htm https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtml https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtmlhttps://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtml https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtml https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtml https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtml https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/11/08/evelyn-regly.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/11/08/evelyn-regly.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/11/08/evelyn-regly.htm 50 De peito aberto: Doença ainda desconhecida e questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios; 29 de março de 2021 https://www.uol.com.br/uni versa/reportagens-especi ais/explante-de-silicone/ ‘Tive sintomas após silicone e hoje oriento mulheres a encontrar ajuda 4 de outubro de 2021 https://www.uol.com.br/uni versa/noticias/redacao/20 21/10/04/tive-sintomas-ap os-colocar-silicone-e-hoje -ajudo-mulheres-a-encont rar-ajuda.htm ‘Sobrevivi à doença do silicone e conto essa história em documentário’ 10 de março de 2022 https://www.uol.com.br/uni versa/noticias/redacao/20 22/03/10/sobrevivi-a-doen ca-do-silicone-e-contei-es sa-historia-em-um-docum entario.htm Fonte: elaborado pela autora, 2022. 4.3 TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS A coleta de dados para esta pesquisa foi realizada através de pesquisa bibliográfica e documental. De acordo com Gil (2008), a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. “A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muitos mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente”. (GIL, 2008, p. 50). Na pesquisa bibliográfica utilizamos livros e artigos de diversos autores, entre eles: Simone de Beauvoir, Eduardo Fleury, Carla Garcia, Rachel Moreno, Naomi Wolf, Suzana Barbosa, Marcia Benetti, João Canavilhas, Bill Kovach, Tom Rosenstiel, Nelson Traquina, Dominique Wolton, entre outros. Já na pesquisa documental, segundo Gil (2008), diferente da pesquisa bibliográfica que tem sua fundamentação através das contribuições de diversos autores sobre determinado assunto, se utiliza materiais que ainda não receberam https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/explante-de-silicone/ https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/explante-de-silicone/ https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/explante-de-silicone/ https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm 51 um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa. Alguns exemplos que podem ser usados na pesquisa documental são: documentos oficiais, reportagens de jornal, cartas, contratos, filmes, fotografias, gravações, considerados documentos de primeira mão, que não receberam tratamento analítico. E também os documentos de segunda mão que já foram analisados de alguma forma, como relatórios de pesquisa, relatórios de empresas, tabelas estatísticas. A pesquisa documental deste trabalho inclui documentos como reportagens online, a pesquisa Mulheres no Jornalismo, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da organização de mídia Gênero e Número e o Código de ética dos jornalistas brasileiros. 4.4 TÉCNICAS DE ANÁLISE DE DADOS Para analisar os dados desta pesquisa será utilizada a metodologia de Análise de Conteúdo, a partir de Helena Herscovitz. Conforme Gil (2008), a Análise de Conteúdo é desenvolvida em três fases, com a pré-análise, a exploração do material e por fim o tratamento dos dados, inferência e interpretação. Na primeira metade do século XX Bernard Berelson definiu o método como "uma técnica de pesquisa para a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação”. Berelson (1952 apud Herscovitz, 2007). Herscovitz (2007), define a Análise de Conteúdo jornalística como: Método de pesquisa que recolhe e analisa textos, sons, símbolos e imagens impressas, gravadas ou veiculadas em forma eletrônica ou digital encontradas na mídia a partir de uma amostra aleatória ou não dos objetos estudados com o objetivo de fazer inferências sobre seus conteúdos e formatos enquadrando-os em categorias previamente testadas, mutuamente exclusivas e passíveis de replicação. (HERSCOVITZ, 2007, p. 126). Ainda segundo Herscovitz (2007), a característica híbrida da Análise de Conteúdo pode ser vista como um método que reúne elementos quantitativos e qualitativos e assim, a identificação sistemática de tendências e representações obtém melhores resultados quando é empregado ao mesmo tempo a análise quantitativa e análise qualitativa. Herscovitz (2007) também afirma que a Análise de 52 Conteúdo pode ser empregada em estudos exploratórios, descritivos ou explanatórios. Os pesquisadores que utilizam a análise de conteúdo são como detetives em busca de pistas que desvendem os significados aparentes e/ou implícitos dos signos e dasnarrativas jornalísticas, expondo tendências, conflitos, interesses, ambiguidades ou ideologias presentes nos materiais examinados. Um investigador competente começa sempre por uma pergunta (sentença interrogativa) ou hipótese (sentença afirmativa) que fará a conexão entre teoria e investigação. (HERSCOVITZ, 2007, p. 127). O objetivo desta monografia é analisar como o jornalismo tem tratado o tema explante de silicone. Para tal, foram designadas categorias e indicadores sobre o que será analisado nas matérias de cada veículo, como mostra a tabela a seguir. Quadro 3: Categorias e indicadores que serão analisados nas matérias do G1 e da Universa Uol Categorias Indicadores Saúde Cita ou não o termo, quantas vezes e por quem: repórter ou entrevistado? Doença do silicone Cita ou não o termo, quantas vezes e por quem: repórter ou entrevistado? Padrão de beleza/padrão estético Cita ou não o termo, quantas vezes e por quem: repórter ou entrevistado? Moda Cita ou não o termo, quantas vezes e por quem: repórter ou entrevistado? Seios/peitos pequeno/sem peito Cita ou não o termo, quantas vezes e por quem: repórter ou entrevistado? Fontes Quantas fontes foram ouvidas e gênero das fontes Assinatura da matéria É assinada? Se sim, por mulher ou homem? Fonte: elaborado pela autora, 2022. A primeira categoria escolhida é com relação ao termo saúde. Assim, será analisado se a palavra é usada nas matérias, quantas vezes e se foi citada por 53 algum entrevistado ou pelo próprio autor da matéria. Conforme descrito no capítulo 2.3, o termo Doença do Silicone é usado para caracterizar um conjunto de sintomas crônicos resultantes da resposta imunológica do organismo ao corpo estranho (prótese) e pela intoxicação química decorrente do vazamento microscópio de substâncias como silicone, metais pesados e componentes químicos através da concha semi permeável das próteses. Por isso, a segunda categoria escolhida é o termo Doença do Silicone, na qual os indicadores analisados também serão se o termo foi citado nas matérias, quantas vezes e por quem: entrevistado ou jornalista? Esses mesmos indicadores serão analisados nas três categorias seguintes: padrão de beleza, moda e seios/peitos pequenos ou sem peito. Outra categoria diz respeito às fontes das matérias, onde será analisado quantas foram ouvidas e o gênero das mesmas. Por fim, também foi escolhida a categoria assinatura da matéria, para tal, será analisado se a matéria é assinada e, caso seja, se quem assina é um homem ou uma mulher. 5 ANÁLISE Como citamos no capítulo anterior, a metodologia utilizada nesta pesquisa será a Análise de Conteúdo, a partir de Helena Herscovitz. Nesse sentido, foram definidas seis categorias e seus indicadores para a análise desta pesquisa. A seguir, serão analisadas as matérias selecionadas dos portais G1 e Universa Uol. 5.1 G1 Foram selecionadas quatro matérias do portal G1 publicadas entre 9 de abril de 2021 e 8 de maio de 2022. Começamos a análise do portal G1 com a matéria publicada no dia 9 de abril de 2021. Figura 11 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem alta com chegada de novos padrões estéticos e surgimento de doença autoimune” 54 Fonte: G1, 2022 A primeira matéria escolhida do portal G1 não apresenta a palavra saúde. O termo doença do silicone também não é citado. A categoria padrões estéticos é usada na matéria três vezes pela repórter, sendo uma delas no título. A palavra moda é citada uma vez por uma médica entrevistada. O termo seios pequenos também é citado uma vez pela médica. Ao total, foram usadas duas fontes na reportagem, sendo uma mulher e um homem (ambos médicos). Por fim, a matéria está assinada por uma repórter mulher. Figura 12 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do Silicone’ em SP ‘assustador’” Fonte: G1, 2022 A segunda matéria foi publicada no dia 1º de maio de 2022. A palavra saúde é apenas utilizada para dar os créditos ao cirurgião entrevistado, o que não se 55 encaixa na categoria desta análise. O termo doença do silicone é citado sete vezes, sendo uma delas no título da matéria, em todas as vezes, quem citou foi a jornalista. O termo padrão/padrões de beleza é usado quatro vezes, uma delas em aspas da entrevistada e nas outras três vezes, quando a repórter fala sobre o que disse a entrevistada. A palavra moda não foi citada. O termo sem peito é usado uma vez pela mulher explantada. Em relação às fontes, duas pessoas foram entrevistadas, sendo a mulher explantada e um cirurgião plástico, portanto, uma mulher e um homem. A matéria foi assinada por uma mulher. Figura 13 - Print da matéria “‘Doença do silicone’: entenda o termo popular usado para problemas no uso de prótese nos seios” Fonte: G1, 2022 A terceira matéria foi publicada em 3 de maio de 2022. A palavra saúde é apenas utilizada para dar os créditos ao cirurgião entrevistado, o que não se encaixa na categoria desta análise. O termo doença do silicone foi citado sete vezes, sendo uma delas no título, e outra na chamada para um podcast que cita o assunto. Em todas as vezes o termo foi usado pelo jornalista. As categorias seguintes: padrão de beleza e moda não foram encontradas na matéria. Foram usadas três fontes na reportagem, sendo dois homens e uma mulher. A matéria não está assinada. Figura 14 - Print da matéria “Mulheres optam por explante de silicone após anos utilizando próteses, no Ceará: ‘minha cabeça mudou’” 56 Fonte: G1, 2022 A última matéria do G1 escolhida para a análise foi publicada em 8 de maio de 2022. A palavra saúde não foi citada nenhuma vez. O termo doença do silicone foi usado cinco vezes, sendo duas delas por entrevistados, e as demais pelo repórter. A expressão padrão de beleza não foi citada. O termo moda também não foi usado. Já o termo peito p/pp (para se referir a pequeno) foi usado uma vez pela entrevistada. A matéria possui três fontes, sendo duas mulheres e um homem. Quem assina a reportagem é um homem. Quadro 4: resultado dos indicadores quantitativos analisados no G1 Categorias Indicadores Indicadores complementares Saúde Não foi citada nenhuma vez - Doença do silicone Foi citado 19 vezes 2 vezes por entrevistados e 17 vezes pelo(a) repórter Padrão de beleza/padrão estético Foi citado 7 vezes 3 vezes pela repórter e 4 pelas entrevistadas Moda Foi citado 1 vez Pela entrevistada Seios/peitos pequenos/sem peito Foi citado 3 vezes Todas por entrevistadas Fontes 10 fontes (que se 5 mulheres e 5 homens 57 repetem) Assinatura da matéria 3 matérias assinadas e 1 não Das assinadas, 2 são por mulheres e 1 por homem Fonte: elaborado pela autora, 2022. Das quatro matérias do G1 analisadas, três falam sobre a doença do silicone e uma delas cita apenas a síndrome Asia, doença autoimune que também pode ser ocasionada pelas próteses. Duas matérias falam sobre padrão de beleza e as outras duas não citam. Em uma delas, a expressão padrões estéticos é citada já no título, como sendo um dos motivos pelo aumento dos casos de explante. Sendo que nenhuma mulher entrevistada afirma que tirou o silicone por causa da chegada de um novo padrão de beleza. Figura 15 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem alta com chegada de novos padrões estéticos e surgimento de doença autoimune” Fonte: G1, 2022 Nessa mesma matéria a repórter cita padrões quando diz que nos anos 2000 o silicone passou a ser um dos padrões estéticos que, conforme a mastologista entrevistada lamenta, foi muito influenciado pela recomendação dos próprios cirurgiões plásticos. Essa afirmação da médica reflete o que Wolf (2020) defende quando diz que os cirurgiões estéticos criam um universo de pacientes onde biologicamente não existe nenhum e que “os cirurgiões, para obterem suas rendas, 58 dependem da deformação da percepção de si mesma e da intensificação do ódio a si mesma por parte da mulher”. Ela também cita o termo quando afirma: “Mais de 20 anos depois,na era do Instagram, a comparação entre corpos está longe de terminar, mas começaram a surgir também novos padrões”. Conforme vimos no capítulo sobre padrões de beleza, de fato atualmente existe um novo padrão e que é propagado por influenciadoras no Instagram, no entanto, esse padrão ainda continua incluindo os seios siliconados. Figura 16 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do Silicone’ em SP ‘assustador’” Fonte: G1, 2022 Na outra matéria do G1 que cita padrões de beleza quatro vezes, todas são referentes à entrevistada que é uma miss que passou pelo explante. Logo no segundo parágrafo da matéria ela conta que o desejo de se encaixar em uma padrão estético começou ainda na infância, com a influência de meninas que ela via em desenhos e novelas. Como afirma Moreno (2008, p. 31): “Somos bombardeadas por imagens e modelos de beleza que nos observam dos outdoors, das bancas de jornal, da capa das revistas, do cinema, da TV, e, lentamente, invadem nosso subconsciente e vão ocupando o lugar de referência.” Em outro trecho da matéria, a miss relata que colocou as próteses para estar mais próxima do padrão considerado o ideal para as mulheres, mas mesmo assim não parecia o suficiente. O que reforça uma ideia defendida por Wolf (2020) de que o ideal não é feminino, porque ele não envolve a mulher, mas sim o dinheiro. 59 Figura 17 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do Silicone’ em SP ‘assustador’” Fonte: G1, 2022 Com relação ao termo peitos pequenos ou “sem peito”, a expressão é citada em três das quatro matérias analisadas. Uma delas é a matéria acima (figura 15), na qual a miss comenta que ficou surpresa com a franquia do concurso que fez questão que ela participasse, após o explante: “Mesmo 'sem peito' e com cabelo curto, eu posso ser uma miss. A questão não é só a beleza estética". Figura 18 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem alta com chegada de novos padrões estéticos e surgimento de doença autoimune” Fonte: G1, 2022 Em outra matéria, quem usa a expressão “seio muito pequeno” é a médica entrevistada, que relaciona o tamanho dos seios naturais à “importância do silicone”. Essa fala reforça uma ideia movida pela pressão estética de que mulheres com seios pequenos devem recorrer às próteses. Figura 19 - Print da matéria “Mulheres optam por explante de silicone após anos utilizando próteses, no Ceará: ‘minha cabeça mudou’” 60 Fonte: G1, 2022 Por fim, na última matéria que fala sobre o tamanho dos seios, a entrevistada usa o termo “p/pp” para se referir a peitos pequenos e reforça uma ideia de que ela parece ter ficado aliviada por não ficar com os seios pequenos após o explante, como se ter peitos pequenos fosse o oposto de “ótimo”, palavra que ela usa para se referir ao resultado estético dos seios sem próteses. Mais uma vez vemos o resultado da pressão estética sob os seios naturais (e nesse caso, pequenos) das mulheres. Com relação às 10 fontes somadas nas quatro matérias, se levarmos em conta que elas se repetem, esse número cai para sete vezes, já que três profissionais da saúde/cirurgia plástica são citados mais de uma vez. Dessas sete diferentes fontes, três são mulheres explantadas e as outras quatro são da área da saúde, sendo três homens cirurgiões plásticos e uma médica mastologista. Gráfico 1 - Divisão das fontes (em %) Fonte: elaborado pela autora, 2022 61 Dos profissionais da saúde entrevistados nas matérias, três são homens e apenas uma é mulher, o que representa 25% do total. Gráfico 2 - Divisão das fontes da área da saúde por gênero (em %) Fonte: elaborado pela autora, 2022 A seguir, serão analisadas as matérias da plataforma Universa Uol. 5.2 UNIVERSA UOL Foram selecionadas quatro matérias da plataforma Universa Uol publicadas entre 8 de novembro de 2020 e 10 de março de 2022. Começamos a análise com a reportagem publicada em 8 de novembro de 2020. Figura 20 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’, diz Evelyn Regly” 62 Fonte: Universa Uol, 2022 A palavra saúde foi citada seis vezes na matéria, sendo duas vezes pela repórter, três vezes pela entrevistada e uma vez em citação indireta. Doença do silicone foi citada uma vez pela repórter. A expressão padrão/padrões de beleza foi citada seis vezes, sendo uma pela repórter e cinco pela entrevistada. A palavra moda não foi usada. O termo seio pequeno foi usado uma vez pela entrevistada. Sobre fonte, foi entrevistada uma mulher e foram citados dois artigos sobre explante de silicone, através de hiperlink. A reportagem foi assinada por uma mulher. Figura 21 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios” Fonte: Universa Uol, 2022 63 A segunda reportagem escolhida foi publicada em 29 de março de 2021. A palavra saúde foi usada quatro vezes, sendo duas pela repórter e duas por entrevistados. O termo doença do silicone foi citado seis vezes, sendo três vezes pela jornalista e outras três pelos entrevistados. A expressão padrão de beleza foi citada uma vez pela repórter. A palavra moda não é usada. O termo seio/peito pequeno é citado quatro vezes, por entrevistadas. A reportagem conta com oito fontes, sendo três homens e cinco mulheres. Quem assina a reportagem é uma mulher. Figura 22 - Print da matéria “Tive sintomas após colocar silicone e hoje ajudo mulheres a encontrar ajuda” Fonte: Universa Uol, 2022 A terceira matéria da Universa Uol foi publicada em 4 de outubro de 2021. Essa matéria é em forma de depoimento, então há apenas uma entrevistada. A palavra saúde aparece quatro vezes. A expressão doença do silicone é usada três vezes. Os termos padrão de beleza, moda e peito/seio pequeno não são citados. A matéria é o depoimento de uma mulher e é assinada por uma jornalista mulher. Figura 23 - Print da matéria “Sobrevivi à doença do silicone e conto essa história em um documentário” 64 Fonte: Universa Uol, 2022 A última matéria foi publicada em 10 de março de 2022 e também é um depoimento, assim como a matéria anterior, logo, tem apenas uma entrevistada. A palavra saúde é citada uma vez. A doença do silicone é citada três vezes, sendo uma delas no título. A expressão padrão/padrões de beleza é usada quatro vezes. Moda e peito pequeno não são citadas nenhuma vez. A matéria é assinada por uma mulher. Quadro 5: resultado dos indicadores quantitativos analisados na Universa Uol Categorias Indicadores Indicadores complementares Saúde Foi citada 15 vezes 4 vezes pela repórter e 11 vezes por entrevistados Doença do silicone Foi citada 13 vezes 4 vezes pela repórter e 9 por entrevistados Padrão de beleza/padrão estético Foi citado 11 vezes 2 vezes pela repórter e 9 pela entrevistada Moda Não foi citada - Seios/peitos pequenos/sem peito 5 vezes Todas por entrevistadas 65 Fontes 11 fontes 3 homens e 8 mulheres Assinatura da matéria Todas assinadas Todas por mulheres Fonte: elaborado pela autora, 2022. As quatro matérias analisadas da Universa Uol apresentam a palavra saúde e o termo doença do silicone. Três das quatro reportagens citam padrões de beleza. Na reportagem abaixo (figura 22), o termo é usado apenas uma vez quando a repórter comenta sobre a necessidade das mulheres de se encaixarem em um padrão de corpo. Figura 24 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios” Fonte: Universa Uol, 2022 Em outra matéria que é em formato de depoimento de uma mulher que realizou explante, já na primeira frase ela relata que desde criança sentia que precisava se encaixar em padrões estéticos, ou como comenta em seguida: alcançar um ideal de beleza inatingível. Mais uma vez, reforçando o que afirma Moreno (2008, p. 31): “Somos bombardeadas por imagens e modelos de beleza que nos observamdos outdoors, das bancas de jornal, da capa das revistas, do cinema, da TV, e, lentamente, invadem nosso subconsciente e vão ocupando o lugar de referência.” Figura 25 - Print da matéria “Sobrevivi à doença do silicone e conto essa história em um documentário” 66 Fonte: Universa Uol, 2022 Na terceira matéria que cita quatro vezes o termo padrão de beleza, a youtuber e influenciadora Evelyn Regly, que foi uma das primeiras celebridades a aparecer na mídia levando o tema do explante de silicone, comenta que foi influenciada pelo padrão dos “peitões” quando colocou as próteses. Conforme Wolf (2020), essa insatisfação com os seios teve origem quando a pornografia passou a influenciar a moda e a mídia. “Milhões de mulheres de repente estavam vendo "os seios perfeitos" por toda a parte e, consequentemente, começaram a se preocupar com os seus seios naturalmente "imperfeitos". Wolf (2020, p. 18). Figura 26 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’, diz Evelyn Regly” Fonte: Universa Uol, 2022 A expressão seios pequenos aparece em duas das quatro matérias. Em uma delas, a youtuber Evelyn Regly conta que foi em dois cirurgiões homens quando decidiu fazer o explante e eles falaram que ela ficaria “masculinizada” sem as próteses. Já quando ela procurou uma cirurgiã plástica mulher, ela lhe disse que não ficaria masculinizada, “até porque a mulher que tem seio pequeno não é masculinizada…” 67 A autora tentou procurar dados referentes ao número de cirurgiões plásticos homens e mulheres no Brasil, no entanto tais informações não foram encontradas. Nesse mesmo sentido, nota-se que quaisquer dados atuais referentes a cirurgias plásticas são difíceis de serem encontrados. Wolf (2020) já afirmava que é difícil, se não impossível conseguir informações precisas ou objetivas sobre cirurgia estética e que a imprensa normalmente salienta a responsabilidade da mulher em pesquisar médicos e procedimentos: "Uma mulher pode ter conhecimento das complicações, mas não da probabilidade de sua ocorrência. Se ela se dedicar em tempo integral a essa pesquisa, mesmo assim não descobrirá a taxa de mortalidade. Ou ninguém que deveria saber essa taxa sabe; ou ninguém quer dizer” Wolf (2020, p. 338). Figura 27 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’, diz Evelyn Regly” Fonte: Universa Uol, 2022 Em outra reportagem, que cita seios pequenos quatro vezes, todas as vezes quem falou sobre isso foram as mulheres explantadas entrevistadas. Uma delas comenta que “não tinha seios” ao contrário das suas amigas e que sentia vergonha de namorar por causa dos seios pequenos. Conforme Wolf (2020, p. 356): “como a censura da beleza reprime corpos de verdade de outras mulheres, ela consegue fazer com que praticamente qualquer mulher ache que só os seus seios são moles, caídos, pequenos, grandes”. Nesse sentido, é comum mulheres sentirem vergonha uma das outras em relação ao seu corpo, por isso preferem não se expor e em consequência disso, acabam não vendo corpos reais de suas amigas, por exemplo. 68 Figura 28 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios” Fonte: Universa Uol, 2022 Outra entrevistada também comenta sobre a vergonha de ficar de lingerie ou de tirar a roupa na frente do namorado e sobre a vergonha de usar biquíni. Além disso, ela conta que quando começou a trabalhar como comissária de bordo, o médico da empresa falou a seguinte frase a ela durante o exame admissional: “você é muito bonita, pena que não tem peito. Se você colocasse silicone ficaria mais proporcional.” Ela também relata que esses comentários a deixavam triste. Essa situação lembra o que afirmava Wolf (2020, p.286): “O que acontece com nosso corpo afeta nossa mente. Se os corpos femininos são e sempre foram errados enquanto os masculinos são certos, então as mulheres são erradas e os homens, certos.” Figura 29 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios” Fonte: Universa Uol, 2022 69 Com relação às 11 fontes utilizadas nas quatro matérias, sete são mulheres explantadas e quatro são profissionais da saúde, sendo dois cirurgiões plásticos e dois psicólogos. Gráfico 3 - Divisão das fontes (em %) Fonte: elaborado pela autora, 2022 Dos profissionais da saúde entrevistados nas matérias, três são homens e apenas uma é mulher, o que representa 25% do total. Gráfico 4 - Divisão das fontes da área da saúde por gênero (em %) 70 Fonte: elaborado pela autora, 2022 5.3 DISCUSSÃO DOS DADOS A seguir, faremos a comparação entre os veículos, a partir dos dados analisados nas oito matérias. Quadro 6: resultado dos indicadores quantitativos analisados no G1 e na Universa Uol Categorias Indicadores G1 Universa Uol Saúde Cita ou não o termo, quantas vezes e por quem: repórter ou entrevistado? Não foi citada nenhuma vez Foi citada 15 vezes: 4 vezes pela repórter e 11 vezes por entrevistados Doença do silicone Cita ou não o termo, quantas vezes e por quem: repórter ou entrevistado? Foi citado 19 vezes: 17 vezes pelo(a) repórter e 2 vezes por entrevistados Foi citada 13 vezes: 4 vezes pela repórter e 9 por entrevistados Padrão de Cita ou não o Foi citado 7 vezes, Foi citado 11 71 beleza/padrão estético termo, quantas vezes e por quem: repórter ou entrevistado? 3 vezes pela repórter e 4 pelas entrevistadas vezes, 2 vezes pela repórter e 9 pela entrevistada Moda Cita ou não o termo, quantas vezes e por quem: repórter ou entrevistado? Foi citado 1 vez: pela entrevistada Não foi citada Seio/peito pequeno/sem peito Cita ou não o termo, quantas vezes e por quem: repórter ou entrevistado? Foi citado 3 vezes: todas por entrevistadas 5 vezes: todas por entrevistadas Fontes Quantas fontes foram ouvidas e gênero das fontes 10 fontes (que se repetem), são 7 fontes diferentes, sendo 4 mulheres e 3 homens 11 fontes, sendo 3 homens e 8 mulheres Assinatura da matéria É assinada? Se sim, por mulher ou homem? 3 matérias assinadas e 1 não. Das assinadas, 2 são por mulheres e 1 por homem Todas assinadas e todas por mulheres Fonte: elaborado pela autora, 2022. Enquanto nas matérias do G1 a palavra saúde não foi citada nenhuma vez, nas matérias da Universa Uol a palavra foi usada 15 vezes. Como observamos em todas as matérias, o que leva as entrevistadas a realizarem o explante são problemas de saúde, por isso é inesperado não encontrar a palavra saúde nos textos do G1, a palavra foi citada apenas para dar os créditos a um cirurgião plástico entrevistado. Já o termo doença do silicone aparece 19 vezes no G1 e 13 vezes na Universa Uol. A palavra moda foi citada em uma das matérias do G1 e não foi utilizada pela Universa Uol. A expressão seios pequenos aparece três vezes no G1 e cinco vezes na Universa Uol, em ambos os portais, quem cita o termo são as entrevistadas, entre as mulheres explantadas e profissionais da saúde. 72 Com relação às fontes, foram usadas 10 ao total nas matérias do G1, no entanto elas se repetem, e se considerarmos por diversidade das fontes, esse número reduz para sete, sendo três homens e quatro mulheres. Já na Universa Uol foram usadas 11 fontes nas matérias, sendo três homens e oito mulheres. Com uma diferença maior das fontes femininas para as masculinas, se comparado ao G1. No entanto, o G1 entrevistou uma cirurgiã plástica mulher, enquanto o Universa Uol entrevistou apenas cirurgiões homens. Por fim, se tratando da assinatura das matérias, enquanto todas as matérias do Universa Uol são assinadas e todas por mulheres, no G1 uma matéria não está assinada e entre as outras três, duas são assinadas por mulheres e a outra por um homem. A seguir, iremos argumentar as considerações finais desta pesquisa. 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Desejo de muitas mulheres que buscam elevar sua autoestimae se adequar ao padrão de corpo ideal, as próteses de silicone acabaram se tornando inimigas da saúde e qualidade de vida de quem sempre foi saudável. A esperança vem com o explante, nome dado à cirurgia de retirada dos implantes que ganhou espaço na mídia após celebridades como a youtuber Evelyn Regly e a ex-bbb Amanda Djehdian passarem pelo explante e compartilharem seus relatos. O principal objetivo desta pesquisa foi analisar como o jornalismo vem tratando o explante de silicone. Para isso, foram analisadas oito matérias publicadas nos portais G1 e Universa Uol entre 9 de abril de 2021 e 8 de maio de 2022. A partir da análise realizada, as hipóteses que despertaram o interesse da autora para este estudo foram confirmadas: tanto referente ao tratamento raso que o jornalismo dá ao explante de silicone ligado à saúde da mulher, quanto à diferença entre os conteúdos do G1, que é um portal de massa, e da Universa Uol, uma plataforma destinada ao público feminino. Enquanto o G1 dá mais espaço para cirurgiões plásticos, o Universa Uol oferece muito mais espaço para as mulheres explantadas, mulheres essas que muitas vezes são taxadas de “loucas” por associarem seus 73 sintomas às próteses. Inclusive, conforme um relato publicado no perfil do Instagram “Perigos do Silicone”, em abril de 2022 uma mulher se suicidou depois de ser chamada de louca pelos médicos por estar sentindo fortes dores e relacionar os sintomas às suas próteses. Ainda sobre a Universa Uol, a plataforma tem matérias inteiras sendo depoimentos dessas mulheres. Além disso, a Universa entrevistou psicólogos, dando importância também para a saúde mental da mulher, especialmente nesse momento onde ela tem de passar por uma cirurgia para retirar aquilo que já foi algo importante para a sua autoestima e hoje é fonte de uma doença. No entanto, ao contrário do G1, a Universa Uol não entrevistou médica mulher, apenas cirurgiões homens. A autora acredita que uma plataforma para o público feminino que busca levar informações e dar voz às mulheres, deveria ter esse cuidado para trazer cirurgiãs plásticas mulheres como fontes, assim como trouxe profissionais da psicologia de ambos os sexos. Sabemos que os homens são a maioria entre os profissionais da cirurgia plástica e, por esse motivo, acabam sendo referências na área. Por isso, não foi discutido o fato de terem mais homens cirurgiões entrevistados do que mulheres, mas sim, seria importante ter pelo menos uma mulher cirurgiã como fonte na Universa Uol, como teve no G1. É sabido que a doença do silicone carece de estudos no Brasil e muitos cirurgiões plásticos – sem generalizar – minimizam os riscos das próteses, afinal menos mulheres procurando por essa cirurgia significa menos lucro. No entanto, as informações acerca dos problemas relacionados ao silicone não são de hoje. Em 1992 os Estados Unidos proibiu o implante de silicone devido a suspeitas de que o vazamento do produto estaria ligado ao comprometimento do sistema imunológico e até mesmo ao câncer. No entanto, essa informação não consta em nenhuma matéria de nenhum dos dois veículos. Hoje há estudos que indicam que 98,8% das próteses vazam no organismo. Mesmo assim, cirurgiões insistem em afirmar que são raras as chances desse vazamento. Inclusive, a médica entrevistada pelo G1 afirma isso. Em outra matéria também do G1, a mulher explantada afirma que somente depois de ter colocado as próteses ela recebeu um “livrinho” informando que o gel poderia vazar, e questiona “por que não me contaram antes?”. Talvez 74 porque sabendo de tais riscos, as mulheres iriam repensar essa decisão e o lucro dos cirurgiões reduziria? Ambos os portais não colocaram nas oito matérias analisadas os avisos da Food and Drug Administration (FDA), a agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos que falam a respeito das complicações do silicone e sobre a implementação de um aviso nas caixas das próteses que dizem que os implantes não são vitalícios, que foram associados ao desenvolvimento de um câncer do sistema imunológico e que pacientes com implantes têm reportado uma série de sintomas. A Universa Uol até colocou em uma matéria hiperlinks com esses avisos, no entanto eles estão em inglês, o que dificulta o acesso às informações, pois dificilmente as leitoras irão dar a atenção necessária a esses artigos. A autora acredita que seria fundamental os portais acrescentarem essas informações traduzidas no corpo da matéria e, mais do que isso, questionar os cirurgiões plásticos brasileiros que são entrevistados sobre esses avisos. Voltando ao G1, a autora considera tendencioso falar no título de uma matéria que o explante tem crescido devido à chegada de novo padrão estético, sendo que em nenhum momento a matéria mostra que alguma mulher entrevistada afirmou que tirou as próteses por causa de beleza, mas sim todas relatam problemas de saúde. Isso reflete uma frase do livro “O Mito da Beleza”, onde Naomi Wolf diz que a aparência da mulher é considerada importante porque aquilo que ela diz não o é. Por outro lado, deixando o romantismo da profissão de lado e pensando mais racionalmente, sabemos que todas as empresas dependem de clientes e investimentos, e nos veículos de comunicação, isso não é diferente. Assim, os interesses dos anunciantes ou investidores dos jornais, que podem incluir as indústrias farmacêutica e estética, por exemplo, podem acabar influenciando na forma como determinado assunto será abordado pelo veículo. Por fim, conclui-se que o tratamento jornalístico da Universa Uol a respeito do explante de silicone presta mais serviço às mulheres se comparado ao G1. No entanto, ambos os veículos precisam ir além das informações fornecidas por cirurgiões plásticos e seus repórteres devem realizar o papel de pesquisador, buscando traduzir os estudos americanos acerca das próteses, para prestarem um maior serviço às leitoras. 75 Como essa pesquisa foi limitada a dois veículos, não se pode concluir que o tratamento jornalístico de todos os veículos se dá da mesma forma. Portanto, a autora seguirá pesquisando sobre o tema, seguindo na mesma linha desta monografia. 76 REFERÊNCIAS BARBOSA, Suzana. Jornalismo online: dos sites noticiosos aos portais locais. set. 2001. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/barbosa-suzana-jornalismo-online.html. Acesso em: 29 abr. 2022. BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: 1 Fatos e mitos. 3ª Edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. BENETTI, Marcia. Revista e jornalismo: conceitos e particularidades. In: TAVARES, Frederico; SCHWAAB, Reges (org.). A revista e seu jornalismo. Porto Alegre: Penso, 2013, p. 44‐57. BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006. CANAVILHAS, João (org.), Webjornalismo: 7 caraterísticas que marcam a diferença. Covilhã: UBI, LabCom, Livros LabCom, 2014. CLAUDIA. Vídeo: como a beleza feminina mudou ao longo da história. 8 mar. 2017. 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