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LIBRAS EAD DIRIGENTES EDIÇÃO: JULHO/2023 | PRESIDÊNCIA Prof. Dr. Clèmerson Merlin Clève | REITORIA Profa. Me. Albertina Nascimento | DIRETORIA ACADÊMICA Profa. Me. Daniela Ferreira Correa | DIRETORIA EXECUTIVA Profa. Esp. Silmara Marchioretto | COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA EAD Prof. Me. Marcus Vinícius Roncari Mari | AUTORA Prof. Dra. Clélia Maria Ignatius Nogueira | SUPERVISÃO DA PRODUÇÃO DE MATERIAIS EAD Esp. Idamara Lobo Dias | PROJETO GRÁFICO Esp. Janaína de Sá Lorusso Esp. Cinthia Durigan | DIAGRAMAÇÃO Esp. Cinthia Durigan | REVISÃO Esp. Ísis C. D’Angelis Esp. Idamara Lobo Dias | PRODUÇÃO AUDIOVISUAL Eudes Wilter Pitta Paião Estúdio NEAD (Núcleo de Educação a Distância) - UniBrasil | ORGANIZAÇÃO NEAD (Núcleo de Educação a Distância) - UniBrasil FICHA TÉCNICA EAD SUMÁRIO UN IB RA SI L EA D | L IB RA S UNIDADE 01 - FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO DE SURDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM .........................................................05 INTRODUÇÃO ......................................................................................06 1. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DE SURDOS........................................06 2. ABORDAGENS EDUCACIONAIS PARA SURDOS: ORALISMO, CO- MUNICAÇÃO TOTAL E BILINGUISMO .........................................13 2.1 Oralismo .......................................................................................14 2.2 A comunicação com as mãos ........................................................17 3. CULTURA E IDENTIDADES SURDAS .............................................20 3.1 Cultura Surda ................................................................................21 3.2 Identidades Surdas .......................................................................24 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................25 UNIDADE 02 - DESVELANDO MITOS E CRENÇAS SOBRE SURDEZ E LÍN- GUA DE SINAIS UNIDADE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM .........................................................27 INTRODUÇÃO ......................................................................................28 1. SURDEZ E SURDOS ......................................................................28 2. LÍNGUAS DE SINAIS E LIBRAS .....................................................35 2.1 Libras é língua ...............................................................................37 2.2 Mitos e Crenças sobre as Línguas de Sinais e a Libras ....................38 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................43 SUMÁRIO UN IB RA SI L EA D | L IB RA S UNIDADE 03 - ASPECTOS FONOLÓGICOS DA LIBRAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM .........................................................45 INTRODUÇÃO ......................................................................................46 1. PARALELOS ENTRE A LIBRAS E A LÍNGUA PORTUGUESA ...........46 2. ASPECTOS FONOLÓGICOS DA LIBRAS ........................................50 2.1 Parâmetros da Libras ....................................................................51 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................60 UNIDADE 04 - ASPECTOS MORFOLÓGICOS E SINTÁTICOS DA LIBRAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM .........................................................62 INTRODUÇÃO ......................................................................................63 1. ASPECTOS MORFOLÓGICOS DA LIBRAS .....................................64 2. CLASSIFICADORES EM LIBRAS ....................................................71 3. ASPECTOS SINTÁTICOS DA LIBRAS .............................................73 3.1 Tipos de Frases .............................................................................76 3.2 Ordem dos sinais em uma frase ....................................................82 4. VERBOS EM LIBRAS.....................................................................83 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................87 REFERÊNCIAS ......................................................................................88 UNIDADE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM VÍDEOS DA UNIDADE https://qr.page/g/1EvrLMlTmA0 https://qr.page/g/42Owf8eTnnM https://qr.page/g/1q3su3iMVVG 01 FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO DE SURDOS » Refletir sobre o percurso histórico da Educação de Surdos, cotejando as princi- pais abordagens pedagógicas da educação de surdos e suas influências sobre a cultura e as identidades surdas; » Contribuir para a inclusão social e educacional do surdo; » Promover a difusão da Libras. U N ID A D E 0 1 6 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S INTRODUÇÃO A principal questão da educação dos surdos, desde seu início, sempre foi se os surdos deveriam desenvolver a aprendizagem utilizando a língua de sinais ou a língua oral. E essa decisão, durante muito tempo, foi tomada pelos ouvintes. Só recentemente, os surdos estão podendo dizer como preferem ser educados e a maioria decidiu que o melhor para eles é a língua de sinais. Como não é possível viver no mundo dos ouvintes sem o conhecimento da língua pátria, os sur- dos defendem que a língua de sinais (no caso do Brasil, a Libras) deve ser considerada sua primeira língua e depois devem aprender o Português, de preferência na modalidade escrita. Mas, para os surdos poderem conquistar o direito de se expressarem em Libras, que hoje é reconheci- da como meio legal de comunicação dos surdos brasileiros desde 2002, eles lutaram muito e por séculos! Conhecer a História da Educação dos surdos nos permite compreender o momento atual desta educação, conhecer as principais abordagens educacionais referentes à surdez que foram desen- volvidas em associação às concepções sobre surdez vigentes nos diferentes momentos históricos, assim como a influência dessas abordagens e concepções na constituição das identidades surdas. Desta forma, a História da Educação de Surdos, as Abordagens Educacionais para surdos e a Cultura e as Identidades surdas são os tópicos que compõem esta primeira Unidade. 1. HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DE SURDOS Antes de nos debruçarmos no estudo da História da Educação de Surdos, vamos entender o que é História, pois este entendimento nos esclarecerá a importância desses estudos para aqueles que pretendem atuar social e profissionalmente em uma perspectiva inclusiva. De maneira geral, considera-se que História é o campo do conhecimento que estuda o passa- do para podermos compreender as constantes transformações vivenciadas pela humanidade, ou seja, é o estudo do passado que nos permite compreender o presente e vislumbrar o futuro e, é exatamente aí que reside a importância de se estudar a História da Educação dos surdos, saber como como os surdos se organizaram e viveram no passado para compreender as transformações vivenciadas até atingirem o estágio atual, em que adquiriram, por exemplo, o direito de estudarem em sua língua natural, a língua de sinais. A MATÉRIA-PRIMA DA HISTÓRIA SÃO OS FATOS HISTÓRICOS, ACONTECIMENTOS QUE POSSUEM REPERCUSSÃO SOCIAL, PARA OS QUAIS SE BUSCA UMA EXPLICAÇÃO DE SUAS CAUSAS E EFEITOS. A MORTE DO PRESIDENTE DO BRASIL, GETÚLIO VARGAS, EM 1954, É UM EXEMPLO DE FATO HISTÓRICO. [...] JÁ O FATO SOCIAL É UM ACONTECIMENTO CORRI- QUEIRO NA VIDA DE UMA SOCIEDADE, QUE POSSUI PEQUENO IMPACTO IMEDIATO, COMO A MORTE DAS PESSOAS OU A CRISE FINANCEIRA DE ALGUÉM DA COMUNIDADE (VICENTINO, 1994, p. 7 apud STROBEL, 2009, p. 6). U N ID A D E 0 1 7 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Mas, como os historiadores se debruçam sobre o passado? Considerando, principalmente registros escritos ou outras formas que fornecem pistas do passado, que constituem então, as fontes históricas. Para descrever e explicar o passado os historiadores selecionam os fatos históricos mais impor- tantes e, não apenas os narram detalhadamente, mas os organizam no tempo, os contextualizame os explicam. Se a História estuda o passado, para compreender o presente e vislumbrar o futuro, o tempo é essencial no estudo da História, particularmente para a organização dos acontecimentos. Mediante o estudo sobre como a educação dos surdos aconteceu ao longo dos tempos, pode nos permitir inferir sobre como era sua vida na sociedade, quais os seus direitos e, ao analisá-los podemos compreender as origens de atitudes preconceituosas e estereotipadas que ainda acon- tecem no momento atual, até mesmo, entre profissionais da área da saúde e educação, que deve- riam ser os primeiros a lutarem contra o preconceito. A história dos surdos pode ser compreendida pelo estudo da História da Educação de surdos, porque a educação de surdos é, e sempre foi, determinada pela concepção de surdez da socie- dade nos diferentes momentos. Ou seja, é a maneira que as pessoas entendem a surdez que vai determinar se e como eles serão educados. Durante muito tempo os surdos foram excluídos da sociedade, considerados incapazes de aprender. Vamos falar um pouco sobre como as antigas sociedades entendiam a surdez. Na Grécia Antiga os surdos sofreram muito, pois como as sociedades gregas estavam sempre em guerra, era exigido de seus cidadãos quase que a perfeição física, e como os surdos – segundo a perspectiva da época – não eram “perfeitos”, eles eram mortos. O filósofo e historiador Heródoto (cerca de 470 a.C.) classificava os surdos como “seres castigados pelos deuses”. Na China os surdos eram jogados no mar, em Roma eram jogados dos penhascos ou afogados nos rios e na Gália os surdos eram sacrificados como oferendas aos deuses. Mas, também teve uma civilização em que os surdos não eram castigados, a civilização egípcia. No Egito antigo todos eram muito religiosos. Eles adoravam vários deuses e os surdos eram consi- derados pessoas especiais porque como viviam em silêncio se acreditava que eles se comunicavam em segredo com os deuses, servindo de mediadores entre eles e os faraós, que eram os reis do Egito. Mas eles também não eram educados. Eles viviam sem trabalhar e nem estudar, junto com os sacerdotes. No ano 1000 a.C., na Palestina, surgiu uma Lei Hebraica (Talmude) que estabelecia diferença entre surdos, mudos e surdos-mudos e também determinava os direitos e as limitações de cada grupo, como se eles tinham direito a ter posses ou se podiam se casar etc. No final da Idade Antiga, Santo Agostinho (354 – 430 d. C.), afirmava que se os filhos eram surdos, era porque estavam pagando por algum pecado que seus pais haviam cometido, mas, de acordo com Cavalin e Cavalari (2010), Santo Agostinho acreditava que os surdos podiam se comu- nicar por meio de gestos e que essa forma de comunicação poderia ser aceita pela Igreja Católica para a salvação da alma. U N ID A D E 0 1 8 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Desta forma, durante muito tempo, em todo o mundo, os surdos foram considerados incapa- zes de serem ensinados e as pessoas surdas, principalmente as que não falavam, eram excluídas da sociedade, sendo proibidas de casar (até o século XII), possuir ou herdar bens e viver como as demais pessoas. Foi somente no século XVI (anos 1500 d.C.) que se começa a pensar que poderia ser possível instruir os surdos usando gestos e também a linguagem oral. Mas, essa educação era destinada somente aos surdos que fossem de famílias ricas: Esse trabalho dos professores particulares foi muito bom, porque mostrou que os surdos po- diam aprender através da educação e sem precisar de “milagres”. Encontramos atualmente alguns relatos de educadores de surdos daquela época que apresentavam diferentes resultados obtidos com seus trabalhos. No século XVI podemos destacar como importantes para a educação de surdos o italiano Gerola- mo Cardano e o espanhol Pedro Ponce de Leon. Gerolamo Cardano (1501-1576), era médico, mate- mático e astrólogo e tinha um filho surdo e por causa disso resolveu se dedicar ao assunto. Cardano afirmou que a escrita poderia representar os sons da fala e as ideias do pensamento e recomendava o uso de sinais e o ensino da linguagem escrita e chegou a elaborar “[...] um tipo de código de ensino para surdos, porém nunca colocou suas ideias em prática” (GUARINELLO, 2007, p. 21). O espanhol Pedro Ponce de León (1520-1584) era monge beneditino e foi professor de surdos da nobreza espanhola e, por isso, é considerado o primeiro professor de surdos. Mas, o professor surdo francês Ferdinand Berthier, que nasceu em 1803, não concorda com isso e destaca a impor- tância de Cardano: ATÉ O FINAL DO SÉCULO XVI NÃO HAVIA ESCOLAS ENSINO ESPECIALIZADO PARA SURDOS, MAS, NA VERDADE, A FIGURA DO PRECEPTOR (PROFESSOR PARTICULAR) ERA MUITO COMUM PARA TODAS AS CRIANÇAS E JOVENS, PRINCIPALMENTE DAS FAMÍLIAS RICAS. FAMÍLIAS NOBRES E INFLUENTES QUE TINHAM UM FILHO SURDO CONTRATAVAM OS SERVIÇOS DE PROFESSORES PARTICULARES PARA QUE ELE APRENDESSE A FALAR, POIS A APRENDIZAGEM DE UMA LÍNGUA ERA ESSENCIAL PARA QUE OS SURDOS PUDES- SEM HERDAR OS TÍTULOS E AS PROPRIEDADES DE SUAS FAMÍLIAS (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2012, p. 25). OS PRIMEIROS RELATOS DE QUE OS SURDOS PODIAM APRENDER SEM DEPENDER DE “MILAGRES” SURGEM NO INÍCIO DO SÉCULO XVI. COMO A EDUCAÇÃO NAQUELA ÉPOCA ERA DESTINADA APENAS AOS FILHOS DE FAMÍLIAS RICAS, OS PRECEPTORES DE CRIANÇAS SURDAS, APRESENTAVAM OS RESULTADOS OBTIDOS COM SEUS EDUCANDOS, PORÉM, NÃO RELATAVAM QUAIS FORAM OS MÉTODOS UTILIZADOS, POIS ESTES ERAM CONSIDERADOS “SEGREDO PROFISSIONAL” (LACERDA, 1998, p. 68). U N ID A D E 0 1 9 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S HOJE É AMPLAMENTE RECONHECIDO QUE TODA A CONTRIBUIÇÃO DE PONCE FOI MERA- MENTE COLOCAR OS PRINCÍPIOS DA EDUCAÇÃO PARA SURDOS EM UM PATAMAR MAIS AMPLO DO QUE SEUS PREDECESSORES O FIZERAM. ANTES DE PONCE, MUITAS TENTATI- VAS ISOLADAS DE INSTRUÇÃO TINHAM SIDO FEITAS, COM NÍVEL DE SUCESSO VARIÁVEL, TANTO NA FRANÇA QUANTO NO EXTERIOR. EM 1578, JOACHIM PASCHA TREINOU DOIS DE SEUS PRÓPRIOS FILHOS SURDOS, MAS SUAS TENTATIVAS NÃO OBTIVERAM RECO- NHECIMENTO PÚBLICO. GEROLAMO CARDANO, UMA DAS PESSOAS MAIS INTELIGENTES DO SEU TEMPO, E QUEM TALVEZ TENHA MAIS PROFUNDAMENTE REVIGORADO A ESCOLA FILOSÓFICA DO SEU SÉCULO, BUSCOU DEMONSTRAR QUE A EDUCAÇÃO DO SURDO NÃO ERA UMA IMPOSSIBILIDADE; ELE NÃO PAROU AÍ E MANTEVE UM RELATÓRIO ESCRITO SOBRE ALGUNS IMPORTANTES PONTOS SOBRE ESTE ESPECIAL TIPO DE ENSINO (BERTHIER, 1984, p. 169). Não existem muitas informações sobre o método utilizado por Ponce de León. Há registros de que ele se apoiava no alfabeto datilológico, em que cada letra é representada por uma configura- ção (forma) da mão para ensinar seus alunos a ler e escrever, com o objetivo principal de ensinar o surdo a falar. “No século XVII, descobertas e curiosidades científicas marcaram a história da surdez. Na Espa- nha, os sucessores de Ponce de León passaram a se interessar pelas diferentes formas de comuni- cação usadas pelos surdos” (GUARINELLO, 2007, p. 21). Dentre esses seguidores, destacamos Juan Pablo Bonet, que publicou um livro sobre a invenção do alfabeto digital ou datilológico inventado por Ponce de León. Bonet é considerado um dos precursores do oralismo. Seu método se baseava em primeiro ensinar a leitura e a escrita, apoiado no alfabeto digital. Depois, para “[...] ensinar a fala, também manipulava os órgãos fonoarticulatórios e utilizava uma língua de couro para demonstrar as várias posições da língua durante a articulação dos fonemas” (GUARINELLO, 2007, p. 22). Se Bonet pode ser considerado o precursor do oralismo, o inglês John Bulwer pode ser conside- rado o precursor dos estudos sobre as línguas de sinais, pois, publicou, em 1644, o livro Chirologia, que é primeiro livro em inglês, sobre a língua de sinais e, em 1648, o livro Philocopus no qual de- fende que a língua de sinais possibilita a expressão do pensamento do surdo assim como a língua oral possibilita a comunicação entre os ouvintes. A Inglaterra contribui ainda neste séculoXVII com mais dois estudiosos da língua de sinais, que desenvolveram teorias sobre a aprendizagem da fala e da linguagem despertaram o interesse de estudiosos acerca da educação de surdos, através dos educadores de surdos: os reverendos William Holder e John Wallis, por volta de 1650. O reverendo William Holder concentrou seu tra- balho no ensino da fala e o reverendo John Wallis, que também buscava a língua oral e escrita, mas para isso, se apoiava no alfabeto manual. Wallis, que utilizava a palavra escrita como meio de ins- trução, ensinou dois surdos a escrever, com o objetivo de desenvolvê-los intelectualmente. Wallis é considerado o pai do método escrito de educação de surdos. Algumas vezes usava o alfabeto digital para economizar tempo, além da fala e da leitura orofacial (GUARINELLO, 2007, p. 22-23). De acordo com Pereira et al. (2011), entre os séculos XVI e XVIII, a educação das crianças surdas era responsabilidade exclusiva das famílias, que contratavam professores com o objetivo de ensi- U N ID A D E 0 1 10 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S nar as crianças a falar e a escrever. Os métodos eram muito semelhantes: eram utilizados a fala, a escrita, o alfabeto manual e os sinais. Como os professores queriam guardar segredo sobre os métodos que usavam, pouco se sabe sobre esse período (PEREIRA et al., 2011, p. 7). No século XVIII, a educação dos surdos avançou bastante, principalmente com os trabalhos do alemão Samuel Heinicke (1729-1790), do Abade Charles Michel de l’Épée (1712-1789), na França, e de Thomas Braidwood (1715-1806), na Inglaterra. Esses três educadores, usavam metodologias diferentes, mas foram eles os primeiros a criarem escolas coletivas para surdos em seus países. O francês l’Épée utilizava sinais, enquanto Heinicke utilizava uma abordagem que não permitia o uso de gestos, nem mesmo o alfabeto gestual, apenas a fala na educação de surdos. Braidwood começava seu trabalho ensinando o alfabeto digital e por meio da escrita, depois, articulando as letras do alfabeto e finalmente a pronúncia de palavras inteiras. Braidwood criou em 1760, em Edimburgo, na Inglaterra, a primeira escola coletiva para surdos do mundo. A escola, denominada Watson’s Asylum usava a língua oral na educação dos surdos, era cara e mantinha seus métodos em segredo. Samuel Heinicke criou em 1778, uma escola para surdos na cidade de Liepzig, na Alemanha. Heinecke defendia que o objetivo da educação das crianças surdas era alcançar a linguagem falada e que a comunicação por meio de gestos poderia prejudicar esta aprendizagem. Heinicke é con- siderado o fundador do oralismo e criou uma metodologia que ficou conhecida como o “método alemão” ou escola alemã. Heinecke, seguindo a filosofia de Aristóteles que era predominante na época, considerava que a existência do pensamento estava condicionada à língua oral, de maneira que ele trabalhava pri- meiro a oralização e depois a escrita. O abade l’Épée criou a primeira escola coletiva gratuita para surdos em Paris, em 1775, denomi- nada Instituto de Surdos de Paris, instituição que seria responsável pela difusão da língua de sinais para diversos países no mundo, inclusive o Brasil. Ao valorizar a comunicação por meio de sinais l’Épée, indiretamente, demonstrou que, mesmo sem falar, os surdos eram seres humanos. Na escola para surdos, fundada pelo religioso, profes- sores e alunos usavam os chamados sinais metódicos. A proposta educativa da escola era que os O ABADE, A PARTIR DA OBSERVAÇÃO DE SURDOS (DE DUAS IRMÃS QUE ESTUDAVAM RE- LIGIÃO NO CONVENTO E/OU DOS QUE VIVIAM NAS RUAS DE PARIS, A HISTÓRIA NÃO TEM MUITA PRECISÃO A ESTE RESPEITO), CONSTATOU QUE ESTES DESENVOLVIAM UM TIPO DE COMUNICAÇÃO DE NATUREZA VISO-GESTUAL, QUE ERA MUITO SATISFATÓRIA. PARTINDO DESSA LINGUAGEM GESTUAL, ELE DESENVOLVEU UM MÉTODO EDUCACIONAL, APOIADO NA LINGUAGEM DE SINAIS DA COMUNIDADE DE SURDOS FRANCESES, ACRESCENTOU ALGUNS SINAIS QUE TORNAVAM A ESTRUTURA DA LINGUAGEM DOS SURDOS MAIS PARECIDA COM O FRANCÊS E DENOMINOU ESSE SISTEMA DE “SINAIS METÓDICOS” (NOGUEIRA, NOGUEIRA, 2012, p. 27-28). U N ID A D E 0 1 11 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S professores deveriam aprender os sinais com os surdos para se comunicar com eles e, a partir dessa forma de comunicação, ensinar o francês falado e escrito. Diferente de Heinecke, que escondia seu método, l’Épée divulgava seus trabalhos em reuniões periódicas e propunha-se a discutir seus resultados. Em 1776, publicou um livro (Institution des Surds-Muets) para divulgar seus métodos. Muitos de seus alunos se tornaram professores de sur- dos e multiplicadores da proposta educacional do Instituto de Surdos de Paris, fundando escolas para surdos no mundo todo, inclusive no Brasil. A partir do século XVIII, com o sucesso obtido tanto pelos seguidores de l’Épée quanto pelos de Heinecke, duas correntes surgem na educação de surdos, uma que não permitia a utilização de gestos, ou seja, adotava o oralismo puro e a outra, embora também objetivasse a aquisição da língua oral, recorria à linguagem gestual em uma metodologia combinada. De acordo com Skliar (1997, p. 30), Heinecke e l’Épée chegaram a trocar correspondências ar- gumentando a favor de seus métodos, sendo que em 1772 Heinecke escreveu para o abade que nenhum outro método “[...] pode ser comparado ao que eu inventei e pratico, porque esse se baseia totalmente na articulação da linguagem oral”. Da mesma forma que na Europa, nos Estados Unidos até o século XVIII também não havia escolas coletivas para surdos. Em 1817, Thomas Hopkins Gallaudet criou, em Hartford, a primeira escola para surdos dos Estados Unidos da América, usando sinais que foram implementados pelo professor surdo francês, Laurent Clerc. O interesse de Gallaudet por surdos foi despertado por uma vizinha surda, que ele resolveu ensinar utilizando o livro de Sicard, o sucessor de l’Épée no Instituto de Sur- dos de Paris. Contratado pelo pai da menina, de acordo com Guarinello (2007), Gallaudet foi para a Europa em 1815, inicialmente para a Inglaterra, para conhecer o método da escola implantada por Braidwood, entretanto, os dirigentes da escola não revelaram seu método. Gallaudet foi para a Fran- ça onde conheceu Laurent Clerc, professor surdo do Instituto de Paris, que foi com ele para os Esta- dos Unidos e juntos fundaram em 1817, a primeira escola para surdos naquele país, a Connecticut Asylum for the Education and Instruction of Deaf and Dumb Persons, que utilizava a língua de sinais francesa. Clerc “[...] já afirmava que os surdos faziam parte de uma comunidade linguística minoritá- ria e que o bilinguismo devia ser um objetivo para eles” (GUARINELLO, 2007, p. 27). A escola criada em 1817 pelo reverendo Tho- mas Gallaudet, em 1894, se transformou na Uni- versidade Gallaudet, em Washington, um sonho do reverendo, que foi realizado pelo seu filho Edward Miner Gallaudet. A universidade até hoje é refe- rência para o mundo todo, sendo a única no mun- do que ainda encontra-se em plena atividade, com alunos de todas as partes do mundo, atendendo desde bebês até a pós-doutorandos. Eu fui conhecer essa universidade e tirei algu- mas fotos que trago aqui para ilustrar este texto: FIGURA 1 - PLACA NA ENTRADA DA UNIVERSIDADE DE GALLAUDET. Fonte: Acervo pessoal da autora. U N ID A D E 0 1 12 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Todas as escolas americanas passaram a utilizar a American Sign Language (ASL) em todas as es- colas e houve um reconhecido salto no grau de escolaridade dos surdos americanos. Na primeira metade do século XIX, mais especificamente em 1835, os Estados Unidos reconhecem a ASL como a língua dos surdos dos Estados Unidos, enquanto que no Brasil, o reconhecimento da Libras, como meio legal de comunicação dos surdos brasileiros, só aconteceu em 2002. A boa qualidade da educação ofertada aos surdos na Gallaudet é mérito de seu fundador e em 1887, no centenário de seu nascimento,este reconhecimento foi demonstrado pelos surdos, com uma estátua, colocada defronte ao principal edifício da universidade, representando Thomas Gallaudet ensinando uma criança surda. FIGURA 2 - MOSTRA A PROFESSORA CLÉLIA REVERENCIANDO A ESTÁTUA DE T. GALLAUDET, EM QUE ESTE APARECE SENTADO, COM UMA CRIANÇA SURDA EM PÉ AO SEU LADO. AS MÃOS DIREITA TANTO DE GALLAUDET QUANTO DA CRIANÇA SINALIZAM A LETRA “A”. Foto: Acervo pessoal da autora. Com o sucesso do trabalho iniciado por l’Épée e Heinecke, as duas maneiras de se ensinar sur- dos, a que defendia a linguagem oral (de Heinecke) e a que utilizava sinais (de l’Épée), avançaram e começaram a acontecer encontros mundiais de educadores de surdos para divulgação de suas práticas pedagógicas. Em 1878, em Paris, aconteceu o I Congresso Internacional sobre a Instrução de Surdos. Foi nesse congresso que os surdos europeus começaram a ter seus direitos civis reco- nhecidos, conquistando o direito de assinar documentos. Mas, foi também no Congresso de Paris que começaram a se fortalecer os grupos que defen- diam o oralismo puro, apesar dos bons resultados dos franceses, apoiados nos sinais metódicos criado por l’Épée e, a partir de então, o método oral foi dominando as escolas no mundo. Dois anos depois do Congresso de Paris, em 1880, foi realizado o II Congresso em Milão. Esse Congresso foi muito importante, pois como o oralismo estava mais forte, ocorreram grandes mu- danças nas práticas pedagógicas para o ensino dos surdos. O objetivo escondido do Congresso de Milão era tornar o oralismo obrigatório na educação de surdos, uma vez que o oralismo havia se fortalecido após a realização do Congresso de Paris. Quem defendeu muito o oralismo nesse congresso foi um dos inventores do telefone, Alexander Graham U N ID A D E 0 1 13 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Bell. Como seu pai havia criado o método da “Fala visível”, que estava alcançando sucesso em fazer os surdos falarem, além de estar terminando uma máquina que acreditava, iria permitir aos surdos ouvirem (telefone), os participantes do Congresso ficaram convencidos de que os surdos poderiam mesmo falar e ouvir. Para convencer os participantes do Congresso, surdos que falavam bem se apresentaram e, na assembleia de encerramento, todos os professores surdos foram proibidos de votar. Dos 164 ouvintes presentes, com exceção dos cinco membros americanos e de um professor inglês, foi aprovada, por aclamação, “[...] a aprovação do uso exclusivo e absoluto da metodologia oralista, proibindo, a partir de então, a utilização da linguagem de sinais”, destituindo assim, os professores surdos de suas funções. Isto representou um retrocesso de quase um século na educação dos sur- dos (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 20). 2. ABORDAGENS EDUCACIONAIS PARA SURDOS Conforme vimos no tópico anterior, até o Congresso de Milão em 1880, mesmo utilizando abor- dagens diferentes, o oralismo e o gestualismo (abordagem que utilizava sinais) conviviam e tinham como objetivo comum, a oralização dos surdos. BELL TINHA COMO OBJETIVO PRINCIPAL ELIMINAR AS LÍNGUAS DE SINAIS, ACABAR COM OS CASAMENTOS ENTRE SURDOS E ENSINAR A LÍNGUA MAJORITÁRIA NA MODALIDADE ORAL PARA SURDOS. POR ESSES MOTIVOS FOI CONSIDERADO PELO PRI- MEIRO PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE SURDOS DA AMÉRICA O INIMIGO MAIS TEMIDO DOS SURDOS AMERICANOS (GUARINELLO, 2007, p. 28). EM SEU INÍCIO, A EDUCAÇÃO DE SURDOS ALÉM DA ATENÇÃO DADA À FALA, ENFATIZAVA TAMBÉM A LÍNGUA ESCRITA E, POR ISSO, OS ALFABETOS DIGITAIS ERAM MUITO UTILIZADOS. ESSES ALFABETOS DIGITAIS ERAM INVENTADOS PELOS PRÓPRIOS PROFESSORES, QUE DEFENDIAM A IDEIA DE QUE SE O SURDO NÃO PO- DIA OUVIR E NEM SE EXPRESSAR NA LÍNGUA FALADA, ELE PODIA COMUNICAR-SE PELA ESCRITA. MESMO OS PROFESSORES DE SURDOS QUE DEFENDIAM O ORA- LISMO INICIAVAM O ENSINAMENTO DE SEUS ALUNOS PELA LEITURA E ESCRITA E, COM ESTE APOIO, UTILIZAVAM DIFERENTES TÉCNICAS PARA DESENVOLVER OU- TRAS HABILIDADES, TAIS COMO LEITURA LABIAL E ARTICULAÇÃO DAS PALAVRAS (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 23). U N ID A D E 0 1 14 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S A principal diferença entre os oralistas e os gestualistas é que os oralistas buscavam aproximar os surdos o mais próximo possível dos ouvintes, exigindo que falassem e agissem como se fossem ouvintes. Os gestualistas, mesmo buscando a oralização do surdo, compreendiam suas dificulda- des em aprender a língua falada e consideravam que a linguagem desenvolvida pelos surdos lhes permitia a comunicação e “[...] lhes abria as portas para o conhecimento da cultura, incluindo aquele dirigido para a língua oral” (LACERDA, 1998, p. 70). Essa divergência que antigamente existia entre oralistas e gestualistas, e que atualmente é re- vivida entre os oralistas (que estão retornando, com os implantes cocleares) e os bilinguistas, nos chama a atenção para o fato de que existem diferentes maneiras de se educar os surdos e de conviver com a surdez. Os estudos existentes não possibilitam a certeza de qual abordagem meto- dológica seria ideal para se educar TODOS os surdos. Existem diferenças individuais que precisam ser consideradas de maneira que caberia à família, em conjunto com os profissionais pudessem escolher dentre as abordagens possíveis a mais indicada para a criança. Nogueira, Carneiro e Soares (2018, p. 24) destacam que, de maneira geral, crianças que pos- suem bons resíduos auditivos podem se beneficiar de uma abordagem oralista, enquanto que aquelas que, por não possuírem resíduos auditivos suficientes para se aproveitar dos AASI ou “[...] muita dificuldade para desenvolver a oralidade, o indicado é uma abordagem que privilegia a Lín- gua de Sinais”. 2.1 ORALISMO Conforme vimos no tópico anterior, o alemão Heinicke, criou uma metodologia que ficou co- nhecida como o “método alemão”, é considerado o ‘pai do oralismo’. O ORALISMO OU FILOSOFIA ORALISTA VISA À INTEGRAÇÃO DA CRIANÇA SURDA NA COMUNIDADE DE OUVINTES, DANDO-LHE CONDIÇÕES DE DESENVOLVER A LÍNGUA ORAL (NO CASO DO BRASIL, O PORTUGUÊS). A NOÇÃO DE LINGUAGEM, PARA VÁRIOS PROFISSIONAIS DESTA FILOSOFIA, RESTRINGE-SE À LÍNGUA ORAL, E ESTA DEVE SER A ÚNICA FORMA DE COMUNICAÇÃO DOS SURDOS. PARA QUE A CRIANÇA SURDA SE COMUNIQUE BEM É NECESSÁRIO QUE ELA POSSA ORALIZAR. O ORA- LISMO PERCEBE A SURDEZ COMO UMA DEFICIÊNCIA QUE DEVE SER MINIMIZADA ATRAVÉS DA ESTIMULAÇÃO AUDITIVA (GOLDFELD, 1997, p. 31). A ABORDAGEM DE ENFOQUE ORALISTA SE COLOCA RADICALMENTE CONTRA O USO DA LÍNGUA DE SINAIS OU DE QUALQUER CÓDIGO GESTUAL PELO ENTENDI- MENTO DE QUE, SENDO A DIMENSÃO GESTUAL-VISUAL A MAIS CÔMODA PARA O SURDO, ESSE NÃO IRÁ DESPENDER O ESFORÇO NECESSÁRIO PARA APRENDIZA- GEM DE UMA LÍNGUA NA MODALIDADE ORAL, QUE EXIGE UM TRABALHO DIFÍCIL, DILIGENTE, INTENSO E MUITAS VEZES ENFADONHO (SÁ, 1999, p. 82). U N ID A D E 0 1 15 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S A educação das crianças surdas, seguindo o oralismo, deve começar assim que se diagnostica a surdez e, na busca pelo desenvolvimento da linguagem interior, antes da fala (da mesma forma que acontece a aquisição da fala pelo ouvinte), se deve lançar mão de todos os recursos disponí- veis. Para isso, exploram-se ao máximo os resíduos auditivos com o auxílio da amplificação sonora proporcionada pelos AASI, além de serem também proporcionadas exaustivas atividades para fa- vorecer a leitura labial e a percepção das vibrações vocais. A aquisição da Língua Portuguesa oral, mesmo que todas as ações defendidas pelo oralismo sejam realizadas em sua plenitude, nem sempre acontece, pois vai depender, também, do grau e natureza da perda auditiva, além de recursos tecnológicos. Um aspecto a ser destacado é que alguns surdos, mesmo com o auxílio do aparelho auditivo não conseguem escutar a voz humana e mesmo quando escuta, nem sempre consegue utilizar corretamente a informação recebida, pois “[...] os aparelhos não atuam na decodificação instantâ- nea da linguagemapenas ao serem agregados ao ouvido, do mesmo modo que uma pessoa com- pletamente cega, por exemplo, não passa a enxergar utilizando óculos ou lentes de grau” (GESSER, 2009, p. 75). Atualmente, surdos submetidos à cirurgia de implante coclear são apresentados pela mídia, emocionados, por ouvirem, talvez pela primeira vez algum som. Entretanto, quando realizado em crianças pequenas, e que nasceram surdas, o que se tem visto é que não apresentam o efeito esperado e, desta forma, é alvo de desconfiança dos surdos adultos. Nogueira, Carneiro e Soares (2018, p. 26), alertam ainda que “[...] a recuperação da surdez não depende apenas do sucesso da intervenção cirúrgica, mas de inúmeras variáveis como idade do surdo, tempo de surdez, condi- ções do nervo auditivo, época de instalação da surdez, adaptação anterior ao AASI, etc.” Mas, as famílias ouvintes têm buscado a “normalização” da criança surda, mediante o implante coclear: Gomes (2010) alerta ainda que existem grandes interesses econômicos por detrás desta nova indústria, por isso os médicos aconselham. Os pais querem que seus filhos fiquem iguais a eles e então arriscam. NOVENTA POR CENTO DAS CRIANÇAS SURDAS TÊM PAIS OUVINTES, QUE SONHAM EM PODER RESTITUIR A AUDIÇÃO AOS SEUS FILHOS. VEEM A SURDEZ COMO UMA CALAMIDADE E DESCONHECEM QUE OS SURDOS PODEM TER UMA VIDA NORMAL. DESCONHECEM TAMBÉM QUE OS IMPLANTES COCLEARES NÃO TÊM RESULTADOS GARANTIDOS EM CRIANÇAS QUE JÁ NASCEM SURDAS OU QUE ADQUIREM A SUR- DEZ NOS PRIMEIROS ANOS DE VIDA. OS IMPLANTES AINDA SÃO MUITO EXPERIMEN- TAIS, NÃO SE SABENDO SE ATÉ PODEM CAUSAR DANOS A MÉDIO E LONGO PRAZO (GOMES, 2010, p. 35). EM 1990, A FDA (FOOD AND DRUG ADMINISTRATION) APROVOU A APLICAÇÃO DE IMPLANTES COCLEARES ÀS CRIANÇAS SURDAS NORTE-AMERICANAS. O QUE ERA UMA TECNOLOGIA EXPERIMENTAL APLICADA APENAS EM ADULTOS SURDOS PAS- Continua > U N ID A D E 0 1 16 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S SOU A SER APLICADO ALEATORIAMENTE EM CRIANÇAS SURDAS DE QUALQUER IDADE E COM QUALQUER TIPO DE SURDEZ. HOJE EM DIA SÃO APLICADOS EM QUALQUER PARTE DO MUNDO. [...] O GRUPO QUE REGULAMENTOU ESTA DECISÃO ERA TOTAL- MENTE COMPOSTO POR PESSOAS OUVINTES. MAIS UMA VEZ, A COMUNIDADE SURDA NÃO FOI CONSULTADA. AS CRIANÇAS NÃO TÊM O DIREITO DE ESCOLHER, DE DECIDIR SOBRE O SEU PRÓPRIO FUTURO. ESSA DECISÃO CABE UNICAMENTE AOS PAIS (GOMES, 2010, p. 35). Continuação > Mesmo os surdos profundos, desde que desejem e recebam o atendimento adequado podem adquirir uma comunicação oral funcional. Entretanto, é importante ressaltar que com surdez pro- funda podem apresentar uma comunicação oral funcional, desde que se submetam aos proce- dimentos adequados. Mas, o que é preciso ficar claro é que cabe aos surdos a decisão de serem implantados ou não e mesmo de se oralizar, pois, de acordo com Gesser (2009, p. 56): Após muitas décadas com a educação de surdos sendo realizada na perspectiva oralista, os resultados não eram animadores, uma vez que grande parte dos surdos profundos não haviam avançado em sua escolaridade por apresentarem dificuldades na aquisição da língua oral, na mo- dalidade escrita. No que se refere ao convívio social, este também se mostrou insatisfatório, pois os surdos, mesmo com treinamentos exaustivos, não adquiriram a língua oral suficiente para con- viver em sociedade. Desta forma, o predomínio do oralismo começa a declinar, todavia, em meados da década de 1950, a tecnologia avança e os aparelhos de amplificação sonora individual, de cuja construção Ale- xander Graham Bell acreditava estar próximo na época do Congresso de Milão, começam a estar dis- poníveis já para crianças muito pequenas, fazendo com que o oralismo ganhasse força novamente. Isto porque, os oralistas acreditavam que com a possibilidade de protetização em crianças pequenas (abro um parênteses aqui pra ressaltar que minha filha Marília começou usar aparelhos aos oito meses de idade), o treinamento auditivo seria mais eficiente e ao conseguirem ouvir, os surdos iriam adquirir a fala. Mas, esta possibilidade não foi concretizada para a maioria das crianças O GRANDE PROBLEMA HERDADO DA FILOSOFIA ORALISTA É O EFEITO COLATERAL QUE SE INSTAUROU NA COMUNIDADE SURDA, OU SEJA, O SENTIMENTO DE INDIG- NAÇÃO, FRUSTRAÇÃO, OPRESSÃO E DISCRIMINAÇÃO ENTRE USUÁRIOS DOS SINAIS, UMA VEZ QUE, DURANTE AS SESSÕES DE FALA E TREINOS REPETITIVOS PREGADOS PELO ORALISMO DO PASSADO, A LÍNGUA DE SINAIS FOI BANIDA E REJEITADA EM PROL DO USO EXCLUSIVO DA LÍNGUA ORAL. ESSA CRENÇA DE QUE O APARELHO DE AMPLIFICAÇÃO RESOLVE O PROBLEMA DOS SURDOS PERSISTE ATÉ HOJE, PORÉM, NÃO BASTA A COLOCAÇÃO DO APARELHO PARA QUE O SURDO ESCUTE. O SOM QUE ENTRA PELO APARELHO, É O SOM TOTAL Continua > U N ID A D E 0 1 17 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Continuação > DO AMBIENTE, COMO O SOM DA GRAVAÇÃO QUE FAZEMOS DE UMA AULA, QUE, JUN- TAMENTE COM A VOZ DO PROFESSOR, TRAZ RUÍDOS DE FOLHAS DE CADERNO SENDO VIRADAS; CADEIRAS ARRASTADAS; VEÍCULOS PASSANDO PELA RUA, SUSSURROS DOS ALUNOS, RISADAS E PASSOS NO CORREDOR, ETC.; DIFICULTANDO A COMPREENSÃO DO QUE FOI DITO PELO MESTRE. PARA PODER SE BENEFICIAR DA PRÓTESE AUDITIVA, O SURDO PRECISA PASSAR POR UM LONGO PROCESSO DE TREINAMENTO AUDITIVO, PARA DESENVOLVER SUA ATENÇÃO AUDITIVA E PODER IDENTIFICAR OS DIFERENTES SONS (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 27). Podemos explicar essa força do oralismo analisando a importância que a humanidade tem pela palavra oral. Durante séculos, se acreditava que a linguagem oral era essencial para o desenvolvi- mento do pensamento humano. Entretanto, o fato do surdo não ouvir, não impede que ele orga- nize seu pensamento. 2.2 A COMUNICAÇÃO COM AS MÃOS Não ouvir faz o surdo criar uma maneira própria de se comunicar, mas não o impede de adquirir uma língua e nem de desenvolver sua capacidade de representação. Isso provavelmente envolve mecanismos mentais, diferentes dos da pessoa ouvinte. Todavia, a comunicação com as mãos não teve início com os surdos e nem é exclusividade deles. De fato, a língua de sinais não começou com os surdos, pois, de acordo com Vygotsky, os ho- mens pré-históricos se comunicavam por meio de gestos e apenas quando começaram a utilizar ferramentas, ocupando as mãos é que começaram a utilizar a comunicação oral. Assim, antes de utilizarem a palavra, os seres humanos usavam as mãos para interagir, demonstrando a naturali- dade da comunicação por sinais. Podemos então dizer que o processo inverso, isto é, a passagem da língua oral para a manual foi reinventado pelo homem, sempre que necessário e não apenas no caso dos surdos. VOCÊ SABIA QUE EXISTEM VÁRIAS LINGUAGENS MANUAIS CRIADAS EM DIVER- SOS MOMENTOS DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE, PARA USO EM CONTEXTOS VARIADOS, TENDO EM VISTA POSSIBILITAR A COMUNICAÇÃO E A INTERAÇÃO EM SITUAÇÕES EM QUE A FALA ERA INVIÁVEL, PROIBIDA OU IMPOSSÍVEL? MERGULHADORES, POR EXEMPLO, CRIARAM UM SISTEMA DE CÓDIGOS GESTUAIS PARA SE COMUNICAR DEBAIXO D’ÁGUA, ONDE A FALA NÃO É POS- SÍVEL. CONSIDERANDO OS RISCOS DE UMA COMUNICAÇÃO EQUIVOCADA EM CIRCUNSTÂNCIAS PERIGOSAS, FICA EVIDENTE O QUANTO ESSA COMUNICAÇÃO DEVE SER BEM ASSIMILADA DURANTE OS CURSOS DE MERGULHO PARA GARANTIR A SEGURANÇA NO MEIO LÍQUIDO (REILY, 2004, p. 113). U N ID A D E 0 1 18 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Mesmo considerando as possibilidades de uma comunicação utilizando gestos, desde o início da educação de surdos, como vimos anteriormente a grande preocupação dos educadores sempre foi desenvolver a fala, o que acabou dando grande força ao oralismo. Porém, os resultados, como já comentamos anteriormente, não foram os esperados, pois crianças com perda auditiva profun- da que passaram por treinamentos auditivos, de voz e de articulação, não se tornaram fluentes na língua oral. Com esses resultados insatisfatórios e considerando os diversos estudos comprovando o sta- tus linguístico das línguas de sinais, em particular os do linguista americano William Stokoe sobre a Línguade Sinais Americana (você se lembra que os representantes dos EUA votaram contra a proibição do uso das línguas no Congresso de Milão?) e sobre outras línguas de sinais (que mesmo proibidas no espaço escolar, continuavam a ser utilizada pelos adultos surdos) a partir da década de 1960, o predomínio do oralismo começou a diminuir. O fracasso do longo período de educação de surdos, segundo a abordagem oralista, e a mudança de concepção sobre o que se entende por “fala”, que aconteceu após os resultados das primeiras pesquisas linguísticas sobre a Língua de Sinais Americana, comprovando seu estatuto linguístico, os sinais começam, aos poucos, a voltarem para a escola, pela abordagem da Comunicação Total que preconiza, conforme sua própria denominação indica, a utilização de todos os recursos disponíveis buscando proporcionar uma comunicação mais efetiva entre surdos e entre surdos e ouvintes, MESMO COM TREINAMENTO PARA REALIZAR LEITURA LABIAL, O PERÍODO CRÍ- TICO PARA A AQUISIÇÃO DE LINGUAGEM (ATÉ OS 4 ANOS, APROXIMADAMEN- TE) SERIA PERDIDO, POR CAUSA DA COMPLEXIDADE DESSA APRENDIZAGEM, COM PREJUÍZOS IMPORTANTES PARA O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO E O DESEMPENHO ESCOLAR DA CRIANÇA (REILY, 2004, p. 122). APESAR DA PROIBIÇÃO DA LÍNGUA DE SINAIS NA EDUCAÇÃO, ELA CONTINUA- VA A SER USADA POR ADULTOS SURDOS E PELOS ESTUDANTES DAS ESCOLAS RESIDENCIAIS ESPECIAIS. CRIARAM-SE ASSOCIAÇÕES DE SURDOS, NAS QUAIS ERAM REALIZADAS ATIVIDADES DIVERSAS QUE SERVIAM DE PONTO DE REFERÊNCIA FUNDAMENTAL PARA OS SURDOS. GRANDE PARTE DESSAS AS- SOCIAÇÕES ESTAVA LIGADA À IGREJA E A OUTRAS INSTITUIÇÕES DE CARÁTER RELIGIOSO E PROTEGIA A COMUNICAÇÃO POR MEIO DE SINAIS (PEREIRA et al., 2011, p. 10). [...] UTILIZANDO, PORTANTO, MODELOS AUDITIVOS, MANUAIS E ORAIS. APESAR DA ORALIZAÇÃO NÃO SER O PRINCIPAL OBJETIVO DA EDUCAÇÃO DE SURDOS NESSA ABORDAGEM, SEUS DEFENSORES ENTENDEM QUE O SURDO PODE TER ACESSO À Continua > U N ID A D E 0 1 19 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Continuação > LINGUAGEM ORAL SE TODOS OS RECURSOS LHES FOREM DISPONIBILIZADOS. ASSIM, A COMUNICAÇÃO TANTO RECEPTIVA QUANTO EMISSIVA, PODE SER ALCANÇADA COM A FALA, A AMPLIFICAÇÃO SONORA, A LEITURA OROFACIAL, O ALFABETO DIGITAL E SINAIS. COMO TUDO O QUE É FALADO PODE SER EXPRESSO POR GESTOS, PODE SER VISUALIZADO, OS SINAIS SÃO UTILIZADOS COMO APOIO NA AQUISIÇÃO DA LINGUA- GEM ORAL E ESCRITA (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2012, p. 33). Apesar de inicialmente representar uma reviravolta na educação dos surdos e de devolver a espe- rança aos surdos, seus familiares e professores, a adoção dessa abordagem não teve sucesso, pois os surdos não aprenderam a falar, a escrever e nem mesmo a língua de sinais, o que acabou por direcionar a educação de surdos para a abordagem bilíngue, por ter proporcionado a volta dos sinais à escola. A partir da década de 1990, e até hoje, a surdez é considerada como “diferença linguística” e não mais como “deficiência auditiva”. A denominação utilizada para designar os sujeitos passa a ser surdo e não mais “deficiente auditivo”. De acordo com Zanquetta (2006, p. 19) esse momento atual é consequência: O QUE A COMUNICAÇÃO TOTAL FAVORECEU DE MANEIRA EFETIVA FOI O CONTATO COM SINAIS, QUE ERA PROIBIDO PELO ORALISMO, E ESSE CONTATO PROPICIOU QUE OS SURDOS SE DISPUSESSEM À APRENDIZAGEM DAS LÍN- GUAS DE SINAIS, EXTERNAMENTE AO TRABALHO ESCOLAR. ESSAS LÍNGUAS SÃO FREQUENTEMENTE USADAS ENTRE OS ALUNOS, ENQUANTO NA RELAÇÃO COM O PROFESSOR É USADO UM MISTO DE LÍNGUA ORAL COM SINAIS (LACERDA, 1998, p. 76). [...] DE MUITA LUTA DOS SURDOS, SEUS FAMILIARES, PROFESSORES E PROFISSIO- NAIS DA ÁREA, QUE RESULTARAM EM CONQUISTAS FUNDAMENTAIS, TAIS COMO: O RECONHECIMENTO DA DIFERENÇA LINGUÍSTICA DO SURDO; A OFICIALIZAÇÃO 1 DA LIBRAS, [...] A POTENCIALIZAÇÃO DO PEDAGÓGICO EM DETRIMENTO DO CLÍNICO NA EDUCAÇÃO; A POSSIBILIDADE DA EDUCAÇÃO BILÍNGUE NUMA DIMENSÃO POLÍ- TICA; O APOIO AO FORTALECIMENTO E QUALIFICAÇÃO DA COMUNIDADE SURDA; A FORMAÇÃO E CAPACITAÇÃO DO PROFESSOR E INSTRUTOR SURDO; A FORMAÇÃO DE INTÉRPRETES DE LIBRAS E LÍNGUA PORTUGUESA E, PARTICULARMENTE, UM CRESCENTE NÚMERO DE PESQUISAS NA ÁREA DA SURDEZ . 1 Logo após a promulgação da Lei da Libras, equivocadamente começou-se a falar em “oficialização” da Libras, porque esta era a reivindicação da Comunidade Surda, entretanto, para que isso acontecesse havia a necessidade de uma alteração da Constituição, portanto, a Lei dispõe que a Libras é reconhecida como meio legal de comunicação do surdo brasileiro, o que, na prática, produz os mesmos efeitos da oficialização. U N ID A D E 0 1 20 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Com a mudança de concepção sobre a surdez e a convicção de que a língua de sinais, no caso do Brasil a Libras, possui todos os requisitos de uma língua e com o seu reconhecimento como meio de comunicação legal dos surdos brasileiros, a abordagem atualmente adotada é o bilinguis- mo. Essa abordagem começou a ganhar força no mundo a partir da década de 1980 e, no Brasil, a partir de 1990. De acordo com essa filosofia, a criança surda deve adquirir o mais cedo possível e inicialmente, a língua de sinais, considerada a sua língua natural. Essa aquisição deve ser feita com a comunida- de surda. Somente como segunda língua deveria ser ensinada, na escola, a língua oficial do país, de preferência em sua forma escrita. Apenas quando as condições forem favoráveis deve ser ensinada a Língua Portuguesa na modalidade oral. 3. CULTURA E IDENTIDADES SURDAS Com a proibição do uso da língua de sinais no espaço escolar a partir do Congresso de Milão, a ide- ologia dominante na educação de surdos, durante todo o século XX foi o oralismo. As consequências deste predomínio não foram sentidas somente no âmbito escolar. Como a concepção de surdez do oralismo é de patologia, sempre se buscava pela sua “normalização”, comprometendo, entre outros aspectos, o desenvolvimento de sua identidade enquanto surdo. É sobre isso que falamos neste tó- pico. Sobre identidades surdas, que se desenvolvem, no convívio com a cultura surda. O BILINGUISMO TEM COMO PRESSUPOSTO BÁSICO QUE O SURDO DEVE SER BILÍNGUE, OU SEJA, DEVE ADQUIRIR COMO LÍNGUA MATERNA A LÍNGUA DE SINAIS, QUE É CONSIDERADA A LÍNGUA NATURAL DOS SURDOS E, COMO SEGUNDA LÍNGUA, A LÍNGUA OFICIAL DE SEU PAÍS. [...] O CONCEITO MAIS IM- PORTANTE QUE A FILOSOFIA BILÍNGUE TRAZ É DE QUE OS SURDOS FORMAM UMA COMUNIDADE, COM CULTURA E LÍNGUA PRÓPRIAS (GOLDFELD, 1997, p. 39). “É nas relações familiares que surgem estruturas básicas para a comunicação entre pessoas quer sejam surdas, quer sejam ouvintes, preenchendo imprescindivelmente necessidades mais essen- ciais de contato e interações, são nesses espaços de fundamental importância no desenvolvimen- to pleno de cada indivíduo que surgem mecanismos de comunicação os quais favorecem estrutu- ras para a convivência social”. O artigo completo do qual retiramos esta frase você encontra em: http://bit.ly/2U7O6X3. Acesso em: 10 jan. 2020. LEITURA U N ID A D E 0 1 21 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S 3.1 CULTURA SURDA Quando se fala em cultura surda, estamos pensando na surdez como uma diferença linguística. Aqui é preciso desfazer um equívoco, pois é comum se pensar em diferença como o contrário de igualdade. Isso não é verdade. O que se contrapõe à igualdade é a desigualdade. Outro aspecto importante a ser destacado é que ser diferente é o “normal” na espécie humana. Não existem dois seres humanos com as mesmas impressões digitais, com o mesmo DNA (exceto no caso de gêmeos idênticos). Portanto, a diferença deve ser entendida como “normal” e nunca como algo que contraria a normalidade. Especificamente no caso dos surdos, compreender a surdez como diferença significa somente considerar o surdo como parte de um grupo que faz uso de outra língua – Língua de Sinais – e constituem uma comunidade específica. Com a adoção da abordagem educacional bilíngue nas escolas, os surdos se sentiram livres para convivere criar espaços em que a língua veicular fosse a língua de sinais, constituindo a Comuni- dade Surda, grupo de pessoas que são sinalizadores ou sinalizantes, independentemente do grau de sua perda auditiva. Deste convívio, emerge a cultura surda, ou seja, o bilinguismo proporcionou o biculturalismo, pois o surdo transita entre dois grupos culturais distintos, o ouvinte e o surdo. Mas, o biculturalismo ou mesmo o multiculturalismo não foi “descoberto” com os surdos. Pes- quisas no campo do Estudos Culturais admitem a existência de múltiplas culturas que ao interagi- rem entre possibilitam a convivência de grupos culturais de naturezas diferentes, o que acaba por ampliar o conceito de cultura e permitindo falar de cultura no plural, ainda que considerando-se um mesmo espaço geográfico. De acordo com Strobel (2008, p. 17): Em ambientes acadêmicos ou sociais já se admite com naturalidade por ouvintes e surdos, a existência de uma cultura surda. Uma cultura “própria” dos surdos. De acordo com Gesser (2009, p. 53) o adjetivo “própria” acrescentado à cultura permite inferir a intenção de um “grupo que precisa se distinguir da maioria ouvinte para marcar sua visibilidade, garantindo a valorização, a afirmação e o reconhecimento do grupo”. Para Perlin (2004), não é fácil definir o que é cultura surda, sendo que o ponto de partida para a compreensão do que seja esta cultura surda, é considerar o surdo como diferente. Para a mesma autora, ela própria uma pesquisadora surda, ser surdo é pertencer a um mundo de experiência vi- A HUMANIDADE, AO LONGO DO TEMPO, ADQUIRE CONHECIMENTO ATRAVÉS DA LÍNGUA, CRENÇAS, HÁBITOS, COSTUMES, NORMAS DE COMPORTAMENTO DENTRE OUTRAS MANIFESTAÇÕES. PARTINDO DO SUPOSTO QUE CULTURA É A HERANÇA QUE O GRUPO CULTURAL TRANSMITE A SEUS MEMBROS ATRAVÉS DE APRENDIZAGEM E DE CONVIVÊNCIA, PERCEBE-SE QUE CADA GERAÇÃO E SUJEITO TAMBÉM CONTRIBUEM PARA AMPLIÁ-LA E MODIFICÁ-LA. U N ID A D E 0 1 22 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S sual e não auditiva. Mas, o que seria vivenciar uma experiência visual? Perlin (2004) considera que a “experiência visual” já se constitui ao ser usuário natural da Língua de Sinais, que é uma língua visual. Em consequência, a cultura surda é também visual. Karin Strobel, pesquisadora surda paranaense, em seu livro As imagens do outro sobre a cultura surda, publicado em 2008, considera que, em função de sua diferença linguística, os surdos consti- tuem uma comunidade que gosta de interagir entre si, e “criam” espaços que possibilitam o desen- volvimento de atividades educacionais, laborais, esportivas, culturais e de lazer. Diferentemente das comunidades ouvintes, quase sempre determinadas pelo espaço geográfico, a comunidade surda se estabelece nas associações e clubes de surdos, além de ambientes escolares e religiosos onde podem manifestar-se livremente em sua língua e constituiriam, ao mesmo tempo, refúgio e trincheira da língua de sinais e da cultura surda. É nesses espaços em que podem se expressar naturalmente em sua primeira língua, espaços em que a dificuldade de comunicação enfrentada cotidianamente pelos surdos desaparece e as- sim, ao compartilharem seus valores, suas crenças, sua forma de agir, os surdos, assim como os ouvintes, constroem, preservam e difundem a sua cultura. De acordo com Strobel (2008, p. 24): “Cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando-o com suas percepções visuais”. Com o advento dos recursos tecnológicos, particularmente as novas tecnologias de comunica- ção como celular digital, porteiros luminosos, campainhas luminosas, babás eletrônicas luminosas etc., que promovem o desenvolvimento da autonomia e facilitam a vida dos surdos, a difusão e a preservação da cultura surda foi intensificada. Em função da rapidez da troca de informação pro- porcionada pela internet, são poucos os lugares que não são alcançados pela cultura surda. Com este empoderamento, os surdos ganharam visibilidade, trazendo ao mundo ouvinte, a sua forma de se comunicar, de se divertir, de comprar, de namorar, de se socializar, o que está contribuindo para a diminuição do preconceito. A seguir, trago algumas destas características, baseada nos es- tudos de Pereira et al. (2011). 3.1.1 AS CONVERSAS Como a língua de sinais é visual-motora e o uso do espaço, o olhar, as expressões faciais e cor- porais possuem valores discursivos, as conversações com e entre surdos apresentam característi- DIANTE DA COMUNIDADE MAJORITARIAMENTE OUVINTE, AS COMUNIDADES SURDAS APRESENTAM SUAS PRÓPRIAS CONDUTAS LINGUÍSTICAS E SEUS VALORES CULTURAIS. A COMUNIDADE SURDA TEM UMA ATITUDE DIFERENTE DIANTE DO DÉFICIT AUDITIVO, JÁ QUE NÃO LEVA EM CONTA O GRAU DE PERDA AUDITIVA DE SEUS MEMBROS. PERTENCER À COMUNIDADE SURDA PODE SER DEFINIDO PELO DOMÍNIO DA LÍNGUA DE SINAIS E PELOS SENTIMENTOS DE IDENTIDADE GRUPAL, FATORES QUE CONSIDERAM A SURDEZ COMO UMA DIFERENÇA, E NÃO COMO UMA DEFICIÊNCIA (PEREIRA et al., 2011, p. 34). U N ID A D E 0 1 23 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S cas particulares, que procuramos resumir a seguir. Nenhuma conversa se inicia sem que os interlocutores estejam atentos. Assim, se alguém quer iniciar uma conversa, é preciso chamar a atenção do interlocutor. Para isto, quando a pessoa está próxima é utilizado o toque no braço e no antebraço, não sendo recomendado tocar outra parte do corpo e nunca se deve tocar a cabeça. Se a pessoa com quem se deseja conversar está distante, podem-se criar formas de chamar sua atenção como acenar, pisar fortemente no chão, acender ou apagar a luz etc. Como os surdos vivenciam a dificuldade de acesso às informações em seu cotidiano, quando estão conversando, os surdos estão sempre preocupados se os seus interlocutores estão acom- panhando o que se fala ou a informação que se transmite e assim, procuram sempre confirmar se todos estão entendendo o que está acontecendo e, portanto, compartilhar informações é um valor muito importante na cultura surda. Conforme já discutimos anteriormente, a surdez é entendida como “experiência visual”, e as- sim, o contato visual é essencial para a interação, para o compartilhamento de informações, e por isso é muito valorizado pelos surdos. De maneira geral, os ouvintes, por se apoiarem na audição, ou por não se sentirem confortáveis com a manutenção do contato visual por longo período fre- quentemente não se mostram capazes de manter o contato visual apropriado e distraem-se visual ou auditivamente durante uma conversa com surdos. Isto pode aparentar ao surdo desinteresse em continuar a conversa. Assim, se for necessário virar de costas ou mesmo desviar o olhar é preci- so avisar antes com quem se está falando, o interlocutor, explicando as razões, para não ofendê-lo. Se a conversa transcorre entre um grupo de pessoas, os participantes costumam formar rodas, cujo tamanho varia de acordo com a quantidade de participantes, com o espaço entre os partici- pantes da conversa variando de acordo com seu teor. Por exemplo, se a conversa for íntima, até para fins de preservação, o espaço de sinalização é mais limitado, os participantes aproximam-se mais, e os sinais são menores. As regras de etiqueta da sociedade ouvinte consideram deseducado ir diretamente ao foco de uma conversa, particularmente para nós, brasileiros, que dificilmente explicitamos a ideia ou o interesse da conversa diretamente, a conversa dos surdos é direta. De acordo com Pereira et al. (2011), os surdos buscam sempre facilitar a comunicação e que a conversa direta não é conside- rada falta de educação, mas sair no meio de uma conversa, sem explicar suas razões, conversas particulares e quebra de contato visual são. Uma forma de interação permitida pela língua de sinais bem diferente de uma conversa em língua oral é que as pessoas surdas, quando estão em grupo, podem entrecruzar conversas sem interferir umas nas outras. Ficar frente a frente duranteuma conversa, mantendo o contato visual, mesmo estando dis- tantes, é muito valorizado pelos surdos. Em tais circunstâncias, se alguém se coloca como obs- táculo no meio, é considerado uma grave falta de educação para a comunidade surda. Se for necessário passar entre dois surdos que estão conversando, deve-se passar rapidamente, sem interromper a conversa. U N ID A D E 0 1 24 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S A despedida também é um momento diferenciado para os surdos. Ao se despedir, os interlocu- tores explicam aonde vão e o que farão. Combinam o próximo encontro e repetem data e horário diversas vezes, pois precisam deixar tudo bem organizado e combinado para evitar equívocos, já que possuem dificuldade de comunicação, mesmo com os “torpedos” via celular, ou e-mails, par- ticularmente em função da precariedade de sua escrita. Não é considerado educado abandonar os locais rapidamente ou retirar-se sem se despedir formalmente de uma conversa com surdos. As apresentações entre pessoas são peculiares na cultura surda. Quando uma pessoa apresen- ta alguém a outra pessoa, quem está apresentando se dirige aos demais e anuncia que irá apresen- tá-los. Em seguida se dirige a uma das pessoas que estão sendo apresentadas e soletra o primeiro e o segundo nome de quem está sendo apresentado, seguido do seu sinal pessoal 2, repetindo em seguida o procedimento com o nome e sinal da outra pessoa. Após as apresentações são reveladas informações consideradas relevantes para os surdos; como se é surdo ou ouvinte; a idade; estado civil; se tem filhos, escola em que estudou, se tem parentes surdos, se trabalha etc. Esta é invariavelmente a primeira conversa entre surdos que acabam de se conhecer, exemplificando muito bem o que dissemos anteriormente sobre “conversas diretas”. 3.2 IDENTIDADES SURDAS Durante o predomínio do oralismo toda a ênfase da educação dos surdos era direcionada à oralização. Desta forma, todos os esforços dos educadores recaiam sobre os exercícios de trei- namento auditivo, de emissão dos fonemas, de articulação que não somente o trabalho com os conteúdos escolares ficava prejudicado, mas, não havia nenhuma preocupação com a formação da identidade da pessoa surda e muito pouco se discutiam questões político-culturais, como, por exemplo, a importância de se buscar a igualdade sem, entretanto, eliminar a diferença. Assim, a educação não formava os surdos como cidadãos autônomos e críticos, ao contrário, perpetuavam- -se o sentimento de inferioridade e a dependência do surdo em relação ao ouvinte. Os surdos educados no oralismo não se reconheciam como surdos, mas como alguém não ou- vinte, alguém que não era normal. Com o contato com os surdos adultos proibido para as crianças surdas, elas eram rodeadas somente de adultos ouvintes e assim, eles somente enxergavam o que não podiam fazer, não se identificando como surdos. Ao somente conviverem com ouvintes, o surdo desenvolvia o desejo de ouvir, de maneira que ele se submetia aos exaustivos e complexos programas de aquisição da fala, sendo que, não al- cançava os resultados esperados trazendo para o jovem ou adulto surdo, que desde muito cedo participou desses atendimentos, a sensação de incapacidade. No que se refere à educação, os surdos estudavam em salas comuns, sem a presença de intér- pretes ou quaisquer outros apoios, provocando uma situação de fracasso escolar que era natura- 2 O nome que com que a pessoa é conhecida na comunidade surda, geralmente dado por uma autoridade desta comunidade e significa uma espécie de batismo, quando uma pessoa passa a integrar esta comunidade e geralmente remete à uma característica marcante da pessoa. U N ID A D E 0 1 25 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S lizada tanto pelos educadores, quanto pelos familiares. Como já afirmamos anteriormente, não somente o desempenho escolar do surdo ficava prejudicado, mas, e principalmente, a sua identi- dade, pois o modelo que possuía, do adulto ouvinte, jamais poderia ser alcançado. Com o bilinguismo e com o reconhecimento da Libras como forma legal de comunicação no Brasil, as crianças surdas passaram a ter contato com os surdos adultos sinalizadores e, a partir desses modelos, eles começam a se enxergar como surdos. Ao conviverem em um grupo no qual todos sinalizam, ou seja, na comunidade surda, os surdos se reconhecem como tais, não buscam mais se parecer com os ouvintes e passam a lutar pelos seus direitos, como, por exemplo, o de terem intérpretes. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com esta primeira Unidade pretendemos levar você para uma viagem ao mundo surdo. Nos- sa intenção foi promover sua conscientização a respeito do potencial dessa pessoa, como aluno, como profissional, como ser social. ASSIM, O SURDO CONSTRUÍA SUA IDENTIDADE EM UM MUNDO NO QUAL SE VIA COMO DIFERENTE DAS OUTRAS PESSOAS, COM O ESTIGMA DE INCAPACIDADE E DE DEFICIÊNCIA. O SURDO FICAVA TRANSITANDO EM DOIS MUNDOS E NÃO SE SENTIA PARTE DE NENHUM. NÃO FAZIA PARTE DO MUNDO OUVINTE, PORQUE NÃO SABIA SE COMUNICAR BEM E TAMBÉM NÃO PARTICIPAVA DE UM MUNDO SURDO PORQUE ERA PROIBIDO DE USAR A LÍNGUA DE SINAIS, PROCESSO DENO- MINADO PELO ESTUDIOSO CARLOS SKLIAR (1998) DE IDENTIDADE FLUTUANTE (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 34). Para Perlin (1998, p. 52) “[...] a identidade é algo em questão, em construção, uma construção móvel que pode frequentemente ser transformada ou estar em movimento. A construção da identidade depende de modelos e da forma como o outro enxerga o sujeito. Assim, é de fundamental impor- tância defender a cultura surda porque é dentro dela que se constrói a identidade surda”. REFLITA SAIBA MAIS Durante muito tempo os próprios surdos não compreenderam a importância da Língua de Sinais para o processo de construção de sua identidade cultural. Em sua opinião esta situação está mudando? U N ID A D E 0 1 26 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Como dissemos já no início desta Unidade, ao trazer a História da Educação dos surdos, de suas dificuldades e do quanto lutaram para alcançar o momento atual em que sua língua não somente é reconhecida como meio legal de comunicação no Brasil, como, o de ter sua educação e demais atendimentos públicos, como segurança, saúde e justiça, ofertados em ambientes bilíngues, com a presença de intérpretes de Libras, objetivamos fazer com que, ao conhecer o passado, pudesse compreender melhor o momento atual, principalmente sendo capaz de reconhecer que as con- quistas alcançadas não foram resultado da benevolência de governantes, nem se constituem em privilégios, mas, sim, são decorrentes de muita luta, buscando simplesmente o direito de ser o que são: SURDOS. Com esse sentimento esperamos que você se dedique no estudo da próxima Unidade, em que discutiremos mais sobre a surdez e surdos, e sobre a Língua de Sinais e a Libras. ANOTAÇÕES UNIDADE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM VÍDEOS DA UNIDADE https://qr.page/g/4wU5zdFdKFY https://qr.page/g/2CQXttHRymc https://qr.page/g/3dqnT4aVh7o 02 DESVELANDO MITOS E CRENÇAS SOBRE SURDEZ E LÍNGUA DE SINAIS UNIDADE » Refletir sobre o percurso histórico da Educação de Surdos, cotejando as princi- pais abordagens pedagógicas da educação de surdos e suas influências sobre a cultura e as identidades surdas; » Desconstruir mitos e crenças sobre os surdos, a surdez, as línguas de sinais em geral e a Libras em particular; » Contribuir para a inclusão social e educacional do surdo; » Promover a difusão da Libras. U N ID A D E 0 2 28 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S INTRODUÇÃO Desde a segunda metade da primeira década do século XXI os surdos vêm acumulando conquis- tas legais, como o direito ao intérprete de Libras, a legenda ou traduções para Libras em “janelas” em programas de televisão, a obrigatoriedade da disciplina Libras nos currículos de Licenciatura, Pedagogia e Fonoaudiologia. Essas conquistas deram visibilidade e empoderamento aos surdos, que passaram a exigir seus direitos.Como o desconhecimento sobre o assunto ainda é grande, surgem especulações a respeito dessa diferente comunidade, as quais, aliadas às crenças e preconceitos historicamente construí- dos, acabam por dificultar a inclusão social do surdo. Desta forma, esta segunda Unidade objetiva discutir com você aspectos da surdez e das línguas de sinais, buscando desconstruir mitos, cren- ças, equívocos e eventuais atitudes preconceituosas. Começamos por abordar a surdez, desde a denominação até aspectos relacionados ao Implan- te Coclear, para depois abordamos as questões referentes às Línguas de Sinais em geral e a Libras: Língua Brasileira de Sinais, em particular. Bons estudos! 1. SURDEZ E SURDOS A própria denominação para esse grupo de pessoas já é controversa, afinal, como devemos nos referir a eles: surdo, surdo-mudo ou deficiente auditivo? De acordo com Nogueira, Carneiro, Nogueira (2012, p. 20): Uma maneira de se compreender a surdez, bastante defendida por estudiosos atualmente e que aparece na Lei da Libras, a lei que reconhece a Libras como meio de comunicação legal do surdo brasileiro, é a de surdez como “experiência visual”: A PALAVRA MUDO NÃO CORRESPONDE À REALIDADE DESSE SUJEITO, POIS ELE NÃO É MUDO, NO SENTIDO DE POSSUIR COMPROMETIMENTOS NO SISTEMA FONOARTICULATÓRIO, MAS, A MAIORIA DAS VEZES, A PESSOA SURDA OU COM DEFICIÊNCIA AUDITIVA NÃO FALA PORQUE NÃO CONSEGUE APRENDER, POIS NÃO POSSUI O FEEDBACK AUDITIVO. [...] O QUE SIGNIFICA QUE O SURDO COMPREENDE TUDO USANDO PRINCIPAL- MENTE A VISÃO – E SE A VISÃO É TÃO IMPORTANTE PARA O SURDO, A VISÃO TAMBÉM DEVE SER O PRINCIPAL CANAL DE COMUNICAÇÃO E ENTÃO SE PASSOU A ACEITAR QUE A LÍNGUA QUE OS SURDOS USAM DEVE SER TAMBÉM VISUAL (SOARES, 2019, p. 25). U N ID A D E 0 2 29 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Por não se expressarem naturalmente mediante a língua oral e pelo fato de que para nós, os ou- vintes, o pensamento tem som (basta que se pense, por exemplo, em nosso próprio nome e este nome se apresenta em nossa mente, de maneira sonora), durante muito tempo se acreditou que os surdos também tivessem problemas intelectuais, afinal, para os ouvintes é natural a indagação: Se quando nós pensamos, conversamos mentalmente com a gente mesmo, de maneira que nosso pensamento parece ter som, como pensa o surdo, na ausência do som? Considerando o exposto anteriormente, de que surdez é “experiência visual”, o surdo organiza visualmente seu pensamento, que se efetiva por imagens, ou, mediante a “conversa por Libras”, ou seja, para estudar, raciocinar ou meditar, é comum que eles “falem com as mãos”, numa espé- cie de tricô invisível. Algumas vezes, ao realizarem uma caminhada solitária, o surdo também fala sozinho, sinalizando, assim como os ouvintes falam sozinhos e, muitas vezes, falam alto! Desta forma, os surdos sinalizantes também conversam consigo mesmos. Mas, será que eles podem aprender a se expressar oralmente? Para os surdos com poucos resíduos auditivos, a aprendizagem da fala é um processo muito difí- cil e que demanda muito tempo, entretanto, alguns conseguem aprender a se expressar oralmen- te. Quando falamos em poucos resíduos auditivos anteriormente, o que queremos determinar é que, a aprendizagem da fala depende do grau da perda auditiva, que é o que “classifica” a surdez, segundo o modelo médico. De acordo com o modelo médico, a surdez se classifica quanto ao tipo; quanto ao período de instalação e quanto ao grau. Quanto ao tipo, a surdez pode ser condutiva, ou seja, mais externa, ocorrendo na orelha exter- na ou média. Atualmente não utilizamos mais as expressões “ouvido externo”; “ouvido médio” ou “ouvido interno”, substituindo a palavra ouvido por orelha. Ainda no que se refere ao tipo, temos a surdez neurossensorial, mais interna, que afeta o nervo auditivo ou a cóclea, além da surdez do tipo mista, quando é uma combinação da surdez condutiva e neurossensorial. Quanto à época ou período de instalação, a surdez pode ser congênita, que é quando o bebê já nasce surdo; pré-lingual que é quando a criança ensurdece antes de ter adquirido a fala e pós-lin- gual, quando o ensurdecimento ocorre quando o indivíduo já adquiriu a fala. No que se refere ao grau, o modelo médico classifica como leve, moderada, severa e profunda. A seguir, apresentamos a definição de surdez, de acordo com o modelo médico e as especificações quanto à classificação e quanto ao grau. Surdez ou deficiência auditiva: É a perda total ou parcial, congênita ou adquirida da capacidade de compreender a fala (aqui entendida como comunicação oral) através do ouvido. Manifesta-se como: Surdez leve/moderada: perda auditiva de até 70 decibéis que dificulta, mas não impede a pes- soa de se expressar oralmente, bem como de perceber a voz humana como ou sem a utilização de um aparelho auditivo. Se a perda for de até 40 decibéis, a pessoa já não percebe os fonemas da mesma forma, isto altera a compreensão das palavras; voz fraca e distante não é ouvida. A criança U N ID A D E 0 2 30 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S é considerada desatenta, e vai apresentar dificuldade na aquisição da linguagem, na leitura e na escrita. Precisa de acompanhamento, e sua tarefa pode ser facilitada com o uso de Aparelhos de Amplificação Sonora Individual, os AASI. Se a perda se situar entre 40 e 70 decibéis o surdo perce- be a voz humana com certa intensidade, pode ocorrer atraso na linguagem e alteração articulató- ria. Discriminação difícil em lugares ruidosos e necessita de AASI. Surdez severa/profunda: perda auditiva acima de 70 decibéis, o que impede a pessoa de com- preender a voz humana e de adquirir a fala de maneira natural recorrendo ou não ao aparelho auditivo, pois não há feedback auditivo. Precisa de pistas visuais e de métodos, recursos didáticos e equipamentos especiais para correção e desenvolvimento da linguagem oral. Assim, o trabalho para a aquisição da linguagem oral deve ser iniciado assim que se descobre a surdez da criança. Entretanto, as pesquisas apontam que crianças com perda auditiva profunda, mesmo atendendo à risca as orientações para aprender a falar oralmente, realizando incansavel- mente exercícios de voz e de articulação, em sua grande maioria, não conseguem desenvolver a linguagem oral com fluência. Desta forma, para que um surdo possa se expressar oralmente são muitas as variáveis envol- vidas, como, por exemplo, o grau, a natureza e a época de instalação da surdez, além da boa adaptação aos AASI, e ao apoio de profissionais e da família. No entanto, também os AASI não são “mágicos”, ou seja, a adaptação não ocorre apenas com a protetização do surdo. No caso de surdos congênitos são necessários intensos treinamentos auditivos para que apren- dam a discriminar os sons e a desenvolver a atenção auditiva. O mesmo se aplica aos implantes cocleares, que no momento aparecem como a solução definitiva para a surdez, o que não é abso- lutamente verdadeiro e mais a frente nos aprofundaremos nessa discussão. Quanto às causas, só as hereditárias são mais de 70 tipos de diferentes; existem as congêni- tas (rubéola, sífilis, citomegalovírus, toxoplasmose, anomalias craniofaciais); as perinatais (hipóxia, herpes materno) e pós-natais (meningite bacteriana, sarampo, medicações ototóxicas etc.). Gesser (2009) alerta, todavia, que não devemos nos basear unicamente nos tipos e graus de surdez para estabelecer a abordagem educacional mais adequada ao indivíduo surdo. Até este momento discutimos a aquisição da língua oral pelo surdo. Mas para que a comunica- ção na Língua Portuguesa se efetive, o surdo precisa compreender o que está sendo dito pela outra pessoa. De maneira geral as pessoas acreditam que se falarem bem devagar, articulando as palavras, todos os surdos irão entender. Será que isso é verdade, ou seja, todos os surdos fazem leitura labial? UM SURDO PROFUNDO, POR EXEMPLO, PODE NÃO SE IDENTIFICAR COM A LÍN- GUA OU CULTURAS DOS SURDOS E OPTAR EXCLUSIVAMENTE PELAORALIZAÇÃO, DA MESMA FORMA QUE UM SURDO COM SURDEZ LEVE OU MODERADA PODE DEMONSTRAR UMA RELAÇÃO CONTRÁRIA: UMA PROFUNDA IDENTIFICAÇÃO COM OS TRAÇOS CULTURAIS DOS SURDOS SINALIZANTES (GESSER, 2009, p. 73). U N ID A D E 0 2 31 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Considerar que todo surdo “lê os lábios” é uma crença fortemente arraigada, de maneira que a maioria das pessoas, incluídos aí os professores e os médicos acreditam que se falarem de fren- te para o surdo, articulando pausadamente as palavras ele fará a leitura labial. Algumas pessoas exageram na articulação, falando ou muito devagar ou com movimentos caricatos. Entretanto, a leitura labial não é inata, ela também depende de uma árdua caminhada de exaustivos treinos, até porque, a articulação das palavras difere de pessoa para pessoa. O fato é são poucos os surdos hábeis leitores labiais. Para muitos dos professores da escola inclusiva, que na maioria das vezes recebem alunos sur- dos sem que estejam formalmente capacitados para isso, a leitura labial seria uma capacidade inerente ao surdo e assim, como única adaptação em suas aulas, consideram o cuidado de falar de frente para o surdo, acreditando que ele irá acompanhar suas aulas. Mesmo surdos que são habilidosos para a leitura labial (aqui também, podemos ter surdos que apresentam mais dificuldades que outros, independentemente de sua dedicação aos treinos), quando se deparam com pessoas desconhecidas, com sotaque ou dialetos; homens de bigode, ou que estejam distantes, ou, ainda, o surdo sentado e o ouvinte em pé, enfim, são inúmeros fatores que dificultam a leitura labial, sem contar no caráter quase caricato da postura de ouvintes que dependem da leitura labial para se comunicar com os surdos: É preciso mencionar ainda, o desgaste físico de um aluno surdo ao tentar acompanhar, com o recurso da leitura labial uma aula. O aluno ouvinte se está cansado ou entediado, pode se espre- guiçar, fechar os olhos, se sentar em diferentes posições, que continua acompanhando a aula pela NUM CONTEXTO DE AULA EXPOSITIVA, MESMO AQUELES QUE FORAM BEM TREINADOS PERDEM ENTRE 30% E 40% DO QUE FOR DITO. QUANDO HÁ MUITAS PESSOAS NA SALA E MUITAS DISTRAÇÕES, A CONCENTRAÇÃO NA ARTICULAÇÃO SE TORNA AINDA MAIS PENOSA. [...] MESMO QUANDO O ALUNO SURDO ACOM- PANHA O ASSUNTO QUE ESTÁ SENDO EXPOSTO, QUANDO CONHECE O CONTEXTO QUE ESTÁ SENDO APRESENTADO, OS EQUÍVOCOS NA INTERPRETAÇÃO DA LEITU- RA DOS LÁBIOS PODE CHEGAR A 60%. É POSSÍVEL LER O FORMATO DO LÁBIO, MAS NÃO A POSIÇÃO DA LÍNGUA DENTRO DA BOCA, ASSIM, UM MESMO FORMA- TO DE LÁBIOS E POSIÇÃO DE LÍNGUA SERVEM PARA EMITIR O SOM DE T E D, OU R, L E N, POR EXEMPLO, PROVOCANDO MUITAS DÚVIDAS DE INTERPRETAÇÃO (REILY, 2004, p. 127). ARTICULAM EXAGERADAMENTE AS PALAVRAS, FALAM MUITO ALTO, QUASE GRI- TANDO (NÃO ESQUEÇAM, OS INTERLOCUTORES SÃO SURDOS!), OUTRAS VEZES SOLETRAM DEMASIADAMENTE PALAVRAS E SÍLABAS [...] POR OUTRO LADO, ESSA IMAGEM, NÃO SE PODE NEGAR, É TAMBÉM ILUSTRATIVA DE COMO O SER HUMANO BUSCA FORMAS PARA ESTABELECER A INTERAÇÃO COM O OUTRO (GESSER, 2009, p. 61). U N ID A D E 0 2 32 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S via da audição. Esses pequenos momentos de alívio ou descanso podem fazer com que o surdo perca o que o professor está dizendo e não consiga mais acompanhar a aula. Desta forma, como o processo de ensinar e aprender nas escolas regulares comuns ainda se sustentam quase que exclusivamente na comunicação oral, com o professor “falando” para ensi- nar e os alunos “ouvindo” para aprender, é possível afirmar que os surdos, em função de possu- írem dificuldades com esta forma de comunicação apresentariam limitações em sua educação. Objetivando minimizar as dificuldades e limitações dos surdos, as discussões sobre sua inclusão geralmente trazem como resposta para a maioria das suas dificuldades escolares, a atuação de intér- pretes em sala de aula, o que não é verdade. As diferenças dos surdos não são contempladas somen- te com a “tradução”, para as línguas de sinais de uma educação pensada para ouvintes. Entretanto, antes mesmo de se pensar na necessidade de estratégias metodológicas diferenciadas, em currículos adaptados, existe uma questão premente a ser respondida, a saber: todos os surdos conhecem a língua de sinais? Não, conforme especificam Nogueira, Carneiro e Nogueira (2012, p. 69): Como a maioria das crianças surdas é filha de pais ouvintes, que desconhecem a Língua de Sinais, têm dificuldade de aceitá-la e, por consequência, de usá-la com seus filhos, as crianças surdas acabam por chegar à escola sem nenhuma língua, cabendo ao intérprete, no caso da escola inclusiva, muitas vezes a função de “ensinar” a Libras, à criança surda. Este fato faz com que muitos surdos aprendam quase que simultaneamente a Libras e o Português escrito, dificultando ambas as aprendizagens. Esse desenvolvimento linguístico tardio provoca grandes entraves na aprendizagem da criança surda, particularmente no que se refere aos seus conhecimentos prévios, ou seja, conhecimentos que toda criança possui antes mesmo de iniciar seu percurso escolar, decorrente de suas inte- rações familiares. Privada dessa interação natural, as crianças surdas filhas de pais ouvintes não adquirem nenhuma língua no seio da família e, assim, acabam por ser mais prejudicadas do que as crianças surdas filhas de pais surdos, que adquirem a língua de sinais naturalmente, para, então, apoiadas em sua língua natural, aprenderem a língua falada. Desta forma, para evitar esses preju- ízos é preciso proporcionar às crianças surdas filhas de pais ouvintes um ambiente linguístico que lhes permita adquirir naturalmente a sua língua e, assim, devem frequentar uma escola bilíngue para surdos, ainda bebês, para interagirem com outros surdos e adquirirem a sua língua. Assim, a criança surda deve ser exposta o mais cedo possível a contatos com surdos sinalizadores, para que ela adquira a língua de sinais, que é a sua primeira língua (L1) de forma espontânea. Além A LÍNGUA DE SINAIS NÃO É INATA AO SURDO, DA MESMA FORMA QUE A LÍNGUA ORAL NÃO O É PARA O OUVINTE, ISTO É, NEM A CRIANÇA SURDA E NEM A OU- VINTE NASCEM SABENDO FALAR. A CRIANÇA OUVINTE APRENDE A FALAR PELA INTERAÇÃO COM O MEIO EM QUE VIVE. O IDEAL SERIA QUE O MESMO ACONTE- CESSE COM A CRIANÇA SURDA, ISTO É, QUE ELA ADQUIRISSE A SUA PRIMEIRA LÍNGUA NA INTERAÇÃO COM USUÁRIOS DESSA LÍNGUA, INSERIDA NO MEIO FAMILIAR E NÃO MEDIANTE SITUAÇÕES ARTIFICIAIS PROMOVIDAS PELA ESCOLA. U N ID A D E 0 2 33 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S disso, como os surdos vivem em um país que tem como dominante outra língua, que no caso do Brasil é a Língua Portuguesa, mesmo tendo a Libras reconhecida como meio legal de comunicação, a Lei da Libras deixa claro que esta língua não substitui a Língua Portuguesa, na modalidade escrita. Conforme antecipamos, vamos a seguir aprofundar as discussões acerca do implante cóclea. O implante coclear é um dispositivo médico eletrônico para pessoas com perda auditiva de grau severo a profundo, que é implantado cirurgicamente, com o objetivo de transformar sons em estímulos elétricos para serem enviados diretamente ao nervo auditivo. Esta cirurgia muitas vezes apresentada pela mídia em matérias carregadas de emoção, ainda é vista com muita desconfiança pelos surdos, familiares e profissionais, pois a recuperação da surdez não depende apenas do sucesso da intervenção cirúrgica, mas de inúmeras variáveis como idade do surdo, tempo de surdez, condições do nervo auditivo, época de instalação da surdez, adaptação anterior ao Aparelho de Amplificação Sonora Individual, trabalho com fonoaudiólogo etc. As crianças implantadas agora são educadas no oralismo. Para os surdos adultos sinalizadores que lutaram muito para que as línguas de sinais fossem reconhecidas, isto parece um pesadelo. Consideram que está havendo um retrocesso, pois os resultados dos implantes, pelo menos entre os adultos nãotem agradado. CONSIDERANDO QUE O DESENVOLVIMENTO DA PRIMEIRA LÍNGUA INFLUENCIA NA APRENDIZAGEM DE UMA SEGUNDA LÍNGUA (L2) CUJO APRENDIZADO NÃO ACONTECE DE FORMA NATURAL, NECESSITANDO DE UM TRABALHO SISTEMÁTICO, É FUNDAMENTAL QUE O SURDO ADQUIRA A LIBRAS O MAIS CEDO POSSÍVEL, PARA ENTÃO PODER APRENDER O PORTUGUÊS ESCRITO, DEVENDO ESTE ENSINO SER MINISTRADO EM UMA PERSPECTIVA DIALÓGICA, FUNCIONAL E INSTRUMENTAL (NOGUEIRA; CARNEIRO; NOGUEIRA, 2012, p. 70). AS INTERVENÇÕES CIRÚRGICAS EM PACIENTES SURDOS TÊM SIDO ALVO DE MUITA POLÊMICA. A RECUPERAÇÃO DA AUDIÇÃO, NESSES CASOS, VAI DEPENDER DE INÚ- MERAS VARIÁVEIS, MAS HÁ MUITO CETICISMO EM CASO DE SURDOS PROFUNDOS, ESPECIALMENTE ADULTOS. NOS EXPERIMENTOS EM QUE UM SURDO TENHA SE SUBMETIDO AO IMPLANTE, O RESULTADO É SEMPRE DRÁSTICO, POIS, ALÉM DE SE TRATAR DE UM MÉTODO INVASIVO PARA A COLOCAÇÃO DO DISPOSITIVO INTERNO, O SUCESSO COM AS RESPOSTAS AUDITIVAS DEPENDERÁ DE VÁRIOS FATORES: IDADE DO SURDO, TEMPO DE SURDEZ, CONDIÇÕES DO NERVO AUDITIVO, QUANTIDADE DE ELETRODOS IMPLANTADOS, SITUAÇÃO DA CÓCLEA, TRABALHO FISIOTERÁPICO DO FONOAUDIÓLOGO, ACOMPANHAMENTO PERIÓDICO DO MÉDICO PARA ATIVAÇÃO E AJUSTES NO DISPOSITIVO IMPLANTADO, ETC. HÁ QUEM CONSIDERE TODOS ESSES FATORES IRRELEVANTES, MAS TENHO OBSERVADO E CONVERSADO COM COLEGAS SURDOS IMPLANTADOS E A SATISFAÇÃO NÃO É TÃO EXPRESSIVA (GESSER, 2009, p. 76). U N ID A D E 0 2 34 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S A PREFERÊNCIA PELO ORALISMO FOI RECONHECIDA NO II CONGRESSO INTER- NACIONAL DE EDUCAÇÃO DO SURDO, OCORRIDO EM MILÃO, NA ITÁLIA, EM 1880, QUANDO FICOU DECIDIDO QUE A EDUCAÇÃO DOS SURDOS DEVERIA SE DAR EXCLU- SIVAMENTE PELO MÉTODO ORAL [...] COM A APROVAÇÃO DO MÉTODO ORAL, OS PROFESSORES SURDOS FORAM DESTITUÍDOS DE SEU PAPEL DE EDUCADORES E A LÍNGUA DE SINAIS FOI PROIBIDA DE SER USADA PELOS PROFESSORES NA EDUCA- ÇÃO E NA COMUNICAÇÃO COM SEUS ALUNOS SURDOS (PEREIRA et al., 2011, p. 9). Atualmente, é possível perceber que o objetivo escondido do Congresso de Milão era tornar o oralismo obrigatório na educação de surdos. Isso porque, como já destacado anteriormente, o oralismo havia ficado mais forte depois do Congresso de Paris. Quem defendeu muito o oralismo nesse congresso foi um dos inventores do telefone, Alexander Graham Bell. Como seu pai havia criado o método da “Fala visível”, que estava alcançando sucesso em fazer os surdos falarem, além de estar terminando uma máquina que, acreditava, iria permitir aos surdos ouvirem (telefone), os participantes do Congresso ficaram convencidos de que os surdos poderiam mesmo falar e ouvir, parecido com o que está acontecendo atualmente com o Implante Coclear. ORALIZAR É SINÔNIMO DE NEGAÇÃO DA LÍNGUA DOS SURDOS. É SINÔNIMO DE COR- REÇÃO, DE IMPOSIÇÃO DE TREINOS EXAUSTIVOS, REPETITIVOS MECÂNICOS DA FALA. A FIGURA DO ADEPTO CONVICTO DO ORALISMO, ALEXANDER GRAHAM BELL, POR EXEMPLO, GANHOU FORÇA DURANTE O MOVIMENTO EUGÊNICO E, ESPECIALMENTE, NO FAMOSO CONGRESSO DE MILÃO EM 1880, DURANTE O QUAL ELE PREGAVA QUE A SURDEZ ERA UMA ABERRAÇÃO PARA A HUMANIDADE, POIS PERPETUAVA CARAC- TERÍSTICAS GENÉTICAS NEGATIVAS. NESSE CENÁRIO, INTERNATOS DE SURDOS, CASAMENTOS ENTRE ELES E QUALQUER TIPO DE CONTATO ERAM PROIBIDOS, E TAL PROIBIÇÃO FOI ENTENDIDA COMO UMA MEDIDA PREVENTIVA, CAPAZ DE “SALVAR” A RAÇA HUMANA. DADO SEU PRESTÍGIO DE HOMEM BRILHANTE NA SOCIEDADE DA ÉPOCA, ENTENDE-SE QUE GRAHAM BELL CONTRIBUIU DE MANEIRA CRUCIAL PARA A NEGAÇÃO E A OPRESSÃO DA LÍNGUA DE SINAIS. POR ISSO É RECHAÇADO COM MAIS VEEMÊNCIA PELA COMUNIDADE SURDA EM TODO O MUNDO, DO MESMO MODO COMO SÃO RECHAÇADOS TODOS OS QUE SE INSCREVEM NESSA FILOSOFIA (GESSER, 2009 p. 50-51). Gomes (2010) alerta que como ouvir é supervalorizado pelos ouvintes, os pais vêm encaminhan- do, desde muito cedo, as crianças surdas para a cirurgia de implante coclear. De acordo com Soares (2019), a tecnologia que hoje ajuda muito surdo, como celular por exem- plo, foi ruim na época do Congresso de Milão. Queriam mexer no corpo do surdo com o aparelho e, agora parece prejudicar de novo a luta pelo direito de ser surdo, com os implantes cocleares. Os pais querem que seus filhos fiquem iguais a eles, imaginam os filhos ouvindo e falando... A língua oral. Talvez uma das razões para que seja dada tanta importância à língua oral, sejam os preconceitos e mitos sobre as línguas de sinais. U N ID A D E 0 2 35 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Você pode ter acesso à Biblioteca Virtual do INES – Instituto Nacional de Educação de Surdos pelo endereço: www.ines.gov.br/Paginas/biblioteca.asp e clicar em pesquisas bibliográficas, en- contrando um farto material a respeito do mundo surdo. Outro site interessante para saber mais sobre os surdos é o da www.editora-arara-azul.com.br. REFLITA SAIBA MAIS Um dos principais estudiosos da surdez, do ponto de vista socioantropológico, que, entre outros aspectos igualmente importantes estabeleceram a definição de “surdez como experiência visual”, o argentino Carlos Skliar, chama a atenção para o preconceito arraigado entre os ouvintes em relação aos surdos que não se expressam oralmente. Para Skilar (1997), esse preconceito se sus- tenta na compreensão equivocada dos ouvintes de que se os surdos não falam, não são capazes de aprender, de se relacionar e até mesmo de desenvolver uma profissão: SER FALANTE É TAMBÉM SER BRANCO, HOMEM, PROFISSIONAL, LETRADO, CIVILIZADO, ETC. SER SURDO, PORTANTO SIGNIFICA NÃO FALAR, NÃO SER PROFISSIONAL, NÃO SER LETRADO SER SURDO- -MUDO E NÃO SER HUMANO (SKLIAR, 1997, p. 21). E você, o que pensa a respeito? 2. LÍNGUAS DE SINAIS E LIBRAS A relação entre pensamento e linguagem é discutida desde os tempos mais remotos e, desde então, existe uma forte crença de que a linguagem falada é essencial para o desenvolvimento do pensamento humano. Esse fato é reforçado por pesquisas mais recentes. No século XX, Piaget estabelece que a lin- guagem é responsável pela qualidade de nosso pensamento, pois permite sairmos do estádio das operações concretas e alcançarmos o estádio lógico-formal. Entretanto, antes mesmo da lingua- gem, para esse estudioso, existe uma inteligência prática, característica do sensório motor. Para Vygotsky, a linguagem ocupa um papel essencial na organização das funções superiores, pois exer- ce papel fundamental no desenvolvimento cognitivo dos seres humanos. Mas, por comunicação verbal devemos entender apenas a língua oral? A resposta é não. Verbal vem de verbo, que significa palavra, que, pode ser reproduzida tanto na língua oral, como na de sinais. U N ID A D E 0 2 36 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Esta constatação de que a comunicação espaço-visual se constitui em comunicação verbal tan- to quanto a oral-auditiva é recente. Por muito tempo predominou a crença de que somente a linguagem oral proporcionaria o desenvolvimento cognitivo da pessoa. Em função dessa crença, o surdo, pela sua dificuldade em se expressar oralmente, durante séculos foi considerado incapaz de aprender. Além disso, como a língua de sinais por muitas décadas foi confundida com mímica, era entendida como dependente do mundo concreto, não permitindo a compreensão de conceitos abstratos e, por conseguinte, não se acreditava em suas potencialidades para o desenvolvimento cognitivo dos surdos. Entretanto, a presença de surdos nas instituições escolares inclusivas ou especiais, sendo edu- cados em sua língua natural, tem contribuído muito para desconstruir a imagem de que a surdez compromete o desenvolvimento cognitivo e linguístico do indivíduo. O reconhecimento de que a língua de sinais desempenha para o desenvolvimento cognitivo dos surdos o mesmo papel que a língua oral representa no dos ouvintes trouxe consigo a compreensão de que a criança surda não tem menos possibilidades de desenvolvimento que a criança ouvinte. As possibilidades podem ser diferentes, mas não qualitativamente inferiores. O fato de possuir limitações auditivas não se constituiem impedimento para o ser humano desenvolver sua capacidade de representação e, consequentemente, de adquirir uma língua, lín- gua essa com características não sonoras, ou seja, de natureza visomotora, o que, provavelmente envolve mecanismos mentais, diferentes dos mecanismos mentais da pessoa ouvinte. Sendo a língua de sinais imprescindível para o desenvolvimento cognitivo e social do surdo, “[...] é fundamental que a criança aprenda a língua de sinais bem cedo, pois “pesquisas” têm mostrado O SURDO PODE E DESENVOLVE SUAS HABILIDADES COGNITIVAS E LINGUÍSTICAS (SE NÃO TIVER OUTRO IMPEDIMENTO) AO LHE SER ASSEGURADO O USO DA LÍNGUA DE SINAIS, EM TODOS OS ÂMBITOS SOCIAIS EM QUE TRANSITA. NÃO É A SURDEZ QUE COM- PROMETE O DESENVOLVIMENTO DO SURDO, E SIM A FALTA DE ACESSO A UMA LÍNGUA (GESSER, 2009, p. 76). AS AÇÕES NEGATIVAS QUANTO AO USO DA LÍNGUA DE SINAIS ESTIVERAM E ESTÃO, EM GRANDE MEDIDA, ATRELADAS AOS SEGUIDORES DA FILOSOFIA ORALISTA. MUITOS PESQUISADORES TÊM ABOLIDO A VISÃO EXPOSTA, AO AFIRMAREM JUSTAMENTE O INVERSO: É O NÃO USO DA LÍNGUA DE SINAIS QUE ATRAPALHA O DESENVOLVIMENTO E A APRENDIZAGEM DE OUTRAS LÍNGUAS PELO SURDO. CON- SIDERANDO-SE QUE A RELAÇÃO DO INDIVÍDUO SURDO PROFUNDO COM A LÍNGUA ORAL É DE OUTRA ORDEM (DADO QUE NÃO OUVEM!), A INCORPORAÇÃO DA LÍNGUA DE SINAIS É IMPRESCINDÍVEL PARA ASSEGURAR CONDIÇÕES MAIS PROPÍCIAS NAS RELAÇÕES INTRA E INTERPESSOAIS QUE, POR SUA VEZ, CONSTITUEM O FUNCIONA- MENTO DAS ESFERAS COGNITIVAS, AFETIVAS E SOCIAIS DOS SERES HUMANOS (GESSER, 2009, p. 59). U N ID A D E 0 2 37 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S que, quando a criança surda adquire linguagem desde bem pequena, o seu desempenho escolar será equivalente ao de crianças ouvintes” (REILY, 2004, p. 123). Portanto, é indispensável que a família esteja completamente envolvida neste processo, que seus elementos se disponham a fazer parte da comunidade surda. 2.1 LIBRAS É LÍNGUA Embora mais de cinquenta anos tenham passado desde que a língua de sinais é mundialmente reconhecida, do ponto de vista linguístico, como uma verdadeira língua, no Brasil, mesmo após a promulgação da Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que reconhece a Libras como meio legal de comunicação no Brasil, ainda é necessário afirmar e reafirmar esta legitimidade. Mas, porque insistir tanto nesta questão, ou seja, a de que a Libras é uma língua? Afinal, o que isso significa? Língua e linguagem é a mesma coisa? O surdo “fala” em Libras? De acordo com Bastos e Candiotto (2007, p. 15), a linguagem é a capacidade do ser humano de comunicar-se com os semelhantes por meio de signos. É ao mesmo tempo física, psicológica e social e é realizada sempre dentro do âmbito de uma língua, “inseparável de um contexto cultu- ral específico, particular, de uma comunidade linguística”. “A fala é o exercício material da língua levado a cabo por este ou aquele indivíduo pertencente a uma comunidade linguística específica” (BASTOS; CANDIOTTO, 2007, p. 15). Considerando então só o que estabelecemos anteriormente, acerca de linguagem, língua e fala, podemos assumir que a Libras é uma língua, porque permite que uma comunidade linguística particular, a comunidade surda, exerça sua capacidade de comunicação. Mas, podemos avançar ainda mais e admitir que o surdo fala, considerando que a fala é o modo de um elemento de uma comunidade linguística exercitar sua língua, ou seja, surdo fala em Libras. “LIBRAS É LÍNGUA”. FOI ESTE O TÍTULO ESCOLHIDO PARA A PALESTRA APRESENTADA POR UMA LINGUISTA EM UM EVENTO CUJO PÚBLICO ALVO ERA O ESTUDANTE DO CURSO DE LETRAS. UMA PROFESSORA QUE TRABALHA NA ÁREA DA SURDEZ, MENCIONANDO O TÍTULO, FEZ O SEGUINTE COMENTÁRIO: “DE NOVO? ACHEI QUE ESSA QUESTÃO JÁ ESTIVESSE RESOLVIDA!” (GESSER, 2009, p. 9). POR LINGUAGEM, DESIGNAMOS O SISTEMA ABSTRATO, ARTICULADO, FENÔMENO UNIVERSAL, INDEPENDENTEMENTE DA SITUAÇÃO CULTURAL, QUE DIFERENCIA O SER HUMANO DAS DEMAIS ESPÉCIES. CHAMAMOS DE LÍNGUA, AO SISTEMA ABSTRATO, ARTI- CULADO UTILIZADO POR UM GRUPO OU UMA COMUNIDADE ESPECÍFICA, POR EXEMPLO, A LÍNGUA PORTUGUESA. O MODO PARTICULAR E INDIVIDUALIZADO DE EXERCITAR A LÍNGUA É O QUE DENOMINAMOS DE FALA (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 82). U N ID A D E 0 2 38 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Obviamente não são encadeamentos simples de ideias como esses que permitiram afirmar, em bases científicas, que a Libras é uma língua. O reconhecimento linguístico das línguas de sinais de- ve-se ao trabalho pioneiro do linguista americano William Stokoe em 1960. Antes dos estudos des- critivos realizados por ele acerca da American Sign Language (ASL), a língua de sinais norte ame- ricana, nenhuma língua de sinais era considerada uma língua verdadeira, com gramática própria. Em 1870, Alexander Graham Bell iniciou uma “verdadeira cruzada” contra as Línguas de Sinais, argumentando que elas não proporcionavam o desenvolvimento intelectual dos surdos. Além dis- so, criticava as escolas especializadas, sob a alegação de que promoviam o isolamento dos surdos. Ele publicou vários artigos defendendo suas ideias e foi fundamental para a proibição das Línguas de Sinais pelo Congresso de Milão, em 1880. No Brasil, em 1957, o INES proibiu oficialmente o uso das Línguas de Sinais nas salas de aula, mas os alunos continuaram utilizando essa forma de comunicação, escondido dos professores e funcionários. Com base nesses estudos, podemos afirmar que, além de proporcionar a comunicação efetiva entre os surdos, a língua de sinais possibilita a expressão de sentimentos, a composição de poesias, a discussão filosófica, pois se trata de um idioma completo. Porém, talvez, principalmente devido as suas características icônicas (uma representação da realidade, por ícones) e à forte influência da língua oral, tanto na estrutura gramatical quanto lexical, há muitas interpretações equivocadas sobre as Línguas de Sinais, em geral, e sobre a Libras, em particular. 2.2 MITOS E CRENÇAS SOBRE AS LÍNGUAS DE SINAIS E A LIBRAS Mesmo com a adoção da abordagem educacional bilíngue nas escolas inclusivas para surdos, ainda é grande o desconhecimento acerca dessa realidade linguística tanto daqueles que convi- vem de perto com a surdez, quanto da sociedade ouvinte em geral. Esse desconhecimento está explicitamente expresso em textos como os de Gesser (2009), Reily (2004) e Pereira et al. (2011), quando essas autoras abordam mitos e crenças sobre as línguas de sinais. Acrescentando nossas reflexões, tratamos aqui, sustentadas nos autores anteriores de discutirmos tais crenças, mitos ou simplesmente dúvidas sobre a Libras. 2.2.1 OS SINAIS SÃO GESTOS? Por serem produzidos envolvendo movimento, sempre acompanhados de variadas expressões faciais, para o leigo, os sinais podem ser confundidos com “gestos”. De acordo com Pereira et al. (2001, p. 18), esta descrição para sinais seria equivalente a descrever uma língua oral como “ruí- CONTA A HISTÓRIA QUE A LÍNGUA DE SINAIS NO BRASIL SOBREVIVEU PRINCI- PALMENTE GRAÇAS A ESSES SURDOS QUE ESTUDAVAM NO INES EM REGIME DE INTERNATO. AS CONVERSAS EM LIBRAS SÓ ERAM POSSÍVEIS LONGE DOS OLHOS DE PROFESSORES E VIGILANTES, À NOITE, À LUZ DE VELAS, EMBAIXO DAS CAMAS E DAS MESAS, NOS REFEITÓRIOS, BANHEIROS OU CORREDORES (REVISTA DA FENEIS, 2011, p. 13). U N ID A D E 0 2 39 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S dos” feitos com a boca. Além disso, os gestos acompanham a fala oral favorecendo a comunicação e, se realizados isoladamente da expressão oral, não possuem nenhum significado. Os sinais, por sua vez, possuem significado por si só e obedecem a regras de produção para combinar, simulta- neamente, configuração de mãos, ponto de articulação ou localização, movimento, orientação das palmas das mãos e componentes não manuais, que são os parâmetros constituintes da língua de sinais, conforme veremos adiante. 2.2.2 A LÍNGUA DE SINAIS É ICÔNICA? Apesar de grande parte dos sinais sejam icônicos, isto é, são parecidoscom o que estão re- presentando (o que poderia significar que a língua de sinais não seria arbitrária e resultante de convenção, como as línguas orais, em que não existe uma relação de semelhança entre a palavra e o conceito que representa), não podemos afirmar que a língua de sinais seja icônica, pois apesar da relação direta, quase transparente entre um sinal e o conceito que este representa, as modifi- cações por eles sofridas ao longo do tempo e na combinação com outros sinais se tornando arbi- trários e portanto, perdendo sua iconicidade. 2.2.3 A LÍNGUA DE SINAIS TEM GRAMÁTICA? Esta questão tem origem no fato de que, antes das pesquisas pioneiras de Stokoe na década de 1960, de acordo com Sacks (1990), a língua de sinais não eram vistas, nem mesmo por seus usuários, como uma língua verdadeira, com gramática própria. Com o reconhecimento linguístico efetivado por Stokoe, ficou comprovado que a língua de sinais possuem sua gramática própria, isto é, um conjunto de regras que é partilhado por todos seus usuários e que permite a expressão de qualquer ideia. Porém, como as línguas de sinais adotam sinais icônicos, fazem uso do espaço e do corpo, particularmente das expressões faciais, muitos as consideram como mímica. Além disso, como a língua de sinais não apresentam preposições, artigos, flexões e possui pou- cas conjunções, ela também é considerada uma língua limitada, empobrecida, se comparada à língua oral. Isto revela um total desconhecimento, pois pelo uso do espaço é possível expressar as mesmas relações que, por exemplo, as preposições na língua oral, ou seja, a língua de sinais utiliza recursos diferentes para expressar as mesmas ideias. Também a língua de sinais não tem limites para expressar quaisquer conceitos. Além de possuir gramática própria, a Libras se estrutura nos mesmos níveis das línguas orais, a saber: fonológico, morfológico, sintático e semântico. 2.2.4 A LÍNGUA DE SINAIS É MÍMICA? Para demonstrar que a língua de sinais não é mímica, foram realizadas diversas pesquisas em que pessoas usavam gestos para demonstrar algumas palavras, sem que tivessem conhecimento da língua de sinais. A principal constatação foi a utilização de mímicas muito mais detalhadas do que os sinais que as representavam. “A pantomima quer fazer com que você veja “o objeto”, enquanto o sinal quer fazer com que você veja o símbolo convencionado para esse objeto” (GESSER, 2009, p. 21). 2.2.5 A LÍNGUA DE SINAIS É O ALFABETO DIGITAL? Chegamos a outra constatação importante, a de que a língua de sinais não é o alfabeto digital. U N ID A D E 0 2 40 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S O alfabeto digital é um recurso utilizado pelos surdos sinalizadores para soletrar manualmente as palavras (soletração e datilologia), desempenhando importante papel na comunicação entre surdos sinalizadores, constituindo um código para a representação manual das letras alfabéticas. Detalhe importante: a soletração só é possível entre interlocutores alfabetizados. O alfabeto digital da Libras não é o mesmo que é utilizado pelos surdos-cegos que precisam pegar na mão do interlocutor para nela produzir o sinal. 2.2.6 A LÍNGUA DE SINAIS É ARTIFICIAL? Outro aspecto que abordamos e para isso recorremos a Vygotsky, foi o de que a comunicação manual é algo inerente ao ser humano e já existia entre os hominídeos pré-históricos, sendo, por- tanto, natural. De acordo com Nogueira, Carneiro e Nogueira (2012) uma língua é artificial, quan- do é construída por um indivíduo ou grupo de indivíduos com algum propósito. Como exemplo podemos citar o Esperanto, língua criada, em 1887, pelo russo Ludwik Zamenhof que queria criar uma forma simples de comunicação universal. Inspirada no Esperanto, linguistas e surdos criaram o Gestuno, com a pretensão de se constituir em uma língua de sinais universal. O Gestuno foi ofi- cialmente apresentado, pela primeira vez em 1951, no Congresso Mundial da Federação Mundial dos Surdos, mas que não conseguiu aceitação plena entre os surdos, por ser inventada. Portanto, a língua de sinais não é artificial! A língua de sinais que conhecemos hoje no Brasil, utilizada pelos surdos, teve origem na sistemati- zação realizada por religiosos franceses, desenvolvida particularmente pelo abade l’Épée, o primeiro a reconhecer a necessidade de usar sinais como ponto de partida para o ensino, a partir de 1760. A sistematização dos “sinais metódicos” e as técnicas utilizadas por l’Épée na educação de sur- dos eram apresentadas em reuniões, além da publicação de um livro, em 1776, de maneira que co- nhecemos bem tanto seus métodos, quanto os resultados por eles alcançados, uma vez que seus próprios alunos, muitos dos quais se tornaram professores de outros surdos e ocuparam posições importantes na sociedade, também escreveram diversos livros em que narravam suas dificuldades na socialização decorrentes dos problemas causados pela surdez. 2.2.7 A LÍNGUA DE SINAIS É UNIVERSAL? A língua de sinais não é universal, isto é, existe diferença entre as línguas de sinais utilizadas em países diferentes. No caso do Brasil, a língua brasileira de sinais é denominada Libras e é, por- tanto, brasileira, não podendo ser considerada como uma língua estrangeira. É NESSE SENTIDO QUE AS CRIANÇAS SURDAS, AINDA EM PROCESSO DE ALFABE- TIZAÇÃO DA ESCRITA ORAL, PODERÃO TER TAMBÉM DIFICULDADE COM ESSA HA- BILIDADE. MAIS UMA PROVA PARA DESCONSTRUIR A CRENÇA DE QUE A LÍNGUA DE SINAIS PUDESSE SER O ALFABETO MANUAL/DATILOLOGIA, AFINAL, PARA SER COM- PREENDIDO E REALIZADO O ABECEDÁRIO PRECISA SER ENSINADO FORMALMENTE (GESSER, 2009, p. 33). U N ID A D E 0 2 41 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S A Libras é considerada uma língua nativa, de falantes nativos e brasileiros, que é utilizada em todo território nacional ao lado da língua oficial – o Português – e ao lado de outras línguas tam- bém praticadas no país, como as diferentes línguas das comunidades indígenas. Assim, a Libras é a língua materna e constitutiva do falante surdo, estruturante do seu inconsciente e de fundamental importância para a construção da sua subjetividade e identidade. Estudos linguísticos desenvolvi- dos por pesquisadores brasileiros confirmam que a Libras é uma língua que, como qualquer outra, tem uma sintaxe, uma semântica, uma morfologia e uma gramática próprias, não se tratando, absolutamente, de um conjunto de gestos, mímica ou de Português sinalizado. Além das características icônicas, alguns preconceitos a respeito das línguas de sinais, como, por exemplo, considerar que a comunicação por gestos é intuitiva e espontânea e, fortalece a ideia de que a língua de sinais deveria ser a mesma para todos os surdos. Ora, primeiro, já mostramos que gestos e sinais são coisas diferentes, com os gestos sendo associados à mímica e, portanto, uma comunicação intuitiva. Já os sinais são símbolos e, portanto, arbitrários, porém convenciona- dos pelos seus usuários. Entretanto, quando surdos de diferentes nacionalidades se encontram, mesmo não um não co- nhecendo a língua de sinais do outro, acabam se comunicando com mais facilidade que os ouvintes. Isso se deve, de acordo com Felipe (2009, p. 20), “[...] à capacidade que as pessoas surdas têm em desenvolver e aproveitar gestos e pantomimas para a comunicação e estarem atentos às ex- pressões faciais e corporais das pessoas”. Outra coisa que facilita essa comunicação é o fato dessas línguas terem muitos sinais que se assemelham às coisas representadas. 2.2.8 AS LÍNGUAS DE SINAIS SÃO DEPENDENTES DAS LÍNGUAS ORAIS? Os linguistas que estudaram as línguas de sinais de diferentes países concluíram embora haja semelhanças entre as línguas de sinais e as orais - os chamados “universais linguísticos” -, que per- mitem identificá-las como línguas e não linguagens, como as utilizadas pelos animais em suas comu- nicações, elas apresentam diferenças consideráveis entre si e, que essas diferenças não dependem das línguas orais utilizadasnesses países. Por exemplo: Brasil e Portugal possuem a mesma língua oral oficial, o português, mas as línguas de sinais destes países são muito diferentes. A mesma coisa acon- tece com os Estados Unidos e a Inglaterra. Isto significa que a língua de sinais não é subordinada à lín- gua oral majoritária do país. As línguas de sinais são completamente independentes das línguas orais dos países em que são produzidas. Também acontece que países diferentes usem a mesma língua de sinais, como é o caso da língua de sinais americana que é utilizada pelos Estados Unidos e Canadá. Da mesma forma que acontece com as línguas orais que possuem as mesmas raízes, como, por exemplo, o Português, o Espanhol e o Italiano, existem correspondências entre as línguas de sinais de diferentes países. A Libras e a Língua Americana de Sinais (ASL) possuem as mesmas raízes, pois são derivadas da LSF – Língua de Sinais Francesa. 2.2.9 AS LÍNGUAS DE SINAIS SÃO EXCLUSIVIDADE DOS SURDOS? Outro aspecto que já abordamos anteriormente é o de que as línguas de sinais não são exclusi- vidade dos surdos. Reily (2004) defende que ouvintes que apresentam distúrbios de fala deveriam se apropriar da língua de sinais. Afinal, em diferentes situações, sempre que existe necessidade, U N ID A D E 0 2 42 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S como no caso dos monges, dos mergulhadores ou dos índios americanos, o ser humano tem capa- cidade para encontrar diferentes formas de comunicação para estabelecer interações com outros seres humanos e, até mesmo, com outros animais, particularmente, os animais domésticos. 2.2.10 O QUE É UM TRADUTOR E INTÉRPRETE DE LIBRAS E LÍNGUA PORTUGUESA (TILS)? Um intérprete é o profissional que sendo fluente em duas línguas é capaz de realizar a inter- pretação simultânea (em tempo real) ou consecutiva (com pequeno intervalo) de uma língua para outra. No caso do TILS, esta interpretação (simultânea ou consecutiva) é realizada da Libras para o Português ou deste para a Libras. A tradução envolve a modalidade escrita de pelo menos uma das línguas envolvidas no processo. A ação de interpretar, quaisquer que sejam os idiomas envolvidos, requer deste profissional mais do que a fluência em ambas as línguas, pois sua atuação profissional acontece na interação com outros sujeitos. No caso específico do TILS, as relações estabelecidas com surdos e ouvintes, muitas vezes extrapolam o caráter interpessoal e profissional da sua atuação, que deveria estar restrita, unicamente a mediar a comunicação. Entretanto, muitas vezes, o intérprete, em especial o educacional, pode ser a única pessoa com quem a criança surda, filha de pais ouvintes, consegue se comunicar, de maneira que vínculos afetivos são estabelecidos. Dessa forma, cabe ao TILS ser discreto, ético, guardar sigilo das conversas por ele mediadas, não emitir sua opinião pessoal, a menos que seja solicitada, mas, principalmente, ser fiel à mensagem interpretada, preservar a intenção de quem a está enviando. Os surdos brasileiros garantem condições especiais de participação no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem em Libras – De acordo com o Ministério da Educação, o selo “ENEM em Libras” foi criado para identificar tudo que o Inep disponibiliza em Libras, seguindo os pressupos- tos da Política de Acessibilidade e Inclusão do Inep. Com o “Enem em Libras” o candidato surdo tem acesso a todo conteúdo produzido pelo Inep referente ao Enem, em Libras, como editais, videoprovas, cartilhas e campanhas de comunicação, tornando o Enem mais acessível. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), organizador do ENEM, oferece: 1. Cartilha do Participante – Redação no Enem, material que esclarece, para todos os participan- tes, surdos ou não, a metodologia e as competências avaliadas no texto, traduzida para Libras. A cartilha em Libras de 2019 pode ser acessada no canal do Inep, no YouTube. Na página, já estão disponíveis os vídeos das edições passada. 2. Videoprova – A videoprova atende às necessidades dos participantes com deficiência auditiva e surdez que utilizam Libras como primeira língua. Desde 2017, o Inep passou a oferecer este forma- to de exame e, em 2018, aprimorou a ferramenta, lançando a Plataforma Videoprova em Libras. Nela, os participantes encontram os enunciados das questões e opções de respostas, em vídeo, além dos gabaritos, o que permite aos participantes estudar os conteúdos por meio de materiais com o mesmo formato da aplicação. 3. Tempo extra: os participantes da videoprova que tiveram o atendimento especializado em Libras aprovado dispõem de tempo adicional para realizar a avaliação, de até 120 minutos por dia de prova. Fonte: https://www.gov.br/inep/. Acesso em 07 nov. 2019. SAIBA MAIS U N ID A D E 0 2 43 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S TÍTULO: Libras: conhecimento além dos sinais AUTORES: Maria Cristina da Cunha Pereira; Daniel Choi; Maria Inês Vieira; Priscilla Gaspar; Ricardo Nakasato. EDITORA: Pearson SINOPSE: O livro apresenta a Libras em seus aspectos gerais e lin- guísticos, mas, seguindo a concepção socioantropológica da surdez, aborda de maneira clara, porém sucinta, a história da educação dos surdos, sua cultura e sua comunidade, destacando a importância da língua de sinais para a constituição das identidades surdas. Repleto de ilustrações e com texto claro e dinâmico é especialmente indicado para alunos ouvintes que estão em busca de um co- nhecimento geral do mundo surdo e da Libras. LEITURA Fonte: am azon.com CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta nossa segunda Unidade objetivou desmistificar mitos e crenças que ainda persistem acerca dos surdos, da surdez, das línguas de sinais em geral e, em particular, da Libras. Para isso, no caso do surdo e da surdez, iniciamos abordando desde a terminologia adequada até a discussão a respeito do Implante Coclear. A visão por nós adotada nesta disciplina é a decor- rente do modelo socioantropológico de deficiência, mais particularmente, a que entende que pes- soas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, men- tal, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. Nesta concepção, o surdo não apresenta, por exemplo, problemas de comunicação. Afinal, quando ele está imerso em um ambiente linguístico favorável, ou seja, em que as pessoas ao seu redor, surdas ou ouvintes, são sinalizantes (utilizam a língua de sinais), a comunicação flui normal- mente. A dificuldade por ele enfrentada, advém do fato de que as pessoas ouvintes, no caso do Brasil, não sabem Libras. Desta forma, o problema não está no surdo, mas no seu entorno, o que deixa explícita a concepção de surdez como diferença linguística. Procuramos desconstruir também, equívocos acerca das línguas de sinais em geral, e da Libras em particular e terminamos, mostrando em nosso Saiba Mais, que o reconhecimento da diferença linguística do surdo está alcançando cada vez mais espaços, como as conquistas da comunidade surda em relação a provas e concursos públicos, como por exemplo, o ENEM. Agora que você já foi apresentado ao mundo surdo e já derrubou concepções equivocadas sobre a Libras, as duas próximas Unidades tratam especificamente desta língua, em seus aspectos linguísticos. U N ID A D E 0 2 44 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S ANOTAÇÕES UNIDADE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM VÍDEOS DA UNIDADE https://qr.page/g/1eSx8yr7KSM https://qr.page/g/1CDsDjYEoeg https://qr.page/g/hdEwsXgY0K 03 ASPECTOS FONOLÓGICOS DA LIBRAS » Compreender a Libras em seus aspectos gerais e fonológicos; » Contribuir para a inclusão social e educacional do surdo; » Promover a difusão da Libras. U N ID A D E 0 3 46 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S INTRODUÇÃO Na Unidade II procuramos desvelarmitos e crenças acerca da surdez, dos surdos, das línguas de sinais em geral e da Libras em particular, de maneira que você já conhece algumas de suas principais características como, por exemplo, que possuem gramática própria; que cada país tem sua própria língua de sinais; que elas não são dependentes das línguas orais dos países de origem. Você também ficou sabendo que, assim como os ouvintes, os surdos precisam adquirir sua língua de maneira natural, imerso em um ambiente linguístico que lhe seja favorável. Outro aspecto muito importante é que a estrutura gramatical da Libras é completamente diferente da sintaxe da Língua Portuguesa, entretanto, existem semelhanças entre elas, os chamados “universais linguísticos”. Nesta nossa terceira Unidade, vamos estabelecer paralelos entre a Libras e a Língua Portuguesa, isto é, vamos determinar suas semelhanças e diferenças, que são estabelecidas mediante estudos sustentados na Linguística Contrastiva, que é uma parte da Linguística que estuda as diferenças e similaridades mediante a comparação entre duas línguas. Além de estabelecer os paralelos entre a Libras e a Língua Portuguesa, vamos começar efetiva- mente o estudo da Libras, pelos seus aspectos fonológicos. Bons estudos! 1. PARALELOS ENTRE A LIBRAS E A LÍNGUA PORTUGUESA Para ser possível os estudos que acabaram por conferir status linguístico às Línguas de Sinais, foram realizados estudos comparativos entre elas e as línguas orais. Entretanto, a comparação entre línguas podem ser feitas, entre línguas de mesma modalidade, ou seja, quando ambas são orais ou ambas são de sinais. O que se busca ao comparar duas línguas são as semelhanças e as diferenças entre elas. Com base então, na linguística contrastiva, alguns pressupostos podem ser assumidos ao se comparar duas línguas, que, segundo Nogueira, Carneiro e Soares (2018, p. 87) são: A) QUE EXISTEM ALGUNS ASPECTOS QUE ESTÃO PRESENTES NA BASE DE TODAS AS LÍNGUAS NATURAIS, CONSIDERADAS SIMILARIDADES COMPORTAMENTAIS QUE NÃO PRECISAM SER EXPLICITADOS. B) QUE SE DUAS LÍNGUAS TEM MUITAS SIMILARIDADES TIPOLÓGICAS, ESTAS PODE- RÃO SERVIR DE BASE PARA AS PRIMEIRAS IDEIAS SOBRE O SIGNIFICADO DAS FORMAS EM LÍNGUA ESTRANGEIRA; COMO, POR EXEMPLO, O PORTUGUÊS E O ESPANHOL. SE VOCÊ CONHECE BEM O PORTUGUÊS, POSSUI UM VASTO VOCABU- LÁRIO, CERTAMENTE VOCÊ TERÁ FACILIDADES PARA COMPREENDER O ESPANHOL. Continua > U N ID A D E 0 3 47 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S C) QUANTO ÀS DIFERENÇAS, SE ELAS ACONTECEM SEMPRE NAS MESMAS COISAS – POR EXEMPLO, INGLÊS QUASE NÃO TEM MASCULINO E FEMININO E PORTUGUÊS QUASE SEMPRE TEM ENTÃO SABER NO QUE AS LÍNGUAS SÃO DIFERENTES AJUDA A ENTENDER MELHOR A LÍNGUA ESTRANGEIRA. Continuação > As linguistas e professoras pesquisadoras Lucinda Ferreira Brito, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Tanya Mara Felipe, da Universidade federal de Pernambuco, foram responsáveis pe- los primeiros estudos sobre a língua de sinais dos surdos brasileiros, a Libras, na década de 1980, contando com a colaboração dos surdos e técnicos da FENEIS – Federação Nacional de Escolas e Instituições de Surdos, entidade representativa máxima dos surdos brasileiros. Conforme já estabelecemos em nossa Unidade II, os estudos que levaram à conclusão de que o código de comunicação utilizando sinais se constituem em um verdadeiro idioma, daí serem de- nominados por “línguas de sinais”, se sustentaram na linguística contrastiva, comparando sempre duas línguas. Os estudos linguísticos sobre a Libras também se fundamentaram na comparação entre ela e a Língua Portuguesa. Mas, o que é Linguística? Linguística é “[...] o estudo científico das línguas naturais e humanas. As línguas naturais podem ser entendidas como arbitrária e/ou como algo que nasce com o ho- mem” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 15). De acordo com Nogueira, Carneiro e Soares (2018, p. 83): Dentre esses diferentes níveis de comparação, consideramos neste texto somente o fonológico, o morfológico e o sintático. » Fonológico: estuda a menor unidade distintiva da palavra, no caso das línguas orais, o som de uma única letra, que recebe o nome de fonema. Os fonemas não possuem significado isoladamente. Exemplo: na palavra fala, a letra f, sozinha não possui significado e constitui o fonema /f/ (lê-se fê). » Morfológico: estuda como os fonemas se combinam para construir uma palavra, ou seja, a es- trutura interna das palavras, a partir também, de uma unidade mínima, o morfema que é o que atribui significado à palavra e é considerada então, a unidade mínima significativa. Por exemplo as palavras: fal/a; fal/ei; fal/amos; fal/ante; fal/atório; fal/ação tem a identidade de significado devido ao morfema fal/, que é igual em todas as palavras citadas. A Morfologia (área da Linguís- A PARTE DA LINGUÍSTICA QUE FAZ A COMPARAÇÃO ENTRE DUAS OU MAIS LÍNGUAS CHAMA-SE LINGUÍSTICA CONTRASTIVA. A LINGUÍSTICA CONTRASTIVA É UMA PARTE DA LINGUÍSTICA GERAL, QUE ESTUDA AS SIMILARIDADES (COISAS PARECIDAS) E DIFERENÇAS ESTRUTURAIS ENTRE A LÍNGUA MATERNA (DE UM GRUPO DE ALUNOS) E UMA LÍNGUA ESTRANGEIRA. ESSA COMPARAÇÃO É FEITA EM DIFERENTES NÍVEIS DE ARTICULAÇÃO DA LINGUAGEM. U N ID A D E 0 3 48 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S tica) estuda, ainda, a “[...] origem das palavras, apresentando-se a seguinte questão: Como as palavras são criadas?” (QUADROS, KARNOPP, 2004, p. 16 e 20). » Sintático: estuda como as palavras são organizadas numa frase. Nogueira, Carneiro e Soares (2018, p. 84), considerando principalmente os estudos linguísticos realizados por Quadros e Karnopp (2004), apresentam os paralelos estabelecidos entre a Língua Portuguesa e em Libras, destacando dez diferenças e, dentre essas, trazemos aqui as cinco mais relevantes e que não exigem conhecimento linguístico apurado para compreendê-las: Ainda Nogueira, Carneiro e Soares (2018, p. 84-85), sustentadas em Quadros e Karnopp (2004), apresentam também dez semelhanças entre a Libras e a Língua Portuguesa e, da mesma forma que no caso das diferenças, destacamos aqui, cinco dentre elas: (1) A LÍNGUA DE SINAIS É VISUAL-ESPACIAL E A LÍNGUA PORTUGUESA É ORAL-AUDITIVA. (2) A LÍNGUA DE SINAIS NÃO TEM MARCAÇÃO DE GÊNERO, ISTO É, NÃO TEM SINAIS DI- FERENTES PARA FEMININO E MASCULINO, ENQUANTO QUE NA LÍNGUA PORTUGUESA O GÊNERO É MARCADO A PONTO DE SER REDUNDANTE POR EXEMPLO, NA FRASE A MULHER É PROFESSORA, O FEMININO É UTILIZADO DIVERSAS VEZES, O QUE NÃO ERA NECESSÁRIO PARA SE ENTENDER. (3) A LÍNGUA DE SINAIS ATRIBUI UM VALOR GRAMATICAL ÀS EXPRESSÕES FACIAIS. AS EXPRESSÕES FACIAIS NÃO SÃO ESSENCIAIS NA LÍNGUA PORTUGUESA, APESAR DE PODEREM SER SUBSTITUÍDAS PELA PROSÓDIA, QUE SIGNIFICA A PRONÚNCIA COR- RETA DAS PALAVRAS COM ACENTUAÇÃO OU INTENSIDADE. (4) A LÍNGUA DE SINAIS UTILIZA AS REFERÊNCIAS ANAFÓRICAS, ISTO É, SOBRE QUEM SE ESTÁ FALANDO, MOSTRANDO OU INDICANDO PONTOS ESPECÍFICOS NO ESPAÇO, O QUE EXCLUI AMBIGUIDADES QUE SÃO POSSÍVEIS NA LÍNGUA PORTUGUESA. A LÍNGUA DE SINAIS USA APONTAMENTOS PARA INDICAR UM REFERENTE E ISSO NÃO CRIA AMBIGUIDADES COMO NA LÍNGUA PORTUGUESA. (5) A ESCRITA DA LÍNGUA DE SINAIS, DENOMINADA SIGNWRITING, NÃO É ALFABÉTICA. 1. ARBITRARIEDADE: AS LÍNGUAS ORAIS SÃO MAIORITARIAMENTE ARBITRÁRIAS, NÃO SE DEPREENDE A PALAVRA SIMPLESMENTE PELO SUA REPRESENTATIVIDADE, MAS É NE- CESSÁRIO CONHECER O SEU SIGNIFICADO. A ICONICIDADE ENCONTRA-SE PRESENTE NAS LÍNGUAS DE SINAIS, MAIS DO QUE NAS ORAIS, MAS A SUA ARBITRARIEDADE CON- TINUA A SER DOMINANTE. EMBORA, NAS LÍNGUAS DE SINAIS, ALGUNS SINAIS SEJAM TOTALMENTE ICÓNICOS, É IMPOSSÍVEL, COMO NAS LÍNGUAS ORAIS, DEPREENDER O SIGNIFICADO DA GRANDE MAIORIA DOS SINAIS, APENAS PELA SUA REPRESENTAÇÃO. 2. COMUNIDADE: AS LÍNGUAS ORAIS TÊM UMA COMUNIDADE QUE AS ADQUIREM, COMO LÍNGUA MATERNA, CUJO DESENVOLVIMENTO SE FAZ ATRAVÉS DE UMA COMUNIDADE DE ORIGEM, PASSANDO PELA FAMÍLIA, A ESCOLA E AS ASSOCIAÇÕES. TODAS AS LÍN- GUAS ORAIS TÊM VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS. TODAS AS LÍNGUAS DE SINAIS POSSUEMESTAS MESMAS CARACTERÍSTICAS. Continua > U N ID A D E 0 3 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S 3. SISTEMA LINGUÍSTICO: AS LÍNGUAS ORAIS SÃO SISTEMAS REGIDOS POR REGRAS. O MESMO ACONTECE COM AS LÍNGUAS DE SINAIS. 4. ASPECTOS CONTRASTIVOS: AS LÍNGUAS ORAIS POSSUEM ASPECTOS CONTRASTI- VOS, ISTO É, AS UNIDADES FONOLÓGICAS DO SISTEMA DE DETERMINADA LÍNGUA ESTABELECEM-SE POR OPOSIÇÕES CONTRASTIVAS, OU SEJA, EM PARES DE PALAVRAS, EM QUE A SUBSTITUIÇÃO DE UMA UNIDADE FONOLÓGICA (UMA LETRA) POR OUTRA ALTERA O SIGNIFICADO DA PALAVRA (POR EXEMPLO: PARRA E BARRA). ACONTECE O MESMO NAS LÍNGUAS DE SINAIS, SENDO QUE EM VEZ DE UNIDADE FONOLÓGICA, MUDA UM PEQUENO ASPECTO DO SINAL. 5. AQUISIÇÃO: A AQUISIÇÃO DE QUALQUER LÍNGUA ORAL É NATURAL, DESDE QUE HAJA UM AMBIENTE PROPÍCIO DESDE NASCENÇA. NA LÍNGUA DE SINAIS ACONTECE DA MESMA FORMA, NÃO TENDO O SURDO QUE EXERCER ESFORÇO PARA APRENDER UMA LÍNGUA DE SINAIS, OU NECESSIDADE DE QUALQUER PREPARAÇÃO ESPECIAL. Continuação > Os paralelos estabelecidos entre a Libras e a Língua Portuguesa, e os aspectos gerais da Libras, que estudamos na Unidade II, quando buscamos desmistificar crenças a respeito da língua de si- nais do surdo brasileiro nos permitem fazer os seguintes destaques, sempre considerando a com- paração com a Língua Portuguesa. São eles: » A Libras e a Língua Portuguesa são igualmente naturais, e complexas. A Libras, a exemplo da Lín- gua Portuguesa dispõe de recursos expressivos que possibilitam aos seus usários exprimirem-se sobre qualquer assunto, tema, situação, domínio de conhecimento etc.; » Diferentemente da Língua Portuguesa oral, que é uma língua de modalidade oral-auditiva, ou seja, a informação linguística é produzida pela voz e recebida pela audição. A Libras é visuoes- pacial ou visomotora, ou seja, para enviar uma mensagem o emissor utiliza as mãos, se movi- mentando no espaço e o receptor, para receber esta mensagem utiliza a visão, de maneira que esta língua também é denomidada espaço-visual; » A Libras é falada de boca fechada! Quando se sinaliza ao mesmo tempo em que se expressa oralmente está sendo utilizado o que é denominado de bimodalismo, ou seja, o exercício si- multâneo de duas línguas de modalidades diferentes. De maneira geral, acaba-se realizando o Português Sinalizado que é utilizar os sinais da língua de sinais, mas com sintaxe da Língua Por- tuguesa, dificultando a compreensão dos surdos não fluentes na Língua Portuguesa, pois “[...] a construção de sentido depende da estrutura e, portanto, da fidelidade à gramática da língua de sinais” (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 87). 49 Fo nt e: S hu tt er st oc k (2 01 9) . U N ID A D E 0 3 50 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Em uma de nossas aulas anteriores chamamos sua atenção para que não se deve utilizar a ex- pressão surdo-mudo para se referir à pessoa com surdez. Da mesma forma, é um equívoco dizer LINGUAGEM de sinais. Utilize sempre LÍNGUA de sinais. Mais uma coisa, antes da Lei da Libras, de 2002, se escrevia LIBRAS, com todas as letras maiúsculas indicando a sigla: LI (língua) BRA (brasileira) S (de sinais). Agora, esta palavra foi substantivada e escrevemos simplesmente: Libras ou libras. Essa ênfase em destacar que a Libras é uma língua deve-se ao fato de que mesmo tendo pas- sado mais de cinquenta anos desde que as línguas de sinais adquiriram status linguístico com os estudos de Stokoe, no Brasil, mesmo após a promulgação da Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de 2002, ainda encontramos pessoas formadores de opinião, como jornalistas, médicos e professores se referirem à Libras como “linguagem de sinais”, sendo, portanto necessário afirmar e reafirmar esta legitimidade. Reflita e tire suas conclusões sobre porque isso ainda acontece. “LIBRAS É LÍNGUA”. FOI ESTE O TÍTULO ESCOLHIDO PARA A PALESTRA APRE- SENTADA POR UMA LINGUISTA EM UM EVENTO CUJO PÚBLICO ALVO ERA O ESTUDANTE DO CURSO DE LETRAS. UMA PROFESSORA QUE TRABALHA NA ÁREA DA SURDEZ, MENCIONANDO O TÍTULO, FEZ O SEGUINTE COMENTÁRIO: “DE NOVO? ACHEI QUE ESSA QUESTÃO JÁ ESTIVESSE RESOLVIDA!” (GESSER, 2009, p. 9). REFLITA 2. ASPECTOS FONOLÓGICOS DA LIBRAS Em nosso tópico anterior estabelecemos semelhanças e diferença entre línguas de sinais e lín- guas orais. Aqui, destacamos mais uma e talvez a semelhança mais importante entre elas: “ambas seguem os mesmos princípios pelo fato de possuírem um léxico, isto é, um conjunto de símbolos convencionais, e uma gramática, ou seja, um sistema de regras que rege o uso desses símbolos” (PEREIRA et al., 2011, p. 59). Foi Stokoe, na década de 1960, conforme já comentamos anteriormente, quem primeiro cons- tatou que as línguas de sinais, no caso, a Língua de Sinais Americana – LSA (ou ASL – American Sign Language), possuíam status linguístico por preencher “[...] todos os requisitos linguísticos de uma língua, isto é, possuía um léxico (vocabulário), uma sintaxe (regras gramaticais) e uma capacidade de gerar uma quantidade infinita de sinais e sentenças” (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 88). Também mencionamos anteriormente que os estudos linguísticos realizados pela Linguística Con- trastiva são feitos considerando-se diferentes níveis. Neste tópico, vamos estudar os aspectos fonoló- gicos da Libras e, em seguida, na próxima Unidade trataremos dos aspectos morfológicos e sintáticos. U N ID A D E 0 3 51 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Da mesma forma que as palavras possuem unidades mínimas, que são os fonemas, as línguas de sinais em geral e a Libras em particular também possuem unidades mínimas, que são denomi- nadas por parâmetros. Isto significa que um sinal não é holístico, ele é composto por unidades mínimas, que são produ- zidas simultaneamente e não tem sentido se articuladas de forma isolada. Essas unidades mínimas são denominadas parâmetros. Desta forma, a estrutura da Libras, nos diferentes níveis linguísticos se organiza a partir de cinco pa- râmetros: a Configuração da(s) mão(s) (CM), o Movimento (M), o Ponto de Articulação (PA), a Orien- tação das mãos (OM) e componentes não manuais (CMN), que são as expressões faciais e corporais. 2.1 PARÂMETROS DA LIBRAS As pesquisas mais atuais permitiram considerar ainda, como parâmetro da Língua de Sinais, componentes não manuais, as expressões faciais (movimento de cabeça, olhos, boca, sobrance- lhas, bochechas) e corporais não servem apenas para complementar informações, são elementos gramaticais que compõem a estrutura da língua e são muito utilizadas pelos surdos para produzir informação linguística. A seguir, discorremos mais sobre cada um desses parâmetros: » Configuração de mão (CM): é a principal unidade mínima, a forma assumida pelas mãos na for- mação de um sinal. É considerada o ponto de partida da articulação do sinal. Da mesma forma que um fonema é utilizado na produção de inúmeras palavras com diferentes significados, uma mesma configuração de mão pode estar na produção de vários sinais, por exemplo, a configu- ração mão em “L” está presente nos sinais de “televisão”, “trabalho”, “papel”, “educação”, entre outros. Atualmente, o dicionário digital de Língua Brasileira de Sinais, organizado pela Acessibi- lidade Brasil (disponível em www.acessobrasil.org.br), apresenta 73 configurações. Exemplificamos aqui, as configurações de mão mediante as 28 que compõem o Alfabeto Digital e as referentes aos numerais. ALFABETO A B C Ç D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z ^ ´ ` ~ ! ? U N ID A D E 0 3 52 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S NÚMERO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 0 Ponto de Articulação (PA) ou Localização (L): Esta é a segunda principal unidade mínima e se refere à localização do sinal, ou seja, ao ponto do corpo ou do espaço em que é produzido o sinal. São quatro os pontos de articulação, a saber: tronco, braço e mão (como um único ponto de articula- Apesar de toda a discussão a respeito da Libras como LÍNGUA, ainda existem pessoas que acre- ditamque a Libras se resume a soletrar as palavras utilizando o alfabeto digital. Isto NÃO É VER- DADE. A escrita datilológica, que é como é denominado esse tipo de escrita, só é utilizada para nomes próprios ou para palavras que ainda não possuem um sinal. Exemplo: Maria (escrita ou fala) – M-a-r-i-a (soletração): M A R I A Na necessidade de se utilizar a escrita datilológica é importante formar as palavras com clareza, soletrando devagar e fazendo uma pausa curta entre as palavras soletradas ou mover a mão direita para o lado esquerdo, como se estivesse empurrando a palavra já soletrada para o lado. OS NOMES PODEM SER TRANSMITIDOS POR DATILOLOGIA, QUANDO O SURDO ESTÁ ALFABETIZADO, MAS A COMUNIDADE SURDA PREFERE A PRÁTICA DE ATRIBUIR UM SINAL QUE IDENTIFICA CADA PESSOA. ESSE SINAL ADJETIVA CARACTERÍSTICAS FÍ- SICAS DA PESSOA. POR ISSO, DOIS MENINOS CHAMADOS JONATAS, POR EXEMPLO, PODEM TER SINAIS DIFERENTES UM DO OUTRO, PORQUE UM TEM UMA COVINHA NO QUEIXO E O OUTRO TEM O CABELO ENCARACOLADO. TAMBÉM PODE ACONTECER DE DOIS ALUNOS DE NOMES DIFERENTES TEREM O SINAL PARECIDO (REILY, 2004, p. 132). SAIBA MAIS U N ID A D E 0 3 53 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S ção), cabeça (com subespaços: nariz, boca, olho etc.) e espaço neutro. Por envolverem movimento, ou seja, as mãos podem ir de um ponto de articulação para outro, mas, ainda assim, considera-se como ponto de articulação o local onde o movimento tem início na produção do sinal. “Se dois sinais possuem a mesma configuração de mão e mesmo movimento, mas pontos de articulação diferentes, eles são diferentes, como por exemplo, os sinais para amar, ouvir, aprender e laranja, diferem entre si apenas pelo ponto de articulação” (NOGUEIRA, CARNEIRO, NOGUEIRA, 2012, p. 103). FIGURA 1 – PONTOS DE ARTICULAÇÃO. Fonte: Nogueira, Carneiro e Nogueira (2012, p. 103). Com a mesma configuração de mãos (CM), se alteramos o ponto de articulação (PA), mudamos o significado do sinal. Exemplo: FIGURA 2 – CONFIGURAÇÃO DE MÃOS. CM: – Y Desculpe Telefone Boi Fonte: A autora. U N ID A D E 0 3 54 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Movimento (M): O movimento é a unidade mínima que proporciona o dinamismo a essa língua e envolve desde os movimentos internos das mãos (movimentos dos dedos: abrir, fechar, dobrar, esticar), os movimentos do pulso e os movimentos direcionais no espaço. Em seus estudos, Stokoe identificou, inicialmente, apenas esses três parâmetros (configuração de mãos, ponto de articulação e movimento) de maneira que quando se identificaram os demais parâmetros, a saber: a orientação das mãos (OM) e as componentes não manuais (CMN), foi es- tabelecida uma classificação em que a CM; o PA e o M eram considerados parâmetros primários e OM e CNM, parâmetros secundários. Isto mudou atualmente e não se faz mais esta distinção entre parâmetros primários e secundários. O parâmetro movimento é realizado com muito mais propriedade pelos surdos, na produção de um sinal, isto porque, eles são essencialmente visuais. Mesmo sendo parte integrante e uma unidade mínima de significado importante, de maneira geral, até em função de uma autocensura em relação ao uso do corpo, os ouvintes ao sinalizarem o fazem, normalmente, de maneira mais estática. Os movimentos podem ser classificados de acordo com a direcionalidade, o tipo e a orientação das mãos. Quanto à direcionalidade o movimento pode ser: unidirecional (proibir e mandar); bidirecionais (discutir, julgamento) e multidirecionais (incomodar, pesquisar). Em relação ao tipo, os movimentos podem ser: FIGURA 3 – TIPOS DE MOVIMENTOS. RETILÍNEO: TRABALHAR DIRIGIR ANGULAR: DIFÍCIL Continua > U N ID A D E 0 3 55 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S HELICOIDAL: IMPORTANTE SEMICIRCULAR: SURDO SAÚDE CIRCULAR: PEDALAR BRINCAR SINUOSO: NAVIO Fonte: A autora. Os sinais também podem ser realizados sem nenhum movimento, como os exemplos a seguir: Continuação > U N ID A D E 0 3 56 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S FIGURA 4 - SEM MOVIMENTO. AJOELHAR EM PÉ PENSAR Fonte: A autora. Orientação das mãos (OM): até algum tempo atrás, a orientação das mãos era considerada um parâmetro secundário, ou seja, menos importante do que a Configuração de mãos, o ponto de articu- lação e o movimento, que eram considerados parâmetros primários. Todavia, com o aprofundamen- to dos estudos linguísticos foi possível constatar que a direção para a qual a palma da mão aponta na produção do sinal (orientação das mãos) é fundamental para a sintaxe da Libras, pois determina tipos de verbos, negativas etc. São seis as possíveis orientações de mão em Libras: para cima, para baixo, para o corpo, para frente, para a direita e para a esquerda, podendo também, ocorrer a mudança de orientação durante a execução de um sinal, como por exemplo, no sinal para montanha. Observe os exemplos para os sinais de Desculpe e Gostar. Na primeira das fotos, para cada sinal, a orientação das mãos está errada (E). Na segunda está correta (C). Verifique as imagens. FIGURA 5 – ORIENTAÇÃO DAS MÃOS. DESCULPE (E) DESCULPE (C) GOSTAR (E) GOSTAR (C) Fonte: A autora. U N ID A D E 0 3 57 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Componentes ou traços não manuais (CMN): também considerada um parâmetro secundário anteriormente, na produção de um sinal estão também envolvidas componentes não manuais, como o movimento da face, dos olhos, da cabeça (expressão facial) e o movimento do corpo (par- ticularmente do tronco) estabelecem significados aos sinais. Exemplos: FIGURA 6 – EXPRESSÃO FACIAL. SILÊNCIO CALA A BOCA Fonte: A autora. Espaço de Sinalização: Os sinais são executados em Libras dentro de um espaço bem definido, denominado espaço de sinalização, que é fundamental, principalmente pela recepção da infor- mação linguística. Desta forma, o espaço de sinalização é a área que verticalmente vai dos quadris ao topo da cabeça e horizontalmente, pelo contato dos braços ao tronco, como se o sinalizador estivesse delimitado por um quadro, uma janela. Não existe delimitação estabelecida em relação à profundidade, ou seja, o espaço defronte ao sinalizador pois é pela manipulação dos sinais no espaço defronte ao sinalizador que se constitui a sintaxe da Libras. “A informação gramatical se apresenta simultaneamente com o sinal e é produzida por mecanismos espaciais que envolvem dois aspectos: a incorporação e o uso de sinais não manuais” (NOGUEIRA; CARNEIRO; NOGUEIRA, 2012, p. 108). A incorporação, usada, por exemplo, para expressar localização, número, pessoa e como sinais não manuais, são considerados os movimentos do corpo e expressões faciais. A simultaneidade é uma das características mais marcantes da Libras. Isto significa que na pro- dução de um sinal os parâmetros podem ser executados simultaneamente, algo impensável nas línguas orais, considerando-se os fonemas. Porém, da mesma forma que os fonema, nas línguas orais, as unidades mínimas da Libras não têm significado isoladamente. Também, da mesma for- ma que na língua Portuguesa, que, quando se altera somente um fonema, muda o significado da palavra (faca e vaca; bola e mola) a variação de um único parâmetro altera o significado do sinal. Cada sinal, é constituído por mais de uma unidade mínima, executadas simultaneamente, confor- me mostra o sinal de “televisão”, apresentado como exemplo, que envolve, configuração de mão, ponto de articulação, movimento e a orientação de mão. As CMN não estão presentes, uma vez que não há movimento de tronco e a expressão facial é neutra. U N ID A D E 0 3 58 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S FIGURA 7 – SIMULTANEIDADE ENTRE MOVIMENTOS E ORIENTAÇÃO DE MÃOS. TELEVISÃO Fonte: A autora. Conforme foi mencionado anteriormente, com o aprofundamento dos estudos linguísticos a importância da orientação das mãos (OM) foi reconhecida, particularmente na flexão verbal e na marcaçãode negativas, diferenciando o significado de sinais que possuem CM, M e PA iguais, como ajudar e ser ajudado; eu perguntar e me perguntar; eu responder e responder para mim etc. (flexão verbal) e querer e não querer; gostar e não gostar etc. (marcação de negativas). FIGURA 8 – DIFERENÇA DA ORIENTAÇÃO DAS MÃOS. QUER NÃO QUER GOSTAR NÃO GOSTAR Fonte: A autora. U N ID A D E 0 3 59 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Quadros e Karnopp (2004) destacam alguns dos aspectos fonológicos da Língua Brasileira de Sinais: » O aspecto já mencionado anteriormente de que, diferentemente da Língua Portuguesa em que as unidades mínimas (fonemas) são processadas linearmente na produção de uma palavra, as unidades mínimas da Libras (os parâmetros) são processados simultaneamente no espaço; » Na Língua Portuguesa, a emissão de uma palavra, de um único som, é feita mediante o aparelho fonoarticulatório, em que a boca e a língua seriam os articuladores primários. Na Libras, esse papel é desempenhado pelas mãos se movimentando no espaço de sinalização; » As mãos são os articuladores primários das línguas de sinais, porém as componentes não ma- nuais como os movimentos do corpo e as expressões faciais são igualmente importantes na produção de um sinal; » Um mesmo sinal pode ser produzido pela mão esquerda ou direita; » Um sinal pode ser articulado com uma ou com ambas as mãos, sendo que neste último caso, devem ser observadas condições de restrição. Os aspectos fonológicos elencados acima, deixam claro que parâmetros da Libras (executados simultaneamente) são combinados entre si para a produção de um sinal. Ficou estabelecido, tam- bém, que um sinal pode ser produzido, indistintamente, pela mão direita ou esquerda (no caso de sinais produzidos com uma só mão), ou com ambas as mãos. Entretanto, a composição dos parâmetros para a produção de um sinal não é livre, ao contrário segue regras determinadas que limitam a formação de sinais. “Algumas dessas restrições são impostas pelo sistema perceptual (vi- sual) e outras pelo sistema articulatório (fisiologia das mãos)” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 78). As condições de restrição se referem, particularmente, aos sinais produzidos com ambas as mãos, os quais apresentam duas possibilidades: (a) as duas mãos são ativas (se movimentam) e (b) uma mão é ativa (mão dominante) e a outra serve como ponto de articulação e são, de acordo com Quadros e Karnopp (2004, p. 79): Com a apresentação das condições de restrição para a produção de sinais o encerramos o estu- do relacionado à fonologia das línguas de sinais em geral e da Libras em particular. A) CONDIÇÃO DE SIMETRIA: CASO AS DUAS MÃOS SE MOVAM NA PRODUÇÃO DE UM SINAL, ENTÃO DETERMINADAS RESTRIÇÕES APARECEM, A SABER: A CM DEVE SER A MESMA PARA AS DUAS MÃOS, A LOCAÇÃO DE SER A MES- MA OU SIMÉTRICA, E O MOVIMENTO DEVE SER SIMULTÂNEO OU ALTERNADO; B) CONDIÇÃO DE DOMINÂNCIA: SE AS MÃOS APRESENTAM DISTINTAS CM, ENTÃO A MÃO ATIVA PRODUZ O MOVIMENTO, E A MÃO PASSIVA SERVE DE APOIO, APRESENTANDO UM CONJUNTO RESTRITO DE CM (NÃO MARCADAS). Uma observação importante! Se você quiser aprender mais sobre os sinais, consulte o site www. acessobrasil.org.br/libras, que é uma espécie de dicionário virtual da Libras. E o mais importante: COM MOVIMENTO! U N ID A D E 0 3 60 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Um livro importantíssimo para quem quer saber mais sobre surdez, surdos, línguas de sinais e Libras é: Tenho um aluno surdo e agora? Introdução à Libras e educação de Surdos. As organiza- doras são Cristina Broglia Feitosa de Lacerda e Lara Ferreira dos Santos e foi publicado pela editora da Universidade Federal de São Carlos, SP, (EdUFSCAR) em 2013. Sinopse: Ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Educação, este livro reúne texto de autores diversos que atuam na área da surdez, com a intenção de possibilitar uma visão ampla a respeito da surdez, da Libras e da educação de surdos. Confor- me as organizadoras destacam, na contracapa, o objetivo que as orientaram na produção deste livro foi “[...] oferecer um co- nhecimento inicial acerca da educação de surdos e da Libras, bem como dar subsídios para a atuação do professor da edu- cação básica junto a alunos surdos”. Leitura fascinante, fácil e quase que obrigatória aos futuros professores. LEITURA Fonte: docplayer.com .br CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta Unidade talvez seja a que contém maior número de informações desconhecidas por você, dentre as quais, destacamos: A língua de sinais é tão natural e tão complexa quanto as línguas orais, dispondo de recursos expressivos suficientes para permitir aos seus usuários expressar-se sobre qualquer assunto, em qualquer situação, domínio do conhecimento e esfera de atividade. » A Libras é uma língua adaptada à capacidade de expressão dos surdos, devendo, portanto ser conhecida, pelo menos em seus aspectos fundamentais pelos professores; » A Libras é uma língua, com gramática própria e com condições de proporcionar, não apenas a comunicação efetiva entre os surdos, como, também, a expressão de sentimentos; a composi- ção de poesias; a discussão filosófica, enfim, um idioma completo; » As línguas de sinais, por comprovação científica, cumprem todas as funções de uma língua natural, mesmo assim ainda sofrem preconceito e são desvalorizadas diante das línguas orais, sendo consideradas como uma derivação da gestualidade espontânea, como uma mescla de pantomima e sinais icônicos; » A língua de sinais não é subordinada à língua oral majoritária do país. As línguas de sinais são completamente independentes das línguas orais dos países em que são produzidas; » Na sua casa, com a ajuda de um espelho, treine a expressão facial e corporal, isso ajuda muito em Libras. U N ID A D E 0 3 61 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S A recomendação para que você treine a expressão facial e corporal diante do espelho vem do fato que que são vários os desafios para que os ouvintes aprendam Libras, tais como: » Autocensura quanto ao uso do corpo; » Falta de uma metodologia específica fundamentada em pesquisas; ANOTAÇÕES UNIDADE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM VÍDEOS DA UNIDADE https://qr.page/g/3N5H8An2MoW https://qr.page/g/2nASo9fZAUq https://qr.page/g/58JtAbepNTC 04 ASPECTOS MORFOLÓGICOS E SINTÁTICOS DA LIBRAS » Compreender a Libras em seus aspectos morfológicos e sintáticos; » Contribuir com o processo de inclusão da pessoa surda; » Expandir o uso da Libras. U N ID A D E 0 4 63 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S INTRODUÇÃO Com a visibilidade adquirida pelos surdos com a proposta inclusiva e com a adoção do bilinguis- mo, como proposta abordagem educacional, muitas pesquisas sobre as línguas de sinais em geral e a Libras em particular foram e continuam sendo desenvolvidas. Os resultados dessas investiga- ções apontam, dentre outros aspectos, que a língua de sinais é a primeira língua dos surdos (língua natural), denominada de L1 e de como os surdos a adquirem. Também existem variadas pesquisas a respeito do ensino da Língua Portuguesa como segunda língua (L2) para surdos, na modalidade oral ou escrita e até mesmo pesquisas sobre o ensino de uma segunda língua de sinais, como uma língua estrangeira para surdos. Entretanto, o ensino de Libras para ouvintes, de maneira formal e sistematizada é recente em nosso país, pois foi determinado a partir da regulamentação da Lei da Libras, com o Decreto nº 5.626 de 2005, de maneira que ainda existem poucas pesquisas sobre como os ouvintes aprendem Libras, ou seja, como ouvintes, que possuem sua L1 na modalidade oral-auditiva, aprendem uma L2, de natureza visomotora. Desta forma, o que os professores de Libras para ouvintes fazem, é se apoiar nos métodos de ensino para línguas estrangeiras, procurando adaptá-los à situação, o que nem sempre é possível, pois tais métodos consideram que as duas línguas, a L1 e a LE (língua estrangeira) utilizamos mes- mo canais sensoriais para a comunicação. No caso da Libras como L2, que é visomotora, isso não acontece, dificultando o processo. Um exemplo dessas dificuldades se encontra na utilização do corpo. A língua de sinais é uma língua de modalidade espaço-visual e, por ter uma produção manual e uma percepção visual, usa o espaço físico e o próprio corpo do sinalizador para a execução do conteúdo da mensagem visual. A exploração do espaço físico e o uso do próprio corpo são importantes elementos na interação, entretanto, os ouvintes costumam ter dificuldades, em função da autocensura. Dessa forma, si- multaneamente à aprendizagem da Libras, é preciso, diferentemente do caso do estudo de outras línguas orais, serem realizados estudos e discussões a respeito da cultura e da comunidade surda que permitem aos ouvintes compreenderem, gradativamente que os valores da cultura surda são diferentes. Por isso que, o Decreto nº 5.626 recomenda que os professores de Libras sejam, prefe- rencialmente surdos, pois o contato direto dos alunos ouvintes com um membro da comunidade surda favorece à compreensão dos valores culturais surdos. Assim, se você pretende aprender a se comunicar em Libras, o primeiro passo é se libertar da autocensura quanto ao uso do corpo se conscientizando que suas expressões faciais e corporais possuem valor gramatical na Libras. Você precisa ainda ficar atento e observar se as suas configurações de mão estão corretas; cuidar para não tentar transferir as regras do Português para a Libras, porque isso gera regras inadequadas em Libras. Outra coisa, não fique procurando uma explicação lógica ou uma relação icônica para o sinal, porque nem sempre ela existe. Lembre-se, assim como na Língua Portuguesa, na Libras a arbitrariedade para a criação de sinais também existe. U N ID A D E 0 4 64 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Nesta nossa última Unidade, vamos falar de criação de sinais e de algumas regras gramaticais, particularmente em relação aos verbos. Não se esqueça: Libras necessita de muita prática. Portan- to, procure alguém para conversar! 1. ASPECTOS MORFOLÓGICOS DA LIBRAS Na Unidade anterior vimos que os fonemas na Língua Portuguesa e os parâmetros na Libras, não possuem significado isoladamente. A menor unidade mínima de significado de uma palavra ou de um sinal é o morfema, que é o objeto de estudos da Morfologia, parte da linguística definida como “[...] o estudo da estrutura interna das palavras ou dos sinais, assim como das regras que determinam a formação de palavras” ou sinais (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 86). Você já estudou que as línguas de sinais satisfazem todos os requisitos linguísticos de uma lín- gua, a saber: possuem vocabulário estabelecido (léxico); que obedece a regras gramaticais (sinta- xe) e de produção (capacidade de gerar sinais e frases). Os aspectos morfológicos da Libras, tema deste tópico, trata das regras que determinam a geração de sinais. Posteriormente, ainda nesta Unidade, vamos abordar os aspectos sintáticos da Libras, isto é, as regras de produção de frases e sentenças. Uma das formas mais simples de criação de sinais, é o empréstimo lexical ou, ou dito de outra forma, são sinais “emprestados” ou “inspirados” em outra língua, de sinais ou oral. De acordo com Nogueira, Carneiro e Soares (2018, p. 130-131), os empréstimos lexicais em Libras podem ser de três tipos diferentes: Os empréstimos lexicais de soletração manual e os de inicialização demonstram, de forma bem clara, que a Libras é a Língua BRASILEIRA de Sinais, pois, fica evidente a influência das Língua Portu- guesa na produção de sinais. Isto não significa que a Libras seja dependente da Língua Portuguesa, mas de sua influência, da mesma forma que a Língua Portuguesa é influenciada pela língua inglesa na criação de novas palavras (exemplo: deletar). EMPRÉSTIMOS LEXICAIS DE SOLETRAÇÃO MANUAL COMPLETA OU DE PARTE DAS PALAVRAS EM LÍNGUA PORTUGUESA COMO OS SINAIS PARA B-A-R; MÇO (MARÇO); JN (JUNHO); JL (JULHO); EMPRÉSTIMOS DE ITENS LEXICAIS DE OUTRAS LÍNGUAS DE SINAIS, ISTO É, SINAIS DE OUTRAS LÍNGUAS DE SINAIS QUE FORAM AGREGADAS AO LÉXICO DA LIBRAS, COMO O SINAL PARA LARANJA, QUE UTILIZA A CM EM “O” , REFE- RENTE A “ORANGE”, QUE É UM POSSÍVEL EMPRÉSTIMO DA LÍNGUA DE SINAIS AMERICANA – ASL OU DA LÍNGUA DE SINAIS FRANCESA (LSF). EMPRÉSTIMOS LEXICAIS DE INICIALIZAÇÃO: UTILIZAÇÃO DE UMA CM QUE CORRESPONDE, NO ALFABETO MANUAL, À PRIMEIRA LETRA DA PALAVRA EQUI- VALENTE EM LÍNGUA PORTUGUESA. U N ID A D E 0 4 65 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Como exemplos de empréstimos de inicialização, trazemos alguns com as letras “p”e “f”. FIGURA 1 – PALAVRAS COM ‘P’ E ‘F’. P PRESIDENTE PROFESSOR PEDAGOGIA F FUTURO FLOR FERRO Fonte: A autora. Na Unidade anterior, estudamos os paralelos (semelhanças e diferenças) entre a Libras e a Língua Portuguesa. Uma semelhança entre ambas as línguas, é a polissemia, isto é, existem sinais que são polissêmicos, isto é, admitem diferentes significados, sendo que é o contexto em que são usados que estabelece as diferenças. Palavras polissêmicas na Língua Portuguesa, como, por exemplo: banco (instituição financeira) e banco (para sentar), não são polissêmicos em Libras e vice-versa, ou seja, sinais polissêmicos não correspondem a palavras polissêmicas a Língua Portuguesa. ATENÇÃO U N ID A D E 0 4 66 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S EXEMPLOS: FIGURA 2 – SINAIS POLISSÊMICOS. SÁBADO LARANJA – ALARANJADO Fonte: A autora. Além dos empréstimos lexicais, a Libras, a exemplo da Língua Portuguesa, conta com os proces- sos de derivação, composição e incorporação para a formação de sinais. Derivação é o recurso em que se parte de um radical para se criar novos sinais. Na Língua Portugue- sa, são acrescentados sufixos à raiz e novos substantivos são criados. Por exemplo: pedra é um substan- tivo primitivo do qual derivam pedreira, pedraria, pedregulho etc. No caso da Libras, a derivação se efe- tiva pela alteração no movimento, mantendo-se os demais parâmetros O movimento dos substantivos, por exemplo, é o mesmo movimento dos verbos, mas executado de forma mais curta. Exemplos de derivação na Libras, trazidos por Pereira et al. (2011, p. 70), são os sinais para sentar e cadeira, que possuem os parâmetros CM; PA; OM e CMN idênticos, porém, o “[...] movi- mento, no entanto é diferente: mais longo em sentar e mais curto e repetido em cadeira”. Outros exemplos são: voar e aeroporto; ouvir e ouvinte etc. FIGURA 3 – SINAIS DE DERIVAÇÃO. Cadeira Sentar Avião VOAR Aeroporto Fonte: A autora. UMA DAS PRINCIPAIS FUNÇÕES DA MORFOLOGIA É A MUDANÇA DE CLASSE, ISTO É, A UTILIZAÇÃO DA IDEIA DE UMA PALAVRA EM OUTRA CLASSE GRAMATICAL. FORMA-SE UM NOVO SINAL PARA SE UTILIZAR O SIGNIFICADO DE UM SINAL JÁ EXISTENTE NUM CONTEXTO QUE REQUER UMA CLASSE GRAMATICAL DIFERENTE. UM TIPO DE PROCESSO BASTANTE COMUM NA LÍNGUA DE SINAIS BRASILEIRA É AQUELE QUE DERIVA NOMES DE VERBOS (OU VICE-VERSA). O PORTUGUÊS PODE FORMAR NOMES DE VERBOS PELA ADIÇÃO DE UM SUFIXO, POR EXEMPLO, PRO- GRAMAR – PROGRAMADOR OU PELA MUDANÇA DE ACENTO (FABRICA – FÁBRICA) (QUADROS; KARNOPPP, 2004, p. 96). U N ID A D E 0 4 67 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S O segundo processo de criação de sinais em Libras é a composição. Da mesma forma que na Língua Portuguesa, temos os substantivos compostos, ou seja, formado por mais de uma palavra, unidas ou não por um hífen, como, por exemplo: guarda-chuva, aeromoça, sobremesa etc., tam- bém temos a composição de sinais em que, um sinal é constituído pela combinação de dois ou mais sinais, cuja composição é indicada pelo sinal ^. Um bom exemplo é a composição utilizada para a marcação de gênero, que não acontece naturalmente na Libras. É por isso, que na tradução da Libras para a Língua Portuguesa se utiliza o sinal @ para indicar que o sinal se refere tanto ao masculino quanto ao feminino. EXEMPLOS: Da composição de sinaispara estabelecimento de gênero: FIGURA 4 – COMPOSIÇÕES DE SINAIS PARA ESTABELECER GÊNERO. HOMEM MULHER FILH@ CUNHAD@ FILHO = HOMEM^FILH@ FILHA = MULHER^FILH@ Fonte: A autora. Outros exemplos: U N ID A D E 0 4 68 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S FIGURA 5 – COMPOSIÇÃO DE SINAIS. DERMATOLOGISTA = MÉDICO^PELE OFTALMOLOGISTA = MÉDICO^OLHO CARDIOLOGISTA= MEDICO^CORAÇÃO ACOUGUE = CASA^CARNE IGREJA = (CASA^CRUZ) Continua > U N ID A D E 0 4 69 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S ESCOLA = (CASA^ESTUDAR) ZEBRA = CAVALO^LISTRADO CARTEIRO = BICICLETA^CARTA^ENTREGAR Fonte: A autora. Além da derivação e da composição, que já estudamos, o terceiro processo para a criação de sinais em Libras é a incorporação. A incorporação, como o próprio nome anuncia, efetiva-se pela incorporação no radical de um argumento, um numeral ou de uma negação. A incorporação de argumento acontece quando o argumento modifica um ou mais parâmetros do sinal inicial, a saber, a raiz. Um exemplo desse tipo de incorporação é o sinal para escovar. Não Continuação > Da mesma forma que na Língua Portuguesa temos os substantivos compostos, como, por exem- plo, guarda-roupa; sobremesa; aeromoça, na Libras eles também estão presentes, pelo processo de composição. Mas, ATENÇÃO, nem sempre os substantivos compostos na Língua Portuguesa também o são na Libras. Por exemplo, guarda-chuva não é composto em Libras. Agora, zebra, é um sinal composto em Libras e não é na Língua Portuguesa. SAIBA MAIS U N ID A D E 0 4 70 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S existe um sinal isolado para escovar, mas existe uma raiz, que é, nesse caso, a configuração manual e movimentos semelhantes, alterando particularmente, o ponto de articulação. Dessa forma, o sinal para escovar se adapta ao objeto que é escovado. Isso se deve, principalmente, às caracterís- ticas espaciais e visuais da Libras. FIGURA 6 – SINAIS INCORPORAÇÃO. ESCOVAR CABELO ESCOVAR DENTES Fonte: A autora. Da mesma forma que acontece na Língua Portuguesa, em que prefixos ou sufixos são incorpo- rados a um radical, como, por exemplo: bimensal; bianual; triênio; etc.; em Libras também temos a incorporação de numeral. Neste caso, a configuração de mão muda, incorporando o numeral, mas o movimento, o ponto de articulação e a orientação das mãos não se alteram. Por exemplo, a configuração de mãos se altera para indicar uma, duas, três semanas. FIGURA 7 – SINAIS INCORPORAÇÃO DE NUMERAL. SEMANA DUAS SEMANAS TRÊS SEMANAS Fonte: A autora. Na Língua Portuguesa também temos a incorporação de negação, que se efetiva pela incor- poração de prefixos, como, por exemplo: infeliz, para designar a negação de feliz; desigualdade, para indicar a não igualdade, a incorporação de negação em Libras acontece de duas formas U N ID A D E 0 4 71 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S diferentes. Uma dessas formas acontece pela alteração da orientação das mãos e no movimento, conforme exemplos a seguir: FIGURA 8 – SINAIS INCORPORAÇÃO DE NEGAÇÃO. QUER NÃO QUER Fonte: A autora. A incorporação de negação também pode se efetivar pela assimilação do movimento de nega- ção (oscilação), como acontece em ter e não ter, por exemplo. FIGURA 9 – SINAIS INCORPORAÇÃO DE NEGAÇÃO. TER NÃO TER Fonte: A autora. 2. CLASSIFICADORES Os classificadores, como o próprio nome indica, são elementos linguísticos que permitem “classi- ficar”, de maneira a tornar mais claro o que se quer enunciar. Nas línguas orais, os classificadores são afixos (letras que são acrescentadas) às palavras, que possibilitam fazer a classificação de gênero, de número ou tamanho. Um exemplo: a palavra doutor, quando se afixa a letra A, doutorA, foi feita uma classificação de gênero; afixando-se ES; temos doutorES, que é uma classificação de número. Devido aos seus aspectos espaço-visuais, os classificadores são muito utilizados na Libras e U N ID A D E 0 4 72 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S possuem funções bem mais importantes do que os classificadores nas línguas orais, conforme especificam Nogueira, Carneiro e Soares (2018, p. 144): Apesar das características fortemente icônicas, pois sua função é “deixar bem claro o que se quer enunciar”, os classificadores não podem ser considerados mímica, pois “[..] obedecem a re- gras de construção e são representados sempre por configurações de mãos específicas associadas a expressões faciais, corporais e à localização, isto é, aos parâmetros da Libras” (NOGUEIRA; CAR- NEIRO; SOARES 2018, p. 145). EXEMPLOS: FIGURA 10 - SINAIS CLASSIFICADORES. BONÉ BORBOLETA ÁRVORE TELEFONE BORBOLETA MESA PARA AS LÍNGUAS DE SINAIS A DESCRIÇÃO, A REPRODUÇÃO DA FORMA, DO MOVIMENTO E DA RELAÇÃO ESPACIAL DO QUE SE QUER ENUNCIAR SÃO FUNDAMENTAIS, POIS TORNA MAIS CLAROS E COMPREENSÍVEIS SEU SIGNI- FICADO. ESSA É A PRINCIPAL FUNÇÃO DOS CLASSIFICADORES EM LIBRAS. ASSIM, O CLASSIFICADOR É UM PODEROSO AUXILIAR DA LÍNGUA DE SINAIS, PARA DETERMINAR AS ESPECIFICIDADES E “DAR VIDA” A UMA IDEIA OU A UM CONCEITO OU SIGNOS VISUAIS. ISTO SIGNIFICA QUE O CLASSIFICADOR REPRESENTA FORMA E TAMANHO DOS REFERENTES, ASSIM COMO CARAC- TERÍSTICAS DOS MOVIMENTOS DOS SERES EM UM EVENTO, TENDO, POIS A FUNÇÃO DE DESCREVER O REFERENTE. Continua > U N ID A D E 0 4 73 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S REVOLVER SORRISO TRISTE Fonte: A autora. Reforçamos que, apesar dos classificadores serem icônicos, pois são muito semelhantes ao ob- jeto ou fenômeno que representam e de que as línguas de sinais em geral e a Libras em particular terem características icônicas, nem os classificadores, de forma isolada e nem as línguas de sinais, podem ser considerados mímica, pois nesses casos, “[...] a iconicidade é utilizada de forma convencional e sistemáti- ca” (FERREIRA BRITO, 1995, p. 108). Embora de maneira menos frequente, as línguas orais tam- bém apresentam iconicidade, que, nesses casos, é sonora, ou seja, também existem palavras icônicas. “Podemos verificá-la no clássico exemplo das onomatopeias como pingue-pongue, tique-taque, zum-zum, cujas formas representam, de acordo com cada língua, o significado” (GESSER, 2009, p. 24). 3. ASPECTOS SINTÁTICOS DA LIBRAS Até o momento, no que se refere aos níveis linguísticos, já estudamos os aspectos fonológicos (unidades mínimas, os parâmetros, a saber CM; M; PA; OM e CNM) e os morfológicos (forma- ção de sinais: empréstimos lexicais, derivação, composição e incorporação), ou seja, estudamos a constituição de um sinal. Neste tópico estudaremos como os sinais se organizam em uma frase, os tipos de frases, os tipos e tempos verbais, além de reforçamos aspectos fundamentais da Libras, como o espaço gramatical e a simultaneidade. Continuação > Se você quiser saber mais so- bre classificadores, acesse http://tvines.org.br/?p=708. Acesso em 12 jan. 2020. Lá você verá tudo que dissemos aqui e muito mais. COM MOVIMENTO! SAIBA MAIS O USO DO ESPAÇO E A SIMULTANEIDADE (USAR MAIS DE UM FONEMA OU MORFEMA AO MESMO TEMPO) SÃO MUITO IMPORTANTES PARA A LIBRAS, POIS TORNAM O DISCURSO COMPREENSÍVEL. FALAMOS EM ESPAÇO GRAMATICAL OU SINTAXE ESPACIAL PORQUE AS RELAÇÕES GRAMATICAIS SÃO ESPECIFICADAS PELA MANIPULAÇÃO DOS SINAIS NO ESPAÇO. AS RELAÇÕES OCORREM DENTRO DE UM ESPAÇO DEFINIDO, NA FRENTE DO CORPO, EM UMA ÁREA LIMITADA PELO TOPO DA CABEÇA E QUE SE ESTENDE ATÉ OS QUA- DRIS, SENDO QUE O FINAL DE UMA SENTENÇA NA LIBRAS É INDICADO POR UMA PAUSA (NOGUEIRA, CARNEIRO, SOARES, 2018, p. 224). U N ID A D E 0 4 74 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S A sintaxe da Libras é caracterizada, principalmente, pelos mecanismos espaciais que apresen- ta, simultaneamente (esse fato é o diferencial da Libras), o sinal e a informação gramatical. Esta característica da simultaneidade se apresenta desde os princípios mais rudimentares, como a si- multaneidade de realização dos parâmetros, na constituição de um sinal; na possibilidade de ex- pressar simultaneamentemais de um sinal e, também, no que se refere à sintaxe, mediante os já mencionados mecanismos espaciais. Outro aspecto relevante da sintaxe espacial é a forma como o usuário da Libras estabelece as referências anafóricas, ou seja, indica a quem ou ao que se está referindo. O pronome pessoal de terceira pessoa do singular, por exemplo, é estabelecido mediante a apontação explícita direcio- nada a referentes presentes (apontação feita à frente do sinalizado direcionada para a posição real do referente) e não presentes (são indicados pontos arbitrários no espaço). Esses pontos estabe- lecidos no espaço, que atuam como referentes mantém o seu significado durante todo o discurso, ou seja, a cada vez que o referente for mencionado, isso é feito mediante a apontação para o ponto anteriormente estabelecido no espaço para indicar aquele referente. Mas, a apontação não é efetivada somente mediante a forma explícita, com a mão fechada, o dedo indicador esticado e indicando o que se quer referenciar É possível também a apontação mediante a utilização de sinais não manuais, como a direção do olhar e a posição do corpo como, por exemplo, no sinal de “entregar para alguém”, o olhar acompanha o movimento da mão ativa e indica “para quem” algo é entregue. De acordo com Quadros e Karnopp (2004, p. 127-128), as referências usadas em uma conversa podem ser estabelecidas no espaço de sinalização por vários mecanismos espaciais: ESSES MECANISMOS ENVOLVEM DOIS ASPECTOS: A INCORPORAÇÃO, QUE VOCÊ ES- TUDOU NA AULA ANTERIOR E É CONSIDERADA UM MECANISMO PRODUTIVO NA LIBRAS E USADA, POR EXEMPLO, PARA EXPRESSAR LOCALIZAÇÃO, NÚMERO, PESSOA E O USO DE SINAIS NÃO MANUAIS, COMO MOVIMENTOS DO CORPO E EXPRESSÕES FACIAIS. AS EXPRESSÕES FACIAIS E CORPORAIS E OUTROS MECANISMOS ESPACIAIS USADOS JUNTO COM OS SINAIS SÃO FUNDAMENTAIS NAS LÍNGUAS DE SINAIS, POIS DETERMI- NAM RELAÇÕES SINTÁTICAS E SEMÂNTICAS/PRAGMÁTICAS (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 224). A) FAZER O SINAL EM UM LOCAL PARTICULAR (SE A FORMA DO SINAL PERMITIR; POR EXEMPLO, O SINAL CASA PODE ACOMPANHAR O LOCAL QUE O SINALIZADOR QUER INDICAR). B) DIRECIONAR A CABEÇA E OS OLHOS (E TALVEZ O CORPO) EM DIREÇÃO A UMA LOCALIZAÇÃO PARTICULAR SIMULTANEAMENTE COM O SINAL DE UM SUBSTANTIVO COM A APONTAÇÃO PARA O SUBSTANTIVO. U N ID A D E 0 4 75 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S FIGURA 11 – DIRECIONAR OLHOS E CABEÇA. Fonte: A autora. FIGURA 12 – APONTAÇÃO. LÁ ESSE ESTE AQUI Fonte: A autora. C) USAR A APONTAÇÃO OSTENSIVA ANTES DO SINAL DE UM REFE- RENTE ESPECÍFICO (POR EXEMPLO, APONTAR PARA O PONTO ‘A’ ASSOCIANDO ESTA APONTAÇÃO COM O SINAL CASA; ASSIM O PONTO ‘A’ PASSA A REFERIR CASA); D) USAR UM PRONOME DEMONSTRATIVO (A APONTAÇÃO OSTENSIVA) NUMA LOCALIZAÇÃO PARTICULAR QUANDO A REFERÊNCIA FOR ÓB- VIA; POR EXEMPLO, MOSTRAR A CASA E SINALIZAR APENAS NOVA; E) USAR UM CLASSIFICADOR (QUE REPRESENTA AQUELE REFERENTE) EM UMA LOCALIZAÇÃO PARTICULAR, COMO, POR EXEMPLO, NA FRA- SE “OS CARROS SE CRUZARAM”; F) USAR UM VERBO DIRECIONAL (COM CONCORDÂNCIA) INCORPORAN- DO OS REFERENTES PREVIAMENTE INTRODUZIDOS NO ESPAÇO, O QUE, SIGNIFICA QUE ESSES VERBOS CONCORDAM “[...] COM O SUJEI- TO E/OU COM O OBJETO INDIRETO/DIRETO DA FRASE”. ALÉM DISSO, “[...] HÁ UMA RELAÇÃO ENTRE OS PONTOS ESTABELECIDOS NO ESPAÇO E OS ARGUMENTOS QUE ESTÃO INCORPORADOS AO VERBO”. COMO EXEMPLO, O VERBO DAR (QUADROS, KARNOPP, 2004, p. 130). U N ID A D E 0 4 76 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S FIGURA 13 – VERBO DIRECIONAL. DAR (EU PARA VOCÊ) DAR (VOCÊ PARA MIM) Fonte: A autora. A apontação explícita ou não, realizada no espaço de sinalização é a forma como o sistema pronominal é estabelecido na Libras, estando, como já afirmamos anteriormente, os referentes presentes ou não. Pelo já exposto que a sintaxe da Libras é “espacial” , pois é dentro do espaço de sinalização que se estabelecem as concordâncias verbais, as referências anafóricas, mediante o estabelecimento de localizações no espaço para dois ou mais personagens, indicando diferenças no sujeito e no objeto. 3.1 TIPOS DE FRASES Mas, a sintaxe da Libras não se estabelece somente mediante a exploração do espaço de sina- lização. Conforme já estabelecido anteriormente, a simultaneidade da expressão das regras gra- maticais com a produção do sinal, caracterizam, também, o que denominamos de modulação DEPOIS DE SEREM INTRODUZIDOS NO ESPAÇO, OS PONTOS ESPECÍFICOS PODEM SER REFERIDOS POSTERIORMENTE NO DISCURSO. QUANDO OS REFERENTES ESTÃO PRESENTES, OS PONTOS NO ESPAÇO SÃO ESTABELECIDOS BASEADOS NA POSIÇÃO REAL OCUPADA PELO REFERENTE. POR EXEMPLO, O SINALIZADOR APONTA PARA SI, INDICANDO A PRIMEIRA PESSOA, APONTA PARA O INTERLOCUTOR, INDICANDO A SEGUNDA PESSOA E PARA OS OUTROS, INDICANDO A TERCEIRA PESSOA. QUANDO OS REFERENTES ESTÃO AUSENTES DA SITUAÇÃO DE ENUNCIAÇÃO, SÃO ESTABELECIDOS PONTOS ABSTRATOS NO ESPAÇO (QUADROS, KARNOPP, 2004, p. 130). A apontação é Libras é essencial para estabelecer referentes (de quem se fala). Diferentemente do que acontece com os ouvintes, apontar o dedo indicador para alguém presente no ambiente, não é considerada falta de educação. Além disso, como em Libras não existem sinais específicos para os pronomes pessoas de terceira pessoa, somente com a apontação é possível se fazer tais referências. SAIBA MAIS U N ID A D E 0 4 77 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S de sinais em Libras, ou, o que corresponde, às entonações na Língua Portuguesa. Essa função é desempenhada pelo parâmetro CMN, ou seja, as Componentes não manuais, especificamente as expressões faciais e corporais, com maior ênfase nas expressões faciais. São as expressões faciais que estabelecem, por exemplo, os tipos de frase em Libras. AFIRMATIVA: FIGURA 14 - EXPRESSÃO FACIAL NEUTRA. Fonte: A autora. EXCLAMATIVA: FIGURA 15 - SOBRANCELHAS LEVANTADAS E UM LIGEIRO MOVIMENTO DA CABEÇA INCLINANDO-A PARA CIMA E PARA BAIXO. Fonte: A autora. AS FRASES EM LIBRAS, A EXEMPLO DA LÍNGUA PORTUGUESA, PODEM SER AFIRMATI- VAS, EXCLAMATIVAS, INTERROGATIVAS E NEGATIVAS. COMO NÃO EXISTE ENTONAÇÃO (OU MODULAÇÃO) EM LIBRAS, QUE É O QUE ESPECIFICA AS DIFERENÇAS ENTRE FRA- SES AFIRMATIVAS, EXCLAMATIVAS, IMPERATIVAS E INTERROGATIVAS NA LÍNGUA POR- TUGUESA (A MODULAÇÃO DO SOM), SÃO AS EXPRESSÕES FACIAIS E CORPORAIS QUE ESTABELECEM OS DIFERENTES TIPOS DE FRASES EM LIBRAS. ASSIM, AS EXPRESSÕES FACIAIS SÃO ESSENCIAIS PARA DETERMINAR O TIPO DE FRASE, ISTO É, SE A FRASE É AFIRMATIVA, A EXPRESSÃO FACIAL É NEUTRA. PARA FRASES EXCLAMATIVAS, AS SOBRANCELHAS DEVEM FICAR LEVANTADAS E ACOMPANHA UM LIGEIRO MOVIMENTO DA CABEÇA INCLINANDO-A PARA CIMA E PARA BAIXO (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 224). U N ID A D E 0 4 78 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S INTERROGATIVA: FIGURA 16 – SOBRANCELHAS FRANZIDAS E UM LIGEIRO MOVIMENTO DA CABEÇA INCLINANDO-A PARA CIMA, ACOMPANHADA DE DIFERENTES FORMATOS DA BOCA. 1 2 3 4 5 6 Fonte: A autora. » Fotos 1 e 2 - Sobrancelhas levemente franzidas e boca natural. Por exemplo, algumas pergun- tas que combinam com essa expressão facial: Sabe escrever um livro? Em qual banco você sa- cou dinheiro? Quer casar com minha filha e vai cuidar bem dela? Vai trabalhar amanhã? Vai vir comigo para casa agora? entreaberta para expressar o pronome interrogativo “QUEM”: Quem é? Quem vem? Bolsa de quem? Carro de quem? » Foto 3 - Sobrancelhas franzidas e curvadas com a boca em forma “semicircular”, para expressar a pergunta “CADÊ”: Cadê a bola? Onde está você? » Foto 4 - Boca em “U” e as sobrancelhas neutras, expressa o pronome interrogativo “O QUE”, se refere às questões do tipo: O que tem aí? O que vai fazer? » Foto 5 - Sobrancelhas levantadas e boca fechada, a pergunta expressa “QUER”, e algumas per- guntas questionam, por exemplo, o desejo da outra pessoa, ou conversas cotidianas, como, por exemplo: Gosta de comer morango? Vai viajar hoje? Você é casad@? Quer coca-cola? Quer bolacha? Você sabe de cozinhar? Vocêconsegue dirigir um carro grande? » Foto 6 - Sobrancelhas franzidas e boca fechada, expressa perguntas referentes à identidade pessoal, saudações cotidianas, perguntas sobre locais, com os pronomes interrogativos: Onde, Por que, Para que, Nome, Idade e Sinal. Por exemplo: “Onde correio fica?” Também é possível uma combinação das expressões para frases interrogativa e exclamativa, por exemplo: Para que muita roupa (risos)? U N ID A D E 0 4 79 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S O importante é utilizar a expressão adequada a cada pergunta no contexto de conversa no seu dia. Em todos os casos a cabeça que se movimenta para cima. NEGATIVA: FIGURA 17 – FRASES NEGATIVAS PODEM SER EXPRESSAS DE DUAS FORMAS: ALTERANDO O PARÂMETRO MOVIMENTO (POR EXEMPLO: TER E NÃO TER) OU INCORPORANDO A EXPRESSÃO FACIAL AO SINAL SEM ALTERAR NENHUM PARÂMETRO. 1 2 3 Fonte: A autora. Pode ser feita de duas maneiras: o dedo balançado “não” e as sobrancelhas franzidas como na foto 1, ou a cabeça balançando (lado a lado) como na foto 2 e a cabeça e dedo balançando com as sobrancelhas franzidas e dedo balançando “não” como na terceira foto. Existe ainda, o que poderia ser considerada uma terceira forma de negação, mas que são casos específicos e raros, sem uma regra específica, pois os sinais são completamente alterados para o caso afirmativo e o caso negativo, como nos exemplos a seguir: FIGURA 18 – FRASES NEGATIVAS ESPECÍFICAS. Lembrar Não Lembrar Em ambas as formas, a expressão facial é importante e o que caracteriza a negação são as sobran- celhas levemente franzidas. ATENÇÃO Continua > U N ID A D E 0 4 80 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Conseguir Não conseguir Saber Não saber Ter Não ter Possibilitar Impossibilitar Ver Não ver Caber Continuação > Continua > U N ID A D E 0 4 81 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Pode Não pode Não caber Gostar Não gostar Quer Não quer Fonte: A autora. IMPERATIVA: FIGURA 19 - AS SOBRANCELHAS FRANZIDAS E A EXPRESSÃO FACIAL FECHADA, SEVERA, COMO “BRAVA”. Fonte: A autora. Continuação > U N ID A D E 0 4 82 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Nem sempre tudo que a gente encontra no YouTube está correto. É preciso ter bastante cuidado. Mas, no vídeo do YouTube que recomendo para vocês, sobre tipos de frases, o trabalho está bem feito, embora não sejam abordadas as frases imperativas. Vale a pena olhar. Lá, o que mostramos aqui com as fotos, está presente e COM MOVIMENTO: https://bit.ly/3eVM7ja. Acesso em 15 jan. 2020. VÍDEO 3.2 ORDEM DOS SINAIS EM UMA FRASE Existe uma estrutura lógica para que os componentes essenciais de uma frase (sujeito (S), verbo (V) e objeto (O)) se organizem para que uma frase faça sentido. São as regras gramaticais que esta- belecem as estruturas frasais, ou seja, a ordem que as palavras devem ser colocadas em uma frase e a ordem das palavras constitui “[...] é um conceito básico relacionado com a estrutura da frase de uma língua. O fato de que as línguas podem variar suas ordenações das palavras apresenta um papel significante nas análises linguísticas” (QUADROS, KARNOPP, 2004, p. 133). Considerando então, somente os elementos essenciais para que uma frase faça sentido (S,V e O), são seis as possíveis combinações, sendo que algumas são mais frequentes do que outras. Veja os exemplos: 1. Os alunos usam uniformes => SVO 2. Os alunos uniformes usam => SOV 3. Uniformes os alunos usam => OSV 4. Uniformes usam os alunos => OVS 5. Usam uniformes os alunos => VOS 6. Usam os alunos uniformes => VSO Todas essas frases possuem sentido embora algumas, como a ordem SVO, da frase (1) apareça com maior frequência, seguida da ordem SOV, da frase (2). As ordens OSV, OVS e VOS, das frases (3), (4) e (5), respectivamente, embora corretas, não são usuais, enquanto que a ordem VSO, da frase (6) é bastante presente na forma culta da língua. No que se refere à ordem dos sinais em uma frase, a ordem OSV é a mais comum entre surdos não letrados, seguida da ordem SVO enquanto que, entre os mais escolarizados prevalece a cons- trução SVO, seguida da OSV e ainda são encontradas em ambos os grupos construções do tipo SOB, em menor frequência. Além das regras para a ordem dos elementos essenciais de uma frase, existem regras em Libras para a posição a ser ocupada em uma frase pelos advérbios temporais e de frequência. Advérbios desses tipos nunca aparecem entre o sujeito e o objeto. U N ID A D E 0 4 83 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S 4. VERBOS EM LIBRAS Os verbos na Língua Portuguesa podem ser transitivos diretos ou indiretos; defectivos; de li- gação, ou ainda regulares e irregulares, ou seja, existe uma classificação muito bem estabelecida para os verbos. Na Libras os verbos classificam-se em verbos simples, verbos com concordância ou direcionais e verbos espaciais. Os verbos simples não aceitam afixos locativos (como os verbos espaciais), não se flexionam em pessoa e número (como os verbos direcionais) e utilizam apenas a configuração de mãos, o ponto de articulação e o movimento. Exemplos: conhecer, amar. FIGURA 20 – VERBOS SIMPLES. CONHECER AMAR Fonte: A autora. [...] ADVÉRBIOS TEMPORAIS E DE FREQUÊNCIA NÃO PODEM INTERROMPER UMA RELAÇÃO ENTRE O VERBO E O OBJETO. OS AD- VÉRBIOS TEMPORAIS PODEM ESTAR ANTES OU DEPOIS DA ORAÇÃO (POR EXEMPLO: JOÃO COMPRAR CARRO AMANHÃ OU AMANHÃ JOÃO COMPRAR CARRO). OS ADVÉRBIOS DE FREQUÊNCIA PODEM ESTAR ANTES OU DEPOIS DO COMPLEMENTO (POR EXEMPLO: EU BEBO LEITE ALGUMAS VEZES OU EU ALGUMAS VEZES BEBO LEITE) (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 224). Apesar das autoras Quadros e Karnopp (2004) afirmarem que a construção de uma frase em Libras seja na ordem SOB, ou seja, Sujeito – Verbo – Objeto, as observações pessoalmente realiza- das por mim, na convivência cotidiana com surdos, escolarizados ou não, apontam que a ordem OSV, em frases como: CARRO VOCÊ TER é muito usada por ambos os grupos. Na comunicação coloquial, principalmente nas frases interrogativas, ela é bem frequente, por exemplo: CINEMA VOCÊ IR? GATO VOCÊ GOSTAR? SAIBA MAIS U N ID A D E 0 4 84 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Os verbos direcionais ou com concordância, como a própria denominação indica, flexionam-se (concordam) em pessoa, (para isso, mudam a direção do movimento, alterando, particularmente a OM). Flexionam-se ainda em número e aspectos, mas, diferentemente dos verbos espaciais, não incorporam afixos locativos. Exemplos: responder, perguntar e dar. FIGURA 21 – VERBOS DIRECIONAIS. DAR (EU para VOCÊ) DAR (VOCÊ PARA MIM) RESPONDER (EU para VOCÊ) RESPONDER (VOCÊ PARA MIM) Fonte: A autora. Os verbos com concordância flexionam-se também em número e em aspecto, sendo que essa flexão de número “[...] é realizada, normalmente, pela repetição do movimento (exemplo: João entregar livro para alguém, para duas pessoas, para três, para todos)” (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 242). Já a flexão de aspecto está relacionada à maneira como uma ação é realizada e é produzida va- riando-se a velocidade do movimento, para indicar a diferença entre cuidar de alguém, de maneira natural; cuidar de alguém, de forma contínua ou cuidar de alguém, de forma incessante, o tempo todo. Essas diferenças são estabelecidas pela velocidade e intensidade do movimento, ficando mais intenso para a última forma, ou seja, para “cuidar incessantemente”. Os verbos espaciais são os que admitem afixos locativos, isto é, ao sinal do verbo é acrescenta- do o objeto (por exemplo, o verbo colocar) ou o local (para onde se vai ou de onde se chega), por exemplo, nos verbos ir, voltar, chegar. FIGURA 22 – VERBOS ESPACIAIS. IR Fonte: A autora. U N ID A D E 0 4 85 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S Além dessas três categorias de verbos, Quadros e Karnopp (2004, p. 205) consideram os ver- bos cujos sinais são produzidos por configurações de mão que aparentam segurar determinadoobjeto. Essas autoras denominam esta classe de verbo por “verbos manuais” e sempre finalizam a frase. “Primeiro situa-se sobre o que se está falando e, em seguida, define-se que tipo de verbo manual será usado, como nas construções tópico-comentário”. Exemplo: Eu pintei no caderno com o lápis, ficaria assim em Libras: Caderno-pintar-lápis. Pintar com lápis é um verbo manual. No que se refere à marcação dos tempos verbais, há possibilidades de se indicar o passado re- cente ou bem anterior, da mesma forma, com um futuro próximo ou distante: FUTURO AMANHÃ PRESENTE A MARCAÇÃO DOS TEMPOS VERBAIS EM LIBRAS SE RESUME A PRESENTE, PASSADO E FUTURO, PODENDO SER ENFATIZADOS, CASO SEJA PRESENTE, OS SINAIS DE AGORA OU JÁ E EM SEGUIDA O SINAL DO VERBO QUE SE DE- SEJA ENUNCIAR; CASO SEJA PASSADO, UTILIZA-SE OS SINAIS DE ONTEM OU MUITO TEMPO ATRÁS, SEGUIDO DO SINAL DO VERBO E, CASO SEJA FUTURO, SINALIZA-SE AMANHÃ OU UM FUTURO MAIS DISTANTE, SEGUIDO DO SINAL DO VERBO. A ORDEM PODE SER INVERTIDA EM QUALQUER DOS CASOS, SINALIZANDO-SE PRIMEIRO O VERBO E DEPOIS O ADVÉRBIO DE TEMPO (NOGUEIRA; CARNEIRO; SOARES, 2018, p. 242). Continua > U N ID A D E 0 4 86 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S HOJE/AGORA PASSADO FAZ TEMPO JÁ ONTEM Fonte: A autora. Também é possível a conjugação de verbos no gerúndio. Para isso, utiliza-se a composição de sinais, com o sinal do verbo, com o sinal para “presente” ou “vivo”, indicando que a ação está acontecendo. O neuropsiquiatra norte-americano Oliver Sacks escreveu um livro que se tornou referência para todos aqueles que se interessam pela surdez e pelos surdos. Nesse livro, intitulado: Vendo Vozes: Uma viagem pelo mundo dos surdos, Sacks faz a seguinte afirmação: “Sem linguagem não somos seres humanos completos e, por isso, é preciso aceitar a natureza e não ir contra ela. Obrigados a falar, algo que não lhes é natural, os surdos não são expostos suficientemente à linguagem e estão condenados ao isolamento e à incapacidade de formar sua identidade cultural”. Considerando que para os ouvintes, é possível a aprendizagem das línguas de sinais de maneira efetiva, a partir da afirmação de Sacks, reflita a respeito da importância dos ouvintes aprenderem Libras de maneira a favorecer a inclusão social e educacional do surdo. REFLITA Continuação > U N ID A D E 0 4 87 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S CONSIDERAÇÕES FINAIS Com esta Unidade, encerramos nossa disciplina. O que queremos reafirmar, a respeito desta Unidade IV, é que você precisa prestar muita atenção na construção sintática e no uso da espacialidade: a Libras é uma língua espaço-visual, de modo que, para a construção de uma enunciação, há uma cadeia (sequência) de sinais que dependem de ponto de articulação e de movimentos. A principal dificuldade é a referenciação espacial na construção da narrativa, ou seja, a organização dos pontos locais para identificar os personagens. Aqueles que estão iniciando sua aprendizagem em Libras, geralmente sobrepõem os personagens. Usa-se a localização como um componente interno da estrutura de um sinal e como parte do espaço construindo a estrutura linguística. Outro problema é a concordância verbal em Libras, que depende do espaço. Também é preciso ter atenção para o fato de que a Libras, como todas as línguas, apresenta polis- semia, isto é, um sinal pode ter muitas significações dependendo do contexto. Além disso, acontece de diferentes sinais terem o mesmo significado, bem como há expressões que mudam de uma região para outra. Na morfologia das línguas de sinais, destacam-se os classificadores que são responsáveis pela formação da maioria dos sinais já existentes, assim como pela criação de novos sinais e, portanto, merecem um estudo detalhado. Portanto, se você pretende conhecer um pouco de Libras, pratique o máximo que puder do que estamos lhe apresentando. ANOTAÇÕES 88 UN IB RA SI L EA D | L IB RA S REFERÊNCIAS BASTOS, C. L.; CANDIOTTO, K. B. B. Filosofia da Linguagem. Petrópolis: Vozes, 2007. 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