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Desafios_e_possibilidades_na_apropriacao (1)

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Texto publicado originalmente na coletânea Culturas Políticas na História: novos 
estudos, lançado pela editora Argumentum em 2009. 
 
 
Desafios e possibilidades na apropriação de cultura política pela historiografia 
 
Rodrigo Patto Sá Motta 
 
Este texto é baseado em reflexões acumuladas nos últimos dez anos, beneficiadas 
por cursos ministrados na pós-graduação em História na UFMG que suscitaram questões 
e debates estimulantes. Um dos objetivos, ao escrevê-lo, é precisamente oferecer aos 
estudantes uma porta de entrada a esse universo conceitual por vezes espinhoso. 
O interesse por cultura política começou por volta de 1995, quando buscava 
estabelecer um quadro conceitual para estruturar minha tese de doutorado. Vinha de 
pesquisas sobre história política em vertente mais “clássica” e desejava renovar 
horizontes, sob influência das novas correntes historiográficas. Publiquei, em 1996, um 
texto contendo as primeiras reflexões sobre o tema, lançando mão da literatura que pude 
encontrar. O texto (Motta, 1996)1 hoje me parece ingênuo, mas então havia poucos 
trabalhos sobre cultura política na historiografia, sobretudo no Brasil, de modo que não 
havia bases sólidas para apoio. Desconhecia que, pelos menos desde 1992, um grupo de 
historiadores franceses estava empenhado na apropriação do conceito. Autores como 
Serge Berstein e Jean-François Sirinelli vinham fazendo uso da categoria para estudar a 
história política francesa, em textos que são hoje bastante conhecidos e servem de base 
para a maioria das reflexões dos historiadores brasileiros engajados no debate. 
A força de atração exercida por cultura política em anos recentes deve-se, 
principalmente, à hegemonia do paradigma culturalista. Em outros momentos a política, 
a economia ou fatores sociológicos assumiram o papel de explicação última para os 
processos históricos, mas hoje a cultura ocupa esse lugar. Nos dias atuais é muito 
influente a percepção de que a cultura determina o desenrolar dos acontecimentos, da 
mesma forma como décadas atrás se pensava que a economia ou os interesses sociais 
ofereciam a chave para compreender a dinâmica da história. Em se tratando do paradigma 
 
1 Contribuições significativas ao debate teórico sobre cultura política têm sido publicadas por historiadores 
e cientistas sociais brasileiros: Gomes (2005); Dutra (2001); Kuschnir e Carneiro (1999); Krischke (1997); 
e Rennó (1998). 
culturalista, o mais preciso não é falar em dinâmica, ou movimento da história, e sim em 
permanências e mudanças lentas. Como tudo tem sido explicado pela influência dos 
fatores culturais, a política não poderia ser exceção, daí o caráter sedutor de cultura 
política, que permite uma abordagem culturalista dos fenômenos relacionados às disputas 
pelo poder. 
 O número de interessados por cultura política aumentou muito nos últimos anos e 
transbordou os estreitos limites do universo acadêmico. O conceito tem sido cada vez 
mais utilizado pela mídia e, num sinal da força crescente de seu apelo, tem sido 
mobilizado até por políticos profissionais e organizações sociais. Daí outra motivação 
para escrever este texto: a percepção de que cultura política corre o risco de banalização, 
graças ao uso generalizado. Tornou-se conceito da moda. Há muitos incentivos para usá-
lo, sobretudo o desejo de mostrar-se atualizado, mas nem sempre há preocupação com 
rigor e clareza na sua utilização. Muitas vezes, a categoria tem servido apenas de rótulo 
novo para conteúdo antigo, como estratégia para alcançar melhor inserção no mercado 
acadêmico ou na mídia. Assim, a expressão é mobilizada – e quase sempre sem a 
preocupação de definir seu significado – em situações em que o mais adequado seria usar 
termos como ideias políticas, discursos políticos ou hábitos políticos. Em outros casos, 
igualmente inapropriadamente, fala-se em cultura política de épocas, às vezes até de 
períodos de tempo mais precisos, como décadas (“a cultura política da década de 
1920...”). 
Não se trata de almejar, arrogantemente, o papel de censor dos conceitos ou 
guardião da pureza dos significados. A preocupação tem base na convicção de que para 
haver inteligibilidade na discussão acadêmica são necessários clareza e algum rigor no 
uso de conceitos e categorias. Se cada um usar os conceitos como bem lhe aprouver, os 
debates tomarão feições babélicas, com cada interlocutor usando linguagem diferente e 
ninguém se entendendo. Os conceitos são quase sempre polissêmicos, sobretudo nas 
ciências humanas e sociais, portanto é normal admitir a existência de mais de um 
significado aceitável para a mesma expressão. Entretanto, há concepções mais 
consistentes e precisas, enquanto existem usos inadequados e/ou confusos. 
 Em que pese a sugestão de cautela no uso do conceito, não há dúvida que cultura 
política envolve um campo conceitual muito fértil, com possibilidades instigantes de 
alargar nossos horizontes de conhecimento e compreensão. Por isso, a exposição se 
centrará na discussão dos aspectos problemáticos do uso de cultura política, mas também 
nas potencialidades que ele oferece. Antes, porém, serão necessárias breves referências 
às origens do conceito, para situar a discussão e esclarecer a maneira como ele será 
apropriado neste texto. 
 
* * * * * 
 
A categoria cultura política foi construída no século XX, mas seus formuladores 
retiraram inspiração de autores que escreveram em períodos anteriores. Um deles foi 
Alexis de Tocqueville, no livro A Democracia na América, de 1835. Nesse trabalho, hoje 
um clássico, o pensador francês desenvolveu a ideia de que a força da organização política 
dos norte-americanos derivava não somente das instituições, mas tinha relação com os 
hábitos e costumes daquele povo, o que ele chamou “hábitos do coração” (Formisano, 
2001:393-426). Tal insight seria aproveitado e desenvolvido por cientistas sociais do 
século XX, responsáveis por elaborar o argumento de que o funcionamento dos sistemas 
políticos dependeria de fatores culturais. Valeria a pena, também, na busca por 
precursores, investigar a eventual contribuição da historiografia e filosofia alemãs do 
século XIX, que desenvolveram o conceito Kultur. Como entendiam que cada povo tinha 
sua própria Kultur e que alguns eram culturalmente superiores, seria razoável supor que 
esse pensamento implicasse a existência de uma cultura política correlata. Mas para 
verificar tal hipótese seria necessário empreender outras pesquisas, fugindo ao escopo 
deste trabalho. 
Em seus usos iniciais, o conceito implicava certa hierarquização, a compreensão 
de que alguns povos possuem cultura política, são mais avançados, enquanto outros ainda 
não a tem, ou apenas em forma inferior e incompleta. No último caso, pairava o suposto 
de que nos casos de ausência era necessário desenvolver a cultura política, inculcá-la nos 
povos e sociedades ignaros. Encontramos o uso da expressão cultura política no Brasil 
antes de ter se tornado conceito das ciências sociais, provavelmente na acepção 
apresentada há pouco. Parece-me ser este o sentido do termo cultura política que figurava 
no título da conhecida revista do Estado Novo2: constituir uma cultura política para uma 
nação considerada em estágio infantil, incapaz de autogoverno. Desejava-se, talvez, forjar 
uma cultura política para um povo inculto, cultivá-la. Curiosamente, após o fim do Estado 
Novo e o fechamento da revista Cultura Política, o Partido Comunista apropriou-se do 
termo ao adotá-lo como subtítulo de sua mais importante publicação teórica: Problemas 
 
2 Cultura Política circulou entre 1941 e 1945. Cf. Gomes (1996). 
– Revista Mensal de Cultura Política, que circulou entre 1947 e meados dos anos de 1950. 
Provavelmente, os intelectuais do PCB usaram o termo para expressar a intenção de atuar 
na formaçãoe disseminação de valores políticos comunistas. 
 O conceito cultura política ganhou estatuto acadêmico e as primeiras reflexões 
sistemáticas nos anos de 1950 e 1960, em meio ao debate das ciências sociais norte-
americanas. A motivação dos autores a discutir o tema era compreender melhor a origem 
dos sistemas políticos democráticos, partindo da percepção da insuficiência dos 
paradigmas iluministas que viam o homem como ator político racional. Questionando a 
fragilidade das explicações tradicionais, alguns cientistas sociais começaram a formular 
a hipótese de que democracias estáveis demandavam cidadãos com valores e atitudes 
políticas internalizadas, ou seja, a presença de uma cultura política. 
Outro motivador para tais estudos era a preocupação de fortalecer o campo 
“democrático” num contexto de disputa com o bloco socialista, o que levou à criação de 
modelos de desenvolvimento aplicáveis em escala global, sob influência das teorias de 
modernização em voga nos Estados Unidos no período pós-Segunda Guerra. Ponto de 
partida: a concepção de que as sociedades ocidentais, sobretudo os EUA, eram 
democracias sólidas e estáveis, ficando implícita a superioridade de seu modelo em vista 
das outras opções disponíveis. Como decorrência, tais democracias eram exemplos a 
serem seguidos pelos povos ainda não bafejados pela sorte ou virtude, tratando-se de 
encontrar explicações para a origem das diferenças e elaborar roteiros seguros para que 
todos chegassem lá. 
Nesse campo, ficaram célebres os trabalhos de Gabriel Almond e Sidney Verba, 
principalmente no livro The Civic Culture.3 Influenciados pelas pesquisas da 
antropologia, mas principalmente da psicologia,4 eles entendiam que a compreensão das 
ações políticas demandava enfoque capaz de entender a influência de valores, sentimentos 
e tradições. Criaram uma complexa tipologia para enquadrar as diferentes formas de 
cultura política, culminando num esquema que as resumia a três tipos básicos: cultura 
política paroquial, cultura política da sujeição e cultura política participativa. A última, 
naturalmente, correspondia ao estágio superior e à meta a ser alcançada pelos povos 
 
3 O título completo é The Civic Culture. Political attitudes and democracy in five nations (1963). 
4 A definição que usam para cultura enfatiza a dimensão psicológica: “Aqui devemos salientar que 
empregamos o conceito de cultura de acordo em apenas um de seus muitos significados: o de orientação 
psicológica frente aos objetos sociais” (Here we can only stress that we employ the concept of culture in 
only one of its many meanings: that of psychological orientation toward social objects. Almond e Verba, 
1963:13). 
atrasados na corrida para a democracia, e quando em combinação com estruturas políticas 
democráticas dava origem à cultura cívica. 
O esquema teórico proposto pela dupla não era tão simplório como muitas vezes 
se pensa, pois eles apontavam a complexidade do fenômeno5 e a presença de situações 
híbridas, sociedades em que vigoravam simultaneamente dois ou mesmo os três tipos de 
cultura política. Exatamente por isso, propuseram o termo subcultura política, para 
enquadrar casos em que mais de uma cultura política convivia no mesmo espaço. Não é 
possível alongar-me na explicação do modelo de Almond e Verba, mas importa enfatizar 
que cultura política é pensada em termos de espaço nacional (alemão, italiano, inglês 
etc.), com óbvias implicações etnocêntricas. Desde então se iniciou um debate acirrado 
nas ciências sociais, ainda inconcluso, sobre o real potencial explicativo de cultura 
política, que tem gerado contendas aguerridas entre entusiastas e céticos (Formisano, 
2001). 
Como foi comum ao longo do século XX, os historiadores se apropriaram de mais 
essa construção teórica das ciências sociais. Dado que cultura política teve seu primeiro 
desenvolvimento acadêmico nos Estados Unidos, não é de espantar que historiadores 
desse país estivessem entre os primeiros a fazer uso da categoria. Um dos pioneiros foi 
Bernard Bailyn, em seu livro As origens ideológicas da Revolução Americana, publicado 
originalmente em 1967, que em referência ligeira menciona a influência de uma cultura 
política anglo-americana sobre os colonos que se rebelaram e construíram a nova nação.6 
Entretanto, em que pese a existência de casos como o de Bailyn, durante o período 
de implantação de cultura política nas ciências sociais o grosso da corporação dos 
historiadores demonstrou pouco interesse pela categoria. Na fase compreendida entre os 
anos 1950 e 1970, a historiografia mais dinâmica estava pouco interessada em estudar os 
fenômenos políticos. Nessa época exerciam maior força de atração pesquisas 
privilegiando processos econômicos e sociais, e as possibilidades de renovar a história 
política a partir do uso do novo conceito foram pouco aproveitadas. 
 
5 Tampouco achavam que se tratava de questão simples a exportação do modelo democrático para as regiões 
periféricas ao mundo ocidental. Recomendavam aos países em atraso investir na modernização industrial e 
no desenvolvimento da educação, pois tais processos ajudariam na formação da cultura cívica. Porém, 
advertiam, não havia como garantir resultados positivos, pois a verdadeira cultura política democrática 
demandaria tempo para ter consolidados seus valores básicos (pluralismo, tolerância, moderação, confiança 
nas instituições entre outros). 
6 Segundo Bailyn (2003:143), a convicção dos revolucionários de que estavam frente a uma conspiração 
para destruir a liberdade tinha raízes “laboriosamente fincadas na cultura política anglo-norte-americana”. 
 O conceito passou a ser efetivamente apropriado pelos historiadores, sobretudo os 
franceses, a partir do chamado (talvez mal chamado) retorno da(o) política(o), nos anos 
1980 e 1990. A ideia de retorno da política pode ser mistificadora, pois diz respeito mais 
à historiografia francesa que à de outros países. Porém, dada a grande influência dos 
franceses sobre a história praticada no Brasil, a ênfase nas tendências historiográficas 
daquele país é justificada. O fato é que estudos dedicados a fenômenos históricos de 
natureza política têm se avolumado, e cultura política muitas vezes tem ocupado papel 
chave na renovação das abordagens. No período recente, aliás, notam-se movimentos 
convergentes de várias disciplinas, cada vez mais interessadas pelos encontros e 
influências mútuas entre cultura e política. Além da própria história política: história das 
ideias, história do livro e da leitura, história cultural, antropologia7 e ciência política, para 
ficar apenas em alguns exemplos. 
 Como já foi dito, na historiografia francesa aparecem no início dos anos 1990 
algumas reflexões que lançam mão de cultura política, principalmente trabalhos de S. 
Berstein e J.F. Sirinelli. É importante mencionar que esses historiadores são externos ao 
movimento dos Annalles, que tradicionalmente foi pouco receptivo à história política. 
Berstein e Sirinelli pertencem a grupo que se desenvolveu à margem da influência 
dominante dos Annalles sobre a historiografia francesa, trabalhando em instituições como 
a Fondation Nationale des Sciences Politiques (e o Instituto de Estudos Políticos de Paris) 
e sob a liderança informal de René Rémond. Rémond, por sinal, organizou uma coletânea 
que é verdadeiro manifesto do retorno da política, Por uma História Política (Rémond, 
1996), tendo entre seus colaboradores justamente Sirinelli e Berstein. Um dos propósitos 
desse livro, é factível conjecturar, era marcar posição num momento em que a história 
política voltava a posição de destaque na historiografia francesa. Praticantes da história 
política numa fase em que ela estava desprestigiada e fora de moda, Rémond e seu grupo 
desejavam ocupar lugar proeminente na hora do “retorno”. Nada mais justo.A coletânea Por uma História Política, publicada originalmente em 1988, é 
referência importante para compreender os caminhos trilhados pela “nova” história 
política, e também para situar os estudos de cultura política nesse processo. O propósito 
do livro, para além da já mencionada intenção de marcar posição, era mapear os novos 
estudos que vinham sendo feitos na área, mostrando as possibilidades disponíveis aos 
interessados. Há textos sobre eleições, partidos, intelectuais, mídia, guerra, biografia, 
 
7 Para um balanço sobre as maneiras como a Antropologia tem pesquisado a política, inclusive a cultura 
política, ver Kuschnir (2007). 
entre outros, em que se enfatiza o uso de fontes e abordagens inovadoras. Porém, e 
significativamente, entre os textos do livro não há um capítulo para cultura política. O 
conceito não está ausente do trabalho, mas aparece apenas em referências breves, 
principalmente na introdução e na conclusão do livro, ambas escritas por Rémond.8 Ele 
prenuncia que cultura política, conceito novo, tendia a ocupar lugar de destaque em 
futuros trabalhos, e apresenta uma definição da categoria mais próxima de modelos 
tradicionais, associando-a à configuração nacional (“ethos de uma nação”, “gênio de um 
povo”).9 
 Alguns historiadores do grupo seguiram por essa senda e desenvolveram o 
conceito, mas o fizeram a partir de diversa apropriação de cultura política. É certo que 
esses autores tiveram como ponto de partida a contribuição norte-americana,10 mas ao 
contrário dos cientistas sociais dos EUA – muito influenciados pela sociologia e a 
psicologia – o grupo francês tem sua maior fonte de inspiração na antropologia, de cujo 
conceito de cultura se apropriaram. Eles formularam outra forma de conceber cultura 
política, tomando por base duas críticas principais ao modelo original norte-americano: 
primeiro, rejeitaram suas implicações etnocêntricas, pois ficava implícita na teorização 
de Almond e Verba a superioridade da cultura política cívica (ou democrática), 
considerada etapa superior e referência a ser seguida pelos povos ainda presos a formas 
“atrasadas” de organização política; segundo, entendiam ser inadequada a perspectiva 
nacional, tida como excessivamente generalista ao atribuir a todo um povo as 
características de uma mesma cultura política.11 
Ao contrário, os historiadores franceses preferem enfatizar as diferenças 
existentes dentro de um mesmo espaço nacional, a partir de um olhar que privilegia a 
 
8 No capítulo que escreveu para a coletânea, dedicado aos partidos políticos, Serge Berstein também 
mencionou rapidamente cultura política. Porém, em postura contrastante com o posterior investimento e 
importância que conferiria ao conceito, aqui Berstein entende cultura política como fenômeno integrante 
da ideologia. 
9 Eis as passagens do texto, na íntegra: “Enfim, a noção de cultura política, que está prestes a ocupar, na 
reflexão e explicação dos fenômenos políticos, um lugar proporcional ao vazio que ela acaba de preencher, 
implica continuidade na longuíssima duração”; e “O que se chama às vezes de cultura política, e que resume 
a singularidade do comportamento de um povo, não é um elemento entre outros da paisagem política; é um 
poderoso revelador do ethos de uma nação e do gênio de um povo” (Rémond, 1996:35e 450). 
10 Vale a pena investigar melhor os meios de transmissão que permitiram essa apropriação. Uma dessas 
vias pode ter sido o livro da historiadora norte-americana Lynn Hunt, de 1984, notável estudo sobre a 
Revolução Francesa e que encontrou boa acolhida na França. Uma das categorias de análise utilizadas por 
Hunt foi exatamente cultura política. 
11 Esse argumento crítico não é inteiramente justo, pois, como vimos, Almond e Verba entendiam que em 
muitos países prevalecia uma mescla entre as 3 culturas políticas. Creio que, nesse ponto, a crítica de 
Berstein visa a um tema secundário, deixando de atacar o ponto principal: o esquematismo da tríade 
proposta pela dupla de cientistas sociais norte-americanos, que pretende resumir toda a gama do fenômeno 
das culturas políticas a apenas três formas essenciais. 
“pluralidade das culturas políticas” (Berstein,1988:354). Assim, ao invés de procurar por 
uma cultura política específica de cada povo, ou tentar enquadrar as diversas experiências 
nacionais na tipologia de Almond e Verba (cultura paroquial, cultura da sujeição ou 
cultura participativa), os trabalhos inspirados em Berstein e Sirinelli buscam identificar 
as diferentes culturas políticas que integram e disputam um mesmo espaço nacional. 
Dessa forma, privilegia-se o estudo das culturas políticas comunista, socialista, liberal, 
conservadora (tradicionalista), republicana, entre outras, que Berstein chama de famílias 
políticas. Aliás, não fica clara a distinção estabelecida por esse autor entre cultura política 
e família política, que parecem representar o mesmo fenômeno. Não obstante enfatize a 
necessidade de tratar as culturas políticas sempre no plural, Berstein admite, em 
determinados contextos, a predominância de algumas delas, como a cultura republicana 
na França dos anos iniciais do século XX. 
O investimento que tais autores têm feito nessa vertente “pluralista” do conceito 
guarda estreitas relações com a história política francesa. Esse país foi marcado por 
grandes controvérsias e momentos de polarização aguda, opondo, por exemplo, em 
diferentes momentos, monarquia versus república, e socialismo versus liberalismo. Num 
quadro de disputas acirradas, em que não há consensos políticos básicos e os grupos se 
engalfinham em torno de projetos mutuamente excludentes, fica difícil imaginar a 
existência de referências políticas coletivas, aceitas sem contestação por todos ou mesmo 
pela maioria. 
Na conclusão de um de seus trabalhos mais recentes, a coletânea Cultures 
politiques en France, Berstein adotou posição mais nuançada sobre o tema, partindo da 
constatação de que a exceção francesa já não existiria mais (Berstein,1999:396). A França 
estaria vendo o fim da característica que a distinguia dos outros países centrais: o fato de 
ser dividida e conflagrada por culturas políticas rivais. Nos albores do século XXI, o país 
caminharia para um quadro de virtual consenso básico em torno dos valores liberal-
democráticos, de modo que deixava de ser exceção e se aproximava do modelo de cultura 
política dos outros países desenvolvidos. Nesse texto, Berstein deixa entrever uma 
oposição menos rígida em relação à conceituação ao estilo norte-americano; ao falar num 
processo de aproximação entre as culturas políticas na direção de consensos nacionais, e 
ao chamá-las de subculturas, implicitamente está sendo admitida a existência de uma 
cultura política nacional. Penso que não há razão para opor os dois modos de aplicar o 
conceito, quer dizer, a versão no singular (cultura política nacional) e a versão no plural 
(culturas políticas disputando e tentando ocupar o mesmo espaço). A discussão será 
retomada adiante, mas por ora diria que as duas maneiras são válidas e, mais ainda, em 
alguns casos chegam a ser complementares. 
Partindo do que já foi dito até aqui é possível, além de necessário, construir uma 
conceituação para cultura política. A proposição é polêmica e, inevitavelmente, não vai 
agradar a todos os interessados, mas vale a pena correr o risco na tentativa de aprofundar 
o debate. Uma definição adequada para cultura política, evidentemente influenciada pelos 
autores já mencionados, poderia ser: conjunto de valores, tradições, práticas e 
representações políticas partilhado por determinado grupo humano, que expressa uma 
identidade coletiva e fornece leituras comuns do passado, assim como fornece inspiração 
para projetos políticos direcionados ao futuro. 
Importa realçar que a categoria representações está sendo entendida nosentido de 
“re-apresentar uma presença (sensorial, perceptiva) ou fazer presente alguma coisa 
ausente, isto é, re-apresentar como presente algo que não é diretamente dado aos sentidos” 
(Falcon, 2000:46).12 Dessa maneira, com base em enfoque de sentido amplo, 
representações configuram um conjunto que inclui ideologia, linguagem, memória, 
imaginário e iconografia, e mobilizam, portanto, mitos, símbolos, discursos, vocabulários 
e uma rica cultura visual (cartazes, emblemas, caricaturas, cinema, fotografia, bandeiras 
etc.). 
O trabalho com tal tipo de conceituação traz uma série de questões e implicações, 
e sugere algumas reflexões que passo a abordar de maneira mais pormenorizada: 
 
* As variadas formas de manifestação das culturas políticas podem ser mais bem 
observadas em dimensão comparativa. É colocando em contraste culturas políticas 
diversas que melhor visualizamos suas características e peculiaridades, que ficam mais 
visíveis quando comparadas com o diferente, o outro. Assim, por exemplo, a tendência 
de um grupo a resolver de maneira conciliatória e pragmática seus conflitos é mais bem 
compreendida quando se observa o comportamento diverso de outros diante de situações 
semelhantes, em que não são possíveis soluções negociadas e as disputas são resolvidas 
à base do confronto. Porém, admitir a importância do comparativismo não implica aceitar 
o olhar que hierarquiza as culturas políticas e tenta enquadrá-las em chave evolucionista. 
Na acepção usada aqui, cultura política só pode existir na duração, como 
fenômeno estruturado e reproduzido ao longo do tempo. Se formos usar a tipologia de 
 
12 Na maneira como a categoria representações é apropriada aqui, contemplam-se tanto questões referentes 
à cognição quanto à imaginação. 
Fernand Braudel, para configurar uma cultura política seria preciso pelo menos a média 
duração, não obstante alguns casos possam ser classificados como de longa duração (a 
exemplo de republicanismo, liberalismo e socialismo). Parece inadequado usar cultura 
política tendo como referência situações efêmeras, passageiras, pois se perde a força do 
conceito, que reside exatamente em revelar como certos comportamentos políticos são 
influenciados por elementos arraigados na cultura de um grupo. O valor explicativo do 
conceito reside em mostrar como as ações políticas podem ser determinadas por crenças, 
mitos, ou pela força da tradição. Por isso, não há lugar para o efêmero. 
* As diferentes culturas políticas não devem ser encaradas como realidades 
estanques, como se estivessem encerradas em si mesmas e imunes ao contato com as 
outras, concorrentes na disputa pelo espaço público e pelo controle do Estado. Embora 
sejam adversárias, e com frequência possuam características antitéticas, às vezes elas se 
deixam influenciar por valores defendidos pelas concorrentes, sobretudo quando eles 
encontram grande aceitação social. De maneira semelhante, as culturas políticas não são 
infensas à ação do tempo. Embora mantendo as características básicas que lhes garantem 
a identidade, elas podem adaptar-se às mudanças experimentadas pelas sociedades ao 
longo do tempo, que tornam determinados temas obsoletos e trazem à tona novos 
problemas. As que demonstram maior rigidez e dificuldade para se reciclar correm sério 
risco de esclerosar-se e perder densidade social, como tem acontecido em alguns casos 
(Berstein,1999:394-395). 
* Restringir os estudos de cultura política ao tema das representações pode 
empobrecer a compreensão do fenômeno, pois as ações e práticas por elas ensejadas, e 
que também atuam na sua constituição, são igualmente importantes. De fato, o vasto 
patrimônio que conforma as culturas políticas depende, para sua formação, das ações de 
seus inspiradores originais e dos aderentes posteriores. Para a construção dos grandes 
mitos históricos que fazem parte das culturas, com seus heróis e mártires, bem como o 
desenrolar dos eventos-chave a eles relacionados, foi importante a ação política de 
determinadas personagens. Por outro lado, a reprodução no tempo das culturas políticas 
demanda a realização de práticas reiterativas, como a repetição de rituais e cerimônias, e 
a participação em eventos e manifestações que servem para selar o compromisso dos 
aderentes, confirmando o sentido de pertencimento a um grupo. 
Mas não se deve opor práticas e representações, como se houvesse entre as duas 
dimensões uma clara linha de determinação. O melhor é considerar a existência de 
relações de mútua determinação, ou uma espécie de “via de mão-dupla”. As ações 
influenciam as representações, que nelas se inspiram e buscam forma, e também garantem 
sua reprodução através de práticas rituais. Porém, as representações, ou os diferentes 
modos como os grupos figuram o mundo são determinantes para suas escolhas e ações, 
pois os homens agem a partir de apreensões da realidade. Como sabemos, elas são 
inevitavelmente incompletas e imperfeitas; no entanto, algumas implicam distorção maior 
da realidade, devido a interesse, paixão política ou sentimentos como o medo. 
Influenciados por tais representações os homens orientam suas ações, e às vezes agem 
movidos por paixões que cegam. 
 * É importante considerar, seguindo sugestiva análise de Serge Berstein 
(desenvolvendo argumento original de Almond e Verba), a existência de vetores sociais 
responsáveis pela reprodução das culturas políticas, como família, instituições 
educacionais, corporações militares, partidos e sindicatos. Nada mais natural, quando 
lidamos com categoria que pressupõe que as escolhas políticas dos indivíduos são 
determinadas por filiação a grupos e/ou a tradições. A essa lista vale agregar outros 
vetores de socialização, como as Igrejas, e também adicionar a importância dos veículos 
de disseminação impressos, como periódicos e livros. Nos casos de famílias e Igrejas, 
estamos diante de algo que envolve a ligação dos indivíduos a grupos sociais mais 
abrangentes, que interferem em sua formação para além da dimensão política. A adesão 
política, nesses casos, decorre, ao menos em parte, da identificação aos valores 
defendidos pelo grupo, de modo que a escolha política pode revelar, na verdade, a 
fidelidade aos pais ou à religião. Os impressos são veículo fundamental na divulgação e 
disseminação dos valores das diferentes culturas políticas, e são usados propositadamente 
com tal fim. Nos textos dos livros e jornais, e também nas suas imagens visuais, desfilam 
heróis (e, tão importantes quanto esses, os desprezíveis inimigos), mitos, símbolos e os 
valores morais do grupo, e nessas publicações muitas pessoas encontraram motivação 
para identificar-se e aderir. 
Quanto aos partidos é importante esclarecer uma confusão frequente, pois é 
tentador resumir as culturas políticas às formações partidárias. As culturas políticas são 
construções que transcendem as instituições partidárias. É verdade, muitas vezes elas dão 
origem à organização de partidos, nelas inspirados e motivados a tentar colocar em prática 
os respectivos projetos políticos. Porém, há pessoas que se identificam com determinada 
cultura política, mas não com os partidos nela inspirados, considerando-os indignos ou 
infiéis à tradição. É comum ver culturas políticas dando origem a diversas formações 
partidárias, às vezes concorrentes na luta pelo papel de principal representante do grupo, 
e algumas mal se adaptam ao formato partidário, como o peronismo, por exemplo. 
 * O conceito pode ser aplicado a espaços sociais diferenciados, servindo para 
designar desde coletividades reunidas à volta de projetos específicos de ordenamento da 
sociedade (liberalismo, socialismo etc.), até grupos nacionais ou mesmo regionais. Por 
isso a opção de alguns autores em pensá-las sempre em formato plural, dividindo o 
mesmo espaço social, enquanto outros enfatizam a cultura política singularde cada grupo 
nacional. Há a opção, também, de manter cultura política para designar a coletividade 
nacional e usar-se subcultura para os diferentes grupos em disputa no interior do espaço 
nacional, tanto os ligados às grandes tradições (liberalismo, socialismo etc.) quanto, no 
caso de alguns países, aqueles identificados com discursos regionais. Penso que não é 
fundamental discutir a adequação ou não do termo subcultura. Mais importante é perceber 
que não há incompatibilidade entre os dois modos de conceber cultura política, no 
singular e no plural, o modo pluralista e a perspectiva nacional. É possível admitir a 
existência de padrões culturais coletivos a um povo, uma cultura política brasileira, por 
exemplo, ao mesmo tempo convivendo com culturas ou subculturas que disputam esse 
espaço nacional, e que podem, apesar de suas divergências, carregar algumas 
características semelhantes em função do pertencimento comum. Significativamente, as 
maiores objeções ao modelo no singular podem ser usadas em sentido contrário. Quando 
parte dos historiadores franceses critica a suposta existência de uma cultura política 
comum a seu país, o seu melhor argumento é que a França se caracterizou por disputas e 
conflitos agudos, que impediram o estabelecimento de consensos coletivos. A política 
francesa, argumentam, seria polarizada demais para permitir o surgimento de cultura 
política nacional. Ora, essa análise, que parece correta, pode ser usada para tentar 
evidenciar uma cultura política tipicamente francesa, cujo traço maior, em contraste com 
outros países, seria a presença de subculturas fortes, belicosas e resistentes a qualquer 
compromisso mútuo. 
 * Estudos de cultura política possuem forte convergência com as pesquisas 
dedicadas às diversas formas de manifestação das representações políticas13 (imaginário, 
iconografia, mitologias, etc.), devido à comum motivação de compreender os impactos 
gerados pelos encontros entre cultura e política. No entanto, nem toda história cultural do 
 
13 Obviamente, há outro sentido possível para representação política, que não está sendo considerado aqui. 
Trata-se de representação que significa delegação, como no mecanismo eleitoral por meio do qual os 
cidadãos escolhem pessoas para representá-los no parlamento. 
político implica o uso da categoria cultura política. O fato de Marc Bloch ter mostrado a 
importância da crença nos poderes taumatúrgicos dos monarcas na Europa medieval não 
significa, necessariamente, que se deva falar na existência de uma cultura política 
medieval. É comum, entre os partidos políticos, o uso de símbolos e outras manifestações 
de linguagem visual em suas campanhas, para comunicar mensagens aos eleitores; mas 
isso não implica sempre a filiação a alguma cultura política. Portanto, para os que se 
aventuram no campo da história cultural do político é preciso atenção para não confundir, 
por exemplo, imaginário político com cultura política. 
* Deve-se tomar cuidado para evitar outro tipo de confusão possível quando se 
trabalha nesse terreno: cultura política não é sinônimo de política cultural, que pode ser 
definida como o conjunto de ações de determinado Estado ou agente político direcionadas 
à cultura. Aqui há um ponto de convergência também, porque algumas culturas políticas 
servem de inspiração para autoridades estatais criarem suas políticas culturais, a exemplo 
do que ocorreu na União Soviética com o realismo socialista. Mas em que pese a 
existência desses “pontos de encontro”, política cultural e cultura política são coisas 
distintas. 
 * Questão de fundamental importância são as relações polêmicas existentes entre 
os estudos de cultura política e a tradição marxista. Trata-se de uma relação em que há 
algumas áreas de convergência, mas também muitos pontos de tensão e eventuais 
choques. O tema é complexo e demanda mais reflexões, e não fugirei ao risco de oferecer 
contribuição ao debate. 
 Os estudos que colocam ênfase no fator cultural desenvolveram-se num quadro de 
declínio da influência do paradigma marxista, que tradicionalmente colocava a cultura 
em posição secundária, dependente das estruturas econômico-sociais. O marxismo 
tradicional reconhecia a existência e a importância da cultura e da ideologia, mas, na 
prática, elas eram submetidas aos ditames da estrutura classista da sociedade, ocupando 
um lugar na “superestrutura”. O “marxismo”, na verdade, é constituído por uma 
pluralidade de leituras e apropriações dos textos do fundador, algumas mais e outras 
menos fiéis. Porém, independentemente de serem ou não leituras corretas do pensamento 
de Marx, o fato é que as versões deterministas deram o tom dominante ao marxismo 
durante muito tempo. Nos anos de 1960, o marxismo oficial perdeu credibilidade nos 
meios acadêmicos, e alguns intelectuais de filiação marxista passaram a questionar os 
modelos economicistas. Essa é uma das razões para a descoberta dos trabalhos de Antonio 
Gramsci, cujas reflexões ofereceram compreensão mais sofisticada sobre o papel da 
cultura. Outros autores marxistas deram contribuição significativa aos estudos sobre a 
cultura, como Edward Thompson e Raymond Williams, com trabalhos renovadores e 
questionadores dos cânones do marxismo tradicional.14 
Pode ser atribuída à influência marxista a existência de uma vertente peculiar de 
apropriação do conceito cultura política, que associa o fenômeno à estrutura de classes. 
Daí a existência de estudos dedicados à cultura política operária, ou à cultura política 
popular, por exemplo. Nesses estudos, cultura política assume lugar de proeminência, 
porém, em alguns casos permanece, embora nem sempre explicitado, o suposto de que 
ela é determinada por fatores sócio-econômicos. Assim, espera-se encontrar entre o 
mesmo grupo social valores políticos comuns, ou seja, uma cultura política compartilhada 
fruto de vivência social e interesses coletivos. O problema com esse tipo de abordagem é 
que ele pode levar a uma generalização abusiva, ao atribuir a todo um grupo social, à 
classe trabalhadora por exemplo, comportamentos e valores políticos idênticos. O risco é 
semelhante ao enfrentado pelos trabalhos sobre a cultura política de determinado povo ou 
nação: a mesma tendência a um olhar generalizante, que tende a desconsiderar as 
peculiaridades internas ao grupo estudado. 
Estudos que enfatizam o potencial agregador das representações podem oferecer 
mais consistência, pois não supõem coincidência entre classe e política. As culturas 
políticas mais sólidas, como comunismo, republicanismo ou fascismo, para ficar em 
apenas alguns exemplos, cruzam as diferentes classes sociais e atraem pessoas de origens 
diversas. É verdade que algumas delas, notadamente as de esquerda, fazem apelos 
dirigidos a grupos específicos, como os operários ou os trabalhadores. E, na história de 
partidos de esquerda encontram-se, de fato, casos de forte identificação entre grupo social 
e projeto político. Mas há momentos em que as organizações de esquerda fazem 
chamados mais amplos, dirigindo-se às mulheres, aos jovens e mesmo aos pequenos 
proprietários e, às vezes, à vasta e indefinida categoria povo, de modo que as culturas 
políticas de esquerda atraem aderentes da mais diversa origem social. Naturalmente, é 
possível combinar as duas possibilidades e estudar as relações entre grupos sociais 
específicos e determinadas culturas políticas, e, de novo, o melhor exemplo seriam os 
laços entre trabalhadores e esquerda. Mas é preciso cautela para evitar os excessos 
generalizantes, pois há grupos de trabalhadores mais propensos a se deixar sensibilizar 
 
14 No caso de E. Thompson, principalmente em A formação da classe operária inglesa (1987) e Costumes 
em comum (1998); quanto a R. Williams, O campo e a cidade na história e na literatura (1989) e Marxismoe literatura (1979). 
por apelos da direita. Por outro lado, deve ser considerada a pluralidade da esquerda, que, 
embora possua uma série de valores comuns (igualdade, universalismo, laicismo) é 
fragmentada em grupos com culturas próprias, disputando entre si os corações e as mentes 
dos trabalhadores. 
 Outro ponto fundamental para discutir as relações entre marxismo e as pesquisas 
sobre cultura política é a categoria ideologia. Conceito central na tradição marxista, 
ideologia ocupou lugar proeminente na superestrutura imaginada pelo filósofo alemão. O 
conceito tem duas acepções principais. No primeiro caso, ideologia significa falsa 
consciência e implica o mascaramento da realidade. Trata-se do processo através do qual 
a classe dominante constrói uma falsa representação da realidade, com que escamoteia a 
sua dominação e garante a obediência dos grupos dominados. Na segunda acepção, 
ideologia significa um conjunto de ideias que dá forma a determinados projetos políticos 
e impele à luta pela conquista do poder, e aí teríamos a ideologia fascista, a liberal, a 
socialista, etc. 
 Utilizando o conceito na segunda acepção apontada, ideologia não apenas é 
compatível com cultura política como enriquece a nossa compreensão do fenômeno. 
Pode-se dizer que muitas das culturas políticas consistentes possuem ideologia, entendida 
como um sistema de ideias que constitui o seu cerne. Mas é importante não resumir uma 
coisa à outra, e perceber que a cultura política transcende e vai além da ideologia, ao 
mobilizar sentimentos (paixões, esperanças, medos), valores (moral, honra, 
solidariedade), representações (mitos, heróis) e ao evocar a fidelidade a tradições (família, 
nação, líderes). Toda a força da categoria cultura política reside na percepção de que parte 
das pessoas adere menos pela concordância com as ideias e mais por identificar-se com 
os valores e as tradições representadas pelo grupo. 
 Já ideologia no sentido de falsa consciência é mais difícil de ser combinada com 
a fundamentação teórica de cultura política. Primeiro, porque pode levar à pressuposição 
da existência de verdade única, que a ciência seria capaz de desvendar.15 Se existe uma 
falsa consciência é porque há uma verdadeira; se a realidade é ocultada pela ideologia, 
 
15 É importante ressalvar que existem intérpretes do marxismo mais sofisticados, que questionam as versões 
simplificadoras de ideologia e propõem análises mais complexas das relações entre mistificação e realidade. 
Entre os seguidores atuais de Marx há tanto os que negam validade ao conceito de ideologia entendida 
como falseamento quanto os que mantêm a convicção sobre o caráter ilusório de certas representações 
ideológicas, mas admitindo que em outros casos elas têm correspondência com o real. Sobre esse debate 
conferir Eagleton (1997). 
ela também pode ser revelada.16 Segundo, em tal acepção ideologia enfatiza a 
manipulação, o logro, enquanto cultura política implica a suposição que pessoas aderem 
a certas representações da realidade capazes de oferecer compreensão do mundo, ao 
mesmo tempo fornecendo identidades a que se filiar. Entendida como falsa consciência, 
ideologia pode excluir a possibilidade – a meu juízo, a maneira mais fértil de encarar a 
questão – de que culturas políticas, armadas com representações fragmentárias e 
distorcidas, mas ainda assim filiadas ao real, concorram entre si para a conquista de 
aderentes em meio aos diversos grupos sociais. Mas, vale a pena ressaltar, isso não 
significa negar a ocorrência de manipulação e logro em outras instâncias do jogo político. 
 
* * * * * 
 
 As possibilidades abertas pelo enfoque nas culturas políticas são amplas e férteis, 
e apenas recentemente começaram a ser exploradas pela historiografia brasileira. Estudos 
inspirados por esse campo conceitual permitem uma compreensão mais rica e sofisticada 
do comportamento político, indo além da tradicional ênfase no interesse e na adesão a 
ideias como fatores motivadores. Sem a intenção de opor à escolha racional um 
paradigma culturalista, os estudos dedicados às culturas políticas revelam outras 
dimensões explicativas para os fenômenos políticos, como a força dos sentimentos 
(paixões, medo), a fidelidade a tradições (família, religião) e a adesão a valores (moral, 
honra, patriotismo). 
A partir desse enfoque é grande o elenco de pesquisas a serem realizadas, tanto 
em abordagens restritas ao Brasil quanto incorporando olhares comparativos. Há desde 
caminhos mais tranquilos a serem percorridos, em que a presença de cultura política seria 
mais fácil de demonstrar, a outras opções mais arriscadas, em que trilhas precisam ser 
abertas e os resultados são incertos. Podem ser estudadas, tomando como inspiração a 
matriz “pluralista”, as culturas comunista, conservadora, republicana e liberal, por 
exemplo. Nos dois últimos casos, tais pesquisas ajudariam a demonstrar as peculiaridades 
a distinguir republicanismo de liberalismo, que com muita frequência passam 
despercebidas. No caso do Brasil há experiências políticas singulares, que vale a pena 
abordar pelo prisma de cultura política. A tradição trabalhista, por exemplo, configuraria 
uma cultura política? Na contramão da perspectiva que enfatiza o caráter populista do 
 
16 Esta afirmação não implica a aceitação dos pressupostos relativistas. Voltarei à discussão sobre 
representação e verdade adiante. 
trabalhismo, estudos com enfoque na cultura política ajudam a avançar esse debate.17 
Outro caso interessante é o do Partido dos Trabalhadores, cuja peculiar militância política 
inspirou o uso da expressão petismo. Teria o PT originado uma cultura política própria? 
Seja qual for a resposta, seria necessário perceber a influência sobre o petismo de culturas 
de esquerda precedentes, como a socialista e a comunista. 
Como já foi dito, o enfoque pluralista não é incompatível com o uso de cultura 
política no singular, aplicada a grupos nacionais. Alguns estudos tentaram caracterizar a 
cultura política brasileira com base no suporte teórico-metodológico da ciência política 
(Carvalho, 2000). Seriam benvindas mais incursões de historiadores nesse terreno. Um 
tema que poderia ser explorado é o da conciliação, para muitos um traço marcante da 
cultura brasileira de maneira geral, não dizendo respeito apenas à política. Nesse sentido, 
as análises de Roberto DaMatta são particularmente interessantes, ao defender que a 
lógica relacional é marca central da cultura brasileira, calcada na recusa a definições 
rígidas e no horror aos conflitos, que são evitados em favor de ações gradativas, 
moderadoras, conciliadoras e integrativas (DaMatta, 1997). Antes dele, Gilberto Freyre 
já havia feito referências ligeiras ao tema da conciliação, elogiando a capacidade de 
contemporização dos brasileiros no episódio do 15 de novembro de 1889, a seu ver uma 
manifestação mais de sabedoria do que de apatia (Freyre, 1959:9), reveladora da 
capacidade de evitar conflitos em busca de mudanças com estabilidade. José Honório 
Rodrigues também abordou a questão, mas com perspectiva mais crítica e menos otimista, 
vendo na conciliação essencialmente estratagema das elites para excluir o povo e tentar 
convencê-lo de que é pacífico e ordeiro por natureza. A existência de episódios de intensa 
violência política e estranhos ao modelo conciliatório, como a Balaiada ou Canudos, que 
trouxeram à arena pública a presença de grupos populares, seria evidência dos limites à 
disposição dos grupos dominantes em transigir e negociar. Embora procure denunciar o 
logro implicado na conciliação, Rodrigues não nega sua presença marcante na história 
brasileira.18 
A força da tradição conciliatória no Brasil talvez seja uma razão para o comtismo 
ter encontrado tantos adeptos no país. A divisa “ordem e progresso” é sínteseperfeita do 
espírito conciliador, que entre nós se materializou em arranjos políticos de perfil 
 
17 Angela de Castro Gomes (2005:33-41) foi pioneira na abertura dessa trilha de investigação sobre o 
trabalhismo. Para uma perspectiva diferente, que defende o uso da categoria populismo, ver Fortes 
(2007:63-83). 
18 No prefácio à segunda edição do livro, Rodrigues (1982) atenua um pouco seu argumento, ao dizer que 
os brasileiros são efetivamente menos cruentos que outros povos. 
modernizante-conservador. De fato, encontramos a manifestação de tendências 
conciliatórias em vários momentos e episódios de nossa história, entre eles: o próprio 
surgimento do país independente, em que o processo foi liderado pelo Príncipe português, 
evitando rupturas bruscas; o modo como foi implantada a República em 1889, em que as 
lideranças políticas do velho e do novo sistema acomodaram-se com poucos choques; o 
Estado Novo e a estratégia getulista de integração de tendências aparentemente opostas, 
que fez escola; os resultados da crise de 1964, que, em vez da guerra civil, gerou “guerra 
de saliva”; a transição pós-autoritária, em que a anistia significou realmente esquecimento 
e perdão; a ascensão de Lula e do PT ao poder, viabilizada por aliança reunindo forças de 
esquerda e direita. 
O recurso à conciliação, à busca de soluções de compromisso que evitem o 
caminho de rupturas radicais fica mais visível quando o olhar é comparativo. Colocando 
em contraste o Brasil com países como Estados Unidos e Argentina, por exemplo, os 
resultados instigam à reflexão. No primeiro caso, chama a atenção a maneira como o 
embate escravidão X abolição foi resolvido nos dois países: com a guerra civil, nos EUA, 
de maneira lenta e negociada, no Brasil. Com a Argentina há várias possibilidades de 
comparação, mas podemos enfatizar o período de 1930 a 1970, em que os dois países 
viram-se às voltas com situação semelhante: conflitos entre esquerda e direita, fragilidade 
das instituições e partidos, intervenções militares e períodos ditatoriais. Em que pesem as 
semelhanças, na Argentina houve pouco espaço para compromisso entre os grupos rivais: 
expurgos dramáticos no serviço público, matanças maciças de parte a parte e golpes 
sanguinários. No Brasil houve repressão e expurgos, bem o sabemos, mas os regimes 
autoritários temperaram perseguição com cooptação, violência extralegal com o uso de 
mecanismos legais. Essa é uma das principais razões porque a transição política no Brasil 
foi mais suave e menos dramática para os militares envolvidos com a repressão, enquanto 
na Argentina vários chefes foram julgados e condenados. Ressalve-se que não se está 
dizendo que as nossas ditaduras são melhores do que as deles, menos ainda negando a 
existência de violência política no Brasil, o que seria uma tolice. 
 Uma digressão: a conciliação à brasileira traz mais vantagens ou desvantagens? 
Considerando o saldo positivo, é mais fácil passar de um regime a outro, com menos 
violência e ódio, menores traumas a administrar; portanto, há terreno mais fácil para abrir 
caminho à mudança. Porém, olhando pelo outro prisma, alguns problemas tendem a não 
ser resolvidos, e sim postergados para um futuro indefinido. No que tange ao período 
ditatorial, o melhor é perdoar, e com isso evitar novos traumas (pense-se nos levantes dos 
caras-pintadas na Argentina, em resposta às punições aos militares pelo governo 
Alfonsín), ou punir culpados e com isso desestruturar os grupos que tomaram parte na 
repressão? Qual o melhor caminho para superar o autoritarismo e consolidar a 
democracia? 
 Evidentemente, a presença de tradição conciliadora não basta para caracterizar 
uma cultura política. No caso brasileiro há outros temas a explorar, como os laços frágeis 
entre povo e cidadania, discussão já clássica no pensamento político.19 Seria o caso de 
restringir a explicação à ação nefasta das elites, responsáveis por fechar aos setores 
subalternos os espaços de participação política, ou não haveria um pouco de auto exclusão 
também? Outra questão a merecer reflexões: a modesta participação popular na política 
institucional tem sido pontuada por explosões de fúria e momentos de mobilização. Além 
dos episódios do século XIX já referidos, podem ser lembrados: a Revolta da Vacina, as 
inúmeras quebras de bondes e ônibus no decorrer do século XX,20 a reação popular ao 
suicídio de Getúlio Vargas em 1954, a mobilização popular de 1962-64, em que se viram 
saques ao comércio em algumas cidades, a campanha popular pelas Diretas-já em 1984, 
ou os caras-pintadas em 1992. Se o argumento estiver correto, é preciso tentar explicar 
por que o padrão de fraca atuação política é pontilhado de ocasionais picos participativos. 
E, sobretudo, compreender por que tais momentos são tão intensos como fugazes. 
Para finalizar a discussão sobre as possibilidades nos estudos de cultura política, 
é interessante mencionar que pesquisas sobre culturas regionais podem abrir um bom filão 
de análise. Alguns autores têm defendido a existência de uma cultura política carioca 
(Motta, 1999), por exemplo, e vale a pena tentar aplicar o conceito a outras regiões, como 
Minas Gerais, São Paulo ou Rio Grande do Sul. É debate polêmico, não há dúvida, mas 
pode trazer conclusões interessantes. Na pior hipótese, mesmo não se configurando a 
existência efetiva de culturas políticas regionais, será possível compreender melhor as 
representações políticas construídas pelas elites desses estados, e sua maior ou menor 
capacidade de persuadir as pessoas a identificarem-se e a agirem de acordo com tais 
construções. 
 
 
19 Ressalte-se: concordar com tal linha de análise não implica a aceitação de teses racistas ou ideias sobre 
uma espécie de incapacidade inata dos brasileiros, nem exclui a possibilidade de perceber a existência de 
outras formas de participação na vida coletiva, para além da institucionalidade política tradicional 
(Carvalho, 2000). 
20 Roberto DaMatta propõe uma interpretação interessante para os “quebra-quebras” em Carnavais, 
malandros e heróis (1981). 
* * * * * 
 
 A última parte deste texto é dedicada a discutir os riscos que o trabalho com a 
categoria cultura política implica, bem como os desafios ainda a enfrentar para dar solidez 
ao seu aparato teórico-metodológico. 
 Um dos desafios é investir nas discussões sobre como aplicar o conceito a 
períodos da história anteriores ao mundo contemporâneo. Alguns dos principais autores 
a teorizarem sobre o tema tiveram em mente a história contemporânea quando definiram 
cultura política, ou seja, o mundo europeu (e sua área de influência) a partir do século 
XVIII. E a razão é que nessa fase há transformações na dinâmica política, com a 
entronização do conceito de que o Estado deve corresponder aos desejos do povo, 
composto não mais por súditos, mas por cidadãos com direito a participar dos negócios 
públicos. Abrem-se, assim, as condições para que projetos, ideias, valores e 
representações políticas ganhem forma e constituam culturas políticas, a disputar a 
atenção de indivíduos e grupos sociais na cena pública. A categoria supõe que as pessoas 
tomam parte movidas por fatores culturais, mas está presente também o elemento da 
adesão, da escolha. 
 Não obstante, alguns autores têm utilizado cultura política para períodos históricos 
anteriores, como a Roma antiga (Flower, 2006) por exemplo, mas invariavelmente sem 
explicitar o modo como estão se apropriando do conceito. Em alguns casos, trata-se de 
análises sobre representações políticas (linguagens, iconografia) que não implicam, 
necessariamente, a existência de cultura política. Pode-se afirmar que são estudos de 
história cultural do político, mas nem sempre há a presença de culturas políticas. Seja 
como for, cabe aos pesquisadores de tais temas e períodosinvestir na discussão teórica, 
para construir bases mais sólidas para o uso do conceito.21 
 Na lista dos riscos que o trabalho com cultura política traz, destaque-se a 
possibilidade de exagerar uma linha de interpretação conservadora da história. Se a 
política é presa à tradição e arraigada à cultura, podemos ser tentados a enxergar uma 
história imóvel, na qual nada muda e tudo é eterna repetição. Naturalmente, estamos na 
presença de uma distorção, tanto mais problemática para o historiador porque tal tipo de 
leitura, no limite, abole a própria história. 
 
21 Creio que a ancoragem mais segura para viabilizar a aplicação de cultura política a períodos recuados 
não será encontrada nas concepções de Berstein, mas numa tentativa de adaptar a tipologia de Almond e 
Verba, principalmente por meio dos conceitos de cultura paroquial e cultura da sujeição. 
 Outro problema é a possibilidade de incorrermos numa espécie de reducionismo 
culturalista, que tem duas implicações. Primeiro: a tendência a absolutizar a determinação 
cultural dos fenômenos políticos, desprezando outros fatores como o interesse e a escolha 
individual. A abordagem cultural é valiosa por mostrar que os indivíduos agem movidos 
por outras influências além do interesse e do cálculo racional, mas, se ela for encarada de 
maneira absoluta pode empobrecer ao invés de enriquecer nosso conhecimento. Um 
exemplo, retirado das experiências do autor na coleta de testemunhos orais. Um casal de 
comunistas, do tipo que aderiu dos pés à cabeça à cultura comunista, teve três filhos. Dois 
deles tornaram-se também comunistas, mas apenas um manteve-se fiel até à morte, e a 
identificação com os pais foi fator determinante na escolha. Porém, o terceiro não aderiu 
ao comunismo, embora tivesse relações com os pais tão boas quanto os irmãos... 
 Segunda observação sobre o reducionismo culturalista: há estudos que enfocam 
as representações como uma espécie de fenômeno etéreo, pairando acima e fora da 
dinâmica social. Tal tendência está relacionada a certo modo de encarar os laços entre 
representações e realidade, eivada de relativismo radical. Nessa vertente, o real só existe 
enquanto representação, e como todas as representações são igualmente incapazes de 
revelar a verdade todas são válidas. Por isso, estudar as representações basta para alguns 
autores, sem preocupar-se em distinguir as mais próximas da realidade ou as mais 
fantasiosas (às vezes pura falsificação), tampouco em pesquisar os impactos que 
produzem na realidade. Essa discussão remete a uma polêmica que não é possível 
aprofundar aqui, e que na verdade persegue a teoria do conhecimento desde suas origens, 
sem solução visível: a questão da realidade e da verdade, se é possível representar ou não 
o mundo. Mas o relativismo radical deve ser evitado, pois leva à conclusão de que 
qualquer representação é aceitável, pois todas são parciais. Não é verdade: algumas são 
mais distorcidas, às vezes falsas, enquanto outras produzem versões mais próximas da 
realidade.22 
Evitando tanto o relativismo quanto o cientificismo ingênuo, a maneira mais fértil 
de encarar as relações entre realidade e representações é reconhecer a interdependência 
das duas esferas, perceber os laços intrincados que as atam de maneira forte. As 
 
22 “As fontes não são nem janelas escancaradas, como acreditam os positivistas, nem muros que obstruem 
a visão, como pensam os cépticos: no máximo poderíamos compará-las a espelhos deformantes. A análise 
da distorção específica de qualquer fonte implica já um elemento construtivo. Mas a construção [...] não é 
incompatível com a prova: a projeção do desejo, sem o qual não há pesquisa, não é incompatível com os 
desmentidos infligidos pelo princípio de realidade. O conhecimento (mesmo o conhecimento histórico) é 
possível” (Ginzburg, 2002:44-45). 
representações estão calcadas na realidade, estão em diálogo com o mundo social, a vida 
concreta, e ao mesmo tempo interferem no seu desenrolar. No campo político, há 
inúmeros exemplos para ilustrar situações em que representações imprimem rumo à 
realidade. Vejamos um deles: o temor ao comunismo, frequentemente desproporcional à 
força efetiva dos revolucionários, abrindo caminho a golpes de Estado e a regimes 
autoritários. Em suma, as culturas políticas resultam da imbricação entre práticas e 
representações, e o olhar sensível a apenas uma das esferas é empobrecedor. 
 A aplicação da categoria cultura política ao Brasil merece reflexões cuidadosas, 
em vista dos argumentos sobre a suposta fragilidade dos laços entre os brasileiros e a 
política. A seguir tal linha de pensamento, ela implicaria a existência de culturas políticas 
frágeis no país, pouco enraizadas e com adesão superficial. A não ser na vertente 
eurocêntrica do conceito, para a qual, então, o Brasil não teria cultura política, seria 
politicamente “inculto”, essa constatação não tira a legitimidade da aplicação da categoria 
à história do nosso país. Como disse antes, esse pode ser um traço da cultura política 
brasileira: frágil cidadania, pouco envolvimento da população com a coisa pública. De 
qualquer forma, é um dado a ser considerado em futuras pesquisas, para que se possa 
dimensionar adequadamente as formas de manifestação de cultura política no Brasil. 
 Outro desafio para os historiadores interessados é a necessidade de investir mais 
na discussão sobre metodologias de pesquisa. Na historiografia recente, os trabalhos 
sobre cultura política têm privilegiado o uso de fontes qualitativas. Mas a utilização de 
dados quantitativos pode trazer bons resultados, sobretudo se combinados com boas 
análises qualitativas.23 Por exemplo, fontes quantitativas podem servir para testar 
hipóteses correntes sobre comportamentos políticos supostamente calcados na tradição. 
Assim, a famosa moderação dos mineiros poderia ser verificada a partir dos resultados 
eleitorais para disputas majoritárias, arquivados nos tribunais eleitorais. Poderiam ser 
avaliados e contrastados os resultados obtidos por candidatos afinados com discursos (e 
imagens) políticos moderados ou radicais, em comparação com a situação em outros 
estados da federação. Também poderia ser averiguada a fidelidade de determinadas 
regiões a certos valores políticos, testando, através de séries eleitorais históricas, se as 
imagens da baixada santista ou do Recife como bastiões “vermelhos” nos anos 1940-
1960, por exemplo, correspondem à realidade eleitoral. Mais uma possibilidade: usar os 
 
23 Nesse terreno pode-se tirar bom proveito das pesquisas e dos métodos desenvolvidos por cientistas 
políticos. Um trabalho muito interessante foi realizado por Putnam (1996) para estudar a cultura política 
italiana. 
resultados das pesquisas de opinião realizadas pelo menos desde os anos de 1950 na 
tentativa de encontrar padrões estáveis de comportamento e valores políticos. 
 Enfim, há muitos desafios, problemas e polêmicas envolvidos nas pesquisas sobre 
o fenômeno da cultura política, mas as possibilidades que se descortinam à nossa frente 
são bastante instigantes, fazendo com que os riscos implicados no trabalho com esse 
campo conceitual valham a pena. 
 
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