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INTRODUÇÃO À EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - EAD OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Conceituar recursos educacionais abertos (REAs). > Identificar as aplicações dos REAs na educação a distância (EAD). > Reconhecer o papel da colaboração, do trabalho em rede e da cocriação na formação do currículo. Introdução Um recurso educacional aberto (REA) consiste em qualquer tipo de material di- dático-pedagógico que terceiros possam reutilizar, revisar, remixar e redistribuir livremente. Isso acontece porque REAs são de domínio público. A utilização desses recursos no ambiente educacional permite ampliar o acesso e a permanência nos sistemas de ensino, sobretudo na educação a distância (EAD). Porém, para isso é preciso que os professores tenham conhecimento sobre boas fontes de recursos e realizem a curadoria destes, visando a utilizá-los para potencializar as experiências de aprendizagem. Neste capítulo, serão elucidados os conceitos fundamentais acerca dos REAs, com destaque para as quatro ações que norteiam as possibilidades didáticas de disponibilização do material aos alunos. Além disso, serão apresentados os benefícios desses recursos para a EAD, com foco na importância da colaboração para o desenvolvimento e a atualização de conteúdos. Recursos educacionais abertos Claudio Marlus Skora Conceitos fundamentais Uma simples palavra pode representar tudo aquilo que se considera mais relevante em diversos campos dos saberes: colaboração. Por meio da colabo- ração e da intensa troca de saberes, grandes saltos na construção de novos conhecimentos foram possibilitados, sobretudo nas últimas décadas. De fato, vivemos em uma época ímpar na história, moldada pela evolução disruptiva da tecnologia. Essa evolução possibilitou a disseminação e o compartilha- mento massivos de informação entre pesquisadores, cientistas e leigos. Se a colaboração é a palavra que marca os tempos atuais, interatividade é a sua precedente geradora, pela qual se intenciona usar, alterar, combinar e redistribuir saberes diversos. A educação não ficou fora dessa tendência. Na verdade, foi um dos seus precursores. A sua gênese ocorreu no ano de 1994, por meio da contribuição de Wayne Hodgins, que utilizou pela primeira vez o termo objeto de aprendizagem para se referir aos componentes instrucionais intercambiáveis entre diferentes contextos de ensino e aprendizagem (SANTOS, 2013). Posteriormente, David A. Wiley II (2000) introduziu o conceito de conteúdo aberto, visando a promover o intercâmbio de objetos de aprendizagem de forma livre, sem amarras de licenças. A inspiração desse autor, lembra Santos (2013), veio da informática, especificamente do movimento do software livre e de código aberto, muito comum entre aqueles que trabalham com o desenvolvimento de sistemas computacionais. Esse setor também fortaleceu outras duas iniciativas, de 2001, relacionadas à educação aberta: a Creative Commons e o Consórcio OpenCourseWare. Conforme Santos (2013, p. 21), a Crative Commons permite que os detentores de direitos autorais escolham “de quais direitos desejam abrir mão, permitindo que usuários de conteúdos educacionais copiem, adaptem, traduzam e compartilhem recursos livremente”. Já o Consórcio OpenCourseWare “envolve diversas instituições de ensino em todo o mundo que se reuniram em um consórcio para fomentar o movimento REA por meio da produção de conteúdos e aconselhamento sobre políticas, promoção e pesquisa” (SANTOS, 2013, p. 21). A sigla e nomenclatura REA atualmente designa os saberes gerados pela comunidade de pesquisadores, cientistas, professores e autores que produ- zem conteúdos educacionais orientados a “princípios relacionados a práticas pedagógicas abertas, com enfoque em inclusão, acessibilidade, equidade Recursos educacionais abertos2 e ubiquidade” (FURNIEL; MENDONÇA; SILVA, 2020, p. 6). Por serem abertos, esses recursos são distribuídos para uso por meio de um tipo de licença de uso específico. Esse entendimento faz parte do próprio conceito de REA idealizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, 2011, p. 8), que os define como: [...] materiais ou objetos de aprendizagem, ensino, extensão e pesquisa em qualquer suporte ou mídia, de natureza eletrônica multimodal e de hipermediação (texto, som, imagem), que estão sob domínio público ou licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados, distribuídos, compartilhados ou adaptados por qualquer pessoa. Podem abranger cursos completos, partes de cursos, módulos, livros didáticos, artigos de pesquisa, vídeos, software e qualquer outra ferramenta, material ou técnica que possa apoiar o acesso ao conhecimento. Quatro ações, denominadas 4Rs, norteiam o entendimento sobre as pos- sibilidades didáticas dos REAs. São elas: 1. reutilizar, que consiste na autorização de uso do recurso de maneira integral ou alterada; 2. revisar, que significa liberdade total de revisão, incluindo as ações de adaptar, ajustar, modificar, atualizar, traduzir ou alterar; 3. remixar, ou seja, ter a liberdade de realizar combinações entre o mate- rial original e outros originais ou revisados para a criação de novos REAs; 4. redistribuir, que remete à liberdade de socializar o conhecimento por meio de cópias dos originais ou daquilo que foi revisado, reutilizado ou remixado. Os 4Rs são essenciais para a definição da relação dos REAs com as licenças de uso. De um lado, existem aqueles que defendem que um componente educacional só pode ser considerado verdadeiramente aberto se pressupõe os 4Rs. Outros, porém, não acreditam que isso seja totalmente adequado. Entre os primeiros, há o entendimento de que a licença aberta pressupõe que o material de ensino está disponibilizado de forma gratuita, com pouca ou nenhuma restrição (técnica ou legal) de direitos autorais, e que é livre para ser utilizado, adaptado e distribuído, conforme destaca Zanin (2017). Essa autora ainda argumenta que o pensamento dominante sobre os REAs é de que eles devem permitir outras formas de uso, outras produções, a partir do processo de compartilhamento, sem a necessidade de pedir permissão para utilizar o recurso ao autor ou à editora (desde que respeitados os termos da licença). Recursos educacionais abertos 3 Parte-se, então, do pressuposto de que há material de qualidade disponí- vel, que pode ser modificado, adaptado à realidade do usuário ou atualizado. Dessa forma, o conhecimento é expandido com economia de tempo e dinheiro. Economiza-se tempo porque os autores trabalham em comunidade e não precisam partir do zero, utilizando o que já está na web, e economiza-se dinheiro porque o material ou software, por exemplo, é de uso livre, de modo que não necessita ser pago/comprado para ser utilizado. Por outro lado, alguns estudiosos entendem que pode haver dois critérios obrigatórios para o uso dos recursos abertos. Um deles seria utilizá-los de acordo com o tipo de licença idealizada para o material por parte dos seus autores. Dessa forma, segundo Zanin (2017), quanto mais aberta for a licença, maior será a gama de possibilidades de uso do material e menores serão as limitações. Em segundo lugar, a utilização do objeto de aprendizagem implica o conhecimento das suas características, potencialidades e deficiências, de forma que seja aplicado de modo apropriado para atingir o(s) objetivo(s) de aprendizagem requerido(s). Nesse contexto, o art. 2º, §4º, da Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE)/Câmara de Educação Superior (CES) nº 01, de 11 de março de 2016, prevê que: As instituições de educação superior, bem como os órgãos e as entidades da Administração Pública direta e indireta, que financiem ou fomentem a educação superior a distância, devem assegurar a criação, a disponibilização, o uso e a gestão de tecnologias e recursos educacionais abertos, por meio de licenças livres, que facilitem o uso, a revisão, a tradução, a adaptação, a recombinação, a distribuiçãoe o compartilhamento gratuito pelo cidadão, resguardados os direitos autorais pertinentes (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2016, documento on-line). Por meio dessa previsão do Governo Federal, disposta no âmbito da Uni- versidade Aberta do Brasil (UAB), pode-se depreender não apenas o conceito de REA, mas também a intencionalidade do agente público em proporcionar a expansão das aplicações desse tipo de recurso. A aplicação dos REAs na EAD Há muita sincronia entre o movimento em prol da popularização dos REAs e a EAD. Segundo Santos (2009), os sistemas de educação aberta são idealizados a partir de um pensamento didático-pedagógico centrado no aluno. Portanto, os materiais são desenvolvidos com foco em quem estuda majoritariamente sozinho ou com baixa supervisão, algo característico da EAD, seja ela síncrona Recursos educacionais abertos4 ou assíncrona. Devido a isso, facilmente se encontra, nesses recursos, a pre- ocupação com o uso de uma linguagem contendo elementos motivacionais, que impulsionem o aluno em direção à persistência e à autonomia. Precedendo a precursora, realizada no Reino Unido, muitas experiências de educação aberta foram realizadas ao longo do tempo, criando e consoli- dando tendência para a área educacional. No Brasil, a UAB, criada em 2005, é a iniciativa mais popular e exitosa, segundo Mota, Chaves Filho e Cassiano (2006). Essa instituição de ensino superior, pública e gratuita, possibilitou que pessoas em regiões distantes das localidades centrais do país tivessem acesso a uma educação de qualidade, com a preocupação de dirimir problemas de acesso e permanência no sistema de ensino e aprendizagem. De fato, a criação dessa universidade vai ao encontro dos motivos que justificam o uso dos REAs na EaD. São eles (FURNIEL; MENDONÇA; SILVA, 2020): � facilitar o acesso de todos ao conhecimento; � fortalecer a democratização do acesso à educação; � incentivar práticas de colaboração, participação e compartilhamento; � reconhecer educadores e estudantes como autores; � reaproveitar o conhecimento que já existe e permitir que sejam ade- quados e adaptados a realidades locais; � facilitar o autoaprendizado dos estudantes; � garantir o melhor uso dos recursos públicos. É particularmente relevante o uso de REAs na EAD, pois, por meio deles, possibilita-se a expansão de novas possibilidades para proporcionar, aos alunos, o desenvolvimento das suas competências de maneira personalizada, contribuindo para minimizar a homogeneização das estratégias de ensino tradicionais. É importante, porém, que sejam criadas trilhas de aprendizado por meio de diferentes REAs, como vídeos, áudios, podcasts, textos, artigos, livros, infográficos, etc., incluindo elementos de inteligência e realidade virtual, inclusive. De acordo com Lévy (1999, p. 158): A EaD explora certas técnicas de ensino a distância, incluindo as hipermídias, as redes de comunicação interativas e todas as tecnologias intelectuais da cibercul- tura. Mas o essencial se encontra em um novo estilo de pedagogia, que favorece ao mesmo tempo as aprendizagens personalizadas e a aprendizagem coletiva em rede. Veja que, segundo Lévy (1999), a EAD e os REAs podem impulsionar a aprendizagem coletiva. Sob a perspectiva de que há a colaboração de todos os envolvidos nos processos educacionais de reutilizar, revisar, remixar e Recursos educacionais abertos 5 redistribuir os REAs, podem ser criadas experiências entre professores e alunos, entre diferentes professores e até mesmo entre os próprios alunos. Assim, esses atores alimentam uma cultura de construção coletiva do co- nhecimento, empoderando o ciclo de produção de novos REAs, que serão novamente utilizados e transformados por outros discentes e docentes. Há de se observar, no entanto, que há duas preocupações relevantes quando da adoção dos REAs na EAD. Uma diz respeito à disponibilização de objetos de aprendizagem, de modo que os docentes possam verificar se eles estão de acordo com os currículos que devem seguir ao estruturar o processo de ensino e aprendizagem. O acesso, porém, não basta. Deve-se fazer uma curadoria, no sentido de identificar não apenas a qualidade, mas, fundamentalmente, a pertinência dos REAs disponíveis. Para atender a primeira ressalva elencada, são encontradas diversas experiências brasileiras, com repositórios de conteúdo digital aberto. O Quadro 1 destaca algumas das mais relevantes em termos históricos e de quantidade de elementos disponibilizados. Quadro 1. Exemplos de experiências brasileiras com repositórios de con- teúdo digital aberto Nome URL Descrição Biblioteca Virtual dos Alunos Brasileiros http://www.labvirt.fe.usp.br/ Experiência pioneira de repositório de conteúdo digital no Brasil com REAs de física e química. Banco Internacional de Objetos Educacionais http://objetoseducacionais.mec. gov.br/#/inicio Recursos didáticos em vários formatos e para todos os níveis de ensino. Portal Domínio Público http://www.dominiopublico.gov.br/ Trabalhos literários, científicos e artísticos em formatos de texto, áudio, imagens e vídeos de domínio público. Portal do Professor http://portaldoprofessor.mec.gov. br/index.html Apoio aos processos de formação de professores e de enriquecimento das práticas pedagógicas. Fonte: Adaptado de Santos (2013). Recursos educacionais abertos6 Quanto às preocupações referentes à curadoria de objetos de aprendiza- gem, cabe ao docente identificar os itens que melhor atendem as intenciona- lidades dos currículos ofertados aos alunos. A partir dos objetivos da aula, o docente se direciona ao banco de conteúdos abertos mais apropriado e, por meio dele, pode-se orientar ao conjunto de questionamentos que Sebriam, Markun e Gonsales (2017) destacam para a realização da seleção de conteúdos: � O conteúdo do recurso está alinhado ao currículo? � É adequado à faixa etária dos meus alunos? � É intuitivo e responde aos objetivos propostos? � É de fácil acesso? � Promove engajamento e facilita o aprendizado? � Tem funcionalidades para inclusão e acessibilidade? � Tem um campo “envie sugestões de melhoria”? � Tem um rating para que o usuário avalie o recurso? � Tem um campo para que usuários possam compartilhar um remix do recurso? � Tem um botão que permita enviar por e-mail e/ou compartilhar nas redes sociais? Segundo Santos (2013), os REAs têm potencial para impactar as soluções de EAD na formação dos alunos no país. Para a autora, o “Brasil precisa explorar mais possibilidades de desenvolvimento das suas experiências atuais com REA e conteúdos digitais abertos” e, diante disso, impulsionar as políticas públicas de desenvolvimento de objetos de aprendizagem abertos (SANTOS, 2013, p. 78). Colaboração deve nortear a criação de REAs. Por meio dela, possi- bilita-se a inovação, necessária não apenas para a atualização de conteúdos, mas também para proporcionar experiências de ensino e aprendi- zagem cada vez mais adequadas às necessidades dos alunos e da sociedade. REA, colaboração e formação de currículo Aqueles que são devotos dos REAs acreditam que a colaboração é essencial para que os 4Rs sejam plenamente implantados. De fato, é essencial reutilizar, revisar, remixar e redistribuir os REAs com a interferência crítica de novos Recursos educacionais abertos 7 personagens que orbitam o mundo educacional, sejam eles pesquisadores, alunos ou os próprios professores. Um importante ponto de atenção, porém, é não deixar o currículo como elemento secundário, pois é a partir dele que devem ser escolhidos e trabalhados os REAs. A escolha de recursos para cumprir o currículo elaborado segue um padrão já conhecido. Os responsáveis percorrem livros didáticos, plataformas educa- cionais, espaços cibernéticos de disponibilização de vídeos e áudios, bem como fotos e tantos outros disponíveis. A potencialidade dos REAs reside no fato de que, por se tratar de conteúdos abertos, é permitido realizar as alteraçõesnecessárias, aproximando, da intencionalidade do docente nas suas atividades didáticas, a devida contextualização. Um exemplo do impacto dos REAs na melhoria do nível educacional é fornecido por Educação Aberta (2013, p. 1): Os REAs não resolvem todos os problemas, mas abrem novos caminhos. Livros podem ser colocados na internet para que possam ser baixados por professores e alunos para consulta, impressão ou modificação. Caso algum aluno perca seu livro, autores podem permitir que este seja reposto sem que seja necessário pedir permissão ou que se pague novamente. Além disso, versões mais atualizadas dos recursos didáticos podem ser disponibilizadas, o que evita que alunos tenham acesso a informações desatualizadas. Imagine que algumas poucas páginas de um livro didático contenham informações desatualizadas. Com REA, essas pou- cas páginas poderiam ser impressas por cada aluno ou professor, atualizando o livro, sem que seja necessário comprar uma nova edição do livro. Os REAs não apresentam vantagens somente para atividades em sala de aula. Também podem contribuir para que professores possam repensar sua prática, atualizar conceitos e trocar experiências. Quando se pensa nos REAs, a ideia fundamental é que o ambiente seja, como o próprio nome orienta, aberto a discussões que levem ao aprimo- ramento constante. Para que isso seja possível, a Unesco (2011) apresenta algumas orientações a serem observadas, notadamente pelos docentes, mas sem excluir os demais agentes do processo. Veja-as a seguir. � Desenvolver habilidades para avaliar os REAs visando a conhecer os repositórios disponíveis, avaliá-los e selecionar REAs a fim de integrar os materiais e as práticas didáticas. � Compartilhar os REAs elaborados nas plataformas de distribuição, ou seja, disponibilizar, em repositórios, os planejamentos e as atividades didáticas, que serão, assim, submetidos as revisões de terceiros, pro- piciando a colaboração com colegas. Recursos educacionais abertos8 � Guiar-se pelas diferentes necessidades de aprendizagem dos alunos para adaptar os REAs disponibilizados às necessidades identificadas, de modo a contextualizá-los às estratégias metodológicas e aos ob- jetivos específicos. � Cooperar com os demais docentes por meio de equipes de trabalho e, quando possível, de apoio institucional e/ou de redes e comunidades de aprendizagem. � Criar sistemáticas pelas quais os alunos possam avaliar os REAs e sugerir novos objetos de aprendizagem para a complementação ou para novos saberes. � Tornar público, em plataformas de distribuição de conteúdos abertos, as atividades desenvolvidas, visando a possibilitar a colaboração de terceiros e, assim, a socializar o conhecimento, obtendo críticas construtivas sobre o material produzido. � Participar ativamente na elaboração de comentários sobre os resul- tados obtidos quando da utilização das REAs existentes, com vistas a criar uma curadoria coletiva de conteúdo. � Preocupar-se em respeitar as diferentes licenças de direitos de pro- priedade intelectual, de modo a estabelecer um sistema de confiança coletiva e de fidedignidade a quem se dedica a produzir e a transformar os REAs. É importante recordar, ainda, que não somente os docentes podem ser os líderes desse processo. Os docentes podem contar com o apoio dos próprios alunos, de forma que estes trabalhem no sentido de adequar os recursos disponibilizados aos seus contextos pessoais, mediante questionamento, ideação e interpretação, de acordo com a sua base de conhecimento. Também é importante envolver o apoio discente visando a avaliar o con- teúdo. Muitos recursos disponíveis gratuitamente na internet podem ser de excelente qualidade, enquanto outros são de qualidade questionável. Saber, então, aqueles que os alunos consideram mais pertinentes é essencial. Porém, nem sempre os alunos têm o conhecimento adequado para fazer essa ava- liação. Assim, é melhor sempre recorrer a REAs dispostos em bases públicas, reconhecidamente produzidas por comunidades patrocinadas e integradas por universidades, profissionais das secretarias da educação, professores, cientistas, estudantes e autores referenciais. Recursos educacionais abertos 9 Uma dica relevante é escolher recursos de plataformas que disponibi- lizam sistemas de classificação orientados a categorizações inerentes aos diferentes recursos disponíveis, como a indicação de nível apropriado, o enquadramento conforme as diretrizes curriculares, etc., como, obviamente, a quais ciências é indicado. Nos últimos tempos, tem se popularizado, no país, a chamada cultura maker (em uma tradução literal, “criador”), que intensificou a criação de ambientes colaborativos para a produção de conteúdo. Conforme Moura (2019, p. 40): Os makers, como são majoritariamente conhecidos, tornam-se então aqueles que, amadores ou profissionais, atuam em diferentes áreas ligadas à ciência e à tecnologia, que se organizam com o objetivo de suportar mutuamente o desen- volvimento dos projetos uns dos outros. Para isso, estes sujeitos utilizam, além da própria experiência e conhecimentos, os planos de construção compartilhados por outros makers, tornados públicos via internet em sites ou vídeos, explicando passo a passo quase tudo o que se possa imaginar, impulsionando essa cultura. Pela descrição dos integrantes do movimento maker, encontra-se forte similaridade entre ele e a ideia da produção de REAs. Em 2013, Mark Hatch, um dos precursores no assunto, proclamou os nove princípios do “Manifesto do movimento maker”, conforme disposto no Quadro 2, que deixam ainda mais evidente essa similaridade. Quadro 2. Princípios do “Manifesto do movimento maker”, de Mark Hatch Princípios Descrição Faça (make) Fazer é fundamental para o que significa ser humano. Temos que fazer, criar e expressar para nos sentirmos inteiros. Tem algo único em fazer coisas. Essas coisas se tornam pequenas partes de nós mesmos e parecem incorporar amostras das nossas almas. Compartilhe (share) Compartilhar o que você fez e o que você sabe sobre fazer com os outros é a forma de alcançar o sentimento de totalidade. Você não pode fazer e não compartilhar. Presenteie (give) Há poucas coisas mais altruístas e satisfatórias do que dar algo que você fez. O ato de fazer coloca um pequeno pedaço de você no objeto. Dar isso a outra pessoa é como presentear alguém com um pequeno pedaço de si mesmo. (Continua) Recursos educacionais abertos10 Princípios Descrição Aprenda (learn) Você deve aprender a fazer. Deve sempre procurar aprender mais sobre a sua criação. Você pode se tornar um expert, mas ainda aprenderá, desejará aprender e se esforçará para buscar novas técnicas, materiais e processos. Construir um caminho de aprendizagem ao longo da vida garante uma vida rica e recompensadora. Mais importante, permite compartilhar. Então queira aprender, mesmo se você já for especialista ou muito experiente. Equipe-se (tool up) Você deve ter acesso às ferramentas para cada projeto. Invista e desenvolva o acesso local às ferramentas necessárias para fazer o que você deseja fazer. As ferramentas de fabricação nunca foram mais baratas, fáceis de usar ou mais poderosas. Divirta-se (play) Veja o seu projeto também como algo divertido. Divirta-se com o que você está fazendo e você ficará surpreso, animado e orgulhoso do que descobrir. Participe (participate) Junte-se ao movimento e alcance as pessoas ao seu redor que estão descobrindo a alegria de fazer. Participe e realize seminários, eventos, feiras, exposições, aulas ou outras atividades com adeptos do movimento. Apoie (support) Todo projeto precisa de apoio emocional, intelectual, financeiro, político e institucional. Contribua para um mundo melhor. Mude (change) Abrace a mudança que ocorrerá naturalmente enquanto você passa pela jornada de se tornar maker/criador; portanto, aceite-a. Isso vai deixar você mais conectado as coisas que faz. Fonte: Adaptadode Moura (2019). A análise dos princípios do “Manifesto do movimento maker” mostra que essa comunidade é um ambiente seguro para que os desenvolvedores de REAs encontrem abrigo. Os professores entusiastas da visão democrática da elaboração de conteúdos precisam, porém, desenvolver algumas com- petências específicas. Segundo Moura (2019), há similaridades entre o conjunto de conhecimen- tos, habilidades e atitudes inerentes aos makers e aquele intrínseco pelos defensores dos REAs. São elas: 1. ensinar aprendendo e aprender fazendo, bancando a rigorosidade metódica na construção do conhecimento e envolta em um contexto problematizador real e significativo; (Continuação) Recursos educacionais abertos 11 2. letrar-se em tecnologia, humanizando-a como material de construção de conhecimento e fomentando-a como direito do educando; 3. planejar o Tempo, permitindo a segurança, o encantamento, a motiva- ção, o erro, a mudança, a autonomia e o pensamento crítico-reflexivo; 4. relacionar-se dialogicamente na liberdade, na autoridade e no respeito, valorizando o conhecimento do outro e compartilhando com parcerias; 5. formar-se permanentemente em um projeto reflexivo e progressista de amorosidade e de compromisso em transformar realidades, formando e valorizando sujeitos críticos e sonhadores. Claramente, vê-se que os professores que incorporarem a visão maker no ensino e, por meio dela, colaborarem com os seus pares e os demais agentes da educação para o desenvolvimento de REAs desenvolverão habilidades essenciais ao mundo educacional da contemporaneidade. O ambiente que circunda as realidades sociais, tecnológicas e econômicas é dominando por colaboração, compartilhamento, generosidade e coletividade, o que resulta em uma educação melhor, desejo de todos. Referências CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Resolução nº 1, de 11 de março de 2016. Estabe- lece diretrizes e normas nacionais para a oferta de programas e cursos de educação superior na modalidade a distância. Brasília, DF: CNE, 2016. Disponível em: https:// www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/21393466/do1- 2016-03-14-resolucao-n-1-de-11-de-marco-de-2016-21393306. Acesso em: 8 jul. 2022. EDUCAÇÃO ABERTA. Recursos Educacionais Abertos (REA): um caderno para professores. Campinas: Educação Aberta, 2013. E-book. Disponível em: http://educacaoaberta.org/ cadernorea. Acesso em: 2 ago. 2022. FURNIEL, A. C. M.; MENDONÇA, A. P. B.; SILVA, R. M. Recursos educacionais abertos: conceitos e princípios. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2020. LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: 34, 1999. MOTA, R.; CHAVES FILHO, H.; CASSIANO, W. S. Universidade aberta do Brasil: democra- tização do acesso à educação superior pela rede púbica de educação a distância. In: BRASIL. Ministério da Educação. Desafios da educação a distância na formação de professores. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2006. p. 13-26. MOURA, É. M. Formação docente e educação maker: o desafio do desenvolvimento das competências. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019. SANTOS, A. I. O conceito de abertura em EAD. In: LITTO, F. M.; FORMIGA, M. M. M. (org.). Educação a distância: o estado da arte. São Paulo: Pearson, 2009. p. 290-296. SANTOS, A. I. 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Leitura recomendada FURTADO, D.; AMIEL, T. Guia de bolso da Educação Aberta. Brasília, DF: Iniciativa Edu- cação Aberta, 2019. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Recursos educacionais abertos 13