Prévia do material em texto
LEGISLAÇÃO URBANÍSTICA APLICADA Mariana Comerlato Jardim Efetividade dos instrumentos urbanísticos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Reconhecer os instrumentos de gestão urbanística. � Identificar aplicações desses recursos na gestão urbana. � Verificar a efetividade desses recursos. Introdução Neste capítulo, será apresentado um panorama geral do conceito de ins- trumentos urbanísticos, com base nas legislações vigentes e se apoiando em situações reais como exemplos. Serão abordados os principais instru- mentos urbanísticos, sua história, como se aplicam na gestão das cidades e que resultados geraram ao longo do tempo. Para uma melhor análise desse conteúdo, é preciso considerar as situações micro (cidade), meso (país) e macro (global). Instrumentos urbanísticos, o que são? Ao longo dos séculos, as cidades se desenvolveram por uma necessidade de desenvolvimento industrial. Essas expansões normalmente não são controladas, como no caso de Paris, e passaram a ser regulamentadas pelo Estado a partir da Revolução Industrial e o Movimento Moderno, como uma forma de higie- nização e melhoria da qualidade de vida da população (JARDIM, 2016). Nos casos mais recentes, a participação do governo tem ainda mais importância. O Estado pode intervir de duas formas no espaço construído da cidade: contribuindo com a infraestrutura e regulamentando o uso e a ocupação do espaço. O instrumento urbanístico está relacionado à segunda alternativa, e se refere ao conjunto de ações legais permitidas ao poder público a fim de intervir nos processos da cidade, principalmente em relação à produção do espaço. A intenção é que o governo regulamente, tenha controle dessas ações, e direcione-as para onde mais necessitar. Além disso, é um mecanismo que capacita o Estado a compreender como funciona o diálogo entre Estado e mer- cado, essenciais quando se pensa na gestão e produção do espaço urbano. Em outras palavras, toda a intervenção no espaço que seja feita com ferramentas legais, utiliza esses instrumentos urbanísticos. De modo geral, os instrumentos urbanísticos são ferramentas usadas para controlar o uso e a ocupação do solo, por exemplo: as leis de zoneamento, os planos diretores, os incentivos fiscais, as normas de construção das edifica- ções, entre outros. Eles têm como função alcançar os objetivos estratégicos definidos pelo Estado, dessa forma, é necessário compreender os resultados que se busca alcançar para então definir os instrumentos a serem utilizados (FERREIRA, 2005). Esses instrumentos podem corresponder a uma maior ou menor intervenção do Estado para organizar as manifestações de produção do espaço urbano. Entretanto, a conquista do objetivo depende de outras questões, mais amplas e complexas do que a real eficiência do instrumento, do que a sua implantação por parte do governo, simplesmente. Em Porto Alegre, por exemplo, o Plano Diretor se tornou o principal instrumento político de planejamento urbano e sua eficácia se deu por suas transformações ao longo dos anos. No início do século XX, as principais intervenções focavam na introdução da modernidade na cidade, mas ainda sem uma tática eficaz. Com a Lei Muni- cipal nº 204/1959, incorporou-se o Plano Diretor como instrumento urbanístico no planejamento e ordem do funcionamento da urbe. Os pontos modernos da cidade, propostos na Carta de Atenas, de Le Corbusier, foram essenciais para implantação do plano: habitação, trabalho, lazer e circulação (IRAZÁBAL, 2002). Em 1979, foi desenvolvido o primeiro Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, conhecido como PDDU, incorporando os instrumentos utilizados anteriormente, além da participação da população no conselho, o que pode intensificar a eficácia desses instrumentos. Em 1999 ocorre a reformulação do plano, intitulada Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA), na qual foram criados no- vos instrumentos, como o solo criado. Entretanto, pode-se notar um grande afastamento entre os objetivos e as propostas adotadas, conforme abordado acima. Fragmentação das atitudes envolvidas, divisão das prioridades nos bairros, temas muito extensos e pouco discutidos, além da disputa em relação à altura dos prédios, fazem com que os instrumentos não sejam escolhidos Efetividade dos instrumentos urbanísticos2 devidamente e representem não uma solução, mas um obstáculo na busca de uma cidade democrática, com a participação da população, e, de certa forma, sustentável (COLUSSO; CRUZ, [201-?]). O que é solo criado? No caso do Plano Diretor de Porto Alegre, de 1999, “solo criado” aparece no Capítulo III e é definido como a compra de metragem quadrada para ocupação intensiva do terreno. Vale ressaltar, porém, que essa compra está sujeita à disponibilidade no “estoque”, como é definido, já que há um limite de área para tal fim, além de regiões específicas. No site da prefeitura de Porto Alegre, você pode encontrar o Plano Diretor de Desen- volvimento Urbano Ambiental (PDDUA-POA). Se quiser ler na íntegra o Capítulo III, sobre solo criado, ou mesmo todo o plano, acesso o link a seguir. https://goo.gl/n5sazL História dos instrumentos Os instrumentos urbanísticos nascem de um fortalecimento do Estado burguês europeu, como uma transição para o desenvolvimento intensivo. O momento, século XIX, era de abandono dos conceitos do liberalismo clássico, como a liberdade individual e a limitação do Estado perante as leis. Com isso, o Estado ganha forças, com maior poder de intervenção, suficientes para assegurar uma estrutura necessária nesse novo período (BORON, 2006). Esse momento histórico também é definido como Estado do bem-estar social, organização política que coloca o Estado como agente da promoção social e organizador da cidade e de tudo que a contempla. Com isso, é papel do Estado garantir o bem-estar social e todos os serviços públicos à população (FERREIRA, 2003). 3Efetividade dos instrumentos urbanísticos https://goo.gl/n5sazL Quer saber mais sobre o Estado do bem-estar social? Acesse o link ou no código a seguir para assistir a um vídeo bastante interessante sobre o assunto. https://goo.gl/Hcs8z9 Na visão urbana, os instrumentos apareceram como forma de garantir três pontos principais, segundo Benevolo (1974): � a higienização das cidades, pois era necessário melhorar as condições de habitabilidade (insolação, ventilação) para aumentar a expectativa de vida da população — a abertura de novas ruas e o controle da densificação dos lotes foram algumas alternativas; � o controle social, já que a população vivia em constantes revoltas e as tropas precisavam controlá-la — com isso foram abertas grandes avenidas para que pudessem acessar esses pontos; � a promoção de intervenções que valorizassem os imóveis em prol dos níveis sociais mais elevados, que, por consequência, eram os mais ligados ao poder. A mais paradigmática dessas intervenções foi idealizada por Georges- -Eugène Haussmann, em Paris, entre 1850 e 1870. A intenção era liberar o tecido urbano para facilitar manobras militares, além de fazer uma grande transformação sobre o tecido urbano. Para o político francês, a arquitetura era um problema administrativo e só deveria se importar com os interesses de Napoleão, a maior parte deles voltados ao militarismo. Seguindo esse pensamento, é desenvolvido um plano urbanístico totalmente racionalista, que visava apenas à técnica, desconsiderando o contexto histórico. Um dos principais pontos da reforma de Haussmann é a reforma da Ìlle de la Cité em área militar; para atingir esse objetivo, foi necessário demolir todas as edificações do local. A ideia principal dessa intervenção era mudar a imagem da cidade em relação à insalubridade, trazendo um ar de modernidade. Com isso, os bairros degradados foram exterminados e a circulação foi otimizada com vias de Efetividade dos instrumentos urbanísticos4 https://goo.gl/Hcs8z9amplo gabarito, arborizadas e com sistema de iluminação — conhecidas como boulevards. A cidade medieval, de traçado orgânico e vias estreitas, recebe grandes eixos transversais e anéis viários contornando-a. A criação de praças e rotatórias, conhecidas pelos franceses como carrefours, também faz parte desse novo cenário. Vale ressaltar que essa intervenção aconteceu apenas sobre 1/3 da malha viária existente (BENEVOLO, 2017). Figura 1. Traçado proposto por Haussmann sobre malha viária de Paris, entre 1850 e 1870. Fonte: Benevolo (1983). As reformas de Haussmann sustentaram a importância do uso de ins- trumentos urbanísticos, assim como outro modo de intervenção estatal, o provimento de infraestrutura. Foram usadas ferramentas como construção de nova base viária, de rede de esgotos, de bulevares, nova regulamentação edilícia, com código de obras e uso dos solos, por exemplo. Outra intervenção trata das edificações “haussmanianas”, voltadas para esses bulevares. O Impe- rador Napoleão III, principal fomentador de todas essas mudanças, considera Haussmann o “pai” do urbanismo moderno, além de ser o responsável por consolidar o Estado e suas ferramentas como produtor e regulamentador do espaço urbano. Assim é resumida a mais importante e radical intervenção urbana do período, culminando na construção da cidade-luz. 5Efetividade dos instrumentos urbanísticos Figura 2. Fachada modelo das edificações propostas por Haus- smann nos bulevares. Fonte: Benevolo (1983). Outro momento importante na consolidação dos instrumentos urbanísticos aconteceu após a crise de 1929, nos Estados Unidos, e na reconstrução das cidades após a Segunda Guerra Mundial. Nesse período, houve a consolidação de uma política sociodemocrata e de consumo em massa, de intervenção mais humanista do Estado de bem-estar social, em que essas ferramentas eram utilizadas para garantir que o maior número de habitantes tivesse acesso à infraestrutura. O Movimento Moderno propunha uma organização funciona- lista, com a setorização de usos, e era função estatal agir com força na regu- lamentação a organização da cidade. Zoneamento, regulamentação do espaço público, determinação de gabaritos, restrições construtivas e organização do espaço púbico foram ferramentas gerais aplicadas massivamente pelo Estado nas políticas públicas focadas no urbanismo. No Brasil, existe o problema de estruturação política, no qual a promoção da economia se dá em função do mercado interno e na produção de força de trabalho. Os instrumentos que foram criados para fornecer ao Estado a capa- Efetividade dos instrumentos urbanísticos6 cidade de promoção de cidades mais homogêneas e socialmente equilibradas acabam fadadas ao fracasso. Em resumo, essas ferramentas que seriam capazes de produzir um espaço urbano mais homogêneo acabam inibidas por um antagonismo da elite que, não por acaso, está com grande parte do poder nas mãos. Em uma visão socialista, alguns urbanistas entendem que o problema está no alcance desses instrumentos, barrados por essa estruturação social; caso conseguissem ser aplicados e consolidados, esses instrumentos seriam responsáveis por construir cidades menos desiguais para uma sociedade menos desigual (FERREIRA, 2005). De fato, a implantação desses instrumentos por administrações sérias e comprometidas com a população pode gerar espaços urbanos mais coerentes com os anseios da sociedade e, de certa maneira, de maior qualidade. Mas as ferramentas urbanísticas nada são se não houver um trabalho de gestão por parte do Estado, que identifique as intenções de trabalho, os meios (instrumentos) e os objetivos a serem alcançados, de forma a transformar a sociedade. Estatuto da Cidade, Plano Diretor e a atuação dos instrumentos urbanísticos Estatuto da Cidade O Estatuto da Cidade foi instituído por uma Lei Federal nº 10.257, de 10 de julho de 2001, na intenção de reduzir a desigualdade social no país. Isso acon- teceria pelo uso dos instrumentos que a lei apresenta, na busca da correção das disparidades existentes, uma vez que as cidades cresceram desordenadamente até então. Algumas iniciativas isoladas para o desenvolvimento urbano já haviam acontecido antes desse fato, porém não havia uma lei dedicada à política urbana. Seus princípios básicos são o planejamento participativo e a função social da propriedade. Se tiver interesse em ler o texto na íntegra, a Lei Federal nº 10.257/2001 está disponível no link ou no código a seguir. https://goo.gl/SvFKDs 7Efetividade dos instrumentos urbanísticos https://goo.gl/SvFKDs O Estatuto da Cidade veio normatizar os instrumentos do direito urbanístico que ainda não estavam presentes no ordenamento ou que necessitavam de regulamentação. Como colocam Dallari e Ferraz (2010, p. 23), esse estatuto: [...] tem o objetivo de consolidar o direito urbanístico (fixando conceitos e regulamentando instrumentos), de lhe conferir articulação, tanto interna (estabelecendo os vínculos entre os diversos instrumentos urbanísticos) como externa (fazendo a conexão de suas disposições com as de outros sistemas normativos, como as do direito imobiliário e registral), e, desse modo, viabi- lizar sua operação sistemática. Essa legislação apresenta diretrizes gerais para a implantação de políticas urbanas, além de instrumentos competentes para garantir que esses anseios possam ser supridos, instruindo na questão do direito de propriedade e esco- lhendo facilitadores estatais na sua implantação, em matéria de urbanismo. Embora seja uma Lei Federal, à União cabe legislar as normas gerais, elaborar e promover os planos nacionais de urbanismo e atuar junto com os estados e municípios em relação às políticas públicas. Entretanto, é obrigação do município instituir o Plano Diretor e operacionalizar as diretrizes do projeto, por meio dos instrumentos que achar necessário para alcançar os objetivos. Uma das principais ferramentas previstas no estatuto para prover cidade é o Plano Diretor, que busca articular a implementação de planos participativos, definir instrumentos urbanísticos para combater a especulação imobiliária e promover a regularização fundiária dos imóveis na cidade. A intenção é definir uma nova regulamentação para o uso do solo urbano, de modo que a cidade sofra uma ocupação mais homogênea. Algumas das iniciativas que podemos citar são a cobrança de IPTU progressivo de até 15% para terrenos ociosos, a simplificação da legislação de parcelamento, o uso e ocupação do solo, de modo a aumentar a oferta de lotes, e a proteção e a recuperação do meio ambiente urbano (SILVA, 2012). Plano Diretor O Plano Diretor é o “[...] instrumento básico de desenvolvimento e expansão urbana” (BRASIL, 2001, documento on-line, artigo 40), obrigatório para municípios com mais de 20 mil habitantes, ou cidades integrantes de áreas de interesse turístico ou em que haja atividades com significativo impacto ambiental (artigo 41). O estatuto exige que seja função mínima dos planos Efetividade dos instrumentos urbanísticos8 diretores delimitar as áreas onde possa haver parcelamento, edificação, direito a construir e/ou alterar o uso do solo de forma onerosa (artigo 42), por exemplo. O Estatuto da Cidade, que tornou o Plano Diretor algo normatizado, de- terminou “[...] que será o plano diretor o instrumento jurídico competente para precisar a fluidez do conceito de função social da propriedade urbana” (BRASIL, 2001, documento on-line, artigo 1). Fez isso ao confirmar que “[...] a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor” (BRASIL, 2001, documento on-line, artigo 39). Completa, ainda, que o Plano Diretor é o instrumento normativo competente para definir a função social da propriedade para fins urbanísticos, visando a atender ao § 4º do art. 182 da Constituição Federal (CF). Outros instrumentos estão vinculados à existência do Plano Di- retor, como a outorgaonerosa do direito de construir e o direito de preempção (DALLARI; FERRAZ, 2010). O artigo 182 da Constituição Federal é responsável por ordenar o poder público municipal, garantindo o bem-estar social da população. A edição do plano, de cidade a cidade, permite o uso de instrumentos para a implantação de políticas urbanas. A falta de edição faz com que a utilização desses instrumentos não funcione. Desse modo, há penas à prefeitura que não fizer essas edições, pois o Plano Diretor é uma obrigação do agente pú- blico, de caráter funcional. Tanto é que esse ato pode ser caracterizado como improbidade administrativa do Chefe do Executivo Municipal. Entretanto, a população tem poder sobre os planos, já que existem diversas consultas populares e audiências públicas, embora não conste nada como obrigatório na legislação (FARIAS; GOMES; MUSSI, 2011). Os instrumentos urbanísticos na prática Quando se trata das cidades brasileiras, temos uma taxa de crescimento alta no século XX. Em 1920, a população brasileira era de 30 milhões de pessoas; em 1960, era mais que o dobro, 70 milhões de habitantes; em 1980, 120 milhões de 9Efetividade dos instrumentos urbanísticos habitantes; em 2000, 138 milhões de pessoas (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2000). Mais alarmante nesses números foi o aumento da população morando nas cidades: os 12,8 milhões de habitantes que viviam na zona urbana em 1940 (31,2% do total da população do país) passaram a ser 80 milhões em 1980 — 66,7% do valor total populacional (BRUNA, 2002). Tendemos a ter a impressão que o caos das cidades — as favelas, o transporte ineficiente, a ausência de saneamento, a violência — fossem características sempre ligadas às cidades de grande porte, o que não é verdade. Pelo contrário, o pensamento keynesiano, que defende o Estado como agente indispensável da economia, que se consolidou na Europa do Pós-Guerra, se baseava no crescimento do capitalismo fordista, que implicava no aumento dos níveis de vida e de consumo dos trabalhadores de forma homogênea, gerando salários honestos e habitação salubre, completando o ciclo produto-consumo. No Brasil, o que se tem é um capitalismo voltado à exploração da mão-de- -obra barata. A associação das burguesias nacionais com os interesses do capi- talismo internacional construiu um capitalismo canhestro, voltado à exportação e explorador da massa de mão-de-obra, o que muitos pensadores chamaram de desenvolvimento desigual, em um comparativo em relação ao desenvolvimento do capitalismo dos países industrializados (FERREIRA, 2003). Enquanto o maior crescimento das cidades ocorre nas favelas e aglomerados da periferia, os maiores investimentos se concentram onde está a população mais rica. É notável que a maior parte das políticas públicas se encontravam no eixo de desenvolvimento produzido pelas elites em seus deslocamentos, na busca de espaços ainda mais privilegiadas para se viver. O que se tem é uma clara inversão de prioridades, quando os municípios investem praticamente só nessas regiões privilegiadas da cidade, restando prejuízos para as demandas mais urgentes da periferia (VILLAÇA, 2012). Todo o processo de industrialização que o país sofreu, que poderia ter gerado ganhos significativos, só criaram insatisfações sociais plenas. O período da ditadura militar, que muito construiu, preocupou-se com números, e não com qualidade. Nos anos 1970, quem não estava incluído no “milagre brasileiro”, reivindicava uma cidade melhor, com condições de moradia, equipamentos urbanos, educação e saúde. Os maiores ganhos dessas reivindicações foram a Constituição de 1988, com o artigo 182, e a aprovação do Estatuto da Cidade, em 2001 (FERREIRA, 2003). Como se encaixam os instrumentos urbanísticos nisso tudo? Seu uso cul- minou no acerto das administrações? Essas perguntas nos levam a retomar as administrações na Europa do Pós-Guerra, em que a intervenção do Estado na economia visava a garantir um patamar financeiro compatível com o sistema, Efetividade dos instrumentos urbanísticos10 a fim de gerar consumo. Além disso, o papel do Estado, de garantir moradia, foi assegurado quando ele passou a controlar também as ações imobiliárias. Para permitir que o Estado se mantivesse com o controle urbano em mãos, uma variedade de instrumentos foi criada, dando poder regulador de significância sobre o uso do solo, aplicando restrições de usos e adensamentos, taxas de ocupação, limites de altura e verticalização, entre outros. E os exemplos de sucesso? Entre os mais diversos instrumentos urbanísti- cos, é possível citar as Zônes d’Aménagement Concerté (ZAC) francesas, que são intervenções estatais na propriedade fundiária, promovendo novos usos e construções em áreas periféricas degradadas, buscando a requalificação. Outro exemplo francês é o Plafond Legal de Densité, no qual é regulado o direito de construir além do limite determinado, em áreas selecionadas na capital francesa (FERREIRA, 2003). No Brasil, a intenção era também que desse certo, quando os apoiadores da reforma urbana buscaram a aprovação da Constituição de 1988 e do Estatuto das Cidades, em 2001, acreditando que essas legislações proporcionariam um instrumental necessário para exercer um controle sobre a dinâmica das cidades. Isso era o que os “instrumentos urbanísticos” buscavam alcançar (RIBEIRO; CARDOSO, 1994). Mas, por quê, em geral, as iniciativas de políticas urbanas, com o uso de instrumentos, não deram certo aqui no país? Nota-se uma disparidade na estru- tura de pensamento entre as realidades dos países industrializados e a do Brasil. Na Europa, os instrumentos acontecem juntamente ao Estado do bem-estar social, como ferramentas essenciais para o trabalho do poder público. Com isso, existe a possibilidade de planejar os objetivos, os instrumentos necessários e a forma de chegar até eles, a fim de promover um modelo político e social, junto aos interesses da população. No território brasileiro, os instrumentos urbanísticos são quase que uma reação aos problemas de desigualdade das cidades e sociedade, influenciando o seu potencial e chances de alcance de meta (RIBEIRO; CARDOSO, 1994). Dessa forma, entende-se que há um conflito social muito grande, e que é preciso que o Estado enfrente os privilégios do setor dominante na cidade, resultado de uma história de colonização, escravidão e heterogeneidade de mais de 500 anos. A realidade é que esses instrumentos só terão eficiência se houver, por parte do setor público, uma motivação em tentar reverter esse quadro, buscando a melhoria da população mais necessitada e enfrentando a hegemonia dos mais abastados. Sem interesse do Estado, os instrumentos se tornam apenas bonecos de teor estético, sem poder de mudança no quadro urbano e social brasileiro. 11Efetividade dos instrumentos urbanísticos 1. Segundo a Constituição Federal de 1988, as políticas públicas urbanísticas devem ser aplicadas pelo Estado, já que é dele a função de promover à população o bem-estar social. Seguindo esse pensamento: a) os instrumentos urbanísticos são utilizados para a regulamentação do uso e da ocupação do espaço. b) o Estado, quando não interfere na economia, deve se abster dos problemas sociais. c) os instrumentos urbanísticos são ferramentas exclusivas da população, a fim de apoiar o Estado nas suas funções. d) o Estatuto das Cidades, de 2001, anula todas as funções da Constituição de 1988. e) o direito urbanístico também estava previsto na Constituição de 1988 e já regulamentava as atuações anteriores do Estado. 2. A cidade de Paris sofreu diversas alterações após as intervenções de Haussmann. Os urbanistas modernistas tinham conceitos higienistas, mudando a visão insalubre da cidade. Sobre isso, é correto afirmar que: a) essas mudanças contrariavam as ordens de Napoleão, de quem era inimigo. b) tinha foco na construção de grandes torres verticais e isoladas no lote. c) promoveu a aberturasde grandes vias transversais e de grande gabarito. d) essas intervenções ocorreram no início do século XX e tiveram influências do arquiteto franco-suíço Le Corbusier. e) a intenção dos bulevares era promover a circulação dos carros que eram produzidos massivamente na época. 3. O Plano Diretor é um instrumento urbanístico que busca organizar um protocolo com informações a serem seguidas no planejamento das cidades. Sobre o art. 182 da Constituição Federal de 1988, é possível afirmar que o plano: a) deverá ser organizado e regulamentado pelos estados, até chegar aos municípios. b) torna-se obrigatório para todas as cidades com 30 mil habitantes ou mais. c) as desapropriações são feitas de forma antecipada e remunerada. d) o proprietário que não utilizar o solo urbano ou que não promova o seu uso não será multado, apenas notificado. e) os planos diretores tem duração máxima de 10 anos. 4. O Estatuto da Cidade surgiu a partir da Lei Federal nº 10.257/2001, que buscava regulamentar o crescimento desenfreado das cidades brasileiras. Essa legislação apresenta diretrizes para a aplicação de políticas urbanas, além de instrumentos fundamentais para garantir que esses anseios possam ser supridos, instruindo na questão do direito de propriedade. É verdadeiro afirmar que: Efetividade dos instrumentos urbanísticos12 a) por ser uma lei federal, é obrigação da União executá-la, deixando os municípios livres dessa obrigação. b) passou a tornar o Plano Diretor obrigatório para todos os municípios brasileiros. c) buscava regularizar a ocupação das cidades, eliminando as ocupações irregulares. d) está prevista no estatuto a cobrança de multa para terrenos ociosos, parcelamento e uso dos solos incorretos. e) o estatuto resolveu todos os problemas das cidades e não precisa mais ser revisado. 5. Os instrumentos urbanísticos dependem da aplicação do poder público para mostrar sua eficiência. Com isso, dependendo da política adotada, serão definidos os instrumentos utilizados. Com base nisso, é possível afirmar que: a) na Europa pós-guerra, a intenção era valorizar as áreas centrais, excluindo os mais necessitados. b) a intervenção do Estado na economia, proposta por Keyne, permitiu uma circulação de dinheiro no mercado e um retorno financeiro mais justo à população. c) o Brasil seguiu um liberalismo econômico, em que os privilegiados eram os trabalhadores. d) as iniciativas do capitalismo existente no Brasil visavam a recuperar as favelas e a garantir o bem-estar social de toda a população. e) os instrumentos previstos na Constituição de 1988 foram anulados pelo Estatuto da Cidade. BENEVOLO, L. História da cidade. São Paulo: Perspectiva, 1983. BENEVOLO, L. História da cidade. São Paulo: Perspectiva, 2017. BENEVOLO, L. Historia de la arquitectura moderna. 2. ed. Barcelona: Gustavo Gilli, 1974. BORON, A. A. (Org.). Filosofia política moderna: de Hobbes a Marx. - Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales - CLACSO; San Pablo: Depto. de Ciência Política - FFLCH - Universidade de São Paulo, 2006. (Biblioteca de ciencias sociales dirigida por Atilio Alberto Boron). BRUNA, P. Arquitetura, industrialização e desenvolvimento. São Paulo: Perspectiva, 2002. COLUSSO, I.; CRUZ, M. Experiências de Planejamento Municipal Participativo: O Caso do Fórum de Entidades em Porto Alegre, RS. [201-?]. Disponível em: . Acesso em: 11 jun. 2018. DALLARI, A. A.; FERRAZ, S. (Coord.). Estatuto da cidade: (Comentários à Lei Federal 10.257/2001. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 2010. FARIAS, V. de O.; GOMES, D.; MUSSI, A. Q. (Org.). Estatuto da cidade: os desafios da cidade justa. Passo Fundo, RS: Ed. IMED, 2011. FERREIRA, J. S. W. A cidade para poucos: breve história da propriedade urbana no Brasil. In: SIMPÓSIO INTERFACES DAS REPRESENTAÇÕES URBANAS EM TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO, 2005, Bauru. Anais... Bauru, SP: UNESP; SESC, 2005. FERREIRA, J. S. W. Instrumentos urbanísticos. Revista Democracia Viva Ibase, n. 18, set./ out. 2003. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2000: ca- racterísticas da população e dos domicílios: resultados do universo. 2000. Disponível em: . Acesso em: 11 jun. 2018. IRAZÁBAL, C. Da Carta de Atenas à Carta do Novo Urbanismo: qual seu significado para a América Latina? Vitruvius: Arquitextos 019.03, ano 02, dez. 2002. Disponível em: . Acesso em: 10 jun. 2018. JARDIM, M. C. Dois conjuntos, duas realidades: os casos contemporâneos de Habitação Popular na rua Grécia/SP e Quinta Monroy/Chile. 149 fls. 2016. Dissertação (Mestrado em Arquitetura)- Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2016. RIBEIRO, L. C. de Q.; CARDOSO, A. L. Planejamento urbano no Brasil: paradigmas e experiências. Espaço & Debates, ano 14, n. 37, p. 77-89, 1994. SILVA, J. A. da. Direito urbanístico brasileiro. 7. ed. São Paulo: Malheiros, 2012. VILLAÇA, F. Reflexões sobre cidades brasileiras. São Paulo: Studio Nobel, 2012. Efetividade dos instrumentos urbanísticos14 https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/ http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.019/821 Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. Conteúdo: