Prévia do material em texto
TREINANDO A ESCRITA✍ DIREITO CIVIL - CAPACIDADE Rafael, através de advogado constituído, ajuizou ação objetivando a interdição de seu pai, Pedro, alegando que ele está acometido de demência causada por doença de Alzheimer, em estado avançado, de forma que estaria incapacitado para os atos da vida civil, devendo ser representado por terceiro, em especial perante. O laudo pericial psiquiátrico afirmou que Pedro está impossibilitado de gerir e administrar seus bens e interesses e que o quadro é irreversível. Na sentença, o juiz julgou o pedido procedente e decretou a curatela de Pedro, declarando-o “absolutamente incapaz de exercer pessoalmente os atos da vida civil”, e nomeou Rafael como curador de Pedro, nos termos do art. 1.775, § 1º do CC. Agiu corretamente o magistrado? Fundamente. RESPOSTA CONSIDERAÇÕES SOBRE A QUESTÃO O tema abordado na questão é de extrema relevância para os concursos públicos. Inicialmente, importante lembrar que o cônjuge ou companheiro, não separado judicialmente ou de fato, é, de direito, curador do outro, quando interdito, mas na falta do cônjuge ou companheiro, é curador legítimo o pai ou a mãe; na falta destes, o descendente que se demonstrar mais apto (art. 1.775, caput e § 1º, do CC). É essencial mencionar que não se confunde a figura do curador do interditando, que é nomeado ao final, caso a ação seja julgada procedente (art. 755, I, do CPC/2015), com o curador especial, que é designado logo no início da ação e unicamente para resguardar os interesses processuais do interditando. Apesar de o nome ser parecido, são figuras completamente diferentes. O curador à lide é um instituto processual, que só existe enquanto perdurar o processo. O curador do interditando é uma figura de direito material, que vai surgir caso a ação de interdição seja julgada procedente. Voltando ao caso concreto, o magistrado não agiu corretamente. De acordo com o STJ, não é admitida, pelo ordenamento jurídico, a declaração de incapacidade absoluta às pessoas com enfermidade ou deficiência mental. STJ. 3ª Turma. REsp 1.927.423/SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 27/04/2021 (Info 694). A Lei nº 13.146/2015, que entrou em vigor em 03/01/2016, instituiu o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Esse diploma teve por objetivo assegurar e promover a inclusão social das pessoas com deficiência física ou psíquica e garantir o exercício de sua capacidade em igualdade de condições com as demais pessoas. O art. 2º da Lei afirma que a pessoa com deficiência é aquela que tem impedimento de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial. A referida lei prevê, ainda, em seu art. 6º, que a pessoa com deficiência não deve ser mais tecnicamente considerada civilmente incapaz, uma vez que a deficiência não afeta a plena capacidade civil: Art. 6º A deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para: I - casar-se e constituir união estável; II - exercer direitos sexuais e reprodutivos; III - exercer o direito de decidir sobre o número de filhos e de ter acesso a informações adequadas sobre reprodução e planejamento familiar; IV - conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória; V - exercer o direito à família e à convivência familiar e comunitária; e VI - exercer o direito à guarda, à tutela, à curatela e à adoção, como adotante ou adotando, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. As pessoas que são previstas como absolutamente incapazes não podem praticar pessoalmente os atos da vida civil, sob pena de nulidade absoluta (art. 166, I, do CC). Elas precisam ser representadas por uma outra pessoa que tenha capacidade civil plena. O Código Civil de 2002 previu o rol dos absolutamente incapazes no seu art. 3º, tendo o Estatuto da Pessoa com Deficiência alterado profundamente esse dispositivo. Veja: Art. 3º São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 (dezesseis) anos. Dessa forma, a partir da entrada em vigor da Lei nº 13.146/2015, que ratifica a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, somente são consideradas absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 (dezesseis) anos. Em face disso, não é mais possível, portanto, inserir as pessoas com enfermidade ou deficiência mental no rol dos absolutamente incapazes. Por conseguinte, ao excluir os deficientes do rol de pessoas absolutamente incapazes, o Estatuto lhes assegurou o direito ao exercício da capacidade legal em igualdade de condições com as demais pessoas. Sob essa perspectiva, o art. 84, § 3º, da Lei nº 13.146/2015 estabelece que o instituto da curatela da pessoa com deficiência constitui medida protetiva extraordinária, proporcional às necessidades e às circunstâncias de cada caso, e durará o menor tempo possível. Veja: Art. 84 (...) § 3º A definição de curatela de pessoa com deficiência constitui medida protetiva extraordinária, proporcional às necessidades e às circunstâncias de cada caso, e durará o menor tempo possível. Ademais, o art. 85 dispõe que a curatela afetará tão somente os atos relacionados aos direitos de natureza patrimonial e negocial, não abrangendo todos os atos da vida civil: Art. 85. A curatela afetará tão somente os atos relacionados aos direitos de natureza patrimonial e negocial. § 1º A definição da curatela não alcança o direito ao próprio corpo, à sexualidade, ao matrimônio, à privacidade, à educação, à saúde, ao trabalho e ao voto. § 2º A curatela constitui medida extraordinária, devendo constar da sentença as razões e motivações de sua definição, preservados os interesses do curatelado. § 3º No caso de pessoa em situação de institucionalização, ao nomear curador, o juiz deve dar preferência a pessoa que tenha vínculo de natureza familiar, afetiva ou comunitária com o curatelado. Os relativamente incapazes não podem, em regra, praticar os atos da vida civil sozinhos. Para que o relativamente incapaz possa praticar um ato da vida civil, ele precisará, em regra, estar assistido por uma outra pessoa plenamente capaz. O ato praticado pelo relativamente incapaz sem que ele tenha tido assistência é considerado anulável (art. 171, I, do CC). Como dito, o relativamente incapaz precisa, em regra, ser assistido, mas a lei prevê alguns atos que ele poderá praticar pessoalmente e sem assistência. Ex: fazer testamento, aceitar mandato, votar e casar (precisa de autorização), ser mandatário, ser testemunha. O Código Civil de 2002 previu o rol dos relativamente incapazes no seu art. 4º, tendo o Estatuto da Pessoa com Deficiência alterado profundamente esse dispositivo. Veja: Art. 4º São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os exercer: I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos; II - os ébrios habituais e os viciados em tóxico; III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; IV - os pródigos. Parágrafo único. A capacidade dos indígenas será regulada por legislação especial. No caso concreto, o laudo pericial psiquiátrico afirmou que Pedro está impossibilitado de gerir e administrar seus bens e interesses e que o quadro é irreversível. Não obstante, a incapacidade de Pedro é RELATIVA, nos termos do art. 4º, III, do Código Civil: Art. 4º São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os exercer: (...) III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; ESPELHO DE RESPOSTA De acordo com o STJ, não é admitida, pelo ordenamento jurídico, a declaração de incapacidade absoluta às pessoas com enfermidade ou deficiência mental, razão pela qual não agiu corretamente o magistrado. A Lei nº 13.146/2015, que entrou em vigor em 03/01/2016, instituiu o Estatuto da Pessoa com Deficiência. Esse diploma teve por objetivo assegurar e promover a inclusão social das pessoas com deficiência física ou psíquica e garantir o exercício desua capacidade em igualdade de condições com as demais pessoas. O art. 2º da Lei afirma que a pessoa com deficiência é aquela que tem impedimento de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial. A referida lei prevê, ainda, em seu art. 6º, que a pessoa com deficiência não deve ser mais tecnicamente considerada civilmente incapaz, uma vez que a deficiência não afeta a plena capacidade civil. As pessoas que são previstas como absolutamente incapazes não podem praticar pessoalmente os atos da vida civil, sob pena de nulidade absoluta (art. 166, I, do CC). Elas precisam ser representadas por uma outra pessoa que tenha capacidade civil plena. O Código Civil de 2002 previu o rol dos absolutamente incapazes no seu art. 3º, tendo o Estatuto da Pessoa com Deficiência alterado profundamente esse dispositivo. Atualmente, só são considerados absolutamente incapazes os menores de 16 (dezesseis) anos. No caso concreto, o laudo pericial psiquiátrico afirmou que Pedro está impossibilitado de gerir e administrar seus bens e interesses e que o quadro é irreversível. Não obstante, a incapacidade de Pedro é relativa, nos termos do art. 4º, III, do Código Civil. PONTUAÇÃO TÓPICO PONTUAÇÃO MÁXIMA 1. Não é admitida, pelo ordenamento jurídico, a declaração de incapacidade absoluta às pessoas com enfermidade ou deficiência mental, razão pela qual não agiu corretamente o magistrado. Posição do STJ. 2,00 2. Estatuto da Pessoa com Deficiência. Objetivo assegurar e promover a inclusão social das pessoas com deficiência física ou psíquica e garantir o exercício de sua capacidade em igualdade de condições com as demais pessoas. A pessoa com deficiência não deve ser mais tecnicamente considerada civilmente incapaz, uma vez que a deficiência não afeta a plena capacidade civil. 2,50 3. As pessoas que são previstas como absolutamente incapazes não podem praticar pessoalmente os atos da vida civil, sob pena de nulidade absoluta (art. 166, I, do CC). Elas precisam ser representadas por uma outra pessoa que tenha capacidade civil plena. 1,50 4. O Código Civil de 2002 previu o rol dos absolutamente incapazes no seu art. 3º, tendo o Estatuto da Pessoa com Deficiência alterado profundamente esse dispositivo. Atualmente, só são considerados absolutamente incapazes os menores de 16 (dezesseis) anos. 1,50 5. No caso concreto, o laudo pericial psiquiátrico afirmou que Pedro está impossibilitado de gerir e administrar seus bens e interesses e que o quadro é irreversível. Não obstante, a incapacidade de Pedro é relativa, nos termos do art. 4º, III, do Código Civil. 2,50 TOTAL 10,00