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LEGISLAÇÃO 
URBANÍSTICA 
APLICADA 
Mariana Comerlato
Jardim
 
Efetividade dos 
instrumentos urbanísticos
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 � Reconhecer os instrumentos de gestão urbanística.
 � Identificar aplicações desses recursos na gestão urbana.
 � Verificar a efetividade desses recursos. 
Introdução
Neste capítulo, será apresentado um panorama geral do conceito de ins-
trumentos urbanísticos, com base nas legislações vigentes e se apoiando 
em situações reais como exemplos. Serão abordados os principais instru-
mentos urbanísticos, sua história, como se aplicam na gestão das cidades 
e que resultados geraram ao longo do tempo. Para uma melhor análise 
desse conteúdo, é preciso considerar as situações micro (cidade), meso 
(país) e macro (global). 
Instrumentos urbanísticos, o que são?
Ao longo dos séculos, as cidades se desenvolveram por uma necessidade de 
desenvolvimento industrial. Essas expansões normalmente não são controladas, 
como no caso de Paris, e passaram a ser regulamentadas pelo Estado a partir 
da Revolução Industrial e o Movimento Moderno, como uma forma de higie-
nização e melhoria da qualidade de vida da população (JARDIM, 2016). Nos 
casos mais recentes, a participação do governo tem ainda mais importância. 
O Estado pode intervir de duas formas no espaço construído da cidade: 
contribuindo com a infraestrutura e regulamentando o uso e a ocupação do 
espaço. O instrumento urbanístico está relacionado à segunda alternativa, 
e se refere ao conjunto de ações legais permitidas ao poder público a fim de 
intervir nos processos da cidade, principalmente em relação à produção do 
espaço. A intenção é que o governo regulamente, tenha controle dessas ações, 
e direcione-as para onde mais necessitar. Além disso, é um mecanismo que 
capacita o Estado a compreender como funciona o diálogo entre Estado e mer-
cado, essenciais quando se pensa na gestão e produção do espaço urbano. Em 
outras palavras, toda a intervenção no espaço que seja feita com ferramentas 
legais, utiliza esses instrumentos urbanísticos. 
De modo geral, os instrumentos urbanísticos são ferramentas usadas para 
controlar o uso e a ocupação do solo, por exemplo: as leis de zoneamento, os 
planos diretores, os incentivos fiscais, as normas de construção das edifica-
ções, entre outros. Eles têm como função alcançar os objetivos estratégicos 
definidos pelo Estado, dessa forma, é necessário compreender os resultados 
que se busca alcançar para então definir os instrumentos a serem utilizados 
(FERREIRA, 2005). 
Esses instrumentos podem corresponder a uma maior ou menor intervenção 
do Estado para organizar as manifestações de produção do espaço urbano. 
Entretanto, a conquista do objetivo depende de outras questões, mais amplas 
e complexas do que a real eficiência do instrumento, do que a sua implantação 
por parte do governo, simplesmente. Em Porto Alegre, por exemplo, o Plano 
Diretor se tornou o principal instrumento político de planejamento urbano e 
sua eficácia se deu por suas transformações ao longo dos anos.
No início do século XX, as principais intervenções focavam na introdução 
da modernidade na cidade, mas ainda sem uma tática eficaz. Com a Lei Muni-
cipal nº 204/1959, incorporou-se o Plano Diretor como instrumento urbanístico 
no planejamento e ordem do funcionamento da urbe. Os pontos modernos da 
cidade, propostos na Carta de Atenas, de Le Corbusier, foram essenciais para 
implantação do plano: habitação, trabalho, lazer e circulação (IRAZÁBAL, 
2002). Em 1979, foi desenvolvido o primeiro Plano Diretor de Desenvolvimento 
Urbano, conhecido como PDDU, incorporando os instrumentos utilizados 
anteriormente, além da participação da população no conselho, o que pode 
intensificar a eficácia desses instrumentos. 
Em 1999 ocorre a reformulação do plano, intitulada Plano Diretor de 
Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA), na qual foram criados no-
vos instrumentos, como o solo criado. Entretanto, pode-se notar um grande 
afastamento entre os objetivos e as propostas adotadas, conforme abordado 
acima. Fragmentação das atitudes envolvidas, divisão das prioridades nos 
bairros, temas muito extensos e pouco discutidos, além da disputa em relação 
à altura dos prédios, fazem com que os instrumentos não sejam escolhidos 
Efetividade dos instrumentos urbanísticos2
devidamente e representem não uma solução, mas um obstáculo na busca de 
uma cidade democrática, com a participação da população, e, de certa forma, 
sustentável (COLUSSO; CRUZ, [201-?]).
O que é solo criado? 
No caso do Plano Diretor de Porto Alegre, de 1999, “solo criado” aparece no Capítulo III e 
é definido como a compra de metragem quadrada para ocupação intensiva do terreno. 
Vale ressaltar, porém, que essa compra está sujeita à disponibilidade no “estoque”, 
como é definido, já que há um limite de área para tal fim, além de regiões específicas.
No site da prefeitura de Porto Alegre, você pode encontrar o Plano Diretor de Desen-
volvimento Urbano Ambiental (PDDUA-POA). Se quiser ler na íntegra o Capítulo III, 
sobre solo criado, ou mesmo todo o plano, acesso o link a seguir.
https://goo.gl/n5sazL
História dos instrumentos
Os instrumentos urbanísticos nascem de um fortalecimento do Estado burguês 
europeu, como uma transição para o desenvolvimento intensivo. O momento, 
século XIX, era de abandono dos conceitos do liberalismo clássico, como a 
liberdade individual e a limitação do Estado perante as leis. Com isso, o Estado 
ganha forças, com maior poder de intervenção, suficientes para assegurar 
uma estrutura necessária nesse novo período (BORON, 2006). Esse momento 
histórico também é definido como Estado do bem-estar social, organização 
política que coloca o Estado como agente da promoção social e organizador 
da cidade e de tudo que a contempla. Com isso, é papel do Estado garantir o 
bem-estar social e todos os serviços públicos à população (FERREIRA, 2003).
3Efetividade dos instrumentos urbanísticos
https://goo.gl/n5sazL
Quer saber mais sobre o Estado do bem-estar social? Acesse o link ou no código a 
seguir para assistir a um vídeo bastante interessante sobre o assunto.
https://goo.gl/Hcs8z9
Na visão urbana, os instrumentos apareceram como forma de garantir três 
pontos principais, segundo Benevolo (1974): 
 � a higienização das cidades, pois era necessário melhorar as condições 
de habitabilidade (insolação, ventilação) para aumentar a expectativa 
de vida da população — a abertura de novas ruas e o controle da 
densificação dos lotes foram algumas alternativas; 
 � o controle social, já que a população vivia em constantes revoltas e 
as tropas precisavam controlá-la — com isso foram abertas grandes 
avenidas para que pudessem acessar esses pontos; 
 � a promoção de intervenções que valorizassem os imóveis em prol 
dos níveis sociais mais elevados, que, por consequência, eram os mais 
ligados ao poder.
A mais paradigmática dessas intervenções foi idealizada por Georges-
-Eugène Haussmann, em Paris, entre 1850 e 1870. A intenção era liberar o 
tecido urbano para facilitar manobras militares, além de fazer uma grande 
transformação sobre o tecido urbano. Para o político francês, a arquitetura 
era um problema administrativo e só deveria se importar com os interesses 
de Napoleão, a maior parte deles voltados ao militarismo. Seguindo esse 
pensamento, é desenvolvido um plano urbanístico totalmente racionalista, 
que visava apenas à técnica, desconsiderando o contexto histórico. Um dos 
principais pontos da reforma de Haussmann é a reforma da Ìlle de la Cité 
em área militar; para atingir esse objetivo, foi necessário demolir todas as 
edificações do local. 
A ideia principal dessa intervenção era mudar a imagem da cidade em 
relação à insalubridade, trazendo um ar de modernidade. Com isso, os bairros 
degradados foram exterminados e a circulação foi otimizada com vias de 
Efetividade dos instrumentos urbanísticos4
https://goo.gl/Hcs8z9amplo gabarito, arborizadas e com sistema de iluminação — conhecidas 
como boulevards. A cidade medieval, de traçado orgânico e vias estreitas, 
recebe grandes eixos transversais e anéis viários contornando-a. A criação 
de praças e rotatórias, conhecidas pelos franceses como carrefours, também 
faz parte desse novo cenário. Vale ressaltar que essa intervenção aconteceu 
apenas sobre 1/3 da malha viária existente (BENEVOLO, 2017). 
Figura 1. Traçado proposto por Haussmann sobre malha viária de Paris, entre 1850 e 1870.
Fonte: Benevolo (1983).
As reformas de Haussmann sustentaram a importância do uso de ins-
trumentos urbanísticos, assim como outro modo de intervenção estatal, o 
provimento de infraestrutura. Foram usadas ferramentas como construção 
de nova base viária, de rede de esgotos, de bulevares, nova regulamentação 
edilícia, com código de obras e uso dos solos, por exemplo. Outra intervenção 
trata das edificações “haussmanianas”, voltadas para esses bulevares. O Impe-
rador Napoleão III, principal fomentador de todas essas mudanças, considera 
Haussmann o “pai” do urbanismo moderno, além de ser o responsável por 
consolidar o Estado e suas ferramentas como produtor e regulamentador do 
espaço urbano. Assim é resumida a mais importante e radical intervenção 
urbana do período, culminando na construção da cidade-luz.
5Efetividade dos instrumentos urbanísticos
Figura 2. Fachada modelo das edificações propostas por Haus-
smann nos bulevares.
Fonte: Benevolo (1983).
Outro momento importante na consolidação dos instrumentos urbanísticos 
aconteceu após a crise de 1929, nos Estados Unidos, e na reconstrução das 
cidades após a Segunda Guerra Mundial. Nesse período, houve a consolidação 
de uma política sociodemocrata e de consumo em massa, de intervenção mais 
humanista do Estado de bem-estar social, em que essas ferramentas eram 
utilizadas para garantir que o maior número de habitantes tivesse acesso à 
infraestrutura. O Movimento Moderno propunha uma organização funciona-
lista, com a setorização de usos, e era função estatal agir com força na regu-
lamentação a organização da cidade. Zoneamento, regulamentação do espaço 
público, determinação de gabaritos, restrições construtivas e organização do 
espaço púbico foram ferramentas gerais aplicadas massivamente pelo Estado 
nas políticas públicas focadas no urbanismo.
No Brasil, existe o problema de estruturação política, no qual a promoção 
da economia se dá em função do mercado interno e na produção de força de 
trabalho. Os instrumentos que foram criados para fornecer ao Estado a capa-
Efetividade dos instrumentos urbanísticos6
cidade de promoção de cidades mais homogêneas e socialmente equilibradas 
acabam fadadas ao fracasso. Em resumo, essas ferramentas que seriam capazes 
de produzir um espaço urbano mais homogêneo acabam inibidas por um 
antagonismo da elite que, não por acaso, está com grande parte do poder nas 
mãos. Em uma visão socialista, alguns urbanistas entendem que o problema 
está no alcance desses instrumentos, barrados por essa estruturação social; 
caso conseguissem ser aplicados e consolidados, esses instrumentos seriam 
responsáveis por construir cidades menos desiguais para uma sociedade menos 
desigual (FERREIRA, 2005). 
De fato, a implantação desses instrumentos por administrações sérias e 
comprometidas com a população pode gerar espaços urbanos mais coerentes 
com os anseios da sociedade e, de certa maneira, de maior qualidade. Mas as 
ferramentas urbanísticas nada são se não houver um trabalho de gestão por parte 
do Estado, que identifique as intenções de trabalho, os meios (instrumentos) 
e os objetivos a serem alcançados, de forma a transformar a sociedade.
Estatuto da Cidade, Plano Diretor e 
a atuação dos instrumentos urbanísticos
Estatuto da Cidade
O Estatuto da Cidade foi instituído por uma Lei Federal nº 10.257, de 10 de 
julho de 2001, na intenção de reduzir a desigualdade social no país. Isso acon-
teceria pelo uso dos instrumentos que a lei apresenta, na busca da correção das 
disparidades existentes, uma vez que as cidades cresceram desordenadamente 
até então. Algumas iniciativas isoladas para o desenvolvimento urbano já 
haviam acontecido antes desse fato, porém não havia uma lei dedicada à 
política urbana. Seus princípios básicos são o planejamento participativo e a 
função social da propriedade.
Se tiver interesse em ler o texto na íntegra, a Lei Federal nº 10.257/2001 está disponível 
no link ou no código a seguir. 
https://goo.gl/SvFKDs
7Efetividade dos instrumentos urbanísticos
https://goo.gl/SvFKDs
O Estatuto da Cidade veio normatizar os instrumentos do direito urbanístico 
que ainda não estavam presentes no ordenamento ou que necessitavam de 
regulamentação. Como colocam Dallari e Ferraz (2010, p. 23), esse estatuto:
[...] tem o objetivo de consolidar o direito urbanístico (fixando conceitos e 
regulamentando instrumentos), de lhe conferir articulação, tanto interna 
(estabelecendo os vínculos entre os diversos instrumentos urbanísticos) como 
externa (fazendo a conexão de suas disposições com as de outros sistemas 
normativos, como as do direito imobiliário e registral), e, desse modo, viabi-
lizar sua operação sistemática.
Essa legislação apresenta diretrizes gerais para a implantação de políticas 
urbanas, além de instrumentos competentes para garantir que esses anseios 
possam ser supridos, instruindo na questão do direito de propriedade e esco-
lhendo facilitadores estatais na sua implantação, em matéria de urbanismo. 
Embora seja uma Lei Federal, à União cabe legislar as normas gerais, elaborar 
e promover os planos nacionais de urbanismo e atuar junto com os estados 
e municípios em relação às políticas públicas. Entretanto, é obrigação do 
município instituir o Plano Diretor e operacionalizar as diretrizes do projeto, 
por meio dos instrumentos que achar necessário para alcançar os objetivos. 
Uma das principais ferramentas previstas no estatuto para prover cidade é 
o Plano Diretor, que busca articular a implementação de planos participativos, 
definir instrumentos urbanísticos para combater a especulação imobiliária 
e promover a regularização fundiária dos imóveis na cidade. A intenção é 
definir uma nova regulamentação para o uso do solo urbano, de modo que 
a cidade sofra uma ocupação mais homogênea. Algumas das iniciativas que 
podemos citar são a cobrança de IPTU progressivo de até 15% para terrenos 
ociosos, a simplificação da legislação de parcelamento, o uso e ocupação do 
solo, de modo a aumentar a oferta de lotes, e a proteção e a recuperação do 
meio ambiente urbano (SILVA, 2012).
Plano Diretor
O Plano Diretor é o “[...] instrumento básico de desenvolvimento e expansão 
urbana” (BRASIL, 2001, documento on-line, artigo 40), obrigatório para 
municípios com mais de 20 mil habitantes, ou cidades integrantes de áreas 
de interesse turístico ou em que haja atividades com significativo impacto 
ambiental (artigo 41). O estatuto exige que seja função mínima dos planos 
Efetividade dos instrumentos urbanísticos8
diretores delimitar as áreas onde possa haver parcelamento, edificação, direito 
a construir e/ou alterar o uso do solo de forma onerosa (artigo 42), por exemplo.
O Estatuto da Cidade, que tornou o Plano Diretor algo normatizado, de-
terminou “[...] que será o plano diretor o instrumento jurídico competente 
para precisar a fluidez do conceito de função social da propriedade urbana” 
(BRASIL, 2001, documento on-line, artigo 1). Fez isso ao confirmar que “[...] 
a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências 
fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor” (BRASIL, 
2001, documento on-line, artigo 39). Completa, ainda, que o Plano Diretor é o 
instrumento normativo competente para definir a função social da propriedade 
para fins urbanísticos, visando a atender ao § 4º do art. 182 da Constituição 
Federal (CF). Outros instrumentos estão vinculados à existência do Plano Di-
retor, como a outorgaonerosa do direito de construir e o direito de preempção 
(DALLARI; FERRAZ, 2010).
O artigo 182 da Constituição Federal é responsável por ordenar o poder público 
municipal, garantindo o bem-estar social da população. 
A edição do plano, de cidade a cidade, permite o uso de instrumentos para 
a implantação de políticas urbanas. A falta de edição faz com que a utilização 
desses instrumentos não funcione. Desse modo, há penas à prefeitura que 
não fizer essas edições, pois o Plano Diretor é uma obrigação do agente pú-
blico, de caráter funcional. Tanto é que esse ato pode ser caracterizado como 
improbidade administrativa do Chefe do Executivo Municipal. Entretanto, 
a população tem poder sobre os planos, já que existem diversas consultas 
populares e audiências públicas, embora não conste nada como obrigatório 
na legislação (FARIAS; GOMES; MUSSI, 2011).
Os instrumentos urbanísticos na prática
Quando se trata das cidades brasileiras, temos uma taxa de crescimento alta no 
século XX. Em 1920, a população brasileira era de 30 milhões de pessoas; em 
1960, era mais que o dobro, 70 milhões de habitantes; em 1980, 120 milhões de 
9Efetividade dos instrumentos urbanísticos
habitantes; em 2000, 138 milhões de pessoas (INSTITUTO BRASILEIRO DE 
GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2000). Mais alarmante nesses números foi o 
aumento da população morando nas cidades: os 12,8 milhões de habitantes que 
viviam na zona urbana em 1940 (31,2% do total da população do país) passaram 
a ser 80 milhões em 1980 — 66,7% do valor total populacional (BRUNA, 2002). 
Tendemos a ter a impressão que o caos das cidades — as favelas, o transporte 
ineficiente, a ausência de saneamento, a violência — fossem características 
sempre ligadas às cidades de grande porte, o que não é verdade. Pelo contrário, 
o pensamento keynesiano, que defende o Estado como agente indispensável 
da economia, que se consolidou na Europa do Pós-Guerra, se baseava no 
crescimento do capitalismo fordista, que implicava no aumento dos níveis de 
vida e de consumo dos trabalhadores de forma homogênea, gerando salários 
honestos e habitação salubre, completando o ciclo produto-consumo. 
No Brasil, o que se tem é um capitalismo voltado à exploração da mão-de-
-obra barata. A associação das burguesias nacionais com os interesses do capi-
talismo internacional construiu um capitalismo canhestro, voltado à exportação 
e explorador da massa de mão-de-obra, o que muitos pensadores chamaram de 
desenvolvimento desigual, em um comparativo em relação ao desenvolvimento 
do capitalismo dos países industrializados (FERREIRA, 2003).
Enquanto o maior crescimento das cidades ocorre nas favelas e aglomerados 
da periferia, os maiores investimentos se concentram onde está a população 
mais rica. É notável que a maior parte das políticas públicas se encontravam 
no eixo de desenvolvimento produzido pelas elites em seus deslocamentos, na 
busca de espaços ainda mais privilegiadas para se viver. O que se tem é uma 
clara inversão de prioridades, quando os municípios investem praticamente só 
nessas regiões privilegiadas da cidade, restando prejuízos para as demandas 
mais urgentes da periferia (VILLAÇA, 2012).
Todo o processo de industrialização que o país sofreu, que poderia ter gerado 
ganhos significativos, só criaram insatisfações sociais plenas. O período da 
ditadura militar, que muito construiu, preocupou-se com números, e não com 
qualidade. Nos anos 1970, quem não estava incluído no “milagre brasileiro”, 
reivindicava uma cidade melhor, com condições de moradia, equipamentos 
urbanos, educação e saúde. Os maiores ganhos dessas reivindicações foram a 
Constituição de 1988, com o artigo 182, e a aprovação do Estatuto da Cidade, 
em 2001 (FERREIRA, 2003).
Como se encaixam os instrumentos urbanísticos nisso tudo? Seu uso cul-
minou no acerto das administrações? Essas perguntas nos levam a retomar as 
administrações na Europa do Pós-Guerra, em que a intervenção do Estado na 
economia visava a garantir um patamar financeiro compatível com o sistema, 
Efetividade dos instrumentos urbanísticos10
a fim de gerar consumo. Além disso, o papel do Estado, de garantir moradia, 
foi assegurado quando ele passou a controlar também as ações imobiliárias. 
Para permitir que o Estado se mantivesse com o controle urbano em mãos, uma 
variedade de instrumentos foi criada, dando poder regulador de significância 
sobre o uso do solo, aplicando restrições de usos e adensamentos, taxas de 
ocupação, limites de altura e verticalização, entre outros.
E os exemplos de sucesso? Entre os mais diversos instrumentos urbanísti-
cos, é possível citar as Zônes d’Aménagement Concerté (ZAC) francesas, que 
são intervenções estatais na propriedade fundiária, promovendo novos usos 
e construções em áreas periféricas degradadas, buscando a requalificação. 
Outro exemplo francês é o Plafond Legal de Densité, no qual é regulado o 
direito de construir além do limite determinado, em áreas selecionadas na 
capital francesa (FERREIRA, 2003). 
No Brasil, a intenção era também que desse certo, quando os apoiadores da 
reforma urbana buscaram a aprovação da Constituição de 1988 e do Estatuto 
das Cidades, em 2001, acreditando que essas legislações proporcionariam 
um instrumental necessário para exercer um controle sobre a dinâmica das 
cidades. Isso era o que os “instrumentos urbanísticos” buscavam alcançar 
(RIBEIRO; CARDOSO, 1994).
Mas, por quê, em geral, as iniciativas de políticas urbanas, com o uso de 
instrumentos, não deram certo aqui no país? Nota-se uma disparidade na estru-
tura de pensamento entre as realidades dos países industrializados e a do Brasil. 
Na Europa, os instrumentos acontecem juntamente ao Estado do bem-estar 
social, como ferramentas essenciais para o trabalho do poder público. Com 
isso, existe a possibilidade de planejar os objetivos, os instrumentos necessários 
e a forma de chegar até eles, a fim de promover um modelo político e social, 
junto aos interesses da população. No território brasileiro, os instrumentos 
urbanísticos são quase que uma reação aos problemas de desigualdade das 
cidades e sociedade, influenciando o seu potencial e chances de alcance de 
meta (RIBEIRO; CARDOSO, 1994).
Dessa forma, entende-se que há um conflito social muito grande, e que 
é preciso que o Estado enfrente os privilégios do setor dominante na cidade, 
resultado de uma história de colonização, escravidão e heterogeneidade de 
mais de 500 anos. A realidade é que esses instrumentos só terão eficiência 
se houver, por parte do setor público, uma motivação em tentar reverter esse 
quadro, buscando a melhoria da população mais necessitada e enfrentando 
a hegemonia dos mais abastados. Sem interesse do Estado, os instrumentos 
se tornam apenas bonecos de teor estético, sem poder de mudança no quadro 
urbano e social brasileiro.
11Efetividade dos instrumentos urbanísticos
1. Segundo a Constituição 
Federal de 1988, as políticas 
públicas urbanísticas devem ser 
aplicadas pelo Estado, já que é 
dele a função de promover à 
população o bem-estar social. 
Seguindo esse pensamento:
a) os instrumentos urbanísticos são 
utilizados para a regulamentação 
do uso e da ocupação do espaço.
b) o Estado, quando não interfere 
na economia, deve se abster 
dos problemas sociais.
c) os instrumentos urbanísticos 
são ferramentas exclusivas da 
população, a fim de apoiar o 
Estado nas suas funções.
d) o Estatuto das Cidades, de 
2001, anula todas as funções 
da Constituição de 1988.
e) o direito urbanístico também 
estava previsto na Constituição 
de 1988 e já regulamentava as 
atuações anteriores do Estado.
2. A cidade de Paris sofreu diversas 
alterações após as intervenções 
de Haussmann. Os urbanistas 
modernistas tinham conceitos 
higienistas, mudando a visão 
insalubre da cidade. Sobre 
isso, é correto afirmar que:
a) essas mudanças contrariavam 
as ordens de Napoleão, 
de quem era inimigo.
b) tinha foco na construção 
de grandes torres verticais 
e isoladas no lote.
c) promoveu a aberturasde 
grandes vias transversais 
e de grande gabarito.
d) essas intervenções ocorreram 
no início do século XX e 
tiveram influências do arquiteto 
franco-suíço Le Corbusier.
e) a intenção dos bulevares era 
promover a circulação dos 
carros que eram produzidos 
massivamente na época.
3. O Plano Diretor é um instrumento 
urbanístico que busca organizar 
um protocolo com informações a 
serem seguidas no planejamento 
das cidades. Sobre o art. 182 da 
Constituição Federal de 1988, é 
possível afirmar que o plano:
a) deverá ser organizado e 
regulamentado pelos estados, 
até chegar aos municípios.
b) torna-se obrigatório para 
todas as cidades com 30 
mil habitantes ou mais.
c) as desapropriações são feitas de 
forma antecipada e remunerada.
d) o proprietário que não utilizar 
o solo urbano ou que não 
promova o seu uso não será 
multado, apenas notificado.
e) os planos diretores tem 
duração máxima de 10 anos.
4. O Estatuto da Cidade surgiu a partir 
da Lei Federal nº 10.257/2001, que 
buscava regulamentar o crescimento 
desenfreado das cidades brasileiras. 
Essa legislação apresenta diretrizes 
para a aplicação de políticas urbanas, 
além de instrumentos fundamentais 
para garantir que esses anseios 
possam ser supridos, instruindo na 
questão do direito de propriedade. 
É verdadeiro afirmar que:
Efetividade dos instrumentos urbanísticos12
a) por ser uma lei federal, é 
obrigação da União executá-la, 
deixando os municípios 
livres dessa obrigação.
b) passou a tornar o Plano Diretor 
obrigatório para todos os 
municípios brasileiros.
c) buscava regularizar a ocupação 
das cidades, eliminando as 
ocupações irregulares.
d) está prevista no estatuto 
a cobrança de multa para 
terrenos ociosos, parcelamento 
e uso dos solos incorretos.
e) o estatuto resolveu todos os 
problemas das cidades e não 
precisa mais ser revisado.
5. Os instrumentos urbanísticos 
dependem da aplicação do poder 
público para mostrar sua eficiência. 
Com isso, dependendo da política 
adotada, serão definidos os 
instrumentos utilizados. Com base 
nisso, é possível afirmar que: 
a) na Europa pós-guerra, a intenção 
era valorizar as áreas centrais, 
excluindo os mais necessitados.
b) a intervenção do Estado na 
economia, proposta por Keyne, 
permitiu uma circulação 
de dinheiro no mercado 
e um retorno financeiro 
mais justo à população.
c) o Brasil seguiu um 
liberalismo econômico, 
em que os privilegiados 
eram os trabalhadores.
d) as iniciativas do capitalismo 
existente no Brasil visavam 
a recuperar as favelas e a 
garantir o bem-estar social 
de toda a população.
e) os instrumentos previstos 
na Constituição de 1988 
foram anulados pelo 
Estatuto da Cidade.
BENEVOLO, L. História da cidade. São Paulo: Perspectiva, 1983.
BENEVOLO, L. História da cidade. São Paulo: Perspectiva, 2017.
BENEVOLO, L. Historia de la arquitectura moderna. 2. ed. Barcelona: Gustavo Gilli, 1974.
BORON, A. A. (Org.). Filosofia política moderna: de Hobbes a Marx. - Buenos Aires: 
Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales - CLACSO; San Pablo: Depto. de Ciência 
Política - FFLCH - Universidade de São Paulo, 2006. (Biblioteca de ciencias sociales 
dirigida por Atilio Alberto Boron).
BRUNA, P. Arquitetura, industrialização e desenvolvimento. São Paulo: Perspectiva, 2002.
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Fórum de Entidades em Porto Alegre, RS. [201-?]. Disponível em: . Acesso em: 11 jun. 2018.
DALLARI, A. A.; FERRAZ, S. (Coord.). Estatuto da cidade: (Comentários à Lei Federal 
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FARIAS, V. de O.; GOMES, D.; MUSSI, A. Q. (Org.). Estatuto da cidade: os desafios da 
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