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1
FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
LUANA SABRINA KANITZ
PADRÕES DE BELEZA NA IMPRENSA:
Uma análise da abordagem dos portais G1 e Universa Uol sobre explante de
silicone
Porto Alegre
2022
Luana Sabrina Kanitz
PADRÕES DE BELEZA NA IMPRENSA:
Uma análise da abordagem dos portais G1 e Universa Uol sobre explante de
silicone
Trabalho de Conclusão de Curso, da faculdade de
Comunicação Social, apresentado ao Centro Universitário
Ritter dos Reis como requisito para elaboração da monografia
de conclusão do curso de Jornalismo.
Orientadora: Prof. Me. Cristiane Cirimbelli De Luca
Porto Alegre
2022
Luana Sabrina Kanitz
PADRÕES DE BELEZA NA IMPRENSA:
Uma análise da abordagem dos portais G1 e Universa Uol sobre explante de
silicone
Trabalho de Conclusão de Curso, da faculdade de
Comunicação Social, apresentado ao Centro Universitário
Ritter dos Reis como requisito para elaboração da monografia
de conclusão do curso de Jornalismo.
Porto Alegre, junho de 2022.
BANCA EXAMINADORA:
_______________________________________________________________
Prof. Me. Cristiane Cirimbelli De Luca (Orientadora)
_______________________________________________________________
Prof. Me. Ricardo Cunha (Banca Examinadora)
Dedico este trabalho a todas as mulheres que lutam para se
aceitar e se libertar dos padrões estéticos. Especialmente
àquelas que assim como eu, já acharam que precisavam de um
par de próteses para serem bonitas e validadas. E também às
mulheres que tiveram sua saúde e qualidade de vida
comprometidas por essas bolas tóxicas, e hoje carregam as
cicatrizes da libertação.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente à minha mãe, Astéria Ana Gassen, por ser minha
maior fã e incentivadora, por reforçar sempre o orgulho que sente por mim e por me
proporcionar os estudos.
Agradeço ao meu pai, seu Claudio Alcides Kanitz, que hoje me cuida e torce
por mim de outro plano, por tudo que fez por mim em vida e especialmente por ter
despertado em mim a paixão pelo jornalismo.
Agradeço ao meu raio de sol, Felipe, por ter trazido luz e amor pra minha
vida. Repito a frase que já disse a ele: “nunca me amei tão fácil te amando”.
Agradeço à minha orientadora Cris de Luca, por ter tornado essa etapa final
da faculdade leve, enriquecedora e prazerosa. Não foi tão difícil e assustador como
eu imaginava, Cris, e eu devo isso a ti. Obrigada por tanto. Obrigada por ser quem tu
é e por inspirar não só eu, mas tantas outras mulheres.
Agradeço ao meu professor Ricardo Cunha, que foi como um pai pra mim
durante essa trajetória acadêmica, por todo incentivo, por acreditar tanto em mim
para representar nosso curso diversas vezes. Se hoje sou essa jornalista, devo
muito a ti.
Agradeço ao meu amigo Jonas, por ter sido um companheiro e tanto na
minha jornada acadêmica, e por ter permanecido com a nossa amizade enquanto
outras se foram.
Agradeço à minha amiga Iasmin, por ter sido meu porto seguro durante o
intercâmbio, que foi a experiência acadêmica mais incrível que eu tive. E por
continuar sendo uma parceira incrível. Um presente que a faculdade me deu.
Agradeço à minha amiga Eduarda Endler por todo apoio e auxílio durante o
TCC, sou grata pela nossa reaproximação e pela nossa conexão.
Agradeço à minha amiga Mariana Weber por sempre torcer tanto por mim,
tuas mensagens alegram os meus dias.
Agradeço à Wal, administradora do perfil “Perigos do Silicone” por realizar um
trabalho tão importante e cansativo de conscientização em meio a tanta
desinformação acerca do assunto. E por ter sido uma luz para eu desistir de colocar
essas bolas tóxicas e refletir sobre a pressão estética que sempre me fez acreditar
que eu precisava de peitos maiores para ser bonita, desejada e feliz.
Agradeço à minha “mana”, administradora do perfil “Postada x marcada” por
alertar tantas mulheres sobre as mentiras que vemos no Instagram que prejudicam a
autoestima feminina. Você rema incansavelmente contra uma maré de desserviço,
minha total admiração a você, mana. Nossa conexão é inexplicável. Agradeço pelo
nosso encontro.
Por último, mas não menos importante, agradeço a Deus por ter me dado a
força, a sabedoria e o foco que eu sempre pedia em oração, para realizar um bom
trabalho e concluir essa jornada depois de 7 anos e meio, com muita felicidade e
satisfação.
“A perfeição é a doença da nação
A beleza dói
Você tenta consertar algo
Mas você não pode consertar o que não pode ver
É a alma que precisa de cirurgia”
(Beyoncé, Pretty Hurts, tradução nossa)
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo compreender o tratamento que o jornalismo
tem dado ao tema do explante de silicone. A fundamentação teórica desta pesquisa
apresenta a história do feminismo, as lutas e conquistas das mulheres ao longo da
história, os padrões de beleza que já foram impostos ao corpo feminino e a pressão
estética como uma nova forma de opressão às mulheres. Este trabalho também
discute o jornalismo, jornalismo digital, papel social do jornalista e a presença das
mulheres nos veículos de comunicação. Por meio da metodologia de Análise de
Conteúdo, de Herscovitz (2007), foram determinados alguns indicadores para
analisar tendências, semelhanças e diferenças entre os sites G1, um portal de
comunicação de massa, e a Universa Uol, plataforma de conteúdo exclusivo para
mulheres. A partir da análise de oito matérias, foram identificadas diferenças nas
abordagens dos dois veículos.
Palavras chave: Comunicação; Jornalismo; Silicone; Padrão de beleza; Mulher.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Estatuetas de vênus ...………………………………………………………...22
Figura 2 - O Nascimento de Vênus ………………………………………………………23
Figura 3 - Mulheres com espartilho ………..…………………………………………….23
Figura 4 - Mulher traje dos anos 20 ……….……………………………………………..24
Figura 5 - Marilyn Monroe ………………..…………………………………………….…24
Figura 6 - Kate Moss …………….……………………………………………………..….25
Figura 7 - Panicats …………………………………………………………………………26
Figura 8 - Kim Kardashian ………………………………………………………………..26
Figura 9 - Edição sobre toxicidade do silicone no International Journal of
Occupational Medicine and Toxicology publicado em 1995…………………………...31
Figura 10 - Print do artigo científico que relata a existência de fraudes por trás dos
estudos científicos financiados pelas empresas de próteses…………………………32
Figura 11 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem
alta com chegada de novos padrões estéticos e surgimento de doença
autoimune”..................................................................................................................54
Figura 12 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do
Silicone’ em SP ‘assustador’” .............…………………………………………………..54
Figura 13 - Print da matéria “‘Doença do silicone’: entenda o termo popular usado
para problemas no uso de prótese nos seios” ................……………………………..55
Figura 14 - Print da matéria “Mulheres optam por explante de silicone após anos
utilizando próteses, no Ceará: ‘minha cabeça mudou’” .........…………………………56
Figura 15 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese
tem alta com chegada de novos padrões estéticos e surgimento de doença
autoimune” ………………………………..……………………………………………..….57
Figura 16 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do
Silicone’ em SP ‘assustador’” .................……………………………………………..…58
Figura 17 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do
Silicone’ em SP ‘assustador’” ..............……………….…………………………………59
Figura 18 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem
alta com chegada de novos padrões estéticos e surgimento de doença
autoimune”..................................................................................................................59
Figura 19 - Print da matéria “Mulheres optam por explante de silicone após anos
utilizando próteses, no Ceará: ‘minha cabeça mudou’” .............................................60
Figura20 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’,
diz Evelyn Regly” ...................…………………………………………………………….62
Figura 21 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e
questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos
seios” ...............…………………………………………………………………………….63
Figura 22 - Print da matéria “Tive sintomas após colocar silicone e hoje ajudo
mulheres a encontrar ajuda” ................………………………………………………….64
Figura 23 - Print da matéria “Sobrevivi à doença do silicone e conto essa história em
um documentário” ...............………………………………………………………………65
Figura 24 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e
questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos
seios” ............……………………………………………………………………………….66
Figura 25 - Print da matéria “Sobrevivi à doença do silicone e conto essa história em
um documentário” ..................…………………………………………………………….67
Figura 26 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’,
diz Evelyn Regly” ........................…………………………………………………………69
Figura 27 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’,
diz Evelyn Regly” ................………………………………………………………………70
Figura 28 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e
questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos
seios” .......................……………………………………………………………………….69
Figura 29 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e
questionamentos de padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos
seios” ................…………………………………………………………………………….69
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Matérias do G1 escolhidas para análise …………………………………..49
Quadro 2 - Matérias da Universa Uol escolhidas para análise ……………………….50
Quadro 3 - Categorias e indicadores que serão analisados nas matérias do G1 e da
Universa Uol ……………..…………………………………………………………………52
Quadro 4 - resultado dos indicadores quantitativos analisados no G1 ……………...56
Quadro 5 - resultado dos indicadores quantitativos analisados na Universa Uol …..65
Quadro 6 - resultado dos indicadores quantitativos analisados no G1 e na Universa
Uol …….……………………………………………………………………………………..71
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Divisão das fontes (em %) …………………………………………………..60
Gráfico 2 - Divisão das fontes da área da saúde por gênero (em %) ………………..61
Gráfico 3 - Divisão das fontes (em %) ………………………………………………..…69
Gráfico 4 - Divisão das fontes da área da saúde por gênero (em %) ………………..70
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO........................................................................................................13
2 MULHER: FEMINISMO X PADRÃO DE BELEZA.................................................15
2.1 FEMINISMO.........................................................................................................15
2.2 PADRÕES DE BELEZA E PRESSÃO ESTÉTICA...............................................22
2.3 CIRURGIAS PLÁSTICAS ESTÉTICAS E O EXPLANTE DE SILICONE.............29
3 COMUNICAÇÃO.....................................................................................................35
3.1 JORNALISMO......................................................................................................36
3.2 JORNALISMO DIGITAL.......................................................................................39
3.3 O PAPEL SOCIAL DO JORNALISTA...................................................................43
3.4 MULHERES NO JORNALISMO...........................................................................45
4 ASPECTOS METODOLÓGICOS...........................................................................47
4.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA...................................................................47
4.2 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA…………..............................................................48
4.3 TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS.................................50
4.4 TÉCNICAS DE ANÁLISE DE DADOS.................................................................51
5 ANÁLISE…………………………………………………….........................................53
5.1 G1…………………................................................................................................53
5.2 UNIVERSA UOL...................................................................................................61
5.3 DISCUSSÃO DOS DADOS..................................................................................70
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................72
REFERÊNCIAS..........................................................................................................76
13
1 INTRODUÇÃO
Desde os anos 2000, o implante de silicone se tornou uma cirurgia plástica
comum entre as mulheres e atualmente (2020) é a cirurgia estética mais procurada
entre as mulheres no país que lidera o ranking mundial de cirurgias plásticas.
Segundo Wolf (2020), o desejo de colocar silicone teve influência da
pornografia na moda, quando mulheres passaram a ver os "seios perfeitos", gerando
uma insatisfação sobre o próprio corpo. Foi então que mulheres correram para
marcar seus implantes, à medida que os anúncios desse procedimento se tornavam
um novo mercado publicitário para as revistas femininas, que, em consequência
disso, publicavam matérias para promover ainda mais o procedimento.
Até pouco tempo atrás, os efeitos colaterais do silicone não eram tratados
com importância e a percepção dos riscos e consequências era muito baixa. Mesmo
que essas informações sobre os perigos dos implantes já fossem citadas em artigos
de médicos americanos em meados dos anos 90, quando muitos fabricantes das
próteses enfrentaram processos significativos. Não por acaso, as próteses de
silicone já foram proibidas nos Estados Unidos, entre 1992 e 2006 devido a
suspeitas de que o vazamento do produto estaria ligado ao comprometimento do
sistema imunológico e até mesmo ao câncer.
Atualmente, informações sobre a toxicidade do silicone e seus riscos, bem
como relatos de mulheres que sofrem com sintomas da chamada “Doença do
Silicone” que optam pelo explante de silicone (cirurgia para a retirada das próteses),
são fortemente divulgadas nas redes sociais. O explante de silicone teve um
crescimento de 31,6% em 2020 no Brasil. Neste mesmo período o assunto ganhou
notoriedade na mídia, especialmente depois que personalidades como a youtuber e
influenciadora Evelyn Regly e a ex-BBB Amanda Djehdian expuseram os seus
casos, seus problemas de saúde causados pelas próteses e a decisão pela retirada
do silicone.
Nesse sentido, o objetivo principal deste trabalho é compreender a
abordagem das matérias referentes ao explante de silicone nos portais G1 e
Universa Uol. A partir disso, a monografia apresenta o seguinte problema de
pesquisa: o tratamento jornalístico é diferente entre um veículo de massa (G1) e um
14
portal específico para mulheres (Universa Uol)? Em decorrência desse
questionamento, são levantadas duas hipóteses. A primeira é de que, de forma
geral, ambos os veículos ainda não dão o tratamento adequado ao assunto que
envolve a saúde da mulher, dando mais destaque a questões que envolvem padrões
estéticos. E a segunda é de que entre esses dois veículos, a Universa Uol dá mais
espaço para as mulheres relatarem seus problemas, enquanto o G1 dá mais voz aos
cirurgiões plásticos.
Para além disso, os objetivos específicos desta pesquisa envolvem mostrar
como a pressão estética funciona como movimento opressor à liberdade das
mulheres, entender como os padrões de beleza influenciam o comportamento das
mulheres diante das cirurgias plásticas e compreender a presença da mulher na
mídia.
A fundamentação teórica deste trabalho é dividida em dois capítulos. O
primeiro aborda as ondas do feminismo e a história da mulher,a partir das autoras
Beauvoir (2016) e Garcia (2011). Em seguida são abordados os padrões de beleza
impostos às mulheres ao longo da história e o objetivo por trás da pressão estética,
para tal são utilizadas as autoras Wolf (2020) e Moreno (2008). Já o segundo
capítulo fala a respeito da comunicação, do jornalismo, jornalismo digital, papel
social do jornalista e, por fim, a presença das mulheres nas redações jornalísticas.
Neste capítulo são citados autores como Traquina (2005), Benetti (2013), Barbosa
(2001), Ferrari (2010), Canavilhas (2014), entre outros.
A justificativa desta monografia se dá ao fato de ser um tema recente que
ainda terá muitos desdobramentos nos próximos anos e por não haver nenhuma
pesquisa ainda com o mesmo foco deste trabalho. A autora acredita que o explante
de silicone deve ser ainda mais abordado e com mais seriedade pela mídia, já que a
tendência é que cada vez mais mulheres recorram à retirada das próteses.
A metodologia de análise escolhida para este trabalho foi Análise de
Conteúdo, de Herscovitz (2007). Para tal, foram analisadas oito matérias, sendo
quatro veiculadas no site G1 e quatro na Universa Uol, no período de novembro de
2020 a maio de 2022. A partir disso foram estabelecidas categorias e indicadores
que foram analisadas individualmente em cada um dos veículos e também com uma
comparação entre os dois portais.
15
2. MULHER: FEMINISMO X PADRÃO DE BELEZA
No primeiro capítulo desta pesquisa iremos abordar o feminismo e suas
ondas ao longo da história, bem como as lutas e conquistas das mulheres. Também
falaremos brevemente sobre os diferentes padrões de beleza que já foram impostos
às mulheres e qual o objetivo dessa pressão estética. Por fim, vamos discorrer sobre
sobre cirurgias plásticas estéticas, apresentando dados recentes dos procedimentos,
e apresentar o explante de silicone.
2.1 FEMINISMO
Historicamente a mulher nunca foi livre. E não por que ela perdeu sua
liberdade, mas sim por que ela nunca a teve. De acordo com Beauvoir (2016), a
mulher já nasce subordinada ao poder do patriarcado. Como filha, a vida da mulher
é condicionada ao desejo do pai. No regime estritamente patriarcal, o pai poderia
condenar seu filho ou filha à morte logo após o nascimento. Mas no caso de filho
homem, a sociedade restringia esse poder: todo recém-nascido masculino
normalmente constituído tinha o direito de viver. Já no caso da menina o abandono
era muito comum.
Entre os árabes havia infanticídios em massa: mal nasciam, eram as
meninas jogadas em fossos. Aceitar a criança do sexo feminino era um ato
de livre generosidade por parte do pai; a mulher só entra nessas sociedade
por uma espécie de graça que lhe é outorgada, e não por legitimidade como
o homem. (BEAUVOIR, 2016, p. 118).
Com o casamento, o pai transmite todos os poderes sobre a filha para o
esposo. Conforme Beauvoir (2016), como o homem cultiva a propriedade paterna,
ele não aceita partilhar seus filhos nem seus bens com a esposa. Quando se impõe
que os filhos de uma mulher não são dela, eles passam a não ter mais nenhum laço
com a família da mulher. Assim como pelo casamento, a mulher é tirada do grupo
em que nasceu e passa a pertencer à família do esposo. “Pelo fato de nada possuir,
a mulher não é levada à dignidade de pessoa; ela própria faz parte do patrimônio do
homem, primeiramente do pai e em seguida do marido.” (BEAUVOIR, 2016).
16
Sobre o aspecto do trabalho, a mulher era destinada às tarefas domésticas,
mas não apenas cuidando da casa e dos filhos. Enquanto o homem caçava e
pescava, a mulher permanecia no lar com atividades como fabricação de
vasilhames, tecelagem, jardinagem, tendo um papel considerado produtivo e
importante do ponto de vista econômico. No entanto, a partir da descoberta do
bronze, cobre e ferro e do surgimento da charrua como ferramenta para um trabalho
intensivo no campo, os homens passaram a optar pelo serviços de outros homens.
Como cita Beauvoir (2016):
A propriedade privada aparece; senhor dos escravos e da terra, o homem
torna-se também proprietário da mulher. Nisso consiste a grande derrota
história do sexo feminino. Ela se explica pelo transtorno ocorrido na divisão
do trabalho em consequência da invenção de novos instrumentos. A mesma
causa que assegurara à mulher sua autoridade anterior dentro de casa, seu
confinamento nos trabalhos domésticos, essa mesma causa assegurava
agora a preponderância do homem. O trabalho doméstico da mulher
desaparecia, então, ao lado do trabalho produtivo do homem (BEAUVOIR,
2016, p. 84).
Ainda segundo de Beauvoir, a igualdade só se estebelecerá quando os dois
sexos tiverem direitos juridicamente iguais, mas para isso, é necessária a entrada de
todo o sexo feminino na atividade pública. Para então conquistar seus direitos
básicos, as mulheres tiveram que batalhar por quase três séculos. A primeira onda
feminista teve seu início durante a Revolução Francesa. Garcia (2011) afirma que:
Na Revolução Francesa, vemos não apenas o forte protagonismo das
mulheres nos eventos revolucionários, mas também a aparição das mais
contundentes demandas de igualdade sexual. A participação delas se
produziu em dois âmbitos distintos: o popular e de massa de mulheres que
lutaram na frente de batalha e o intelectual, representado geralmente pelas
burguesas, que se manifestaram especialmente nas sessões da Assembleia
Constituinte, na produção de escritos sobre a revolução, na criação de
jornais e grupos femininos empenhados nas lutas pelos direitos civis e
políticos das mulheres (GARCIA, 2011, p. 40).
As mulheres tiveram então algumas conquistas como a lei do divórcio, a
admissão de testemunhar em processos civis, a abolição do direito de maioridade,
ou seja, do privilégio reservado aos filhos homens na sucessão hereditária. Na
época, uma importante representante do movimento feminista foi Olympe de
Gouges, que escreveu em 1791 a “Declaração dos Direitos das Mulheres e das
Cidadãs”, na qual denunciava que os revolucionários mentiram sobre os princípios
17
universais como liberdade e igualdade, pois não toleravam mulheres livres e iguais,
assim a Revolução havia negado os direitos políticos ao sexo feminino. Mesmo
tendo escrito mais de 4 mil páginas com seus artigos, manifestos, panfletos e
discursos para clubes femininos, Olympe era acusada de analfabeta e não teve
espaço na Assembleia de Paris. Por outro lado, ela apareceu em diversas
publicações na época, tanto pela sua beleza, quanto em relação a dúvidas sobre a
sua dignidade, questões que a fizeram aparecer no livro Homenagem às mulheres
mais bonitas e virtuosas de Paris e também na lista de prostitutas de Paris.
Apesar de ter sido o marco da primeira onda feminista, a Revolução Francesa
representou uma grande derrota para o feminismo, com clubes de mulheres sendo
fechados e com o novo Código Civil Napoleônico que tornou o casamento
novamente em um contrato desigual, exigindo a obediência da mulher ao marido e
condedia o divórcio apenas se o marido levasse sua amante ao domicílio conjugal.
Além disso, confirma Garcia (2011), as mulheres não tinham direito de administrar
suas propriedades, fixar ou abandonar seu domicílio, nem trabalhar sem permissão
do homem da casa, ou seja, do seu pai, marido ou filho.
A obediência, o respeito, a abnegação e o sacrifício foram fixados como
virtudes obrigatórias. O novo direito penal fixou para elas delitos específicos
que, como o adultério e o aborto, consagravam que seus corpos não lhes
pertenciam. Para todos os efeitos nenhuma mulher era dona de si mesma.
Todas careciam daquilo que a cidadania assegurava aos homens: a
liberdade. Elas entraram no século XIX de pés e mãos amarrados, mas com
uma experiência política própria que não permitirá que as coisas voltem a
ser como eram antes, pois a luta já havia começado. Sem cidadania e fora
do sistema de educação formal, as mulheres ficaram fora do âmbito
completo dos direitos e dos bens liberais. (GARCIA, 2011, p. 50)
A segunda onda do feminismotrouxe o movimento sufragista. Com
repercussão internacional, o sufragismo tinha o direito ao voto e direitos educativos
como seus dois grandes objetivos. De acordo com Garcia (2011), o feminismo
aparece pela primeira vez como um movimento social de domínio internacional, com
identidade autônoma e caráter organizativo no século XIX, que também foi marcado
por grandes movimentos sociais de emancipação, especialmente devido aos
obstáculos que estavam aparecendo com a Revolução Industrial e o capitalismo. Por
isso, as feministas se empenharam junto a lutas pertinentes aos direitos humanos e
18
civis como liberdade de pensamento e de associação, abolição da escravatura e da
prostituição.
Na segunda metade do século XIX, com os processos de urbanização e
industrialização se desenvolvendo, principalmente na Inglaterra e nos Estados
Unidos, o símbolo político do feminismo mudou, com proletárias e burguesas
envolvidas nos movimentos socialistas e liberais, planejando uma nova estratégia
política para as questões femininas. Nos Estados Unidos, as mulheres se
organizaram para abolir a escravidão, movimento que trouxe a elas experiência na
luta civil, na oratória e também influenciou na consciência de sua própria condição.
Durante o congresso antiescravista mundial que aconteceu em Londres em
1840, as quatro delegadas norte-americanas não foram bem recebidas. Os
congressistas ficaram escandalizados com sua presença, não as
reconheceu como delegadas e as impediu de participar. As quatro mulheres
só puderam assistir às sessões atrás das cortinas. Para muitos autores,
esse episódio marca o início do movimento feminino norte-americano, pois
ao voltarem ao seu país, humilhadas e indignadas decidiram centrar sua
atividade no reconhecimento de seus próprios direitos (GARCIA, 2011, p.
53).
Em 1848, em uma pequena cidade perto de Nova York, Elizabeth Stanton,
uma das quatro delegadas que haviam ido ao congresso antiescravista, convocou
por meio do jornal local, pessoas de diferentes associações e organizações de
segmento liberal para uma reunião com o objetivo de discutir as condições e direitos
sociais, civis e religiosos das mulheres. Compareceram 300 pessoas na reunião que
culminou na redação da Declaração de Seneca Falis Carla Cristina Garcia ou a
Declaração dos Sentimentos, texto inspirado na Declaração de Independência dos
Estados Unidos e que funda o movimento sufragista dos Estados Unidos em 1848. A
convenção foi um marco para o movimento feminista internacional, sendo o primeiro
foro público e coletivo das mulheres.
Conforme Garcia (2011), a Declaração protestava contra as restrições
políticas como a proibição do voto, de ocupar cargos políticos e assistir a reuniões
políticas. E também reivindicava as restrições econômicas, como não poder ter
propriedades (já que os seus bens eram transferidos ao marido), não poder trabalhar
no comércio, ter seu próprio negócio, nem abrir conta corrente em bancos. Foi a
partir dessa data que as mulheres americanas começaram a lutar pelos seus direitos
19
de forma organizada, tentando uma emenda constitucional que lhes permitisse o
voto. No entanto, assim como aconteceu com as francesas, as sufragistas também
foram traídas. Em 1866 o Partido Republicano apresentou a emenda constitucional
que concedia o direito ao voto apenas para os escravos libertos homens e negava
esse direito às mulheres. E temendo perder seu privilégio, os movimentos
abolicionistas, com os quais elas haviam se engajado, resolveram não apoiar as
mulheres.
Elas tentaram convencer os políticos da legitimidade dos direitos, mas
resultou em piadas e indiferença. Assim, as sufragistas partiram para uma estratégia
mais radical e com isso, muitas aderiram à greve de fome, muitas foram presas e até
mesmo mortas. Entendendo que a luta das mulheres dependia apenas delas,
Elizabeth fundou em 1868 a Associação Nacional pelo Sufrágio da Mulher. Um ano
depois, mulheres que consideravam as reivindicações da Associação excessivas,
fundaram a Associação Americana Pró-sufrágio das Mulheres, que representou a
parte mais conservadora do movimento. No mesmo ano, Wyoming foi o primeiro
Estado a reconhecer o direito das mulheres ao voto: só 21 anos depois da
Declaração de Seneca Falis.
O movimento de Elizabeth conquistou a emenda que garantia às esposas o
direito de compartilhar os bens adquiridos pelo casal como ganhos e heranças,
propriedades, contratos e custódia dos filhos. E a partir disso, as esposas passaram
a ter o direito de recorrer ao tribunal de justiça.
As inglesas conquistaram o direito ao voto após a Primeira Guerra Mundial
(1914-1918). E após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o voto feminino
passou a ser permitido na maioria dos países desenvolvidos e onde havia processos
de descolonização.
O período entreguerras está marcado pela decadência dos movimentos
feministas. Muitas de suas demandas haviam sido satisfeitas, viviam em
uma sociedade legalmente quase igualitária e muitas mulheres
abandonaram a militância. Outras continuaram trabalhando,
fundamentalmente, com os problemas econômicos e nas reformas das leis
sobre a infância e a maternidade. O fato é que deram o feminismo como
morto. A segunda onda estava concluída. (GARCIA, 2011, p. 78)
20
Foi então que em 1949, a obra “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir,
trouxe as bases teóricas para o ressurgimento do feminismo. O trabalho dividido em
dois volumes se tornou o livro mais lido na terceira onda feminista, composta pelas
filhas daquelas mulheres que conquistaram o voto e o direito à educação depois da
Segunda Guerra Mundial.
Nos Estados Unidos, as mulheres que haviam sido inseridas no mercado de
trabalho massivamente durante a Segunda Guerra, foram dispensadas para dar
emprego aos homens que voltavam da guerra. Na época nascia a sociedade do
consumo que necessitava de donas de casa dispostas a comprar eletrodomésticos.
Um grande problema surge e é identificado por Betty Friedan em sua obra A
mística feminina de 1963: mulheres norte-americanas estavam insatisfeitas consigo
mesmas e com sua vida, o que resultava em distúrbios como ansiedade, depressão
e alcoolismo. Mas para Betty, o problema era político. A reação do patriarcado contra
o sufragismo e a integração da mulher identificada como mãe e esposa na esfera
pública, acaba com a ideia de realização pessoal e ainda culpa a mulher que não é
feliz vivendo para servir os outros.
A mística feminina cria um novo movimento social libertador, conscientizando
mulheres sobre a opressão que lhes é imposta e analisando a insatisfação feminina.
E em 1966, Betty Friedan funda a Organização Nacional para as Mulheres (NOW),
um dos mais importantes movimentos feministas dos Estados Unidos, que também é
o maior representante do feminismo liberal.
Segundo Garcia (2011), o feminismo liberal é caracterizado por defender que
a situação das mulheres era de desigualdade e não de opressão e exploração ,
sendo assim, exigia a reforma do sistema para garantir igualdade entre os sexos. As
feministas liberais definiram que o principal problema das mulheres era a exclusão
da esfera pública e reivindicavam a inclusão no mercado de trabalho. Para isso,
tinham um setor com objetivo de formar e promover mulheres para que pudessem
ocupar cargos públicos.
Pouco depois se formou o feminismo radical norte-americano, desenvolvido
entre 1967 e 1975. Mesmo com a diversidade teórica e prática dos grupos que
participavam, elas tinham o desejo em comum de tratar da raiz da opressão. Elas
21
consideravam que todos os homens, sendo ou não de elite, tinham privilégios
econômicos, sexuais e psicológicos com o sistema patriarcal.
A partir disso, o Movimento de Liberação das Mulheres virou notícia em 1968
devido a um protesto contra o concurso de Miss América. Como conta Garcia (2011):
Nessa manifestação contra a apresentação da mulher como objeto
estereotipado, atiraram cosméticos, sapatos de saltos altos e sutiãs naquilo
que chamavam “lixeirada liberdade”. Queriam romper com o tradicional
modelo de feminilidade e reivindicar a diversidade das mulheres e de seus
corpos. O ativismo dos grupos radicais foi, em mais de um sentido,
espetacular: manifestações e marchas de mulheres, grandes atos de
protestos e sabotagem que colocavam em evidência o caráter de objeto e
mercadoria da mulher no patriarcado capitalista. Com atos como o descrito,
sabotagens de comitês de especialistas sobre o aborto formado por 14
homens e uma freira, as radicais conseguiram que a voz do feminismo
entrasse em todos e cada um dos lares estadunidenses. (GARCIA, 2011, p.
88)
A partir de 1975, o feminismo foi crescendo pelo mundo com suas próprias
características, tempos e pautas. Nos anos 80 o foco do feminismo foi a diversidade
entre as mulheres, defendendo as diferentes situações em que elas vivem, incluindo
o país, etnia e preferência sexual.
Pode-se dizer que a liberdade havia sido conquistada, mas claro, não para
todas. A partir disso, cada grupo começou a aprofundar temas como sexualidade,
direitos reprodutivos, aborto, violência contra a mulher, saúde, carreira e esporte. As
feministas também conseguiram identificar as estratégias dos meios de
comunicação, a forma ultrajante como as mulheres são representadas nos anúncios
publicitários, a sua exclusão da história e a desigualdade salarial.
As mulheres tiveram muitas conquistas desde então, mas a opressão, a
violência de gênero e a discriminação sexista ainda são realidades que fazem parte
da atualidade, seja no âmbito do trabalho, da educação, da economia e da política.
Segundo um estudo realizado em 2018 pelo Fórum Econômico Mundial, é preciso
mais de dois séculos para que a igualdade de gênero no mercado de trabalho se
torne uma realidade. Já em outras áreas como política, educação e saúde, a
desigualdade deve acabar em pelo menos 108 anos.
Conforme a reportagem intitulada “As conquistas das mulheres ao longo da
história”, publicada pela Futura em 2021, no Brasil, as conquistas das mulheres
22
começaram em 1827 quando as meninas passaram a frequentar a escola. Em 1852
foi criado o primeiro jornal feminino, editado por mulheres e destinado a mulheres.
Só em 1879 as mulheres conquistaram o acesso às faculdades. Mais de 30 anos
depois, em 1910, foi criado o primeiro partido político feminono e só em 1932 as
mulheres obtiveram o direito ao voto. Em 1962 foi criado o Estatuto da Mulher
Casada e em 1977 foi aprovada a Lei do Divórcio. A Lei Maria da Penha foi
sancionada em 2006. Há menos de 10 anos, em 2015, foi sancionada a Lei do
Feminicídio. Em 2018 a importunação sexual feminina passou a ser crime.
2.2 PADRÕES DE BELEZA E PRESSÃO ESTÉTICA
Da mesma forma que ao longo dos anos as mulheres foram conquistando
seus direitos, com o passar do tempo, diferentes padrões estéticos foram impostos
às mulheres.
Conforme a reportagem intitulada “A história da mulher ‘ideal’ e onde isso nos
coloca” da CNN Brasil, publicada em 2020, na pré-história, a imagem das
representavam o ideal estético feminino, com corpo redondo no chamado formato
pêra e com seios fartos, essa aparência era valorizada pois representava fertilidade
e também disponibilidade de recursos.
Figura 1 - Estatuetas de vênus
Fonte: Revista Planeta, acesso em 2022
23
Na Grécia Antiga, o ideal de beleza era retratado com a imagem de Afrodite
(ou Vênus), deusa do amor e da beleza, que possuía curvas e seios pequenos.
Figura 2 - O Nascimento de Vênus
Fonte: InfoEscola, acesso em 2022
Nos anos 1800 a sociedade passou a valorizar curvas: seios e quadris
grandes, mas com a cintura fina. Assim, as mulheres se viam obrigadas a usar os
espartilhos. Vale ressaltar que as peças provocavam desmaios frequentemente, por
causa da falta de oxigênio, além de fraturas nas costelas.
Figura 3 - Mulheres com espartilho
Fonte: Revista Evoke, acesso em 2022
24
De acordo com a matéria intitulada “Vídeo: como a beleza feminina mudou ao
longo da história”, publicada pela Revista Claudia em 2017, nos anos 20 o ideal de
beleza tem mudanças significativas, o padrão torna-se o corpo cilíndrico, sem
curvas: seios, cintura e quadril deveriam ter medidas parecidas. Assim, as mulheres
usavam vestidos retos, para disfarçar suas curvas, e enrolavam faixas sobre os
seios.
Figura 4 - Mulher traje dos anos 20
Fonte: Harper’s Bazaar, acesso em 2022
Entre as décadas de 40 e 50, os astros de Hollywood, como Marilyn Monroe,
se tornam referência de beleza e sensualidade, com quadris largos e seios fartos,
evidenciados pelos sutiãs com enchimento.
Figura 5 - Marilyn Monroe
25
Fonte: Hypeness, acesso em 2022
Mais tarde, entre os anos 80 e 90, o corpo magro e torneado se torna o novo
ideal, tendo como referência as supermodelos, como Cindy Crawford, Kate Moss e a
brasileira Gisele Bündchen.
Figura 6 - Kate Moss
Fonte: Marie Claire, acesso em 2022
26
Em meados dos anos 2000, apesar de as revistas terem continuado
reforçando o biotipo de mulheres altas e magras, no Brasil os programas de TV
ditaram um novo corpo dos sonhos, o estilo Panicat: corpo sarado de academia,
peitos grandes e siliconados, bumbum grande e empinado e coxas grossas e
definidas.
Figura 7 - Panicats
Fonte: R7, acesso em 2022
Atualmente (2022), conforme um estudo divulgado pela revista de artigos
científicos Body Image, o corpo “violão” que inclui seios e bumbum grandes e cintura
bem marcada, é considerado o padrão de beleza hoje, com exemplos como a
cantora Beyoncé e influenciadoras digitais como Kim Kardashian. E as redes sociais
têm grande papel nisso, com a reprodução de fotos com corpos que dificilmente são
possíveis de se alcançar naturalmente, sem uso de aplicativos de edição que
modificam o corpo e/ou intervenção de procedimentos estéticos e cirurgias plásticas.
Figura 8 - Kim Kardashian
27
Fonte: L’officiel, acesso em 2022
Como pode ser visto, os padrões de beleza impostos às mulheres já
mudaram muito ao longo da história e isso não acontece por acaso. Se por um lado
as mulheres foram conquistando seus direitos, como o divórcio, o ingresso ao ensino
superior e no espaço político, bem como a entrada no mercado de trabalho e a
independência financeira. Por outro lado, o patriarcado sentiu seu poder e controle
sendo ameaçados. As mulheres se viam livres. Colocá-las em uma prisão de
insatisfações com o próprio corpo parecia então uma boa oportunidade de diminuir
sua autoconfiança e deixá-las longe do poder destinado aos homens.
Segundo Wolf (2020), para cada ação feminista há uma reação contrária e de
igual intensidade por parte dos padrões de beleza. Quanto mais perto do poder as
mulheres chegam, maiores são as exigências de sacrifício e preocupação com o
físico.
Assim, a pressão estética veio como uma nova forma de opressão às
mulheres, fazendo com que o seu valor esteja sempre associado à sua aparência
física. O objetivo é tirá-las do caminho que poderia levá-las à igualdade com os
homens, mantendo-as ocupadas buscando se encaixar em um ideal de beleza
inalcançável e que está sempre mudando. Esse sistema deixa a mulher exausta,
28
frustrada e com baixa autoestima. E é justamente isso que o patriarcado deseja.
Conforme Wolf (2020) diz:
Quanto mais independentes sob o aspecto financeiro, quanto mais controle
tivermos dos acontecimentos, quanto mais instruídas e autônomas do ponto
de vista sexual nós mulheres nos tornarmos no mundo, tanto mais
esgotadas, sem controle, tolas e sexualmente inseguras querem que nos
sintamos em nosso corpo. O que acontece com nosso corpo afeta nossa
mente. Se os corpos femininos são e sempre foram errados enquanto os
masculinos são certos, então as mulheres são erradas e os homens, certos.
(WOLF, 2020, p. 286).
Frustradas demais para lutarem por mais liberdade e igualdade, e com
autoestima abalada por não se sentirem adequadas ou bonitas o suficiente, isso se
torna um prato cheio para o machismo e opressão do patriarcado. Como afirma
Moreno (2008):
(…) Com baixa autoestima, elasaceitem qualquer coisa, por não se
acharem merecedoras do melhor. Aceitam ganhar menos que os homens
pelo mesmo trabalho, mesmo que tenham anos a mais de estudo, sejam
mais confiáveis e rendam tanto ou mais que eles; aceitam ser consideradas
cidadãs de segunda categoria; aceitam ver cenas, comerciais e filmes em
que se sucedem situações de violência – sexual ou não – contra a mulher.
(MORENO, 2008, p. 63)
A preocupação com a beleza por parte das mulheres é também muito
lucrativa. Se agora elas estão independentes financeiramente, também estão
dispostas a pagar para ter a aparência perfeita. Assim, a indústria da beleza
transforma características naturais da mulher em defeitos e lhes vende a solução:
seja em produtos, procedimentos estéticos e cirurgias plásticas.
De acordo com dados mais recentes da Euromonitor International, o mercado
de beleza e higiene teve crescimento de 4,7% em 2020. Já o Brasil fechou 2020
com um aumento de 5,8% no setor da beleza, segundo a Associação Brasileira da
Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), tornando o
mercado promissor no país, que é o quarto maior no segmento, ficando atrás Dos
Estados Unidos, China e Japão.
Conforme previa Moreno (2008, p. 25): “Mais dinheiro significava mais
potencial de consumo e necessidade de descobrir novas formas de gastar. Mais
consumo feminino. Um novo espaço a ser aproveitado pelo sistema.”
29
A mídia é a maior aliada, tanto na ditadura dos padrões estéticos, quanto na
propagação dos produtos e serviços da indústria da beleza. Se analisarmos as
novelas, os papéis mais relevantes sempre são protagonizados por mulheres
magras, com aparência jovem e pele perfeita, a esse último devemos atribuir
também truques de edição, o que faz com que a imagem que vemos sequer
corresponda a uma mulher 100% real. De acordo com Moreno (2008, p. 31): “Somos
bombardeadas por imagens e modelos de beleza que nos observam dos outdoors,
das bancas de jornal, da capa das revistas, do cinema, da TV, e, lentamente,
invadem nosso subconsciente e vão ocupando o lugar de referência”.
Essas imagens que propagam o conceito de corpo ideal, reforçam a
sensação de que as mulheres valem menos do que os homens, ou ainda, de que
valem somente por sua aparência, segundo Wolf (2020), que também afirma que a
economia depende da representação das mulheres dentro dos limites do mito da
beleza.
2.3 CIRURGIAS PLÁSTICAS ESTÉTICAS E O EXPLANTE DE SILICONE
Ultrapassando os Estados Unidos, o Brasil é atualmente (2022) o país que
mais realiza cirurgias plásticas no mundo, conforme o último levantamento divulgado
em dezembro de 2019 pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética
(ISAPS). Só em 2018 foram registradas mais de 1 milhão 498 mil cirurgias plásticas
estéticas no Brasil.
Embora tenha sido registrada uma redução de 3,6% entre 2018 e 2019
segundo os dados mais recentes, o implante de próteses de silicone segue sendo o
procedimento mais procurado, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia
Plástica. O que mostra que os seios naturais lideram a lista de partes do corpo que
geram insatisfação nas mulheres.
Segundo Wolf (2020), a insatisfação com o tamanho e formato dos seios teve
origem quando a pornografia passou a influenciar a moda. E a mídia mais uma vez
tem seu papel nisso, fazendo uma triagem dos seios que quase nunca serão
apresentados: os moles, maduros, assimétricos ou que passaram pelas alterações
30
da gravidez, como se fosse a censura da beleza, que esconde os corpos reais,
Assim as mulheres acreditam que só os seus seios são muito pequenos, muito
caídos, muito grandes, ou são errados.
Milhões de mulheres de repente estavam vendo "os seios perfeitos" por
toda a parte e, consequentemente, começaram a se preocupar com os seus
seios naturalmente "imperfeitos". Muitas mulheres reagiram a esse novo
ideal dos seios, marcando cirurgias para implantes mamários, enquanto os
anúncios dessa cirurgia se tornavam um novo mercado publicitário para as
revistas femininas que, em consequência disso, publicavam uma matéria
atrás da outra para "promover" essas operações. (WOLF, 2020, p. 286)
Na contramão disso, o explante de silicone, procedimento para retirada das
próteses, teve um crescimento de 10,7% no mesmo período. Em 2020, esse
aumento foi de 31,6% no Brasil. Coincidentemente ou não, no ano em que as
informações acerca dos riscos das próteses de silicone, como a chamada “doença
do silicone” ganharam notoriedade.
A doença do silicone não é comprovada cientificamente como doença e
carece de estudos no Brasil. O termo é usado para caracterizar um conjunto de
sintomas crônicos resultantes da resposta imunológica do organismo ao corpo
estranho (a prótese) e pela intoxicação química decorrente do vazamento
microscópico de substâncias como silicone, metais pesados e componentes
químicos. Apesar da falta de estudos científicos no Brasil, fora daqui existem muitos
artigos referentes aos danos causados pelas próteses e, vale ressaltar, que apesar
de pouco divulgadas, essas informações não são de hoje. O gel Bleeding,
sangramento do gel do silicone que causa toxicidade, é comprovado cientificamente
desde a década de 80. Wolf (2020) relata que:
Quando O mito da beleza soou o alarme quanto aos efeitos colaterais do
silicone - e da cirurgia - era baixíssima a percepção geral desses perigos.
Agora, mais de uma década depois, os perigos do silicone já estão mais do
que bem documentados. Os fabricantes de implantes mamários enfrentam
processos significativos, e milhares de artigos que expunham os perigos dos
implantes de silicone foram publicados (WOLF, 2020, p. 18).
Figura 9 - Edição sobre toxicidade do silicone no International Journal of Occupational Medicine and
Toxicology publicado em 1995
31
Fonte: Reprodução/Facebook Dr. Henry Djikman, 2022
Vale ressaltar que, em 1992, os Estados Unidos proibiu o implante de silicone
devido às suspeitas de que o vazamento do produto estaria ligado ao
comprometimento do sistema imunológico e até mesmo ao câncer. Mas em 1999, o
Instituto de Medicina publicou um artigo dizendo não ter evidências quanto aos
malefícios dos implantes. E então, no final de 2006, a Food and Drug Administration
(FDA), a agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos
Estados Unidos, aprovou o uso de implantes de silicone preenchidos com gel, para
fins cosméticos ou de reconstrução, com indicação para mulheres acima de 22 anos.
Além disso, a FDA alertou que as próteses não eram vitalícias e que mulheres
poderiam ser submetidas a cirurgias complementares.
Figura 10 - Print do artigo científico que relata a existência de fraudes por trás dos estudos
científicos financiados pelas empresas de próteses
32
Fonte: ClinMed International Library, acesso em 2022
Eduardo Fleury, pesquisador e primeiro médico brasileiro a estudar sobre a
doença do silicone, escreveu em 2020 o livro A voz do silêncio: quando a ciência é a
inimiga. Segundo ele, o implante de silicone é uma fonte contínua de liberação de
material estranho no corpo humano. Os principais sintomas da doença são: dores
articulares, colites, endurecimento das próteses, manchas na pele e sinais
inflamatórios no seio.
Fleury relata que no começo de 2019 ele descobriu um grupo no Facebook
com 100 mil mulheres relatando problemas com o silicone. Há duas grandes páginas
no Instagram administradas por mulheres explantadas, onde são compartilhadas
informações de conscientização sobre os problemas causados pelas próteses e
também relatos de centenas de mulheres que irão realizar ou já realizaram o
explante. A primeira delas, chamada Perigos do Silicone , e a segunda, Explante de1
Silicone .2
2 Página no Instagram com 183 mil seguidores, encontrada no link
https://www.instagram.com/explantedesilicone.
1 Página no Instagram com 189 mil seguidores, encontrada no link
https://www.instagram.com/perigos.do.silicone.
https://www.instagram.com/explantedesilicone
https://www.instagram.com/perigos.do.silicone33
Todos os relatos das mulheres nessas páginas têm algo em comum: elas
reclamam por não terem sido informadas sobre os riscos do implante mamário por
parte dos cirurgiões plásticos e também sobre a falta de informações precisas sobre
a doença do silicone. Como ainda não há exame para detectar a doença, o
diagnóstico é feito por exclusão: se a mulher não tem nenhum problema de saúde, a
causa dos seus sintomas é o silicone. Fleury (2020) afirma: “É muito interessante ver
a união, voluntariedade e compaixão destas mulheres. Sem conhecimento científico
ou qualquer suporte acadêmico, iniciaram uma luta contra um inimigo invisível.”
No dia 20 de agosto de 2020, estas mulheres tiveram uma grande vitória. A
Food and Drug Administration reconheceu Breast Implant Illness como uma doença
da mama, apesar de reforçar que novos estudos precisariam ser realizados. Entre
os meses de novembro de 2018 e março de 2019, a FDA recebeu 2.497 relatos de
sintomas referentes à doença do silicone. Os 10 sintomas mais relatados foram:
cansaço (49%), lapsos de memória (25%), dores articulares (25%), ansiedade
(24%), queda de cabelo (21%), depressão (19%), irritação na pele (18%), doenças
autoimunes (18%), inflamação (18%) e problemas com o peso (18%).
Segundo as novas orientações do FDA, cabe ao cirurgião plástico apresentar
um termo de consentimento para a paciente esclarecendo os possíveis malefícios
dos implantes. Em setembro de 2020, o FDA acrescentou nas caixas dos implantes
um aviso onde diz que os implantes mamários não são vitalícios; que eles foram
associados ao desenvolvimento de um câncer do sistema imunológico chamado
BIA-ALCL e que algumas pacientes já morreram por causa dessa doença; e que
pacientes com implantes mamários têm reportado uma série de sintomas sistêmicos.
Em nota publicada no dia 3 de fevereiro de 2021, a Sociedade Brasileira de
Cirurgia Plástica se pronunciou sobre o assunto afirmando que os implantes
mamários são utilizados por mais de 60 anos e são os dispositivos médicos mais
usados e estudados no mundo. A nota também diz que muitos estudos estão sendo
realizados para determinar a relação direta entre a síndrome de Asia (síndrome
autoimune-inflamatória induzida por adjuvante) e as próteses. A Asia consiste no
desenvolvimento de doenças autoimunes em indivíduos geneticamente
predispostos, resultante da exposição a adjuvantes, como por exemplo, os implantes
34
de silicone. Ainda conforme a nota, nos últimos anos muitas pacientes têm buscado
a cirurgia para retirada do implante mamário (explante):
Seja por mudança de estilo de vida (envelhecimento, ganho de peso,
mudança de hábitos), seja por referirem apresentarem sintomas sistêmicos
relacionados ao implante – breast implant illness (BII) ou “doença do
silicone”. BII por sua vez é um conjunto de sintomas sistêmicos auto
reportados por pacientes que apresentam implante de silicone (sintomas
inflamatórios, articulações, pele, fadiga, alterações visuais, depressão entre
centenas de outros). Nas redes sociais comumente qualquer sintoma/efeito
relacionado a implante de silicone é tratado como BII, embora possa ter
outro agente desencadeador. A falta de dados científicos não permite
concluir relação direta do BII com implantes de silicone. Não existem
exames para diagnosticar BII. Mesmo sem diagnóstico ou comprovação, as
mulheres optam pelo explante para resgatar sua saúde e bem-estar.
(SOCIEDADE BRASILEIRA DE CIRURGIA PLÁSTICA, 2021, ONLINE)
O explante de silicone ganhou espaço na mídia no segundo semestre de
2020, após celebridades como a youtuber e influenciadora digital Evelyn Regly, e a
ex-bbb e influenciadora digital Amanda Djehdian, compartilharem que passaram pela
cirurgia porque estavam sofrendo com uma série de sintomas, mesmo sem ter
qualquer problema de saúde. Desde então, diversos portais de notícias, jornais e
programas de TV começaram a abordar o tema.
No próximo capítulo falaremos sobre comunicação, jornalismo e jornalismo
digital, o papel social do jornalista e também sobre a presença das mulheres no
meio jornalístico.
35
3. COMUNICAÇÃO
Comunicar e informar podem ser sinônimos na teoria, mas na prática,
comunicar vai muito além de informar, pois comunicação envolve informação. Ao
contrário da informação, que enfatiza a ideia de uma comunicação “automática”,
pelos meios oral, imagem e texto, a comunicação não é um processo no qual um
emissor apenas transmite uma informação ao receptor. Comunicação é sobre a
troca entre emissor e receptor(es). Comunicar é interagir, compartilhar ideias, fatos,
comportamentos, expressar sentimentos, e isso pode ocorrer por diferentes meios e
por diversos motivos e intenções.
De acordo com Wolton (2009), existem três razões principais para nos
comunicarmos com alguém. A primeira é compartilhar, trocar: se comunicar e
realizar trocas é uma necessidade humana. A segunda razão é a sedução, algo
inerente a qualquer tipo de relação. E por fim, a convicção, nas argumentações
usadas tanto para explicar quanto responder objeções. Wolton (2009) defende que
comunicação é negociação:
Ontem, comunicar era transmitir, pois as relações humanas eram
frequentemente hierárquicas. Hoje, é quase sempre negociar, pois os
indivíduos e os grupos se acham cada vez mais em situação de igualdade.
Quando se olha bem a realidade, vê-se que cada um passa o seu tempo,
atualmente, negociando, na relação conjugal, na família, na escola, na
empresa, na sociedade, na Europa, no mundo… Poucas coisas podem ser
impostas, muito se negocia. Quanto mais os indivíduos estão
bem-informados, mais eles criticam e negociam (WOLTON, 2009, p. 19).
Ainda segundo Wolton (2009), há cinco etapas para explicar a comunicação
entre humanos e a mediada por tecnologias. A primeira diz que a comunicação faz
parte da condição humana, viver é comunicar. Não existe vida pessoal nem coletiva
sem vontade de se comunicar. A segunda etapa defende que os seres humanos se
comunicam por três motivos: compartilhar, seduzir e convencer. A terceira afirma que
a comunicação se choca com a incomunicação, quando o receptor não está
sintonizado ou então discorda. A quarta refere-se à fase de negociação na qual os
protagonistas tentam chegar a um acordo. Por fim, a quinta etapa diz respeito à
convivência que é o resultado positivo dessa negociação, com seus pontos fortes e
36
fracos. A negociação e a convivência são importantes para prevenir a
incomunicação bem como suas consequências que podem ser violentas.
Comunicação envolve informação e quando o assunto é informação, é
impossível não falar em jornalismo.
3.1 JORNALISMO
O que está acontecendo no mundo? O que aconteceu na minha cidade hoje?
O que aconteceu no julgamento daquele político? O jornalismo pode ser explicado
pela resposta a perguntas como essas que as pessoas se fazem todos os dias
Traquina (2005).
Pode-se dizer que o jornalismo é um conjunto de histórias reais, de pessoas
reais: de fatos. Histórias felizes, histórias de tragédias, de pessoas famosas e
anônimas, histórias atuais ou que podem ser relevantes para o presente. O
jornalismo envolve a pesquisa, coleta, fiscalização, análise da veracidade dos fatos,
filtro das informações mais relevantes, produção e distribuição das notícias.
O jornalismo se estabelece como um lugar de produção e de circulação de
sentidos sobre a realidade. Exerce seu poder hermenêutico de muitas
maneiras: ao destacar temáticas que devem ser consideradas relevantes,
ao conceder poder de fala a grupos e ideologias, ao instituir angulações e
quadros interpretativos para perceber, avaliar e compreender relações. O
primeiro saber que o jornalismo estabelece é a definição de contemporâneo.
É o jornalismo quem diz “isto é atual”, “você precisa saber disto porque isto
é da sua época”, “você só estará conectado a sua época se obtiver esta
informação que estou trazendo” (BENETTI, 2013, p. 46).
Segundo Traquina (2005), existem três vertentes do desenvolvimento do
jornalismo: Primeiramente a sua expansão,que começa com a expansão da
imprensa no século XIX, e explodiu no século XX com a chegada de novos meios de
comunicação, como o rádio e a televisão, e abre novas fronteiras para o jornalismo
online. Depois a sua comercialização, que começou no século XIX com a
emergência de uma nova mercadoria: a notícia. E por fim a emergência do pólo
intelectual com a profissionalização dos jornalistas e consequentemente a definição
37
das notícias em função de valores e normas que apontam para o papel social da
informação em uma democracia.
Não se pode falar da história do jornalismo sem citar a invenção da prensa
gráfica pelo alemão Johann Gutenberg na Europa no século XV, que facilitou a
impressão em massa, tanto de jornais quanto de livros. Foi no século XVII que
surgiram os jornais de publicações periódicas.
Entre os jornais — que saíam uma, duas ou três vezes por semana, em
latim, francês, inglês e também em holandês — estavam os primeiros
impressos em inglês e francês, The Corrant out of Italy, Germany, etc. e o
Courant d'Italie, que começaram a ser publicados em 1620. A partir de
1662, um jornal semanal em francês, a Gazette d'Amsterdam, oferecia não
somente informação sobre negócios europeus, mas também críticas sobre a
Igreja Católica e às políticas do governo francês. (BRIGGS; BURKE, 2006,
p. 65).
De acordo com Briggs e Burke (2006), durante a guerra civil inglesa, folhas de
notícias eram enviadas para Boston até que no início do século XVIII a chegada
corriqueira de novas notícias resultou na criação de jornais locais.
Conforme Traquina (2005), o jornalismo que conhecemos teve sua origem no
século XIX com o desenvolvimento da imprensa. A expansão dos jornais trouxe a
criação de novos empregos na área e cada vez mais pessoas estavam se dedicando
à informação em vez de propaganda. Assim nasciam os valores que hoje
identificamos no jornalismo: a notícia, a procura da verdade, a independência, a
objetividade, e uma noção de serviço público.
Com a crescente comercialização da imprensa, os jornais se tornavam um
negócio lucrativo, oferecendo um novo produto: as notícias, baseadas em fatos e
não em opiniões. O objetivo é fornecer informação e não propaganda. No entanto,
com a informação se tornando mercadoria, surge uma imprensa sensacionalista no
final do século XIX. Dois processos fundamentais marcaram a evolução da atividade
jornalística, segundo Traquina (2005): a sua comercialização e a profissionalização
dos seus trabalhadores.
O jornalismo transformou-se num negócio com um número crescente de
proprietários que começaram a publicar jornais com o intuito de ter lucros e
o objetivo central seria a expansão da circulação. A emergência do
jornalismo com os seus próprios “padrões de performance e integridade
moral” tornou-se possível com a crescente independência econômica dos
38
jornais em relação aos subsídios políticos, método dominante de
financiamento da imprensa no início do século XIX. As novas formas de
financiamento da imprensa, as receitas da publicidade e dos crescentes
rendimentos da vendas dos jornais, permitiram a despolitização da
imprensa, passo fundamental na instalação do novo paradigma do
jornalismo: o jornalismo como informação e não como propaganda, isto é,
um jornalismo que privilegia os fatos e não a opinião (TRAQUINA, 2005,
p.36).
O uso do telégrafo em 1844 e o telégrafo por cabo em 1866 permitiram mais
rapidez na transmissão das informações e marcaram uma nova era do jornalismo
cada vez mais voltado para a atualidade e cada vez mais global, especialmente com
as agências de notícias que foram as primeiras empresas jornalísticas eletrônicas
que começaram a atuar a nível global na primeira metade do século XIX. Outros
fatores essenciais para o jornalismo tornar-se cada vez mais autônomo e credível
foram a liberdade conquistada com a democracia e o surgimento de novos leitores
que ocorreu com a criação de escolas públicas e a escolarização em massa.
Segundo Traquina (2005), apesar da maior liberdade, a imprensa ainda era
muito criticada no século XIX, devido à ligação entre os jornais e a propaganda
política. Ao mesmo tempo que era identificada com fanáticos, demagogos e
escritores de terceira categoria, também se considerava os jornalistas como
perigosos revolucionários e o jornalismo era considerado o “Quarto Poder”, em
relação aos outros três: poder executivo, legislativo e judicial.
Ainda conforme Traquina (2005), com a teoria democrática, o novo jornalismo
passou a cumprir um duplo papel: com a liberdade “negativa”, devia vigiar o poder
político e proteger os cidadãos de abusos de poder dos governantes; com a
liberdade “positiva”, fornecer as informações necessárias aos cidadãos para o
desempenho de suas responsabilidades cívicas, tornando o serviço público um
ponto importante da identidade jornalística. Assim, essa nova ideologia pregava que
os jornais deveriam servir os leitores e não os políticos, com informações úteis e
interessantes para os cidadãos, prezando por fatos em vez de opiniões ou
argumentos tendenciosos com interesses políticos. Ao mesmo tempo, com a
comercialização da imprensa, o jornalismo torna-se mais independente dos laços
políticos e se transforma em uma indústria onde as notícias são um produto vendido
para gerar lucros.
39
Neste novo jornalismo surge também uma nova figura crescente no jornalismo: o
repórter. Traquina (2005) afirma:
E era para esse mundo dos fatos que esta nova figura do campo jornalístico
- o repórter - fazia um esforço supremo: a respiga e a montagem dos fatos.
E este esforço tentava transformar o jornalismo numa máquina fotográfica
da realidade, ou seja, na sua ideologia profissional, o espelho da realidade.
A caça hábil dos fatos dava ao repórter a categoria comparável à do
cientista, do explorador e do historiador. Posteriormente, iria emergir uma
nova forma jornalística baseada num trabalho exaustivo dos fatos: o
jornalismo de investigação. (TRAQUINA, 2005, p.52).
Desde então, diversas mudanças marcaram o jornalismo que conhecemos
hoje, como a reivindicação dos jornalistas para o reconhecimento da profissão e o
desenvolvimento do ensino universitário em jornalismo; o surgimento de diferentes
gêneros textuais: reportagens, entrevistas, notas e crônicas e também a criação de
editorias focadas em temas específicos, como política, esporte, vida social, lazer,
cultura, notícias policiais, além da divisão de notícias regionais, nacionais e
internacionais; e a valorização da agilidade e imediatismo, trazendo o conceito de
furo de reportagem: divulgar a notícia antes dos demais veículos, estando à frente
da concorrência. Outra mudança importante e que teve um grande impacto positivo
na agilidade foi o surgimento do jornalismo digital, tema que será abordado a seguir.
3.2 JORNALISMO DIGITAL
A internet revolucionou a imprensa e foi a grande aliada no imediatismo das
informações. Se antes as notícias eram divulgadas uma vez ao dia no jornal
impresso ou por turnos diferentes nos noticiários do rádio e da televisão, agora
novas notícias e atualizações das informações são transmitidas quase que em
tempo real nos sites jornalísticos. Essa agilidade tanto na coleta da informação
quanto na sua publicação, com a possibilidade de atualizar a qualquer momento,
também permite a correção de forma rápida, sem eventualmente prejudicar a fonte
ou o leitor.
40
Com o jornalismo na internet também surgem novas características e
elementos na construção da notícia. Nos sites é possível inserir todos os recursos
pertencentes a cada um dos meios de comunicação existentes: texto, imagem, vídeo
– inclusive vídeos ao vivo –, áudios, animações, além dos hiperlinks, característica
exclusiva do digital. Outra mudança significativa no jornalismo online é a interação
do público: se antes as informações eram transmitidas de emissor para os
receptores, hoje os emissores podem escolher o que querem consumir, também
contribuem com informações, participam, comentam, opinam e auxiliaminclusive no
surgimento de novas pautas. Como explica Barbosa (2001):
A interatividade, sendo o principal elemento do ambiente online, está
relacionada com a própria interação entre os conteúdos (um texto pode
trazer links para reportagens anteriores, por exemplo), além das
possibilidades de interferência do leitor - o consumidor da notícia - nos
conteúdos acessados. Seja através de e-mail à redação, sugerindo
assuntos a serem abordados, de mensagem enviada diretamente ao redator
da matéria, ou ainda através da opção ”envie seus comentários sobre esta
matéria'', o leitor terá participação ativa, interferindo no conteúdo e opinando
diretamente na produção da informação (BARBOSA, 2001, online).
Mas para atender às transformações do jornalismo digital, o jornalista precisa
não só ser capaz de falar sobre diferentes assuntos, mas também trabalhar com
diferentes tipos de mídia, se tornando assim um profissional com visão
multidisciplinar, com noções comerciais e de marketing, como afirma Ferrari (2010).
Ela cita como exemplo o G1 que prepara o repórter para ir à rua com um notebook,
modem para acesso à internet, máquina fotográfica digital, gravador de áudio digital
e radiocomunicador.
A prioridade dele é capturar boas imagens e a notícia é digitada muitas vezes
já dentro do táxi no retorno à redação. E dependendo do número de cliques na
matéria, a matéria é atualizada do local do acontecimento pelo telefone para que um
jornalista que está na redação. Isso porque o jornalista acompanha em tempo real a
audiência de suas matérias e muda a chamada ou destaque na capa de acordo
com os interesses dos leitores. “Ou seja, jornalismo multimídia pressupõe domínios
de vários apetrechos tecnológicos, olhar de editor de fotografia e uma agilidade
impensável nos veículos impressos.” FERRARI (2010, p.40).
41
De acordo com Canavilhas (2014), há sete características que marcam a
diferença do webjornalismo. A primeira delas é o hipertexto que permite a
hiperligação através de links entre diferentes textos e conteúdos. Ou seja, você
consegue em apenas um clique ser direcionado para uma outra matéria, por
exemplo, e se aprofundar em um assunto que foi citado de forma breve na matéria
que você estava originalmente.
A multimidialidade é a combinação de diferentes tipos de linguagem para
transmitir uma mensagem. Envolve a multiplataforma que ocorre quando diferentes
meios do mesmo veículo articulam suas respectivas coberturas jornalísticas para
conseguir um melhor resultado conjunto. Para isso, é importante o jornalista como
profissional polivalente, ou seja, aquele capaz de atuar em diferentes meios,
comunicar em diferentes formatos e linguagens e também tratar de diferentes
editorias e assuntos. Essa característica também inclui conteúdos multimídia que
combinam diferentes elementos como texto, fotografia, vídeo, gráficos, iconografia e
ilustração estáticas, animação digital, discurso oral, música, efeitos sonoros e
vibração.
Outra característica é a interatividade, a ponte entre os jornalistas e leitores.
Envolve a participação do público, o contato e o compartilhamento de conteúdo, que
contribuem para definir as formas que o jornalismo adota. Existem duas
modalidades de interatividade: a interatividade seletiva, que refere-se à interação de
pessoas com os conteúdos, o utilizador é um receptor interativo de conteúdos. O
indivíduo escolhe uma opção e o sistema responde. Essa participação do leitor não
tem relevância pública, apenas dimensão individual. As opções interativas incluem
hipertextos, motores de busca, infografias, modalidades de personalização, RSS. Já
a segunda, a interatividade comunicativa, é a interação entre pessoas e o utilizador
é também produtor de conteúdos. O resultado da participação do utilizador toma
uma dimensão pública. E as opções interativas incluem comentários, blogs, fóruns,
entrevistas abertas, chats, envio de notas/fotografias/vídeos.
A memória é uma condição de produção de matérias jornalísticas que tratam
da trajetória, como em obituários e aniversários de pessoas ou eventos e nas
retrospectivas anuais, por exemplo. São utilizadas, ainda, para fazer comparação
42
entre a atualizado e eventos passados, e também como forma de analogia ou
nostalgia. Conforme Canavilhas (2014):
Usando bases de dados localizadas em máquinas com crescente
capacidade de processamento e armazenamento, com possibilidade de
acesso assíncrono da parte do consumidor, o jornalismo online encoraja o
usuário (Interatividade) a juntar-se aos produtores e acrescentar informação
a essas bases de dados (Participação e Atualização Contínua). Bases de
dados jornalísticas e não jornalísticas podem ser conjugadas, interligadas e
estabelecer comunicação entre elas (Hiperligação, Hipertextualidade,
Multimidialidade). Para propósitos práticos, as redes digitais disponibilizam
espaço virtualmente ilimitado para o armazenamento de informação que
pode ser produzida, recuperada, associada e colocada à disposição dos
públicos alvos visados. (CANAVILHAS, 2014, p.95).
Outro ponto fundamental para Canavilhas (2014) é a instantaneidade. A
velocidade sempre foi característica inerente ao jornalismo. Mas hoje velocidade não
é o suficiente, é preciso imediaticidade. Isso porque os usuários não dependem mais
do jornalista para serem informados, eles podem inclusive ultrapassar o jornalista e
chegar antes à cena, à testemunha. Assim cria-se uma pressão para simplificar o
processo editorial até a publicação e distribuição. É preciso de instantaneidade não
só para publicar, mas sobretudo, para distribuir o conteúdo. Um exemplo disso são
os aplicativos dos veículos que enviam notificações sobre as novas publicações.
A personalização garante uma melhor experiência ao leitor. Isso porque hoje
as redes sociais já oferecem informações personalizadas de acordo com os
interesses do usuário, especialmente pelo uso dos algoritmos. Existem algumas
formas de personalização, conforme Canavilhas (2014), como a agregação, na qual
a ideia é reunir, classificar e filtrar o conteúdo disponível, incluindo as notícias mais
interessantes. A adequação das páginas em diferentes tamanhos de telas, como
monitor de computador, tablet e smartphone também é um nível de personalização.
Outro exemplo é a adaptação dos conteúdos apoiados no tempo (manhã,
tarde e noite) e nas necessidades de informação do usuário em cada turno. Há
ainda a interação significativa, quando o leitor pode deixar comentários, escrever o
conteúdo e ainda aprender algo novo na abordagem de passo a passo, como o
exemplo da Wikipedia. E a ajuda na decisão, quando há, por exemplo, calculadoras
para auxiliar o leitor no melhor investimento ou a economizar.
43
E por fim, a ubiquidade permite que o webjornalismo possa estar em todos os
lugares. Qualquer um, em qualquer lugar, e em tempo real, tem acesso às
informações. E mais que isso, não apenas acessando as notícias, mas também
interagindo e contribuindo com os conteúdos. Assim, as fontes também estão cada
vez mais ubíquas. E não só pessoas, mas também ferramentas como câmeras de
vigilância e segurança e bancos de dados. Como afirma Canavilhas (2014):
A conectividade ubíqua possibilitou uma série de novas habilidades que
envolvem a coleta de grande volume de informação. Sensores de vários
tipos estão conectados à internet, e organizações que vão desde a National
Security Agency (NSA) até corporações como o Google estão recolhendo
enormes volumes de dados sobre pessoas e outras coisas. Muito deste Big
Data está disponível livremente para a mídia e os jornalistas.
(CANAVILHAS, 2014, p.176).
No uso de dados, na relação com fontes, na coleta e divulgação de
informações, e em tantas outros atributos que o jornalista desempenha, para além
do papel profissional, ele tem um papel social muito importante. E é disso que
falaremos a seguir.
3.3 O PAPEL SOCIAL DO JORNALISTA
É quase que ultrapassado designar ao jornalista o papel de informar. Hoje
mais do que nunca, as informaçõesestão em todos os lugares e são produzidas por
qualquer pessoa, especialmente nas redes sociais. Como consequência disso, a
responsabilidade social do jornalista é cada vez mais importante. A ele pertence a
qualidade da credibilidade. Ele não apenas informa. Ele capta, analisa, verifica,
interpreta, traduz e estrutura de acordo com os interesses da sociedade. Cabe ao
jornalista fiscalizar e denunciar, seu compromisso é com a verdade e com a
transparência. Conforme o artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros
(2007), é dever do jornalista: divulgar fatos e informações que sejam de interesse
público, combater e denunciar qualquer forma de corrupção, especialmente quando
essa for exercida com o objetivo de controlar a informação e defender os princípios
constitucionais e legais, base do estado democrático de direito.
44
De acordo com Kovach e Rosenstiel (2003), há nove pontos primordiais para
o exercício da profissão de jornalista:
A primeira obrigação do jornalismo é com a verdade. Sua primeira lealdade
é com os cidadãos. Sua essência é a disciplina da verificação. Seus
praticantes devem manter a independência daqueles a quem cobrem. O
jornalista deve servir como um monitor independente do poder. Deve abrir
espaço para a crítica e o compromisso público. Deve se empenhar para
apresentar a informação de forma interessante e relevante. Deve apresentar
as notícias de forma compreensível e proporcional. Deve ser livre para
trabalhar de acordo com sua consciência (KOVACH; ROSENSTIEL,
2003, p.22).
Sabemos que para além do papel social, o jornalismo é um mercado e as
notícias são um produto e isso não é de hoje, mas desde o século XIX, conforme
citado anteriormente. Assim, para manter o veículo aberto e os profissionais
empregados, os jornais precisam de lucro proveniente de assinaturas e anúncios.
Para isso, o jornalista deve produzir conteúdo de acordo com o interesse não só dos
leitores, mas também de seus anunciantes, responsáveis por boa parte da receita do
jornal. Esse fator pode pôr em cheque algumas essências do jornalista. Para Pereira
(2004), ele deixa de ser o observador comprometido com o cidadão para se tornar
um funcionário do novo "jornalismo de mercado", se moldando conforme as
transformações econômico-culturais. E essa transformação das notícias em produto
resulta na decadência dos métodos de produção jornalísticos, já que agora o lucro
importa mais do que a qualidade jornalística.
No entanto, é inegável a importância do jornalista, especialmente na
atualidade, no cenário de pandemia da Covid-19 que começou em dezembro de
2019 e se estende até 2022. Isso porque o governo do atual presidente, Jair
Bolsonaro, decidiu em 2020 restringir o acesso aos dados sobre números de casos
e mortes em todo o Brasil. Então para divulgar essas informações omitidas, veículos
de comunicação se reuniram e criaram um consórcio para buscarem esses dados de
forma colaborativa. Ainda nesse cenário, os jornalistas são fundamentais, pois eles
se unem à ciência para traduzir informações, muitas vezes técnicas, denunciam e
esclarecem fake news e prestam serviço público para a saúde da população, com
informações sobre prevenção e vacinação, por exemplo. Seguindo assim, os
princípios que constam no artigo 2º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros:
45
Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito
fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por
nenhum tipo de interesse, razão por que: II - a produção e a divulgação da
informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o
interesse público; III - a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do
exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social
inerente à profissão. (CÓDIGO DE ÉTICA DOS JORNALISTAS
BRASILEIROS, 2007, online
O papel do jornalista tem impacto também na mudança social. Ainda segundo
o Código de Ética, é dever do jornalista combater a prática de perseguição ou
discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero,
raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra
natureza. E também defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção
das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes,
das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias.
Tratando-se de gênero, o jornalismo não só deve ter compromisso na
abordagem de pautas sobre mulheres, destinadas às mulheres, mas também na
equidade das mulheres no mercado de trabalho. Como citado no início deste
trabalho quando abordado o feminismo, ainda falta muito para atingirmos a
igualdade de gênero e no jornalismo isso não é diferente.
3.4 MULHERES NO JORNALISMO
Embora as mulheres sejam maioria no jornalismo: representando 63,7%,
conforme o “Perfil do Jornalista Brasileiro: características demográficas, políticas e
do trabalho jornalístico em 2012”, de Jacques Mick e Samuel Lima, a discriminação
ainda é uma realidade, em diferentes aspectos. Segundo Santos e Temer (2018):
A discriminação sofrida pelas mulheres em atuação no jornalismo não se
limita às disparidades salariais e às dificuldades de ascensão e/ou
ocupação de postos mais cobiçados. Como mostra o levantamento do
Coletivo Feminista do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SPJDF),
de 2016, as jornalistas sofrem assédio moral e sexual, tanto por parte de
chefes, colegas, quanto de entrevistados e muitas vezes são preteridas na
distribuição de pautas (SANTOS; TEMER, 2018, online).
46
Na pesquisa “Mulheres no Jornalismo Brasileiro” realizada em 2017 pela
Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e pela organização de
mídia Gênero e Número, com 477 respondentes de 271 veículos, 86,4% das
mulheres afirmaram já ter passado por pelo menos uma situação de discriminação
de gênero no trabalho. 65,4% percebem desproporção nos cargos de liderança, com
mais homens ocupando funções como editores, coordenadores e diretores e 53,4%
afirmam acreditar que as mulheres têm menos oportunidades de crescimento na
carreira do que os homens. Outro dado aponta que 65,7% das jornalistas já tiveram
sua competência questionada ou viram uma colega ter a competência questionada
por colegas ou superiores.
Assédio, cantadas e comentários inconvenientes (e machistas) também
fazem parte da rotina de mulheres jornalistas. De acordo com a pesquisa, 73% das
participantes afirmaram já ter escutado comentários ou piadas de natureza sexual
sobre mulheres no ambiente de trabalho. 70,4% admitiram já terem recebido
cantadas que as deixaram desconfortáveis no exercício da profissão. Quase o
mesmo número, 70,2%, relataram que já presenciaram ou tomaram conhecimento
de uma colega sendo assediada em seu ambiente de trabalho. E 75,3% das
mulheres disseram já ter ouvido no exercício profissão um comentário ou elogio
sobre suas roupas, corpo ou aparência que as deixaram desconfortáveis.
Tratando-se de violência psicológica, 83,6% declararam ter sofrido pelo
menos uma das seguintes situações: insultos verbais (44,2%) humilhação em
público (40,5%); abuso de autoridade ou poder (63,9%); intimidação verbal, escrita
ou física (59,7%); tentativa de danos à sua reputação (31,0%); ameaça de perder o
emprego em caso de gravidez (2,3%); ameaças pela internet (13,4%); insultos pela
internet (24,7%).
Por fim, 46% das jornalistas afirmaram que as empresas onde atuam não
possuem canais para receber denúncias de assédio e discriminação de gênero.
Dando continuidade a esta pesquisa que tem como um dos objetivos analisar
como o jornalismo e seus veículos abordam questões relacionadas às mulheres, a
seguir serão apresentados os aspectos metodológicos do estudo.
47
4. ASPECTOS METODOLÓGICOS
Neste capítulo serão apresentados os aspectos metodológicos. De forma
geral, o objetivo desta pesquisa é analisar como o jornalismo abordou o explante de
silicone, a partir das matérias dos portais G1 eUniversa Uol sobre esse assunto,
publicadas entre novembro de 2020 e maio de 2022. Para isso será utilizada a
metodologia de Análise de Conteúdo. Para desenvolver o referencial teórico foram
utilizadas pesquisas bibliográfica e documental. Este trabalho tem caráter de
emissão e é caracterizado por pesquisa qualitativa e quantitativa.
4.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA
No que diz respeito às características desta pesquisa, ela será de natureza
quantitativa e qualitativa. Segundo Gil (2008), a maioria das pesquisas sociais
desenvolvidas atualmente requer algum tipo de análise estatística, pois as técnicas
estatísticas contribuem para a caracterização e resumo dos dados, para o estudo
das relações que existem entre as variáveis e para verificar como as conclusões
podem estender-se para além da amostra. Ainda conforme Gil (2008), em pesquisas
experimentais e em levantamentos, a análise dos dados é essencialmente
quantitativa, enquanto nas pesquisas de estudos de campo, estudos de caso,
pesquisa-ação ou pesquisa participante, as análises são principalmente qualitativas:
E, ao contrário do que ocorre nas pesquisas experimentais e levantamentos
em que os procedimentos analíticos podem ser definidos previamente, não
há fórmulas ou receitas predefinidas para orientar os pesquisadores. Assim,
a análise dos dados na pesquisa qualitativa passa a depender muito da
capacidade e do estilo do pesquisador (GIL, 2008, p. 175).
Gil (2008) afirma que a pesquisa qualitativa apresenta três etapas para a
análise de dados. A redução, que consiste no processo de seleção e simplificação, a
apresentação, que se refere à organização dos dados selecionados, e por fim a
conclusão/verificação. A metodologia utilizada na pesquisa será a Análise de
Conteúdo. De acordo com Herscovitz (2007), ela pode ser utilizada para detectar
48
tendências e modelos ao analisar critérios de noticiabilidade, enquadramentos e
agendamentos, para identificar elementos típicos e também para comparar o
conteúdo jornalístico de diferentes mídias em diferentes culturas.
Para Gil (2008), o grande volume de material produzido pelos meios de
comunicação de massa e a criação de técnicas para sua quantificação
determinaram o desenvolvimento da Análise de Conteúdo.
4.2 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA
O objetivo desta pesquisa é compreender, através da metodologia da Análise
de Conteúdo, de que forma o jornalismo tem tratado o tema explante de silicone.
Para a análise, escolhemos oito matérias, quatro do site G1 e outras quatro do
Universa Uol, publicadas entre novembro de 2020 e maio de 2022. O período foi
escolhido a partir do caso da youtuber e influenciadora Evelyn Regly que realizou a
retirada das próteses e ganhou notoriedade na mídia no final de 2020. O critério
para a escolha dos veículos foi analisar um portal jornalístico de massa e outro
especializado para o público feminino.
O portal de notícias G1, do Grupo Globo, foi lançado em 18 de setembro de
2006. O site oferece conteúdo jornalístico de produção própria e também de
diferentes empresas do Grupo Globo, como a Rede Globo, GloboNews, rádio CBN,
Jornais O Globo, Extra, Valor Econômico, Expresso e revistas Época e Globo Rural.
Quadro 1: Matérias do G1 escolhidas para análise
Título da matéria Data de publicação Link
Silicone nos seios busca
por retirada da prótese
tem alta com chegada de
novos padrões estéticos e
surgimento de doença
autoimune
9 de abril de 2021 https://g1.globo.com/bem
estar/viva-voce/noticia/20
21/04/09/silicone-nos-seio
s-busca-por-retirada-da-pr
otese-tem-alta-com-chega
da-de-novos-padroes-est
eticos-e-surgimento-de-do
enca-autoimune.ghtml
Miss relata alívio após
sofrer com a ‘Doença do
1 de maio de 2022 https://g1.globo.com/sp/sa
ntos-regiao/mais-saude/n
oticia/2022/05/01/miss-rel
https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml
https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml
https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml
https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml
https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml
https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml
https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml
https://g1.globo.com/bemestar/viva-voce/noticia/2021/04/09/silicone-nos-seios-busca-por-retirada-da-protese-tem-alta-com-chegada-de-novos-padroes-esteticos-e-surgimento-de-doenca-autoimune.ghtml
https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml
https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml
https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml
49
Silicone’ em SP:
‘assustador’
ata-alivio-apos-sofrer-com
-a-doenca-do-silicone-em-
sp-assustador.ghtml
Doença do silicone’:
entenda o termo popular
usado para problemas no
uso de prótese nos seios
3 de maio de 2022 https://g1.globo.com/saud
e/noticia/2022/05/03/doen
ca-do-silicone-entenda-o-t
ermo-popular-usado-para-
problemas-no-uso-de-prot
ese-nos-seios.ghtml
Mulheres optam por
explante de silicone após
anos utilizando próteses,
no Ceará: ‘minha cabeça
mudou’
8 de maio de 2022
https://g1.globo.com/ce/ce
ara/noticia/2022/05/08/mu
lheres-optam-por-explant
e-de-silicone-apos-anos-u
tilizando-proteses-no-cear
a-minha-cabeca-mudou.g
html
Fonte: elaborado pela autora, 2022.
O Universa Uol é uma plataforma do site Uol, criada em 8 de março de 2018,
destinada ao público feminino. Conforme a matéria publicada no Uol em 14 de
março de 2018, o objetivo do canal é ser referência de jornalismo e de conteúdo
para as mulheres brasileiras: “Ao entender que a mulher contemporânea não se
enxerga nos conteúdos de massa ditos femininos, que tradicionalmente se
restringem a temas como moda, beleza, maternidade e casamento, o Universa traz
uma proposta inovadora, que questiona antigos padrões. Assim, a plataforma
considera que “todo assunto é assunto de mulher” (UOL, 2018, online).
Quadro 2: Matérias da Universa Uol escolhidas para análise
Título da matéria Data da publicação Link
“Após 9 meses com uma
cicatriz aberta, tirei o
silicone”, diz Evelyn Regly
8 de novembro de 2020 https://www.uol.com.br/uni
versa/noticias/redacao/20
20/11/08/evelyn-regly.htm
https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml
https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml
https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/mais-saude/noticia/2022/05/01/miss-relata-alivio-apos-sofrer-com-a-doenca-do-silicone-em-sp-assustador.ghtml
https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtml
https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtmlhttps://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtml
https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtml
https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtml
https://g1.globo.com/saude/noticia/2022/05/03/doenca-do-silicone-entenda-o-termo-popular-usado-para-problemas-no-uso-de-protese-nos-seios.ghtml
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2022/05/08/mulheres-optam-por-explante-de-silicone-apos-anos-utilizando-proteses-no-ceara-minha-cabeca-mudou.ghtml
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/11/08/evelyn-regly.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/11/08/evelyn-regly.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/11/08/evelyn-regly.htm
50
De peito aberto: Doença
ainda desconhecida e
questionamentos de
padrões fazem cada vez
mais mulheres tirarem
próteses dos seios;
29 de março de 2021 https://www.uol.com.br/uni
versa/reportagens-especi
ais/explante-de-silicone/
‘Tive sintomas após
silicone e hoje oriento
mulheres a encontrar
ajuda
4 de outubro de 2021 https://www.uol.com.br/uni
versa/noticias/redacao/20
21/10/04/tive-sintomas-ap
os-colocar-silicone-e-hoje
-ajudo-mulheres-a-encont
rar-ajuda.htm
‘Sobrevivi à doença do
silicone e conto essa
história em documentário’
10 de março de 2022 https://www.uol.com.br/uni
versa/noticias/redacao/20
22/03/10/sobrevivi-a-doen
ca-do-silicone-e-contei-es
sa-historia-em-um-docum
entario.htm
Fonte: elaborado pela autora, 2022.
4.3 TÉCNICAS E INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS
A coleta de dados para esta pesquisa foi realizada através de pesquisa
bibliográfica e documental. De acordo com Gil (2008), a pesquisa bibliográfica é
desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e
artigos científicos. “A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de
permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muitos mais ampla
do que aquela que poderia pesquisar diretamente”. (GIL, 2008, p. 50). Na pesquisa
bibliográfica utilizamos livros e artigos de diversos autores, entre eles: Simone de
Beauvoir, Eduardo Fleury, Carla Garcia, Rachel Moreno, Naomi Wolf, Suzana
Barbosa, Marcia Benetti, João Canavilhas, Bill Kovach, Tom Rosenstiel, Nelson
Traquina, Dominique Wolton, entre outros.
Já na pesquisa documental, segundo Gil (2008), diferente da pesquisa
bibliográfica que tem sua fundamentação através das contribuições de diversos
autores sobre determinado assunto, se utiliza materiais que ainda não receberam
https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/explante-de-silicone/
https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/explante-de-silicone/
https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/explante-de-silicone/
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/10/04/tive-sintomas-apos-colocar-silicone-e-hoje-ajudo-mulheres-a-encontrar-ajuda.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/03/10/sobrevivi-a-doenca-do-silicone-e-contei-essa-historia-em-um-documentario.htm
51
um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os
objetivos da pesquisa. Alguns exemplos que podem ser usados na pesquisa
documental são: documentos oficiais, reportagens de jornal, cartas, contratos,
filmes, fotografias, gravações, considerados documentos de primeira mão, que não
receberam tratamento analítico. E também os documentos de segunda mão que já
foram analisados de alguma forma, como relatórios de pesquisa, relatórios de
empresas, tabelas estatísticas. A pesquisa documental deste trabalho inclui
documentos como reportagens online, a pesquisa Mulheres no Jornalismo, da
Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da organização de mídia
Gênero e Número e o Código de ética dos jornalistas brasileiros.
4.4 TÉCNICAS DE ANÁLISE DE DADOS
Para analisar os dados desta pesquisa será utilizada a metodologia de
Análise de Conteúdo, a partir de Helena Herscovitz. Conforme Gil (2008), a Análise
de Conteúdo é desenvolvida em três fases, com a pré-análise, a exploração do
material e por fim o tratamento dos dados, inferência e interpretação.
Na primeira metade do século XX Bernard Berelson definiu o método como
"uma técnica de pesquisa para a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do
conteúdo manifesto da comunicação”. Berelson (1952 apud Herscovitz, 2007).
Herscovitz (2007), define a Análise de Conteúdo jornalística como:
Método de pesquisa que recolhe e analisa textos, sons, símbolos e imagens
impressas, gravadas ou veiculadas em forma eletrônica ou digital
encontradas na mídia a partir de uma amostra aleatória ou não dos objetos
estudados com o objetivo de fazer inferências sobre seus conteúdos e
formatos enquadrando-os em categorias previamente testadas, mutuamente
exclusivas e passíveis de replicação. (HERSCOVITZ, 2007, p. 126).
Ainda segundo Herscovitz (2007), a característica híbrida da Análise de
Conteúdo pode ser vista como um método que reúne elementos quantitativos e
qualitativos e assim, a identificação sistemática de tendências e representações
obtém melhores resultados quando é empregado ao mesmo tempo a análise
quantitativa e análise qualitativa. Herscovitz (2007) também afirma que a Análise de
52
Conteúdo pode ser empregada em estudos exploratórios, descritivos ou
explanatórios.
Os pesquisadores que utilizam a análise de conteúdo são como detetives
em busca de pistas que desvendem os significados aparentes e/ou
implícitos dos signos e dasnarrativas jornalísticas, expondo tendências,
conflitos, interesses, ambiguidades ou ideologias presentes nos materiais
examinados. Um investigador competente começa sempre por uma
pergunta (sentença interrogativa) ou hipótese (sentença afirmativa) que fará
a conexão entre teoria e investigação. (HERSCOVITZ, 2007, p. 127).
O objetivo desta monografia é analisar como o jornalismo tem tratado o tema
explante de silicone. Para tal, foram designadas categorias e indicadores sobre o
que será analisado nas matérias de cada veículo, como mostra a tabela a seguir.
Quadro 3: Categorias e indicadores que serão analisados nas matérias do G1 e da Universa Uol
Categorias Indicadores
Saúde Cita ou não o termo, quantas vezes e
por quem: repórter ou entrevistado?
Doença do silicone Cita ou não o termo, quantas vezes e
por quem: repórter ou entrevistado?
Padrão de beleza/padrão estético Cita ou não o termo, quantas vezes e
por quem: repórter ou entrevistado?
Moda Cita ou não o termo, quantas vezes e
por quem: repórter ou entrevistado?
Seios/peitos pequeno/sem peito Cita ou não o termo, quantas vezes e
por quem: repórter ou entrevistado?
Fontes Quantas fontes foram ouvidas e gênero
das fontes
Assinatura da matéria É assinada? Se sim, por mulher ou
homem?
Fonte: elaborado pela autora, 2022.
A primeira categoria escolhida é com relação ao termo saúde. Assim, será
analisado se a palavra é usada nas matérias, quantas vezes e se foi citada por
53
algum entrevistado ou pelo próprio autor da matéria. Conforme descrito no capítulo
2.3, o termo Doença do Silicone é usado para caracterizar um conjunto de sintomas
crônicos resultantes da resposta imunológica do organismo ao corpo estranho
(prótese) e pela intoxicação química decorrente do vazamento microscópio de
substâncias como silicone, metais pesados e componentes químicos através da
concha semi permeável das próteses. Por isso, a segunda categoria escolhida é o
termo Doença do Silicone, na qual os indicadores analisados também serão se o
termo foi citado nas matérias, quantas vezes e por quem: entrevistado ou jornalista?
Esses mesmos indicadores serão analisados nas três categorias seguintes: padrão
de beleza, moda e seios/peitos pequenos ou sem peito. Outra categoria diz respeito
às fontes das matérias, onde será analisado quantas foram ouvidas e o gênero das
mesmas. Por fim, também foi escolhida a categoria assinatura da matéria, para tal,
será analisado se a matéria é assinada e, caso seja, se quem assina é um homem
ou uma mulher.
5 ANÁLISE
Como citamos no capítulo anterior, a metodologia utilizada nesta pesquisa
será a Análise de Conteúdo, a partir de Helena Herscovitz. Nesse sentido, foram
definidas seis categorias e seus indicadores para a análise desta pesquisa. A seguir,
serão analisadas as matérias selecionadas dos portais G1 e Universa Uol.
5.1 G1
Foram selecionadas quatro matérias do portal G1 publicadas entre 9 de abril
de 2021 e 8 de maio de 2022. Começamos a análise do portal G1 com a matéria
publicada no dia 9 de abril de 2021.
Figura 11 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem alta com chegada
de novos padrões estéticos e surgimento de doença autoimune”
54
Fonte: G1, 2022
A primeira matéria escolhida do portal G1 não apresenta a palavra saúde. O
termo doença do silicone também não é citado. A categoria padrões estéticos é
usada na matéria três vezes pela repórter, sendo uma delas no título. A palavra
moda é citada uma vez por uma médica entrevistada. O termo seios pequenos
também é citado uma vez pela médica. Ao total, foram usadas duas fontes na
reportagem, sendo uma mulher e um homem (ambos médicos). Por fim, a matéria
está assinada por uma repórter mulher.
Figura 12 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do Silicone’ em SP
‘assustador’”
Fonte: G1, 2022
A segunda matéria foi publicada no dia 1º de maio de 2022. A palavra saúde
é apenas utilizada para dar os créditos ao cirurgião entrevistado, o que não se
55
encaixa na categoria desta análise. O termo doença do silicone é citado sete vezes,
sendo uma delas no título da matéria, em todas as vezes, quem citou foi a jornalista.
O termo padrão/padrões de beleza é usado quatro vezes, uma delas em aspas da
entrevistada e nas outras três vezes, quando a repórter fala sobre o que disse a
entrevistada. A palavra moda não foi citada. O termo sem peito é usado uma vez
pela mulher explantada. Em relação às fontes, duas pessoas foram entrevistadas,
sendo a mulher explantada e um cirurgião plástico, portanto, uma mulher e um
homem. A matéria foi assinada por uma mulher.
Figura 13 - Print da matéria “‘Doença do silicone’: entenda o termo popular usado para problemas no
uso de prótese nos seios”
Fonte: G1, 2022
A terceira matéria foi publicada em 3 de maio de 2022. A palavra saúde é
apenas utilizada para dar os créditos ao cirurgião entrevistado, o que não se encaixa
na categoria desta análise. O termo doença do silicone foi citado sete vezes, sendo
uma delas no título, e outra na chamada para um podcast que cita o assunto. Em
todas as vezes o termo foi usado pelo jornalista. As categorias seguintes: padrão de
beleza e moda não foram encontradas na matéria. Foram usadas três fontes na
reportagem, sendo dois homens e uma mulher. A matéria não está assinada.
Figura 14 - Print da matéria “Mulheres optam por explante de silicone após anos utilizando próteses,
no Ceará: ‘minha cabeça mudou’”
56
Fonte: G1, 2022
A última matéria do G1 escolhida para a análise foi publicada em 8 de maio
de 2022. A palavra saúde não foi citada nenhuma vez. O termo doença do silicone
foi usado cinco vezes, sendo duas delas por entrevistados, e as demais pelo
repórter. A expressão padrão de beleza não foi citada. O termo moda também não
foi usado. Já o termo peito p/pp (para se referir a pequeno) foi usado uma vez pela
entrevistada. A matéria possui três fontes, sendo duas mulheres e um homem.
Quem assina a reportagem é um homem.
Quadro 4: resultado dos indicadores quantitativos analisados no G1
Categorias Indicadores Indicadores
complementares
Saúde Não foi citada nenhuma
vez
-
Doença do silicone Foi citado 19 vezes 2 vezes por entrevistados
e 17 vezes pelo(a)
repórter
Padrão de beleza/padrão
estético
Foi citado 7 vezes 3 vezes pela repórter e 4
pelas entrevistadas
Moda Foi citado 1 vez Pela entrevistada
Seios/peitos
pequenos/sem peito
Foi citado 3 vezes Todas por entrevistadas
Fontes 10 fontes (que se 5 mulheres e 5 homens
57
repetem)
Assinatura da matéria 3 matérias assinadas e 1
não
Das assinadas, 2 são por
mulheres e 1 por homem
Fonte: elaborado pela autora, 2022.
Das quatro matérias do G1 analisadas, três falam sobre a doença do silicone
e uma delas cita apenas a síndrome Asia, doença autoimune que também pode ser
ocasionada pelas próteses. Duas matérias falam sobre padrão de beleza e as outras
duas não citam. Em uma delas, a expressão padrões estéticos é citada já no título,
como sendo um dos motivos pelo aumento dos casos de explante. Sendo que
nenhuma mulher entrevistada afirma que tirou o silicone por causa da chegada de
um novo padrão de beleza.
Figura 15 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem alta com chegada
de novos padrões estéticos e surgimento de doença autoimune”
Fonte: G1, 2022
Nessa mesma matéria a repórter cita padrões quando diz que nos anos 2000
o silicone passou a ser um dos padrões estéticos que, conforme a mastologista
entrevistada lamenta, foi muito influenciado pela recomendação dos próprios
cirurgiões plásticos. Essa afirmação da médica reflete o que Wolf (2020) defende
quando diz que os cirurgiões estéticos criam um universo de pacientes onde
biologicamente não existe nenhum e que “os cirurgiões, para obterem suas rendas,
58
dependem da deformação da percepção de si mesma e da intensificação do ódio a
si mesma por parte da mulher”.
Ela também cita o termo quando afirma: “Mais de 20 anos depois,na era do
Instagram, a comparação entre corpos está longe de terminar, mas começaram a
surgir também novos padrões”. Conforme vimos no capítulo sobre padrões de
beleza, de fato atualmente existe um novo padrão e que é propagado por
influenciadoras no Instagram, no entanto, esse padrão ainda continua incluindo os
seios siliconados.
Figura 16 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do Silicone’ em SP
‘assustador’”
Fonte: G1, 2022
Na outra matéria do G1 que cita padrões de beleza quatro vezes, todas são
referentes à entrevistada que é uma miss que passou pelo explante. Logo no
segundo parágrafo da matéria ela conta que o desejo de se encaixar em uma
padrão estético começou ainda na infância, com a influência de meninas que ela via
em desenhos e novelas. Como afirma Moreno (2008, p. 31): “Somos bombardeadas
por imagens e modelos de beleza que nos observam dos outdoors, das bancas de
jornal, da capa das revistas, do cinema, da TV, e, lentamente, invadem nosso
subconsciente e vão ocupando o lugar de referência.”
Em outro trecho da matéria, a miss relata que colocou as próteses para estar
mais próxima do padrão considerado o ideal para as mulheres, mas mesmo assim
não parecia o suficiente. O que reforça uma ideia defendida por Wolf (2020) de que
o ideal não é feminino, porque ele não envolve a mulher, mas sim o dinheiro.
59
Figura 17 - Print da matéria “Miss relata alívio após sofrer com a ‘Doença do Silicone’ em SP
‘assustador’”
Fonte: G1, 2022
Com relação ao termo peitos pequenos ou “sem peito”, a expressão é citada
em três das quatro matérias analisadas. Uma delas é a matéria acima (figura 15), na
qual a miss comenta que ficou surpresa com a franquia do concurso que fez questão
que ela participasse, após o explante: “Mesmo 'sem peito' e com cabelo curto, eu
posso ser uma miss. A questão não é só a beleza estética".
Figura 18 - Print da matéria “Silicone nos seios: busca por retirada da prótese tem alta com chegada
de novos padrões estéticos e surgimento de doença autoimune”
Fonte: G1, 2022
Em outra matéria, quem usa a expressão “seio muito pequeno” é a médica
entrevistada, que relaciona o tamanho dos seios naturais à “importância do silicone”.
Essa fala reforça uma ideia movida pela pressão estética de que mulheres com
seios pequenos devem recorrer às próteses.
Figura 19 - Print da matéria “Mulheres optam por explante de silicone após anos utilizando próteses,
no Ceará: ‘minha cabeça mudou’”
60
Fonte: G1, 2022
Por fim, na última matéria que fala sobre o tamanho dos seios, a entrevistada
usa o termo “p/pp” para se referir a peitos pequenos e reforça uma ideia de que ela
parece ter ficado aliviada por não ficar com os seios pequenos após o explante,
como se ter peitos pequenos fosse o oposto de “ótimo”, palavra que ela usa para se
referir ao resultado estético dos seios sem próteses. Mais uma vez vemos o
resultado da pressão estética sob os seios naturais (e nesse caso, pequenos) das
mulheres.
Com relação às 10 fontes somadas nas quatro matérias, se levarmos em
conta que elas se repetem, esse número cai para sete vezes, já que três
profissionais da saúde/cirurgia plástica são citados mais de uma vez. Dessas sete
diferentes fontes, três são mulheres explantadas e as outras quatro são da área da
saúde, sendo três homens cirurgiões plásticos e uma médica mastologista.
Gráfico 1 - Divisão das fontes (em %)
Fonte: elaborado pela autora, 2022
61
Dos profissionais da saúde entrevistados nas matérias, três são homens e
apenas uma é mulher, o que representa 25% do total.
Gráfico 2 - Divisão das fontes da área da saúde por gênero (em %)
Fonte: elaborado pela autora, 2022
A seguir, serão analisadas as matérias da plataforma Universa Uol.
5.2 UNIVERSA UOL
Foram selecionadas quatro matérias da plataforma Universa Uol publicadas
entre 8 de novembro de 2020 e 10 de março de 2022. Começamos a análise com a
reportagem publicada em 8 de novembro de 2020.
Figura 20 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’, diz Evelyn Regly”
62
Fonte: Universa Uol, 2022
A palavra saúde foi citada seis vezes na matéria, sendo duas vezes pela
repórter, três vezes pela entrevistada e uma vez em citação indireta. Doença do
silicone foi citada uma vez pela repórter. A expressão padrão/padrões de beleza foi
citada seis vezes, sendo uma pela repórter e cinco pela entrevistada. A palavra
moda não foi usada. O termo seio pequeno foi usado uma vez pela entrevistada.
Sobre fonte, foi entrevistada uma mulher e foram citados dois artigos sobre explante
de silicone, através de hiperlink. A reportagem foi assinada por uma mulher.
Figura 21 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de
padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios”
Fonte: Universa Uol, 2022
63
A segunda reportagem escolhida foi publicada em 29 de março de 2021. A
palavra saúde foi usada quatro vezes, sendo duas pela repórter e duas por
entrevistados. O termo doença do silicone foi citado seis vezes, sendo três vezes
pela jornalista e outras três pelos entrevistados. A expressão padrão de beleza foi
citada uma vez pela repórter. A palavra moda não é usada. O termo seio/peito
pequeno é citado quatro vezes, por entrevistadas. A reportagem conta com oito
fontes, sendo três homens e cinco mulheres. Quem assina a reportagem é uma
mulher.
Figura 22 - Print da matéria “Tive sintomas após colocar silicone e hoje ajudo mulheres a encontrar
ajuda”
Fonte: Universa Uol, 2022
A terceira matéria da Universa Uol foi publicada em 4 de outubro de 2021.
Essa matéria é em forma de depoimento, então há apenas uma entrevistada. A
palavra saúde aparece quatro vezes. A expressão doença do silicone é usada três
vezes. Os termos padrão de beleza, moda e peito/seio pequeno não são citados. A
matéria é o depoimento de uma mulher e é assinada por uma jornalista mulher.
Figura 23 - Print da matéria “Sobrevivi à doença do silicone e conto essa história em um
documentário”
64
Fonte: Universa Uol, 2022
A última matéria foi publicada em 10 de março de 2022 e também é um
depoimento, assim como a matéria anterior, logo, tem apenas uma entrevistada. A
palavra saúde é citada uma vez. A doença do silicone é citada três vezes, sendo
uma delas no título. A expressão padrão/padrões de beleza é usada quatro vezes.
Moda e peito pequeno não são citadas nenhuma vez. A matéria é assinada por uma
mulher.
Quadro 5: resultado dos indicadores quantitativos analisados na Universa Uol
Categorias Indicadores Indicadores
complementares
Saúde Foi citada 15 vezes 4 vezes pela repórter e 11
vezes por entrevistados
Doença do silicone Foi citada 13 vezes 4 vezes pela repórter e 9
por entrevistados
Padrão de beleza/padrão
estético
Foi citado 11 vezes 2 vezes pela repórter e 9
pela entrevistada
Moda Não foi citada -
Seios/peitos
pequenos/sem peito
5 vezes Todas por entrevistadas
65
Fontes 11 fontes 3 homens e 8 mulheres
Assinatura da matéria Todas assinadas Todas por mulheres
Fonte: elaborado pela autora, 2022.
As quatro matérias analisadas da Universa Uol apresentam a palavra saúde e
o termo doença do silicone. Três das quatro reportagens citam padrões de beleza.
Na reportagem abaixo (figura 22), o termo é usado apenas uma vez quando a
repórter comenta sobre a necessidade das mulheres de se encaixarem em um
padrão de corpo.
Figura 24 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de
padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios”
Fonte: Universa Uol, 2022
Em outra matéria que é em formato de depoimento de uma mulher que
realizou explante, já na primeira frase ela relata que desde criança sentia que
precisava se encaixar em padrões estéticos, ou como comenta em seguida: alcançar
um ideal de beleza inatingível. Mais uma vez, reforçando o que afirma Moreno
(2008, p. 31): “Somos bombardeadas por imagens e modelos de beleza que nos
observamdos outdoors, das bancas de jornal, da capa das revistas, do cinema, da
TV, e, lentamente, invadem nosso subconsciente e vão ocupando o lugar de
referência.”
Figura 25 - Print da matéria “Sobrevivi à doença do silicone e conto essa história em um
documentário”
66
Fonte: Universa Uol, 2022
Na terceira matéria que cita quatro vezes o termo padrão de beleza, a
youtuber e influenciadora Evelyn Regly, que foi uma das primeiras celebridades a
aparecer na mídia levando o tema do explante de silicone, comenta que foi
influenciada pelo padrão dos “peitões” quando colocou as próteses. Conforme Wolf
(2020), essa insatisfação com os seios teve origem quando a pornografia passou a
influenciar a moda e a mídia. “Milhões de mulheres de repente estavam vendo "os
seios perfeitos" por toda a parte e, consequentemente, começaram a se preocupar
com os seus seios naturalmente "imperfeitos". Wolf (2020, p. 18).
Figura 26 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’, diz Evelyn Regly”
Fonte: Universa Uol, 2022
A expressão seios pequenos aparece em duas das quatro matérias. Em uma
delas, a youtuber Evelyn Regly conta que foi em dois cirurgiões homens quando
decidiu fazer o explante e eles falaram que ela ficaria “masculinizada” sem as
próteses. Já quando ela procurou uma cirurgiã plástica mulher, ela lhe disse que não
ficaria masculinizada, “até porque a mulher que tem seio pequeno não é
masculinizada…”
67
A autora tentou procurar dados referentes ao número de cirurgiões plásticos
homens e mulheres no Brasil, no entanto tais informações não foram encontradas.
Nesse mesmo sentido, nota-se que quaisquer dados atuais referentes a cirurgias
plásticas são difíceis de serem encontrados. Wolf (2020) já afirmava que é difícil, se
não impossível conseguir informações precisas ou objetivas sobre cirurgia estética e
que a imprensa normalmente salienta a responsabilidade da mulher em pesquisar
médicos e procedimentos: "Uma mulher pode ter conhecimento das complicações,
mas não da probabilidade de sua ocorrência. Se ela se dedicar em tempo integral a
essa pesquisa, mesmo assim não descobrirá a taxa de mortalidade. Ou ninguém
que deveria saber essa taxa sabe; ou ninguém quer dizer” Wolf (2020, p. 338).
Figura 27 - Print da matéria “‘Após 9 meses com uma cicatriz aberta, tirei o silicone’, diz Evelyn Regly”
Fonte: Universa Uol, 2022
Em outra reportagem, que cita seios pequenos quatro vezes, todas as vezes
quem falou sobre isso foram as mulheres explantadas entrevistadas. Uma delas
comenta que “não tinha seios” ao contrário das suas amigas e que sentia vergonha
de namorar por causa dos seios pequenos. Conforme Wolf (2020, p. 356): “como a
censura da beleza reprime corpos de verdade de outras mulheres, ela consegue
fazer com que praticamente qualquer mulher ache que só os seus seios são moles,
caídos, pequenos, grandes”. Nesse sentido, é comum mulheres sentirem vergonha
uma das outras em relação ao seu corpo, por isso preferem não se expor e em
consequência disso, acabam não vendo corpos reais de suas amigas, por exemplo.
68
Figura 28 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de
padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios”
Fonte: Universa Uol, 2022
Outra entrevistada também comenta sobre a vergonha de ficar de lingerie ou
de tirar a roupa na frente do namorado e sobre a vergonha de usar biquíni. Além
disso, ela conta que quando começou a trabalhar como comissária de bordo, o
médico da empresa falou a seguinte frase a ela durante o exame admissional: “você
é muito bonita, pena que não tem peito. Se você colocasse silicone ficaria mais
proporcional.” Ela também relata que esses comentários a deixavam triste. Essa
situação lembra o que afirmava Wolf (2020, p.286): “O que acontece com nosso
corpo afeta nossa mente. Se os corpos femininos são e sempre foram errados
enquanto os masculinos são certos, então as mulheres são erradas e os homens,
certos.”
Figura 29 - Print da reportagem “De peito aberto - Doença ainda desconhecida e questionamentos de
padrões fazem cada vez mais mulheres tirarem próteses dos seios”
Fonte: Universa Uol, 2022
69
Com relação às 11 fontes utilizadas nas quatro matérias, sete são mulheres
explantadas e quatro são profissionais da saúde, sendo dois cirurgiões plásticos e
dois psicólogos.
Gráfico 3 - Divisão das fontes (em %)
Fonte: elaborado pela autora, 2022
Dos profissionais da saúde entrevistados nas matérias, três são homens e
apenas uma é mulher, o que representa 25% do total.
Gráfico 4 - Divisão das fontes da área da saúde por gênero (em %)
70
Fonte: elaborado pela autora, 2022
5.3 DISCUSSÃO DOS DADOS
A seguir, faremos a comparação entre os veículos, a partir dos dados
analisados nas oito matérias.
Quadro 6: resultado dos indicadores quantitativos analisados no G1 e na Universa Uol
Categorias Indicadores G1 Universa Uol
Saúde Cita ou não o
termo, quantas
vezes e por quem:
repórter ou
entrevistado?
Não foi citada
nenhuma vez
Foi citada 15
vezes: 4 vezes
pela repórter e 11
vezes por
entrevistados
Doença do silicone Cita ou não o
termo, quantas
vezes e por quem:
repórter ou
entrevistado?
Foi citado 19
vezes: 17 vezes
pelo(a) repórter e 2
vezes por
entrevistados
Foi citada 13
vezes: 4 vezes
pela repórter e 9
por entrevistados
Padrão de Cita ou não o Foi citado 7 vezes, Foi citado 11
71
beleza/padrão
estético
termo, quantas
vezes e por quem:
repórter ou
entrevistado?
3 vezes pela
repórter e 4 pelas
entrevistadas
vezes, 2 vezes
pela repórter e 9
pela entrevistada
Moda Cita ou não o
termo, quantas
vezes e por quem:
repórter ou
entrevistado?
Foi citado 1 vez:
pela entrevistada
Não foi citada
Seio/peito
pequeno/sem peito
Cita ou não o
termo, quantas
vezes e por quem:
repórter ou
entrevistado?
Foi citado 3 vezes:
todas por
entrevistadas
5 vezes: todas por
entrevistadas
Fontes Quantas fontes
foram ouvidas e
gênero das fontes
10 fontes (que se
repetem), são 7
fontes diferentes,
sendo 4 mulheres
e 3 homens
11 fontes, sendo 3
homens e 8
mulheres
Assinatura da
matéria
É assinada? Se
sim, por mulher ou
homem?
3 matérias
assinadas e 1 não.
Das assinadas, 2
são por mulheres e
1 por homem
Todas assinadas e
todas por mulheres
Fonte: elaborado pela autora, 2022.
Enquanto nas matérias do G1 a palavra saúde não foi citada nenhuma vez,
nas matérias da Universa Uol a palavra foi usada 15 vezes. Como observamos em
todas as matérias, o que leva as entrevistadas a realizarem o explante são
problemas de saúde, por isso é inesperado não encontrar a palavra saúde nos
textos do G1, a palavra foi citada apenas para dar os créditos a um cirurgião plástico
entrevistado. Já o termo doença do silicone aparece 19 vezes no G1 e 13 vezes na
Universa Uol.
A palavra moda foi citada em uma das matérias do G1 e não foi utilizada pela
Universa Uol. A expressão seios pequenos aparece três vezes no G1 e cinco vezes
na Universa Uol, em ambos os portais, quem cita o termo são as entrevistadas,
entre as mulheres explantadas e profissionais da saúde.
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Com relação às fontes, foram usadas 10 ao total nas matérias do G1, no
entanto elas se repetem, e se considerarmos por diversidade das fontes, esse
número reduz para sete, sendo três homens e quatro mulheres. Já na Universa Uol
foram usadas 11 fontes nas matérias, sendo três homens e oito mulheres. Com uma
diferença maior das fontes femininas para as masculinas, se comparado ao G1. No
entanto, o G1 entrevistou uma cirurgiã plástica mulher, enquanto o Universa Uol
entrevistou apenas cirurgiões homens.
Por fim, se tratando da assinatura das matérias, enquanto todas as matérias
do Universa Uol são assinadas e todas por mulheres, no G1 uma matéria não está
assinada e entre as outras três, duas são assinadas por mulheres e a outra por um
homem.
A seguir, iremos argumentar as considerações finais desta pesquisa.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Desejo de muitas mulheres que buscam elevar sua autoestimae se adequar
ao padrão de corpo ideal, as próteses de silicone acabaram se tornando inimigas da
saúde e qualidade de vida de quem sempre foi saudável. A esperança vem com o
explante, nome dado à cirurgia de retirada dos implantes que ganhou espaço na
mídia após celebridades como a youtuber Evelyn Regly e a ex-bbb Amanda
Djehdian passarem pelo explante e compartilharem seus relatos.
O principal objetivo desta pesquisa foi analisar como o jornalismo vem
tratando o explante de silicone. Para isso, foram analisadas oito matérias publicadas
nos portais G1 e Universa Uol entre 9 de abril de 2021 e 8 de maio de 2022. A partir
da análise realizada, as hipóteses que despertaram o interesse da autora para este
estudo foram confirmadas: tanto referente ao tratamento raso que o jornalismo dá ao
explante de silicone ligado à saúde da mulher, quanto à diferença entre os
conteúdos do G1, que é um portal de massa, e da Universa Uol, uma plataforma
destinada ao público feminino. Enquanto o G1 dá mais espaço para cirurgiões
plásticos, o Universa Uol oferece muito mais espaço para as mulheres explantadas,
mulheres essas que muitas vezes são taxadas de “loucas” por associarem seus
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sintomas às próteses. Inclusive, conforme um relato publicado no perfil do Instagram
“Perigos do Silicone”, em abril de 2022 uma mulher se suicidou depois de ser
chamada de louca pelos médicos por estar sentindo fortes dores e relacionar os
sintomas às suas próteses. Ainda sobre a Universa Uol, a plataforma tem matérias
inteiras sendo depoimentos dessas mulheres.
Além disso, a Universa entrevistou psicólogos, dando importância também
para a saúde mental da mulher, especialmente nesse momento onde ela tem de
passar por uma cirurgia para retirar aquilo que já foi algo importante para a sua
autoestima e hoje é fonte de uma doença. No entanto, ao contrário do G1, a
Universa Uol não entrevistou médica mulher, apenas cirurgiões homens. A autora
acredita que uma plataforma para o público feminino que busca levar informações e
dar voz às mulheres, deveria ter esse cuidado para trazer cirurgiãs plásticas
mulheres como fontes, assim como trouxe profissionais da psicologia de ambos os
sexos. Sabemos que os homens são a maioria entre os profissionais da cirurgia
plástica e, por esse motivo, acabam sendo referências na área. Por isso, não foi
discutido o fato de terem mais homens cirurgiões entrevistados do que mulheres,
mas sim, seria importante ter pelo menos uma mulher cirurgiã como fonte na
Universa Uol, como teve no G1.
É sabido que a doença do silicone carece de estudos no Brasil e muitos
cirurgiões plásticos – sem generalizar – minimizam os riscos das próteses, afinal
menos mulheres procurando por essa cirurgia significa menos lucro. No entanto, as
informações acerca dos problemas relacionados ao silicone não são de hoje. Em
1992 os Estados Unidos proibiu o implante de silicone devido a suspeitas de que o
vazamento do produto estaria ligado ao comprometimento do sistema imunológico e
até mesmo ao câncer. No entanto, essa informação não consta em nenhuma
matéria de nenhum dos dois veículos. Hoje há estudos que indicam que 98,8% das
próteses vazam no organismo. Mesmo assim, cirurgiões insistem em afirmar que
são raras as chances desse vazamento. Inclusive, a médica entrevistada pelo G1
afirma isso. Em outra matéria também do G1, a mulher explantada afirma que
somente depois de ter colocado as próteses ela recebeu um “livrinho” informando
que o gel poderia vazar, e questiona “por que não me contaram antes?”. Talvez
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porque sabendo de tais riscos, as mulheres iriam repensar essa decisão e o lucro
dos cirurgiões reduziria?
Ambos os portais não colocaram nas oito matérias analisadas os avisos da
Food and Drug Administration (FDA), a agência federal do Departamento de Saúde
e Serviços Humanos dos Estados Unidos que falam a respeito das complicações do
silicone e sobre a implementação de um aviso nas caixas das próteses que dizem
que os implantes não são vitalícios, que foram associados ao desenvolvimento de
um câncer do sistema imunológico e que pacientes com implantes têm reportado
uma série de sintomas. A Universa Uol até colocou em uma matéria hiperlinks com
esses avisos, no entanto eles estão em inglês, o que dificulta o acesso às
informações, pois dificilmente as leitoras irão dar a atenção necessária a esses
artigos. A autora acredita que seria fundamental os portais acrescentarem essas
informações traduzidas no corpo da matéria e, mais do que isso, questionar os
cirurgiões plásticos brasileiros que são entrevistados sobre esses avisos.
Voltando ao G1, a autora considera tendencioso falar no título de uma matéria
que o explante tem crescido devido à chegada de novo padrão estético, sendo que
em nenhum momento a matéria mostra que alguma mulher entrevistada afirmou que
tirou as próteses por causa de beleza, mas sim todas relatam problemas de saúde.
Isso reflete uma frase do livro “O Mito da Beleza”, onde Naomi Wolf diz que a
aparência da mulher é considerada importante porque aquilo que ela diz não o é.
Por outro lado, deixando o romantismo da profissão de lado e pensando mais
racionalmente, sabemos que todas as empresas dependem de clientes e
investimentos, e nos veículos de comunicação, isso não é diferente. Assim, os
interesses dos anunciantes ou investidores dos jornais, que podem incluir as
indústrias farmacêutica e estética, por exemplo, podem acabar influenciando na
forma como determinado assunto será abordado pelo veículo.
Por fim, conclui-se que o tratamento jornalístico da Universa Uol a respeito do
explante de silicone presta mais serviço às mulheres se comparado ao G1. No
entanto, ambos os veículos precisam ir além das informações fornecidas por
cirurgiões plásticos e seus repórteres devem realizar o papel de pesquisador,
buscando traduzir os estudos americanos acerca das próteses, para prestarem um
maior serviço às leitoras.
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Como essa pesquisa foi limitada a dois veículos, não se pode concluir que o
tratamento jornalístico de todos os veículos se dá da mesma forma. Portanto, a
autora seguirá pesquisando sobre o tema, seguindo na mesma linha desta
monografia.
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