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Insuficiência Cardíaca Congestiva RECONHECER CLINICAMENTE A INSUFICIÊNCIA CARDÍACA CONGESTIVA (ICC) ⭢ INTRODUÇÃO - O coração tem a função de bombear o sangue para todos os órgãos e tecidos. Para isso ocorrer, o coração precisa encher-se de sangue (diástole) e ejetá-lo (sístole). Qualquer condição que afete a sístole e/ou diástole pode levar à insuficiência cardíaca (IC). - Com isso, o principal achado fisiopatológico da IC será a presença de débito cardíaco reduzido e/ou pressões de enchimento elevadas durante o repouso ou aos esforços. - A IC é uma síndrome, sendo assim apresenta-se como um conjunto de sinais (turgência jugular, crepitações pulmonares, edema periférico entre outros) e sintomas (cansaço, falta de ar, fadiga entre outros). Assim, identificar a origem do problema cardíaco é fundamental para entender a fisiopatologia e propor o tratamento. - A IC apresenta diversos estágios, mas seu diagnóstico é realizado apenas na fase sintomática. Antes dessa fase, existem alterações estruturais no coração que podem comprometer o seu funcionamento, assim como afetar o controle autonômico. Por isso, não usamos mais o termo ICC (insuficiência cardíaca congestiva), já que podemos identificar pacientes portadores de IC sem congestão. - A IC está presente em 1 a 2% da população adulta e sua prevalência aumenta com a idade. Em idosos (>70 anos), pode atingir níveis superiores a 10% da população. No Brasil, é a principal causa de internação hospitalar e apresenta elevada mortalidade. ⭢ MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS - Pacientes com dano miocárdico (estágio B), que potencialmente leva à IC, permanecem assintomáticos por muito tempo, devido aos mecanismos compensatórios de origem neurohormonal e simpático. Quando esses mecanismos não são suficientes, surgem os sintomas que podem ser decorrentes do quadro congestivo ou de baixo débito. - A sobrecarga de cavidades esquerdas (presente na IC sistólica e diastólica) promove aumento da pressão venocapilar pulmonar. Esse aumento de pressão ocasiona extravasamento de líquido vascular para o interstício pulmonar. O sistema linfático consegue absorver esse líquido extravasado até um limite. - Quando a pressão venocapilar é superior a 20-25 mmHg, a drenagem linfática é insuficiente, surgindo o edema pulmonar, responsável por toda sintomatologia respiratória na IC (cansaço, dispneia aos esforços, ortopneia, dispneia paroxística noturna) - Quando há sobrecarga em cavidades direitas, observaremos a congestão sistêmica (turgência jugular patológica, edema de membros inferiores, ascite, refluxo hepatojugular). De uma maneira bem simples, o trânsito de sangue “engarrafa” antes do problema. - A insuficiência cardíaca direita (ICD) causa sintomas sistêmicos porque o ventrículo direito não consegue bombear sangue de forma eficaz para os pulmões, levando ao acúmulo de sangue no sistema venoso - Se o problema é no VE, “engarrafa” primeiro o pulmão, depois o VD e depois, todo organismo. Se o problema é exclusivamente no VD, o “engarrafamento” será sistêmico, poupando o pulmão! A história clínica e o exame físico serão fundamentais na avaliação inicial do paciente com suspeita de IC. - O sintoma que geralmente leva o paciente a procurar ajuda médica é a dispneia. Ortopneia - dispneia ao deitar-se. Sintoma típico, porém, inespecífico. Uma forma de questionar esse sintoma é perguntando o número de travesseiros que o paciente utiliza para dormir O ventrículo esquerdo não consegue bombear o sangue de forma eficaz para a circulação sistêmica. Isso leva ao acúmulo de sangue nos pulmões, aumentando a pressão venocapilar pulmonar. Quando o paciente está deitado, há um aumento do retorno venoso, piorando ainda mais a congestão. Dispneia paroxística noturna - surge horas após deitar-se. É uma dispneia súbita que desperta o paciente. Esse sintoma é mais específico para o diagnóstico de IC. Tosse noturna - secundária à congestão da parede brônquica. Pode estar associada à dispneia paroxística noturna. Em quadros mais acentuados, pode gerar broncoespasmo (“asma cardíaca”). Fadiga - Origem multifatorial. Os mecanismos associados à fadiga na IC são desencadeados pela perfusão sanguínea inadequada, que afeta os músculos respiratórios e periféricos, levando à diminuição da capacidade oxidativa. A fadiga afeta mais da metade dos pacientes com IC e está associada a uma redução na qualidade de vida, restrição de atividade física e pior prognóstico. Distúrbios de sono - Os distúrbios do sono são comuns e subdiagnosticados em pacientes com insuficiência cardíaca. As formas mais comuns são: apneia obstrutiva do sono e apneia central do sono com respiração de Cheyne-Stokes. É importante reconhecer os distúrbios do sono porque estão associados a piores desfechos cardiovasculares e maior mortalidade. Além disso, há evidências de que o tratamento dos distúrbios do sono pode melhorar os resultados relacionados à insuficiência cardíaca e à qualidade de vida - Em casos mais avançados de IC, podemos ter congestão sistêmica secundária à falência do ventrículo direito (VD). Nesses casos, a dispneia pode tornar-se menos frequente, visto que a insuficiência ventricular direita ou a insuficiência tricúspide impedem o bom funcionamento do VD, reduzindo a quantidade de sangue disponível na circulação pulmonar e, com isso, há menor extravasamento de líquido para o alvéolo. - A insuficiência cardíaca esquerda é a principal causa de hipertensão pulmonar secundária que causará, mais tardiamente, a disfunção de VD. São sintomas relacionados à disfunção de VD: Edema de membros inferiores - Bilateral e sem sinais de trombose venosa profunda Aumento do volume abdominal - Ascite com padrão de transudato. Derrame pleural - Causa de dispneia em pacientes com disfunção de VD (transudato). Hepatomegalia - Dor abdominal em hipocôndrio direito Congestão de mucosa intestinal - Saciedade precoce, caquexia, diarreia, náuseas - Os sintomas de baixo débito (cansaço, fadiga, sonolência, mialgia e lipotimia) também podem estar presentes, especialmente na população com doença mais grave e avançada. - Na história clínica, devemos buscar dados que podem auxiliar na identificação da causa da IC (questionar comorbidades, quadros virais recentes, doenças na infância, viagens recentes) e do fator de descompensação (exercício, infecção, sobrecarga hídrica, má adesão terapêutica, arritmias, síndrome coronariana aguda). - O exame físico é peça fundamental no diagnóstico de IC. Os sinais mais específicos para o diagnóstico de IC são: presença de B3 e turgência jugular patológica. O ventrículo direito não consegue bombear o sangue de forma eficaz para a circulação pulmonar. Isso leva ao aumento da pressão venosa central (PVC), causando congestão sistêmica. Como as veias jugulares drenam diretamente para o átrio direito, esse aumento de pressão se reflete na sua distensão, visível no exame físico. ⭢ DIAGNÓSTICO DA IC CRÔNICA - O diagnóstico é CLÍNICO. Uma boa história clínica e um bom exame físico serão suficientes para o diagnóstico sindrômico de insuficiência cardíaca, na maioria das vezes. Os exames complementares auxiliarão nos casos duvidosos, na investigação da etiologia e identificação de complicações e causa da descompensação O BNP (peptídeo natriurético tipo B) e o NT-proBNP são biomarcadores importantes na insuficiência cardíaca congestiva (ICC). Eles são liberados pelo ventrículo esquerdo em resposta ao aumento da pressão e sobrecarga de volume. Responsáveis por promover vasodilatação, aumentar a excreção de sódio e água e inibir o SRAA e o sistema nervoso simpático. - Para o diagnóstico de IC, devemos ter dois critérios maiores SIMULTÂNEOS ou um critério maior e dois menores. Uma maneira bem simples de memorizar esses critérios: os critérios maiores são específicos (são menos frequentes,mas, se estiverem presentes, aumentam a chance de IC) e os menores são sensíveis (são muito frequentes, mas estão presentes em várias outras condições - Utilizando os critérios de Boston, temos o diagnóstico definitivo quando temos mais de 7 pontos. Entre 5 a 7 pontos, o diagnóstico é possível e abaixo de 5 pontos, o diagnóstico é improvável. Quando o diagnóstico segue duvidoso, podemos lançar mão de um algoritmo que nos ajudará na identificação do paciente com insuficiência cardíaca. ⭢ DIAGNÓSTICO DA IC AGUDA ⭢ EXAMES COMPLEMENTARES Radiografia de tórax - Auxilia no diagnóstico diferencial entre causas torácicas e pulmonares da dispneia, além de permitir avaliação da congestão pulmonar. Deve ser sempre solicitada em pacientes com suspeita de IC. - Vale ressaltar que a sensibilidade do método é limitada, visto que podemos encontrar um paciente com disfunção sistólica significativa, sem cardiomegalia na radiografia. Esse método terá mais valor na IC aguda, em que as alterações de congestão pulmonar são mais exuberantes. # Cardiomegalia: pode ser avaliada através do índice cardiotorácico (ICT). Devemos avaliar a soma da maior distância da coluna vertebral até a sombra cardíaca à direita e à esquerda e dividir pelo maior diâmetro horizontal da caixa torácica (figura). Se o ICT for maior que 0,5 temos cardiomegalia. # Aumento do VE: o ventrículo esquerdo cresce para a esquerda, para baixo e para trás, na radiografia de tórax. Como ele cresce para a esquerda e para baixo, na incidência PA, observaremos uma projeção da ponta do VE no diafragma (afunda no diafragma!). Outro sinal que pode surgir é o sinal de Hoffman-Rigler, relacionado ao crescimento do VE para trás, identificado na incidência perfil. Devemos traçar uma linha de 2 cm para cima, após a junção da cava com o diafragma. Se a distância da ponta dessa linha até a borda cardíaca for superior a 1,8cm, há aumento do VE. # Aumento do VD: o ventrículo direito posiciona-se anteriormente ao tórax, em contato íntimo com o esterno. Em situações de crescimento, ele crescerá para cima e para frente. Na incidência PA, observaremos uma elevação da ponta do VE, visto que o VD cresce para cima. Esse achado é muito comum em cardiopatias congênitas e é chamado de coração em tamanco holandês (muito comum na tetralogia de Fallot). No perfil, observaremos um aumento do contato do VD com o esterno (maior que 1/3) #Congestão pulmonar: existem diversos achados radiológicos que apontam para a congestão pulmonar: ◊ inversão do padrão vascular: o edema intersticial, mais proeminente nos lobos inferiores, tornam as veias presentes no ápice pulmonar mais proeminentes; ◊ infiltrado intersticial: pode surgir como borramento perivascular, borramento peribrônquico e infiltrado peri- hilar (em asa de borboleta); ◊ linhas B de Kerley: sugestivo de edema intersticial. São linhas paralelas ao diafragma, visualizadas na região inferior e lateral de ambos os hemitóraces. ◊ derrame pleural: geralmente é bilateral, mas predomina à direita. Eletrocardiograma - Fundamental na avaliação inicial do paciente com IC, pois pode fornecer informações quanto à etiologia da IC ou ao fator de descompensação. Um eletrocardiograma (ECG) normal na IC é incomum. Alguns achados ao ECG merecem destaque: # Bloqueio de ramo esquerdo: os critérios diagnósticos estão na figura, mas vamos simplificar: viu um QRS largo? Olha para V1! Se estiver para cima é BRD, para baixo é BRE! ventrículo esquerdo se contrai depois do direito, de forma descoordenada. # Hemibloqueio anterior esquerdo + bloqueio de ramo direito: ligue todos os alertas para doença de Chagas! O bloqueio de ramo direito está demonstrado na figura abaixo: QRS largo e V1 com polaridade positiva. O hemibloqueio anterior esquerdo você identifica através do desvio de eixo para esquerda. Para identificar facilmente o eixo, olhe para D1 e aVL. No desvio de eixo para a esquerda, teremos D1 positivo e aVL negativo Ecocardiograma - Está indicado, na avaliação inicial, para todos os pacientes com sinais e sintomas sugestivos de IC. Traz informações sobre a função ventricular (sistólica e diastólica), diâmetros cavitários, motilidade das paredes, função valvar e estado volêmico. o Avaliação da função sistólica - O ecocardiografista analisa a função contrátil do coração globalmente e regionalmente através da análise dos segmentos do coração. Um paciente pode apresentar função global normal, mas mostrar acinesia (parede do coração não contrai) de alguns segmentos do coração. Esse achado é muito típico da cardiopatia isquêmica. - Em contrapartida, as demais cardiomiopatias (alcóolica, chagásica) manifestam disfunção global, isto é, acometendo todos os segmentos (hipocinesia difusa). - O método de Teichholz é um dos mais utilizados e que apresenta maior chance de erro, pois a presença de alteração segmentar limita o método. Como ele funciona? Imagine o corte de um segmento do coração em movimento (modo M de movimento): você verá, na sístole, as paredes mais espessas, pois estão contraindo e, na diástole, as paredes mais finas. - Com isso, você consegue mensurar os diâmetros diastólico e sistólico finais e, através de fórmulas que estimam o volume ventricular, obter a fração de ejeção. - O método de Simpson é mais fidedigno, pois utiliza os volumes sistólico e diastólico obtidos na janela apical. - Algumas condições clínicas podem afetar a medida da fração de ejeção. Em pacientes com pré-carga reduzida, temos uma cavidade ventricular muito diminuída e podemos superestimar a fração de ejeção (o VSF é muito reduzido). O inverso também é verdadeiro. Situações que aumentam a pós-carga demandarão maior esforço cardíaco para manter a ejeção (pós-carga alta dificulta a ejeção), aumentando o VDF. o Avaliação da função diastólica - A diástole possui duas fases com fluxo de sangue: enchimento rápido do ventrículo (início da diástole) e contração atrial (final da diástole). Em indivíduos normais, a primeira fase da diástole é responsável por quase todo o esvaziamento atrial que ocorre por diferença de pressão. Algumas doenças podem modificar essa dinâmica e atrapalhar a diástole. - A hipertensão é uma das mais clássicas! Quando não é tratada adequadamente, a hipertensão gera hipertrofia ventricular esquerda que aumentará a pressão no ventrículo esquerdo. Com isso, a diferença de pressão diminui e a contração atrial passa a ser a principal responsável pelo esvaziamento atrial. - Com o agravamento do quadro, o átrio esquerdo fica cada vez mais sobrecarregado, gerando, então, sobrecarga de cavidades esquerdas, em que há um aumento da pressão nos átrios e ventrículos. Dessa forma, a diferença de pressão volta a ser importante. Exames laboratoriais - Hemograma: traz informações importantes acerca da presença de anemia (fator de descompensação e prognóstico na IC) e da presença de leucocitose, que pode indicar um processo infeccioso como causador da descompensação - Gasometria arterial: recomendada em pacientes com baixo débito ou desconforto respiratório. Além de avaliar o equilíbrio acidobásico e a oxigenação, fornece informações quanto à perfusão tecidual. Acidose e hiperlactatemia são fatores de mau prognóstico. - Bioquímica: a dosagem de eletrólitos e função renal é fundamental na avaliação inicial. A hiponatremia é comum em pacientes com IC e confere pior prognóstico. Piora da função renal está relacionada à perfusão renal prejudicada pelo baixo débito cardíaco ou à congestão renal. - Troponina: tem valor prognóstico na IC. Valores persistentemente elevados, na ausência de IAM, estão associados à maior mortalidade. Deve ser solicitada em toda admissão por IC aguda, para exclusão ou confirmação de síndrome coronariana aguda (SCA) - Peptídeos natriuréticos (BNP): é um marcador de sobrecarga cardíaca. Além de apresentarem valorprognóstico, possuem alto valor preditivo negativo (95%) para exclusão do diagnóstico de IC. Valores menores que 100pg/mL tornam improvável o diagnóstico. Valores elevados à admissão estão associados à pior evolução hospitalar. A dosagem no momento da alta traz informações prognósticas importantes, assim como a queda absoluta do BNP durante a internação. - Hepatograma: a hepatomegalia secundária à insuficiência cardíaca pode alterar o hepatograma. A alteração bioquímica mais comum nesses pacientes é a elevação discreta da bilirrubina (presente em mais de 70% dos pacientes). Na maioria dos casos, o nível sérico será menor que 3mg/dL, às custas de bilirrubina indireta. Nesses doentes, o nível sérico de bilirrubina tem valor prognóstico. As transaminases estão discretamente elevadas em 1/3 dos pacientes (até 3 vezes o valor de referência). Em casos de descompensação da IC no contexto de hipotensão secundária à disfunção ventricular, pode ocorrer elevação expressiva das transaminases, com quadro semelhante ao de uma hepatite viral. - Cinética do ferro: metade dos pacientes com IC possuem deficiência de ferro, mesmo sem anemia presente, conferindolhes pior prognóstico. Devemos dosar ferritina sérica e saturação de transferrina em todos pacientes com IC. Em caso de deficiência, está recomendada a reposição por via INTRAVENOSA, visando melhorar a capacidade funcional e a qualidade de vida e reduzir hospitalizações, independentemente da fração de ejeção. Estudos com reposição oral não demonstraram benefícios (absorção ineficaz). FISIOPATOLOGIA E AS CAUSAS DE ICC ⭢ ETIOLOGIAS - A insuficiência cardíaca tem várias causas, mas a doença arterial coronariana é a principal delas. Qualquer condição que dificulte a ejeção ou o relaxamento pode causar IC - Em alguns casos, há um comprometimento inicial no relaxamento e, evolutivamente, surgirá o comprometimento na ejeção. Dessa forma, algumas condições comprometerão tanto a função sistólica quanto a diastólica - A IC de causa sistólica está relacionada ao dano miocárdico (infarto, miocardite) e à sobrecarga ventricular (valvopatia, hipertensão) e resultará, invariavelmente, em dilatação da cavidade ventricular (explicaremos na fisiopatologia) - A IC de causa diastólica está relacionada à restrição no enchimento ventricular (cardiopatias restritivas, hipertensão, cardiopatias de depósito) em que a hipertrofia e a disfunção diastólica com elevadas pressões de enchimento serão as principais características - Além das condições que afetam primariamente o ventrículo esquerdo (VE), existem situações que levam, exclusivamente, à insuficiência cardíaca direita, como cor pulmonale (relacionado à DPOC), tromboembolismo pulmonar, estenose mitral e outros. - Por fim, existem as famosas causas de IC de alto débito, pouco frequentes na prática clínica, mas presentes nas provas de Residência: hipertireoidismo (tireotoxicose), deficiência de tiamina ou vitamina B1 (beribéri), cirrose, sepse, entre outras ⭢ FISIOPATOLOGIA DA IC CRÔNICA - Há importantes diferenças nos mecanismos fisiopatológicos da IC sistólica e diastólica, mas sabemos que a IC diastólica não tratada evoluirá para IC sistólica, devido à sobrecarga de cavidades. - A IC sistólica está associada a um remodelamento excêntrico das fibras cardíacas, com dilatação das cavidades e fração de ejeção reduzida. A IC diastólica está associada ao remodelamento concêntrico das fibras cardíacas, com hipertrofia das cavidades e fração de ejeção preservada/normal Fisiopatologia da ICFER - Na ICFER, encontramos redução no volume sanguíneo ejetado por distúrbio primário na ejeção ventricular. O organismo responderá a essa redução do volume ejetado de três formas 1) Mecanismo de Frank-Starling - Quanto maior a quantidade de sangue que chega ao coração, maior a distensão de suas fibras e mais sangue será ejetado. No entanto, tanto o coração como a cama elástica, têm um limite de distensão. - Após atingir esse limite, as fibras não respondem mais com aumento do débito cardíaco. A quantidade de sangue que chega ao coração é denominada pré- carga. - Na ICFER, encontramos sobrecarga de volume na cavidade ventricular esquerda, que comprometerá o débito cardíaco. Por isso, utilizamos diuréticos para reduzir a sobrecarga de volume no coração. - O mecanismo de Frank-Starling: existe um ponto máximo de distensão das paredes ventriculares. A partir desse ponto, as fibras musculares não conseguem responder com aumento da contratilidade, piorando o volume sistólico. 2) Sistemas neuro-hormonais a. O baixo débito cardíaco também reduz a perfusão renal, que responde com intensa ativação do sistema renina- angiotensinaaldosterona (SRAA), promovendo a retenção de sódio e água (responsável pelo quadro congestivo da insuficiência cardíaca) e vasoconstrição periférica (aumento da pós-carga). Esses mecanismos justificam o uso de inibidores da ECA/bloqueadores do receptor de angiotensina e antagonistas da aldosterona na IC. b. Em pacientes não tratados cronicamente, a elevação das catecolaminas, da angiotensina II (potente estimulador de hipertrofia ventricular) e aldosterona aumentam o gasto energético miocárdico, induzindo apoptose dos miócitos e deposição de colágeno, que geram fibrose miocárdica, responsável pela ocorrência de arritmias graves nesses pacientes (ver capítulo de taquiarritmias). c. A hipervolemia e o aumento do estresse ventricular gerado pela sobrecarga estimulará o aumento sérico do BNP (peptídeo natriurético cerebral). Esse hormônio possui potente ação natriurética de vasodilatação e supressão do sistema reninaangiotensina-aldosterona. Como você deve ter reparado, ele é um mecanismo compensatório. Em algumas situações, esse marcador será útil no diagnóstico de IC, como veremos à frente. - Além do BNP, outras moléculas vasodilatadoras endógenas são ativadas, em menor escala, como bradicinina, prostaglandinas e óxido nítrico, na tentativa de compensar o quadro excessivo de vasoconstrição periférica. Em contrapartida, a neprilisina, que possui atividade aumentada na IC, degrada essas moléculas vasodilatadoras (incluindo o BNP), promovendo efeito vasoconstritor e reduzindo o efeito dessas moléculas. - Existem outros sistemas neuro-hormonais que são ativados na insuficiência cardíaca, porém com menor importância nas provas de Residência, como: liberação de vasopressina/ADH (promove retenção hídrica); liberação de endotelina e liberação de citocinas. - A liberação de vasopressina é estimulada pelos níveis elevados de renina e catecolaminas e promoverá vasoconstrição periférica (receptores V1) e retenção de água livre (receptores V2), devido à sua ação nos túbulos coletores, podendo contribuir para hiponatremia (que é sinal de pior prognóstico na IC). 3) Remodelamento cardíaco - O remodelamento é a dilatação ventricular e perda da conformação cardíaca - Com a morte de diversos grupamentos celulares, os miócitos remanescentes precisam dar conta do recado: eles hipertrofiam! Então vamos memorizar os principais achados histológicos associados ao remodelamento cardíaco: perda de miócitos por apoptose, hipertrofia dos miócitos remanescentes, proliferação de fibroblastos e fibrose. Fisiopatologia da ICFEN - A fisiopatologia da IC diastólica é diferente. O mecanismo primário para o desenvolvimento da IC diastólica é a sobrecarga pressórica no ventrículo esquerdo (VE), que gera hipertrofia e aumento das pressões de enchimento. - A causa mais comum é a hipertensão arterial, mas pode acontecer em qualquer situação que gere sobrecarga ventricular esquerda (estenose aórtica, por exemplo). A hipertensão arterial será utilizada abaixo para explicar a progressão para IC 1) O esvaziamento atrial que ocorre na diástole dá-se em duas etapas: enchimento rápido do ventrículo e contração atrial. 70% desse processo acontece na fase de enchimento rápido. No pacientehipertenso, a elevação da pressão na raiz da aorta dificulta o esvaziamento ventricular, levando à sobrecarga de pressão no VE. 2) A resposta a essa sobrecarga é a hipertrofia ventricular esquerda (HVE). Há um aumento da pressão dentro do VE (pressão diastólica final ou Pd2) que dificulta o esvaziamento atrial (que depende da diferença de pressão entre o átrio e o ventrículo) - Assim, a contração atrial começa a ter um papel mais importante no esvaziamento atrial (assim surge B4). Com a piora da hipertrofia e sobrecarga de pressão no VE, o átrio esquerdo (AE) fica, progressivamente, mais sobrecarregado levando à sua dilatação (por isso, pacientes com disfunção diastólica têm maior risco e maior prevalência de fibrilação atrial) - Nesse momento, há sobrecarga de cavidades esquerdas (AE e VE) que acarretará o aumento da pressão venocapilar pulmonar. Por fim, esse aumento causará o edema intersticial pulmonar que provocará a dispneia. - Nessa fase adaptativa, qualquer situação súbita de descontrole de duplo produto (aumento da pressão arterial e/ou frequência cardíaca) pode provocar o famoso quadro de edema agudo de pulmão. Com o tempo, a sobrecarga de cavidades direitas gerará repercussão no lado direito do coração, levando às manifestações sistêmicas da insuficiência cardíaca. - No paciente com disfunção diastólica e sem tratamento adequado, a hipertrofia concêntrica evoluirá para hipertrofia excêntrica e dilatação da cavidade ventricular esquerda, evoluindo de maneira semelhante à fisiopatologia da IC sistólica. Na hipertrofia excêntrica, a espessura da parede ventricular pode ser normal, mas a massa do ventrículo esquerdo estará aumentada Fisiopatologia da IC direita - O ventrículo direito (VD) é uma cavidade com características diferentes do VE. Ele faz a conexão da circulação sistêmica com a circulação pulmonar. Fisiologicamente, é uma cavidade que lida com baixas pressões e, por isso, tem musculatura menos desenvolvida. Por outro lado, como o retorno venoso é variável, o VD tem grande capacidade de adaptar-se à volemia. - Por isso, falamos que o VD tolera muito bem volume, mas não tolera pressão! Além disso, o VD divide o septo interventricular com o VE. Com isso, parte da força contrátil do VD depende da contração septal. - Dessa forma, você deve imaginar que a dinâmica de contração ventricular fica prejudicada nos pacientes com bloqueios de ramo (o VE e VD irão contrair em momentos diferentes) - A maioria dos casos de IC direita está relacionada ao aumento da pós-carga direita (relacionada a doenças pulmonares ou sobrecarga de cavidades esquerdas), mas também pode ocorrer em casos de dano à musculatura ventricular direita (infarto de VD, por exemplo). Quando a disfunção de VD ocorre por doença pulmonar, o quadro é chamado de cor pulmonale. - A IC direita pode ocorrer de maneira aguda (tromboembolismo pulmonar, por exemplo) ou crônica. Na IC direita aguda, o VD não tem tempo para tentar adaptar-se à sobrecarga de pressão e dilata bastante. Se a causa de base não for resolvida, essa sobrecarga de pressão comprometerá o funcionamento do VE, pois o VD sobrecarregado comprimirá o VE, dificultando seu enchimento ⭢ FISIOPATOLOGIA DA IC AGUDA - O mecanismo fisiopatológico da IC aguda nova é diferente do paciente crônico (IC crônica agudizada). A IC aguda nova corresponde ao paciente sem história prévia de IC ou de doença cardíaca estrutural que desenvolve quadro de IC descompensada. - De uma maneira bem simples, a fisiopatologia envolve 3 itens: a pré- carga, a pós-carga e a contratilidade. O manejo adequado delas será fundamental na compensação do quadro cardíaco CLASSIFICAÇÃO E POSSÍVEIS PERFIS DA ICC ⭢ INSUFICIÊNCIA CARDÍACA CRÔNCIA Classificação quanto aos sintomas Quanto à fração de ejeção - Antigamente, baseados na fração de ejeção, classificávamos os pacientes em dois grupos: IC diastólica ou ICFEN (IC com fração de ejeção normal, em que a fração de ejeção era superior a 50%) e IC sistólica ou ICFER (IC com fração de ejeção reduzida, em que a fração de ejeção era inferior a 50%) - Por ser recente, essa classificação ainda não foi cobrada nas provas de Residência. Entretanto, a tendência é que esteja mais presente! As questões ainda abordam a classificação antiga: sistólica x diastólica ou FE normal x FE reduzida Quanto ao estágio ⭢ INSUFICIÊNCIA CARDÍACA AGUDA - Com relação à volemia, pacientes com sinais e sintomas de hipervolemia são classificados como congestos (úmidos). Na ausência desses sintomas, são definidos como secos. Quanto à perfusão, pacientes com baixo débito são chamados de frios, enquanto aqueles com perfusão preservada, são denominados quentes OPÇÕES DE TRATAMENTO E O MECANISMO DE AÇÃO DOS FÁRMACOS ⭢ TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA ICFER O tripé clássico da terapia que modifica mortalidade na insuficiência cardíaca (IC) de fração de ejeção reduzida é composto por: IECA/BRA, betabloqueadores e antagonistas de mineralocorticoide (espironolactona). - Dentre os betabloqueadores, os que modificam a mortalidade comprovadamente são apenas: carvedilol, bisoprolol e succinato de metoprolol - O complexo sacubitril/valsartana, um inibidor da neprilisina, pode ser usado em substituição aos IECA/BRA em pacientes que continuem sintomáticos a despeito da terapia tripla e a dapagliflozina e a empagliflozina, inibidores da SGLT2, que inicialmente foram lançados como antidiabéticos orais, no entanto, mostraram-se eficazes em reduzir a mortalidade, tanto em diabéticos, quanto em não diabéticos - Com isso, podemos dizer que temos definidas as cinco primeiras opções de drogas que devem ser usadas: IECA/BRA, betabloqueadores, espironolactona, sacubitril-valsartana e gliflozinas. - Após essas cinco opções, nos pacientes que estejam em uso de betabloqueadores em dose máxima e persistam com FC> 70 bpm, há benefício de mortalidade com o uso de ivabradina (um inibidor do canal IF do nó sinusal) - Além disso, a associação entre hidralazina e nitrato também é capaz de reduzir a mortalidade em pacientes autodeclarados afrodescendentes ou em substituição aos IECA/BRA em pacientes que não toleram essas medicações. IECA e BRA - Benefício comprovado nos pacientes com ICFER, com redução de morbidade e mortalidade cardiovascular demonstradas em vários ensaios clínicos, sendo, portanto, medicações de primeira linha no tratamento. o Mecanismo de ação - O mecanismo de ação dos IECA é através de vasodilatação e bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), cuja atividade se encontra exacerbada nos pacientes portadores de insuficiência cardíaca. - A ativação do SRAA tem como consequências a ocorrência de retenção hídrica e fibrose miocárdica, a qual está associada ao remodelamento e disfunção ventricular esquerda. Ao bloquearem o SRAA, os IECA são capazes de diminuir a hipervolemia e promover o remodelamento reverso do VE, o que se associa a uma melhora da função ventricular. - Os bloqueadores dos receptores AT1 da angiotensina II (BRA) são uma classe de medicações que também tem benefício na redução da morbimortalidade cardiovascular nos pacientes com ICFER. - Seu mecanismo de ação também dá-se através do bloqueio do SRAA, agindo diretamente ao nível dos receptores da angiotensina II. Dessa forma, devem ser utilizados como alternativa aos IECA nos pacientes com intolerância ou alergia confirmada a essa classe medicamentosa. o Indicação - Os IECA devem ser usados em todos os pacientes com ICFER sintomáticos, independente da etiologia, assim como nos pacientes com disfunção ventricular assintomática, a fim de evitar a evolução para a forma sintomática. Os principais representantes dos IECA usados na prática clínica são o captopril, enalapril, ramipril, lisinopril e perindopril - Considera-se como intolerância ao IECA a presença detosse persistente e debilitante (que ocorre em cerca de 10-20% dos pacientes que utilizam a medicação) ou a ocorrência de angioedema (que ocorre em menos de 1% dos pacientes). Nesses casos, a recomendação é de substituir o IECA por um BRA e observar a resposta. Os principais BRA estudados na IC são o valsartan, candesartan e losartan. o Efeitos colaterais - Alguns efeitos colaterais em comum entre os IECA e os BRA são hipotensão, disfunção renal e hipercalemia. Para minimizar o risco de hipotensão, essas medicações devem ser iniciadas em doses baixas com titulação progressiva da dose ao longo de algumas semanas, até atingir a dose alvo utilizada nos grandes ensaios clínicos, o que mostrou benefício na redução da morbimortalidade. - Devemos lembrar que o benefício do tratamento medicamentoso da ICFER é dose-dependente, ou seja, quanto maior a dose utilizada das medicações, maior será o impacto na redução dos desfechos cardiovasculares adversos. o Contraindicações BB o Mecanismo de ação - Os betabloqueadores (BB) são drogas que agem, basicamente, através do bloqueio de dois possíveis receptores: beta-1, que é responsável por fazer taquicardia e aumento de contratilidade cardíaca, e beta-2, que faz, principalmente, vasodilatação e broncodilatação. o Indicações - Essas drogas são consideradas de primeira linha para o tratamento da ICFER. São benéficas ao promoverem antagonismo da hiperatividade simpática, que causa efeitos deletérios no miocárdio, provocando fibrose, remodelamento e disfunção ventricular. - Dessa forma, os BB revertem os efeitos tóxicos do hiperadrenergismo no coração, promovendo remodelamento reverso. Esse efeito é observado em algumas semanas a meses após o início do tratam - Existem vários ensaios clínicos demonstrando o benefício dessa classe terapêutica na redução de morbimortalidade por insuficiência cardíaca e morte súbita, além de redução da taxa de reinternação por IC. - Quanto à morte súbita, os betabloqueadores são as drogas mais efetivas em sua prevenção. Esses resultados foram demonstrados de forma consistente com o uso de 3 medicações dessa classe: o carvedilol, o bisoprolol e o succinato de metoprolol. - Além dos já citados, cabe aqui falar também do nebivolol, um betabloqueador mais novo que combina o efeito betabloqueador com propriedades vasodilatadoras (através do aumento do óxido nítrico endotelial) que também mostrou benefício nos pacientes com ICFER acima de 70 anos, o Contraindicação - A introdução deve ser em doses baixas, uma vez que, por ter efeito inotrópico e cronotrópico negativos, seu início pode descompensar a doença. Posto isso, não devemos iniciar a terapia com betabloqueadores durante descompensações da doença. - A simples presença de pneumopatias (como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica) não constitui contraindicação absoluta para o uso dos betabloqueadores, apenas quando se encontram descompensadas e/ou com sinais de agudização. Caso contrário, essas drogas podem ser usadas, devendo-se dar preferência àquelas com maior cardiosseletividade (maior efeito B1, sem grande efeito B2, como bisoprolol e nebivolol) o Classificação Antagonista dos receptores mineralocorticoides o Representantes - Os antagonistas dos receptores mineralocorticoides são representados pela espironolactona (Aldactone®) e pela eplerenona o Mecanismo de ação - O objetivo é atuar de forma complementar aos IECA/BRA no bloqueio do SRAA, através do bloqueio direto dos receptores da aldosterona no coração, auxiliando, dessa forma, no remodelamento reverso do miocárdio; já que a aldosterona é responsável pelo depósito de fibras de colágeno no miocárdio. o Indicação - Eles estão indicados em pacientes com ICFER com disfunção ventricular esquerda sintomática, ou seja, em classe funcional NYHA II a IV, em associação aos IECA/ BRA e betabloqueadores. Nesse cenário, os ensaios clínicos mostraram redução adicional de mortalidade e rehospitalização com o uso desses agentes o Efeitos colaterais - O principal efeito colateral da espironolactona é a ginecomastia, que não ocorre com o uso da eplerenona, já que é um bloqueador seletivo dos receptores da aldosterona. o Contraindicação - Deve-se tomar cuidado principalmente no início da utilização da espironolactona em associação aos IECA/BRA pelo risco de piora da função renal e, principalmente, hipercalemia. - Sendo assim, deve ser realizada monitorização frequente e periódica da função renal e eletrólitos nas primeiras semanas do tratamento. - A recomendação das diretrizes é de suspender ou não iniciar a espironolactona nos pacientes com insuficiência renal avançada (creatinina sérica > 2,5 mg/dl) e nos pacientes com hipercalemia significativa (K sérico > 5,9 mEq/L) Inibidores da neprisilina e dos receptores da angiotensina II o Representantes - Os inibidores da neprilisina associados ao bloqueador da angiotensina II (INRA) constituem-se em uma nova classe terapêutica para o tratamento dos pacientes com ICFER, representados por uma única droga, o sacubitril/valsartan (Entresto®). o Mecanismo de ação - Trata-se da associação de um BRA (valsartana) com o sacubitril, um inibidor da neprilisina, uma enzima que participa da degradação da bradicinina e dos peptídeos natriuréticos. Ao inibir essa enzima, ocorre um aumento no nível sérico dos peptídeos natriuréticos e da bradicinina, o que tem efeito benéfico na IC devido à vasodilatação e a um possível efeito anti-remodelamento. o Indicação - A troca do IECA pelo INRA deve ser realizada de forma programada, devendo-se primeiramente suspender o IECA e aguardar 36h para iniciar o sacubitril-valsartan. Isso é feito visando reduzir o risco de ocorrência de angioedema, um dos efeitos colaterais mais sérios do sacubitril-valsartan e cujo risco é aumentado pela sobreposição do efeito do IECA com a inibição da neprilisina. - Nos pacientes que vêm em uso prévio de BRA, não há necessidade de aguardar tal período, podendo-se realizar a troca da medicação imediatamente. - Da mesma forma que com as outras medicações usadas na ICFER, o sacubitril-valsartan deve ser iniciado em dose baixa pelo risco de hipotensão, com posterior aumento da dose a cada 2 a 4 semanas, de acordo com a tolerância hemodinâmica do paciente e caso não haja piora significativa da função renal e hipercalemia, dois dos principais efeitos adversos da medicação. o Efeitos colaterais - Além desses efeitos adversos, pelo aumento da bradicinina, essa droga também pode causar tosse e angioedema Inibidores do SGLT-2 o Representantes - Dapaglifozina e empaglifozina o Mecanismo de ação - Os mecanismos envolvidos ainda estão sendo estudados, mas já se sabe que são drogas que causam reabsorção de sódio e glicose nos túbulos proximais e, dessa forma, têm efeito natriurético. No entanto, não é possível atribuir somente a isso o benefício e acredita-se que as gliflozinas também aumentem o metabolismo de ácidos graxos e cetonas pelo miocárdio, inibam o sistema renina-angiotensina-aldosterona e reduzam a pressão intraglomerula o Indicações o Efeitos adversos - Ao iniciar uma dessas drogas, devemos atentar-nos para um ponto. Por causar glicosúria, as gliflozinas podem desencadear infecções no trato geniturinário. Além disso, também podem causar hipotensão, discreto emagrecimento (o que pode ser até benéfico). - Um evento adverso curioso é a cetoacidose euglicêmica que pode acometer os pacientes que usam gliflozina, devido à glicosúria causada por essa droga. Ivabradina o Mecanismo de ação - O controle da frequência cardíaca é um dos alvos terapêuticos na IC. A ivabradina é uma substância que atua inibindo seletivamente a corrente elétrica “If” (essa corrente é responsável pela modulação das correntes iônicas no nó sinusal), reduzindo, dessa forma, a frequência cardíaca, o que tem efeitobenéfico na ICFER devido à modulação do tônus adrenérgico o Indicação - Só por essa informação, já podemos perceber que seu uso é estrito aos pacientes que estejam em ritmo sinusal, não havendo indicação em pacientes com fibrilação atrial ou outras taquiarritmias não sinusais. o Efeitos adversos - Essa droga possui poucos efeitos colaterais, sendo o principal deles a bradicardia, que ocorre em cerca de 5% dos pacientes. Além disso, parece haver um pequeno aumento na incidência de fibrilação atrial com o seu uso, devendo ser evitada nos pacientes portadores de ICFER com história de fibrilação atrial paroxística Nitrato e hidralazina o Mecanismo de ação - A associação de nitrato com hidralazina tem como princípio terapêutico combinar os efeitos de venodilatação dos nitratos com a vasodilatação arterial proporcionada pela hidralazina. Isso provoca redução da pré e da pós-carga do VE, o que diminui o trabalho cardíaco e, consequentemente, facilita o esvaziamento ventricular, melhorando a performance miocárdica. Essa combinação foi a primeira estratégia vasodilatadora que mostrou redução de desfechos clínicos nos pacientes com IC. O nitrato utilizado nos ensaios clínicos foi o dinitrato de isossorbida em doses elevadas. o Indicação Digitálicos o Representantes - Digoxina, deslanosídeo o Mecanismo de ação - Inibição da bomba de Na+/ K+ ATPase, resultando em aumento da concentração intracelular de cálcio e consequente aumento da força de contração das fibras miocárdicas, produzindo um efeito inotrópico positivo discreto, agindo diretamente nas células musculares cardíacas - Além disso, possuem efeito neuro-humoral, reduzindo o tônus simpático e aumentando o parassimpático, o que tem efeito benéfico nos pacientes com IC ao reduzir o estado de hiperadrenergismo associado à doença. - Por fim, possuem efeito direto no nó atrioventricular, aumentando seu período refratário e lentificando a condução do impulso elétrico por esse nódulo, o que explica seu efeito na redução da frequência cardíaca e no controle da resposta ventricular na fibrilação atrial (FA). Resumindo, os digitálicos aumentam a força de contração e diminuem a frequência cardíaca o Indicação - Apesar dos efeitos citados, que, aparentemente, são ideais em pacientes com ICFER, essas drogas perderam espaço com o advento da terapêutica contemporânea baseada no uso de IECA ou BRA, betabloqueadores e antagonistas dos receptores da aldosterona, já que essas classes reduzem mortalidade e os digitálicos não. - Outra deficiência dessa classe é que seu tempo de início de ação é lento (aproximadamente 6 horas), sendo, por isso, pouco útil em situações em que a demanda pelo controle de sintomas é mais urgente - Nesse caso, devem-se evitar níveis séricos de digoxina acima de 1,2 ng/ml, pois tais níveis estão associados com um aumento de mortalidade. o Intoxicação digitalítica - A intoxicação digitálica é uma condição clínica gerada pelo acúmulo anormal do digital (geralmente a digoxina) na corrente sanguínea. Os principais fatores de risco associados à ocorrência da intoxicação digitálica são a idade avançada, a presença de insuficiência renal e a hipocalemia - Essas drogas têm uma margem pequena de intoxicação, sendo que, tanto para a prática médica quanto para resolução de questões, é necessário reconhecer esse quadro. - Os pacientes com intoxicações digitálicas apresentam alterações neurológicas, como confusão mental, prostração, alterações de paladar e xantopsia (visão amarelada), alterações cardíacas como taquicardias e bradicardias e comprometimento gastrointestinal como náuseas, vômitos e anorexia - Algumas drogas podem aumentar os níveis séricos da digoxina, entre elas a amiodarona e o verapamil. Apenas a detecção de níveis séricos de digitálicos aumentados não fecha o diagnóstico de intoxicação, é necessário haver sintomas clínicos e alterações eletrocardiográficas. - O tratamento da intoxicação digitálica grave será feito com anticorpo específico (F-ab fragments) que é pouco disponível no Brasil. - Nas intoxicações agudas o mais comum é hipercalemia, pelo bloqueio da bomba Na+/K+/ATPase. Já nas intoxicações crônicas ocorre hipocalemia, principalmente, há associação com o uso prolongado de diuréticos que causam depleção de potássio. Infelizmente, os digitálicos não são retirados na diálise. - Outro ponto importante é que nas taquiarritmias causadas pela intoxicação digitálica, devemos evitar fazer cardioversão elétrica esse procedimento pode desencadear taquiarritmias malignas. Sendo assim, é reservado para casos de instabilidade hemodinâmica e deve ser usada uma baixa carga. Para tratamento dessas arritmias, pode-se usar amiodarona, lidocaína e fenitoína (essa última indicada em casos de taquicardia atrial com bloqueio atrioventricular e TV bidirecional). - Um conceito importante em relação ao uso dos digitálicos é o de impregnação digitálica. Trata-se de uma alteração eletrocardiográfica característica associada ao uso prolongado do digital, sem significado patológico, sendo apenas um marcador eletrocardiográfico do uso da medicação. Não tem, portanto, relação direta com a intoxicação digitálica - A alteração eletrocardiográfica típica da impregnação digitálica é o infradesnivelamento difuso do segmento ST (com aspecto em “colher de pedreiro” ou “bigode do Salvador Dalí”) da onda T. Vamos ver abaixo um exemplo de eletrocardiograma com sinais de impregnação digitálica: Diuréticos de alça e tiazídicos - Os diuréticos são a classe de medicações mais prescrita para os pacientes com IC. - Nos pacientes que permanecem com sinais de congestão refratária a despeito de doses crescentes dos diuréticos de alça, pode-se associar um diurético tiazídico (como a hidroclorotiazida ou a clortalidona), a fim de potencializar a diurese e tentar controlar melhor os sintomas. - Nesse caso, as doses de tiazídicos necessárias são geralmente maiores do que aquelas usadas na hipertensão arterial. Também é possível utilizar essas duas classes em associação com os antagonistas de receptores da aldosterona (espironolactona), estratégia essa conhecida como bloqueio sequencial do néfron e usada como última alternativa nos casos de congestão refratária. ⭢ DISPOSITIVOS CARDÍACOS IMPLANTÁVEIS NO TRATAMENTO DA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA COM FER - Além disso, houve o desenvolvimento de alguns dispositivos cardíacos implantáveis que também mostraram benefício na redução de eventos cardiovasculares maiores (inclusive morte) em grandes ensaios clínicos, sendo assim, indicados em alguns subgrupos específicos de pacientes com ICFER. - Tais dispositivos são a terapia de ressincronização cardíaca (TRC) e o cardiodesfibrilador implantável (CDI). Terapia de ressincronização cardíaca - A insuficiência cardíaca está associada à ocorrência de remodelamento miocárdico, o que pode desencadear distúrbios da condução intraventricular, conhecidos como bloqueios de ramo. - Sabe-se que os bloqueios de ramo, principalmente o bloqueio de ramo esquerdo (BRE), promovem contração assincrônica entre os ventrículos esquerdo e direito (fenômeno conhecido como dissincronismo interventricular). Isso leva a uma deterioração adicional da função ventricular, com agravamento do quadro de IC e piora dos sintomas. - Baseado nesse conhecimento, foi desenvolvida uma técnica capaz de recuperar o sincronismo ventricular, baseada na estimulação artificial de ambos os ventrículos de forma programada. Isso se dá através da colocação de um marcapasso com eletrodos de estimulação nos ventrículos direito e esquerdo (esse último geralmente posicionado no seio coronariano). - Com a recuperação da contração ventricular sincrônica, espera- se uma melhora da função ventricular e consequentemente dos sintomas de IC. A essa técnica de estimulação dá-se o nome de terapia de ressincronização cardíaca(TRC). - A TRC foi amplamente estudada em vários ensaios clínicos que comprovaram sua eficácia em melhorar os sintomas de IC e a qualidade de vida, além de diminuir o número de internações por IC e a mortalidade. Esses trabalhos também ajudaram a identificar os pacientes portadores de IC que se beneficiam do dispositivo, conhecidos como respondedores Cardiodesfibrilador implantável (CDI) - A morte súbita é responsável por 30% a 50% dos óbitos dos portadores de IC, sendo que cerca de 80% desses episódios são decorrentes de arritmias ventriculares como taquicardia ventricular (TV) ou fibrilação ventricular (FV). - Apesar desses números alarmantes, a incidência de morte súbita vem sendo reduzida com a utilização do tratamento medicamentoso contemporâneo da ICFER, principalmente com o uso dos bloqueadores neuro-humorais como os betabloqueadores, IECA, BRA e antagonistas da aldosterona. - Os principais preditores de risco para morte súbita são a ocorrência de episódio prévio de morte súbita recuperada, a documentação de um episódio de TV sustentada e a presença de disfunção ventricular com FEVE ≤ 35%. - Baseado nesses dados, foi desenvolvido um tipo de marcapasso com capacidade de reconhecer e, prontamente, tratar, através de um choque elétrico (desfibrilação ou cardioversão), arritmias ventriculares potencialmente graves, que poderiam causar morte súbita nos pacientes com ICFER. - Tal dispositivo é o cardiodesfibrilador implantável (CDI), que mostrou redução da mortalidade por arritmia ventricular em vários subgrupos de pacientes com ICFER, sendo superior às drogas antiarrítmicas - A indicação do CDI pode ocorrer em dois contextos clínicos distintos: na prevenção secundária (quando já houve algum evento de morte súbita ou arritmia ventricular grave instável documentado) e na prevenção primária de morte súbita (quando nunca houve evento arrítmico prévio documentado). - Em relação à prevenção secundária de morte súbita na ICFER, existe indicação formal de implante de CDI nas seguintes situações: - Pacientes com disfunção ventricular esquerda sobreviventes de parada cardiorrespiratória devido à fibrilação ventricular ou com taquicardia ventricular (TV) sustentada (definida como aquela com duração maior que 30 segundos) com instabilidade hemodinâmica associada, excluindo-se, em ambos os casos, a presença de causas reversíveis de arritmia, tais como isquemia miocárdica aguda ou distúrbios eletrolíticos; - Pacientes com doença cardíaca estrutural (por exemplo, miocardiopatia hipertrófica, displasia arritmogênica do ventrículo direito) e documentação de TV sustentada espontânea estável ou instável; - Pacientes com disfunção ventricular esquerda e episódios de síncope recorrente inexplicada, com indução de TV sustentada instável ou de FV no estudo eletrofisiológico. - O CDI é um dispositivo de alto custo e, portanto, é contraindicado em pacientes com baixa expectativa de vida (ventilatório 2) Diuréticos - Se o paciente não responde bem ao diutérico: diálise 3) Vasodilatadores endovenosos 4) Inotrópicos 5) Vasopressores 6) Digitálicos 7) Opioides 8) Dispositivos de assistência ventricular 9) Monitorização do paciente 10) Transplante MANEJO AMBULATORIAL DA ICC E A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO DO PACIENTE 1) Modificação do estilo de vida ✅ Redução do sal na dieta para evitar retenção de líquidos. ✅ Controle do peso (importante monitorar sinais de descompensação). ✅ Atividade física regular (individualizada, conforme tolerância). ✅ Parar de fumar e reduzir o consumo de álcool. ✅ Controle de comorbidades (hipertensão, diabetes, dislipidemia). 2) Controle do peso ✅ Diuréticos (ex: furosemida, espironolactona) – Controle de edema e congestão. Inibidores da ECA (IECA) ou BRA (ex: enalapril, losartana) – Redução da pós-carga e remodelação cardíaca. ✅ Betabloqueadores (ex: carvedilol, bisoprolol) – Melhoram a função cardíaca e reduzem mortalidade. ✅ Antagonistas da aldosterona (ex: espironolactona) – Para pacientes com ICC classe II-IV. ✅ Ivabradina (se FC elevada apesar do betabloqueador). ✅ Digoxina (usada em casos selecionados, especialmente se houver FA). 3) Monitoramento e acompanhamento ✅ Consultas regulares para ajuste de medicamentos. ✅ Exames laboratoriais (creatinina, potássio, BNP). ✅ Ecocardiograma periódico para avaliar a função cardíaca.