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Sepse Conceito É uma disfunção orgânica secundária a uma infecção, em que o paciente desenvolve uma resposta desregulada a esta. Enquanto o choque séptico, consiste na presença de sepse com hipotensão refratária à infusão de fluídos. É uma das principais causas de mortes de pacientes gravemente enfermos. Qualquer agente etiológico pode causar sepse ou choque sépticos, como bactérias, vírus, fungos, protozoários, dos quais as bactérias são as principais envolvidas. Estes micróbios geralmente não causam prejuízos ao organismo de pacientes imunocompetentes. As principais infecções que levam a sua ocorrência são: infecção intra-abdominal, a pneumonia, e a infecção urinária, tendo como focos frequentes a relação com catéteres, abcessos das partes moles, meningites e endocardites. Fisiopatologia Constitui de um mecanismo básico de defesa do organismo, a resposta do hospedeiro a um agente agressor infeccioso, que por sua vez leva ao desenvolvimento de processos inflamatórios. Assim, surge um desequilíbrio entre as respostas anti e inflamatórias, gerando disfunções orgânicas diversas, com alterações celulares e circulatórias, especificamente, a vasodilatação e o aumento da permeabilidade capilar, o que normalmente resulta em hipotensão e hipovolência relativa. Fatores de risco Presença de uma ou mais comorbidades, idade superior a 69 anos, logo período de internação e realização de procedimentos invasivos. O cateter venoso central é um importante fator de risco nos casos de infecção primária na corrente sanguínea. Diagnóstico A velocidade do diagnóstico é um ponto crítico para diminuição dos riscos de mortalidade. Deve-se analisar história da doença, exames físicos e laboratoriais, com foco nos sintomas, histórico de cirurgias e hospitalizações recentes, doenças de base e uso de antibióticos. As queixas do paciente devem nortear o exame físico, para que se estabeleça o foco infeccioso inicial e se há disfunção orgânica. Assim, o diagnóstico é sugerido pelos achados clínicos e laboratoriais inespecíficos e confirmado, posteriormente, pelo isolamento do agente etiológico (utilizando-se culturas de diferentes materiais biológicos). Métodos de imagem - como a radiografia, a ultrassonografia, o ecocardiograma, a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, podem ser de grande utilidade, não só para o diagnóstico, mas também para a avaliação evolutiva. Uma gama de substâncias biológicas tem sido investigada como biomarcadores candidatos e/ou mediadores da sepse. Proteína C reativa (CRP), procalcitonina, interleucina 6 (IL-6) e interleucina 18 (IL-18) são consideradas úteis no diagnóstico, bem como na classificação de gravidade da sepse, embora com limitações. Sinais clínicos São variadas por depender do foco infeccioso inicial, do organismo causador, do padrão da disfunção orgânica e do estado de saúde geral do paciente. Nos casos graves, ainda se tem os sinais de disfunção orgânica, com manifestações clínicas dos órgãos em disfunção. O sistema respiratório e cardiovascular são os alvos mais comumente relacionados com as disfunções. O comprometimento cardiovascular se manifesta primariamente por hipotensão ou por um aumento dos níveis séricos de lactato. A taquicardia é geralmente reflexa à redução da resistência vascular, objetivando garantir o débito cardíaco. A taquipneia advém do aumento da produção de CO2, do estímulo direto do centro respiratório por citocinas ou, quando há insuficiência respiratória, surge em consequência da hipoxemia. Entretanto, já o sistema respiratório é normalmente manifestado pela síndrome da insuficiência respiratória aguda, podendo apresentar hipoxemia. Os rins também podem ser alvos das disfunções, caracterizado por lesão renal que se manifesta por baixo débito urinário e por uma elevação da creatinina sérica, sendo diversas vezes o tratamento necessário a hemodiálise. A nível neurológico, a sepse pode cursar com graus variáveis de alteração do nível de consciência, da confusão ao estupor ou coma. Em pacientes idosos o delirium é bastante frequente. A principal disfunção hematológica ocorre durante a tempestade inflamatória gerada por agressão, o endotélio se torna pró-coagulante, contribuindo para a geração de trombose na microcirculação, hipoperfusão e, denomina-se esse quadro por coagulação intravascular disseminada. Tratamento medicamentoso Composto por um pacote que engloba um conjunto selecionado de elementos de cuidado que, quando implementados como um grupo, afetam os desfechos clínicos simplificando os processos complexos de atendimento a esses pacientes. Atualmente, conhecido como “pacote de uma hora”, tendo como principal vantagem, a velocidade de aplicação, já que os pacientes com sepse requerem urgência em seu atendimento. Portanto, as medidas devem ser iniciadas rapidamente, assim que se reconhece o paciente como possivelmente séptico. Portanto, é necessária a rapidez na identificação e no cuidado para melhorar o prognóstico. A reavaliação das 6 horas deve ser feita em pacientes que se apresentem com choque séptico, hiperlactatemia ou sinais clínicos de hipoperfusão tecidual. A continuidade do cuidado é importante, por isso entende-se que durante as seis primeiras horas o paciente deve ser reavaliado periodicamente. Para isso é importante o registro da reavaliação do status volêmico e da perfusão tecidual. A hiperglicemia é frequente na fase aguda da sepse, como uma resposta secundária a resposta endócrina-metabólica ao trauma. Para seu controle adequado recomenda-se a utilização de protocolos específicos, objetivando níveis abaixo de 180mg/dL, sem episódios de hipoglicemia. Além do acompanhamento médico, todos os pacientes devem ser assistidos por enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, farmacêuticos e assistentes sociais. Em suma, o tratamento deve ocorrer de maneira multidisciplinar, contribuindo para desfechos positivos tanto dentro do hospital, como após a alta. Ressaltando que apesar do atendimento nas primeiras 24 horas ser de suma importância, ações são necessárias durante toda a sobrevida hospitalar favorecendo a reabilitação adequada após a alta. Portanto, todos os profissionais envolvidos no atendimento têm papel importante a desempenhar. Terapia nutricional Deve ter sua instituição precoce, visando auxiliar no processo de cicatrização, diminuição da resposta catabólica e aprimoramento da estrutura e funcionalidadedo trato gastrointestinal. Normalmente a ingestão oral de alimentos ou líquidos está bastante limitada. Assim, inicialmente não se deve ter como meta o estímulo ao anabolismo protéico e a repleção nutricional, visto que, uma oferta calórica alta agrava a intensidade do processo hipercatabólico, favorecendo o surgimento de complicações. Pacientes em UTI recebem medicamentos vasoativos, e portanto, a terapia nutricional deverá iniciar assim que estes estejam estáveis hemodinamicamente; caso contrário sugere-se a administração de glutamina por via venosa. Quando se monitora pacientes graves, é necessário atentar-se a dados laboratoriais, de modo a ajudar na sua prescrição dietoterápicas. Necessidades energéticas Pode-se calcular o gasto energético através das fórmulas pré-estabelecidas do GEB associado a medidas antropométricas, que não é fidedigno por não serem sensíveis a alterações agudas, e assim, é mais preciso a medida indireta obtida pelo GER através da calorimetria indireta. Após serem estabelecidas as metas da dieta e qual será o valor calórico total a ser ofertado, deve-se quantificar a necessidade de cada nutriente. Reconhecendo-se que a glicose deve contribuir com cerca de 60% da nutrição não proteica e os lipídios devem fornecer o restante. É sabido que a oferta maior de glicose, não possui a capacidade de diminuir o catabolismo proteico em pacientes com sepse. Portanto, em casos de doenças graves como este, a glicose não deverá ser maior que 4mg/kg/peso/min; pois poderá aumentar o risco de desenvolver esteatose hepática, incremento na insuficiência respiratória, e hiperglicemia através da resistência insulínica. De modo geral, as necessidades energéticas podem ser calculadas como 25-30 kcal/kg/dia (utilizando-se do peso atual como parâmetro), o que corresponde em média ±88% do GER. No caso de indivíduos obesos, a melhora do quadro clínico ocorre quando recebem 14-18 kcal/kg/dia do peso atual, ou 22 kcal/kg/dia de peso ideal, sendo caracterizada como hipocalórica e rica em proteínas. Quanto a oferta de proteína, estes pacientes apresentam necessidades aumentadas. Entretanto, a administração de quantidades excessivas de proteínas não diminuirá o balanço nitrogenado negativo. Portanto, a quantidade recomendada corresponde de 1,5 a 2,0g/kg de peso atual/dia. A oferta diária de lipídios previne a deficiência de ácidos graxos e contribuem para o aporte calórico, considerando que a oxidação da glicose está limitada. Dividida igualmente entre TCM (Triglicerídeos de Cadeia Média) e TCL (Triglicerídeos de Cadeia Longa), não deverá ultrapassar 1,5 g/kg/peso atual/dia. Sugere-se a utilização de moléculas de ácidos-graxos ômega-3, com o objetivo de melhorar a utilização metabólica da gordura e a resposta imunológica do organismo. Os líquidos e eletrólitos devem ser ofertados a fim de manter o débito urinário adequado e assegurar a normalidade dos íons séricos. As necessidades de micronutrientes tornam-se elevadas durante a fase aguda, devido ao aumento das perdas líquidas pela via urinária e cutânea, diminuição da absorção intestinal, distribuição líquida alterada e alteração nas concentrações de proteínas transportadoras. Suplementos nutricionais Existem substratos nutricionais que podem ajudar no estado clínico da sepse, dentre eles destacam-se a glutamina e arginina. A glutamina sofre uma redução de pelo menos 50% a nível intracelular e 75% no intramuscular, de modo que há uma necessidade aumentada devido o estado de estresse. Este aminoácido tem importância na patologia devido possuir atuação múltipla nos metabolismos intestinal, hepático, renal e imunológico, servir como fonte energética através da síntese de intermediários bioquímicos primordiais para o organismo. A recomendação de ingestão é 25 a 30g/dia, quando em solução parenteral a solução deve estar a 20% em um frasco de 50mL. Os valores para suplementação de arginina são os mesmos, seus benefícios comprovados incluem estímulo ao sistema imune e à cicatrização de feridas, melhora na recuperação pós-operatória e a prevenção ou inibição do crescimento tumoral. Vias de administração e suportes Apesar da via de administração preferida para a reposição calórica ser a oral, os pacientes neste caso, encontram-se incapazes de comer por causa da intubação traqueal e a dependência do aparelho ventilador. Além disso a alimentação oral pode estar impossibilitada por distúrbios na mastigação, deglutição, anorexia induzida por medicamentos, choque e depressão pós-traumática. Entretanto, nos casos raros em que os pacientes estão aptos a se alimentar por via oral, não conseguem atingir as necessidades nutricionais, devido ao estresse metabólico. Assim, a nutrição por suporte enteral é o mais indicado, por manter a função e morfologia do trato gastrointestinal, prevenindo translocação bacteriana, o que finda atenuando a inflamação e reduzir as complicações sépticas. Em relação a via de acesso, ao considerar que a via gástrica aumenta o risco de broncoaspiração, aumenta o resíduo gástrico e em alguns casos pode ainda amplificar a colonização bacteriana; recomenda-se a via jejunal, com cateter localizado na terceira porção do duodeno; quanto ao método de administração sugere-se o intermitente, por ser mais fisiológico. Neste caso, a nutrição parenteral só é indicada para os pacientes em que a nutrição enteral é ineficaz ou contraindicada. Considera-se que a NP permite um melhor alcance das necessidades nutricionais, mas está associada ao maior risco de infecção; que podem ser reduzidas através do enriquecimento das fórmulas com glutamina e selênio. A recomendação para seu uso em caso de impossibilidade do trato digestório, deverá ocorrer após 24 horas de tratamento intensivo. Para ser utilizada como complementar, é apropriada após 7-10 dias de alimentação enteral sem surtir os efeitos esperados. Por fim, deve-se ter em mente que o possível risco de morte do paciente desnutrido grave é três vezes superior que o de um paciente nutrido. Portanto, os doentes portadores de sepse são os mais beneficiados com o início precoce da nutrição parenteral de qualidade.