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🏥 Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) Morgana R. Duarte- TXI 1- Introdução Refluxo fisiológico: o retorno de pequenas quantidades de conteúdo gástrico ao esôfago é normal. DRGE: é caracterizada por sintomas ou lesões na mucosa esofágica causadas por refluxo anormal do conteúdo gástrico. Principal alteração: incompetência do Esfíncter Esofágico Inferior EEI, frequentemente associado à hérnia hiatal. Hérnia hiatal Considerada por muitos autores como o fator etiológico primário. A hérnia hiatal compromete a integridade da junção esofagogástrica JEG, facilitando o refluxo. Incidência: população normal (até 15%, pacientes com esofagite 6394%. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 1 Prevalência e impacto Aumento da prevalência globalmente. Acomete principalmente jovens entre 30 e 40 anos. Uma das principais queixas digestivas → gera significativo impacto econômico e social pela alta prevalência e morbidade. 2- Quadro clínico Sintomas típicos Pirose: queimação retroesternal, pode irradiar do epigástrio à fúrcula esternal. a Piora 12h após refeições ou à noite. b Alivia com antiácidos e bloqueadores H2. c Pode ser confundida com dor torácica cardíaca. d Intensidade não se correlaciona com gravidade da doença. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 2 Regurgitação: retorno espontâneo do conteúdo gástrico ao esôfago, faringe ou boca. a Difere do vômito, pois é passiva. b Piora à noite ou ao deitar. c Antiácidos mudam o caráter ácido, mas não aliviam totalmente. Disfagia: dificuldade de deglutir, em até 40% dos casos. a Geralmente esofágica (alimento "paraˮ no esôfago inferior). b Pode ser sinal de doença avançada (ex: estenose, hérnia hiatal volumosa, carcinoma). c Deve ser investigada cuidadosamente e com avaliação dos hábitos alimentares e estado nutricional. d Pode surgir por: esofagite intensa (edema), estenose distal, alterações crônicas inflamatórias, hérnia hiatal volumosa 5cm). Odinofagia: dor ao engolir, presente em até 50% com esofagite. 💡 Fatores que agravam os sintomas: Alimentos: gordurosos, picantes, chocolate, cebola, hortelã, alho. Bebidas: alcoólicas, gaseificadas, cafeína, sucos. Tabaco. Sintomas atípicos 2025% dos casos. Tosse crônica, rouquidão, asma, dor torácica não cardíaca. a Dor torácica pode imitar angina (mas geralmente tem relação com exercício). Refluxo laringofaríngeo (esôfago proximal/faringe): rouquidão, voz cansada, erosão dentária, laringite, tosse seca. a Achados laringoscópicos: eritema, edema, nódulos, granulomas, até carcinomas. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 3 b Não é necessário que o conteúdo gástrico chegue aos pulmões → sintomas respiratórios podem ser reflexos vagais (reflexo esofagotraqueobrônquico). c Mais comuns à noite: sufocamento, dispneia, sibilos, halitose, cansaço matinal. 3- Diagnóstico clínico Baseado apenas nos sintomas, é correto em cerca de 2/3 dos casos. Sintomas não são específicos, podendo ocorrer em: acalasia, espasmo esofágico, câncer esofágico, estenose pilórica, colelitíase, gastrite, úlcera gástrica/duodenal, doença arterial coronariana. 💡 Portanto, confirmação diagnóstica é essencial, especialmente antes de considerar cirurgia. Classificação de Los Angeles Grau Descrição A Uma ou mais erosões de mucosa 5 mm, que não se estendem entre os topos de duas pregas mucosas B Uma ou mais erosões de mucosa 5 mm, que não se estendem entre os toposo de duas pregas mucosas C Uma ou mais erosões contínuas entre os topos de 2 ou mais pregas mucosas, mas que envolvem 75% da circunferência esofágica D Uma ou mais erosões de mucosa que envolvem 75% da circunferência esofágica Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 4 Classificação de Savary-Miller Graus Descrição 1 Uma ou mais lesões lineares ou ovaladas em uma única prega longitudinal 2 Várias erosões situadas em mais de uma prega longitudinal, confluentes ou não, mas que não ocupam toda a circunferência do esôfago 3 Erosões confluentes que se estendem por toda a circunferência do esôfago 4 Lesões crônicas, como úlceras, estenose ou esôfago de Barrett 4- Fisiologia da barreira antirrefluxo Esfíncter esofágico inferior (EEI) Representa uma zona de pressão fisiológica na junção esofagogástrica, sem evidência anatômica clara. Atua como barreira para impedir o refluxo do conteúdo gástrico. Em pessoas saudáveis, essa barreira relaxa apenas em dois momentos: Durante a deglutição (para passagem do alimento). Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 5 Durante eructações (liberação de gás do fundo gástrico). Mecanismos que garantem a competência do EEI Pressão intrínseca elevada do esfíncter. Comprimento total adequado da zona de alta pressão. Segmento do EEI exposto à pressão intra-abdominal positiva. 💡 Quanto menor o comprimento, maior deve ser a pressão para manter a função barreira. Fatores que causam disfunção do EEI Pressão média 6 mmHg, comprimento total 2 cm, segmento abdominal 1 cm. Condições abaixo do percentil 2,5 para esses parâmetros indicam defeito permanente do esfíncter. Implicações clínicas de um EEI defeituoso Fortemente associado à esofagite. Pode evoluir para regurgitação intensa, aspiração e insuficiência respiratória. Sintomas são difíceis de controlar clinicamente. Indica possível necessidade de tratamento cirúrgico. Relaxamentos ou encurtamentos transitórios do EEI Ocorrem por distensão gástrica (refeição copiosa, aerofagia, gordura). Isso encurta a zona de alta pressão, levando a refluxo. Mais comum em fases inicias da DRGE Após eructações, a zona de alta pressão se restabelece, mas distensões repetidas reiniciam o ciclo Justifica a maior prevalência da DRGE em sociedades ocidentais → dieta rica em gorduras e grandes volumes de alimentação. Relação com a anatomia local Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 6 Pacientes com ângulo de His preservado precisam de maior distensão gástrica para perder função do EEI. Pacientes com hérnia hiatal perdem a função da barreira mais facilmente. Explica a forte associação entre hérnia hiatal e DRGE. Hipótese integrada da fisiopatologia da DRGE Início gástrico: alimentação copiosa + esvaziamento gástrico lento (gordura) → distensão fúndica. Essa distensão puxa o EEI, expondo o esôfago distal ao ácido. O refluxo ácido repetido causa: a Inflamação epitelial distal (esofagite leve inicial). b Cardite (inflamação da mucosa da cárdia). A resposta do corpo é aumento da deglutição (tentativa de lavar o ácido) → aerofagia → mais distensão. Progressão: a Lesão epitelial → metaplasia colunar → possível intestinalização → risco de displasia e câncer. b A inflamação crônica reduz o comprimento e a pressão do EEI. c O refluxo se torna contínuo e mais severo, atingindo porções mais proximais do esôfago. 💡 DRGE é uma doença progressiva, iniciada por distensão gástrica e perpetuada por perda da função do EEI (a esofagite intensa está associada a um esfíncter permanentemente incompentente). 5- Fisiopatologia da lesão da mucosa esofágica Complicações do refluxo gastroesofágico Decorrentes da ação direta do suco gástrica no esôfago ou no trato respiratório. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 7 Principais complicações: esofagite, estenose de esôfago distal, esôfago de Barrett, aspiração recorrente, pneumonias de repetição, fibrose pulmonar progressiva. Fatores associados à gravidade das lesões Grau de deficiência da barreira antirefluxo. Ineficiência do clareamento esofágico. Volume e composição do conteúdo gástrico refluído. 💡 Muitos pacientes com defeito esfincteriano não desenvolvem lesões porque o clareamento esofágico compensa. Componentes lesivos do refluxo Secreção gástrica ácida Pepsina Secreção biliar e pancreática (proveniente do duodeno). 💡 Ácido sozinho → causa pouca lesão. Ácido + pepsina → ação mais agressiva na mucosa. Bile + enzimas pancreáticas → podem agravarou amenizar a lesão, dependendo do pH. Influência do pH na lesão mucosa Lesão pelo íon hidrogênio ocorre com pH 2. Pepsina é o componente mais agressivo no refluxo ácido. 💡 Se o refluxo for duodenal + gástrico, a lesão é maior que se for apenas gástrico. Refluxo duodenogástrico Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 8 Pode proteger ou lesar, dependendo do meio gástrico: Meio ácido: inativa tripsina e precipita ácidos biliares → menor lesão. Meio alcalino (pH 46: ativa tripsina e mantém bile em forma solúvel → maior dano mucoso. Ácidos biliares Mais lesivos quando estão em forma não ionizada e lipofílica. No intestino, 98% são conjugados com taurina ou glicina. Conjugação: aumenta solubilidade e reduz pKa (mais facilmente ionizados). Em pH 2 precipitam e têm efeito mínimo. Em pH 2 permanecem solúveis e podem atravessar membranas celulares → lesão mitocondrial e celular. Evidências clínicas Pacientes com DRGE têm: maior exposição esofágica aos ácidos biliares (conjugados de glicina dos ácidos: cólico, desoxicólico, quenodesoxicólico). Mais comuns: durante o sono (posição supina) e após as refeições (posição ortostática). 💡 Por que a supressão ácida nem sempre é eficaz? 25% dos pacinetes com esofagite desenvolvem lesão recorrente/progressiva apesar do tratamento → supressores de ácido não mantêm pH 7 de forma contínua. Entre pH 26 os ácidos biliarem ficam parcialmente não ionizados e lesivos. Para impedir ação dos sais biliares: manter pH 7, 24h/dia, a vida toda, o que é impraticável. Consequência clínica: a mucosa pode sofrer lesões mesmo quando o paciente está assintomático e em uso de medicação. B) Esôfago de Barrett Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 9 1- Definição e histórico Descrito por Norman Barrett em 1950, que inicialmente acreditava ser uma condição congênita. Hoje se sabe que é uma anormalidade adquirida, presente em 710% dos pacientes com DRGE crônica. Representa o estágio final da história natural da DRGE. Diferente da condição congênita, onde há ilhas de epitélio colunas gástrico maduro no esôfago superior. 2- Critérios diagnósticos atuais Definido histologicamente pela presença de metaplasia intestinal (com células caliciformes) na mucosa esofágica. Esôfago de Barrett curto 3 cm Esôfago de Barrett longo 3 cm Não está totalmente claro se mucosa coluna sem metaplasia intesinal deve ser considerada Barrett. Alguns autores só usam o termo se houver segmento visivelmente colunar com metaplasia intestinal confirmada por biópsia. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 10 3- Fisiopatologia da metaplasia de Barrett Processo inicia com transformação do epitélio escamoso em epitélio tipo cárdico, na junção esofagogástrica. Causas: distensão gástrica, prolapso da mucosa esofágica para o estômago, inflamação crônica. 💡 A perda da função do esfíncter inferior permite maior exposição ácida → facilita a progressão do epitélio colunar ao longo do esôfago. Fatores predisponentes ao esôfago de Barrett Início precoce da DRGE. EEI incompetente. Hérnia hiatal volumosa. Clareamento esofágico ineficiente. Refluxo misto gástrico + duodenal, especialmente com presença de bile (avaliada pela exposição à bilirrubina). Sequência metaplasia → displasia → carcinoma Evidências clínicas e genéticas apoiam essa progressão. Displasia frequentemente encontrada em áreas com Barrett. Displasias de alto grau vistas adjacentes a adenocarcinomas. Estudos mostram progressão de: Barrett não displásico → displasia de baixo grau → displasia de alto grau → adenocarcinoma. 4- Epitélio de Barrett displásico Diagnóstico histológico da displasia Feito por biópsia endoscópica, analisando: alterações arquiteturais, citológicas e histológicas. Classificação da displasia: Sem displasia Indefinido para displasia Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 11 Displasia de baixo grau Displasia de alto grau Características histológicas Esôfago de Barrett não displásico: células com núcleos homogêneos, localizados junto à membrana basal, arquitetura glandular normal. Displasia de alto grau: células com núcleos grandes, pleomórficos, perda de polaridade nuclear, redução ou ausência de muco, alteração da arquitetura glandular. a Se houver invasão da membrana basal, há carcinoma. Fotografia mostrando o padrão de epitélio do cárdia com a presença de células caliciformes (seta). Essa metaplasia intestinal é a característica histológica do esôfago de Barrett. À direita da fotomicrografia, apenas o epitélio do cárdia está presente. As células epiteliais do cárdia têm um núcleo homogêneo logo acima da membrana basal com arquitetura glandular normal não displásica, como no epitélio de Barrett. A biópsia foi obtida do epitélio colunar estendido acima da junção gastroesofágica. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 12 Prevalência e progressão Displasia (baixo ou alto grau) 1525% do pacientes com Barrett. Displasia de alto grau isolada 510%. Progressão anual: Para displasia: 510%. Para adenocarcinoma: 1%. Implicações clínicas Necessidade de: acompanhamento endoscópico de longo prazo, definição precisa da presença de metaplasia intestinal (células caliciformes) e avaliação contínua da presença e grau da displasia. 💡 Desafio atual: falta de marcadores confiáveis para prever quais pacientes com Barrett evoluirão para displasia e adenocarcinoma. 5- Conduta no esôfago de Barrett displásico Esofagectomia Fotografia mostrando o aspecto histológico de uma displasia de alto grau no epitélio do cárdia com a presença de células caliciformes (esôfago de Barrett). Nota-se que as células epiteliais têm um grande pleomorfismo nuclear, com perda da polaridade nuclear, mas contido pela membrana ba-sal. Há uma diminuição ou ausência de células mucosas e uma anormalidade no tamanho das glândulas. A biópsia foi obtida do epitélio colunar estendido acima da junção gastro-esofágica. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 13 Considerada padrão-ouro por décadas. Indicada especialmente em Barrett longo, displasia multifocal, lesão visível, alta suspeita de carcinoma invasivo, pacientes sem condições para seguimento intensivo. Pode ser realizada por técnicas minimamente invasivas. Reconstrução com estômago ou cólon. Mortalidade 1% em centros especializados. Sobrevida em 5 anos: até 90% se câncer for detectado precocemente durante vigilância. Terapias endoscópicas Indicações: displasia de alto grau ou adenocarcinoma limitado à mucosa (T1a). Técnicas: REM: ressecção endoscópica da mucosa. a Permite avaliação histológica da lesão (profundidade, margens). b Pacientes com invasão da submucosa devem ser referidos à cirurgia. ARF: ablação por radiofrequência. TFD: terapia fotodinâmica. Crioterapia CPA: coagulação por plasma de argônio. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 14 Grau de displasia Conduta inicial Seguimento/observações Indefinido para displasia IBP 6080 mg/dia por 3 meses.Repetir biópsia após tratamento Se continuar “indefinido ,ˮ tratar como displasia de baixo grau- Biópsias a cada 612 meses Displasia de baixo grau Tratamento antirrefluxo agressivo (clínico ou cirúrgico). Cirurgia é apropriada mesmo em casos leves Endoscopia com biópsias sistemáticas 4 quadrantes a cada 12 cm)- Controle a cada 612 meses Displasia de alto grau Confirmar com dois patologistas experientes- Avaliar para terapia endoscópica ou esofagectomia Se alto risco Barrett longo, multifocalidade, lesão visível): preferir cirurgia Alto potencial de malignidade Adenocarcinoma T1a Pode ser tratado com terapias endoscópicas REM, ARF, etc.) se bem selecionado Risco de invasão linfonodal 3% Considerar esofagectomia em casos de maior risco ou recusa de seguimento intensivo Complicações 46%: estenose, sangramento, fotossensibilização. Fatores de risco para recorrência: ressecção fragmentada, esôfago de Barrett longo, falta de terapia ablativa pós-remoção,tempo prolongado até resposta completa e neoplasia multifocal. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 15 6- DRGE e alterações respiratórias Prevalência e associação Até 50% dos asmáticos apresentam esofagite ou aumento da exposição ácida na pHmetria de 24h. Asma DRGE: associação mais frequente do que o esperado pelo acaso. Fibrose pulmonar idiopática FPI: estima-se que até 90% dos pacientes com FPI tenham refluxo na pHmetria, microaspirações silenciosas crônicas podem ter papel na patogênese da FPI. Ainda não há evidência clara de que tratar DRGE melhore FPI. Fisiopatologia dos sintomas respiratórios induzidos pela DRGE Teoria do Refluxo (aspiração): microaspiração de conteúdo gástrico causa sintomas respiratórios. a Evidências: associação entre DRGE grave e doenças pulmonares (asma, FPI, exposição ácida no esôfago proximal em pacientes com sintoma respiratório, cintilografia com radioisótopos mostra aspiração pulmonar em alguns pacientes, pH simultaneamente baixo no esôfago e na traqueia, instilação de ácido clorídrico na traqueia provoca broncoconstrição. Teoria do Reflexo Vagal: refluxo ácido no esôfago distal → estimulação vagal → broncoconstrição refexa. a Justificada por origem embrionária comum entre traqueia e esôfago. b Melhora respiratória em alguns pacientes após terapia antirrefluxo, mesmo sem refluxo proximal evidente. Diagnóstico dos sintomas respiratórios por DRGE Quadros típicos: quando há DRGE evidente + sintomas respiratórios → diagnóstico é mais direto. Quadros atípicos: em muitos casos, sintomas respiratórios predominam (asma, tosse crônica, etc.), refluxo pode ser silencioso, descoberto apenas após investigação direcionada. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 16 💡 Sinais de alerta: asma de difícil controle com tratamento adequado → endoscopia (pode mostrar esofagite ou esôfago de Barrett) e manometria esofágica (identifica EEI hipotônico ou dist;urbios de motilidade) podem ser úteis. Padrão-ouro: pHmetria de 24h com duplo cateter → permite correlação temporal entre episódios de refluxo e sintomas respiratórios. Cateter distal: posicionado no esôfago distal. Cateter proximal: idealmente no esôfago proximal (acima do EEI superior), pode ser posicionado também na faringe ou traqueia. Dificuldade: nem sempre a relação cronológica entre refluxo e broncoconstrição é clara. Tratamento da DRGE com sintomas respiratórios Tratamento medicamentoso (antissecretores) a Melhora dos sintomas respiratórios em 2550% dos casos. b Melhora objetiva da função pulmonar em 15% dos casos. c Motivo do paradoxo: maioria dos estudos usa tratamentos de curta duração 3 meses) → esse tempo pode aliviar sintomas, mas não é suficiente para restaurar a função pulmonar. d Sucesso do tratamento clínico depende do grau de controle do refluxo. Tratamento cirúrgico (fundoplicatura) a Melhora dos sintomas respiratórios 90% em crianças, 70% em adultos. b Melhora da função pulmonar em cerca de 1/3 dos casos. c Estudos comparativos indicam que a fundoplicatura é mais eficaz do que tratamento clínico isolado. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 17 💡 Atenção em pacientes com distúrbios de motilidade esofágica, especialmente não induzidos pela DRGE. A cirurgia pode causar: Aspiração de alimentos deglutidos ou regurgitados. Irritação das vias aéreas. Exacerbação da asma. 7- Tratamento clínico da DRGE Conduta inicial em pacientes com sintomas leves Automedicação comum: pode-se iniciar com antiácidos por 8 a 12 semanas, mesmo sem investigação extensa. Medidas comportamentais importantes: elevar cabeceira da cama, evitar roupas apertadas, fracionar refeições, não deitar-se logo após comer, perder peso e evitar álcool, café, chocolate, hortelã e alimentos irritantes. Outras medicações complementares Ácido algínico: atua formando uma barreira viscosa que boia sobre o conteúdo gástrico → reflui junto com o ácido e protege a mucosa esofágica. Pró-cinéticos (estimulam o esvaziamento gástrico) a Metoclopramida (efeitos extrapiramidais limitam o uso), cisaprida (retirada do mercado por arritmias), domperidona (menos efeitos no SNC, ainda usada). Supressores de acidez- base do tratamento IBPs (inibidores da bomba de prótons) Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 18 a Reduzem acidez em até 90% com doses altas. b Cicatrizam 100% das esofagites leves e 75% das graves. c Ex: omeprazol, iansoprazol, esomeprazol. Antagonistas H2 (bloqueadores H2 a Reduzem a acidez em até 80% menos eficazes que IBPs, mas úteis como complemento, especialmente à noite. b Ex: ranitidina. Limitações da terapia clínica Pode haver refluxo misto (gástrico + biliar) mesmo com supressão ácida → lesão mucosa persistente em pacientes assintomáticos. Recorrência em até 80% dos pacientes em 6 meses após suspensão do tratamento. Mesmo com uso contínuo, 50% podem ter recidiva dos sintomas. Reativação ácida noturna pode ocorrer em 75% dos pacientes mesmo com IBP 2x/dia → ranitidina noturna pode ser útil nesse contexto. Indicações para investigação complementar: falha terapêutica ou retorno imediato dos sintomas com bloquedores H2 endoscopia para avaliar esofagite, Barrett ou outras lesões. Exames complementares: pHmetria de 24h, monitoramento de bilirrubinas, menometria esofágica (avaliar motilidade e EEI. Resposta ruim ao tratamento clínico Fatores: refluxo predominante em posição noturna, contratilidade esofágica deficiente, esofagite erosiva, epitélio colunar Barrett), refluxo biliar e EEI estruturalmente defeituoso → pacientes considerados para cirurgia antirrefluxo como tratamento primário. 8- Tratamento cirúrgico para DRGE Objetivo Restabelecer a competência da barreira cardioesofágica antirrefluxo. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 19 Criar uma válvula antirrefluxo e aproximar/plicaturar os pilares diafragmáticos. Indicações Persistência de sintomas relatados pelo paciente, sem observação de melhora após o tratamento medicamentoso e/ou surgimento de complicações (esofagite acentuada [graus C e D, estenose, ulceração ou Barrett) na vigência do tratamento clínico; Intolerância ou incapacidade de manter o tratamento medicamentoso (efeitos colaterais, não adesão, alto custo); Desejo do paciente de submeter- se ao tratamento cirúrgico, após exposição dos riscos e dos benefícios dos tratamentos; Necessidade de doses cada vez maiores de medicação, caracterizando doença progressiva; Presença de sintomas atípicos, com pHmetria evidenciando exposição esofágica ácida proximal acentuada; Necessidade de tratamento medicamentoso agressivo de longa duração, principalmente em jovens; Esofagite leve (graus A e B em pacientes com EEI mecanicamente defeituoso e propensos a persistirem com episódios de refluxo patológico; Presença de hérnia hiatal grande 5 cm), refratária ao tratamento medicamentoso, ou com hérnia paraesofágica. Avaliação pré-operatória Endoscopia digestiva alta, pHmetria de 24h, manometria esofágica, avaliação da função motora esofágica e avaliar hérnia hiatal associada. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 20 Técnicas cirúrgicas Torácica ou abdominal Válvula total 360º) ou parcial 270º) Acesso preferencial: laparoscópico. Posicionamento do paciente e colocação dos trocartes para a cirurgia laparoscópica antirrefluxo. O paciente é posicionado com a cabeceira elevada a 45° na posição de litotomia modificada. O cirurgião se posiciona entre as pernas do paciente e o procedimento é realizado através de cinco trocartes. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 21 Etapas básicas: Dissecção do hiato e redução da hérnia. Fechamento dos pilares do diafragma. Fundoplicatura (envolvimento do fundo gástrico no esôfago). Tipos de fundoplicatura Nissen 360º total): técnica mais comum, válvula de 360º (envolvimento completo do esôfago terminal pelo fundo gástrico). aEtapas principais: abertura da membrana frenoesofágica → ligadura dos vasos gástricos curtos → dissecção e plicatura dos pilares diafragmáticos → contrução da válvula: fundo gástrico passado por trás do esôfago, suturado à parede anterior do estômago. b Uso de fio inabsorvível. c Maior controle do refluxo, maior chance de disfagia, gas bloating, inabilidade de eructar. Fundoplicatura de Nissen Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 22 Toupet (válvula 270º posterior parcial): indicada para pacientes com motilidade esofágica comprometida. a Menor disfagia pós-operatória, semelhante eficácia, menos reoperações. b Fundo gástrico suturado em 3 pontos de cada lado do esôfago. Cirurgia de Belsey Mark IV 240º parcial anterior): via torácica. a Indicada em: falhas em cirurgia abdominal prévia, cirurgias anteriores em andar superior abdominal, esôfago encurtado. Figura esquemática mostrando a realização da fundoplicatura laparoscópica à Nissen. Os pilares são fechados de baixo para cima, com o esôfago tracionado anteriormente e para a esquerda. Aspecto final da fundoplicatura laparoscópica de Nissen. Nota-se que a porção posterior do fundo gástrico é passada por trás do esôfago para encontrar a porção anterior. Cirurgia de Toupet: confecção de válvula posterior com 240 a 270 graus Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 23 b Duas linhas de sutura + aproximação dos pilares. Fundoplicatura à Dor 90º anterior): usada em conjunto com esofagocardiomiotomia para acalásia. a Previne refluxo sem causar disfagia, não exige liberação dos vasos curtos, no SCAD/HCPA usada apenas em acalásia. Cirurgia de Hill: reconstrói a JEG, ângulo de Hiss, pressão esfincteriana (alguns usam manometria intraoperatória). Cirurgia de Lortat-Jacob: redução da hérnia e sutura do fundo gástrico à borda esquersa do esôfago), acentua o ângulo de Hiss. Collis: para esôfago curto (gastroplastia com fundoplicatura), não alcança 23 cm abaixo do hiato. a Preferida em esclerodermia, idosos e hérnia paraesofágica. b Alongamento com tubo gástrico ao longo da pequena curvatura, frequentemente associada a fundoplicatura parcial. Fundoplicatura anterior de 90 graus utilizada nas esofagocardiomiotomias – tratamento da acalásia. Cirurgia de Lortat-Jacob, caracterizada pelo restabelecimento do ângulo de Hiss Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 24 Esfíncter magnético: dispositivo implantado laparoscopicamente na JEG, cria pressão intermitente semelhante à função do EEI, promissor a longo prazo 25 anos) → limitado: alto custo. Complicações possíveis Disfagia persistente 3 meses), incapacidade de vomitar ou eructar, flatulência excessiva, gas bloating, perfuração esofágica/gástrica, pneumotórax/pneumomediastino,hérnia paraesofágica (migração da válvula) e hemorragias (vasos curtos, fígado, baço). Taxa de complicações 6,1%; conversão para cirurgia aberta: 2,2%. Resultados à longo prazo Sintomas típicos (pirose, regurgitação): melhora 90%. Sintomas atípicos: melhora em cerca de 2/3 dos casos. Disfagia leve transitória em até 10%, melhora com o tempo. pHmetria negativa em 90% dos pacientes. Qualidade de vida: melhora comprovada em diversos estudos. Uso de tela no hiato Previne recidiva de hérnia hiatal. Materiais: polipropileno, pericárdio bovino, submucosa porcina. Riscos: erosão da tela para o tubo digestivo, possível necessidade de esofagectomia. Não utilizada em correções primárias. Restrita a operações com uso de telas biológicas. Reoperações Indicações: disfagia persistente, recidiva de sintomas, dor, distensão, deiscência do hiato, migração ou falha da válvula. Pode ser realizada por laparoscopia, com taxa de sucesso de 5089%. Alternativas: supressão ácida + derivação duodenal Técnica de Csendes) para recidiva de refluxo grave com esofagite, inclui: Antrectomia Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 25 Vagotomia Alça em Y-de-Roux Nova fundoplicatura 💡 Evita refluxo ácido e alcalino, alta eficácia, mas com maior morbidade. Cirurgia de Attila Csendes, caracterizada pela realização de antrectomia, com construção de uma alça alimentar longa em Y de Roux, associada à vagotomia e à confecção de fundoplicatura. Doença do refluxo gastroesofágico DRGE 26