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MOTRICIDADE OROFACIAL PROF.A KESSY ANNIE DE OLIVEIRA SOUZA Reitor: Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira Pró-Reitoria Acadêmica Maria Albertina Ferreira do Nascimento Diretoria EAD: Prof.a Dra. Gisele Caroline Novakowski PRODUÇÃO DE MATERIAIS Diagramação: Alan Michel Bariani Thiago Bruno Peraro Revisão Textual: Fernando Sachetti Bomfim Marta Yumi Ando Produção Audiovisual: Adriano Vieira Marques Márcio Alexandre Júnior Lara Osmar da Conceição Calisto Gestão de Produção: Aliana de Araújo Camolez © Direitos reservados à UNINGÁ - Reprodução Proibida. - Rodovia PR 317 (Av. Morangueira), n° 6114 Prezado (a) Acadêmico (a), bem-vindo (a) à UNINGÁ – Centro Universitário Ingá. Primeiramente, deixo uma frase de Sócrates para reflexão: “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida.” Cada um de nós tem uma grande re- sponsabilidade sobre as escolhas que fazemos, e essas nos guiarão por toda a vida acadêmica e profissional, refletindo diretamente em nossa vida pessoal e em nossas relações com a socie- dade. Hoje em dia, essa sociedade é exigente e busca por tecnologia, informação e conhec- imento advindos de profissionais que possuam novas habilidades para liderança e sobrevivên- cia no mercado de trabalho. De fato, a tecnologia e a comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, diminuindo distâncias, rompendo fronteiras e nos proporcionando momentos inesquecíveis. Assim, a UNINGÁ se dispõe, através do Ensino a Distância, a proporcionar um ensino de quali- dade, capaz de formar cidadãos integrantes de uma sociedade justa, preparados para o mer- cado de trabalho, como planejadores e líderes atuantes. Que esta nova caminhada lhes traga muita experiência, conhecimento e sucesso. Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira REITOR 33WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 01 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ................................................................................................................................................................4 1. REVISÃO ANATOMOFISIOLÓGICA DO SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO ..............................................................5 1.1 SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO E SUAS FUNÇÕES ..............................................................................................6 1.1.1. SUCÇÃO .................................................................................................................................................................6 1.1.2 DEGLUTIÇÃO ......................................................................................................................................................... 7 1.1.4 MASTIGAÇÃO ....................................................................................................................................................... 12 1.1.5 FALA ...................................................................................................................................................................... 13 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................................................... 15 MOTRICIDADE OROFACIAL PROF.A KESSY ANNIE DE OLIVEIRA SOUZA ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: MOTRICIDADE OROFACIAL 4WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO A Motricidade Orofacial (doravante, MO) é o campo da Fonoaudiologia voltado ao estudo, pesquisa, prevenção, avaliação, diagnóstico, desenvolvimento, habilitação, aperfeiçoamento e reabilitação dos aspectos estruturais e funcionais das regiões orofacial e cervical. O domínio do especialista em MO inclui aprofundamento em estudos específicos e atuação em situações que envolvam: [...] a) modificações estruturais e/ou miofuncionais, associadas aos problemas de fala, sucção, respiração, mastigação e deglutição (item alterado de acordo com a Resolução CFFa nº 363/2009, publicada no DOU, seção 1, dia 18/03/2009); b) problemas da fala e fluência, decorrentes de alterações neurológicas ou musculoesqueléticas (item alterado de acordo com a Resolução CFFa nº 363/2009, publicada no DOU, seção 1, dia 18/03/2009); c) alterações e/ou anomalias estruturais craniofaciais – congênitas, de desenvolvimento e/ou adquiridas –, ósseas, musculares, articulares, posturais, que comprometam e/ ou que se associem às funções orofaciais, temporomandibulares e cervicais; d) alterações musculares decorrentes de alterações neurológicas – congênitas, de desenvolvimento e/ou adquiridas – e suas implicações miofuncionais; e) alterações e/ou modificações decorrentes do envelhecimento, atividade muscular deficiente e/ou excessiva, em seus aspectos miofuncionais e estéticos; f) problemas relacionados às disfunções mecânicas e neurológicas da deglutição e suas consequências; g) demais alterações e/ou modificações correlatas às funções orofaciais e motricidade orofacial (CONSELHO FEDERAL DE FONOAUDIOLOGIA, 2006). 5WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1. REVISÃO ANATOMOFISIOLÓGICA DO SISTEMA ESTOMATOGNÁTICO A MO, uma das áreas de especialidade da Fonoaudiologia, tem como objetivo restabelecer as funções estomatognáticas: sucção, respiração, mastigação, deglutição e fala, visando ao equilíbrio miofuncional orofacial. O sistema estomatognático está localizado na cabeça e inclui os músculos da mastigação e as estruturas do interior da boca necessárias à ingestão e à mastigação dos alimentos. Esse sistema também transforma os sons produzidos pela laringe em fala na comunicação oral. Além disso, a face possui um sistema especial de músculos, os músculos da expressão facial, cujas contrações coordenadas ao redor da boca, do nariz e dos olhos transmitem as nossas emoções (TANIGUTE, 2005). O sistema estomatognático é composto por diversas estruturas interligadas que, quando em perfeita harmonia, garantem o funcionamento correto da mastigação, fonação, deglutição e outras funções (JUNQUEIRA, 2005). Porém, inúmeros fatores são capazes de causar interferências nesse sistema, provocando seu desequilíbrio. As disfunções temporomandibulares (DTMs) e musculares possuem causa multifatorial, sendo necessária a realização de anamnese minuciosa, além de exame clínico detalhado para que se seja possível adotar a forma de tratamento mais correta. O conhecimento da base anatômica de cabeça e do pescoço é fundamental para o entendimento das bases fisiológicas das funções estomatognáticas. Os músculos são as peças- chave para a dinâmica dos movimentos e para execução dessas funções. Eles ficam inseridos nas estruturas de ossos e cartilagem da cabeça (BIASOTTO-GONZALEZ, 2005). As funções estomatognáticas são atividades fisiológicas imprescindíveis e estão diretamente ligadas entre si, pois utilizam muitas das mesmas estruturas. Tal ligação é tão direta, que o mau funcionamento de qualquer uma delas se reflete no funcionamento das demais. O equilíbrio saudável entre essas diversas funções é fundamental para que haja a integridade da saúde física e psicológica do indivíduo (OBA, 1999). Desde a sua formação e durante o desenvolvimento do indivíduo, o sistema estomatognático passa por muitas adaptações, além de ser dinâmico, podendo apresentar alterações morfológicas durante todo o processo de crescimento e desenvolvimento, ou seja, ao longo da vida toda (TANIGUTE, 2005). Segundo Bianchini e Luz (2010), o sistema é composto de estruturas estáticas, ou passivas, e de estruturas dinâmicas, ou ativas, que são equilibradas e controladas pelo sistema nervoso central. Essas estruturas são responsáveis pelo funcionamento das funções. Fazem parte das estruturas estáticas ou passivas os arcos osteodentários, a maxila e a mandíbula, os quais estão relacionados entre si pela articulação temporomandibular (ATM). Ainda fazem parte das estruturas passivas outros ossos cranianos, o osso hioide e a coluna vertebral cervical. A unidade neuromuscularsistema estomatognático e suas funções, quando alteradas. • Na Ortodontia e ortopedia funcional dos maxilares, os dentes são mantidos em equilíbrio graças à atuação de forças de contenção internas e externas. Portanto, se não houver ajustes funcionais, existe a possibilidade de recidivas. Para maiores informações sobre terapia fonoaudiológica em pacientes com fissura labiopalatina, a presente sugestão de leitura aborda o tema da fonoterapia intensiva, a qual apresenta resultados exponenciais na reabilitação da fala. A referência completa é: LIMA, M. do R. F. et al. Atendimento fonoaudiológico intensivo em pacientes operados de fissura labiopalatina: relato de casos. Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, São Paulo, v. 12, n. 3, 2007. O material encontra-se disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1516-80342007000300012&lng=en&nrm=iso. 36WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA • Na Odontopediatria, o trabalho em equipe se dá nas ações preventivas, como frenotomia/ frenolectomia, controle dos hábitos deletérios, incluindo-se desde a orientação quanto à necessidade da amamentação para o desenvolvimento da sucção até à intervenção na respiração oral. • Na cirurgia buco-maxilo-facial, a intervenção fonoaudiológica pode ocorrer nos períodos pré e pós-cirúrgicos da cirurgia ortognática, atuando sobre as alterações da motricidade orofacial e cervical. • Trabalho em equipe na reabilitação oral por meio de ajustes de mastigação e disfunções da articulação temporomandibular (ATM). Souza et al. (2005) ressaltam, ainda, a necessidade de o profissional fonoaudiólogo ter uma visão do paciente em sua totalidade, realizando uma completa avaliação no intuito de identificar o que está por trás da queixa de cada indivíduo, fazendo encaminhamentos necessários e desenvolvendo um tratamento personalizado diante de cada necessidade. Somada a isso, a interdisciplinaridade dos profissionais de saúde auxilia na prevenção e no adequado direcionamento da atuação com o paciente a partir das trocas e do conhecimento mútuo. O Protocolo de Avaliação Miofuncional MBGR aborda aspectos gerais das funções orofaciais de respiração, mastigação, deglutição e fala. Além disso, contempla a observação da postura corporal, análise morfológica extra e intraoral, avaliação da tonicidade e mobilidade da musculatura e da sensibilidade orofacial. O protocolo contempla história clínica, o exame clínico miofuncional orofacial com escores e o roteiro de registro de imagens estáticas e dinâmicas para posterior análise. Tem como objetivo coletar o maior número de dados possível, cuja pontuação, de forma numérica, facilita analisar o nível da disfunção apresentada pelo paciente e ajuda no prognóstico e acompanhamento terapêuticos (GENARO et al., 2009). Muitos autores apontam que o Protocolo MBGR tem sido utilizado na prática clínica. Muitas pesquisas demonstram a aplicabilidade desse instrumento em diversos distúrbios da motricidade orofacial. Por isso, tem sido considerado como fundamental para o desenvolvimento de estudos que possibilitam validá-lo como instrumento também para outras diversas áreas da MO (BENACCHIO; MARONÊS, 2019). O protocolo de avaliação em motricidade orofacial MBGR é muito completo, sendo capaz de oferecer informações substanciais para que o profissional trace o prognóstico do tratamento e o plano terapêutico mais adequado possível. O protocolo está disponível em https://doi.org/10.1590/S1516-18462009000200009. 37WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta unidade proporcionou uma visão ampla quanto à necessidade de profissionais trabalhando em conjunto (Ortodontia e Fonoaudiologia, por exemplo). Espera-se que tenha ficado claro que a área de conhecimento dos ortodontistas se comunica com a Fonoaudiologia; mais do que isso, completam-se. Para o paciente, é muito relevante que todos os profissionais envolvidos percebam a importância da intervenção de cada um para que o tratamento, como um todo, seja exitoso. É essencial que encaminhamentos sejam realizados de ambas as partes e que o conhecimento seja difundido. 3838WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 03 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ...............................................................................................................................................................39 1. QUEIMADOS: TIPOS DE QUEIMADURAS E TRATAMENTO .................................................................................40 1.1 PROFUNDIDADE DAS QUEIMADURAS ................................................................................................................. 41 1.2 AVALIAÇÃO FONOAUDIOLÓGICA NO PACIENTE QUEIMADO ...........................................................................42 1.3 PROTOCOLO DE AVALIAÇÃO - SCQ: SUPERFÍCIE CORPORAL QUEIMADA / OFAS: ÓRGÃOS FONOARTICU- LATÓRIOS .....................................................................................................................................................................47 2 CIRURGIA ORTOGNÁTICA .......................................................................................................................................48 2.1 LESÕES NERVOSAS DECORRENTES DA CIRURGIA ORTOGNÁTICA BIMAXILAR ...........................................48 2.2 REABILITAÇÃO FONOAUDIOLÓGICA ...................................................................................................................50 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...........................................................................................................................................52 DIFERENTES PERSPECTIVAS DA MOTRICIDADE OROFACIAL PROF.A KESSY ANNIE DE OLIVEIRA SOUZA ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: MOTRICIDADE OROFACIAL 39WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO A Fonoaudiologia tem se mostrado em áreas que, atualmente, reconhecem a atuação do fonoaudiólogo, sabendo-o indispensável na reabilitação da motricidade orofacial. Dentre tais áreas, citam-se as queimaduras de face e pescoço que trazem consigo graves alterações morfológicas, inclusive comprometendo a realização de algumas funções do sistema estomatognático e, consequentemente, a mímica facial. Outra área é a reabilitação de pacientes submetidos à cirurgia ortognática, atuando no período pré-operatório (com orientações sobre os cuidados durante a recuperação) e no pós- operatório (atuando com massagens e exercícios para diminuição de edemas, consistência alimentar e melhora das funções estomatognáticas). 40WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1. QUEIMADOS: TIPOS DE QUEIMADURAS E TRATAMENTO Basicamente, uma queimadura pode ser definida como uma lesão dos tecidos orgânicos, em decorrência de um trauma de origem térmica. Segundo Nascimento et al. (2014), os agentes que mais comumente produzem queimaduras são os escaldos líquidos aquecidos e as substâncias inflamáveis, como o álcool, que atingem, principalmente, pessoas de nível socioeconômico baixo e, em sua maioria, crianças. Geralmente, ocorrem no interior das casas e, mais especificamente, na cozinha, durante as atividades domésticas. Deve‐se, também, ater‐se ao fato de que, além dos acidentes, há registros de tentativas de homicídios e de suicídios. Ainda segundo Nascimento et al. (2014), os fatores etiológicos são: • Agentes físicos térmicos: frio abaixo de 0 ° C, raro no Brasil; líquidos aquecidos, como sopa quente, chá, água fervente etc.; substâncias inflamáveis, principalmente, o álcool, em suas diversas utilizações; ferro de passar roupa; chapa de fogão; escapamento de moto; objetos que contêm alta pressão, como caldeiras industriais e panela de pressão. • Eletricidade: leva a queimaduras graves por atingir as camadasda pele, comprometendo grandes vasos sanguíneos. Comumente, é responsável por amputações de membros e elevados índices de morte. • Radiantes: o mais frequente é o banho de sol de forma inadequada, sem uso de protetor solar e em exposição prolongada. A gravidade dessas queimaduras está na área corporal queimada, levando a internações. • Agentes químicos: normalmente, são queimaduras produzidas por ácido sulfúrico (dentre outros), em geral, pouco extensas, mas profundas. Muitos dos acidentes que levam a queimaduras podem ser evitados com simples esclarecimentos à população, como o fato de que não se deve deixar álcool acessível ao manejo de crianças, além do uso de materiais adequados para se atear fogo em churrasqueiras. Para Lopes Filho et al. (2013), um dos mais eficientes meios para evitar queimaduras são as campanhas de prevenção, pouco veiculadas no Brasil. Quando o nível de seriedade do caso, do grau e da extensão das queimaduras no paciente é alto, médicos e enfermeiros avaliam as possibilidades de manutenção da vida e as sequelas decorrentes das queimaduras. Além disso, a idade e a existência de doenças prévias são fatores que contribuem para essa avaliação. É importante ressaltar que, embora a avaliação seja médica, é de suma importância que o fonoaudiólogo tenha pleno conhecimento dela para que possa avaliar as condições físicas do sujeito que atenderá e definir o momento da intervenção. Quanto à etiologia das queimaduras, no primeiro momento, logo após o acidente, fica difícil especificar o grau da lesão. Idealmente, espera-se entre 48 h, 75 h ou, até mesmo, 5 dias para se ter uma análise um pouco mais fidedigna. Ainda assim, não é bom ser muito categórico. Pouco tempo após a queimadura, libera-se histamina para a área, causando vasoconstrição e, dentro de poucas horas, vasodilatação e aumento da permeabilidade nos capilares (vasinhos menores que causam o escape de plasma para a ferida). As células lesionadas se edemaciam, plaquetas e leucócitos se juntam e aderem às paredes vasculares, causando trombose, isquemia e ampliando a lesão (ANDRADE; LIMA; ALBUQUERQUE, 2010). 41WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.1 Profundidade das Queimaduras As queimaduras são classificadas de acordo com o comprometimento das camadas da pele. Lesão de primeiro grau Para Falkel (1993), há lesão de primeiro grau quando se acomete a camada mais externa da pele, a epiderme. Esse tipo de queimadura não provoca alterações na circulação sanguínea, sendo acompanhada de alterações clínicas significativas. Normalmente, são queimaduras decorrentes de exposição ao Sol por tempo prolongado, sem a devida utilização de proteção solar; podem decorrer, também, de contato com água quente, não provocando bolhas. Lesão de segundo grau Classifica-se em queimadura de segundo grau quando se atingem tanto a epiderme quanto a derme, ou parte desta. O acometimento parcial da derme já significa que esse tecido terá condições de se recuperar, apesar de, muitas vezes, o resultado estético não ser satisfatório. Na reabilitação desse tipo de lesão, pode haver resultados pouco satisfatórios quanto aos aspectos de estética e de funcionalidade da região corporal atingida. Quando na face, há diminuição da mobilidade dos músculos da expressão facial, abertura de boca, dentre outras complicações. A dor é acentuada e há aparecimento de bolhas (FALKEL, 1993). Lesão de terceiro grau É aquela que acomete a totalidade das camadas da pele (epiderme e derme) e, em muitas situações, outros tecidos, como o tecido celular subcutâneo, músculo e tecido ósseo. Para esse tipo de queimadura, há necessidade de enxertia de pele da região doadora do corpo do próprio paciente ou pele artificial, pois ocorrem lesões deformantes e dilaceradoras do corpo físico. Normalmente, lesões de terceiro grau, em suas bordas, são acompanhadas de lesões de segundo e primeiro graus (FALKEL, 1993). Outro aspecto importante a ser apresentado é a classificação quanto à superfície corporal queimada (doravante, SCQ). Segundo Santos, Silva e Souza (2004), a SCQ é usada, de modo geral, para classificar o paciente como: • grande queimado: aquele que tem mais de 20% da superfície do corpo queimada. • médio queimado: aquele que tem de 10 a 20% da superfície do corpo queimada. • pequeno queimado: aquele com menos de 10% da superfície do corpo queimada. A análise da definição de queimadura e suas classificações quanto aos graus e superfície corporal queimada possibilitam que se reflita acerca das condições dos pacientes queimados, seus desconfortos e possíveis sequelas que podem vir a comprometer o sistema estomatognático. 42WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Toledo e Arrunatégui (2004), observaram, em sua prática clínica, que pacientes indicados para o atendimento fonoaudiológico geralmente são pacientes com queimaduras de segundo e/ ou terceiro grau(s), considerados grandes queimados, segundo a classificação quanto à superfície corporal queimada. Pacientes com queimaduras nas regiões da cabeça e do pescoço, normalmente, apresentam queimaduras em áreas do tronco e membros superiores. Trata‐se do paciente que, em geral, entra no serviço de atendimento hospitalar no mais absoluto estado de sofrimento físico, com dores e confusões mentais e, não raro, inconsciente. Os primeiros atendimentos são voltados à manutenção da vida do paciente por meio de intervenção médica e de enfermagem. Para Santos, Silva e Souza (2004), o tratamento do paciente queimado pode ser dividido em quatro fases: - tratamento geral imediato: baseado na manutenção da vida do paciente e limpeza das queimaduras. - tratamento da fase de edema ou de choque: fase de controle de perda e reposição de líquidos necessários à manutenção da vida. - cuidados locais da lesão: momento de controle de infecções, causa de óbito desses pacientes. O tratamento é realizado pela equipe médica e de enfermagem, com aplicação de métodos de curativos nas regiões queimadas e limpeza do tecido necrosado. - enxertia cutânea: é realizada após as técnicas de suporte vital. É o tratamento operatório que tem por objetivo transformar uma ferida aberta e suja em ferida limpa e fechada. 1.2 Avaliação Fonoaudiológica no Paciente Queimado Na queimadura de face e pescoço, deve-se pensar, primeiramente, na história clinica e em aspectos como data da queimadura e tipo de acidente. Para ficar mais didática e para melhor definição do diagnóstico, a avaliação fonoaudiológica é dividida em dois momentos. No primeiro momento, o paciente é deitado e analisa-se sua abertura de boca por meio de um paquímetro que realiza as medidas faciais a partir do incisivo central superior. Quando há ausência de dentes, a medida é realizada a partir do osso alveolar. Mede-se o sorriso dos lábios abertos e fechados. Por meio do goniômetro, realizam-se medidas de rotação de cabeça e mobilidade de pescoço para ambos os lados. Para boa visualização da integridade dos órgãos fonoarticulatórios (OFAs), faz-se exame de palpação intraoral, buscando verificar a integridade dos músculos em relação à contração e contratura, a presença de nódulos na mucosa oral interna e o grau de dor que o paciente refere (BRAVO et al., 2016). Figura 1 - Sequela de queimadura em face e pescoço. Fonte: Bravo et al. (2016). 43WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Com os dados sobre o tipo de queimadura e com as medidas orofaciais realizadas por meio do paquímetro, é possível visualizar os movimentos mandibulares, tais como lateralização e protrusão, e prever a possibilidade de movimentos advindos com terapia (pois tendem a ficar travados com o processo de cicatrização tegumentar) (TOLEDO; ARRUNATÉGUI, 2004). É imprescindível que, no decorrer do tratamento, tenha-se estabelecido uma escala de dor de 0 a 10 e que se tenhaobservado a evolução de sessão a sessão. Na segunda parte da avaliação fonoaudiológica, determina-se o aspecto funcional da mímica facial e as funções estomatognáticas. Para perceber a dinâmica dos músculos da mímica facial, solicita-se que o paciente realize expressões faciais como raiva, medo, preocupação, espanto ou alegria. Durante a excursão, observa-se a simetria facial. Com essas informações, é possível traçar um prognóstico mais assertivo, que leva em consideração a retração tecidual (FREITAS; SOUZA, 2005). Quanto à respiração, observa-se, na avaliação, se há esforço durante a inspiração e expiração, principalmente, quando se acomete a região do tórax e há limitação de expansão da caixa torácica. A articulação da fala apresenta-se reduzida e alentecida. Figura 2 - Cicatriz de queimadura na região de face, pescoço e tórax. Fonte: Bravo et al. (2016). 44WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 3 - Início do processo de retração em região perioral. Fonte: Borges, Vieira e Barreto (2011). Figura 4 - Primeira órtese para alongamento das comissuras. Fonte: Borges, Vieira e Barreto (2011). Figura 5 - Ganho vertical na abertura oral. Fonte: Borges, Vieira e Barreto (2011). 45WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 6 - Segunda órtese para alongamento horizontal de retração infraorbitária. Fonte: Borges, Vieira e Barreto (2011). Figura 7 - Abertura oral completa com amadurecimento das cicatrizes e sem retração infraorbitária. Fonte: Borges, Vieira e Barreto (2011). Como os músculos faciais atuam como auxiliares dos músculos mastigatórios, a insuficiência fisiológica desses elementos leva à redução direta dos movimentos da mastigação e articulação, em uma relação direta de causa e efeito. Devido à rigidez da face e do pescoço causada pela cicatrização, os movimentos dos músculos supra-hioideos interferem na deglutição e na fonação. Andrade, Lima e Albuquerque (2010) ensinam que o processo terapêutico se inicia na unidade de terapia intensiva e na enfermaria, com respiração. Utiliza-se o suspiro como técnica suave para promover a expansão torácica e transmitir sensações tranquilas, usando-se bastante o nariz e a boca, elevando-se a língua e os ombros sem trabalhar o tipo respiratório, mas apenas usando as vias aéreas. O paciente deve estar consciente e colaborativo. No início da atuação fonoaudiológica, preconiza-se o restabelecimento das funções de respiração e fonação na fase ativa do paciente, ou seja, quando ele está colaborativo. Trabalhando na fase da expiração, solicitamos vocalizações dos fonemas /s/ e /z/, vibração de lábio e de ponta de língua, já promovendo a extensão e a intensidade da qualidade vocal. Reduzindo o esforço durante a produção da fala e adequando o ritmo respiratório, de modo geral, o paciente deve estar sentado ou deitado. Trabalha-se bastante com movimentos da língua, a qual está interligada a muitas funções estomatognáticas: 46WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - rotação de língua nos sentidos horário e anti-horário na região do vestíbulo oral. - movimentos isométricos de empurrar as bochechas internamente e empurrar o palato associado ao sorriso forçado para elevação dos músculos faciais e supra-hioideos. As funções de mastigação, deglutição e articulação são trabalhadas de forma indireta no dia a dia da pessoa, salvo em casos de perda de massa muscular, como no caso de queimaduras elétricas (LOPES FILHO et al., 2013). Os músculos agem por encurtamento das fibras que formam o ventre muscular. Os tendões são elementos passivos de transmissão, que servem para fixação dos músculos em ossos ou outros órgãos. Quando ocorre a contração muscular, há o encurtamento que aproxima dois pontos: o de origem e o de inserção. Por conta da queimadura, há redução dos feixes, fazendo com que a espessura do músculo fique aumentada (ANDRADE; LIMA; ALBUQUERQUE, 2010). As massagens realizadas nos pacientes queimados devem ser realizadas sempre com a hidratação de uso tópico para facilitar com que as manobras atuem no tecido lesionado. O ideal é que o hidratante, manipulado ou não, seja indicado pelo médico. Durante as manobras, deve- se, idealmente, questionar o paciente quanto ao limiar de dor, especialmente nas manobras para mobilidade da mandíbula. Procede-se a manobras isométricas intraorais com alongamento dos feixes musculares facial e mastigatório, no sentido da fixação supero-inferior, subdivididos em feixes mastigatórios no sentido do músculo masseter, feixes faciais no sentido dos músculos zigomáticos, feixes faciais no sentido do músculo risório, feixes musculares no sentido do músculo orbicular do lábio no sentido médio distal (TOLEDO; ARRUNATÉGUI, 2004). Indica-se a leitura do artigo disponível em http://rbqueimaduras. org.br/details/62/pt-BR/queimadura-de-face--abordagem- fonoaudiologica-na-prevencao-de-microstomia. Nele, você encontrará um estudo de caso de bastante sucesso, abordando o uso de órteses e exercícios miofuncionais. 47WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.3 Protocolo de Avaliação - SCQ: Superfície Corporal Quei- mada / OFAs: Órgãos Fonoarticulatórios Figura 8 – Protocolo de avaliação fonoaudiológica. Fonte: A autora. No ambulatório da psicologia de tratamento a pacientes queimados, desenvolve- se o trabalho de reestruturação da imagem corporal do paciente. Cada paciente procura recursos para se reestruturar da morte vivida pelo acidente, começando pela aceitação do novo corpo e da experiência vivida. 48WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2 CIRURGIA ORTOGNÁTICA De Acordo com Schilder (1994), a imagem corporal é a figuração do corpo que formamos em nossa mente. Ela é extremamente importante para o ser humano, pois está diretamente ligada à formação da identidade das pessoas. Muitas vezes, a cirurgia ortognática é solicitada para que se melhore a imagem estético-facial constituída pelo indivíduo. Estando de acordo com a real necessidade, faz parte de um plano de tratamento elaborado pelo ortodontista em conjunto com o cirurgião maxilo-facial. O objetivo principal é proporcionar harmonia ocluso-facial (ARAÚJO, 1999). Esse procedimento visa ao tratamento de pacientes com deformidades dentofaciais, atuando na modificação de tais estruturas ósseas e, de modo geral, provocando discrepância entre maxila e mandíbula. Envolve, também, regiões do zigomático, nariz e demais estruturas faciais que podem ser corrigidas pela cirurgia ortognática (SOUZA, 1998). A finalidade principal desse procedimento é a obtenção de uma oclusão equilibrada, em harmonia estética e funcional com as estruturas maxilofaciais. Isso significa, ao mesmo tempo, uma face harmônica e estética, além de um aparelho mastigatório (FALTIN JR.; KESSNER, 1992). Entretanto, Graber e Vanarsdall (2002) observaram que as pessoas que procuram a cirurgia ortognática almejam contentamento estético e que cada sujeito que se dispõe ao procedimento apresenta suas próprias razões motivadoras para tal. No entanto, ressalte-se que as necessidades funcionais e as condutas cirúrgicas podem requerer a intervenção na maxila, mandíbula ou em ambas, de acordo com a necessidade do caso. A escolha do procedimento cirúrgico deve priorizar o máximo de ganho estético com a solução, é claro, do problema funcional. Sendo assim, pode haver interferência nas duas estruturas a fim de se obter o resultado mais próximo do ideal. Mudanças faciais, advindas da melhoria das más formações esqueletais, têm se mostrado verdadeiramente extraordinárias, e o efeito facial do tratamento ortognático tem superado as metas propostas. Laureano Filho et al. (2002) confirmam que utilizaram técnicas de cirurgia ortognática combinada (maxila e mandíbula)para os casos de: hipoplasia condílea com assimetria facial associada à mordida cruzada; retrognatia mandibular severa associada à protrusão maxilar; e nos casos de mordida aberta esqueletal da maxila associada à assimetria facial por hiperplasia condilar. 2.1 Lesões Nervosas Decorrentes da Cirurgia Ortognática Bimaxilar Mediante as distintas condutas, Gent, Shefer e Frank (2003) atestam que a função do palato e da língua pode sofrer comprometimento, pois a cirurgia ortognática interfere no desempenho do nervo facial e lingual, responsável pela função do gosto. A artéria palatina é ramo da artéria maxilar interna, cuja entrada no véu palatino é subperióstea por meio do orifício palatino posicionado longitudinalmente em todo o palato. Existe risco de lesão quando se efetuam grandes descolamentos de muco periósteo do palato, o que pode comprometer intensamente a sensibilidade olfatória (SALVADO; SOUSA, 2005). Marcantonio et al. (2000) afirmam que uma deficiência motora pode ocorrer sem trauma direto ao nervo, mas, sim, apenas pela compressão provocada pelo tracionamento dos tecidos pelos afastadores. Quando o nervo não é rompido, mas apenas traumatizado, a paralisia facial resultante deverá ser temporária, retornando completamente à função após períodos variáveis de 3 a 12 meses. 49WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Segundo Santos et al. (2006), a paralisia do nervo facial decorrente de cirurgias bucais é considerada incomum. Geralmente, a morbidade é provocada por erro técnico operatório, que pode ir desde uma má introdução e deposição do líquido anestésico durante o bloqueio do nervo alveolar inferior até traumas na manipulação dos tecidos. A redução do risco de paralisia do nervo facial em cirurgias bucais está associada à prevenção dos acidentes e complicações durante as injeções anestésicas mandibulares (SILVEIRA, 1998). Lent (2004) explica que o nervo trigêmeo é composto por fibras sensoriais e motoras: as primeiras inervam a pele da face, córnea, cavidades nasal e oral, dentes e a dura-máter; as segundas inervam os músculos da mastigação e o músculo tensor do tímpano. Rosenbauer et al. (2001) apontam que o nervo trigêmeo possui três ramos principais: os nervos oftálmico, maxilar e mandibular, além de seus ramos terminais (os nervos supraorbital, infraorbital, nervo mandibular/mental e suas respectivas terminações, que seguem inervando a região facial). O nervo maxilar, como algum outro ramo terminal, é temido em cirurgias inesperadas e nas fraturas do maxilar devido aos intensos sangramentos. Quando a fratura acontece, geralmente, os ramos do nervo mandibular também sofrem algum tipo de injúria (PERRY; GOLDBERG, 2000). Pereira (2004) afirma que o nervo mandibular se divide em um número de ramos subdivididos em anterior e posterior. Dentre esses ramos, estão o nervo lingual e o nervo alveolar inferior. O nervo lingual estende-se entre os músculos pterigoideo medial e pterigoideo lateral, em forma de arco para frente e para baixo. Este, por sua vez, possui várias ramificações. Por meio da corda do tímpano (ramo comunicante do VII par), recebe fibras do nervo facial para os botões gustativos, bem como as fibras secretórias para a glândula submandibular e sublingual. O nervo lingual tem os seguintes ramos: inervação das tonsilas palatinas, ramos comunicantes com o nervo hipoglosso, nervo sublingual (inervação da gengiva e mandíbula, em parte) (ROSENBAUER et al., 2001). O nervo alveolar inferior desce anteriormente à artéria de mesmo nome e profundamente ao pterigoideo lateral. Em seguida, passa entre o ligamento esfenomandibular e o ramo da mandíbula e, então, através do forame e canal mandibular. O nervo alveolar inferior origina o nervo milo-hioideo; então, o nervo alveolar inferior percorre o canal mandibular e origina os nervos dentais inferiores e nervos gengivais. Ao chegar no forame mental, o nervo alveolar inferior origina o nervo mental, que passa através do forame e dos nervos incisivos, parte terminal do nervo (O’RAHILLY, 1988). Rosenbauer et al. (2001) apontam que o nervo alveolar inferior é o ramo mais forte do nervo mandibular, contendo fibras tanto motoras quanto sensitivas, inervando também a pele e a mucosa do lábio inferior. Refletindo uma lesão dos vasos no canal mandibular, também o nervo alveolar inferior (V/3) poderá romper-se no caso de um grande deslocamento. A sequela é a anestesia da região suprida pelos nervos alveolares inferior e mental. As apreensões e os alongamentos do nervo levam a anestesias passageiras ou parestesias, que, em geral, regridem após a exata reposição de fragmentos. Para Pereira (2004), a sensação anormal de anestesia, parestesia e disestesia do nervo alveolar inferior e nervo lingual pode ser indicativa de intervenção micro-neurocirúrgica. A perda da sensibilidade do nervo por mais de 2 meses é considerada como agravo severo por esmagamento (axonotmese) ou agravo de transecção (neurotmese), sendo indicada a exploração cirúrgica. Quanto mais cedo ocorrer a exploração, melhor o prognóstico de reinervação devido à diminuição da chance de atrofia da parte distal do nervo, fibrose e atrofia do receptor sensorial, o que ocorre com o tempo. Para San’t Ana e Janson (2003), a técnica cirúrgica mais utilizada para interferências na maxila e mandíbula é a osteotomia Lê Fort I da maxila. Essa técnica é utilizada para correção das retrusões maxilares e dos excessos de crescimento vertical. 50WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA De acordo com Araújo (1999), algumas complicações que podem ocorrer na osteotomia do tipo Lê Fort I são hemorragias, mau posicionamento da maxila, fraturas indesejadas, danos ao sistema nervoso, desvio de septo, incompetência velofaríngea e disfagia. A osteotomia multissegmentar da maxila é indicada com bastante segurança nos casos em que se necessita de correção da discrepância transversa e anteroposterior ou súpero-inferior, podendo-se resolver as alterações nos três planos de espaço em um só procedimento. Na osteotomia sagital do ramo ascendente da mandíbula redefinida, a técnica utilizada visa a correções dos prognatismos mandibulares e permite o deslocamento anteroposterior e látero-lateral da mandíbula, sem que haja sobrecarga condilar. O corte é feito próximo à entrada do feixe vascular do nervo alveolar inferior e estende-se vestibularmente a ele, preservando sua integridade, evitando, assim, qualquer tipo de parestesia permanente na mandíbula (SAN’T ANA; JANSON, 2003). Em relação ao procedimento da osteotomia sagital do ramo ascendente, Araújo (1999) ressalta ser ela a prática mais utilizada em cirurgia ortognática. Porém, é uma técnica muito difícil e sensível, o que pode gerar algumas complicações, como fraturas em locais não planejados, dano no nervo alveolar inferior, hemorragia da artéria alveolar inferior, lesão nos dentes ou ligamentos, além de dificuldades na estabilização dos segmentos. A complicação mais comum em pacientes com osteotomia na mandíbula é a neurossensorial, havendo um déficit na região inervada pelo nervo alveolar inferior (PANULA; FINNE; OIKARINEN, 2001). Gealh e Iwaki Filho (2008) afirmam que muitos pacientes que apresentam lesão nervosa após a cirurgia ortognática recuperam a sensibilidade espontaneamente. No entanto, a depender do tipo de lesão causada ao nervo, alguns relatam sensações anormais que persistem por longos períodos de tempo ou que se tornam permanentes. Uma vez detectada a deficiência sensitiva e/ou motora, cabe ao profissional decidir a conduta mais acertada para cada caso. Assim, acreditando na reversão espontânea, muitos decidem por aguardar um período de tempo e observar a possível recuperação. A propósito, Schultze-Mosgau e Reich (1993) acreditam na recuperação espontânea da parestesia dentro de um período entre três a seis meses. 2.2 ReabilitaçãoFonoaudiológica Campiotto (2004) destaca a atuação fonoaudiológica com o objetivo de intervir em pacientes submetidos à cirurgia ortognática com vistas a tratar, principalmente, das sequelas funcionais causadas pelo extenso período de imobilidade e decorrentes do uso de bloqueios intermaxilares ou das neuropraxias observadas após a manipulação de nervos motores que se encontravam no caminho das osteotomias realizadas. A cirurgia ortognática é bastante complexa e requer planejamento minucioso. Um dos instrumentos utilizados nesse planejamento é o projeto em 3D, por meio do qual se visualizam digitalmente o padrão atual e um padrão aproximado no pós-cirúrgico. O Vídeo em 3D para ilustrar cirurgia ortognática classe II: vídeo para animação educacional do paciente classe 2 encontra-se disponível no link https://www.youtube.com/watch?v=KWHYmrd_jdM. 51WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Nessa mesma seara, Berretin-Felix (2004) ressalta que o fonoaudiólogo representa importante papel junto à equipe de cirurgia ortognática, agindo na reorganização neuromuscular necessária para que a execução de todo o sistema estomatognático esteja em harmonia após a correção das bases ósseas. Assim, obtém-se significativa estabilidade pós-cirúrgica e há diminuição do risco de recidivas ou instalação de quadros de disfunções. Estudos de Morelli (2001) confirmaram que o trabalho fonoaudiológico proporciona adequação da musculatura perioral, postura global, propriocepção, sensibilidade, mastigação, deglutição, respiração e da articulação da fala. O ideal é que o fonoaudiólogo possa participar de todo o processo desde seu início, ou seja, desde o momento do diagnóstico. Nesse caso, o diagnóstico diz respeito à possibilidade de se detectarem alterações miofuncionais orais que possam comprometer o resultado obtido pela ortodontia e pela cirurgia. A fase pré-cirúrgica do atendimento fonoaudiológico é denominada conscientização, pois, em um período de dois ou três meses anteriores à cirurgia, o trabalho do fonoaudiólogo visa a desenvolver a percepção dos mecanismos e padrões musculares envolvidos nas funções orais, além de atentar para a postura habitual dos órgãos fonoarticulatórios (BERRETIN-FELIX, 2004). Douglas (1998) destaca a importância de já se prevenir o paciente quanto às alterações sensitivas que podem vir a ocorrer nos lábios, língua, gengiva e palato duro, em relação às outras estruturas orais ou extraorais. Os receptores de tato, localizados na mucosa bucal, são muito semelhantes aos receptores do tato cutâneo. Eles desenvolvem papel importante na fisiologia bucal, uma vez que, além de levarem à sensação de toque, despertam reações motoras bucais importantes, como o reflexo da mastigação, pelo qual, excitando-se receptores da língua e palato duro, reflexivamente, produz-se a excitação da musculatura elevadora da mandíbula com fechamento da boca. O paciente, uma vez bem informado sobre o processo cirúrgico, bloqueio intermaxilar, possíveis alterações sensitivas e reabilitação, sente-se mais seguro e torna-se mais colaborador (BIANCHINI, 1995; CAMPIOTTO, 2004). Na fase do pós-operatório, deve-se considerar a presença de edemas, tempo e o tipo do bloqueio intermaxilar ao qual o paciente foi submetido. Esses fatores estão relacionados a alterações de mobilidade mandibular e da musculatura orofacial e, ao mesmo tempo, a alterações de sensibilidade. Para Souza, Campiotto e Freitas (1997), a perda da sensibilidade gustatória, principalmente na região de mucosa vestibular e lábios, pode influenciar a postura dos lábios no repouso e a execução das funções. O tratamento fonoaudiológico, após a retirada do bloqueio intermaxilar, tem como objetivos: introduzir gradativamente a alimentação sólida; adequar funções estomatognáticas, o tônus muscular e a mobilidade; automatizar posturas de lábios e língua; retirar padrões persistentes; e trabalhar sequelas sensitivas (MORELLI, 2001). O trabalho fonoaudiológico que compreende os períodos pré-operatório e pós-operatório imediato estende-se ao momento de (re)equilíbrio oromiofuncional para prognóstico favorável após a cirurgia ortognática. Para Souza (2009), a reabilitação se inicia com orientações que antecedem a cirurgia, preconizando a conscientização quanto aos padrões alterados e pretendidos, quanto aos hábitos e posturas orofaciais ideais a serem adequados, bem como quanto à imediata intervenção pós- operatória que proporciona a mobilidade do sistema sensório-motor orofacial, precursora da motricidade. Esta requer adequada sensibilidade para funcionamento efetivo, assim, correlaciona- se o prognóstico estabelecido pela eficácia terapêutica no equilíbrio neurossensorial. 52WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 3 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS De acordo com estudos desenvolvidos nas áreas de reabilitação em queimados de face e pescoço, bem como envolvendo o restabelecimento de pacientes ortocirúrgicos, as alterações aparecem no sistema estomatognático e em suas funções. Esclareceu-se que a Fonoaudiologia, por meio da MO, pode contribuir de forma bastante favorável à reabilitação desses pacientes, trazendo-lhes mais mobilidade e funcionalidade orofacial em ambos os acometimentos. Atualmente, existem bastantes pesquisas científicas na área que asseguram o sucesso da terapia fonoaudiológica e da parceria com as demais especialidades, tudo visando à melhora do paciente. 5353WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 04 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ...............................................................................................................................................................54 1. COMO OCORRE O ENVELHECIMENTO..................................................................................................................56 1.1 A FONOAUDIOLOGIA NA ESTÉTICA ......................................................................................................................57 1.2 RUGAS E MARCAS DE EXPRESSÃO ....................................................................................................................59 1.3 TIPOS DE RUGAS ...................................................................................................................................................59 2. GUIA DE EXERCÍCIOS OROFACIAIS DIRECIONADOS À ESTÉTICA FACIAL .......................................................63 3. PROTOCOLO DE ANAMNESE E AVALIAÇÃO FONOAUDIOLÓGICA ESTÉTICA ...................................................65 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...........................................................................................................................................69 MOTRICIDADE OROFACIAL APLICADA À ESTÉTICA DA FACE PROF.A KESSY ANNIE DE OLIVEIRA SOUZA ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: MOTRICIDADE OROFACIAL 54WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Ao longo do tempo, os padrões de beleza vêm se alterando. Na Idade Média, as senhoras eram mais apreciadas pela sociedade. No Renascimento, a beleza era representada pelo Homem de Vitrúvio, de Leonardo da Vinci. Uma das mais concretas descrições de beleza foi feita por São Tomás de Aquino, para quem a emoção nos é provocada pela estética. O ser humano olha, primeiramente, o rosto, que é beleza externa. No rosto, trazem-se as marcas do tempo e da vida. O rosto humano é de extrema complexidade, chegando alguns a dizerem que ele reflete a alma do indivíduo. Às vezes, revela o que não se diz com palavras ou o que não se quer mostrar. Ele expressa emoções fundamentais. Por outro lado, mais do que as outras partes do corpo, a face mostra precocemente os sinais de envelhecimento. A pele requer certos cuidados, pois o clima, o estilo de vida, a correria do dia a dia, o estresse e a alimentação influenciam negativamente no processo de envelhecimentofacial. Segundo Brito (1990), envelhecer é um processo natural, devendo-se evitar traumas e viver com cuidados adequados. No início do século passado, o ser humano não ultrapassava os 50 anos de idade. Hoje, é comum vermos pessoas chegarem aos 80 ou 90 e esbanjando jovialidade. Conforme Vieira (1996), a senescência é o processo de envelhecimento normal e benigno que se estende por todo o curso de existência humana, trazendo consigo, consequentemente, o desgaste fisiológico relativo ao passar dos anos. O envelhecimento é progressivo e degenerativo, caracterizado por menor eficiência funcional, acarretando o enfraquecimento dos mecanismos de defesa, a diminuição da cognição, das respostas reflexas e do estado de alerta, além do enfraquecimento da estrutura óssea e da diminuição da massa muscular. Como se não bastasse, o envelhecimento acarreta significativa mudança na aparência, com embranquecimento dos cabelos e dos pelos em algumas partes do corpo. A pele se enruga por desidratação. Pode ocorrer amolecimento dos dentes e, até mesmo, ausência deles, o que causa encolhimento da parte inferior do rosto. O nariz se alonga verticalmente por atrofia dos tecidos elásticos, aproximando-se do queixo. Há engrossamento das pálpebras superiores, o lábio superior míngua e os lóbulos das orelhas aumentam (BEAUVOIR, 1990). O esqueleto passa por modificação: os discos intervertebrais se achatam e a coluna verga, diminuindo o tamanho do busto. O padrão de funcionamento cardíaco se altera, perdendo progressivamente sua capacidade de adaptação. A circulação cerebral torna-se mais lenta e a força muscular diminui, bem como a dinâmica dos movimentos, flacidez muscular e redução das acuidades visual e auditiva. Tato, olfato e paladar também sofrem redução em suas capacidades. Com o aumento da expectativa de vida, a juventude passa a ser mais valorizada, tornando o jovem e o belo cultuados como ideais. Por isso, as pessoas mais próximas dos sinais do envelhecimento sofrem muito (FRANCO; SCATTONE, 2002). Diante desse panorama, muitas técnicas foram desenvolvidas para acompanhar a busca pela beleza. Dentre elas, citam-se: botox, peeling, cirurgias, dentre inúmeras outras. 55WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Mulheres de proporções ideais, sorriso branco, cabelo liso e roupa impecável estão em todos os lugares. Estampam capas de revista, vendem produtos na TV e se exibem em catálogos de moda. Por isso, carregam o status de perfeição e viram exemplos a serem seguidos por outras mulheres, as que habitam o único lugar onde as “perfeitas” não estão, qual seja, a tal da vida real. Sobre isso, ler texto disponível em https://www.uol. com.br/universa/noticias/redacao/2013/02/04/questionar- padroes-de-beleza-e-essencial-para-a-autoimagem.htm?cmpid=copiaecola. 56WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1. COMO OCORRE O ENVELHECIMENTO O envelhecimento se inicia nos tecidos, com a diminuição das células renováveis e não renováveis. Ocorre mudança dentro das células. Seu DNA, por nunca ter sido renovado, torna-se rígido e perde informações genéticas, com progressivas mudanças metabólicas e morte celular. Isso causa alterações internas e externas no organismo. Mediante tais alterações celulares, substituem-se as células mortas por tecido cicatricial, atrofia desigual e desarmônica, resultando em um aspecto desordenado dos tecidos e tornando as fibras ressecadas e menos elásticas. Há, também, diminuição da vascularização, diminuição da água total existente no organismo e, por fim, aumento da quantidade de gordura corporal (BRITO, 1990). Brito (1990) ainda trata dos radicais livres no processo de envelhecimento, resultados que são das reações químicas ocorridas no interior das células. Os radicais livres liberam substâncias perigosas que oxidam as células por dentro. Quando eles não são eliminados, isso pode eliminar os componentes vitais das células, causar mudanças em seu DNA, modificando, assim, o código genético e dando origem a células perigosas. O organismo produz enzimas que, por ação química, são capazes de neutralizar a ação dos radicais livres. Entretanto, a quantidade dessas enzimas tende a diminuir, deixando o organismo mais vulnerável à ação dos radicais livres. De acordo com Vieira (1996), um dos métodos para combater a ação dos radicais livres são dietas que preconizam o uso de substâncias antioxidantes, no intuito de se fortalecerem as defesas orgânicas e, com isso, preservar-se por mais tempo a capacidade funcional das células. Essas substâncias, em sua maioria, são encontradas na dieta normal: trata-se das vitaminas C, E e betacaroteno. Outros que atuam conjuntamente para o benefício das células são alguns sais minerais, como zinco, selênio, magnésio e cálcio, os quais, apesar de serem de ação indireta, potencializam a composição das enzimas naturais. Por isso, deve-se refletir cada vez mais sobre os cuidados e a qualidade dos alimentos ingeridos, pois isso influencia na saúde de modo geral e na longevidade. Em 2008, foi reconhecida e aprovada pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia esta nova e estimulante abordagem de tratamento: a Fonoaudiologia Estética Facial, com base na MO. Acerca disso, a Resolução CFFa nº 352, de 5 de abril de 2008, dispõe sobre a atuação profissional em Motricidade Orofacial com finalidade estética. 57WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.1 A Fonoaudiologia na Estética Acompanhando a evolução científica e tecnológica, a Fonoaudiologia é ciência que tem como objeto de estudo a comunicação humana, contemplando aspectos envolvidos na função auditiva periférica e central, na função vestibular, na função cognitiva, na linguagem oral e escrita, na fala, na fluência, na voz, nas funções oromiofuncionais e na deglutição (CFFa). Pelo seu trabalho na área de MO, desenvolveu-se o tratamento preventivo e interventivo na estética facial. A atuação do fonoaudiólogo com finalidade estética foi regulamentada pela Resolução nº. 352, de 5 de abril de 2008, do Conselho Federal de Fonoaudiologia. A intervenção terapêutica com base científica, desenvolvida pelo conhecimento técnico de MO, contribui à qualidade de vida do indivíduo, proporcionando equilíbrio e harmonia à face, prevenindo e minimizando as rugas e sinais de expressão. • Alguns dos objetivos da fonoaudiologia estética são: • Adequar as funções estomatognáticas da respiração, sucção, mastigação, deglutição e fala. • Harmonizar o estético e o facial. • Estimular a oxigenação e a vascularização facial e cervical. • Proporcionar hábitos orais, faciais e cervicais adequados. • Prevenir o aparecimento de sinais de envelhecimento. • Minimizar ou eliminar as mímicas faciais exacerbadas ou inadequadas. • Fortalecer e sustentar músculos da face. • Equilibrar as forças musculares do pescoço e da face. • Adequar a postura de repouso facial. Em cada indivíduo, o envelhecimento ocorre de forma única e específica. Os fatores externos agridem o organismo e aceleram o processo de envelhecimento; dentre eles, os mais conhecidos são: tabagismo, etilismo, poluição ambiental, exposição exagerada às radiações solares, dentre outras. Portanto, o envelhecimento não está vinculado unicamente ao tempo de vida da pessoa, mas, também, ao modo como se viveu e às funções que se perdeu (TASCA, 2004). Além desses hábitos deletérios mais conhecidos, existem outros que interferem diretamente: - Hábitos intraorais: sucção digital, sucção lingual, sucção labial, sucção das bochechas, sucção de cobertor ou lençol. Morder os lábios, morder a língua, respiração oral, onicofagia, bruxismo, dentre outros. - Hábitos extraorais: apoiar o queixo, apoiar o rosto sobre a mão, posições anormais durante o sono, dormir habitualmente de um único lado da face. Para Zemlin (2000), o estresse é fator que tem sido amplamentedivulgado, cujos fatores nocivos ao corpo de modo geral já sã conhecidos. Em se tratando da estética facial, o estresse provoca envelhecimento das células no corpo. O estresse transitório, que aparece em momentos em que se exige mais esforço físico ou mental, não causa tantos malefícios; contudo, o estresse crônico causa baixa no sistema imunológico e deixa o indivíduo mais vulnerável às doenças e, consequentemente, mais envelhecido. 58WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 1 - Causadores do envelhecimento precoce. Fonte: A autora. As dietas frustrantes e as revistas que julgam nossa aparência como errada repetem, o tempo todo, que devemos negar nosso corpo e que devemos dar o máximo da nossa energia e saúde em busca do “corpo dos sonhos”. Em uma cultura patriarcal, são comuns o apagamento de nossa individualidade e a padronização da nossa imagem. A esse respeito, assista ao filme Embrace, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=gL-Ia2DTtEs. Figura 2 – Filme Embrace. Fonte: Warken (2017). 59WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.2 Rugas e Marcas de Expressão Consoante Franco e Scattone (2002), as rugas têm sua origem na ação dos músculos da mímica facial, com a lei da gravidade atuando sobre a pele flácida, umas mais, outras menos. São denominadas rugas de expressão, resultantes da contração muscular sobre uma pele que já não possui nem mais tanta elasticidade nem capacidade de recuperar sua forma diminuída. Os músculos faciais são os mais delicados e frágeis do corpo humano, inserindo-se diretamente na cútis e na mucosa. Estão funcionalmente relacionados à alimentação, mastigação, fonação, respiração, piscar dos olhos etc. A sua contração movimenta a pele do rosto e produz uma depressão, que, com o tempo, transforma-se em ruga e sulco. O dia a dia do século XXI vem cheio de facilidades, inclusive relacionadas à alimentação. Utilizam-se muitos alimentos cozidos, até mesmo alguns legumes e verduras, que poderiam ser consumidos em sua forma natural (FRANCO; SCATTONE, 2002). Liquidificadores, processadores, micro-ondas e outros utensílios facilitam o nosso cotidiano. No entanto, essa modernidade aparente interfere no desempenho de várias funções do nosso organismo, especialmente, no sistema estomatognático, que, se for pouco estimulado no seu desenvolvimento, influencia o complexo craniofacial, com repercussões na expressão facial (FERRAZ et al., 2007). Segundo Lessa (2005), nossa face é a representatividade de nossas emoções, nela ficando registradas alegria, tristeza, dor, preocupação e depressão. Todas essas emoções ficam estampadas em nosso semblante, e os movimentos carregados de estresse agravam os sulcos e as rugas, levando ao envelhecimento precoce. Uma vez que a terapia fonoaudiológica é um método de tratamento que pode aumentar a força muscular do sistema estomatognático, podendo devolver a estabilidade morfofuncional às estruturas orofaciais e, consequentemente, devolver a estética, a incorporação de protocolos de adequação funcional facial com exercícios orientados na rotina diária tende a atenuar as linhas de expressão já fixadas na pele. 1.3 Tipos de Rugas De acordo com Tasca (2002), existem basicamente dois tipos de rugas: as rugas de expressão e as rugas de sulco. - Rugas de expressão: decorrentes de uso repetitivo dos músculos das expressões faciais ao longo da vida. Podem estar relacionadas a hábitos viciosos. - Sulcos: decorrentes da hipotonia da pele e muscular, ocasionados pela ação da gravidade na derme e na hipoderme. No trabalho fonoaudiológico, o objetivo será trabalhar a flacidez de origem muscular, pois a pele é um órgão de revestimento, e o músculo é que lhe dará volume. Consequentemente, melhora o tônus muscular e haverá melhora importante na aparência tegumentar. Por isso, o fonoaudiólogo focará em massagens e exercícios que visem ao aprimoramento muscular. 60WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 3 - Linhas de expressão. Fonte: A autora. Nos últimos anos, a cirurgia plástica tem tido larga apresentação e muito aperfeiçoamento de suas técnicas, propiciando o benefício dos indivíduos em suas necessidades individuais. A área da MO tem sido a especialidade que mais faz interfaces com outras áreas de atuação. A Fonoaudiologia Estética tem se destacado muito por agregar beleza, estética e motricidade orofacial, já que as expressões, movimentos e funções faciais estão diretamente ligados ao sistema estomatognático, que, devido a tais movimentos repetitivos no decorrer da vida, participa na formação das rugas em nosso rosto (SANTOS; FERRAZ, 2011). Ainda existem muitos questionamentos sobre a atuação do fonoaudiólogo na estética. Frazao, Manzi e Betacci (2012) enfatizam que o fonoaudiólogo especialista em MO poderia avaliar e atuar no pré- e pós-cirurgia plástica facial. Contudo, deve-se levar em consideração a carência de informações sobre essa atuação por parte da sociedade e dos profissionais que atuam na estética da face. A MO é uma das quatro áreas da Fonoaudiologia que tem como objetivo o conhecimento do funcionamento do sistema estomatognático. Esse sistema é formado por estruturas estáticas ou passivas, representadas pelos arcos osteodentários, maxila e mandíbula, relacionados entre si pela articulação temporomandibular, ossos cranianos e osso hioide. Conforme Paes, Toledo e Silva (2007), as estruturas dinâmicas ou ativas são formadas por uma unidade neuromuscular que mobiliza as partes estáticas. Essas estruturas são equilibradas e controladas pelo sistema nervoso central, sendo responsáveis pelas funções de deglutição, sucção, respiração, mastigação e fala. A Fonoaudiologia, atuando na área estética, preocupa-se, também, com a melhora dos mais variados distúrbios orais miofuncionais, buscando aprimorar funções e, assim, alcançar uma face esteticamente harmoniosa. 61WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA PRÉ-CIRÚRGICO Nessa fase, durante a conversa com o paciente, é-lhe apresentado o relatório com os resultados da avaliação fonoaudiológica estética, filmagens e fotos realizadas para o diagnóstico. São ressaltadas as alterações fonoaudiológicas com as alterações estéticas da face e possíveis alterações adaptativas das funções estomatognáticas no pós-cirúrgico imediato. Inicialmente, conversa-se com o paciente. Especula-se sobre suas expectativas em relação à terapia fonoaudiológica, sua queixa e qual seu conhecimento sobre a atuação do profissional de estética. Trata-se de esclarecer o trabalho fonoaudiológico e os benefícios de sua intervenção, ressaltando ser imprescindível a participação ativa do paciente para bons resultados terapêuticos. O paciente deve estar ciente, também, de que é um processo lento e gradual, que se somará ao funcionamento adequado das funções estomatognáticas e à eliminação de hábitos nocivos ao envelhecimento da face (FRAZAO; MANZI; BERTACCI, 2012). PÓS-CIRÚRGICO As sessões pós-cirurgia plástica da face iniciam-se ativamente após 1 mês; entretanto, a partir do 5º dia, mediante liberação do cirurgião, o fonoaudiólogo intervém com a drenagem linfática facial manual e com a crioterapia para diminuição do edema criado pelo trauma cirúrgico, direcionamento e reorganização do fluxo linfático. Também estimula a função de deglutição por meio de alimentos pastosos gelados, como o sorvete, com o fim de diminuir o edema intraoral, ou água gelada ingerida com canudo para pacientes que têm dificuldade de amplitude de boca e pouca mobilidade de lábios inicialmente (FRANCO; SCATTONE, 2002). O restabelecimento da função de mastigação se apresenta adaptada às modificações no processo cirúrgico, com a utilização de alimentos sólidos, como frutas cortadas em cubos, pão de queijo, pão francês, dentreoutros. • Massagens locais, provocando o aquecimento da pele e melhora na circulação local, beneficiam muito o viço e a elasticidade da pele. • Tomar bastante água para hidratação. • Dormir, no mínimo, 6 horas e alternar o lado do rosto no travesseiro. • Diminuir o uso abusivo das expressões faciais, mostrando ao paciente a localização de cada músculo e trazendo-lhe à consciência, por meio de filmagens, os movimentos desnecessários causadores de rugas e vincos. O link a seguir apresenta o artigo completo contendo o guia de exercícios miofuncionais voltados à estética facial e o protocolo de avaliação em fonoaudiologia estética: h t t p : / / w w w . s c i e l o . b r / s c i e l o . p h p ? p i d = S 1 5 1 6 - 18462012000600018&script=sci_arttext 62WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA • Alimentação mais saudável, priorizando alimentos mais consistentes, mastigação lenta e bilateral alternada, movimentos amplos de rotação de mandíbula. A função da mastigação é a que devolve o tônus à musculatura; por isso, o ideal é que ela seja estimulada em todas as sessões de terapia. Também é necessário o equilíbrio da função respiratória, pois, quando não se respira bem, a incoordenação interfere na mastigação e causa o enfraquecimento da musculatura facial. Quando a respiração está adequada, ocorre melhor oxigenação de todo o organismo. A deglutição é direcionada por meio de alimentos de variadas consistências, priorizando a postura de língua para melhora da papada no pescoço e nos vincos da boca. A fala é trabalhada nas conversas espontâneas e leituras direcionadas, sempre com filmagens para feedback ao paciente quanto aos movimentos faciais exagerados. • Alongamento da musculatura facial visa à ampliação da fibra e, consequentemente, à diminuição de sua hipercontração, pois o aparecimento de vincos costumar ser na direção das fibras dos músculos da expressão facial (TASCA, 2004). De modo geral, a atuação fonoaudiológica na área estética engloba o reequilíbrio das funções estomatognáticas e a reorganização miofuncional. Essa vertente da Fonoaudiologia é a atuação em MO, acrescida de estudos complementares da área estética para trazer beleza e harmonia facial. A presença do fonoaudiólogo na equipe multiprofissional dar-se-á com vistas à estética facial para planejamento e manutenção dos resultados estéticos da face (SANTOS; FERRAZ, 2011). Figura 4 - Músculos faciais. Fonte: Netter (2011). 63WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2. GUIA DE EXERCÍCIOS OROFACIAIS DIRECIONADOS À ESTÉTICA FACIAL I. Limpar a pele com gaze embebida em água e, depois, secar a pele. II. Manipulação de soltura muscular facial Cliente em decúbito dorsal com as mãos estendidas ao longo do corpo e com os olhos fechados. O movimento é circular e com pouca pressão, com indicador e polegar, manipulando- se todos os músculos de acordo com o sentido da fibra muscular. III. Alongamento da musculatura facial 1. Elevar as sobrancelhas. Segurar alguns segundos. Relaxar. 2. Abrir bem os olhos e fechá-los fortemente. Voltar à posição natural. 3. Fazer bico com os lábios abertos. Segurar. Relaxar. 4. Sorrir largamente. Segurar. Relaxar. 5. Inflar as bochechas. Segurar. Relaxar. 6. Colocar os lábios para a direita e para a esquerda alternadamente. Relaxar. 7. Colocar a cabeça para trás, aproximadamente 60, cruzar a mandíbula e, na maxila, abrir e fechar a mandíbula. Voltar à posição natural. 8. Empurrar o palato duro com a língua. Segurar. Relaxar. 9. Alongar a musculatura do pescoço, fazendo movimentos de “sim”, “não” e “talvez”. Voltar ao eixo. 10. Realizar alongamento facial intraoral no masseter, risório, zigomático, orbicular dos lábios e abaixador do lábio inferior. IV. Exercícios faciais para estética fonoaudiológica 1. Para suavizar a testa – elevar as sobrancelhas ao máximo possível por alguns segundos e, lentamente, desfazer o movimento. Pode ser feito 20 vezes, contando-se cada vez que se elevam as sobrancelhas. Para o corrugador do supercílio – puxar as sobrancelhas para baixo, em direção aos olhos, franzindo a testa ao máximo, como se quisesse uni-las. Abrir os olhos fortemente, o máximo que puder, elevando também as sobrancelhas. Fazer 7 vezes (contando cada vez que franzir). Para o prócero – testa relaxada, enrugar o nariz, puxando-o para cima até formar linhas profundas, abaixando as sobrancelhas em direção à ponte do nariz (5 vezes). 2. Para os olhos e pálpebras inferiores – fechar os olhos suave e lentamente. Manter as pálpebras superiores fechadas e relaxadas. Elevar as pálpebras inferiores, mantendo os músculos faciais relaxados o máximo possível. Segurar essa posição por 5 segundos. Depois, bem devagar, soltar essa contração, deixando as pálpebras voltarem à posição habitual. Repetir 3 vezes. Pálpebra superior – levantar as sobrancelhas o máximo que puder e mantê-las assim. Com as sobrancelhas levantadas, deve-se abaixar as pálpebras até a metade, cobrindo parte da íris. Nesse momento, abrir bem os olhos, o máximo que puder, até aparecer o branco dos olhos acima da íris. Repetir 3 vezes. 64WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Pés-de-galinha – levantar as sobrancelhas e as pálpebras superiores até poder visualizar o branco do olho acima da íris. Lentamente, deve-se juntar as pálpebras superiores e inferiores. É importante que elas se movam simultaneamente. Nesse momento, de forma bem lenta, deve-se separar as pálpebras (5 vezes, contando cada vez que se separarem as pálpebras). 3. Para as maçãs do rosto – firmar a área superior da maçã – abrir a boca levemente, abrir as narinas olhando no espelho, enrugar o nariz o máximo que puder, com o lábio superior relaxado. Nesse momento, puxar o lábio superior para baixo, até o nariz voltar ao normal (repetir 5 vezes, contando cada vez que enrugar o nariz). Diminuir as rugas entre nariz e canto da boca – elevar as sobrancelhas e dar um sorriso de lado com o canto direito da boca. Manter essa posição. O terapeuta coloca o indicador na face do paciente do lado direito, levantado. O paciente deve levantar a pálpebra inferior do olho direito até fechá-lo. Permanecer 10 segundos e, depois, lentamente deve voltar à posição normal. Repetir do lado esquerdo. Repetir 5 vezes, contando cada vez que fechar o olho. Sulco nasolabial – sorrir com os lábios juntos, voltando os cantos da boca para cima. Continuar pressionando os lábios no movimento de sorrir, separar os lábios para fazer o sorriso, sem aparecer os dentes. Continuar aumentando a tensão. Nesse momento, mantendo os dentes cobertos, deve fazer com que a boca forme um O. Fazer 3 vezes, contando-se cada vez que sorrir. 4. Para as bochechas – tonificar bochechas – sugar as bochechas completamente. Aguardar alguns segundos e relaxar. Repetir 5 vezes. Evitar a formação de papos no canto da boca – colocar os dentes anteriores em topo, mantendo essa posição por 10 segundos, depois fechar os lábios. Nesse momento, lentamente, mover os cantos da boca para fazer a abertura de um sorriso. Deve alargar a extensão do sorriso o máximo possível, sem que os dentes apareçam. Ainda com os dentes juntos, trazer os lábios para a posição de um beijo exagerado com um bico bem grande e com bastante força. Repetir 5 vezes. 5. Para os lábios – fazer bico aberto por uns 5 segundos e relaxar. Repetir 5 vezes. 6. Para a musculatura da papada – colocar a cabeça para trás e cruzar a mandíbula na maxila e voltar à posição natural (10 vezes). Empurrar a língua contra o palato por 4 segundos e depois relaxar. Repetir 8 vezes. V. Segunda etapa – exercícios de contrarresistência 1. Pedir para o cliente elevar a sobrancelha. O terapeuta deverá segurá-la por alguns segundos à medida que o cliente exerce força em sentido contrário. Relaxar. Repetir (5x). 2. Abaixar as sobrancelhas, fazendocara de bravo. O terapeuta as segura e solicita que o cliente as eleve, soltando-as a seguir (5x). 3. Elevar a sobrancelha e o terapeuta segurando o corrugador do supercílio. Solicitar que o cliente faça cara de bravo. Soltar. Repetir. 4. O terapeuta segurando as têmporas do cliente, forçando-as para fora, solicitar que o cliente arregale os olhos e depois faça um olhar míope. Relaxar. Repetir (3x). 5. Segurar com os dedos os músculos zigomáticos (maçãs do rosto) para cima e pedir ao cliente para fazer um bico por alguns segundos e soltar. Repetir (7x). 6. Segurar com os dedos os músculos zigomáticos (maçãs do rosto) para baixo e pedir para que o cliente esboce um sorriso por alguns segundos. Soltar. Repetir (7x). 2. O terapeuta tenta empurrar os bucinadores para fora com espátula intraoral. O cliente deverá contrair as bochechas contra os dentes. Manter os lábios em bico aberto. Soltar. Repetir (5x). 65WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 3. PROTOCOLO DE ANAMNESE E AVALIAÇÃO FONOAUDIOLÓGICA ESTÉTICA 66WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 67WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Avaliaçao da Motricidade Orofacial: protocolo de avaliação; diagnóstico e correlatos para planejamento. 68WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 5 - Protocolo de anamnese e avaliação fonoaudiológica estética. Fonte: A autora. 69WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 4 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS Sugere-se a atuação do fonoaudiólogo no restabelecimento funcional e estético. Os indivíduos aderem facilmente ao tratamento, realizando-o com frequência e relatando sensações de bem-estar e relaxamento. Melhoras na musculatura facial são observadas. Os resultados obtidos com tratamento permitem concluir que a realização sistemática dos exercícios favorece a diminuição de rugas, marcas de expressão e flacidez facial em todos os indivíduos, com variação do grau e localização da melhora. Não existe consenso quanto ao conceito de beleza, sendo ela, por muitos, considerada como uma percepção guiada por aquilo que é agradável aos sentidos. Segundo Platão, a beleza absoluta é o brilho ou esplendor da verdade. Na visão de Sócrates, “o belo é o útil”, ou seja, a beleza não está associada à aparência de um objeto, mas a quão proveitoso ele pode ser. Os padrões de beleza mudaram inúmeras vezes no decorrer da existência humana; contudo, o respeito pela alma humana e sua essência é o que deve prevalecer, sempre. Ame-se, cuide-se, respeite-se. 70WWW.UNINGA.BR ENSINO A DISTÂNCIA REFERÊNCIAS AMARAL, E. C. et al. Inter-relação entre a odontologia e a fonoaudiologia na motricidade orofacial. Revista CEFAC, São Paulo, v. 8, n. 3, 2006. ANDRADE, A. 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Tais funções dividem-se no grupo das funções adaptadas – o beijo, sorriso, mordida, bocejo, dentre outras – e das funções básicas ligadas à alimentação, respiração, sucção, deglutição, mastigação, respiração e fonoarticulação (DOUGLAS, 1998). 6WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.1 Sistema Estomatognático e suas Funções 1.1.1. Sucção O conhecimento do padrão de sucção e deglutição em recém-nascidos é fundamental uma vez que, nos primeiros meses de vida, essas funções são necessárias à nutrição do bebê, além de desempenharem função importante no desenvolvimento do sistema estomatognático e das funções orofaciais. As bochechas do bebê possuem depósitos de tecido gorduroso, denominados sucking pads, localizados entre os músculos masseter e a superfície externa do bucinador, fornecendo firmeza e favorecendo a estabilidade na sucção (GONÇALVES et al., 2001). A mandíbula é pequena e retraída, havendo pequeno espaço intraoral. Esse espaço restrito limita os movimentos da língua, predominando movimentos horizontais. Ademais, não há separação dos movimentos de língua e mandíbula. Para que a sucção aconteça de forma eficiente e coordenada, realizando-se a extração e o direcionamento do leite, é necessário que o bebê apresente reflexos de busca e sucção, vedamento labial ao redor do mamilo, movimentação adequada de língua e mandíbula, ritmo de sucção e coordenação entre sucção, deglutição e respiração (NEIVA, 2000). A sucção nutritiva se dá pela alternância rítmica da sucção, criando pressão na cavidade oral e compressão entre a língua e o palato duro (TAMILLA et al., 2014). A língua realiza movimento anteroposteriores para deglutição do leite. As laterais da língua tocam o palato, formando uma depressão na parte central, e a mandíbula executa movimentos verticais e horizontais, proporcionando uma base estável para a pressão intraoral (DOUGLAS, 2006). O ritmo das sucções é caracterizado por grupos de suções, alternados com pausas. No começo da mamada, o bebê faz longos grupos de sucções com pequenas pausas e, ao final, ocorre a diminuição desses grupos de sucções, aumentando-se as pausas (TAMILLA et al., 2014). Prática muito comum em serviços de saúde é o “dedo de luva” (luva látex estéril, preenchida com algodão em um dos dedos, sendo dado um nó), ofertado ao RN PO RNPT. É uma medida não farmacológica para procedimentos desconfortáveis e dolorosos, que faz parte da conduta rotineira em ambientes de cuidados de alta complexidade. Entretanto, o dedo de luva ofertado por longas horas, enquanto o bebê dorme, pode apresentar perigos, como a obstrução da glote devido à sucção um pouco mais forte, além de poder causar posteriorização de língua, dificultando na pega em seio materno, o que acaba favorecendo o desmame precoce. Também incentiva o mau posicionamento de língua, deixando-a no assoalho da boca. O ideal é a utilização do dedo enluvado, pois há estímulo térmico pelo calor corporal do profissional. A movimentação digital na cavidade oral favorece o movimento anteroposterior da mandíbula e o adequado canolamento de língua. É incumbência do fonoaudiólogo informar, esclarecer e cobrar, da equipe multiprofissional envolvida no atendimento ao RN e RNPT, que a prática do dedo de luva seja deixada de lado. 7WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.1.2 Deglutição O ato de deglutir ocorre, em média, 600 vezes por dia em um adulto desfrutando de boa saúde, das quais 35 vezes se dão por hora, quando se está acordado, e 6 vezes durante o sono. Na vida intrauterina, o feto, a termo normal, deglute, aproximadamente, 500 ml de líquido amniótico por dia. A deglutição é dividida em 3 fases: oral, faríngea e esofágica. Porém, para melhor didática, o processo será dividido em 4 fases, vez que se dividirá a fase oral em 2 fases, quais sejam, a fase preparatória oral e a fase oral propriamente dita (JOTZ; ANGELIS; BARROS, 2010). Fase preparatória oral: inicia-se quando olhamos o alimento e desejamos experimentá-lo. Esse momento consiste no preparo para o início da deglutição e inclui: estímulo sensorial para a vontade de se alimentar, gustação e salivação. Três etapas hierárquicas ocorrem com a introdução do alimento na cavidade oral, chamadas de incisão, trituração e pulverização. Após a deglutição, dá-se início ao processo de digestão. No que tange os alimentos líquidos, esse processo acontece em menos de 1 segundo. Durante essa atividade, os lábios, bochechas e língua devem manter o alimento contido na cavidade oral, prevenindo escape anterior (entre os lábios) ou posterior (na base da língua). A língua participa ativamente da formação do bolo alimentar, pressionando-o contra o palato duro e posicionando-o medialmente na base da língua para ser transportado à orofaringe. Nesse momento, a função cerebelar é ativada para coordenar os estímulos motores dos pares cranianos. A raiz do nervo trigêmeo (V) controla os movimentos da mandíbula; a raiz motora do nervo facial (VII par) realiza o controle dos lábios, bochechas e boca; enquanto o nervo hipoglosso (XII par) responsabiliza-se pelos movimentos da língua na fase preparatória oral. Muito movimentos realizados nessa fase são de controle voluntário. No momento da deglutição propriamente dito, ocorre a elevação hiolaríngea, que aproxima a laringe da cavidade por atividade dos músculos supra-hióideos, que, após a passagem do alimento, voltam para sua posição habitual (JOTZ; ANGELIS; BARROS, 2010). Fase oral: inicia-se a partir da transferência do bolo alimentar da cavidade oral para a orofaringe, ultrapassando a arcada amigdaliana, que é o marco da atividade voluntária. A língua é que impulsiona o bolo alimentar posteriormente. Em um intervalo de 1 segundo, a língua toca o palato duro e transporta o bolo simultaneamente à elevação do osso hioide. Quando a língua está na plenitude de suas funções, não fica resíduo de alimento na cavidade oral. Fase faríngea: a musculatura da faringe é constritora e fica subdividida em três partes: superior, média e inferior. Essa fase é caracterizada por ações coordenadas e muito rápidas. O palato mole se eleva para fechar a nasofaringe, prevenindo o refluxo nasal. Ao mesmo tempo, a língua e o movimento da parede faríngea realizam a propulsão do bolo no sentido caudal. A seguir, a laringe é elevada e ocorre o fechamento da epiglote para proteção de vias aéreas inferiores (VAIs) no nível das pregas vocais e das pregas vestibulares (FURKIM; SILVA, 1999). A musculatura constritora da faringe se contrai no sentido crânio-caudal e impulsiona o alimento até o esôfago, onde ocorrerá a transição faringoesofágica. A porção inferior da faringe e o início do esôfago permanecem contraídos para manter o fechamento da passagem faringoesofágica. O estímulo sensorial da deglutição acontece na faringe, que é transmitido ao tronco cerebral por meio dos IX e X pares de nervos cranianos, glossofaríngeo e vago. 8WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 1 - Fases da deglutição. Fonte: Magalhães (2020). Fase esofágica: o início do esôfago se dá logo abaixo de uma linha tangente que passa a cartilagem cricoidea, que é perceptível à alteração estrutural entre elas. O esôfago é uma estrutura que mede, aproximadamente, 20 cm, seu tubo é cilíndrico e levemente achatado. Após a passagem do bolo pelo esfíncter esofágico superior, a laringe retorna à sua posição normal, e o tônus do esfíncter aumenta para prevenir regurgitação. Ele relaxa1988. PAES, C.; TOLEDO, P. N.; SILVA, H. J. Fonoaudiologia e Estética Facial: Estudos de Casos. Revista CEFAC, São Paulo, v. 9, n. 2, 2007. PAGAN, L. O.; WERTZNER, H. F. Intervenção no distúrbio fonológico por meio dos pares mínimos com oposição máxima. Pró-Fono, Barueri, v. 14, n. 3, 2002. PEREIRA, S. D. da R. Fratura mandibular e lesão nos nervos alveolar inferior e lingual relacionados a extrações de terceiros molares inferiores e a repercussão legal. 2004. Dissertação (Mestrado em Odontologia Legal e Deontologia) – Universidade Estadual de Campinas, Piracicaba, 2004. PERNANBUCO, L. de A. et al. Atualidades em Motricidade Orofacial. Rio de Janeiro: Revinter, 2012. PERRY, P. A.; GOLDBERG, M. H. 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O tempo estimado para essa fase é de 8 a 20 segundos, dependendo do organismo de cada indivíduo. O controle neurológico do esôfago é feito por meio dos ramos do nervo vago X par craniano (JOTZ; ANGELIS; BARROS, 2010). Figura 2 - Fase esofágica. Fonte: Magalhães (2020). 9WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.1.3 Respiração A respiração é um movimento sutil, delicado e, muitas vezes, passa despercebido, sendo um dos nossos atos mais vitais. Ela nos acompanha desde o nosso primeiro momento de vida e há de acompanhar-nos até o último (ELIAS, 2009). Krakauer, Di Francesco e Marchesan (2003) mencionam que, desde que o bebê nasce até cerca de seis semanas a seis meses, sua respiração é exclusivamente nasal. O nariz é a via respiratória preferida, pois permite o aquecimento, umidificação e filtração do ar que chega aos pulmões, além de contribuir para o controle do fluxo de ar. A anatomia do bebê favorece a respiração nasal, pois a relação do tamanho da língua, relativamente maior nesse momento, favorece a coordenação, sucção, respiração e deglutição durante o aleitamento materno. A pressão do dorso da língua sobre o palato duro permite o vedamento da cavidade oral, evitando que o ar passe para a via respiratória e, assim, proteja o bebê contra o engasgo. Toda essa logística dificulta que a criança respire pela boca. Felício (2007) explica que a respiração nasal é a mais adequada, sendo fundamental para o crescimento e desenvolvimento craniofacial harmonioso. Quando uma criança ou adulto apresenta respiração oral, essa condição deve ser considerada patológica. A função principal da respiração é suprir nosso corpo de oxigênio, promovendo trocas gasosas entre o nosso organismo e o meio ambiente. Remove o produto gasoso do dióxido de carbono do metabolismo celular. A troca gasosa é realizada pelos alvéolos, nos pulmões, os quais, por sua vez, também participam da manutenção do pH plasmático dentro da faixa fisiológica, regulando a eliminação do ácido carbônico CO² (TANIGUTE, 2005). PADOVANI, A. R. et al. Protocolo fonoaudiológico de avaliação do risco para disfagia (PARD). Revista da sociedade brasileira de Fonoaudiologia, São Paulo, v. 12, n. 3, 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S151680342007000300007&lng=en&nrm=iso. O Protocolo Fonoaudiológico de Avaliação do Risco para Disfagia foi constituído por três partes: teste de deglutição da água, teste de deglutição de alimentos pastosos, classificação do grau de disfagia e condutas. A disfagia, na fase esofágica da deglutição, pode ser acompanhada de distúrbio de motilidade decorrente das compressões intrínsecas e extrínsecas, de doenças infecciosas, de disfunções endócrinas ou de iatrogenia por procedimentos médicos. O fonoaudiólogo não realiza reabilitação de disfagia esofágica e, sim, o médico especialista gastroenterologista. 10WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Douglas (2002) ressalta que respirar é um processo automático e basicamente involuntário, porém, pode ser modificado quando houver necessidade. Por exemplo: se o indivíduo deseja inspirar mais profundamente ou segurar por um tempo a respiração ou a fala, a tosse ou soluço altera o padrão respiratório. A entrada e a saída do ar no pulmão são repetidas ritmicamente e determinam a frequência respiratória (FR). Um adulto saudável em repouso tem entre 12 a 15 respirações por minuto, espaçadas entre si. O que determina o ritmo respiratório é o sistema nervoso central que, por alças de uma descarga de neurônios excitáveis, é determinado pela sequência de movimentos respiratórios caracterizados pela frequência e magnitude da distensão. O volume desses dois fatores constitui o volume ventilatório por minuto. Quanto ao ritmo normal de uma pessoa em repouso, calcula-se, aproximadamente, 7 litros por minuto. (RIBEIRO; PINTO, 2006). A via nasal, o nariz, as narinas ou a cavidade nasal são estruturas com papel estético funcional. A porção estética é dada pela pirâmide nasal, que tem base nos ossos da face; a porção funcional é determinada pela cavidade nasal, espaço dividido ao meio pelo septo osteocartilaginoso. Tem a responsabilidade de filtrar partículas e micro-organismos do ar que inspiramos, além de umidificar e aquecer o ar, protegendo, assim, as vias aéreas inferiores. O nariz desempenha, também, outras funções, como: olfação, ressonância da voz e controle da conduta por meio dos feromônios que agem no órgão vômero-nasal (GAMEIRO et al., 2005). O aparelho respiratório é constituído pelas fossas nasais, boca, laringe, traqueia, brônquios e pulmões, sendo que as vias respiratórias são constituídas por uma série de dutos que permitem a passagem do ar do ambiente externo aos pulmões. Alguns órgãos são responsáveis por outras funções além da respiração. É o caso do nariz, responsável pela olfação, e da faringe, que faz parte do trato digestório. A laringe, traqueia, brônquios e os pulmões são órgãos unicamente do aparelho respiratório (DOUGLAS, 2002). Figura 3 - Sistema Respiratório. Fonte: Diana (2020). 11WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA A respiração é dividida em duas fases distintas: inspiração e expiração. Aquela requer gasto de energia, portanto, é uma fase ativa. Os músculos respiratórios aumentam o volume da caixa torácica, vertical, lateral e anteroposteriormente. Tal aumento gera diminuição da pressão intrapulmonar. Os músculos inspiratórios são o diafragma, músculos intercostais externos, músculos intercostais internos anteriores e os músculos acessórios. O diafragma é considerado o principal músculo da inspiração e separa a cavidade torácica da abdominal (DOUGLAS, 2002). Por sua vez, a expiração é movimento normalmente passivo. O que ocorre é que, durante a inspiração, a musculatura inspiratória se contrai, distendendo os tecidos elásticos dos pulmões e do tórax, armazenando energia potencial. Quando ocorre a retração desses tecidos elásticos, a energia armazenada é liberada, dando-se a expiração. Felício (2007) sugere que há uma dissociação no trajeto neural envolvido no controle dos músculos da respiração em comportamentos voluntários e os trajetos usados no controle automático da respiração; ou seja, na fala e na respiração automática, o controle neural é diferente. A fala e a respiração são caracterizadas por um padrão inspiratório-expiratório oral, sendo a fase da inspiração curta e rápida, seguida por uma expiração lenta e longa, diferentemente do padrão em repouso, que se apresenta com uma inspiração-expiração nasal. Figura 4 - Organograma do sistema respiratório. Fonte: Diana (2020). No vídeo Animação 3D sobre o processo de respiração, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=G5tTlA6CfEc, é apresentado o padrão de respiração costodiafragmático, com participação ativa do M. diafragma e a adequada expansão das costelas. 12WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1.1.4 Mastigação Tanigute (2005) afirma que a mastigação é a função estomatognática mais importante, pois é a fase inicial do processo digestivo, iniciando-se pela trituração e formação do bolo alimentar. Mastigação é o ato de morder, triturar e mastigar o alimento, a qual se constitui em um ato fisiológico complexo por envolver atividades neuromusculares e digestivas. Com relação a esta segunda função, destaca-se a ação da amilase salivar durante a trituração dos alimentos, facilitando a deglutição e a ação das enzimas digestivas do estômago e, principalmente, do pâncreas. O sistema mastigatório pode ser considerado uma unidade funcional constituída pelos seguintes componentes: dentição, estruturas periodontais de suporte maxilare mandibular, articulação temporomandibular, musculatura mastigatória, lábios, bochechas, língua, tecidos moles que revestem essas estruturas, assim como a inervação e vascularização que suprem esses componentes (CATTONE, 2004). É uma função aprendida, que depende de vias neurais e conexões sinápticas estabelecidas e comandadas pelo córtex cerebral. Assim, aparece posteriormente devido ao aumento do espaço intraoral, à irrupção dos dentes, à maturação de todo o arcabouço neuromuscular e ao processo, em curso, de remodelação das articulações temporomandibulares (FELICIO et al., 2007). Figura 5 - Alteração de mordida durante oclusão. Fonte: A autora. Algumas alterações de mordida trazem grande prejuízo ao desenvolvimento ósseo e musculoesquelético. Pacientes com mordida aberta podem apresentar: perda de contato entre os dentes, contato labial deficiente, respiração oral, fonação atípica, constrição do arco maxilar, aumento do 1/3 inferior da face, ramo mandibular aberto, plano mandibular inclinado, coroas clínicas longas, sínfise fina e alongada, plano oclusal aumentado, corpo mandibular pequeno, retrusão maxilar e tendência a ser classe II de Angle (MONGUILHOTT; FRAZZON; CHEREM, 2003). 13WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA No que se refere à fala, a ação da mordida aberta implica pacientes que apresentam alteração na produção dos fonemas /t/, /d/, /n/, /l/, /r/ (FERRAZ, 2007). O tratamento precoce da mordida aberta proporciona melhores condições funcionais e estéticas (FREITAS; SOUZA, 2005). Pode ser feito nas fases de dentição decídua, mista e permanente (MONGUILHOTT; FRAZZON; CHEREM, 2003). Entretanto, do ponto de vista fonoaudiológico e ortodôntico, o tratamento contra esse tipo de anomalia deve ser precoce para se prevenirem desarmonias ósseas severas e se evitarem intervenções cirúrgicas de maior complexidade. Figura 6 - Mordida aberta anterior (ocorrência de interposição lingual durante a deglutição). Fonte: Maciel e Leite (2005). Figura 7 - Mordida cruzada anterior. Fonte: Maciel e Leite (2005). 1.1.5 Fala A fala é uma função muito elaborada, produto de programação do sistema nervoso central. A aquisição dos fonemas implica a percepção, organização e produção dos sons e tem sido amplamente estudada (OLIVEIRA; WERTZNER, 2000). 14WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA No decorrer do desenvolvimento, a criança percebe os sons (WERTZNER et al., 2001) e apresenta, por volta dos dois anos e meio aos três anos de idade, um progresso visivelmente crescente em sua produção de fala. Nessa fase, aprimora os movimentos dos articuladores bucais e expande o seu universo vocal e linguístico, de tal forma que, no período dos três aos seis anos, pode ser compreendida, inclusive, por pessoas que não fazem parte de seu círculo social. Existem idades esperadas para que as crianças adquiram os fonemas de sua língua (MOTA; GUEDES, 2000) e, por volta dos cinco anos, todo o sistema fonológico deve estar estabelecido. Pagan e Wertzner (2002) relataram em seus estudos que, na faixa dos seis anos de idade, já não se espera que haja trocas, omissões ou distorções dos sons da fala. A produção correta dos sons da fala depende de capacidades articulatórias ou motoras, da precisão e da coordenação dos movimentos do sistema estomatognático. Apesar de, a partir dos três anos de idade, as crianças já estarem neurofisiologicamente aptas a reproduzirem corretamente os sons da fala (DOUGLAS, 2002), tal processo nem sempre ocorre da maneira esperada. Sob o ponto de vista fonológico, é comum verificar que a criança utiliza processos que simplificam o sistema de sons por meio de omissões e substituições durante a aquisição e desenvolvimento da fala (BEFI; LOPES; PALMIEIRI, 2000; WERTZNER; PATAH, 2001). No que se refere à produção dos sons, é importante conhecer também as características estruturais e funcionais dos articuladores da fala. Fatores genéticos, ambientais e/ou funcionais interferem no crescimento e no desenvolvimento do sistema estomatognático (FELÍCIO; FREITAS; BATAGLION, 2007). A precisão dos pontos articulatórios sofre influência da presença e posição dos dentes, da mobilidade de lábios e de bochechas, da posição e mobilidade de língua e posição de mandíbula, além da adequação do espaço intraoral para a articulação fonêmica e a ressonância (BIANCHINI et al., 2012). Sabe-se que as crianças não nascem com os movimentos de fala já desenvolvidos e que, portanto, não apresentam a praxia desenvolvida. A praxia é considerada um aprendizado funcional – e não apenas produto da maturação neuromotora –, exigindo, por isso, interação com a própria produção da fala. No início do desenvolvimento, o controle motor da fala – que se refere ao conjunto de sistemas e estratégias que controlam a produção (KENT, 2000) – não está totalmente estabelecido, e tanto a falta de precisão articulatória quanto uma maior variabilidade dos movimentos articulatórios podem ser observadas em crianças pequenas (WERTZNER; PATAH, 2001). Essa variabilidade é entendida como resultado de um importante mecanismo adaptativo, associado ao desenvolvimento do organismo. Considerando a habilidade práxica, Meyer (2000) ensina que os movimentos de lábios, língua e mandíbula sofrem modificações e que os movimentos indiferenciados no início da infância passam a ser refinados e diferenciados conforme o desenvolvimento. Essas transformações também são fundamentais para se alcançarem níveis mais elevados de precisão e coordenação articulatórias, importantes para a efetividade da comunicação oral. 15WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 1 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA CONSIDERAÇÕES FINAIS As alterações presentes no sistema estomatognático, em muitos casos, influenciam para mastigar corretamente o alimento devido à necessidade de respirar. Ao se abrir a boca para tal, há adaptações e desequilíbrio das estruturas e funções orofaciais, que comprometem a mastigação e a deglutição e que, consequentemente, geram dificuldades na alimentação e na fala. As funções estomatognáticas estão interligadas umas às outras e, estatisticamente, quando há uma alteração, duas ou mais funções podem também estar alteradas. 1616WWW.UNINGA.BR U N I D A D E 02 SUMÁRIO DA UNIDADE INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................... 17 1. DISFUNÇÃO TEMPOROMANDIBULAR .................................................................................................................. 18 2. DEGLUTIÇÃO ATÍPICA OU ADAPTADA: CARACTERÍSTICAS E ETIOLOGIAS ...................................................... 21 2.1 AVALIAÇÃO DA DEGLUTIÇÃO ATÍPICA OU ADAPTADA .......................................................................................23 3. SINDROME DO RESPIRADOR ORAL .....................................................................................................................23 4. TIPOLOGIA FACIAL E A CORRELAÇÃO COM AS ALTERAÇÕES MIOFUNCIONAIS ............................................28 4.1 PROTOCOLO DE AVALIAÇÃO DE MOTRICIDADE OROFACIAL ADAPTADO PARA RESPIRADOR ORAL .........30 5. HÁBITOS DELETÉRIOS ...........................................................................................................................................30 6. FISSURA LABIOPALATAL: ETIOLOGIA, CARACTERÍSTICAS E TRATAMENTO ................................................... 31 6.1. ALIMENTAÇÃO ......................................................................................................................................................32 6.2. LINGUAGEM, FALA E AUDIÇÃO ..........................................................................................................................33 7. AVALIAÇÃO EM MOTRICIDADE OROFACIAL .........................................................................................................35CONSIDERAÇÕES FINAIS ...........................................................................................................................................37 ATUAÇÃO FONOAUDIOLÓGICA NAS PRINCIPAIS ALTERAÇÕES EM MOTRICIDADE OROFACIAL PROF.A KESSY ANNIE DE OLIVEIRA SOUZA ENSINO A DISTÂNCIA DISCIPLINA: MOTRICIDADE OROFACIAL 17WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA INTRODUÇÃO Os profissionais que têm conhecimentos específicos de fisiologia e anatomia para trabalhar na área de motricidade orofacial são os fonoaudiólogos e odontólogos, os quais se complementam, auxiliando no aperfeiçoamento do sistema estomatognático. Há relatos da importância do trabalho das duas profissões citadas, principalmente, no que tange aos aspectos de motricidade orofacial, sendo essa a área que mais gera encaminhamentos entre as especialidades. O trabalho entre a fonoaudiologia e a ortodontia proporciona ao paciente o equilíbrio entre estética e função, visando à melhora nas alterações estomatognáticas encontradas em relação ao tratamento e terapia realizados para o paciente (AMARAL et al., 2006). 18WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 1. DISFUNÇÃO TEMPOROMANDIBULAR A articulação temporomandibular (doravante, ATM) está intimamente ligada ao sistema estomatognático. É uma articulação considerada extremamente complexa, especialmente por ser bilateral e independente, o que pressupõe que são duas articulações para um mesmo osso – o que acarreta repercussões nos mecanismos do lado contralateral (TEIXEIRA, 2000). A disfunção temporomandibular (doravante, DTM) é uma das principais causas de dor na região orofacial não causada por dentição. Há achados mais predominantes no sexo feminino. É uma condição que envolve, principalmente, os músculos da mastigação M. masseter e M. temporal e ATM. Os sinais e sintomas podem ser dos mais variados (BIANCHINI, 2000). Felício e Braga (2005) relatam que os sinais e sintomas mais comuns da DTM são: dor intra-articular; espasmo muscular; dor reflexa, que aciona o fechamento da mandíbula; dor intra- articular com espasmo muscular; dor irradiada na área temporal, massetérica ou infraorbital; dor ou zumbido no ouvido; xerostomia; dor irradiada no pescoço; sensação de tamponamento no ouvido; entre outros. Ainda no que diz respeito aos sinais, os mais encontrados são: sensibilidade à palpação na região da ATM e seus arredores, além de ruídos na ATM, como estalidos e cliques. Bevilaqua-Grossiet et al. (2004), em estudos mais recentes, relatam que o não tratamento das DTMs e os sintomas dolorosos adjuntos são causadores de grandes desvios posturais, como anteriorização da cabeça, assimetria de ombros e retificação da coluna cervical. Não consideram que os sinais e sintomas da DTM refletem a severidade dos desvios da coluna cervical, mas que os sinais e sintomas cervicais estão relacionados à gravidade da DTM. Nesses casos, a promoção de relaxamento da musculatura facial e cervical, que ativa a circulação localizada, é indicada como tratamento, bem como a associação de terapias fonoaudiológicas, psicológicas e fisioterápicas é relevante nos tratamentos das DTMs. Terapias físicas manuais, alongamento muscular e massagens podem reduzir a dor e auxiliar na melhora da função muscular (OKESON, 2000). Um dos maiores desafios dos profissionais que trabalham com dor e desconforto na ATM refere-se à subjetividade das informações. Afinal, os sintomas manifestam-se de maneiras muito diferenciadas em cada indivíduo. Para se direcionar o diagnóstico, em nenhum momento devem- se ignorar os sintomas, pois a repercussão dessas situações na vida dos pacientes é bastante variada (FELICIO; MELCHIOR; SILVA, 2010). Durante a anamnese, são investigados a severidade da situação de maior ocorrência, os hábitos orais deletérios presentes e as atividades da vida diária. Felicio, Melchior e Silva (2010) relatam que, na avaliação clínica, é realizado exame funcional da oclusão, por meio do qual se percebe movimentação da mandíbula, abertura oral (máxima e natural), protrusão, lateralidade, linha média, além de se verificar se há presença ou não de ruído ao se abrir a boca. Tais mensurações são realizadas com um paquímetro. A presença de ruídos na articulação é investigada por meio de ausculta com estetoscópio durante as movimentações testadas. Para a avalição miofuncional orofacial, é utilizado protocolo de avaliação AMIOFE (FELICIO; TRAWITZKI, 2009), que é adaptado para adultos com DTM. Também pode ser utilizado para avaliações em motricidade orofacial de modo geral. 19WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA A terapia pode ser organizada como segue: • Terapias das funções estomatognáticas que visam à melhora das funções. A terapia de mastigação prioriza o movimento bilateral e simultâneo do bolo alimentar na cavidade oral. Porém, em casos de alterações de oclusão, modificadas por intervenção do cirurgião dentista, essa terapia não é indicada. A respiração deve ser readequada para o padrão costodiafragmático, pois, em pacientes cujo padrão respiratório é superior, inevitavelmente há o aumento da tensão na cintura escapular. A deglutição deve adequar-se naturalmente após o trabalho de reestruturação muscular, contudo, caso ainda ocorra alteração dela por conta de interposição de língua ou movimentos compensatórios, a deglutição deve ser trabalhada como terapia de motricidade orofacial normal. • A fala sempre estará alterada e sofrerá influência direta da base óssea e da disposição dentária (BIANCHINI, 2010). Essas alterações ocorrem devido à pouca amplitude na abertura oral durante a fala e à restrição dos movimentos mandibulares que causam intensa dor. As disfunções mais comuns são os desvios de mandíbula lateralmente, principalmente um /s/ e /z/. O predomínio do lado do desvio coincide com o predomínio mastigatório, adaptado para proteção do lado afetado. • Trabalho especifico das ATMs: esse momento se inicia quando a queixa de dor diminui e o paciente já tem familiaridade com os exercícios de relaxamento e miofuncionais facial, cervical e mandibular. Trabalha-se o aumento da abertura de boca sem dor, sendo realizado o movimento com a língua posicionada na papila sem controlar desvios mandibulares. Deve ocorrer o fortalecimento dos músculos pterigoideos laterais, responsáveis pela lateralização da mandíbula. Tais exercícios melhoram significativamente os estalos nas ATMs (BIANCHINI et al., 2012). • Terapia miofuncional orofacial: são basicamente os mesmos exercícios para o paciente com alterações funcionais, com algumas ressalvas. Deve-se considerar a dor do paciente e alterações, como língua interdentalizada, mordida profunda, hábito de ranger os dentes, tensão da face e músculo frontal, bucinador, orbicular dos lábios, relacionado ao apertamento dental. Agrava bastante a funcionalidade. • Relaxamento da musculatura cervical: realiza-se a movimentação lenta e suave dos ombros e da cabeça, como “sim” e “não”. Ao se inclinar a cabeça para trás, abre-se lentamente a boca com intuito de relaxar, e não uma abertura ativa da boca. O movimento deve ser discreto para não sobrecarregar a região cervical. Deve-se manter os braços relaxados, olhar para cima dos ombros sem tensão excessiva e tentar aproximar as orelhas dos ombros. Um movimento importante é o “sei lá”, em que o paciente fará a elevação dos ombros em direção à cabeça e, em seguida, retornará à posição habitual. A intenção é relaxar a musculatura tensora. O nome de cada movimento auxilia na memorização do paciente no momento da execução (BIANCHINI et al., 2012). • Termoterapia: é realizada por meio de calor úmido com compressas de água morna. Esse procedimento promove vasodilatação e aumenta o fluxo sanguíneo na região; com isso, melhora a oxigenação (BIANCHINI, 2010). Quando o paciente estiver bastantefamiliarizado com os exercícios, poderá realizá-los durante o banho na água morna, pois isso diminui a dor e o corpo todo relaxa. 20WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA • Massagens: após aplicação do calor úmido, recomenda-se realizar massagem imediatamente na musculatura facial. Podem ser movimentos circulares e de alongamento no sentido das fibras musculares, intercalando-os com pequenos toques com as pontas dos dedos. Na região dos ombros, recomendam-se massagens de amassamentos realizadas com as palmas das mãos. Estudos recentes mostram que a terapia fonoaudiológica leva ao relaxamento da musculatura facial, melhora significativamente o quadro clínico e, posteriormente, com o trabalho de fortalecimento dos músculos faciais que antes estavam flácidos, proporciona o equilíbrio e a estabilidade do sistema estomatognático. Isso tudo sem se se falar na melhora dos sintomas de dor dentro de um prazo mais curto de terapia. O planejamento para atuar em pacientes com DTM deve ser cuidadosamente realizado. Deve-se manipular com delicadeza e perceber quais exercícios são contraindicados a cada caso. O fonoaudiólogo é imprescindível na atuação de DTM a fim de trazer equilíbrio às funções estomatognáticas e retirar hábitos que tornem duradouro o restabelecimento (LOPES et al., 2013). Figura 1 - Abertura mandibular assimétrica. Língua com marcas intensas, predominantes no lado esquerdo, em paciente com importante DTM com componente muscular e articular. Fonte: A autora. É de suma importância entendermos o funcionamento adequado da ATM para que as disfunções temporomandibulares DTMs sejam prontamente identificadas e se tenha mais assertividade no diagnóstico. O vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=-7c45E8SEBI ajuda a ilustrar o funcionamento da articulação mais utilizada do corpo humano. 21WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2. DEGLUTIÇÃO ATÍPICA OU ADAPTADA: CARACTERÍSTICAS E ETIOLOGIAS Quando alguma intercorrência ocorre no trajeto do alimento da boca até o estômago, a deglutição está alterada. Ela pode ser atípica ou adaptada quando ocorre a fase oral. Quanto às diferentes formas de deglutir, Marchesan (2005) apresenta as características consideradas atípicas na deglutição. 1. Deglutição com interposição lingual – ocorre quando a língua é projetada anterior ou lateralmente. Pode ser observada na mordida aberta anterior ou lateral (CATTONE, 2004). 2. Deglutição com presença de contração da musculatura periorbicular – em geral, a contração ocorre quando há, ou houve, projeção de língua anteriormente. A contração é um reflexo natural, evitando que a língua se projete para fora, trazendo o alimento a ser deglutido. Quando ainda ocorrer a projeção de língua, primeiro, deve-se tratar a contração, pois, se o paciente contrai a musculatura devido à projeção, de nada adianta tratar a contração antes. Discrepância óssea entre maxila e mandíbula no sentido sagital também pode ser causa da contração exagerada da musculatura periorbicular, pois a discrepância óssea não permite vedamento labial normal. Consequentemente, os lábios tendem a se contrair mais fortemente durante a deglutição. Nesse caso, o tratamento das bases ósseas deve ocorrer antes de o fonoaudiólogo intervir; caso contrário, não se consegue evitar a contração. A face longa também é outra causa de contração exagerada, dificultando, também, o vedamento labial adequado durante o repouso e suas funções (MARCHESAN, 2005). 3. Deglutição com ausência da contração do masseter – trata-se da participação da musculatura elevadora da mandíbula. De acordo com Marchesan (2005) e Cattoni (2004), a deglutição sem contração do M. masseter é uma característica mal compreendida como sinal de atipia. Para as autoras, colocar a mão nos masseteres durante a deglutição, para se observar se a musculatura está ou não contraída, não é bom parâmetro de atipia ou padrão inadequado. 4. Deglutição com contração do músculo mentual e interposição de lábio inferior – essa atipia acontece com maior frequência em pacientes Classe II de Angle, principalmente, com sobressaliência horizontal. Geralmente, a contração do mentual é uma compensação para o melhor fechamento dos lábios ao se deglutir. A hiperfunção do mentual pode ser observada por meio de furinhos que se formam no queixo, sinal de tensão no músculo (CATTONI, 2004). 5. Deglutição com interposição do lábio inferior – pacientes que apresentam distanciamento vertical ou horizontal dos dentes superiores em relação aos inferiores necessitam interpor o lábio inferior para que ocorra o vedamento da cavidade oral. Esse vedamento é necessário para garantir a adequada pressão intraoral, facilitando a ejeção do bolo alimentar para a orofaringe. 22WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 6. Deglutição com movimento de cabeça – problemas na mastigação podem levar o paciente a apresentar, durante a deglutição, movimentos compensatórios de cabeça. Geralmente, dá-se o estiramento da musculatura anterior da cabeça. O paciente leva a cabeça para trás, retificando o tubo por onde passa o alimento – o que facilita a descida do bolo alimentar. 7. Deglutição com ruídos – primeiramente, deve-se verificar se o ruído é durante a mastigação ou na deglutição. O ruído durante a deglutição pode ser ocasionado pelo movimento exagerado da parte média da língua contra o palato duro, no momento da passagem do bolo da cavidade oral para a orofaringe. Geralmente, esse movimento exagerado ocorre por uma hipotonia da ponta da língua e, assim, ela fica baixa; ou quando o terço inferior da face aumenta muito, levando a língua a um posicionamento de ponta baixa e parte média alta durante a deglutição (CATTONI, 2004). 8. Resíduos após deglutir – a causa mais comum de resíduos na cavidade oral após a deglutição é a hipotonia do bucinador. O alimento cai no vestíbulo durante a mastigação. O bucinador tem a responsabilidade de manter o alimento em cima dos dentes; se ele estiver flácido ou sem função, não consegue segurá-lo, e o alimento vai para o espaço entre os dentes e a bochecha. A diminuição da quantidade de saliva na boca é outra causa, pois, com a saliva diminuída, fica mais difícil a formação do bolo alimentar. Outras causas são: alterações da mobilidade ou propriocepção da língua e a falta de percepção do alimento na boca. Este último problema não é da deglutição em si, mas interferirá nela (CATTONI, 2004; MARCHESAN, 2005). A atipia na deglutição corresponde à movimentação inadequada da língua e outras estruturas que participam do ato de deglutir, durante a fase oral, sem que haja qualquer alteração. No caso da atipia, o trabalho fonoaudiológico, sozinho, já seria suficiente para modificar o modo de deglutir, pois a forma está adequada. Em contrapartida, uma deglutição adaptada, como o nome já sugere, ocorre quando a forma está alterada, e o paciente adapta a deglutição para conseguir realizar essa função. A alteração encontrada é consequência de um problema da forma das estruturas responsáveis pela deglutição, sendo necessária a correção da forma para que a deglutição fique normal. Se a forma não for corrigida, dificilmente o padrão correto de deglutir será estabelecido (MARCHESAN, 2005). 23WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 2.1 AVALIAÇÃO DA DEGLUTIÇÃO ATÍPICA OU ADAPTADA No momento da avaliação, o fonoaudiólogo não deve apenas pontuar as alterações, mas, sim, compreender o seu significado para detectar possíveis causas do distúrbio. De acordo com Cattoni (2004), alguns fatores devem ser considerados durante a avaliação. São eles: • Características craniofaciais. • Oclusão e mordida. • Idade. • Consistência alimentar prevalente. • Tônus. • Propriocepção. A abordagem terapêutica consiste em conhecerbem os hábitos do paciente para trazer à consciência os malefícios e para que se dê a retirada de hábitos deletérios. Quando o paciente é criança, a família deve se envolver no tratamento. O atendimento fonoaudiológico será iniciado após a intervenção de outros profissionais (se houver necessidade), como acompanhamento com ortodontista, alterações de ATM, obstrução respiratória, que requer intervenção cirúrgica, frênulo lingual alterado etc. (BIANCHINE, 2010). Inicialmente, trabalha-se a propriocepção e a conscientização da alteração. A motivação deve ocorrer durante todo o processo terapêutico. É necessário desenvolver a propriocepção, conscientização do problema, treino muscular e a aprendizagem dos padrões adequados. O trabalho fonoaudiológico nas disfunções orofaciais, geralmente, dá-se em conjunto com outras especialidades, principalmente, com a ortodontia e o otorrinolaringologia, pois, quando há alterações estruturais (como má oclusão, mordida aberta, frênulo lingual alterado, obstrução de vias aéreas superiores), a troca de informações é imprescindível em virtude do interesse em comum: a melhora do paciente. 3. SINDROME DO RESPIRADOR ORAL Como já estudado anteriormente nas funções estomatognáticas, o nariz, além de pela respiração, é responsável pelo olfato e auxilia na fala. Para que ocorra a respiração nasal, é preciso que a boca se feche em algum ponto, o que pode se dar pelo fechamento dos lábios (que é o mais comum), na porção média da língua (com o dorso em contato com o palato duro) e, ainda, posteriormente (com a base da língua em contato com o palato mole). Se não ocorrer nenhum fechamento, tem-se a respiração oral ou oronasal. Esta última é mais frequente. A respiração oral é uma alteração funcional, caracterizada pelo uso predominante da cavidade oral durante a respiração e pelo desuso da cavidade nasal. Pode acometer indivíduos em qualquer faixa etária. Tal alteração poderá ser consequência de um hábito ou de obstrução nasal ocasionada por congestão da mucosa nasal e deformidades anatômicas das fossas nasais (RIBEIRO et al., 2016). 24WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Respirador oral é o indivíduo que possui capacidade respiratória nasal restrita, o que o leva a respirar pela boca na maior parte do tempo, tanto durante a vigília quanto durante o sono. Esse quadro, quando perpetuado por um longo período, poderá promover diversas alterações anatômicas e funcionais, repercutindo em uma diversidade de sinais e sintomas. Portanto, a clínica manifestada pelo paciente pode ser compreendida como uma síndrome, a Síndrome do Respirador Oral (doravante, SRO) (CAMPANHA et al., 2008). Comumente, na SRO, podem-se observar alterações otorrinolaringológicas, craniofaciais e dentárias nos órgãos fonoarticulatórios, corporais e nas funções orais. Dentre as alterações relacionadas ao crescimento facial, têm-se: o aumento vertical do terço inferior da face, o estreitamento do arco maxilar para além do palato em ogiva, ângulo goníaco obtuso, má- oclusão – mordida aberta, dentes incisivos superiores em protrusão e mordida cruzada (CAMPANHA, 2008; MARSON et al., 2012). Muito frequentemente, as consequências da respiração oral são irreversíveis para o crescimento e desenvolvimento da criança, causando-lhe: alterações posturais, craniofaciais, oclusais, auditivas, vocais, articulatórias, nas funções estomatognáticas e nos órgãos fonoarticulatórios; redução de apetite; dificuldades de atenção e concentração; agitação; ansiedade; dificuldade na aprendizagem; desempenho inferior de habilidades fonológicas; e envelhecimento facial precoce, em comparação aos respiradores nasais. Destacam-se, ainda, a maior presença de olheiras, pregas palpebrais inferiores, aprofundamento do sulco mentolabial, face discretamente alongada na região das bochechas e maior desproporção facial (NISHIMURA; GIMENEZ, 2010; FILUS, 2006; BRASILEIRO, 2009). Figura 2 - Face alongada devido à respiração oral e tensão de M. mentual durante vedamento labial. Fonte: A autora. 25WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA As alterações corporais no respirador oral são: • Anteriorização da cabeça com retificação cervical. • Protrusão dos ombros. • Compressão do tórax e musculatura abdominal flácida. • Hiperlordose lombar. • Anteversão pélvica. Figura 3 - Alterações corporais no respirador oral. Fonte: A autora. 26WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 4 - Alterações de OFAs no portador de SRO. Fonte: A autora. Krakauer, Di Francesco e Marchesan (2003) ensinam que, quando acontece respiração oral decorrente de obstrução nasal instalada, ocorrem, progressivamente, modificações da ventilação pulmonar, que podem até resultar em distúrbio de equilíbrio ácido-básico sanguíneo. Nesses casos, há diminuição da complacência pulmonar, podendo-se chegar à situação de insuficiência cardíaca em função do distúrbio pulmonar. Essa é considerada uma situação de emergência, sendo necessário intervenção o mais precocemente possível. A obstrução nasal aguda no adulto, como nos casos de tamponamento nasal por epistaxe, está associada a uma maior incidência de acidentes isquêmicos. Há relatos de maior índice de infarto em adultos com respiração oral. A respiração oral é um fator de desestabilização das vias aéreas superiores especialmente durante o sono. Portanto, apneia do sono é bastante comum nesses pacientes, inclusive em crianças (KRAKAUER; DI FRANCESCO; MARCHESAN, 2003). 27WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Noturno • Apneia • Roncos • Despertares frequentes • Pesadelos Diurno • Respiração oral • Hiperssonolência • Baixa performance escolar • Comportamento agressivo • Hiperatividade • Déficit de atenção • Cefaleia matinal • Infecções de vias aéreas • Rinorreia crônica • Distúrbios da deglutição Quadro 1 - Sintomas presentes em crianças com apneia do sono em decorrência da respiração oral. Fonte: A autora. Em condições normais, a mandíbula é o ponto de apoio que estabiliza a permeabilidade das vias aéreas superiores. Durante a respiração oral, não há como se manter essa estabilidade e, em casos de apneia do sono, há ativação dos masseteres para se manter a posição da mandíbula e garantir a permeabilidade das vias aéreas, o que pode promover bruxismo. É uma queixa bastante comum dos pais de respiradores orais (OLIVEIRA, 2005). A respiração oral, entre diversos problemas, pode ocasionar alteração da fala. A articulação dos sons depende da mobilidade da língua, lábios e bochechas e da posição dos dentes, mandíbula e língua (KRAKAUER; DI FRANCESCO; MARCHESAN, 2003), necessitando-se de posicionamentos e movimentos precisos dos articuladores, que somente são viáveis mediante a adequada estrutura morfológica orofacial (NISHIMURA; GIMENEZ, 2010). Os problemas de fala podem ser causados por alterações de mobilidade, tônus e postura dos órgãos fonoarticulatórios, além de por alterações das estruturas orofaciais, muito comum em respiradores orais. 28WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 4. TIPOLOGIA FACIAL E A CORRELAÇÃO COM AS ALTERAÇÕES MIOFUNCIONAIS A respiração oral causa alterações ósseas e miofuncionais. Na vista frontal, a face foi classificada em três tipos morfológicos: dolicofacial, mesofacial e braquifacial. ✓ Na configuração dolicofacial, as dimensões verticais da face prevalecem sobre as dimensões horizontais, conferindo uma silhueta mais longa. ✓ Na configuração braquifacial, as dimensões transversais superam as dimensões verticais, compondo uma face mais larga. ✓ Mesofacial ocorre quando há equivalência das dimensões transversais e verticais caracterizando a face. As três configurações descritaspodem apresentar a normalidade como ponto em comum. Para isso, devem exibir características como simetria, proporcionalidade entre os terços faciais e selamento labial passivo, este último denotando compatibilidade entre o comprimento do lábio mole e o comprimento do terço inferior da face (KRAKAUER; DI FRANCESCO; MARCHESAN, 2003). Muitos cuidadores imbuídos, em algum nível, de culpabilidade por, em determinado momento, terem ofertado bicos artificiais a crianças que, mais tarde, apresentaram alterações estruturais e funcionais importantes, em virtude da respiração oral, dizem que basta encaminhá-las ao ortodontista. Contudo, uma vez que tais mudanças se instalam, as alterações são as mais variadas e requerem atuação de profissionais específicos de cada área. Por exemplo: • Hipotonia facial, alteração de fala, mastigação, respiração > fonoaudiólogo. • Noites mal dormidas interferem na aprendizagem > psicopedadogo, reforço escolar. • Alteração na arcada dentária > ortodontista. • Alterações corporais > fisioterapia / RPG. • Agressividade; irritabilidade; transtorno de comportamento > acompanhamento psicológico. Diante disso, devemos orientar, acolher e encorajar os pais e familiares a resistirem às investidas do mercado de itens infantis com vistas a protegerem suas crianças contra tais acometimentos, na maioria das vezes, evitáveis. 29WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 5 - Características morfológicas dos padrões e tipos faciais na dentição decídua: A, B - Padrão I / C, D - Padrão II / E,F - Padrão III / G, H – tipo braquifacial / I, J – tipo mesofacial / K, L – tipo dolicofacial. Fonte: Silva Filho et al. (2008). Os extremos da morfologia facial no sentido vertical, para o excesso bem como para a redução, caracterizam discrepâncias esqueléticas (denominadas face longa e face curta, respectivamente). Dentre os pacientes catalogados como dolicofaciais, incluem-se os “face longa” e, dentre os catalogados como braquifaciais, encontram-se os “face curta” já que o crescimento ainda não se expressou, a ponto de se caracterizar a face dentre tais tipos morfológicos (BISHARA, 2004). 30WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA 4.1 Protocolo de Avaliação de Motricidade Orofacial Adapta- do para Respirador Oral Figura 6 - Protocolo de avaliação de motricidade orofacial adaptado para respirador oral. Fonte: A autora. 5. HÁBITOS DELETÉRIOS Hábito é o costume ou a prática adquirida pela repetição frequente de um mesmo ato que, a princípio, faz-se de forma consciente e, posteriormente, de modo inconsciente. Os principais hábitos que podem gerar deformidades na oclusão são: onicofagia, bruxismo, mordedura de objetos, mordedura de lábios, além dos mais típicos hábitos de sucção de dedo, chupeta e mamadeira (GONÇALVES; TOLEDO; SAM, 2010). 31WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Esses hábitos de sucção são bastante frequentes e tendem a perdurar, principalmente, em crianças que não receberam de forma satisfatória amamentação natural nos seis primeiros meses de vida. Os hábitos orais deletérios são altamente relacionados à etiologia de más oclusões, principalmente, à mordida aberta anterior, posterior e alterações de estruturas e funções do sistema estomatognático, tais como a mastigação, deglutição, respiração e fonoarticulação (OHANNS et al. 2011). Segundo Missen et al. (2017), um dos hábitos deletérios mais comuns e também mais difíceis de se tratar é a mordida aberta anterior, pois há comprometimentos estético e funcional. Pode ser definida como um transpasse vertical negativo entre os dentes antagonistas, podendo, em casos mais raros, manifestar-se em todo o arco dentário. Nesse quadro, os hábitos orais deletérios são causas frequentes do estabelecimento da má oclusão, sendo tais hábitos padrões de contração muscular aprendidos, que, por serem praticados repetidas vezes, passam a ser incorporados à personalidade do indivíduo, tornando-se hábitos inconscientes. A mordida aberta pode ser classificada de acordo com sua origem, a qual pode ser dentária ou esquelética. A de origem dentária está relacionada aos hábitos bucais deletérios, e seus portadores têm como característica a face com crescimento vertical normal, incisivos protruídos, dentes anteriores em infraoclusão por deficiência vertical alveolar e altura molar um tanto excessiva. Por sua vez, a mordida aberta esquelética é caracterizada por ângulos goníacos e plano mandibular aumentado, altura facial anterior-inferior aumentada, rotação anti-horária do plano e mandíbula retrognática causada por uma rotação anti-horária da mandíbula, o que gera um aspecto facial desequilibrado entre os terços faciais médio e inferior (MISSEN et al., 2017). 6. FISSURA LABIOPALATAL: ETIOLOGIA, CARACTERÍSTICAS E TRATAMENTO A fissura labiopalatina é um defeito congênito que está entre as más formações mais comuns da face, com incidência de 1:650 nascimentos. Acontece na vida intrauterina, durante o processo embrionário e no início do período fetal. No momento em que ocorre a formação dos processos faciais que formam a face, por algum fator, eles não se fundem. Sua etiologia é multifatorial, englobando predisposição genética e fatores ambientais (ARAÚJO JR., 2005) Essa má formação congênita pode acometer o lábio, o palato ou ambos, simultaneamente, podendo manifestar-se de forma isolada ou associada a quadros sindrômicos. Adotando como ponto de referência o forame incisivo, Spina (1972) classificou as fissuras em: • Pré-forame incisivo: localiza-se anteriormente ao forame incisivo e pode ser completa (quando acomete o lábio e o rebordo alveolar, atingindo o forame incisivo) ou incompleta (quando não chega a atingir o forame). • Pós-forame incisivo: localizada posteriormente ao forame incisivo e pode ser completa (quando envolve o palato duro desde o forame incisivo; portanto, acomete o palato duro, o véu palatino e a úvula) ou incompleta (quando o forame incisivo não é afetado). • Transforame incisivo: refere-se à forma completa de fissura que atravessa o forame incisivo, envolvendo desde o lábio até à úvula. 32WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Figura 7 - Classificação das fissuras labiopalatinas. Fonte: CTMC (2020). Quadro 2 - Estruturas anatômicas afetadas, segundo a classificação de Spina (1972). Fonte: A autora. Para Araújo Jr. et al. (2005), o diagnóstico pode ainda ser feito no período gestacional, pela ultrassonografia. É importante ressaltar que, apesar de essa tecnologia permitir o diagnóstico precoce, há necessidade de preparar os profissionais para orientarem as famílias quanto ao modo como lidar com essa situação inesperada. No período ideal, a criança seguirá em acompanhamento multidisciplinar; serão realizados exames e um estudo sobre a conduta cirúrgica para a correção primária de lábios (queiloplastia, que ocorre a partir de 3 meses de idade) e a correção primária do palato (palatoplastia, que ocorre a partir de 12 meses de idade). Os pais são informados sobre o procedimento cirúrgico e devidos cuidados no pós-operatório (LOPES FILHO et al., 2013). Os estudos comparam os resultados da fala após a cirurgia de palatoplastia, levando em consideração a idade cirúrgica. Os resultados apontam que, nos casos em que se operou mais cedo, houve resultados na fala bem melhores do que aqueles em que se operou mais tardiamente. 6.1. Alimentação Nos primeiros 30 dias, é indicada a contenção dos braços com tala removível para evitar que a criança leva a mão à boca. O uso de bicos artificiais deve ser suspendido nos primeiros dias, conforme orientação médica, para evitar trauma na região operada. Nesse período, a alimentação deve ser preferencialmente pastosa e líquida, homogênea e fria, ofertada na colher ou copinho. Para criançasamamentadas em seio materno, a sucção já pode ser estimulada horas após a cirurgia (CERQUEIRA et al. 2005). 33WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Um tipo de má formação congênita, como a fissura de palato submucosa FPSM, pode apresentar-se isoladamente, associada à fissura labial ou a síndromes. O diagnóstico é feito por inspeção intraoral para localizar sinais clássicos, tais como úvula bífida, diástase da musculatura velar na linha média, chanfradura óssea, além de escape de alimentos pelas vias aéreas superiores. Apesar de haver sinais característicos da FPSM, a dificuldade de sua identificação logo no nascimento leva, muitas vezes, ao diagnóstico tardio, em geral, realizado quando há o aparecimento de sintomas evidentes de disfunção velofaríngea (DVF). No entanto, é sabido que esse fato pode ser atenuado e que condutas adequadas podem ser adotadas quando o diagnóstico precoce é realizado. Por essas razões, torna-se essencial a divulgação dos sinais e sintomas da FPSM a fonoaudiólogos, médicos e dentistas para facilitação do diagnóstico precoce. Assim, é possível o acompanhamento das doenças da orelha média e das alterações da fala decorrentes da DVF (DI NINNO et al., 2011). Figura 8 - Fissura pré-forame unilateral esquerda operada, associada à dissura de palato submucosa com dois sinais clínicos: chanfradura óssea e diástese muscular. Fonte: Di Ninno (2011). 6.2. Linguagem, Fala e Audição Após o entendimento dos questionamentos sobre alimentação da criança, outra dúvida dos pais refere-se à dificuldade de comunicação: se a criança falará apenas após a cirurgia ou se ficará fanhosa. Nesse momento, o fonoaudiólogo deve orientar a família sobre os tratamentos preventivos disponíveis para o momento, antes e após a intervenção cirúrgica, bem como sobre a participação ativa da família no processo de reabilitação (GRACIANO; TAVANO; BACHEGA, 2007). A princípio, os pais devem ser orientados sobre a capacidade falante do filho e deve-lhes ser informado que a linguagem e a fala se desenvolverão apesar da fissura palatina, seguindo- se as mesmas etapas de aquisição da linguagem que as de crianças sem fissura. Os riscos de alteração na fala são inerentes ao comprometimento estrutural do sistema estomatognático, como a hipernasalidade e a articulação compensatória. Sendo assim, a intervenção fonoaudiológica deve-se iniciar o mais precocemente possível, com orientação sobre o desenvolvimento da fala. As orientações iniciais são as mesmas que as apresentadas a crianças sem fissuras (PERNANBUCO et al., 2012): 34WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Dialogar com a criança de maneira natural, aproveitando circunstâncias da vida cotidiana (como momentos no banho, alimentação, brincadeiras, passeios), e sempre falar de forma clara e simples. • Evitar uso de diminutivos. • Estimular o uso de onomatopeias para estimular a criança a imitar os sons. • Valorizar as emissões da criança, mesmo que não estejam perfeitas. • Reforçar as tentativas de comunicação da criança. • Evitar falar pela criança. • Evitar atender de imediato a seus gestos. • Demonstrar interesse em ouvi-las. A criança com fissura palatina, no início da aquisição de linguagem, tem dificuldade de emitir alguns sons orais que necessitam de pressão intraoral para sua produção. Nesse momento, a intervenção fonoaudiológica incentivará os pais a realizarem brincadeiras vocais com seu bebê e, após palatoplastia, a realizarem oclusão intermitente das narinas. Essa técnica consiste em auxiliar a criança a perceber a pressão aérea na cavidade oral (PERNANBUCO et al., 2012). Outra técnica a ser sugerida à família e que deve ser intensamente praticada no dia a dia é sempre dar à criança o modelo correto das palavras, evitando-se a imitação dos modelos incorretos produzidos por ela. Aspecto fundamental a ser monitorado na criança com fissura palatina é a audição, pois, devido às alterações anatomofuncionais, em especial da tuba auditiva, o indivíduo está predisposto a quadros de otite de repetição e perda auditiva condutiva. É protocolo dos serviços de reabilitação ao fissurado palatal que ele seja encaminhado regularmente ao médico otorrinolaringologista para realizar exames pertinentes à sua faixa etária e desenvolvimento auditivo. Após palatoplastia, há melhora nas funções da tuba auditiva, mas, ainda assim, quadros de otite média podem surgir (DI NINNO et al., 2011). Em relação à fala especificamente, as alterações encontradas se correlacionam diretamente aos problemas estruturais. O principal acometimento é da comunicação existente entre a cavidade oral e a cavidade nasal, a que se chama disfunção velofaríngea. Ela pode prevalecer mesmo após a palatoplastia, sendo, daí, chamada de disfunção velofaríngea residual. Tal condição afeta diretamente a fala em diferentes graus (LOPES FILHO et al., 2013). Os acometimentos mais comuns são hipernasalidade, escape de ar nasal e distúrbios articulatórios compensatórios. Estes últimos decorrem da diminuição da pressão aérea intraoral durante a fala, levando o indivíduo a buscar outros pontos articulatórios no trato vocal para compensar a diminuição da pressão. Trata-se de golpe de glote, a plosiva faríngea, a plosiva dorso médio palatal, a fricativa faríngea, fricativa velar e fricativa nasal posterior. Sanam-se tais alterações por meio de fonoterapia. O desvio anatômico faz com que ocorram adaptações compensatórias no intuito de se aproximar o máximo possível de um som. Geralmente, não interfere na inteligibilidade da fala e é corrigido com cirurgia reparadora (GRACIANO; TAVANO; BACHEGA, 2007). Para traçar um plano terapêutico mais adequado a cada indivíduo, é necessária uma avaliação clínica detalhada, além de exames instrumentais por meio dos quais se verificará a condição funcional do mecanismo velofaríngeo, como a nasofibroscopia, a videofluoroscopia, a nasometria e a técnica fluxo-pressão. 35WWW.UNINGA.BR M OT RI CI DA DE O RO FA CI AL | U NI DA DE 2 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Em se tratando de uma má formação complexa, o profissional da área de Fonoaudiologia, que atua diretamente na alimentação e fala, necessita desenvolver seu trabalho em conjunto com outras especialidades o mais precocemente possível (PERNANBUCO et al., 2012). 7. AVALIAÇÃO EM MOTRICIDADE OROFACIAL A avaliação clínica em MO é um passo muito importante no processo de diagnóstico e compreensão das condições anatômicas e funcionais do sistema estomatognático. Direciona-nos a um raciocínio terapêutico e determina a necessidade de encaminhamentos, além de fornecer informações quanto ao prognóstico do caso (GENARO et al., 2009). Já sabemos da importância da interrelação profissional e da necessidade de se trabalhar em conjunto, aceitando as limitações de cada especialidade, fazendo com que uma busque ajuda em outra para melhor tratar o paciente. A palavra “parceria” pressupõe reunião de pessoas para um fim comum. Parceria bastante comum é a que se dá entre Odontologia e Fonoaudiologia. A meta é a resolução dos problemas das pessoas que procuram, especificamente, tratamento para o sistema estomatognático. A Odontologia é grande aliada da MO. Ambas as áreas se completam em várias propostas terapêuticas visto que as duas buscam sempre o equilíbrio miofuncional por meio da prevenção, habilitação ou reabilitação das funções estomatognáticas. Qualquer alteração nesse sistema pode ocasionar modificações estruturais e funcionais no indivíduo, como crescimento facial, oclusão e estética. As alterações dentárias e ósseas podem interferir significativamente nas funções de mastigar, deglutir, falar e, até mesmo, respirar (FIGUEIREDO et al., 2018). De acordo com Costa et al. (2006), a terapia miofuncional (orofacial e cervical) é benéfica em muitas especialidades odontológicas e visa à correção das alterações motoras e sensoriais do