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TEOLOGIA DOS DONS 
ESPIRITUAIS 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Josadak Lima da Silva 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Olá, estudante! Neste encontro, vamos conhecer as bases bíblicas acerca 
dos dons espirituais, na perspectiva de que descobrir e desenvolver os dons 
constituem um dever intrínseco de todo crente, pois somos todos chamados e 
enviados para servir uns aos outros mediante o nosso dom fundamental. 
TEMA 1 – CONHECENDO AS LISTAS DOS DONS ESPIRITUAIS NA BÍBLIA 
As principais passagens bíblicas sobre dons espirituais são as seguintes: 
Romanos 12: 6-8; 1 Coríntios 12: 8-10, 28-31; Efésios 4: 11; 1 Pedro 4: 10-11. 
Essas listas de dons não têm por objetivo serem exaustivas em relação ao 
assunto, pois os dons espirituais são infinitos. O propósito não é fazer uma 
dissertação acerca dos dons espirituais, mas fornecer instruções para corrigir 
excessos sobre o assunto nas comunidades locais. 
Assim como na lista de Efésios 4 e 1 Coríntios 12, em Romanos 12 o 
contexto engloba a vida da Igreja, ou seja, todos esses textos falam dos dons no 
contexto do corpo de Cristo. Com efeito, os dons espirituais e suas operações 
não são isolados e independentes, nem na causa nem no propósito. A união é 
vital entre um dom e outro, entre uma operação e outra. É por esse motivo que 
todos os dons são importantes e necessários. Significa que não podemos cobiçar 
os dons uns dos outros, mas usarmos com diligência e temor diante de Deus o 
dom que ele nos outorgou. 
Com uma breve reflexão em Romanos 12, percebe-se que logo nos dois 
primeiros versículos, um eloquente apelo: rogo-vos. Em seguida, vem uma série 
de termos que nos remetem aos sacrifícios do Antigo Testamento: se ofereçam 
(o altar), sacrifício (a vítima); culto (serviço, doação); agradável (qualidade), os 
quais apontam para o relacionamento do cristão com Deus: a vida consagrada. 
Para exemplificar, Romanos 12: 3-5 enfatiza o relacionamento do cristão 
com o corpo de Cristo, povo de Deus, a comunidade missionária que está 
presente em toda parte, em nome e no mandato de Jesus. Isso mostra que a 
Igreja de Jesus não é uma organização, mas sim um organismo vivo, cuja vida 
é Jesus Cristo. Ela acontece em lugares e tempos diferentes, segundo as 
circunstâncias em que vive o povo de Deus, para desempenhar a missão. 
Vale lembrar que o Novo Testamento utiliza o termo Igreja para designar 
uma reunião coletiva de fiéis a Cristo, presente e atuante no mundo, iluminada 
 
 
3 
pela Palavra. São pessoas, não prédios. Expressa-se como comunidade 
servidora do Reino de Deus, profética e generosamente, dando a conhecer a 
pessoa de Jesus como Salvador. A Igreja está onde seus membros estão, não 
importando horários e locais. Portanto, a comunidade local dos fiéis se torna 
verdadeiramente a Igreja, segundo o padrão do Novo Testamento, quando o 
significado espiritual dos dons espirituais é recuperado e desenvolvido. Dessa 
forma, a Igreja cuja vida e ministério não estão alicerçados sobre a prática dos 
dons espirituais, em termos bíblicos, torna-se de certo modo, contraditória. 
A fé cristã é substancialmente um movimento que tem e que faz 
história. Para se colocar na direção certa, ela tem que observar a sua 
encarnação histórica. Dons e ministérios têm uma história que pode 
ser lida desde os primeiros textos da Bíblia. Se a Igreja hoje propõe 
uma reforma a partir dos ministérios, devemos ter paciência suficiente 
para olharmos o caminho percorrido. (Josgrilberg, 1991, p. 49) 
Convém ressaltar que as listas de dons não são exaustivas, mas 
exemplificativas. Seu propósito não é outro senão mostrar o próprio Senhor 
Jesus Cristo ministrando por meio do seu corpo – a Igreja. A missão da Igreja é 
continuar a missão de Jesus Cristo, o qual é o centro de comando para todo o 
corpo; cada membro se move sob a orientação da Cabeça e na dinâmica do 
Espírito Santo. 
A lista de Romanos 12, com 7 dons (junto com mais 4 de outras listas) 
são dons que, em si, definem qual a vocação para o serviço cristão: 
1. dom de profecia; 
2. dom de serviço; 
3. dom de ensino; 
4. dom de encorajamento; 
5. dom de contribuição; 
6. dom de liderança; 
7. dom de misericórdia. 
Descobrir e desenvolver esses e outros dons espirituais consiste em 
assumir a vocação cristã para o serviço, que visa a participação ativa, vital e 
comunitária dos crentes, dinâmica que requer novas estruturas e novas 
possibilidades de ação. 
 
 
 
4 
TEMA 2 – A DINÂMICA DA CONCESSÃO DIVINA DOS DONS ESPIRITUAIS 
Os dons espirituais não são dados nem pelos nossos pais, nem pelos 
nossos professores nem pela Igreja. Nenhum ser humano tem o poder de 
conceder dons. Packer (1991, p. 173) diz que 
as pessoas batizadas no Espírito Santo, assim é declarado, em geral 
recebem vários dons, e nenhum cristão fica inteiramente sem nenhum 
dom. Portanto, o ministério de todos os membros, conseguido pelo fato 
de se discernir e direcionar os dons de cada cristão, deve tornar-se 
prática padrão de todo o corpo de Cristo na Terra, e os padrões de 
comportamento congregacionais precisam ser suficientemente 
decentralizados, flexíveis, calmos, a fim de permitir, e não inibir, esse 
ministério. 
Portanto, um dom espiritual provém de uma única fonte – Deus: “Toda a 
boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, em 
quem não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1: 17). Desse modo, o 
protagonismo dos dons não é do homem, mas do Espírito Santo de Deus. É o 
Espírito Santo quem escolhe aquilo que cada cristão deve receber. Os dons 
diferem um do outro, de cristão para cristão. Os dons são distribuídos por todo o 
corpo, conforme a necessidade percebida pelo próprio Espírito Santo. 
Não há dúvida de que é o Espírito Santo quem decide qual dom particular 
vai dar a cada membro do corpo de Cristo, individualmente (1 Coríntios 12: 11). 
Para Stott (1986, p. 100), 
em Efésios 4, o Cristo glorificado é apresentado como um general 
vitorioso, que lidera uma multidão de cativos libertos e distribui os 
despojos da batalha. Os presentes são de graça e a distribuição é 
soberana. Isso também é dito em 1 Coríntios 12: 11: “Um só e o mesmo 
Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a 
cada um, individualmente”. 
A palavra traduzida por distribuir, em 1 Coríntios 12: 11, é um particípio 
presente, que indica atividade contínua através do tempo. Sim, o Espírito Santo 
está sempre, continuamente, distribuindo dons a cada pessoa individualmente, 
como quer. Sem os dons, a Igreja não poderia existir. 
Não obstante, existe uma participação do indivíduo na descoberta e no 
desenvolvimento dos dons. Os dons não são uma capacitação imposta por Deus 
sem que a pessoa tenha crido, desejado e buscado. As expressões bíblicas a 
cada um (1 Coríntios 12: 7), individualmente (1 Coríntios 12: 11) e cada um 
conforme o dom que recebeu (1 Pedro 4: 10) indicam que cada crente recebe 
 
 
5 
pelo menos um dom espiritual, razão pela qual cada membro do corpo de Cristo 
tem seu “lugar” e função. 
É lógico que se pode ter mais de um dom, porém, “o que é importante é 
que devemos compreender que cada um de nós, como membro do corpo de 
Cristo, tem um dom particular” (Loyd-Jones, 2000, p. 274). Dessa maneira, não 
é correto afirmar que aquela ou essa pessoa “cura enfermos”, pois é o Espírito 
Santo quem cura, por meio do dom espiritual em ação. São realizações do 
próprio Deus. Hoover (1999, p. 107) afirma que “quando Deus chama alguém 
para um serviço ou ministério especial, capacita essa pessoa para seu labor, 
outorgando-lhe os dons necessários”. 
O Espírito Santo procura pessoas consagradas, através das quais 
manifesta os dons espirituais, com o propósito de glorificar a Deus e edificar a 
Igreja. 
[…] o Espírito Santo distribui dons espirituais de acordo com sua 
vontade graciosa e soberana, então não há nenhuma justificativa para 
inveja nem arrogância.Como podemos ter coragem de desprezar 
nosso dom e olhar com inveja para os dons dos outros, se Deus nos 
deu dons de acordo com sua graça e vontade? Da mesma forma, como 
podemos menosprezar os dons de outras pessoas e compará-los 
depreciativamente com os nossos, se Deus lhes deu seus dons de 
acordo com sua graça e vontade? (Stott, 1986, p. 101) 
Portanto, ao nos sugerir que “busquem com zelo os melhores dons” (1 
Coríntios 12: 31), a Bíblia não está afirmando que posso escolher o dom que 
quiser. Temos que observar bem o contexto. Paulo está ensinando aos coríntios 
— e a nós — que é Deus quem determina quais são os dons mais necessários 
em certa situação que a Igreja enfrenta. 
Somente o Espírito Santo pode dar dons espirituais. Para Lloyd-Jones 
(2000, p. 272), 
não há uma palavra de instrução, em parte alguma do Novo 
Testamento, que diga às pessoas o que devem fazer para obter o dom. 
O máximo que nos cabe fazer é “desejar”, “desejar ardentemente”… 
Nada, além disso. Trata-se de um dom, meu amigo. Você não pode 
ajudar o Espírito Santo. Ele não precisa disso, e, se se trata de algo 
que Ele dá, é até errado tentar ajudá-lo. 
Os dons do Espírito Santo revelam um grande princípio: quando Deus 
chama alguém, Ele dá capacidade para a realização da incumbência. Jesus 
afirma que “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde 
vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (João 3.8). 
Jesus faz uma analogia acerca dos efeitos do vento e os efeitos do Espírito 
 
 
6 
Santo. Com tal analogia, ele explica que “o Espírito sopra onde quer”. Onde o 
Espírito Santo de Deus está em ação, os efeitos são inconfundíveis e 
imensuráveis. A lição é simples: se o Espírito Santo sopra onde quer, não é 
possível circunscrever-lhe a ação com categorias humanas, com sistemas e 
estruturas preestabelecidos. 
TEMA 3 – OS DONS ESPIRITUAIS COMO PROVISÃO DE CRISTO PARA SUA 
IGREJA 
A constatação é que, apesar do tema dos dons espirituais ser 
essencialmente bíblico, a maioria dos membros das Igrejas ainda não identificou 
qual é o seu dom fundamental, aquele que aponta seu ministério pessoal. Nesse 
sentido, tal questão apresenta-nos um grande problema. 
Antes de tudo, precisamos saber que todo cristão nascido de novo, que 
faz parte do corpo de Cristo, possui pelo menos um dom espiritual, que é 
fundamental. Isso significa dizer que todo cristão tem um chamado duplo: 
• um chamado geral (para a salvação); 
• um chamado específico (para o serviço). 
A questão, portanto, não é porque você não tem dons, e sim porque você 
ainda não os descobriu. Não importa a variedade, o fato é que cada membro do 
corpo de Cristo tem um dom fundamental e deve se concentrar nesse dom 
particular que lhe foi dado por Deus. A pessoa pode ter vários dons, mas, 
geralmente, tem um dom vocacional fundamental. Por exemplo, eu tenho o dom 
de encorajamento, porém essa não é a minha motivação principal. Meu dom 
vocacional é o ensino! Realizo-me vendo as pessoas entenderem a Escritura 
Sagrada. É nisso que eu me sinto motivado para continuar servindo ao Senhor. 
Logo, nossa abordagem é no sentido de que cada cristão é parte do corpo 
de Cristo e, como membro desse corpo, possui pelo menos um dom vocacional 
que é fundamental no serviço do corpo. Partimos do princípio que Deus usa os 
dons para fazer cumprir o seu propósito da realização da obra do ministério e da 
edificação da Igreja: “Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do 
ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Efésios 4:12). 
Os dons espirituais, no ideal de Jesus Cristo e na Igreja Primitiva, visam 
o serviço tanto à comunidade de fé quanto ao mundo. Todo cristão foi chamado 
para a missão de servir no Reino de Deus. Dessa forma, sua realização no Reino 
 
 
7 
de Deus está em descobrir e desenvolver seus dons, e, assim, cumprir a 
incumbência que lhe cabe realizar. Para Shedd (2018, p. 77), “a divisão entre 
clérigos e leigos na Igreja é artificial, pois todo crente tem um chamado. Todos 
são chamados ao sacerdócio. E para o que serve o sacerdote? O sacerdote 
realizava uma função específica: oferecer sacrifício a Deus”. 
Como cristãos, nossa opção de vida consiste em servir o ser humano sob 
todos os aspectos e de um modo totalmente disponível, visto que os dons de 
Cristo estão relacionados à missão e ao serviço, e não ao poder ou cargos. 
Nessa perspectiva, para o cristão frutificar segundo o padrão divino, é preciso: 
• identificar chamado revelado pelo dom (etapa do despertar); 
• ser firmado neles (etapa do discernir); 
• integrar-se numa equipe de ministério (etapa do desenvolver). 
Todo serviço na comunidade de fé está relacionado ao uso dos dons. No 
entanto, como a pessoa pode ser efetiva no uso dos dons? Primeiramente, ela 
precisa despertar seus dons (descobri-los). Em segundo lugar, deve entrar no 
processo intencional de colocá-los em funcionamento, alinhando-se à dinâmica 
da comunidade de fé, conforme suas necessidades e demandas. Em terceiro 
lugar, é indispensável atuar junto com outros crentes no contexto de uma equipe 
de ministério, pois “uma equipe multiplica a probabilidade de realizar nossos 
sonhos com eficácia e alegria. Em equipe somos amparados, protegidos, 
fortalecidos, encorajados e mais produtivos” (Kornfield, 2000, p. 191). 
Os dons de Cristo nos capacitam para a missão de servir ao outro. Essa 
missão não acontece com pessoas isoladas, mas em comunidade. O chamado 
de Jesus é feito onde a pessoa mora ou trabalha (Marcos 1: 16-20), e ali a 
pessoa entra num novo agir, em função do Reino de Deus, numa nova prática 
transformadora. Para essa missão, Jesus Cristo garantiu e prometeu sua 
presença e a assistência do Espírito Santo. 
Quando os cristãos ministram uns aos outros em nome de Cristo, eles 
exercem o cuidado mútuo na comunidade de fé (propiciando ajuda, ânimo e 
alívio) através dos dons espirituais. Desse modo, os dons de Cristo funcionam, 
não apenas no espaço das celebrações corporativas, mas também na vida 
concreta do cotidiano. Segundo Josgrilberg (191, p. 39), “a história mostra que, 
conforme a situação, novos dons foram dados para atender a novas situações 
que surgiram no mundo”. 
 
 
8 
Na prática, os dons de Cristo começam a entrar em ação quando há 
necessidades concretas a responder e quando há oportunidade disponível para 
tal. Por exemplo, os grupos pequenos ou equipes de ministérios são ambientes 
propícios para as pessoas compartilharem necessidades, bem como se 
ajudarem mutuamente. 
Deus colocou, em cada um de nós, necessidades, desejos, sonhos, 
dons e chamados. Eles são o combustível da motivação interior. 
Motivação real sempre vem de dentro. Se for uma motivação externa, 
imposta por alguém, só durará enquanto a outra pessoa insistir. E 
muitas vezes, nem isso! Se for uma motivação em satisfazer outra 
pessoa, durará enquanto essa pessoa estiver presente. Mas a 
motivação que realmente funciona é a que vem de dentro. (Kornfield, 
2000, p. 11) 
A Igreja existe para ser uma comunidade de serviço para o mundo. Para 
isso, Deus outorgou os dons à sua Igreja, mas seus membros precisam andam 
no mover do Espírito, senão a comunidade de fé terá dificuldade de se projetar 
para fora de si, para o mundo, ao qual é enviada. 
O caminho da Igreja é o caminho de Jesus, e nisso o processo de 
formação do discipulado é importante, porque é vivido tendo Jesus como 
referencial. O discipulado leva sempre à missão. A vinculação com Jesus implica 
vinculação com sua missão e formar-se para assumir seu estilo de vida. Para 
desenvolver a missão de Jesus, requer-se o exercício dos dons. Por isso, 
recebemos de Deus tanto os dons quanto o poder para usá-los. É assim que, 
através de serviços espirituais, a Igreja serve a sociedade e congrega as 
pessoas em torno de Jesus Cristo, evangelizando no próprio meio em que está 
inserida. Assim, de acordo com Packer (1991,p. 79), os dons espirituais 
precisam ser definidos em termos de Cristo, como poderes práticos realizados 
de expressar, exaltar, exibir e, assim, comunicar Cristo de uma forma ou de 
outra, por palavras ou atos. De outra maneira, eles não serão edificantes”. 
Agora, reflita sobre a seguinte pergunta: qual a relação entre os dons e os 
cargos da Igreja? Kornfield (2000, p. 36) entende que 
muitos cargos deveriam estar ligados diretamente a certos dons de 
liderança, administração, ensino ou serviço. Nesse sentido, não é 
suficiente indicar alguém para um cargo porque é maduro e tem bom 
caráter. Muitas vezes, indicamos alguém para um cargo sem pensar 
claramente em dons. Além de pensar em seus dons, devemos pensar 
nos dons de que esse ministério precisa para funcionar bem. 
 
 
 
9 
TEMA 4 – CONSIDERANDO A DIVERSIDADE DOS DONS ESPIRITUAIS 
1 Coríntios 12: 4 declara: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o 
mesmo”. Pela sua multiplicidade, os dons abarcam a vida inteira da Igreja local, 
incluindo o ministério de cada membro do corpo de Cristo, visto que o Espírito 
concede dons a cada um daqueles que compõem a comunidade dos fiéis, com 
a finalidade de que todos possam participar da missão de Jesus no mundo, por 
meio de serviços mútuos, criando um movimento cheio de criatividade, de ardor, 
de entusiasmo e de alegria. 
Nesse sentido, a diversidade dos dons é fundamental na construção do 
povo de Deus, não como estrutura organizacional, mas como instituição orgânica 
e dinâmica, em que a autopromoção egocêntrica não se estabelece nem se 
desenvolve. A diversidade dos dons implica que o ministério de cada crente 
forme uma unidade intrínseca de disponibilidade carismática e de serviço 
altruísta. Forme uma comunidade missionária, mesmo e sempre enfrentando 
problemas e dificuldades. 
Para tornar esse propósito uma realidade é que 1 Coríntios 12.4 aborda a 
“diversidade de dons” (“diferentes tipos”), em que a ênfase está na pessoa do 
Espírito Santo. Logo, uma comunidade de fé funcionando com base nos dons e 
ministérios tem consciência viva de ser orientada pelo Espírito Santo. 
Observe que, na sequência de 1 Coríntios 12, tudo é atribuído ao Espírito 
Santo, não apenas como o Doador de dons, mas como o único que distribui 
“potencialidade” (1 Coríntios 12: 11). Desse modo, a pluralidade na unidade do 
mesmo Espírito e do Senhor Jesus torna a Igreja como um sinal visível no 
mundo, por meio de uma comunidade de paz, justiça e serviço. 
As listas mais conhecidas dos dons, no Novo Testamento, estão em 
Romanos 12: 6-8; 1 Coríntios 12: 1-11, 28-31; Efésios 4: 11 e 1 Pedro 4: 10-11. 
Para Josgrilberg (1991, p. 23), “não há uma lista fechada de dons e ministérios; 
assim, na prática do Novo Testamento, novos dons e novos ministérios são 
suscitados no corpo de Cristo, para que a Igreja cumpra seu ministério”. 
O caminho trilhado nesse conteúdo até agora nos permite entender que 
precisamos tentar descobrir, a partir dessas e de outras passagens 
bíblicas, a natureza dos dons espirituais, quantos são, qual é sua 
relação com os talentos naturais, se são todos miraculosos, quais dons 
são dados hoje, qual é seu alcance (a quem eles são concedidos), sua 
origem (de onde eles vêm) e seu propósito (para que eles são dados). 
(Stott, 1986, p. 81) 
 
 
10 
Em um olhar atencioso, por exemplo, para a passagem de 1 Coríntios 12: 
29-30, percebe-se que o foco não está nos dons em si, e sim no indivíduo com 
seu dom particular. Isso significa que cada membro do corpo de Cristo pode 
servir com seu dom, e a Igreja como um todo passa a ser beneficiada com as 
capacidades e serviços de cada membro. Isto é, o texto a Bíblia não fala dos 
carismas que eles já possuem e que são todos necessários; pelo contrário, 
destaca os dons do Espírito Santo, pelos quais todos podem se esforçar no 
trabalho do Senhor. Afinal, não se trata de aptidões naturais e capacidades 
humanas que simplesmente constituem um fato dado, mas de dons que o 
Espírito Santo “distribui”. 
Tal como existe uma diversidade ampla de dons, há também uma 
distribuição ampla. Os dons não são privilégios de um grupo seleto, visto que 
uma das principais lições verificadas a partir das listas de dons é que eles são 
distribuídos a todos, sem acepção. Logo, todo cristão tem pelo menos um dom 
espiritual ou uma capacitação para o serviço para ser usado na obra de Deus, 
por mais adormecido ou desusado que seja. 
Os dons têm por finalidade o serviço no Reino de Deus, onde a unidade 
vem antes das diferenças de personalidades e dos ministérios pessoais. Porque 
a vontade de Deus foi constituir as pessoas num só povo-Igreja. Nisso, o seu 
dom específico deve estar sempre a serviço de Deus, em função do próximo. 
Portanto, servimos a Deus, servindo pessoas! Tal exercício prático requer 
entregar-se à ação do Espírito Santo, e implica continuidade no serviço, tanto na 
comunidade cristã como na sociedade humana. 
Além disso, o ensino bíblico do Novo Testamento acentua que a dádiva 
de um dom espiritual não depende de méritos humanos. Ela é concedida 
unicamente pela graça de Deus, segundo o conhecimento e a vontade soberana 
do Espírito Santo. Com efeito, eis um grande mistério: alguns cristãos têm certos 
dons e outros não os têm. Temos que aceitar, pela fé, o fato de que o Deus 
soberano tem boas razões para distribui-los como lhe apraz. 
TEMA 5 – EXISTE UMA CLASSIFICAÇÃO DOS DONS ESPIRITUAIS? 
Não podemos restringir o número de dons apenas nos nove mencionados 
na lista de 1 Coríntios 12: 8-10, seria uma tentativa no mínimo temerária. Uma 
leitura cuidadosa de 1 Coríntios 12 mostra uma segunda lista de dons no final 
desse capítulo que, curiosamente, também menciona nove dons, mas somente 
 
 
11 
cinco destes coincidem com a primeira lista — de modo que, mesmo em 1 
Coríntios 12, são pelo menos treze dons, e não nove. 
Além disso, há também outra lista de sete dons em Romanos 12: 6-8 (dos 
quais cinco não ocorrem em nenhuma lista de 1 Coríntios 12); e outra lista, de 
cinco dons, em Efésios 4: 11 (dos quais dois são novos); além de outros dois 
dons citados em 1 Pedro 4; 11, um dos quais (“se alguém fala”) anda não 
recebera menção específica antes. 
Juntando, pois, todas as listas de dons no Novo Testamento e 
considerando as repetições existentes, somamos mais de 20 dons. Mesmo 
assim, seria temerário afirmar que essa quantidade forma a lista completa e 
definitiva de todos os dons espirituais, uma vez que os dons são infinitos. 
Stott (1986, p. 81) afirma: 
Aventuro-me a sugerir que com os dons espirituais ocorre o mesmo 
que acontece com as experiências mais profundas: nosso Deus é um 
Deus de uma diversidade rica e colorida. Nossa tendência humana é 
de tentar limitá-lo em fronteiras arbitrárias que inventamos, para “captá-
lo” e criar estereótipos inflexíveis de experiência e ministério. Todavia, 
o Deus da criação fez uma variedade praticamente infindável de 
criaturas fascinantes, e mesmo entre os seres humanos há um quadro 
complexo de raças e temperamentos. A Escritura deixa claro que o 
Deus da redenção é o mesmo. 
Portanto, não é possível uma classificação dos dons. Nas listas de dons, 
a ordem varia consideravelmente. Não é possível afirmar que existe uma ordem 
de importância. Por exemplo: o dom de profecia aparece, em Romanos 12, em 
primeiro lugar; mas em 1 Coríntios 12: 8-10 aparece em sexto lugar; e em 1 
Coríntios 12: 28, em segundo. De fato, a Bíblia não apresenta os dons espirituais 
de forma ordenada, em grupos distintos; todos os dons são intrinsecamente 
relacionados. Quando lemos as principais listas de dons, percebemos uma 
repetição dos dons, ao ponto de serem quase os mesmos da outra lista. Por isso, 
qualquer tentativa de agrupar os dons é temerária, a não ser para fins didáticos 
e com uma explicação prévia. 
De forma objetiva e concreta, na Bíblia, a única classificação dos dons 
espirituais se encontra em1 Pedro 4: 11: dons da palavra — Se alguém fala 
(abrangendo vários dons); e dons do serviço — Se alguém serve (abrangendo 
vários dons). Talvez, seja nesse sentido, que Owen (citado por Stott, 1986, p. 
88) distinguiu entre dois tipos de dons espirituais — “os que excedem todos os 
poderes e capacidades da mente humana” e “os que consistem de reforços 
extraordinários das capacidades da mente humana”. 
 
 
12 
Costuma-se afirmar que a lista dos dons em Romanos 12: 6-8 se refere a 
“dons de serviço”. No entanto, como já observamos, muitos desses se encontram 
também nas listas de 1 Coríntios 12. Isso significa que a classificação em si não 
faz sentido. Em cada lista, o que se mostra é que os dons visam satisfazer uma 
necessidade especial do corpo de Cristo. Biblicamente, o importante é o 
cumprimento desse propósito divino. A questão fundamental é como melhor 
servir ao reino de Deus, e o caminho são os ministérios e serviços nas 
comunidades locais. 
Aquele, pois, que foge dessa responsabilidade de engajamento deixa de 
ser cristão no sentido essencial do termo: discípulo de Jesus. O verdadeiro 
seguidor de Jesus não pode dizer, por exemplo: “Quero ser cristão, mas não me 
peça para me comprometer com o servir ao Reino de Deus”. Com efeito, Jesus 
Cristo nos chama para os serviços por meio dos dons. A resposta do crente deve 
ser clara e objetiva. 
Os defensores de que existem apenas nove dons espirituais, à luz de 1 
Coríntios 12: 8-10, procuram classificá-los como dons do Espírito. Afirmam que 
somente esses, de certo modo, são dons sobrenaturais. A palavra sobrenatural 
é composta por sobre, que significa “acima de”, e natural, que significa “o que é 
normal na vida”. Desse modo, sobrenatural quer dizer “o que está acima do que 
é normal na vida”. Afirmam que os dons de Efésios 4:11 e Romanos 12: 6-8 
diferem dos dons de 1 Coríntios 12: 8-10, por entenderem que se desenvolvem 
naturalmente e permanecem na pessoa. Assim, ressaltam que os dons de 1 
Coríntios 12: 8-10 se manifestam sobrenaturalmente, e são retomados pelo 
Espírito Santo após cumprida a missão pontual. Visão muito estranha! 
Em suma, isso nos leva a perguntar: e os dons de Romanos 12: 6-8 e 
Efésios 4: 11 (e outros) estão em que categoria? Seriam dons naturais? Um tipo 
de talento natural? Certamente que não! Todos os dons espirituais são 
sobrenaturais! Porque ser “espiritual” é ser totalmente controlado pelo Espírito 
Santo (Romanos 8: 14). Assim, sendo, à semelhança dos dons de 1 Coríntios 
12, os dons de Efésios 4 e Romanos 12 também são espirituais. 
NA PRÁTICA 
Nesta aula, vimos as listas bíblicas dos dons espirituais e como essas 
dádivas divinas constituem a provisão de Cristo para a Igreja, preparando os 
crentes para realizar a obra do ministério cristão (Efésios 4: 12). 
 
 
13 
FINALIZANDO 
Nesta aula, vimos como os dons espirituais são abordados em sua 
aderência à realidade das comunidades de fé, onde brotam espontaneamente 
novos ministérios que requerem uma multiplicidade de novas e criativas formas 
de serviços orientados pelos dons, considerando a sua dinâmica e diversidade, 
operando no corpo de Cristo. Assim, os dons espirituais fazem parte do propósito 
divino, tanto para o serviço mútuo quanto para o amadurecimento dos fiéis, até 
a volta de Cristo. 
 
 
 
14 
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