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TECNOLOGIA DE ALIMENTOS AULA 3 Profª Suelen Ávila 2 CONVERSA INICIAL O consumidor de alimentos está cada vez mais informado e seletivo em suas escolhas alimentares, sejam essas decisões baseadas em fatores dietéticos, ambientais, químicos, ideológicos ou outros (ou uma combinação destes). Como vimos em conteúdo anterior, na indústria de alimentos, acompanhar a tecnologia tornou-se essencial para as empresas de alimentos melhorarem a qualidade dos produtos e processos, a segurança alimentar, a compreensão das tendências gerais de alimentos, buscando o aumento da produtividade a custos viáveis, contribuindo para a competitividade e sua expansão no mercado. Nesta etapa, discutiremos os principais tipos de microrganismos de interesse nos alimentos e os fatores que influenciam sua multiplicação. Veremos o conceito de legislação sanitária e doenças transmitidas por alimentos. Serão abordadas as diferenças entre qualidade dos alimentos e segurança alimentar e as principais ferramentas que podem ser utilizadas para garantia da qualidade e segurança dos alimentos. TEMA 1 – MICROBIOLOGIA DE ALIMENTOS Os microrganismos são organismos vivos, tão pequenos que são invisíveis a olho nu, ou seja, normalmente só conseguimos enxergá-los com auxílio de um microscópio. Os principais microrganismos de importância em alimentos são: bactérias, bolores, leveduras, vírus e protozoários (Gava et al., 2009). Os microrganismos são os principais responsáveis pelas alterações dos alimentos e perigos para a saúde, mas também podem ser benéficos para os seres humanos, como nossa microbiota intestinal e na produção de certos tipos de alimentos como o pão (em que se usa a levedura), queijos, iogurte, embutidos, chucrute (alimentos em que as bactérias láticas participam ativamente de suas produções) (Gava et al., 2009; Forsythe, 2013). 1.1 Microrganismos de interesse para alimentos Os microrganismos de interesse para alimentos podem ser agrupados em três grupos: 3 1) Microrganismos deteriorantes: organismos que levam a modificações das características organolépticas do alimento (a partir de substâncias produzidas durante o processo de multiplicação) e tornam o alimento estragado com sabor e odor desagradáveis. Os alimentos deteriorados não causam toxinfecções, porém não apresentam características desejáveis ao consumidor, o que, muitas vezes, inviabiliza o consumo. Como exemplos desses microrganismos temos as Pseudomonas, Enterobactérias, Flavobacterium, bactérias láticas, Bacillus, Clostridium, bolores e leveduras (Gava et al., 2009; Forsythe, 2013). 2) Microrganismos patogênicos: podem provocar doenças no homem, pela ingestão de células viáveis, causando infecções intestinais ou por meio de seus metabolitos tóxicos provocando intoxicações alimentares. Alguns exemplos de microrganismos responsáveis por doença transmitida por alimentos (DTAs) são: Bacillus cereus, Clostridium botulinum (produz toxina botulínica), Clostridium perfringens, Listeria monocytogenes, Salmonella spp, Sataphylococcus aureus (produz toxina estafilocócica) e Aspergillus flavus (produz aflotoxina) (Gava et al., 2009). 3) Microrganismos indicadores: possuem procedência e características próprias, são utilizados para avaliar as condições higiênico-sanitárias ou de processamento de um alimento. São exemplos as bactérias do grupo coliformes, coliformes de origem fecal (E. coli), bolores e leveduras. 1.2 Fatores que afetam a multiplicação de microrganismos A qualidade microbiológica dos alimentos está condicionada, primeiro, à quantidade e ao tipo de microrganismos inicialmente presentes (contaminação inicial) e depois à multiplicação destes no alimento. As condições das matérias- primas (alimento) e do meio em que se encontram (de ambientes, manipuladores e superfícies) representam a contaminação inicial. Condições favoráveis fazem com que a velocidade de multiplicação dos microrganismos seja maior, enquanto limitações inerentes ao alimento ou ao ambiente reduzem sua velocidade de multiplicação (Gava et al., 2009). Os fatores inerentes ao alimento podem ser também chamados de parâmetros intrínsecos, características que podem funcionar como barreiras ou facilitadoras para contaminações microbianas e o seu desenvolvimento. Como intrínseco podemos citar o pH, acidez, a atividade de água (Aa), disponibilidade 4 de oxigênio, nutrientes disponíveis, constituintes antimicrobianos naturais, estruturas biológicas e a microbiota do alimento (Gava et al., 2009). Os fatores extrínsecos são aqueles inerentes ao ambiente, como a temperatura, a umidade relativa (UR), a composição atmosférica e a embalagem. Tais fatores podem ser ótimos ou limitantes, interferindo sobremaneira na multiplicação de microrganismos, inclusive os patogênicos, causadores principalmente de infecções e intoxicações de origem alimentar (Gava et al., 2009). Para a conservação dos alimentos, em geral associam-se fatores intrínsecos e extrínsecos, criando situações desfavoráveis aos microrganismos no alimento, tornando-os mais estáveis. Entre as barreiras mais comuns aplicadas estão a modificação do pH, redução ou elevação da temperatura (na preparação e/ou conservação), redução da atividade de água (como por exemplo, adição de sal, açúcar e secagem), adição de conservadores, atmosfera controlada (controle da concentração de gases durante o armazenamento) e redução da carga microbiana inicial. Assim, é possível impedir a deterioração e veiculação de doenças alimentares, obtém-se vários produtos com qualidade, estáveis à temperatura ambiente, com maior vida útil, como queijos, salames, charques, batatas, entre outros (Gava et al., 2009). TEMA 2 – LEGISLAÇÃO SANITÁRIA O termo legislação sanitária se refere a um conjunto de resoluções, portarias ou leis criadas para orientar as pessoas na produção de alimentos de qualidade e seguros à saúde do consumidor. Essas orientações começam na matéria-prima, passam pela produção e vão até a distribuição, o armazenamento e a comercialização. No Brasil existem dois órgãos federais responsáveis pela fiscalização sanitária de alimentos: a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). De acordo com a Lei Federal n. 8.080 de 19 de setembro de 1990, Vigilância Sanitária é um conjunto de ações capazes de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde, abrangendo: o controle de bens de consumo que, direta ou indiretamente, se relacionem com a saúde, compreendidas todas as etapas e 5 processos, da produção ao consumo, e o controle da prestação de serviços que se relacionam direta ou indiretamente com a saúde (Brasil, 1990). A Portaria Mapa n. 337, de 8 de novembro de 2021, estabelece requisitos mínimos e reconhece programas de promoção de boas práticas agrícolas, na etapa primária da cadeia produtiva agrícola, aplicados por entes públicos e privados no território nacional, com o propósito de estimular a produção de alimentos seguros e de qualidade, promover ações que visem melhorar a qualidade da produção de alimentos, promover práticas sustentáveis de produção agrícola e estimular a melhoria da qualidade de vida da população rural (Brasil, 2021). Dessa forma, a Anvisa e o Mapa contribuem para o planejamento e a execução de políticas e ações que previnam a incidência de casos de doenças transmitidas por alimentos – DTAs (Brasil, 1990). Além disso, existem inúmeras legislações relacionadas à segurança sanitária dos alimentos publicadas por diversos órgãos governamentais brasileiros e organizações internacionais. TEMA 3 – DOENÇAS TRANSMITIDAS PORALIMENTOS Problemas com a qualidade e a segurança de alimentos existem há muitos séculos em todo o mundo. A forma como os alimentos são produzidos, armazenados, processados e consumidos afetam a segurança dos alimentos. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 600 milhões de pessoas em todo o mundo adoecem, e cerca de 420 mil morrem a cada ano por comerem alimentos contaminados (ONU, 2019). As doenças transmitidas por alimentos (DTAs) são os episódios clínicos decorrentes do consumo de alimentos ou bebidas que possam estar contaminados com microrganismos patogênicos (infecciosos, toxinogênicos ou infestantes), substâncias químicas e objetos estranhos ou que contenham em sua constituição estruturas naturalmente tóxicas, ou seja, são doenças consequentes da ingestão de contaminação biológica (vírus, fungos, parasitas e bactérias), química (metais pesados, resquícios de pesticidas, detergente, desinfetante, toxinas etc.) ou física (materiais como pedra, terra, prego, plástico, ossos e espinhos de peixe) presentes nos alimentos (Pigott, 2008; Gava et al., 2009; Forsythe, 2013; Brasil, 2019). A maior parte dos casos de DTAs ocorre por alimentos que não aparentam nenhuma modificação organoléptica aparente, com sabor, odor e aparência 6 normais. Isso ocorre porque a quantidade de microrganismos patogênicos presentes no alimento não é suficiente para degradá-lo. Já os alimentos que apresentam alterações visíveis geralmente não são consumidos, devido às modificações serem perceptíveis ao consumidor. Mas caso sejam consumidos, podem ser ainda mais prejudiciais devido à contaminação microbiana elevada (Gava et al., 2009; Forsythe, 2013). As DTAs podem ser caracterizadas como infecções, intoxicações e toxinfecções, conforme a Figura 1: Figura 1 – Classificação das doenças transmitidas por alimentos (DTAs) Fonte: elaborado com base em Gava et al., 2009; Forsythe, 2013. Os principais fatores que contribuem para que os alimentos não sejam seguros e causem doenças são: controle inadequado da temperatura durante o cozimento, o resfriamento e a estocagem; manipulação inadequada dos alimentos; higiene pessoal insuficiente; contaminação cruzada entre produtos crus e processados e monitoramento inadequado dos processos (Forsythe, 2013; Oliveira et al., 2013). As DTAs, microbianas são originadas por uma variedade de microrganismos e na maioria das vezes se manifestam por meio de doenças gastrointestinais, que podem variar acentuadamente em gravidade e duração. Na Tabela 1 são descritas as principais doenças transmitidas por alimentos. Os sintomas mais frequentes são náusea, vômito, diarreia, dor abdominal, febre e desidratação. Podem afetar todas as pessoas, mas bebês, idosos e mulheres grávidas que têm menor resistência e imunidade são os mais afetados por 1. Infecções O ser humano ingere microrganismos patogênicos capazes de invadir as células do aparelho digestivo provocando uma reação no nosso organismo (Shigelose, Salmonelose, Cólera). 2. Intoxicações O ser humano ingere alimentos contendo toxinas produzidas por microrganismos patogênicos ou por substâncias químicas, de modo acidental ou intencional (toxinas botulínica e estafilocócica). 3. Toxinfecções O ser humano ingere alimentos contaminados por microrganismos patogênicos capazes de produzir toxinas quando se multiplicam dentro do nosso organismo (Clostridium perfrigens, Bacillus cereus). TIPOS DE DTA 7 microrganismos patógenos (Pigott, 2008; Gava et al., 2009; Forsythe, 2013; Oliveira et al., 2013). Tabela 1 – Principais doenças transmitidas por alimentos Microrganismo Característica do microrganismo Período de incubação Alimentos associados Infecções E. Coli Bactéria gram negativa, temperatura ótima de crescimento é de 36 °C 12 a 72 horas Carne bovina crua ou moída, leite cru, verduras, sucos e todos os alimentos contaminados com material fecal Salmonella spp. Bacilos curtos, gram negativa, aeróbios ou anaeróbios facultativos, temperatura ótima de crescimento de 35 a 37 °C, não toleram concentrações de NaCl >9% 6 a 72 horas (em geral 18 a 36 horas) Carne bovina, suína, aves e seus produtos, produtos à base de ovos crus e alimentos contaminados Shigella Bactéria mesófila, não toleram concentrações de NaCl>6%, sensível ao calor e a tratamento com sanitizantes 24 a 72 horas Qualquer alimento contaminado, principalmente saladas, água e mariscos Intoxicações Bacillus cereus Bastonete, gram positivo, mesófilo, aeróbio, esporulado. A toxina da cepa emética é pré-formada no alimento e é estável a 126 °C por 90 min 2 a 4 horas Produtos de cereais, arroz, molhos, almôndegas de carne, outros alimentos contaminados Clostridium botulinum Bastonete, gram positivo, mesofilo, anaeróbio restrito, esporulado. Tratamento térmico de 121 °C por 3 minutos é o suficiente para eliminação do esporo 2 horas a 8 dias (em geral 18 a 36 horas) Conservas caseiras pouco ácidas, pescados empacotados à vácuo, ovos de pescado fermentados, peixes e mamíferos marinhos Staphylococcus aureus Cocos, gram positivo, mesófilo, aeróbio facultativo. Dose infectante é em torno de 106 células/g de alimento. 1 a 8 horas (em geral 2 a 4 horas) Bolos e similares com recheio e cobertura; produtos de confeitaria doces e salgados, tortas 8 Crescem em concentrações de até 20% de NaCl salgadas, massas salgadas com recheio e/ou cobertura, cerne moída e presunto Toxinfecção Bacillus cereus (cepa diarreica) Bastonete, gram positivo, mesófilo, aeróbio, esporulado. Dose infectante é de 105 a 107 células/g de alimento 8 a 16 horas Produtos de cereais, arroz, molhos, almôndegas de carne, outros alimentos contaminados Clostridium perfringens Bastonete, gram positivo, mesófilo, anaeróbio, esporulado. Dose infectante 106 a 108 células/g de alimento 8 a 22 horas (em geral 10 horas) Carne cozida de bovino, de ave ou de suínos, caldos, molhos e sopas Vibrio cholerae Bacilos, gram negativos, temperatura máxima para crescimento de 45 °C Algumas horas a 5 dias (em geral 2 a 3 dias) Pescado e mariscos crus de água contaminada, verduras irrigadas/refrescadas com água contaminada Fonte: elaborado com base em Pigott, 2008; Gava et al., 2009; Forsythe, 2013. Como medidas de controle a serem tomadas para evitar as DTAs podemos incluir: • Cozinhar e aquecer suficientemente os alimentos; • Manter os alimentos refrigerados (temperaturas abaixo de 5 °C); • Controlar a temperatura de estocagem e manipulação; • Prevenir contaminação cruzada; • Não permitir que pessoas doentes manipulem os alimentos; • Cuidar com a higiene pessoal e os hábitos dos manipuladores de alimentos; • Evitar a contaminação dos abastecimentos de água com dejetos humanos; • Manter as boas práticas durante o processamento dos alimentos (Gava et al., 2009; Forsythe, 2013; Oliveira et al., 2013). 9 TEMA 4 – CONTROLE DE QUALIDADE DOS ALIMENTOS E SEGURANÇA ALIMENTAR Primeiramente, precisamos entender a diferença entre qualidade e segurança alimentar. A norma brasileira ABNT NBR ISO 9000, define qualidade como: “Grau no qual um conjunto de características inerentes satisfaz a requisitos”. Ou seja, podemos definir a qualidade como um conjunto de características que um alimento deve apresentar, enquanto a segurança dos alimentos está relacionada com os riscos à saúde do consumidor (Marins et al., 2014). A qualidade de alimentos reporta-se ao conjunto de atributos de um alimento que o leva a ser escolhido entre tantos outros pelo consumidor. Refere- se ao cumprimento de fatores como sabor, expectativa, modo de apresentação e critérios valorizados porparte dos consumidores, visto que estes estabelecem parâmetros de qualidade por si só e de acordo com o cumprimento ou o não cumprimento destes parâmetros, o alimento é classificado quanto a sua qualidade (Wojslaw, 2014). Como uma responsabilidade de todos os elos da cadeia, o controle de qualidade tem como intuito a busca pela proteção dos consumidores contra possíveis riscos e a garantia do cumprimento da legislação. Tudo que consumimos precisa estar de acordo com os critérios estipulados pela empresa e pelos órgãos reguladores. Isso significa que deve conter nutrientes, trazer os ingredientes descritos nas embalagens e não ultrapassar os limites permitidos de conservantes, por exemplo (Marins et al., 2014). A segurança de alimentos é a garantia de oferta de alimento livre de substâncias indesejáveis ou contaminantes que poderiam causar algum dano à saúde do consumidor. Tem o intuito de proteger e preservar a saúde humana dos riscos apresentados por possíveis perigos presentes nos alimentos. Os perigos, que podem ser físicos, químicos e biológicos, podem ter diversas origens e estarem presentes desde a obtenção da matéria-prima até as etapas de produção, sendo necessária a aplicabilidade de medidas sanitárias e higiênicas desde a produção até a mesa do consumidor (Wojslaw, 2014). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) são nos processos de manuseio dos alimentos que ocorrem as principais formas de contaminação. Assim, a empresa deve apresentar condições operacionais que possibilitem 10 satisfatoriamente as exigências de higiene necessárias. Alimentos de qualidade duvidosa, manipulados, transportados e armazenados de modo incorreto, podem causar mal-estar, intoxicação alimentar e, até mesmo, alguns problemas mais graves à saúde. De modo geral, para garantir a produção e a comercialização de alimentos seguros, é preciso implantar programas de gestão de qualidade e segurança de alimentos (Marins et al., 2014). A cadeia de abastecimento de alimentos tem se deparado com desafios quando o assunto é controle de qualidade e segurança do alimento. Porque isso envolve o aperfeiçoamento e monitoramento contínuo dos produtos e processos, que incluem requisitos normativos, padrões estabelecidos pelo mercado e principalmente as exigências dos consumidores, com o objetivo de produzir e comercializar alimentos seguros e trazer vantagens competitivas. Por isso, prezar por ações que facilitem a avaliação e inspeção de qualidade dos seus produtos é essencial (Marins et al., 2014). TEMA 5 – FERRAMENTAS PARA A QUALIDADE E SEGURANÇA DE ALIMENTOS Tem crescido a procura por sistemas que possam proporcionar a busca e aperfeiçoamento da qualidade e segurança dos alimentos em todos os processos da indústria alimentícia: matéria-prima, manipulação, produção, equipamentos, embalagem, armazenamento, transporte e comercialização. A implantação de normas de controle de qualidade para Indústria de Alimentos e Serviços de Alimentação tem sido vista como uma forma de alcançar padrões de identidade e qualidade que atendam ao consumidor, à empresa e à legislação específica. Não só no quesito sanitário, mas na redução de perdas e no aumento da competividade (Ribeiro-Furtini; Abreu, 2006; Vergara, 2016). Dessa forma, surgem as ferramentas para a segurança e qualidade de alimentos, que são técnicas utilizadas para definir, mensurar, analisar e propor soluções para problemas que eventualmente são encontrados e interferem no bom desempenho dos processos de trabalho (Ribeiro-Furtini; Abreu, 2006; Vergara, 2016). Das ferramentas disponíveis podemos citar as BPF (Boas Práticas de Fabricação), o PPHO (Procedimento Padrão de Higiene Operacional), o Sistema APPCC (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle), o Gerenciamento da 11 Qualidade (Série ISO) e o TQM (Gerenciamento da Qualidade Total) (Ribeiro- Furtini; Abreu, 2006; Vergara, 2016). As BPF (Boas Práticas de Fabricação) são procedimentos que devem ser adotados pelas indústrias de alimentos a fim de garantir a qualidade higiênico- sanitária e a conformidade dos alimentos com a legislação sanitária. São princípios e regras para o correto manuseio de alimentos, garantindo a integridade do alimento e a saúde do consumidor (Brasil, 2004; Machado, 2012). Os PPHO (Procedimento Padrão de Higiene Operacional) são representados por requisitos de BPF considerados críticos na cadeia produtiva de alimentos. São procedimentos descritos, desenvolvidos, implantados e monitorizados das condições higiênico-sanitárias, visando evitar a contaminação direta ou cruzada e a adulteração do produto, preservando sua qualidade e integridade por meio da higiene antes, durante e depois das operações industriais (Vergara, 2016). Os procedimentos das Boas Práticas de Fabricação (BPF) ou Procedimento Padrão de Higienização Operacional (PPHO) são pré-requisitos básicos e necessários, que envolvem a infraestrutura e instalações da indústria (produção e do pessoal); higiene e saúde dos funcionários; limpeza e sanitização do local de trabalho, equipamentos e utensílios; potabilidade de água; manejo de resíduos; rastreabilidade; manejo integrado de vetores e pragas urbanas, entre outros (Brasil, 2004; Vergara, 2016), para implementação de outras ferramentas, assim como um sistema APPCC. De acordo com a Portaria n. 46 de 10 de fevereiro de 1998 do Mapa, o sistema APPCC (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle) identifica os perigos físicos, químicos e biológicos e os pontos críticos de controle, que podem afetar uma série de etapas características de cada produto a ser monitorado, desde a obtenção da matéria-prima até a chegada do produto ao consumidor. Ao contrário de basear-se na inspeção dos produtos finais, esse sistema tem por objetivo a prevenção, eliminação ou redução dos perigos em todas as etapas da cadeia produtiva (Brasil, 1998; Ribeiro-Furtini; Abreu, 2006; Vergara, 2016). O Sistema APPCC é implementado por intermédio de doze etapas sequenciais, composto de cinco passos preliminares e sete princípios do sistema, demonstrados na Figura 2. Com a implantação do APPCC atende-se requisitos da legislação nacional e internacional, possibilitando a exportação dos alimentos com qualidade e segurança. 12 Figura 2 – Fluxograma de implementação do Sistema de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC) Fonte: elaborado com base em Brasil, 1998 e Ribeiro-Furtini; Abreu, 2006. Para garantir a qualidade e segurança dos alimentos, além das ferramentas de qualidade já mencionadas (BPF, PPHO e APPCC), será 13 necessário implementar um sistema de gestão. Segundo a norma NBR ISSO 9001:2008, sistemas de gestão da qualidade podem ajudar as organizações a aumentar a satisfação do cliente, garantindo um produto totalmente seguro que satisfaz a legislação pertinente, sensorial e nutricionalmente atrativo (Maia; Diniz, 2009). Esses sistemas não são obrigatórios por lei, mas as pressões do mercado tornam os sistemas de gestão necessários e muitas vezes mandatórios para acessar grandes companhias. Os sistemas de gestão de segurança de alimentos são um conjunto de políticas e diretrizes utilizadas para conduzir processos sistemáticos em uma organização. Padronizam os processos e implementam metodologias de controle, monitoramento e melhoria (Maia; Diniz, 2009). Os sistemas de gestão de segurança de alimentos também podem evitar perdas humanas, como doenças causadas por alimentos contaminados; ou econômicas, como reclamações, ações judiciais, devoluções e recolhimento de produtos, reprocesso e descartes desnecessários. Entretanto, a base de qualquer sistema de gestão é o atendimento aos requisitos legais de segurança de alimentos (Maia; Diniz, 2009). NA PRÁTICA Em 2015, mais de 200 pessoas participaram de um tradicional eventoorganizado na comunidade Santo Antônio, a 721 km de Cuiabá. Na festa, os pacientes teriam consumido churrasco, mandioca, vinagrete e salada de maionese. No dia seguinte, muitas pessoas que foram à festa procuraram o hospital público da cidade com diarreia, dores abdominais, náuseas, vômitos e febre. Um morador, de 32 anos, a esposa e os dois filhos, compraram o almoço vendido no evento e apenas a filha de 7 anos, que não comeu a maionese, ficou sem nenhum sintoma. Outra moradora, de 25 anos, teve febre por três dias e o marido e as filhas ficaram doentes dois dias depois do almoço. Uma moradora, dona de casa, de 51 anos, morreu 24 horas depois de ter sido internada (Martins, 2015). Os indícios da notícia indicam a agressividade da bactéria Salmonella, que pode levar o infectado à morte em poucas horas. A Salmonella está presente em alguns alimentos que não passaram pelo processo de cozimento, como a clara de ovo crua, presente em preparações de maionese. Os manipuladores dos alimentos na festa deveriam manter os alimentos refrigerados, realizar o cozimento suficiente dos ovos, da carne e do leite antes de serem 14 disponibilizados para consumo, cuidar para não misturar alimentos crus e cozidos e deveriam seguir as boas práticas para a produção dos alimentos. Com o conhecimento de qualidade dos alimentos e da segurança alimentar na festa, essa tragédia em 2015 seria evitada. FINALIZANDO Nesta etapa discutimos sobre os microrganismos de interesse nos alimentos: os deteriorantes, patogênicos e indicadores, e vimos sobre os fatores intrínsecos e extrínsecos que influenciam sua multiplicação. Conhecemos o conceito de legislação sanitária e os principais órgãos federais que fiscalizam os alimentos. Foram apresentadas as principais doenças transmitidas por alimentos, os sintomas, microrganismos e alimentos envolvidos. Verificamos as diferenças entre qualidade dos alimentos e segurança alimentar e as principais ferramentas que podem ser utilizadas para garantia da qualidade e segurança dos alimentos. 15 REFERÊNCIAS ABNT. Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR ISO 9000/2000 - Sistema de gestão da qualidade: fundamentos e vocabulário. Rio de Janeiro, ABNT, 2004. BRASIL. Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em: 12 abr. 2022. BRASIL. Portaria n. 46, de 10 de fevereiro de 1998. Disponível em: . Acesso em: 12 abr. 2022. BRASIL. Portaria Mapa n. 337, de 8 de novembro de 2021. Disponível em: . Acesso em: 12 abr. 2022. BRASIL. Resolução n. 216, de 15 de setembro de 2004. Disponível em: . Acesso em: 12 abr. 2022. BRASIL. Resolução - RDC n. 331, de 23 de dezembro de 2019. Disponível em: . Acesso em: 12 abr. 2022. 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