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C A P Í T U L O SUMÁ RIO DO CAPÍTULO VULVA 681 Vulvite 681 Distúrbios Epiteliais Não Neoplásicos 682 Líquen Escleroso 682 Líquen Simples Crô nico 682 Tumores 683 Condilomas 683 Carcinoma de Vulva 683 Doença de Paget Extramamária 683 VAGINA 684 Vaginite 684 Neoplasias Malignas 684 Carcinoma de Cé lulas Escamosas 684 Adenocarcinoma de Cé lulas Claras 685 Sarcoma Botrioide 685 COLO DO Ú TERO 685 Cervicite 685 Neoplasias do Colo do Útero 685 Carcinoma Invasivo do Colo do Ú tero 687 Pó lipo Endocervical 689 CORPO DO Ú TERO 689 Endometrite 689 Adenomiose 689 Endometriose 689 Sangramento Uterino Anormal 690 Lesões Proliferativas do Endométrio e Miométrio 691 Hiperplasia Endometrial 691 Carcinoma Endometrial 692 Pó lipos Endometriais 693 Leiomioma 693 Leiomiossarcoma 694 TUBAS UTERINAS 695 OVÁ RIOS 695 Cistos Foliculares e Luteínicos 695 Doença do Ovário Policístico 695 Tumores do Ovário 696 Tumores do Epité lio Superficial 696 Tumores Serosos 697 Tumores Mucinosos 697 Tumores Endometrioides 698 Tumor de Brenner 698 Outros Tumores Ovarianos 698 Teratomas 698 DOENÇAS DA GRAVIDEZ 700 Inflamações e Infecções Placentárias 701 Gravidez Ectópica 701 Doença Trofoblástica Gestacional 701 Mola Hidatiforme: Completa e Parcial 701 Mola Invasiva 702 Coriocarcinoma Gestacional 703 Tumor Trofoblá stico de Localização Placentária 703 Pré-eclâmpsia/Eclâmpsia (Toxemia da Gravidez) 703 MAMA 704 Alterações Fibrocísticas 705 Alteraçõ es Não Proliferativas 705 Alteração Proliferativa 705 Relação das Alteraçõ es Fibrocísticas com o Carcinoma de Mama 706 Processos Inflamatórios 707 Tumores da Mama 707 Fibroadenoma 707 Tumor Filoide 707 Papiloma Intraductal 708 Carcinoma 708 Lesões da Mama Masculina 714 Ginecomastia 714 Carcinoma 714 Sistema Genital Feminino e Mama * VULVA A vulva é a genitália externa feminina e inclui a pele com pelo e mucosa úmidas nessa região. Os distúrbios da vulva são mais frequentemente inflamatórios, o que os torna mais descon- fortáveis que graves. Os tumores malignos da vulva, embora ofereçam risco à vida, são raros. VULVITE Uma das causas mais comuns de vulvite é a inflamação reativa em resposta a um estímulo exógeno, seja um irritante (dermatite irritante de contato ), seja um alérgeno (dermatite alérgica de contato). O traumatismo induzido pelo ato de coçar, secundário à “coceira” (prurido) intensa associada, muitas vezes agrava a condição primária. A dermatite eczematosa irritante de contato manifesta-se como exsudação eritematosa bem definida e pápulas e placas crostosas (Capítulo 23), podendo ser uma reação a urina, sabões, detergentes, antissépticos, desodorantes ou álcool. A dermatite alérgica tem aparência clínica semelhante e pode resultar de alergia a perfumes, aditivos em cremes, loções e sabonetes, tratamentos químicos no vestuário e outros antígenos. A vulvite também pode ser causada por infecções que, nesse caso, muitas vezes são sexualmente transmissíveis (Ca- pítulo 17). Os mais importantes desses agentes infecciosos na América do Norte são o papilomavírus humano (HPV), *Agradecemos muito as contribuições dos Drs. Susan Lester (Doenças da Mama) e Anthony Montag (Doenças do Sistema Genital Feminino). C A P Í T U L O 18682 Sistema Genital Feminino e Mama o agente causador do condiloma acuminado e da neoplasia intraepiteIial vulvar (NIV) (discutido adiante); o vírus herpes simples (HSV-1 ou 2), o agente do herpes genital com sua erupção vesicular típica; N. gonorrhoeae, uma causa de in- fecção supurativa das glândulas vulvovaginais; Treponema pallidum, o patógeno da sífilis, em associação com o cancro primário em local vulvar de inoculação; e Candida, também uma causa potencial de vulvite. Uma complicação importante da vulvite é a obstrução dos ductos excretores das glândulas de Bartholin. Esse bloqueio pode resultar na dilatação dolorosa das glândulas (cisto de Bartholin) e formação de abscesso. DISTÚRBIOS EPITELIAIS NÃO NEOPLÁSICOS O epitélio da mucosa vulvar pode sofrer tanto adelgaçamento atrófico como espessamento hiperplásico, muitas vezes sob a forma de líquen escleroso e líquen simples crônico, respecti- vamente. Líquen Escleroso O líquen escleroso é caracterizado por adelgaçamento da epiderme, desaparecimento das cristas interpapilares, dege- neração hidrópica das células basais, fibrose dérmica e infil- trado celular inflamatório mononuclear e perivascular escasso (Fig. 18-1). Ele aparece como placas brancas e lisas (denomi- nadas leucoplasia) ou pápulas que, com o tempo, podem se estender e coalescer. Quando a vulva inteira é acometida, os lábios tornam-se um pouco atróficos e enrijecidos, e o orifício vaginal fica contraído. O líquen escleroso ocorre em todas as faixas etárias, mas acomete mais comumente mulheres pós-menopáusicas. A patogenia é incerta, mas a presença de células T ativadas no infiltrado inflamatório subepitelial e o au- mento da frequência dos distúrbios autoimunes em mulheres acometidas sugerem etiologia autoimune. O líquen escleroso é benigno; no entanto, pequena porcentagem de mulheres (1-5%) com líquen escleroso sintomático desenvolve carcinoma de células escamosas da vulva. Líquen Simples Crônico O líquen simples crônico é marcado por espessamento epite- lial (particularmente do estrato granuloso) e hiperqueratose. O aumento da atividade mitótica é observado nas cama- das basal e suprabasal; no entanto, não há nenhuma atipia epitelial (Fig. 18-1). A infiltração leucocitária da derme é algumas vezes pronunciada. Essas alterações inespecíficas são consequência da irritação crônica, geralmente causada por prurido relacionado a uma dermatose inflamatória sub- jacente. O líquen simples crônico aparece como uma área de leucoplasia. Com lesões isoladas, não se encontrou predis- posição aumentada para câncer, mas o líquen simples crônico muitas vezes está presente nas margens do câncer vulvar estabelecido, levantando a possibilidade de uma associação com a doença neoplásica. O líquen escleroso e o líquen simples crônico podem coexis- tir em diferentes áreas do corpo na mesma pessoa, e ambas as lesões podem tomar a forma de leucoplasia. Manchas ou placas brancas similares também são observadas em uma variedade de outras dermatoses benignas, como psoríase e líquen plano (Capítulo 23), bem como em lesões malignas da vulva, como carcinoma de células escamosas in situ e carcinoma de células escamosas invasivo. Assim, a biópsia e o exame microscópico são necessários para diferenciar essas lesões de aparência clini- camente semelhante. RESUMO Distúrbios Epiteliais Não Neoplásicos geralmente com fibrose dérmica. de desenvolvimento de carcinoma de células escamosas. espessado (hiperplasia), geralmente com infiltrado in- flamatório. devem passar por biópsia para diferenciá-las definitivamente de outras causas de leucoplasia, como carcinoma de células escamosas da vulva. Figura 18-1 Painel superior, Líquen escleroso. Painel inferior, Líquen simples crônico. As características principais das lesões estão marcadas. 683Tumores TUMORES Condilomas Condiloma é o nome dado a qualquer lesão verrucosa da vulva. A maioria dessas lesões pode ser atribuída a uma de duas for- mas distintas. Os Condilomas lata, atualmente não muito obser- vados, são lesões planas, úmidas e minimamente elevadas que ocorrem na sífilis secundária (Capítulo 17). Os mais comuns, os condilomas acuminados, podem ser papilares e distintamente elevados ou um pouco planos e rugosos. Eles podem ocorrer em qualquer lugar na superfície anogenital, às vezes como lesão única, mas com mais frequência como lesões múltiplas. Quando localizados na vulva, variam de alguns milímetros a vários centímetros de diâmetro e são rosa-avermelhados ou marrom-rosados (Fig. 18-2). No exame histológico, o as- pecto celular típico é a coilocitose, uma alteração citopática caracterizada por vacuolização citoplasmática perinuclear e contornos nucleares enrugados, que é uma característica da infecção por HPV (Fig.por células epiteliais produtoras de mucina (Fig. 18-17, B). Os tumores malignos são caracterizados pela presença de arquitetura com- plexa, incluindo áreas sólidas de crescimento, estratificação celular, atipia citológica e invasão estromal. Em comparação com tumores serosos, os tumores mu- cinosos são muito menos propensos a ser bilaterais. Essa característica é, por vezes, útil na diferenciação entre tumores mucinosos do ovário e adenocarcinoma mucinoso metas- tático e primário do trato gastrointestinal (o chamado tumor de Krukenberg), que mais frequentemente produz massas ovarianas bilaterais. Tumores mucinosos ovarianos rompidos podem contami- nar o peritônio; no entanto, esses depósitos são tipicamente transitórios e não conseguem estabelecer crescimento de longo prazo no peritônio. A implantação de células tumorais mucinosas no peritônio com produção de grande quantidade de mucina é chamada de pseudomixoma peritoneal; na maioria dos casos, essa doença é causada por metástase do tra- to gastrointestinal, principalmente do apêndice (Capítulo 14). O prognóstico do cistoadenocarcinoma mucinoso é um pouco melhor do que o seu homólogo seroso, embora o estágio, e não o tipo histológico (seroso versus mucinoso), seja o principal determinante do resultado. Tumores Endometrioides Esses tumores podem ser sólidos ou císticos; às vezes, desenvolvem- se em associação à endometriose. No exame microscópico, eles são distinguidos pela formação de glân- dulas tubulares, semelhantes àquelas do endométrio, dentro do revestimento dos espaços císticos. Embora existam formas benignas e borderline, os tumores endometrioides geralmente são malignos. Eles são bilaterais em cerca de 30% dos casos, e 15-30% das mulheres com esses tumores do ovário têm carcinoma de endométrio concomitante. Semelhantes ao carcinoma do tipo endometrioide do endométrio, os carcinomas endometrioides do ovário possuem mutações no gene supressor de tumor PTEN. Tumor de Brenner O tumor de Brenner é um tumor de ovário raro, sólido e geral- mente unilateral constituído por estroma abundante que contém ninho de epitélio do tipo transicional semelhante ao do trato urinário. Ocasionalmente, os ninhos são císticos e revestidos por células colunares secretoras de muco. Os tumores de Brenner são geralmente bem encapsulados e branco-acinzentados aos cortes, variando desde alguns centímetros até 20 cm de diâme- tro. Esses tumores podem surgir do epitélio de superfície ou do epitélio urogenital preso no interior da crista germinal. Embora a maioria seja benigna, os tumores maligno e borderline têm sido descritos. OUTROS TUMORES OVARIANOS Muitos outros tipos de tumores de células germinativas e de origem estromal do cordão sexual também surgem no ovário, mas apenas os teratomas originários de células germinativas são suficientemente comuns para merecer descrição. A Tabela 18-3 apresenta algumas características marcantes de outras neo- plasias originárias de células germinativas e do cordão sexual. Teratomas Os teratomas constituem 15-20% dos tumores do ovário. Uma característica preocupante desses tumores de células germinativas é a sua predileção em surgir nas duas primeiras décadas de vida; para piorar as coisas, quanto mais jovem a pessoa, maior a probabilidade de malignidade. Mais de 90% dessas neoplasias de células germinativas, no entanto, são teratomas císticos benignos maduros; a variante maligna imatura é rara. Figura 18-17 Cistadenoma mucinoso do ovário. A, Cistadenoma mucinoso com aparência multicística e septos delicados. Observe a presença de mucina brilhante dentro dos cistos. B, Revestimento de células colunares de cistadenoma mucinoso. 699Outros tumores ovarianos Teratomas Císticos Benignos (Maduros) Quase todos os teratomas císticos benignos (maduros) são marcados pela presença de tecidos maduros derivados das três camadas de células germinativas: ectoderme, endoderma e mesoderme. Geralmente esses tumores contêm cistos reves- tidos por epiderme repletos de apêndices anexiais — por isso, a designação comum de cistos dermoides. A maioria é descoberta em mulheres jovens como massas ovarianas ou encontrada in- cidentalmente em radiografias ou exames abdominais, pois eles contêm focos de calcificação produzidos por estruturas seme- lhantes a dentes contidas no interior do tumor. Cerca de 90% são unilaterais, com o lado direito mais comumente acometido. Raramente essas massas císticas excedem 10 cm de diâmetro. Aos cortes, muitas vezes estão cheias de secreção sebácea e pelos emaranhados que, quando removidos, revelam revestimento epidérmico de pele com pelo (Fig. 18-18). Às vezes, há uma projeção nodular da qual se projetam dentes. Ocasionalmente, há presença de focos de osso e cartilagem, ninhos de epitélio brônquico ou gastrointestinal e outros tecidos também. Por motivos desconhecidos, tais neoplasias às vezes produ- zem infertilidade e são propensas a sofrer torção (em 10-15% dos casos), o que constitui uma emergência aguda cirúrgica. Uma complicação paraneoplásica rara, mas fascinante, é a encefalite límbica, que pode se desenvolver em mulheres com teratomas contendo tecido neural maduro e, muitas vezes, regride com a resseção do tumor. Em cerca de 1% dos casos, observa-se transformação maligna, geralmente para carcinoma de células escamosas. Tabela 18-3 Características Marcantes das Neoplasias da Célula Germinativa do Ovário e do Cordão Sexual Neoplasma Pico de Incidência Localização Típica Características Morfológicas Comportamento Origem das Células Germinativas Disgerminoma Segunda a terceira décadas da vida Ocorre com disgenesia da gônada Unilateral em 80-90% Contrapartida do seminoma testicular Massas cinza sólidas pequenas a grandes Lâminas ou cordões de células claras e grandes separadas por os brosos escassos Estroma pode conter linfócitos e granulomas ocasionais Todos malignos, porém apenas um terço é agressivo e disseminativo; todos radiossensíveis; taxa de cura de 80% Coriocarcinoma Primeiras três décadas da vida Unilateral Idêntico ao tumor placentário Geralmente focos pequenos e hemorrágicos com dois tipos de epitélio: citotrofoblastos e sinciciotrofoblastos Sofre metástase cedo e amplamente Focos primários podem degenerar, deixando apenas metástases Em contraste com os tumores gestacionais, os primários ovarianos são resistentes à quimioterapia Tumores do Cordão Sexual Célula da teca e da granulosa Maioria na pós-menopausa, mas pode ocorrer em qualquer idade Unilateral Pode ser pequeno ou grande, cinza a amarelo (com espaços císticos) Composto por mistura de células da granulosas cuboides em cordões, lâminas ou os e fusiformes ou células da teca cheias de lipídios Elementos da granulosa podem recapitular folículos ovarianos como corpúsculos de Call-Exner Podem elaborar grande quantidade de estrogênio (dos elementos da teca) e então promover carcinoma endometrial ou de mama Elemento da granulosa pode ser maligno (5-25%) Fibroma e tecoma Qualquer idade Unilateral Células brosas sólidas cinza para células da teca amarelas (cheias de lipídios) A maioria hormonalmente inativa Alguns elaboram estrogênios Cerca de 40%, por motivos obscuros, produzem ascite e hidrotórax (síndrome de Meigs) Raramente maligno Célula de Sertoli-Leydig Todas as idades Unilateral Geralmente pequeno, cinza a marrom-amarelado e sólido Recapitula o desenvolvimento dos testículos com túbulos ou cordões e células rosa de Sertoli Muito masculinizante ou não feminilizante Raramente é maligno Metástase para o Ovário Idade avançada Principalmente bilaterais Geralmente massas sólidas branco-acinzentadas de até 20 cm de diâmetro Células tumorais anaplásicas, cordões e glândulas dispersos através do fundo broso Células podem ser em “anel de sinete” secretoras de mucina Primários são do trato gastrointestinal (tumores de Krukenberg), mama e pulmão C A P Í T U L O 18700 SistemaGenital Feminino e Mama Teratomas Malignos Imaturos Teratomas malignos (imaturos) são encontrados no início da vida, sendo os 18 anos a idade média de detecção clínica. Eles diferem notavelmente do teratoma benigno maduro na medi- da em que muitas vezes são volumosos, predominantemente sólidos na seção de corte e pontuados por áreas de necrose; raramente há presença de focos císticos que contêm secreção sebácea, pelo e outras características semelhantes às de te- ratomas maduros. Sob exame microscópico, a característica distintiva é a presença de elementos imaturos ou cartilagem, osso, músculo, nervo ou outros tecidos minimamente diferen- ciados. Particularmente ameaçador são focos de diferenciação neuroepitelial, tendo em vista a propensão de tais focos de serem agressivos e causarem metástase ampla. Os teratomas imaturos são classificados e estadiados em um esforço para prever seu comportamento. Tumores de grau I e estágio I muitas vezes podem ser curados com tratamento adequado, enquanto os de maior grau e estágio estão associados a uma perspectiva mais cautelosa. Teratomas Especializados Um subtipo raro de teratoma é composto inteiramente por tecido especializado. O exemplo mais comum é o struma ovarii, composto inteiramente de tecido tireoidiano maduro que pode realmente produzir hipertireoidismo. Esses tumores aparecem como massas ovarianas pequenas, sólidas, unilaterais e mar- rons. Outros teratomas especializados podem tomar a forma de carcinoide do ovário, que em casos raros produz síndrome carcinoide. Correlaçõ es Clínicas Com todas as neoplasias de ovário, o manejo impõe um desafio clínico formidável porque os sinais ou sintomas geralmente aparecem apenas quando os tumores estão bem avançados. A apresentação clínica é notavelmente similar, exceto para neo- plasias em funcionamento que exercem efeitos hormonais. Os tumores ovarianos de origem do epitélio de superfície geral- mente são assintomáticos até que se tornem grandes o suficiente para causar sintomas de pressão local (p. ex., dor, queixas gas- trointestinais, frequência urinária). Na verdade, cerca de 30% das neoplasias ovarianas são descobertas incidentalmente no exame ginecológico de rotina. Massas maiores, particularmen- te os tumores epiteliais comuns, podem causar aumento na circunferência abdominal. Massas menores, particularmente os cistos dermoides, às vezes se torcem em seus pedículos (tor- ção), produzindo dor abdominal intensa que imita abdome agudo. Semeadura metastática de tumores serosos malignos muitas vezes provoca ascite, enquanto tumores ovarianos em funcionamento muitas vezes chamam a atenção por causa das endocrinopatias que produzem. Infelizmente, o tratamento de tumores de ovário continua sendo insatisfatório; apenas modesto aumento na sobrevida foi alcançado desde meados dos anos 1970. Métodos de triagem que detectam tumores iniciais são extremamente necessários, mas os avaliados até o momento são de valor limitado. Um desses marcadores, a proteína CA-125, é elevada no soro de 75-90% das mulheres com câncer epitelial do ovário. No entanto, a CA-125 não é detectável em até 50% das mulheres com câncer limitado ao ovário; em contrapartida, frequentemente é elevada em uma variedade de condições benignas e cânceres não ovarianos. As- sim, sua utilidade como teste de triagem em mulheres assinto- máticas na pós-menopausa é limitado. Atualmente, medições de CA-125 são de maior valor na monitoração da resposta à terapia. RESUMO Tumores Ovarianos do cordão sexual ou das células germinativas. - nos malignos e comuns em mulheres com mais de 40 anos de idade. - cinosos e endometrioides. Cada um tem uma contraparte benigna, maligna e borderline (baixo potencial de maligni- dade). - tar diferenciação para granulosa, Sertoli, Leydig ou células do tipo estromal do ovário. Dependendo da diferenciação, pode-se produzir estrogênios ou androgênios. - tomas císticos) são os tumores de ovário mais comuns em mulheres jovens; a maioria é benigna. oogônia (disgerminoma), tecido embrionário primitivo (em- brionário), saco vitelino (tumor do seio endodérmico), tecido placentário (coriocarcinoma) ou vários tecidos fetais (teratoma). DOENÇAS DA GRAVIDEZ Doenças da gravidez e condições patológicas da placenta são importantes contribuintes para a morbidade e a mortalidade da mãe e da criança. Um número limitado de transtornos, em que o conhecimento das lesões morfológicas contribui para a compreensão da doença clínica, é discutido nesta seção. Figura 18-18 Teratoma cístico maduro (cisto dermoide) do ovário. Uma bola de pelos (inferior) e mistura de tecidos são evidentes. (Cortesia do Dr. Christopher Crum, Brigham and Women's Hospital, Boston, Massachusetts.) 701Doença trofoblástica gestacional INFLAMAÇÕES E INFECÇÕES PLACENTÁRIAS As infecções podem atingir a placenta por qualquer um de dois caminhos: (1) ascensão através do canal vaginal ou (2) dis- seminação hematogênica (transplacentária). As infecções ascendentes são de longe as mais comuns; na maioria dos casos, são bacterianas e estão associadas à ruptura prematura das membranas fetais. No exame microscópico, o corioâmnio apresenta infiltração neutrofílica associada a edema e congestão (corioamnionite aguda). Com extensão para além das membranas, a infecção pode envolver o cordão umbilical e as vilosidades placentárias, resultando em vas- culite aguda do cordão (funisite). Infecções ascendentes são causadas por micoplasma, cândida e as numerosas bactérias da flora vaginal. Raramente, as infecções placentárias podem surgir por disseminação hematogênica de bactérias e outros organismos; no exame histológico, as vilosidades placentárias são as es- truturas mais frequentemente afetadas (vilosite). Sífilis, tu- berculose, listeriose, toxoplasmose e diversos vírus (rubéola, citomegalovírus, vírus herpes simples) podem causar vilosite placentária. Infecções transplacentárias podem afetar o feto e dar origem ao chamado complexo TORCH (toxoplasmose, ou- tras infecções, rubéola, infecção por citomegalovírus, herpes) (Capítulo 6). GRAVIDEZ ECTÓPICA A gravidez ectópica é definida como a implantação de um óvulo fertilizado em qualquer outro local que não o útero. Até 1% das gestações é ectópica. Em mais de 90% desses casos, a implantação ocorre nos ovidutos (gravidez tubária); outros locais incluem os ovários e a cavidade abdominal. Qualquer fator que retarde a passagem do óvulo pelas tubas uterinas predispõe à gravidez ectópica. Em cerca de metade dos casos, a passagem mais lenta é atribuída a inflamação crônica e cicatrizes no oviduto; tumores intrauterinos e endometriose também podem dificultar a passagem do óvulo. Em outros 50% das gestações tubárias, nenhuma causa anatômica é evi- dente. Gestações ovarianas provavelmente resultam de casos raros em que o óvulo é fertilizado assim que o folículo rompe. A gestação no interior da cavidade abdominal ocorre quando o ovo fertilizado cai fora da extremidade com fímbrias do oviduto e implanta-se no peritônio. MORFOLOGIA Em todos os locais, o desenvolvimento precoce da gravidez ectópica prossegue normalmente, com formação de tecido placentário, saco amniótico e alterações deciduais. Com a gravidez tubária, a placenta invasora subsequentemente penetra através da parede do oviduto, causando hematoma intratubal (hematossalpinge), hemorragia intraperitoneal ou ambos. A tuba uterina é geralmente distendida por sangue recentemente coagulado que contém pedaços de tecido placentário cinza e partes fetais. O diagnóstico histológico depende da visualização das vilosidades da placenta ou, ra- ramente, do embrião. Até a ruptura ocorrer, uma gravidez ectópica pode ser indistinguível de uma gravidez normal, com a interrupção da menstruação e elevação dos níveis séricos e urinários dos hormônios placentários. Sob a influência desses hormônios, o endométrio (em aproximadamente 50% dos casos), sofre as alterações deciduais e de hipersecreçãotípicas da gravidez. A ausência de níveis de gonadotrofina elevados não exclui o diagnóstico, no entanto, porque a fixação precária e a necrose da placenta ectópica são comuns. A ruptura de uma gravidez ectópica pode ser catastrófica, com o aparecimento súbito de dor abdominal intensa e sinais de abdome agudo, muitas vezes seguidos de choque. É necessária intervenção cirúrgica imediata. RESUMO Gravidez Ectópica fertilizado fora do corpo uterino. Aproximadamente 1% das gestações implanta-se de maneira ectópica; o local mais comum são as tubas uterinas. risco para a gravidez ectópica tubária. médica que, se não tratada, pode resultar em sangria e morte. DOENÇA TROFOBLÁSTICA GESTACIONAL Tumores trofoblásticos gestacionais foram divididos, em bases histopatológicas, em três categorias morfológicas so- brepostas: mola hidatiforme, mola invasiva e coriocarcinoma. Eles demonstram uma gama de agressividade, partindo da mola hidatiforme benigna até o coriocarcinoma altamente maligno. Todos elaboram gonadotrofina coriônica humana (hCG), que pode ser detectada no sangue e na urina em níveis consideravelmente mais elevados do que os encontrados durante a gravidez normal. Além do diagnóstico auxiliar, aumento ou queda dos níveis hormonais na urina ou sangue pode ser usado para monitorar a eficácia do tratamento. Os médicos preferem o nome geral doença trofoblástica gestacional porque a resposta à terapia, a julgar pelos níveis de hormônio, é significativamente mais importante do que a subtipagem patológica das lesões. No entanto, a genética, a patologia e a história natural dessas doenças são suficientemente distintas para merecer discussão separada. Mola Hidatiforme: Completa e Parcial A mola hidatiforme típica é uma massa volumosa de vilosidades coriônicas entumescidas, às vezes dilatadas cisticamente, que macroscopicamente se parecem com estruturas em cacho de uva. As vilosidades aumentadas são cobertas por quantida- des variáveis de epitélio coriônico normal a altamente atípico. Existem dois subtipos distintos de mola hidatiforme: completa e parcial. Molas hidatiformes completas não são compatíveis com embriogênese e nunca contêm partes fetais. Todas as vilosidades coriônicas são anormais, e as células epiteliais coriônicas são parcial é compatível com formação precoce de embrião e, C A P Í T U L O 18702 Sistema Genital Feminino e Mama portanto, pode conter componentes fetais, ter algumas vilo- sidades coriônicas normais e é quase sempre triploide (p. ex., Tabela 18-4). Ambos os tipos resultam da fertilização anormal. Em uma mola completa, todo o conteúdo genético é fornecido por dois espermatozoides (ou um espermatozoide diploide), obtendo-se células diploides que contêm apenas cromossomos paternos, enquanto em uma mola parcial um ovo normal é fertilizado por dois espermatozoides (ou um es- permatozoide diploide), resultando em um cariótipo triploide com preponderância de genes paternos. A incidência de mola hidatiforme completa é de cerca de 1-1,5 por 2.000 gestações nos Estados Unidos e outros países ocidentais. Por motivos desconhecidos, a incidência é muito maior nos países asiáticos. As molas são mais comuns antes da idade de 20 anos e após os 40 anos de idade, e um histórico da condição aumenta o risco da doença molar em gestações subsequentes. Embora a doença molar antes fosse descoberta com 12-14 semanas de gestação durante a investigação de uma gestação apresentando altura uterina maior que a esperada para a idade gestacional, o monitoramento precoce das gestações por ultrassom reduziu a idade gestacional da detecção. Nas molas completas e parciais, a elevação de hCG no sangue materno e a ausência de sons cardíacos fetais são típicos. MORFOLOGIA O útero pode ser de tamanho normal em molas iniciais, mas em casos mais avançados a cavidade uterina é expandida por uma massa friável e delicada, de paredes finas e estruturas císticas translúcidas (Fig. 18-19). Partes fetais raramente são observadas em molas completas, mas são comuns em molas parciais. Sob exame microscópico, a mola completa apre- senta inchaço hidrópico das vilosidades coriônicas fracamente vascularizadas, com estroma edematoso, mixomatoso e frouxo. O epitélio coriônico quase sempre apresenta certo grau de proliferação, tanto de citotrofoblastos como de sinciciotrofo- blastos (Fig. 18-20). A classificação histológica para prever o resultado clínico das molas foi suplantada pela monitoração cuidadosa dos níveis de hCG. Em molas parciais, o edema das vilosidades envolve apenas algumas das vilosidades e a proliferação trofoblástica é focal e leve. As vilosidades de molas parciais têm margem característica irregular e recortada. Na maioria dos casos de mola parcial, algumas células fetais estão presentes, variando de glóbulos vermelhos fetais nas vilosida- des da placenta até, em casos raros, feto totalmente formado. Em geral, 80-90% das molas não recorrem após curetagem completa; 10% das molas completas são invasivas. Não mais do que 2-3% dão origem a coriocarcinoma. Mola Invasiva As molas invasivas são molas completas localmente mais in- vasivas, mas que não têm o potencial metastático agressivo de um coriocarcinoma. Uma mola invasiva mantém vilosidades hidrópicas que penetram profundamente na parede uterina, possivelmente causando ruptura e, por vezes, hemorragia com risco à vida. Sob exame microscópico, o epitélio das vilosidades apresenta alterações atípicas, com a proliferação de componen- tes tanto trofoblásticos quanto sinciciais. Embora a capacidade de invasão acentuada dessa lesão torne a remoção tecnicamente difícil, não ocorrem metástases. Vilosi- dades hidrópicas podem embolizar para órgãos distantes, como pulmões ou cérebro, mas esses êmbolos não constituem verda- deiras metástases e podem mesmo regredir espontaneamente. Por causa da invasão mais profunda no miométrio, uma mola invasiva é difícil de ser completamente removida por curetagem; por isso, se o -hCG sérico permanece elevado, é necessário tratamento posterior. Felizmente, na maioria dos casos, a cura é possível com a quimioterapia. Tabela 18-4 Características da Mola Hidatiforme Completa e Parcial Característica Mola Completa Mola Parcial Cariótipo 46,XX (46,XY) Triploide (69,XXY) Edema das vilosidades Todas as vilosidades Algumas vilosidades Proliferação trofoblástica Difusa, circunferencial Focal, leve HCG sérico Elevado Menos elevado HCG nos tecidos ++++ + Risco de coriocarcinoma subsequente 2% Raro hCG, gonadotrofina coriônica humana. Figura 18-19 Mola hidatiforme completa, constituída de numerosas vilosidades aumentadas (hidrópicas). Figura 18-20 Mola hidatiforme completa. Nessa imagem microscópica, vilosidades hidrópicas distendidas (embaixo) e proliferação do epitélio coriônico (em cima) estão evidentes. (Cortesia do Dr. Kyle Molberg, Department of Pathology, University of Texas Southwestern Medical School, Dallas, Texas.) 703Pré -eclâmpsia/eclâmpsia (toxemia da gravidez) Coriocarcinoma Gestacional O coriocarcinoma, um tumor maligno muito agressivo, surge do epitélio coriônico gestacional ou, menos frequentemente, a partir de células totipotenciais dentro das gônadas (como um tumor de células germinativas). Esses tumores são raros no hemisfério ocidental; nos Estados Unidos ocorrem em cerca de uma a cada 30.000 gestações, mas são muito mais comuns em países asiáticos e africanos, atingindo a frequência de uma a cada 2.000 gestações. Aproximadamente 50% dos coriocarcinomas surgem de molas hidatiformes completas; cerca de 25% surgem depois de um aborto; o restante se mani- festa depois do que tinha sido uma gravidez normal. Dito de outro modo, quanto mais anormal a concepção, maior o risco de desenvolver coriocarcinoma gestacional. Na maioria dos casos, o coriocarcinoma se manifesta por corrimento marrom e sangrento, acompanhado por um título aumentado de -hCG no sangue e na urina, na ausência de aumento uterino acen-tuado, como o que seria de esperar com uma mola. Em geral, os títulos de -hCG são muito mais elevados do que aqueles associados a uma mola. MORFOLOGIA Os coriocarcinomas geralmente aparecem como massas uterinas hemorrágicas e necróticas. Às vezes, a necrose é tão extensa que resta pouco tumor viável. Na verdade, a lesão primária pode se “autodestruir” e apenas as metástases contam a história. Muito cedo, o tumor insinua-se no miomé- trio e em vasos. Em contraste com molas hidatifor- mes e molas invasivas, nã o sã o formadas vilosidades coriô nicas; em vez disso, o tumor é composto por citotrofoblastos e sinciciotrofoblastos cuboides e anaplá sicos (Fig. 18-21). No momento em que muitos coriocarcinomas são descober- tos, geralmente já ocorreu disseminação vascular generalizada para os pulmões (50%), vagina (30-40%), cérebro, fígado e rins. A invasão linfática é incomum. Apesar da natureza extremamente agressiva do coriocarci- noma de placenta, esses tumores são extremamente sensíveis à quimioterapia. Quase 100% dos pacientes acometidos são curados, mesmo aqueles com metástases em locais distantes, como os pulmões. Por outro lado, a resposta à quimioterapia por coriocarcinomas que surgem nas gônadas (ovários ou testículos) é relativamente ruim. Essa diferença notável no prognóstico pode estar relacionada com a presença de antígenos paternos nos coriocarcinomas placentários que estão ausentes nas lesões gonadais. Concebivelmente, uma resposta imune materna contra os antígenos estrangeiros (paternos) ajuda a eliminar o tumor, agindo como um complemento à quimioterapia. Tumor Trofoblástico de Localização Placentária Os tumores trofoblásticos de localização placentária são deriva- dos da placenta ou do trofoblasto intermediário. Esses tumores surgem poucos meses após a gravidez. Como trofoblastos in- termediários não produzem hCG em grande quantidade, as concentrações de hCG ficam apenas ligeiramente elevadas. Mais tipicamente, esses tumores produzem lactogênio de placenta humana. Um curso clínico indolor é típico, com resultado geral favorável se o tumor estiver confinado ao endomiométrio. No entanto, é importante salientar que tumores trofoblásticos de localização placentária não são tão sensíveis à quimioterapia como outros tumores trofoblásticos, e o prognóstico é sombrio quando a disseminação ocorre além do útero. RESUMO Doença Trofoblástica Gestacional cromossomos paternos na gestação. - mossomos paternos. Elas são tipicamente acompanhadas por tecido fetal. Há baixa taxa de doença persistente. são paternos. Os tecidos embrionários ou fetais não estão associados à mola completa. persistente que toma geralmente a forma de mola invasiva. Apenas 2% das molas completas progridem para coriocar- cinoma. - sivo e frequentemente metastático que, em contraste com o coriocarcinoma do ovário, é responsivo à quimioterapia e curável na maioria dos casos. - mente tumores indolentes e de estágio inicial de trofoblasto intermediário que produzem lactogênio de placenta humana e não respondem bem à quimioterapia. PRÉ-ECLÂMPSIA/ECLÂMPSIA (TOXEMIA DA GRAVIDEZ) O desenvolvimento de hipertensão acompanhada por protei- núria e edema, no terceiro trimestre de gravidez, é chamado de pré-eclâmpsia. Essa síndrome ocorre em 5-10% das gestações, Figura 18-21 Coriocarcinoma. A área contém citotrofoblastos e sincicio- trofoblastos multinucleados neoplásicos. (Cortesia do Dr. David R. Genest, Brigham and Women's Hospital, Boston, Massachusetts.) C A P Í T U L O 18704 Sistema Genital Feminino e Mama particularmente nas primeiras gestações de mulheres com mais de 35 anos de idade. Em pessoas gravemente acometidas, podem ocorrer convulsões, e o complexo de sintomas é então chamado de eclâmpsia. Devido aos antecedentes antigos, pré-eclâmpsia e eclâmpsia ainda são, por vezes, chamadas de toxemia da gravidez. Nenhuma toxina transmitida pelo sangue foi identificada, e esse nome historicamente santificado é um equívoco. O reco- nhecimento e o tratamento precoce da pré-eclâmpsia tornaram a eclâmpsia, particularmente a eclâmpsia fatal, rara. Os acontecimentos desencadeantes exatos que iniciam essas síndromes são desconhecidos, mas uma característica comum subjacente a todos os casos é o fluxo insuficiente de sangue ma- terno para a placenta, secundário à remodelagem inadequada das artérias espiraladas no leito vascular uteroplacentário. Na gravidez normal, as paredes musculoelásticas das artérias espiraladas são invadidas por trofoblastos, permitindo que se dilatem para grandes sinusoides vasculares. Na pré-eclâmpsia e eclâmpsia, essa remodelagem vascular é prejudicada, as paredes mus- culoelásticas são mantidas e os canais permanecem estreitos. A diminuição do fluxo sanguíneo uteroplacentário parece resul- tar em hipóxia da placenta, disfunção da placenta e mudança para um estado antiangiogênico sistêmico. Especificamente, foram observados aumentos nos fatores antiangiogênicos circulantes FlT1 solúveis (sFlt1), endoglina solúvel (sEeng) e reduções no nível de fatores pró-angiogênicos, como VEGF e PIGF. Há a hipótese de que esses distúrbios resultem em disfunção da célula endotelial, hiperreatividade vascular e micro- angiopatia em órgão-alvo. Embora a base exata da pré-eclâmpsia ainda precise ser definida, várias consequências graves foram associadas a essa condição: Infarto placentário, decorrente da hipoperfusão crônica Hipertensão, devida à diminuição da produção endotelial de prostaciclinas vasodilatadoras (isto é, prostaglandina I2) e prostaglandina E2, e ao aumento da produção do vasocons- tritor tromboxano A2 Hipercoagulabilidade, devida à disfunção endotelial e liberação de fator de tecido da placenta Falha de órgãos-alvo, principalmente dos rins e do fígado, que ocorre em pacientes com eclâmpsia totalmente desenvolvida. Aproximadamente 10% dos pacientes com pré-eclâmpsia gra- ve desenvolvem a chamada síndrome HELLP, caracterizada por hemólise, elevação das enzimas hepáticas e plaquetas baixas. MORFOLOGIA As alterações morfológicas da pré-eclampsia e eclâmpsia são variáveis e estão correlacionadas em algum grau com a gravi- dade do distúrbio. Anormalidades placentá rias incluem: Infartos, que podem ser uma característica da gravidez normal, mas são muito mais numerosos na pré-eclâmpsia grave ou eclâmpsia Hemorragias retroplacentá rias Maturaçã o precoce das vilosidades placentá rias associada a edema das vilosidades, hipovascularização e aumento da produção de nós epiteliais sinciciais Necrose fibrinoide e acúmulo focal de macrófagos con- tendo lipídios (aterose aguda) de vasos deciduais Características Clínicas A pré-eclâmpsia apresenta-se insidiosamente durante as se- manas 24 e 25 de gestação, com edema, proteinúria e pressão arterial aumentada. Se a condição evoluir para eclâmpsia, a função renal estará prejudicada, a pressão arterial subirá ainda mais e poderão ocorrer convulsões. A terapia imediata no início do curso aborta as alterações nos órgãos associados, com todas as anormalidades resolvidas imediatamente após o parto ou a cesariana. RESUMO Pré-eclâmpsia/Eclâmpsia sanguíneo placentário materno, com isquemia placentária resultante, infarto e alterações na produção de vasodilata- dores. hipertensão no segundo e terceiro trimestres da gravidez. Podem ser fatais quando acompanhadas por danos em múltiplos órgãos. MAMA As lesões da mama feminina são muito mais comuns do que as lesões da mama masculina e geralmente tomam a forma de nódulos ou massas palpáveis, às vezes dolorosas. Felizmente, a maioria é inocente, mas, como é bem sabido, o câncer de mama é o câncer mais comum em mulheres (excluindo a neoplasia da pele) e só perde para o câncer de pulmão como causa de morte relacionada ao câncer. Por isso, não é incomum as mulheres procurarem uma avaliação para nódulos ligeiramente suspeitos na mama (Fig. 18-22). Começamos nossa discussão sobre as doenças da mama com lesões não neoplásicas benignas.Antes de considerar as alterações fibrocísticas extremamente comuns, várias lesões re- lativamente pequenas garantem breve menção. Mamilos ou tecido mamário supranumerários podem ser encontrados em qualquer lugar ao longo da crista embrionária (linha do leite). Além de Figura 18-22 Achados histopatológicos em uma série de mulheres que procuram avaliação dos nódulos de mama. 705Alteraçõ es fibrocísticas serem curiosidades, essas anomalias congênitas estão sujeitas às mesmas doenças que acometem a mama normal. A inversão congênita do mamilo tem importância clínica, pois alterações semelhantes podem ser produzidas por um câncer subjacente. Galactocele surge durante a lactação a partir da dilatação cística de um ducto obstruído. Além de serem “caroços” dolorosos, esses cistos podem se romper, incitando uma reação inflamatória local, com a produção de um foco endurecido sugestivo de malignidade. ALTERAÇÕES FIBROCÍSTICAS A designação fibrocística é aplicada a várias alterações na mama feminina que consistem, predominantemente, em formação de cistos e fibrose. No passado, essas lesões foram chamadas de doença fibrocística. No entanto, como a maioria dessas alterações tem pouco significado clínico além da neces- sidade de distingui-las de câncer, o nome alteração fibrocística é o preferido. Em geral, as alterações fibrocísticas são as anormalidades da mama mais comuns observadas em mulheres na pré-menopau- sa. As alterações tendem a surgir durante a idade reprodutiva e são, provavelmente, uma consequência das alterações cíclicas da mama que ocorrem normalmente no ciclo menstrual. Terapia estrogênica e contraceptivos orais não parecem aumentar a incidência dessas alterações, e os contraceptivos orais podem de fato diminuir o risco. As alterações fibrocísticas podem ser subdivididas em padrões proliferativo e não proliferativo, como descritos a seguir. Alterações Não Proliferativas Cistos e Fibrose Alterações não proliferativas são o tipo mais comum de lesões fibrocísticas, caracterizadas por aumento no estroma fibroso as- sociado a dilatação dos ductos e formação de cistos de tamanho variável. Alteração Proliferativa Hiperplasia do Epitélio Os ductos e lóbulos normais da mama são revestidos por duas camadas de células — uma camada de células luminais sobre- jacentes a uma segunda camada de células mioepiteliais. A hiperplasia epitelial é reconhecida pela presença de mais de duas camadas de células. O espectro da hiperplasia epitelial varia de leve e ordenada a hiperplasias atípicas com características que se assemelham às do carcinoma in situ. Figura 18-23 Alterações fibrocísticas observadas em espécimes de bió- psia de mama. As áreas brancas dispersas e mal delimitadas representam focos de fibrose. Na amostra no canto inferior direito, um cisto seccionado vazio é evidente; nos dois espécimes à esquerda, cistos de cúpula azul fechados são observados. (Cortesia do Dr. Kyle Molberg, Departament of Pathology, University of Texas Southwestern Medical School, Dallas, Texas.) MORFOLOGIA Um cisto grande e único pode se formar dentro de uma mama, mas as alterações são geralmente multifocais e, muitas vezes, bilaterais. As áreas envolvidas aparecem como mal definidas, as densidades são difusamente aumentadas, com nodularidades distintas na mamografia. Os cistos variam de menos de 1 cm até 5 cm de diâmetro. Fechados, eles são marrons a azuis (cis- tos de cú pula azul) e estão preenchidos com líquido aquoso e turvo (Fig. 18-23). As secreções no interior dos cistos podem calcificar, produzindo microcalcificações na mamografia. O exame histológico revela uma camada epitelial que, em cistos maiores, pode ser achatada ou mesmo totalmente atrófica (Fig. 18-24). Frequentemente, as células de revestimento são grandes e poligonais, com citoplasma granular e eosinofílico abundante, e núcleos pequenos, redondos e profundamente cromáticos. Essa morfologia é chamada de metaplasia apó - crina e quase sempre é benigna. O estroma que circunda todos os tipos de cistos consis- te geralmente em tecido fibroso comprimido que perdeu a aparência mixomatosa e delicada do estroma da mama normal. Infiltrado linfocítico estromal é comum nessa e em todas as outras variantes da alteração fibrocística. Figura 18-24 Alterações fibrocísticas do tipo não proliferativo em amos- tra de biópsia de mama. Visíveis nessa área estão os ductos dilatados, produzindo microcistos e, à direita, a parede de um grande cisto revestido por células epiteliais. (Cortesia do Dr. Kyle Molberg, Department of Pathology, University of Texas Southwestern Medical School, Dallas, Texas.) MORFOLOGIA A aparência macroscópica da hiperplasia epitelial não é distintiva e é dominada por alterações fibrosas ou císticas coexistentes. O exame histológico mostra um espectro quase infinito de altera- ções proliferativas. Os ductos, dúctulos ou lóbulos podem ser C A P Í T U L O 18706 Sistema Genital Feminino e Mama Adenose Esclerosante O tipo de alteração fibrocística denominado adenose esclerosante é menos comum que os cistos e a hiperplasia, mas é significativo porque as suas características clínicas e morfológicas podem imitar as do carcinoma. Essas lesões contêm fibrose intralobular acentuada e proliferação de ductos e ácinos pequenos. Relação das Alterações Fibrocísticas com o Carcinoma de Mama Determinadas características clínicas da alteração fibrocística tendem a distingui-la do câncer, mas a única maneira certa de fazer essa distinção é através de biópsia e exame histológico. Embora as alterações fibrocísticas sejam benignas, algumas características podem conferir risco aumentado de desenvol- vimento de câncer: Risco mínimo ou não aumentado de carcinoma da mama: fibrose, alterações císticas, metaplasia apócrina, hiperplasia leve Risco levemente maior (1,5-2 vezes): hiperplasia moderada a florida (sem atipias), papilomatose ductal, adenose es- clerosante Risco significativamente aumentado (cinco vezes): hiperplasia atípica, ductular ou lobular As alterações fibrocísticas proliferativas são geralmente bila- terais e multifocais, e estão associadas a risco aumentado de carcinoma subsequente em ambas as mamas. preenchidos com células cuboides ordenadas dentro das quais pequenos padrões de glândulas (chamados fenestraçõ es) podem ser discernidos (Fig. 18-25). Às vezes, o epitélio prolife- rativo projeta várias excrescências papilares pequenas para a luz ductal (papilomatose ductal). O grau de hiperplasia, julgado em parte pelo número de camadas de epitélio intraductal, pode ser leve, moderado ou acentuado. Ocasionalmente, a hiper- plasia produz microcalcificações na mamografia, aumentando a preocupação para o câncer. Em alguns casos, as células hiperplásicas têm características que carregam alguma semelhança com o carcinoma ductal in situ (descrito adiante). Essa hiperplasia é chamada de hiper- plasia ductal atípica. A hiperplasia lobular atípica é usada para descrever hiperplasias que exibem alterações que se aproximam dos critérios de diagnóstico para o carcinoma lobular in situ mas não os satisfazem. Tanto a hiperplasia lobular quanto a ductal atípica estão associadas a aumento do risco de carcinoma invasivo. Figura 18-25 Hiperplasia epitelial em amostra de biópsia de mama. A luz do ducto é preenchida com uma população heterogênea de células de morfologias diferentes. Fenestrações irregulares semelhantes a fendas são proeminentes na periferia. MORFOLOGIA Macroscopicamente, a lesão tem consistência dura e de borracha, semelhante à do câncer da mama. O exame his- tológico mostra proliferaçã o de espaços luminais típica (adenose) revestida por cé lulas epiteliais e cé lulas mioepiteliais, produzindo massas de pequenas glândulas dentro de um estroma fibroso (Fig. 18-26). Glândulas agre- gadas podem ser praticamente encostadas, com camadas únicas ou múltiplas de células em contato umas com as outras. A fibrose acentuada do estroma, que pode comprimire distorcer o epitélio proliferativo, está sempre associada à adenose — daí a designação adenose esclerosante. Esse crescimento excessivo do tecido fibroso pode comprimir completamente a luz dos ácinos e ductos, de modo que eles apareçam como cordões sólidos de células — um padrão que é difícil de distinguir histologicamente do carcinoma ductal invasivo. A presença de camadas duplas do epitélio e a identificação de elementos mioepiteliais são úteis para se chegar ao diagnóstico correto. Figura 18-26 Adenose esclerosante, biópsia de mama. A unidade lobular do ducto terminal envolvido está alargada e os ácinos estão comprimidos e distorcidos pelo estroma denso circundante. Diferentemente de um carcinoma de mama, os ácinos estão arranjados em um padrão de turbilhão, e a outra margem é bem circunscrita. 707Tumores da mama RESUMO Alterações Fibrocísticas proliferativas (císticas) ou proliferativas. ductos e lóbulos (com ou sem características de atipias) e adenose (proliferação dos ductos terminais), às vezes as- sociadas à fibrose (adenose esclerosante). aumento de cinco vezes no risco de desenvolver carci- noma. PROCESSOS INFLAMATÓRIOS Os processos inflamatórios que envolvem a mama são pouco comuns e geralmente estão associados a dor e sensibilidade nas áreas afetadas. Incluídas nessa categoria estão várias formas de mastite e necrose gordurosa traumática, nenhuma das quais aumenta o risco de câncer. A mastite aguda desenvolve-se quando bactérias, geralmente Staphylococcus aureus, ganham acesso ao tecido mamário através dos ductos. A grande maioria dos casos surge durante as primeiras semanas de amamentação, quando a pele do mamilo está vulnerável ao desenvolvimento de fissuras. Clinicamente, infecções por es- tafilococos induzem alterações inflamatórias agudas típicas, que podem evoluir formando abscessos únicos ou múltiplos. A ectasia do ducto mamário (mastite por plasmócitos) é uma in- flamação não bacteriana crônica da mama associada ao espessa- mento das secreções da mama nos ductos excretores principais. A dilatação ductal e a subsequente ruptura levam a alterações reativas no tecido circundante que podem se apresentar como massa periareolar mal definida com retração do mamilo, imi- tando as alterações causadas por alguns tipos de câncer. É uma condição incomum, geralmente encontrada em mulheres que já tiveram filhos, entre 40-60 anos de idade. MORFOLOGIA Normalmente, as alterações inflamatórias estão confinadas a uma área drenada por um ou mais dos ductos excretores principais do mamilo. No exame histológico, os ductos são preenchidos com restos granulares, por vezes contendo leu- cócitos e macrófagos carregados de lipídios. O epitélio de revestimento geralmente está destruído. As características mais distintivas consistem em um infiltrado linfoplas- mocítico proeminente e granulomas ocasionais no estroma periductal. A necrose gordurosa é uma lesão rara e inócua significativa apenas porque muitas vezes produz uma massa. A maioria das mulheres com essa condição relata algum traumatismo antecedente na mama. TUMORES DA MAMA Os tumores são as lesões mais importantes da mama feminina. Embora possam surgir a partir das estruturas do tecido con- juntivo ou estruturas epiteliais, é o último que dá origem às neoplasias comuns da mama. Fibroadenoma O fibroadenoma é de longe a neoplasia benigna mais comum da mama feminina. É um tumor bifásico composto de estroma fibroblástico e glândulas revestidas por epitélio; no entanto, apenas as células do estroma são clonais e verdadeiramente neoplásicas. Os fibroadenomas geralmente aparecem em mulheres jovens, com pico de incidência na terceira década de vida. Geralmente manifestam-se como massas móveis, isoladas e distintas. Pensa-se que um aumento absoluto ou relativo do estrogênio contribui para o seu desenvolvimento. Além disso, os fibroadenomas podem aumentar tardiamente no ciclo menstrual e durante a gravidez; após a menopausa, eles podem regredir e calcificar. MORFOLOGIA Os fibroadenomas formam massas distintas, de 1-10 cm de diâmetro e de consistência firme (Fig. 18-27). Uma seção de corte mostra cor branco-acastanhada uniforme, pontuada por manchas rosa-amareladas mais moles, que representam as áreas glandulares. O exame histológico mostra um estroma fibroblástico frouxo que contém espaços revestidos por epitélio, como ductos, de várias formas e tamanhos. Como no tecido mamário normal, esses espaços glandulares são revestidos por células luminais e mioepiteliais com membrana basal bem definida e intacta. Tumor Filoide Assim como os fibroadenomas, os tumores filoides são bifásicos, sendo compostos de células estromais neoplásicas e glândulas revestidas por epitélio. No entanto, o elemento estromal desses tumores é mais celular e abundante, muitas vezes formando projeções parecidas com folhas revestidas por epitélio (phyllodes vem do grego, “semelhante a uma folha”). Esses tumores são muito menos comuns do que os fibroadenomas e surgem de maneira original, e não de fibroadenomas preexistentes. No passado, eles tinham o nome cistossarcoma filoide, uma expressão infeliz porque esses tumores são geralmente benignos. Altera- ções ameaçadoras que sugerem malignidade incluem aumento da celularidade estromal, anaplasia, alta atividade mitótica, rápido aumento no tamanho e margens infiltrativas. Felizmente, a maioria dos tumores filoides permanece localizada e é cura- da por excisão; lesões malignas podem recorrer, mas também tendem a permanecer localizadas. Apenas 15% dos casos são totalmente malignos, sofrendo metástases para locais distantes. MORFOLOGIA Durante a fase inicial da necrose gordurosa traumática, a lesão é pequena, geralmente sensível, raramente maior do que 2 cm de diâmetro e nitidamente localizada. Ela consiste em um foco central de células de gordura necrosadas cercadas por neu- trófilos e macrófagos carregados de lipídios, algumas vezes com células gigantes. Essa lesão mais tarde torna-se cercada por tecido fibroso e leucócitos mononucleares, e subsequen- temente é substituída por tecido de cicatrização ou um cisto constituído por restos necróticos. Calcif icações podem se desenvolver na cicatriz ou na parede do cisto. C A P Í T U L O 18708 Sistema Genital Feminino e Mama Papiloma Intraductal O papiloma intraductal é um crescimento papilar neoplásico benigno. É mais frequentemente observado em mulheres na pré-menopausa. Essas lesões normalmente são isoladas e en- contradas dentro dos ductos ou seios lactíferos principais. A apresentação clínica pode incluir: pequeno tumor subareolar com poucos milíme- tros de diâmetro Retração do mamilo, em casos raros Carcinoma Em 2010, mais de 200.000 cânceres de mama invasivos foram diagnosticados em mulheres nos Estados Unidos, e cerca de 40.000 mulheres morreram dessa doença, fazendo com que essa praga perca apenas para o câncer de pulmão como causa de morte relacionada ao câncer em mulheres. O risco de desenvol- ver câncer de mama é de um em oito para mulheres nos Estados Unidos. Durante as últimas três décadas, a taxa de mortalidade entre os pacientes diagnosticados com câncer de mama caiu de 30% para 20%, principalmente como resultado da melhora na triagem e tratamento. Epidemiologia e Fatores de Risco Grande número de fatores de risco para câncer de mama foi identificado. A Tabela 18-5 os divide em grupos bem estabele- cidos e menos bem estabelecidos e indica, quando possível, o risco relativo emitido por cada um. Alguns dos fatores de risco mais importantes são resumidos a seguir. Idade. O risco aumenta progressivamente ao longo da vida, es- pecialmente após a menopausa, atingindo um máximo em torno dos 80 anos de idade; 75% das mulheres com câncer de mama têm mais de 50 anos de idade, e apenas 5% têm menos de 40. Variações Geográficas. Diferenças surpreendentes nas taxas de incidência e mortalidade do câncer de mama têm sido relatadas por vários países. O risco para odesenvolvimento dessa doença Figura 18-27 Fibroadenoma. A, A radiografia mostra uma massa bem circunscrita característica. B, Nessa amostra macroscópica, uma massa bem circunscrita, firme e elástica, está claramente demarcada a partir do tecido adiposo circundante. C, Nessa micrografia, a proliferação do estroma intralobular pode ser observada comprimindo as glândulas aprisionadas, criando uma borda que empurra e é claramente delineada a partir do tecido normal circundante. MORFOLOGIA Os tumores geralmente são isolados e menores do que 1 cm de diâmetro, constituídos por crescimentos de ramificação delicados dentro de um ducto dilatado. No exame histológico, são compostos de papilas múltiplas, cada uma tendo um núcleo de tecido conjuntivo coberto por células epiteliais que são de camada dupla, com uma camada exterior luminal sobrejacente a uma camada mioepitelial. A presença de um epitélio de cama- da dupla ajuda a distinguir o papiloma intraductal do carcinoma papilar intraductal, que pode se apresentar com características clínicas semelhantes às do papiloma benigno. Tabela 18-5 Fatores de Risco para o Câncer de Mama Fator Risco Relativo Fatores bem Estabelecidos Geograa Varia em áreas diferentes Idade Aumenta após os 30 anos Histórico familiar Parente em primeiro grau com câncer de mama 1,2-3,0 Pré-menopausa 3,1 Pré-menopausa e bilateral 8,5-9,0 Pós-menopausa 1,5 Pós-menopausa e bilateral 4,0-5,4 Histórico menstrual Idade na menarca 55 anos 1,5-2,0 Gravidez Primeiro parto entre 25-29 anos 1,5 Primeiro parto após os 30 anos 1,9 Primeiro parto após os 35 anos 2,0-3,0 Nulípara 3,0 Doença da mama benigna Doença proliferativa sem atipia 1,6 Doença proliferativa com hiperplasia atípica >2,0 Carcinoma lobular in situ 6,9-12,0 Outros Fatores Possíveis Estrogênio exógeno Contraceptivos orais Obesidade Dieta altamente gordurosa Consumo de álcool Fumo Dados de Bilimoria MM, Morrow M: The women at increased risk for breast cancer : evaluation and management strategies. CA Cancer J Clin 46:263, 1995. 709Tumores da mama é significativamente maior na América do Norte e no norte da Europa que na Ásia e África. Por exemplo, as taxas de incidência e de mortalidade são cinco vezes maiores nos Estados Unidos do que no Japão. Essas diferenças parecem ser ambientais e não de origem genética, porque os migrantes das áreas de baixa incidência para áreas de alta incidência tendem a adquirir as taxas de seus países adotivos, e vice-versa. Acredita-se que hábitos alimentares, padrões reprodutivos e de amamentação estejam envolvidos. Raça/Etnia. A maior taxa de câncer de mama é em mulheres brancas não hispânicas. No entanto, mulheres hispânicas e afro-americanas tendem a desenvolver câncer em uma idade mais jovem e estão mais suscetíveis a desenvolver tumores agressivos que se apresentam em estágio avançado. Essas dis- paridades entre etnias são uma área de intenso estudo e, atual- mente, acredita-se que ocorrem devido a uma combinação de diferenças genéticas e fatores sociais, como opções de vida e acesso aos cuidados de saúde. Outros Fatores de Risco. A exposição prolongada ao estrogênio exógeno na pós-menopausa, como ocorre no tratamento de reposição hormonal, provou ser útil para a prevenção da osteoporose. No entanto, de acordo com estudos recentes, o uso de curto prazo relativo da terapia hormonal combi- nada de estrogênio e progestina está associado a um risco aumentado de câncer de mama, diagnóstico em estágio mais avançado de câncer de mama e maior incidência de mamografias anormais. Pelo fato de o relatório de 2002 da Woman's Health Initiative ter sugerido maior dano que benefício na combinação de estrogênio e progestina, ocorreu uma queda acentuada no uso de estrogênio e progesterona, juntamente com uma reavaliação séria da terapia hormonal na perimenopausa. Os contraceptivos orais não mostraram afetar o risco de câncer de mama, mesmo em mulheres que tomaram a pílula por muito tempo ou em mulheres com história familiar de câncer de mama. A radiação ionizante do tórax aumenta o risco de câncer de mama. A magnitude do risco depende da dose da radiação, do tempo desde a exposição e da idade. Somente as mulheres nas quais a irradiação ocorreu antes dos 30 anos, durante o desenvolvimento da mama, parecem ser afetadas. Por exemplo, o câncer de mama desenvolve-se em 20-30% das mulheres que se submeteram à irradiação para linfoma de Hodgkin na adoles- cência e na faixa dos 20 anos, mas o risco para mulheres tratadas mais tarde na vida não é elevado. É importante salientar que as baixas doses de radiação associadas à triagem mamográfica não têm efeito significativo sobre a incidência de câncer de mama. Muitos outros fatores de risco bem menos estabelecidos, como obesidade, consumo de álcool e dieta rica em gordura, têm sido envolvidos no desenvolvimento do câncer de mama por análise de estudos da população. O risco associado à obesidade é provavelmente devido à exposição da mama ao estrogênio produzido pelo tecido adiposo. PATOGENIA As causas do câncer de mama permanecem incompletamente compreendidas. No entanto, três conjuntos de influências pa- recem ser importantes: (1) alterações genéticas, (2) influências hormonais e (3) variáveis ambientais. Alteraçõ es Gené ticas. Tal como acontece com todos os cânceres, as mutaçõ es que afetam proto-oncogenes e genes supressores tumorais no epité lio da mama sã o subjacen- tes à oncogê nese. Entre as mais bem caracterizadas está a superexpressã o do proto-oncogene HER2/NEU, que sofre amplificação em até 30% dos cânceres da mama invasivos. Esse gene é um membro da família do receptor do fator de crescimento da epiderme, e sua superexpressão está associada a um prognó stico sombrio. A amplificaçã o dos genes RAS e MYC també m tem sido relatada em alguns câ nceres da mama humanos. As mutaçõ es dos bem conhecidos genes supressores de tumor RB e TP53 també m podem estar presen- tes. Grande nú mero de genes, incluindo o gene do receptor de estrogê nio, pode ser inativado por hipermetilação do promotor. Sem dú vida, o processo de transformação envolve mú ltiplas alteraçõ es gené ticas adquiridas, que podem ocorrer em vá- rias combinaçõ es, dando assim origem a diferentes subtipos de câncer de mama. O perfil da expressã o gê nica pode separar o câ ncer de mama em quatro subtipos mole- culares: (1) luminal A (positivo para receptor de estrogê nio, negativo para HER2/NEU); (2) luminal B (positivo para receptor de estrogê nio, superexpressão de HER2/NEU); (3) positivo para HER2/NEU (superexpressão de HER2/NEU, negativo para receptor de estrogê nio); e (4) semelhante ao basal (negativo para receptor de estrogê nio e negativo para HER2/NEU). Esses subtipos estão associados a diferentes resultados e, em alguns casos, terapias diferentes. Aproximadamente 10% dos cânceres de mama estão rela- cionados a mutações hereditárias específicas. As mulheres que carregam um gene de suscetibilidade ao câncer de mama são mais propensas a ter câncer bilateral, a ter outras formas familiares de câncer (p. ex., câncer de ovário), a ter história familiar positivo (isto é, múltiplos parentes de primeiro grau afetados antes da menopausa), a desenvolver câncer de mama antes da menopausa e a pertencer a determinados grupos étnicos (p. ex., as pessoas de ascendência judaica asquenazi). Cerca de 33% das mulhe- res com câ ncer de mama hereditá rio apresentam mu- taçõ es no BRCA1 (no ló cus cromossô mico 17q21.3) ou BRCA2 (localizado na banda cromossô mica 13q12-13). Esses genes codificam proteínas grandes e complexas que não apresentam homologia próxima umas às outras ou a outras pro- teínas. Embora a base molecular para a sua forte associação ao risco de câncer de mama ainda esteja sendo elucidada, acredita-se que tanto o BRCA1 quanto o BRCA2 funcionem em uma via comum de reparo do DNA (Capítulo 5). Geneticamente, BRCA1 e BRCA2 são genessupressores tu- morais clássicos, pois o câncer surge apenas quando ambos os alelos são inativados ou defeituosos — no primeiro, lesão genética causada por uma mutação germinativa; no segundo, por uma mutação somática subsequente. Os testes genéticos estão disponíveis, mas sua utilidade é complicada pela exis- tência de centenas de alelos mutantes diferentes, sendo que apenas alguns deles conferem suscetibilidade ao câncer. O grau de penetração, idade no início do câncer e suscetibilidade a outros tipos de câncer diferem entre as mutações específicas. A maioria das portadoras, no entanto, desenvolve câncer de mama na idade de 70 anos, em comparação com apenas 7% das mulheres que não carregam uma mutação. O papel desses genes no câncer de mama não hereditário esporádico é menos claro, pois as mutações que afetam BRCA1 e BRCA2 são infrequentes em tumores esporádicos. Doenças genéticas menos comuns associadas ao câncer de mama são a síndrome de Li-Fraumeni (causada por mutações em TP53) (Capítulo 5), a síndrome de Cowden (causada por mutações germinais no PTEN — mencio- nado anteriormente no carcinoma endometrial) (Capítulo 14) e as dos portadores do gene ataxia-telangiectasia (Capítulo 5). C A P Í T U L O 18710 Sistema Genital Feminino e Mama Influê ncias Hormonais. O excesso de estrogê nio endó - geno ou, mais precisamente, o desequilíbrio hormonal, tem claramente um papel significativo. Muitos dos fatores de risco mencionados (longa duração de vida reprodutiva, nuliparidade e idade avançada no nascimento do primeiro filho) envolvem aumento da exposição ao estrogê nio sem oposição da pro- gesterona (Tabela 18-5). Tumores ovarianos funcionais que elaboram estrogê nios estã o associados ao câ ncer de mama em mulheres pó s-menopáusicas. Os estrogê nios estimulam a produçã o de fatores de crescimento, como fator de cres- cimento transformador, o fator de crescimento derivado de plaquetas, o fator de crescimento de fibroblastos e outros, que podem promover o desenvolvimento do tumor atravé s de mecanismos parácrinos e autó crinos. Variá veis Ambientais. As influê ncias ambientais são suge- ridas pela incidê ncia variável de câncer de mama em grupos geneticamente homogê neos e as diferenças geográficas na prevalê ncia, como discutido anteriormente. MORFOLOGIA A localização mais comum do tumor dentro da mama é no quadrante superior externo (50%), seguido pela porção cen- tral (20%). Cerca de 4% das mulheres com câncer de mama têm tumores primários bilaterais ou lesões sequenciais na mesma mama. Os cânceres de mama são classificados conforme sua pene- tração ou não na membrana basal limitante: aqueles que per- manecem dentro desse limite são chamados carcinomas in situ e aqueles que se espalharam para além dele são designados carcinoma invasivo ou infiltrativo. Nessa classificação, as prin- cipais formas de carcinoma da mama são como se segue: A. Não invasivo 1. Carcinoma ductal in situ (CDIS) 2. Carcinoma lobular in situ (CLIS) B. Invasivo (infiltrante) 1. Carcinoma ductal invasivo (“não especificado em outros aspectos”), o subtipo mais comum de carcinoma invasivo 2. Carcinoma lobular invasivo 3. Carcinoma medular 4. Carcinoma coloide (carcinoma mucinoso) 5. Carcinoma tubular 6. Outros tipos Carcinoma (in Situ) Nã o Invasivo Existem dois tipos de carcinoma de mama não invasivo: CDIS e CLIS. Estudos morfológicos mostram que ambos os tipos surgem normalmente a partir de células na unidade lobular do ducto terminal. O CDIS tende a preencher e distorcer os es- paços semelhantes a ductos. Por outro lado, o CLIS geralmente se expande, mas não altera os ácinos dos lóbulos. Ambos são restritos por uma membrana basal e não invadem o estroma ou os canais Iinfovasculares. O CDIS tem grande variedade de aparências histológicas. Padrões arquitetônicos muitas vezes são misturados e in- cluem tipos sólido, comedo, cribriforme, papilar, micropapilar e “agregado”. Pode haver presença de necrose em qualquer um desses tipos. A aparência nuclear tende a ser uniforme em determinado caso e varia de branda e monótona (grau nuclear baixo) até pleomórfica (grau nuclear alto). O subtipo comedo é distintivo e caracterizado por células com núcleos de alto grau com necrose central extensa (Fig. 18-28). O nome deriva do tecido necrótico do tipo creme dental que extrusa dos ductos seccionados com aplicação de pressão suave. As calcificaçõ es frequentemente estã o associadas ao CDIS, originando-se como detritos necróticos calcificados ou material de secreção calcificado. A proporção dos cânceres da mama que são diagnosticados no estágio CDIS é de apenas 5% em populações não examinadas, mas de até 40% nas popu- lações que passaram por triagem, em grande parte devido à capacidade da mamografia de detectar calcificações. O CDIS só raramente se manifesta como massa palpável ou radiologica- mente detectável. O prognóstico para CDIS é excelente, com mais de 97% de sobrevida de longo prazo após mastectomia simples. Em algumas mulheres, metástase distante se desen- volve sem recidiva local; esses pacientes geralmente têm CDIS extenso de alto grau nuclear, provavelmente com pequenas áreas de invasão não detectadas. Pelo menos 33% das mulheres com pequenas áreas de CDIS não tratados de baixo grau nu- clear acabarão por desenvolver carcinoma invasivo. Quando o câncer invasivo chega a se desenvolver, geralmente é na mesma mama e quadrante que o CDIS anterior. Estratégias atuais de tratamento tentam erradicar o CDIS com cirurgia e irradiação. O tratamento com agentes antiestrogênicos, como tamoxifeno e aromatase, também podem diminuir o risco de recorrência. A doença de Paget do mamilo é causada pela extensão do CDIS até os ductos lactíferos e para dentro da pele contígua do mamilo, produzindo um exsudado crostoso unilateral sobre o mamilo e a pele areolar. Em quase todos os casos, um carci- noma subjacente está presente, e em aproximadamente 50% das vezes esse carcinoma é invasivo. O prognóstico é baseado no carcinoma subjacente e não é afetado pela presença da doença de Paget. O CLIS tem aparência uniforme. As células são monomór- ficas, com núcleos suaves e esféricos, e ocorrem em aglome- rados fracamente coesivos dentro dos lóbulos (Fig. 18-29). Vacúolos de mucina intracelular (às vezes formando células em anel de sinete) são comuns. O CLIS é quase sempre um achado incidental porque, ao contrário do CDIS, apenas ra- ramente está associado a calcificações. Portanto, a incidência de CLIS manteve-se inalterada em populações avaliadas via mamografia. Aproximadamente 33% das mulheres com CLIS acabarão por desenvolver carcinoma invasivo. Ao contrário Figura 18-28 Carcinoma ductal comedo in situ (CDIS). Vários ductos adjacentes estão preenchidos por tumor associado a grandes zonas centrais de necrose e restos calcificados. Esse tipo de CDIS mais frequentemente é detectado como calcificações radiológicas. 711Tumores da mama do CDIS, carcinomas invasivos subsequentes podem surgir em qualquer mama. A maioria desses cânceres é de carcinomas lobulares invasivos; no entanto, carcinomas ductais invasivos também surgem de CLIS. Assim, o CLIS é tanto um marcador do aumento de risco do car- cinoma em ambas as mamas quanto um precursor direto de alguns câ nceres. O tratamento atual envolve a quimioprevenção com tamoxifeno junto com avaliação de acompanhamento clínico e radiológico ou, menos comumente, a mastectomia profilática bilateral. Carcinoma (Infiltrante) Invasivo Os padrões histológicos distintos dos subtipos de carcinoma invasivo são descritos em primeiro lugar, seguidos pelas carac- terísticas totais comuns a todos. Figura 18-29 Carcinoma lobular in situ. Uma população monomórfica de células pequenas, redondas e pouco coesivas preenche e expande os ácinos de um lóbulo. A arquitetura subjacente lobular está íntegra. Figura 18-30 Carcinoma ductal invasivo é evidente nessa amostra de biópsia mamária. As lesões fibróticas rígidas infiltramo tecido circundante, causando retração. Figura 18-31 Carcinomas de mama invasivos de nenhum tipo especial (inserções mostram cada tumor com maior ampliação). A, Carcinoma bem diferenciado consiste em glândulas tubulares ou cribriformes contendo células com núcleos monomórficos e pequenos dentro de uma resposta des- moplásica. B, Carcinoma moderadamente diferenciado demonstra menor formação de túbulos e mais ninhos sólidos de células com núcleos pleomórficos. C, Carcinoma pouco diferenciados infiltram como lâminas irregulares de células pleomórficas contendo inúmeras figuras de mitose e áreas de necrose do tumor. Carcinoma ductal invasivo é uma expressão usada para todos os carcinomas que não podem ser subclassificados em um dos tipos especializados descritos adiante. A maioria dos cânceres (70-80%) pertence a esse grupo. Esse tipo de câncer normalmente está associado ao CDIS e, raramente, ao CLIS. Muitos carcinomas ductais produzem uma resposta desmoplá- sica que substitui a gordura da mama normal (resultando em densidade mamográfica) e forma uma massa dura e palpável (Fig. 18-30). O aspecto microscópico é bastante heterogêneo, variando de tumores com formação de túbulos bem desenvol- vida e núcleos de baixo grau a tumores constituídos por lâminas de células anaplásicas (Fig. 18-31). As margens do tumor são geralmente irregulares. A invasão dos espaços linfovasculares pode ser observada. Cerca de 66% expressam receptores de estrogênio ou progesterona, e cerca de 33% superexpressam HER2/NEU. C A P Í T U L O 18712 Sistema Genital Feminino e Mama O carcinoma lobular invasivo é constituído por células morfologicamente idênticas às células do CLIS. Sessenta e seis por cento dos casos estão associados ao CLIS adjacente. As células invadem individualmente o estroma e, muitas vezes, são alinhadas em cordões ou correntes de “células isoladas”. Esse padrão de crescimento correlaciona-se com a presença de mutações que anularão a função da E-caderina, uma proteína de superfície que contribui para a coesão das células normais epiteliais da mama. Embora a maior parte se manifeste como massas palpáveis ou como densidades mamográficas, um sub- grupo significativo pode apresentar um padrão difusamente invasivo sem resposta desmoplásica e pode ser clinicamente oculto. Carcinomas lobulares têm um padrão único de metás- tase entre os cânceres de mama; mais frequentemente, eles se espalham para o líquido cerebrospinal, superfícies serosas, trato gastrointestinal, ovário, útero e medula óssea. Os carcino- mas lobulares também são mais frequentemente multicêntricos e bilaterais (10-20% dos casos). Quase todos esses carcinomas expressam receptores hormonais, enquanto a superexpressão HER2/NEU é rara. Esses tumores compreendem menos de 20% de todos os carcinomas mamários. O carcinoma inflamató rio é definido pela apresenta- ção clínica de mama ampliada, entumescida e eritematosa, geralmente sem massa palpável. O carcinoma subjacente ge- ralmente é pouco diferenciado e difusamente inf iltrativo. Caracteristicamente, o carcinoma envolve espaços linfáticos dérmicos. O bloqueio resultante desses canais leva a edema, resultando na característica aparência clínica “inflamada”; a inflamação verdadeira é mínima a ausente. Muitos desses tumores sofrem metástases para locais distantes; a sobrevida total de cinco anos é inferior a 50% e compreensivelmente ainda mais baixa nas pacientes com a doença metastática no momento do diagnóstico. O carcinoma medular é um subtipo raro de carcinoma, representando menos de 1% dos cânceres de mama. Esses cânceres são constituídos por lâminas de grandes células anaplásicas com limites bem circunscritos e “comprimidos” (Fig. 18-32, A). Clinicamente, podem ser confundidos com fibroadenomas. Há sempre um infiltrado linfoplasmocítico Figura 18-32 Tipos especiais de carcinoma de mama. A, Carcinoma medular. As células tumorais altamente pleomórficas crescem em massas coesivas e são associadas a um infiltrado proeminente reativo de linfócitos e células plasmáticas. B, Carcinoma mucinoso (coloide). As células tumorais estão presentes em pequenos grupos dentro de grande quantidade de mucina. Nota-se a característica margem bem circunscrita, que imita a aparência de massas benignas. pronunciado. O CDIS geralmente está ausente ou é míni- mo. Carcinomas medulares ocorrem com maior frequência em mulheres com mutações no BRCA1, embora a maioria das mulheres com carcinoma medular não seja portadora. Esses carcinomas uniformemente não possuem receptores de estrogênio e progesterona, e não superexpressam HER2/ NEU (uma combinação que muitas vezes é referida como triplo negativo). O carcinoma coloide (mucinoso) também é um subtipo raro. As células tumorais produzem quantidade abundante de mucina extracelular, que disseca para dentro do estroma cir- cundante (Fig. 18-32, B). Como os carcinomas medulares, eles muitas vezes se apresentam como massas bem circunscritas e podem ser confundidos com fibroadenomas. Na avaliação macroscópica, os tumores geralmente são moles e gelatinosos. A maioria expressa receptores hormonais, mas não superex- pressa HER2/NEU. Os carcinomas tubulares raramente se apresentam co- mo massas palpáveis, mas respondem por 10% dos carcinomas invasivos menores que 1 cm encontrados com exame mamo- gráfico. Geralmente são detectados como densidades mamo- gráficas irregulares. No exame microscópico, os carcinomas são constituídos por túbulos bem formados com núcleos de grau baixo. Metástases linfonodais são raras, e o prognóstico é excelente. Praticamente todos os carcinomas tubulares expres- sam receptores hormonais e não apresentam superexpressão de HER2/NEU. Características Comuns dos Câ nceres Invasivos Em todas as formas de câncer de mama, a progressão da doença leva a achados físicos semelhantes. Os cânceres in- vasivos tendem a se tornar aderentes e fixos nos músculos peitorais ou fáscia profunda da parede do tórax e da pele sobrejacente, com consequente retração ou depressões na pele ou no mamilo. Estas últimas são um sinal importante porque podem ser a primeira indicação de malignidade. Os envolvimentos das vias linfáticas podem resultar em linfede- ma localizado. Nesses casos, a pele fica espessa em torno de folículos pilosos exagerados, dando a aparência conhecida como casca de laranja. 713Tumores da mama Curso Clínico O câncer de mama muitas vezes é descoberto pelo paciente ou seu médico como massa enganosamente distinta, solitária, indolor e móvel. No momento da detecção clínica, o carcinoma tipicamente tem 2-3 cm de tamanho, e o envolvimento dos linfonodos linfáticos regionais (mais frequentemente axilares) já está presente em cerca de 50% das pacientes. Com exame mamográfico, os carcinomas frequentemente são detectados antes mesmo de se tornarem palpáveis. A média do carcinoma invasivo encontrado por exame mamográfico é de cerca de 1 cm de tamanho, e apenas 15% deles produziram metástases nodais. Além disso, muitas vezes o CDIS é detectado antes do desenvolvimento de carcinoma invasivo durante o exame. À medida que a mulher envelhece, o tecido fibroso da mama é substituído por gordura, e o exame torna-se mais sensível, como resultado do aumento da radioluscência da mama e do aumento da incidência de malignidade. A polêmica atual sobre o melhor momento para se começar o exame mamográfico surge dos esforços para equilibrar os benefícios da detecção precoce do câncer em algumas mulheres com riscos de exposição à radiação e a morbidade e despesa associada aos achados clínicos de lesões benignas da mama (falsos positivos). A ressonância magnética está sendo estudada como um adjuvante do exame mamográfico em pacientes jovens de alto risco, com mamas densas, que são difíceis de examinar através da mamografia. A propagação do câncer de mama ocorre através dos canais linfáticos e hematogênicos. As lesões de localização central e do quadrante exterior tipicamente se espalhamprimeiro para os linfonodos axilares. Aquelas nos quadrantes mediais internos muitas vezes vão primeiramente para os linfonodos ao longo das artérias mamárias internas. A disseminação mais distante eventualmente se segue e pode envolver praticamente qualquer órgão ou tecido do corpo. Os locais preferidos são pulmões, esqueleto, fígado, glândulas suprarrenais e (menos frequente- mente) o cérebro, mas nenhum local está isento. As metástases podem chegar à atenção clínica muitos anos após o controle terapêutico aparente da lesão primária, às vezes até 15 anos mais tarde. Não obs- tante, a cada ano que passa sem recidiva da doença aumenta a probabilidade de cura. O prognóstico dos cânceres de mama é influenciado pelas se- guintes variáveis, sendo que as três primeiras são componentes da classificação de estadiamento do tumor-nódulo-metástase (TNM): Invasão e tamanho tumoral. Carcinomas in situ apresentam ex- celente prognóstico (taxa de sobrevida de cinco anos superior a 90%), assim como os carcinomas invasivos menores que 2 cm (taxa de sobrevida de cinco anos de 87%). Grau de envolvimento dos linfonodos linfáticos. Sem o envolvimen- to do linfonodo axilar, a taxa de sobrevida de cinco anos é de cerca de 80%. A sobrevida está inversamente relacionada com o número de linfonodos envolvidos e é inferior a 50% com 16 ou mais nódulos envolvidos. A biópsia de linfonodo sentinela é atualmente o esteio para o estadiamento da axila. Esse procedimento identifica o(s) linfonodo(s) primário(s) que drena(m) o parênquima da mama, usando corante ou um marcador radioativo (às vezes, ambos). Uma vez identificados, os linfonodos sentinela são removidos e exa- minados microscopicamente. Um linfonodo sentinela livre de carcinoma (“linfonodo negativo”) é altamente preditivo de ausência de carcinoma metastático nos linfonodos res- tantes. Um “linfonodo positivo”, por outro lado, é indicação para dissecção axilar completa, que é usada para estadiar a doença do paciente. Metástases distantes. Os pacientes que desenvolvem dis- seminação hematogênica raramente são curáveis, embora a quimioterapia possa prolongar a sobrevida (a taxa de sobre- vida de cinco anos é de aproximadamente 15%). Grau histológico. O sistema de classificação mais comum de câncer de mama avalia a formação de túbulos, grau nuclear e índice mitótico. Carcinomas bem diferenciados estão as- sociados a prognóstico significativamente melhor do que os carcinomas pouco diferenciados. Carcinomas modera- damente diferenciados inicialmente têm bom prognóstico, mas a sobrevida de 20 anos aproxima-se da sobrevida dos carcinomas pouco diferenciados. Tipo histológico do carcinoma. Todos os tipos especializados de carcinoma da mama (tubular, medular e mucinoso) es- tão associados a prognóstico um pouco melhor do que os carcinomas de nenhum tipo especial (carcinomas ductais). A grande exceção é o carcinoma inflamatório, que tem prognós- tico sombrio. Presença ou ausência de receptores de estrogênio ou de proges- terona. A presença de receptores hormonais confere prognós- tico ligeiramente melhor. No entanto, a razão prática para a determinação da sua presença é prever a resposta à terapia. A maior taxa de resposta (aproximadamente 80%) para terapia antiestrogênica (ooforectomia ou tamoxifeno) é observada em mulheres cujas células tumorais expressam receptores de estrogênio e progesterona. Menores taxas de resposta (25-45%) são observadas se apenas o receptor de estrogênio está presente. Se ambos estão ausentes, muito poucas pacien- tes (menos de 10%) respondem. Superexpressão de HER2/NEU. A superexpressão dessa proteí- na ligada à membrana é quase sempre causada por amplifica- ção do gene e pode ser determinada por imuno-histoquímica (que avalia os níveis da proteína) ou por hibridação in situ fluorescente (que avalia o número de cópias do gene). A superexpressão está associada a pior prognóstico. No en- tanto, a importância clínica de avaliar HER2/NEU reside na previsão da resposta ao trastuzumabe (Herceptin®), um anticorpo monoclonal que se liga à função de HER2/NEU e a inibe. Essa continua a ser um dos exemplos mais bem caracterizados de terapia eficaz dirigida contra uma lesão molecular específica de tumor. A razão para alguns tipos de câncer reaparecerem depois do tratamento pós-operatório e outros não permanece um mis- tério. Como mencionado anteriormente, o perfil da expressão gênica dos cânceres de mama em microarrays (chips de genes) (Capítulo 5) definiu várias classes moleculares do câncer de ma- ma e também foi usado para desenvolver testes comerciais que podem prever a resposta do tumor de uma paciente individual para a quimioterapia. Atualmente não há dados suficientes sobre o valor prognóstico desses testes. RESUMO Carcinoma da Mama mama é de uma em oito. após os 50 anos de idade. com a exposição a estrogênios, fatores genéticos, longa duração entre menarca e menopausa, lesões proliferativas atípicas e história familiar de câncer de mama em parente de primeiro grau, especialmente se a doença era multifocal ou em mulher na pré-menopausa. C A P Í T U L O 18714 Sistema Genital Feminino e Mama LESÕES DA MAMA MASCULINA A mama rudimentar masculina é relativamente livre de en- volvimento patológico. Apenas dois distúrbios ocorrem com frequência suficiente para serem considerados aqui: ginecomas- tia e carcinoma. Ginecomastia Tal como nas mulheres, as mamas masculinas estão sujeitas a influências hormonais, mas são consideravelmente menos sensíveis nesse aspecto que as mamas femininas. No entanto, o aumento da mama masculina, ou ginecomastia, pode ocorrer em resposta ao excesso de estrogênio absoluto ou relativo. A causa mais importante de hiperestrinismo no homem é a cirrose hepática e a consequente incapacidade do fígado em metabolizar estrogênios. Outras causas incluem síndrome de Klinefelter, esteroides anabolizantes e alguns agentes farmacológicos. A ginecomastia fisiológica ocorre frequentemente na puberdade e na idade avançada extrema. As características morfológicas da ginecomastia incluem aumento do tecido conjuntivo e hiperplasia epitelial dos ductos; a formação lobular é rara. Clinicamente, desenvolve-se inchaço subareolar semelhante a um botão, geralmente em ambas as mamas, mas, ocasionalmente, em apenas uma. Carcinoma O câncer de mama é raro em homens, com incidência inferior a 1% em comparação à relatada para as mulheres. Geralmente é diagnosticado em idade avançada. Devido à quantidade es- cassa de tecido mamário nos homens, o tumor rapidamente infiltra a pele sobrejacente e a parede torácica subjacente. Tanto morfológica quanto biologicamente, esses tumores são semelhantes aos carcinomas invasivos observados em mu- lheres. Infelizmente, quase metade já se disseminou para os linfonodos regionais ou locais mais distantes no momento em que são descobertos. BIBLIOGRAFIA Amant F: Endometrial cancer. Lancet 366:491, 2005. [A comprehensive review of the subject.] Bulun SE: Mechanism of disease: endometriosis. New Engl J Med 360:268, 2009. 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Na verdade, os condilomas acuminados são fortemente associados aos subtipos 6 e 11 de HPV. O HPV pode ser transmitido de maneira venérea, e lesões idênticas ocorrem em homens no pênis e ao redor do ânus. As infecções por HPV 6 e 11 carregam baixo risco de transformação maligna e, por isso, condilomas vulvares normalmente não evoluem para câncer. Carcinoma de Vulva O carcinoma de vulva representa cerca de 3% de todos os cân- ceres do trato genital feminino, ocorrendo principalmente em mulheres com mais de 60 anos de idade. Aproximadamente 90% dos carcinomas de células escamosas; os outros tumores são, principalmente, adenocarcinomas ou carcinomas de células basais. Parecem existir duas formas distintas de carcinoma de células escamosas vulvar. A forma menos comum está relacionada a cepas de HPV de alto risco (principalmente os subtipos 16 e 18 de HPV) e ocorre em mulheres de meia-idade, principalmente fumantes de cigarro. Nessa forma, o aparecimento de carcino- ma muitas vezes é precedido de alterações pré-cancerosas no epitélio, chamadas de neoplasia intraepitelial vulvar (NIV). A NIV evolui na maioria dos pacientes para graus maiores de atipia e subsequentemente sofre transformação para carcinoma in situ; no entanto, a progressão para carcinoma invasivo não é inevitável, e muitas vezes ocorre depois de muitos anos. Fato- res ambientais, como tabagismo e imunodeficiência, parecem aumentar o risco de tal progressão. Uma segunda forma de carcinoma vulvar ocorre em mu- lheres mais velhas. Não está associada ao HPV, mas muitas vezes é precedida por anos de alterações epiteliais reativas, principalmente líquen escleroso. O epitélio sobrejacente frequen- temente não apresenta alterações citológicas típicas de NIV, mas pode apresentar atipia sutil da camada basal e queratinização basal. Os tumores invasivos dessa forma tendem a ser bem diferenciados e altamente queratinizados. MORFOLOGIA NIV e carcinomas precoces de vulva manifestam-se como áreas de leucoplasia na forma de manchas esbranquiçadas de espessamento epitelial. Em cerca de 25% dos casos, as lesões são pigmentadas devido à presença de melanina. Ao longo do tempo, essas áreas são transformadas em tumores endofíti- cos ulcerativos ou exofíticos evidentes. Os tumores positivos para HPV muitas vezes são multifocais, verrucosos, e tendem a ser carcinomas de cé lulas escamosas pouco diferencia- dos, enquanto tumores negativos para HPV são geralmente unifocais e, normalmente, manifestam-se como carcinomas de células escamosas queratinizados bem diferenciados. Ambas as formas de carcinoma vulvar tendem a permanecer restritos ao seu local de origem por alguns anos, mas por fim invadem e se espalham, geralmente primeiro para os nódulos regionais. O risco de metástase correlaciona-se com o tamanho do tumor e a profundidade da invasão. Mulheres com tumores menores que 2 cm de diâmetro têm cerca de 90% de sobrevida de cinco anos após a excisão radical, enquanto apenas 20% da- quelas com lesões em estágio avançado sobrevivem por 10 anos. Doença de Paget Extramamária A doença de Paget é uma proliferação intraepidérmica de células epiteliais malignas que pode ocorrer na pele da vulva ou mamilo da mama. No entanto, ao contrário da mama, onde a doença de Paget é praticamente sempre associada a um carcinoma Figura 18-2 A, Condilomas numerosos da vulva. B, Características his- topatológicas do condiloma acuminado incluem acantose, hiperqueratose e vacuolização citoplasmática (coilocitose, centro). (A, Cortesia do Dr. Alex Ferenczy. McGill University, Montreal, Quebec, Canadá.) C A P Í T U L O 18684 Sistema Genital Feminino e Mama subjacente, a maioria dos casos de doença de Paget vulvar (ex- tramamária) não demonstrou tumor subjacente. Em vez disso, as células de Paget vulvares mais comumente parecem surgir das células progenitoras epidérmicas. Apenas ocasionalmente a doença de Paget nessa localização é acompanhada por tumor subepitelial ou submucoso que resulta em estrutura anexial, tipicamente de glândulas sudoríparas. A doença de Paget manifesta-se como placa crostosa, escamo- sa e vermelha, que pode imitar a aparência de uma dermatite inflamatória. No exame histológico, células epitelioides gran- des com citoplasma finamente granular, abundante e pálido, e vacúolos citoplasmáticos ocasionais se infiltram na epiderme, sozinhos ou em grupos (Fig. 18-3). A presença de mucina, como detectado pela coloração ácido periódico de Schiff (PAS), é útil em distinguir a doença de Paget do melanoma vulvar, que não tem mucina. A doença de Paget intraepidérmica pode persistir por anos ou mesmo décadas sem evidências de invasão. No entanto, quando há um tumor associado envolvendo anexos da pele, as células de Paget podem invadir localmente e, por fim, causar metástase. Após a ocorrência de metástase, o prognós- tico é sombrio. RESUMO Carcinoma de Células Escamosas da Vulva HPV geralmente são lesões pouco diferenciadas e às vezes multifocais. Eles costumam evoluir de neoplasia intraepitelial vulvar (NIV). - nados ao HPV ocorrem em mulheres mais velhas, geral- mente são bem diferenciados, unifocais e frequentemente associados ao líquen escleroso ou outras condições in- flamatórias. Doença de Paget da Vulva - camosa e vermelha causada pela proliferação de células epiteliais malignas dentro da epiderme; geralmente não há carcinoma subjacente, ao contrário da doença de Paget do mamilo. de Paget do melanoma. VAGINA Em mulheres adultas, a vagina raramente é um local de doença primária. Mais frequentemente, está envolvida secundariamen- te, por câncer ou infecções decorrentes de órgãos adjacentes (p. ex., colo do útero, vulva, bexiga, reto). As anomalias congênitas da vagina felizmente são incomuns e incluem entidades como a ausência total da vagina, vagina septada ou dupla (geralmente associada a colo do útero septado e, às vezes, útero septado) e cistos do ducto de Gartner laterais congênitos decorrentes da persistência de restos do ducto de Wolff persistente do ducto mesonéfrico. VAGINITE A vaginite é uma condição relativamente comum, geralmente transitória e sem consequência clínica. Está associada à pro- dução de corrimento vaginal (leucorreia). Grande variedade de microrganismos está envolvida, incluindo bactérias, fun- gos e parasitas. Muitos são comensais normais que se tornam patogênicos apenas em caso de diabetes, antibioticoterapia sistêmica (que causa perturbação da flora microbiana normal), imunodeficiência, gravidez ou aborto recente. Nos adultos, a in- fecção primária gonorreica da vagina é incomum. Os únicos ou- tros microrganismos dignos de menção, porque são agressores frequentes, são Candida albicans e Trichomonas vaginalis. Vaginite por Candida (monilial) é caracterizada por corrimento branco coalhado. Esse microrganismo é parte da flora vaginal normal em cerca de 5% das mulheres, de modo que o aparecimento de infecção sintomática quase sempre envolve uma das influências predisponentes citadas anteriormente ou superinfecção por uma cepa nova e mais agressiva. O T. vaginalis produz um corrimento aquoso e abundante verde-acinzentado onde os parasitas podem ser identificados por microscopia. Trichomonas também podem ser identificadas em cerca de 10% das mulheres assintomáticas; assim, a infecção ativa geralmente decorre da transmissão sexual de uma nova cepa. NEOPLASIAS MALIGNAS Carcinoma de Células Escamosas O carcinoma de células escamosas da vagina é um câncer extremamente raro que normalmente ocorre em mulheres com mais de 60 anos de idade, no quadro de fatores de risco semelhantes aos associados ao carcinoma do colo do útero (discutido adiante). A neoplasia intraepitelial vaginal é uma lesão precursora que está quase sempre associada à infecção pelo HPV. O carcinoma de células escamosas invasivo da vagina está associado à presença de DNA de HPV em mais da metade dos casos, presumivelmente derivadoHistopathology 55:243, 2009. [A review of molecular genetics of cervical, ovarian, and endometrial neoplasia.] Kathleen RC: Ovarian cancer. Annu Rev Pathol Mech Dis 4:287, 2009. [A good review on the subject with discussion of molecular genetics.] Moody CA: Human papillomavirus oncoproteins: pathways to trans- formation. Nat Rev Cancer 10:550, 2010. 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[Role of estrogens including those used in hormonal replacement therapy in breast cancer.] por mutações hereditárias; genes BRCA1 e BRCA2 são res- ponsáveis por 33% dos casos associados a mutações de um único gene. in situ (CDIS) é um precursor do carci- noma ductal invasivo e tipicamente é encontrado no exame mamográfico como calcificações. Quando o carcinoma se desenvolve em uma mulher com diagnóstico prévio de CDIS, geralmente é um carcinoma ductal invasivo na mesma mama. in situ (CLIS) frequentemente é um achado incidental e, geralmente, não está associado a cal- cificações. Quando o carcinoma se desenvolve em uma mulher com diagnóstico prévio de CLIS, pode ocorrer na mama acometida ou não e geralmente é o carcinoma lobular invasivo, mas pode ser o carcinoma ductal invasivo. metástases por vezes aparecendo décadas após o diagnós- tico inicial. comprometimento dos linfonodos, metástases a distância na apresentação, grau do tumor e tipo histológico. progesterona para HER2/NEU são usados principalmente para determinar a resposta ao tratamento. Os tumores que expressam receptor de estrogênio são mais propensos a responder ao tamoxifeno. Os tumores de superexpressão de HER2/NEU muitas vezes são tratados com trastuzumabe. C A P Í T U L O SUMÁ RIO DO CAPÍTULO HIPÓ FISE 716 Hiperpituitarismo e Adenomas Hipofisários 717 Prolactinomas 719 Adenomas Produtores de Hormô nio do Crescimento (Cé lulas Somatotró ficas) 719 Adenomas Produtores de Hormô nio Adrenocorticotró fico (Cé lulas Corticotró ficas) 719 Outras Neoplasias da Hipó fise Anterior 720 Hipopituiratismo 720 Síndromes Hipofisárias Posteriores 721 TIREOIDE 721 Hipertireoidismo 722 Hipotireoidismo 723 Tireoidite 724 Tireoidite Linfocítica Crô nica (Hashimoto) 724 Tireoidite Granulomatosa Subaguda (de Quervain) 725 Tireoidite Linfocítica Subaguda 726 Outras Formas de Tireoidite 726 Doença de Graves 726 Bócio Difuso e Multinodular 728 Neoplasias da Tireoide 728 Adenomas 729 Carcinomas 730 GLÂ NDULAS PARATIREOIDES 735 Hiperparatireoidismo 736 Hiperparatireoidismo Primário 736 Hiperparatireoidismo Secundário 738 Hipoparatireoidismo 738 PÂ NCREAS ENDÓ CRINO 739 Diabetes Melito 739 Diagnó stico 739 Classificação 739 Fisiologia Normal da Insulina e Homeostase da Glicose 739 Resistê ncia Insulínica 742 Disfunção da Cé lula Beta 743 Formas Monogê nicas de Diabetes 743 Complicaçõ es do Diabetes 743 Tumores Neuroendócrinos Pancreáticos 751 Insulinomas 751 Gastrinomas 752 CÓ RTEX SUPRARRENAL 752 Hiperfunção Adrenocortical (Hiperadrenalismo) 752 Hipercortisolismo e Síndrome de Cushing 752 Hiperaldosteronismo 755 Síndromes Adrenogenitais 756 Insuficiência Suprarrenal 757 Insuficiê ncia Adrenocortical Aguda 757 Insuficiê ncia Adrenocortical Crô nica: Doença de Addison 757 Insuficiê ncia Adrenocortical Secundária 758 Neoplasias Adrenocorticais 759 MEDULA SUPRARRENAL 760 Tumores da Medula Suprarrenal 760 Feocromocitoma 760 Neuroblastoma e Outras Neoplasias Neuronais 761 SÍNDROMES DE NEOPLASIA ENDÓ CRINA MÚ LTIPLA 761 Neoplasia Endó crina Mú ltipla do Tipo 1 761 Neoplasia Endó crina Mú ltipla do Tipo 2 762 Sistema Endócrino O sistema endócrino é um grupo de órgãos altamente integra- dos e amplamente distribuídos que orquestram um estado de equilíbrio metabólico, ou homeostase, entre os diversos tecidos corporais. A sinalização através de moléculas secretadas para o meio extracelular pode ser classificada em um de três tipos — autócrina, parácrina ou endócrina —, de acordo com a distância sobre a qual o sinal atua (Capítulo 2). Na sinalização endócrina, as moléculas secretadas, que frequentemente são denominadas hormônios, agem sobre células-alvo distantes dos seus locais de síntese. Um hormônio endócrino é tipicamente transportado pelo sangue do seu local de síntese até o seu alvo. O aumento da atividade no tecido-alvo frequentemente infrarregula a ati- vidade da glândula que secreta o hormônio estimulante, em um processo conhecido como inibição por retroalimentação (feedback). Os hormônios podem ser classificados em várias categorias amplas, com base na natureza dos seus receptores: Hormônios que deflagram sinais bioquímicos através da interação com receptores da superfície celular. Essa ampla categoria de substâncias é composta por dois grupos: (1) hormônios peptídeos, como, por exemplo, o hormônio do crescimento e a insulina; e (2) pequenas moléculas como, por exemplo, a epinefrina. A ligação desses hormônios aos recep- tores da superfície celular leva a um aumento de moléculas intracelulares denominadas segundos mensageiros, como o monofosfato cíclico de adenosina (cAMP); à produção de mediadores a partir dos fosfolipídeos de membrana (p. ex., inositol 1,4,5-trifosfato); e ao deslocamento dos níveis intrace- lulares de cálcio ionizado. Os níveis elevados de um ou mais desses compostos podem alterar a proliferação, diferenciação, sobrevivência e atividade funcional das células, principalmen- te através da regulação da expressão de genes específicos. Hormônios que se difundem através da membrana celular e in- teragem com os receptores intracelulares. Muitos hormônios lipossolúveis passam através da membrana celular por difusão para interagirem com receptores no citoplasma ou no núcleo. Os complexos hormônio-receptor resultantes sede NIV positivo para HPV. Figura 18-3 Doença de Paget da vulva, com grandes células tumorais, citoplasma claro e abundante espalhado por toda a epiderme. 685Neoplasias do colo do ú tero Adenocarcinoma de Células Claras Em 1970, o adenocarcinoma de células claras, um tumor muito raro, foi identificado em um grupo de mulheres jovens cujas mães tomaram dietilestilbestrol durante a gravidez para prevenir a ameaça de aborto. Estudos de acompanhamento determinaram que a incidência desse tumor em pessoas expostas ao dietiles- tilbestrol no útero foi baixa (menos de um por 1.000, embora cerca de 40 vezes maior do que a população não exposta). No entanto, uma vez que esse agente foi largamente utilizado naquela época, parece estar associado a um risco persistentemente elevado de câncer naquelas expostas. Em cerca de 33% das mulheres expos- tas, pequenas inclusões glandulares ou microcísticas aparecem na mucosa vaginal. Essas lesões benignas são vistas como focos vermelhos de aparência granular, que no exame histológico são revestidos por células colunares mucossecretoras ou ciliadas. Essa condição clínica é chamada de adenose vaginal, e é a partir de tais lesões precursoras que surge o adenocarcinoma de células claras. Sarcoma Botrioide O sarcoma botrioide (rabdomiossarcoma embrionário) é uma forma rara de câncer primário vaginal que se manifesta como massas polipoides moles. Geralmente é encontrado em lactentes e crianças menores de cinco anos de idade. Também pode ocor- rer em outros locais, como bexiga urinária e canais biliares. Essas lesões são descritas com mais detalhe no Capítulo 20. COLO DO Ú TERO A maioria das lesões cervicais é de inflamações relativamente banais (cervicites), mas o colo do útero também é local de um dos cânceres mais comuns em mulheres em todo o mundo. CERVICITE As condições inflamatórias do colo do útero são extremamente comuns e estão associadas a corrimento vaginal purulento. As cervicites podem ser subclassificadas como infecciosas ou não infecciosas, embora a diferenciação seja difícil devido à presença de uma flora vaginal normal que inclui aeróbios e anaeróbios vaginais incidentais, estreptococos, estafilococos, enterococos e Escherichia coli. Muito mais importantes são Chlamydia tracomatis, Ureaplas- ma urealyticum, T. vaginalis, Candida spp., Neisseria gonorrhoeae, HSV-2 (o agente do herpes genital) e determinados tipos de HPV, sendo que todos são, muitas vezes, sexualmente trans- missíveis. O C. trachomatis é de longe o mais comum desses patógenos, representando até 40% dos casos de cervicite encon- trados na clínica de doença sexualmente transmissível (DST). Embora menos comuns, as infecções herpéticas são notáveis porque a transmissão entre bebê e mãe durante o parto pode resultar em infecção herpética sistêmica grave e, às vezes, fatal no recém-nascido. MORFOLOGIA A cervicite inespecífica pode ser aguda ou crô nica. A forma aguda, relativamente incomum, é limitada a mulheres no período pós-parto e geralmente causada por estafilococos ou estreptococos. A cervicite crônica consiste em inflamação e regeneração epitelial, sendo que algum grau é comum em todas as mulheres em idade reprodutiva. O epitélio cervical pode apresentar hiperplasia e alterações reativas nas mucosas escamosa e colunar. Subsequentemente, o epitélio colunar sofre metaplasia escamosa. A cervicite comumente chama a atenção no exame de rotina ou devido à leucorreia. A cultura do corrimento deve ser interpretada com cautela porque (como mencionado an- teriormente) microrganismos comensais estão praticamente sempre presentes. Apenas a identificação de patógenos co- nhecidos é útil. NEOPLASIAS DO COLO DO ÚTERO A maioria dos tumores de colo do útero é de origem epitelial e é causada por cepas oncogênicas do papilomavírus humano (HPV). Durante o desenvolvimento, o epitélio colunar mucossecretor da endo- cérvice é unido à cobertura epitelial escamosa da ectocérvice na abertura do colo do útero. Com o início da puberdade, a junção escamocolunar sofre eversão, tornando o epitélio colunar visível na ectocérvice. As células colunares expostas, no entanto, subsequentemente sofrem metaplasia escamosa, formando uma região chamada zona de transformação (Fig. 18-4). PATOGENIA O HPV, o agente causador da neoplasia cervical, tem tropismo para as células escamosas imaturas da zona de transformação. A maioria das infecções por HPV é transitória e eliminada em poucos meses por uma resposta inflamatória aguda e crônica. No entanto, um subconjunto de infecções persiste, e algumas delas progridem para neoplasia intraepitelial cervical (NIC), uma lesão precursora a partir da qual mais carcinomas invasivos do colo do útero se desenvolvem. O HPV é detectável por métodos moleculares em quase todos os casos de NIC e carcinoma cervical. Fatores de risco Figura 18-4 Desenvolvimento da zona de transformação cervical. C A P Í T U L O 18686 Sistema Genital Feminino e Mama importantes para o desenvolvimento de NIC e carcinoma invasivo; portanto, estão diretamente relacionados com a exposição ao HPV e incluem: - riores papiloma Embora a infecção por HPV ocorra nas células escamosas mais imaturas da camada basal, a replicação do DNA de HPV ocorre em células escamosas sobrejacentes mais diferenciadas. Células escamosas nessa fase de maturação normalmente não replicam o DNA, mas as células escamosas infectadas por HPV, sim, como consequência da expressão de duas onco- proteínas potentes codificadas no genoma do HPV, chamadas E6 e E7. As proteínas E6 e E7 ligam e inativam dois supressores tumorais críticos, o p53 e o Rb, respectivamente (Capítulo 5) e, ao fazê-lo, promovem o crescimento e o aumento da sus- cetibilidade a mutações adicionais que podem, eventualmente, levar à carcinogênese. Os sorotipos reconhecidos de HPV podem ser classificados como tipos de alto ou baixo risco com base em sua propensão para induzir carcinogênese. A infecção de alto risco por HPV é o fator de risco mais importante para o desenvolvimento de NIC e carcinoma. Duas cepas de alto risco de HPV, os tipos 16 e 18, são responsáveis por aproximadamente 70% dos casos de NIC e carcinoma cervical. Em geral, infecções com sorotipos de alto risco de HPV são mais propensos a persistir, o que é um fator de risco para a progressão para o carcinoma. Esses subtipos de HPV também apresentam propensão a integrar o genoma da célula hospedeira, um evento que está ligado à progressão. Ce- pas de baixo risco de HPV (p. ex., dos tipos 6 e 11), por outro lado, estão associadas ao desenvolvimento de condilomas do trato genital inferior (Fig. 18-5) e não se integram ao genoma do hospedeiro, permanecendo como DNA viral livre epissômico. Apesar da forte associação da infecção pelo HPV com o câncer do colo do útero, o HPV não é suficiente para conduzir o proces- so neoplásico. Como mencionado adiante, várias lesões pre- cursoras de alto grau de infecção por HPV não progridem para câncer invasivo. A progressão de displasias cervicais para câncer do colo do útero tem sido atribuída a diversos fatores, como estado imune e hormonal ou coinfecção com outros agentes sexualmente transmissíveis. Mais recentemente, as mutações ad- quiridas somaticamente no gene supressor de tumor LKB1 foram identificadas em mais de 20% dos cânceres cervicais. LKB1 foi primeiro identificado como o gene mutado na síndrome de Peutz-Jeghers, uma condição autossômica dominante, caracte- rizada por pólipos hamartomatosos do trato GI (Capítulo 14), e risco significativamente elevado de doenças malignas epiteliais em uma variedade de locais anatômicos, incluindo o colo do útero. O LKB1 também é frequentemente inativado no câncer de pulmão. A proteína LKB1 é uma cinase de serina-treonina que fosforila e ativa o AMPK, um sensor metabólico. O AMPK regula, por sua vez, o crescimento celular através do complexo mTOR. Neoplasia Intraepitelial Cervical (NIC) A carcinogênese relacionada como HPV começa com a altera- ção pré-cancerosa epitelial denominada NIC, que geralmente precede o desenvolvimento de um câncer evidente por muitos anos, por vezes décadas. Em consonância com essa ideia, a incidência de NIC atinge o ponto máximo por volta dos 30 anos de idade, enquanto o carcinoma invasivo atinge o ponto máximo por volta dos 45 anos de idade. A NIC normalmente começa com displasia de baixo grau (NIC I) e progride para displasia moderada (NIC II) e, então, displasia grave (NIC III) ao longo do tempo; entretanto, exce- ções foram relatadas, e alguns pacientes já têm NIC III quando a condição é diagnosticada pela primeira vez. De modo geral, quanto maior o grau de NIC, maior a probabilidade de pro- gressão; é importante destacar, no entanto, que em muitos ca- sos até mesmo lesões de alto grau não evoluem para o câncer, e podem até regredir. Como as decisões sobre o manejo do paciente são de dois níveis (ou seja, observação versus trata- mento cirúrgico), esse sistema de classificação de três níveis foi recentemente simplificado para um sistema de dois níveis, com NIC I renomeado para lesã o intraepitelial escamosa de baixo grau (LIEBG) e NIC II e NIC III combinados em uma categoria denominada lesã o intraepitelial escamosa de alto grau (LIEAG). Como mostrado na Tabela 18-1, a decisão de tratar LIEAG e observar LIEBG é baseada nas diferenças das histórias naturais desses dois grupos de lesões. Figura 18-5 Consequências possíveis da infecção por papilomavírus humano (HPV). A progressão é associada à integração do vírus e à aqui- sição de mutações adicionais, como discutido no texto. NIC, neoplasia intraepitelial cervical. Tabela 18-1 História Natural das Lesões Intraepiteliais Escamosas (LIE) Lesão Regridem Persistem Progridem LIEBG [LSIL] (NIC I) 60% 30% 10% (para LIAG) LIEAG [HSIC] (NIC II, III) 30% 60% 10% (para carcinoma)* LIEBG, LIE de baixo grau; LIEAG, LIE de alto grau. *Progressão dentro de 10 anos. 687Neoplasias do colo do ú tero Lesões pré-cancerosas do colo do útero estão associadas a anormalidades em preparações citológicas (exame de Papa- nicolau) que podem ser detectadas muito antes que qualquer anormalidade seja visível na inspeção macroscópica. A detec- ção precoce de alterações displásicas é a razão para o teste de Papanicolau (PAP), no qual as células são raspadas da zona de transformação e microscopicamente examinadas. Até hoje, o exame de Papanicolau continua sendo o teste de triagem para câncer mais bem-sucedido já desenvolvido. Nos Estados Unidos, o teste de Papanicolau reduziu drasticamente a incidência de tumores invasivos do colo do útero para cerca de 12.000 casos por ano, com mortalidade de cerca de 4.000 por ano; na verdade, o câncer do colo do útero não está mais classificado entre as 10 principais causas de morte por câncer em mulheres americanas. Paradoxalmente, a incidência de NIC aumentou para o seu atual nível de mais de 50.000 casos por ano. O aumento da detecção certamente contribuiu para isso. A recém-introduzida vacina quadrivalente contra o HPV para os tipos 6, 11, 16 e 18 é muito eficaz na prevenção de infecções de HPV e, com isso, espera-se que reduza em muito a frequência das verrugas genitais e cânceres de colo de útero associados a esses sorotipos de HPV. Apesar da sua eficácia, a vacina não substitui a necessidade do exame de rotina para o câncer de colo de útero — muitas mulheres em situação de risco já estão infectadas, e a vacina protege apenas contra alguns dos muitos sorotipos oncogênicos de HPV. O NIC é assintomático e chama a atenção clínica através do resultado anormal do Papanicolau. Esses casos são acompa- nhados por colposcopia, durante a qual o ácido acético é usado para realçar a localização de lesões e áreas a serem biopsiadas. Mulheres com LIEBG documentada via biópsia são tratadas de maneira conservadora, com observação cuidadosa, enquanto com LIEAG são tratadas com excisão cirúrgica (biópsia em cone). Esfregaços e exame clínico de acompanhamento são ob- rigatórios durante a vida em pacientes com LIEAG, visto que essas mulheres permanecem em risco para cânceres vaginal, vulvar e de colo do útero associados ao HPV. Carcinoma Invasivo do Colo do Útero Os carcinomas do colo do útero mais comuns são os carcinomas de células escamosas (75%), seguidos por adenocarcinomas e carcinomas adenoescamosos mistos (20%) e carcinomas neu- roendócrinos de pequenas células (menos de 5%). Todos esses tipos de carcinomas são causados por HPV. Curiosamente, a proporção relativa dos adenocarcinomas tem aumentado nas úl- timas décadas devido à diminuição da incidência de carcinoma escamoso invasivo e à detecção subótima de lesões glandulares por exame de Papanicolau. O carcinoma de células escamosas tem um pico de incidência por volta dos 45 anos, 10-15 anos após a detecção do precursor NIC. Como já foi discutido, a progressão do NIC para carci- noma invasivo é variável e imprevisível, e requer infecção por HPV, bem como mutações em genes como LKB. Os fatores de risco para progressão incluem tabagismo e infecção por vírus da imunodeficiência humana (HIV), sendo que este último MORFOLOGIA A Figura 18-6 ilustra os três estágios de NIC. NIC I é caracte- rizado por alterações displásicas no terço inferior do epitélio escamoso e alterações coilocitóticas nas camadas superficiais do epitélio. Em NIC II, a displasia estende-se para o terço médio do epitélio e toma a forma de maturação retardada dos queratinócitos. Também está associada a alguma variação na célula e tamanho nuclear, heterogeneidade da cromatina nuclear e presença de mitoses acima da camada basal que se estende para o terço médio do epitélio. A camada superficial de células mostra alguma diferenciação e, ocasionalmente, demonstra as alterações coilocitóticas descritas. O próximo estágio, NIC III, é marcado pela perda quase completa de maturação, variação ainda maior na célula e tamanho nuclear, heterogeneidade da cromatina, orientação desordenada das células e mitoses normais ou anormais; essas alterações afe- tam praticamente todas as camadas do epitélio. A alteração coilocitótica geralmente está ausente. Essas características histológicas correlacionam-se com as aparências citológicas mostradas na Figura 18-7. Como mencionado anteriormente, para fins clínicos, NIC é dividido em LIEBG (NIC I) e LIEAG (NIC II e NIC III). Figura 18-6 Espectro da neoplasia intraepitelial cervical (NIC), com epitélio escamoso normal para comparação: NIC I com atipia coilocitótica; NIC II com atipia progressiva em todas as camadas do epitélio; NIC III (carcinoma in situ) com atipia difusa e perda de maturação. C A P Í T U L O 18688 Sistema Genital Feminino e Mama achado sugere que a vigilância imunológica tem um papel na manutenção da verificação do NIC. Embora os fatores de risco possam ajudar a estratificar pacientes que tendem a evoluir de NIC para carcinoma, a única maneira confiável de monitorar o curso da doença é via exame físico frequente juntamente com biópsia de lesões suspeitas. Curso Clínico O câncer do colo do útero invasivo, na maioria das vezes, é observado em mulheres que nunca passaram por um exame de Papanicolau ou que não foram examinadas por muitos anos. Nesses casos, o câncer do colo do útero é frequentemente sin- tomático, sendo que as pacientes procuram ajuda médica por sangramento vaginal inesperado, leucorreia, coito doloroso (dispareunia) ou disúria. O tratamento é cirúrgico por histerec- tomia e dissecação de linfonodo linfático; pequenos carcinomas microinvasivos podem ser tratados com biópsia em cone. A mortalidade está mais fortemente relacionada com o estágio do tumor e, no caso dos carcinomas neuroendócrinos, ao tipo celular. A maioria das pacientes com doença avançada morre como resultado da invasão local, em vez de metástases distantes. Em particular, a insuficiência renal decorrente da obstrução da bexiga urinária e ureteres é causa comum de morte.MORFOLOGIA Os carcinomas invasivos do colo do útero se desenvolvem na zona de transformaçã o e variam de focos microscópicos de invasão estromal até tumores exofíticos macroscopicamen- te visíveis (Fig. 18-8). Os tumores que circundam o colo do útero e penetram o estroma subjacente produzem um colo do ú tero em barril, que pode ser identificado por meio de palpação direta. A extensão para os tecidos moles paramé- tricos pode afixar o útero nas estruturas pélvicas vizinhas. A probabilidade de disseminação para linfonodos pélvicos relaciona-se com a profundidade da invasão tumoral e a presença de células tumorais em espaços vasculares. O risco de metástases aumenta de menos de 1% para os tumores com menos de 3 mm de profundidade para mais de 10% quando a invasão excede 3 mm. Com exceção dos tumores incomuns que apresentam diferenciação neuroendócrina, que são uniformemente agressivos em seu comportamento, os carcinomas cervicais são classificados com base em seu grau de diferenciação escamosa. RESUMO Neoplasia do Colo do Útero relacionados com exposição ao HPV, como idade precoce na primeira relação sexual, múltiplos parceiros sexuais e outros fatores, como tabagismo e imunodeficiência. por infecções de HPV, particularmente os tipos de HPV de alto risco 16, 18, 31 e 33; a vacina de HPV é eficaz na prevenção da infecção aos tipos de HPV 16 e 18. de tumor p53 e Rb, respectivamente, resultando em proliferação celular aumentada e supressão da apoptose induzida por dano ao DNA. A perda do gene LKBI também está envolvida.Figura 18-8 Abertura cervical com carcinoma cervical envolvente, in- vasivo e exofítico. Figura 18-7 Características citológicas da neoplasia intraepitelial cervical (NIC) em exame de Papanicolau. Células escamosas superficiais podem se corar em vermelho ou azul. A, Células epiteliais escamosas superficiais normais esfoliadas. B, NIC I — lesão intraepitelial escamosa de baixo grau (LIEBG). C e D, NIC II e NIC III, respectivamente — lesões intraepiteliais escamosas de alto grau (LIEAG). Observe a redução no citoplasma e o aumento da proporção entre núcleo e citoplasma enquanto o grau da lesão aumenta. Essa observação reflete a perda progressiva da diferenciação celular na superfície das lesões cervicais de onde essas células são esfoliadas (Fig. 18-6). (Cortesia do Dr. Edmund S. Cibas, Brigham and Women's Hospital, Boston, Massachusetts.) 689Endometriose Pólipo Endocervical Os pólipos endocervicais são massas polipoides benignas salientes da mucosa endocervical (por vezes através da exo- cérvice). Eles podem ter alguns centímetros, ser moles e fle- xíveis à palpação, com superfície lisa e brilhante, de espaços cisticamente dilatados subjacentes preenchidos com secreções mucinosas. O epitélio de superfície e o revestimento dos cis- tos subjacentes são compostos pelas mesmas células colunares secretoras de muco que circundam o canal endocervical. O estroma é edematoso e pode conter células mononucleares dispersas. A inflamação crônica sobreposta pode levar à meta- plasia escamosa do epitélio sobrejacente e a ulcerações. Essas lesões podem sangrar, assim despertando preocupação, mas não têm potencial maligno. CORPO DO Ú TERO O corpo do útero é composto por mucosa endometrial e miomé- trio de músculo liso subjacente. Os distúrbios mais frequentes e importantes do útero são considerados aqui. ENDOMETRITE A inflamação do endométrio é classificada como aguda ou crônica, dependendo de predominar uma resposta neutro- fílica ou linfoplasmocitária, respectivamente. O diagnós- tico de endometrite crônica geralmente requer a presença de plasmócitos, visto que linfócitos normalmente são vistos no endométrio. A endometrite muitas vezes é uma consequência da doença inflamatória pélvica e com frequência é devida a N. gonorrhoeae ou C. trachomatis. O exame histológico revela infiltrado neu- trofílico no endométrio superficial e glândulas coexistentes com infiltrado linfoplasmacítico estromal. Folículos linfoides proeminentes são mais comumente observados na infecção por clamídia. A tuberculose provoca endometrite granulomatosa, frequentemente com salpingite e peritonite tuberculosa as- sociada. Embora observada nos Estados Unidos, principalmente em pessoas imunocomprometidas, a endometrite tuberculosa é comum em países onde a tuberculose é endêmica, e deve ser incluída no diagnóstico diferencial para a doença inflamatória pélvica em mulheres que emigraram recentemente de áreas endêmicas. A endometrite também pode ser causada por produtos re- tidos da concepção, posteriormente ao aborto ou parto, ou à presença de um corpo estranho, tal como um dispositivo in- trauterino. Tecido retido ou corpos estranhos agem como um receptáculo para infecção ascendente via flora do trato vaginal ou intestinal. A remoção do tecido ou corpo estranho agressor tipicamente resulta na resolução. Clinicamente, todas as formas de endometrite podem manifestar-se com febre, dor abdominal e alterações mens- truais. Além disso, existe risco aumentado de infertilidade e gravidez ectópica como consequência de lesão e cicatrizes das tubas uterinas. ADENOMIOSE A adenomiose refere-se ao crescimento da camada basal do endo- métrio para dentro do miométrio. Ninhos de estroma endome- trial, glândulas ou ambos são encontrados profundamente no miométrio interpostos entre os feixes musculares. A presença aberrante de tecido endometrial induz hipertrofia reativa do miométrio, resultando em útero globular alargado, muitas vezes com parede uterina espessa. Como as glândulas na adenomiose derivam do estrato basal do endométrio, elas não passam por sangramento cíclico. No entanto, adenomiose acentuada pode produzir menorragia, dismenorreia e dor pélvica antes do início da menstruação. ENDOMETRIOSE A endometriose é definida pela presença de glândulas e es- troma endometriais em local fora do endomiométrio. Ela ocorre em até 10% das mulheres em seus anos reprodutivos e em quase metade das mulheres com infertilidade. É frequen- temente multifocal e muitas vezes envolve estruturas pélvicas (ovários, bolsa retouterina, saco de Douglas, ligamentos uteri- nos, tubas e septo retovaginal). Menos frequentemente, áreas distantes da cavidade peritoneal ou tecidos periumbilicais es- tão envolvidas. Raramente, locais distantes, como linfonodos, pulmões e até mesmo coração, músculo esquelético ou osso, são acometidos. Três hipóteses foram formuladas para explicar a origem dessas lesões dispersas (Fig. 18-9). A teoria da regurgitação, que é defendida atualmente, propõe que o refluxo menstrual através das tubas uterinas conduz à implantação. A teoria meta- plásica, por outro lado, postula a diferenciação endometrial do epitélio celômico (de onde o endométrio se origina) como a fonte. Essas duas teorias não podem, no entanto, explicar as lesões nos linfonodos, músculo esquelético ou pulmões. Assim, a teoria de disseminação vascular ou linfática foi invo- cada para explicar os implantes extrapélvico ou intranodal. Concebivelmente, todos os caminhos poderiam ser válidos em casos individuais. o HPV é incorporado ao genoma da célula hospedeira. ou carcinoma invasivo. O tempo de curso da infecção para doença invasiva é geralmente de 10 anos ou mais. Em geral, o risco de progressão é proporcional ao grau de displasia. altamente eficaz para a detecção de displasia e carcinoma do colo do útero, e reduziu significativamente a incidência de carcinoma cervical. C A P Í T U L O 18690 Sistema Genital Feminino e Mama Estudos recentes sugerem que o tecido de endometriose não é apenas deslocado, mas também anormal. Em comparação com o endométrio normal, tecidos de endometriose exibem níveis aumentados de mediadores inflamatórios, particularmente prostaglandina E2, e aumento da produção de estrogênio devi- do à elevada atividade aromatase das células estromais. Essas alterações aumentam a sobrevivência e a persistência do tecido de endometriose dentro de uma localizaçãoexterna (uma carac- terística-chave na patogenia da endometriose) e ajudam a ex- de aromatase no tratamento da endometriose. MORFOLOGIA Em contraste com a adenomiose, a endometriose quase sempre contém endomé trio funcional que sofre sangra- mento cíclico. Pelo fato de o sangue se acumular nesses focos aberrantes, eles geralmente aparecem macroscopicamente co- mo nódulos ou implantes marrom-avermelhados. Eles variam em tamanho de 1-2 cm de diâmetro e se depositam sobre ou sob a superfície serosa afetada. Muitas vezes, as lesões indivi- duais coalescem formando massas maiores. Quando os ovários estão envolvidos, as lesões podem formar cistos grandes e cheios de sangue que ficam marrons (cistos de chocolate) à medida que o sangue envelhece (Fig. 18-10). Com infiltração e organização do sangue, ocorre fibrose generalizada, levando a aderências entre as estruturas pélvicas, unindo as extremidades das tubas fimbriadas e causando a distorção das tubas uterinas e ovários. O diagnóstico histológico em todas as localizações depende do encontro de duas das três características seguin- tes no interior das lesões: glândulas do endométrio, estroma endometrial e pigmento hemossiderina. Características Clínicas As manifestações clínicas da endometriose dependem da distribuição das lesões. Cicatrizes extensas dos oviductos e ovários muitas vezes produzem desconforto no quadrante abdominal e subsequente esterilidade. O envolvimento da parede retal pode produzir dor na defecação, enquanto o envolvimento da serosa uterina ou da bexiga pode causar dispareunia (relações sexuais dolorosas) e disúria, respec- tivamente. Quase todos os casos apresentam dismenorreia grave e dor pélvica intensa resultante de hemorragia in- trapélvica e aderências periuterinas. SANGRAMENTO UTERINO ANORMAL As mulheres geralmente procuram ajuda médica por algum tipo de sangramento uterino anormal, como menorragia (san- gramento abundante ou prolongado na época do período), metrorragia (sangramento irregular entre os períodos) ou san- gramento pós-menopausa. As causas comuns incluem pólipos endometriais, leiomiomas, hiperplasia endometrial, carcinoma endometrial e endometrite. A causa provável de sangramento uterino em qualquer caso dado depende um pouco da idade da paciente (Tabela 18-2). O sangramento anormal do útero na ausência de lesão orgânica uterina é chamado hemorragia uterina disfuncional. As várias causas do sangramento uterino anormal, tanto as disfuncionais como aquela secundária a uma lesão orgânica, podem ser sepa- radas em quatro grupos: Tabela 18-2 Causas de Sangramento Uterino Anormal por Faixa Etária Faixa Etária Causa(s) Pré-puberdade Puberdade precoce (de origem no hipotálamo, hipóse ou ovário) Adolescência Ciclo anovulatório Idade reprodutiva Complicações da gravidez (aborto, doença trofoblástica, gravidez ectópica) Proliferações (leiomiomas, adenomiose, pólipos, hiperplasia do endométrio, carcinoma) Ciclo anovulatório Sangramento disfuncional ovulatório (p. ex., fase lútea inadequada) Perimenopausa Ciclo anovulatório Menstruação irregular Proliferações (carcinoma, hiperplasia, pólipos) Pós-menopausa Proliferações (carcinoma, hiperplasia, pólipos) Atroa do endométrio Figura 18-10 Endometriose do ovário. Corte do ovário revela um grande cisto endometriótico com sangue degenerado (“cisto de chocolate”). Figura 18-9 Origens propostas de endometriose. 691Lesõ es proliferativas do endomé trio e miomé trio Falha da ovulação. Ciclos anovulatórios são muito comuns em ambas as extremidades da vida reprodutiva, devido a (1) disfunção do eixo hipotalâmico-hipofisário, suprarrenal ou da tireoide; (2) lesões ovarianas funcionais produtoras de excesso de estrógeno; (3) subnutrição, obesidade ou doença debilitante; e (4) estresse físico ou emocional grave. Independentemente da causa, a falha ovulatória resulta em excesso de estrogênio em relação à progesterona. Assim, o endométrio passa por uma fase proliferativa que não é seguida pela fase secretória normal. As glândulas do endométrio podem desenvolver alterações císticas leves ou aparecerem desordenadas (Fig. 18-11, A), enquanto o estroma do endométrio, que requer a progesterona para crescer, pode ser escasso. Essa combinação de anomalias faz com que o endométrio fique propenso a ruptura e san- gramento anormal. Fase lútea inadequada. O corpo lúteo pode falhar no ama- durecimento normal ou regredir prematuramente levando a uma falta relativa de progesterona. O endométrio sob essas circunstâncias não mostra as alterações secretoras esperadas. Sangramento induzido por contraceptivo. Os contraceptivos orais mais antigos que contêm estrogênios e progestinas sintéticos induzem uma variedade de respostas endometriais, incluin- do estroma exuberante e deciduoide e glândulas inativas e não secretoras. Os anticoncepcionais atuais não causam mais essas anomalias. Distúrbios endometriais, incluindo endometrite crônica, pólipo endometrial e leiomiomas submucosos. RESUMO Distúrbios Não Neoplásicos do Endométrio - triais localizados fora do útero e pode envolver o peritônio pélvico ou abdominal. Raramente, locais distantes como os linfonodos e os pulmões também estão envolvidos. - to cíclico, e a condição é causa comum de dismenorreia e dor pélvica. miométrio com aumento uterino. Ao contrário da endome- triose, não há sangramento cíclico. LESÕES PROLIFERATIVAS DO ENDOMÉTRIO E MIOMÉTRIO As lesões mais comuns proliferativas do corpo uterino são hiperplasia endometrial, carcinomas endometriais, pólipos endometriais e tumores do músculo liso. Todos tendem a produzir sangramento uterino anormal como sua primeira manifestação. Hiperplasia Endometrial O excesso de estrogênio em relação à progesterona, se for sufi- cientemente prolongado ou marcado, pode induzir a prolifera- ção endometrial exagerada (hiperplasia), que é um importante precursor de carcinoma do endométrio. Possíveis causas de excesso de estrogênio incluem falha na ovulação (como visto na perimenopausa), administração prolongada de esteroides estrogênicos sem progestina de contrabalanço e lesões do ovário produtoras de estrogênio (como a doença do ovário policístico e tumores das células da teca e da granulosa do ovário). Uma causa comum de excesso de estrogênio é a obesidade, na medida em que o tecido adiposo converte precursores esteroides em estrogênios. A gravidade da hiperplasia está correlacionada com o nível e a duração do excesso de estrogênio, e é classificada com ba- se na aglomeração arquitetônica (simples ou complexa) e na Figura 18-11 Hiperplasia endometrial. A, Endométrio anovulató- rio ou “desordenado”, contendo glândulas dilatadas. B, Hiperplasia complexa sem atipia, caracterizada por ninhos de glândulas agrupadas. C, Hiperplasia complexa com atipia, vista como aglomerados glandulares e atipia celular. C A P Í T U L O 18692 Sistema Genital Feminino e Mama presença ou ausência de atipia citológica (Fig. 18-11, B e C). O risco de desenvolver carcinoma está relacionado com a presença de atipia celular. Hiperplasia complexa sem atipia celular carre- ga um risco baixo (menos de 5%) de progressão para carcinoma de endométrio, enquanto a hiperplasia complexa com atipia celular está associada a um risco muito mais elevado (20-50%). Quando a hiperplasia com atipia é descoberta, ela deve ser cui- dadosamente avaliada para a presença de câncer e monitorada por várias biópsias endometriais. Com o tempo, a hiperplasia pode proliferar de maneira autô- noma, não mais exigindo estrogênio e, subsequentemente, pode dar origem a um carcinoma. Em número significativo dos casos, a hiperplasia está associada a mutações de inativação no gene supressor tumoral PTEN, um freio importante da sinalização através da via de sinalização PI-3-cinase/AKT. Acredita-se que a aquisição de mutações de PTEN seja um de vários passos importantes na transformação de hiperplasias em carcinomas endometriais, que muitas vezes tambémabrigam mutações de PTEN. Carcinoma Endometrial Nos Estados Unidos e em muitos outros países ocidentais, o carcinoma endometrial é o câncer mais frequente que ocorre no trato genital feminino. Geralmente aparece entre as idades de 55-65 anos e é raro antes dos 40 anos. Carcinomas do endomé- trio compreendem dois tipos distintos de câncer: endometrioide e carcinoma seroso do endométrio. Esses dois tipos são histológica e patogeneticamente distintos. Os cânceres endometrioides surgem em associação ao excesso de estrogênio e hiperplasia endometrial em mulheres na perimenopausa, enquanto os cân- ceres serosos surgem no cenário de atrofia do endométrio em mulheres idosas pós-menopáusicas. PATOGENIA O tipo endometrioide é responsável por 80% dos casos de carcinomas de endométrio. Esses tumores são designados en- dometrioides devido a sua semelhança histológica com glân- dulas endometriais normais. Fatores de risco para esse tipo de carcinoma incluem (I) obesidade, (2) diabetes, (3) hipertensão, (4) infertilidade e (5) exposição ao estrogênio sem oposição. Muitos desses fatores de risco resultam em estimulação estro- gênica aumentada do endométrio e estão associados à hiper- plasia endometrial. De fato, é bem reconhecido que a terapia de reposição prolongada com estrogênio e tumores ovarianos se- cretores de estrogênio aumentam o risco do tipo endometrioide de carcinoma do endométrio. Além disso, o carcinoma de mama (que também é estrogênio-dependente) ocorre em mulheres com câncer de endométrio (e vice-versa) mais frequentemente do que por acaso, isoladamente. As mutaçõ es em genes de incompatibilidade de reparo e gene supressor de tumor PTEN sã o eventos precoces no desenvolvimento gradual do carcinoma endometrioide. As mulheres com mutações germinativas em PTEN (síndrome de Cowden) estão em alto risco para esse câncer. Mutações em TP53 ocorrem, mas são relativamente incomuns e acredita-se que sejam eventos tardios na gênese desse tipo de tumor. O tipo seroso de carcinoma endometrial é muito menos comum, representando cerca de 15% dos tumores. Quase todos os casos apresentam mutações no gene supressor de tumor TP53, enquanto quemutações em genes do DNA de incompatibilidade de reparo e PTEN são raros. MORFOLOGIA Os carcinomas endometrioides assemelham-se ao endo- métrio normal e podem ser exofíticos ou invasivos (Fig. 18-12, A e B). Eles incluem uma variedade de tipos histológicos, incluindo aqueles que apresentam diferenciação escamosa (ocasionalmente adenoescamosa), mucinosa e tubária (cilia- da). Os tumores originam-se na mucosa, podem se infiltrar no miométrio e entrar em espaços vasculares. Eles também podem metastizar para os linfonodos regionais. Carcinomas endometrioides são classificados de I a III, com base no grau de diferenciação. Carcinomas serosos, por outro lado, formam pequenos tufos e papilas, em vez das glândulas observadas no carcinoma endometrioide e exibem muito mais atipia citológi- ca. Eles se comportam de maneira agressiva e, assim, são por definição de alto grau. A imuno-histoquímica frequentemente revela níveis elevados de p53 no carcinoma seroso (Fig. 18-12, C e D), uma descoberta que se correlaciona com a presença de mutações TP53 (o p53 mutante se acumula e, portanto, é mais facilmente detectado por coloração). Curso Clínico Os carcinomas do endométrio geralmente se manifestam com leucorreia e sangramento irregular, muitas vezes em mulheres pós-menopáusicas. Com a progressão, o útero aumenta e pode afixar-se às estruturas circundantes à medida que o câncer in- filtra os tecidos circundantes. Esses tumores geralmente são lentos para metástase, mas se não tratados subsequentemente se disseminam para os linfonodos regionais e locais mais dis- tantes. Com a terapia, a taxa de sobrevida de cinco anos para o carcinoma de fase inicial é de 90%, mas a sobrevida cai bas- tante nos tumores em estágio mais elevado. O prognóstico para carcinomas serosos é fortemente dependente do estadiamento operatório e exame citológico de lavagens peritoneais; este úl- timo é imperativo porque tumores serosos muito pequenos ou superficiais podem, contudo, se espalhar por meio das tubas uterinas para a cavidade peritoneal. RESUMO Hiperplasia Endometrial e Carcinoma Endometrial endógeno ou exógeno. endometrial incluem ciclos anovulatórios, síndrome dos ovários policísticos, tumor ovariano produtor de estrogênio, obesidade e terapia com estrogênio sem progestina para contrabalançar. - térios de arquitetura (simples ou complexa) e citológicos (normal versus atípico). O risco de desenvolver o carcinoma é predominantemente relacionado à atipia citológica. principais de carcinoma do endométrio são reconhecidos: O carcinoma endometrioide está associado a excesso de estrogênio e à hiperplasia endometrial. Alterações mole- culares precoces incluem inativação de genes de reparo do DNA e do gene PTEN. O carcinoma seroso do endométrio aparece em mulheres mais velhas e, geralmente, está associado à atrofia do 693Lesõ es proliferativas do endomé trio e miomé trio Pólipos Endometriais Essas lesões sésseis, geralmente hemisféricas, variam de 0,5-3 cm de diâmetro. Pólipos maiores podem se projetar da mucosa do endométrio para dentro da cavidade uterina. No exame histológico, eles são compostos por endométrio semelhante ao basal, muitas vezes com pequenas artérias musculares. Algumas glândulas têm arquitetura normal do endométrio, mas mais frequentemente são cisticamente dilatadas. As células do estroma são monoclonais, geralmente com um rearranjo da região cromossômica 6p21, e constituem, assim, o componente neoplásico do pólipo. Embora pólipos endometriais possam ocorrer em qualquer idade, mais comumente eles são detectados em torno da época da menopausa. Sua importância clínica reside no sangramento uterino anormal e, mais importante, no risco (porém raro) de originar um câncer. Leiomioma Os tumores benignos que surgem das células musculares lisas no miométrio são apropriadamente chamados de leiomiomas. Devido à sua firmeza, no entanto, eles são frequentemente refe- ridos clinicamente como fibroides. Os leiomiomas são os tumores benignos mais comuns em mulheres, acometendo 30-50% das mulheres em idade reprodutiva, e são consideravelmente mais frequentes em negras do que em brancas. Esses tumores são monoclonais e estão associados a várias anormalidades cromos- somais diferentes e recorrentes, incluindo rearranjos dos cromos- somos 6 e 12, que também são encontrados em uma variedade de outras neoplasias benignas, como pólipos e lipomas endome- triais. Estrogênios e, possivelmente, contraceptivos orais, es- timulam o crescimento de leiomiomas; em contrapartida, esses tumores encolhem na pós-menopausa. MORFOLOGIA Os leiomiomas são, tipicamente, massas f irmes branco- acinzentadas nitidamente circunscritas, com superfície de corte em espiral. Eles podem ocorrer isoladamente, mas mais frequentemente mú ltiplos tumores são disseminados dentro do útero, variando desde pequenos nódulos até tumo- res grandes (Fig. 18-13) que podem diminuir o útero. Alguns se inserem dentro do miométrio (intramurais), enquanto outros podem estar diretamente abaixo do endométrio (submucosos) ou diretamente abaixo da serosa (subserosos). Neste último local, os tumores podem estender-se para fora em pedún- culos atenuados e até mesmo tornar-se ligados aos órgãos circundantes, de onde podem desenvolver um suprimento de sangue (leiomiomas parasitas). No exame histológico, os tumores são caracterizados por feixes de cé lulas mus- culares lisas que imitam a aparência de miométrio normal. Focos de fibrose, calcificação e amolecimento degenerativo podem estar presentes. endométrio. Mutações no gene TP53 são um aconteci- mento precoce. os tipos. Os tumores serosos tendem a se manifestar fre- quentemente com extensão extrauterina e, portanto, têm prognóstico pior que os carcinomas endometrioides. Figura 18-12 Carcinoma endometrial.A, Tipo endometrioide infiltrando o miométrio e crescimento em padrão cribriforme. B, Maior aumento revela perda de polaridade e atipia nuclear. C, Carcinoma seroso do endométrio, com formação de papilas e marcada atipia citológica. D, Coloração imuno-his- toquímica revela acúmulo de p53, um achado associado à mutação do TP53. C A P Í T U L O 18694 Sistema Genital Feminino e Mama Os leiomiomas do útero muitas vezes são assintomáticos, sendo descobertos incidentalmente no exame ginecológico de rotina. O sinal presente mais frequente é a menorragia, com ou sem metrorragia. Leiomiomas grandes podem ser palpados pela mulher acometida ou produzir sensação de arrasto. Os leiomiomas quase nunca se transformam em sarcomas, e a presença de lesões múltiplas não aumenta o risco de malignidade. Leiomiossarcoma Os leiomiossarcomas surgem originalmente das células mesen- quimais do miométrio, não de leiomiomas preexistentes. Eles são quase sempre solitários e ocorrem mais frequentemente em mulheres na pós-menopausa, em oposição aos leiomiomas, que frequentemente são múltiplos e geralmente aparecem na pré-menopausa. A recorrência após a remoção é comum com esses tipos de câncer, e muitos metastatizam, tipicamente para os pulmões, produzindo uma taxa de sobrevida de cinco anos de cerca de 40%. A perspectiva com tumores anaplásicos é menos favorável do que com tumores bem diferenciados. RESUMO Neoplasias do Músculo Liso Uterino são comuns e frequentemente múltiplos; eles podem se manifestar com menorragia, como uma massa pélvica ou ser detectados como causa da infertilidade. - sarcomas, surgem de primeira ocorrência, não de leiomio- mas. e atividade mitótica. MORFOLOGIA Os leiomiossarcomas normalmente tomam a forma de mas- sas necrosadas moles e hemorrá gicas. A aparência histo- lógica varia muito, de tumores que se assemelham a leiomiomas até neoplasias descontroladamente anaplásicas. Esses tumores bem diferenciados, que estão na interface entre leiomioma e leiomiossarcoma, às vezes são designados tumores do músculo liso de potencial maligno incerto; em tais casos, só o tempo vai dizer se o comportamento do tumor é benigno ou maligno. Os recursos diagnósticos do leiomiossarcoma evidente incluem necrose tumoral, atipia citoló gica e atividade mitó ti- ca. Como a atividade mitótica aumentada às vezes é observada em tumores benignos do músculo liso, particularmente em mulheres jovens, uma avaliação das três características é neces- sária para fazer um diagnóstico de malignidade. Figura 18-13 Leiomiomas uterinos. A, O útero é aberto revelando tumores múltiplos, submucosos, miometriais e subserosos branco-acinzentados, cada um com aparência espiral característica na superfície de corte. B, Apresentação microscópica do leiomioma revela feixes de células musculares lisas de aparência normal. 695Doença do ovário policístico TUBAS UTERINAS O distúrbio mais comum das tubas uterinas é a inflamação (sal- pingite), que quase invariavelmente ocorre como componente de doença inflamatória pélvica. Anomalias menos comuns são gravidez ectópica (tubária), endometriose e, raramente, tumores primários. As inflamações das tubas são quase sempre de origem micro- biana. Com a menor incidência de gonorreia, os microrganis- mos não gonocócicos, como Chlamydia, Mycoplasma hominis, coliformes, estreptococos e estafilococos (no cenário pós- parto), são agora os grandes vilões. As alterações morfológicas produzidas por gonococos são semelhantes àquelas do trato genital masculino (Capítulo 17). As infecções não gonocócicas podem penetrar na parede das tubas, dando origem a infec- ções transmitidas pelo sangue, infectando meninges, espaços articulares e, às vezes, até valvas cardíacas. A salpingite tuber- culosa é muito menos comum e quase sempre encontrada em combinação com endometrite tuberculosa. Todas as formas de salpingite podem produzir febre, dor abdominal inferior ou pélvica e massas pélvicas, que são resultado da distensão das tubas com detritos inflamatórios ou exsudato (Fig. 18-14). A aderência da tuba inflamada no ovário e tecidos de liga- mento adjacentes pode resultar em abscesso tubo-ovariano, referido como um complexo tubo-ovariano quando a infecção desaparece. Ainda mais graves são as aderências de pregas tubárias, que estão associadas a risco aumentado de gravidez ectópica tubária. Dano ou obstrução do lúmen tubário pode produzir esterilidade permanente. Os adenocarcinomas primários das tubas uterinas podem ser de tipo histológico seroso ou endometrioide. Embora menos comum que tumores de ovário, os carcinomas serosos das tubas uterinas parecem ser maiores em mulheres com mutações do BRCA. Em estudos de ooforectomias profiláticas nessas mulhe- res, 10% tinham focos ocultos de malignidade, divididos igual- mente entre o ovário e as tubas uterinas, onde eles ocorreram geralmente na fímbria. Isso levou à sugestão de que carcinomas serosos esporádicos do “ovário” também podem originar-se nas tubas uterinas, uma ideia que permanece controversa. Pelo fato de as tubas uterinas proporcionarem acesso à cavidade peritoneal, os carcinomas de tubas uterinas envolvem frequen- temente o omento e a cavidade peritoneal na apresentação. RESUMO Doença das Tubas Uterinas - flamatória pélvica e resulta em cicatrizes no revestimento das tubas uterinas, aumentando o risco de gravidez ectópica tubária. em estágio avançado, com envolvimento da cavidade peri- toneal. OVÁ RIOS CISTOS FOLICULARES E LUTEÍNICOS Cistos foliculares e luteínicos nos ovários são tão comuns que podem ser considerados variantes da fisiologia normal. Essas lesões inócuas se originam de folículos de Graaf íntegros ou folículos que se romperam e se tornaram imediatamente selados. Tais cistos frequentemente são múltiplos e se desen- volvem subjacentes à cobertura serosa do ovário. Eles são tipicamente pequenos (1-1,5 cm de diâmetro) e preenchidos com um líquido seroso claro. Ocasionalmente, tornam-se suficientemente grandes (4-5 cm), produzindo massas pal- páveis e dor pélvica. Quando pequenos, são revestidos por células da granulosa de revestimento ou células lúteas, mas, com o acúmulo de líquido, a pressão pode causar atrofia dessas células. Às vezes, esses cistos rompem, produzindo sangramento intraperitoneal e sintomas peritoneais (abdome agudo). DOENÇA DO OVÁRIO POLICÍSTICO A doença do ovário policístico (anteriormente chamada de síndrome de Stein-Leventhal) é um distúrbio no qual múltiplos folículos císticos nos ovários produzem androgênios e estrogênios em excesso. Ela geralmente chama a atenção após a menarca em adolescentes ou adultos jovens que apresentam oligomenorreia, hirsutismo, infertilidade e, às vezes, obesidade. Os ovários geralmente têm duas vezes o tamanho normal, branco-acinzentados com córtex exterior liso e guarnecido de cistos de 0,5-1,5 cm de diâmetro. O exame histológico revela uma cápsula ovariana fibrótica e espessa que recobre inúmeros folículos císticos revestidos por células da granulosa com teca interna luteinizada hiperplásica. Há uma notável ausência de corpo lúteo no ovário. Na maioria dos pacientes, as principais anormalida- des bioquímicas são produção excessiva de androgênios, Figura 18-14 Doença inflamatória pélvica, bilateral e assimétrica. A tuba uterina e o ovário à esquerda do útero estão totalmente obscurecidos por uma massa inflamatória hemorrágica. A tuba uterina está aderida ao ovário adjacente do outro lado. C A P Í T U L O 18696 Sistema Genital Feminino e Mama altas concentrações do hormônio luteinizante e concentra- ções baixas de hormônio folículo-estimulante. As origens dessas alterações são mal compreendidas, mas é propos- to que os ovários elaboram androgênios em excesso, que são convertidos em hormônios estrogênicos nos depósitos gordurosos periféricos, que inibem a secreção de hormônio folículo-estimulante pela hipófise através do hipotálamo. TUMORES DO OVÁRIO Com mais de 20.000 casos novosdiagnosticados anualmente, o câncer de ovário é o oitavo câncer mais comum nas mulheres nos Estados Unidos. Ele também é o quinto contribuinte principal para a mortalidade por câncer em mulheres, com cerca de 14.000 mortes em 2010. Os tumores do ovário são surpreendentemente variados. Essa diversidade é atribuída à presença de três tipos de células no ovário normal: o epitélio de superfície multipotente (celômico), as células germinativas totipotentes e as células estromais do cordão sexual, cada uma das quais dá origem a vários tumores diferentes (Fig. 18-15). As neoplasias de origem no epitélio de superfície fazem parte da grande maioria dos tumores ovarianos e, em suas formas ma- lignas, são responsáveis por quase 90% dos cânceres de ovário. Células germinativas e tumores das células estromais do cordão sexual são muito menos frequentes; embora constituam 20-30% dos tumores do ovário, eles são responsáveis coletivamente por menos de 10% dos tumores malignos do ovário. Tumores do Epitélio Superfícial A grande maioria das neoplasias do ovário é derivada do epi- télio celômico que cobre a superfície do ovário. Com a ovula- ção e as cicatrizes repetidas, o epitélio de superfície se torna aprisionado no córtex do ovário, formando pequenos cistos epiteliais. Estes podem tornar-se metaplásicos ou passar por transformação neoplásica, dando origem a uma série de tumores epiteliais diferentes. As lesões benignas são geralmente císticas (cistadenoma) e podem ter um componente estromal de acom- panhamento (cistadenofibroma). Os tumores malignos também podem ser císticos (cistadenocarcinoma) ou sólidos (carcinoma). Alguns tumores epiteliais do ovário estão em uma categoria intermediária e borderline, atualmente chamados de tumores de baixo potencial de malignidade. Eles são mais bem considerados como cânceres de baixo grau com potencial invasivo limitado e compreensivelmente carregam melhor prognóstico que os carcinomas ovarianos claramente malignos. Fatores de risco importantes para o câncer de ovário incluem nuliparidade, histórico familiar e mutações germinativas em certos genes supressores de tumor. Há maior incidência de carcinoma em mulheres solteiras e mulheres casadas com baixa paridade. É interessante notar que o uso prolongado de Figura 18-15 Derivação, frequência e distribuição etária para várias neoplasias ovarianas. 697Tumores do ovário contraceptivos orais reduz um pouco o risco. Cerca de 5-10% dos cânceres de ovário são familiares, e a maioria deles está as- sociada a mutações nos genes supressores de tumores BRCA1 e BRCA2. Como será discutido adiante, mutações em BRCA1 e BRCA2 estão também associadas ao câncer de mama hereditário. O risco de vida médio para câncer de ovário aproxima-se de 30% em portadores de BRCA1; o risco para BRCA2 é um pouco menor. Ao contrário do câncer de ovário familiar, mutações em BRCA1 e BRCA2 são encontradas em apenas 8-10% dos cânceres de ovário isolados, que parecem surgir através de mecanismos moleculares alternativos. Tumores Serosos Os tumores serosos são os tumores mais comuns do epitélio ova- riano. Cerca de 60% são benignos, 15% são de baixo potencial de malignidade e 25% são malignos. As lesões benignas geralmente são encontradas em pacientes entre 30-40 anos de idade, e tu- mores serosos malignos são mais comumente observados entre 45-65 anos de idade. Se somados, tumores serosos malignos e borderline são as neoplasias malignas ovarianas mais comuns, representando cerca de 60% de todos os cânceres de ovário. Novas evidências indicam que existem dois tipos de carcino- mas serosos: de graus baixo e alto. O primeiro surge a partir de lesões benignas ou borderline e progride lentamente de maneira gradual, tornando-se um carcinoma invasivo. Esses tumores de grau baixo estão associados a mutações em KRAS, BRAF ou ERBB2. Os tumores serosos de grau alto desenvolvem-se rapida- mente. Como já mencionado, pelo menos algumas dessas lesões de grau alto desenvolvem-se a partir do carcinoma intraepitelial tubário, e não do epitélio celômico ovariano. “Sequenciamento profundo” recente de carcinomas serosos de grau alto confir- mou que 96% dos tumores apresentam mutações no TP53. As fator de transcrição implicado anteriormente na patogenia do carcinoma de ovário, também foram detectadas em uma minoria considerável de tumores. O prognóstico para pacientes com cistoadenocarcinoma seroso invasivo é ruim, mesmo após cirurgia, irradiação e qui- mioterapia, e depende muito do estágio da doença no diagnós- tico. Se o tumor aparece restrito ao ovário, carcinomas abertos têm taxa de sobrevida de cinco anos de cerca de 70%, enquanto os tumores de baixo potencial de malignidade estão associados a quase 100% de sobrevida. Para os cânceres que penetraram a cápsula, a taxa de sobrevida de 10 anos é inferior a 15%. Tumores Mucinosos Tumores mucinosos são, em muitos aspectos, semelhantes aos tumores serosos, sendo que a diferença essencial é que o epité- lio neoplásico é constituído por células secretoras de mucina. Esses tumores ocorrem em mulheres na mesma faixa etária que aquelas com tumores serosos, mas são consideravelmente menos prováveis de ser malignos. Em geral, apenas 10% dos tumores mucinosos são malignos; outros 10% são de baixo potencial de malignidade e 80% são benignos. MORFOLOGIA A maioria dos tumores serosos é de estruturas císticas, grandes, esféricas a ovoides, de até 30-40 cm de diâmetro. Cerca de 25% dos tumores benignos sã o bilaterais. Nos tumores benignos, a cobertura serosa é lisa e brilhante. Em contraste, a superfície do cistoadenocarcinoma tem irregularidades nodula- res que representam áreas em que o tumor penetrou na serosa. Na seção de corte, tumores císticos pequenos podem ter cavi- dade única, mas os maiores frequentemente são divididos por septos múltiplos em massas multiloculadas. Os espaços císticos geralmente são preenchidos com um líquido claro seroso. As projeções papilares estão salientes nas cavidades císticas, e são mais proeminentes nos tumores malignos (Fig. 18-16). No exame histológico, os tumores benignos contêm uma única camada de cé lulas epiteliais altas colunares que reveste o cisto ou cistos. As células são muitas vezes ciliadas. Corpos de psammoma (concreções calcificadas laminadas concentricamente) são comuns nas pontas das papilas. Quando há desenvolvimento de carcinoma aberto, surge anaplasia das células de revestimento, assim como invasão do estro- ma. No carcinoma, as formações papilares são complexas e de camadas múltiplas, e ninhos ou camadas indiferenciadas de células malignas invadem o tecido fibroso axial. Entre as formas claramente benignas e evidentemente malignas estão os tumo- res de baixo potencial de malignidade, que apresentam menos atipia citológica e, normalmente, pouca ou nenhuma in- vasão estromal. Os tumores de baixo potencial de malignidade podem comprometer o peritônio, mas felizmente os implantes tumorais geralmente são “não invasivos”. Em geral, os tumores serosos malignos se espalham para os linfonodos regionais, incluindo linfonodos periaórticos; metástases linfáticas distantes e hematogênicas são raras. Figura 18-16 Tumores ovarianos serosos. A, Cistadenoma seroso bor- derline aberto para exibir uma cavidade de cisto revestido por crescimentos tumorais papilares delicados. B, Cistadenocarcinoma. O cisto aberto revela massa tumoral grande e volumosa. (Cortesia do Dr. Christopher Crum, Brigham and Women's Hospital, Boston, Massachusetts.) C A P Í T U L O 18698 Sistema Genital Feminino e Mama MORFOLOGIA Ao exame macroscópico, os tumores mucinosos apresentam massas císticas que podem ser indistinguíveis de tumores se- rosos, exceto pela natureza mucinosa do conteúdo cístico. No entanto, eles sã o mais propensos a ser maiores e mul- ticísticos (Fig. 18-17, A). Penetraçã o da serosa e á reas só lidas de crescimento sã o sugestivos de malignidade. No exame histológico, os cistos são revestidos